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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Um fim necessário

As maiores mãos do mundo agora acenam adeus


Foram 23 anos como técnico do Jazz. É quase o dobro da idade do Justin Bieber, é mais do que a idade da maioria dos nossos leitores, é mais do que a idade da maioria dos novatos que entram atualmente na NBA. Quando começou a treinar o Jazz, a Emma Watson sequer tinha nascido, e convenhamos que um mundo sem a Emma Watson não faz nenhum sentido. Faz tanto tempo que o Jerry Sloan estava no comando do Jazz que chegamos a pensar que era uma monarquia, que o cargo só seria abandonado quando ele morresse e seria assumido pelo seu filho, herdeiro do trono. Por isso tem gente dizendo que é a morte de uma era, o fim dos tempos, o apocalipse. Por ser o técnico que passou mais tempo em uma equipe em toda a história dos esportes americanos, imaginar Jerry Sloan fora do Jazz é sinal de horror para muita gente. Mas foram 23 anos, gente. Uma hora, tudo na vida dá no saco.

Jerry Sloan foi um gênio, daqueles que a gente usa para provar que prêmios e títulos são bobagem. Nunca foi campeão da NBA e nunca ganhou um prêmio de técnico do ano (se tivesse ganhado teria sido vítima da maldição e demitido no ano seguinte), mas sua carreira como técnico é fantástica. Comandou o Jazz em duas finais de NBA contra o Jordan, em 97 e 98, e só perdeu porque usar o Jordan é apelação. Treinou um dos melhores times de todos os tempos, com Malone e Stockton. É o terceiro técnico com mais vitórias na história da NBA. E o mais impressionante é a consistência: foram 13 temporadas com mais de 50 vitórias, e apenas 3 temporadas em que seu time não ganhou pelo menos metade dos jogos. Com tudo isso, foi parar no Hall da Fama mesmo estando ainda em atividade. Nenhum título, nenhum prêmio, mas ele sempre esteve lá treinando times incríveis e vencedores mesmo quando o elenco não ajudava, as contusões se acumulavam e os donos da equipe mandavam bons jogadores ou escolhas de draft embora para economizar dinheiro. Lembro de um Jazz horrível, sem nenhum jogador decente, que tinha o porcaria do Raul Lopez na armação e mesmo assim ganhou 42 jogos com atuações incríveis do armador. Lembro do Raja Bell ser longamente improvisado de armador e mesmo assim o time funcionar direitinho. Na época eu dizia que um macaco de circo seria um armador genial no esquema do Jerry Sloan, desde que ele conseguisse aturar o técnico.

Porque o Sloan é um gênio velhinho e todos nós sabemos que os gênios e os velhos são muito chatos. O Sloan obriga os jogadores a colocar a camiseta por dentro do calção, proíbe o uso de faixas na cabeça nos jogos e de celulares nas viagens da equipe. Quem entra em quadra pelo Sloan é quem se esforça mais, quem treina mais e quem obedece mais. Muitos jogadores talentosos como Andrei Kirilenko já mofaram no banco de reservas enquanto Matt Harpring, sem nenhum talento, dava cabeçadas em outros jogadores. Talento sempre foi secundário perto do esforço, o Jerry Sloan vem de uma infãncia difícil e valoriza dedicação e força de vontade acima de tudo. Por isso seus times são tão chatos de enfrentar, lutam até o final e mantêm o plano de jogo. No começo dessa temporada, o Jazz cansou de vencer jogos no final depois de perder por mais de 20 pontos. Coloquem o elenco do Cavs nas mãos do Jerry Sloan e eles não perderão 26 partidas seguidas porque antes disso acontecer terão matado a facadas os adversários. Tudo isso, claro, apoiado por um estilo de jogo rígido e eficiente, baseado em bandejas, pick-and-rolls e pouquíssimos arremessos de três, com pouca frirula e nenhum arremesso forçado. Quem sai do plano vai pro banco.

Com esse tipo de rigidez, é bem óbvio que o Jerry Sloan arrumou encrenca com muitos jogadores ao longo de seus 23 anos de Utah Jazz. As histórias podem não estar aí, podem não ter ido parar na Contigo!, mas os confrontos aconteceram. Teve muito jogador descontente no banco, muita bronca por cagada feita em quadra, muito jogador querendo fazer o que bem entendesse e tomando surra de chibata. Por isso, os boatos de que o Sloan resolveu abandonar o Jazz por causa das brigas com o Deron Williams me soam completamete absurdos.

Na partida contra o Bulls, na quarta-feira, Deron Williams desobedeceu o técnico em quadra e os dois bateram boca no vestiário, com gente dizendo que tiveram que segurar os dois pra não sair porrada (já pensou um soco das mãos gigantescas do Jerry Sloan?). O Deron disse que discutiram mas que não foi nada de mais, que os dois já tinham brigado mais feio antes e que outros jogadores também já tinham confrontado o técnico com mais violência antes. Ou seja, mais uma discussão na lista de bilhares de um técnico severo. Normal, quando um técnico quer estabelecer uma filosofia desse tipo em uma equipe, proibindo até coisas idiotas como faixa na cabeça, está pronto para enfrentar resistência, confronto e insatisfação. Sloan já lidou com isso por 23 anos, não há razão para imaginar que a discussão com Deron Williams tenha sido tão pior assim. Pelo jeito, ele só está de saco cheio. Sem Boozer, o Jazz tem dificuldades em estabelecer um jogo de meia distância e o pick-and-roll. Está brigando pelas últimas vagas do Oeste, perdendo jogos que deveria ganhar, cheio de altos e baixos nos últimos anos. E o Deron Williams é competitivo, se acha fodão, e quer ter mais liberdade nas mãos. O Sloan juntou tudo isso num pacote, viu que estava passando Big Brother na tevê, e resolveu tirar férias. É justo.

Realmente, Deron Williams é um armador bom o bastante para fazer mais em quadra do que faz atualmente pelo Jazz. Nas partidas em que o Jazz virou o jogo no segundo tempo durante essa temporada, todas foram mérito de um surto criativo do Deron, de ele colocar a bola debaixo do braço e resolver sozinho - ou seja, foram vitórias da desobediência. Jerry Sloan é um dos melhores técnicos que já existiram, é um gênio e está no Hall da Fama antes mesmo de se aposentar. Mas não é por isso que seu estilo não pode ser questionado, que cada situação não deve ser analisada individualmente. Sloan é o técnico ideal para comandar esse Jazz atual, para ensinar Deron Williams, trazer estabilidade a esse time? Talvez não - e isso não é nenhuma heresia. Ficar no time por 23 anos tornou proibido discutir se seria melhor o Sloan tomar outros rumos, e todos os times deveriam discutir continuamente se mudanças são ou não necessárias. Sem o Boozer em quadra e com o jogo de meia distância de Millsap e Al Jefferson tão abaixo do que se esperava, talvez fosse hora de mudar os planos de jogo e deixar Deron arremessar mais, jogar de costas para a cesta, usar o corpo contra os armadores adversários que são sempre menores do que ele. Talvez o time funcione melhor com mais liberdade, usando a criatividade do Deron, talvez o time precise da mudança de ares, de celular nos ônibus, da chance de provar que podem vencer mesmo sem o técnico Hall da Fama. Ou talvez o time simplesmente piore e desande de vez sem a tutela do melhor técnico de sua história. De todo modo, o importante é que agora o Jazz pode debater isso abertamente, pode escolher se mantém o mesmo rumo ou se toma caminhos diferentes. Com Sloan, nada era questionado. Agora, o Jazz pode pensar, matutar e tomar decisões. Por melhor que fosse Jerry Sloan, acho essa rigidez um preço alto demais a se pagar, e o time já estava há tempos demais nesse limbo eterno de se classificar para os playoffs com certa facilidade mas não ter nenhuma chance de título. Agora o time vai ser mais maleável e, quem sabe, simplesmente feder. Isso por si só já seria o bastante para injetar talento novo na equipe e romper o atual ciclo.

Os leitores do Jazz, que adoram tacar cocô na minha cabeça e sabem onde eu moro, vão dizer que eu sou herege. Na verdade sou um grande fã do Jerry Sloan e daquilo que ele faz com seus armadores - o Stockton é, para mim, um dos melhores de todos os tempos e um dos meus três jogadores favoritos deste universo. Ainda assim, Sloan vem de outros tempos. Enfrenta uma nova geração de treinadores nerds e carregados de estatísticas que não perdem tempo proibindo faixinha ou dando eletrochoque nos armadores que não seguirem tudo à risca. São treinadores novos que podem perder seus postos a qualquer momento, gerando mudanças, contrastes, evoluções. Sem isso, os times ficariam estagnados. Jerry Sloan deixa saudade, fico feliz que ele já esteja no Hall da Fama, que ele seja reconhecido mesmo sem ter nenhum anel. Mas era hora de ir embora e deixar o Jazz respirar um pouco, se virar sem ele. Tenho a mesma opinião com o Los Angeles Lakers: por melhor que seja Phil Jackson, já atingimos um momento em que o Lakers precisa urgentemente respirar novos ares para que exista contraste, mudança e evolução. Os finais são tristes mas necessários. O Jazz vai se sair bem, mesmo sem as mãos gigantescas do Jerry Sloan dando tabefes na bunda de todo mundo.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Utah Jazz

Se tem o Deron tem que ter o CP3

Objetivo máximo: Vencer o Oeste (e encher o saco de todo mundo durante isso)
Não seria estranho: Perder uma série disputada na primeira rodada ou cair na segunda (e encher o saco depois que perderem)
Desastre: O Al Jefferson não se entender com o Deron Williams (e encher o saco criticando a saída do Boozer)

Forças: Um dos melhores armadores da NBA, time entrosado e ataque poderoso
Fraquezas: Defesa de garrafão ridícula e os torcedores mais malas da liga

Elenco:








.....
Técnico: Jerry Sloan




São benditos 22 anos como técnico do mesmo time! Quando Jerry Sloan entrou no Jazz ainda existia União Soviética, o Brasil ainda não tinha um presidente eleito democraticamente depois da ditadura militar, a Microsoft tinha acabado de anunciar o Windows 2.1, Super Mario 3 era lançamento e ainda estavam para nascer pessoas importantes do mundo contemporâneo como Selena Gomez, Vanessa Hudgens, Rihanna e quase 40% dos nossos leitores!

Não vou me dar ao trabalho de reescrever toda a história dele, então vai um "Ctrl+C - Ctrl+V" no texto da semana dos técnicos:

"Dois times marcam a carreira de Jerry Sloan. O primeiro, claro, é o Utah Jazz. Ele é técnico do Jazz desde a temporada 88-89, ou seja, completará 20 anos como técnico do mesmo time e foram 20 anos brilhantes. Desde 89 até 2003, Sloan não deixou nem por um ano de ir para os playoffs, chegando em 5 finais de conferência e duas finais da NBA.

