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sábado, 17 de julho de 2010

Os reis - Parte 3: Chris Bosh

Encerramos hoje (para alegria de alguns, que não aguentam mais ver a gente falando nisso) uma série de 3 artigos sobre o novo Miami Heat. Cada um deles foca um dos três jogadores que acabam de assinar com a equipe (LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh), analisando o que essa superequipe significa para cada um, para suas carreiras, e como decidiram tornar essa união possível. O primeiro artigo foi sobre Dwyane Wade e seu posto soberano no Heat. O segundo foi sobre LeBron James, seus tempos de colegial e como isso pode ter influenciado sua escolha. Para finalizar, o terceiro artigo abaixo aborda Chris Bosh, sua maldição por ter que jogar de pivô e sua invisibilidade em Toronto que tenta, agora, ser deixada para trás.

Bosh parece um dinossauro, tem pescoço de brontossauro, e por isso não deveria sair do Raptors

No ano em que o Chris Bosh entrou na NBA, era uma droga conseguir acompanhar jogos do Raptors. As transmissões na internet eram escassas e a TV religiosamente ignorava a franquia fracassada do Canadá, que nem é país de verdade, para transmitir jogos do LeBron James novato e do Denver Nuggets com Nenê e Carmelo Anthony (especialmente a TV brasileira, que tem um patriotismo bizarro e nos forçou a assistir por muito tempo um dos piores quintetos da história da NBA, que era aquele Nuggets com o brasileiro ainda novato, irch). A maioria das coisas que sabíamos de Bosh era de "ouvir dizer", até ele jogar o All-Star Game com os outros novatos. A primeira vez que ele tocou na bola fora do garrafão e bateu para dentro com uma série de dribles secos, rápidos e bem executados, fui à loucura. Seu físico lembrava o de Kevin Garnett nos primeiros anos na liga, ou seja, um magrelo anoréxico de braços gigantescos, mas com mãos é pés rápidos, talento para sair driblando, arremesso consistente e muito confortável de frente para a cesta, como se fosse um armador que comeu muito Neston quando era criança e cresceu demais. Fiquei imaginando que colocar aquele sujeito dentro de um garrafão deveria ser um crime punido com cadeira elétrica. Se não fosse pelos seus 2,08m de altura, ninguém jamais teria considerado tal heresia. Mas num time sem tamanho, Bosh não apenas foi colocado perto do aro - ele virou o pivô da equipe.

Para se ter uma ideia, é o equivalente a colocar uma garotinha de 4 anos no seu vestidinho de aniversário para enfrentar, várias vezes por semana, escoceses gordos que arremessam toras de madeira e comem carne crua. Os primeiros anos de Bosh foram cruéis, com as dificuldades de adaptar-se à liga - que afligem a todos os pirralhos - somadas às dificuldades de jogar fora de sua posição natural, ganhar físico rapidamente e apanhar mais do que a Rihanna dos brutamontes no garrafão. Mesmo que a NBA tenha sofrido nos últimos anos com uma imensa falta de pivôs, Bosh sempre teve que jogar contra jogadores muito mais fortes, mais físicos e na maioria das vezes mais altos do que ele. Conforme se distanciava do aro para poupar o físico e usar melhor seus recursos ofensivos, como arremessos e infiltrações, mais o Raptors sofria com a falta de uma presença física lá dentro, especialmente para os rebotes ofensivos.

A situação era tão ruim para o Bosh que o Raptors, em desespero, escolheu um pivô no draft muito antes do que ele merecia, apenas para suprir a necessidade. Era o brasileiro Baby, um dos piores pivôs a ter pisado numa quadra da NBA, e ali se dava o primeiro passo da maldição de Chris Bosh. Seu desenvolvimento dependia de que pudesse jogar em sua posição natural como ala de força, e o Raptors destruiu-se como franquia apenas para tentar reparar essa impossibilidade: com contratações, trocas ou mudando o estilo do time para jogar com o Bosh no garrafão sem prejudicá-lo tanto, o time foi pelo ralo junto com o físico, a felicidade e o rendimento do pivô improvisado.

A lista de fracassos do Raptors nas tentativas de acomodar Bosh é imensa. Além de Baby, no mesmo ano contrataram Aaron Williams, que vinha de uma boa temporada alimentado pelos passes de Jason Kidd, e é claro que ele não deu certo sem o armador que faz a carreira (e o salário) de tantos jogadores por aí. Com a chegada de Bryan Colangelo, engravatado que administrava o Suns e resolveu ir brincar no Canadá, Baby foi imediatamente trocado pelo Kris Humphries, um pivô que nunca deu certo mas ao menos quebra um galho na defesa. Colangelo trouxe também Nesterovic, o pivô de ombros largos e cabeça minúscula, com cérebro de estegossauro, que foi campeão no Spurs mas só faz o trabalho sujo, não sabe sequer amarrar os cadarços. O pirralho Charlie Villanueva, que estava chutando traseiros e na briga por ser novato do ano, ganhava cada vez mais minutos em quadra e forçava, com isso, Bosh a jogar de pivô. Após muitas reclamações, embasadas nas lesões cada vez mais frequentes que assolavam o corpo combalido do pivô improvisado, Villanueva foi trocado pelo armador TJ Ford apenas para que Bosh ficasse contentinho. Mas o armador não apenas era feito de vidro e sofreu sérias lesões durante sua estadia em Toronto (uma delas, na coluna, com risco de lhe encerrar a carreira) como também, mesmo saudável, nunca deve ter passado a bola uma vez sequer para o Chris Bosh porque é um fominha safado. Depois da ida de Villanueva, veio o pivô Jake Voskhul, que me obrigou até a ver como escreve o nome dele no Google, vinha de uma temporada razoável no Suns e foi uma das aquisições mais risíveis na história da franquia. Quando Jermaine O'Neal foi trazido ao elenco, a única ajuda legítima que Bosh recebeu no garrafão em toda sua carreira, contusões tiraram o vovô das quadras por muito tempo e Jermaine foi rapidamente trocado para liberar espaço salarial em uma temporada que já estava completamente perdida mesmo.

