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domingo, 9 de outubro de 2011

8 ou 80: Eficiência e tipos de arremesso - Parte 3

Por algum motivo Kevin Martin cobra muitos lances livres


Chegamos à parte final desse especial sobre diferentes tipos de arremesso na última temporada da NBA. Até agora vimos os mais eficientes, os menos eficientes e os que mais tentam arremessos como bandejas e enterradas (na Parte 1) e arremessos de média e longa distância (na Parte 2). Hoje é dia de lances livres e de um ranking geral. Afinal, quem são os pontuadores mais eficientes da NBA?

Lembro mais uma vez que todo o crédito para essa série de textos é de um blogueiro gringo chamado Evanz, do Golden State of Mind, um blog especializado no Golden State Warriors. O cara teve o saco e a capacidade de analisar toneladas de dados e criar fórmulas complexas (e inteligentes) de analisar as estatísticas. Legal que ele percebeu muitos leitores vindos por links daqui e chegou a nos mandar uma mensagem pelo Twitter agradecendo a divulgação do trabalho dele. Pra quem torce para o Warriors e quiser acompanhar, o twitter dele é o @thecity2

A conta para dar o valor aos melhores e mais valiosos arremessadores de lances livres leva em conta os seguintes critérios: (1) média de lances livres tentados e aproveitamento da posição do jogador a cada 100 posses de bola, (2) arremessos tentados e convertidos pelo jogador a cada 100 posses de bola e (3) quantidade e aproveitamento do jogador em lances livres em situações de falta-e-cesta.

Vamos para a lista. Lembrando que PSAMS é o número resultante da conta que leva em conta os termos que a gente explicou acima.


O Kevin Martin leva essa com muita, mas muita facilidade. O número dele é tão impressionante que vocês verão mais tarde que ele entra na lista de pontuadores mais eficientes da NBA basicamente só pelo que ele conquista nesse quesito. Para se ter uma ideia, K-Mart chuta 12.2 lances livres a cada 100 posses de bola, a média de jogadores da sua posição, a de shooting-guard (2), é de 4.4! E o aproveitamento médio da posição é de 80%, o dele é de 89%. Sem contar que consegue uma jogada de falta-e-cesta 0.85 vezes a cada 100 posses de bola, número não muito distante de caras como o Dwyane Wade com seu ótimo 1.1.

A lista em geral não tem grandes surpresas porque sabemos quem são os jogadores que mais batem lances livres e qual seu aproveitamento, mesmo colocando novos elementos na conta os resultados não mudam tanto assim. Mas surgem umas surpresas escondidas no meio: Danilo Gallinari até uma temporada atrás era criticado por ser só um arremessador de três, hoje ele está aí empatado com o Manu Ginobili justamente porque passou a atacar mais a cesta e sofrer faltas no processo. Claro que o argentino tem mais situações de falta-e-cesta, sua marca registrada, mas o ala italiano do Nuggets consegue hoje em dia ir com regularidade para a linha do lance  livre.

Entre os 20 primeiros apenas quatro jogadores tem aproveitamento menor que 80% nos lances livres: Amar'e Stoudemire, Brook Lopez, Dwyane Wade e LeBron James. Eles compensam com quantidade de tentativas e jogadas em que convertem a cesta e sofrem a falta, mas dá pra imaginar como seriam eficientes se acertassem mais as muitas chances que tem? E em uma lista dominada por jogadores de perímetro é legal ver o Brook Lopez como primeiro pivô na 11ª posição. Esse especial serviu para entender melhor porque o Lopez é esse jogador que ninguém sabe direito o que achar ou esperar, em algumas coisas ele é ótimo, um dos melhores, em outras beira o ridículo.

E para quem comentou que o Nenê está bem na fita nessas listas, ele está em 25º na dos lances livres. Realmente o brasileiro é um pontuador bem eficiente, o que nos faz questionar porque ele é às vezes tão apagado nos jogos. No Nuggets do fim da temporada não era estranho ver ele ser apenas o quinto jogador com mais arremessos no time. Muita coisa disso é carma de pivô, que sempre é esquecido pelos outros jogadores, mas também pela postura às vezes passiva e de role-player assumido que o brasileiro toma.

Abaixo o show de horror, quem são os 10 piores titulares na lista de lances livres?


Surpresa seria o Rajon Rondo não estar no topo da lista. Mas que tal ele estar quase com o dobro de pontos negativos do segundo colocado? Uau! Não é à toa, ele tenta apenas 2.7 lances livres a cada 100 posses de bola e quando vai arremessar esses raros lances acerta só 55% deles. Ele é uma síntese asquerosa de todo o resto do Top 10 que tem jogadores que não atacam a acesta (Battier, Kidd, Bibby, Bogans, Thomas) e jogadores com aproveitamento pífio de lances livres (Martin, Bogut, Biendris, Wallace).

Abaixo o Top 10 com os melhores reservas:


O Corey Maggette só está na NBA há tantos anos porque sabe cavar faltas e tem um bom aproveitamento de lances livres. E eu não exagero quando uso esse "só" na frase. O resto do seu jogo é ultrapassado, comum ou simplesmente ruim, mas ele consegue muitos pontos fáceis no lance livre e complica o outro time em faltas, aí algumas equipes acabam dando contrato pra ele. Com esse PSAMS de 3.21 ele seria o 3º colocado na lista geral dos titulares, atrás apenas dos Kevins, Martin e Durant.

Falando em Durant, o terceiro da lista é seu companheiro de time James Harden. Comentamos muitas vezes aqui no ano passado que um dos motivos do Oklahoma City Thunder ser tão bom no ataque era o número e o aproveitamento de lances livres, as boas colocações de Durant, Harden e Russell Westbrook comprovam a tese. A lista dos reservas é praticamente inteira formada de jogadores que entram com a recomendação de "ataquem a cesta como se não houvesse amanhã", em geral caras que tem esse talento de infiltração mas pecam em outras áreas do jogo.

Para ver os números com mais detalhes e as listas divididas por posição é só conferir esse link do Golden State of Mind.

Depois de tantas contas complexas e números bizarros, finalmente uma conta para o nosso nível de matemática de primário. Para eleger os pontuadores mais eficientes da NBA como um todo apenas se somou o PSAMs (resultado das contas esquisitas) de cada quesito.

Na lista estão presentes as cestas próxima a cesta (INS), chutes de meia distância (MID), três pontos (3PT) e lances livres (FT).


E deu o campeão Nowitzki. Mas ninguém é perfeito mesmo, são pouquíssimos os jogadores dessa lista que não tem pelo menos uma nota negativa em alguma coisa. Na verdade são apenas cinco: Paul Pierce, Al Horford, Stephen Curry, Steve Nash e, surpresa, Brook Lopez.

O Nowitzki conseguiu o seu diferencial na lista ao virar o único mestre supremo do universo em arremessos de meia distância, ao mesmo tempo ainda é levemente eficiente nos 3 pontos e continua cobrando lances livres. LeBron James é o segundo com o seu arsenal completo que já conhecemos, incluindo aí o melhor arremesso de meia distância entre os small forwards. Peca mesmo apenas nas bolas de três pontos. Engraçado é o Kevin Martin em 3º com quase todos os seus pontos vindo dos lances livres, um absurdo, sem dúvida o pontuador mais chato de se assistir na NBA.

A lista consagra alguns nomes que todo mundo já sabia que poderia pontuar de tudo quanto é jeito, como Pierce e Durant, mas tem também caras como Nenê e Stephen Curry no Top 10 e Al Horford logo depois em 11º. São jogadores que jogam bem, são reconhecidos, mas não são as primeiras opções ofensivas de suas equipes.

A impressão que dá é que o Nuggets deveria ter usado mais o seu pivô, posição que hoje em dia tem poucos pontuadores eficientes, e Warriors e Hawks deveriam segurar mais o ímpeto de Monta Ellis e Joe Johnson em prol de seus jovens e eficientes jogadores. Mas a coisa não é tão simples assim, não é só tocar a bola para outro jogador. Hawks e Warriors sofrem de más decisões ofensivas e Ellis e JJ são apenas escapes que usam seus talentos individuais para compensar um sistema pouco eficiente; o que os técnicos desses times precisam entender é que eles não podem ter um ataque típico de times sem talento quando tem dentro do elenco caras tão bons quanto Steph Curry e Al Horford. Na pior da pior das hipóteses esses dois devem compartilhar os arremessos ruins. Outro destaque é a presença de Tyson Chandler fechando o Top 20, mostra que para ser um dos mais eficientes não precisa ser um grande cestinha. Mas claro que ele foi beneficiado porque as médias de tentativas e de aproveitamento dos outros pivôs da NBA não são grande coisa hoje em dia.

O legal dessa lista não é o ranking em si, isso é secundário, questionável, o legal mesmo é ver como ela mostra perfeitamente como cada jogador marca os seus pontos. O Chauncey Billups está muito bem em 10º lugar, mas com números bem ruins em pontos próximos à cesta e de meia distância, o armador do Knicks consegue seus pontos em bolas de três pontos e lances livres. Ele é um caso raro de jogador que mesmo sem ser uma grande ameaça nas infiltrações consegue cavar faltas com regularidade, resultado do seu bom jogo de costas pra cesta contra outros armadores e uma das melhores fintas em arremessos.

Outro caso interessante de analisar é o de Kobe Bryant, 13º da lista. A cada ano que passa ele tem menos pontos próximos à cesta (praticamente não fez um ponto em bandejas ou enterradas na série contra o Mavs) e cada vez mais tenta bolas de 3 pontos. Isso se chama frustração. Ele não tem mais o físico para costurar defesas fortes e precisa compensar com arremessos de longe. Kobe ainda é muito bom nos de meia distância e em seus dias mais inspirados pode decidir jogos com as bolas de longe, mas em geral, ao longo de toda a temporada, os seus chutes de longe são resultado de frustração por não conseguir arremessar dos lugares onde ele quer e de onde ele conseguia quando era um pouco mais jovem.

Abaixo a lista com os pontuadores menos eficientes entre todos os titulares da NBA:


Poxa, pessoal, não é só porque vocês são a nata defensiva da NBA que precisam ignorar o fato de que existe ataque no basquete! Mas tudo bem, em alguns casos não é nem culpa dos jogadores. Caras como Thabo Sefolosha, Luc Mbah a Moute e Keith Bogans são conscientemente excluídos do ataque de suas equipes e ficam com poucos pontos no ranking por tentar poucos arremessos ao longo dos jogos. Já Andrew Bogut paga o preço de tentar resolver sozinho e com jogadas individuais um dos ataques mais toscos da NBA, o do Bucks. O pivô australiano é bom, mas não é um gênio para carregar times ruins nas costas. Assim como ele precisou de um técnico especialista em defesa para virar um dos melhores bloqueadores da liga, precisa de alguém que desenhe boas jogadas para ele ser mais eficiente.

É triste ver Jason Kidd nessa lista, mas existe um bom motivo. Um dos princípios dessa lista era comparar o número de arremessos tentados em média por jogadores de cada posição, quem chutasse menos, na maioria dos casos, era punido por isso. Jason Kidd não só nunca foi muito de arremessar, prefere o passe, como também vive hoje uma era de armadores pontuadores. Não basta fazer poucos pontos, o armador do Mavs é comparado a Derrick Rose, Deron Williams, Russell Westbrook, Brandon Jennings, Tony Parker e outros que fazem 20 pontos em um jogo sem precisar suar muito a camisa. A lista tenta medir o quanto cada jogador é bom em fazer pontos, e nisso o Jason Kidd é realmente ruim, mas não quer dizer que ele não saiba compensar com muitas outras coisas.

