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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Altos, baixos e gordos

Perkins e Randolph se odeiam, mas em quadra tentam imitar a cara do Duncan


O que tivemos entre Grizzlies e Thunder foi o mais próximo possível no mundo real de um confronto entre dois Cavaleiros de Ouro (do desenho "Cavaleiros do Zodíaco", é preciso avisar às novas gerações), em que duelos entre lutadores poderosos durariam mil dias e mil noites (curiosamente no desenho a maioria das lutas só levava uns minutinhos e uns 90 litros de sangue). Foi uma batalha épica com 3 prorrogações em que ambos os times foram levados à exaustão total. Para se ter uma ideia, pelo Grizzlies o Zach Randolph jogou 56 minutos e Marc Gasol jogou 57, enquanto pelo Thunder o Durant jogou quase 57 minutos e Westbrook jogou 51. É quase uma hora inteira e ininterrupta de basquete para esses jogadores, o que é especialmente surreal se você pensar que um deles é um baita gordinho. Jogos com três prorrogações são sempre aberrações e dedam alguns fatos: para chegar nesse ponto não é necessário apenas que os times sejam parelhos, mas também que eles tenham muitos altos e baixos. Se um dos times fosse capaz de manter a superioridade conquistada em alguns momentos do jogo, teria vencido no tempo normal, sem prorrogações. Os dois times tiveram grandes momentos na partida (o Grizzlies chegou a vencer por 18, o Thunder vencia por 10 no meio do quarto período), mas também tiveram momentos medonhos e expuseram todas as suas fragilidades. Em uma série normal, uma superioridade física ou tática momentânea poderia garantir a liderança sendo sustentada até o fim da partida, mas Grizzlies e Thunder não são muito afeitos da regularidade ou dos planos de jogo, especialmente na parte ofensiva. O resultado é uma montanha-russa divertidíssima que gerou 3 prorrogações e que arrancou preciosas horas de sono de todos nós (por aqui, ainda estou devendo ao meu cérebro as horas de sono roubadas pelo jogo e boto nisso a culpa por tudo que disser aqui sem o meu advogado). Ao fim do jogo e do atraso no sono causado nos dias seguintes, me sinto tão exausto quanto o Randolph gordinho e seus 56 minutos em quadra.

Durante o jogo, entretanto, estive muito acordado e fuzilei o dedo no print screen para analisar a jogada que o Grizzlies usou à exaustão em seus melhores momentos - e que foi completamente abandonada nos momentos mais cruciais da partida. Vamos então às imagens (que podem ser clicadas caso você queira ver gigante, em detalhes):


1. Acima podemos ver uma jogada simples de pick and roll. Mike Conley, marcado por Westbrook, leva a bola e recebe um corta-luz de Marc Gasol na linha de três pontos.


2. O marcador de Marc Gasol na jogada, Serge Ibaka, tenta impedir então a progressão do Mike Conley e entra na frente do armador. Se bem executada, essa troca de marcação impediria o passe de volta para Marc Gasol, mas veja como Conley tem bastante espaço para olhar o jogo enquanto Gasol se movimenta livremente rumo à cesta. (Veja também a mensagem do meu computador, avisando que eu posso apertar Esc para sair do modo tela cheia. Esc, a famosa tecla inútil que só serve quando vejo NBA.)


3. Conley faz o passe para Marc Gasol facilmente, que tem um corredor até o aro. A reação da defesa do Thunder é risível: James Harden abandona seu homem na zona morta para tentar cavar a mais idiota falta de ataque do planeta, dando espaço para o Gasol passar bem do seu lado; enquanto isso Kendrick Perkins não se atreve nem lascando a desgrudar do Zach Randolph, já que Gasol é bom passador e constantemente aciona seu parceiro de garrafão quando pressionado.

O que vemos nas três imagens acima é uma cesta simples para o Grizzlies. A jogada pode ser repetida com o corta luz sendo efetuado pelo Randolph, com a única diferença de que ele gosta de arremessar ao receber a bola tanto quanto gosta de bater para dentro. Se a marcação do Harden fosse melhorzinha, o Grizzlies ganharia então um arremesso da zona morta. Se o Perkins reagisse, um jogador de garrafão estaria livre embaixo do aro e provavelmente sofreria a falta ou conseguiria o rebote ofensivo. Não é à toa que Randolph cobrou 17 lances livres e teve 8 rebotes ofensivos, portanto.

Agora, vamos analisar o que acontece quando o Thunder finalmente coloca em prática o que aprendeu no primeiro jogo e defende direito esse maldito pick and roll:


1. Na imagem acima Marc Gasol acabou de fazer o corta-luz e abriu novamente para a cabeça do garrafão, mas dessa vez Ibaka conseguiu entrar na frente do Mike Conley lhe tirando o espaço, enquanto Russell Westbrook aperta o armador e bloqueia a linha de passe. Eles tentaram fazer isso na jogada anterior que vimos, mas dessa vez o armador do Grizzlies é verdadeiramente pressionado como deveria.


2. Com Mike Conley espremido na lateral, evitando um passe muito arriscado que precisaria ser alto demais para passar por cima da marcação, Ibaka tem tempo de usar sua velocidade e alcançar Gasol, entrando na frente da linha da bola. Mesmo se o passe tivesse sido feito por cima dos marcadores, Ibaka ainda assim teria tempo o bastante para alcançar Gasol na corrida porque o passe seria alto e ele é rápido pra burro. Então o pick and roll do Grizzlies está oficialmente bloqueado. Mas, opa, o que é aquela lua pequena com um pé lá dentro do garrafão? É o Zach Randolph conquistando posição perto da cesta! Agora Ibaka já está longe demais para ajudar na marcação do Randolph e James Harden ainda está focado no pick and roll, pensando no Marc Gasol. Conley teve então facilidade na sequência dessa jogada em colocar a bola nas mãos do Randolph, que apenas girou em cima do Perkins rumo à cesta. Ah, sim: era uma bola fácil, mas ele errou o arremesso. Funhé.

Então mesmo quando o pick and roll é muitíssimo bem marcado pelo Thunder, o Grizzlies ainda consegue colocar a bola no garrafão, que no fundo é a bola de segurança deles. Randolph e Gasol são maiores e mais fortes que o Thunder inteiro, cavam faltas, acertam lances livres com facilidade e pontuam na marra. Perkins é um bom defensor embaixo do aro, mas é péssimo tendo que correr atrás de jogadores de garrafão com arremesso de média distância. Por serem versáteis, Randolph e Gasol estão constantemente trocando de posição, gerando uma bagunça defensiva para o Thunder e um pesadelo para o Perkins.

Por isso, depois da derrota no primeiro jogo o Perkins chamou toda a equipe para a sua casa para comerem (coisa que nenhum pivô abre mão) e para que vissem juntos a gravação do jogo sem a equipe técnica, pausando em cada jogada para criticar o posicionamento um do outro. Genial, coisa de Celtics, de time vencedor, de elenco em que os jogadores não têm medo de reclamar e cobrar uns dos outros em busca da perfeição. Com isso, a defesa de pick and roll do Thunder melhorou muito e é preferível que o Randolph tenha que enfrentar o Perkins no mano-a-mano embaixo da cesta do que arremessar livre de média distância quantas bolas quiser. Mas a preocupação com parar a dupla de garrafão do Grizzlies é tanta que, associada à vontade do Westbrook de forçar o ritmo de jogo no ataque, estragou totalmente o posicionamento para os rebotes defensivos. Dá uma olhada nessa foto:


Vamos contar juntos, crinçada: são um, dois, três, quatro jogadores do Thunder na foto. Um deles contesta o arremesso, os outros três estão no garrafão para o rebote. Então adivinhem só o que aconteceu: o Zach Randolph, único de branco num raio de 1km, saiu com o rebote ofensivo. Foram ao todo 24 rebotes ofensivos para o Grizzlies, 10 do Marc Gasol e 8 do Randolph. A preocupação em pressionar os arremessos da dupla acaba deixando um dos dois livre para um rebote ou um tapinha. A preocupação em sair correndo para acompanhar o Westbrook também faz com que exista menos proteção nos rebotes. É uma combinação mortal e que permitiu que Randolph e Gasol dominassem o jogo mesmo sendo duramente marcados.