Não faltou esforço em Toronto por parte de Bryan Colangelo. Por vezes, fez o possível para trazer ao menos algum pivô para a equipe e colocar Bosh na ala. Por outras, frente ao fracasso absoluto dos pivôs que frequentaram o elenco (era tanto cara ruim que seria melhor usar o Rajon Rondo de pivô), tentou tornar o Raptors uma cópia paraguaia do Suns, com o Bosh jogando de pivô num sistema de jogo veloz, de correria, que permitisse aos jogadores de garrafão atacar o aro ao invés de ter que jogar de costas para ele, enfrentando marcadores maiores e mais pesados, como fazia Amar'e Stoudemire em Phoenix. Nunca deu muito certo em parte porque sempre faltou ao time um armador que pudesse impor esse estilo de jogo (TJ Ford sabe correr, mas só para a frente e alguém tem que ficar perto de sua orelha para avisar que a quadra acabou), mas também porque Bosh continuava sofrendo com o abuso físico de ter que defender pivôs maiores e ser recebido com pouca delicadeza no garrafão pelos defensores adversários. Desde sua segunda temporada na NBA, nunca chegou nem perto de jogar todas as partidas graças a lesões físicas, com exceção da temporada em que jogou ao lado de Jermaine O'Neal, em que conseguiu resistir a 77 jogos.

É por isso que as reclamações constantes de Bosh nunca foram tidas como "estrelismo": elas sempre foram justificadas. Chris Bosh é um jogador auto-centrado, de vida pública bastante restrita, longe de quaisquer polêmicas ou debates. Sempre se deu bem com a vida no Canadá, longe dos grandes centros comerciais, da falação da mídia e da badalação dos fãs americanos. Declarou seu amor ao estilo de vida canadense um sem número de vezes, dando todas as indicações de que se manteria no Toronto Raptors assim que surgisse a oportunidade. Mas nunca parou de avisar, em tom de reclamação, que só teria como ficar no time se montassem ao seu redor uma franquia vencedora - em que ele pudesse jogar de ala, não de pivô. Chororô que lhe virou marca registrada.

O ego de Bosh sempre foi uma coisa bastante confusa. Sua postura tranquila e humilde de morador canadense que não se importa de morar longe da atenção da mídia convive com uma postura de estrela que constantemente afirma não ser um jogador para "fechar um elenco", mas sim uma estrela em volta de quem franquias deveriam ser construídas. É possível entender um pouco isso. Quando ele era novato ninguém tinha como acompanhar seus jogos, longe das grandes televisões, mas agora é fácil pela internet e nosso amado League Pass. Só que para o público em geral, mesmo nos Estados Unidos, que depende em grande parte da televisão para acompanhar a liga, Bosh ainda é um desconhecido. Tratam-no como um jogador secundário, um cara "bonzinho" no garrafão, e não lhe ajuda a imagem em nada o fato de que continua, ano após ano, jogando fora de sua posição de origem. Bosh ganha mais peso, mais músculos, mais massa, aprende a dar e receber porrada, mas não dá pra esconder a verdade: ele é magro, fraco e desconfortável frente ao impacto, para força física não existe silicone ou batonzinho que possa dar uma disfarçada. Nas raríssimas ocasiões em que podemos ver - pela internet - o Bosh jogando como ala durante frações de uma partida, é como se o céu abrisse e os anjos tocassem vuvezelas: ele é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores jogadores da NBA. Mesmo tranquilo, humilde, brincando no Canadá com os ursos e os guardas florestais, deve ser bastante chato não ser reconhecido como merece graças a simples ignorância. Um jogador de seu calibre deveria, ao menos, estar nos playoffs constantemente para ter o mínimo de exposição na mídia e mostrar seu lugar. Mas em 2006-07, depois das trocentas alterações que o Bryan Colangelo fez ao elenco, o Raptors acabou em terceiro no Leste e foi facilmente eliminado pelo Nets em decadência. No ano seguinte, acabaram em sexto e foram eliminados pelo Magic, que começava a se tornar uma potência. Depois, nunca mais. Assim como aconteceu com o Cavs de LeBron, que fez as trocas mais estapafúrdias do mundo para mostrar serviço e nunca adiantou, o Raptors trouxe bons jogadores mas nunca sanou a principal deficiência, alguém no garrafão para ajudar Bosh. E, assim como Dwyane Wade, Bosh sabe como é estar num time fracassado, com apenas uma estrela, que sofre miseravelmente apenas para conseguir alcançar os playoffs.

A amizade com Wade vem desde que se reuniram pela primeira vez para jogar pela seleção americana. Sempre saíram juntos no Canadá, nas visitas do Heat a Toronto, e decidiram assinar contratos menores de extensão com suas equipes por partilharem do medo de ficar em times que fediam. Haviam se divertido tanto jogando juntos na seleção que não queriam mais ficar em times derrotados segurando o peso sozinhos. Dizem que, durante anos, Bosh alimentou a certeza de que iria jogar com Wade caso o Raptors não se transformasse. Quando a última temporada terminou, toda a esperança do Toronto Raptors de ter Bosh de volta não era nada além de aparência, aquela fé obrigatória que deve-se ter frente aos fãs para aparentar que, no mínimo, "a gente fez o que podia para manter o jogador". Era muito óbvio que ele sairia, e todos os amigos da dupla Bosh e Wade - LeBron James e Amar'e inclusos - sabiam que os dois jogariam juntos em algum lugar. Flertaram bastante com o Chicago Bulls apenas porque lá o Bosh sabia que não teria nunca mais que jogar de pivô, deixando a função para o Joaquim Noah. Por fim, preferiram ficar no Miami Heat apenas pela possibilidade de que o LeBron se juntasse a eles.

A decisão beneficiou Wade por lhe manter a casa, a praia, a camiseta, o título de prata da casa, maior estrela, queridinho da torcida. Para o LeBron, foram prometidas vagas de emprego para amigos, privilégios no ginásio para familiares, e uma franquia vencedora com planejamento e que há pouco ganhou um título de NBA mesmo com um elenco mequetrefe. Para o Bosh não poderia ser diferente e promessas também foram feitas: só assinou com a equipe quando Pat Riley lhe prometeu, pessoalmente, que ele não teria que jogar de pivô nunca mais.