A lista dos 10 melhores reservas tem Marcin Gortat (devo meu título do Fantasy do Bola Presa a esses números!), Corey Maggette (que tem números negativos em tudo, menos lances livres), Gary Neal, George Hill, Louis Williams, Hakim Warrick, Kyle Korver, Jason Terry, Thaddeus Young (o líder da liga em pontos próximos à cesta) e, para minha surpresa, Reggie Williams, discreto ala do Warriors.

Os piores reservas são liderados por um conhecido de quem acompanhou de perto a temporada do Lakers, Steve Blake. E tem além dele Earl Watson, Al-Farouq Aminu, Corey Brewer, Donte Greene, Vlad Radmanovic, Al Harrington, Rudy Fernandez, Joel Anthony e Brandan Haywood. Alguns nomes a gente desculpa, mas o que Vlad Radmanovic e Al Harrington tem a contribuir com um time de basquete se não sabem pontuar com eficiência?

Para as listas completas e divididas por posição, acesse a página do Golden State of Mind.
Agradeço a paciência de todos que não são tão fãs de números como eu. Os insatisfeitos podem continuar nos ajudando ao recomendar temas para posts nos comentários!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Pós-view da Final do Oeste - Mavs X Thunder

Mesmo marcado por alguém que não sai do chão, o Nowitzki pula pra trás como bailarina


Deu tudo errado nos nossos planos e não conseguimos postar nosso já tradicional preview antes de começar cada nova série dos playoffs. Mesmo que muitas vezes ele vá ao ar em cima da hora, minutinhos antes do jogo, dessa vez nem isso conseguimos fazer. Thunder e Mavs ficou sem uma apresentação, sem uma introdução. Mas já que nos acostumamos a moldar o espaço-tempo com o League Pass (que permite que você assista ao jogo já começado ou terminado quando quiser, voltar a jogada, pausar, cortar os intervalos), vamos fazer uma viagem temporal: retornaremos ao passado, faremos as perguntas que eram fundamentais para entender a série, e então viajaremos de volta para o futuro (!) para mostrar como essas questões foram respondidas no jogo de ontem à noite.

- Como o Thunder fará para marcar Nowitzki? Quem receberá essa função? Usarão marcação dupla?

Essa eu nunca teria adivinhado. O Thunder usou nada mais, nada menos do que 6 marcadores no Nowitzki: foram Serge Ibaka (na maior parte do tempo), Nick Collison, Kendrick Perkins, Kevin Durant, Thabo Sefolosha e James Harden. O Westbrook também acabou marcando o alemão, mas foi numa troca de marcação desastrada. O Ibaka já tinha mostrado contra o Grizzlies todas as suas especialidades e todas as suas dificuldades, e eu esperava que o Nowitzki fosse mesmo uma dor de cabeça ainda maior. O Ibaka deu muito espaço para o Zach Randolph arremessar e, quando tentou jogar de forma física, cometeu muitas faltas ou foi batido em giros rumo à cesta. Seu grande trunfo é a velocidade, então ele é excelente na ajuda defensiva, cobrindo seus companheiros, ou fechando o pick-and-roll. Contra o Nowitzki, dar espaço para o arremesso é loucura, e o alemão tem muitos recursos girando em direção à cesta. Jogando menos na força bruta, que era o caso do Randolph gordinho, imaginei que o Ibaka teria mais problemas para contê-lo, mas que ele estaria ao menos constantemente na frente do Nowitzki para atrapalhar. O que aconteceu foi que assim que recebeu espaço para arremessar no começo do jogo, Nowitzki converteu seus arremessos e entrou num ritmo. Percebendo que precisaria pular mais para contestar os arremessos bizarros do alemão, que pula para trás como se fosse uma mola, Ibaka começou a sair do chão na defesa - cometendo assim muitas faltas e ficando vulnerável para o Nowitzki bater pra dentro. Quando começou o terceiro período, Ibaka já tinha 4 faltas e foi pro banco. Não deu certo. O Perkins se saiu ainda pior, porque para contestar os arremessos tem que mover toda sua massa corporal feita de concreto e o Nowitzki apenas fingia os arremessos para cortar livremente rumo à cesta. Cagada. Então o Thunder tentou o Durant, que é mais rápido e tem braços mais compridos estilo Dhalsim, mas como ele não tem físico para segurar o jogo de costas para a cesta do alemão, acabou cometendo faltas e teve que abandonar a função. Thabo Sefolosha tentou colocar em prática a defesa ideal contra o Nowitzki, que é estabelecer uma posição sólida bem perto do corpo do alemão e obrigá-lo a colocar a bola no chão. Mas o Nowitzki arremessou facilmente por cima do Sefolosha, que é muitíssimo mais baixo do que todos os outros marcadores, e ainda cavou faltas fazendo algo inédito para ele: combatendo a defesa estabelecida do seu marcador com força, usando as costas sem medo do jogo físico. James Harden tentou a mesma tática e se saiu um pouco melhor, mostrou um físico que eu não imaginava que ele tivesse, mas Nowitzki continuou arremessando por cima de todos esses nanicos. Foi um massacre. Quem se saiu melhor foi o Nick Collison, o homem que lascou com a vida do Zach Randolph no jogo final entre as equipes, mas também cometeu muitas faltas tentando evitar os arremessos de arco gigante do alemão. Ao todo, o Nowitzki cobrou 24 lances livres e converteu todos, recorde da história dos playoffs.

É claro que o Thunder tentou dobrar a marcação assim que o Nowitzki começou a acertar arremessos, mandando o Wetbrook para a dobra. É sempre uma boa sacada para pará-lo, porque ele passa a bola toda vez que a dobra chega (a não ser que a dobra venha muito tarde, quando ele já se dirigia para a cesta, como aconteceu algumas vezes). Mas existe uma coisa bizarra a respeito do Mavs: eles são um time com pouca variação ofensiva, que não gira a bola, e que se baseia muito em jogadas de isolação - a não ser que a bola saia de dentro do garrafão. Quando o Nowitzki recebe marcação dupla, ele invariavelmente passa a bola para o perímetro e lá a bola gira com maestria para encontrar um arremessador livre. Por que eles não giram a bola constantemente eu nunca saberei, mas bastou o Thunder dobrar para que o Mavs convertesse uma bola de três pontos. Foram cestas de Jason Kidd, de DeShawn Stevenson, de Peja Stojakovic (a década passada manda lembranças), e principalmente do Jason Terry (que inclusive fez a cesta de três que garantiu a vitória, numa dobra no Nowitzki, quando o Thunder apertava no minuto final). Bastaram alguns desses arremessos convertidos para que o Thunder parasse de dobrar, voltando apenas no quarto período quando a água estava batendo na bunda. E a verdade é que muitos arremessos de três pontos nessas circunstâncias não caíram, mas os que caíram decidiram o jogo.

Voltamos então a uma questão que monopolizava os debates táticos na época em que o Duncan dominava o jogo: deve-se dobrar ou não a marcação num ala de força que sabe passar a bola para um time que é bom arremessador de três? Sempre achei que a marcação deveria dobrar no Duncan e forçar os outros jogadores a decidir no perímetro, mas o Suns perdeu muitos jogos para o Spurs porque estava dobrando - e muitos outros por não estar dobrando, também. O Thunder vai passar por essa questão filosófica durante a série, "dobrar ou não dobrar, eis a questão", e essa pode ser a escolha mais decisiva do confronto.

Vale ressaltar também a paciência absurda do Nowitzki quando sofre a marcação dupla. Ele respira, segura a bola mais um pouco, e aí passa para o perímetro. Apenas uma vez, no jogo inteirinho, recebeu a bola de volta para atacar de novo o garrafão, lá no fim do terceiro quarto. Ele passa para fora mesmo sabendo que a bola não voltará, confia inteiramente no time e o Mavs é feito para isso. Mesmo nos contra-ataques, o que o Mavs quer é arremessar do perímetro, e funciona.

- O banco do Dallas Mavericks prometeu desequilibrar a série. Jason Terry chegou a dizer que queria marcar sozinho mais pontos do que todo o banco do Thunder. Como o banco do Thunder vai responder a isso, e como Jason Terry se sairá?

Pois é, o Jason Terry quase fez o que prometeu. Sozinho marcou 24 pontos, com 4 bolas de três pontos, enquanto o banco inteirinho do Thunder somou os mesmos 24 pontos. Jason Terry se aproveitou um absurdo da dobra de marcação no Nowitzki, e soube também usar isso para fingir arremessos contra a defesa do Thunder afoita por cobrir os buracos, batendo para dentro do garrafão com o caminho livre. O Nowitzki teve uma partida absurda, mas a calma do alemão só foi possível porque ele não teve que forçar arremessos, podia colocar a bola no perímetro para o Jason Terry se aproveitar. De certo modo, foi ele quem decidiu o jogo e permitiu a partida do Nowitzki.

Mas o banco do Dallas teve também os 21 pontos do JJ Barea, que também quase fez tantos pontos quanto o banco do Thunder inteiro. E o JJ Barea nem precisou ficar arremessando, ele atacou a cesta numa boa se aproveitando dos espaços criados pelo Nowitzki. Foi quase uma imitação do que o Devin Harris fazia por lá uns anos atrás. Vamos dar uma olhada em uma imagem do jogo, tirada diretamente de um print screen do meu League Pass.


Reparem primeiro na qualidade da imagem, que parece um quadro pintado pelo Monet (é o espírito do pintor, que às vezes invade meu League Pass). Mas depois, vamos dar uma olhada naquele bolo de jogadores na cabeça do garrafão. Parece uma suruba, mas na verdade é o Brandan Haywood ameaçando fazer um corta-luz para o Nowitzki. Só essa ideia já deixa a defesa do Thunder louca, então tanto o marcador do Nowitzki (o Ibaka) quanto o marcador do Haywood (que é o Perkins) precisam impedir a jogada. Mas vejam, é uma defesa inteira comprometida com isso sendo que a bola sequer está naquela parte da quadra. Enquanto isso, o Nate Robinson está marcando o homem com a bola mas defende seu lado direito, que é onde está o Nowitzki, para tentar impedir um passe para o alemão. O JJ Barea, que tem a bola, pode então caminhar de costas em direção à cesta se quiser, porque ninguém está lhe dando bola. O único homem por perto é o James Harden que, como vimos analisando taticamente as jogadas do Grizzlies, nunca - NUNCA - abandona seu homem na zona morta. E foi assim que o JJ Barea marcou 21 pontos sem nunca ser marcado por ninguém. O Nowitzki muda o jogo mesmo quando está só parado, lendo um gibi.

O banco de reservas também se segura sem o alemão, mesmo que seja capengando. As jogadas que o Mavs chama continuam idênticas (em geral é o Shawn Marion que é isolado de costas para a cesta), o que me enlouquece, é muita burrice e tem resultados mequetrefes. Mas os jogadores são bons o bastante para ao menos segurar as pontas. Com 3 minutos para acabar o primeiro quarto, Nowitzki já estava descansando no banco numa boa com a garantia de que o time não iria se demolir.

O banco do Thunder, por sua vez, não tem esse poder ofensivo. Ontem até o Nate Robinson, que mora de castigo no banco, entrou em quadra para correr atrás do Barea e dar uma força no ataque. O único reserva que ajudou pra valer foi o James Harden, que cada vez se mostra um jogador mais completo. Contra o Grizzlies, mostrou que consegue armar o jogo e passar a bola nas infiltrações, o que lascou muitas vezes o plano defensivo da equipe dos ursinhos. Contra o Mavs, ele foi o único jogador capaz de costurar a defesa por zona da equipe de Dallas e finalizar na bandeja ou então acionar os jogadores do Thunder embaixo da cesta. Se o Westbrook conseguisse ter essa frieza do Harden, seria um gênio.

- O Mavericks vai usar sua famosa defesa por zona? Se usar, o Durant não vai matá-los no perímetro? Como diabos vão marcar o Durant?