O time, como todos sabem, era liderado pela dupla John Stockton e Karl Malone, dois dos melhores jogadores de basquete em todos os tempos. O esquema tático do Sloan era conhecido e usava e abusava do talento dos dois craques. O principal artifício era o "pick and roll", jogada que se utilizava do entrosamento dos dois, da visão de jogo do Stockton e da combinação de bom arremesso de meia distância e de infiltração do Malone. Então soma-se a isso bons arremessadores e jogadores sempre usando a força para cortar em direção à cesta para receber os passes de Stockton e você tem um time eternamente competitivo. Todos os anos o Jazz estava lá incomodando todo mundo, não tinha erro, podiam entrar e sair jogadores mas se tinha Malone, Stockton e Jerry Sloan, o Jazz estava na briga. O título só não veio por causa do outro time na vida de Jerry Sloan.

Por dois anos seguidos, o Jazz perdeu a final da NBA para o Chicago Bulls de Michael Jordan. O mesmo Chicago que tem a camiseta número 4 aposentada por causa de Sloan.

Sloan nasceu no estado de Illinois, onde fica Chicago, e jogou apenas uma temporada no Baltimore Bullets antes de se transferir para o Chicago Bulls no ano em que o time nasceu, até por isso o seu apelido era "O Bull original". Lá ele fez fama defendendo como um doido, indo para dois All-Star Games, levando o time para os playoffs e como líder do único título de divisão do Bulls fora da era Jordan.

Em uma história parecida com a do Nate McMillan, Sloan logo que se aposentou (por causa de contusões no joelho) virou olheiro do time e logo depois técnico, treinou por 2 temporadas e meia, depois foi mandado embora. No Jazz, depois de perder os títulos para o Bulls, não conseguiu mais repetir o sucesso de antes e mesmo sem Jordan na liga, o Jazz já não conseguia mais passar pelas novas potências do Oeste, como Spurs e Lakers. Aí foi a hora de Stockton se aposentar e do Malone levar seu pé frio para Los Angeles.

Todo mundo pensava que era a desculpa certa para o Sloan pedir as contas e ir embora, mas não, ele permaneceu fiel ao time e comandando um elenco ridículo não foi para os playoffs pela primeira vez em 2004. Não foi de novo em 2005 e 2006, mas nesse tempo ele não abandonou aquele mesmo velho esquema tático que deu certo durante mais de uma década e aos poucos foi montando o time com as peças necessárias para o esquema dar certo de novo. Veio o armador com visão de jogo (Deron Williams), o ala de força com potência e arremesso (Boozer), os arremessadores (Okur e Korver) e os jogadores de força que estão sempre cortando em direção à cesta (Brewer, Kirilenko, Harpring).

Se fosse pra definir Sloan com uma palavra, seria "estabilidade". Sempre o mesmo esquema, a mesma calma, a mesma cobrança por defesa e jogo físico. O título pode não vir nunca, mas enquanto ele tiver jogadores nas mãos vamos ver ele e seu Jazz nos playoffs. E acho que ele só pára quando morrer."


Para esse ano é mais do mesmo! Raja Bell é o arremessador-defensor-pentelho no lugar de Ronnie Brewer, Paul Millsap é o cara físico e agressivo do banco ao invés de Harpring, Al Jefferson é o jogador de garrafão que brinca com o armador ao invés do Carlos Boozer. E uma coisa nunca mudou no Jerry Sloan, ele tem mãos muito grandes. 

.....
Nas duas últimas temporadas o Jazz foi um time estranho. Em alguns momentos eles deram a entender que estavam em plena decadência e em outros foram, sem dúvida alguma, o melhor time da  NBA. É sério, durante pelo menos um mês na temporada passada e duas na retrasada eles foram o time mais empolgante da NBA, tanto no estilo de jogo quanto na qualidade e importância das vitórias. O motivo dessa regularidade digna de humor de mulher na TPM é um mistério.

No ano passado começaram a temporada jogando um basquete sem vergonha. Parecia um time previsível e sem aquela vontade e gana que todo time do Jerry Sloan usa para cobrir eventuais defeitos. Até cheguei a decretar aqui o fim do time. Alguns meses depois eles estavam voando em quadra e assumiram a segunda colocação do Oeste, chegando a ameaçar a liderança do Lakers. Depois perderam alguns jogos importantes e acabaram caindo, na última semana, para o 5º lugar. Hora de enganar todo mundo de novo: Embalaram aquele fim de temporada ridículo com uma série dominante e espetacular sobre o Nuggets, derrotando Carmelo e Billups por 4 a 2. E aí, quando todo mundo voltou a achá-los um dos times mais empolgantes da liga, foram varridos pelo Lakers.

Ou seja, o Jazz é um time tão mala que nem previsão deles dá pra fazer! Mas vou me arriscar: Eu acho o Al Jefferson um baita jogador, um dos que mais tem recursos e jogadas quando joga de costas pra cesta. Ele não tem o arremesso de meia distância como o do Carlos Boozer e isso vai mudar um pouco como funciona o pick-and-roll do time, mas em compensação dá outras opções de jogada. E embora ele não seja um pivô nato (e reclamava de jogar na posição 5 quando estava no Wolves) não deve dar piti se jogar um pouco mais lá dentro se fizer dupla com o Paul Millsap. Entre Boozer, Okur, Millsap e Al Jefferson o meu jogador favorito é o Boozer, mas entendo que o atual trio do Jazz é mais completo sem ele, hoje tem opções mais diferentes de combinação.

Uma coisa ruim desse trio é que eles continuam fracos na defesa. O Danilo acha o Boozer um inútil na defesa, eu não acho tanto assim, ele pelo menos sempre foi esforçado e ajuda sendo um bom reboteiro, mas não o bastante para fazer do Jazz um time forte na defesa do garrafão. Com o Al Jefferson não muda muita coisa. É meio broxante trocar de jogador e ver os mesmos problemas, mas os torcedores do Jazz, que pena, vão ter que lidar com isso.

Outras perda que pode machucar o time está também no Bulls, Kyle Korver. Ele era o arremessador de três que vinha do banco para acabar com o jogo. Poucos jogadores se adaptaram tão bem e tão rápido ao estilo do Jerry Sloan e por ser um branquelo do bem ainda era queridinho da torcida. Outro que vai fazer falta é o Wesley Matthews, o novato apareceu do nada no ano passado para virar titular absoluto que defendia o Kobe Bryant em momentos decisivos! Mas não culpo o Jazz por perdê-lo, eles estavam certos de dar um contrato de só um ano quando ele era só um Zé Ninguém e igualar a oferta descomunal (34 milhões por 5 temporadas, com 9 milhões no primeiro ano!) que o Blazers fez por ele seria burro para um time que já até fez trocas idiotas para economizar alguns trocados.

O responsável por cobrir o espaço que os dois deixaram no time vai ser o Raja Bell. Ao mesmo tempo ele vai ter que ser o defensor que era o Wes Matthews e fazer as bolas de três do Korver. Ele é capaz disso se jogar o que jogava no seu auge no Suns, mas depois de um ano parado por contusão é bom ter um pé atrás. Outro que pode ajudar é o Gordon Hayward, novato que veio da mesma escola Bieber de garotos branquelos do Kyle Korver e teve alguns momentos muito empolgantes na pré-temporada.

O Jazz sempre achou caras para substituir as suas perdas, sempre montou times bons. Sempre deu trabalho pra todo mundo. E sempre chegou perto do título e perdeu. Não deve ser diferente nesse ano. E só porque eu falei pouco de um dos meus jogadores favoritos, um bom mix de jogadas do Deron Williams:

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Efeito Dominó


Tyreke? Curry? Jennings? Eis o homem mais bem pago dos novatos de 2009



O efeito dominó é até bastante comum no mercado de Free Agents da NBA. Um time consegue o jogador mais desejado e os outros, que tentavam este, vão pegando os próximos da lista. Mas a história que eu vou contar agora é interessante porque não só envolve jogadores da mesma posição, são também quase do mesmo nível, não tem nenhuma estrela e nenhum pé rapado. A escolha de um time por um deles e as substituições podem mostrar mais do que a gente imagina sobre as equipes.

Vamos começar com o Boston Celtics, que tinha dois de seus shooting guards, os jogadores da posição 2, como Free Agents: Tony Allen e Nate Robinson. Os dois são bons, agressivos, mas pecam por não ter muita cabeça. Quando decidem ir pra cima, vão sem pensar nas consequências. Os dois são daqueles jogadores que podem te ganhar um jogo num dia e perder no outro pelas mesmas atitudes.

Já que o Celtics havia confirmado a permanência de Ray Allen, nenhum dos dois poderia ser titular. E quem escolher entre Allen e Robinson para o banco? Tony Allen não tem arremesso, é mais fácil o Ben Wallace acertar uma bola de 3 (merda!) do que ele acertar um jumper de meia distância sem marcação. Mas compensa com bons contra-ataques, infiltrações e marca bem até jogadores mais altos, basta lembrar dele enchendo o saco do Kobe nas finais. Já o Nate Robinson não defende grande coisa (embora seja bastante esforçado e dedicado), mas por mais de uma vez foi a única fonte de inspiração ofensiva do time verde nos playoffs. Em dias em que o Rondo não consegue suas bandejas e o Ray Allen está frio, é importante ter um desafogo como o Nate, que pode fazer bolas de três consecutivas a qualquer momento.

Para o Celtics o ideal era manter os dois, para ter mais opção, mas na hora da preferência, assinaram primeiro com o Nate Robinson, para garantir algum ataque no banco. O Nate também é mais útil porque pode brincar de substituir o Rondo às vezes, por pouco tempo, coisa que o Tony Allen não faz por ter menos controle de bola. Só achei que o Nate Robinson ficou dispensável quando eles assinaram o Von Wafer um tempo depois, mas melhor ter jogadores demais do que de menos.

Ao se ver sem espaço no Celtics, Tony Allen assinou um contrato com o Memphis Grizzlies. Disse que gostava de Boston, sabia que estava saindo de uma franquia vencedora para outra sem a mesma história, atenção e elenco, mas que lá poderia ter mais espaço e jogar mais. Isso é fato. O Grizzlies não confia em Mike Conley na armação e por isso está se esforçando para deslocar OJ Mayo para a posição 1. Na posição 2, concorrendo com Allen, está o novato Xavier Henry, que apesar de todo o talento que pode ter, ainda é um novato. Por fim o Grizzlies sentia falta de um especialista em defesa. Não será nada estranho se o Tony Allen não for titular mas ficar em quadra sempre nos finais de jogos para marcar o armador ou segundo armador adversário.

A necessidade de um defensor no Grizzlies era percebida claramente nos jogos e foi explicitada por uma troca que fizeram no meio da temporada passada e que acabou sendo um dos piores negócios já feito pelo time, incluindo ter mandado o Pau Gasol para o Lakers em troca de um cadarço de tênis. Eles mandaram uma escolha futura de 1ª rodada para o Jazz em troca do Ronnie Brewer. Aí ele chegou em Memphis, jogou exatos 5 jogos, se machucou, ficou fora do resto da temporada, virou Free Agent e deu o fora. Ou seja, uma escolha de 1ª rodada em troca de 80 minutos de jogo.

O Ronnie Brewer faz parte desse efeito dominó esquisito. Ele deixou claro que não queria ficar em Memphis e deu a entender que poderia ir para o Bulls ou voltar para o Jazz. Mas ficou num limbo esperando atitudes dos dois times. O Jazz ainda decidia se igualava ou não a proposta que o Portland Trail Blazers havia feito para o Free Agent restrito Wesley Matthews e o Bulls esperava para ver se o Orlando Magic igualava a oferta feita ao JJ Redick.

