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sábado, 2 de abril de 2011

Uma ausência improvável

"Quem faz essa defesa funcionar levanta a mão!"

Que o Celtics ia se lascar com a troca do Perkins, meio que todo mundo sabia. Era até bastante óbvio. Mesmo os mais esperançosos e fãs mais fanáticos sabiam que o time iria passar por maus bocados até se acostumar com a mudança do elenco e até ter todos os jogadores saudáveis. O que ninguém esperava, no entanto, é que a troca fizesse o Celtics se embananar todo na parte ofensiva, não na parte defensiva. Nada na NBA acontece como a gente espera, mesmo quando acertamos que uma equipe vai feder acabamos errando o modo como isso acontece. Ué, o Perkins não era o pilar defensivo da equipe e um zero à esquerda no ataque?

Antes da troca, o Celtics tinha uma campanha absurdamente impecável: eram 41 vitórias e apenas 14 derrotas. Depois da troca, os números são bem menos bacanudos: 11 vitórias e 9 derrotas. Mas é preciso lembrar que a campanha fantástica antes da troca tem pouquíssimo a ver com o Perkins, que jogou apenas 12 partidas pelo Celtics nessa temporada graças a uma séria lesão - e venceu oito delas. Isso quer dizer que sem o Perkins, o Celtics venceu antes da troca 29 jogos e perdeu 10, aproveitamento muito maior do que está tendo agora. Já é o bastante para compreender que a atual fase capenga da equipe de Boston não pode ser explicada simplesmente com a saída do Perkins, o buraco é bem mais embaixo - e passa principalmente pela parte ofensiva.

No famoso post sobre novas estatísticas que o Denis publicou uns tempos atrás (famoso pra mim, que cito ele o tempo inteiro), podemos ver que o impacto do Kendrick Perkins em quadra se concentra em algo muito específico: ele é um dos melhores na NBA em impedir pontos bem próximos ao aro, forçando um péssimo aproveitamento aos adversários e comete poucas faltas enquanto isso. Há também aquilo que os números não mostram: o Perkins sabe quando pegar pesado, não permite cestas fáceis, e não tem receio de descer o braço e mandar alguém para a linha de lances livres quando necessário. Ele é uma parede de tijolos,  tem os sentimentos de um matador de aluguel, é muito obediente taticamente e nunca, nunca, nunca erra uma rotação defensiva. Como o Denis indicou em seu post sobre o novo Thunder, essas qualidades do Perkins que não aparecem nos números são capazes de transformar uma equipe e estão tornando os jogadores ao seu redor, como o Serge Ibaka, muito mais eficientes defensivamente.

Mas o Celtics não depende de um jogador só. É, sem dúvida, uma das melhores defesas coletivas da NBA. Trata-se de um andróide fantástico: a cabeça é do Tom Thibodeau, o gênio que acabou de transformar o Bulls na melhor defesa da liga, e o coração é do Kevin Garnett, que bebe o sangue de criancinhas vietnamitas e palita os dentes com os ossos dos adversários. Com a base dos dois, todo o resto do elenco se aplica, obedece e mantém o esquema funcionando, mesmo quando alguns jogadores frágeis defensivamente estão em quadra (Glen Davis, estou olhando pra você). Essa coletividade na defesa e poder do esquema tático são os responsáveis por manter os números defensivos do Celtics idênticos antes e depois da troca do Perkins. Nos números, nada mudou. O Perkins levou suas qualidades e aquilo que aprendeu com o Garnett para o Thunder, mas no Celtics os outros jogadores podem manter o esquema funcionando sem ele. Mas o ponto é: a que custo?

Sem Jermaine O'Neal e Shaquille O'Neal (que não, não são irmãos), o tamanho do Celtics cai muito. Quando Glen Davis ou Nenad Kristic estão em quadra, o time perde em tamanho e em poder defensivo, porque o forte dos dois é o ataque. Então a defesa se mantém na base do comprometimento e do esforço. Kevin Garnett sempre insistiu que o Celtics não precisa perder um segundo sequer se preocupando com movimentações ofensivas, que eles são bons o bastante para improvisar qualquer merda e que os pontos surgem com facilidade quando a defesa faz sua parte (aliás, esse discurso pode ser considerado o fundador indireto do novo Miami Heat, mas isso é outro história). Então, para o ataque funcionar, o Celtics precisa manter a defesa funcionando de modo impecável mesmo com jogadores menores, mais leves, mais lentos, mais mongolóides, o que for. Kevin Garnett precisa aumentar os esforços no garrafão e na cobertura, Paul Pierce precisa apertar as coisas no perímetro. Se os números defensivos estão idênticos, é porque o esforço está dando certo e a defesa se mantém nos moldes de antes. Mas como resultado, Garnett e Pierce em especial se desgastam muito mais durante os jogos, os adversários atacam mais a cesta, é preciso colapsar a defesa para o garrafão e depois correr pra cobrir o perímetro, e todo mundo se cansa pra burro com esse tipo de coisa. Antes, o Perkins intimidava muita gente como apenas tijolos conseguiriam, agora não tem mais isso. No ataque, por isso, o Celtics anda jogando bem mais devagar - e até os contra-ataques ficam prejudicados pela falta de pulmão e pela mudança na defesa, que é quem inicia o contra-ataque. Em matéria de eficiência a defesa é a mesma, mas em matéria de posicionamento, confiança, esforço, rebotes e contra-ataques, o Celtics é uma equipe bastante diferente.

Todos os números ofensivos da equipe caíram, e alguns outros fatores ajudam nessa queda. O Celtics é um asilo de velhinhos, então é normal que mais esforço na defesa signifique que a bateria da equipe acaba mais rápido, mas também tem o fato do Rajon Rondo estar jogando lesionado (com questões no tornozelo e uma lesão mais preocupante na sola do pé), e da falta de pivôs significar menos rebotes de ataque e defesa adversária mais focada nos arremessadores. Garnett, Pierce, Ray Allen e Rajon Rondo estão estatisticamente bem piores no ataque, e o banco de reservas é ainda pior. Jeff Green veio para a equipe para defender alas de força mais baixos, mas anda sendo pouco usado graças ao problema de altura que assola a equipe e à sua dificuldade atual no ataque. Carlos Arroyo sabe chamar as jogadas, é bom moço, mas quem viu ele jogando no Heat sabe que ele não acerta arremessos nem quando está completamente sozinho em casa, com bolinhas de papel. Delonte West está voltando agora sem ritmo e nunca foi grande pontuador, Troy Murphy está lesionado e fora de forma. Glen Davis, que sempre foi uma força ofensiva vindo do banco, volta e meia tem que estar entre os titulares - e mesmo com os reservas anda sofrendo com a falta de altura da equipe e jogando cada vez mais longe do garrafão, pouco acionado, forçando arremessos idiotas.

Quer saber de uma coisa? A troca do Perkins foi uma cagada, mexeu com a defesa do Celtics, mas não é nada que Garnett não consiga arrumar no grito. O cansaço da equipe, que está morrendo com a língua pra fora, vai melhorar muito quando Jermaine O'Neal ganhar ritmo e o Shaquille O'Neal voltar às quadras já na semana que vem. Mesmo numa fase tão ruim, perdendo até pro Hawks que nem é um time de verdade ontem, a equipe consegue ainda assim ganhar do Spurs um dia antes. Então não é nada tão sério assim. Mas há uma cagada ainda pior, mais destrutiva e que ao meu ver não tem como arrumar a tempo: a troca do Nate Robinson.

O Nate "the Great" foi para o Thunder na troca do Perkins, e ninguém se preocupou em reclamar da ida do anão - era muito mais importante ficar indignado com a troca do pivô. A maioria das pessoas nem percebeu sua ausência. Mas era o Nate quem mantinha o banco do Celtics ofensivamente no jogo, era ele quem fazia o Glen Davis funcionar com os reservas no pick-and-roll, eram suas bolas de três que mantinham a diferença no placar que os titulares conquistavam. Os números mostram claramente que a defesa do Celtics ainda é a mesma, entre as cinco melhores da NBA, mas o ataque é uma porcaria e o ataque dos reservas é uma atrocidade, um atentado à vida, à moral e aos bons costumes. A ida do Kendrick Perkins deixou os velhinhos magoados e cansados, mas isso se arruma. A ida do Nate Robinson deixou o banco uma merda, o ataque mais estático, e não tem ninguém nesse elenco com suas características para brilhar nos playoffs. Jermaine e Shaq vão voltar às quadras, mas não tenho dúvidas de que o impacto que eles terão no ataque será minúsculo - e nem de longe o necessário para que a equipe tenha sucesso nos playoffs. Ninguém imaginaria isso, mas o Celtics sente mais falta é do jogador mais improvável e que nunca recebeu o devido valor quando atuou pela equipe.

Eu acredito no Garnett para manter a defesa funcionando e sei que o orgulho ferido do Celtics é o bastante para vencer jogos na cabeçada e na sangria, e só por isso não dá pra descartar o Celtics de levar um título esse ano. Mas depois de ver esse ataque sofrendo e o Glen Davis fazendo bobagem sem seu amigo anãozinho no controle, não consigo imaginar o Celtics sendo campeão do Leste - todo pulmão tem um limite, e esse elenco sequer conseguiu jogar tempo o bastante junto para poder ter um ataque que não seja apenas jogadas de isolação para gente velha e cansada. Onde estão as bolas de três, gente nova atacando a cesta, os contra-ataques abudando da correria, essenciais numa equipe sem jogadas de meia-quadra programadas? Desculpa, Perkins, ainda te acho um cara batuta, mas o Celtics sente falta mesmo é de seu amiguinho menor e mais desmiolado. Nate Robinson, o Boston precisa de você.

terça-feira, 29 de março de 2011

Um mês depois - parte 2

 Aviso para o Celtics: se você quebra o coração 
do Perkins, ele quebra a sua cara na porrada

O Danilo comentou aqui quando o Thunder fez a troca pelo Kendrick Perkins dizendo que era exatamente o que eles precisavam e que tinha tudo para dar certo. O começo, com Perkins chegando em Oklahoma machucado, não foi dos mais fáceis, mas cerca de um mês depois dá pra dizer com bastante certeza que o experimento é mais que um sucesso.

Primeiro que o risco de ter trocado o Jeff Green por nada acabou logo, depois de recusar propostas de 22 milhões de dólares por 4 anos do Celtics, Perkins rapidamente aceitou uma proposta mais generosa do Thunder, 34 milhões pelo mesmo período de tempo. Não tinha porque negar: mais dinheiro, compatível com os absurdos que pagam hoje em dia para pivôs mais ou menos (alô, Nazr Mohammed, Brendan Haywood), e numa situação perfeita, em um time jovem, talentoso e que não é só promissor para o futuro como é também uma realidade já hoje. Tomar o pé na bunda da namorada Celtics foi doloroso, mas ele foi acolhido por uma bela super modelo russa, loira, rica e ninfomaníaca.

Nos primeiros jogos após a saída de Jeff Green, o Thunder pareceu mais frágil no ataque e não muito melhor na defesa. O lado defensivo era pela ausência da sua principal contratação, Perkins estava machucado, e o ataque simplesmente parecia menos perigoso e mais previsível (ainda mais isolações para Westbrook e Durant) sem Jeff Green para tirar o peso das costas das estrelas. Mas jogo após jogo, com paciência para implantar algumas mudanças importantes, o time começou a engrenar. O boost ofensivo veio de James Harden, ele continua vindo do banco e seus minutos por jogo nem mudaram muito, assim como sua função. Mas ele mesmo disse que viu a troca como um chamado para elevar o nível do seu jogo e está dando certo, começou a pontuar melhor e está jogando com a confiança que sua barba sempre pareceu lhe dar. O Harden não é espetacular em nada, não é o melhor arremessador, driblador ou nada do tipo no seu time, mas sabe fazer pontos e nesse momento é tudo de que precisam.

