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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O campeão dançou


O Tyson Chandler tem uma mão esquerda que flutua sozinha

Assim que o Tyson Chandler foi para o Knicks por um contrato de 14 milhões por ano, coisa de estrela, comparei seu caso com o de Kendrick Perkins no Celtics: o valor pago não é tanto para aquilo que o jogador pode fazer de verdade, mas por aquilo que ele representa, para a importância que pode ter na transformação de uma equipe. A saída de Perkins de Boston simbolizou o fim de uma família, de uma mentalidade, e a equipe perdeu uma âncora defensiva que antes de sua saída nem sequer tínhamos certeza de que existia. A chegada de Perkins no Thunder (e do Tony Allen no Grizzlies) foi como a chegada simbólica de uma nova atitude. Ambos instituíram em suas equipes um regime de reuniões de vestiário, de implicação de responsabilidades, e de ajuda mútua constante. Quando o Knicks suou as pitangas para conseguir Chandler, era isso que julgava estar adquirindo.

O lado do Knicks foi amplamente analisado por aqui. Eu só não imaginava que, assim como o Celtics sentiu a saída do Perkins, o Mavs sentiria a saída do Chandler. Então é hora de analisar o lado dos atuais campeões, até agora incapazes de conseguir uma vitória na temporada sem o seu antigo pivô no elenco.

Antes de mais nada, é importante lembrar que o Mavs não foi uma dessas super-equipes montadas de repente para disputar o título e que se sagrou campeã só porque conseguiu gastar mais grana do que as outras. A grana a ser gasta sempre esteve aí, desde que o bilionário nerd Mark Cuban assumiu a franquia, mas o elenco tem sido montado há uma década com resultados diversos. Às vezes, o excesso de grana até atrapalha um pouco: houveram tempos em que qualquer jogador bom dando sopa recebia um contrato do Mavs, que acabava adicionando peças bastante aleatórias e tinha que se virar para dar minutos para todo mundo. Adições de uma temporada para a outra nunca faltaram, aparecem às dúzias, mas não é sempre que elas aparecem com algum critério, tentando assumidamente arrumar algum buraco da equipe. Antes da temporada passada começar o Mavs tinha a consciência de que precisava de um pivô defensivo para segurar as pontas, e aí - porque o dinheiro não falta - acabou adicionando tanto o Brandon Haywood quanto o Tyson Chandler. O Haywood se mostrou um quebra-galho, mas o Chandler acabou por tornar real algo que a franquia sabia possível mas não sabia como executar: uma defesa matadora.

O DNA do Mavs está ligado ao pai bizarro Don Nelson, então é uma equipe em que o primeiro instinto é de jogar na  velocidade, no contra-ataque e abusar dos arremessos do perímetro. Só com a defesa instituída pelo técnico Avery Johnson, no entanto, o jogo ofensivo de velocidade adquiriu consistência. Times como os do Don Nelson ou do Mike D'Antoni abusam da velocidade em todas as situações, repondo a bola o mais rápido possível, correndo para o ataque e tentando pegar os adversários com a defesa desprevenida ou desorganizada. É comum que, impondo esse ritmo de jogo, eventualmente um armador esteja sendo marcado por um pivô, e com decisões rápidas no ataque é possível se aproveitar desses deslizes. O problema é que trabalhar em tanta velocidade aumenta o número de erros, de desperdícios de bola, de arremessos forçados, e ainda cansa os jogadores fisicamente. É complicado manter esse ritmo no ataque e ainda ter disposição física para defender, e quando forçados a jogar em meia-quadra por equipes que conseguem diminuir a velocidade do jogo, essas equipes não sabem como pontuar e acabam se baseando apenas em jogadas forçadas do perímetro. Os times do Don Nelson sempre foram pragueados por decisões ruins tomadas especialmente nos momentos cruciais das partidas, quando é importante saber diminuir o ritmo e ter uma bola de segurança. Já as equipes do Mike D'Antoni, que tomavam boas decisões porque contavam com o Steve Nash, sempre tiveram problemas contra as equipes como o Spurs, que impõe um ritmo mais lento de jogo e forçam os adversários a ter que trabalhar uma jogada.

O Mavs, então, nunca foi um desses times que rouba a bola na defesa e se aproveita do contra-ataque. A correria independia da defesa, era constante, e no caso do Mavs sempre terminou em bolas rápidas de 3 pontos. Quando Avery Johnson melhorou a defesa da equipe, começou uma tímida cultura de contra-ataques, mas ainda assim sempre houve muita dificuldade em jogar sem ser na velocidade. Em geral, quando forçado a jogar na meia-quadra, o Mavs sempre usou jogadas simples de isolação, quase sempre com o Nowitzki. É por isso que o Jason Kidd teve tanta dificuldade em se encaixar no Mavs: sem uma defesa capaz de gerar contra-ataques constantes, como aqueles em que estava acostumado nos tempos de Nets, grande parte da sua função era apenas passar a bola para o lado até que alguém fosse isolado. Definitivamente não era a melhor maneira de usar suas habilidades.

Nowitzki é o jogador perfeito para um basquete lento, cadenciado, mas incapaz de defender de maneira sólida; Jason Kidd  é perfeito para um basquete de velocidade, focado nos contra-ataques, e que depende de uma defesa feroz que cause erros do adversário. O Mavs nunca foi um time que se encaixa muito bem, como podemos ver, as peças sempre chegaram aleatoriamente e o Kidd não foi exceção, mas jogadores talentosos sempre dão um jeito de funcionar juntos.

Tyson Chandler foi mais uma peça aleatória, mas sua capacidade atlética no garrafão e sua mentalidade defensiva permitiu que o Mavs se concentrasse na defesa do perímetro, afunilando os adversários para o miolo do garrafão, onde o Chandler cuidava do resto. De repente o Mavs tinha um plano defensivo eficiente contra todas as equipes, os jogadores adversários passaram a ter medo de infiltrar no garrafão, e até o Kobe fez xixi nas calças e passou uma série inteira dos playoffs arremessando do meio da quadra pra não ter que se aproximar do aro. O Mavs se tornou um time orgulhoso defensivamente, solícito, forte, e que viu seu ataque em velocidade ser finalmente eficiente de verdade. Com mais rebotes, mais tocos, mais erros forçados, o Mavs conseguia impor mais correria, encaixar mais bolas de 3 pontos e não ter que depender tanto das jogadas de isolação. Aquilo que a equipe procurou desde o primeiro segundo em que o Don Nelson foi mandado embora só se consolidou com a chegada do Chandler, e aí o time foi campeão. Grana pra burro, dá pra contratar todo mundo do planeta, mas a coisa só funciona de verdade quando um plano de quase uma década ganha de repente as peças certas, e quando aquela semente do Don Nelson pode ser usada em toda sua potência com uma defesa que a permitiu florescer.

É uma história linda, pode virar filme com o Selton Mello ou novela do SBT, mas pelo jeito o Mark Cuban não entendeu muito bem a situação. Parece ter considerado que suas adições aleatórias à equipe podem continuar, que quem for embora pode ser substituído por outros jogadores aleatórios que estiverem disponíveis. Não percebe como a caminhada do Mavs ao título não foi por causa da grana, mas sim um longo processo até que os jogadores certos tornassem possível o plano tático certo. Deixando Tyson Chandler sair e trazendo outros caras nada a ver, como o Vince Carter, todo aquele longo processo foi para o saco.

Eu nem tenho nada contra o Vince Carter, pelo contrário. Acho o Carter um exemplo de jogador que foi capaz de se reinventar quando tantos outros, supostamente mais talentosos, não conseguiram. Todo mundo deve se lembrar daquela anedota do Carter nos tempos de Raptors, enfrentando o Celtics. Puto da vida querendo ser trocado, insatisfeito com seu time, Carter perdia o jogo por apenas um ponto com um par de segundos sobrando no cronômetro e pediu um tempo técnico para que sua equipe montasse uma jogada. Ao voltar do tempo técnico, o Carter passou na frente do banco do Celtics e falou algumas palavras. Diz a lenda que aquelas palavras eram exatamente qual jogada o Raptors iria fazer naquele arremesso final, o Celtics então defendeu aquela jogada como se soubesse o que iria acontecer e o Raptors perdeu o jogo. A anedota queimou o Carter feio, ficou conhecido como jogador vendido, marrento, estrelinha e causador da fome na África. Quando foi para o Nets jogar com Jason Kidd, deu uma caralhada de arremessos imbecis no final dos jogos, querendo ganhar tudo sozinho. Mas os poucos foi se acalmando, entendendo seu papel na equipe, e quando o Nets resolveu mandar todo mundo embora para se reconstruir, o Carter acabou sobrando por lá. Nem por um segundo reclamou de nada, não pediu para ser liberado ou trocado, não reclamou de passar longos períodos no banco de reservas para que os novatos da equipe jogassem, e o mais importante: não dedou mais nenhuma jogada nos segundos finais. Pelo contrário, todas as notícias vindas de New Jersey dizem que Carter tornou-se um líder no vestiário, ajudava os novatos, passou a obedecer o polêmico esquema tático (que era medonho, admito) e liderava pelo exemplo. Vince Carter ainda está na NBA, mesmo velho e muito longe do potencial que um dia teve, quando era uma das grandes estrelas da liga. Enquanto isso, companheiros da sua época como Marbury, Steve Francis e Allen Iverson, todos tão bons ou melhores do que ele, viraram farofa porque foram incapazes de mudar suas imagens perante a liga. O Carter é bom moço, maduro, focado e tem um emprego. Como isso aconteceu eu não sei, mas é mérito total dele numa época que expurgou como câncer todos os jogadores que ousavam querer brilhar mais do que os outros.

Mas esse Carter, por mais bacana que tenha se tornado, não traz nada de que o Mavs precise. No máximo o Mark Cuban deveria sair com o Carter para tomar um suco e comer um sanduíche, não precisa contratar o sujeito. Muitos dizem que o Carter é tão amaldiçoado quanto o Clippers, e que nenhum time em que ele pise jamais conseguirá ser campeão. Mesmo se não for o caso e o Carter não tiver sido amaldiçoado pelo Valdemort, ainda assim não é uma aquisição que supra os buracos que o Mavs enfrenta. Falta à equipe um pivô à altura do Chandler, capaz de intimidar a infiltração dos adversários, e falta também um jogador capaz de segurar a bola e costurar a defesa agora que JJ Barea escafedeu-se. O JJ Barea não é nenhum gênio, aliás sempre desconfiei que ele jogava melhor justamente nas vezes em que esquecia o cérebro na geladeira de casa, então é fácil substituí-lo - o próprio Roddy Beaubois, que volta de lesão, tem tudo para cumprir bem esse papel descerebrado. Mas sabe quem não tem condições de ficar costurando defesas e atacando a cesta? Vince Carter e seus joelhos de farinha. No máximo será um arremessador de luxo na equipe, algo que o Mavs já tem aos montes.

