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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O campeão dançou


O Tyson Chandler tem uma mão esquerda que flutua sozinha

Assim que o Tyson Chandler foi para o Knicks por um contrato de 14 milhões por ano, coisa de estrela, comparei seu caso com o de Kendrick Perkins no Celtics: o valor pago não é tanto para aquilo que o jogador pode fazer de verdade, mas por aquilo que ele representa, para a importância que pode ter na transformação de uma equipe. A saída de Perkins de Boston simbolizou o fim de uma família, de uma mentalidade, e a equipe perdeu uma âncora defensiva que antes de sua saída nem sequer tínhamos certeza de que existia. A chegada de Perkins no Thunder (e do Tony Allen no Grizzlies) foi como a chegada simbólica de uma nova atitude. Ambos instituíram em suas equipes um regime de reuniões de vestiário, de implicação de responsabilidades, e de ajuda mútua constante. Quando o Knicks suou as pitangas para conseguir Chandler, era isso que julgava estar adquirindo.

O lado do Knicks foi amplamente analisado por aqui. Eu só não imaginava que, assim como o Celtics sentiu a saída do Perkins, o Mavs sentiria a saída do Chandler. Então é hora de analisar o lado dos atuais campeões, até agora incapazes de conseguir uma vitória na temporada sem o seu antigo pivô no elenco.

Antes de mais nada, é importante lembrar que o Mavs não foi uma dessas super-equipes montadas de repente para disputar o título e que se sagrou campeã só porque conseguiu gastar mais grana do que as outras. A grana a ser gasta sempre esteve aí, desde que o bilionário nerd Mark Cuban assumiu a franquia, mas o elenco tem sido montado há uma década com resultados diversos. Às vezes, o excesso de grana até atrapalha um pouco: houveram tempos em que qualquer jogador bom dando sopa recebia um contrato do Mavs, que acabava adicionando peças bastante aleatórias e tinha que se virar para dar minutos para todo mundo. Adições de uma temporada para a outra nunca faltaram, aparecem às dúzias, mas não é sempre que elas aparecem com algum critério, tentando assumidamente arrumar algum buraco da equipe. Antes da temporada passada começar o Mavs tinha a consciência de que precisava de um pivô defensivo para segurar as pontas, e aí - porque o dinheiro não falta - acabou adicionando tanto o Brandon Haywood quanto o Tyson Chandler. O Haywood se mostrou um quebra-galho, mas o Chandler acabou por tornar real algo que a franquia sabia possível mas não sabia como executar: uma defesa matadora.

O DNA do Mavs está ligado ao pai bizarro Don Nelson, então é uma equipe em que o primeiro instinto é de jogar na  velocidade, no contra-ataque e abusar dos arremessos do perímetro. Só com a defesa instituída pelo técnico Avery Johnson, no entanto, o jogo ofensivo de velocidade adquiriu consistência. Times como os do Don Nelson ou do Mike D'Antoni abusam da velocidade em todas as situações, repondo a bola o mais rápido possível, correndo para o ataque e tentando pegar os adversários com a defesa desprevenida ou desorganizada. É comum que, impondo esse ritmo de jogo, eventualmente um armador esteja sendo marcado por um pivô, e com decisões rápidas no ataque é possível se aproveitar desses deslizes. O problema é que trabalhar em tanta velocidade aumenta o número de erros, de desperdícios de bola, de arremessos forçados, e ainda cansa os jogadores fisicamente. É complicado manter esse ritmo no ataque e ainda ter disposição física para defender, e quando forçados a jogar em meia-quadra por equipes que conseguem diminuir a velocidade do jogo, essas equipes não sabem como pontuar e acabam se baseando apenas em jogadas forçadas do perímetro. Os times do Don Nelson sempre foram pragueados por decisões ruins tomadas especialmente nos momentos cruciais das partidas, quando é importante saber diminuir o ritmo e ter uma bola de segurança. Já as equipes do Mike D'Antoni, que tomavam boas decisões porque contavam com o Steve Nash, sempre tiveram problemas contra as equipes como o Spurs, que impõe um ritmo mais lento de jogo e forçam os adversários a ter que trabalhar uma jogada.