A promessa de posição basta. Aquele papinho de que "sou bom o bastante para que times sejam construídos ao meu redor" é coisa de quem quer atenção, provar que é bom, não é um ego absurdamente gigante que vai devorar o Heat - embora seja um pouco perigoso. Deve ser suficiente que ele possa jogar na posição em que ele domina, como ala-pivô, constantemente em rede nacional, em televisões de todo o mundo, e possa mostrar para o público que pode ganhar alguns jogos por conta própria. Não tenho dúvidas de que vai surpreender muita gente, eventualmente sendo realmente melhor que Wade ou LeBron, e é apenas disso que ele precisa para reforçar sua auto-estima e colocar-se entre os grandes depois de tanto tempo exilado no Canadá. Ao contrário do que se imagina, ajuda muito o fato de que Miami não é um grande centro basquetebolístico e que Bosh terá mais chances de poder ir ao mercado comprar papel-higiênico - no Canadá ele podia andar de um lado para o outro sem problemas, ir ao shopping, ter uma vida comum (lembro até que o Matt Bonner, em seus tempos de Raptors, ia para o ginásio de trem). Fazer isso em New York seria impossível, em Chicago seria muito difícil, e tornou Miami ainda mais atraente.

Muito se fala sobre os três egos eventualmente acabarem implodindo Miami. Curiosamente, acho que o maior perigo está justamente no Bosh, que ainda sente que precisa se afirmar como jogador, provar quem ele é e o que sabe fazer. LeBron e Wade já são consagrados, amados-idolatrados-salve-salve, só lhes falta vencer (ou voltar a vencer). Quem pode exagerar a mão e exigir mais a bola, ou entrar em crise caso tenha que jogar de pivô, é o Bosh. Por sorte, seu comportamento em quadra sempre foi exemplar e silencioso. Não é um líder vocal, não fala com os companheiros, não dá ordens, não dá broncas, não pede a bola. Joga com uma seriedade que aprendeu com Kevin Garnett, joga cada vez mais defensivamente como seu grande ídolo do Celtics, e vai ser uma múmia em quadra enquanto LeBron grita e dança e Wade comanda o time no gogó. Os problemas podem aparecer apenas nos vestiários, e com o tempo. O essencial para evitar um desastre será um elenco que coloque um pivô ao lado de Bosh e um técnico que saiba colocar a bola em suas mãos, porque dificilmente ele irá pedir por ela sozinho.

Vamos falar mais sobre ele mais tarde, mas Erik Spoelstra é um excelente técnico, novo, descolado, disponibilizando os esquemas táticos do Heat para serem vistos em seus iPhones. Arma bem seus times, é excelente desenhando jogadas, sabe se comunicar bem especialmente com as novas gerações de jogadores (tem apenas 39 anos, é uma ninfeta), e saberá dividir bem a quantidade de tempo que a bola passará nas mãos de cada jogador. O curioso é que LeBron e Bosh tiveram dois dos piores técnicos da história da NBA: Sam Mitchell em Toronto e Mike Brown em Cleveland, então a dupla vai ter orgasmos múltiplos por ser treinada por um técnico de verdade. Pode até ser que o Pat Riley, um dos melhores técnicos de todos os tempos e atual engravatado-mór do Heat, assuma esse time. Mas a verdade é que sequer será necessário, e vai ser muito mais divertido ver essa molecada sendo treinada por um técnico moleque como eles. A felicidade de Bosh e sua participação nas jogadas de ataque está em boas mãos. Só falta agora ao Pat Riley arrumar um ou dois pivôs para quebrar um galho.

Seus tempos no Raptors lhe fizeram invisível para a maior parte dos torcedores, o que pode ser uma maravilha para caras como Kwame Brown e Darko Milicic (que não conseguem jogar sob pressão), mas foram prejudiciais para um jogador tão bom quanto Bosh. Sinceramente, acho ele o ponto mais importante desse novo Miami Heat e muita gente sequer percebe. Seu talento é absurdo, ele é de fato um dos melhores jogadores da NBA, se jogar fora do garrafão vai provar que chuta traseiros e deve ganhar muitos, muitos jogos dominando sozinho. Por outro lado, é nele que encontramos as maiores chances de descontentamento, seja por jogar de pivô (por enquanto o elenco não tem outro pivô), seja por não tocar na bola o bastante, já que ele sente ter muito a provar. Além disso, suas contusões são excessivamente constantes, uma fascite plantar adquirida com o excesso de tempo como pivô no Raptors deve perseguir-lhe por toda a carreira, e as maiores chances de contusão são suas. Aí está o ponte forte e o ponto fraco desse Miami: Chris Bosh é bom o bastante para deixar de ser invisível e se tornar um dos três reis, tão soberano quanto os outros, mas suas contusões e sua situação nos bastidores vão decidir se esse império cairá ou não.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Os reis - Parte 2: LeBron James

Começamos no Bola Presa uma série de 3 artigos sobre o novo Miami Heat. Cada um deles foca em um dos três jogadores que acabam de assinar com a equipe (LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh), analisando o que essa superequipe significa para cada um, para suas carreiras, e como decidiram tornar essa união possível. O primeiro artigo foi sobre Dwyane Wade e seu posto soberano no Heat. Abaixo, o segundo artigo aborda LeBron James, sua infância e as motivações e consequências de sua decisão de abandonar Cleveland.

Antes, LeBron James era obrigado a fazer amor com o lixo do Damon Jones

Ter um blog de basquete às vezes tem suas vantagens. Uma das coisas mais legais que o blog já rendeu foi um presente do nosso leitor Sandro Palma, que resolveu nos mandar, uns meses atrás, um DVD (de capinha personalizada) com o filme "More than a game", sobre o time de basquete de LeBron James no colegial. Para quem não conhece, vai o trailer do filme:



O documentário aborda uma série de aspectos de LeBron James com os quais não estamos acostumados. Ao invés de uma estrelinha com dinheiro nas orelhas e apaixonada por sua própria imagem, podemos ver uma criança pobre, criada apenas pela mãe, sendo obrigada a mudar de casa constantemente graças aos problemas financeiros. Seu maior desespero é ter que mudar de escola, conhecer novas pessoas, fazer novos amigos. LeBron foi uma criança solitária, carente de estabilidade. No basquete, encontrou ainda criança o pilar familiar que é uma equipe de basquete com um técnico apaixonado. Seus companheiros de equipe viraram seus melhores amigos, a ponto de todos eles abrirem mão da escola em que jogavam apenas para manter o núcleo unido quando o armador, nanico, conseguiu garantia de minutos de jogo apenas em outro colégio. Por trás do assédio monstruoso da imprensa, arquibancadas lotadas a ponto do time ter que mudar de ginásio, transmissão de jogos de um time colegial ao vivo na ESPN, garotas histéricas apaixonadas e a certeza de que em breve estaria na NBA, encontramos um LeBron focado em estar com seus amigos acima de tudo. Ele dá o seu melhor em quadra em nome do sonho de seus companheiros de time, do tempo gasto com eles, do objetivo que todos traçaram juntos por anos a fio. É fácil entender como todo o assédio, desde muito pequeno, fez com que LeBron achasse super normal ter uma câmera em sua cara, ser idolatrado e ter seus bagos lambidos diariamente. Todo mundo quer saber dele desde que seu primeiro pelinho pubiano nasceu, então para ele não há nada de bizarro em fazer um pronunciamento sobre onde irá jogar em rede nacional - ou mundial. Pro garoto miserável que escutou desde cedo que era o melhor jogador do planeta, não há outro caminho que não um ego do tamanho do Eddy Curry, mas o documentário mostra claramente como nada disso jamais ficou maior do que seu carinho pela equipe, pela sua família em quadra, e do que seu comprometimento com o objetivo do time: vencer o campeonato. Quem acha que o LeBron se masturba vendo as próprias estatísticas precisa assistir ao filme e ver seu comprometimento com seus amigos. O basquete parece apenas desculpa para poder criar laços, tipo o gordinho que fuma para ter amigos. Calhou apenas do LeBron ser bom demais nisso.