O Bulls deixou claro que estava em busca de arremessadores para essa disputada posição de shooting guard. Assinou primeiro com o Kyle Korver e depois foi atrás do JJ Redick, mais do mesmo. O Korver, aliás, era do Jazz (tá começando a virar enredo de Malhação, né?) e foi sua saída que motivou a dúvida frente à proposta milionária para o Wes Matthews, que a princípio nunca seria igualada pelo Utah.

O Orlando Magic surpreendeu todo mundo quando igualou a proposta de 19 milhões por 3 temporadas pelo Redick. Ele nunca foi tão bom para valer tudo isso e parecia pouco provável que o time pagasse isso para um reserva. Mas o técnico Stan Van Gundy, já pensando na provável perda do Matt Barnes e na possível saída de Vince Carter no ano que vem, pressionou, cobrou e conseguiu o seu jogador de volta. Apesar da saída do Barnes, acho que o Redick não tem chances de ser titular. A vaga deve ficar com Mickael Pietrus e o branquelo continua vindo do banco, o que dá pra esperar são mais minutos de quadra. Faz sentido pensar nisso se lembrarmos da ótima série que ele fez contra o Boston Celtics (foi o melhor jogador do time em diversos momentos de apagão) e, claro, se levarmos em consideração a pressão violenta que o treinador fez para a direção do time colocar a mão na carteira. Não que ele seja o salvador da pátria, mas para enfrentar Heat e Celtics no Leste o Magic vai precisar de toda e qualquer ajuda vinda do seu banco de reservas, foi um ótimo gasto exagerado.

O Bulls não ficou em desespero porque ainda haviam outras opções na mesa, e partiu para a oferta a Ronnie Brewer, que ainda contou com incentivos de Kyle Korver e Carlos Boozer, companheiros dele de Jazz que até usaram o termo "Chicago Jazz" para levar o rapaz pra lá. Tentado a abrir a franquia do Jazz no Leste, assinou um contrato de 12 milhões por 3 temporadas com o Bulls.

Apesar do time estar em busca de arremessadores, Brewer não vai fazer feio por lá. Ele tem um bom arremesso de meia distância (não tão bom quanto a do seu companheiro Luol Deng, no entanto), defende muito bem, tem bom aproveitamento em todas as bolas, comete poucos erros, é ótimo e inteligente em contra-ataques (especialidade do Derrick Rose) e saiu incrivelmente barato para o talento que tem. Aliás, li na gringolândia um artigo bem legal um tempo atrás (esqueci o link, perdão) questionando o porquê do contrato do Travis Outlaw (35 milhões por 5 temporadas) ter sido tão maior que o do Brewer. Um é uma eterna promessa de basquete individualista e o outro um jogador sólido, bom em tudo que faz, que não inventa e já consolidado na NBA. Contratos da NBA não são uma ciência exata, amigos.

Pausa pra respirar? Vamos resumir nossa estrada até aqui: O Celtics escolheu o Nate Robinson, que deixou o Tony Allen na mão, que foi para o Grizzlies, liberando o Brewer para o Bulls, que tinha conseguido o Korver e perdido o Redick para o Magic. Anotou tudo? Vamos continuar.

O Jazz ficou sem a volta de Brewer e sem Korver, o queridinho da torcida mórmon. O que fazer? A decisão mais óbvia seria manter o Wesley Matthews, jogador que não foi sequer draftado no ano passado e é mais um achado do Jerry Sloan. Em pouco tempo virou titular, se mostrou um defensor muito acima da média e ainda acertava seus arremessos. Por nem ter sido draftado, ganhou só um contrato minúsculo de 1 ano e logo virou Free Agent, abocanhado pelo Blazers por uma oferta de 34 milhões por 5 temporadas. Vocês tem noção de que isso faz do Wes Matthews o jogador que mais vai ganhar dinheiro entre todos os novatos do ano passado? Mais que Tyreke Evans, Steph Curry, Brandon Jennings, Blake Griffin e etc. Se você não lembra do jogo de Wes Mat, achei um bom mix no VocêTubo:


A proposta do Blazers parece ter duas motivações: a primeira é uma pequena vingança, já que no ano passado eles fizeram uma oferta gigante pelo Paul Millsap que eles tinham certeza que o Jazz não iria igualar, mas se enganaram feio. A segunda é que o Rudy Fernandez está implorando para ser trocado e deve ter seu pedido atendido. Quando ele sair o time fica sem reservas para Brandon Roy. Sem contar que o único reserva do ala Nicolas Batum é um novato que ainda não provou que pode ajudar, o Luke Babbitt, e Matthews poderia quebrar um galho na posição 3 também.

Apesar do preço exorbitante e exagerado, ele vai ser uma boa para o Blazers. Infelizmente é baixo para jogar o tempo todo de ala, mas vai ajudar muito na marcação e para acertar os arremessos de três que Martell Webster, Travis Outlaw e Rudy Fernandez não vão mais chutar.

Lembram do poema "Quadrilha" do Carlos Drummond de Andrade?

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história

O J.Pinto Fernandes da história é o Raja Bell. Esquecido em toda essa saga dos shooting guards, foi o responsável para não deixar o Jazz chupando o dedo. Ele passou toda a temporada passada machucado no Golden State Warriors mas se diz pronto e saudável para voltar a infernizar os adversários com sua boa defesa, trash talk, empurrões e cotoveladas marotas. O Kobe chegou a trocar uma idéia com o Bell para ele ir para o Lakers, mas contrato pequeno por contrato pequeno, resolveu pegar o do Jazz, onde ele já havia jogado nas temporadas 2003-04 e 2004-05. Com a diferença que naqueles anos o Jazz tinha um time horrível, era justamente o intervalo entre a era Malone-Stockton para a Deron-Boozer e Bell foi obrigado, por um tempo, até a jogar de armador principal, onde, por incrível que pareça, se saiu muito bem.

O Raja Bell não está mais na flor da idade, mas na única vez que teve problemas físicos tirou um ano inteiro de folga para se recuperar. Passou nos testes físicos, tem inteligência em quadra para saber como se movimentar no agitado esquema tático do Jazz e é um exímio arremessador de três, irá saber tirar proveito dos passes do Deron Williams e da atenção dada ao Al Jefferson no garrafão. Jerry Sloan é bom, mas é chato, se aceitou Bell de volta é porque gostou do tempo que treinou o jogador. Pagar 10 milhões por 3 anos para o Jazz foi muito mais inteligente do que igualar os 34 milhões para o Wes Matthews, até porque não custa lembrar que as trocas do Eric Maynor e do Ronnie Brewer no ano passado tiveram motivações exclusivamente econômicas, o Jazz tem sofrido com a falta de grana.

No fim das contas essa Quadrilha funcionou melhor que a do Drummond (até porque ninguém se suicidou). O Celtics tem alguém para incendiar o jogo, o Magic manteve o favorito do técnico, o Bulls conseguiu titular e reserva para sua posição mais carente, o Grizzlies o seu especialista em defesa, o Jazz uma opção tão útil quanto e mais barata que o Wes Matthews e o Blazers o reserva que procurava. A saga agora continua com quem parou, o Blazers. Para onde vai Rudy Fernandez? Dizem que o Knicks e o Raptors estão babando para ter o espanhol. Ou o Rudy vai ser a Lili que não ama ninguém?

...
O Wolves cansou de fazer estoque de armadores e resolveu fazer de jogadores de garrafão. Eles já tem Darko Milicic, Kevin Love, Michael Beasley, Kosta Koufos, Nikola Pekovic e agora contrataram o Anthony Tolliver, que estava sendo disputado também por outros times.

A contratação do fraco Tolliver só merece menção no blog porque ele a anunciou no maior estilo LeBron James. The Decision - Parte 2

quinta-feira, 4 de março de 2010

É marmelada

Já vi o LeBron cobrar tantos lances livres que o meu cérebro até derreteu


Volta e meia, lá na nova casa do "Both Teams Played Hard" (onde respondemos mais de 1.150 perguntas em menos de um mês), aparece alguém reclamando que basta assoprar o LeBron, ou o Kobe, para que seja marcada uma falta. Parece ser uma boa hora, portanto, para comentar a arbitragem da NBA e dar uma olhada nas acusações que um ex-árbitro, o Tim Donaghy, andou tacando em cima da liga.

Para quem não lembra, Donaghy deixou de ser juiz da NBA em 2007 para ir ver o sol nascer quadrado. Foi preso após confirmações de que havia influenciado os resultados de alguns jogos para favorecer apostas e ganhar uma baita grana. Depois de sair do xilindró, tentou lançar um livro sobre os bastidores da arbitragem na NBA, mas o livro sofreu processos, foi cancelado muitas vezes e só recentemente encontrou uma editora disposta a publicá-lo. O livro se chama "Personal Foul", dá pra comprar pela internet, mas foi bastante ignorado pela mídia esportiva. Parece que todo mundo resolveu ignorar qualquer coisa que o Donaghy diz porque ele é um safado e pode estar mentindo apenas para sujar a imagem da NBA assim como acabou sujando a sua própria. Do tipo "vou pra merda mas te puxo junto".

Muitas coisas que ele afirma em seu livro podem ser exageradas ou simplesmente mentirosas, mas algumas não apenas são interessantes como também mostram-se essenciais para compreender como árbitros são seres humanos dotados de emoções e opiniões. Mais do que tornar óbvio uma trapaça por parte da arbitragem, vejo algumas acusações do Donaghy como simples constatações de que juízes são mamíferos bípedes dotados de polegar opositor, com vidas que vão além das quadras e que, portanto, podem errar simplesmente porque dois seres humanos não podem, jamais, olhar para um mesmo evento e ver nele as mesmas coisas. Separei então alguns trechos do livro e traduzi livremente para podermos comentar a respeito:

"Allen Iverson nos dá um bom exemplo de um jogador que gera fortes reações, tanto positivas quanto negativas, dentro do grupo de árbitros da NBA. Por exemplo, o juiz veterano Steve Javie odiava Allen Iverson e detestava lhe marcar algo favorável. Se Javie estivesse na quadra quando Iverson estivesse jogando, eu iria sempre apostar no outro time para vencer ou ao menos ter uma chance disso. No importava quantas vezes Iverson fosse parar no chão, ele raramente veria a linha de lances livres. Por outro lado, o árbitro Joe Crawford tinha um neto que idolatrava Iverson. Uma vez vi Crawford trazer o garoto da arquibancada para dentro da quadra durante o aquecimento para conhecer a grande estrela. Iverson e o neto do Crawford estavam lá, se cumprimentando, sorrindo, falando sobre todos os tipos de coisas. Se Joe Crawford estivesse na quadra, eu tinha certeza de que o time de Iverson ganharia ou teria ao menos uma chance disso."