O Mavs, então, nunca foi um desses times que rouba a bola na defesa e se aproveita do contra-ataque. A correria independia da defesa, era constante, e no caso do Mavs sempre terminou em bolas rápidas de 3 pontos. Quando Avery Johnson melhorou a defesa da equipe, começou uma tímida cultura de contra-ataques, mas ainda assim sempre houve muita dificuldade em jogar sem ser na velocidade. Em geral, quando forçado a jogar na meia-quadra, o Mavs sempre usou jogadas simples de isolação, quase sempre com o Nowitzki. É por isso que o Jason Kidd teve tanta dificuldade em se encaixar no Mavs: sem uma defesa capaz de gerar contra-ataques constantes, como aqueles em que estava acostumado nos tempos de Nets, grande parte da sua função era apenas passar a bola para o lado até que alguém fosse isolado. Definitivamente não era a melhor maneira de usar suas habilidades.

Nowitzki é o jogador perfeito para um basquete lento, cadenciado, mas incapaz de defender de maneira sólida; Jason Kidd  é perfeito para um basquete de velocidade, focado nos contra-ataques, e que depende de uma defesa feroz que cause erros do adversário. O Mavs nunca foi um time que se encaixa muito bem, como podemos ver, as peças sempre chegaram aleatoriamente e o Kidd não foi exceção, mas jogadores talentosos sempre dão um jeito de funcionar juntos.

Tyson Chandler foi mais uma peça aleatória, mas sua capacidade atlética no garrafão e sua mentalidade defensiva permitiu que o Mavs se concentrasse na defesa do perímetro, afunilando os adversários para o miolo do garrafão, onde o Chandler cuidava do resto. De repente o Mavs tinha um plano defensivo eficiente contra todas as equipes, os jogadores adversários passaram a ter medo de infiltrar no garrafão, e até o Kobe fez xixi nas calças e passou uma série inteira dos playoffs arremessando do meio da quadra pra não ter que se aproximar do aro. O Mavs se tornou um time orgulhoso defensivamente, solícito, forte, e que viu seu ataque em velocidade ser finalmente eficiente de verdade. Com mais rebotes, mais tocos, mais erros forçados, o Mavs conseguia impor mais correria, encaixar mais bolas de 3 pontos e não ter que depender tanto das jogadas de isolação. Aquilo que a equipe procurou desde o primeiro segundo em que o Don Nelson foi mandado embora só se consolidou com a chegada do Chandler, e aí o time foi campeão. Grana pra burro, dá pra contratar todo mundo do planeta, mas a coisa só funciona de verdade quando um plano de quase uma década ganha de repente as peças certas, e quando aquela semente do Don Nelson pode ser usada em toda sua potência com uma defesa que a permitiu florescer.

É uma história linda, pode virar filme com o Selton Mello ou novela do SBT, mas pelo jeito o Mark Cuban não entendeu muito bem a situação. Parece ter considerado que suas adições aleatórias à equipe podem continuar, que quem for embora pode ser substituído por outros jogadores aleatórios que estiverem disponíveis. Não percebe como a caminhada do Mavs ao título não foi por causa da grana, mas sim um longo processo até que os jogadores certos tornassem possível o plano tático certo. Deixando Tyson Chandler sair e trazendo outros caras nada a ver, como o Vince Carter, todo aquele longo processo foi para o saco.

Eu nem tenho nada contra o Vince Carter, pelo contrário. Acho o Carter um exemplo de jogador que foi capaz de se reinventar quando tantos outros, supostamente mais talentosos, não conseguiram. Todo mundo deve se lembrar daquela anedota do Carter nos tempos de Raptors, enfrentando o Celtics. Puto da vida querendo ser trocado, insatisfeito com seu time, Carter perdia o jogo por apenas um ponto com um par de segundos sobrando no cronômetro e pediu um tempo técnico para que sua equipe montasse uma jogada. Ao voltar do tempo técnico, o Carter passou na frente do banco do Celtics e falou algumas palavras. Diz a lenda que aquelas palavras eram exatamente qual jogada o Raptors iria fazer naquele arremesso final, o Celtics então defendeu aquela jogada como se soubesse o que iria acontecer e o Raptors perdeu o jogo. A anedota queimou o Carter feio, ficou conhecido como jogador vendido, marrento, estrelinha e causador da fome na África. Quando foi para o Nets jogar com Jason Kidd, deu uma caralhada de arremessos imbecis no final dos jogos, querendo ganhar tudo sozinho. Mas os poucos foi se acalmando, entendendo seu papel na equipe, e quando o Nets resolveu mandar todo mundo embora para se reconstruir, o Carter acabou sobrando por lá. Nem por um segundo reclamou de nada, não pediu para ser liberado ou trocado, não reclamou de passar longos períodos no banco de reservas para que os novatos da equipe jogassem, e o mais importante: não dedou mais nenhuma jogada nos segundos finais. Pelo contrário, todas as notícias vindas de New Jersey dizem que Carter tornou-se um líder no vestiário, ajudava os novatos, passou a obedecer o polêmico esquema tático (que era medonho, admito) e liderava pelo exemplo. Vince Carter ainda está na NBA, mesmo velho e muito longe do potencial que um dia teve, quando era uma das grandes estrelas da liga. Enquanto isso, companheiros da sua época como Marbury, Steve Francis e Allen Iverson, todos tão bons ou melhores do que ele, viraram farofa porque foram incapazes de mudar suas imagens perante a liga. O Carter é bom moço, maduro, focado e tem um emprego. Como isso aconteceu eu não sei, mas é mérito total dele numa época que expurgou como câncer todos os jogadores que ousavam querer brilhar mais do que os outros.