Essa pra mim foi a maior surpresa do jogo. Não teria adivinhado nunca, teria mesmo que viajar de volta para o futuro. O Mavericks usou bastante sua defesa por zona e com isso deu um espaço considerável para o Durant arremessar toda vez que recebia a bola vindo de um corta-luz. Mas essa defesa por zona tornou impossível para o Westbrook usar sua velocidade e colocar a bola no chão na cabeça do garrafão! A defesa por zona do Mavs exige um post à parte, que teremos muito tempo para fazer nesses playoffs, o que importa por enquanto é que o Westbrook foi obrigado a acalmar o ritmo, costurar a defesa, lidar com mais de um marcador, e ele é um desastre nessas coisas. Quando finalmente encontrava o caminho livre para o aro (em geral no contra-ataque, porque a defesa de transição do Mavs fede), tomava sopapo dos trogloditas do garrafão: Tyson Chandler e Haywood. O Mavs que fez Kobe Bryant não finalizar praticamente nenhuma vez perto do aro apareceu ontem, mandando Durant e Westbrook pro chão, pra linha de lances livres, e forçando erros com vários defensores em cima da bola ao mesmo tempo. Durant cobrou 19 lances livres, Westbrook cobrou 18. Parece algo desastroso para o Mavs, não? Além disso, Durant marcou 40 pontos, acertando arremessos fáceis. Parece uma merda, não? Aí está a genialidade do Mavs, o sinal de que eles assistiram a todos os jogos da série entre Thunder e Grizzlies e fizeram a lição de casa. A defesa por zona foi colocada em prática para deixar o Durant jogar, mas aloprar com o Westbrook. Quem foi o gênio maligno que pensou nisso? Além disso, é melhor deixar os dois na linha de lances livres do que fazendo bandejas. Como o Lakers mostrou, uma hora o time cansa de apanhar, cansa de ter todas as bandejas contestadas, e passa a arremessar só de longe. O Thunder é pior quando fica nos arremessos (venceu o Grizzlies fácil com o Durant cortando mais em direção à cesta) e depende muito do Westbrook não cometer cagadas e controlar o ritmo de jogo (quando ele armou o jogo com calma, passou a bola e não forçou arremessos, o Grizzlies virou farofa no Jogo 7). Com uma defesa para forçar o Westbrook a não poder bater para a cesta, o Mavs só teve que se preocupar em cometer faltas nas penetrações que passavam e ver os arremessos de fora choverem. O Thunder só encontrou uma bola de segurança nas infiltrações ou espaços dentro da zona que procuravam então passar a bola para alguém embaixo da cesta, como Ibaka ou Perkins. Quem mais fez isso foi o Harden, porque o Westbrook não consegue.

Essas questões foram então bem respondidas, e está dada a tônica da série. Mas e quando os arremessos de fora do Thunder caírem? E quando o Durant marcar 60 pontos porque tem espaço para jogar? Será que o Westbrook consegue vencer a defesa por zona, acalmar o jogo, levantar a cabeça, e acionar o garrafão? E quem diabos, mantemos a pergunta, vai marcar o Nowitzki pra valer? Haverá dobra ou não? São novas questões que resolveremos no próximo jogo, quinta-feira. E você acompanha a análise aqui, num horário aleatório mas no mesmo bat-canal.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Altos, baixos e gordos

Perkins e Randolph se odeiam, mas em quadra tentam imitar a cara do Duncan


O que tivemos entre Grizzlies e Thunder foi o mais próximo possível no mundo real de um confronto entre dois Cavaleiros de Ouro (do desenho "Cavaleiros do Zodíaco", é preciso avisar às novas gerações), em que duelos entre lutadores poderosos durariam mil dias e mil noites (curiosamente no desenho a maioria das lutas só levava uns minutinhos e uns 90 litros de sangue). Foi uma batalha épica com 3 prorrogações em que ambos os times foram levados à exaustão total. Para se ter uma ideia, pelo Grizzlies o Zach Randolph jogou 56 minutos e Marc Gasol jogou 57, enquanto pelo Thunder o Durant jogou quase 57 minutos e Westbrook jogou 51. É quase uma hora inteira e ininterrupta de basquete para esses jogadores, o que é especialmente surreal se você pensar que um deles é um baita gordinho. Jogos com três prorrogações são sempre aberrações e dedam alguns fatos: para chegar nesse ponto não é necessário apenas que os times sejam parelhos, mas também que eles tenham muitos altos e baixos. Se um dos times fosse capaz de manter a superioridade conquistada em alguns momentos do jogo, teria vencido no tempo normal, sem prorrogações. Os dois times tiveram grandes momentos na partida (o Grizzlies chegou a vencer por 18, o Thunder vencia por 10 no meio do quarto período), mas também tiveram momentos medonhos e expuseram todas as suas fragilidades. Em uma série normal, uma superioridade física ou tática momentânea poderia garantir a liderança sendo sustentada até o fim da partida, mas Grizzlies e Thunder não são muito afeitos da regularidade ou dos planos de jogo, especialmente na parte ofensiva. O resultado é uma montanha-russa divertidíssima que gerou 3 prorrogações e que arrancou preciosas horas de sono de todos nós (por aqui, ainda estou devendo ao meu cérebro as horas de sono roubadas pelo jogo e boto nisso a culpa por tudo que disser aqui sem o meu advogado). Ao fim do jogo e do atraso no sono causado nos dias seguintes, me sinto tão exausto quanto o Randolph gordinho e seus 56 minutos em quadra.

Durante o jogo, entretanto, estive muito acordado e fuzilei o dedo no print screen para analisar a jogada que o Grizzlies usou à exaustão em seus melhores momentos - e que foi completamente abandonada nos momentos mais cruciais da partida. Vamos então às imagens (que podem ser clicadas caso você queira ver gigante, em detalhes):


1. Acima podemos ver uma jogada simples de pick and roll. Mike Conley, marcado por Westbrook, leva a bola e recebe um corta-luz de Marc Gasol na linha de três pontos.


2. O marcador de Marc Gasol na jogada, Serge Ibaka, tenta impedir então a progressão do Mike Conley e entra na frente do armador. Se bem executada, essa troca de marcação impediria o passe de volta para Marc Gasol, mas veja como Conley tem bastante espaço para olhar o jogo enquanto Gasol se movimenta livremente rumo à cesta. (Veja também a mensagem do meu computador, avisando que eu posso apertar Esc para sair do modo tela cheia. Esc, a famosa tecla inútil que só serve quando vejo NBA.)


3. Conley faz o passe para Marc Gasol facilmente, que tem um corredor até o aro. A reação da defesa do Thunder é risível: James Harden abandona seu homem na zona morta para tentar cavar a mais idiota falta de ataque do planeta, dando espaço para o Gasol passar bem do seu lado; enquanto isso Kendrick Perkins não se atreve nem lascando a desgrudar do Zach Randolph, já que Gasol é bom passador e constantemente aciona seu parceiro de garrafão quando pressionado.

O que vemos nas três imagens acima é uma cesta simples para o Grizzlies. A jogada pode ser repetida com o corta luz sendo efetuado pelo Randolph, com a única diferença de que ele gosta de arremessar ao receber a bola tanto quanto gosta de bater para dentro. Se a marcação do Harden fosse melhorzinha, o Grizzlies ganharia então um arremesso da zona morta. Se o Perkins reagisse, um jogador de garrafão estaria livre embaixo do aro e provavelmente sofreria a falta ou conseguiria o rebote ofensivo. Não é à toa que Randolph cobrou 17 lances livres e teve 8 rebotes ofensivos, portanto.

Agora, vamos analisar o que acontece quando o Thunder finalmente coloca em prática o que aprendeu no primeiro jogo e defende direito esse maldito pick and roll:


1. Na imagem acima Marc Gasol acabou de fazer o corta-luz e abriu novamente para a cabeça do garrafão, mas dessa vez Ibaka conseguiu entrar na frente do Mike Conley lhe tirando o espaço, enquanto Russell Westbrook aperta o armador e bloqueia a linha de passe. Eles tentaram fazer isso na jogada anterior que vimos, mas dessa vez o armador do Grizzlies é verdadeiramente pressionado como deveria.


2. Com Mike Conley espremido na lateral, evitando um passe muito arriscado que precisaria ser alto demais para passar por cima da marcação, Ibaka tem tempo de usar sua velocidade e alcançar Gasol, entrando na frente da linha da bola. Mesmo se o passe tivesse sido feito por cima dos marcadores, Ibaka ainda assim teria tempo o bastante para alcançar Gasol na corrida porque o passe seria alto e ele é rápido pra burro. Então o pick and roll do Grizzlies está oficialmente bloqueado. Mas, opa, o que é aquela lua pequena com um pé lá dentro do garrafão? É o Zach Randolph conquistando posição perto da cesta! Agora Ibaka já está longe demais para ajudar na marcação do Randolph e James Harden ainda está focado no pick and roll, pensando no Marc Gasol. Conley teve então facilidade na sequência dessa jogada em colocar a bola nas mãos do Randolph, que apenas girou em cima do Perkins rumo à cesta. Ah, sim: era uma bola fácil, mas ele errou o arremesso. Funhé.

Então mesmo quando o pick and roll é muitíssimo bem marcado pelo Thunder, o Grizzlies ainda consegue colocar a bola no garrafão, que no fundo é a bola de segurança deles. Randolph e Gasol são maiores e mais fortes que o Thunder inteiro, cavam faltas, acertam lances livres com facilidade e pontuam na marra. Perkins é um bom defensor embaixo do aro, mas é péssimo tendo que correr atrás de jogadores de garrafão com arremesso de média distância. Por serem versáteis, Randolph e Gasol estão constantemente trocando de posição, gerando uma bagunça defensiva para o Thunder e um pesadelo para o Perkins.

Por isso, depois da derrota no primeiro jogo o Perkins chamou toda a equipe para a sua casa para comerem (coisa que nenhum pivô abre mão) e para que vissem juntos a gravação do jogo sem a equipe técnica, pausando em cada jogada para criticar o posicionamento um do outro. Genial, coisa de Celtics, de time vencedor, de elenco em que os jogadores não têm medo de reclamar e cobrar uns dos outros em busca da perfeição. Com isso, a defesa de pick and roll do Thunder melhorou muito e é preferível que o Randolph tenha que enfrentar o Perkins no mano-a-mano embaixo da cesta do que arremessar livre de média distância quantas bolas quiser. Mas a preocupação com parar a dupla de garrafão do Grizzlies é tanta que, associada à vontade do Westbrook de forçar o ritmo de jogo no ataque, estragou totalmente o posicionamento para os rebotes defensivos. Dá uma olhada nessa foto:


Vamos contar juntos, crinçada: são um, dois, três, quatro jogadores do Thunder na foto. Um deles contesta o arremesso, os outros três estão no garrafão para o rebote. Então adivinhem só o que aconteceu: o Zach Randolph, único de branco num raio de 1km, saiu com o rebote ofensivo. Foram ao todo 24 rebotes ofensivos para o Grizzlies, 10 do Marc Gasol e 8 do Randolph. A preocupação em pressionar os arremessos da dupla acaba deixando um dos dois livre para um rebote ou um tapinha. A preocupação em sair correndo para acompanhar o Westbrook também faz com que exista menos proteção nos rebotes. É uma combinação mortal e que permitiu que Randolph e Gasol dominassem o jogo mesmo sendo duramente marcados.