Mas o que faltava mesmo para o ataque melhorar, por mais bizarro que pareça, foi a volta do Perkins. Isso liberou o Serge Ibaka para ser menos pivô e mais ala de força, e mesmo com aquele tamanho todo e as enterradas, o Ibaka machuca as defesas adversárias quando fica longe da cesta e acerta aqueles improváveis arremessos de meia distância. Não parece que todos vão cair longe da cesta? Não sei se é a mecânica de arremsso, o tamanho dele ou só má fé minha, mas sempre acho que vai amassar o aro e quem erra sou eu. Ibaka não é, ainda, Jeff Green no ataque, mas seus arremessos longos às vezes tem o mesmo efeito de obrigar a defesa a abrir e se distanciar do garrafão. Pode-se fazer uma comparação desse Thunder com a troca do Orlando Magic de Rashard Lewis por Brandon Bass. Eles ganham em tamanho, defesa, e perdem um potencial arremessador de longe, mas nos dois casos os substitutos são bons arremessadores de meia distância, o que de certa forma é um bom tapa buraco para a estratégia não mudar tanto assim. Nos dois casos deu certo.

O que tem dado mais certo para o Thunder que para o Magic é que o Serge Ibaka é muito mais defensor que o Bass. Desde que virou titular Ibaka tem médias de 9.6 pontos, 9.8 rebotes e 3.1 tocos. É um absurdo de tanto toco! E sabe o que é mais insano ainda? Que ele está com média de 4 tocos desde que o Perkins voltou para ser seu parceiro de garrafão. Ao lado do Perk ele tem ainda 10.2 pontos e 9.8 rebotes também. Em outras palavras, com o crescimento de Ibaka e Harden, o Thunder conseguiu dar conta da ausência de Jeff Green e ainda por cima melhoraram muito na defesa.

Se o Perkins é o monstro defensivo que é hoje, muito deve-se ao Kevin Garnett, um dos melhores defensores da NBA quando o assunto é só basquete e um dos melhores defensores da humanidade quando o assunto é vontade, raça e em meter medo nos outros. Em uma catástrofe nuclear em que tivessemos pouquíssimos alimentos sobrando eu deixaria o Kevin Garnett defendendo o meu pratinho de sopa dos outros esfomeados. Essa mentalidade de que defender a cesta é mais importante que defender a vida das criancinhas (delas, aliás, Garnett bebe o sangue todas as manhãs) o KG passou para o Perkins, que em poucos anos se tornou um dos defensores mais temidos da NBA, certamente o pivô que menos tem medo de usar seu tamanho e força para descer a paulada. E agora ele está passando o seu conhecimento para o Ibaka, seu pupilo em Oklahoma.

O Kevin Durant afirmou que os dois treinam juntos, que o Perk está sempre no pé do Ibaka e que durante os jogos dá pra ouvir o pivô gritando coisas como "Serge, pega esse" e o Ibaka então salta para conseguir mais um de seus zilhares de tocos. Em um jogo contra o Wizards, ao ver o Ibaka deixando uma bandeja acontecer livremente, o Perkins simplesmente correu até lá e fez uma falta dura no coitado do atacante, encarando Ibaka depois. Em outro jogo, contra o Bobcats, Perkins deu um tapinha de "bom garoto" nas costas do seu pupilo depois que o Ibaka mandou um coitado para o chão sem que ele fizesse os pontos fáceis. O Thunder, que no ano passado foi eliminado pelo Lakers porque não conseguiu conter por muito tempo o seu adversário mais alto (foi eliminado com um rebote ofensivo do Gasol no último segundo do jogo 6) e que no começo desse ano sofria para conter os pontos perto da cesta, agora tem um ala de força que dá 4 tocos por jogo e um pivô que intimidaria o Chuck Norris se ele subisse para uma bandeja. Sente o drama de pegar os dois no fim de um jogo apertado:



E sabe o mais legal? O Serge Ibaka é um pirralho que está melhorando a cada mês desde que chegou na NBA, vai saber qual é o limite dele! E o Perkins nem está completamente em forma depois de 9 meses parado pela cirurgia no joelho. Os dois já estão arrasando com tudo e podem estar só no começo. E essa babação de de ovo toda na defesa é só pra não citar que eles tem Kevin Durant e Russell Westbrook metendo 30 pontos na cabeça de todo mundo quase toda noite. Eles também não sofrem com contusões nunca e todo mundo ainda é dente-de-leite! Sério, a única coisa errada nesse time é não estar em Seattle.

Para os que odeiam modinha e sempre torcem para os times que a imprensa não abraça, uma final entre Thunder e Bulls ao invés de Lakers e Heat seria a glória. Pois pelo que estamos vendo nas últimas semanas, além de gloriosa também não seria nada absurda. Mais fácil apostar nessa final para o ano que vem ou para daqui uns dois anos, é verdade, mas é uma possibilidade perturbadoramente real para daqui apenas alguns meses.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Família separada

Eu fiz a mesma cara quando soube que o Perkins tinha sido trocado


Ontem postei a lista com todas as trocas que aconteceram na data-limite de transações na NBA e logo depois aproveitei para comentar uma delas, a troca de Baron Davis por Mo Williams. Eis que dos 26 comentários do post, 149 são na verdade sobre o Boston Celtics. Não tem jeito, foi mesmo o assunto do dia e não tem como não comentar! Com mais informações sobre a  troca e tendo um dia de descanso para digerir tudo, é hora de tentar explicar que porra é essa que o Boston Celtics fez.

Rememorando, foram três trocas envolvendo o time:

Boston Celtics envia: Kendrick Perkins e Nate Robinson
Oklahoma City Thunder envia: Nenad Krstic, Jeff Green e uma escolha de 1º round de Draft (a escolha eu só descobri hoje também!)

Boston Celtics envia: Luke Harangody e Semih Erden
Cleveland Cavaliers envia: Uma escolha de 2ª rodada de Draft

Boston Celtics envia:Marquis Daniels
Sacramento Kings envia: Grana (e uma escolha de 2º round, descobri hoje)
......

A primeira delas é a que abalou o mundo do basquete. Ninguém esperava que o Kendrick Perkins, tantas vezes chamado de xerife da defesa do Boston, fosse ser trocado, ainda mais no meio da temporada. Todo mundo lá dentro amava ele, o Doc Rivers é fanático por sua defesa, os jogadores são seus amigos e há poucas semanas eles até ofereceram uma extensão de contrato pra ele, que foi recusada. O Perkins deixou claro que gostava do Celtics e que pretendia continuar, mas acho que em um mundo onde o Brendan Haywood recebe contrato de 46 milhões por 6 anos ele poderia recusar um de 22 milhões por 4 anos, fez sentido.

E no fim das contas esse problema financeiro acabou pesando na decisão. O Celtics percebeu que com a folha de pagamentos alta, o limite salarial possivelmente diminuindo no ano que vem e um monte de time atrás de um pivô jovem e bom como ele, seria impossível manter o cara no time. Aí adotaram a tática de que é melhor trocar antes por alguma coisa do que perder por nada ao fim da temporada. Outra justificativa foi dada pelo técnico Doc Rivers na noite de ontem, ele afirmou que o Celtics estava tendo muitas dificuldades contra times que jogavam no small ball (quinteto com jogadores baixos e velozes) ou contra times que tinham pivôs ou alas de força muito velozes, como era o Orlando com Rashard Lewis e é o Heat com Chris Bosh. Ainda segundo Rivers, eles queriam a opção de ter um ala que pudesse jogar na posição quatro e deixar o Garnett de pivô por alguns minutos durante o jogo, a inspiração veio do time que foi campeão em 2008, que muitas vezes (acho que em todos os jogos da Final, por exemplo) fechava o quarto período com o James Posey no lugar do Kendrick Perkins.

Uma outra razão seria a atual realidade da NBA, em que os grandes times não tem ótimos pivôs ofensivos a serem parados pelo Kendrick Perkins. No Leste Amar'e Stoudemire, Chris Bosh, Al Horford e Carlos Boozer são os grandes nomes de garrafão nos rivais, mas são na verdade alas de força que podem ser marcados pelo Garnett. O Joakim Noah não é nenhuma ameaça ofensiva e o Dwight Howard é que poderia virar um problema, já que vê o seu melhor marcador indo para a outra conferência. Como comentaram ontem no Twitter, "Essa troca mostra que o Celtics não acredita que o Magic chega longe". O General Manager Danny Ainge, que se disse muito triste de ter trocado o Perkins (embora acredite que fez a coisa certa, claro), afirmou que eles venceram todos os grandes times enquanto o Perkins estava machucado, e que isso deu uma confiança maior para eles executarem a troca.

Por fim, o que adocicou o pacote foi a escolha de 1º round de Draft oferecida pelo Thunder que é, na verdade, do Clippers. É a de 2012 (a de 2011 é a que foi para o Cavs), mas é protegida, só vai mesmo para o Celtics quando o Clippers não tiver uma escolha dentro do Top 10, talvez em 2052.

Essas foram as explicações dadas pelo Celtics, todas com bom argumento e razões, eles não estavam bêbados e ligaram para o Thunder de zoeira. Agora, elas terem um embasamento não quer dizer que tenham sido certas, muito pelo contrário. Geralmente essas trocas que revoltam as pessoas logo de cara não são tão burras assim e tem um objetivo por trás, como dissemos há um tempo atrás, até a do Pau Gasol por Kwame Brown acabou fazendo sentido para o Grizzlies. Então nesse caso a crítica ao Celtics não é feita no impulso da revolta, é mesmo depois de compreender os seus motivos.

Na mesma entrevista do Doc Rivers que eu citei antes, ele diz que agora que não tem mais o Perkins, vão ter que confiar mais no Shaquille O'Neal e que ele terá que estar saudável durante os playoffs. O Shaq tem se machucado o tempo todo e já tem quase 40 anos de idade, é nas costas dele mesmo que vocês querem colocar suas chances de título? Imagina se ele se machuca no meio da final do Leste como não vai chover crítica na cabeça do Danny Ainge. Apostar no outro O'Neal, o Jermaine, é bobagem, já que ele talvez só volte, ainda sem ritmo, nos playoffs. E o outro pivô, o novato Semih Erden, foi trocado por (quase) nada. Ou seja, eles vão apostar no Shaq como pivô e nos minutos em que ele não jogar provavelmente vão apelar para um quinteto baixo, com Glen Davis ou Jeff Green como alas de força e Kevin Garnett como pivô.

A força do garrafão do Celtics, que era o que eu mais admirava no time nessa temporada, foi enfraquecida para que o time ficasse mais semelhante aos seus adversários de conferência. Adversários esses que, é essencial ressaltar, o Boston estava enjoando de tanto vencer! Por que fazer referência ao Chris Bosh quando diz que o Celtics estava tendo dificuldades contra alas de força mais baixos se o Heat não chegou nem perto de bater o Boston até agora? E um dos motivos é porque eles não sabem lidar com o tamanho da linha de frente verde, não fazem tantos pontos no garrafão como queriam, não cavavam suas faltas e viviam de bolas de três. Eu considerava o garrafão pesado e cheio de opções do Celtics o seu ponto forte, algo que lhes deixariam quase imbatíveis na pós-temporada, mas a mesma característica foi o que o Danny Ainge e o técnico Doc Rivers viram como uma fraqueza. Uma dica, senhores, quando o seu time está em primeiro no Leste e tem o segundo melhor recorde da NBA e derrota todos os seus principais adversários pelo título, provavelmente não é uma fraqueza.