Mas esse Carter, por mais bacana que tenha se tornado, não traz nada de que o Mavs precise. No máximo o Mark Cuban deveria sair com o Carter para tomar um suco e comer um sanduíche, não precisa contratar o sujeito. Muitos dizem que o Carter é tão amaldiçoado quanto o Clippers, e que nenhum time em que ele pise jamais conseguirá ser campeão. Mesmo se não for o caso e o Carter não tiver sido amaldiçoado pelo Valdemort, ainda assim não é uma aquisição que supra os buracos que o Mavs enfrenta. Falta à equipe um pivô à altura do Chandler, capaz de intimidar a infiltração dos adversários, e falta também um jogador capaz de segurar a bola e costurar a defesa agora que JJ Barea escafedeu-se. O JJ Barea não é nenhum gênio, aliás sempre desconfiei que ele jogava melhor justamente nas vezes em que esquecia o cérebro na geladeira de casa, então é fácil substituí-lo - o próprio Roddy Beaubois, que volta de lesão, tem tudo para cumprir bem esse papel descerebrado. Mas sabe quem não tem condições de ficar costurando defesas e atacando a cesta? Vince Carter e seus joelhos de farinha. No máximo será um arremessador de luxo na equipe, algo que o Mavs já tem aos montes.

Mesmo a aquisição do Lamar Odom, que foi praticamente de graça depois que a troca do Lakers com o Hornets foi anulada, simplesmente não funciona - e por vários motivos. Primeiro, o Lamar Odom tem sérias dificuldades em se focar em quadra. Quando está concentrado e motivado, ele é um dos jogadores mais completos da NBA e um perigo constante no ataque porque seu tamanho e sua velocidade não casam com nenhum marcador adversário - ou os jogadores são muito menores do que ele, ou são lentos demais para acompanhar suas infiltrações rumo à cesta. O problema é que os torcedores do Lakers sabem muito bem quão difícil é o Odom estar com a cabeça no jogo, ele facilmente parece desinteressado, toma decisões estúpidas e se torna quase invisível em quadra. Trocado da equipe em que passou os últimos anos, sentindo-se indesejado, mandado para a equipe rival, e além de tudo para longe da cidade em que vive sua nova esposa, a Khloe Kardashian. Como diabos alguém esperava comprometimento do Odom frente a tudo isso? Não é de se espantar que ele tenha chegado tão fora de forma que foi obrigado pelo Mavs a treinar por duas horas, sozinho, no único dia que o time teve de descanso desde que a temporada começou. E não foi só isso: também foi obrigado a chegar algumas horas antes de seus companheiros no jogo contra o Thunder para continuar seus treinamentos físicos. O Odom está uma bolinha desmotivada, não serve pra nada.

O segundo motivo pro Odom não dar certo nesse Mavs é que não existe posição em que ele possa jogar. Em sua posição natural joga o Nowitzki, que deve sentar o mínimo possível. Como reserva do Nowitzki, o Odom teria como função ser isolado e arremessar, justamente o ponto fraco do seu jogo. Caso jogue como ala de força e o Nowitzki seja rebaixado para pivô, o Mavs passa a ser uma equipe ainda mais medonha em parar e intimidar infiltrações adversárias, comprometendo na defesa. Se jogar apenas como ala, Odom terá que defender grande parte das estrelas da NBA, algo que não conseguiria fazer e que atualmente é função de Shawn Marion. Vindo do banco, o papel de pontuador e de armador vai para o Jason Terry, e o Odom seria apenas um reserva secundário. Cabe a ele, então, uma função ainda menor do que tinha no Lakers ou então uma função enorme que vai comprometer o garrafão e o funcionamento da equipe que foi campeã da temporada passada.