Quando chegou na NBA, LeBron estava num beco sem saída: por um lado, seu time fedia, o elenco era terrível, e ele havia sido draftado para salvar a franquia de uma longa maldição de derrotas; por outro lado, LeBron vinha de um costume de envolver seus companheiros, passar a bola, colocar seus amigos em condições de pontuar. Era preciso dominar os jogos, cravar seu lugar como líder da equipe, assumir a responsabilidade, mas sem matar a coletividade e os laços que sempre foram essenciais no jogo de LeBron no colegial. Seu discurso sempre foi de que ele estava lá pelo time, que o mais importante de tudo é o time, que ele está disposto a se sacrificar pelo time. Mas encontrar o equilíbrio entre jogar pela equipe e dominar os jogos sozinho sempre foi um percurso cheio de altos e baixos. No começo da carreira na NBA, passava muito a bola em jogadas decisivas. Em alguns momentos, era o passe certo a se fazer - mas encontrava, livre, algum jogador mequetrefe que nunca deveria estar decidindo uma partida. Desconcertadas, as pessoas criticavam LeBron duramente porque não era assim que Jordan, Kobe e os grandes jogavam, ele estava amarelando. Levou um tempo para que ignorasse os companheiros e resolvesse os jogos sozinho, como fez tantas vezes nos playoffs - como bem sabem os torcedores do Wizards e do Pistons, por exemplo. Mas também ousou colocar uma bola decisiva cirurgicamente nas mãos de um zé-ninguém como o Damon Jones, que por acaso deu certo, mas se tivesse dado errado ele seria novamente o amarelão que não decide jogos e apostou num jogador que fede muito. Já foi criticado por tentar vencer sozinho, forçar o jogo, e já foi crucificado por em jogos decisivos insistir em acionar os companheiros quando ninguém queria jogar, sobrando para o Varejão (e suas duas mãos esquerdas) arremessar bolas importantes. Já disse por aqui que jogadores como Kobe e LeBron não podem vencer, serão sempre criticados tanto pela individualidade quanto pelo jogo coletivo, mas para LeBron essa questão sempre foi mais dolorosa justamente por seu tempo de colegial. Ele quer jogar pela equipe, pelos seus amigos, não quer ficar monopolizando ou decidindo sempre o jogo. A NBA, como sempre, lhe fez à imagem e semelhança dos outros jogadores, dos outros grandes do passado, dos anseios dos fãs por uma reprise, um "revival", uma nostalgia.

De modo algum podemos afirmar que não existe ego. Desde o colegial, dizem ao LeBron que ele é deus, que pode andar sobre a água e multiplicar pães, e quando repetem muito qualquer coisa, fica difícil não acreditar. Por isso tem gente de saco cheio de tanta babação de ovo, indignada que o LeBron não seja tão bom (afinal ele não curou a AIDS ainda nem acabou com a fome na África), que ele fique cantando durante os jogos, que ele tire sarro, se ache o máximo nas entrevistas, tome decisões em rede nacional. Acham que ele é pura imagem, fazendo aquelas micagens de circo se fingindo de fotógrafo durante o aquecimento dos jogos, quando seus companheiros de equipe fazem poses engraçadinhas e o LeBron comanda a festa com uma câmera imaginária nas mãos. De fato, essa geração é fascinada pela imagem - especialmente a própria imagem. Ela é também uma geração mais descontraída, brincalhona, desbocada. Mas LeBron parece mais interessado no conceito de estar entre amigos numa quadra de basquete. Relatos sobre suas ações nos bastidores, nos vestiários, são de um jogador tirador de sarro que trata todo mundo como família, leva pra casa, convida pra jantar com a esposa. Ele é mais irmão do que líder e sempre deixou claro que se divertia em quadra ao lado dos companheiros.

É fácil entender o motivo de sua estadia em Cleveland ter terminado. O jogador individualista e narcisista que alguns enxergam está, na verdade, de saco cheio da pressão brutal de ter que decidir e ser criticado por qualquer postura que tomar em quadra. Mesmo com um elenco decente, o Cavs sempre foi claramente um projeto mal feito de feira de ciências. Desde a chegada do LeBron ao time, sempre apontamos que os engravatados do Cavs estavam dispostos a fazer qualquer troca para mostrar serviço, mesmo que essa troca não fizesse nenhum sentido. Algumas deram improvavelmente certo, como a do Mo Williams, outras deram muito errado, como a do Jamison, mas no fundo nenhuma delas fazia muito sentido lógico. O time foi montado com peças aleatórias que se encaixavam como dava, com um dos piores técnicos da NBA, e LeBron precisava resolver sozinho para vencer, correndo o risco de ignorar o elenco, ou então envolver os outros jogadores e perceber que todos preferiam que LeBron tivesse segurado a bola e arremessado sozinho. Ele quer alguém pra passar a bola, alguém para dar a assistência para a última bola ao invés de ter que arremessar sempre, quer confiar nos companheiros, e mais: quer ser melhor amigo dos companheiros de equipe, recriar seu time de colegial, resgatar seu estilo de jogo coletivo, se divertir com seus 'familiares" em quadra. Assim, o destino do Cavs foi traçado na falta de um plano para o futuro que pensasse em atrair e assinar estrelas e liberar espaço salarial ao invés de fazer trocas das mais diversas, aleatórias. Também foi traçado em 2008, quando LeBron foi campeão olímpico.