A questão do contrato também não me convence. Tá bom que eles tinham uma grande possibilidade de perder o Perkins ao fim da temporada, mas isso não era garantido e ele era peça fundamental no time. Mesmo que tenham vencido sem ele na temporada regular, o cara já estava fazendo a diferença quando voltou. E não dá pra ignorar o fato de que o time é um asilo, quanto mais opções para se prevenir contra contusões, melhor. Eles não estavam na situação do Denver Nuggets que poderia perder o Carmelo Anthony por nada e não tinham mais ambições nesse ano, o Celtics está lutando por mais um título de campeão, era hora de fazer sacrifícios pelo campeonato ao invés de ficar com medinho de perder um jogador sem receber outro em troca. Jeff Green é novo e dá uma renovada no elenco, mas e daí? Não é hora de fazer planejamento para o futuro, Ray Allen, Paul Pierce e Kevin Garnett ainda estão aí jogando bem e juntos, era hora de continuar junto e vencendo. Pra mim seria como o Lakers trocar o Lamar Odom por um pirralho "com potencial" ou o Orlando Magic trocar o Jason Richardson por medo de perdê-lo ao fim da temporada.

Vale citar também a presença de Nate Robinson e Nenad Krstic na troca. Eu não considero o pivô sérvio muita profundidade no garrafão porque sua defesa é ridícula, acho que vai ter minutos limitadíssimos. E perder o Nate Robinson tira um pouco da força do banco de reservas dele, mas vamos ver como eles repõe essa peça, já que eles devem contratar mais gente. Explico: O Celtics que pensa tanto no futuro com medinho de perder o Perkins é o mesmo que usou o imediatismo para justificar a saída dos outros jogadores. O bom pivô reserva Semih Erden foi para o Cavs com outro novato, Luke Harangody, em troca de uma escolha de Draft. O mesmo recebido por Marquis Daniels que, machucado (grave lesão no pescoço), provavelmente não jogaria mais nessa temporada. A razão para essas trocas foi abrir espaço no elenco do time para conseguir contratar os jogadores que provavelmente estarão recebendo um buyout (quando um time paga para poder dispensar um jogador) nos próximos dias, caras como Leon Powe (Cavs, que já está bem próximo de voltar ao Celtics), Troy Murphy (Warriors, está em dúvida entre Celtics, Magic e Heat), Joel Pryzbilla (Bobcats, nada confirmado ainda) e Jason Kapono (ia ser engraçado ver ele tentar defender). Mas últimas notícias dizem que podem até aparecer mais nomes, como Jared Jeffries (esse mais perto do Knicks) e Mike Bibby.

Então metade das trocas foi para se prevenir para o futuro e metade para abrir espaço para novos jogadores que chegam imediatamente. No total, 5 jogadores de um elenco de 15 jogadores, 1/3, trocados no time de segunda melhor campanha da NBA. Algo inédito, sem dúvida. É quase o que o Orlando Magic fez no começo da temporada, mas sem estar jogando mal antes de jogar tudo pro alto, um pequeno detalhe.

Não é que as mudanças não podem dar certo, elas podem. Jeff Green é muito bom, o time realmente era bem bacana quando usava o quinteto com James Posey como ala de força e o Shaq, se saudável, dá conta de qualquer pivô por aí. Mas tudo isso pode acontecer, pode, é uma possibilidade, um risco, nada com certeza. E em uma liga tão competitiva, tão difícil e com times tão bons por aí, para quê arriscar se você já tem algo funcionando perfeitamente na mão? Isso é que eu nunca vou entender ou aceitar. Como disse Paul Pierce ontem, "Química e entrosamento são tudo. Não importa o talento que você tem e leva para o time, as pessoas não dão o valor devido à química entre os jogadores".  

Peguei essa frase do Paul Pierce em uma matéria da ESPN gringa que tem uma coleção de frases dos jogadores do Celtics que mais parecem tiradas de um funeral. O clima está pesadíssimo por lá, o Perkins era muito querido e a sensação da família ter perdido um membro parece ter afetado todo mundo. Entre elas tem o Garnett dizendo que "é uma noite triste para se jogar basquete" e que "perdemos um membro da nossa família hoje". Só do Rondo que não tem frase porque ele se recusou a dar entrevistas antes e depois da derrota apática para o Denver Nuggets. Vale lembrar que em 2010 o Rajon Rondo recusou um convite de treino da seleção americana porque se fosse iria perder o casamento do amigo Kendrick Perkins.

Lembro nos playoffs da temporada passada, quando todos estavam surpresos com a melhora do Celtics em relação à temporada regular, e os jogadores responderam dizendo que era assim mesmo, "Que esse quinteto nunca perdeu uma série de playoff". E era verdade, em 2008, primeiro ano deles, venceram tudo. Em 2009 perderam para o Magic, mas com Kevin Garnett machucado. Em 2010 só perderam para o Lakers, mas foi no jogo 7 e jogaram esse jogo (e mais da metade do jogo 6) sem Perkins, que machucou o joelho. Ou seja, com Rondo, Allen, Pierce, Garnett e Perkins juntos e saudáveis eles nunca foram derrotados na pós-temporada, e nem vão ter a chance disso acontecer de novo.

Na noite de ontem Garnett também ressaltou as características do time como uma unidade, dizendo que são todos amigos, que fazem coisas juntos, que é possível encontrar os 15 jogadores fazendo atividades juntos, todos próximos. Eles compraram a idéia do trabalho em equipe, se entenderam e se chamam de família, só faltou o Felipão pra comandar o time no lugar do Doc Rivers. Mas esse laço emocional, pelas declarações, parece ter sentido um ataque forte dos princípios frios e pragmáticos que regem a direção de um time de basquete. Ver todo o discurso de família em um dia e no outro um dos familiares ser mandado para outro lado do país em troca de peças importantes para um futuro distante não deve ser fácil de engolir.

O Boston Celtics, que para mim estava pau a pau com o Spurs como melhor time da temporada (talvez com um pouco de vantagem por ser uma defesa mais forte), que tinha o melhor garrafão da NBA, a defesa mais infernal e o elenco mais unido de todos foi abalado por uma troca que é um risco que eles não precisavam correr. Esse é o resumo da ópera. O Danny Ainge teve uma boa idéia, visualiza um time que pode dar certo e não mente quando diz que o time foi bom mesmo sem o Perkins. Mas ignorou que são ainda melhores com ele e já sabiam disso. No maior estilo horário político, por que trocar o certo pelo duvidoso?

Já que eu adoro uma analogia, é como um bilionário que resolve vender tudo o que tem e apostar a bolada toda em um cassino. O resultado pode ser fantástico no final, mas se você já é um bilionário (em um mundo de miseráveis, diga-se de passagem), pra que sequer cogitar a aposta? Só Danny Ainge sabe. E o Thunder agradece. Próximo passo da nossa empreitada é explicar o lado do Oklahoma City nessa história, aguardem!

Update: Vale a pena ler essa ótima análise do Bill Simmon na ESPN.com. Por duas razões, primeiro porque ele fala bastante sobre como a saída do Tony Allen e depois a contusão do Marquis Daniels deixou o time muito fraco na ala. Depois de Paul Pierce (que precisa respirar de vez em quando) não tinha ninguém. E aí imagina nos playoffs onde podem enfrentar LeBron, Carmelo, Luol Deng e etc. É o oposto do Perkins que só tem quem marcar em série contra o Magic.

Mas também comenta que podiam ter feito uma troca menor (por Anthony Parker, Mickael Pietrus ou Shane Battier, por exemplo). E por fim ressalta um pouco do que eu disse aqui, por mais que a troca tenha suas boas razões no papel, o jogo é mais do que isso. Depois de discorrer sobre o clima pesadíssimo entre os jogadores do Boston e como os torcedores tinham um carinho especial pelo seu quinteto titular, contou o que seu pai, fã do Celtics desde o período paleolítico, disse:

"Meu pai ficou ainda mais arrasado do que eu. Ele compra os season-tickets do Celtics desde 1973 e ainda vai a pelo menos 25 jogos do Celtics por temporada. Ele disse ontem 'Eu sentava perto do banco, assisti ele crescer. Não acredito que o esporte é só sobre ganhar e perder. Nós podemos estar melhores agora, mas eu não ligo. Eu gostava do elenco que tinhámos, não parece certo ele não estar no nosso time'".

......
Se você agora odeia o Danny Ainge, pode usar uma camiseta que diz isso!
Até o próprio já usou! Em 1987, quando ele era jogador do Celtics, ele foi disputar uma partida em Detroit e alguns torcedores da casa tinham uma camiseta com os dizeres "I hate Danny Ainge" (Eu odeio Danny Ainge). Ele, bem humorado, viu os torcedores e pediu uma para ele, e a usou durante o aquecimento daquele jogo.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Único e especial



Aqui no Chipre coisas estranhas acontecem o tempo todo. É simplesmente um país diferente onde estou vivendo com pessoas diferentes e tudo o que acontece não é comum, em um domingo você pode estar deitado na cama postando no seu blog de NBA e minutos depois está ajudando uma mexicana a mudar de casa usando a carona de um indiano que ambos conheceram na rua naquele exato momento. Ou pode pegar um táxi em que o motorista tira as mãos do volante no meio da curva para mostrar o quão pequena pode ser a vagina de uma prostituta vietnamita. Mas de todas as histórias que vi e ouvi por aqui, uma criou uma frase marcante. Um amigo meu da Costa Rica disse que estava um dia na rua quando um cipriota qualquer o parou e disse: "Você é uma pessoa muito única e especial". E foi embora. Pois essa é a definição que eu escolhi para definir rapidamente Rajon Rondo. 

Eu já queria postar sobre o Celtics há algum tempo e o foco seria o Rondo, mas o empurrão definitivo veio depois de ler esse texto excelente no RealGM feito por um cara com o estranho nome de Elrod Enchilada. Sua análise do que ele chama "Paradoxo Rondo" tenta entender como um jogador tão espetacular tem um defeito tão primário. E, acredite, o assunto não é o seu arremesso.

A parte espetacular a gente já está enjoado de ver. Na partida de ontem entre Celtics e Magic o Rondo mostrou todo o seu arsenal de jogadas que o fazem um dos melhores jogadores (não só armadores) da NBA. Trocentos passes, visão de jogo impecável, total controle do ritmo de jogo, conhece as jogadas do time de trás pra frente, sabe improvisar e seria o meu voto de armador para o time de defesa da temporada. Ele é o jogador mais importante do time que eu considero o melhor da temporada até agora. Eu sei que o Spurs tem um recorde melhor, mas já falei das minhas preocupações com o time do Gregg Popovich aqui, e o Miami Heat, embora também espetacular, acho que não conseguiria atualmente vencer a defesa de garrafão do Celtics em uma série de 7 jogos. Palpites e opinião pessoal que ainda pode mudar, mas acho que todo mundo concorda que o Celtics está lá em cima, jogando em altíssimo nível e que só não tem um recorde melhor porque eventualmente perde jogos completamente imbecis para Raptors, Pistons e Wizards, coisa de time muito velho (ou experiente, já que estamos elogiando) e entediado com a temporada regular. E nem vamos comentar a derrota para o Cavs na primeira semana porque aquela foi só pra provocar o LeBron.

A primeira das coisas únicas e especiais do Rondo é como e onde evoluiu. No seu primeiro ano na NBA ele era um estranho armador de braços longos demais que tinha menos oportunidades no time do que Delonte West e minutos quase iguais aos do Sebastian Telfair. Acreditava-se que o último seria o "armador do futuro" na franquia. Mas na confusão que foi mandar quase todo o elenco para conseguir Kevin Garnett e Ray Allen, o Rondo acabou sobrando como o único armador. Era jovem, já tinha tido uma temporada para cometer seus erros de iniciante e ainda era um excelente ladrão de bolas, por que não? O Celtics até tentou na época armadores mais experientes e acabou no meio da temporada levando o já quase aposentado Sam Cassell, mas simplesmente não havia dinheiro para conseguir alguém mais experiente e pronto para a função. Boa parte da crítica que todo mundo fez do Celtics naquela primeira temporada do Big 3 foi "será que Rondo e Perkins darão conta do recado nos playoffs?". Eles deram, mas como coadjuvantes, até fazíamos piada na época comentando como o Rondo era o jogador mais cagão e precavido possível, jogando com risco zero e deixando toda a responsabilidade para Paul Pierce, Kevin Garnett e Ray Allen no ataque.

