Mostrando postagens com marcador Celtics. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Celtics. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Jogo feio

K.O! You Lose!

A série entre Miami Heat e Boston Celtics tinha tudo para ser muito interessante, divertida, disputada e, já que estamos na internet, épica. Mas acima de tudo feia, no melhor dos sentidos. Quem acompanha NBA há algum tempo deve lembrar da final do Leste de 2004 quando o Detroit Pistons que viria a ser campeão com Chauncey Billups, Rip Hamilton, Tayshaun Prince, Rasheed e Ben Wallace enfrentou o Indiana Pacers de Jamaal Tinsley, Ron Artest, Jermaine O'Neal e Reggie Miller. Foi uma série vencida por 4 a 2 pelo Detroit e que teve placares do tipo 69-63 e 72-67, o máximo que um time marcou em um jogo foi 85 pontos, o Pistons do jogo 3. Esses jogos foram uma guerra, com muita porrada, contato físico, defesa forte em todas as posições e em que os times tinham que batalhar por todo santo ponto; as cestas poderiam ser comemoradas como gol no futebol de tão difíceis de conseguir. Os 26 tocos (19 do Pistons, 7 do Pacers) no jogo 5, se não me engano, ainda são o recorde de um jogo de playoff na história da liga. O mais famoso deles é chamado simplesmente de "The Block", vocês devem conhecer:



O jogo 5 teve 25 tocos (13 a 12 para o Pistons) e inúmeros roubos de bola, defesas exemplares. Foi o momento que eu admiti  pela primeira vez que um jogo com poucos pontos e muitos erros poderia ser tão ou mais bonito que uma partida corrida que acaba 130 a 128. E é exatamente isso que eu esperava da série entre Heat e Celtics: partidas feias que vão dar gosto de assistir pela qualidade defensiva das duas equipes e para ver como esses talentos individuais vão quebrar as defesas. Alguém decepcionado com isso até agora? Por características individuais dos jogadores os jogos não têm muitos tocos como a série que eu citei, mas eu nunca vi uma série onde cada rebote fosse tão disputado. Não dou mais dois jogos pra alguém sair sangrando.

O curioso é que esse jogo pegado e feio acontece na série de playoff mais estrelada da história. São 6 jogadores em cada lado que já passaram por um All-Star Game, Mike Bibby, Jamaal Magloire (eu sei, eu sei...), LeBron James, Dwyane Wade, Chris Bosh e Zydrunas Ilgauskas pelo Heat e Rajon Rondo, Ray Allen, Paul Pierce, Kevin Garnett, Shaquille O'Neal e Jermaine O'Neal pelo Celtics. Somando todo mundo dão 80 aparições em All-Star Games!

Um dos motivos que fizeram o Boston Celtics trocar o Kendrick Perkins, dizem, foi que o Leste não tinha equipes com pivôs bons o bastante para necessitar da defesa do Perk, a exceção era o Dwight Howard, que já está de férias. Se isso é mesmo verdade, foi um erro primário e nada digno de um General Manager que montou essa equipe fantástica que foi o Celtics nos últimos anos. Defender o garrafão não é só marcar pivôs ou alas de força, envolve muito mais do que isso e é nesse aspecto que o Celtics está sofrendo nesses dois primeiros jogos da série. Na temporada regular eles venceram o Heat porque fizeram um paredão na frente do garrafão (quando Perkins estava machucado era com Shaquille O'Neal) e simplesmente impediram qualquer tipo de infiltração. O Heat então tentava vencer os jogos com arremessos forçados de três pontos e arremessos longos e forçados de LeBron James e Dwyane Wade, a parte mais fraca do jogo de ambos.

Mas se a troca trouxe Jeff Green, uma boa alternativa para defender LeBron, deixou frágil a área pintada. Com Perkins fora e Shaq machucado sobram para defender o garrafão o decadente Jermaine O'Neal e a dupla Kevin Garnett e Glen Davis, que até defende bem outros pivôs, mas não é ameaça de toco para armadores que decidem invadir o garrafão. Do Nenad Krstic eu nem comento, nem uma criança medrosa de cueca borrada teria medo de fazer uma bandeja em cima do careca. As infiltrações eram tudo o que o Miami Heat queria para parecer um time imbatível, toda vez que o bicho pega eles podem fazer um pick-and-roll ou uma isolação simples e mandar LeBron James ou Dwyane Wade para uma bandeja ou lances livres. Nos dois primeiros jogos o Heat tem 70% de aproveitamento em arremessos tentados embaixo da cesta, contra 48% do Celtics.

Quando bate o desespero no Celtics e todo mundo tenta compensar as falhas de marcação, sobra alguém livre para chutar de longe. É a vez das não-estrelas James Jones e Mike Bibby brilharem, um alívio para o Heat já que ambos tiveram muitos altos e baixos durante toda a temporada e não se sabia como se comportariam nos playoffs. O Bibby, alías, é uma espécie de Derek Fisher de Miami, virando outro jogador com o começo da pós-temporada. O trio de estrelas vai dar uns 70% dos arremessos, isso é claro, mas é importante que o resto do time seja eficiente nos outros 30% para desafogar; embora sejam piores do que antes, o Celtics ainda é uma defesa bem forte.

Outro fator importante nesses dois jogos, especialmente no primeiro, são os turnovers. O Miami Heat até tem errado mais que o Boston Celtics, mas os verdinhos não conseguem transformar os erros em pontos, enquanto o Heat cria contra-ataques monstruosos que resultam em pontos fáceis, enterradas ou jogadas humilhantes:



A transição defensiva do Celtics sempre foi muito boa, assim como sua defesa de pick-and-roll e a proteção do aro. Porém, tudo isso está falhando na hora que não devia. Méritos do Heat, que até agora parece mais motivado (sangue nos óio, mano!), concentrado e com um plano de jogo certeiro. O estranho é ver o LeBron James focado e comemorando de um lado com o Paul Pierce perdendo a cabeça do outro, não era pra ser diferente? Parece que aquele jogo 5 entre Cavs e Celtics no ano passado foi na verdade há uma década. Muita água pra rolar, mas eu acho que é hora do Celtics passar o bastão para o novo Big 3 do Leste.


.....




Na outra semi-final do Leste, um assunto que não queremos abordar. Depois que o Atlanta Hawks venceu o jogo 1 contra o Chicago Bulls o Danilo pediu que eu escrevesse sobre o time, ele estava cansado de falar mal dos caras e eles irem lá provar o contrário. Eu topei porque sou bróder, amigão, mas na verdade queria fugir dessa também e o motivo é bem simples: eu não sei como eles estão ganhando.

Contra o Orlando Magic até que deu para usar de desculpa o aproveitamento bisonho nas bolas de três do adversário, mas e nesse jogo contra o Bulls? O Hawks não tinha Kirk Hinrich, machucado, para marcar Derrick Rose, tinha tudo para ser um desastre. Além disso três titulares, Al Horford, Josh Smith e Marvin Williams, nem chegaram aos 10 pontos marcados. E eles só forçaram o Bulls a 10 turnovers. Como diabos eles venceram esse bendito jogo?

Bom, eu posso chutar como, só não sei a chance de isso acontecer de novo: o Joe Johnson fez uma das melhores partidas da sua vida com 34 pontos em 18 arremessos e teve ajuda dos 22 pontos de Jamal Crawford. Aliás, o JJ fez 51 pontos somando todos os 4 jogos contra o Magic na semi-final do Leste do ano passado, já passou com sobras da metade disso em um só jogo dessa vez, está fazendo os 120 milhões investidos valerem alguma coisa. Os dois jogarem bem é normal, jogarem tão bem, ao mesmo tempo e contra uma das melhores defesas da liga é que foi impressionante. Ajudou também os 15 pontos em 6-9 arremessos que o trio de reservas Damien Wilkins, Zaza Pachulia e Jason Collins e isso, temos que admitir, é mais raro que passagem do cometa Halley! Ainda mais se você lembrar que os pontos do Jason Collins vieram até em jogada de isolação, uma aberração sem tamanho.

Detalhe, a melhor jogada do Jason Collins no jogo 1 foi essa aqui. Fatality:



Vale ressaltar o bom trabalho do Jeff Teague no ataque, sem medo de atacar e ser atacado pelo Derrick Rose, mas acho que o grande segredo foi ter conseguido defender o Bulls sem faltas. O Rose, eleito ontem o MVP da temporada, não cobrou nenhum lance livre no jogo, Carlos Boozer cobrou apenas dois, o mesmo número de todo o banco de reservas da equipe somado. Na temporada regular o Bulls foi o 11º time com mais lances livres tentados por jogo, 24, no jogo 1 foram apenas 16 e eles nem foram cobrados pelos seus principais jogadores. Para se ter uma idéia o último colocado na temporada foi o Warriors com 20 por jogo.

Convenceu? Eu não me convenci. Nem sei como eles conseguiram parar o ataque do Bulls sem fazer faltas! Sei que mais uma ou duas vitórias impressionantes assim e eu vou ficar sem explicações mesmo para esse time. Se não falarmos mais sobre o Hawks a partir de agora é porque estamos envergonhados e não sabemos o que dizer, ele é nosso elefante no meio da sala que vamos ignorar na cara dura até que ele desapareça.

PS. Ah, só para quem não viu, ontem nos questionaram sobre o Hawks no formspring e a resposta que eu dei na hora até merece ser compartilhada aqui, talvez convença alguém:

Pergunta: Tem coisas que não da pra explicar simplesmente o destino quis e pronto. Te dando uma idéia de post sobre porque o Hawks ganhou do Bulls

Denis: Uma vez eu vi um documentário bem legal sobre o infinito. Nele alguns matemáticos dizem que se o infinito realmente existe, existem infinitas planetas, universos, civilizações e que em algum lugar do infinito existem partículas se combinando de uma maneira idêntica ao do nosso planeta aqui. E que a coisa mais improvável que podemos imaginar está acontecendo nesse exato segundo em algum lugar, já que o infinito engloba todas as possibilidades. Então só calhamos de estar no bizarro universo onde o Atlanta Hawks ganha do Chicago Bulls. É a minha melhor explicação.

Colou?

sábado, 23 de abril de 2011

Reconstrução capenga

Falando sobre comida

Estamos acompanhando (eu, por entre o muco abundante da minha gripe) playoffs bastante disputados, com jogos interessantes e parelhos. Mas aquele clima de zebra foi embora bem rápido, os resultados não são mais surpreendentes e tudo está mais ou menos dentro do esperado. O Lakers perdeu um jogo mas apenas em atuação épica de Chris Paul, vencendo o segundo mesmo com uma das piores partidas conjuntas de Kobe e Pau Gasol de todos os tempos, e vencendo ontem fora de casa na maior mamata. O Pacers, que deu sufoco no Bulls em todas as partidas até agora, perdeu 3 jogos seguidos mesmo com atuações bem mequetrefes do Derrick Rose (e marcação genial do Paul George, assunto pra um futuro post), estando praticamente eliminado da pós-temporada. Mesma coisa com Sixers e Knicks, que até deram trabalho mas já estão planejando as férias. Thunder contra Nuggets e Mavs contra Blazers são terra de ninguém, como previsto. Então restam apenas duas séries dessa primeira rodada dos playoffs que ainda tem cara de estar completamente fora do controle: a primeira é Magic e Hawks, que exige uma retratação da minha parte então por enquanto vou fingir que nada está acontecendo; e a segunda é Spurs e Grizzlies.