O que é de enlouquecer, entretanto, é que o Grizzlies não acionou sua dupla dominante em momentos essenciais da partida. Mike Conley forçou muitas bolas e até o seu reserva Greivis Vasquez (que é da escola Steve Nash de armadores que não pulam, e que esteve naquela polêmica em que o Grizzlies não queria lhe garantir o salário inteiro de novato e que portanto não treinou com a equipe antes da temporada) acertou arremessos fantásticos que foram completamente idiotas, impensados e passíveis de punição se o técnico tivesse bom senso. OJ Mayo, então, nem se fala. Forçou arremessos que fariam JR Smith corar de vergonha, mas acertou alguns que deixariam Ben Gordon orgulhoso. Foi capaz de tomar um toco em uma bola de 3 crucial e, depois de uma falha de arbitragem devolver a bola para o Grizzlies, arremessou de 3 de novo como se tivesse amnésia - mas aí acertou. O Grizzlies conseguiu empatar o jogo no quarto período e levou a partida a 3 prorrogações graças a alguns desses arremessos mágicos, mas que tal manter o padrão ofensivo, tentar o pick and roll e colocar a bola no garrafão ao invés de deixar um armador novato, o Tony Allen se achando o Kobe, e uns arremessadores loucos, tomarem as rédeas do jogo? O Grizzlies às vezes simplesmente sai do seu eixo, esquece quais são as bolas fáceis e coloca tudo a perder porque o ataque é mesmo fraco, desorganizado. Quando tentou voltar a jogar com seus pivôs, eles já haviam jogado 50 minutos e não conseguiam nem se mover. Randolph teve uma bola desviada das suas mãos no fim da terceira prorrogação e nem fingiu que iria tentar recuperar, apenas fez cara de quem queria ir para casa ver os Ursinhos Carinhosos. Gasol tomou um toco absurdo na mesma prorrogação porque deu um giro na velocidade do Ilgauskas, ou seja, como se estivesse debaixo da água. A questão física pesou demais porque, sem trocadilhos, Gasol e Randolph são mesmo pesados e não conseguem passar tanto tempo em quadra sofrendo porrada - fora que conseguir pegar tantos rebotes ofensivos assim cansa qualquer um, vai ver foi uma tática do Thunder para cansar os dois. "Vamos deixar eles fazerem o que quiserem e levar o jogo pra terceira prorrogação, lá não poderão nos deter!". Coisa de gênio maligno.

Da parte do Thunder, eles podem ser geniais quando acertam a marcação e rodam a bola no ataque. São geniais também simplesmente quando envolvem o Durant no jogo, especialmente isolando ele na cabeça do garrafão com um ou dois corta-luzes simples. Esse time cheio de role players, jogadores especialistas e dedicados, e defesa sufocante parece imbatível às vezes. Mas às vezes um dos maiores trunfos da equipe, que é o Russell Westbrook, não é o bastante para compensar um dos maiores problemas da equipe, que é o Russell Westbrook.

Avisei no preview dessa série que uma das questões fundamentais para a vitória do Grizzlies era deixar o Westbrook forçar o ritmo de jogo e cometer turnovers. Quanto mais ele desperdiçar a bola, mais o Grizzlies fica perto de uma final da NBA. Mas os problemas com o Westbrook vão além. Ele é tão bom, tão rápido, tão físico, seu arremesso de média distância (conquistado nos treinos com a seleção americana) tão mais eficiente do que antes, suas bolas de 3 pontos tão mais mortais do que já foram, que ele às vezes simplesmente esquece que tem companheiros em quadra. O Durant tem um dos melhores aproveitamentos da NBA em momentos decisivos dos jogos, mas o Westbrook quer ser herói e se agarra à bola. Na partida de três prorrogações, Durant foi ignorado em várias bolas decisivas ou então foi acionado tarde demais ou longe demais da cesta. O problema é que ninguém quer ver seu armador idiota decidindo o jogo quando ele é o Rafer Alston ou um jogador secundário semelhante, mas como convencer a jovem estrela Westbrook de que ele deve passar essa bola mais rápido e com mais frequência? O paradoxo parece sem saída: quando ataca a cesta e acerta seus arremessos, Westbrook é impossível de ser marcado pelo Grizzlies; mas quando força arremessos no final dos jogos permite que o Grizzlies acabe com a desvantagem de pontos, quando força a velocidade da equipe esquece de passar a bola, e quanto mais rápido corre mais perde a bola permitindo pontos fáceis para o Grizzlies.

No final da terceira prorrogação, Durant envolvido no ataque, Westbrook já satisfeito com seus 40 pontos e Randolph e Gasol cansados, a vitória era obviamente do Thunder. Mas o jogo poderia facilmente ter acabado antes disso graças às cagadas do armador e sua dificuldade de impor um padrão de jogo quando se é tão aleatório e impulsivo. O ataque do Thunder é estagnado, cheio de isolações, e isso é culpa especialmente da irregularidade do armador. Quando Westbrook mostra seu melhor e seu pior tantas vezes numa partida, oscilando de um para o outro, e o Grizzlies esquece suas jogadas principais na gaveta por uns tempos enquanto o Tony Allen força as infiltrações mais desastradas do mundo (ele ficou de castigo no banco por ter sido bastante responsável pelo sumiço da liderança de 18 pontos), podemos esperar mesmo muitas prorrogações. Com tanta instabilidade das duas partes, só podemos esperar equilíbrio - e torcer para que algum dos dois times, qualquer um, consiga vencer o cansaço e adquirir uma consistência para enfrentar o Dallas Mavericks. Que, nesse minuto, torce por oito mil prorrogações até que Zach Randolph caia no chão desidratado e abra com isso uma cratera do tamanho de Plutão. Fora o cansaço, o Mavs está assistindo aos baixos das duas equipes e está se preparando. Thunder e Grizzlies estão lascados, mas já não dá pra duvidar deles. Do Westbrook e do Tony Allen dá, mas do conjunto não, por favor. Já são dois times calejados.

domingo, 1 de maio de 2011

Defesa contra defesa

Zach Randolph não consegue sair do chão, mas manda lembranças


Apenas duas vezes na história, em séries de melhor de 7 jogos, um time classificado em oitavo lugar para os playoffs venceu o primeiro colocado de sua conferência, as duas vezes no Oeste: em 2007 o Warriors derrotou o Mavs, ampliando a fama de amarelão de Nowitzki e seus amigos, e agora em 2011 o Grizzlies eliminou o Spurs. O Grizzlies. Eliminou. O Spurs.

O Suns já teve sua vingança fora de época quando eliminou o Spurs dos playoffs passados depois de uma vida inteira tomando na cabeça, mas aquele Spurs era um time questionado, cheio de problemas, pela primeira vez em uma década inseguro e sem uma identidade própria. O Spurs que acabou de ser eliminado pelo Grizzlies, pelo contrário, parecia ter encontrado uma nova identidade, mais rápida e ofensiva, abraçado de vez a ajuda de jogadores jovens, e havia conquistado a melhor campanha do Oeste com sobra considerável. Ninguém achava estranho que Gary Neal tivesse papel fundamental nas bolas de três, que Matt Bonner fosse arma ofensiva no perímetro, que Richard Jefferson tivesse aceitado ganhar menos dinheiro e treinado à parte como um maluco na offseason para se encaixar no esquema da equipe, e que o Duncan tivesse papel cada vez mais secundário no ataque. O técnico Popovich achava tudo isso muito estranho, é verdade, mas contra a melhor campanha não se questiona. Aceitamos a mudança de identidade do Spurs, vibramos com o novo estilo de jogo, chutamos que eles estariam sem dúvida na final do Oeste. E se questionamos qualquer coisa sobre essa equipe agora - se passamos a perceber as lesões de Duncan e Ginóbili, a fragilidade defensiva, a falta de tamanho, o ritmo exageradamente acelerado -  é única e exclusivamente por culpa do Memphis Grizzlies. Sim, o Spurs tem problemas sérios, uma crise esquizofrênica de identidade, e vai ter que resolver isso para a próxima temporada. Mas nada, absolutamente nada, pode tirar o mérito do Grizzlies por ter derrotado a melhor campanha do Oeste. Sem as atuações monstruosas do Grizzlies, ainda estaríamos achando que estava tudo bem o Spurs correr como um time biruta e o Matt Bonner ter que defender o garrafão.

Comentei bastante por aqui sobre a mudança de postura no Grizzlies e como ela está relacionada com a chegada de Tony Allen, mas é a tática defensiva da equipe que me mais me fascinou durante a série. Foi fundamental que eles se jogassem no chão em todas as jogadas, lutassem por todas as posses de bola, e que acreditassem verdadeiramente que podiam vencer o jogo mesmo quando estavam atrás no placar no final de um jogo decisivo. Mas a obediência tática na defesa é que tornou a vida do Spurs um inferno a ponto de que a equipe mais gelada da NBA, aquela que boceja frente ao fim do mundo e que tem na cara-de-nada do Duncan sua maior representação, não conseguisse encontrar uma jogada segura para definir os jogos nas horas mais importantes. Lembra quantas vezes o Ginóbili simplesmente foi isolado na cabeça do garrafão contra o Suns para matar bolas importantes e vencer partida atrás de partida? Contra o Grizzlies, Ginóbili não podia ser isolado com segurança, nenhum passe era seguro, o Spurs quase chegou ao ponto de chutar a bola pra fora da quadra e correr para as colinas. E tudo por uma simples razão: o Grizzlies não marcou um jogador específico, mas sim um estilo de jogo inteiro.