O Lamar Odom veio de graça e é um belo jogador, Playboy dada não se olha os dentes, mas às vezes você dá de frente com a Playboy da Mara Maravilha e percebe que é melhor ter cautela se não quiser ter sua infância traumatizada por toda a vida (experiência própria). Odom só terá espaço nesse Mavs se houver um chato trabalho de reconstrução do funcionamento tático, algo que não aconteceu sequer quando o Jason Kidd chegou. Será que Odom é talentoso e focado o bastante para se adequar à equipe, ao que precisam que ele faça, e conquistar seus minutos? A resposta veio rápido: em seu primeiro jogo com o Mavs, completamente fora de forma, Odom reclamou do juíz e foi expulso rapidinho. No segundo jogo, errou as 5 bolas de três pontos que tentou (acertando só um de dez arremessos de quadra). No terceiro jogo, errou as 4 bolas de três que tentou (acertando 2 dos seus 11 arremessos de quadra). Temos então um Odom fora de forma que só arremessa uns tijolos do perímetro sem parar.

Mas também não é como se o resto da equipe estivesse fazendo muito diferente. Com uma defesa que não força erros, não tapa o aro e não consegue rebotes, o Mavs acaba dependendo de novo de jogadas de isolação e de arremessos de três pontos forçados. Contra o Heat, o Mavs tomou 44 pontos no garrafão, pegou 20 rebotes a menos do que o adversário, e tentou 28 bolas de três pontos (acertando 9). No segundo jogo, pequena melhora: foram "apenas" 40 pontos tomados no garrafão contra o Nuggets, acertando 8 das 27 bolas de três pontos que tentou.

O terceiro jogo, comentado pelo Denis no resumo da rodada de ontem, foi mais promissor: o Mavs conseguiu apertar mais a defesa e forçou muitos erros do Thunder. O problema é que o Thunder já mostrou que basta forçar o Westbrook a jogar em velocidade para que ele cometa 8 bilhões de erros por jogo, colocando tudo a perder, então há pouco mérito do Mavs. No resto, tudo igual: levou 36 pontos no garrafão e acertou 9 das 26 bolas de três pontos que tentou.

O ataque tenta se arrumar como pode, Delonte West entrou bem no time titular e foi capaz de girar mais a bola e criar algum espaço para os arremessos. Nowitzki continua sendo isolado, criando seus pontos, e encontrando companheiros livres no perímetro. Mas não se fala em outra coisa nos vestiários a não ser na defesa do Mavs que foi embora: teve o Nowitzki recentemente dizendo que é difícil jogar em velocidade quando não se consegue rebotes ou erros adversários, teve o técnico Rick Carlisle dizendo que terá que ensinar defesa tudo de novo para sua equipe, melhorar seu próprio trabalho, começar de novo.

Um time campeão capaz de começar a temporada com 3 derrotas seguidas, parecendo perdido em quadra e regredindo quase uma década em seu estilo de jogo? É pra já. Ficamos então com uma lição valiosa: Tyson Chandler não é gênio, não vai descobrir a cura da AIDS, não é o melhor defensor da NBA; mas se você finalmente monta um elenco capaz de colocar em prática um estilo de jogo que foi campeão da NBA, agarre esse elenco com unhas e dentes e dinheiros. Porque acreditar que dinheiro é capaz de trazer outras peças, reposições quaisquer, e que ninguém vai sentir falta dos jogadores que forem embora, isso é furada. Vimos com o Clippers que dá pra formar um bom time mesmo sem depender da grana. Agora vimos com o Mavs como dá pra jogar um time no lixo apesar de ter grana saindo pelas orelhas. Se não houver um reforço nesse garrafão, se o Mavs não encontrar um modo de retomar a defesa que lhe levou ao título, essa será uma temporada perdida para Nowitzki e seus amigos.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Preview 2010-11 / Golden State Warriors

Don Nelson conta aquela piada do "A-saltante"



Objetivo máximo: Chegar, suando, aos playoffs
Não seria estranho: Acabar em último do Oeste
Desastre: Não ter a primeira escolha do próximo draft

Elenco:

Golden State Warriors
Titulares
Reservas
Resto
PG
Stephen Curry
Jeremy Lin*
SG
Monta Ellis
Charlie Bell
Rodney Carney
SF
Dorrell Wright
Reggie Williams
Brendan Wright
PF
David Lee
Ekpe Udoh*
Vlad Radmanovic
C
Andris Biendris
Dan Gadzuric


Técnico: Keith Smart

Uma das coisas que mais nos perguntam no formspring do Bola Presa é quando o Don Nelson vai se aposentar. Há uma sensação constante, por entre os três ou quatro torcedores do Warriors que existem por aí, de que a única coisa que impede a equipe de ser campeã é o técnico louquinho. Agora ele  está oficialmente dando o fora, demitido por uma franquia desesperada por um novo começo, e os torcedores poderão finalmente respirar aliviados. Quer dizer, até perceberem que o Warriors vai continuar mais ou menos a mesma coisa sem ele.