Quão surreal é dizer que uma série com o Grizzlies, que até outro dia era uma das maiores piadas da NBA e se classificou em oitavo para os playoffs, é uma das que está completamente fora de controle? O Spurs dorme todos os dias com medo do Zach Randolph, e nem é de que ele coma tudo que o time tem na geladeira. A defesa do Grizzlies é sufocante, o garrafão é forte e movimenta a bola, os jogadores são jovens e motivados. Em apenas três anos a equipe deixou se ser presa fácil nos playoffs, passou por um processo completo de reconstrução, e venceu sua primeira partida de pós-temporada em cima do todo-poderoso Spurs. Melhor projeto de reconstrução de todos os tempos? Pelo contrário. A reconstrução do Grizzlies foi uma bosta, um projeto completamente atrapalhado e cheio de tropeços, e que deu certo mesmo assim simplesmente porque acertaram em alguns aspectos fundamentais. Ou seja, é a prova definitiva de que reconstruir uma equipe não é tão difícil assim: se até o Grizzlies consegue, qualquer time do planeta pode fazer também. Até eu. Ou sua avó, que quando você diz "basquete" ela entende "chacrete".

Em 2003, o Grizzlies conseguiu chegar aos playoffs pela primeira vez, mas perdeu todos os jogos. Tudo bem, era um time ruim que estava apenas pegando o jeito das coisas. Na temporada seguinte, foram aos playoffs de novo e perderam todos os jogos de novo. Vários jogadores deixaram a equipe, outros foram contratados às pressas, mas o time foi aos playoffs de novo, uma terceira vez. E, de novo, foi eliminado da pós-temporada sem vencer uma mísera partida sequer. As duas temporadas seguintes foram cheias de contusões e jogadores fazendo de tudo pra não jogar lá. Como diabos lidar com uma franquia em que nenhum jogador quer jogar? Em um post de dois anos atrás, o Denis conta como Steve Francis foi draftado pelo Grizzlies e se negou a jogar lá, e como quase todos os novatos de 2009 (quando o time tinha a segunda escolha do draft) se negaram a treinar pela equipe, evitando assim ser draftados pela franquia. Como melhorar uma equipe em decadência se ninguém quer jogar por ela? O Grizzlies tinha a possibilidade de se reconstruir em volta de Pau Gasol e seu salário gigantesco, mas teria que apostar em novatos com uma equipe que sempre estaria às bordas dos playoffs, correndo o risco de ser ruim demais para ganhar um joguinho sequer na pós-temporada mas boa demais para conseguir escolhas altas no draft. Foi preciso muita coragem e muita falta de cérebro (coragem e burrice não estão intimamente ligadas?) para cortar esse círculo vicioso e trocar Pau Gasol por um pacote de bolachas.

A troca, na verdade, visava o futuro e só pode ser melhor analisada agora. Na época, foi Pau Gasol e uma escolha de segunda rodada por duas escolhas de primeira rodada, Kwame Brown, Javaris Crittenton e os direitos pelo Marc Gasol, escolhido na segunda rodada pelo Lakers. Na prática, o Kwame Brown era apenas um contrato expirante para o Grizzlies economizar dinheiro e reconstruir as finanças, o Crittenton foi mandado para o Wizards por uma escolha de primeira rodada (e lá acabou sacando uma arma contra o Gilbert Arenas no incidente que quase acabou com a carreira do Arenas), e o que o Grizz conseguiu no final das contas foi uma caralhada de escolhas de draft e o Marc Gasol.

O que o Grizzlies fez com essas escolhas de draft é coisa de Grizzlies mesmo, uma bagunça: eles são obrigados a escolher os jogadores que ninguém mais quer, ou então draftar jogadores que claramente não querem jogar para a franquia ou que não treinaram para eles antes do draft. Chegaram a ter o Kevin Love, por exemplo, e acabaram trocando pelo OJ Mayo porque não tinham visto o Love em ação. Gastaram a segunda escolha do draft de 2009 com o Hasheem Thabeet, o pivô gigante que não sabe amarrar os próprios cadarços. Então é claro que eles não são o Spurs, cujos olheiros conseguem prever o futuro e draftam gênios até em divisão de time de futebol de aula de Educação Física da quarta série. Pra piorar, o Grizzlies ainda encrenca com os novatos na hora de assinar contratos, criando uma imagem ainda pior na mídia. É bem claro que eles são atrapalhados, não tomam as decisões certas e têm dificuldades com novatos, tanto na hora de draftar quanto na hora de assinar, agradar e tentar mantê-los na equipe. Mas há uma coisa que eles fizeram muito bem: guardar a grana liberada com a troca dentro de um cofre de porquinho.

Em geral quando uma equipe tem espaço salarial sobrando, a lógica é que você está sendo burro se não usar esse espaço salarial para contratar alguém e melhorar seu time. As regras te deixam pagar salários até um limite, pra quê ficar abaixo dele ao invés de contratar o máximo de ajuda com ele? O problema é que usar o espaço salarial em uma temporada significa que você sem querer comprometeu o espaço salarial das temporadas seguintes. Os contratos tendem a ser de longa duração, os jogadores ficam sob contrato por vários anos, e os salários vão subindo de temporada em temporada. Então usar o espaço salarial ao máximo numa temporada "só porque eu posso" pode mandar pelo ralo as finanças do time pela próxima década (né, Knicks?). O Grizzlies conseguiu espaço salarial de sobra ao trocar Pau Gasol, e com ele tentou contratar o Josh Smith, por exemplo. O Hawks igualou a oferta, o Josh ficou em Atlanta, e aí ao invés de gastar a grana no segundo melhor jogador disponível, ou contratando um pivô qualquer que não sabe o que é basquete mas é alto e pode trocar lâmpadas sem escadas, o Grizzlies economizou. Não teve medo de feder, de conseguir escolhas altas no draft, e de evitar ao máximo ter prejuízos. Por muitos anos a equipe teve a pior audiência de toda a NBA, o melhor a se fazer mesmo é tentar cortar os gastos ao máximo e saber esperar. Fazendo trapalhadas no draft ou não, se metendo em bagunças com os novatos ou não, o Grizzlies soube esperar e cuidar do dinheiro.

Quando isso acontece, é possível se aproveitar de oportunidades que volta e meia dão sopa na NBA mas ninguém está em condições de agarrar. Tipo um time querendo se livrar do Kevin Garnett, por exemplo, ou do Ray Allen, ou do Kendrick Perkins, ou do... Pau Gasol? Então, o que o Grizzlies fez foi achar alguém que quis se livrar do Zach Randolph (porque havia na cagada conseguido a primeira escolha no draft e iria pegar o Blake Griffin) e, com o espaço salarial para conseguir fazer a troca funcionar, conseguiu um jogador que de outro modo não aceitaria jogar por eles. Paciência foi tudo: conseguiram jogadores veteranos como o Zach Randolph, tiveram grana para dar um contrato gigantesco para os novatos que deram certo como o Rudy Gay, deixaram os novatos que eram mais-ou-menos em quadra sem medo de perder até ver se podiam render algo, deram a grana para os que se sairam bem depois de muita insistência como o Mike Conley, e trocaram os que não deram em nada por jogadores veteranos, como o Hasheem Thabeet mandado pelo Shane Battier.

Essa é uma receita razoável para reconstruir um time, mesmo se for feita de modo capenga. Basta apertar o botão do apocalipse, se livrar das estrelas, guardar a grana para abraçar alguma oportunidade maluca, draftar uma caralhada de novatos, e não ter vergonha de perder muito até dar certo. O Wolves está no mesmo caminho. Não é um plano genial como o do Thunder ou do Blazers, mas é um plano acessível até para as equipes mais confusas, como o Pistons. Só que ainda falta o ingrediente secreto capaz de tornar essa reconstrução capenga do Grizzlies uma equipe capaz de vencer o Spurs, falta o "elemento X" capaz de tornar açúcar, tempero e tudo-que-há-de-bom em Meninas Superpoderosas: um cara como o Tony Allen.

"Isso é fácil", você deve estar pensando. "Conheço um monte de idiotas sem cérebro capazes de se machucar sozinhos dando uma enterrada que não vale pra porcaria nenhuma".



Sim, isso é verdade. Jogadores que esquecem o cérebro num pote na geladeira antes de saírem de casa são comuns, e o Tony Allen deu mais dor de cabeça para o Celtics do que ajudou nos anos que esteve lá. Mas algumas coisas são fundamentais: ele é um bom defensor, aprendeu a defender em conjunto com Kevin Garnett, e veio de um ambiente extremamente motivado, coletivo e focado em vitórias. Imagina só o Tony Allen e sua mentalidade vencedora herdada dos tempos de Celtics no vestiário do Grizzlies, em que todo mundo devia achar a coisa mais natural do mundo perder jogos de lavada (especialmente o Zach Randolph, que provavelmente sempre pensou que "vitória" fosse apenas uma palavra que queria dizer "o time adversário"). O confronto com certeza foi imediato. Tony Allen não teve medo de pegar no pé dos companheiros, de exigir uma postura diferente em quadra, de cobrar por defesa. Mesmo sendo um jogador zé-ninguém com minutos limitados. Em quadra, guiou pelo exemplo sendo um jogador burro que mesmo assim dava o sangue dentro de quadra na defesa.

Diz a lenda que numa partida de pôquer no avião do Grizzlies, indo para um jogo, OJ Mayo perdeu 1.500 dólares para o Tony Allen mas se recusou a pagar. Tony Allen teria agredido verbalmente o adversário, questionado sua moral, e os dois saíram na porrada a um ponto tal que o OJ ficou cheio de hematomas na cara e teve que ficar de fora da partida seguinte da equipe. Desde então, pelo que dizem, os jogadores do Grizzlies chegaram a um acordo: todo mundo pode falar o que quiser para todo mundo, cobrar, questionar caráter, o que for, porque eles são uma família e não vão sair na porrada. O pôquer passou a ser proibido nas viagens da equipe, mas o incidente uniu os jogadores. Tony Allen vem de um lugar em que é normal exigir, cobrar e questionar seus companheiros de equipe, o Garnett até fez o Glen Davis chorar dentro de quadra. Quando o Grizzlies entendeu que é esse tipo de ligação que faz equipes vencedoras (e equipes defensivas), as coisas finalmente entraram nos rumos.

O dinheiro do Grizzlies foi bem usado com os novatos que quiseram ficar (ao invés de esperar por estrelas que só querem jogar com outras estrelas) e com jogadores caros que seus times estavam jogando no lixo, como o Zach Randolph, que agora se sente acolhido e valorizado (tudo porque o Grizzlies, além de dar uma oportunidade ao ala, não esperou um segundo para lhe dar um contrato gordo assim que ele teve uma partida genial contra o Duncan). Mas um dos dinheiros mais bem gastos dessa equipe é com o porcaria do Tony Allen. O que ele trouxe à franquia é inigualável. O Grizzlies até trouxe de volta o Shane Battier, ainda um dos melhores defensores da liga, mas ele é bom moço, reservado, controlado. Tony Allen vem da linhagem Garnett de gritos, cuspe na cara e beber sangue de criancinhas que motiva qualquer equipe - mesmo aquelas que preferem sair para ir no bingo.