Ao invés de dobrar a marcação em Duncan (como o Suns já tentou) ou mobilizar três defensores para afunilar Ginóbili e obrigá-lo a passar a bola no garrafão (como o Celtics faz com LeBron), o que o Grizzlies fez foi defender o estilo de jogo do Spurs, fosse quem fosse em quadra, estivesse a bola nas mãos de quem estivesse. A defesa de perímetro se focou inteiramente em atrapalhar o melhor time em bolas de 3 pontos da NBA, a zona morta foi neutralizada, e a ajuda defensiva foi trabalhada à exaustão para aniquilar os passes para fora do garrafão que são a alma do que o Spurs faz em quadra. Quanto mais rápido o Grizzlies jogava, quanto mais eles aceleravam o ritmo em quadra, mais o Spurs caía nessa armadilha de correr pro ataque e, encontrando um forte garrafão defensivo, ter que passar a bola para fora - rumo a uma interceptação. Aliás, nem precisa ser uma interceptação, porque o Grizzlies aprendeu a nobre arte do "deflection", uma estatística que misteriosamente não aparece nas planilhas: é a bola desviada, cutucada, que pode gerar um roubo de bola ou não. Se todo passe do Spurs recebe um "deflection", e o Grizzlies é o melhor time da NBA em forçar turnovers do seus adversários, não dá pra fazer nada com tranquilidade, sem fazer xixi na calça. No fundo, o que o Grizzlies fez foi incomodar ao máximo, mas deixar o Parker ser o Parker, o Ginóbili fazer suas ginobilísses, e o Duncan tentar se impor no garrafão. O que eles marcaram foi a nova identidade do Spurs, e não seus membros individuais.

Hoje, às 14h, o Grizzlies enfrenta o Thunder pela semi-final da NBA e eu estou morrendo de curiosidade: será que a defesa será mantida? Porque a tentação, claro, é criar uma defesa especial para o Durant que o obrigue a sair de sua zona de conforto. Mas se a tática usada contra o Spurs for colocada em prática, Durant será apenas incomodado com uma marcação simples e tudo que sair do normal é que será colocado em risco: toda bola passada para fora, todo passe que buscar o garrafão, as infiltrações na linha de fundo. A ideia é que nenhuma decisão ofensiva será segura e Durant será forçado a ser o Durant em cima de uma boa defesa individual, nada mais. Foi isso que alucinou o Spurs, saber que a bola não pode ser trabalhada, que não dá pra jogar na correria, na improvisação, e que a ajuda defensiva do lado fraco da bola é sufocante. Será que isso funcionaria com o Thunder?

O Grizzlies e o Thunder são equipes muitíssimo parecidas, gostam de jogar na velocidade, forçam um aumento no ritmo de jogo, marcam bem o garrafão e suas defesas fantásticas forçam erros do adversário que geram pontos fáceis. A principal diferença é como os pontos saem quando não são fáceis. O Grizzlies joga quase o tempo todo de costas para a cesta com Randolph e Gasol, passando para jogadores que cortam para a cesta no resto do tempo. O Thunder, pelo contrário, quase não tem jogo de garrafão e faz a imensa maioria dos seus pontos em jogadas de isolação com Durant e Russell Westbrook.

Por um lado, marcar as jogadas de isolação não é o ponto forte do Grizzlies. Com Tony Allen e Shane Battier, estão munidos de bons defensores individuais, mas a força mesmo dessa defesa está na ajuda defensiva e na interceptação dos passes para o perímetro. É bem óbvio que, pelo seu estilo de jogo, o Spurs sofreu muito mais com essa defesa do que o Thunder jamais sofrerá. Mas por outro lado, o Westbrook é um daqueles armadores que deixa o cérebro de molho em casa antes de ir para a quadra, exagerando nas corridas de contra-ataque, forçando o jogo e tentando improvisar passes para os seus companheiros. Contra o Grizzlies, isso é uma cilada, Bino! O time dos ursos tem a melhor defesa de transição da NBA, vai fechar os arremessos fáceis, e vai fazer com que o Westbrook se atrapalhe todo no ataque e gere um bilhão de turnovers sem parar.

Mas o Grizzlies também não vai ter facilidade no ataque porque o Thunder tem uma das melhores defesas de garrafão da liga e a melhor marcando jogadas de isolação, ou seja, não sobra nada para fazerem com tranquilidade na quadra ofensiva. Com Perkins e Ibaka na cobertura, o garrafão ofensivo do Grizzlies vai finalmente ter um desafio de verdade simplesmente porque nenhum deles é o Matt Bonner. E se o Tony Allen já é uma das coisas mais horríveis desde a Playboy da Mara Maravilha quanto tenta bater sozinho rumo à cesta, imagina o desastre que vai ser quando ele fizer isso contra o Thunder.

Nem de longe vou apostar num resultado para a série, acho que futurologia só deveria ser permitida se você tem cabelo loiro de laquê e chama Walter Mercado. Mas aposto em algumas coisas que vão decidir a série. Durant será marcado por jogadores menores como Tony Allen e Shane Battier, e vai destruir. É normal, ele vai destruir sempre não importa o que aconteça. Mas Russell Westbrook vai cometer muitos erros, perder muito a bola, e todo o resto do Thunder vai acabar ficando completamente fora da partida. Como o ataque do Grizzlies vai sofrer um absurdo, a série vai ser decidida não por quantos pontos o Durant vai fazer, mas por quantas cagadas o Westbrook vai cometer gerando pontos fáceis pro Grizz. Grande parte do ritmo ofensivo do Thunder está nos lances livres, o time inteiro é agressivo ao atacar a cesta e sempre que as coisas estão dando errado, lá vão eles para a linha de lances livres. Essa tática pode destruir o Grizzlies se tirar Marc Gasol do jogo. Mas quanto mais agressivo o Thunder for, mais cagadas vai cometer, mais turnovers vão ser forçados.

O confronto das duas equipes na temporada regular (que o Grizzlies venceu por 3 a 1) não tem muito valor porque o Perkins não esteve em todos os jogos e ele é a alma da defesa de garrafão - lugar em que o Grizzlies marca a maior parte dos seus pontos. Mas na temporada regular, o Thunder cometeu quase 17 turnovers por jogo contra o Grizzlies, números surreais e que tornam a vida dos ursinhos tão, tão mais fácil. Aí está a chave da série, que será bem diferente do que os dois times enfrentaram até agora. O Nuggets era um time nervoso, incapaz de definir no final dos jogos, enquanto o Grizzlies é gelado e acredita realmente que pode vencer a bagaça. E o Spurs era um time cansado, com menos intensidade, força e tamanho, enquanto o Thunder é um time dez vezes maior do que o Grizzlies e tem tudo para vencer na base da força. O Thunder não pode se dar ao luxo de cozinhar o jogo devagar e virar o placar no final, porque não vão existir pontos fáceis e o Grizzlies sabe manter a compostura. Mas o Grizzlies não vai poder vencer no braço, e vai ter seu jogo de garrafão marcado por uma das melhores defesas possíveis debaixo do aro.

A série vai ser tão empolgante que eu deixo Celtics e Heat, às 16h30, como simples nota de rodapé. Essa é outra série que a temporada regular não vale pra muita coisa, porque o Celtics é um time diferente agora - muito pior sem Perkins - enquanto o Heat demorou demais para virar um time de verdade, mas engrenou. Nessa série as questões são ainda mais indefinidas e exigem a análise do que acontecerá no primeiro jogo: o Heat não tem um time definido para colocar em quadra, não sabe quem armará o jogo e nem qual é sua rotação no garrafão; o Celtics não sabe quem estará saudável, se Shaquille O'Neal se recuperará a tempo ou não. São duas das melhores defesas da NBA se enfrentando, mas o Celtics cada vez mais abandona os rebotes em nome de manter sua defesa intacta, o que pode dar uma vantagem justamente para o garrafão do Heat, que é a parte mais frágil da equipe e onde todo mundo aponta que estará a derrota da equipe. O que pode desequilibrar a série mesmo é o banco de reservas do Celtics, especialmente se os jogadores de garrafão estiverem saudáveis, porque uma hora o Heat vai ter que sentir falta de ter seres humanos na reserva, né?

Assim que essas questões estiverem respondidas, voltamos pra cá com uma análise bacanuda. Mas antes disso, ainda hoje, tem uma análise do que aconteceu com o Orlando Magic - e uma rápida passada pelas séries que começam na segunda, Hawks contra Bulls e Lakers contra Mavs. Até lá!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Desastre anunciado

Pois é, foi daí que o Manu acertou o arremesso dele


Foi por pouco, por muito pouco. O Memphis Grizzlies estava a 1.7 segundo de eliminar o San Antonio Spurs, vencer sua primeira série de playoff na história, causar uma zebra do tamanho de um elefante (só pra ficar no mundo animal) e tudo isso, é sempre bom lembrar, sem o Rudy Gay! Ficou no quase porque o técnico Gregg Popovich resolveu colocar o trabalho de um ano inteiro nas mãos de um novato. Ele desenhou uma jogada para Gary Neal, que meteu a bola de três pontos que levou o jogo para a prorrogação e salvou o Spurs das férias indesejadas. Não que vocês não saibam disso tudo, devem ter visto o jogo ou visto o resumo hoje cedo, mas estou colocando tudo isso no papel (ou na tela) para ver se acredito. Alguém alguns meses atrás imaginaria que esse parágrafo pudesse ser escrito de maneira séria?