Na temporada passada, o Denis escreveu um perfil fantástico sobre Don Nelson, o gênio que inova sem parar na quadra de basquete, enlouquecendo seus adversários enquanto enlouquece também seus próprios jogadores ao não lhes dar padrões ou critérios. Suas constantes experimentações, cada vez mais ousadas conforme os resultados foram piorando nos últimos anos, tornaram o Warriors motivo de piada. Ao invés de parecer inovador, enfrentar pela décima vez um time que não defende e tem armadores improvisados no garrafão dá a impressão de vitória fácil, de que o outro time está fazendo piada ao invés de tentando a vitória. Tudo, claro, é simples questão de resultado: se o time vence com um armador jogando de pivô, é genialidade do técnico; se perde diversas vezes seguidas, inventando outras táticas ainda mais estranhas, é maluquice do técnico. É tipo naquele filme "Bud, o cão amigo": se você sai vencedor usando um cachorro em quadra, vai virar até filme da Disney, caso contrário é apenas a ideia mais idiota que alguém já teve depois de um cão que é policial. Nesse Warriors com péssimos resultados e assolado por lesões, as instromissões do Don Nelson pareciam, por isso, brincadeira de cientista maluco ou de Feira de Ciências de sétima série. Ao perderem a efetividade, as táticas deixaram de trazer vitórias e ajudaram a desmoralizar o time. Apesar de sua genialidade, há tempos não fazia sentido mantê-lo, o estranho mesmo é que tenha durado por tanto.

Para substituí-lo, o escolhido foi seu assistente técnico Keith Smart. Sua pequena experiência como técnico principal inclui um dos piores times de todos os tempos, o Cavs de 2002-03, com Smush Parker, Dajuan Wagner, Ricky Davis e Darius Miles - aquele time que os torcedores, de verdade, levavam cartazes de "Percam por LeBron" para o ginásio. É difícil saber como será ter um elenco um pouco melhor em mãos, mas dá para supor que o Warriors não será muito diferente. Keith Smart já era o responsável por organizar a defesa (ou seja, tomar uma cafezinho), coordenava a maioria dos treinos e aprendeu todo o sistema de Don Nelson nos últimos 6 anos. Terá uma chance de mostrar que pode ser o técnico do futuro e provavelmente deve dar aos jogadores papéis mais definidos e colocar a pirralhada para jogar, mas em matéria tática deve ficar muito próximo do velhinho maluco - e agora desempregado.

...

O elenco do Warriors é interessante e bastante versátil. Stephen Curry provou com a seleção americana que é um dos melhores arremessadores do planeta, enquanto Monta Ellis é um dos melhores armadores vivos quando se trata de finalizar perto da cesta. No ataque, quando estão um ao lado do outro, tornam a equipe um pesadelo para as defesas adversárias e são o segundo melhor motivo para ver todos os jogos Warriors (o primeiro melhor motivo é que os jogos do Warriors costumam ser os últimos da rodada a começar e quem tem League Pass - e insônia - não tem outra opção a não ser dar uma olhada). A princípio Ellis achou que seria ridículo jogar ao lado de Curry, já que os dois são anões de circo, externou seu desgosto para seu companheiro de equipe e não escondeu a frustração quando compartilharam da mesma quadra. No entanto, Stephen Curry foi ganhando a confiança de Ellis aos poucos, mostrou que é um dos mais promissores armadores da liga, e agora os dois sabem que podem jogar juntos e estão ansiosos por uma temporada inteira lado-a-lado pontuando como malucos. O problema é que essa união mostra de forma bem clara o motivo por trás das táticas doidas de Don Nelson.