É claro que esse Grizzlies ainda tem muitos problemas. Pra começar, sentem falta do Rudy Gay, que sabe criar o próprio arremesso, é o melhor arremessador de três da equipe e defende várias posições. Falta um facilitador no ataque para que as cestas não precisem ser todas brigadas, ganhas na marra. E o banco ainda é mais mirrado do que os seios da Keira Knightley. Mas agora eles têm uma dupla de garrafão que acredita um no outro, Marc Gasol e Zach Randolph se procuram no ataque, abrem espaço um para o outro, e se complementam na defesa - e essa dupla só foi possível graças à troca do irmão do Marc, Pau Gasol. E isso é maior do que parece: nenhuma dupla de garrafão na NBA tem, nesse momento, esse grau de companheirismo e essa intimidade em quadra, nem mesmo Pau Gasol e Andrew Bynum. E o resto do time acredita que pode vencer jogos de verdade, mesmo se forem nos playoffs, mesmo se forem fora de casa, mesmo se forem contra o Spurs, e mesmo se forem contra o melhor colocado do Oeste - tudo porque um tal de Tony Allen mudou a postura dessa equipe, encheu de porrada um ladrão no pôquer, e custou apenas um punhado de milhões antes tão bem economizados.

Tony Allen e Shane Battier vão ter muito trabalho marcando Tony Parker e especialmente Manu Ginóbili, que voltou de contusão agora com um braço biônico e continua acertando aquelas cestas idiotas e inexplicáveis que vencem jogos de playoffs dos modos mais aleatórios possíveis. Mas bizarramente a batalha no garrafão contra o todo-poderoso Tim Duncan parece tender para o Grizzlies. Eu sei que todo mundo aqui por essas bandas da caipirinha pede pelo Tiago Splitter para ajudar na marcação de Randolph e Marc Gasol, mas sejamos realistas, por melhor defensor que o Tiago seja, ainda falta treino físico para lidar com o muro de tijolos que é o Marc e o muro de banha que é o Randolph. É desleal. Popovich prefere apostar na experiência de Duncan e McDyess, ou compensar no ataque com Matt Bonner, coisa que o Splitter ainda não pode fazer. De todo modo, o Grizzlies está um passo a frente no garrafão (com a ajuda do excelente Darrel Arthur e de Sam Young, também vindos com escolhas de draft da troca do Gasol) e mordendo com força em tudo em que estão atrás, tentando vencer mais na vontade do que na técnica - e gerando com isso a série mais equilibrada desses playoffs. Se fosse a equipe de Pau Gasol e Jason Williams de três anos atrás, com técnica de sobra, entraria se achando incapaz de vencer uma partida de playoff. Isso não é auto-ajuda, não tem nada mais idiota do que esse lance de "tudo que você acha que pode fazer, você pode fazer", mas postura é algo essencial no esporte. Quando uma equipe realmente acha que pode vencer, ela fará o que for necessário. Se tiver dois gordos gigantes no garrafão, então, é capaz que até consiga.

Esse Grizzlies então nos serve de alerta não só para o papel da postura, da defesa e da paciência na construção de uma equipe, mas também para como uma troca pode parecer muito, muito idiota quando acontece - e ser mesmo idiota - apenas porque não temos como perceber que seria ainda mais idiota continuar insistindo nos mesmos erros. Memphis Grizzlies: tropeçando sempre de novas maneiras desde 1995.

sábado, 2 de abril de 2011

Uma ausência improvável

"Quem faz essa defesa funcionar levanta a mão!"

Que o Celtics ia se lascar com a troca do Perkins, meio que todo mundo sabia. Era até bastante óbvio. Mesmo os mais esperançosos e fãs mais fanáticos sabiam que o time iria passar por maus bocados até se acostumar com a mudança do elenco e até ter todos os jogadores saudáveis. O que ninguém esperava, no entanto, é que a troca fizesse o Celtics se embananar todo na parte ofensiva, não na parte defensiva. Nada na NBA acontece como a gente espera, mesmo quando acertamos que uma equipe vai feder acabamos errando o modo como isso acontece. Ué, o Perkins não era o pilar defensivo da equipe e um zero à esquerda no ataque?

Antes da troca, o Celtics tinha uma campanha absurdamente impecável: eram 41 vitórias e apenas 14 derrotas. Depois da troca, os números são bem menos bacanudos: 11 vitórias e 9 derrotas. Mas é preciso lembrar que a campanha fantástica antes da troca tem pouquíssimo a ver com o Perkins, que jogou apenas 12 partidas pelo Celtics nessa temporada graças a uma séria lesão - e venceu oito delas. Isso quer dizer que sem o Perkins, o Celtics venceu antes da troca 29 jogos e perdeu 10, aproveitamento muito maior do que está tendo agora. Já é o bastante para compreender que a atual fase capenga da equipe de Boston não pode ser explicada simplesmente com a saída do Perkins, o buraco é bem mais embaixo - e passa principalmente pela parte ofensiva.

No famoso post sobre novas estatísticas que o Denis publicou uns tempos atrás (famoso pra mim, que cito ele o tempo inteiro), podemos ver que o impacto do Kendrick Perkins em quadra se concentra em algo muito específico: ele é um dos melhores na NBA em impedir pontos bem próximos ao aro, forçando um péssimo aproveitamento aos adversários e comete poucas faltas enquanto isso. Há também aquilo que os números não mostram: o Perkins sabe quando pegar pesado, não permite cestas fáceis, e não tem receio de descer o braço e mandar alguém para a linha de lances livres quando necessário. Ele é uma parede de tijolos,  tem os sentimentos de um matador de aluguel, é muito obediente taticamente e nunca, nunca, nunca erra uma rotação defensiva. Como o Denis indicou em seu post sobre o novo Thunder, essas qualidades do Perkins que não aparecem nos números são capazes de transformar uma equipe e estão tornando os jogadores ao seu redor, como o Serge Ibaka, muito mais eficientes defensivamente.

Mas o Celtics não depende de um jogador só. É, sem dúvida, uma das melhores defesas coletivas da NBA. Trata-se de um andróide fantástico: a cabeça é do Tom Thibodeau, o gênio que acabou de transformar o Bulls na melhor defesa da liga, e o coração é do Kevin Garnett, que bebe o sangue de criancinhas vietnamitas e palita os dentes com os ossos dos adversários. Com a base dos dois, todo o resto do elenco se aplica, obedece e mantém o esquema funcionando, mesmo quando alguns jogadores frágeis defensivamente estão em quadra (Glen Davis, estou olhando pra você). Essa coletividade na defesa e poder do esquema tático são os responsáveis por manter os números defensivos do Celtics idênticos antes e depois da troca do Perkins. Nos números, nada mudou. O Perkins levou suas qualidades e aquilo que aprendeu com o Garnett para o Thunder, mas no Celtics os outros jogadores podem manter o esquema funcionando sem ele. Mas o ponto é: a que custo?

Sem Jermaine O'Neal e Shaquille O'Neal (que não, não são irmãos), o tamanho do Celtics cai muito. Quando Glen Davis ou Nenad Kristic estão em quadra, o time perde em tamanho e em poder defensivo, porque o forte dos dois é o ataque. Então a defesa se mantém na base do comprometimento e do esforço. Kevin Garnett sempre insistiu que o Celtics não precisa perder um segundo sequer se preocupando com movimentações ofensivas, que eles são bons o bastante para improvisar qualquer merda e que os pontos surgem com facilidade quando a defesa faz sua parte (aliás, esse discurso pode ser considerado o fundador indireto do novo Miami Heat, mas isso é outro história). Então, para o ataque funcionar, o Celtics precisa manter a defesa funcionando de modo impecável mesmo com jogadores menores, mais leves, mais lentos, mais mongolóides, o que for. Kevin Garnett precisa aumentar os esforços no garrafão e na cobertura, Paul Pierce precisa apertar as coisas no perímetro. Se os números defensivos estão idênticos, é porque o esforço está dando certo e a defesa se mantém nos moldes de antes. Mas como resultado, Garnett e Pierce em especial se desgastam muito mais durante os jogos, os adversários atacam mais a cesta, é preciso colapsar a defesa para o garrafão e depois correr pra cobrir o perímetro, e todo mundo se cansa pra burro com esse tipo de coisa. Antes, o Perkins intimidava muita gente como apenas tijolos conseguiriam, agora não tem mais isso. No ataque, por isso, o Celtics anda jogando bem mais devagar - e até os contra-ataques ficam prejudicados pela falta de pulmão e pela mudança na defesa, que é quem inicia o contra-ataque. Em matéria de eficiência a defesa é a mesma, mas em matéria de posicionamento, confiança, esforço, rebotes e contra-ataques, o Celtics é uma equipe bastante diferente.

Todos os números ofensivos da equipe caíram, e alguns outros fatores ajudam nessa queda. O Celtics é um asilo de velhinhos, então é normal que mais esforço na defesa signifique que a bateria da equipe acaba mais rápido, mas também tem o fato do Rajon Rondo estar jogando lesionado (com questões no tornozelo e uma lesão mais preocupante na sola do pé), e da falta de pivôs significar menos rebotes de ataque e defesa adversária mais focada nos arremessadores. Garnett, Pierce, Ray Allen e Rajon Rondo estão estatisticamente bem piores no ataque, e o banco de reservas é ainda pior. Jeff Green veio para a equipe para defender alas de força mais baixos, mas anda sendo pouco usado graças ao problema de altura que assola a equipe e à sua dificuldade atual no ataque. Carlos Arroyo sabe chamar as jogadas, é bom moço, mas quem viu ele jogando no Heat sabe que ele não acerta arremessos nem quando está completamente sozinho em casa, com bolinhas de papel. Delonte West está voltando agora sem ritmo e nunca foi grande pontuador, Troy Murphy está lesionado e fora de forma. Glen Davis, que sempre foi uma força ofensiva vindo do banco, volta e meia tem que estar entre os titulares - e mesmo com os reservas anda sofrendo com a falta de altura da equipe e jogando cada vez mais longe do garrafão, pouco acionado, forçando arremessos idiotas.

Quer saber de uma coisa? A troca do Perkins foi uma cagada, mexeu com a defesa do Celtics, mas não é nada que Garnett não consiga arrumar no grito. O cansaço da equipe, que está morrendo com a língua pra fora, vai melhorar muito quando Jermaine O'Neal ganhar ritmo e o Shaquille O'Neal voltar às quadras já na semana que vem. Mesmo numa fase tão ruim, perdendo até pro Hawks que nem é um time de verdade ontem, a equipe consegue ainda assim ganhar do Spurs um dia antes. Então não é nada tão sério assim. Mas há uma cagada ainda pior, mais destrutiva e que ao meu ver não tem como arrumar a tempo: a troca do Nate Robinson.