São muitas coisas estranhas acontecendo e a primeira a gente já alertou durante a temporada regular. Nesse post sobre o Spurs eu disse que eles estavam se parecendo mais com os times que estavam acostumados a vencer, ofensivos, velozes, baseados nas bolas de 3, do que com o "clássico" Spurs defensivo, pragmático e entediante. Acabaram o ano com o segundo melhor ataque da NBA e 11ª melhor defesa, números parecidos com o Phoenix Suns de alguns anos atrás que eles enjoaram de vencer. A fragilidade defensiva era ainda maior quando o Popovich, por falta de opção provavelmente, usava formações que favoreciam as bolas de três pontos ao invés do poder defensivo, foi o aproveitamento insano nas bolas de longe que fizeram o Matt Bonner ser mais usado que o Tiago Splitter durante todo o ano, por exemplo.

O discurso do Popovich e dos jogadores nunca mudou, eles sempre disseram que queriam voltar a ser um time defensivo, mas na prática não mudaram muita coisa, preferiram seguir com esse plano estranho que estava garantindo uma vitória atrás da outra na temporada regular. Eles falharam em perceber alguns sinais importantes, porém, como alguns jogos contra o Lakers e o próprio Grizzlies em que foram engolidos vivos pelos fortes garrafões das duas equipes. Claro que venceram jogos contra eles também, mas ficou bem claro que quando eles enfrentavam um garrafão alto e em boa forma, não sabiam como responder defensivamente e precisavam de dias inspirados nas bolas de três para vencer. E, como todo mundo no mundo do basquete sabe, nada é tão perigoso quanto depender dessas bolas de longa distância, é a bola mais irregular e imprevisível do basquete, uma temporada pode ir para o ralo em um dia ruim.

O Grizzlies provavelmente sabia disso. Perdeu alguns jogos bobos no final da temporada regular quando poderia avançar até a 6ª posição no Oeste e deu a impressão (que eles negam) de que estavam escolhendo enfrentar o Spurs. Verdade ou não a gente nunca vai saber, mas se foi intencional, foi inteligente. Na temporada regular eles fizeram jogo duro para o Spurs e têm as qualidades que mais os incomodam, a começar pela dupla de garrafão mais entrosada da NBA com Zach Randolph e Marc Gasol. Sim, o outro Gasol e o Andrew Bynum são do caralho e Serge Ibaka e Kendrick Perkins são a perfeita combinação na defesa, mas atualmente ninguém é páreo para o entrosamento da dupla do Memphis. Eles executam muitas jogadas um com o outro, ambos passam bem a bola e ainda são potências nos rebotes de ataque.

Como o Spurs usa muito o Tim Duncan no ataque, principalmente fazendo a maioria dos bloqueios e corta-luzes dos pick-and-rolls, que são responsáveis por 27% das ações ofensivas do Spurs (disparado a jogada mais usada por eles), eles liberaram o TD do fardo físico e perigoso, pelas faltas, que é marcar o Zach Randolph. Isso resultou num banho do Z-Bo para cima do Antonio McDyess e, principalmente, do Matt Bonner. Aliás, parece uma ordem bem clara do técnico Lionel Hollins para os seus jogadores: se Bonner está em quadra a jogada é simplesmente acionar quem está sendo marcado por ele, sucesso garantido.

Isso obriga Popovich a usar menos o Bonner e no lugar dele não pode colocar uma escalação mais baixa, que também seria explorada do mesmo jeito pelo garrafão forte do Grizzlies, então tem que colocar o McDyess e, nos últimos jogos, Tiago Splitter. O DeJuan Blair, titular durante muito tempo, é solenemente ignorado e não me pergunte o motivo. Todas essas opções, mesmo quando McDyess e Splitter jogam decentemente, não são o bastante para vencer a disputa no garrafão e ainda tiram as bolas de três do Spurs. O Spurs não tem opção, é na defesa que o Grizzlies está vencendo essa série.

O ótimo site NBA Playbook fez um post só para explicar como o Grizzlies está parando o ataque do time de Popovich. A principal estratégia está em limitar as bolas de três pontos ao mesmo tempo que não abrem um corredor para infiltrações. Na jogada que ele dá de exemplo abaixo, a ajuda fecha a infiltração de Parker mas sem que ele tenha espaço para tocar para Bonner nos três pontos, resta um arremesso longo de dois para Tim Duncan. E nem é da posição onde ele pode usar a tabelinha.



Vale reforçar também o empenho com que todo mundo no Grizzlies está correndo em toda santa posse de bola para cobrir as opções mais óbvias de passe depois de cada corta que o Spurs faz. É um trabalho digno de defesa do Celtics. Em muitas vezes eles sabem onde dobrar, onde ajudar e o cara que fica livre é sempre o mais distante da bola, obrigando o Spurs a passes complicados, longos ou infiltrações em um garrafão congestionado. Outra decisão importante está em tirar o arremesso da zona morta; se deixam alguém livre de três, não é lá. É o arremesso favorito do Spurs, tentavam 8 desses por jogo na temporada regular, e agora estão tentando só metade e sempre marcados. A bola na zona morta era a válvula de escape deles e não está funcionando. Para compensar o Spurs precisa  passar mais a bola no perímetro e forçar jogadas individuais, deixando aparecer ainda mais as qualidades defensivas de Shane Battier, Tony Allen e as mãos rápidas do Mike Conley para interceptar passes. É simplesmente um massacre! Pode-se dizer que o Lionel Hollins era um stalker do Spurs e sabe todas as qualidades, defeitos, desejos, medos e comida favorita do seu adversário.

Se essa série já não está morta e enterrada é porque o Spurs tem a mão certeira de Gary Neal e o Grizzlies também tem os seus defeitos. Quando Zach Randolph está no banco eles não tem alguém que pode criar o seu próprio arremesso do nada diante de uma defesa mais forte, Tony Allen é um dos piores arremessadores da NBA e OJ Mayo compromete na defesa. E embora o Randolph esteja dando conta do recado na hora de arremessar bolas decisivas, às vezes é difícil passar a bola lá pra dentro do garrafão, nessas horas faz falta o Rudy Gay para receber a bola mais longe da cesta e criar alguma jogada.

Mas defeitos a parte, o Grizzlies é o melhor time da série e quem dominou todos os jogos. Se tiverem a cabeça no lugar e não ficarem lamentando a classificação que escorregou por entre os dedos devem fechar a série já na próxima partida. Não dá pra cravar isso porque séries longas de playoff são interessantes pelos ajustes que cada técnico faz para resolver os problemas, mas o negócio é que tenho a pequena impressão de que o Popovich não sabe mais o que tentar para sair das armadilhas do Grizzlies.

Abaixo, o arremesso insano em uma jogada desastrada do Manu Ginobili, que cortou a diferença para um ponto, e depois a bola de três salvadora do Gary Neal. E vale uma nota para algo impressionante: Foi dito pelo próprio elenco do Spurs depois do jogo que a jogada final foi mesmo desenhada para o Neal, não era segunda ou terceira opção. O novato disse que a sensação foi ótima de ouvir as instruções e ver que ninguém nem por um segundo questionou a decisão do treinador de colocar toda a temporada nas mãos de um novato que nem foi draftado. Sangue frio e obediência ao treinador, talvez o Spurs ainda tenha um pouco do velho Spurs escondido lá no fundo.

sábado, 23 de abril de 2011

Reconstrução capenga

Falando sobre comida

Estamos acompanhando (eu, por entre o muco abundante da minha gripe) playoffs bastante disputados, com jogos interessantes e parelhos. Mas aquele clima de zebra foi embora bem rápido, os resultados não são mais surpreendentes e tudo está mais ou menos dentro do esperado. O Lakers perdeu um jogo mas apenas em atuação épica de Chris Paul, vencendo o segundo mesmo com uma das piores partidas conjuntas de Kobe e Pau Gasol de todos os tempos, e vencendo ontem fora de casa na maior mamata. O Pacers, que deu sufoco no Bulls em todas as partidas até agora, perdeu 3 jogos seguidos mesmo com atuações bem mequetrefes do Derrick Rose (e marcação genial do Paul George, assunto pra um futuro post), estando praticamente eliminado da pós-temporada. Mesma coisa com Sixers e Knicks, que até deram trabalho mas já estão planejando as férias. Thunder contra Nuggets e Mavs contra Blazers são terra de ninguém, como previsto. Então restam apenas duas séries dessa primeira rodada dos playoffs que ainda tem cara de estar completamente fora do controle: a primeira é Magic e Hawks, que exige uma retratação da minha parte então por enquanto vou fingir que nada está acontecendo; e a segunda é Spurs e Grizzlies.