A seleção dos Estados Unidos tinha LeBron, Wade e Bosh, uma rara oportunidade dos três jogarem em uma equipe com talento. Ficou bem claro que os três adoraram a oportunidade, com o Wade inclusive topando vir do banco de reservas já que o talento transbordava em todas as posições. Mas fora das quadras as coisas funcionavam ainda melhor. Wade e LeBron já eram grandes amigos desde que se conheceram pouco antes do draft em 2003, trocando suas experiências de novatos sempre que podiam. Em 2006, já iam na casa um do outro (e ao cinema) todas as vezes em que suas equipes se enfrentavam. Só que nas Olimpíadas, passando mais tempo juntos, viram que suas afinidades eram ainda maiores no ambiente de trabalho. Começaram aí a perceber quão legal pode ser jogar ao lado de grandes jogadores, e quão legal é jogar com melhores amigos. Como Wade e LeBron estão entre os 5 melhores da NBA (talvez entre os três?), jogar juntos dá conta dos dois fetiches ao mesmo tempo. Como o Cavs, em toda sua falta de planejamento, poderia lidar com isso? Tanto LeBron quanto Wade assinaram extensões menores de contrato, típico de jogadores em times perdedores, que não querem arriscar ter que ficar na merda sem motivo. Foi o acaso que fez os dois estarem em times que não ganharam nada, em que seus esforços individuais tiveram resultados limitados e duramente criticados. Foi o bom senso que fez LeBron, desejoso de passar a bola para amigos, e Wade, o cara que topa vir do banco na seleção americana, pensarem em jogar juntos.

Jogar ao lado de duas grandes estrelas, dizem, diminuirá o impacto de LeBron nos jogos e, portanto, na história. Ele não será tão grande se não vencer sozinho. São visões bastante limitadas do que são os grandes jogadores e de como eles vencem campeonatos, claro, a lavagem cerebral dos anos 80 e 90 foi bastante forte. Basta voltar ao documentário "More than a game", ao colegial de LeBron, para ver que suas prioridades são outras. Ele quer ser o melhor jogador de todos os tempos, fato, mas nunca quis fazer isso sozinho. Seu estilo de jogo é outro. Vai se colocar na história como um vencedor, caso a junção com Bosh e Wade dê certo, e deixar para os chatos decidirem se foi apelação ou não, se vale ter ajuda ou não. Enquanto isso, estará finalmente de volta ao seu estilo de jogo ideal, ao modo como gosta de conduzir as partidas, a uma quadra com seus melhores amigos. Laços familiares são mais importantes para o LeBron do que tentar vencer sozinho batendo a cabeça em Cleveland - a cidade que caiu matando quando ele perdeu nos playoffs porque se negou a "dominar sozinho" e começou a passar para o lado. A cidade que vaiou duramente uma apresentação de LeBron que fechou a temporada com um triple-double.

LeBron e Wade queriam jogar juntos, mas precisavam encontrar um lugar em que isso fosse possível. Wade e Bosh já estavam, por sua vez, decididos a estar no mesmo time. Então foi apenas o caso de ver se acomodar os três salários seria possível em algum lugar, ou se teriam que deixar o sonho para outra ocasião. Quando Pat Riley se encontrou com LeBron e lhe ofereceu tratamento especial no ginásio para seus amigos (lugares, comidas, livre acesso, tudo como tinham em Cleveland) além de vagas de emprego para familiares e amigos mais próximos, ficou claro que o lugar ideal era Miami. LeBron estaria ajudando amigos dentro e fora das quadras, estreitando laços, tirando a pressão de seus ombros e voltando à sua zona de conforto em quadra, que ele perdera desde seus tempos de colegial.

Para LeBron e para Wade, a união faz muito sentido. Achar que LeBron não se encaixará nessa equipe é beber demais em preconceitos e não lembrar de como ele era ao chegar na NBA, antes de ser duramente forçado a assumir um papel que nunca lhe pareceu confortável. Podemos esperar um aumento grande de sua média de assistências, talvez até de rebotes, e ele estará mais perto do que nunca de uma média de triple-double na temporada. Desequilibrante. Esse é o único problema da decisão de LeBron, Wade e Bosh, ela desequilibra o jogo. No dia 1o de abril de 2006, Heat e Cavs se enfrentaram: LeBron terminou o jogo com 47 pontos, 12 rebotes e 9 assistências, enquanto Wade teve 44 pontos, 8 rebotes e 9 assistências. O quarto período foi sensacional, com LeBron marcando 16 e Wade marcando 21. Os dois estavam nitidamente num negócio deles lá, muito pessoal, rindo das cestas um do outro, se desafiando a fazer os pontos mais impossíveis, a meter mais bolas de três, a dominar mais o jogo. Duas das atuações mais impressionantes que eu já vi foram essas, uma contra a outra, justamente porque estavam se forçando a superar o outro. Um grande jogador obriga o adversário a ser ainda melhor, e no caso dos melhores da NBA, essa melhora forçada parece não ter teto, parece ser possivelmente infinita. É como se LeBron fosse o Goku e cada combate obrigasse ele a ser ainda melhor, lhe desse cada vez mais possibilidades de ser um super sayajin. É triste saber que os dois estarão agora do mesmo lado, principalmente por isso: além de não se forçarem a melhorar, de não haver o confronto que os levou tão além de seus limites com o passar dos anos, também veremos um time forte demais e que pouco sofrerá com a maioria das outras equipes da NBA. Será incrível ver o entrosamento do trio, mas perderemos grande parte dos melhores confrontos, dos embates pessoais, das partidas com dois malucos tendo que fazer mais de 40 pontos por uma chance de vitória. O Goku vence um adversário e faz questão de deixá-lo vivo para que volte depois ainda mais forte e seja um desafio ainda maior, mas não dá pra culpar uns coitados (que jogam 82 partidas no mínimo por temporada) por quererem diminuir ao máximo o desafio que enfrentam. Uma hora pode ficar fácil demais, aí eles vão jogar baseball, mas depois de tanto esforço em vão, eles querem mais é que os próximos anos sejam bem facinhos. Não serão, ainda existem equipes que podem bater de frente com o Heat, mas LeBron será espetacular num esquema tático real, com técnico de verdade, em que possa passar a bola com a frequência que ele gostaria de ter feito desde que chegou à NBA, quando jogava de PG e sequer tinha a quem servir no time. Dependendo das circunstâncias, pode jogar de armador principal por boa parte dos jogos outra vez sem nenhum problema. O que não veremos, no entanto, serão mais jogos em que fará 47 pontos com o Wade marcando 44. Por sorte, podemos ver esse confronto dos dois em 2006 no YouTube, que tem todo o quarto período para assistir. A primeira das quatro partes desse vídeo dá pra ver abaixo:



Ainda em 2006, quando o Cavs saiu dos playoffs, LeBron afirmou categoricamente: "Se há um cara que eu quero ver ganhando um anel de campeão, além de mim mesmo, é o Dwyane Wade". A relação sempre foi de carinho e admiração. Entraram na NBA juntos, com posturas parecidas em quadra, egos gigantes que não influenciam o modo de jogar, bom humor, e talentos absurdos. É difícil pensar em outra dupla tão forte na história da NBA, e com o diferencial de serem melhores amigos, estarem loucos para jogar juntos, terem feito isso por conta própria e não necessidade, troca, obrigação ou desespero de fim de carreira. Outros supertimes já foram montados, mas nunca - nunca mesmo - com estrelas desse naipe no auge de suas carreiras. LeBron sonha com isso desde seus tempos de moleque, na sua cidade natal, quando abriu mão de sua escola e foi jogar numa de branquelos metidos a riquinhos apenas para ajudar um amigo. Na final da NBA, continuará passando a bola - mas dessa vez não será para Varejão ou um Jamison que, diabos, se nega a arremessar. Na dupla, os dois poderão decidir. E isso porque sequer estamos falando de Bosh, também em seu auge, também entre os 10 melhores, também lá por escolha própria. São três reinando nisso, com tudo para deixar os egos fora da quadra. Mas do Bosh trataremos amanhã, para fechar essa trilogia.

domingo, 11 de julho de 2010

Os reis - Parte 1: Dwyane Wade

A partir de hoje, o Bola Presa coloca no ar uma série de 3 artigos sobre o novo Miami Heat. Cada um deles será focado em um dos três jogadores que acabam de assinar com a equipe (LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh), analisando o que essa superequipe significa para cada um deles, para suas carreiras e como decidiram tornar essa união possível. O primeiro artigo, abaixo, trata da estrela que começou no Miami Heat e que apenas recebe seus coleguinhas em sua casa para brincar: Dwyane Wade.

Não é propaganda de cerveja: Wade será, realmente, o número 1 em Miami

 Da expecional turma de draftados de 2003, amplamente considerada a melhor da história, Darko Milicic foi o primeiro a ganhar um anel de campeão. Não entrava em quadra, ficava no banco de reservas com seu cabelo descolorido não entendendo uma palavra daquela língua estranha que se fala nos Estados Unidos, mas foi campeão graças à incrível equipe do Detroit Pistons que sequer precisava de um novato draftado com a segunda escolha para vencer. Mas dentre os mamíferos bípedes jogadores de basquete capazes de levantar os braços e segurar uma bola, o primeiro a ganhar um anel foi Dwyane Wade. O Heat da temporada 2005-06 tinha Shaquille O'Neal chutando traseiros, um par de veteranos com um pé na cova apenas pegando carona na brincadeira para ganhar um título, e uma série de outros tapa-buracos bastante limitados. Era uma equipe no fundo bastante mais-ou-menos, numa conferência Leste fragilizada, encontrando as condições ideias para sagrar-se vencedora. O engravatado David Stern estava em pânico com a queda constante dos placaras da NBA e a queda de audiência que a disseminação da febre "vamos defender como o Detroit Pistons e ter tanto carisma quanto o Tim Duncan" trazia para a liga. Com isso, o Miami Heat encontrou em sua trajetória para o título novas regras de arbitragem que favoreciam muito, aleatoriamente, o estilo de jogo de Dwyane Wade. Seu talento inegável carregou o Heat nas costas durante os playoffs, mas a estranheza das novas regras (que marcavam falta em qualquer contato, tentando inflar os placares do esporte através da cobrança de lances livres) fez com que muitos lidassem com desdém às apresentações de Wade. Seu título tem um asterisco do lado para todos aqueles que tiveram queimada em suas retinas a figura de Wade cobrando lances livres. Quando eu fecho os olhos no quarto, à noite, ainda posso vê-lo cobrando alguns.

Não houve oportunidade para que o Wade pudesse provar que o anel de campeão foi devido aos seus próprios méritos, e não um presente de Natal do David Stern que lhe caiu no colo. Logo na temporada seguinte Shaq já estava em declínio acelerado enquanto o ombro de Wade exigia cirurgia - que, aliás, foi adiada para que pudesse jogar os playoffs apesar das dores e da limitação de movimentos. Tomaram uma varrida de 4 a 0 e o Wade foi direto para o hospital. Na temporada posterior, o time só piorava, Shaq foi mandado às favas, Wade passou a sentir - além do ombro - uma grave lesão no joelho, e frente ao desastre completo decidiram poupar o Dwyane pelos últimos 20 jogos da temporada. É o famoso "pisou na merda, abre os dedos": já que não tinha como salvar a temporada, era melhor jogá-la fora para conseguir uma escolha melhor de draft. Aquela famigerada tática do "perca por LeBron" que o Cavs usou em 2002-03.

A queda do Heat foi muito repentina, sintoma clássico de um time que se junta aleatoriamente, com um monte de veteranos em fim de carreira, apenas para tentar ganhar um título. A pirralhada perde espaço e de repente todo mundo se aposenta, vai para o bingo ou simplesmente morre, e aí o time está acabado, hora de começar tudo de novo. Sobrou para o Dwyane Wade, portanto, jogar numa equipe em reconstrução - algo que acontece com a maioria dos jogadores escolhidos no topo do draft, mas que para Wade veio tardiamente. Depois dele já ter ganhado seu primeiro anel de campeão.

Dizem que sexo é um troço fácil de viver sem, dá pra passar umas duas décadas sem trepar numa boa, mas depois que você faz a primeira vez, fica difícil passar tanto tempo afastado. O tempo sozinho parece mais amargo, dar "uns beijinhos" parece mais sem graça. É como viver num mundo de Priscilas Fantin (bonitinha) depois de ter conhecido a Alinne Moraes (espetacular). Tudo ganha uma nova proporção. Portanto, a situação do Dwyane Wade tornou-se bastante complicada. Enquanto o LeBron James passou muitas de suas primeiras temporadas jogando com elencos risíveis e "estava tudo bem" porque havia acabado de chegar na NBA, para o Wade não dava para ter um elenco com Chris Quinn e Mark Blount depois de já ter sido campeão. Para piorar, suas lesões e a temporada abandonada do Heat tiraram rapidamente Wade da mídia, seu título de campeão já estava enterrado na fama de "ajuda da arbitragem" e LeBron e Carmelo, colegas de draft, ganhavam mais e mais destaque. Algo precisava ser feito.