Pode parecer horrível, mas é completamente natural. Se eu fosse apitar um jogo, por mais imparcial que eu tentasse ser, seria incapaz de não marcar quinhentas faltas no Bruce Bowen imediatamente, porque sei que o cara é sujo. Seres humanos não são imparciais, suas opiniões, gostos, visões de mundo, sentimentos e interesses guiam aquilo que é visto e aquilo que passa despercebido. Enquanto um sujeito olha a Alinne Moraes e vê apenas um par de seios, o outro pode olhar e notar apenas os brincos, depende da preferência sexual de cada um. Uma falta nunca é óbvia, ela depende de interpretação e, portanto, depende de como um juiz se sente naquele momento. Donaghy descreve como alguns juízes gostam de alguns técnicos e odeiam outros, assim como qualquer um de nós gosta de alguns colegas de trabalho e odeia o gordo de bigode que fica fazendo trocadilhos quando você tenta se concentrar procurando pornografia no escritório. Por mais que tentemos tratar todas as pessoas da mesma maneira, é impossível não deixar que nosso afeto guie, mesmo que inconscientemente, o modo com que lidamos com o mundo.

O papel da NBA é guiar um pouco o olhar dos árbitros para aquilo que julgam ser o mais importante, o mais necessário, mas não podem formar o olhar por completo, do zero, porque o ser humano que apita o jogo já está lá antes da NBA chegar. No entanto, é o modo que a NBA guia o olhar da arbitragem que merece atenção:

"Raja Bell, antes parte do Phoenix Suns e agora membro do Charlotte Bobcats (...) foi um especialista em defesa durante toda sua carreira (...), tendo uma reputação de ser um "defensor de estrelas". (...) Kobe Bryant muitas vezes se viu frustrado pela tenacidade de Bell na defesa. Você deve pensar que a NBA amaria um cara que defende tão bem assim, mas pense de novo! Defensores de estrelas estragam a exibição dos jogadores importantes. Fãs não pagam ingressos caros para ver jogadores como Raja Bell - eles pagam para ver superestrelas como Kobe Bryant marcar 40 pontos.

Se um jogador de peso como Kobe colide com alguém como Raja Bell, o apito vai quase sempre soar a favor de Kobe e contra Bell. Como parte de nosso treinamento constante e da preparação para os jogos, árbitros da NBA regularmente recebem vídeos com trechos de jogos enviados pelo escritório da liga. Durante anos, revi muitas horas de vídeos envolvendo Raja Bell. As gravações que analisei geralmente mostravam faltas sendo marcadas contra Bell, raramente a favor dele. A mensagem era sutil mas clara - apite faltas contra o defensor de estrelas porque ele está prejudicando o jogo."

É bem óbvio que a NBA quer que as grandes estrelas sejam um sucesso absoluto entre os fãs. As estratégias do David Stern com relação à arbitragem para aumentar o placar dos jogos e favorecer as estrelas são conhecidas: com o passar dos anos, mais faltas são marcadas, menos contato com as mãos é permitido e mais lances livres são cobrados. Mas o que não sabemos é que, sutilmente, a NBA está mesmo treinando árbitros para que os jogadores de ataque - especialmente as grandes estrelas - passem mais tempo na linha de lances livres. Não se trata de algo específico para o Kobe, ou para o LeBron, mas sim algo geral em toda a liga para proteger as estrelas. Kevin Martin cobra milhares de lances livres e é tão famoso quanto o padeiro aqui do lado de casa, o que importa é que ele é um jogador puramente ofensivo e por muito tempo representou todo o ataque do Kings. A NBA guia o olhar dos árbitros a defender as estrelas, privilegiar o ataque e marcar muitas faltas, mas os juízes são humanos e acabam seguindo essa instrução dentro de seus próprios critérios e opiniões. Com alguns, Kobe cobrará mais lances livres do que com outros.

Donaghy também aponta, horrorizado, como juízes inventam marcações para compensar cagadas. Todos nós sabemos que os árbitros estão sujeitos a cometer erros e que deve ser uma merda colocar a cabeça no travesseiro depois pensando que você prejudicou a temporada de alguém com um erro seu - isso em qualquer esporte, emprego ou vida familiar. Nada me parece mais óbvio do que juízes tentando arrumar as besteiras que acabaram de apitar, ou se borrando de medo de apitar alguma coisa muito errada na frente de uma torcida furiosa ou de um técnico babando sangue. Temos que lembrar que árbitros trabalham na frente de todo mundo e suas marcações são avaliadas o tempo inteiro por trocentas câmeras - tente fazer isso no seu trabalho e com certeza não teremos cutucadas de nariz, Orkut sendo usado no escritório, cochilos tirados na privada do banheiro, e certamente sobrará apenas um pânico enorme de fazer alguma burrice.


"Se o Kobe Bryant tem duas faltas no primeiro ou segundo quarto e vai pro banco, um árbitro vai dizer para o outro: Kobe tem duas faltas. Vamos ter certeza de que, se marcarmos uma falta dele, seja uma falta bem óbvia, porque senão ele vai voltar para o banco. Se ele estiver em uma jogada em que marcarmos uma falta, dê a folta para outro jogador".

Mandar um mané para o banco talvez ninguém perceba, se for alguém como o Darko nem a mãe dele vai notar que ele não está na quadra. Mas mandar o Kobe pro banco será algo recebido com críticas, reclamações, vaias, punições, a não ser que sejam faltas incontestáveis. É por isso que um juiz vai preferir mandar o Darko para o banco do que o Kobe, simplesmente porque o Kobe interfere mais no andamento da partida e, portanto, uma cagada com relação a ele tem mais repercussão. Some a isso o fato de que a NBA privilegia os jogadores de ataque quando ocorre contatos e colisões e temos a junção perfeita: um ser humano com medo de errar, opiniões próprias sobre os jogadores e um olhar conduzido a proteger a estrela no ataque. Essa é a receita para que LeBron, Wade e Kobe tenham cobrado lances livres suficientes para queimar suas imagens em nossas córneas.

"As Finais da Conferência Oeste de 2002 entre o Los Angeles Lakers e o Sacramento Kings mostram um terrível exemplo de manipulação de jogos e séries do modo mais feio possível. Enquanto os times se preparavam para o Jogo 6 no Staples Center, Sacramento liderava a série em 3-2. Os árbitros designados para apitar o Jogo 6 eram Dick Bavetta, Bob Denelay e Ted Bernhardt (...).

Na reunião antes do Jogo 6, o escritório da liga nos avisou que algumas marcações - que teriam beneficiado o Lakers - não estavam sendo apitadas pelos árbitros. (...) Depois de receber a mensagem, Bavetta falou abertamente sobre o fato de que a liga queria um Jogo 7. "Se dermos preferência nas marcações para o time que está perdendo a série, ninguém vai reclamar. A série vai estar empatada em três jogos para cada, e o melhor time poderá ganhar o Jogo 7", Bavetta afirmou. Como a história nos mostra, Sacramento perdeu o Jogo 6 numa virada eletrizante que viu o Lakers repetidamente ser mandado para a linha de lances livres pelos árbitros. Para os outros árbitros da NBA assistindo ao jogo na televisão, foi uma performance vergonhosa do Bavetta e seu grupo, um dos jogos mais mal apitados de todos os tempos."

Onde Donaghy vê uma conspiração da NBA para favorecer o time com mais torcida e ganhar mais dinheiro com um jogo 7, só consigo ver a NBA cometendo um erro para tentar concertar outro. O Lakers havia sido levemente prejudicado e os engravatados tentaram compensar isso mudando a arbitragem da partida seguinte para que os fãs não pudessem reclamar. Mas é claro que com a pressão por parte da NBA, tanta gente assistindo e o medo de errar, as recomendações simples acabaram virando um festival de péssimas marcações. Só no quarto período, o Lakers cobrou 18 lances livres a mais do que o Sacramento Kings.

Há muito de "teoria da conspiração" no livro de Donaghy, mas aquilo que podemos apreender com segurança é que os árbitros erram o tempo inteiro e tentam concertar imediatamente, nem que para isso tenham que inventar faltas. Mas por medo de interferir ainda mais no jogo, não inventarão faltas em cima das grandes estrelas. Enquanto isso, são instruídos para permitir que os ataques da NBA fluam e as estrelas pontuem, sem que um ou outro time seja especificamente favorecido. Então, da próxima vez que o LeBron ou o Kobe cobrar quarenta lances livres e alguém te disser que estão roubando, que o Spurs é sempre favorecido, que o Lakers é sempre prejudicado ou alguma outra besteira desse tipo, apenas lembre que seres humanos se borrando de medo estão apitando esses jogos - com a NBA cochichando em seus ouvidos para que os placares possam continuar inflados para que os fãs não acabem pegando no sono em casa.

A possibilidade de rever jogadas nos minutos decisivos por várias câmeras foi um passo importante para tentar diminuir o medo de marcações que influenciem todo o andamento de uma partida, ou de uma série de playoff, ou de uma temporada. Mas o tipo de olhar que se coloca na NBA não vai ser alterado pelas câmeras: hoje em dia, busca-se o espetáculo dos pontos, os ataques bonitos, e é com esse olhar que os torcedores vibram, os engravatados instruem e os árbitros apitam. Não há certo ou errado nas marcações, é apenas o filtro pelos quais os olhares da nossa época passam antes de chegar no objeto. Antigamente, o olhar era voltado para o combate dentro do garrafão, o jogo físico, a pancadaria. Cada época exige sua abordagem, tem um público diferente e pede um novo modo de arbitragem. Tem muita gente por aí que gosta de ver é defesa, e o Spurs provou que pode construir uma dinastia defendendo bem pra burro, mas isso não traz novos fãs para o esporte e nem vira vídeo popular no YouTube. Pode ser um saco ver o LeBron cobrar 40 lances livres, mas isso não é ladroagem, não é um horror deturpado para os amantes dos tempos áures do passado da NBA, é apenas diferente. Um olhar diferente sobre o esporte, algo que sempre continuará acontecendo, de tempos em tempos, enquanto os humanos continuarem torcendo, jogando e apitando partidas.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O melhor dos quebra-galhos

Jason Richardson tenta roubar a carteira
do Darren Collison no meio do jogo


Em novembro, exatamente três meses atrás, escrevi um post porque Deron Williams e Chris Paul se contundiram quase ao mesmo tempo - se um pular da ponte, como diriam as mamães do mundo, o outro pula atrás. Dois novatos selecionados em escolhas seguidas de draft, um na vigésima e outro na vigésima primeira (assim como Deron e Chris Paul foram selecionados seguidamente, na terceira e na quarta), assumiram a vaga de titulares e começaram a chutar traseiros. Pelo Jazz, o novato era Eric Maynor, que desde então foi mandado para o Thunder (assim como o Ronnie Brewer acabou de ser mandado para o Grizzlies) apenas para economizar uma grana, e agora lhe cabe ser reserva num time jovem que ainda tem muito a crescer. Mas o outro novato, jogando pelo Hornets, é Darren Collison. Na ausência do Chris Paul provavelmente pelo resto da temporada, se recuperando de uma cirurgia no joelho, Collison está dominando partidas e de repente ficou famoso, com seu nome aparecendo em todas as listas de melhores novatos do ano.