O Nate "the Great" foi para o Thunder na troca do Perkins, e ninguém se preocupou em reclamar da ida do anão - era muito mais importante ficar indignado com a troca do pivô. A maioria das pessoas nem percebeu sua ausência. Mas era o Nate quem mantinha o banco do Celtics ofensivamente no jogo, era ele quem fazia o Glen Davis funcionar com os reservas no pick-and-roll, eram suas bolas de três que mantinham a diferença no placar que os titulares conquistavam. Os números mostram claramente que a defesa do Celtics ainda é a mesma, entre as cinco melhores da NBA, mas o ataque é uma porcaria e o ataque dos reservas é uma atrocidade, um atentado à vida, à moral e aos bons costumes. A ida do Kendrick Perkins deixou os velhinhos magoados e cansados, mas isso se arruma. A ida do Nate Robinson deixou o banco uma merda, o ataque mais estático, e não tem ninguém nesse elenco com suas características para brilhar nos playoffs. Jermaine e Shaq vão voltar às quadras, mas não tenho dúvidas de que o impacto que eles terão no ataque será minúsculo - e nem de longe o necessário para que a equipe tenha sucesso nos playoffs. Ninguém imaginaria isso, mas o Celtics sente mais falta é do jogador mais improvável e que nunca recebeu o devido valor quando atuou pela equipe.

Eu acredito no Garnett para manter a defesa funcionando e sei que o orgulho ferido do Celtics é o bastante para vencer jogos na cabeçada e na sangria, e só por isso não dá pra descartar o Celtics de levar um título esse ano. Mas depois de ver esse ataque sofrendo e o Glen Davis fazendo bobagem sem seu amigo anãozinho no controle, não consigo imaginar o Celtics sendo campeão do Leste - todo pulmão tem um limite, e esse elenco sequer conseguiu jogar tempo o bastante junto para poder ter um ataque que não seja apenas jogadas de isolação para gente velha e cansada. Onde estão as bolas de três, gente nova atacando a cesta, os contra-ataques abudando da correria, essenciais numa equipe sem jogadas de meia-quadra programadas? Desculpa, Perkins, ainda te acho um cara batuta, mas o Celtics sente falta mesmo é de seu amiguinho menor e mais desmiolado. Nate Robinson, o Boston precisa de você.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Reconstrução ideal

O Perkins gosta de dançar valsa

Em novembro do ano passado, num post sobre o Thunder, o Denis escreveu o seguinte:

"Para o Oklahoma City Thunder se tornar a potência do Oeste que a gente sonhava antes da temporada começar, algumas coisas tem que mudar. A primeira é a defesa, que não pode ser tão fraca, isso é o ponto central. E a segunda é o próprio elenco. O Jeff Green é um jogador versátil e muito bom, mas completamente dispensável nesse time. Ele é bom demais para ser um reserva com poucos minutos, sua presença como ala de força só atrai mais ataque ao garrafão e mina os minutos do promissor Ibaka. Na posição três já tem Durant. Deveriam aproveitar que o Green é muito bom e simplesmente trocá-lo. Eles podem muito bem usar esse ótimo talento como isca para buscar mais arremessadores de três e uma presença defensiva no garrafão, talvez até um cara com mais experiência."

Pois bem, foi exatamente o que o Thunder fez. Com a evolução do Ibaka, Jeff Green se tornou dispensável. A forte defesa que vimos o Thunder empregar contra o Lakers nos playoffs passados, baseada no jogo coletivo e na defesa por zona, simplesmente desapareceu agora que o time se leva a sério e não é mais uma zebra em quadra jogando pela sua vida. Cole Aldrich, pivô defensivo draftado pela equipe, chegou tão cru que foi mandado para a D-League. Então o Thunder foi atrás de uma presença defensiva para o garrafão, um cara com mais experiência, usando o Jeff Green como moeda de troca - exatamente como o Denis sugeriu.

Em seu texto sobre novas estatísticas (aquele que deu polêmica porque questionou-se a fama do Kobe na hora de fechar jogos), o Denis constatou que a fama do Kendrick Perkins de ótimo defensor é justificada no aproveitamento dos adversários perto do aro, mas não no aproveitamento dos pivôs que jogam mais longe da cesta. Não é acaso, então, que o Celtics é o time que menos toma pontos no garrafão nessa temporada - e o Thunder é, justamente, o terceiro que mais toma pontos no garrafão! Se o Celtics procura, sei lá porquê, alguém para defender os pivôs que tem fobia de garrafão, tipo o Chris Bosh, vão encontrar alguma ajuda no Jeff Green. Mas para o Thunder, nada poderia casar tão bem com suas necessidades como Kendrick Perkins: ele é experiente, bem rodado nos playoffs, sua maior qualidade é justamente a defesa próxima ao aro, e ele não exigirá a bola no ataque, permitindo que Durant e Westbrook continuem monopolizando o sistema ofensivo. O casamento do time com o jogador é tão perfeito que basta algum sucesso nos playoffs para que Perkins passe a considerar com carinho uma extensão de contrato no Thunder, que pode oferecer bem mais grana do que o Celtics jamais poderia. O Nate Robinson complica um pouco mais as finanças (são mais de 4 milhões por ano), mas deve ajudar o ataque do time em minutos limitados e não compromete um futuro contrato para o Perkins. Seja lá qual for a água que o Danny Ainge bebeu e quais os medos que ele tivesse à noite do Celtics tomando um pau do Chris Bosh, a troca foi um sonho de debutante para o Thunder e torna a equipe imediatamente uma potência do Oeste. Pode não ser campeã agora, mas não tem problema. A única coisa que importa é convencer o Perkins a continuar no time e esperar alguns poucos anos até que equipes com artrite como Spurs e Celtics - e até o Lakers - não possam mais competir em alto nível. O Thunder é agora uma equipe para dominar a NBA por uma década, e que pode se dar ao luxo de esperar alguns anos antes de chegar ao topo. Até lá, deve manter todo mundo motivado com os estragos que farão nos playoffs, e com essa possibilidade constante e real de vencerem agora mesmo a qualquer momento, bastando um deslize adversário. O Thunder é montado para vencer agora mas pode esperar se necessário. É o plano perfeito, e o Perkins parece perceber. Já deu todas as indicações de que sua prioridade é assinar uma extensão com o Thunder, jogou no lixo seus tênis verdes a pedido dos companheiros de equipe, e se negou a usar uma bola verde no seu treino de fisioterapia, dizendo que não quer mais pensar no Celtics, que isso é passado (parece inclusive estar meio puto com a troca, mas disposto a abraçar seus novos companheiros). Ele deve ficar fora mais umas duas ou três semanas em reabilitação, mas o Thunder não tem pressa - ao mesmo tempo em que faz de tudo para manter o time competitivo e funcionando.

Isso fica ainda mais claro com a outra troca da equipe na data limite. Como o Thunder mandou o Nenad Krstic (além do Jeff Green e de uma escolha de primeira rodada) na troca pelo Perkins, foram atrás de outro pivô para tapar o buraco imediatamente. Poderiam improvisar o Nick Collison, poderiam esperar o Cole Aldrich amadurecer, mas o Thunder quer estar constantemente pronto para ganhar um título desde já - sem no entanto comprometer as chances de futuro colocando todas as fichas no agora. Por isso mandaram o contrato expirante do Morris Peterson e o pirralho DJ White em troca do pivô Nazr Mohammed. Eu sei que é bizarro, mas eu sou muito fã do Mohammed. Ele fazia estrago no Knicks de muitos anos atrás, foi campeão com o Spurs, é obediente taticamente, bom nos rebotes e pode fazer muito estrago se o ataque passar por ele graças aos seus movimentos embaixo do aro. Nunca foi muito aproveitado desde os tempos de Knicks, mas sempre rende quando recebe minutos. No Thunder ele ajudará imediatamente nos rebotes defensivos e poderá render no ataque quando a equipe quiser se impor no garrafão. Mas como seu contrato é expirante, o Thunder deixa seu garrafão mais forte sem ter que se comprometer financeiramente, podendo reassinar com o Mohammed por pouca grana depois ou apenas usar o dinheiro em outros jogadores ou renovar com a pirralhada. Time pronto pra vencer agora, mas sem estragar as finaças futuras.

Essa troca deixa o Thunder ainda mais forte e ela só é possível por um motivo muito estranho: o Bobcats desistiu. Vida de time que nasceu em expansão é uma droga, o time começa só com os jogadores que os outros não querem, não consegue convencer ninguém a ir jogar lá, e fica dependendo só de escolhas de draft. O Bobcats capengou especialmente no draft, escolhendo jogadores que nunca renderam aquilo que se esperava, mas há anos sempre flertam com uma vaga nos playoffs. A crença de que o time uma hora iria ficar maduro e chegar nos playoffs com tudo levou a trocas por jogadores veteranos como Stephen Jackson e Boris Diaw, e os pirralhos foram ficando de lado em nome da perseguição de uma vaga na pós-temporada. Talvez o que faltasse fosse um bom técnico como Larry Brown, pensava-se, mas as limitações do elenco ficaram ainda mais evidentes com o esquema rígido e defensivo do técnico vovô. O flerte com uma vaga pros playoffs continua, mas para quê? A equipe fede, o time não tem estrelas, os novatos não dão certo, então de que adianta conseguir uma oitava vaga nos playoffs do Leste pra tomar um cacete, não conseguir uma boa escolha de draft e ficar nesse limbo eterno? Depois de uma série de cagadas em anos de draft e contratações, o Jordan resolveu fazer o que está tão na moda com equipes que não fedem e nem cheiram e não dão lucro por causa disso: apertar o botão do apocalipse. Começou se livrando do Mohammed, que nem tinha tantos minutos assim, para conseguir um pirralho cheio de potencial, o DJ White, que o Thunder nunca teve espaço para usar.

E o plano de apocalipse do Bobcats deu seu passo mais decisivo quando mandou Gerald Wallace, provavelmente o melhor jogador da equipe, para o Blazers em troca do pirralho Dante Cunningham, o contrato expirante de Sean Marks e Przybilla e duas escolhas de draft (a do Hornets em 2011 e a do Blazers em 2013), além de grana. O plano é conseguir jogadores novos, escolhas de draft e contratos expirantes, pra não ter que pagar o salário do Gerald Wallace em um time em reconstrução. É claro que o Wallace vale mais do que isso, mas várias propostas foram feitas e nenhum time quis pagar pelo salário de um jogador que está numa temporada pior do que as últimas e que vive se machucando. Outros jogadores como Stephen Jackson e Boris Diaw também não encontraram recebedores por enquanto, mas devem ser trocados o mais rápido possível. São tempos de economizar e se focar na pirralhada e no draft. A crise econômica e os times fortes demais no topo das Conferências tornaram essa postura comum demais na NBA, mas não dá pra criticar. Depois de fazer muita merda, finalmente Michael Jordan tem um pouco de bom senso e tira o pé do acelerador em Charlotte.

Quem se deu bem com isso foi o Blazers, que já estava ameaçando ver seu plano de reconstrução virar farofa. Eu tinha um post preparado sobre isso, sobre o Blazers, mas acho que algumas das informações contidas nele são essenciais para entender a importância dessa troca para eles.