Mesmo a aquisição do Lamar Odom, que foi praticamente de graça depois que a troca do Lakers com o Hornets foi anulada, simplesmente não funciona - e por vários motivos. Primeiro, o Lamar Odom tem sérias dificuldades em se focar em quadra. Quando está concentrado e motivado, ele é um dos jogadores mais completos da NBA e um perigo constante no ataque porque seu tamanho e sua velocidade não casam com nenhum marcador adversário - ou os jogadores são muito menores do que ele, ou são lentos demais para acompanhar suas infiltrações rumo à cesta. O problema é que os torcedores do Lakers sabem muito bem quão difícil é o Odom estar com a cabeça no jogo, ele facilmente parece desinteressado, toma decisões estúpidas e se torna quase invisível em quadra. Trocado da equipe em que passou os últimos anos, sentindo-se indesejado, mandado para a equipe rival, e além de tudo para longe da cidade em que vive sua nova esposa, a Khloe Kardashian. Como diabos alguém esperava comprometimento do Odom frente a tudo isso? Não é de se espantar que ele tenha chegado tão fora de forma que foi obrigado pelo Mavs a treinar por duas horas, sozinho, no único dia que o time teve de descanso desde que a temporada começou. E não foi só isso: também foi obrigado a chegar algumas horas antes de seus companheiros no jogo contra o Thunder para continuar seus treinamentos físicos. O Odom está uma bolinha desmotivada, não serve pra nada.

O segundo motivo pro Odom não dar certo nesse Mavs é que não existe posição em que ele possa jogar. Em sua posição natural joga o Nowitzki, que deve sentar o mínimo possível. Como reserva do Nowitzki, o Odom teria como função ser isolado e arremessar, justamente o ponto fraco do seu jogo. Caso jogue como ala de força e o Nowitzki seja rebaixado para pivô, o Mavs passa a ser uma equipe ainda mais medonha em parar e intimidar infiltrações adversárias, comprometendo na defesa. Se jogar apenas como ala, Odom terá que defender grande parte das estrelas da NBA, algo que não conseguiria fazer e que atualmente é função de Shawn Marion. Vindo do banco, o papel de pontuador e de armador vai para o Jason Terry, e o Odom seria apenas um reserva secundário. Cabe a ele, então, uma função ainda menor do que tinha no Lakers ou então uma função enorme que vai comprometer o garrafão e o funcionamento da equipe que foi campeã da temporada passada.

O Lamar Odom veio de graça e é um belo jogador, Playboy dada não se olha os dentes, mas às vezes você dá de frente com a Playboy da Mara Maravilha e percebe que é melhor ter cautela se não quiser ter sua infância traumatizada por toda a vida (experiência própria). Odom só terá espaço nesse Mavs se houver um chato trabalho de reconstrução do funcionamento tático, algo que não aconteceu sequer quando o Jason Kidd chegou. Será que Odom é talentoso e focado o bastante para se adequar à equipe, ao que precisam que ele faça, e conquistar seus minutos? A resposta veio rápido: em seu primeiro jogo com o Mavs, completamente fora de forma, Odom reclamou do juíz e foi expulso rapidinho. No segundo jogo, errou as 5 bolas de três pontos que tentou (acertando só um de dez arremessos de quadra). No terceiro jogo, errou as 4 bolas de três que tentou (acertando 2 dos seus 11 arremessos de quadra). Temos então um Odom fora de forma que só arremessa uns tijolos do perímetro sem parar.

Mas também não é como se o resto da equipe estivesse fazendo muito diferente. Com uma defesa que não força erros, não tapa o aro e não consegue rebotes, o Mavs acaba dependendo de novo de jogadas de isolação e de arremessos de três pontos forçados. Contra o Heat, o Mavs tomou 44 pontos no garrafão, pegou 20 rebotes a menos do que o adversário, e tentou 28 bolas de três pontos (acertando 9). No segundo jogo, pequena melhora: foram "apenas" 40 pontos tomados no garrafão contra o Nuggets, acertando 8 das 27 bolas de três pontos que tentou.

O terceiro jogo, comentado pelo Denis no resumo da rodada de ontem, foi mais promissor: o Mavs conseguiu apertar mais a defesa e forçou muitos erros do Thunder. O problema é que o Thunder já mostrou que basta forçar o Westbrook a jogar em velocidade para que ele cometa 8 bilhões de erros por jogo, colocando tudo a perder, então há pouco mérito do Mavs. No resto, tudo igual: levou 36 pontos no garrafão e acertou 9 das 26 bolas de três pontos que tentou.

O ataque tenta se arrumar como pode, Delonte West entrou bem no time titular e foi capaz de girar mais a bola e criar algum espaço para os arremessos. Nowitzki continua sendo isolado, criando seus pontos, e encontrando companheiros livres no perímetro. Mas não se fala em outra coisa nos vestiários a não ser na defesa do Mavs que foi embora: teve o Nowitzki recentemente dizendo que é difícil jogar em velocidade quando não se consegue rebotes ou erros adversários, teve o técnico Rick Carlisle dizendo que terá que ensinar defesa tudo de novo para sua equipe, melhorar seu próprio trabalho, começar de novo.

Um time campeão capaz de começar a temporada com 3 derrotas seguidas, parecendo perdido em quadra e regredindo quase uma década em seu estilo de jogo? É pra já. Ficamos então com uma lição valiosa: Tyson Chandler não é gênio, não vai descobrir a cura da AIDS, não é o melhor defensor da NBA; mas se você finalmente monta um elenco capaz de colocar em prática um estilo de jogo que foi campeão da NBA, agarre esse elenco com unhas e dentes e dinheiros. Porque acreditar que dinheiro é capaz de trazer outras peças, reposições quaisquer, e que ninguém vai sentir falta dos jogadores que forem embora, isso é furada. Vimos com o Clippers que dá pra formar um bom time mesmo sem depender da grana. Agora vimos com o Mavs como dá pra jogar um time no lixo apesar de ter grana saindo pelas orelhas. Se não houver um reforço nesse garrafão, se o Mavs não encontrar um modo de retomar a defesa que lhe levou ao título, essa será uma temporada perdida para Nowitzki e seus amigos.

domingo, 9 de outubro de 2011

8 ou 80: Eficiência e tipos de arremesso - Parte 3

Por algum motivo Kevin Martin cobra muitos lances livres


Chegamos à parte final desse especial sobre diferentes tipos de arremesso na última temporada da NBA. Até agora vimos os mais eficientes, os menos eficientes e os que mais tentam arremessos como bandejas e enterradas (na Parte 1) e arremessos de média e longa distância (na Parte 2). Hoje é dia de lances livres e de um ranking geral. Afinal, quem são os pontuadores mais eficientes da NBA?

Lembro mais uma vez que todo o crédito para essa série de textos é de um blogueiro gringo chamado Evanz, do Golden State of Mind, um blog especializado no Golden State Warriors. O cara teve o saco e a capacidade de analisar toneladas de dados e criar fórmulas complexas (e inteligentes) de analisar as estatísticas. Legal que ele percebeu muitos leitores vindos por links daqui e chegou a nos mandar uma mensagem pelo Twitter agradecendo a divulgação do trabalho dele. Pra quem torce para o Warriors e quiser acompanhar, o twitter dele é o @thecity2

A conta para dar o valor aos melhores e mais valiosos arremessadores de lances livres leva em conta os seguintes critérios: (1) média de lances livres tentados e aproveitamento da posição do jogador a cada 100 posses de bola, (2) arremessos tentados e convertidos pelo jogador a cada 100 posses de bola e (3) quantidade e aproveitamento do jogador em lances livres em situações de falta-e-cesta.

Vamos para a lista. Lembrando que PSAMS é o número resultante da conta que leva em conta os termos que a gente explicou acima.


O Kevin Martin leva essa com muita, mas muita facilidade. O número dele é tão impressionante que vocês verão mais tarde que ele entra na lista de pontuadores mais eficientes da NBA basicamente só pelo que ele conquista nesse quesito. Para se ter uma ideia, K-Mart chuta 12.2 lances livres a cada 100 posses de bola, a média de jogadores da sua posição, a de shooting-guard (2), é de 4.4! E o aproveitamento médio da posição é de 80%, o dele é de 89%. Sem contar que consegue uma jogada de falta-e-cesta 0.85 vezes a cada 100 posses de bola, número não muito distante de caras como o Dwyane Wade com seu ótimo 1.1.

A lista em geral não tem grandes surpresas porque sabemos quem são os jogadores que mais batem lances livres e qual seu aproveitamento, mesmo colocando novos elementos na conta os resultados não mudam tanto assim. Mas surgem umas surpresas escondidas no meio: Danilo Gallinari até uma temporada atrás era criticado por ser só um arremessador de três, hoje ele está aí empatado com o Manu Ginobili justamente porque passou a atacar mais a cesta e sofrer faltas no processo. Claro que o argentino tem mais situações de falta-e-cesta, sua marca registrada, mas o ala italiano do Nuggets consegue hoje em dia ir com regularidade para a linha do lance  livre.

Entre os 20 primeiros apenas quatro jogadores tem aproveitamento menor que 80% nos lances livres: Amar'e Stoudemire, Brook Lopez, Dwyane Wade e LeBron James. Eles compensam com quantidade de tentativas e jogadas em que convertem a cesta e sofrem a falta, mas dá pra imaginar como seriam eficientes se acertassem mais as muitas chances que tem? E em uma lista dominada por jogadores de perímetro é legal ver o Brook Lopez como primeiro pivô na 11ª posição. Esse especial serviu para entender melhor porque o Lopez é esse jogador que ninguém sabe direito o que achar ou esperar, em algumas coisas ele é ótimo, um dos melhores, em outras beira o ridículo.

E para quem comentou que o Nenê está bem na fita nessas listas, ele está em 25º na dos lances livres. Realmente o brasileiro é um pontuador bem eficiente, o que nos faz questionar porque ele é às vezes tão apagado nos jogos. No Nuggets do fim da temporada não era estranho ver ele ser apenas o quinto jogador com mais arremessos no time. Muita coisa disso é carma de pivô, que sempre é esquecido pelos outros jogadores, mas também pela postura às vezes passiva e de role-player assumido que o brasileiro toma.

Abaixo o show de horror, quem são os 10 piores titulares na lista de lances livres?


Surpresa seria o Rajon Rondo não estar no topo da lista. Mas que tal ele estar quase com o dobro de pontos negativos do segundo colocado? Uau! Não é à toa, ele tenta apenas 2.7 lances livres a cada 100 posses de bola e quando vai arremessar esses raros lances acerta só 55% deles. Ele é uma síntese asquerosa de todo o resto do Top 10 que tem jogadores que não atacam a acesta (Battier, Kidd, Bibby, Bogans, Thomas) e jogadores com aproveitamento pífio de lances livres (Martin, Bogut, Biendris, Wallace).

Abaixo o Top 10 com os melhores reservas:


O Corey Maggette só está na NBA há tantos anos porque sabe cavar faltas e tem um bom aproveitamento de lances livres. E eu não exagero quando uso esse "só" na frase. O resto do seu jogo é ultrapassado, comum ou simplesmente ruim, mas ele consegue muitos pontos fáceis no lance livre e complica o outro time em faltas, aí algumas equipes acabam dando contrato pra ele. Com esse PSAMS de 3.21 ele seria o 3º colocado na lista geral dos titulares, atrás apenas dos Kevins, Martin e Durant.

Falando em Durant, o terceiro da lista é seu companheiro de time James Harden. Comentamos muitas vezes aqui no ano passado que um dos motivos do Oklahoma City Thunder ser tão bom no ataque era o número e o aproveitamento de lances livres, as boas colocações de Durant, Harden e Russell Westbrook comprovam a tese. A lista dos reservas é praticamente inteira formada de jogadores que entram com a recomendação de "ataquem a cesta como se não houvesse amanhã", em geral caras que tem esse talento de infiltração mas pecam em outras áreas do jogo.

Para ver os números com mais detalhes e as listas divididas por posição é só conferir esse link do Golden State of Mind.

Depois de tantas contas complexas e números bizarros, finalmente uma conta para o nosso nível de matemática de primário. Para eleger os pontuadores mais eficientes da NBA como um todo apenas se somou o PSAMs (resultado das contas esquisitas) de cada quesito.