O engraçado é que essa oportunidade só surgiu para o Collison graças à burrice do David West. Numa partida contra o Bulls, a oito segundos do final, o Hornets ganhava por dois pontos e o David West só tinha que cobrar um maldito lateral nas mãos do Chris Paul. Com medo do passe ser interceptado, ele mandou a bola para a putaqueopariu na quadra de defesa, o Paul teve que se atirar parar salvar a bola (que foi parar nas mãos do time do Bulls a tempo deles empatarem a partida, irem para a prorrogação e ganharem o jogo) e o coitado do Chris Paul acabou contundindo o joelho quando se jogou no chão. Ou seja, deu mais errado do que a terceira edição da "Casa dos Artistas" no SBT, e o Darren Collison teve que assumir a armação outra vez. Três meses atrás, quando escrevi o post, era só por tempo limitado, graças a uma torção de tornozelo, mas agora é pra valer.


O Hornets dessa temporada é uma bela de uma porcaria, basicamente porque não existem pontuadores no elenco. Conforme Chris Paul foi ficando mais e mais frustrado no começo da temporada, foi passando a atacar mais a cesta e pontuar por conta própria. Quando o Collison começou a substituí-lo, o grande medo foi perder todo o poder ofensivo, então outros jogadores começaram a se concentrar mais nesse aspecto. O também novato Marcus Thornton passou a ganhar minutos, Peja Stojakovic foi acordado de seu sono na câmara criogênica, e Collison fez um bom trabalho envolvendo todo mundo. O grande lance sobre ele é que, mesmo tendo um arremesso não muito confiável (e de mecânica esquisitinha), sendo magrelo, fracote e mais-ou-menos na defesa, ele sabe perfeitamente bem como liderar um time e tomar as decisões corretas. O ultimo draft foi a melhor leva de armadores de todos os tempos, sem brincadeira, mas acho que o Collison é o mais inteligente em quadra quando se trata de dar os passes certos do modo mais fácil. Além disso, ele pode ser também o armador mais rápido do draft sem deixar com que isso lhe faça jogar na correria. Ele prefere segurar a bola, dar a assistência mais simples, e utiliza sua velocidade apenas quando faz sentido. Ele pode não ser o mais talentoso dessa safra, e eu tendo a achar que ele está pronto demais e não deve melhorar muito o seu jogo (e nem a estrutura física, dizem que ele é naturalmente magrelo), mas é certamente perfeito para jogar no Hornets e isso fica óbvio no seu desempenho.

Alguns estilos realmente fazem a vida dos jogadores. O Jazz do técnico Jerry Sloan é famoso por fazer com que qualquer humano bípede pareça um bom jogador na posição de armador - Brevin Knight, Raul Lopez e até o Raja Bell já chutaram traseiros no sistema de pick-and-rolls da equipe. No Hornets de uns anos para cá, o sistema tático consiste em dar todo o poder do mundo para o armador da equipe, pode até comer a esposa do dono. A bola passa o tempo inteiro nas mãos do Chris Paul, o ritmo do jogo fica em suas mãos, o resto do time só toca na bola quando ele quer, e na defesa cabe ao armador cuidar das linhas de passe na cabeça do garrafão enquanto o resto da defesa afunila o ataque adversário em direção à linha de fundo. É claro que, com tanta responsabilidade e tanto tempo com a bola nas mãos, qualquer armador do Universo (estou falando do espaço sideral, não do time brasuca) vai conseguir bons números. Mas o Darren Collison não é um fruto desse sistema, ele é apenas perfeito para esse sistema. Dê a bola o tempo inteiro para o Aaron Brooks ou o Louis Williams e você terá um pontuador maluco que terá belos números mas perderá todos os jogos. Collison é calmo, não tenta passes impossíveis, cuida bem da bola, sabe o que consegue e o que não consegue fazer em quadra, e é perito em controlar o ritmo da partida. Além disso, é um bom ladrão de bolas - perfeito para um sistema que exige apenas isso de sua defesa.

Nos 20 jogos em que foi titular, Darren tem uma média de 18 pontos, 4 rebotes, 8.4 assistências e 1.5 roubos de bola por jogo. Mas aos poucos, assim como Chris Paul, tem percebido que sua equipe fede muito e tem que pontuar cada vez mais. Nos últimos 10 jogos a média é de quase 22 pontos, assustador para um novato de arremesso mequetrefe. Contra o Houston, jogo que assisti recentemente, Collison engoliu o Houston com azeite e sal simplesmente em penetrações no garrafão, rápido demais para que o Aaron Brooks fosse capaz de marcá-lo. Passa boa parte do tempo dando os passes certos, obrigando o time a se mover, e de repente bate para dentro com uma velocidade surreal. Acabou decidindo o jogo assim no quarto período, o que é o mais importante: ele está fazendo o Hornets vencer de vez em quando em uma temporada que deveria ter sido jogada no lixo com a contusão do Chris Paul. O Hornets está atualmente em nono no Oeste, não muito longe do oitavo colocado Blazers e apenas meia vitória à frente do Grizzlies, que também luta pelos playoffs. Num Oeste tão disputado quanto o desse ano, lutar pela última vaga é uma conquista incrível. Ainda mais porque, insisto, o Hornets fede. De verdade.

Mesmo se não levar o time para os playoffs, no entanto, o Darren Collison se coloca imediatamente pela briga de melhor novato do ano. O problema é que não dá pra vencer o Tyreke Evans, que já é um dos melhores jogadores do planeta e de novato não tem nem a cara, mas a briga é boa com o Stephen Curry, que está jogando demais no Warriors, e com o Brandon Jennings, que cada vez mais tem "novato" escrito na testa. O engraçado é que Collison e Jennings teriam se enfrentado no basquete universitário se o Jennings tivesse jogado na Universidade de Arizona, como quase aconteceu, ao invés de preferir o basquete europeu pra ganhar uma graninha. Quando eles finalmente se pegaram pela primeira vez na NBA, trocaram cestas decisivas no quarto período, Jennings cobrou dois lances livres que colocaram o Bucks três pontos na frente, mas o Collison acertou um arremesso de 3 para forçar a prorrogação. No tempo extra, o Collison bateu a carteira do Jennings e cobrou os lances livres da vitória do Hornets, num jogo fantástico entre dois armadores sem idade para beber cerveja. Na noite de ontem eles se enfrentaram de novo, Collison teve uma atuação incrível, com 22 pontos e 9 assistências, deu um pau no Jennings - que é incapaz de acompanhá-lo na corrida, defendê-lo, e anda tendo problemas terríveis para acertar seus arremessos - e mostrou que vai acabar na frente do armador do Bucks na corrida por novato do ano, mas ainda assim o Hornets perdeu. Enquanto o Bucks tem a ajuda de Andrew Bogut (aliás, o time é dele e pronto), o Darren Collison só vem tendo ajuda do outro novato Marcus Thornton. Desde o dia 10 de janeiro ele só deixou de ter dígitos duplos em pontos por duas vezes, e desde que ganhou minutos na primeira contusão do Chris Paul três meses atrás, tem mostrado que é melhor pontuador do que qualquer um daquele elenco mequetrefe. Além de ter um arremesso muito bom com os pés parados, sabe colocar a bola no chão e bater para dentro do garrafão com agressividade. Ele tem uns problemas de confiança e se intimida muito com defesas mais agressivas, mas quando seu arremesso está caindo é imparável e joga como veterano. Será uma peça fundamental no Hornets tão desesperado por pontuadores, mas o Darren Collison precisa de mais ajuda do que isso. O problema é que, quando essa ajuda chegar, Chris Paul já estará na equipe e Collison será reserva, vai poder aproveitar menos a festa. O importante, no entanto, é não ter pressa. É sensacional ver o Chris Paul dando dicas para o novato em cada parada de bola e treinar com ele deve ser um privilégio. Jogar num esquema que o favorece tanto também, então o Hornets ganhou um belo reserva. É triste saber que ele deu 18 assistências em seu primeiro jogo desde a contusão do Chris Paul, que ele fez um triple-double com 18 pontos, 13 rebotes e 12 assistências, e que mesmo assim não poderá ser titular porque ele e Paul juntos, em quadra, seria um terrível problema defensivo. Mas resta a certeza de que, ao menos, o Hornets terá alguém decente no banco de reservas. Quando foi a última vez que isso aconteceu?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Liberdade ainda que tardia

Stephen Jackson quebra suas correntes


Antes da temporada começar, Stephen Jackson havia pedido para ser trocado do Warriors. O time perdera Baron Davis, conseguiu o Maggette no lugar, e aparentemente o Stephen foi o único que sobrou no elenco capaz de levar basquete a sério. Era o responsável por defender as estrelas adversárias, fossem armadores ou pivôs, o responsável por decidir os jogos, por arremessar de longe, e inúmeras vezes por iniciar as jogadas ofensivas no papel de armador principal. Já jogou em todas as posições, topou todas as furadas que o técnico Don Nelson bolou, já foi para os playoffs com a equipe e já foi o pior time da liga. Ao ver que o Warriors virou um circo, um laboratório de ciências, que os jogadores entram e saem da escalação de um dia para o outro, cada hora com uma função, Stephen Jackson quis é dar o fora. Como o Denis escreveu um tempo atrás, ele pediu para ser trocado quando falava com a imprensa, foi multado por isso, e desde então parou de tocar no assunto, sem no entanto tentar esconder sua frustração em quadra. O problema é que ele só pediu para ser trocado depois de topar uma extensão milionária de contrato com o Warriors, o que não apenas é um pouco sacana como também torna mais difícil encontrar algum time disposto a abraçar o salário do rapaz.

Mas existe um time na NBA que nunca desiste de fazer trocas, um time que está decidido a transformar o elenco inteiro com uma visão em mente. Esse time é o Bobcats, que deu ao técnico Larry Brown carta branca para montar o time como ele bem entender. O velhinho pentelho se livrou do Okafor, do Jason Richardson, do Matt Carroll, e montou um time focado na defesa e sem espaço para o individualismo. O resultado é uma equipe que estreiou na temporada marcando 59 pontos contra o Celtics, com claras dificuldades de passar dos 80 pontos a cada jogo. O time agora tem Raja Bell e Boris Diaw, jogadores capazes de pontuar, mas nenhum deles é um pontuador nato. O papel do Bell é defender e converter seus arremessos de três pontos, função que ele desempenhava muito bem. Mas, para ter um jogador capaz de defender múltiplas posições e que seja capaz de pontuar constantemente, Larry Brown resolveu abrir mão até mesmo do seu queridinho.

Stephen Jackson chega ao Bobcats mantendo o foco da equipe, se focando na defesa e pontuando sem ser estrelinha. Ele sabe o que é ser jogador secundário graças ao tempo que passou no Spurs, se orgulha de defender mesmo jogando no Warriors (que provavelmente dá umas surras depois das partidas nos jogadores que ousaram tentar defender) e tem tudo para se dar bem com o Larry Brown. Do jeito que o técnico odeia os armadores da equipe (tanto Raymond Felton quanto o anão do DJ Augustin), é bem possível que o Stephen Jackson até assuma a posição em alguns momentos durante os jogos (se até o boris Diaw já foi armador nesse Bobcats!). Mas também é possível, dizem os fofoqueiros por aí, que ele seja trocado rapidinho para outro time. Não dá para descartar essa possibilidade, afinal o Bobcats está insatisfeito com o que tem e cansado de feder esperando uma boa escolha de draft. Já faz uns anos que todo mundo espera eles finalmente acordarem no tranco e irem aos playoffs, então não tem mais desculpa pra ficar tendo o traseiro chutado por aí. Stephen Jackson se encaixa nessa postura, no planejamento, na filosofia de jogo, e tem tudo para se encaixar bem na equipe. Não deve dar muito resultado, convenhamos, mas o Bobcats continua tentando. Ao menos eles sabem o que querem e se movimentam com uma intenção, não é a porra-louquisse do Warriors que parece trocar só por esporte, pra ver se vem de brinde um Mega Tazo.