Não faz muito tempo, o Blazers fascinou todo mundo na NBA com um plano de reconstrução corajoso, fantástico e eficiente. O primeiro passo foi se livrar de seu melhor e mais caro jogador, Zach Randolph, em troca de quase nada. A equipe tinha chances de playoffs, e mesmo assim o Randolph foi simplesmente mandado embora. Os minutos começaram a ir para a pirralhada, o jogo deixou de ser centralizado nas mãos de um jogador só, a defesa virou foco principal sem o Randolph que não defendia nem ponto de vista, e o Blazers começou a se dedicar ao draft. Além das próprias escolhas e das escolhas recebidas em trocas, passou a comprar com dindim escolhas de primeira rodada de times que lutavam por um título e não tinham espaço para novos jogadores.

A tática para o draft também foi constante: escolher os melhores jogadores disponíveis, não importando os receios com lesões ou posição em quadra. O resultado foi incrível: o Blazers de repente era uma equipe com trocentos jogadores talentosos em tudo quanto é posição e ganhando experiência rápido. Chegou ao absurdo de ter tanto jogador novo e bom que não havia mais espaço para todos, começaram a surgir os descontentes com os minutos ou o número de arremessos por partida. Isso criou fortes moedas de troca, espaço salarial e - vejam que legal - um time forte nos playoffs.

Quando Travis Outlaw reclamava que queria arremessar mais e Steve Blake era apenas um de uma série de oitocentos armadores jovens na equipe, o Blazers mandou seus contratos expirantes em troca do Marcus Camby, substituto para o Greg Oden em caso de lesões. Agora, fizeram a mesma coisa: usaram o contrato expirante do Joel Przybilla (que foi conseguido às pressas com a lesão do Camby) e umas escolhas futuras de draft para trazer Gerald Wallace. O plano de reconstrução do Blazers, focado em se livrar dos melhores jogadores e dar espaço para a pirralhada, permitiu que o time tivesse as possibilidades e as ferramentas para trazer veteranos como Camby, Andre Miller e agora Gerald Wallace. Trazendo veteranos e se livrando de escolhas de draft, podemos entender finalmente o processo de reconstrução do Blazers como terminado. Agora eles se focam nas chances de ganhar já, não mais no futuro distante.

O problema é que esse processo de reconstrução tão eficiente que nos deixou tão apaixonados (e que gerou tantos clones por aí, tipo o Bobcats de agora) chegou a um ponto estranho em que me sinto seguro de dizer que ele está à beira de fracassar. Eu sei que os engravatados encerraram a reconstrução e agora estão se focando em vitórias, mas pra mim esse processo não levou a um plano de vitórias, levou a desespero e, agora, improviso.

Brandon Roy é uma estrela inegável. Chutou traseiros nos playoffs, foi All-Star em seu segundo ano, e levou o Blazers à relevância de novo. Sua altura permite que ele possa jogar tanto de ala quanto de armador, mas ele rende melhor quando joga de PG, de armador principal. No final de todos os jogos é ele quem chama as jogadas, executa e distribui a bola, e o Blazers é muito mais eficiente quando isso ocorre. Assim que o Andre Miller chegou, um armador cerebral e que mantém a bola nas mãos, ele e Brandon Roy já começaram a bater cabeça. O descontentamento dos dois gerou brigas nos vestiários e boatos sobre trocas. Tudo enquanto Rudy Fernandez, com minutos limitados graças ao elenco jovem e profundo da equipe, pedia incansavelmente para ser libertado e poder voltar pra casa. São questões que desapareceriam em um time com chances de título, mas essas chances viraram farofa com as lesões de Greg Oden, que ainda não conseguiu uma temporada sem ter os joelhos desmontados como Lego.

A reconstrução do Blazers trouxe jogadores demais que começaram a bater cabeça quanto ao seu espaço na equipe. A chegada dos veteranos, essenciais para consolidar as chances nos playoffs, complicaram o andamento da equipe. E os bagos do Blazers para draftar ou contratar jogadores com riscos de lesão viraram cagada quando Przybilla, Camby, Jeff Pendergraph, Greg Oden e Brandon Roy estavam todos juntos no hospital jogando dominó. Gerald Wallace, que nunca teve uma temporada sem lesões sérias, chega à equipe para reforçar a jogatina de dominó, provavelmente.

Greg Oden nunca esteve saudável, jogou uma temporada inteira na faculdade com apenas uma das mãos antes de ser draftado pelo Blazers. Mas o caso do Brandon Roy parece ainda pior. O jogador foi draftado pelo Wolves, que tentou trocá-lo imediatamente minutos depois após alertas dos médicos da equipe. O Blazers topou na hora e se deu muito bem, mandaram o Randy Foye e receberam um futuro All-Star. Mas agora Brandon Roy já passou por três cirurgias nos joelhos desde que entrou na NBA. Nos playoffs passados ele passou por uma cirurgia nos dois joelhos dias antes do início da primeira rodada contra o Suns, e voltou a tempo de entrar no Jogo 4 - nitidamente lento e com dores. Na época, ele já tinha sido avisado que não tinha mais qualquer traço de menisco nos joelhos, era apenas osso com osso. Não conseguiu render nada nessa temporada, constantemente com dores, e então resolveu passar por nova cirurgia nos dois joelhos. Menos de um mês depois, já voltou às quadras.

É claro que o Roy quer voltar logo a jogar, ele é altamente competitivo e quer levar o Blazers aos playoffs, mas inúmeras entrevistas com seus médicos apontam que ele não tem mais condições de jogar em alto nível em tempo integral. O recomendado é que ele atue por no máximo 70 partidas por temporada, e isso com minutos bastante limitados. E o pior: ainda assim, os médicos alertam que ele não será mais capaz de jogar basquete dentro de 2 anos.

A notícia é terrível para o Brandon Roy, um dos jogadores mais fantásticos dessa geração. Seus joelhos já eram motivo de preocupação, passaram por várias lesões e cirurgias, e o retorno às quadras sempre foi o mais rápido possível para ajudar o time. O Blazers sabia que o jogador não tinha mais meniscos, que não duraria muitos anos em quadra, e mesmo assim lhe colocou pra jogar uma série de playoff praticamente perdida - e lhe ofereceu um contrato máximo de 83 milhões de dólares por 5 anos.

O que sobrou para o Blazers ainda é um time incrivel, com chances de incomodar os grandes e fazer estrago nos playoffs. LaMarcus Aldridge passou a pegar rebotes e deixou de jogar tão longe da cesta, com médias de mais de 25 pontos e mais de 10 rebotes por jogo sem Brandon Roy na equipe. Andre Miller e Marcus Camby são veteranos que ainda jogam em alto nível, Wesley Matthews é um excelente jogador que substitui Roy em muitas coisas dentro da quadra (e que o Blazers conseguiu roubar do Jazz porque a equipe de Utah é pobre, tadinha) e Nicolas Batum é um excelente defensor que faz todas as pequenas coisas para uma equipe vencer. Gerald Wallace ajudará nos rebotes defensivos e na defesa, pode marcar múltiplas posições, jogava constantemente como ala de força no Bobcats e só passou a jogar mais no perímetro nessa temporada, arremessando cada vez mais, porque cansou de se contundir tanto dentro do garrafão. É um time forte, cheio de especialistas e com veteranos capazes de segurar as pontas nos playoffs.

Mas Brandon Roy ocupa a maior parte do espaço salarial da equipe e não deve durar mais de um par de anos. Quando estiver em quadra, baterá cabeça com Andre Miller. Greg Oden está fora de toda essa temporada novamente graças aos joelhos, mesma coisa com o pirralho Pendergraph. Marcus Camby acaba de voltar de uma cirurgia no joelho também, tentando ganhar ritmo. É um time com chances muito pequenas de título e que depende de uma série de jogadores que estão constantemente lesionados dando como finalizado um processo de reconstrução. Será que estava nos planos trazer Gerald Wallace? Marcus Camby? O Blazers deixou de construir uma equipe coesa porque se apaixonou por si mesma como nós nos apaixonamos quando eles chegaram aos playoffs. Devem ter pensado "é isso, dá pra ser campeão agora", enquanto todo mundo quebrava o joelho nos bastidores, jogadores pediam pra sair, contratos exigiam extensão e a grana acabava. Aí o plano foi pro saco porque querem ganhar agora, estão arriscando uma reconstrução inteira trazendo veteranos caros como o Gerald Wallace para tentar vencer os playoffs. Vencer Lakers, Thunder, Celtics? Sério?

O Thunder está pronto para vencer e não comprometeu seu futuro. O Bobcats desistiu das chances de playoffs e vai começar de novo. E o Blazers, esse time legal que vimos ser montado do zero, começa a arriscar para vencer imediatamente - mesmo dependendo de jogadores que não conseguem ficar saudáveis e de bagunça nos vestiários. Wesley Matthews e LaMarcus Aldridge chutam traseiros e vão receber atenção especial em outro post, mas o time precisa ser repensado em volta deles, sem contratações no improviso. O Thunder, que soube esperar e não se desesperou atrás de um pivô - lembra que eles chegaram a trocar pelo Tyson Chandler e devolveram porque os médicos avisaram que havia risco sério de lesão? - conseguiu o pivô perfeito, o Perkins, graças à flexibilidade financeira da equipe. Já pensou que legal se esse Blazers tivesse se negado a contratar jogadores com risco de lesão e tivesse usado o espaço salarial aguardando os jogadores certos? Por mais carinho pelo Blazers e por mais que eu adore ver o time jogando, o Thunder assumiu o posto de projeto de reconstrução ideal, algo que o Bobcats precisa olhar, espiar e aprender.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Família separada

Eu fiz a mesma cara quando soube que o Perkins tinha sido trocado


Ontem postei a lista com todas as trocas que aconteceram na data-limite de transações na NBA e logo depois aproveitei para comentar uma delas, a troca de Baron Davis por Mo Williams. Eis que dos 26 comentários do post, 149 são na verdade sobre o Boston Celtics. Não tem jeito, foi mesmo o assunto do dia e não tem como não comentar! Com mais informações sobre a  troca e tendo um dia de descanso para digerir tudo, é hora de tentar explicar que porra é essa que o Boston Celtics fez.

Rememorando, foram três trocas envolvendo o time:

Boston Celtics envia: Kendrick Perkins e Nate Robinson
Oklahoma City Thunder envia: Nenad Krstic, Jeff Green e uma escolha de 1º round de Draft (a escolha eu só descobri hoje também!)

Boston Celtics envia: Luke Harangody e Semih Erden
Cleveland Cavaliers envia: Uma escolha de 2ª rodada de Draft

Boston Celtics envia:Marquis Daniels
Sacramento Kings envia: Grana (e uma escolha de 2º round, descobri hoje)
......