Quão surreal é dizer que uma série com o Grizzlies, que até outro dia era uma das maiores piadas da NBA e se classificou em oitavo para os playoffs, é uma das que está completamente fora de controle? O Spurs dorme todos os dias com medo do Zach Randolph, e nem é de que ele coma tudo que o time tem na geladeira. A defesa do Grizzlies é sufocante, o garrafão é forte e movimenta a bola, os jogadores são jovens e motivados. Em apenas três anos a equipe deixou se ser presa fácil nos playoffs, passou por um processo completo de reconstrução, e venceu sua primeira partida de pós-temporada em cima do todo-poderoso Spurs. Melhor projeto de reconstrução de todos os tempos? Pelo contrário. A reconstrução do Grizzlies foi uma bosta, um projeto completamente atrapalhado e cheio de tropeços, e que deu certo mesmo assim simplesmente porque acertaram em alguns aspectos fundamentais. Ou seja, é a prova definitiva de que reconstruir uma equipe não é tão difícil assim: se até o Grizzlies consegue, qualquer time do planeta pode fazer também. Até eu. Ou sua avó, que quando você diz "basquete" ela entende "chacrete".

Em 2003, o Grizzlies conseguiu chegar aos playoffs pela primeira vez, mas perdeu todos os jogos. Tudo bem, era um time ruim que estava apenas pegando o jeito das coisas. Na temporada seguinte, foram aos playoffs de novo e perderam todos os jogos de novo. Vários jogadores deixaram a equipe, outros foram contratados às pressas, mas o time foi aos playoffs de novo, uma terceira vez. E, de novo, foi eliminado da pós-temporada sem vencer uma mísera partida sequer. As duas temporadas seguintes foram cheias de contusões e jogadores fazendo de tudo pra não jogar lá. Como diabos lidar com uma franquia em que nenhum jogador quer jogar? Em um post de dois anos atrás, o Denis conta como Steve Francis foi draftado pelo Grizzlies e se negou a jogar lá, e como quase todos os novatos de 2009 (quando o time tinha a segunda escolha do draft) se negaram a treinar pela equipe, evitando assim ser draftados pela franquia. Como melhorar uma equipe em decadência se ninguém quer jogar por ela? O Grizzlies tinha a possibilidade de se reconstruir em volta de Pau Gasol e seu salário gigantesco, mas teria que apostar em novatos com uma equipe que sempre estaria às bordas dos playoffs, correndo o risco de ser ruim demais para ganhar um joguinho sequer na pós-temporada mas boa demais para conseguir escolhas altas no draft. Foi preciso muita coragem e muita falta de cérebro (coragem e burrice não estão intimamente ligadas?) para cortar esse círculo vicioso e trocar Pau Gasol por um pacote de bolachas.

A troca, na verdade, visava o futuro e só pode ser melhor analisada agora. Na época, foi Pau Gasol e uma escolha de segunda rodada por duas escolhas de primeira rodada, Kwame Brown, Javaris Crittenton e os direitos pelo Marc Gasol, escolhido na segunda rodada pelo Lakers. Na prática, o Kwame Brown era apenas um contrato expirante para o Grizzlies economizar dinheiro e reconstruir as finanças, o Crittenton foi mandado para o Wizards por uma escolha de primeira rodada (e lá acabou sacando uma arma contra o Gilbert Arenas no incidente que quase acabou com a carreira do Arenas), e o que o Grizz conseguiu no final das contas foi uma caralhada de escolhas de draft e o Marc Gasol.

O que o Grizzlies fez com essas escolhas de draft é coisa de Grizzlies mesmo, uma bagunça: eles são obrigados a escolher os jogadores que ninguém mais quer, ou então draftar jogadores que claramente não querem jogar para a franquia ou que não treinaram para eles antes do draft. Chegaram a ter o Kevin Love, por exemplo, e acabaram trocando pelo OJ Mayo porque não tinham visto o Love em ação. Gastaram a segunda escolha do draft de 2009 com o Hasheem Thabeet, o pivô gigante que não sabe amarrar os próprios cadarços. Então é claro que eles não são o Spurs, cujos olheiros conseguem prever o futuro e draftam gênios até em divisão de time de futebol de aula de Educação Física da quarta série. Pra piorar, o Grizzlies ainda encrenca com os novatos na hora de assinar contratos, criando uma imagem ainda pior na mídia. É bem claro que eles são atrapalhados, não tomam as decisões certas e têm dificuldades com novatos, tanto na hora de draftar quanto na hora de assinar, agradar e tentar mantê-los na equipe. Mas há uma coisa que eles fizeram muito bem: guardar a grana liberada com a troca dentro de um cofre de porquinho.

Em geral quando uma equipe tem espaço salarial sobrando, a lógica é que você está sendo burro se não usar esse espaço salarial para contratar alguém e melhorar seu time. As regras te deixam pagar salários até um limite, pra quê ficar abaixo dele ao invés de contratar o máximo de ajuda com ele? O problema é que usar o espaço salarial em uma temporada significa que você sem querer comprometeu o espaço salarial das temporadas seguintes. Os contratos tendem a ser de longa duração, os jogadores ficam sob contrato por vários anos, e os salários vão subindo de temporada em temporada. Então usar o espaço salarial ao máximo numa temporada "só porque eu posso" pode mandar pelo ralo as finanças do time pela próxima década (né, Knicks?). O Grizzlies conseguiu espaço salarial de sobra ao trocar Pau Gasol, e com ele tentou contratar o Josh Smith, por exemplo. O Hawks igualou a oferta, o Josh ficou em Atlanta, e aí ao invés de gastar a grana no segundo melhor jogador disponível, ou contratando um pivô qualquer que não sabe o que é basquete mas é alto e pode trocar lâmpadas sem escadas, o Grizzlies economizou. Não teve medo de feder, de conseguir escolhas altas no draft, e de evitar ao máximo ter prejuízos. Por muitos anos a equipe teve a pior audiência de toda a NBA, o melhor a se fazer mesmo é tentar cortar os gastos ao máximo e saber esperar. Fazendo trapalhadas no draft ou não, se metendo em bagunças com os novatos ou não, o Grizzlies soube esperar e cuidar do dinheiro.

Quando isso acontece, é possível se aproveitar de oportunidades que volta e meia dão sopa na NBA mas ninguém está em condições de agarrar. Tipo um time querendo se livrar do Kevin Garnett, por exemplo, ou do Ray Allen, ou do Kendrick Perkins, ou do... Pau Gasol? Então, o que o Grizzlies fez foi achar alguém que quis se livrar do Zach Randolph (porque havia na cagada conseguido a primeira escolha no draft e iria pegar o Blake Griffin) e, com o espaço salarial para conseguir fazer a troca funcionar, conseguiu um jogador que de outro modo não aceitaria jogar por eles. Paciência foi tudo: conseguiram jogadores veteranos como o Zach Randolph, tiveram grana para dar um contrato gigantesco para os novatos que deram certo como o Rudy Gay, deixaram os novatos que eram mais-ou-menos em quadra sem medo de perder até ver se podiam render algo, deram a grana para os que se sairam bem depois de muita insistência como o Mike Conley, e trocaram os que não deram em nada por jogadores veteranos, como o Hasheem Thabeet mandado pelo Shane Battier.

Essa é uma receita razoável para reconstruir um time, mesmo se for feita de modo capenga. Basta apertar o botão do apocalipse, se livrar das estrelas, guardar a grana para abraçar alguma oportunidade maluca, draftar uma caralhada de novatos, e não ter vergonha de perder muito até dar certo. O Wolves está no mesmo caminho. Não é um plano genial como o do Thunder ou do Blazers, mas é um plano acessível até para as equipes mais confusas, como o Pistons. Só que ainda falta o ingrediente secreto capaz de tornar essa reconstrução capenga do Grizzlies uma equipe capaz de vencer o Spurs, falta o "elemento X" capaz de tornar açúcar, tempero e tudo-que-há-de-bom em Meninas Superpoderosas: um cara como o Tony Allen.

"Isso é fácil", você deve estar pensando. "Conheço um monte de idiotas sem cérebro capazes de se machucar sozinhos dando uma enterrada que não vale pra porcaria nenhuma".



Sim, isso é verdade. Jogadores que esquecem o cérebro num pote na geladeira antes de saírem de casa são comuns, e o Tony Allen deu mais dor de cabeça para o Celtics do que ajudou nos anos que esteve lá. Mas algumas coisas são fundamentais: ele é um bom defensor, aprendeu a defender em conjunto com Kevin Garnett, e veio de um ambiente extremamente motivado, coletivo e focado em vitórias. Imagina só o Tony Allen e sua mentalidade vencedora herdada dos tempos de Celtics no vestiário do Grizzlies, em que todo mundo devia achar a coisa mais natural do mundo perder jogos de lavada (especialmente o Zach Randolph, que provavelmente sempre pensou que "vitória" fosse apenas uma palavra que queria dizer "o time adversário"). O confronto com certeza foi imediato. Tony Allen não teve medo de pegar no pé dos companheiros, de exigir uma postura diferente em quadra, de cobrar por defesa. Mesmo sendo um jogador zé-ninguém com minutos limitados. Em quadra, guiou pelo exemplo sendo um jogador burro que mesmo assim dava o sangue dentro de quadra na defesa.