Em troca do Stephen Jackson e do Acie Law, que é um armador que nunca deu certo e que o técnico Larry Brown deve comer com granola no café da manha, o Warriors recebeu Raja Bell e o Vlad Radmanovic, que nem fede nem cheira. O Bell traz defesa para o Warriors, e depois dessa afirmação vamos todos tirar uns minutinhos para rir à vontade. Até parece que alguém que cuida dessa equipe mequetrefe se preocupa em instituir uma filosofia defensiva, mas provavelmente eles estão dispostos a pelo menos fingir um pouquinho.

Contra o Brandon Jennings, que marcou 55 pontos, o negócio foi muito feio. Ao rever a partida no meu League Pass (calma, calma, a gente resenha o serviço ainda essa semana), percebi que a maioria dos pontos do Jennings saiu em uma jogada simples de corta-luz na linha de três pontos. Não havia ninguém do Warriors capaz de grudar no garoto, a jogada funcionou à exaustão, e quando eles ficaram muito desesperados de passar vergonha, começaram a dobrar nele depois do corta-luz e o resultado foi o Andrew Bogut recebendo uns passes para ponte-aérea, já que o pivô do Warriors durante quase toda a partida foram o Stephen Jackson ou o Maggette. Aliás, grande parte do mérito pela atuação do Jennings tem que ser dado ao Bogut, que atormentou tanto o garrafão do Warriors que a linha de três ficou completamente livre. Quer dizer, a linha de três do Warriors já é completamente livre, mas ficou pior a ponto de render 55 pontos para o novato. Para critérios estatísticos, a pontuação do Jennings deveria valer só a metade - quando ele tentar algo assim contra o Celtics a gente faz uma estátua e uns sacrifícios humanos pro guri.

Quem ganha com a troca é o Stephen Jackson, que agora terá um técnico capaz de apreciar o que ele traz para as quadras, mas o problema é que o time fede pacas e rapidinho é bem capaz que ele comece a ficar insatisfeito de novo (ou que o time continue insatisfeito e troque de novo). O Warriors deve piorar um pouco com a sua saída, mas o que é um peido para quem já está cagado? Outros jogadores podem continuar pontuando como malucos e talvez o Raja Bell seja capaz de impedir outros jogadores de fazer 50 pontos, o que por si só já seria um lucro, evitando que o Warriors se torne essa anedota estilo Ari Toledo que tem sido nos últimos anos. Da próxima vez que o Jennings for enfrentar o Warriors e tentar quebrar seu recorde de pontos, o Raja Bell estará lá. Sozinho, é verdade, mas lá.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O primeiro acerto do Jordan

Mais vale um Diaw e um Bell na mão do
que um Jason Richardson voando



Lembram no ano passado quando o Utah Jazz trocou uma figurinha repetida pelo Kyle Korver? A troca passou despercebida no meio de uma temporada em que figurões como Gasol, Kidd, Devin Harris e Shaquille O'Neal foram trocados, mas no fim das contas se mostrou uma das trocas mais eficazes. Para o Sixers, serviu como peça fundamental para liberar o espaço salarial necessário para assinar Elton Brand e manter Andre Iguodala; para o Jazz era a peça que faltava para o time deslanchar.

Se não me engano, não tenho os números certos aqui, o Jazz teve o segundo melhor recorde do Oeste na temporada passada contando desde o momento da chegada do Korver. O time estava feito e só precisava de um retoque para se tornar uma potência.

O caso mais parecido que aconteceu nesse ano é o do Bobcats. A troca em questão é a do Jason Richardson por Boris Diaw e Raja Bell. A princípio não tem muito a ver com a do Jazz, já que o Bobcats se livrou de seu principal cestinha, mas tem muito a ver porque era um time que precisava corrigir pequenos defeitos para entrar nos eixos e fez isso com jogadores medianos.

O Bobcats começou a temporada com esperanças, afinal tinha um elenco com bons jogadores, como Richardson, Gerald Wallace, Felton e Okafor, e que agora teriam como tutor o renomado técnico Larry Brown. Como todo começo de trabalho, a coisa foi difícil, principalmente porque o foco de todos os times do Larry Brown é defesa e muita gente no Bobcats achou que "defesa" era alguma gíria velha que o Larry Brown dizia querendo dizer "percam jogos!".

Com o tempo o time foi criando identidade e começou a figurar entre as melhores defesas da NBA, mas ainda faltava alguma coisa e começaram os boatos de troca. No começo se falava muito em mandar o Felton, que o Larry Brown não parecia gostar muito, por um pivô, pra deixar o Okafor jogando na posição quatro. Mas tempo vai, tempo vem, e o Larry Brown se tocou que pivô não aparece tão fácil e que não ia ser fácil trocar o Felton sendo que seu próprio técnico não dava muito valor pra ele.

A solução foi trocar quem tinha nome no time, o J-Rich. A troca rendeu o especialista em defesa Raja Bell, além do Boris Diaw, grande passador, mas que cravava com a sua chegada o Okafor na posição cinco, de pivô, para o resto da temporada.

Eu achei estranha a troca na hora, achei que o Bobcats ia virar um daqueles times que só defende e acaba perdendo jogos de 70 a 60. Também achei que o Diaw nunca iria se dar bem em um time focado na defesa e que ia acabar virando reserva rapidinho. Errei.

O Boris Diaw está jogando demais, o Raja Bell está jogando muito bem e os dois juntos estão ajudando mais o ataque do Bobcats do que o Jason Richardson jamais ajudou.

Assim como o Joe Johnson era no seus tempos de Suns, o J-Rich no Bobcats era um cara de talento extraordinário mas que na prática servia apenas como arremessador. E arremessador por arremessador, por que não o Raja Bell que ainda defende e ganha menos? E com mais qualidade defensiva e aproveitamento de bolas de 3 quase igual. Em 14 jogos pelo Bobcats nessa temporada, o Richardson acertou 27 bolas de 3, em 13 jogos o Bell acertou 20. Considerando a quantidade de chutes que cada um tenta, a diferença é mínima.

Já o Boris Diaw renasceu ao chegar em Charlotte. Ao invés de ser aquele cara emburrado e preguiçoso que víamos em Phoenix, vemos um cara que participa ativamente do ataque e que defende com gosto, formando uma improvável boa dupla de garrafão com o Okafor.

Em Phoenix, o Diaw estava com médias de 8,3 pontos, 3,8 rebotes e 2,1 assistências. No Bobcats os números pularam para 14 pontos, 7, 1 rebotes e 5,1 assistências, números quase iguais àqueles que o fizeram o jogador que mais evoluiu na temporada 2005-06. Além disso, o Diaw trouxe um arremesso de três que eu nunca vi ele ter! Seus 42% de aproveitamento são o melhor dele na carreira e quase 10% superior ao que ele tinha no Suns!

Temos então no Bobcats o Felton, que agora não só se dá melhor com o Larry Brown como é o cara de confiança para acertar as bolas decisivas (vale ver a bola dele contra o Pistons); o Raja Bell, que é quem marca o melhor jogador adversário e chuta as bolas de 3 que eram do Richardson; e o Gerald Wallace, que não precisa mais gastar suas faltas marcando o melhor adversário e participa mais da defesa nas coberturas, o que ele melhor sabe fazer.

Já no garrafão tem Diaw e Okafor. O francês tem um talento excepcional para passes e faz todo mundo participar mais do ataque, até o próprio Okafor, que recebe muitos passes naquele esquema high-low, que é quando um dos pivôs recebe a bola na cabeça do garrafão e passa para o outro que está embaixo da cesta, jogada que o Lakers faz bastante com Odom, Gasol e Bynum.

No banco ainda tem o novato DJ Augustin, que tem jogado demais da conta e que, por incrível que pareça, se dá muito bem quando joga ao lado do Felton, sem precisar ser necessariamente só reserva dele.

Com isso, o Bobcats é um time perfeito? Não. Provavelmente nunca vai ser, mas se você tiver a chance de ver eles jogarem, veja, é bem divertido ver como o time funciona muito bem. E temos que dar os parabéns porque eu nunca na minha vida iria imaginar que trocar o cestinha da equipe por Bell e Diaw, que pareciam em decadência, pudesse ser a melhor coisa para um time.

Antes da troca o Bobcats estava com um uma campanha de 6 vitórias e 14 derrotas. Desde a troca são 9 vitórias e 11 derrotas, mas se você considerar que 4 dessas derrotas foram num espaço de 6 dias logo depois da troca, sem a chance de um treino sequer, dá pra dar um desconto. Nos últimos 10 jogos são 5 vitórias e 5 derrotas. Entre as vitórias, times grandes como Celtics e Blazers. Entre as derrotas, uma sofrida por dois pontos contra o Spurs.

Nesse Leste em que todo mundo menos o Wizards tem chance de playoff, não me surpreenderia se o Bobcats arrancasse uma oitava vaga. Entre eles e o Nets, Bucks, Bulls, Knicks e Raptors, são os Cats o melhor time atualmente. Acho que essa troca nem foi idéia dele, foi do Larry Brown, mas finalmente o Jordan acertou uma na sua carreira nos bastidores.


Números:

O Bobcats é o time que menos marca pontos por jogo, com 91,2. Ainda precisa de muita melhora, mas lembro que o Pistons campeão de 2004 com o mesmo Larry Brown tinha apenas o 18° melhor ataque da NBA.

A defesa daquele Pistons era a segunda melhor da NBA, o Bobcats de hoje tem a 9° melhor defesa.

Em pontos sofridos em contra-ataque, o Bobcats sobe para a quinta colocação, são apenas 10,4 pontos sofridos em contra-ataque por jogo. O líder é o Pistons com 9,9.

A maior deficiência do Bobcats está dentro do garrafão, é apenas a 11ª melhor defesa quando se conta apenas pontos tomados no garrafão, que são 37,1 por jogo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Trocas e arrependimentos

Para fugir do Larry Brown, o J-Rich disse que a mãe dele
tava chamando - "logo ali, ó, em Phoenix!"



Que o Suns não estava dando certo, isso todo mundo podia ver. O ataque não resistiu à saída do técnico D'Antoni e a defesa não ficou lá essas coisas com seu substituto, o Terry Porter. Como o Denis bem disse há um tempo, o Suns sentiu uma saudade brutal da correria que era parte da identidade do time. É verdade que o estilo falhava justamente contra os grandes times, contra as grandes defesas, nos momentos mais decisivos. Mas no resto do tempo - e, portanto, na enorme maioria do tempo - o Suns de D'Antoni chutava traseiros, ganhava os jogos com imensa facilidade, abria sorrisos nas crianças e atraiu uma grande massa de gente ao esporte. Com a chegada de Shaq, o objetivo era continuar a correria mas ter uma arma para o basquete de meia quadra, justamente o maior problema nas partidas contra o Spurs. O próprio Shaq disse que poderia correr numa boa, que não seria nenhum problema e que seu jogo lento era, até então, escolha técnica. Mas a empreitada não deu muito certo, optou-se por uma mudança de ares e o D'Antoni foi plantar batata.