Na lista estão presentes as cestas próxima a cesta (INS), chutes de meia distância (MID), três pontos (3PT) e lances livres (FT).


E deu o campeão Nowitzki. Mas ninguém é perfeito mesmo, são pouquíssimos os jogadores dessa lista que não tem pelo menos uma nota negativa em alguma coisa. Na verdade são apenas cinco: Paul Pierce, Al Horford, Stephen Curry, Steve Nash e, surpresa, Brook Lopez.

O Nowitzki conseguiu o seu diferencial na lista ao virar o único mestre supremo do universo em arremessos de meia distância, ao mesmo tempo ainda é levemente eficiente nos 3 pontos e continua cobrando lances livres. LeBron James é o segundo com o seu arsenal completo que já conhecemos, incluindo aí o melhor arremesso de meia distância entre os small forwards. Peca mesmo apenas nas bolas de três pontos. Engraçado é o Kevin Martin em 3º com quase todos os seus pontos vindo dos lances livres, um absurdo, sem dúvida o pontuador mais chato de se assistir na NBA.

A lista consagra alguns nomes que todo mundo já sabia que poderia pontuar de tudo quanto é jeito, como Pierce e Durant, mas tem também caras como Nenê e Stephen Curry no Top 10 e Al Horford logo depois em 11º. São jogadores que jogam bem, são reconhecidos, mas não são as primeiras opções ofensivas de suas equipes.

A impressão que dá é que o Nuggets deveria ter usado mais o seu pivô, posição que hoje em dia tem poucos pontuadores eficientes, e Warriors e Hawks deveriam segurar mais o ímpeto de Monta Ellis e Joe Johnson em prol de seus jovens e eficientes jogadores. Mas a coisa não é tão simples assim, não é só tocar a bola para outro jogador. Hawks e Warriors sofrem de más decisões ofensivas e Ellis e JJ são apenas escapes que usam seus talentos individuais para compensar um sistema pouco eficiente; o que os técnicos desses times precisam entender é que eles não podem ter um ataque típico de times sem talento quando tem dentro do elenco caras tão bons quanto Steph Curry e Al Horford. Na pior da pior das hipóteses esses dois devem compartilhar os arremessos ruins. Outro destaque é a presença de Tyson Chandler fechando o Top 20, mostra que para ser um dos mais eficientes não precisa ser um grande cestinha. Mas claro que ele foi beneficiado porque as médias de tentativas e de aproveitamento dos outros pivôs da NBA não são grande coisa hoje em dia.

O legal dessa lista não é o ranking em si, isso é secundário, questionável, o legal mesmo é ver como ela mostra perfeitamente como cada jogador marca os seus pontos. O Chauncey Billups está muito bem em 10º lugar, mas com números bem ruins em pontos próximos à cesta e de meia distância, o armador do Knicks consegue seus pontos em bolas de três pontos e lances livres. Ele é um caso raro de jogador que mesmo sem ser uma grande ameaça nas infiltrações consegue cavar faltas com regularidade, resultado do seu bom jogo de costas pra cesta contra outros armadores e uma das melhores fintas em arremessos.

Outro caso interessante de analisar é o de Kobe Bryant, 13º da lista. A cada ano que passa ele tem menos pontos próximos à cesta (praticamente não fez um ponto em bandejas ou enterradas na série contra o Mavs) e cada vez mais tenta bolas de 3 pontos. Isso se chama frustração. Ele não tem mais o físico para costurar defesas fortes e precisa compensar com arremessos de longe. Kobe ainda é muito bom nos de meia distância e em seus dias mais inspirados pode decidir jogos com as bolas de longe, mas em geral, ao longo de toda a temporada, os seus chutes de longe são resultado de frustração por não conseguir arremessar dos lugares onde ele quer e de onde ele conseguia quando era um pouco mais jovem.

Abaixo a lista com os pontuadores menos eficientes entre todos os titulares da NBA:


Poxa, pessoal, não é só porque vocês são a nata defensiva da NBA que precisam ignorar o fato de que existe ataque no basquete! Mas tudo bem, em alguns casos não é nem culpa dos jogadores. Caras como Thabo Sefolosha, Luc Mbah a Moute e Keith Bogans são conscientemente excluídos do ataque de suas equipes e ficam com poucos pontos no ranking por tentar poucos arremessos ao longo dos jogos. Já Andrew Bogut paga o preço de tentar resolver sozinho e com jogadas individuais um dos ataques mais toscos da NBA, o do Bucks. O pivô australiano é bom, mas não é um gênio para carregar times ruins nas costas. Assim como ele precisou de um técnico especialista em defesa para virar um dos melhores bloqueadores da liga, precisa de alguém que desenhe boas jogadas para ele ser mais eficiente.

É triste ver Jason Kidd nessa lista, mas existe um bom motivo. Um dos princípios dessa lista era comparar o número de arremessos tentados em média por jogadores de cada posição, quem chutasse menos, na maioria dos casos, era punido por isso. Jason Kidd não só nunca foi muito de arremessar, prefere o passe, como também vive hoje uma era de armadores pontuadores. Não basta fazer poucos pontos, o armador do Mavs é comparado a Derrick Rose, Deron Williams, Russell Westbrook, Brandon Jennings, Tony Parker e outros que fazem 20 pontos em um jogo sem precisar suar muito a camisa. A lista tenta medir o quanto cada jogador é bom em fazer pontos, e nisso o Jason Kidd é realmente ruim, mas não quer dizer que ele não saiba compensar com muitas outras coisas.

A lista dos 10 melhores reservas tem Marcin Gortat (devo meu título do Fantasy do Bola Presa a esses números!), Corey Maggette (que tem números negativos em tudo, menos lances livres), Gary Neal, George Hill, Louis Williams, Hakim Warrick, Kyle Korver, Jason Terry, Thaddeus Young (o líder da liga em pontos próximos à cesta) e, para minha surpresa, Reggie Williams, discreto ala do Warriors.

Os piores reservas são liderados por um conhecido de quem acompanhou de perto a temporada do Lakers, Steve Blake. E tem além dele Earl Watson, Al-Farouq Aminu, Corey Brewer, Donte Greene, Vlad Radmanovic, Al Harrington, Rudy Fernandez, Joel Anthony e Brandan Haywood. Alguns nomes a gente desculpa, mas o que Vlad Radmanovic e Al Harrington tem a contribuir com um time de basquete se não sabem pontuar com eficiência?

Para as listas completas e divididas por posição, acesse a página do Golden State of Mind.
Agradeço a paciência de todos que não são tão fãs de números como eu. Os insatisfeitos podem continuar nos ajudando ao recomendar temas para posts nos comentários!

sábado, 25 de junho de 2011

A vitória dos derrotados

Como o Danilo disse no último post, eu estou viajando pela Via Láctea e por isso sem muito tempo para postar. Mas achei um dia livre (o último nesse mês) e resolvi aparecer para dar um pouco de atenção para o nosso filho semi-abandonado. O difícil era decidir o assunto! Falar do Mavs campeão, do LeBron James ainda com o mesmo número de anéis que o Cavs, da aposentadoria do Shaq, da contratação do Mike Brown (e do Ettore Messina) pelo Lakers ou, claro, o Draft e todas as trocas que aconteceram junto com a seleção da nova classe de pirralhos? Isso sem contar a discussão sobre a negociação do novo acordo financeiro entre jogadores e os donos de equipes, que devem render mesmo em uma greve. Ou seja, assunto demais para tempo de menos!

Decidi então tratar primeiro do resultado da Final, para encerrar de vez o assunto. Esse post é para comentar sobre a última vitória do Mavs, o que esse título representa para eles e para todos os envolvidos na conquista. Os outros temas podem ou precisam esperar. Falar do Shaq ou do Mike Brown é tão relevante agora como no meio de agosto quando não tivermos assunto e o Draft, assunto do momento, requer muito mais tempo do que eu tenho agora, então fica para Julho, quando eu estiver de volta na terra da coxinha, do feijão e do catupiry.


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Brian Cardinal campeão e de óculos escuros: deal with it


O Mavs foi campeão vencendo onde mais venceu em toda a temporada, fora de casa. A habilidade deles em jogar longe do seu ginásio foi essencial para garantir o terceiro lugar no Oeste durante a temporada regular e acabou sendo decisivo nos playoffs. O óbvio é justificar essas boas atuações enaltecendo a experiência do time, mas não é todo time de veteranos que brilha assim fora de casa, só lembrar do veterano Celtics de 2008 que foi campeão vencendo só dois jogos fora de Boston! Eu acho que tem mais a ver com a capacidade do time de se adaptar, de mudar de estratégia, quintetos e sistemas defensivos no meio de uma partida. O normal é um time jogar um jogo mais covarde quando está longe de seus domínios, apelando para jogadas de segurança e sobrecarregando as suas estrelas. Mas ao invés de mandar a bola no Dirk Nowitzki e esperar milagres (que ele era bem capaz de fazer!), eles conseguiam ler o jogo, ir mudando e achar uma solução, sem desespero, antes da partida acabar. Não é à toa que estiveram no lado certo de tantas reviravoltas e viradas nesses playoffs.

Os méritos para essa vitória tem de ser divididos entre muita gente e cada uma delas tem histórias legais para serem contadas, separamos alguns personagens para serem comentados.

Rick Carlisle

A NBA vive hoje o início de uma era onde os técnicos veteranos estão dando adeus: Pat Riley e Phil Jackson dizem que não voltam, Larry Brown quer voltar ao basquete universitário, Gregg Popovich anunciou que se aposenta junto com o Tim Duncan. Para substituí-los existe uma geração que chama a atenção por ser envolvida com o basquete de um jeito diferente, com menos ex-jogadores e mais estudiosos do basquete, caras viciados em táticas e estatísticas. O Carlisle está na liga faz um tempo, mas pode ser considerado do segundo grupo, é sem dúvida um dos que abriu as portas aos nerds brancos bitolados. Ele se destacou no Detroit Pistons no início dos anos 2000, mas saiu (para dar lugar ao calejado Larry Brown) logo antes deles conseguirem Rasheed Wallace e partirem rumo ao título. De lá ele foi para o Indiana Pacers, onde também se destacou (chegou a ter a melhor campanha da temporada regular) mas esbarrou no seu antigo time duas vezes: primeiro nos playoffs de 2004 e depois no "Malice at the Palace", a antológica briga entre os jogadores de Pacers e Pistons que culminou em multas e suspensões que destruiu aquela ótima geração do time de Indiana.

A imagem que o Carlisle deixou depois disso tudo foi que ele manja muito de basquete, sabe de todas as estratégias, táticas e lê o jogo como poucos, mas que na hora de lidar com as pessoas, com os egos e com a motivação ele não sabia o que fazer. Seria como mandar o PVC treinar a seleção brasileira: ele saberia todos os detalhes do adversário e faria a leitura do jogo em dois minutos, mas o que vale isso se ele não souber como conversar com Neymar ou como motivar o Alexandre Pato? Ser técnico envolve muitos talentos e o Carlisle parecia não ter todos.