Aí bizarramente dois anos depois eles estavam de volta na final da NBA, mas dessa vez Rondo era o líder do time, o melhor jogador disparado, uma máquina de triple-doubles e a mente mais criativa da equipe. Eu tentei lembrar, mas não consigo me recordar de outra história de um jogador que tenha ganhado tanta responsabilidade em um time em tão pouco tempo! Talvez o Michael Redd no Bucks, mas no caso dele o seu papel cresceu quando Cassell, Ray Allen e Glenn Robinson foram embora, Rondo fez tudo isso cercado de três jogadores fora de série, é estranho até estes caras não serem egocêntricos e deixarem um pirralho comandar o show. É uma história única.

Seus arremessos de média e longa distância costumam ser a parte do jogo mais duramente criticada, faz sentido, já que são péssimos mesmo, mas a verdade é que ele não precisa deles. Na verdade, é até melhor que pensem nele assim! A maioria dos times dão espaço para ele, pensando que é melhor usar o seu marcador mais recuado e fechando o garrafão, idéia que parecia genial no começo, mas que hoje parece um conto do vigário que todo mundo continua caindo; esse espaço é tudo o que o Rondo precisa para costurar a defesa adversária e ter a melhor visão do mundo para ver a movimentação de todo o seu time. Some-se isso à "maior inteligência em quadra que eu já vi" nas palavras de Paul Pierce, Kevin Garnett e Doc Rivers e você tem o líder da liga em assistências. Porém, existe o Paradoxo Rondo e como já avisei não tem nada a ver com os seus arremessos tortos. A questão é que o nosso amigo que está com o saco doendo de tanta puxação tem alguns dos piores números imagináveis quando o assunto são lances livres.

Até agora Rondo acertou 33 lances livres nessa temporada em 37 jogos disputados. Se contarmos toda a história da NBA desde o período paleolítico, pegarmos todos os jogadores com pelo menos 35 minutos por jogo (titulares em geral) apenas um outro jogador teve menos lances livres feitos por minuto, era Dennis Rodman em 93-94.

O meu xará era um jogador que fazia apenas duas coisas em um jogo de basquete, defender e pegar rebotes. Sequer tentava arremessos para receber faltas, era algo impensável e desnecessário. E é com esse tipo de jogador que o Rondo está lado a lado, perto dele, mas abaixo estão outros jogadores que só defendem e de vez em quando dão um arremesso quando estão livre, nunca se envolvendo em situações de falta. Ou seja, o Rondo, um cara inteligente, que sabe ler o jogo, é veloz e tem um dos melhores dribles da NBA, quase nunca sequer tenta cobrar lances livres! Até caras com característica parecidas, como o Jason Kidd, cobram centenas de lances livres a mais que ele. Mas Murphy é meu pastor e o rebanho se perderá, tudo sempre pode piorar:  O Shaquille O'Neal (SHAQUILLE O'NEAL, pelo amor de Alinne Moraes!) tem 55% de aproveitamento em lances livres nessa temporada, o Rondo tem 54%. E eu já poderia acabar o post aqui, não tem maior humilhação que essa, ainda mais para um armador.

Ou seja, ele não ataca a cesta, não cobra lances livres e quando o faz é pior que o Shaq. O técnico Doc Rivers decidiu forçar o Rondo a atacar mais a cesta, "Estamos insistindo nisso, queremos colocar ele na linha de lance livre o máximo possível, sempre atacando a cesta. Meu desafio é ver ele cobrando 10 lances livres por jogo". Sim, ele consegue ser útil mesmo sem esse talento, mas não quer dizer que ele não deva melhorar. Em algumas das derrotas do Celtics nessa temporada, as preguiçosas, o Ray Allen simplesmente está frio, o Paul Pierce está bocejando e o Rondo poderia tomar conta do jogo, atacar a cesta, conseguir uns pontos fáceis e tudo mais. Mas ao invés disso ele continua só passando a bola, sendo um viciado em assistências que nem olha para a cesta, dando bonitos passes que nesses casos não levam o seu time à vitória.

Sempre pensamos que o Rondo estava a um arremesso confiável de ser um jogador completo, mas no fim das contas talvez ele só precise atacar mais a cesta, cobrar mais lances livres e, claro, acertá-los. Ele não precisa fazer isso só para ele ganhar reconhecimento e porque todos os outros armadores do mundo o fazem, mas pelo sucesso do time também. O Celtics é o quarto que menos cobra tiros livres na liga e é algo que faz muita falta em jogos apertados em que qualquer ponto fácil faz diferença. Eles já tem Ray Allen que cobra poucos, Shaq que evita cobrá-los e Garnett que ataca pouco a cesta faz tempo. Pela necessidade do time e pela sua velocidade e facilidade no drible é quase uma obrigação que ele seja mais agressivo e o responsável por ir mais vezes à linha de lance livre.

Se você assistir a um jogo do Heat, por exemplo, vai ver que quando nada está dando certo eles simplesmente colocam o LeBron e o Wade atacando a cesta sem parar. Mesmo que errem a bandeja, eventualmente vão sofrer uma falta ou outra e conseguem uns pontos fáceis. E quantas vezes o Kobe não estava com o arremesso calibrado e mesmo assim manteve o Lakers no jogo só por conseguir cobrar mil lances livres. Até o Paul Pierce, o responsável por essa função no Celtics hoje, cobra só 5 lances livres por jogo, bem menos que os 10 do seu auge físico ou até os 8 de duas temporadas atrás. Ele não tem mais velocidade pra isso, assim como quase ninguém no asilo verde.

Ir bastante para a linha de lances livres é obrigação de jogo, acertar mais é obrigação de treino, mas não consigo acreditar que um jogador do seu nível não seja capaz de alcançar no mínimo uns 75% de aproveitamento. E uma declaração no texto que citei anteriormente me chamou a atenção, "Quanto mais lances livres ele cobra em um jogo, melhor é o seu aproveitamento". Será que é sério? Fui no basketball-reference e descobri que só em 9 jogos na carreira ele cobrou 10 lances livres ou mais, uma amostragem pequena, mas nesses jogos ele teve 68% de aproveitamento, mais do que os 64% que ele tem como melhor marca na carreira logo no seu primeiro ano. Será que ele só precisa se sentir mais à vontade lá pra acertar de maneira decente?  E como alguém de 24 anos toma conta de um time espetacular e com uns 4 jogadores destinados ao Hall da Fama e não consegue bater lances livres? Paradoxo Rondo, único e especial em todos os sentidos.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Critérios para o All-Star

Não não, Nenê


Saiu ontem finalmente a escolha dos reservas para o All-Star Game. Como sempre, tem muita gente indignada com as decisões e falando em complô, teoria da conspiração, alienígenas e na culpa do Justin Bieber (que no fundo é só um adolescente com cara de panaca e todas as ninfetas que quiser, igualzinho a todo mundo quando era adolescente, quer dizer, tirando a parte das ninfetas, claro). O problema é que todas as pessoas descontentes com a escolha dos reservas, achando um absurdo que o Duncan foi escolhido ou que o Nenê vai ficar em casa comendo pipoca, não pararam pra pensar que não existem critérios definidos para chamar os reservas. Isso quer dizer que todos os técnicos da NBA, que participam da votação, precisam bolar critérios próprios que não coincidem entre si. Quando alguém diz que o Nenê merecia ir para o All-Star, com certeza está usando critérios bem diferentes da maioria dos técnicos. Vamos então dar uma olhada em alguns dos critérios possíveis para convocar reservas e quais jogadores ficariam ou não de fora se eles fossem empregados.


Critério "É ritmo de festa": escolher os jogadores mais legais, engraçados e divertidos

Se o All-Star Game não vale bulhufas e é uma festa para agradar os torcedores e trazer mais audiência para a NBA, então muita gente acha que apenas os jogadores que se encaixam nesse perfil Sessão da Tarde de festa, azaração e curtição deveriam ser chamados. No fundo, faz sentido. É meio ridículo usar a convocação para o All-Star como se fosse uma espécie de prêmio para os melhores jogadores sendo que esses prêmios já existem na forma de MVP, melhor quinteto da temporada, jogador que mais evoluiu, essas coisas. Então o All-Star seria algo único, que premiasse os jogadores mais divertidos e voltados para a torcida.

Pra mim, isso funciona muito bem para os titulares do All-Star, que são definidos pelos votos públicos na internet. Aí a galerinha vota nos "mais legais" e pronto, a festa está garantida. Para os reservas, que são definidos pelos técnicos, não acho que esse critério funcione porque provavelmente os técnicos são chatos e acham legal o Shane Battier e o Joel Anthony, pra fazer corta-luz.

Para os que usam esse critério, Vince Carter e Shaquille O'Neal deveriam ter cadeira cativa no All-Star Game. Da nova safra, muita gente estava exigindo que o Blake Griffin fosse chamado não pelos seus números, mas por aquilo que ele pode fazer na festança, enterrando na cabeça de todo mundo. Na minha opinião ninguém usa esse critério, só os torcedores mais românticos, mas foi ele que levou Blake Griffin para o All-Star esse ano. A imprensa cobrou, os técnicos ouviram, viram as enterradas no YouTube, e acharam que fazia sentido. Caso raro, mas os fãs da festa agradecem.



Critério "Um por todos e todos por um": escolher os jogadores que fazem parte dos times que estão no topo da tabela de classificação

É desse modo que a mente da maioria dos americanos funciona: os melhores jogadores são aqueles que fazem seus times vencerem. Isso gera distorções bizarras, como um Pistons que não tinha nenhuma estrela tendo quase o elenco todo chamado para o All-Star porque o time estava no topo da tabela. Esse critério é usado também na escolha do vencedor do prêmio de MVP, e nós insistimos que ele é um absurdo. Funciona assim: o jogador, para receber o prêmio, tem que ser muito bom, ter bons números. Mas ele também precisa estar num time vencedor, de preferência no alto da tabela. Mas se ele está num time no alto da tabela, com certeza é porque o resto do elenco também é espetacular. Mas se o resto do elenco também é espetacular, o jogador então é menos necessário do que se estivesse num time ruim, então corre o risco de não ganhar o prêmio. Ué, então o cara precisa ser bom, jogar num time bom, mas o time não pode ser bom demais, senão ele perde? Afinal, o prêmio é para o melhor jogador ou para o jogador mais importante para sua equipe? É um prêmio individual ou um prêmio coletivo, para o jogador-símbolo de uma equipe com um elenco bom e vencedor?

No All-Star Game, não tem esse lance do prêmio de MVP de que apenas um pode ganhar, então a  mentalidade gringa faz com que vários dos jogadores que estão nos times do topo sejam agraciados com o prêmio. No Leste, todos os reservas estão nos 4 primeiros times da conferência: Celtics, Heat e Hawks (apenas o Bulls ficou de fora). O Celtics, líder da conferência, teve 4 jogadores convocados dentro das 7 vagas, mais da metade. Todos eles merecem? Apenas se você levar o critério do "time vencedor" em conta, premiando o líder da tabela. A ideia é que, se o Celtics é bom o bastante para ser o líder do Leste, deve ter os melhores jogadores e então o maior número possível deles deve ser chamado para a festa.

No Oeste, 5 dos reservas estão nos 4 primeiros times da conferência (Spurs, Lakers, Mavs e Thunder). O Spurs, que é o líder do Oeste, levou dois jogadores como reserva. O Duncan está tendo uma temporada mais fraca, é velho, está longe dos seus melhores dias de All-Star, mas a mentalidade de quem usa esse critério é essa: "como levar um reserva só do time que é o melhor da temporada até agora?" O Duncan não vai pelo nome que tem, mesma coisa com o Garnett, não é isso. Não é questão de fama ou cadeira cativa. Eles vão por jogarem nos dois melhores times da NBA no momento. Eu acho ridículo, All-Star não é um prêmio para os melhores times, um cara jogar num time vencedor não deveria lhe favorecer na escolha dos melhores jogadores, mas essa é a mentalidade que predomina na imprensa e nos técnicos. Duncan e Garnett jogam no All-Star porque seus times chutam traseiros, e Kevin Love, Zach Randolph e LaMarcus Aldridge ficam de fora porque seus times fedem. O Kevin Love é ignorado porque sua habilidade "não gera vitórias", assim como o Monta Ellis, enquanto os próprios técnicos admitem que a vitória depende do conjunto, já que chamam 4 jogadores do Celtics e 2 do Spurs. Paradoxal, inconsistente, mas é o mesmo critério que se usa para o prêmio de MVP e para dizer que "um jogador é melhor porque ganhou mais anéis de campeão". Se você está bravo porque o Duncan foi convocado mas é daqueles que dizem que o Kobe é melhor porque tem mais anéis, está misturando tudo. O critério, em todos os casos, é de que as vitórias são mais importantes do que tudo para definir a qualidade de um jogador - mesmo que as vitórias dependam do resto do elenco.