A temporada acabou de começar e todo mundo já está visivelmente descontente com o novo técnico Terry Porter. Ter um ataque mais lento e cadenciado depois de passar anos com D'Antoni deve ser intragável, é como beber Fanta Uva depois de anos de vinhos caríssimos. Ao contrário da crença popular, o esquema de D'Antoni não é uma porra-louquisse sem critério, mas sim um detalhado e complexo sistema que cria movimentação de bola, criatividade e liberdade ofensiva. Agora todo mundo se sente preso, num ataque chato e que não é nem de longe tão efetivo quanto era antes. A defesa melhorou com o Terry Porter, isso é fato, mas já se fala em Phoenix sobre a necessidade de voltar a correr, de recuperar a identidade que o time possuia. Nash não rende tanto no novo esquema tático, Boris Diaw era obrigado a jogar como um simples ala, plantado no garrafão, ao invés de poder utilizar a versatilidade que um dia - ah, bons tempos aqueles - lhe deu o prêmio de jogador que mais evolui na temporada, e o Leandrinho, mesmo com todos os problemas psicológicos e familiares pelos quais vem passando e que com certeza influenciam seu jogo, é muito nitidamente o mais incomodado com a nova mentalidade do ataque do Suns.

É muito engraçado, então, que o novo técnico que veio justamente para dar ênfase na defesa tenha que inverter tudo e focar o ataque, que não está funcionando. Com essa mentalidade, o Suns mandou seu melhor defensor de perímetro, Raja Bell, e um jogador versátil e mal utilizado, Boris Diaw, em troca de um jogador puramente ofensivo que foi o líder em bolas de 3 pontos convertidas na temporada passada, Jason Richardson.

Está aí uma troca que deixaria Mike D'Antoni orgulhoso, mandar às favas a defesa e versatilidade (o D'Antoni é famoso por usar o mínimo de jogadores possível) e conseguir um jogador que vai melhorar ainda mais o ataque. Espera, espera, isso não é um tanto absurdo? O ataque estava bom, a defesa fedia, aí vem um cara pra cuidar da defesa, o ataque fica uma porcaria, e aí eles trocam por alguém que faça mais pontos? Sou só eu ou o Suns parece que se arrepende o tempo inteiro, fica abandonando e recuperando suas mentalidades, e não consegue decidir se corre, se fica, se defende, se ataca, se segura o Tchan ou se rala na boquinha da garrafa?

Eu sempre bato na tecla de que todo time precisa ter uma identidade. O jogador precisa entrar em quadra sabendo qual é o maldito plano, o que diabos ele tem que fazer. Se uma hora o plano é correr, na outra é defender, depois fica correr de novo, não tem como haver ritmo ou consistência na produção dos jogadores. Pior ainda é as mensagens contraditórias que a equipe técnica acaba passando para o elenco: "Gente, o negócio agora é esquecer o D'Antoni, vamos aprender a defender porque defesa é que ganha jogos. Aliás, fizemos uma troca pelo Jason Richardson, ele chega amanhã." Hã? É tipo um cara dizer que quer fazer limonadas e ficar comprando laranjas.

A troca também mandou para o Suns uma escolha de segundo round no draft e o Jared Dudley. O Dudley estava sendo titular no Bobcats porque o Larry Brown estava tentando até a mãe dele para fazer dupla de garrafão com o Okafor, mas não há ninguém que preste no elenco. No entanto, para jogar apenas no garrafão e ser carregador de piano, obedecer, pegar rebotes e ficar quieto, Dudley vai se encaixar bem melhor do que o Diaw. O francês, por sua vez, é muito mais talentoso e cheio de recursos, mas fica difícil imaginar ele sendo o parceiro de garrafão de que Okafor necessita. Minha suspeita é que o Larry Brown não vai gostar da idéia de usar o Diaw e os problemas debaixo da cesta vão continuar os mesmos. O Raja Bell deve se dar melhor, mas como o Denis bem me disse, com Bell e Gerald Wallace o Bobcats está bem para marcar qualquer time, mas nunca vai fazer mais de 80 pontos num jogo sequer. Aliás, não vejo como o Bobcats vai conseguir marcar 5 pontos sequer, acho que o Larry Brown surtou e quer ver quantos times ele consegue acabar de afundar junto com sua carreira.

O Terry Porter também está afundando no Suns, mas agora ganha uma nova tentativa. Acho que sua presença, pra ser sincero, apenas demonstra como o time de Phoenix era limitado, uma ferida com um curativo bem feito que segurava as coisas nos trinques. Com o cutucão que o Porter deu, a defesa não melhorou (sangramento eterno) e o ataque desmantelou, expondo o ferimento. Olhar o Knicks de agora talvez torne isso ainda mais claro. O time é limitadíssimo, incapaz de jogar na defesa, fadado ao fracasso eterno, mas D'Antoni colocou um curativo e agora a equipe faz mais de 100 pontos por jogo, movimenta a bola, joga coletivamente. Ele é, como diria o Wolverine, o melhor no que faz (SNIKT!), o Mestre dos Magos do ataque, mas não dá pra concertar tudo. Às vezes, querer arrumar todos os aspectos leva o time a desmoronar por completo e perder sua identidade.

Agora temos um Suns que resolveu voltar a correr, com um Jason Richardson que vai atacar a cesta e arremessar milhões de bolas de três. Bem, se essa era a intenção, então por que não manter o D'Antoni? O Suns agora é um time que nem se pauta pelo passado e nem se foca no futuro, completamente perdido no tempo. Resta nossa torcida de que eles encontrem um meio-termo, que Terry Porter encontre uma voz própria, e que o ataque volte, no mínimo, a empolgar. Antigamente o Suns perdia mas levantava a torcida, o que é bem melhor do que perder e ainda parecer o Fábio Puentes, dizendo "Dorme, dorme, dorme, dorme!". Os ânimos por lá andam de fim de feira, todo mundo insatisfeito e a torcida preferindo ir jogar Pokémon. Supostamente, a troca deveria dar um ânimo na equipe, colocar sangue novo e impor um ritmo mais veloz, mas não deu muito certo a princípio: Nash e Raja Bell eram melhores amigos e o canadense está legitimamente desolado, se dizendo incapaz de compreender que isso é "um negócio" como todos os discursos padrão de jogadores trocados. Agora, como se não bastasse, o Suns tem que se preocupar com o descontentamento de Nash, a depressão de dois amigos desfeitos, e todo mundo que se lembra do Mobley e do Steve Francis sabe que, às vezes, um dos lados nunca mais se recupera (Mobley, aliás, que se aposentou com problemas no coração - típico de quem passa uns tempos jogando pelo Clippers).

Enquanto isso, outra troca aconteceu, mas quem repara naquela garota mais-ou-menos que está andando do lado da Alinne Moraes? O Hornets agora tem um armador, o Antonio Daniels, para substituir o Jannero Pargo na temporada passada, que fugiu para a Europa. O Wizards, por sua vez, tem agora um clone ruim-pra-burro do Gilbert Arenas, que é o Mike James, e conseguiu um reserva de verdade para a armação pela primeira vez na última década, que é o Javaris Crittenton. Lembra que o Grizzlies tinha mais armadores puros e jovens do que vitórias (Mike Conley, Kyle Lowry e o Javaris Crittenton) e todo mundo dizia o tempo todo que eles iriam trocar ao menos um deles por um jogador de garrafão? Pois bem, eles trocaram mesmo um deles e mais uma escolha de segundo round no draft, mas apenas para recuperar a escolha de primeiro round que eles tinham mandado para o Wizards pelo Navarro, que depois de uma boa temporada se mandou pra Europa. Ou seja, essa troca com cara de suruba forneceu armadores para o Wizards e para o Hornets, que estavam precisando, e o Grizzlies apenas perdeu um jogador cheio de potencial para tentar concertar a cagada que fizeram ao trocar pelo Navarro, na época apenas para deixar o Pau Gasol feliz - hoje, um foi trocado para o Lakers e o outro escafedeu-se. Pois é, no mundo das trocas, não é só o Suns que se arrepende às vezes.

terça-feira, 22 de abril de 2008

A série que todo mundo vê


Orra... eu não deixava


Não sei se vocês acham isso também, mas pra mim é bem claro que a série entre Suns e Spurs está bem acima desses simples playoffs. Quando você vê o Celtics passeando sobre o Hawks, o Lakers sobre o Nuggets ou até jogos disputados como o jogo 1 entre Cavs e Wizards ou o Hornets e Mavs, você sente que é um clima diferente da temporada regular, que os times jogam diferente, que o clima da torcida é diferente. Mas quando você assiste a série entre Suns e Spurs, parece algo quase que atemporal. Eles não estão mais disputando uma vaga na segunda rodada ou só respondendo a uma rivalidade ou provocação como Cavs e Wizards. Entre Suns e Spurs já é questão de orgulho, de honra.

O legal é que isso se transmite para quem assiste também, não tem jeito. Eu não torço pro Suns e nem pro Spurs. Não gosto do Spurs porque eles sempre vencem e deixei de ser muito fã do Suns quando eles tiraram meu Lakers dos playoffs por dois anos seguidos. Mas mesmo assim me envolvo demais com essa série e no jogo 1 sofri muito mais do que na partida do Lakers, mesmo quando o Lakers chegou a ficar pra trás no segundo período.

O jogo começou tenso, os problemas de falta do Shaq deixaram tudo mais tenso ainda, mas o Suns soube lidar com isso e ótimas atuações do Amaré e do Diaw, somados a um Spurs um bocado lento, sem engrenar no ataque, resultou em uma boa vantagem para o Suns. Tudo mudou no segundo tempo e em especial no quarto período, quando o Spurs, pela bilionésima vez na sua história, conseguiu empatar o jogo bem quando precisava, no fim da partida. O engraçado é que o Suns não jogou mal no quarto período, pode ter cometido alguns erros no ataque e uns outros na defesa, mas nada de mais, nada que não seja comum de acontecer contra um grande time. O que aconteceu foi que o Spurs jogou muito bem mesmo. Jogos históricos são assim, geralmente entram para a história justamente porque os dois times jogaram bem demais e porque qualquer um poderia vencer.

Odeio quando tentam engrandecer partidas que foram ruins. Muitas vezes o jogo tem prorrogação e é disputado só porque os dois times estão igualmente ruins. E já vi jogo que vai pro tempo extra porque o placar não muda nos últimos 3 minutos de jogo. Mas com Suns e Spurs não é assim, com eles o empate se sustenta porque os dois trocam cestas, uma mais difícil do que a outra, uma mais improvável do que a outra, e isso fez o jogo ser histórico como foi. Isso é que faz um torcedor do Lakers quase perder os cabelos em uma mera partida 1 de uma série que nem envolve seu time.

A carga emocional é tanta nessa série, que minha teoria é de que se o Suns passar pelo Spurs, a moral e confiança deles será tão grande que acho que só o Celtics seria capaz de pará-los, mas também não descartaria a chance do time ter uma recaída logo depois da série, tamanho o alívio e a sensação de dever cumprido que seria para eles finalmente derrotar o Spurs. Mas só vamos saber o que vai acontecer se o Suns realmente ganhar, e para isso não adianta ser questão de honra, ser atemporal ou ter rivalidade, tem que ganhar na quadra.