Eu acho que essa imagem do Carilsle, se não 100% correta, é pelo menos 70% e dá pra passar de ano. É raro vermos ele dando discurso emocional como aqueles do Doc Rivers, gritando até ser obedecido como o Stan Van Gundy ou mesmo fazendo aqueles joguinhos para mexer com o brio dos jogadores que o Phil Jackson se especializou em fazer. Mas aí é que o elenco experiente fez a diferença, o Nowitzki não precisa assistir "Gladiador" antes de começar os jogos pra se motivar, o Jason Kidd já entendeu faz tempo que ele não é a estrela e não fica pedindo atenção ou criando briguinha, o Tyson Chandler não é mais o pivete descontrolado dos tempos de Chicago Bulls. É uma equipe de jogadores controlados, que sabem seu papel e que só precisavam de alguém que entendesse de basquete para dar as ordens. O técnico deu as ordens, treinou, inovou (como a defesa por zona, usada à exaustão na temporada regular) e os jogadores aprenderam rápido, sabiam como se adaptar no meio do jogo e confiaram na nerdice do seu treinador. Combinação perfeita. Repito o que sempre disse nas discussões sobre Deron Williams x Chris Paul: a questão não é quem melhor, mas qual dos dois, com seus estilos distintos, é ideal para cada time, técnico e esquema tático. Então não é que um treinador que motiva é coisa do passado e os bitolados táticos os do futuro, para o Celtics funciona o Doc Rivers, para o Mavs funciona o Rick Carlisle.

Mark Cuban

Muita (MUITA, em Caps Lock mesmo) gente odeia o Mark Cuban, mas eu não sou uma delas. Aliás, muito pelo contrário, eu acho ele o dono de time mais legal da NBA. Poderia gastar um post (ou um livro) só de entrevistas polêmicas, desastradas ou de declarações e provocações idiotas (e dispensáveis, fato) dele, mas não sou inocente a ponto de achar que vivemos em um mundo onde as pessoas não falam asneiras. Eu falo, você fala e o Mark Cuban fala. Aliás, fica uma lição para a vida: Nada é imperdoável, todo mundo fala e faz bobagens trocentas vezes na vida e na grande maioria das vezes é sem perceber. Somos todos imbecis e por isso odiar alguém por ser imbecil é, surpresa, uma imbecilidade.

Atrás de todas as atitudes questionáveis do Mark Cuban está um cara que ficou bilionário no mundo da informática e resolveu investir parte dessa grana para comprar o seu próprio time de basquete. Ao contrário de muitos donos por aí, ele não fez isso porque parecia um bom negócio ou para levar os clientes dele para reuniões na sala VIP do ginásio, mas porque ele é perdidamente apaixonado por basquete. Todas as bobagens que ele fala são completamente perdoáveis quando o vemos vestindo uma camiseta do Nowitzki e pulando atrás do banco, o Mark Cuban é só mais um fã de basquete como nós mas que calhou de ter alguns bilhões de dólares sobrando na carteira, e que fã não sai xingando juízes sem motivo depois de uma derrota? Tá, ele também gosta de aparecer e ser o centro das atenções, mas se formos começar a criticar pessoas com a mesma característica nesse mundo do esporte a gente vai acabar gostando só do John Stockton e mais ninguém.

O Mark Cuban tem tanto dinheiro e gosta tanto do seu time que é um dos poucos donos de time que nunca teve medo de gastar. O Mavs tinha acabado de investir uma grana preta na renovação de contrato do Brendan Haywood antes da temporada começar quando surgiu a oportunidade de conseguir o Tyson Chandler sem precisar mandar ninguém relevante em troca. A folha de salário ficaria inchada e isso significaria que o dinheiro investido no Haywood seria para ele esquentar banco, mas Cuban não ligou, como sempre, em pagar multas e mandou fechar o negócio. O sonho do Cuban era ser campeão e ele gastou demais para isso sempre, nunca aceitando ter um time fraco em mãos. Muito dono de time por aí começaria a cortar gastos depois do primeiro conto do vigário (ver DAMPIER, Erick) contratado a peso de ouro para não fazer nada. Cuban, teimoso/persistente, dá uma nova cartada por temporada e dessa vez deu certo.

Mas o mais legal dessa insistência e paixão do Mark Cuban é que ela foi recompensada bem na temporada onde ele admitiu os seus erros. O Dirk Nowitzki deu uma entrevista dizendo que preferia que o seu chefe não desse nenhuma declaração polêmica (o jeito educado de dizer "estúpida") durante os playoffs e foi plenamente atendido; Cuban permaneceu toda a pós-temporada calado e ganhou de brinde o título que tanto sonhou. O cara pode ser mala, mas eu gosto de ver o título indo para um cara que realmente se importa e se diverte com o time que tem.

Dirk Nowitzki

Na minha cabeça o Dirk já estava naquela lista de jogadores que eu teria que defender e justificar a carreira sem títulos até o fim da vida. Em 2047 quando fossem fazer uma lista dos melhores jogadores nos 100 anos de história da NBA eu estaria lá, velho gagá, para defender a inclusão do alemão mesmo que ele tenha passado a carreira em branco. Isso, claro, depois de dar um piti contra a existência de mais uma chata lista de quem é melhor.

Mas não é que no fim tudo deu certo e ele venceu? A ficha ainda não caiu pra mim. Eu sempre torço para os meus jogadores favoritos vencerem, mas torço em dobro quando eles tem uma reputação manchada pelos motivos errados. Se alguém não gosta do Ron Artest pelo seu comportamento, beleza, eu não acho que seja motivo para odiar mas realmente ele já fez coisas condenáveis. Agora, o Dirk tinha fama de amarelão! Isso era injustiça demais contra um dos jogadores mais legais (e decisivos!) que eu já vi jogar. E não é que ele foi campeão em um time fora de série que venceu todo mundo por 20 pontos de vantagem, foi em um time que tinha limitações no ataque e que realizou viradas heróicas no quarto período sempre lideradas por ele.

Continuo achando que grandes jogadores continuam sendo grandes jogadores mesmo quando não ganham títulos (é preciso ter sorte de estar no lugar certo e na hora certa no fim das contas), mas é bem legal quando esses caras conseguem o que tanto buscam.

Isso vale também para outros grandes jogadores que volta e meia recebiam a patética crítica do "foram bons mas nunca ganharam nada" como Jason Kidd, Shawn Marion e Peja Stojakovic. Mas vamos ser sinceros, se é pra medir qualidade individual por resultado de equipe o que vale mais para medir o talento do Kidd, ser campeão com esse Dallas ou levar um time que tinha Kerry Kittles, Keith Van Horn e Jason Collins de titulares (!!!) à final da NBA? Aquilo já deixava o nome dele na história, mas é bom que ele tenha ganhado um anel para os perturbados que pensam que vão-se os dedos e ficam os anéis. A atuação do Shawn Marion marcando Kobe Bryant, Kevin Durant e LeBron James em sequência também faz jus ao seu talento defensivo sempre esquecido e desvalorizado nos tempos de Phoenix Suns.

A franquia

Perceberam um padrão nessas histórias? O Carlisle era o técnico que nunca ia vencer porque não sabia lidar com os jogadores, o Dirk era amarelão, Kidd, Marion e outros tinham passado do seu auge, Mark Cuban estragava tudo com sua boca maior que o Shawn Bradley. Era um bando de derrotados jogando por uma franquia que parecia destinada a ficar sempre no quase. Quando me perguntaram no começo da temporada se o Dallas tinha chance de ser campeão eu disse o que digo todo ano: Elenco para isso eles tem, mas é assim nos últimos 10 anos e nunca deu em nada. Era chato responder o que faltava para o Mavs ser campeão porque eles tinham tudo, o que faltava era simplesmente ir lá e vencer. Soa idiota mas era justamente isso. Meio como um São Caetano da vida, parecia que a NBA tinha uma (argh!) mística que não permitia que fosse só qualquer time investir, contratar e vencer; tinha que ter camisa, tradição e o Mavs não tinha isso.

Esse título, portanto, coloca o Mavs na lista de times respeitados na liga. Quer dizer, respeitado pelos mesmos que não valorizavam o Dirk Nowitzki até um mês atrás, os que não são obcecados por títulos já percebiam a força da franquia quando eles completaram 10 temporadas seguidas com 50 vitórias ou mais. A maioria dos recordes dos últimos 10 anos é do Lakers, Spurs e Mavs e finalmente agora todos eles tem títulos.

O que é curioso é que esse título não veio no ano em que o time mais empolgou. Eles davam mais esperança quando eram o melhor ataque da liga, quando ainda tinham Steve Nash e Michael Finley, quando foram para a final em 2006 ou quando venceram 67 jogos em 2007. Nesse ano foi bem diferente, tiveram uma temporada boa-mas-não-espetacular e ainda causaram muitas dúvidas quando perderam o Caron Butler no meio da temporada por contusão e não fizeram nada para repor a perda. O Butler era o desafogo do Dirk no ataque do Mavs e eu realmente achei que eles não tinham chances nos playoffs sem alguém para o seu lugar, imaginei que fosse acontecer com eles o que aconteceu com o Bulls. O time de Chicago só tinha o Derrick Rose no ataque e quando ele foi anulado pelo LeBron James o ataque morreu, minha teoria era que em algum momento dos playoffs o Nowitzki fosse ser bem marcado e o Mavs não conseguiria mais pontuar, eu não contava com tanta evolução nas trocas de passes, os arremessos cada vez mais precisos do Kidd e muito menos o Shawn Marion criando o próprio arremesso e o JJ Barea costurando algumas das melhores defesas da NBA. Não houve um problema nessa temporada para o qual o Mavs não soube se mexer e se adaptar.

Legado?

Em um dia otimista daria para dizer que esse time deixaria um legado. Que ensinou, como disse o dono do Cavs Dan Gilbert após o jogo final, que "não existem atalhos para a vitória", que ela aparece na persistência. Ou poderia ter ensinado o valor do trabalho em equipe em contraste com o jogo individualista e baseado em estrelas do Miami Heat, seu adversário na final. Mas não é bem assim. Primeiro porque essa história do Heat ser vilão e não jogar como equipe é meio balela que não faz mais sentido desde janeiro, depois porque nenhum time deixa legado, a gente tem memória curta quando o assunto é esporte. Em 2004, que nem tá tão longe assim, o Lakers montou não um Big 3, mas um Fab Four, com Kobe Bryant, Shaquille O'Neal, Karl Malone e Gary Payton. E o que aconteceu? Eles não dominaram a temporada regular como previsto, mas brilharam nos playoffs até chegar na final, onde perderam para um time que os venceu em um jogo eficiente e coletivo. Roteiro mais repetido só se o Dirk usasse o afro do Ben Wallace e a história passasse na Sessão da Tarde.

E mesmo com essa história recente ainda teve gente com certeza de que o Heat ia brilhar desde o começo, citando o exemplo do Celtics de 2008 ao invés do Lakers de 2004, e outros pensando que a vitória do Mavs vai fazer os times da NBA focarem mais na criação de boas equipes do que em colecionar estrelas. O negócio é simples, quem tem chance de ter LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh ou equivalentes no mesmo time não vai perder a oportunidade de juntar todos. E quem não tem não vai admitir derrota e vai buscar uma solução com outros jogadores. Algumas vezes um lado ganha, outras vezes o outro lado ganha. Para surpresa geral de todos não existe só uma fórmula para se ganhar um título, não tem só um jeito de jogar basquete, não tem mais bobo no futebol e o céu é azul.

Esse título do Mavs deu uma confirmação histórica a muita gente que já fazia por merecer, fez muita gente feliz por ver o Miami Heat perdendo, mas não vai mudar os rumos do basquete e não há uma franquia sequer que não sonhe em ter um Big 3 para chamar de seu.