Diz a lenda que numa partida de pôquer no avião do Grizzlies, indo para um jogo, OJ Mayo perdeu 1.500 dólares para o Tony Allen mas se recusou a pagar. Tony Allen teria agredido verbalmente o adversário, questionado sua moral, e os dois saíram na porrada a um ponto tal que o OJ ficou cheio de hematomas na cara e teve que ficar de fora da partida seguinte da equipe. Desde então, pelo que dizem, os jogadores do Grizzlies chegaram a um acordo: todo mundo pode falar o que quiser para todo mundo, cobrar, questionar caráter, o que for, porque eles são uma família e não vão sair na porrada. O pôquer passou a ser proibido nas viagens da equipe, mas o incidente uniu os jogadores. Tony Allen vem de um lugar em que é normal exigir, cobrar e questionar seus companheiros de equipe, o Garnett até fez o Glen Davis chorar dentro de quadra. Quando o Grizzlies entendeu que é esse tipo de ligação que faz equipes vencedoras (e equipes defensivas), as coisas finalmente entraram nos rumos.

O dinheiro do Grizzlies foi bem usado com os novatos que quiseram ficar (ao invés de esperar por estrelas que só querem jogar com outras estrelas) e com jogadores caros que seus times estavam jogando no lixo, como o Zach Randolph, que agora se sente acolhido e valorizado (tudo porque o Grizzlies, além de dar uma oportunidade ao ala, não esperou um segundo para lhe dar um contrato gordo assim que ele teve uma partida genial contra o Duncan). Mas um dos dinheiros mais bem gastos dessa equipe é com o porcaria do Tony Allen. O que ele trouxe à franquia é inigualável. O Grizzlies até trouxe de volta o Shane Battier, ainda um dos melhores defensores da liga, mas ele é bom moço, reservado, controlado. Tony Allen vem da linhagem Garnett de gritos, cuspe na cara e beber sangue de criancinhas que motiva qualquer equipe - mesmo aquelas que preferem sair para ir no bingo.

É claro que esse Grizzlies ainda tem muitos problemas. Pra começar, sentem falta do Rudy Gay, que sabe criar o próprio arremesso, é o melhor arremessador de três da equipe e defende várias posições. Falta um facilitador no ataque para que as cestas não precisem ser todas brigadas, ganhas na marra. E o banco ainda é mais mirrado do que os seios da Keira Knightley. Mas agora eles têm uma dupla de garrafão que acredita um no outro, Marc Gasol e Zach Randolph se procuram no ataque, abrem espaço um para o outro, e se complementam na defesa - e essa dupla só foi possível graças à troca do irmão do Marc, Pau Gasol. E isso é maior do que parece: nenhuma dupla de garrafão na NBA tem, nesse momento, esse grau de companheirismo e essa intimidade em quadra, nem mesmo Pau Gasol e Andrew Bynum. E o resto do time acredita que pode vencer jogos de verdade, mesmo se forem nos playoffs, mesmo se forem fora de casa, mesmo se forem contra o Spurs, e mesmo se forem contra o melhor colocado do Oeste - tudo porque um tal de Tony Allen mudou a postura dessa equipe, encheu de porrada um ladrão no pôquer, e custou apenas um punhado de milhões antes tão bem economizados.

Tony Allen e Shane Battier vão ter muito trabalho marcando Tony Parker e especialmente Manu Ginóbili, que voltou de contusão agora com um braço biônico e continua acertando aquelas cestas idiotas e inexplicáveis que vencem jogos de playoffs dos modos mais aleatórios possíveis. Mas bizarramente a batalha no garrafão contra o todo-poderoso Tim Duncan parece tender para o Grizzlies. Eu sei que todo mundo aqui por essas bandas da caipirinha pede pelo Tiago Splitter para ajudar na marcação de Randolph e Marc Gasol, mas sejamos realistas, por melhor defensor que o Tiago seja, ainda falta treino físico para lidar com o muro de tijolos que é o Marc e o muro de banha que é o Randolph. É desleal. Popovich prefere apostar na experiência de Duncan e McDyess, ou compensar no ataque com Matt Bonner, coisa que o Splitter ainda não pode fazer. De todo modo, o Grizzlies está um passo a frente no garrafão (com a ajuda do excelente Darrel Arthur e de Sam Young, também vindos com escolhas de draft da troca do Gasol) e mordendo com força em tudo em que estão atrás, tentando vencer mais na vontade do que na técnica - e gerando com isso a série mais equilibrada desses playoffs. Se fosse a equipe de Pau Gasol e Jason Williams de três anos atrás, com técnica de sobra, entraria se achando incapaz de vencer uma partida de playoff. Isso não é auto-ajuda, não tem nada mais idiota do que esse lance de "tudo que você acha que pode fazer, você pode fazer", mas postura é algo essencial no esporte. Quando uma equipe realmente acha que pode vencer, ela fará o que for necessário. Se tiver dois gordos gigantes no garrafão, então, é capaz que até consiga.

Esse Grizzlies então nos serve de alerta não só para o papel da postura, da defesa e da paciência na construção de uma equipe, mas também para como uma troca pode parecer muito, muito idiota quando acontece - e ser mesmo idiota - apenas porque não temos como perceber que seria ainda mais idiota continuar insistindo nos mesmos erros. Memphis Grizzlies: tropeçando sempre de novas maneiras desde 1995.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Preview 2010/11 - Memphis Grizzlies

Leveza, arte e beleza


Objetivo máximo: Ir para os playoffs
Não seria estranho: Repetir a campanha do ano passado e acabar em 10º no Oeste
Desastre: Voltar a ser um dos piores times da conferência

Forças: Time que mais pega rebotes de ataque na NBA, time titular muito bem entrosado
Fraquezas: Não tem banco de reservas e Mike Conley passa pouca confiança na armação

Elenco: Amém.

Memphis Grizzlies
TitularesReservasResto
PGMike ConleyGreivis Vasquez*Acie Law
SGOJ MayoTony AllenXavier Henry*
SFRudy GaySam YoungDeMarre Carroll
PFZach RandolphDarrell Arthur
CMarc GasolHasheem ThabeetHamed Haddadi



Técnico: Lionel Hollins

Lionel Hollins é mais um daqueles caras que fez carreira como assistente técnico e agora tenta a sorte como treinador principal. O que diferencia ele da maioria dos outros assistentes é que não são muitos os que já trabalharam com tanta gente boa como Hollins. O atual técnico do Grizzlies era assistente de Cotton Fitzsimmons quando ele treinava o Suns nos anos 90 e eles alcançaram a final da NBA contra o Bulls, também foi assistente de Larry Brown no Pistons em 2005 (quando Brown foi eleito o técnico do ano), de Lenny Wilkens, Chuck Daly e Paul Silas. Ele teve muito tempo pra aprender, muitos professores e vários estilos diferentes.

Antes de entrar no mundo dos técnicos ele ainda foi um bom jogador. Escolhido na sexta posição do draft de 1975 pelo Blazers, foi campeão pelo time em 77, ano em que também foi para o All-Star Game. No ano seguinte foi eleito para o primeiro time de defesa da liga e aos poucos foi caindo de produção, mas fez o bastante para ter seu número 14 aposentado pelo time de Portland.

Como treinador principal tem pouquíssima experiência. Treinou duas vezes o Grizzlies, uma vez em Vancouver e outra já em Memphis, apenas como interino em 2000 e 2004. Ganhou finalmente uma chance de ser efetivado em janeiro de 2009. Ele pegou um time esquecido, fraco, que os Free Agents ignoravam quando tinham a chance de mudar de franquia e montou uma equipe de verdade. Já naquela temporada ele conseguiu um feito que seria comum em muitos times, mas que o Grizzlies não conseguia fazer há 3 anos: acabar um mês com mais vitórias do que derrotas! Em abril de 2009 ele fechou a temporada com 5 vitórias e 4 derrotas. É como um nerd fracassado conseguir um beijo na bochecha da garota que ama há anos.

No ano passado conseguiu o feito de ser o primeiro técnico da história da NBA a fazer o Zach Randolph se esforçar em uma quadra de basquete. Todo mundo sabia do talento dele, mas sabia também que ele não dava a mínima pra nada, imaginava-se que ele faria até menos que o normal por estar jogando em um time ruim e nos confins da liga. Mas a filosofia de Hollins do jogo em equipe, da defesa bem treinada e dos muitos passes no ataque contagiou o nosso gordinho favorito e ele entrou no jogo, rendendo até um convite para participar do All-Star Game. Lionel Hollins merecia entrar para o Hall da Fama do basquete só por isso!