A primeira delas é a que abalou o mundo do basquete. Ninguém esperava que o Kendrick Perkins, tantas vezes chamado de xerife da defesa do Boston, fosse ser trocado, ainda mais no meio da temporada. Todo mundo lá dentro amava ele, o Doc Rivers é fanático por sua defesa, os jogadores são seus amigos e há poucas semanas eles até ofereceram uma extensão de contrato pra ele, que foi recusada. O Perkins deixou claro que gostava do Celtics e que pretendia continuar, mas acho que em um mundo onde o Brendan Haywood recebe contrato de 46 milhões por 6 anos ele poderia recusar um de 22 milhões por 4 anos, fez sentido.

E no fim das contas esse problema financeiro acabou pesando na decisão. O Celtics percebeu que com a folha de pagamentos alta, o limite salarial possivelmente diminuindo no ano que vem e um monte de time atrás de um pivô jovem e bom como ele, seria impossível manter o cara no time. Aí adotaram a tática de que é melhor trocar antes por alguma coisa do que perder por nada ao fim da temporada. Outra justificativa foi dada pelo técnico Doc Rivers na noite de ontem, ele afirmou que o Celtics estava tendo muitas dificuldades contra times que jogavam no small ball (quinteto com jogadores baixos e velozes) ou contra times que tinham pivôs ou alas de força muito velozes, como era o Orlando com Rashard Lewis e é o Heat com Chris Bosh. Ainda segundo Rivers, eles queriam a opção de ter um ala que pudesse jogar na posição quatro e deixar o Garnett de pivô por alguns minutos durante o jogo, a inspiração veio do time que foi campeão em 2008, que muitas vezes (acho que em todos os jogos da Final, por exemplo) fechava o quarto período com o James Posey no lugar do Kendrick Perkins.

Uma outra razão seria a atual realidade da NBA, em que os grandes times não tem ótimos pivôs ofensivos a serem parados pelo Kendrick Perkins. No Leste Amar'e Stoudemire, Chris Bosh, Al Horford e Carlos Boozer são os grandes nomes de garrafão nos rivais, mas são na verdade alas de força que podem ser marcados pelo Garnett. O Joakim Noah não é nenhuma ameaça ofensiva e o Dwight Howard é que poderia virar um problema, já que vê o seu melhor marcador indo para a outra conferência. Como comentaram ontem no Twitter, "Essa troca mostra que o Celtics não acredita que o Magic chega longe". O General Manager Danny Ainge, que se disse muito triste de ter trocado o Perkins (embora acredite que fez a coisa certa, claro), afirmou que eles venceram todos os grandes times enquanto o Perkins estava machucado, e que isso deu uma confiança maior para eles executarem a troca.

Por fim, o que adocicou o pacote foi a escolha de 1º round de Draft oferecida pelo Thunder que é, na verdade, do Clippers. É a de 2012 (a de 2011 é a que foi para o Cavs), mas é protegida, só vai mesmo para o Celtics quando o Clippers não tiver uma escolha dentro do Top 10, talvez em 2052.

Essas foram as explicações dadas pelo Celtics, todas com bom argumento e razões, eles não estavam bêbados e ligaram para o Thunder de zoeira. Agora, elas terem um embasamento não quer dizer que tenham sido certas, muito pelo contrário. Geralmente essas trocas que revoltam as pessoas logo de cara não são tão burras assim e tem um objetivo por trás, como dissemos há um tempo atrás, até a do Pau Gasol por Kwame Brown acabou fazendo sentido para o Grizzlies. Então nesse caso a crítica ao Celtics não é feita no impulso da revolta, é mesmo depois de compreender os seus motivos.

Na mesma entrevista do Doc Rivers que eu citei antes, ele diz que agora que não tem mais o Perkins, vão ter que confiar mais no Shaquille O'Neal e que ele terá que estar saudável durante os playoffs. O Shaq tem se machucado o tempo todo e já tem quase 40 anos de idade, é nas costas dele mesmo que vocês querem colocar suas chances de título? Imagina se ele se machuca no meio da final do Leste como não vai chover crítica na cabeça do Danny Ainge. Apostar no outro O'Neal, o Jermaine, é bobagem, já que ele talvez só volte, ainda sem ritmo, nos playoffs. E o outro pivô, o novato Semih Erden, foi trocado por (quase) nada. Ou seja, eles vão apostar no Shaq como pivô e nos minutos em que ele não jogar provavelmente vão apelar para um quinteto baixo, com Glen Davis ou Jeff Green como alas de força e Kevin Garnett como pivô.

A força do garrafão do Celtics, que era o que eu mais admirava no time nessa temporada, foi enfraquecida para que o time ficasse mais semelhante aos seus adversários de conferência. Adversários esses que, é essencial ressaltar, o Boston estava enjoando de tanto vencer! Por que fazer referência ao Chris Bosh quando diz que o Celtics estava tendo dificuldades contra alas de força mais baixos se o Heat não chegou nem perto de bater o Boston até agora? E um dos motivos é porque eles não sabem lidar com o tamanho da linha de frente verde, não fazem tantos pontos no garrafão como queriam, não cavavam suas faltas e viviam de bolas de três. Eu considerava o garrafão pesado e cheio de opções do Celtics o seu ponto forte, algo que lhes deixariam quase imbatíveis na pós-temporada, mas a mesma característica foi o que o Danny Ainge e o técnico Doc Rivers viram como uma fraqueza. Uma dica, senhores, quando o seu time está em primeiro no Leste e tem o segundo melhor recorde da NBA e derrota todos os seus principais adversários pelo título, provavelmente não é uma fraqueza.

A questão do contrato também não me convence. Tá bom que eles tinham uma grande possibilidade de perder o Perkins ao fim da temporada, mas isso não era garantido e ele era peça fundamental no time. Mesmo que tenham vencido sem ele na temporada regular, o cara já estava fazendo a diferença quando voltou. E não dá pra ignorar o fato de que o time é um asilo, quanto mais opções para se prevenir contra contusões, melhor. Eles não estavam na situação do Denver Nuggets que poderia perder o Carmelo Anthony por nada e não tinham mais ambições nesse ano, o Celtics está lutando por mais um título de campeão, era hora de fazer sacrifícios pelo campeonato ao invés de ficar com medinho de perder um jogador sem receber outro em troca. Jeff Green é novo e dá uma renovada no elenco, mas e daí? Não é hora de fazer planejamento para o futuro, Ray Allen, Paul Pierce e Kevin Garnett ainda estão aí jogando bem e juntos, era hora de continuar junto e vencendo. Pra mim seria como o Lakers trocar o Lamar Odom por um pirralho "com potencial" ou o Orlando Magic trocar o Jason Richardson por medo de perdê-lo ao fim da temporada.

Vale citar também a presença de Nate Robinson e Nenad Krstic na troca. Eu não considero o pivô sérvio muita profundidade no garrafão porque sua defesa é ridícula, acho que vai ter minutos limitadíssimos. E perder o Nate Robinson tira um pouco da força do banco de reservas dele, mas vamos ver como eles repõe essa peça, já que eles devem contratar mais gente. Explico: O Celtics que pensa tanto no futuro com medinho de perder o Perkins é o mesmo que usou o imediatismo para justificar a saída dos outros jogadores. O bom pivô reserva Semih Erden foi para o Cavs com outro novato, Luke Harangody, em troca de uma escolha de Draft. O mesmo recebido por Marquis Daniels que, machucado (grave lesão no pescoço), provavelmente não jogaria mais nessa temporada. A razão para essas trocas foi abrir espaço no elenco do time para conseguir contratar os jogadores que provavelmente estarão recebendo um buyout (quando um time paga para poder dispensar um jogador) nos próximos dias, caras como Leon Powe (Cavs, que já está bem próximo de voltar ao Celtics), Troy Murphy (Warriors, está em dúvida entre Celtics, Magic e Heat), Joel Pryzbilla (Bobcats, nada confirmado ainda) e Jason Kapono (ia ser engraçado ver ele tentar defender). Mas últimas notícias dizem que podem até aparecer mais nomes, como Jared Jeffries (esse mais perto do Knicks) e Mike Bibby.

Então metade das trocas foi para se prevenir para o futuro e metade para abrir espaço para novos jogadores que chegam imediatamente. No total, 5 jogadores de um elenco de 15 jogadores, 1/3, trocados no time de segunda melhor campanha da NBA. Algo inédito, sem dúvida. É quase o que o Orlando Magic fez no começo da temporada, mas sem estar jogando mal antes de jogar tudo pro alto, um pequeno detalhe.

Não é que as mudanças não podem dar certo, elas podem. Jeff Green é muito bom, o time realmente era bem bacana quando usava o quinteto com James Posey como ala de força e o Shaq, se saudável, dá conta de qualquer pivô por aí. Mas tudo isso pode acontecer, pode, é uma possibilidade, um risco, nada com certeza. E em uma liga tão competitiva, tão difícil e com times tão bons por aí, para quê arriscar se você já tem algo funcionando perfeitamente na mão? Isso é que eu nunca vou entender ou aceitar. Como disse Paul Pierce ontem, "Química e entrosamento são tudo. Não importa o talento que você tem e leva para o time, as pessoas não dão o valor devido à química entre os jogadores".  

Peguei essa frase do Paul Pierce em uma matéria da ESPN gringa que tem uma coleção de frases dos jogadores do Celtics que mais parecem tiradas de um funeral. O clima está pesadíssimo por lá, o Perkins era muito querido e a sensação da família ter perdido um membro parece ter afetado todo mundo. Entre elas tem o Garnett dizendo que "é uma noite triste para se jogar basquete" e que "perdemos um membro da nossa família hoje". Só do Rondo que não tem frase porque ele se recusou a dar entrevistas antes e depois da derrota apática para o Denver Nuggets. Vale lembrar que em 2010 o Rajon Rondo recusou um convite de treino da seleção americana porque se fosse iria perder o casamento do amigo Kendrick Perkins.

Lembro nos playoffs da temporada passada, quando todos estavam surpresos com a melhora do Celtics em relação à temporada regular, e os jogadores responderam dizendo que era assim mesmo, "Que esse quinteto nunca perdeu uma série de playoff". E era verdade, em 2008, primeiro ano deles, venceram tudo. Em 2009 perderam para o Magic, mas com Kevin Garnett machucado. Em 2010 só perderam para o Lakers, mas foi no jogo 7 e jogaram esse jogo (e mais da metade do jogo 6) sem Perkins, que machucou o joelho. Ou seja, com Rondo, Allen, Pierce, Garnett e Perkins juntos e saudáveis eles nunca foram derrotados na pós-temporada, e nem vão ter a chance disso acontecer de novo.

Na noite de ontem Garnett também ressaltou as características do time como uma unidade, dizendo que são todos amigos, que fazem coisas juntos, que é possível encontrar os 15 jogadores fazendo atividades juntos, todos próximos. Eles compraram a idéia do trabalho em equipe, se entenderam e se chamam de família, só faltou o Felipão pra comandar o time no lugar do Doc Rivers. Mas esse laço emocional, pelas declarações, parece ter sentido um ataque forte dos princípios frios e pragmáticos que regem a direção de um time de basquete. Ver todo o discurso de família em um dia e no outro um dos familiares ser mandado para outro lado do país em troca de peças importantes para um futuro distante não deve ser fácil de engolir.