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Pelo o que eu sei o Danilo está com um projeto de post sobre o lado dos perdedores, divagando sobre o Heat e o que essa derrota significa para LeBron James e cia. E quando eu voltar para o Brasil começo a trabalhar em tudo o que comentei no começo do texto, certo? Até lá aproveitem o Bola Presa como se ele tivesse sido feito no Geocities nos anos 90. Coisa das boas.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Mavericks e a zona

 Nowitzki conta para o árbitro que está chovendo


No sábado, o Dallas Mavericks teve o melhor primeiro quarto que eu já vi na vida - chegando a vencer por 29 a 4 em cima do coitadinho do Utah Jazz. O primeiro quarto espetacular não mostra apenas quão bom esse Mavs realmente é, ele nos mostra também - assim como nos mostra a reação do Jazz no mesmo jogo - a importância das defesas por zona na NBA.

Para quem não viu, os melhores momentos da partida estão aí abaixo:



Confesso que, já faz muito tempo, não sou um fã das movimentações ofensivas do Mavs. Nunca entendi times que preferem terminar contra-ataques com arremessos de três, e o ataque sempre se baseou muito na isolação de jogadores mesmo com um armador épico como o Jason Kidd em quadra. Eu reclamava bastante por aqui no blog de como o Kidd era mal utilizado, que ele ficava entediado num canto sendo obrigado a passar para o lado, e que o técnico Rick Carlisle, mesmo sendo um baita nerd de basquete, não tinha conseguido se utilizar da inteligência do armador. Mas as coisas no Mavs mudaram bastante no ataque graças a uma única mudança drástica - que foi do outro lado da quadra, na defesa.

Escrevi uns meses atrás sobre como tem gente por aí achando que a NBA não usa defesa por zona - o que é um engano enorme - mas que as regras da NBA incentivam os jogadores a infiltrarem, ao contrário do que acontece na FIBA, em que as bolas de três (e as defesas por zona) são regra absoluta. A NBA é a liga de basquete em que menos se arremessa de três no mundo, as regras privilegiam o jogador que ataca a cesta e procura o contato, as jogadas acabam tentando isolar jogadores para que infiltrem, e a defesa por zona tende a ser menos usada. Ainda assim, todos os times usam em vários momentos de todas as partidas com sucessos variados. Mas nenhum time usa a defesa por zona de modo integral, durante todos os minutos de todas as partidas, como o Dallas Mavericks tem feito nessa temporada.

Foi-se o tempo em que o Dallas, por não ter defesa ("D", como é carinhosamente chamada em inglês), era chamado de "Allas Mavericks". Assim que o Don Nelson deu o fora e o Avery Johnson assumiu a equipe, o Mavs deixou de ser uma peneira para se tornar uma defesa bastante respeitável. É claro que as deficiências individuais sempre comprometeram a defesa da equipe como um todo (faltava um pivô, Nowitzki tem problemas para defender o garrafão, Jason Kidd hoje em dia só defende as linhas de passe), mas nada que impedisse a defesa de ser sólida e muito distante daquele projeto-de-Warriors que era o Mavs da era Don Nelson.

Aquela mentalidade defensiva instaurada por Avery Johnson (que é muito melhor técnico do que lhe dão crédito) é o que tornou possível a defesa por zona em tempo integral de Rick Carlisle, um projeto ousado para a NBA atual. O Mavs inteiro se mostra comprometido com a defesa a um ponto tal que as deficiências individuais simplesmente desaparecem. Na prática, funciona assim: Jason Kidd marca individualmente o jogador que arma o jogo e que, portando, detém a bola. Mas dois jogadores marcam as laterais do jogador que arma o jogo, dois passos para trás do perímetro. As infiltrações ficam muito complicadas porque o jogador passa a enfrentar três marcadores, e os arremessos do perímetro são inibidos pela marcação homem-a-homem do armador do Mavs. O que sobra, claro, é um corredor paralelo à linha de fundo embaixo da cesta, em que os jogadores adversários podem transitar livremente e receber a bola sem dificuldade. Quando o Celtics usou essa mesma defesa nos playoffs passados para parar LeBron James, a solução para esse "corredor" era descer a porrada em quem recebesse a bola lá embaixo, forçando o Shaq a cobrar trocentos lances livres (já que ele fede no quesito). No caso do Mavs, a solução é, quem diria, Tyson Chandler. Todo mundo adora dizer que ele não sabe bem amarrar os próprios cadarços, mas a verdade é que ele nasceu para defesas por zona. Sua velocidade lateral garante a proteção dos dois lados do garrafão e torna o Mavericks um pesadelo de se enfrentar perto do aro. A solução contra a zona do Mavericks é amontoar o garrafão e ter que arremessar de fora, no espaço entre dois defensores - o que também significa, na prática, que existem dois defensores bem próximos tentando cheirar o seu pescoço. Contra o Jazz, a defesa por zona do Mavs anulou a movimentação ofensiva da equipe e pavimentou o caminho para o 29 a 4 inicial.

Mas o mais curioso, para mim, é como essa paixão pela defesa por zona no Mavs teve resultados positivos no ataque. O Mavs sempre gostou do jogo de perímetro, mas agora eles jogam em todas as partidas como se estivessem sempre enfrentando defesas por zona, procurando arremessar ao máximo. Isso porque usar a zona de modo tão eficiente também lhe ensina como vencê-la. O Mavs agora dá passes muito rápidos, gira a bola no perímetro, encontra os jogadores livres, e isola o mínimo possível. Dirk Nowitzki, contra o Jazz, acertou 10 de seus 12 arremessos, poderia ter arremessado mais umas 20 vezes, mas prefere não interromper a rotação da bola e premiar os companheiros de equipe livres. Quer aprender a vencer a defesa por zona do Mavs? Veja o Mavs jogar. Não dá pra um jogador sequer forçar arremessos, não dá pra centralizar o jogo, tem que colocar a bola nas mãos de todo mundo, passar o mais rápido possível, e sempre premiar com um arremesso o jogador que ficar sozinho contra a zona. Mesmo que ele seja ruim. Lembra de como a defesa por zona do Thunder deixava sempre o Artest livre na zona morta porque o arremesso dele fedia? Funcionou um jogo, funcionou dois, mas uma hora o Artest treinou e os arremessos caíram e o Lakers venceu a série. Simples assim.

Vale ressaltar, no entanto, que o Jazz conseguiu empatar o jogo com o Mavs no quarto período justamente porque passou a usar uma defesa por zona também. Foi antes de acabar o primeiro período ainda, uma defesa 3-2 focada no perímetro, e o Mavs teve problemas em estabelecer o ritmo que colocou no começo do jogo. Falta ainda para o Mavs um jogo forte de garrafão, uma jogada de segurança perto da cesta, e eu costumo insistir que é difícil levar a equipe a sério - especialmente nos playoffs - se a jogada de segurança, no final dos jogos, for um arremesso de longe, contestado, ou uma isolação para arremesso da cabeça do garrafão. É o mesmo motivo pelo qual não levo o Orlando Magic a sério (já que no final dos jogos não dá pra passar a bola para o Dwight Howard, que sofre a falta e não converte os lances livres). A dificuldade de jogar próximo à cesta ainda está lá no Mavs, mas a evolução do Nowitzki até mesmo nesse sentido é bem clara. O alemão não é apenas um dos melhores jogadores da NBA na atualidade, ele é um dos melhores de todos os tempos e ainda não atingiu seu ápice. Sua defesa melhora a cada dia, sua inteligência em defesas por zona só agora vem à tona, e seu ataque fica cada vez mais diversificado e agressivo próximo à cesta. Ele corre como se tivesse duas pernas esquerdas, mas e daí, seu jogo é eficiente e meu filho vai ter a mesma mecânica de arremesso que ele (vou fazer maratona de vídeos do Nowitzki e dar surra de chibata se ele arremessar como o Leandrinho, que parece um garçom segurando uma bandeja). Cada vez mais o Dirk sabe aproximar a bola do aro nas jogadas importantes e sua habilidade nos lances livres coloca medo nas defesas de descer o sarrafo. Mas ainda falta um bocado para que isso seja uma tendência na equipe e o Mavs consiga efetuar essas jogadas com naturalidade.

Me dou ao direito de ficar sempre com um pé atrás com o Mavericks enquanto o foco for exageradamente no perímetro, mas também me deu ao direito de babar no basquete que eles estão jogando agora. E babar muito, nível Alinne Moraes de babação. É a melhor defesa de se assistir em toda a NBA, e o ataque é muito mais inteligente do que foi nas últimas temporadas - o Jason Kidd até parece ser bem utilizado, o que é um milagre que já vale nossa admiração. Não fico mais tendo um aneurisma cerebram de ver o Kidd tendo que isolar o Shaw Marion de costas para a cesta ou o Caron Butler atrás da linha de três. Vencer 12 partidas seguidas não é acaso, nunca, e a contagem positiva só tende a continuar. Dia 20 de dezembro enfrentam o Heat, que vem de 8 vitórias seguidas, e vai ser legal ver como o ataque fraco de perímetro da equipe de Miami vai enfrentar a defesa por zona do Mavericks. Jogão, e o Mavs agora entra sempre como favorito. Não dá nunca pra respirar aliviado contra equipes com defesas fortes, e a fama do Mavs como melhor defesa por zona da NBA já está bem difundida. As equipes precisam se preparar para enfrentar a zona e acabam dando menos atenção para outros aspectos do jogo. O Mavs agora, finalmente, bota medo nos adversários - coisa que em geral nunca acontece em times sem jogadores físicos e que atacam pouco a cesta.

Mas voltando ao empate do Jazz contra o Mavs no finalzinho do jogo, vale também ressaltar que não foi apenas a defesa por zona que o Jazz colocou em prática a responsável por igualar o jogo. Grande parte da responsabilidade foi de Deron Williams colocando a bola debaixo do braço e resolvendo decidir sozinho. Parece que em todo começo de jogo do Jazz, o time acha que ainda tem o Carlos Boozer e começa com o jogo de corta-luz e arremessos de média distância com os jogadores de garrafão. As bolas não caem, a tática não funciona, e aí o Deron Williams começa a resolver sozinho. Infiltrando mais (já que é atualmente o armador mais forte da liga) cria espaços para os jogadores de garrafão; arremessando mais, a defesa vai para o perímetro e os jogadores de garrafão têm mais espaço para atuar. Paul Millsap e Al Jefferson possuem arremessos razoáveis, mas não são o Carlos Boozer, não molham as calças de alegria com um arremesso livre da cabeça do garrafão. Quanto mais ativo o Deron Williams é em quadra, mais Millsap e Al Jefferson podem ser ativos embaixo da cesta, onde realmente se destacam. Todas as reações históricas que o Jazz andou fazendo nessa temporada concordam nisso: o Jazz engrena quando o Deron Williams resolve ser o dono da budega.