O momento de fama de Hollins no ano passado foi quando recebeu uma falta técnica bizarra quando interceptou um passe de um torcedor para Kenyon Martin. Sério.



Apesar do pouco tempo como treinador ele já é bem visto no mundo da NBA e deve ter uma boa carreira pela frente. Se desistir logo da idéia de OJ Mayo como armador principal deve ter mais um bom ano pela frente. Vale ressaltar que o ex-assistente tem nomes conhecidos na sua comissão atual: Henry Bibby, pai de Mike Bibby e a única pessoa a vencer títulos da NBA, CBA e NCAA, e Damon Stoudamire, ex-jogador que se aposentou em 2008. Stoudamire foi um baita armador nos seus anos de Toronto Raptors, mas tem dois recordes interessantes nos seus tempos de Jail Blazers: 54 pontos em um jogo, recorde da história do Blazers, e 21 bolas de três arremessadas num jogo, recorde da história da NBA! Ele só acertou 5 desses arremessos, mas quem liga pra isso?
.....

O Grizzlies foi um dos times que eu mais assisti na temporada passada. Não só tiveram muitos jogos apertados e bons como também era um prazer ver um time funcionando tão bem e com jogadores tão malhados ao longo de suas curtas carreiras: OJ Mayo chegou na NBA com fama de moleque sem cabeça pro jogo, um talento absurdo mas sem concentração, disciplina e que nunca conseguiria jogar ao lado de Rudy Gay pelo seu ego enorme. Mike Conley foi visto como um fracasso completo depois da sua primeira temporada, Zach Randolph a gente nem precisa falar nada e Marc Gasol era a versão mais feia e piorada do seu irmão, que as pessoas só conheciam por estar envolvida naquela troca famosa com o Lakers que transformou a NBA.

Pois OJ Mayo mostrou na temporada passada que é o oposto do que falavam: Não só tem muita concentração e é um jogador exemplar e fácil de lidar como funciona muito bem ao lado do Rudy. E quis contrariar tanto os seus críticos que ainda não se tornou a estrela espetacular que tanta gente previa. Mike Conley talvez nunca faça jus à 4ª escolha no draft que recebeu em 2007, mas é bom o bastante para ser titular na NBA e quebrou muitas vezes o galho do time como único arremessador de três do elenco. Zach Randolph virou um All-Star e Marc Gasol tem jogado tão bem que hoje aquela troca nem parece tão absurda.

Repito, trocar Pau Gasol pelo o que chamamos, na época, de pacote de bolacha, não foi ruim. Com a troca eles conseguiram o atual pivô da equipe, Marc Gasol, e com as escolhas de draft conseguiram o melhor reserva do elenco, Darrell Arthur e o atual reserva da armação, o novato Greivis Vásquez. E foi com o salário expirante do Kwame Brown que eles puderam negociar com o Clippers e conseguir Zach Randolph. Pau Gasol por Arthur, Marc e Randolph? Eu toparia. Claro que nem tudo isso poderia ser previsto na época e foi um risco absurdo que eles correram de perder sua melhor estrela por nada, mas temos que admitir que, mesmo sem querer, fez bem para a franquia.

Assistir ao crescimento desse time condenado foi bem divertido, mas é difícil acreditar que eles estejam preparados para ir além disso. Durante a offseason eles foram notícia três vezes:

1- Contrataram Tony Allen, bom defensor de perímetro (necessidade gritante do time), mas que joga na mesma posição de OJ Mayo e do recém-draftado Xavier Henry.

2- Demoraram meses e meses para assinar o tal novato por uma briguinha contratual imbecil, o que deixou o garoto fora das ligas de verão. (E, por curiosidade, no fim das contas o Grizzlies deu os 120% para Henry depois que o agente Arn Tellem disse que se fosse preciso pagaria ele mesmo, do seu bolso, os 20% que o Grizz não queria dar)

3- Deram um contrato de 80 milhões de doletas para o Rudy Gay, o máximo que ele poderia receber, ao invés de esperar uma oferta de outro time. Como Gay era um Free Agent Restrito, era só igualar a tal oferta e manter o jogador.

Em resumo eles gastaram seu dinheiro mal, mesmo tendo sido em bons jogadores de que eles precisavam. Perder Gay era impensável e as novas aquisições vão ser úteis para o Grizzlies ter finalmente um banco de reserva, já que eles tinham talvez o pior de todos no ano passado. Mas só isso? No sempre difícil Oeste é difícil crer que isso será o bastante. Dos oito classificados para os playoffs do ano passado só o Suns teve mudanças significativas no elenco a ponto de talvez ter uma queda, e eles ainda tem que lidar com o crescimento de Sacramento Kings, Houston Rockets e talvez até do LA Clippers. O time deve continuar bom, mas só um milagre faz o Grizzlies ir além do que já foram na temporada passada.

A maior esperança de um milagre está nas mãos de Mike Conley, o jogador que menos inspira confiança em Lionel Hollins e na direção da equipe. Como acontece com a maioria dos armadores, quando ele joga bem o time inteiro sobe de nível. Mas Conley é bem irregular e defende mal, obrigando o Grizzlies a deixá-lo no banco nos momentos decisivos do jogo. Sem ele a armação fica toda quebrada na mão de Mayo ou Gay, o time perde seu único arremessador de três e vários jogos já escapuliram no final por causa disso.

Há a esperança de que o outro novato além de Henry, Greivis Vásquez, possa ser uma solução. Ele era bom arremessador no basquete universitário. Sua defesa, no entanto, é questionada e não pudemos vê-lo em ação ainda porque está machucado. Ele pode até ser bom, mas não fez nada que justifique colocar expectativas grandes nas suas costas.

Ver todos aqueles jogadores questionados se juntarem para montar um time foi especial e raro, mas é bom não se iludir muito com a animação do ano passado, o time não mudou tanto assim e playoffs só seria uma possibilidade realista se eles estivessem no Leste.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Efeito Dominó


Tyreke? Curry? Jennings? Eis o homem mais bem pago dos novatos de 2009



O efeito dominó é até bastante comum no mercado de Free Agents da NBA. Um time consegue o jogador mais desejado e os outros, que tentavam este, vão pegando os próximos da lista. Mas a história que eu vou contar agora é interessante porque não só envolve jogadores da mesma posição, são também quase do mesmo nível, não tem nenhuma estrela e nenhum pé rapado. A escolha de um time por um deles e as substituições podem mostrar mais do que a gente imagina sobre as equipes.

Vamos começar com o Boston Celtics, que tinha dois de seus shooting guards, os jogadores da posição 2, como Free Agents: Tony Allen e Nate Robinson. Os dois são bons, agressivos, mas pecam por não ter muita cabeça. Quando decidem ir pra cima, vão sem pensar nas consequências. Os dois são daqueles jogadores que podem te ganhar um jogo num dia e perder no outro pelas mesmas atitudes.

Já que o Celtics havia confirmado a permanência de Ray Allen, nenhum dos dois poderia ser titular. E quem escolher entre Allen e Robinson para o banco? Tony Allen não tem arremesso, é mais fácil o Ben Wallace acertar uma bola de 3 (merda!) do que ele acertar um jumper de meia distância sem marcação. Mas compensa com bons contra-ataques, infiltrações e marca bem até jogadores mais altos, basta lembrar dele enchendo o saco do Kobe nas finais. Já o Nate Robinson não defende grande coisa (embora seja bastante esforçado e dedicado), mas por mais de uma vez foi a única fonte de inspiração ofensiva do time verde nos playoffs. Em dias em que o Rondo não consegue suas bandejas e o Ray Allen está frio, é importante ter um desafogo como o Nate, que pode fazer bolas de três consecutivas a qualquer momento.

Para o Celtics o ideal era manter os dois, para ter mais opção, mas na hora da preferência, assinaram primeiro com o Nate Robinson, para garantir algum ataque no banco. O Nate também é mais útil porque pode brincar de substituir o Rondo às vezes, por pouco tempo, coisa que o Tony Allen não faz por ter menos controle de bola. Só achei que o Nate Robinson ficou dispensável quando eles assinaram o Von Wafer um tempo depois, mas melhor ter jogadores demais do que de menos.

Ao se ver sem espaço no Celtics, Tony Allen assinou um contrato com o Memphis Grizzlies. Disse que gostava de Boston, sabia que estava saindo de uma franquia vencedora para outra sem a mesma história, atenção e elenco, mas que lá poderia ter mais espaço e jogar mais. Isso é fato. O Grizzlies não confia em Mike Conley na armação e por isso está se esforçando para deslocar OJ Mayo para a posição 1. Na posição 2, concorrendo com Allen, está o novato Xavier Henry, que apesar de todo o talento que pode ter, ainda é um novato. Por fim o Grizzlies sentia falta de um especialista em defesa. Não será nada estranho se o Tony Allen não for titular mas ficar em quadra sempre nos finais de jogos para marcar o armador ou segundo armador adversário.