O que é de enlouquecer, entretanto, é que o Grizzlies não acionou sua dupla dominante em momentos essenciais da partida. Mike Conley forçou muitas bolas e até o seu reserva Greivis Vasquez (que é da escola Steve Nash de armadores que não pulam, e que esteve naquela polêmica em que o Grizzlies não queria lhe garantir o salário inteiro de novato e que portanto não treinou com a equipe antes da temporada) acertou arremessos fantásticos que foram completamente idiotas, impensados e passíveis de punição se o técnico tivesse bom senso. OJ Mayo, então, nem se fala. Forçou arremessos que fariam JR Smith corar de vergonha, mas acertou alguns que deixariam Ben Gordon orgulhoso. Foi capaz de tomar um toco em uma bola de 3 crucial e, depois de uma falha de arbitragem devolver a bola para o Grizzlies, arremessou de 3 de novo como se tivesse amnésia - mas aí acertou. O Grizzlies conseguiu empatar o jogo no quarto período e levou a partida a 3 prorrogações graças a alguns desses arremessos mágicos, mas que tal manter o padrão ofensivo, tentar o pick and roll e colocar a bola no garrafão ao invés de deixar um armador novato, o Tony Allen se achando o Kobe, e uns arremessadores loucos, tomarem as rédeas do jogo? O Grizzlies às vezes simplesmente sai do seu eixo, esquece quais são as bolas fáceis e coloca tudo a perder porque o ataque é mesmo fraco, desorganizado. Quando tentou voltar a jogar com seus pivôs, eles já haviam jogado 50 minutos e não conseguiam nem se mover. Randolph teve uma bola desviada das suas mãos no fim da terceira prorrogação e nem fingiu que iria tentar recuperar, apenas fez cara de quem queria ir para casa ver os Ursinhos Carinhosos. Gasol tomou um toco absurdo na mesma prorrogação porque deu um giro na velocidade do Ilgauskas, ou seja, como se estivesse debaixo da água. A questão física pesou demais porque, sem trocadilhos, Gasol e Randolph são mesmo pesados e não conseguem passar tanto tempo em quadra sofrendo porrada - fora que conseguir pegar tantos rebotes ofensivos assim cansa qualquer um, vai ver foi uma tática do Thunder para cansar os dois. "Vamos deixar eles fazerem o que quiserem e levar o jogo pra terceira prorrogação, lá não poderão nos deter!". Coisa de gênio maligno.

Da parte do Thunder, eles podem ser geniais quando acertam a marcação e rodam a bola no ataque. São geniais também simplesmente quando envolvem o Durant no jogo, especialmente isolando ele na cabeça do garrafão com um ou dois corta-luzes simples. Esse time cheio de role players, jogadores especialistas e dedicados, e defesa sufocante parece imbatível às vezes. Mas às vezes um dos maiores trunfos da equipe, que é o Russell Westbrook, não é o bastante para compensar um dos maiores problemas da equipe, que é o Russell Westbrook.

Avisei no preview dessa série que uma das questões fundamentais para a vitória do Grizzlies era deixar o Westbrook forçar o ritmo de jogo e cometer turnovers. Quanto mais ele desperdiçar a bola, mais o Grizzlies fica perto de uma final da NBA. Mas os problemas com o Westbrook vão além. Ele é tão bom, tão rápido, tão físico, seu arremesso de média distância (conquistado nos treinos com a seleção americana) tão mais eficiente do que antes, suas bolas de 3 pontos tão mais mortais do que já foram, que ele às vezes simplesmente esquece que tem companheiros em quadra. O Durant tem um dos melhores aproveitamentos da NBA em momentos decisivos dos jogos, mas o Westbrook quer ser herói e se agarra à bola. Na partida de três prorrogações, Durant foi ignorado em várias bolas decisivas ou então foi acionado tarde demais ou longe demais da cesta. O problema é que ninguém quer ver seu armador idiota decidindo o jogo quando ele é o Rafer Alston ou um jogador secundário semelhante, mas como convencer a jovem estrela Westbrook de que ele deve passar essa bola mais rápido e com mais frequência? O paradoxo parece sem saída: quando ataca a cesta e acerta seus arremessos, Westbrook é impossível de ser marcado pelo Grizzlies; mas quando força arremessos no final dos jogos permite que o Grizzlies acabe com a desvantagem de pontos, quando força a velocidade da equipe esquece de passar a bola, e quanto mais rápido corre mais perde a bola permitindo pontos fáceis para o Grizzlies.

No final da terceira prorrogação, Durant envolvido no ataque, Westbrook já satisfeito com seus 40 pontos e Randolph e Gasol cansados, a vitória era obviamente do Thunder. Mas o jogo poderia facilmente ter acabado antes disso graças às cagadas do armador e sua dificuldade de impor um padrão de jogo quando se é tão aleatório e impulsivo. O ataque do Thunder é estagnado, cheio de isolações, e isso é culpa especialmente da irregularidade do armador. Quando Westbrook mostra seu melhor e seu pior tantas vezes numa partida, oscilando de um para o outro, e o Grizzlies esquece suas jogadas principais na gaveta por uns tempos enquanto o Tony Allen força as infiltrações mais desastradas do mundo (ele ficou de castigo no banco por ter sido bastante responsável pelo sumiço da liderança de 18 pontos), podemos esperar mesmo muitas prorrogações. Com tanta instabilidade das duas partes, só podemos esperar equilíbrio - e torcer para que algum dos dois times, qualquer um, consiga vencer o cansaço e adquirir uma consistência para enfrentar o Dallas Mavericks. Que, nesse minuto, torce por oito mil prorrogações até que Zach Randolph caia no chão desidratado e abra com isso uma cratera do tamanho de Plutão. Fora o cansaço, o Mavs está assistindo aos baixos das duas equipes e está se preparando. Thunder e Grizzlies estão lascados, mas já não dá pra duvidar deles. Do Westbrook e do Tony Allen dá, mas do conjunto não, por favor. Já são dois times calejados.

domingo, 1 de maio de 2011

Defesa contra defesa

Zach Randolph não consegue sair do chão, mas manda lembranças


Apenas duas vezes na história, em séries de melhor de 7 jogos, um time classificado em oitavo lugar para os playoffs venceu o primeiro colocado de sua conferência, as duas vezes no Oeste: em 2007 o Warriors derrotou o Mavs, ampliando a fama de amarelão de Nowitzki e seus amigos, e agora em 2011 o Grizzlies eliminou o Spurs. O Grizzlies. Eliminou. O Spurs.

O Suns já teve sua vingança fora de época quando eliminou o Spurs dos playoffs passados depois de uma vida inteira tomando na cabeça, mas aquele Spurs era um time questionado, cheio de problemas, pela primeira vez em uma década inseguro e sem uma identidade própria. O Spurs que acabou de ser eliminado pelo Grizzlies, pelo contrário, parecia ter encontrado uma nova identidade, mais rápida e ofensiva, abraçado de vez a ajuda de jogadores jovens, e havia conquistado a melhor campanha do Oeste com sobra considerável. Ninguém achava estranho que Gary Neal tivesse papel fundamental nas bolas de três, que Matt Bonner fosse arma ofensiva no perímetro, que Richard Jefferson tivesse aceitado ganhar menos dinheiro e treinado à parte como um maluco na offseason para se encaixar no esquema da equipe, e que o Duncan tivesse papel cada vez mais secundário no ataque. O técnico Popovich achava tudo isso muito estranho, é verdade, mas contra a melhor campanha não se questiona. Aceitamos a mudança de identidade do Spurs, vibramos com o novo estilo de jogo, chutamos que eles estariam sem dúvida na final do Oeste. E se questionamos qualquer coisa sobre essa equipe agora - se passamos a perceber as lesões de Duncan e Ginóbili, a fragilidade defensiva, a falta de tamanho, o ritmo exageradamente acelerado -  é única e exclusivamente por culpa do Memphis Grizzlies. Sim, o Spurs tem problemas sérios, uma crise esquizofrênica de identidade, e vai ter que resolver isso para a próxima temporada. Mas nada, absolutamente nada, pode tirar o mérito do Grizzlies por ter derrotado a melhor campanha do Oeste. Sem as atuações monstruosas do Grizzlies, ainda estaríamos achando que estava tudo bem o Spurs correr como um time biruta e o Matt Bonner ter que defender o garrafão.

Comentei bastante por aqui sobre a mudança de postura no Grizzlies e como ela está relacionada com a chegada de Tony Allen, mas é a tática defensiva da equipe que me mais me fascinou durante a série. Foi fundamental que eles se jogassem no chão em todas as jogadas, lutassem por todas as posses de bola, e que acreditassem verdadeiramente que podiam vencer o jogo mesmo quando estavam atrás no placar no final de um jogo decisivo. Mas a obediência tática na defesa é que tornou a vida do Spurs um inferno a ponto de que a equipe mais gelada da NBA, aquela que boceja frente ao fim do mundo e que tem na cara-de-nada do Duncan sua maior representação, não conseguisse encontrar uma jogada segura para definir os jogos nas horas mais importantes. Lembra quantas vezes o Ginóbili simplesmente foi isolado na cabeça do garrafão contra o Suns para matar bolas importantes e vencer partida atrás de partida? Contra o Grizzlies, Ginóbili não podia ser isolado com segurança, nenhum passe era seguro, o Spurs quase chegou ao ponto de chutar a bola pra fora da quadra e correr para as colinas. E tudo por uma simples razão: o Grizzlies não marcou um jogador específico, mas sim um estilo de jogo inteiro.

Ao invés de dobrar a marcação em Duncan (como o Suns já tentou) ou mobilizar três defensores para afunilar Ginóbili e obrigá-lo a passar a bola no garrafão (como o Celtics faz com LeBron), o que o Grizzlies fez foi defender o estilo de jogo do Spurs, fosse quem fosse em quadra, estivesse a bola nas mãos de quem estivesse. A defesa de perímetro se focou inteiramente em atrapalhar o melhor time em bolas de 3 pontos da NBA, a zona morta foi neutralizada, e a ajuda defensiva foi trabalhada à exaustão para aniquilar os passes para fora do garrafão que são a alma do que o Spurs faz em quadra. Quanto mais rápido o Grizzlies jogava, quanto mais eles aceleravam o ritmo em quadra, mais o Spurs caía nessa armadilha de correr pro ataque e, encontrando um forte garrafão defensivo, ter que passar a bola para fora - rumo a uma interceptação. Aliás, nem precisa ser uma interceptação, porque o Grizzlies aprendeu a nobre arte do "deflection", uma estatística que misteriosamente não aparece nas planilhas: é a bola desviada, cutucada, que pode gerar um roubo de bola ou não. Se todo passe do Spurs recebe um "deflection", e o Grizzlies é o melhor time da NBA em forçar turnovers do seus adversários, não dá pra fazer nada com tranquilidade, sem fazer xixi na calça. No fundo, o que o Grizzlies fez foi incomodar ao máximo, mas deixar o Parker ser o Parker, o Ginóbili fazer suas ginobilísses, e o Duncan tentar se impor no garrafão. O que eles marcaram foi a nova identidade do Spurs, e não seus membros individuais.

Hoje, às 14h, o Grizzlies enfrenta o Thunder pela semi-final da NBA e eu estou morrendo de curiosidade: será que a defesa será mantida? Porque a tentação, claro, é criar uma defesa especial para o Durant que o obrigue a sair de sua zona de conforto. Mas se a tática usada contra o Spurs for colocada em prática, Durant será apenas incomodado com uma marcação simples e tudo que sair do normal é que será colocado em risco: toda bola passada para fora, todo passe que buscar o garrafão, as infiltrações na linha de fundo. A ideia é que nenhuma decisão ofensiva será segura e Durant será forçado a ser o Durant em cima de uma boa defesa individual, nada mais. Foi isso que alucinou o Spurs, saber que a bola não pode ser trabalhada, que não dá pra jogar na correria, na improvisação, e que a ajuda defensiva do lado fraco da bola é sufocante. Será que isso funcionaria com o Thunder?