Nesse ponto, aquela velha comparação do Deron Williams com o Chris Paul é praticamente impossível. Dia desses nos perguntaram no formspring o motivo do Chris Paul ser "passivo", não decidir os jogos sozinho como faz o Deron Williams. Pra começar, eles são jogadores muito diferentes. O Deron gosta mais de arremessar, é mais físico, procura o contato. O Chris Paul prefere a velocidade, os contra-ataques, é mais distribuidor. Mas, como sempre insistimos, a diferença sempre está ligada também aos companheiros de equipe, ao resto do elenco - nenhum jogador entra em quadra sozinho. Contra o Sixers, ontem, Chris Paul atacou a cesta (acertou 8 dos 12 arremessos, todas as duas bolas de 3 e os 7 lances livres que tentou) e passou mais tempo com a bola nas mãos - e a derrota foi vergonhosa. Na temporada passada, antes da contusão, o Chris Paul já estava pontuando como um maluco (chegou a ter mais de 30 pontos por jogo) na tentativa de evitar as derrotas constantes, e isso simplesmente não funciona. Parece absurdo, mas o elenco do Hornets é tão limitado que o único jeito de fazer com que saia de quadra com a vitória é minimizar as limitações e se aproveitar de suas qualidades. O Jazz é um timaço, o garrafão é forte, eles podem comer pelas beiradas, receber poucas bolas, viver de rebotes de ataque. O Hornets fede, se você não garantir que o Belinelli vai ter a bola naquele canto exato da quadra, ele não vai te render nada, bulhufas, não vai nem te pagar um refrigerante. O que o Chris Paul precisa fazer é garantir que todo mundo vai render ao máximo, porque ninguém ali naquele elenco é capaz de render sozinho, todo mundo é só carregador de piano. Eu avisei, quando o Trevor Ariza chegou em New Orleans, que ele não iria fazer nada sozinho, seria apenas mais um coadjuvante na equipe - isso porque eu o vi no meu Houston Rockets recebendo a responsa de criar o próprio arremesso e simplesmente sentando na calçada para chorar. Chris Paul tem que fazer todo o trabalho pesado para que os outros brilhem. Não vai dar certo sempre, mas é melhor do que o Chris Paul botar a bola debaixo do braço e assistir aos seus companheiros definhando até a morte, à espera da derrota certa.

Justamente por isso a defesa por zona também tem sido tão importante para o Hornets. O elenco limitado, quando se compromete com algo e joga em conjunto, consegue ser mais forte defensivamente. A defesa por zona exige trabalho coletivo, e maximiza a capacidade de Chris Paul de interceptar as linhas de passe e puxar contra-ataques. O problema é que a defesa por zona do Hornets é vulnerável no perímetro e, talvez por isso, só vem sendo usada nos minutos finais dos quartos (em geral nos 5 minutos finais do quarto perído), que é quando os times têm mais medo de arremessar (e motivo pelo qual o Mavericks precisa de jogadas embaixo da cesta para fechar os jogos, e o Magic depende tanto das infiltrações do Jameer Nelson). O que falta para o Hornets, claro, é encontrar uma consistência no ataque que permita ao time chegar aos minutos finais do quarto período com chances de vitória, algo que dificilmente acontecerá com o Chris Paul se focando apenas em pontuar.

quarta-feira, 10 de março de 2010

A máquina sem peças

"Por favor, não tire o Kidd do meu lado ou perceberão que eu fedo, amém."


Como acabei não postando ontem por pura e indesculpável preguiça, resolvi que hoje vou me punir e, por isso, vou falar do San Antonio Spurs. Toda hora tem alguém me perguntando no "Both Teams Played Hard" o que diabos aconteceu com o time nessa temporada, e o desespero dos fãs é compreensível: o time sempre foi chato, mas pelo menos ganhava jogos. Agora que não ganha mais, os torcedores ficaram com uma bomba nas mãos.

A primeira dificuldade do Spurs nessa temporada tem sido a falta que faz Bruce Bowen. Sua saída da NBA tornou o mundo um lugar melhor, os pássaros cantam, as borboletas voam e as pessoas mandam dinheiro para o Haiti, mas sua defesa forte, suja e eficaz era essencial para o esquema tático da equipe. O Spurs tem uma impecável rotação defensiva e sabe colocar em prática muito bem uma série de defesas por zona, desde que a estrela adversária esteja sendo defendida no mano-a-mano pelo Bowen. A maioria das pessoas não imagina o impacto que sua aposentadoria causou na estrutura defensiva da equipe, e essa dificuldade já vem desde a temporada passada, quando ele não tinha mais físico para segurar os armadores adversários e começou a passar mais tempo no banco de reservas. Havia por baixo dos panos, em San Antonio, o sensacional "projeto Ime Udoka" que pretendia substituir Bowen por um jogador com as mesmas características. Udoka foi roubado do Blazers e cultivado com carinho por ser um excelente defensor capaz de marcar jogadores de todas as posições e ainda por cima acertar arremessos de três da zona morta - marca registrada de Bowen. Ainda não sei bem o que aconteceu, se o Udoka é pior do que parece, se ele não entendeu o esquema do Spurs ou se ele cutuca o nariz, o técnico Popovich é muito chato e acaba afundando uns jogadores sem que nunca saibamos o que está acontecendo. Mas o projeto obviamente foi abortado, o Udoka foi pra rua e o Spurs ainda não sabe como marcar Kobes, LeBrons, Nashs e Carmelos - o que explicita ainda mais as deficiências defensivas de Tony Parker e Ginóbili, que ficavam camufladas num sistema em que precisavam fazer menos e se posicionar mais.

As bolas de três pontos da zona morta também fazem uma falta brutal para o Spurs. Por muitos anos, foram um dos aspectos mais fundamentais da movimentação ofensiva da equipe. É impossível marcar o Duncan no garrafão, um armador penetrando, e conseguir cobrir as zonas mortas da quadra ao mesmo tempo. Não dá pra contar quantas vezes alguns times marcaram o Spurs perfeitamente, para então serem mortos pelos arremessos de três do Bowen, o cara de quem ninguém se lembrava (até ele quebrar seu pé). Quem assumiu essas bolas com sua aposentadoria, em geral, foi Roger Mason. Ele quebra um galho, mas além de sua inconsistência e tendência a fazer merda no final dos jogos, ainda há sua dificuldade com a zona morta. Mason é um bom arremessador de três pontos, mas prefere outras regiões da quadra para arremessar.

Esse simples fato explica o maior mérito e a maior dificuldade do Spurs: o técnico Gregg Popovich. Sem dúvida nenhuma ele desenhou um esquema maravilhoso, impecável, campeão, chato pra burro, que ganhou vários anéis de campeão. Mas o esquema não é maleável, não depende de que jogadores estão no time ou em quadra. O esquema é aquilo que ele é, cabe aos jogadores se encaixarem a ele. Quando o Tony Parker chegou na NBA, confessou que se focava nos contra-ataques porque era o único jeito de pontuar sem que o Popovich percebesse e ficasse bravo com ele. Quando penetrava no garrafão, as ordens eram para passar a bola para os lados - alimentando os jogadores de garrafão ou a zona morta - e não tentar uma bandeja. Quando arremessava de três, o Popovich surtava no banco de reservas, chegando ao ponto de limitar seus arremessos de fora para apenas um ou dois por jogo - se arremessasse mais do que isso, ele seria punido. Parker, então, comia pelas beiradas. Usava sua velocidade apenas nos contra-ataques, guardava aquilo que fazia de melhor porque não se encaixava na tática do time, e foi aos pouquinhos se soltando em quadra. Depois de um tempo, Popovich foi permitindo ao Parker finalizar mais, pontuar mais, mas nunca soltou as rédeas. O mesmo aconteceu com o Manu Ginóbili, mas como o argentino fazia suas maluquices para salvar o Spurs de situações terríveis, o Popovich foi aos poucos confiando nele - ainda que eu tenha visto ele ir parar no banco por algum drible mais plástico ou a insistência de tentar driblar a dupla-marcação. Lembro também de uma entrevista do técnico do Spurs afirmando que seu coração morria um pouquinho toda vez que o Ginóbili pegava na bola, mas que não tinha outro jeito. Aos poucos, foi dando certo.

Mas o resto do elenco, sem tanta moral, jogo de cintura ou personalidade, vai se anulando para encaixar no esquema do Popovich. O esquema é sempre o mesmo, o Spurs não era o time mais regular da década passada à toa. Todo jogo era perfeitamente idêntico ao anterior, o que garante ao time uma tranquilidade e segurança que permite estar perdendo por 20 pontos no último período e ainda saber que vai dar tudo certo. O Duncan não teria aquela cara de "vou tirar um cochilo no meu travesseirinho" se ficasse nervoso no final das partidas. Mas e quando o time não tem as peças para rodar o esquema? E quando é preciso mudar o jogo, quebrar um galho, lidar com as lesões? É aí que o Popovich se afunda e o Spurs despenca pelas tabelas.

Richard Jefferson foi trocado por dois contratos expirantes e todo mundo babou dizendo que o Spurs agora era forte candidato ao título. O problema é que Jefferson jogava bem no Nets no contra-ataque, usando sua velocidade, ao lado de Jason Kidd. Ainda assim, faltava agressividade e recursos para ser a primeira opção ofensiva, ele sempre se contentou em ser a segunda ou terceira. Nos seus melhores dias, era comum o pessoal debater se o Richard Jefferson conseguiria segurar um time sozinho (assim como se fala bastante do Tayshaun Prince) assim que passasse a ser a principal arma no ataque. No Bucks, sem Kidd e num jogo mais lento, não funcionou. Jefferson é limitado, seu arremesso é inconsistente, e sua defesa é apenas razoável - e isso quando ele está interessado em jogar na defesa. No Spurs, sua defesa deveria substituir Bruce Bowen, seus arremessos de três deveriam vir da zona morta. É claro que isso não funcionou, ele só serve se for a terceira opção de um time que corra muito e use sua capacidade atlética. Restringido pelo chato e briguento do Popovich, Jefferson foi apagando e passando a bola de lado ao ponto de terem que pedir por favor para ele ser mais agressivo. Quando passou a ser, o esquema tático do Spurs ficou todo bagunçado e o time piorou drasticamente. O mais incrível com o Jefferson é que, por causa disso, ele vem piorando seus números e suas atuações mês a mês, desde o começo da temporada. Esse é o problema desses esquemas que não se adaptam aos jogadores e exigem peças específicas: o Richard Jefferson não encaixou, então não há salvação. Pode dar a descarga.

Tá bom que ele veio pro Spurs quase de graça, o time não perdeu nada, mas os contratos expirantes mandados para o Bucks permitiriam à equipe de San Antonio brincar de contratar alguém da imensa lista de jogadores talentosos que terminam contrato nessa temporada. Nos últimos anos, essa tem sido a tônica do Spurs ao contratar jogadores: eles não perdem nada, mas deixam de ganhar muito. Richard Jefferson não funcionou e tirou deles a chance de conseguir algo melhor ao fim da temporada; Luis Scola era apenas uma escolha de segunda rodada que eles mandaram para o Rockets em troca de um jogador que preferiu voltar para a Europa; e a equipe deixou de draftar Josh Howard ou Leandrinho porque preferiu mandar a escolha pro Suns para não se comprometer financeiramente e ter grana para tentar contratar o Kidd (que no fim das contas preferiu ficar em New Jersey). Ou seja, o Spurs não perdeu nenhum grande jogador do seu elenco numa troca idiota, mas deixou de ter Leandrinho, Scola, e alguma estrela pro ano que vem.

Aliás, esse lance do Kidd não ter topado ir para San Antonio é sintomático: não apenas a cidade é famosa por ser meio chata (a cara do time!), mas o Popovich é famoso por ser um pentelho. Muitos jogadores sabem das restrições do sistema tático e além do medo de acabar não se encaixando, ainda tem a óbvia queda na produção e nos números do jogador, que dificultam um contrato depois. Quando o Kidd foi trocado para o Mavs e teve que se encaixar num esquema tático que lhe fazia tocar a bola de lado, ficou bem claro como grandes estrelas podem sofrer quando são mal utilizadas. Não acho que teria sido muito diferente no Spurs, o Kidd não teria nunca rendido como poderia em outros formatos, e nem acho que ele teria algo a acrescentar à equipe nesses moldes.