Critério "Nerd de estatística": escolher os jogadores com as melhores estatísticas na temporada

Com esse critério, os jogadores chamados são aqueles que estão tendo o melhor ano estatisticamente. Seria um prêmio para as melhores performances, não teria nada a ver com seus times vencerem ou não. O resultado também é uma certa distorção, porque acaba priorizando jogadores que jogam sozinhos em times ruins, onde é mais fácil pilhar estatísticas, mas pra mim faz mais sentido. O Kevin Love não vai ganhar prêmios individuais ou coletivos ao fim da temporada, nada mais justo então que ele seja escolhido para jogar o All-Star em homenagem às suas atuações na temporada. Chamar reservas apenas de times bons é uma punição a mais para aqueles que estão em times sem chance de nada, é ser jogado definitivamente no limbo, na privada. O cara só perde, que participe ao menos da festa e coma de graça se está jogando bem o bastante. Quando o LaMarcus Aldridge foi informado que não tinha sido convocado, ele disse que já sabia, que já tinha avisado os companheiros que não seria chamado. Isso porque seu Blazers hoje está apenas na oitava posição do Oeste, de modo que passa invisível pelos técnicos se esse critério aqui não for usado. E ele não foi. Zach Randolph, nosso gordinho favorito, passou anos e anos sendo ignorado no All-Star porque seus times eram uma droga (e todo mundo dizia que o Randolph era o culpado por isso). O único jogador que pode mostrar que esse critério foi usado é o Blake Griffin, que tem médias espetaculares e seu Clippers amarga a terceira pior campanha do Oeste, mas ainda acho que ele foi chamado apenas pela cobrança da imprensa de que ele se encaixa na festança do All-Star, critério que vimos acima.



Critério "A primeira vez a gente nunca esquece": escolher os jogadores que ainda não estiveram no All-Star ou estão tendo a melhor temporada da carreira

Tem gente que acha que perde a graça ficar todo ano indo os mesmos sujeitos para o All-Star Game. A repetição acontece porque os jogadores continuam a ser os favoritos da torcida, ou continuam em times vencedores, ou mantém os mesmos bons números. Mas e se o All-Star levasse sempre sangue novo, os caras que estão se destacando agora e não tiveram oportunidade de ir no ano passado? 

Acho esse critério bem idiota, mas ele sempre acaba sendo usado todo ano. Alguém que poderia ser considerado para o All-Star mas nunca é lembrado ganha comentários como "mas ele quase foi na temporada passada", "ele ainda não teve uma chance", e acaba indo jogar. Em geral são jogadores meio mequetrefes ou que ainda não estão em nível de All-Star, como aconteceu com o David West um tempo atrás. Foi também o que no ano passado finalmente levou o Zach Randolph, que merecia há um tempão mas não ia porque seus times sempre fedem. Nesse ano, apenas dois jogadores foram chamados pela primeira vez para o All-Star, Russell Westbrook e Blake Griffin, e eles não se encaixam nesse critério. Mas aqueles que afirmam que o Josh Smith deveria ter sido chamado se encaixam aqui, e o mesmo se aplica ao Nenê. Ele tem um ano melhor estatisticamente do que Kevin Love, LaMarcus Aldridge ou Zach Randolph? Não. Ele joga num time que está no topo da tabela? Não. Ele é um jogador divertido para a festa e vai cravar na cabeça de todo mundo? Não, aliás é por isso que nunca chamam pivôs se podem chamar alas no lugar. O que está do lado do Nenê é que seu ano está sendo muito bom para os seus próprios padrões e não existem muitos pivôs no Oeste, mas isso não é o bastante. Sei que todo mundo queria ver o Nenê indo para o All-Star, eu entendo, mas ele só iria pela falta de pivôs e, após as votações populares, esse lance de posição não importa mais. Como vimos, os critérios usados são outros (melhores times, melhores estatísticas, show) e o Nenê não se encaixa neles. Resta então para os que insistem que o brasileiro vá (e por que, mesmo?) que a imprensa choramingue muito que o Nenê merecia, que ele teve um bom ano, que ele sempre foi ignorado, para que o David Stern o escolha como substituto do Yao Ming, machucado. Mas não vai acontecer simplesmente porque a choramingação por outros jogadores, melhores, é maior. Provavelmente será escolhido alguém de um time entre os 8 melhores, com boas estatísticas. Como o Randolph já foi All-Star, ele não se encaixa nesse critério, então a choramingação deve ser por Love e Aldridge mesmo. 

sábado, 4 de dezembro de 2010

Ódio

Momento "Onde está o Wally": quantos dedos do meio levantados
 você consegue encontrar nessa foto? Eu contei seis.

Quem esperava uma vitória do Cavs contra o Heat na noite de quinta provavelmente ainda achava que o LeBron jogava pelo Cavs. Não havia qualquer possibilidade de que tivéssemos um bom jogo, disputado ou interessante, simplesmente porque o Cavs fede. Resultado de uma equipe montada ao redor de LeBron por anos e que, mesmo em seu auge, tinha jogadores que nunca fizeram sentido uns com os outros, o que restou da equipe é uma vergonha para o basquete. Alguns jogadores possuem momentos de talento, o Byron Scott é um técnico genial (que, curiosamente, teria tornando LeBron um jogador melhor), então o Cavs até engana um pouco às vezes, tipo mulher feia porém maquiada. O Heat, no entanto, tem umas espinhas na cara e provavelmente não tem uma perna ou um braço, mas ainda assim é um mulherão.

O espetáculo da partida de ontem não estava, certamente, dentro da quadra. Até mesmo porque LeBron teve a decência de tratar o jogo como se fosse qualquer outro de sua vida - ou seja, com profissionalismo. Foi uma partida comum entre um time ruim e um time bom, com lances bonitos e uma tonelada de airballs, que jamais teria chamado a atenção do público. O espetáculo estava, sim, fora da quadra, na arquibancada. Os torcedores, como adolescentes ainda apaixonados por uma mulher que os deixou, deixaram que LeBron soubesse que estavam magoados. As placas, os cantos e as reações foram tolas como só um adolescente de coração partido consegue ser, ouvindo NX Zero no quarto enquanto briga com os seus pais. Mas mostram, também, como a relação de amor e ódio por um jogador pode ser paradoxal. Para falar sobre isso, vamos dar uma olhada em alguns vídeos das reações na partida de quinta:


No vídeo acima, a torcida canta "asshole" ainda durante o aquecimento de LeBron. Numa tradução Google, "asshole" seria algo como bundaburaco. Numa tradução livre, seria o nosso "seu cuzão de merda". 


Nesse outro vídeo, acima, vemos dois gritos. O primeiro é "Akron odeia você", e é pra machucar mesmo. Akron é a cidade em que o LeBron nasceu, significa muito para ele, e LeBron já disse esperar que sua cidade não lhe julgue traidor como Cleveland faz. O segundo, mais bem humorado, é "Delonte", em referência ao boato ridículo de que o Delonte West teria comido a mãe do LeBron (não num sentido "Walking Dead") e que isso teria criado uma fissura no grupo que levou à eliminação nos playoffs na temporada passada. 


O vídeo acima, último, é um documentário de dois adolescentes de Cleveland e mostra a rotina dos dois antes do jogo, entrevista com alguns torcedores no ginásio e registra todos os cantos contra o LeBron durante o jogo, além dos torcedores do Heat tomando um monte de copos de cerveja na cabeça e sendo expulsos do ginásio. Nele podemos ouvir cantos como "Scottie Pippen" (coitado do Pippen, sempre sobra pra ele essa fama de não ter sido estrela, de ter sido apenas secundário, que é tão injusta), "sidekick"(algo como "ajudante", tipo o Robin é do Batman, em referência ao papel do LeBron frente ao Wade no Heat) e "who is your dad" ("quem é seu pai", em triste referência ao LeBron ter sido criado só pela mãe). 

Apesar do cunho agressivo de muitos dos cantos para o LeBron, não achei nada tão absurdo assim. Principalmente porque fica implícito que ninguém no ginásio acredita realmente naquilo. Levanta um cara puto da vida, dizendo que o LeBron é um cuzão e que o Delonte comeu sua mãe, enquanto veste uma camiseta do LeBron com o número 23 nas costas, riscado. Fica tão óbvio que o cara era completamente fã do LeBron que não dá pra acreditar que ele esteja puto com o jogador, está puto é com o fato de que ele foi embora. Ódio de ex não dá pra levar a sério, porque ele quer dizer exatamente o contrário do que realmente diz. Os cantos de ódio ao LeBron significam apenas que queriam que ele estivesse ali, mas que ele não está. É o ódio que se joga em cima do morto durante um funeral, aquele ódio que só significa que amamos muito alguém que não podemos mais ter de volta. 

Justamente por isso, durante o jogo me surpreendi com a baixa intensidade das vaias quando o LeBron tocava na bola. É como se o pessoal, consciente de que o LeBron sabe o quanto é amado naquela arena, nem se esforçasse tanto para mostrar o contrário. Comentei na hora, no nosso Twitter, que o Vince Carter tinha sido muito mais vaiado no seu primeiro retorno a Toronto - e olha que canadense só assiste basquete se tiver entrado no ginásio por engano, achando que ia ser jogo de hóquei. Hoje, Morris Peterson confirmou meu comentário. Ele, que jogava no Raptors na época, disse que as vaias ao Carter foram mesmo mais intensas que as contra o LeBron. O motivo é simples: Carter pediu para ser trocado e chegou a boicotar o time para que acatassem sua vontade. Além de começar a dar migué durante os jogos, chegou ao absurdo de dedar para o banco do Celtics qual jogada o Raptors faria para tentar empatar um jogo nos segundos finais. Com a jogada previamente dedada, a defesa do Celtics foi perfeita e o Raptors perdeu o jogo. Nunca mais o Carter seria visto de outro modo que não vilão, inimigo. Sua camiseta nunca será aposentada por lá, porque a reação da torcida é de puro e verdadeiro ódio.

Em Cleveland a torcida não tem motivo para odiar LeBron a não ser pelo fato de que ele foi embora. Claro, há um ou outro caso de etiqueta desrespeitada, como dar o pé na bunda do seu ex em rede nacional (quem fez isso por Orkut sabe que dá merda), mas não foi nada absurdo. Os torcedores falam que foi traição, que ele é um cagão, mas no fundo todo mundo sabe que não há nada de errado em ele ter escolhido jogar com dois de seus melhores amigos e aumentar suas chances de conseguir um anel - principalmente porque a torcida do Cavs sabe muito bem como o LeBron toma porrada injustamente graças a comparações injustas e aleatórias (que porra ele tem a ver com o Jordan?), e que essas críticas sempre caem no fato de que ele ainda não foi campeão. Se ele faz ritual antes do jogo como trocentos jogadores fazem, é porque é estrelinha. Se ri durante o jogo, é mala. E tudo sempre recai no fato de que ele só poderia fazer essas coisas se fosse campeão. Então beleza, no fundo todo torcedor do Cavs sabe que o LeBron foi para o Heat ter mais chances de ser campeão e pronto. Dói, dá raiva, mas no fundo tá tudo bem. Pra mim é bem óbvio que, assim que o Cavs arrumar um novo namorado (uma ou duas estrelas vindas de draft e que tornem o time relevante de novo), a relação com o ex volta a ser de boas memórias. Não tenho a menor dúvida de que sua camiseta será aposentada em Cleveland, porque faltam ainda muitos e muitos anos e essa bobagem toda vai esfriar inteiramente até lá. Diferentemente do ódio de Toronto pelo Vince Carter, por exemplo. Lembram que o Shaq, por exemplo, era vaiado em Los Angeles quando falou merdas sobre Kobe e o resto do elenco e ganhou um anel de campeão pelo Heat falando que o Wade era o melhor jogador do planeta? Pois bem, aquilo durou 15 minutos. Alguém em sã consciência acharia que a camiseta de Shaq não será aposentada em Los Angeles?