O que vimos na quadra no primeiro jogo é o que devemos ver no segundo, não espero muitas mudanças das duas equipes. O Suns fez o jogo que planejava, o jogo que fez nos dois últimos jogos da temporada regular que resultaram em vitória do Phoenix. Ritmo lento na maioria dos lances e sempre buscando os pontos no garrafão com Amaré e Shaq. O que deve mudar é a postura dos dois homens de garrafão, os mesmos Amaré e Shaq, para não ficarem com problemas de falta de novo.

Podem até dizer que o Suns estava ganhando o jogo quando o Shaq estava fora no primeiro tempo, mas no final ele não podia ficar no banco tamanha a preocupação com Tim Duncan, e várias vezes o grandalhão do Suns teve que recuar e não ir para o toco para não sair do jogo com 6 faltas. Em um jogo decidido por dois pontinhos, no último segundo da segunda prorrogação, qualquer bandeja que o Shaq deixou de defender fez muita falta. Mas o pior é que essas faltas do Shaq e do Amaré não foram a defesa tentando parar o imparável Tim Duncan, das 11 faltas que os dois fizeram juntos, 5 foram faltas de ataque. Os dois precisam tomar mais cuidado no ataque para gastar as suas faltas na defesa, indo com força para cima dos adversários.

No lado ofensivo, o Suns precisa continuar usando Amaré Stoudemire sempre que possível. Além de ser a melhor arma de ataque do Suns, ele pode causar o problema de faltas no outro time agora, talvez tirando Kurt Thomas ou Duncan da quadra por importantes minutos. Mas quando eu digo "sempre que possível" é justamente para ele não tentar passar por cima de todo mundo e fazer as suas faltas de ataque. Com Amaré funcionando bem, muito espaço será criado para os outros jogadores, que precisam se destacar mais, não podem ser como Boris Diaw, que foi genial no primeiro tempo e patético no segundo. E como eu disse na análise antes do primeiro jogo, o Suns tem que aproveitar todas as chances de correr para correr, os pontos de contra-ataque, pontos fáceis, são essenciais para bater uma defesa forte como a do Spurs.

Acredito que no lado do Spurs a estratégia não irá mudar muito também, até porque é a mesma há alguns anos. O que eles não podem repetir é a mediana atuação que eles tiveram no primeiro tempo do jogo passado, mesmo com o Shaq fora do jogo, o Suns está forte e não é sempre que vai dar essa colher de chá, o Spurs tem que aproveitar suas chances pra não depender de bola de 3 do Duncan em todos os jogos da série. Para uma vitória mais tranquila, o negócio é explorar Tim Duncan sempre que possível lá onde ele tem as manhas, no garrafão, e criar a pior dúvida da história da NBA na defesa do Suns: dobrar ou não dobrar a marcação em cima de Tim Duncan?

É uma pergunta que pode render livros, teses, discussões, brigas e etc. Mas eu tenho a minha opinião e ela é a de que em 90% dos casos você não deve dobrar a marcação nele. Os motivos são simples: o Duncan é um ótimo passador, ele já sabe onde todos estão posicionados e eles geralmente são ótimos arremessadores. Com a marcação dupla sempre vai sobrar alguém livre e o Duncan sempre acha esse alguém. Quando você deixa o Duncan no 1-contra-1, você até pode não levar vantagem já que o cara é um dos melhores da história, mas pelo menos ninguém vai ter arremesso livre, o Duncan pode ter vantagem mas não estará livre, estará com um arremesso contestado. Além disso, você obriga o Duncan a resolver todas as bolas, você não deixa ele envolver os outros no jogo e você não dá ritmo, movimentação de bola e confiança para o Spurs.

Outro motivo para não dobrar a marcação é que o Suns não é um dos times mais espertos na hora de cobrir os espaços abertos pela marcação dupla. Quando é o Spurs que fecha o Amaré ou o Nash com uma marcação dupla, os outros jogadores sabem onde devem estar para minimizar os prejuízos. Resultado de anos de entrosamento defensivo que o Suns não tem. O que o Suns pode fazer, se for esperto, é controlar o relógio de 24 segundos, já que dobrar a marcação quando o relógio estiver próximo do fim pode ser um bom negócio.

Em uma série entre Suns e Spurs, tudo pode acontecer e praticamente tudo já aconteceu nos últimos anos (menos o Suns vencer, isso não acontece nunca!), mas pra hoje espero mais um jogo disputado até o fim como o primeiro. Talvez dois jogos épicos, históricos, clássicos (adicione seu adjetivo cliché aqui), essa série vai ser bem longa, com muitos jogos decididos nos últimos dois minutos de partida e, claro, será bem prazerosa de se assistir.

Ah, e só uma dica pro Sr. Raja Bell: O Ginobili é canhoto. CANHOTO. Mão Esquerda. A que não escreve. Pense duas vezes antes de escolher que lado oferecer para a bandeja. De nada.


Notas:

- Enquanto uns times fazem batalhas antológicas nos playoffs, outros estão de férias. O Bucks, eliminado faz tempo, já trocou de Manager e agora troca de técnico. O novo é Scott Skiles, sim, aquele que ninguém sente falta em Chicago. Vamos ver se ele faz o Ramon Sessions quebrar o recorde do próprio Skiles de 30 assistências em um mesmo jogo.

- O Bulls, por sua vez, dispensou o interino que substituiu Skiles, Jim Boylan, mas ainda não escolheu o técnico novo.

- Isiah Thomas não é mais técnico do Knicks. E em notícia mais surpreendente ainda, a Terra é redonda.

- Kevin Garnett venceu hoje o prêmio de melhor defensor do ano. Cada um que vota escolhe alguém para colocar em primeiro, segundo e terceiro. Além de KG, os outros votados para primeiro lugar foram Camby, Battier e Bowen.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Magic Killer

Ao contrário da foto, ontem foi Nelson que botou o Pargo pra correr no fim do jogo



Estava vendo ontem o jogo entre Magic e Hornets em que o Jannero Pargo foi o armador do time de New Orleans no lugar do Chris Paul, que está machucado. Logo no começo do jogo já estavam chamando o Pargo de "Magic Killer" e eu não conseguia entender o motivo, o jogo tinha acabado de começar, ninguém estava matando ninguém!

Com o tempo eles explicaram tudo. O fato é que o Pargo tem suas melhores médias na carreira contra o Orlando Magic. Seja quando ele estava no Lakers, no Bulls ou no Hornets e seja contra o Orlando que tinha Grant Hill, T-Mac ou Dwight Howard, não importa, Pargo sempre acabou com a raça do Magic. Eu sei, eu sei, não faz um puto de um sentido mas são o que os números dizem. Em todos esses anos de confronto, a média de Pargo contra o Magic é de 15 pontos por jogo contra sua média de 6,3 pontos que ele tem na carreira. E nos dois jogos que Hornets e Magic fizeram na temporada passada, a média de Pargo foi de 20 pontos por jogo! O que acontece com esse cara? Será que não deixaram ele ir pra Disney e ele foi se vingar do jeito mais bisonho?

Ontem a sua vingança contra o Mickey ficou pela metade. Ele jogou bem, liderou o time, fez 18 pontos, deu 7 assistências, mas na hora H foi ele quem falhou. O Jameer Nelson passeou pra cima dele e no último minuto em uma bola que poderia colocar o Hornets de volta no jogo ele tomou um toco do Centauro Dwight Howard. Fim de jogo.


Mas saibam que assim como o Pargo se inspira contra o Magic, vários outros jogadores se inspiram (ou simplesmente não conseguem jogar) contra certos times. O caso mais famoso deve ser o do Jordan que constantemente massacrava o Knicks, principalmente no Madison Square Garden, coisa que hoje em dia é função de outro cara de Chicago, Ben Gordon, ou melhor, Ben Jordon como alguns fãs o chamam por aí (se bem que pra mim ele lembra mais outro Michael, o Redd).

Um que não consegue jogar bem na cidade do Ben Jordon é Dwayne Wade. Ele é de Chicago (ou melhor, da região de Chicago, mais especificamente de Robbins, Illinois) e quando vai enfrentar o Bulls por lá o seu jogo não encaixa. Ano passado colocaram a culpa na marcação do Sefolosha nos playoffs, mas a má atuação de Wade em sua cidade natal vem desde seu ano de novato mesmo.

Você pode estar se perguntando aí que diabos é esse negócio do Wade, aquele cara que ganhou um título quase sozinho anos atrás, ser parado por um suiço de nome esquisito tipo esse Sefolosha. Mas o que acontece é que do mesmo modo que jogadores jogam bem ou mal contra alguns times, eles conseguem jogar bem ou mal contra certos jogadores.

Certa vez em uma transmissão de TV falando sobre esse mesmo assunto o Charles Barkley falou que no tempo dele quem mais o incomodava era o Popeye Jones! Sim, o orelhudo que parece o Sloth e que só a mãe dele e o cara do "My wife and kids" ("Eu a Patroa e as Crianças"no SBT) tem a camiseta. Acho que caso mais estranho que esse do orelhudo com o Sir Charles foi só nos playoffs de 2004 quando o Lakers botou o Mark Madsen pra marcar o Garnett e, mesmo ele não anulando o KG, foi de longe o marcador que mais incomodou. No ano seguinte o Wolves até tirou ele do Lakers e o levou pra treinar do lado do KG. E estamos falando do Mark Madsen, estamos falando de um cara que quase cai no chão tomando crossover do Matt Bonner!

Um caso famoso é o das finais de 2001 entre Lakers e Sixers em que o grande trunfo do Phil Jackson foi grudar o Tyronn Lue no Iverson pra parar o homem. Até que deu certo, embora o Iverson tenha acusado o Lue de pegar em algumas bolas que não eram laranjas durante o jogo para irritá-lo. Na mesma final, o Larry Brown, então técnico do Sixers, respondeu botando um cara novinho, um tal de Raja Bell para marcar o Kobe. Foi lá o início da rivalidade entre os dois. Pena que o Todd McCullogh e o Matt Geiger não foram a resposta certa para parar o Shaq e o título foi facinho pra mão do Lakers...

Apesar de todo mundo ver na prática que o Bruce Bowen e o citado Raja Bell são os melhores marcadores do Kobe na liga, não são eles que têm o apelido de Kobe-Stopper. Quem tem o apelido é o Ruben Patterson. Apelido dado por ele mesmo, claro. Pra quem duvida que o Kobe não costumava ter problemas ao passar por cima do Portland de Patterson, aqui está um vídeo em que o Kobe marcou 37 pontos incluindo dois arremessos de último segundo (um para empatar o jogo no tempo normal e outro pra ganhar o jogo na segunda prorrogação).

Vídeo AQUI

O vídeo é uma matéria da ESPN sobre o último jogo da temporada regular em que Lakers e Kings disputavam pra ver quem vencia a divisão do Pacífico. Aproveitem pra ver também os melhores momentos do jogo do Kings com o Mike "lex luthor" Bibby liderando aquele belíssimo time do Kings.

Lembra de mais algum caso? É só nos escrever nos comentários!