Essa busca constante do Spurs por regularidade, jogadores encaixados e constantes, tem sofrido ainda mais por culpa das contusões. Tony Parker já passou um tempão fora da temporada com uma torção no tornozelo, lesão grave no quadril, gripe e até uma intoxicação alimentar. Agora, como se não bastasse, acabou de quebrar a mão e deve passar até 6 semanas parado. O Ginóbili também se machucou e ficou doente, mas pelo menos agora está jogando em alto nível, assim como aconteceu com o Duncan. O tempo em que o time passa sem qualquer um dos três é desastroso, e só não foi pior porque o Spurs conseguiu bons imitadores para substituí-los. George Hill é um armador pirralho que lembra muito o Parker, mas é mais físico, mais forte e melhor defensor - e o mais importante, é obediente e o Popovich se apaixonou. O novato DaJuan Blair, que deveria ter ganho o prêmio de MVP no jogo dos novatos do All-Star, é um monstro no garrafão e segurou as pontas da equipe toda vez que o Duncan não jogou ou teve minutos limitados. Os dois são o futuro do Spurs e serão grandes jogadores, se encaixam no esquema tático e se sentirão em casa pela próxima década. Mas não há substituto para o Bowen, não há substituto para o Ginóbili porque faltam outros pontuadores na equipe. Richard Jefferson não serve em nenhum dos papéis, ele depende imensamente de um armador que corra e distribua a bola, coisa que o Parker nunca vai fazer e sequer faria sentido no modo com que joga o Spurs.

Uns anos atrás, eu sabia que o Spurs ganharia sempre do mesmo jeito, com as mesmas jogadas e a mesma defesa. Agora, cada jogo é uma surpresa, um tropeço diferente, uma lesão nova, um reserva com mais minutos, uma total falta de ritmo ou regularidade. Para um time que se acostumou a ser constante e sereno como a cara de bunda do Duncan, esses tempos de novidade são terríveis. A equipe precisa compreender que, pela idade avançada de seus jogadores, jamais terá de volta aquela constância se mantiver o mesmo elenco - sempre alguém estará contundido. Por outro lado, mudar o elenco é a parte mais arriscada de um esquema tático tão fixo. O Spurs parece preso num paradoxo terrível que me permite dormir tranquilo sabendo que eles não vão ganhar nada nos próximos anos. O único problema é que sem esse time chato para torcer contra, os playoffs vão ficar muito mais chatos! Não contem pra ninguém que eu disse isso, mas torço para que o Spurs se recupere logo. A primeira chance para isso acontecerá ao fim da temporada, quando o contrato do Ginóbili termina e a equipe terá que decidir se assina novamente o argentino ou traz outro jogador disponível. A questão é complicada, mas sabemos que desse jeito o Spurs vai mal das pernas. Manu pode até ter umas partidas sensacionais daqui pra frente e salvar a equipe, mas nos playoffs não há chances sem aquela consistência que fez história, sem a defesa que parou tantas vezes o Nash na base da porrada. O Spurs precisa de culhões para tomar decisões importantes, algo terrível de se fazer quando os torcedores são tão mal acostumados. Quem aí, torcedor do Spurs, está disposto a ver o time fazer mudanças drásticas e feder por uns tempos, e ainda seria capaz de acompanhar os jogos sem dormir ou tentar a forca?

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mente sobre a matéria

"Papai do céu, não me permita perder do Nets, amém."


Às vezes um time não tem os jogadores mais talentosos. Muitas vezes falta força física, ar nos pulmões, pernas jovens para correr de um lado para o outro da quadra, velocidade, e até coisas menos importantes, tipo saber jogar basquete. Mas um número enorme de partidas é decidido apenas com aquela coisa oval e esquisita que fica acima do pescoço e de que a Carla Perez nunca ouviu falar: a cabeça.

O Dallas Mavericks pode não ser um time perfeito, e eu vou continuar incrédulo e achando que eles não tem chances reais de ganhar um título, mas pelo menos eles podem se gabar de ser um time inteligente. Umas semanas atrás, escrevi um post sobre como a troca pelo Jason Kidd passava a fazer sentido graças ao técnico Rick Carlisle, que decidiu usar melhor o armador do que acontecia no antigo esquema tático, em que Kidd apenas passava a bola para o lado iniciando jogadas de isolação de Nowitzki e Josh Howard. O Devin Harris é um jogador fenomenal, tem uma velocidade absurda e pune times que não conseguem marcar armadores que infiltram sem parar, mas ele não é nenhum gênio da física moderna. Seus passes são descabidos e seu jogo é muitas vezes afoito, o oposto perfeito de Jason Kidd, uma mente de cientista maluco num corpo castigado pela idade.

Antes o Mavericks tinha problemas de defesa, já que apenas Shawn Marion é um defensor considerável no elenco, todos os outros fedem nesse quesito, e o Marion acaba prejudicando o ataque porque o Mavs gosta de jogar no contra-ataque mas atrás da linha de três pontos, onde seu aproveito vem sendo pífeo. Por isso, a troca com o Wizards foi tão importante: trouxe defesa, arremessadores de três pontos e versatilidade ao time. As novas aquisições teriam seu primeiro teste de verdade contra o Lakers, mas aí o Caron Butler teve uma reação alérgica a um medicamento e não conseguiu jogar. Todo mundo pergunta se o Mavs tem chances de título, mas no papel simplesmente faltam as armas necessárias: Kidd está velho, corre pouco e marca mal; sem Butler o titular foi DeShawn Stevenson, que caiu de qualidade rapidamente no Wizards e não acerta mais seus arremessos; Shawn Marion tem problemas até hoje para se adaptar à vida sem Steve Nash; Eric Dampier nunca mais jogou bem desde que assinou seu contrato milionário, é lento, pesado e parece que está jogando debaixo d'água quando tenta defender; Nowitzki é criticado pela sua defesa, por não atacar a cesta e por ser incomodado por defensores mais baixos e mais fortes do que ele. Como o Mavs pode parar Kobe, como impedir que Bynum e Gasol destruam no garrafão, como acompanhar a velocidade e a versatilidade do Odom, e quem do banco pode ajudar a equipe que não sejam simples arremessadores?

É nessas horas que a mente vence. O Mavs é um time experiente, focado, perfeitamente dentro de um esquema tático que finalmente envolve todos os jogadores sem ser previsível, e que coloca poder de decisão e controle do ritmo de jogo nas mãos do Kidd. Por isso, é um time com menos jogadas de isolação sem, no entanto, ter que aumentar desnecessariamente a velocidade da partida. É um time controlado, vivido, com experiência nos playoffs, e que de repente após as trocas começou a acreditar que pode ganhar um título. Não é aquela merda de "O Segredo", em que você acredita e o troço acontece, mas saber que você pode ganhar faz com que o time lute até o fim pela vitória. Se a vitória deveria estar vindo, perder é um absurdo que deve ser combatido, enquanto se a derrota é esperada, ter o traseiro chutado é comum e não provoca reações. O Mavs achou que deveria vencer o Lakers e venceu, com DeShawn Stevenson marcando bem o Kobe, Kidd tomando todas as decisões certas e Nowitzki simplesmente destruindo a partida. Lembra quando ele era previsível e só arremessava de longe? Passado. O Kidd soube quando acionar o alemão, que foi marcado por quase todo mundo do Lakers (Odom, Kobe, Gasol, Artest) e tinha uma surpresa guardada para cada um: terminou o jogo com 31 pontos, atacou a cesta, e cobrou 11 lances livres.

Na partida seguinte, contra o Hawks, o Mavs chegou a estar perdendo por 15 pontos no quarto período. Mas o time agora acredita que pode vencer, que deve vencer, e os jogadores são experientes e inteligentes. Jason Kidd pegou a bola nas mãos e assumiu o jogo: foram bolas de três, passes precisos, faltas cavadas, roubos de bola, rebotes ofensivos e uma mudança total da cara do jogo. E tudo isso com aquela corridinha migué que ele dá agora, sem nunca colocar a língua pra fora. Perdendo por 2 pontos a 1:30 do fim, o Jason Kidd mostrou que não é preciso ser atlético como o Josh Smith - que jogou um absurdo e fez a cesta que levou o jogo para a prorrogação - para conseguir uma cesta, nem ter o arremesso do Kobe Bryant para pontuar - o Jason Kidd ainda é chamado de "Ason Kidd" por não ter o "j" de "jumper", ou arremesso. Basta ser inteligente: vendo Mike Woodson, técnico do Hawks, dentro da quadra dando ordens à equipe (algo que todo técnico faz o tempo inteiro, nem adianta culpar o coitado), Kidd correu em sua direção, forçou um contato intencional mas moderado, e aí fingiu ter sido brutalmente atrapalhado. Foi o bastante para qualquer árbitro do planeta ser obrigado a marcar uma falta técnica no Woodson - que o Nowitzki cobrou numa boa e, claro, acertou. O engraçado foi ver vários jogadores do Hawks (e um assistente técnico) correndo para cima do Kidd, provavelmente para lhe dar uma surra, enquanto o Kidd mantinha um sorriso que escapava da cara séria que tentava manter, repetindo sem parar "Foi a coisa certa a se apitar".


Dá pra ler os lábios dele no vídeo acima reiterando como a arbitragem foi correta, e ele tem razão. A arbitragem foi inevitável, não dava pra fingir que ele não foi tocado pelo técnico (por mais que o Mike Woodson tenha tentado sair da frente, mas é que esses técnicos são velhos e fora de forma), e não tem nada mais inteligente em quadra do que tornar as coisas inevitáveis: das marcações dos árbitros aos passes precisos. A opção do Kidd pode não ter sido a mais correta do planeta, mas a arbitragem foi, o lance livre foi, a partida do Kidd foi. Foram 19 pontos, 16 rebotes e 17 assistências para o armador - nada forçado, tudo simples e inevitável. Fiquei pensando em como Devin Harris ficaria batendo para dentro do garrafão jogada após jogada, tentando cavar faltas, para diminuir uma diferença de 15 pontos no último período, e que talvez até desse certo, mas Kidd fez isso como apenas os mais experientes e inteligentes podem fazer. E foi parar nas nossas memórias e no YouTube com uma jogada genial e inesperada, digna de quem devora o livrinho de regras do basquete enquanto faz cocô todas as manhãs. O Devin Harris se tacando pra dentro do garrafão teria, inclusive, tirado o ritmo do Nowitzki, coisa que o Kidd consegue manter mesmo quando dá seu showzinho particular. Foram 37 pontos para o alemão, ele engoliu sozinho o Hawks na prorrogação, mas é a calma do Kidd que permitiu tudo isso. Dá pra ver nos olhares que o time do Mavs troca durante a partida que todos eles sabem que são experientes, confiam uns nos outros, apanharam na carreira, e que agora é a hora de vencer. Uma mentalidade capaz de levar um time ainda limitado rumo a um anel de campeão.