Chego até a deixar a hipótese de que o LeBron será sempre muito mais vaiado quando for para Chicago do que ele é em Cleveland. Isso porque a torcida do Bulls, ressentida com o fato de que LeBron (e Wade, e Bosh) não toparam jogar lá nessas férias, não têm como barreira o fato de tê-lo amado, de ter suas camisetas, de tê-lo como ídolo. Ele é um jogador mais fácil de odiar em Chicago, e as vaias de desdém por alguém com quem não se tem uma história são mais simples, violentas e barulhentas.

A história sempre dói, é claro que o LeBron se sente magoado de ter que ouvir tanta merda num lugar em que sempre deu tudo de si, em que nasceu, cresceu e se tornou um homem de barba na cara. Mas ele também está consciente de que a reação dos torcedores é só ruído, calor do momento e piada. Eu sou fã do LeBron e teria mijado fácil num dos seus bonequinhos que foram atirados nos mictórios do ginásio por torcedores mais fanáticos, simplesmente porque é uma reação caricatural, comicamente exagerada, inofensiva - muito longe das provocações completamente cruéis que acontecem regularmente nos jogos do Utah Jazz, por exemplo. O pessoal foi pra lá, gritou bobagem, cantou que o Delonte comeu a mãe do cara, mas quando o LeBron jogou seu pó de magnésio para cima antes do jogo, a maioria achou o máximo e estava fotografando com o celular. Sabem que estão vendo história - e esse é um sentimento delicioso que só podemos ter com os melhores jogadores, os Kobes e LeBrons da vida. Seria muita perda de tempo perder a história sendo feita fazendo birra, e acho que por isso a reação do povo de Cleveland não deve durar, eles sabem bem quão especial LeBron é. Vamos dar a eles então dois drafts, deixemos que o LeBron volte pra casa, e vamos ver se não vão estar todo sorrisos novamente.

Para o próprio LeBron, voltar a Cleveland também vai deixar de doer. Porque agora dói, claro, a gente esquece que o cara é um ser humano que foi trabalhar - trabalho, tipo a gente, embora não esperemos ser chamados de cuzão por 20 mil pessoas quando vamos no almoxerifado da firma - e tem que se preocupar se vão tacar uma cadeira em sua cabeça depois de tudo que fez por esses malucos. Mas uma hora passa, fica ameno para todas as partes. E a dor vai ser outra: "será que tomei a decisão certa?"

Assim que LeBron foi para o Heat, Tracy McGrady veio a público dizer que invejava LeBron, que ele próprio nunca tivera um companheiro tão talentoso quanto LeBron teria em Wade (com exceção de Grant Hill, mas com o qual pouco jogou graças às contusões constantes dos dois), e que se arrependia de ter passado boa parte da carreira tentando levar times sozinho. Garnett também fizera discurso similar para o LeBron quando alegou que ir para o Celtics jogar com outras estrelas foi a melhor coisa que poderia ter feito em sua vida, ao invés de ficar numa franquia fracassada e apagada (a gente mal lembra do Garnett no Wolves, quando ele era fácil o melhor jogador da NBA). Mas agora, depois que a decisão óbvia foi tomada, o pessoal volta com outro discurso. O Tracy Mcgrady veio a público de novo dizer que LeBron e Wade não se complementam (o que é fato, porque nenhum deles gosta de arremessar), que o time não vai funcionar porque eles dois querem segurar a bola, e que a química que o LeBron tinha no Cavs era espetacular e não deveria ser trocada por nada no mundo. E é esse o peso que o LeBron terá que carregar: ir para o Heat era fácil, parecia genial, apelação, gerou inveja, mostrou uma nova mentalidade de jogadores que deixam o ego de lado e topam jogar juntos para vencer. Mas jogar num time na vida real é diferente, significa enfrentar contusões, más decisões do técnico, jogadores que não combinam, gente com chulé, abrir mão de muitas coisas. O Celtics foi campeão porque soube apanhar, soube feder, e soube como sair disso tudo. Depois quase entrou em crise, mas eles dão um jeito, sabem unir as forças e começar de novo. Falta ainda para o Heat isso, se lascar no começo de temporada e saber sair melhor disso, com contusões ou não, jogadores que encaixam ou não. Agora é fácil de criticar dizendo que vai dar merda, antes era fácil dizer que o LeBron e o resto do Heat tavam apelando.

Contra o Cavs, vimos um Heat unido tentando proteger o LeBron de uma ex-namorada furiosa. Esse é o tipo de coisa que pode salvar um time e fazer com que superem as limitações. Ou que pode não servir para nada, e apenas aumentar o peso das expectativas - que já começa a fazer ruir, pouco a pouco, as bases desse Miami Heat muito mais do que os egos muito bem contidos de todo o elenco. Quem diz que Wade, Bosh e LeBron perdem porque seus egos entram em conflito se encaixa naquele ódio fácil do Chicago Bulls, por exemplo, aquele ódio de quem quer odiar e pronto. Porque quem odeia o LeBron com seu coração partido sabe: montar um time que funciona não é fácil pra ninguém, eles viram que em Cleveland levou tempo - e que mesmo assim não funcionou a ponto de trazer um anel. Quanto tempo será que os críticos darão a esse time para se acertar até que a imagem dos jogadores envolvidos esteja permanentemente manchada por ódio e ignorância?

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Os velhinhos

Glen Davis e Jermaine O'Neal não resistem a um beijinho


Torcedor tem memória curta, todo mundo sabe disso. Fica claro até aqui no Bola Presa, em que mantemos uma sólida média de 6 posts por semana durante toda a temporada e na offseason, que deveria ser o mais perto que conseguimos de "férias", tem gente reclamando quando passamos alguns dias (em pleno fim de semana!) sem postar. No Celtics, a amnésia foi ainda maior. Depois de uma temporada aos trancos e barrancos, perdendo jogos fáceis e despencando pela tabela, ninguém mais acreditava que eles pudessem ser reais candidatos ao título do Leste, muito menos então de toda a NBA. O time foi criticado por ser velho demais, cansado, sofrer com lesões, não ter um técnico decente, não ter adicionado jogadores bons o bastante para o banco, ter se acomodado e comer meleca de nariz. Foi aos poucos vencendo um jogo nos playoffs, dois, três, ganhou o Leste e deu sufoco para o Lakers na grande Final. Aí ninguém lembrava que eles tinham fedido na temporada regular, era claro que eles eram favoritos, como alguém pode duvidar de um time com Garnett, Pierce e Allen?

O Celtics fez tudo direitinho para enganar a memória da torcida. Se tivessem chutado traseiros na temporada regular e acabado no topo do Leste, mas aí fedido nos playoffs e sido eliminados logo de cara, todo mundo só se lembraria que o elenco está velho demais e que nem adianta tentar de novo. Como foi exatamente ao contrário, o que ficou na memória de todo mundo foi um time que sabe crescer na hora certa e vai com certeza dar sufoco no Lakers e no Heat na temporada que vem. Com essa certeza na cabeça, fez todo o sentido do mundo dar novos contratos para Paul Pierce e Ray Allen. O óbvio era manter o time e tentar mais uma vez logo depois de ter chegado até a Final e perdido com honra.

Ou seja, o Ray Allen é um baita de um cagado! Suas atuações nos playoffs, salvas raríssimas exceções, foram as que mais mostraram como o elenco do Celtics ficou mais velho do que a "Praça é Nossa". Após dominar um jogo, era possível ver como o time inteiro era incapaz de correr ou jogar fisicamente no próximo, exausto, com a língua de fora. Dependeram de jogadores novos mas limitados para segurar as pontas enquanto o Ray Allen ficava boiando no formol. Não dá pra negar que o trio do Celtics é espetacular, mas o corpo humano tem dessas coisas estranhas: a idade chega de repente, de um dia para o outro. O Garnett treinou excessivamente em suas férias, Ray Allen teve seu corpo muito exigido pela falta de um bom arremessador reserva, e o resultado foi que os dois desmoronaram repentinamente depois de um temporada inteira em que pareciam querer uma coisa e o corpo respondia outra, com atraso. Mais ou menos como o Yao Ming e o Ilgauskas devem se sentir dentro daqueles corpos enormes que parecem estar se locomovendo debaixo d'água.

Vibrei muito com o Celtics durante os playoffs inteiros e a sensação na Final contra o Lakers era de tristeza para mim: parecia nitidamente ser a última chance de Pierce, Garnett e Ray Allen ganharem mais um anel de campeões. Como os três, com suas limitações tão brutalmente expostas por times que jogaram de forma física e veloz, poderiam aguentar mais 82 jogos em uma temporada regular para então jogar os playoffs mais uma vez com a pirralhada adversária correndo e distribuindo trombadas de novo? A alegria por ver Artest ganhando um campeonato foi logo eclipsada pela angústia de ver um time que morria ali, ainda em quadra, enterro em pleno ginásio. Se tivessem fôlego de chegar no banheiro já seria muito. O Glen Davis ainda tinha a vantagem de que, gordo, poderia ir rolando.

Muito se falou sobre o Celtics ser desmontado, começar uma reconstrução, trazer reforços de peso, se livrar do contrato do Ray Allen e suas atuações risíveis nos playoffs. Mas todo mundo se esqueceu do ar cansado e do cheiro de asilo da equipe porque misteriosamente eles seguiram vencendo time após time até a Final. O Ray Allen seria um desses jogadores vovôs que de uma temporada para a outra só recebe ofertas pequenas e em geral para ser reserva (tipo o Shaq), mas o sucesso do Celtics na pós-temporada, bem a hora em que importava, escondeu sua decadência. Ray Allen poderia ajudar qualquer equipe da NBA por um salário módico, mas no Celtics lhe ofereceram um contrato de 20 milhões de dólares por duas temporadas. Menos do que ele ganhava antes, mas muito mais do que ele merece ganhar hoje em dia. Deu sorte.

Paul Pierce também topou um contrato novo menor do que ganhava antes. Ao invés de algo em torno de 20 milhões por temporada, ganhará 15 milhões, mas como expliquei antes foi apenas para garantir um contrato longo baseado nas antigas regras salariais, ou seja, garantir o leitinho e os diamantes das crianças. É uma boa pagar menos por um jogador de elite como Pierce, mas por outro lado insisto que em muitas ocasiões seu estilo de jogo é prejudicial ao Celtics - e especialmente ao Rajon Rondo, que se torna cada vez mais a grande estrela da equipe.