O Grizzlies e o Thunder são equipes muitíssimo parecidas, gostam de jogar na velocidade, forçam um aumento no ritmo de jogo, marcam bem o garrafão e suas defesas fantásticas forçam erros do adversário que geram pontos fáceis. A principal diferença é como os pontos saem quando não são fáceis. O Grizzlies joga quase o tempo todo de costas para a cesta com Randolph e Gasol, passando para jogadores que cortam para a cesta no resto do tempo. O Thunder, pelo contrário, quase não tem jogo de garrafão e faz a imensa maioria dos seus pontos em jogadas de isolação com Durant e Russell Westbrook.

Por um lado, marcar as jogadas de isolação não é o ponto forte do Grizzlies. Com Tony Allen e Shane Battier, estão munidos de bons defensores individuais, mas a força mesmo dessa defesa está na ajuda defensiva e na interceptação dos passes para o perímetro. É bem óbvio que, pelo seu estilo de jogo, o Spurs sofreu muito mais com essa defesa do que o Thunder jamais sofrerá. Mas por outro lado, o Westbrook é um daqueles armadores que deixa o cérebro de molho em casa antes de ir para a quadra, exagerando nas corridas de contra-ataque, forçando o jogo e tentando improvisar passes para os seus companheiros. Contra o Grizzlies, isso é uma cilada, Bino! O time dos ursos tem a melhor defesa de transição da NBA, vai fechar os arremessos fáceis, e vai fazer com que o Westbrook se atrapalhe todo no ataque e gere um bilhão de turnovers sem parar.

Mas o Grizzlies também não vai ter facilidade no ataque porque o Thunder tem uma das melhores defesas de garrafão da liga e a melhor marcando jogadas de isolação, ou seja, não sobra nada para fazerem com tranquilidade na quadra ofensiva. Com Perkins e Ibaka na cobertura, o garrafão ofensivo do Grizzlies vai finalmente ter um desafio de verdade simplesmente porque nenhum deles é o Matt Bonner. E se o Tony Allen já é uma das coisas mais horríveis desde a Playboy da Mara Maravilha quanto tenta bater sozinho rumo à cesta, imagina o desastre que vai ser quando ele fizer isso contra o Thunder.

Nem de longe vou apostar num resultado para a série, acho que futurologia só deveria ser permitida se você tem cabelo loiro de laquê e chama Walter Mercado. Mas aposto em algumas coisas que vão decidir a série. Durant será marcado por jogadores menores como Tony Allen e Shane Battier, e vai destruir. É normal, ele vai destruir sempre não importa o que aconteça. Mas Russell Westbrook vai cometer muitos erros, perder muito a bola, e todo o resto do Thunder vai acabar ficando completamente fora da partida. Como o ataque do Grizzlies vai sofrer um absurdo, a série vai ser decidida não por quantos pontos o Durant vai fazer, mas por quantas cagadas o Westbrook vai cometer gerando pontos fáceis pro Grizz. Grande parte do ritmo ofensivo do Thunder está nos lances livres, o time inteiro é agressivo ao atacar a cesta e sempre que as coisas estão dando errado, lá vão eles para a linha de lances livres. Essa tática pode destruir o Grizzlies se tirar Marc Gasol do jogo. Mas quanto mais agressivo o Thunder for, mais cagadas vai cometer, mais turnovers vão ser forçados.

O confronto das duas equipes na temporada regular (que o Grizzlies venceu por 3 a 1) não tem muito valor porque o Perkins não esteve em todos os jogos e ele é a alma da defesa de garrafão - lugar em que o Grizzlies marca a maior parte dos seus pontos. Mas na temporada regular, o Thunder cometeu quase 17 turnovers por jogo contra o Grizzlies, números surreais e que tornam a vida dos ursinhos tão, tão mais fácil. Aí está a chave da série, que será bem diferente do que os dois times enfrentaram até agora. O Nuggets era um time nervoso, incapaz de definir no final dos jogos, enquanto o Grizzlies é gelado e acredita realmente que pode vencer a bagaça. E o Spurs era um time cansado, com menos intensidade, força e tamanho, enquanto o Thunder é um time dez vezes maior do que o Grizzlies e tem tudo para vencer na base da força. O Thunder não pode se dar ao luxo de cozinhar o jogo devagar e virar o placar no final, porque não vão existir pontos fáceis e o Grizzlies sabe manter a compostura. Mas o Grizzlies não vai poder vencer no braço, e vai ter seu jogo de garrafão marcado por uma das melhores defesas possíveis debaixo do aro.

A série vai ser tão empolgante que eu deixo Celtics e Heat, às 16h30, como simples nota de rodapé. Essa é outra série que a temporada regular não vale pra muita coisa, porque o Celtics é um time diferente agora - muito pior sem Perkins - enquanto o Heat demorou demais para virar um time de verdade, mas engrenou. Nessa série as questões são ainda mais indefinidas e exigem a análise do que acontecerá no primeiro jogo: o Heat não tem um time definido para colocar em quadra, não sabe quem armará o jogo e nem qual é sua rotação no garrafão; o Celtics não sabe quem estará saudável, se Shaquille O'Neal se recuperará a tempo ou não. São duas das melhores defesas da NBA se enfrentando, mas o Celtics cada vez mais abandona os rebotes em nome de manter sua defesa intacta, o que pode dar uma vantagem justamente para o garrafão do Heat, que é a parte mais frágil da equipe e onde todo mundo aponta que estará a derrota da equipe. O que pode desequilibrar a série mesmo é o banco de reservas do Celtics, especialmente se os jogadores de garrafão estiverem saudáveis, porque uma hora o Heat vai ter que sentir falta de ter seres humanos na reserva, né?

Assim que essas questões estiverem respondidas, voltamos pra cá com uma análise bacanuda. Mas antes disso, ainda hoje, tem uma análise do que aconteceu com o Orlando Magic - e uma rápida passada pelas séries que começam na segunda, Hawks contra Bulls e Lakers contra Mavs. Até lá!

terça-feira, 29 de março de 2011

Um mês depois - parte 2

 Aviso para o Celtics: se você quebra o coração 
do Perkins, ele quebra a sua cara na porrada

O Danilo comentou aqui quando o Thunder fez a troca pelo Kendrick Perkins dizendo que era exatamente o que eles precisavam e que tinha tudo para dar certo. O começo, com Perkins chegando em Oklahoma machucado, não foi dos mais fáceis, mas cerca de um mês depois dá pra dizer com bastante certeza que o experimento é mais que um sucesso.

Primeiro que o risco de ter trocado o Jeff Green por nada acabou logo, depois de recusar propostas de 22 milhões de dólares por 4 anos do Celtics, Perkins rapidamente aceitou uma proposta mais generosa do Thunder, 34 milhões pelo mesmo período de tempo. Não tinha porque negar: mais dinheiro, compatível com os absurdos que pagam hoje em dia para pivôs mais ou menos (alô, Nazr Mohammed, Brendan Haywood), e numa situação perfeita, em um time jovem, talentoso e que não é só promissor para o futuro como é também uma realidade já hoje. Tomar o pé na bunda da namorada Celtics foi doloroso, mas ele foi acolhido por uma bela super modelo russa, loira, rica e ninfomaníaca.

Nos primeiros jogos após a saída de Jeff Green, o Thunder pareceu mais frágil no ataque e não muito melhor na defesa. O lado defensivo era pela ausência da sua principal contratação, Perkins estava machucado, e o ataque simplesmente parecia menos perigoso e mais previsível (ainda mais isolações para Westbrook e Durant) sem Jeff Green para tirar o peso das costas das estrelas. Mas jogo após jogo, com paciência para implantar algumas mudanças importantes, o time começou a engrenar. O boost ofensivo veio de James Harden, ele continua vindo do banco e seus minutos por jogo nem mudaram muito, assim como sua função. Mas ele mesmo disse que viu a troca como um chamado para elevar o nível do seu jogo e está dando certo, começou a pontuar melhor e está jogando com a confiança que sua barba sempre pareceu lhe dar. O Harden não é espetacular em nada, não é o melhor arremessador, driblador ou nada do tipo no seu time, mas sabe fazer pontos e nesse momento é tudo de que precisam.

Mas o que faltava mesmo para o ataque melhorar, por mais bizarro que pareça, foi a volta do Perkins. Isso liberou o Serge Ibaka para ser menos pivô e mais ala de força, e mesmo com aquele tamanho todo e as enterradas, o Ibaka machuca as defesas adversárias quando fica longe da cesta e acerta aqueles improváveis arremessos de meia distância. Não parece que todos vão cair longe da cesta? Não sei se é a mecânica de arremsso, o tamanho dele ou só má fé minha, mas sempre acho que vai amassar o aro e quem erra sou eu. Ibaka não é, ainda, Jeff Green no ataque, mas seus arremessos longos às vezes tem o mesmo efeito de obrigar a defesa a abrir e se distanciar do garrafão. Pode-se fazer uma comparação desse Thunder com a troca do Orlando Magic de Rashard Lewis por Brandon Bass. Eles ganham em tamanho, defesa, e perdem um potencial arremessador de longe, mas nos dois casos os substitutos são bons arremessadores de meia distância, o que de certa forma é um bom tapa buraco para a estratégia não mudar tanto assim. Nos dois casos deu certo.

O que tem dado mais certo para o Thunder que para o Magic é que o Serge Ibaka é muito mais defensor que o Bass. Desde que virou titular Ibaka tem médias de 9.6 pontos, 9.8 rebotes e 3.1 tocos. É um absurdo de tanto toco! E sabe o que é mais insano ainda? Que ele está com média de 4 tocos desde que o Perkins voltou para ser seu parceiro de garrafão. Ao lado do Perk ele tem ainda 10.2 pontos e 9.8 rebotes também. Em outras palavras, com o crescimento de Ibaka e Harden, o Thunder conseguiu dar conta da ausência de Jeff Green e ainda por cima melhoraram muito na defesa.

Se o Perkins é o monstro defensivo que é hoje, muito deve-se ao Kevin Garnett, um dos melhores defensores da NBA quando o assunto é só basquete e um dos melhores defensores da humanidade quando o assunto é vontade, raça e em meter medo nos outros. Em uma catástrofe nuclear em que tivessemos pouquíssimos alimentos sobrando eu deixaria o Kevin Garnett defendendo o meu pratinho de sopa dos outros esfomeados. Essa mentalidade de que defender a cesta é mais importante que defender a vida das criancinhas (delas, aliás, Garnett bebe o sangue todas as manhãs) o KG passou para o Perkins, que em poucos anos se tornou um dos defensores mais temidos da NBA, certamente o pivô que menos tem medo de usar seu tamanho e força para descer a paulada. E agora ele está passando o seu conhecimento para o Ibaka, seu pupilo em Oklahoma.

O Kevin Durant afirmou que os dois treinam juntos, que o Perk está sempre no pé do Ibaka e que durante os jogos dá pra ouvir o pivô gritando coisas como "Serge, pega esse" e o Ibaka então salta para conseguir mais um de seus zilhares de tocos. Em um jogo contra o Wizards, ao ver o Ibaka deixando uma bandeja acontecer livremente, o Perkins simplesmente correu até lá e fez uma falta dura no coitado do atacante, encarando Ibaka depois. Em outro jogo, contra o Bobcats, Perkins deu um tapinha de "bom garoto" nas costas do seu pupilo depois que o Ibaka mandou um coitado para o chão sem que ele fizesse os pontos fáceis. O Thunder, que no ano passado foi eliminado pelo Lakers porque não conseguiu conter por muito tempo o seu adversário mais alto (foi eliminado com um rebote ofensivo do Gasol no último segundo do jogo 6) e que no começo desse ano sofria para conter os pontos perto da cesta, agora tem um ala de força que dá 4 tocos por jogo e um pivô que intimidaria o Chuck Norris se ele subisse para uma bandeja. Sente o drama de pegar os dois no fim de um jogo apertado:



E sabe o mais legal? O Serge Ibaka é um pirralho que está melhorando a cada mês desde que chegou na NBA, vai saber qual é o limite dele! E o Perkins nem está completamente em forma depois de 9 meses parado pela cirurgia no joelho. Os dois já estão arrasando com tudo e podem estar só no começo. E essa babação de de ovo toda na defesa é só pra não citar que eles tem Kevin Durant e Russell Westbrook metendo 30 pontos na cabeça de todo mundo quase toda noite. Eles também não sofrem com contusões nunca e todo mundo ainda é dente-de-leite! Sério, a única coisa errada nesse time é não estar em Seattle.