Pra mim, Don Nelson se encaixa naquele mesmo saco de farinha do Mike D'Antoni, em que o esquema tático parece ruim apenas porque ele esconde um elenco que seria ainda pior sem ele. Esse Warriors joga com tanta velocidade e ignora tanto a defesa simplesmente porque não tem os jogadores adequados para um basquete eficiente ou defensivo. Colocar Monta Ellis e Stephen Curry ao mesmo tempo em quadra é pedir para não ter qualquer defensor no perímetro, o que obriga o time a correr mais e tentar compensar no ataque. O garrafão do Warriors agora é composto por Andris Biedrins, Dan Gadzuric, Luis Amundson e David Lee, todos jogadores com limitações ofensivas muito sérias, especialistas em rebotes, mas que não são exatamente grandes defensores, o que deve aumentar ainda mais a necessidade de um ataque que marque muitos pontos e que, por falta de gente capaz de jogar de costas para a cesta com regularidade, deve ficar arremessando trocentas bolas de três pontos.

O Don Nelson criou um Dallas Mavericks sensacional que só sabia correr e atacar e Avery Johnson, seu assistente, tornou o time uma defesa impecável assim que o Don Nelson saiu. Não acho que possa ser o caso com esse Warriors. Faltam as peças necessárias para que seja possível uma mudança tática séria ou uma defesa de verdade, não adianta apenas mudar a mentalidade e o técnico, é preciso repensar essa equipe inteira para se encaixar a um novo esquema. Mais fácil será implementar o mesmo esquema e torcer para que as contusões constantes deixem o elenco em paz e que as novas aquisições como David Lee e os novatos Jeremy Lin e Ekpe Udoh não sejam fracassos totais. Se esse time tiver todo mundo saudável e souber, com perfeição, quem estará em quadra todas as noites e por quantos minutos, acredito que chegar aos playoffs não seja absurdo. O problema é que o Warriors costuma ter tantas lesões que o pessoal da D-League já mora lá no ginásio, e é preciso criar alguma constância que não seja apenas a certeza de que alguém vai quebrar o pé.

A tática do Don Nelson de mudar sempre as escalações e os minutos dos jogadores cria times versáteis, confunde os adversários e funciona bem em times maduros. Quando o grupo acredita no técnico e no plano e as vitórias aparecem, todo mundo tem a sensação de estar participando de uma equipe criativa e divertida, Baron Davis sempre adorou o fato de que a equipe treinava pouco e improvisava muito. Mas assim que as derrotas aparecem todo mundo começa a questionar o método e sua participação no grupo. Nos playoffs de 2006, o Warriors inteiro amava o Don Nelson, mas bastou a desclassificação para o Baron Davis reclamar da falta de constância. Além disso, o grupo tem jogadores muito novos, já que os anos de fracasso levaram a equipe a colecionar novatos no draft, e a pirralhada precisa de minutos e constância para evoluir. Muitos jogadores fraldinha se afundaram no Warriors simplesmente porque a situação era terrível para eles, precisavam ganhar níveis de experiência para virarem novos Pokémon enquanto o Don Nelson estava apenas preocupado em misturar todos os ingredientes para ver se alguma coisa dava certo. Cenário terrível para iniciantes, e motivo pelo qual Don Nelson sempre odiou novatos. Só que num time que fede, é preciso colocá-los para jogar o máximo possível, como bem sabe o Timberwolves.

É por isso que acredito que a constância será muito positiva para esse elenco, desde que os esquemas táticos do Don Nelson sejam mantidos pelo novo técnico - aliás, manter o assistente técnico já é alguma constância, já que ele é respeitado pelos jogadores e está por perto há quase uma década. A vontade de mudar tudo deve ser evitada: não dá pra inovar com um perímetro que não defende e um garrafão que não ataca, além de jogadores como Dorrell Wright e Rodney Carney que só sabem jogar no contra-ataque. Então, é preciso manter o mesmo plano (o famoso "corra pela sua vida"). Por outro lado, todos nós sabemos nesses anos todos (Mavs, Suns, Warriors) que esse plano é deficiente, expões várias fraquezas da equipe e não seria um absurdo ver o Warriors desistindo no meio da temporada, depois de apanhar um pouco, para tentar uma primeira escolha no draft do ano que vem. Finalmente sem o Don Nelson, há a novíssima possibilidade de colocar a pirralhada pra jogar e apostar no draft, pensando em uma pequena reconstrução em volta de Monta Ellis e Stephen Curry (ou qualquer um dos dois). Provavelmente, isso dependerá mais do sucesso que esse elenco vai ter no começo da temporada do que dos gostos dos engravatados. Se a campanha começar a afundar, será abandonada rapidinho. Caso contrário, trocas e ajustes serão feitos para tentar de verdade chegar aos playoffs, porque apesar de esburacado, o elenco é bastante talentoso e poderia chegar lá com uma forcinha.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Vultos da NBA - Don Nelson

(insira aqui uma piada com o Rebolation)


Estatisticamente é fato consumado, Don Nelson é o técnico que mais venceu jogos na história da NBA. São 1.333 vitórias em 2.394 jogos. Mas o quanto é estranho ouvir que o Don Nelson, sempre chamado de maluco por nós e mais tantas pessoas, é o cara que mais venceu partidas na história de uma liga que já teve Red Auerbach, Phil Jackson, Pat Riley, Jerry Sloan e mais tantos técnicos fabulosos? Existem duas formas bem distintas de se avaliar a carreira do Don Nelson e só vendo esses dois lados conflitantes é que podemos chegar perto de um resultado final que faça algum sentido.