O Ray Allen é um jogador inteligente pra burro e que coloca medo nas defesas adversárias mesmo quando está fedendo. Sabe se posicionar para forçar a defesa para fora do garrafão, infiltra com bastante habilidade e é um defensor acima da média. Kevin Garnett sabe organizar o posicionamento defensivo da equipe, motivar os novatos, ameaçar de morte quem fizer cagada, beber o sangue dos bebês recém-nascidos dos adversários, e não compromete negativamente seu time mesmo em seus piores momentos, simplesmente por saber fazer coisas demais em quadra. Paul Pierce pode ser meio fominha, esquece o cérebro na gaveta às vezes, mas ainda é um dos melhores pontuadores da NBA e certamente é o jogador mais forte fisicamente em sua posição, algo que sempre ajuda quando ele não está andando de cadeira de rodas. Então seria um absurdo dizer que o Celtics já era e que renovar seus contratos foi uma cagada. Digamos apenas que pode não ter sido uma atitude muito realista - e certamente foi uma atitude pouquíssimo corajosa. A culpa nem é dos coitados, que envelhecem como todo ser humano e se dedicam vinte vezes mais do que qualquer um para estar em plena forma física, mas a temporada da NBA é ridiculamente longa. De um jeito retardado. Quando carinha quizer reclamar que passamos uns dias sem postar, pensa no tamanho da maldita temporada regular da NBA que acompanhamos de perto todos os dias e de como todo mundo precisa de férias, vamos ler um livro, bater um gaminho, dar uma namorada! O trio do Celtics não tem como estar fisicamente preparado para esse grau de desgaste físico principalmente após uma temporada em que todo mundo aprendeu que basta dar umas cabeçadas para os vovôs desmancharem. Negar que esse time não tem como se manter ileso fisicamente é negar uma realidade gritante. Manter esse time pode ser sensato, mas é covarde assim que admitirmos que eles não tem pernas para serem campeões da NBA.

No garrafão, vai faltar ainda mais perna com a saída de Kendrick Perkins. Apesar de ser feito de tijolos, o pivô contundiu o joelho na série contra o Lakers e só deve voltar às quadras, se tudo der certo, lá pelo meio de fevereiro do ano que vem (se aprendemos algo sobre a memória dos fãs, ele só vai voltar quando ninguém mais lembrar dele). Rasheed Wallace também não estará na temporada que vem porque se aposentou acertadamente. Percebeu não apenas que a idade chegou e seu físico está lhe deixando na mão com dores terríveis nas costas (coisa de velho no bingo, ou do Tracy McGrady), mas também que ele não estava motivado, não tinha saco pra aturar uma temporada inteira com o Garnett queirando cortar seu pescoço. Jogava por seus amigos no Pistons, mas não fez amizades em Boston. Foi realista e percebeu que não dá pra enfrentar o tempo ou o tesão que temos ou não temos pelas coisas. Que descanse em paz.

Pro garrafão do Celtics não virar geleia, o grande reforço foi a contratação de Jermaine O'Neal. Quem chega agora nem imagina que o cara já foi uma das maiores promessas da NBA, chutando traseiros diariamente e ganhando um salário exorbitante porque parecia que podia render ainda muito mais.



Só que uma lesão no joelho nunca mais lhe permitiu jogar com a mesma intensidade, sua evolução foi interrompida e tornou-se um jogador completamente diferente. Ficou velho, lento, jogando cada vez mais longe do garrafão, e tudo isso é muito engraçado porque ele sempre - sempre! - teve cara de bebê de comercial da Pampers, parecia que nunca ia envelhecer. Sua passagem pelo Raptors e pelo Heat foram até que animadoras, porque ele provou que não é o Saci Pererê, tem duas pernas, consegue andar de um lado para o outro e tem capacidade de ser um excelente reserva em algumas equipes por aí. Não vai revolucionar o Celtics mas vai dar uma força enquanto todo mundo espera o Kendrick Perkins. Até que se machuque, claro, porque o Jermaine é como se fosse o Clippers de um homem só, sempre alguma coisa em seu corpo tem que dar errado.

Entendo que a solução mais fácil, após o retorno súbito da esperança dos torcedores do Celtics (que estavam quase se conformando com o fim do time ao término da última temporada), era manter o mesmo elenco. O buraco no garrafão tinha que ser tapado e o Jermaine O'Neal estava lá dando sopa e topou uma graninha singela, de 12 milhões por 2 temporadas. Entendo também que são jogadores motivados, inteligentes, capazes de causar suadouro e botar medinho em qualquer time da NBA. Mas parece que eles estão apenas colecionando vovôs numa tentativa desesperada de me fazer sentir velho! Eu vi o Garnett em seu auge no Wolves, sendo fácil um dos melhores alas de força de todos os tempos; eu vi o Jermaine O'Neal no Pacers dominando jogos e sendo o mais valioso ala de sua geração, eu vi Ray Allen no Sonics levando um time nas costas sendo o melhor arremessador de três da história. E agora, diabos, o Sonics nem existe mais, o Jermaine precisa de bengala, o Garnett parece que vai desmontar às vezes como se fosse feito de Lego.

Torço por todos eles, acho nobre e justo que tentem de novo por uma última vez, e acho hilário que tenham adicionado ao elenco justamente outro jogador na mesma condição, em fim de carreira com um corpo que desiste do basquete antes que o cérebro aceite a derrota. Quero demais que se despeçam em grande estilo, com um anel de campeão. Mas a verdade é que ganharam todos contratos grandes demais, o time perdeu a chance de adicionar novas peças, e a reconstrução que estará nas costas de Rajon Rondo foi adiada e por isso será mais difícil de ser efetuada. Esse time não vencerá o Lakers estando um ano mais velho, com um Perkins voltando de contusão e uma chance gigantesca de que algum jogador fundamental do elenco esteja na enfermaria. Ou dois, ou três. Já mencionei que eles contrataram o Jermaine O'Neal? É possível que uma meia dúzia de jogadores morra de gripe ou osteoporose.

Coloquem o Celtics na lista de favoritos, não percam de jeito nenhum seus confrontos com o Lakers e muito menos com o Heat, em que o trio de velhinhos tentará ensinar alguma coisa para o trio de pirralhos. Mas não exagerem na hora de levar esse time a sério. Quando estiverem perdendo tudo na temporada regular vale lembrar que isso não significa nada, são apenas jogadores cansados, com um dos piores técnicos da NBA, que acabaram de perder o grande estrategista responsável pelo seu fantástico esquema defensivo (Tom Thibodeau foi ser técnico do Bulls) e que estão se poupando. Quando estiveram ganhando tudo na pós-temporada, vale lembrar também que não aguentarão tantos jogos, que o corpo vai desistir cedo ou tarde, que eles já foram espetaculares e agora nos emocionam apenas com um esforço desmedido e monstruoso que tenta nos provar que nada é impossível - enquanto, infelizmente, não conseguem vencer a natureza. A velha geração passou grande parte do tempo apanhando sozinha, solitária, sem chances reais de ganhar um título, e só foram se juntar quando já era tarde demais e o físico não funciona mais. A nova geração aprendeu mais cedo. Talvez não funcione, talvez os velhinhos ainda possam nos surpreender. Mas cada vez mais, o Celtics é uma corrida contra o tempo. E, para mim, esse tempo já terminou.

domingo, 11 de julho de 2010

Os reis - Parte 1: Dwyane Wade

A partir de hoje, o Bola Presa coloca no ar uma série de 3 artigos sobre o novo Miami Heat. Cada um deles será focado em um dos três jogadores que acabam de assinar com a equipe (LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh), analisando o que essa superequipe significa para cada um deles, para suas carreiras e como decidiram tornar essa união possível. O primeiro artigo, abaixo, trata da estrela que começou no Miami Heat e que apenas recebe seus coleguinhas em sua casa para brincar: Dwyane Wade.

Não é propaganda de cerveja: Wade será, realmente, o número 1 em Miami

 Da expecional turma de draftados de 2003, amplamente considerada a melhor da história, Darko Milicic foi o primeiro a ganhar um anel de campeão. Não entrava em quadra, ficava no banco de reservas com seu cabelo descolorido não entendendo uma palavra daquela língua estranha que se fala nos Estados Unidos, mas foi campeão graças à incrível equipe do Detroit Pistons que sequer precisava de um novato draftado com a segunda escolha para vencer. Mas dentre os mamíferos bípedes jogadores de basquete capazes de levantar os braços e segurar uma bola, o primeiro a ganhar um anel foi Dwyane Wade. O Heat da temporada 2005-06 tinha Shaquille O'Neal chutando traseiros, um par de veteranos com um pé na cova apenas pegando carona na brincadeira para ganhar um título, e uma série de outros tapa-buracos bastante limitados. Era uma equipe no fundo bastante mais-ou-menos, numa conferência Leste fragilizada, encontrando as condições ideias para sagrar-se vencedora. O engravatado David Stern estava em pânico com a queda constante dos placaras da NBA e a queda de audiência que a disseminação da febre "vamos defender como o Detroit Pistons e ter tanto carisma quanto o Tim Duncan" trazia para a liga. Com isso, o Miami Heat encontrou em sua trajetória para o título novas regras de arbitragem que favoreciam muito, aleatoriamente, o estilo de jogo de Dwyane Wade. Seu talento inegável carregou o Heat nas costas durante os playoffs, mas a estranheza das novas regras (que marcavam falta em qualquer contato, tentando inflar os placares do esporte através da cobrança de lances livres) fez com que muitos lidassem com desdém às apresentações de Wade. Seu título tem um asterisco do lado para todos aqueles que tiveram queimada em suas retinas a figura de Wade cobrando lances livres. Quando eu fecho os olhos no quarto, à noite, ainda posso vê-lo cobrando alguns.

Não houve oportunidade para que o Wade pudesse provar que o anel de campeão foi devido aos seus próprios méritos, e não um presente de Natal do David Stern que lhe caiu no colo. Logo na temporada seguinte Shaq já estava em declínio acelerado enquanto o ombro de Wade exigia cirurgia - que, aliás, foi adiada para que pudesse jogar os playoffs apesar das dores e da limitação de movimentos. Tomaram uma varrida de 4 a 0 e o Wade foi direto para o hospital. Na temporada posterior, o time só piorava, Shaq foi mandado às favas, Wade passou a sentir - além do ombro - uma grave lesão no joelho, e frente ao desastre completo decidiram poupar o Dwyane pelos últimos 20 jogos da temporada. É o famoso "pisou na merda, abre os dedos": já que não tinha como salvar a temporada, era melhor jogá-la fora para conseguir uma escolha melhor de draft. Aquela famigerada tática do "perca por LeBron" que o Cavs usou em 2002-03.

A queda do Heat foi muito repentina, sintoma clássico de um time que se junta aleatoriamente, com um monte de veteranos em fim de carreira, apenas para tentar ganhar um título. A pirralhada perde espaço e de repente todo mundo se aposenta, vai para o bingo ou simplesmente morre, e aí o time está acabado, hora de começar tudo de novo. Sobrou para o Dwyane Wade, portanto, jogar numa equipe em reconstrução - algo que acontece com a maioria dos jogadores escolhidos no topo do draft, mas que para Wade veio tardiamente. Depois dele já ter ganhado seu primeiro anel de campeão.

Dizem que sexo é um troço fácil de viver sem, dá pra passar umas duas décadas sem trepar numa boa, mas depois que você faz a primeira vez, fica difícil passar tanto tempo afastado. O tempo sozinho parece mais amargo, dar "uns beijinhos" parece mais sem graça. É como viver num mundo de Priscilas Fantin (bonitinha) depois de ter conhecido a Alinne Moraes (espetacular). Tudo ganha uma nova proporção. Portanto, a situação do Dwyane Wade tornou-se bastante complicada. Enquanto o LeBron James passou muitas de suas primeiras temporadas jogando com elencos risíveis e "estava tudo bem" porque havia acabado de chegar na NBA, para o Wade não dava para ter um elenco com Chris Quinn e Mark Blount depois de já ter sido campeão. Para piorar, suas lesões e a temporada abandonada do Heat tiraram rapidamente Wade da mídia, seu título de campeão já estava enterrado na fama de "ajuda da arbitragem" e LeBron e Carmelo, colegas de draft, ganhavam mais e mais destaque. Algo precisava ser feito.