Para os que odeiam modinha e sempre torcem para os times que a imprensa não abraça, uma final entre Thunder e Bulls ao invés de Lakers e Heat seria a glória. Pois pelo que estamos vendo nas últimas semanas, além de gloriosa também não seria nada absurda. Mais fácil apostar nessa final para o ano que vem ou para daqui uns dois anos, é verdade, mas é uma possibilidade perturbadoramente real para daqui apenas alguns meses.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Saco de pancada

Princípio de bagunça entre Lakers e Clippers. Destaque para o juíz 
segurando o Artest pela camisa, esse não tem medo da morte

Um dos jogos mais divertidos que assisti nos últimos tempos não foi entre Lakers e Celtics, ou entre Heat e Thunder, mas sim entre Cavs e Nets, as duas piores equipes do Leste se degladiando para manter o último fio de auto-estima. Foi um jogo disputado, brigado, sofrido - e medonho, nível "Playboy da Mara Maravilha", capaz de traumatizar pelo resto da vida. Os dois times são uma porcaria, parecia futebol feminino em aula de educação física quando todo mundo corre pra cima da bola e o lance de mais efeito é a bolada na orelha da criança que estava passando na lateral da quadra segurando um copo de refrigerante. Depois de um par de horas vendo Nets e Cavs jogar, mudar para um jogo "normal" foi como se eu passasse a ver seres sobre-humanos capazes de voar, com super-velocidade e super-força. Foi como tirar um sapato muito apertado depois de um dia inteiro de pé no trabalho, uma deliciosa surpresa ao descobrir como o basquete podia ser um esporte bonito e elegante - sem Nets e Cavs em quadra, claro. Foi tão proveitoso ver dois times tão ruins jogando que cheguei a propor no twitter um playoff ao avesso com os 4 piores times de cada conferência, em que o último colocado seria obrigado a sentar no canto usando um chapéu de burro.

A cara do Antawn Jamison, acostumado com dias melhores, conforme ia percebendo que não seria capaz sequer de vencer o Nets, foi impagável. Era o olhar de um homem deseseperado tentando encontrar rotas de fuga, uma janela mais próxima, um emprego de atendente de telemarketing, uma brecha judicial que lhe permitisse anular a troca que o tirou do Wizards na temporada passada. Enquanto isso o resto do Cavs era um bando de homens sem alma, vagando rumo ao vestiário pensando em quais legumes comprariam na quitanda na manhã seguinte e quantos anões daria para contrabandear dentro do cabelo do Varejão. Aliás, alguém verifique a legitimidade da lesão do Varejão, porque na situação dele seria muito justificável um "vou ali comprar cigarro e já volto" versão lesões da NBA, tipo o Shaquille O'Neal quando não queria mais jogar no Heat.

A lista de coisas necessárias para tirar um time dessa situação de saco de pancadas na NBA é imensa. Exige esforço dos engravatados para contratações, para boas escolhas de draft e para uma boa saúde financeira na equipe; exige esforço da equipe técnica para continuar desenvolvendo os jogadores e criar planos de jogo sérios que busquem sempre ser competitivos mesmo frente ao desastre; e exige um elenco que acredite ser capaz de sair das últimas colocações. Equipes que fedem precisam de políticas claras para o futuro. Não adianta ficar tentando remendar a equipe, tapar buracos, tentar escapar imediatamente. Tudo começa com uma reconstrução, uma renovação, se livrar dos contratos ruins, criar flexibilidade salarial. Depois, a equipe técnica precisa dar minutos para quem está nos planos da equipe, quem é essencial para o futuro, não pode se desesperar e botar pirralhos burros para mofar no banco só porque vão perder ainda mais feio sem um veterano qualquer que vai estar com reumatismo daqui alguns meses. Mas não vamos nos focar na parte admnistrativa ou técnica de reconstruções, não estou com vontade de falar mal do Detroit Pistons hoje. Vamos falar de outra coisa essencial para tirar os times da merda: os próprios jogadores. Pra isso, vamos analisar dois casos distintos hoje, mas que possuem algo em comum: o Clippers e o Thunder.

Caso 1: Los Angeles Clippers

O Clippers fingia ter alguma esperança de sucesso na temporada passada até que o Blake Griffin se contundiu ainda nas Summer Leagues e não chegou a jogar uma partida sequer da tempora regular na NBA. Pronto, temporada jogada na privada, o time parecia um circo, o Al Thornton foi banido da equipe, o Chris Kaman se contundiu duzentas vezes, e o Baron Davis gordo e desmotivado só queria encher os bolsos de grana e nunca mais ter que entrar em quadra. Mesmo com a volta do Griffin nessa temporada, o clima no Clippers era de fracasso total, o time parecia mais elenco de Big Brother do que equipe de basquete, e o começo da temporada refletiu isso: foram 5 vitórias e 21 derrotas.

O que foi necessário para que o Clippers alcançasse o atual recorde de 18 vitórias e 28 derrotas (13 vitórias e 7 derrotas desde o início mequetrefe)? Como o Denis destacou em seu texto sobre o time, Blake Griffin e Eric Gordon são espetaculares, lindos e maravilhosos, evoluem mais rápido do que Pokémon e estão jogando um absurdo. Mas já estavam jogando bem durante o começo desastroso da equipe. A real transformação foi na união e na postura da equipe com a presença de Blake Griffin em quadra.

Griffin tem um gigantesco arsenal de giros, infiltrações, ganchos e arremessos de média-distância usando a tabela, mas seu jogo é predominantemente físico, todo jogo ele pula por cima de alguém, dá uma enterrada de empolgar até a sua mãe aí, e sempre - é de lei - erra uma enterrada que seria completamente histórica se entrasse. Se não bastassem as enterradas fantásticas que ele dá, juro que vale a pena ver um jogo apenas para ver as enterradas que ele não dá, as que ele erra por pouquinho ou sofre falta no processo. E, como sabemos, enterradas não são apenas um modo de fazer cestas bem perto do aro, no imaginário americano as enterradas lidam com agressividade e humilhação do adversário. É a cesta que é feita não porque você é mais habilidoso, mas porque é mais forte, pula mais alto e tem o pênis maior, é a cesta que você impõe na base do muque, e se a enterrada é em cima de alguém, é a cesta que submete o adversário ao seu poder, é a cesta que humilha, que retira toda a honra, que desmoraliza o adversário.

Quando o Blake Griffin enterra o tempo todo em cima de adversários, ele deixa de ser apenas um novato qualquer num time horrível e sem chances de vitória e passa a ser aquele cara ousado que, mesmo sem chances de vencer, veio "aqui na minha casa e me humilhou, me fez passar vergonha". O Clippers fede, quem se importa com eles, mas os vídeos se espalham pelo YouTube e a questão da honra e do ego é central nas quadras de basquete americanas. Antes de Yao Ming ir para a NBA, por exemplo, enterradas não aconteciam na China por serem um desrespeito ao adversário. Quando Griffin enterra em alguém, não importa se o Clippers está perdendo por 50 pontos, o adversário se abala e quer vingança. Por isso, não demorou muito para que quase todas as partidas com o Clippers tivessem algum incidente em que algum mané aleatório tentasse peitar o Griffin, encher ele de porrada, ou simplesmente cometesse faltas mais feias para provar que "ele não vai enterrar assim tão fácil". O Griffin tem jeitão briguento e cara de maloca (e cabelo vermelho, o que lhe caracteriza como um cosplay do Kuwabara, do Yu-Yu Hakushô, algo que um leitor nos avisou em nosso formspring), mas nem ele pode resistir a constantes punições físicas e confrontos em todos os jogos. Até que o Clippers resolveu fazer uma reunião a portas fechadas e decidiu que todo o elenco precisava proteger o Griffin antes que ele amanhecesse com a boca cheia de formigas. Tudo bem que o time fosse uma merda, mas se eles tinham um jogador tão bom apanhando e sendo constantemente ameaçado em quadra, o mínimo que eles poderiam fazer seria protegê-lo, cercá-lo quando ele fosse derrubado no chão, partindo pra cima de quem lhe fizer uma falta mais grave, pressionando os juízes em marcações contrárias a ele.

O resultado dessa união para proteger Griffin de apanhar dos coleguinhas se converteu em vitórias dentro da quadra, no maior estilo "Os nerds contra-atacam". Criou união no grupo, orgulho, vontade de enfrentar os adversários, gente pulando no pescoço do Lamar Odom porque ele deu um empurrão no Griffin após uma jogada mais competitiva no final do jogo. E aí o Clippers passou a ser um time que faz jogadas mais competitivas no final do jogo porque sabe que o resto do elenco estará lá para proteger, apoiar e descer o sarrafo se der pancadaria. Baron Davis admitiu que foi isso que motivou o grupo, defender Blake Griffin dos seus agressores, e olha que o Baron Davis não se motiva por nada nesse mundo. O Clippers depende imensamente do talento do Baron Davis, pena que ele não seja lá muito interessado nesse tal de basquete. Mas agora é.

Nada une tanto um grupo quanto hostilidade do mundo exterior. Já comentei aqui que o momento que finalmente transformou o atual Miami Heat em um time foi a primeira partida dessa temporada em Cleveland, em que todo o elenco teve que estufar o peito e defender LeBron de uma quantidade absurda de hostilidade irracional. Desde então, o time está transformado. Isso me lembra uma vez que fui escrever um texto sobre o movimento "emo" em seu começo no Brasil, entrevistei um monte de gente, e eles não tinham nada em comum - ideologia, gosto musical, opiniões sobre a vida, choradeira, nada - a não ser a hostilidade que recebiam pelo modo com que se vestiam. Durante as entrevistas um monte de gente passava e xingava os emos só por esporte, e a maioria - que nem se considerava emo, no fim das contas - acabava abraçando a identidade do grupo apenas para se defender desse tipo de coisa.

Alguns jogadores são fodões mas são calados, moderados, até bobões, às vezes. A reação do elenco para proteger esses jogadores é diferente, o Houston se uniu para defender o Yao Ming de ser tão hostilizado por ser um banana, mas o Kings não estufou o peito para fazer nada com o castigo físico sofrido pelo Tyreke Evans porque ele tem a cara eterna de "nada" que é característica do Duncan e não responde com agressividade a coisa alguma. No caso de jogadores agressivos, físicos, a resposta dos companheiros tende a ser mais passional, mais agressiva. Jogadores assim podem incendiar equipes, motivar caras como o Baron Davis, e retirar repentinamente a postura derrotista de uma equipe acostumada a ser saco de pancada. Às vezes, jogadores espetaculares com personalidades diferentes acabam sendo menos efetivos na tentativa de transformar uma franquia justamente por isso. Caras como Blake Griffin e sua capacidade de retirar a honra dos adversários e apanhar por isso são perfeitos para unir equipes rapidamente.