Depois de ir pra faca para recuperar tanto o ombro quanto o joelho, Wade iniciou um processo de reabilitação com Tim Grover, um guru de treinamentos porreta para jogadores da NBA. A intenção era que Wade estivesse em plena forma física para defender a seleção americana nas Olimpíadas de 2008 e provar que estava de volta ao grupo dos grandes. Tim Grover pediu 6 semanas, então Wade lhe deu 8 semanas de trabalhos ininterruptos. A princípio, seu nome estava na equipe mais pela fé do técnico Mike Krzyzewski, mas quando os jogos começaram, Wade mostrou que era o jogador em melhor forma física, jogando com mais vontade, e terminou o torneio como cestinha - sem falar de campeão olímpico. Foi amplamente apontado como um dos maiores responsáveis pela medalha de ouro. No mesmo ritmo, começou a temporada da NBA jogando um absurdo. Não tenho nenhuma dúvida de que a temporada 2008-09 do Dwyane Wade foi a melhor temporada que eu já vi ser jogada por qualquer jogador da NBA em toda minha vida. Seu jogo evoluiu com uma velocidade digna de Pokémon, tornou-se um dos melhores e mais explosivos defensores da liga, ganhou um arremesso consistente da linha de 3 pontos e quebrou recordes absurdos: foi o primeiro jogador da história a conseguir, em uma temporada, acumular 2000 pontos, 500 assistências, 100 tocos e 100 roubos de bola. Alguém tem ideia do que significa o Wade, de repente, aparecer e dar mais de 100 tocos numa temporada? Foi o cestinha da temporada e teve médias de 30 pontos, 5 rebotes, 7.5 assistências, 2.2 roubos e bizarros 1.3 tocos por jogo. A temporada mais destruidora que já presenciei. Mas seu time era uma merda completa, terminou apenas em quinto do Leste, e aqueles critérios bizarros para elever MVP nem consideraram o Wade para a disputa, falando apenas de Kobe e LeBron. Sua temporada inesquecível rapidamente virou farofa quando o Heat foi eliminado na primeira rodada dos playoffs de novo, mas dessa vez para o Hawks, que nem é um time de verdade.

Todo mundo sabe que o Wade é um jogador espetacular, especial, um dos melhores de sua geração. Mas não há muita consciência por aí de quão bom ele realmente é. Culpa de uma série de critérios, arbitrários e construídos, que impomos sem pensar à nossa fruição dos jogadores. Fazendo cara de sábios, com sotaque de mestre de kung-fu, dizemos que um verdadeiro grande jogador é aquele que vence, que leva seus companheiros à vitória não importando as circunstâncias. Mas aí, em nossa burrice Luciana Gimenes, fingimos não ver que uma série enorme de fatores decidem se uma vitória é possível: a qualidade do elenco, a dificuldade de sua Conferência, as regras que David Stern impõe para os juízes, a sorte na hora dos jogos e até mesmo na hora de ver quais adversários lhe enfrentarão (prefiro pegar o Mavs em uma final do que qualquer outro time da NBA!). Kevin Garnett não foi capaz de vencer quando esteve no Wolves, enfrentando as terríveis dificuldades de elencos limitados, e por isso não será valorizado. A temporada mística do Wade, em que ele despertou seu Sétimo Sentido, também foi facilmente esquecida porque não resultou em uma longa campanha nos playoffs. Mas aquele Heat era simplesmente um dos piores elencos que já presenciei.

Da mesma forma, o título do Wade é (assim como acontece com Kobe) diminuído pela ajuda de Shaq, por não ser conseguido no próprio suor, e falamos isso depois de duas cervejas quando nem lembramos mais que, 5 minutos antes, dizíamos que o basquete é um esporte coletivo em que a grande estrela deve saber depender de todo mundo. Só existe uma solução possível para essa besteira, e Garnett apontou muito bem após seu título no Celtics: vencer. Vencer rápido, enquanto há tempo. Deixar de lado esses conceitos de "lealdade à equipe e à cidade" quando na verdade você só está sendo usado por uma empresa e tomando porrada de todos os críticos que sugam os melhores anos de sua vida enquanto você não consgue vitórias. Ir para a melhor situação possível para vencer e fazer sua parte lá, tendo ao menos as condições necessárias para se provar, para saber que seu esforço é em direção a algo possível, plausível. O arrependimento de Garnett por ter ficado no Wolves é enorme, e com razão: ele gastou os melhores anos de sua carreira perseguindo algo impraticável, dando o seu melhor, sendo espetacular, e sendo cuspido pelas pessoas que lhe chamavam de fracassado. No Celtics, não joga um décimo do que jogava, mas é herói. Ouça bem: corra para a melhor situação possível, em que seus esforços possam ser recompensados, em que você não vá ficar apenas batendo a cabeça na parede. A vida é curta. Esse foi o conselho de Garnett a LeBron James.

Mas quem ouviu direitinho, e parecia ter entendido tudo isso mesmo antes de Garnett abrir a boca, foi Dwyane Wade. Pat Riley tentou por muito tempo negociar extensões de contrato com Wade, mas o armador do Heat sempre bateu o pé: só ficaria se houvesse a confirmação de que não estaria lá sozinho perdendo seu tempo. Ninguém quer que a vitória caia no colo, mas todo mundo quer estar na situação em que seu esforço possa lhe alcançar o objetivo, mesmo que ele não venha. Wade deixou claro que iria embora se não houvessem outras estrelas para ajudar. Foi por isso que encerrou seu contrato, o Heat não tinha ninguém, é um elenco pelado, e os esforços do Wade em quadra são cada vez mais inúteis e, por isso, cada vez mais ignorados pelos fãs e pela mídia. Quem é Wade? Deixa pra lá, vamos falar de Kobe, Paul Pierce, ou até daquele tal de Joe Johnson.