Depois de ir pra faca para recuperar tanto o ombro quanto o joelho, Wade iniciou um processo de reabilitação com Tim Grover, um guru de treinamentos porreta para jogadores da NBA. A intenção era que Wade estivesse em plena forma física para defender a seleção americana nas Olimpíadas de 2008 e provar que estava de volta ao grupo dos grandes. Tim Grover pediu 6 semanas, então Wade lhe deu 8 semanas de trabalhos ininterruptos. A princípio, seu nome estava na equipe mais pela fé do técnico Mike Krzyzewski, mas quando os jogos começaram, Wade mostrou que era o jogador em melhor forma física, jogando com mais vontade, e terminou o torneio como cestinha - sem falar de campeão olímpico. Foi amplamente apontado como um dos maiores responsáveis pela medalha de ouro. No mesmo ritmo, começou a temporada da NBA jogando um absurdo. Não tenho nenhuma dúvida de que a temporada 2008-09 do Dwyane Wade foi a melhor temporada que eu já vi ser jogada por qualquer jogador da NBA em toda minha vida. Seu jogo evoluiu com uma velocidade digna de Pokémon, tornou-se um dos melhores e mais explosivos defensores da liga, ganhou um arremesso consistente da linha de 3 pontos e quebrou recordes absurdos: foi o primeiro jogador da história a conseguir, em uma temporada, acumular 2000 pontos, 500 assistências, 100 tocos e 100 roubos de bola. Alguém tem ideia do que significa o Wade, de repente, aparecer e dar mais de 100 tocos numa temporada? Foi o cestinha da temporada e teve médias de 30 pontos, 5 rebotes, 7.5 assistências, 2.2 roubos e bizarros 1.3 tocos por jogo. A temporada mais destruidora que já presenciei. Mas seu time era uma merda completa, terminou apenas em quinto do Leste, e aqueles critérios bizarros para elever MVP nem consideraram o Wade para a disputa, falando apenas de Kobe e LeBron. Sua temporada inesquecível rapidamente virou farofa quando o Heat foi eliminado na primeira rodada dos playoffs de novo, mas dessa vez para o Hawks, que nem é um time de verdade.

Todo mundo sabe que o Wade é um jogador espetacular, especial, um dos melhores de sua geração. Mas não há muita consciência por aí de quão bom ele realmente é. Culpa de uma série de critérios, arbitrários e construídos, que impomos sem pensar à nossa fruição dos jogadores. Fazendo cara de sábios, com sotaque de mestre de kung-fu, dizemos que um verdadeiro grande jogador é aquele que vence, que leva seus companheiros à vitória não importando as circunstâncias. Mas aí, em nossa burrice Luciana Gimenes, fingimos não ver que uma série enorme de fatores decidem se uma vitória é possível: a qualidade do elenco, a dificuldade de sua Conferência, as regras que David Stern impõe para os juízes, a sorte na hora dos jogos e até mesmo na hora de ver quais adversários lhe enfrentarão (prefiro pegar o Mavs em uma final do que qualquer outro time da NBA!). Kevin Garnett não foi capaz de vencer quando esteve no Wolves, enfrentando as terríveis dificuldades de elencos limitados, e por isso não será valorizado. A temporada mística do Wade, em que ele despertou seu Sétimo Sentido, também foi facilmente esquecida porque não resultou em uma longa campanha nos playoffs. Mas aquele Heat era simplesmente um dos piores elencos que já presenciei.

Da mesma forma, o título do Wade é (assim como acontece com Kobe) diminuído pela ajuda de Shaq, por não ser conseguido no próprio suor, e falamos isso depois de duas cervejas quando nem lembramos mais que, 5 minutos antes, dizíamos que o basquete é um esporte coletivo em que a grande estrela deve saber depender de todo mundo. Só existe uma solução possível para essa besteira, e Garnett apontou muito bem após seu título no Celtics: vencer. Vencer rápido, enquanto há tempo. Deixar de lado esses conceitos de "lealdade à equipe e à cidade" quando na verdade você só está sendo usado por uma empresa e tomando porrada de todos os críticos que sugam os melhores anos de sua vida enquanto você não consgue vitórias. Ir para a melhor situação possível para vencer e fazer sua parte lá, tendo ao menos as condições necessárias para se provar, para saber que seu esforço é em direção a algo possível, plausível. O arrependimento de Garnett por ter ficado no Wolves é enorme, e com razão: ele gastou os melhores anos de sua carreira perseguindo algo impraticável, dando o seu melhor, sendo espetacular, e sendo cuspido pelas pessoas que lhe chamavam de fracassado. No Celtics, não joga um décimo do que jogava, mas é herói. Ouça bem: corra para a melhor situação possível, em que seus esforços possam ser recompensados, em que você não vá ficar apenas batendo a cabeça na parede. A vida é curta. Esse foi o conselho de Garnett a LeBron James.

Mas quem ouviu direitinho, e parecia ter entendido tudo isso mesmo antes de Garnett abrir a boca, foi Dwyane Wade. Pat Riley tentou por muito tempo negociar extensões de contrato com Wade, mas o armador do Heat sempre bateu o pé: só ficaria se houvesse a confirmação de que não estaria lá sozinho perdendo seu tempo. Ninguém quer que a vitória caia no colo, mas todo mundo quer estar na situação em que seu esforço possa lhe alcançar o objetivo, mesmo que ele não venha. Wade deixou claro que iria embora se não houvessem outras estrelas para ajudar. Foi por isso que encerrou seu contrato, o Heat não tinha ninguém, é um elenco pelado, e os esforços do Wade em quadra são cada vez mais inúteis e, por isso, cada vez mais ignorados pelos fãs e pela mídia. Quem é Wade? Deixa pra lá, vamos falar de Kobe, Paul Pierce, ou até daquele tal de Joe Johnson.

Dwyane Wade nunca disse que queria dominar, que queria um time para si. Aceitou a chegada de Shaquille O'Neal ao time com referência e humildade. Foi secundário no elenco frente ao pivô e começou a ganhar os jogos de mansinho, até que os playoffs fossem inteiramente responsabilidade de Wade e Shaq fosse apenas um cara velho - e largo. Na seleção dos Estados Unidos, agradeceu com humildade ao técnico Mike Krzyzewski por ter "acreditado nele", como se fosse difícil acreditar num dos melhores jogadores do planeta. Sabia que era apenas parte de um grupo e, pior, era apenas a parte que merecia menos crédito ou consideração, vinha de contusão, estava lá "de favor". E ganhou as Olimpíadas na maciota, quando a maioria das pessoas sequer estava olhando para ele.

O Wade já foi campeão, ele não é mais virgem de anéis. Também não tem na parede um poster do Jordan que ele olha todos os dias para superá-lo um dia. Quer apenas ser campeão, e exige ajuda para isso. Cobrou estrelas exaustivamente. Se Kobe tem Gasol eu quero um troço ainda melhor, deve ficar pensando. Sua vontade de vencer pareceu sempre desatrelada da vontade de ter um time só seu. Ele não pedia para Pat Riley um elenco mais sólido, um banco de reservas. Ele queria estrelas, queria os melhores jogadores possíveis do seu lado, e o Pat Riley dizia que era impossível. Quando o Gasol foi para o Lakers, o Wade exigiu explicações do Riley, como é que tinha acontecido? Temos uma mania de achar que o grande jogador tem que vencer com um time sólido mas mais-ou-menos, que Jordan venceu com uns caras quebra-galho. Bah, aquilo era tudo menos quebra-galho. Aquilo chutava traseiros. E ao invés de bater a cabeça na parede, Wade quer também.

Kobe sempre se isolou muito do resto da NBA. Sua paixão pelo basquete é, como costumamos dizer por aqui, uma paixão nerd. Ele estuda, analisa, treina, só fala disso, se tranca no quarto, passou as primeiras temporadas no Lakers sem nenhum amigo, o dia inteiro na cama lendo a Bíblia. Está se soltando agora, entendendo que precisa ser amigo dos companheiros de equipe, se arrependendo de ter pedido para se livrar de Shaq apenas para provar que podia, que chutaria o bumbum do Jordan. Agora, ganha o anel "sozinho" ao lado de Gasol, Artest, Bynum, gente que seria vencedor em qualquer outro lugar. Mas é importante ver como esse Kobe descontraído, solidário, ganhador, é de uma geração diferente da de Wade, LeBron e Bosh, que são brincalhões, falantes, palhaços, e tem seus egos lá nas nuvens mas de um modo bem diferente. Eles não querem ser melhores que Jordan, eles querem ser melhores que o chato do Kobe, algo palpável que dá pra tentar ser nos trocentos jogos de cada temporada. Não caçam monstros imaginários. Se acham fodões, claro, mas querem mais é vencer, ter grandes estrelas do lado, criar dinastias. Eles tem afinidades entre si, fazem piadas juntos, devem ter assistido aos mesmos desenhos na TV quando eram crianças.

O Wade já sabia há algum tempo que o Bosh iria jogar com ele, sabiam que poderiam colocar a amizade em prática nas quadras, só não sabiam onde. Vamos para o Knicks, vamos para o Bulls? O Bosh que disse que era bom o bastante para ser a base de um time e não um cara secundário, o Wade que voltou mordido para ter a melhor temporada de todos os tempos porque não estavam mais falando dele. Não falta ego. Mas essa geração representada por Wade tem uma postura diferente com relação ao basquete e à vida: aquilo que Garnett aprendeu depois de uma vida sofrida, aquilo que Kobe aprendeu depois de duas temporadas sofridas, essa geração já sabe agora. Quer vencer já. Essa consciência que sempre precisou ser construída em times que vão sendo montados aos poucos através de trocas, reclamações, propostas, derrotas, jogadores que não tem nada a ver uns com os outros mas que precisam aprender a jogar juntos, já está em Wade e Bosh porque foram eles que decidiram montar esse time. Ao invés de um Frankstein sofrido, como é o Celtics, fizeram um robô gigante por livre e espontânea vontade.

Durante o período em que viajaram para se encontrar com os times e decidir onde assinar, Wade e Bosh jantaram juntos várias vezes. Sabiam que jogariam juntos e só decidiam onde, ou seja, são um time montado e escolhido pelos jogadores, não pelos engravatados. A mesma coisa aconteceu com LeBron. Esse não é um time forjado a ferro e fogo, que precisa aprender na marra que uma hora, eventualmente, é importante vencer e você precisa tolerar as outras estrelas e o mal hálito do Garnett. Não. Eles já sabem que o importante é vencer - LeBron e Bosh tem motivos específicos para isso, que trataremos depois, mas Wade sabe porque já venceu antes e conhece o limbo que espera a todos fora disso. Ninguém vai ter que aturar ninguém, trocar ninguém, controlar ego de ninguém. Eles escolheram isso. Wade é o anfitrião, recebe dois de seus melhores amigos de longa data (são amiguinhos próximos desde 2003), então vai ser o número 1, o favorito da torcida, a cara do elenco, o dono da brincadeira. Mas, como sempre, vai dominar os jogos e vencer as partidas de mansinho, sem que ninguém sequer perceba. Mas agora, se tiver uma temporada como em 2008-09, vão se lembrar. Todos vão se lembrar.

Precisamos jogar fora essas perguntas de quem vai ser o líder, quem vai segurar a bola, se os egos vão se chocar. Está bem claro que essa geração tem outras prioridades, outro senso de valor, e egos nas alturas naquilo que trata com mídia e imagem, não naquilo que trata da quadra de basquete. Vamos jogar fora nossos conceitos velhos da época do Jordan, da inflação desenfreada, do Jaspion. Wade tem um ego do tamanho do mundo mas é mais sensato do que os que vieram antes dele: vencer é a única solução. E ao invés de ter que se encaixar num time, de esperar trocas aleatórias, de conhecer os novos membros do elenco, que tal jogar com dois dos seus melhores amigos? O Wade bateu o pé porque não queria ficar mais longe do título, era isso que lhe importava, e ele deve voltar aos anéis de campeão bem cedo, simples assim. A nova geração é mais simples e direta. Vai ser também mais vencedora. Ao invés de um rei e vários súditos, eles podem ser todos reis. Há espaço para todos esses egos no mundo do Twitter. Nosso mundo, o da imagem, da aparência, da propaganda pessoal digital, é cheio de umbigos inflados - e todos eles se adicionam, se seguem, se deixam scrap, se retweetam uns aos outros.