O Boston Celtics, que para mim estava pau a pau com o Spurs como melhor time da temporada (talvez com um pouco de vantagem por ser uma defesa mais forte), que tinha o melhor garrafão da NBA, a defesa mais infernal e o elenco mais unido de todos foi abalado por uma troca que é um risco que eles não precisavam correr. Esse é o resumo da ópera. O Danny Ainge teve uma boa idéia, visualiza um time que pode dar certo e não mente quando diz que o time foi bom mesmo sem o Perkins. Mas ignorou que são ainda melhores com ele e já sabiam disso. No maior estilo horário político, por que trocar o certo pelo duvidoso?

Já que eu adoro uma analogia, é como um bilionário que resolve vender tudo o que tem e apostar a bolada toda em um cassino. O resultado pode ser fantástico no final, mas se você já é um bilionário (em um mundo de miseráveis, diga-se de passagem), pra que sequer cogitar a aposta? Só Danny Ainge sabe. E o Thunder agradece. Próximo passo da nossa empreitada é explicar o lado do Oklahoma City nessa história, aguardem!

Update: Vale a pena ler essa ótima análise do Bill Simmon na ESPN.com. Por duas razões, primeiro porque ele fala bastante sobre como a saída do Tony Allen e depois a contusão do Marquis Daniels deixou o time muito fraco na ala. Depois de Paul Pierce (que precisa respirar de vez em quando) não tinha ninguém. E aí imagina nos playoffs onde podem enfrentar LeBron, Carmelo, Luol Deng e etc. É o oposto do Perkins que só tem quem marcar em série contra o Magic.

Mas também comenta que podiam ter feito uma troca menor (por Anthony Parker, Mickael Pietrus ou Shane Battier, por exemplo). E por fim ressalta um pouco do que eu disse aqui, por mais que a troca tenha suas boas razões no papel, o jogo é mais do que isso. Depois de discorrer sobre o clima pesadíssimo entre os jogadores do Boston e como os torcedores tinham um carinho especial pelo seu quinteto titular, contou o que seu pai, fã do Celtics desde o período paleolítico, disse:

"Meu pai ficou ainda mais arrasado do que eu. Ele compra os season-tickets do Celtics desde 1973 e ainda vai a pelo menos 25 jogos do Celtics por temporada. Ele disse ontem 'Eu sentava perto do banco, assisti ele crescer. Não acredito que o esporte é só sobre ganhar e perder. Nós podemos estar melhores agora, mas eu não ligo. Eu gostava do elenco que tinhámos, não parece certo ele não estar no nosso time'".

......
Se você agora odeia o Danny Ainge, pode usar uma camiseta que diz isso!
Até o próprio já usou! Em 1987, quando ele era jogador do Celtics, ele foi disputar uma partida em Detroit e alguns torcedores da casa tinham uma camiseta com os dizeres "I hate Danny Ainge" (Eu odeio Danny Ainge). Ele, bem humorado, viu os torcedores e pediu uma para ele, e a usou durante o aquecimento daquele jogo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O recorde de Ray Allen

Na noite de ontem, Ray Allen quebrou o recorde de bolas de 3 pontos totais convertidas na história da NBA. Foi um grande momento, então se você não conseguiu assistir ao vivo, o Bola Presa traz para você um infográfico exclusivo que imortalizará para sempre essa cesta histórica. Preocupados com a necessidade de registrar esse momento para as futuras gerações, escolhemos o único instrumento que nunca envelheceu nem envelhecerá: o Paint.



Clique na imagem para ampliar e apreciar em alta definição

Com o arremesso e as reações devidamente analisadas, podemos voltar nossa atenção para o fato de que o Celtics perdeu esse jogo para o Lakers, e que aproximadamente 12 milhões de pessoas que dedicam suas vidas a dizer que o Lakers está em crise se suicidaram nessa madrugada porque não tinham mais nada para fazer. Com essas mortes, chegam relatos de que a internet é agora um lugar mais tranquilo e que a pornografia pode ser baixada um pouquinho mais rápido. Em breve, voltamos com nossa programação normal.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Preview 2010-11 / Boston Celtics

Começamos hoje a seção que faz o preview de todos os times para a próxima temporada. Não vamos ter nenhuma ordem de postagem e iremos tentar brincar bem pouco de futurologia. Também podemos interromper os previews a qualquer momento para postar sobre outro assunto que pareça relevante.


...



- Eu não sei arremessar


Objetivo máximo: Título
Não seria estranho: Perder na semi-final do Leste para Heat, Magic ou Bulls
Desastre: Perder na primeira rodada dos playoffs

Forças: Elenco profundo, experiência em playoffs e entrosamento.
Fraqueza: Idade. Não perderiam se a liga fosse decidida no dominó.

Elenco (Veja todos os elencos da temporada aqui)


Boston Celtics
Titulares
Reservas
Resto
PG
Rajon Rondo
Delonte West
Avery Bradley*
SG
Ray Allen
Nate Robinson
Von Wafer
SF
Paul Pierce
Luke Harangody*
Marquis Daniels
PF
Kevin Garnett
Glen Davis
Semih Erden*
C
Shaquille O'Neal
Jermaine O'Neal
Kendrick Perkins

...
Técnico: Doc Rivers

Quem conhece o blog há algum tempo sabe que a gente não é muito fã do Doc Rivers. Até hoje os seus maiores méritos no Boston não foram as coisas que fez, mas as que deixou os outros assumirem para si. Em 2007-08, primeira temporada do trio Pierce-Allen-Garnett, Rivers deixou toda a parte defensiva sob a tutela de Tom Thibodeau (leia um pouco sobre ele nesse post). O resultado foi a melhor defesa daquela temporada e, digo lembrando do Pistons de 2004-2007, a melhor defesa que eu já acompanhei de perto na vida.

Naquele mesmo ano Doc Rivers foi feliz ao não querer inventar muito no ataque. Fez um sistema ofensivo simples que sabia usar bem os contra-ataques (que eram muitos, graças à forte defesa) e jogadas individuais dos talentosos Paul Pierce e Kevin Garnett.

Na temporada passada, com o ataque estagnado, muito por causa da idade e do desempenho irregular dos três veteranos, Rivers foi feliz ao entregar o ataque nas mãos de Rajon Rondo. Em algumas entrevistas ele disse que o armador tinha sinal verde para fazer o que queria com a bola na mão. E assim o ataque verde floresceu de novo. Com a ajuda de Thibodeau, que fez a vida de LeBron miserável naquela série contra o Cavs, chegaram de novo nas finais em 2010.

Nesse ano eles não tem mais Thibodeau, que é técnico do Bulls, para cuidar da defesa, mas tem um time que já aprendeu muito com ele nos últimos anos. E se Doc Rivers tem outro talento além de deixar quem sabe mais que ele trabalhar, é motivar. Com aqueles gritos e discursos inflamados ele faz o seu time render mais nos momentos mais importantes. O Heat pode ter seus talentos na flor da idade, mas vai ser duro enfrentar esse time sedento por vencer o novo trio de ferro.
...

Todo mundo sabia o que o título do ano passado significava para o Lakers como time: o primeiro título consecutivo de um time desde o tri do mesmo Lakers em 2000-01-02, a doce vingança sobre o Celtics que os destruíram em 2008 e o fim das acusações de time “soft”. Por isso, depois do jogo 7 da última final, perguntaram para Kobe Bryant, “Sabemos para o time, mas individualmente o que esse título significa pra você?” e a resposta foi na lata, sem pensar, “agora eu tenho um a mais que o Shaq.

O dono do Celtics, Wyc Grousbeck (leia o perfil que fizemos dele aqui), disse que foi ao ouvir essas frases, no calor da derrota, que decidiu ir atrás do Big Fella. Claro que deve (ou deveria) ter pesado na contratação o fato do Shaq não estar cobrando caro, a contusão até janeiro do Kendrick Perkins e o fato do Celtics ter tido nos rebotes a sua maior fraqueza na última temporada, mas ficamos felizes com essa apimentada a mais na rivalidade.

Além de Shaq, chegaram ao time outro O’Neal, Jermaine, e Delonte West. Como novatos estão no time Avery Bradley, um armador reserva que parece ser bonzinho, Luke Harangody, que fez estrago nas Summer Leagues com suas bolas de 3, e Semih Erden, pivô turco que fez bons jogos no último Mundial.

Se estivéssemos em 2000, 2001 ou até 2003, o atual Celtics poderia ser visto jogando apenas uma vez por ano, numa cidade cheia de festas e um dia após um campeonato de enterradas. Isso porque há alguns anos atrás, Paul Pierce, Ray Allen, Kevin Garnett, Jermaine O’Neal e Shaq batiam cartão em All-Star Games. Hoje em dia nenhum deles está em seu auge, mas não deixa de assustar olhar todos no mesmo time. A grande missão de Doc Rivers com esse elenco é saber como usar um pouco de todo mundo de maneira eficiente. Na teoria daria pra usar Shaq, Jermaine e KG todos por um período não muito grande de tempo, assim ninguém cansa muito e se preserva para os playoffs, mas na prática não costumam ser muitos os times que conseguem jogar bem fazendo muitas substituições. Lembro do Shaq no ano passado em Cleveland jogando muito bem por um período e depois de “ser preservado” no banco voltava já sem ritmo, fora do jogo, e pouco contribuía. Na seleção brasileira já vimos muito disso também, excesso de rotação e ninguém entra no ritmo do jogo.

Não vou ficar aqui sugerindo as formações que eu gostaria de ver no Celtics, principalmente no garrafão, porque ainda nem vimos elas em ação, faremos isso durante a temporada. O Doc Rivers não é o técnico dos sonhos, mas é esperto o bastante para usar o tempo de treinamento antes da temporada para testar Garnett ao lado de Shaq, de Jermaine, os dois O’Neals juntos e a que eu mais espero, Shaq e Glen Davis no mesmo garrafão, o que pode mudar o pólo magnético da Terra.

Independente das escolhas, parece claro que o Celtics tem o garrafão com mais opções na NBA e é de lá que eles devem arrancar suas vitórias mais importantes. Quando Perkins voltar vão ser tantos jogadores de características diferentes que eles tem todas as ferramentas para parar Chris Bosh, Dwight Howard, Gasol-Bynum, Duncan-Splitter, Boozer-Noah e qualquer outro que apareça pela frente. Garnett e Jermaine são fortes mas sem perder a mobilidade, Glen Davis é pesado e rápido, Perkins é uma parede, Shaq uma parede mais velha e Erden parece ser capaz até de marcar alas de força.

Nem tudo é bom no mundo verde, porém. As contusões atrapalharam o time nos últimos anos e nessa temporada eles tem o Jermaine, é quase certo que ele vai se quebrar de alguma forma. Com outros se machucando talvez tenham dificuldade de criar um padrão de jogo até os playoffs. E também tem a questão da queda de qualidade dos seus jogadores. Rajon Rondo é espetacular, mas não dá sinal de que está aprendendo a arremessar e só tem piorado nos lances livres (vide final do ano passado), incomoda ter sempre essa característica do jogo explorada. Ray Allen é capaz de quebrar recordes de 3 pontos em um jogo e passar os outros em branco e, como diz muito bem esse post do Celtics Town, Paul Pierce tem ficado pior nos minutos decisivos das partidas.