O contrário está acontecendo com o Celtics. Na primeira vez em que eles enfrentaram o Cavs após as trocas que levaram Jamison para Cleveland, parecia que estavam preparados para a derrota. No quarto período, Mo Williams acertou duas bolas de três seguidas, o Ray Allen errou feio uma bola marcado por um LeBron furioso, e no contra-ataque James deu um passe para a terceira bola de três em sequência de Mo Will. Naquele instante o Celtics simplesmente desistiu de um jogo que, até então, parecia disputado. Dois anos atrás o Garnett teria arrancado o braço do LeBron, palitado os dentes com os seus ossinhos, e babado sangue gritando com cada companheiro porque não deram a vida para tentar reverter o resultado. Agora, Garnett parece cansado, exaurido, comedido, triste, e o time faz apenas o essencial. Ainda jogam muito, defendem bem, tem um dos elencos mais talentosos da NBA, mas falta cabeça, intensidade, a mentalidade de quem sabe que vai vencer. Parece reinar na equipe o medo de perder - afinal, Ray Allen, Garnett e Pierce (atualmente contundido) estão ficando velhos, lesionados, e seus contratos, prestes a terminar, podem desmanchar a equipe - além de um desinteresse por se doar ao jogo que só acontece em vestiários problemáticos. Pra mim parece óbvio que Garnett foi criticado demais por ser muito exigente com os companheiros (provavelmente criticado até dentro da equipe) e agora não é mais tão vocal, além de ter voltado de contusão mais frustrado com seu próprio jogo e desanimado com os rumos que a equipe toma sem ele. A simples presença de Rasheed Wallace no Celtics tem também um peso enorme nesse desânimo: ele é um jogador espetacular, poderia ser uma estrela, mas joga como se não desse a mínima, não se esforça no Celtics, não consegue dar o suor que só aparecia quando jogava "pela sua família" (ou seja, o Pistons), e o resto do elenco parece não se conformar. Ele toma frias terríveis quando erra seus insistentes arremessos de três, olhares furiosos quando faz cagadas na defesa, e parece não aceitar as críticas que recebe dos companheiros. É um clima de bunda, uma mentalidade de quem agora acha que perder é normal quando antes uma derrota qualquer - mesmo para os melhores times da NBA - era inconcebível.

Por isso foi tão engraçado ver como o Celtics, que agora acha perder uma possibilidade, encarou o Nets, que agora acha vencer uma possibilidade. Já que por algum motivo bizarro que nem os melhores psicólogos do mundo poderiam explicar eu assisti uma caralhada de jogos do Nets nessa temporada (possível traço de masoquismo?), sempre insisti que eles não tem um time tão ruim a ponto de terminarem a temporada com a pior campanha de todos os tempos. Pelo contrário, o time é bom o bastante para um bom punhado de vitórias, deveria estar quebrando um belo de um galho contra os times mais-ou-menos da NBA. Mas é que com as trocentas contusões que assolaram o time no começo da temporada, a pirralhada do Nets sem confiança, sem cabeça e sem experiência começou a achar que tinha tudo ido pra merda. Todos os jogos já estavam perdidos antes de começar, não havia qualquer esperança, a vida era horrível e o melhor era sentar num canto e ouvir NX Zero. Com o tempo, uma melhora aqui, uma melhora ali, um bom psicólogo acolá, o Nets foi começando a achar que poderia vencer, talvez um dia quem sabe. Estão melhores a cada jogo, evoluindo aos poucos, mais confiantes. Jogaram uma partida impecável contra o Celtics, achando que dava pra ganhar, e quer saber? Ganharam.

O Celtics de antes nunca permitiria essa derrota, Garnett degolaria os juízes responsáveis pelo placar e mudaria o resultado na unha se fosse preciso. Mas não, jogou silenciosamente (e bem!) e assistiu a seu time apático que jogou como sempre, como se fosse qualquer outro jogo, contra qualquer outro adversário, e como se eles não estivessem perdendo para a pior campanha da NBA. Ficaram arremessando de longe, sem se aproximar do garrafão (a fobia de garrafão do Rasheed se alastra pela equipe), enquanto o Nets batia para dentro em toda posse de bola. O Nets cobrou 41 lances livres, o Celtics cobrou 11. Nisso o jogo já estava perdido, mesmo se as bolas de longe do time verde tivessem caído. Mas não caíram, e aí está: um time vencido por sua mentalidade, enquanto o Nets passa a vencer por ter uma mentalidade correta. A cachola acima do pescoço tornando possível superar a falta de talento. É por isso que o Jason Kidd vai estar paraplégico, preso numa cama de hospital, e ainda vai dominar a NBA com sua telecinese paranormal. O Celtics não tem chances de título nessa situação, e agora eu tenho medo do Mavs. Podem não ganhar um anel, mas pelo menos sabem resolver alguns sudokus - e isso, na NBA, já é muito raro.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Botão do apocalipse

Caron Butler chora uma lágrima de sangue pelos seus companheiros do Wizards


Durante o fim de semana do All-Star, o Wizards resolveu apertar o botão do apocalipse. Com 17 vitórias e 33 derrotas, o time tem a segunda pior campanha do Leste e a quarta pior de toda a NBA. A equipe aturou o Gilbert Arenas contundido por muito tempo com a esperança de que, com ele de volta, pudesse competir pelo título do Leste. Afinal, Arenas, Jamison e Caron Butler são todos All-Stars e não é qualquer time que consegue ter tantas estrelas juntas ao mesmo tempo. Mas nessa temporada o Wizards aprendeu duas coisas: a primeira é que contar com o Arenas é impossível, porque ou ele vai estar contundido ou vai ter caído numa piscina de xarope, bebido água da privada ou colocado pó-de-mico na cueca de algum companheiro de equipe. A segunda coisa é que nas raras vezes em que Arenas, Butler e Jamison estão juntos em quadra, eles simplesmente não são muito bons. Falta de química, entrosamento, esforço, defesa, não faltam razões para o fracasso de um trio que parece nunca ter entendido o papel de cada um em quadra e que nunca se levou muito a sério. Vendo que não adiantava esperar pela volta do Arenas, então, o Wizards criou um par de bagos, esgotou a paciência, apertou o botão do apocalipse e resolveu se livrar dos jogadores. Como o Arenas ganha 16 milhões e o Jamison ganha 11 milhões (e vai ganhar 15 num contrato que dura ainda mais duas temporadas, fora essa) só sobrou o Caron Butler para interessar algum time na NBA.

Com o Butler no mercado, o Mavs ficou com água na boca. Adicionar o Gooden e o Shawn Marion não adiantou bulhufas particularmente porque o resto do time não defende grandes coisas e porque o Josh Howard cai de produção mais e mais a cada ano. Não faz muito tempo ele era um pontuador excelente com momentos geniais na defesa, com roubos e tocos decisivos e potencial ilimitado. Mas depois de sua polêmica afirmação de que fumava maconha nas férias, problemas com a torcida do Mavs e uma complicada cirurgia no tornozelo durante as férias, ele nunca mais foi o mesmo, joga sem vontade e parece um jogador comum com um salário muito gordo. Trocá-lo por um ladrão de bolas (talvez o melhor de toda a NBA) com mais talento ofensivo que o Josh Howard não foi uma decisão difícil, até o Isiah Thomas conseguiria acertar nessa.

De brinde, o Wizards ainda mandou DeShawn Stevenson, que está velho, se acha a última bolacha do pacote, mas ainda é um defensor razoável, e o Brandon Haywood, que é um ótimo defensor no garrafão e tem tudo para acompanhar melhor o ritmo do Mavs no jogo de transição. O atual pivô do time, Erick Dampier, tem cada vez mais problemas nos joelhos e precisa ser poupado em jogos seguidos, então a chegada do Haywood é essencial para o garrafão do Mavs. O Dampier até que quebra um belo de um galho, especialmente com a ajuda de Jason Kidd (que faz qualquer um render melhor no ataque), e bem provavelmente vai continuar sendo o titular da equipe. Mas o Haywood vai acabar tendo mais minutos do que ele, porque embora nunca tenha sido um gênio nos rebotes, sempre teve um bom tempo de bola e pés bem rápidos na defesa. O pessoal em Dallas já fala de planos de usar os dois ao mesmo tempo contra garrafões mais fortes, o que torna a equipe muito mais versátil.

Para isso, o Mavs teve que perder também o Drew Gooden, mas ele não faz falta para a equipe. O Gooden é muito bom, mas o coitado sempre teve que jogar improvisado a vida inteira. No Grizzlies, equipe que o draftou, tinha que jogar de ala-armador porque não tinha outro mané para ocupar a vaga (o coitado teve que aprender a arremessar de três, sem sucesso), no Cavs e no Mavs tinha que quase sempre jogar de pivô para tapar buraco. Seu jogo sofre muito embaixo da cesta, ele prefere ficar nos arremessos de média distância, mas no Mavs seu talento nos arremessos era meio inútil frente à quantidade de arremessadores na equipe, especialmente o Nowitzki que também joga fora do garrafão sempre que pode. O resultado era o Gooden sendo pago para brigar por rebotes e defender o aro, coisa que ele não faz muito bem e que Haywood vai executar com muito mais facilidade. O Mavs manda também o Quinton Ross, bom defensor de perímetro, e o James Singleton, um ala brigador para dar pancada quando tiver briga com a torcida ou quando alguém não pagar uma dívida.

Pro Wizards, a troca é para começar de novo. Os contratos de Ross e Singleton são praticamente simbólicos e, assim como os contratos de Drew Gooden e Josh Howard, terminam nessa temporada. De repente, com apenas uma troca, o time entra na brincadeira para contratar alguém na imensidão de estrelas que estarão desempregadas ao fim dessa temporada. É um excelente ano para reconstruir, tendo em vista a quantidade de talento disponível, e o Wizards vai ter uma graninha para tentar a sorte. E, por enquanto, só pra não perder demais, fica torcendo para o Josh Howard mostrar que todo o potencial que se via nele não foi ilusão de óptica.

Na tentativa de reconstruir a equipe antes que se diga parangaricutirimirruaru, o Jamison também está disponível para ser trocado e, se conseguirem mandá-lo por mais contratos expirantes, o Wizards vai poder construir um time inteirinho novo com a grana. Mas vai ter que ser em volta do Arenas, porque dele não vai dar pra se livrar. Já cogitam que o Jamison vá para o Cavs ou para o Celtics, por exemplo.

Essa é uma daquelas trocas que pode parecer um assalto, mas que deixa os dois lados felizes. O Mavs se transformou num time muito mais forte. Agora Shawn Marion, Butler e Haywood podem tornar o Mavs uma equipe mais defensiva, Butler vai render tudo aquilo que se esperava de Josh Howard no ataque para desafogar Nowitzki (que não é das estrelas mais constantes em pontos), e o garrafão fica mais versátil porque terá dois jogadores capazes de brigar lá dentro, ao invés de ter um ala improvisado. Ainda acho que não é o bastante para que o Mavs pense em título, mas a aquisição de Haywood é essencial para um eventual confronto com Lakers e Nuggets, donos de um garrafão que faz todo o resto do Oeste fazer xixi na cama. O Mavs tem agora um elenco muito mais forte do que tinha na temporada passada, prova de que seu dono Mark Cuban não poupa verdinhas em busca de um título. O teto salarial dessa temporada é de 57 milhões, e o Mavs passa a pagar 90 milhões! São mais de 30 milhões acima do limite, o que resulta em 30 milhões a mais gastos só com multas (daria pra estacionar uma caralhada de carros fora da vaga). Com o esquema tático favorecendo um pouco mais Jason Kidd e um elenco cada vez mais grandioso ao seu lado, esse Mavs deve ser levado a sério, ao contrário de ser um time invisível que todo mundo sabe que não dá em nada como era até pouco tempo atrás. Ainda não acredito, sou um incrédulo infiel sujo, mas quero mais é que essa equipe prove que estou enganado. Agora, ao menos levo o time a sério. Vai demorar um pouco para todas as peças encaixarem, Haywood e Butler não conseguiram treinar com a equipe ainda, e nesse Oeste mais disputado do que mulher sem gonorreia no carnaval é bem capaz que percam várias posições na tabela, mas para os playoffs estarão firmes e fortes. Enquanto o Wizards assiste tudo em casa, tentando garantir que o Arenas não apronte nenhuma e convencendo alguma outra estrela para jogar com o armador. Vai ser difícil, mas pelo menos foi corajoso - melhor do que o Pistons que não decide se renova ou não renova, manteve o Hamilton e torrou a grana antes de poder brincar na temporada que vem. Funhé.