Primeiro vale dizer que vamos analisar a carreira do Don Nelson como técnico nesse post, não como jogador. Mas uma pequeno resumo da sua carreira não faz mal a ninguém:

Ele teve sua camisa de número 19 aposentada pelo Boston Celtics depois de vencer 5 títulos com a equipe nos anos 60, foi o sexto homem do time na maior parte do tempo e sempre conhecido por ser um contribuidor sólido vindo do banco de reservas, com mais de 10 pontos de média e alto aproveitamento de arremessos. Também vale lembrar que o Don Nelson foi o autor de um dos arremessos mais famosos da história dos playoffs. No jogo de despedida de Bill Russell da NBA, o jogo 7 entre Lakers e Celtics nas finais de 1969, o Celtics vencia por apenas um ponto o Lakers, em Los Angeles, a menos de um minuto do fim do jogo quando o Jerry West tirou a bola do armador do Celtics John Havlicek, mas ao invés de recuperar a posse de bola e ter um dos roubos mais famosos da história das finais, ele jogou a bola nas mãos de Nelson, que arremessou, viu a bola bater no aro, subir mais alto que a altura da tabela e então cair perfeitamente dentro da cesta. Título do Celtics.


Foi uma carreira tão sólida e correta que fica até estranho usar essas palavras na hora de descrever o que Don Nelson virou como técnico. No meio de inúmeras qualidades e defeitos contrastantes, podemos dizer que Nellie foi tudo, menos sólido e correto.

Comecemos com o lado positivo, sua criatividade sem limites. Sua carreira começou criativa quando assumiu o Milwaukee Bucks em 1976 como técnico e General Manager, ou seja, não só controlava o time na quadra como era o responsável pelas trocas e contratações da equipe. Uma série de trocas consideradas arriscadas na época fez do Bucks um time que no primeiro ano de Nelson vencia cerca de 30 jogos por temporada para um que ganhou 7 títulos de divisão seguidos e sempre chegou perto da marca de 60 vitórias. E para quem duvida de suas habilidades defensivas, vale dizer que em 7 dos 11 anos de Nelson no Bucks o time dos veadinhos teve uma das três melhores defesas da liga inteira! É, Don Nelson e defesa na mesma frase, é como dizer hoje que a Nana Gouvêa já foi freira.

Também foi em Milwaukee que o Don Nelson começou suas invenções malucas nos esquemas de jogo, foi ele o responsável pela primeira experiência com um point-forward na NBA. Pra quem perdeu a explicação do termo no nosso "Ma Engrish Two Bad", explico rapidamente: É quando um ala, da posição 3 ou 4, é o responsável pela armação do jogo ao invés de deixar a responsabilidade para um armador natural. O mais próximo disso que vemos disso hoje são alguns momentos do Lamar Odom no Lakers, LeBron James no Cavs e Stephen Jackson no Bobcats.

Don Nelson começou isso nos anos 80 usando o ala Paul Pressey para armar o jogo enquanto o time ficava sem nenhum armador nato. Sem precisar de um baixinho na posição 1 ele tinha a liberdade de usar dois de seus melhores pontuadores, Sidney Moncrief e Craig Hodges, em quadra ao mesmo tempo sem maiores preocupações. Pela inovação e pela altura dos jogadores isso criava situações que os técnicos adversários não sabiam lidar.

Depois de sua passagem pelo Bucks foi a vez de Don Nelson assumir pela primeira vez o Golden State Warriors. Lá ele começou o que é sua marca registrada até hoje, o run-and-gun, o sistema de jogo mais veloz e ofensivo da NBA em que todos os jogadores precisam ter velocidade, arremesso e raciocínio rápido. Ele foi inovador ao pensar em um sistema tático em que ao invés de valorizar a posse de bola, transformasse ela em algo trivial, arremessa-se na primeira oportunidade e arrisca-se qualquer roubo de bola ou marcação dupla na defesa para fazer com que o adversário também entre nesse jogo de posses de bola curtas e gratuitas.