A necessidade de um defensor no Grizzlies era percebida claramente nos jogos e foi explicitada por uma troca que fizeram no meio da temporada passada e que acabou sendo um dos piores negócios já feito pelo time, incluindo ter mandado o Pau Gasol para o Lakers em troca de um cadarço de tênis. Eles mandaram uma escolha futura de 1ª rodada para o Jazz em troca do Ronnie Brewer. Aí ele chegou em Memphis, jogou exatos 5 jogos, se machucou, ficou fora do resto da temporada, virou Free Agent e deu o fora. Ou seja, uma escolha de 1ª rodada em troca de 80 minutos de jogo.

O Ronnie Brewer faz parte desse efeito dominó esquisito. Ele deixou claro que não queria ficar em Memphis e deu a entender que poderia ir para o Bulls ou voltar para o Jazz. Mas ficou num limbo esperando atitudes dos dois times. O Jazz ainda decidia se igualava ou não a proposta que o Portland Trail Blazers havia feito para o Free Agent restrito Wesley Matthews e o Bulls esperava para ver se o Orlando Magic igualava a oferta feita ao JJ Redick.

O Bulls deixou claro que estava em busca de arremessadores para essa disputada posição de shooting guard. Assinou primeiro com o Kyle Korver e depois foi atrás do JJ Redick, mais do mesmo. O Korver, aliás, era do Jazz (tá começando a virar enredo de Malhação, né?) e foi sua saída que motivou a dúvida frente à proposta milionária para o Wes Matthews, que a princípio nunca seria igualada pelo Utah.

O Orlando Magic surpreendeu todo mundo quando igualou a proposta de 19 milhões por 3 temporadas pelo Redick. Ele nunca foi tão bom para valer tudo isso e parecia pouco provável que o time pagasse isso para um reserva. Mas o técnico Stan Van Gundy, já pensando na provável perda do Matt Barnes e na possível saída de Vince Carter no ano que vem, pressionou, cobrou e conseguiu o seu jogador de volta. Apesar da saída do Barnes, acho que o Redick não tem chances de ser titular. A vaga deve ficar com Mickael Pietrus e o branquelo continua vindo do banco, o que dá pra esperar são mais minutos de quadra. Faz sentido pensar nisso se lembrarmos da ótima série que ele fez contra o Boston Celtics (foi o melhor jogador do time em diversos momentos de apagão) e, claro, se levarmos em consideração a pressão violenta que o treinador fez para a direção do time colocar a mão na carteira. Não que ele seja o salvador da pátria, mas para enfrentar Heat e Celtics no Leste o Magic vai precisar de toda e qualquer ajuda vinda do seu banco de reservas, foi um ótimo gasto exagerado.

O Bulls não ficou em desespero porque ainda haviam outras opções na mesa, e partiu para a oferta a Ronnie Brewer, que ainda contou com incentivos de Kyle Korver e Carlos Boozer, companheiros dele de Jazz que até usaram o termo "Chicago Jazz" para levar o rapaz pra lá. Tentado a abrir a franquia do Jazz no Leste, assinou um contrato de 12 milhões por 3 temporadas com o Bulls.

Apesar do time estar em busca de arremessadores, Brewer não vai fazer feio por lá. Ele tem um bom arremesso de meia distância (não tão bom quanto a do seu companheiro Luol Deng, no entanto), defende muito bem, tem bom aproveitamento em todas as bolas, comete poucos erros, é ótimo e inteligente em contra-ataques (especialidade do Derrick Rose) e saiu incrivelmente barato para o talento que tem. Aliás, li na gringolândia um artigo bem legal um tempo atrás (esqueci o link, perdão) questionando o porquê do contrato do Travis Outlaw (35 milhões por 5 temporadas) ter sido tão maior que o do Brewer. Um é uma eterna promessa de basquete individualista e o outro um jogador sólido, bom em tudo que faz, que não inventa e já consolidado na NBA. Contratos da NBA não são uma ciência exata, amigos.

Pausa pra respirar? Vamos resumir nossa estrada até aqui: O Celtics escolheu o Nate Robinson, que deixou o Tony Allen na mão, que foi para o Grizzlies, liberando o Brewer para o Bulls, que tinha conseguido o Korver e perdido o Redick para o Magic. Anotou tudo? Vamos continuar.

O Jazz ficou sem a volta de Brewer e sem Korver, o queridinho da torcida mórmon. O que fazer? A decisão mais óbvia seria manter o Wesley Matthews, jogador que não foi sequer draftado no ano passado e é mais um achado do Jerry Sloan. Em pouco tempo virou titular, se mostrou um defensor muito acima da média e ainda acertava seus arremessos. Por nem ter sido draftado, ganhou só um contrato minúsculo de 1 ano e logo virou Free Agent, abocanhado pelo Blazers por uma oferta de 34 milhões por 5 temporadas. Vocês tem noção de que isso faz do Wes Matthews o jogador que mais vai ganhar dinheiro entre todos os novatos do ano passado? Mais que Tyreke Evans, Steph Curry, Brandon Jennings, Blake Griffin e etc. Se você não lembra do jogo de Wes Mat, achei um bom mix no VocêTubo:


A proposta do Blazers parece ter duas motivações: a primeira é uma pequena vingança, já que no ano passado eles fizeram uma oferta gigante pelo Paul Millsap que eles tinham certeza que o Jazz não iria igualar, mas se enganaram feio. A segunda é que o Rudy Fernandez está implorando para ser trocado e deve ter seu pedido atendido. Quando ele sair o time fica sem reservas para Brandon Roy. Sem contar que o único reserva do ala Nicolas Batum é um novato que ainda não provou que pode ajudar, o Luke Babbitt, e Matthews poderia quebrar um galho na posição 3 também.

Apesar do preço exorbitante e exagerado, ele vai ser uma boa para o Blazers. Infelizmente é baixo para jogar o tempo todo de ala, mas vai ajudar muito na marcação e para acertar os arremessos de três que Martell Webster, Travis Outlaw e Rudy Fernandez não vão mais chutar.

Lembram do poema "Quadrilha" do Carlos Drummond de Andrade?

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história

O J.Pinto Fernandes da história é o Raja Bell. Esquecido em toda essa saga dos shooting guards, foi o responsável para não deixar o Jazz chupando o dedo. Ele passou toda a temporada passada machucado no Golden State Warriors mas se diz pronto e saudável para voltar a infernizar os adversários com sua boa defesa, trash talk, empurrões e cotoveladas marotas. O Kobe chegou a trocar uma idéia com o Bell para ele ir para o Lakers, mas contrato pequeno por contrato pequeno, resolveu pegar o do Jazz, onde ele já havia jogado nas temporadas 2003-04 e 2004-05. Com a diferença que naqueles anos o Jazz tinha um time horrível, era justamente o intervalo entre a era Malone-Stockton para a Deron-Boozer e Bell foi obrigado, por um tempo, até a jogar de armador principal, onde, por incrível que pareça, se saiu muito bem.

O Raja Bell não está mais na flor da idade, mas na única vez que teve problemas físicos tirou um ano inteiro de folga para se recuperar. Passou nos testes físicos, tem inteligência em quadra para saber como se movimentar no agitado esquema tático do Jazz e é um exímio arremessador de três, irá saber tirar proveito dos passes do Deron Williams e da atenção dada ao Al Jefferson no garrafão. Jerry Sloan é bom, mas é chato, se aceitou Bell de volta é porque gostou do tempo que treinou o jogador. Pagar 10 milhões por 3 anos para o Jazz foi muito mais inteligente do que igualar os 34 milhões para o Wes Matthews, até porque não custa lembrar que as trocas do Eric Maynor e do Ronnie Brewer no ano passado tiveram motivações exclusivamente econômicas, o Jazz tem sofrido com a falta de grana.

No fim das contas essa Quadrilha funcionou melhor que a do Drummond (até porque ninguém se suicidou). O Celtics tem alguém para incendiar o jogo, o Magic manteve o favorito do técnico, o Bulls conseguiu titular e reserva para sua posição mais carente, o Grizzlies o seu especialista em defesa, o Jazz uma opção tão útil quanto e mais barata que o Wes Matthews e o Blazers o reserva que procurava. A saga agora continua com quem parou, o Blazers. Para onde vai Rudy Fernandez? Dizem que o Knicks e o Raptors estão babando para ter o espanhol. Ou o Rudy vai ser a Lili que não ama ninguém?

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O Wolves cansou de fazer estoque de armadores e resolveu fazer de jogadores de garrafão. Eles já tem Darko Milicic, Kevin Love, Michael Beasley, Kosta Koufos, Nikola Pekovic e agora contrataram o Anthony Tolliver, que estava sendo disputado também por outros times.

A contratação do fraco Tolliver só merece menção no blog porque ele a anunciou no maior estilo LeBron James. The Decision - Parte 2