Dwyane Wade nunca disse que queria dominar, que queria um time para si. Aceitou a chegada de Shaquille O'Neal ao time com referência e humildade. Foi secundário no elenco frente ao pivô e começou a ganhar os jogos de mansinho, até que os playoffs fossem inteiramente responsabilidade de Wade e Shaq fosse apenas um cara velho - e largo. Na seleção dos Estados Unidos, agradeceu com humildade ao técnico Mike Krzyzewski por ter "acreditado nele", como se fosse difícil acreditar num dos melhores jogadores do planeta. Sabia que era apenas parte de um grupo e, pior, era apenas a parte que merecia menos crédito ou consideração, vinha de contusão, estava lá "de favor". E ganhou as Olimpíadas na maciota, quando a maioria das pessoas sequer estava olhando para ele.

O Wade já foi campeão, ele não é mais virgem de anéis. Também não tem na parede um poster do Jordan que ele olha todos os dias para superá-lo um dia. Quer apenas ser campeão, e exige ajuda para isso. Cobrou estrelas exaustivamente. Se Kobe tem Gasol eu quero um troço ainda melhor, deve ficar pensando. Sua vontade de vencer pareceu sempre desatrelada da vontade de ter um time só seu. Ele não pedia para Pat Riley um elenco mais sólido, um banco de reservas. Ele queria estrelas, queria os melhores jogadores possíveis do seu lado, e o Pat Riley dizia que era impossível. Quando o Gasol foi para o Lakers, o Wade exigiu explicações do Riley, como é que tinha acontecido? Temos uma mania de achar que o grande jogador tem que vencer com um time sólido mas mais-ou-menos, que Jordan venceu com uns caras quebra-galho. Bah, aquilo era tudo menos quebra-galho. Aquilo chutava traseiros. E ao invés de bater a cabeça na parede, Wade quer também.

Kobe sempre se isolou muito do resto da NBA. Sua paixão pelo basquete é, como costumamos dizer por aqui, uma paixão nerd. Ele estuda, analisa, treina, só fala disso, se tranca no quarto, passou as primeiras temporadas no Lakers sem nenhum amigo, o dia inteiro na cama lendo a Bíblia. Está se soltando agora, entendendo que precisa ser amigo dos companheiros de equipe, se arrependendo de ter pedido para se livrar de Shaq apenas para provar que podia, que chutaria o bumbum do Jordan. Agora, ganha o anel "sozinho" ao lado de Gasol, Artest, Bynum, gente que seria vencedor em qualquer outro lugar. Mas é importante ver como esse Kobe descontraído, solidário, ganhador, é de uma geração diferente da de Wade, LeBron e Bosh, que são brincalhões, falantes, palhaços, e tem seus egos lá nas nuvens mas de um modo bem diferente. Eles não querem ser melhores que Jordan, eles querem ser melhores que o chato do Kobe, algo palpável que dá pra tentar ser nos trocentos jogos de cada temporada. Não caçam monstros imaginários. Se acham fodões, claro, mas querem mais é vencer, ter grandes estrelas do lado, criar dinastias. Eles tem afinidades entre si, fazem piadas juntos, devem ter assistido aos mesmos desenhos na TV quando eram crianças.

O Wade já sabia há algum tempo que o Bosh iria jogar com ele, sabiam que poderiam colocar a amizade em prática nas quadras, só não sabiam onde. Vamos para o Knicks, vamos para o Bulls? O Bosh que disse que era bom o bastante para ser a base de um time e não um cara secundário, o Wade que voltou mordido para ter a melhor temporada de todos os tempos porque não estavam mais falando dele. Não falta ego. Mas essa geração representada por Wade tem uma postura diferente com relação ao basquete e à vida: aquilo que Garnett aprendeu depois de uma vida sofrida, aquilo que Kobe aprendeu depois de duas temporadas sofridas, essa geração já sabe agora. Quer vencer já. Essa consciência que sempre precisou ser construída em times que vão sendo montados aos poucos através de trocas, reclamações, propostas, derrotas, jogadores que não tem nada a ver uns com os outros mas que precisam aprender a jogar juntos, já está em Wade e Bosh porque foram eles que decidiram montar esse time. Ao invés de um Frankstein sofrido, como é o Celtics, fizeram um robô gigante por livre e espontânea vontade.

Durante o período em que viajaram para se encontrar com os times e decidir onde assinar, Wade e Bosh jantaram juntos várias vezes. Sabiam que jogariam juntos e só decidiam onde, ou seja, são um time montado e escolhido pelos jogadores, não pelos engravatados. A mesma coisa aconteceu com LeBron. Esse não é um time forjado a ferro e fogo, que precisa aprender na marra que uma hora, eventualmente, é importante vencer e você precisa tolerar as outras estrelas e o mal hálito do Garnett. Não. Eles já sabem que o importante é vencer - LeBron e Bosh tem motivos específicos para isso, que trataremos depois, mas Wade sabe porque já venceu antes e conhece o limbo que espera a todos fora disso. Ninguém vai ter que aturar ninguém, trocar ninguém, controlar ego de ninguém. Eles escolheram isso. Wade é o anfitrião, recebe dois de seus melhores amigos de longa data (são amiguinhos próximos desde 2003), então vai ser o número 1, o favorito da torcida, a cara do elenco, o dono da brincadeira. Mas, como sempre, vai dominar os jogos e vencer as partidas de mansinho, sem que ninguém sequer perceba. Mas agora, se tiver uma temporada como em 2008-09, vão se lembrar. Todos vão se lembrar.

Precisamos jogar fora essas perguntas de quem vai ser o líder, quem vai segurar a bola, se os egos vão se chocar. Está bem claro que essa geração tem outras prioridades, outro senso de valor, e egos nas alturas naquilo que trata com mídia e imagem, não naquilo que trata da quadra de basquete. Vamos jogar fora nossos conceitos velhos da época do Jordan, da inflação desenfreada, do Jaspion. Wade tem um ego do tamanho do mundo mas é mais sensato do que os que vieram antes dele: vencer é a única solução. E ao invés de ter que se encaixar num time, de esperar trocas aleatórias, de conhecer os novos membros do elenco, que tal jogar com dois dos seus melhores amigos? O Wade bateu o pé porque não queria ficar mais longe do título, era isso que lhe importava, e ele deve voltar aos anéis de campeão bem cedo, simples assim. A nova geração é mais simples e direta. Vai ser também mais vencedora. Ao invés de um rei e vários súditos, eles podem ser todos reis. Há espaço para todos esses egos no mundo do Twitter. Nosso mundo, o da imagem, da aparência, da propaganda pessoal digital, é cheio de umbigos inflados - e todos eles se adicionam, se seguem, se deixam scrap, se retweetam uns aos outros.