Como todo time experiente, o Celtics deve levar a temporada regular em banho-maria, não se incomodando de acabar em primeiro ou quarto lugar. Vamos ver do que eles são realmente capazes apenas nas partidas mais simbólicas, como a da estréia contra o Miami Heat. Até vou perder a novela pra assistir!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Os caras maus

"E eu vou pra galera!"

Era 2004 e a temporada da NBA havia acabado de começar. Um dos times favoritos para ganhar o Leste era o Indiana Pacers, com jogadores como Reggie Miller, Jermaine O'Neal, Stephen Jackson, Ron Artest e Jamal Tinlsey. Era um time de defesa forte, dequeles dispostos a ganhar os jogos por um a zero com gol cagado no final. A rivalidade com o Pistons, de quem haviam perdido na Final do Leste da temporada anterior, era enorme. Aí o Ben Wallace sofreu uma falta e quis encher o Artest de porrada, o Ron Ron deitou debochadamente na mesa dos juízes, tacaram um copo de cerveja em sua cabeça, ele socou o torcedor errado, os jogadores entraram numa briga generalizada e tivemos a confusão mais famosa da história da NBA. Ron Artest pegou a maior suspensão de todos os tempos (tirando aquelas dadas por uso de substâncias ilegais) com 73 jogos de molho na temporada regular e mais 13 jogos nos playoffs, até maior do que a suspensão do Gilbert Arenas e seu famigerado caso da arma de fogo. Além dele, outros jogadores também foram suspensos pelo Pacers naquela briga: Jermaine O'Neal pegou 25 jogos de gancho, Stephen Jackson pegou 30, e Anthony Johnson ficou em casa por 5 partidas.

O mais engraçado é que o Pacers ainda foi para os playoffs naquela temporada, perdendo para o Pistons outra vez, mas nas semi-finais. Se não fossem pelas suspensões, aquele time teria feito ainda mais estrago nos playoffs e, apesar da aposentadoria de Reggie Miller, tinha tudo para ganhar um título nos anos seguintes. Mas a briga épica causou traumas profundos: enquanto Ron Artest se sentia culpado por ter destruído a maior chance de seu time até então e pedia para ser trocado afirmando que o Pacers estaria melhor sem ele, os engravatados do Pacers, liderados por Larry Bird, queriam reconstruir completamente a imagem do time e apagar do mapa os acontecimentos de 2004. De quebra, apagaram também do mapa qualquer possibilidade de ganhar um título pelas próximas décadas. Jamal Tinsley, famoso por se envolver em tiroteios em sua cidade natal e alegar que "acontece com todo mundo", tomou um gelo da franquia, perdeu o armário do vestiário, e está mofando em Indiana até que seu contrato termine. Stephen Jackson, que deu uns tiros pra cima depois de uma discussão na saída de um bar de strip-tease, foi trocado. Al Harrington, que depois de quase ser o melhor reserva do ano exigi virar titular, também foi trocado. Jermaine, envolvido na briga com o Pistons, foi o último a ser trocado para finalmente apagar os traços daquele grupo. Aos poucos o Pacers virou um time representado por Troy Murphy e Mike Dunleavy, dois sujeitos brancos, bonzinhos, dóceis e chatos. Nem preciso dizer que, desde então, a equipe de Indiana nunca mais ganhou sequer par-ou-ímpar.

Existe uma enorme preocupação em não colocar "maus exemplos" em grandes equipes da NBA, jogadores que podem arrumar encrenca, destruir a química do time, serem suspensos. De repente virou moda se livrar de qualquer cara que possa gerar dor de cabeça, que tenha problemas fora das quadras, que não seja bom menino. Quando menos percebemos, o Allen Iverson acordou desempregado enquanto jogadores bonzinhos mas sem nenhum talento são disputados a tapa por toda a liga. No momento em que o Kwame Brown ganhou um time e o Iverson começou a cogitar ter que ir jogar na China, deu pra ver que essa moda está indo longe demais. Por mais que o Kwame seja um cara legal, que dá vontade de passar a mão na cabeça, ele não vai tornar o Bobcats um time campeão. O Iverson, sim, já carregou times inteiros nas costas até uma final da NBA. O Artest, tão temido quando chegou ao Lakers porque "poderia pirar a qualquer momento e colocar tudo a perder", acabou de ganhar um título. Os bons jogadores às vezes são problemáticos e quem não quer lidar com isso vai ficar assinando Mike Dunleavys e Brian Cardinals (né, Mavs?) a vida inteira e montar uns troços insossos e fracassados como o Indiana Pacers dos últimos anos. Esse lance de "politicamente correto" vai transformar o planeta inteiro em mingau: docinho, inofensivo, sem gosto nem substância, fácil de engolir porque não tem nem que mastigar.

Curiosamente, um dos poucos passos contrários dos últimos tempos veio justamente do Pacers, que resolveu draftar o armador Lance Stephenson. O sujeito poderia ter sido facilmente draftado nas primeiras 10 escolhas, é um monstro no ataque, tem um jogo completo, e às vezes é fenomenal defensivamente. Mas acabou sendo escolhido na posição 40 simplesmente porque existem dúvidas sobre seu caráter dentro e fora das quadras. Teve passagem pela polícia ainda no colegial e, durante os jogos, tende a gritar com árbitros e companheiros, se empolga com o jogo, tenta sempre o lance mais espetacular ao invés do mais fácil. O medo de seu comportamento lembrou o pânico que cercava a contratação do Artest pelo Lakers, mesmo sabendo que um jogador tão espetacular estava saindo tão barato. Na posição 40, Lance Stephenson é uma baita pechincha - mesmo tendo, no mês passado, empurrado sua ex-namorada de um lance de escadas. Desde então, Stephenson não tem permissão para treinar com o resto dos seus companheiros, ficando confinado a treinos particulares até que o Pacers decida o que fazer. Mas gosto de pensar que os engravatados de Indiana não são completos débeis-mentais e que, portanto, sabiam dos riscos envolvidos no draft do Lance Stephenson. Treinos separados ou não, imagino que as temporadas de fracasso tenham forçado uma mudança de atitude simbolizada pelo draft de Lance. Se mandarem o garoto embora, como se cogita por aí, será a prova de que não aprenderam nada com os erros - e de que não leram o perfi dos jogadores que draftaram. Prefiro achar que estão dando uma atenção especial para o pirralho durante um momento difícil, dando conselhos e oferecendo estrutura e que, em breve, reintegrarão o armador à equipe.

Outro time que conseguiu uma pechincha dando uma olhada na baciada de "jogadores problemáticos" foi o Celtics. Com a nítida sensação de que essa será a última chance do elenco de ser campeão, e tendo que enfrentar o trio-fraldinha do Heat, o Celtics tá apelando pra qualquer coisa: mandinga, jogador velho, jogador novo, homem, mulher, e quantos jogadores-problema aparecerem. É por isso que Jermaine O'Neal, que o Pacers jogou fora, vai se unir ao Delonte West, que o Cavs mandou embora por culpa de um incidente em que ele foi preso andando de moto com mais armamentos do que o Rambo. Fiquei muito feliz com o despero do Celtics porque já estava crente de que o Delonte nunca mais ia conseguir um emprego nem no Mc Donald's apesar de ser um jogador excelente. Depois de anos abandonando jogos e treinos graças à sua depressão crônica e andando armado e paranóico pelas ruas de sua cidade natal, seria difícil achar um time que quisesse apostar no armador. Mas aí, pra piorar, o David Stern fez aquela merda que ele sempre faz, que é punir dentro da NBA por causa de uma punição fora dela, então o Delonte West tomou uma suspensão de 10 jogos depois de já ter sido punido pela justiça pelo seu porte de armas. Então qualquer time que aceite o armador tem que saber que, por 10 jogos, ele não poderá entrar em quadra. Convidativo, não?

Mesmo assim, o Celtics só tem a ganhar botando suas fichas no Delonte West. O jogador é inteligente em quadra, é bom arremessador, tem culhão para decidir e joga nas duas posições de armação. Torna o banco do Celtics imediatamente muito melhor, fazendo ainda melhor um papel que já foi de Eddie House, não importa quanto tempo fique suspenso e quantas motocicletas ele dirija por aí carregando lança-mísseis nas costas. Sua importância só será mesmo sentida nos playoffs, então a suspensão não vai ser grandes coisas. Do mesmo modo, Jermaine O'Neal torna o garrafão do Celtics bom o suficiente para que seja possível sonhar em enfrentar o garrafão do Lakers, mesmo que eventualmente ele acabe enchendo o Andrew Bynum de porrada ou se contundindo mais uma vez. Lance Stephenson tem tudo para tornar o Pacers, dono de um dos piores ataques da NBA, um time mais perigoso e talentoso, mesmo que empurre mulheres pelas escadas. É claro que ninguém gosta de gente escrota que anda por aí segurando metralhadoras e socando gurias, mas esses jogadores já foram presos, julgados e condenados, já fizeram serviço comunitário, já sofreram as consequências em suas vidas pessoais. Carregar isso para a NBA não apenas não faz um puto de um sentido, mas também torna os times piores, a liga pior, porque tira dele o mais importante: talento.

O Delonte West foi fundamental para o Cavs nas últimas temporadas, e em jogos decisivos apenas ele (e o Varejão, que não vale porque não tem cérebro) ousavam arremessar quando o LeBron ficava passando a bola. Tudo porque o Cavs topou lidar com os problemas do Delonte, lhe ofereceu tratamento psicológico e psiquiátrico, soube fazer concessões quando ele não queria (ou não conseguia) comparecer aos treinamentos, tentou ajudar o jogador ao invés de puní-lo. Sem LeBron na equipe, sabendo que eles precisam reconstruir, acho que não tiveram a paciência de manter o jogador e seus problemas, mas o Wolves poderia ter recebido o Delonte e tentado ajudá-lo, aproveitando-se de seu talento, ao invés de preferir despedir o jogador e sua imagem problemática. Azar. O apoio psicológico e psiquiátrico mudou a vida de Artest e permitiu que tanto ele quanto o Lakers saíssem vencedores com a parceria. Os times que não querem lidar com problemas e não estão dispostos a oferecer ajuda vão acabar draftando freiras ou comprando canários. E, certamente, vão feder muito, e por muito tempo. Se o Celtics tiver sucesso nessa derradeira temporada, ficará a lição: bons jogadores descobrem um jeito de funcionar juntos se tiverem o apoio necessário, e cabe às equipes da NBA fornecer essa estrutura. Se o Larry Bird não descobrir isso logo, o Pacers vai continuar com a cara sem sal do Mike Dunleavy, sem entender porque não conseguem ganhar bulhufas. Enquanto Allen Iverson continua lá fora, disposto a ganhar pouco, jogar em qualquer função, e ser o jogador sensacional que ele sempre soube ser. A China, que já recebeu o Marbury depois que ele foi bizarramente boicotado pela NBA, deve receber o Iverson logo. Torçamos para que não seja o mesmo destino de Lance Stephenson e Delonte West.