Caso 2: Oklahoma City Thunder

O Thunder era um time novo demais, recheado de jogadores jovens e com potencial. Mas Durant, Jeff Green e Russell Westbrook são bons moços, daqueles que a garota tem orgulho de levar pra casa e mostrar pra mãe. Nenhum deles é famoso por enterrar na cabeça de ninguém, pular até a lua, arrancar o coração de um defensor e beber seu sangue em um cálice de cristal. A melhora do Thunder não foi graças à união do grupo, à tentativa de defender Durant dos violentos jogadores adversários, à motivação de estar jogando ao lado de um jogador passional e agressivo. Durant e Westbrook simplesmente ficaram muito bons.

Esse, aliás, é o motivo de que mesmo vencendo jogos e com o Durant liderando a NBA em pontos temporada passada, ainda assim ninguém levava o Thunder muito a sério. Nunca foram um grupo coeso, unido, agressivo ou orgulhoso, daqueles que bate no peito e berra "não perderemos aqui hoje, não na minha casa!". As vitórias de Durant e seus amigos sempre foram recebidas com a estranheza de quem acha que deveria feder mas não fede, aquela surpresa estranha que se aceita rápido antes que percebam que você não merecia. Esse grupo de jogadores só se tornou realmente perigoso quando, após alguns jogos de sorte e atuações friamente espetaculares, começou a perceber que dava para vencer o Lakers em pleno playoff da NBA.

Essa é minha teoria para uma questão que me intriga e está levando vários analistas da NBA à loucura: por que diabos o Thunder quase venceu o Lakers graças a uma defesa por zona fantástica e sufocante nos playoffs e agora tem uma defesa furada - aliás, a defesa que mais involuiu numericamente da temporada passada para cá? Provavelmente aquela defesa não era fruto de treino, tática apurada e união dentro de quadra, era fruto da paixão e desespero de um time que nunca acreditou que poderia ganhar nada e de repente estava diante do Lakers sonhando com a chance de derrotá-lo nos playoffs. Depois daquilo, com a consciência plena de que eles são um dos melhores times do Oeste, não era mais possível tamanha intensidade defensiva, tamanho desespero. Eles sabem que Durant e Westbrook são dois dos melhores jogadores da NBA, podem vencer jogos sozinhos, e pelo jeito isso basta.

Com o Clippers, o time inteiro foi transformado pela intensidade de Blake Griffin e o time responde com igual intensidade para protegê-lo. Com o Thunder, a melhora de dois jogadores levou o time a patamares inesperados, mas a união só veio na compreensão de que poderiam vencer mesmo os maiores times. Entretanto, sem a intensidade de alguém com sangue nos olhos cansado de ser saco de pancada, uma das mais impressionantes defesas da NBA já esmoreceu rapidinho.

É evidente que a melhora de qualquer equipe saco de pancada da NBA está em grande parte nas mãos dos próprios jogadores e da evolução de cada um deles, mas prestamos pouca atenção no papel que a postura ou a personalidade dos jogadores tem nisso. O Thunder, como sabemos, precisa de um bom pivô, mas não tanto quanto precisa de um jogador defensivo apaixonado, vocal e intenso do tipo que exige esforço dos próprios companheiros. É esse tipo de qualidade que Kevin Garnett traz para suas equipes, a certeza de que nenhuma derrota virá sem intensidade, cobrança e esforço mesmo se o time for uma droga como foram muitos dos elencos que o Garnett teve no Wolves. É esse tipo de qualidade que Griffin traz para o Clippers além de seus giros, trabalho de pernas e enterradas, é isso que motiva até um carinha "bleh" como o Baron Davis. É disso que o Thunder precisa, mas seu caminho de evolução foi para outro lado, silencioso, comedido - e muito talentoso. O meu único medo é que o projeto do Thunder acabe seguindo o caminho do Blazers, que sem nada para unír seus jogadores jovens e talentosos além da simples surpresa de estarem vencendo quando não deveriam, ameaça desmoronar o tempo todo. Mas o Blazers é assunto para outro post, claro.

sábado, 20 de novembro de 2010

Quase lá (Quase!)

Essas crianças...

No preview que fizemos do Oklahoma City Thunder alertamos sobre a maldição do técnico do ano. Sempre quem ganha o prêmio é demitido pouco tempo depois. Os fantasmas já começaram a assustar nas primeiras semanas da temporada quando o Thunder, candidato de muita gente a ser Top 3 no Oeste, não parecia empolgar tanto assim. Nos primeiros 9 jogos foram 5 vitórias e 4 derrotas, entre esses jogos alguns resultados bem desanimadores: Ganharam do Detroit Pistons só com uma cesta no último segundo, foram o único time a conseguir perder para o Clippers até agora, tiveram derrotas elásticas para Spurs e Jazz e sofreram mais do que um time de elite deveria para passar pelo Sixers.

A primeira questão que me passou pela cabeça foi se estávamos analisando o real Oklahoma City Thunder, aquele que se classificou em oitavo no ano passado e praticamente não mudou o time para esse ano, ou o Thunder que a gente esperava ver nesse ano. Precisamos separar as nossas expectativas e ver o que é uma piora do time em relação ao time do ano passado e o que é simplesmente coisa da nossa cabeça. Afinal, um dos grandes motivos de demissão de técnicos após o prêmio de melhor do ano é a expectativa de crescimento. Geralmente o vencedor leva o maior número de votos por fazer muito com um time limitado e depois não é capaz de ir além desse limite.

Uma coisa que parece ter atingido o seu limite é o ataque do Thunder. Desde a temporada passada eles são muito limitados na criação das jogadas. As variações são:
1. Isolar o Kevin Durant e deixar ele fazer o que quiser.
2. Deixar o Russell Westbrook segurando a bola até o Durant conseguir espaço para o arremesso
3. Infiltração do Westbrook
4. Alguém fica livre para arremessar depois que o outro time descobre que só precisa marcar dois jogadores

Não que dê exatamente errado. Foi assim que tiveram o 12º melhor ataque da temporada passada e tem o 6º melhor nesse ano, com a dupla Durant/Westbrook sendo a que mais pontua na NBA, à frente de outras potências como Ellis/Curry, Kobe/Gasol e LeBron/Wade. O problema está na previsibilidade e no problema que uma contusão poderia causar. Imagina se o Durant se machuca? Pois bem, ele se machucou e ontem eles pegaram o Celtics fora de casa, parecia uma derrota certa. Até Jeff Green, o terceiro cestinha do time com impressionantes 18 pontos por jogo, está machucado. Mas bizarramente venceram. Foi um jogo estranho: no primeiro tempo eles jogaram pela primeira vez como um time, envolvendo todos os outros jogadores e até executando jogadas. Mas no segundo tempo voltaram ao seu normal e só derrotaram os verdes porque estes fizeram o seu pior jogo no ano, conseguiram perder mesmo com o Thunder não fazendo nenhuma cesta nos últimos 9 minutos de jogo! Foram 9 longos minutos assistindo o Westbrook forçar arremessos que até o JR Smith perceberia que são idiotas. Eram 23 segundos batendo bola no meio da quadra esperando o nada acontecer. Infelizmente esse quarto período estático é mais comum do que o primeiro tempo inspirado e coletivo.

Não esqueçamos de algumas culpas individuais também: James Harden, terceira escolha no Draft do ano passado, teve um ano de novato bem discreto mas eficiente, já nesse ano, ao invés de melhorar, despencou de qualidade. Não tem acertado as suas bolas de longe e é inseguro e afobado nas infiltrações. Não é o desafogo ofensivo do banco de reservas que o técnico Scott Brooks esperava e ontem, na primeira vez que foi titular na carreira, teve uma atuação horrível.

O grande trunfo deles para conseguir ter um ataque tão bom mesmo com um sistema tão pobre tem sido os lances livres. Eles cobram 31 lances livres por jogo, lideram a NBA nesse aspecto e, o mais surpreendente, lideram também em aproveitamento de lances livres, com 87,6%! Sério, eu nunca vi um time acertar tanto na minha vida! O recorde da história da NBA é 83% pelo Celtics de 1989-90. Ontem foi esse o segredo para bater o Celtics, cobraram 32 lances livres, acertaram 27 e só daí tiraram seus pontos na segunda metade do terceiro quarto e no decisivo último período. O time inteiro é agressivo e procura o contato, coloca os adversários em problemas de falta logo e todo mundo, do armador ao pivô, tem bom aproveitamento. A velha teoria do "faça faltas, não dê bandejas de graça e faça eles merecerem os pontos no lance livre" que tanto treinador e comentarista por aí prega não funciona direito contra o Thunder.

Uma grata surpresa no ataque do Thunder tem sido o Air Congo, o ala de força Serge Ibaka. Ele foi draftado há dois anos, passou uma temporada na Europa por ser ainda muito cru para a NBA e no ano passado entrou para a NBA. Rendia bem nos poucos minutos que atuava mas ainda era fim de banco, se destacou na série de playoff contra o Lakers e nesse ano ganhou uma chance de ouro quando seus dois concorrentes por minutos, Jeff Green e Nick Collison, se machucaram. Como titular tem tido médias de 13 pontos, 8,5 rebotes e 2,7 tocos por jogo! A média geral dele de tocos, contando os jogos como reserva, é de 2,4, o que o coloca em sétimo lugar em toda a NBA, na frente de caras como Emeka Okafor e Tim Duncan.

Antes de entrar na NBA comparavam o Ibaka com o lendário Shawn Kemp. A comparação era, acima de tudo, pelas enterradas. E abaixo está um ótimo exemplo.



Essa impulsão e abertura de pernas não lembra muito a famosa "Lister Blister", a primeira enterrada do insano vídeo abaixo do Kemp? (Ela é, diga-se de passagem, a minha enterrada favorita em todos os tempos)



Mas mesmo com as enterradas sendo a parte mais empolgante do seu jogo, Ibaka ganhou seus minutos em quadra com seus tocos e seus arremessos de meia distância. O pivô Nenad Krstic só é titular porque dá essa opção de arremesso, mesmo sendo inútil no resto do jogo, imagina como foi a grata surpresa de todos ao ver que esse cara que todo mundo só via como uma máquina de enterrar desenvolveu um toque suave para arremessos também. São impressionantes 67% de aproveitamento em bolas longas de 2, muito acima dos 39% do ano passado. Ele ainda acerta 57% dos arremessos curtos e 73% (contra 61% do ano passado) das finalizações no aro. É o jogador perfeito para sobrar livre e arremessar depois dos ataques de Westbrook e Durant, ontem o Celtics pagou um preço caro por deixá-lo arremessar quando bem entendesse.

Dá pra dizer com alguma certeza que a presença do Ibaka no time titular e a calma do time em decidir jogos mesmo quando estão jogando mal é a razão para eles estarem com 8 vitórias e 4 derrotas. Estranho e impressionante um time tão jovem ter essa qualidade de vencer mesmo quando não está jogando o seu melhor basquete.

O problema do Thunder que não é herança do ano passado é a defesa. Na temporada passada foram a 9ª mais eficiente da NBA, mas depois desses primeiros 12 jogos são a 6ª pior! Eu cheguei a achar que o ataque muito precipitado e mal armado pudesse proporcionar muitas chances de contra-ataque, mas não é isso, eles são um dos melhores times da NBA em evitar pontos assim. Em compensação são o 5º pior time em ceder pontos dentro do garrafão. A presença de Serge Ibaka no lugar de Jeff Green ajudou a melhorar essa situação, mas ainda é muito confortável para os adversários atacar Nenad Krstic, sem contar que Ibaka às vezes é meio Marcus Camby, imperssiona nos tocos mas nem sempre se posiciona no lugar certo e sua afobação por conseguir o próximo bloqueio às vezes só atrapalha.

O Thunder é o terceiro time que mais toma pontos em cestas de dois pontos e o quinto que menos toma cestas de três. Essa disparidade tem duas razões: Westbrook e Thabo Sefolosha, os melhores defensores da equipe, jogam no perímetro. E depois porque quando se tem espaço no garrafão o natural é até tentar menos cestas de três e ganhar os pontos lá dentro, é contra o Thunder que os times menos tentam arremessos de longe, 14 tentativas de bolas de 3 por jogo. Não coloco Durant na lista dos bons defensores do time porque acho que ele não tem feito um bom trabalho nesse ano, tem um número que mostra como o time defende melhor sem o KD e de como mesmo assim ele é indispensável: Com ele em quadra o Thunder toma 18 pontos a mais a cada 100 posses de bola se comparado com as outras formações que tem o Durant no banco. Em compensação quando ele joga o time faz 27 pontos a mais no ataque. É uma senhora compensação.

Um dos jogadores que fazia a diferença no ano passado no setor defensivo e que fez falta até agora foi o Nick Collison. Ele faz, pelo menos na minha opinião, junto com Anderson Varejão e Glen Davis, a trinca de melhores cavadores de falta de ataque da NBA. Eles estão sempre no lugar certo na hora certa para tomar a trombada, em um time que sofre com tantas infiltrações ele é essencial. Sem contar que tem o QI defensivo que o Ibaka ainda está longe de encontrar.

Para o Oklahoma City Thunder se tornar a potência do Oeste que a gente sonhava antes da temporada começar, algumas coisas tem que mudar. A primeira é a defesa, que não pode ser tão fraca, isso é o ponto central. E a segunda é o próprio elenco. O Jeff Green é um jogador versátil e muito bom, mas completamente dispensável nesse time. Ele é bom demais para ser um reserva com poucos minutos, sua presença como ala de força só atrai mais ataque ao garrafão e mina os minutos do promissor Ibaka. Na posição três já tem Durant. Deveriam aproveitar que o Green é muito bom e simplesmente trocá-lo. Eles podem muito bem usar esse ótimo talento como isca para buscar mais arremessadores de três e uma presença defensiva no garrafão, talvez até um cara com mais experiência.

O Nuggets está cada vez mais próximo de trocar o Carmelo Anthony, mas o Melo quer ir para Nova York e uma troca direta com eles não vai acontecer, eles estão apenas procurando um terceiro time para fechar a conta. Como o Denver quer um cara para repôr Melo, que tal Jeff Green? Jovem, talentoso, pode fazer 20 pontos por jogo numa boa. Aí era só caçar algum jogador de garrafão no Nuggets e/ou no Knicks para fortalecer a defesa do Thunder. É só uma idéia no ar, mas o Thunder pode estar a um bom defensor de garrafão da elite em que a gente imaginava que eles já estavam.

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Curiosidade tola: Lembram que o Dikembe Mutombo, o congolês mais famoso da história da NBA, tinha um nome gigantesco? Era Dikembe Mutombo Mpolondo Mukamba Jean-Jacques Wamutombo. O seu compatriota Ibaka não fica muito longe, seu nome completo é Sergeballu LaMu Sayonga Loom Walahas Jonas Hugo Ibaka. Transborda de tanta força nominal! Arrasa lá, Hugão!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Oklahoma City Thunder

O uniforme mais feio da NBA




Objetivo máximo: Passar da primeira fase dos playoffs e se consolidar como força do Oeste
Não seria estranho: Passar da primeira fase dos playoffs e se consolidar como força do Oeste
Desastre: Dar uma de Hornets e começar a regredir

Forças: Time veloz e liderado pelo jogador mais jovem a ser cestinha de uma temporada da NBA
Fraquezas: O garrafão ainda é movido mais por vontade do que talento

Elenco:








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Técnico: Scott Brooks

O Scott Brooks é o atual detentor do troféu de técnico do ano, o que parece ser uma coisa ótima, mas na verdade tem virado uma maldição. Vejam o que aconteceu com os últimos vencedores:

2005-06: Avery Johnson, Dallas Mavericks (mandado embora em 2008)
2006-07: Sam Mitchell, Toronto Raptors (mandado embora em 2008)
2007-08: Byron Scott, New Orleans Hornets (mandado embora em 2009)
2008-09: Mike Brown, Cleveland Cavaliers (mandado embora em 2010)
2009-10: Scott Brooks, OKC Thunder (será?)

E isso já aconteceu outras vezes no final dos anos 80 e começo dos 90, é bem comum. Uma explicação pode ser dada pelos critérios de votação para o prêmio. Muitas vezes quem vota acaba escolhendo o técnico que fez mais coisas com menos material, ao invés de simplesmente votar no melhor treinador. O melhor exemplo é o Byron Scott em 2007-08. Fez um Hornets bem mais ou menos render mais do que o esperado, levou o troféu pra casa e no ano seguinte todo mundo estava esperando pra ver eles brigarem pelo título. Mas ao invés disso o time caiu na realidade do seu elenco limitado e piorou em relação ao ano anterior, aí mandaram o cara embora basicamente baseados nas expectativas que tinham e não em seu trabalho.

Mesma coisa com o Sam Mitchell e bem parecida com a do Avery Johnson. Com o Scott Brooks não sabemos, mas o começo da história é o mesmo. Ele pegou um time bem jovem, que as pessoas achavam que ia começar a render daqui uns três anos, e de repente tudo começou a dar certo. Ele montou uma defesa forte, baseada na velocidade e juventude dos seus jogadores, compensou a falta de altura da equipe desse modo e no ataque contou com a dupla devastadora Russell Westbrook e Kevin Durant. Aí foram 50 vitórias, aperto no Lakers durante os playoffs e hoje está todo mundo acreditando que o time vai ser uma das forças da conferência na próxima década.

Eu também acredito nisso, não vou mentir, mas é uma baita armadilha. É só aparecer uma contusão, alguns times tirando proveito dos defeitos que o time ainda tem e é bem capaz que eles façam uma campanha ou igual ou levemente pior que a do ano passado. E aí vemos se quem vence é a paciência da diretoria do Thunder ou maldição do técnico do ano.

Só para não ficar faltando uma pequena biografia: Scott Brooks é pirralho para um técnico, tem 45 anos, e jogou 9 temporadas na NBA. Como assistente técnico trabalhou com o George Karl no Nuggets e depois foi para o Thunder ajudar PJ Carlesimo. O veterano foi um desastre sem tamanho e resolveram dar uma chance para o assistente, que fez sucesso como interino e assumiu a equipe no meio da temporada 2008-09, sendo efetivado ao fim daquela temporada. No dia seguinte da garantia do emprego, o Thunder conseguiu uma das maiores vitórias da sua história (que, infelizmente, é a mesma do Sonics) ao bater o sempre perdedor Clippers por 126 a 85.

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Quando o Thunder deu o maior sufoco no Lakers nos playoffs passados tendo que compensar a falta de tamanho, todo mundo imaginou que eles estivessem a apenas um pivô fodão de distância de alcançar o topo do Oeste. O problema era encontrar ao fim da temporada um pivô relativamente barato que pudesse correr com a pirralhada, fosse bom defensor e não demandasse muito a bola, para manter o estilo de jogo focado na rotação de bola no perímetro. É nessas horas que um time com espaço salarial moderado e que não espera conseguir grandes estrelas pode conseguir as melhores barganhas: se aproveitando da urgência do Hornets por pagar menores salários e manter menos contratos, o Thunder fez uma troca no dia do draft pelo pivô Cole Aldrich - e veio de brinde o Morris Peterson, que não joga nada faz uns 10 anos mas que um dia, um dia, já foi um excelente arremessador de três pontos.

Na temporada passada, o Thunder já tinha usado esse espaço salarial sobrando para conseguir o Eric Maynor do Jazz a troco de nada, simplesmente porque o time de Utah precisava economizar umas verdinhas, e o armador tem tudo para ser muito bom. Daequan Cook, que também é um ótimo arremessador, veio de graça nessa temporada porque o Heat queria se livrar de todo mundo que pudesse para ter espaço para Wade, LeBron e Bosh. Ou seja, os engravatados do Thunder são espertos e oportunistas, mas não ficam adicionando qualquer jogador aleatório que dê sopa por aí. Todas as aquisições foram para tapar buracos que ficaram óbvios quando o Thunder alcançou a pós-temporada. O perímetro da equipe é paciente e sabe rodar a bola, mas faltavam arremessadores na equipe. Kevin Durant não liga de ter que segurar as pontas no ataque, mas a falta de bons arremessadores nos espaços criados por Durant machucam a equipe sempre. Na defesa, o Thunder sabe dobrar com frequência e tem pulmão para cobrir quem ficar livre, mas faltava alguém para segurar as coisas embaixo do aro, já que Nenad Krstic só se vira mesmo é no ataque. Cole Aldrich pode tapar esse buraco, mas acho que não agora. Teve dificuldades na pré-temporada com excesso de faltas, e embora já consiga acompanhar o time na correria e no ritmo de jogo, vai levar muito tempo para conseguir acompanhar os pivôs adversários em peso e força.

Apesar de serem jogadores menos conhecidos e ninguém ter talento para revolucionar a equipe, ao menos todas as limitações foram abordadas. Se não der certo, ou se demorar para funcionar, pelo menos tentaram usando um espaço salarial bastante limitado, realmente tiraram água de pedra. Até porque dava para manter o mesmo time, sem lidar com nenhuma das limitações, e ainda assim esperar uma melhora da equipe. Russell Westbrook, por exemplo, acabou de ser campeão mundial com os Estados Unidos e, como qualquer mamífero bípede que vai jogar nas regras da FIBA, voltou sabendo arremessar. O cara não voltou nenhum Reggie Miller, mas criou um arremesso consistente de média distância sem nunca parar com as infiltrações e as jogadas individuais, e esse simples arremesso vai deixar as defesas da NBA completamente birutas. Se na temporada passada ele lembrava o Rajon Rondo quando as defesas lhe deixavam livre, agora vai ter que ser marcado de perto pelo menos toda vez que der um passo à frente da linha de três. Do mesmo modo, Durant voltou ainda mais completo de sua passagem pela seleção, sabendo jogar mais dentro do garrafão, e sua evolução constante parece coisa de Pokémon. Jeff Green também deu uma passadinha pela seleção, melhorou seus arremessos de três e se mostra cada vez melhor nos rebotes. Nenad Krstic passou pela seleção da Sérvia no Mundial e parece cada vez mais disposto a chamar a responsabilidade ofensiva no garrafão. James Harden agora é um arremessador perigoso, não apenas um defensor esforçado, e Thabo Sefolosha caminha temporada após temporada para ser o melhor defensor da NBA. Ou seja, todo mundo na equipe passou as férias inteiras jogando, são jovens e melhoram constantemente, e o rendimento da equipe deve aumentar por si só.

O problema é que na temporada passada o time já conseguiu muito mais do que devia, então a melhora dos talentos individuais da equipe não necessariamente irá corresponder a mais vitórias. As falhas da equipe, tão expostas na série contra o Lakers, podem ser melhor exploradas pelos adversários durante a temporada regular. E agora o time conhece, pela primeira vez, o que é a pressão de ter que vencer, de ter que se classificar bem para os playoffs, de ter que vencer uma série na pós-temporada. Como a pirralhada vai lidar com isso, especialmente se passarem a vencer menos partidas apesar de estarem jogando melhor, é o que vai definir o sucesso do time nos próximos anos - e do técnico Scott Brooks. Também estou preocupado com o condicionamento do elenco sendo que tantos jogadores participaram do Mundial desse ano e treinaram sem parar: será que terão o mesmo pique para manter a correria ordenada que fez tanto sucesso na temporada passada? De todo modo, acompanharemos de perto agora que Durant não é apenas um segredo para os felizardos que espiavam no League Pass, todo mundo quer ver o garoto - que merece mesmo toda nossa atenção - e a cobertura em cima dele será brutal. Será que vira estrelinha?