Não esqueçam que estamos falando do run-and-gun em uma época em que os grandes times da NBA pensavam em defesa antes de tudo. Nelson assumiu o Warriors logo depois do Pistons da era Bad Boy, de pura defesa, ganhar dois títulos, e na época em que o Bulls começava o seu reinado usando os triângulos do Phil Jackson, um sistema ofensivo que sempre prezou pelas boas e pensadas decisões no ataque. O run-and-gun era ir completamente contra o que se fazia com sucesso no começo e meio dos anos 90.

Mas como ainda acontece hoje, o run-and-gun encantou. Chamado de Run TMC, uma referência ao grupo de rap Run DMC, mas usando as iniciais de Tim Hardaway, Mitch Richmond e Chris Mullin, o trio era famosíssimo entre todos os fãs e estava sempre nas listinhas de jogadas do ano com seu jogo de contra-ataque alucinante. Esse vídeo mostra um pouco do que eram capazes os três jogadores, principalmente Tim Hardaway e seu maldoso crossover.


Após o Warriors, Nelson deu uma de Larry Brown e passou por uma desastrosa temporada no New York Knicks, indo logo depois para o Dallas Mavericks. No Mavs, Don Nelson repetiu o que fez no Warriors: Run-and-gun + small ball.

O primeiro termo já mostrei, o segundo explico agora: É quando o técnico enche o time de jogadores baixos, é o ideal para sistemas de jogo velozes como o run-and-gun. Se no Warriors ele usava três armadores (Hardaway, Richmond e Marciulionis) e dois alas baixos (Mullin e Higgins), no Mavs ele chegava a jogar períodos inteiros dos jogos com quatro armadores (Nash, Van Exel, Finley e Adrian Griffin) e só o Nowitzki, um cara que passa a maior parte do tempo longe do garrafão, como pivô. Era uma loucura que, como na época de Warriors, rendia momentos lindos, muitas bolas de três e um ritmo de jogo que cansava só de assistir ao primeiro quarto.

Don Nelson é considerado até hoje o cara que tirou a imagem do Mavericks do lixo. Se hoje eles completam 10 temporadas seguidas com pelo menos 50 vitórias por temporada, até ele chegar lá o time era motivo de piada, mais um Clippers fadado ao fracasso. E acrescente na sua época de Dallas a sua invenção tática mais controversa, o Hack-a-Shaq, a tática de fazer faltas de propósito no Shaquille O'Neal para que ele errasse os lances livres e a posse de bola voltasse para o adversário. Ele até extendeu o uso da técnica e a aplicou contra o Bruce Bowen em alguns jogos de playoff.

Ao sair do Mavs Don Nelson voltou para o Golden State Warriors, onde conseguiu o seu feito mais impressionante como técnico: Embalou vitórias consecutivas no fim da temporada regular de 2007, se classificou para os playoffs em oitavo lugar e lá bateu o seu ex-time, o Dallas Mavericks, que tinha tido a melhor campanha da temporada regular. Foi só o segundo time na história da NBA a se classificar em oitavo e bater o primeiro colocado. E o fez usando sua velha tática de correria e jogadores baixos contra uma equipe do Mavs que tentava fugir desse esquema tático do seu antigo técnico para conseguir ir mais longe nos playoffs.

Vendo a carreira de Don Nelson assim daria pra encerrar o post dizendo que foi um sucesso. Muitas idéias criativas, times que há 30 anos são os mais divertidos e criativos da NBA e, para coroar, o maior número de vitórias da NBA. Mas agora vem o outro lado, se Don Nelson é só um dos três técnicos com mais de 1.000 vitórias na NBA, é um dos dois com mais de 1.000 derrotas.

Se Don Nelson foi genial ao melhorar o time do Bucks e os levar a sete títulos de divisão, nunca conseguiu chegar nas finais da NBA com esse time. Perdeu 6 vezes na semi-final de conferência e 3 nas finais, sempre perdendo para o Celtics ou para o Sixers no caminho. A criatividade de Don Nelson nunca foi o bastante para bater os dois grandes times do Leste na década de 80.

Na sua primeira passagem pelo Warriors Don Nelson foi o gênio da correria e da velocidade mas mais uma vez falhou nos playoffs. Em 7 anos ele chegou duas vezes na semi-final do Oeste e foi só, nunca ameaçou uma aparição nas finais. Lá também conseguiu sua primeira grande crise pública com um jogador, Chris Webber. Don Nelson é um cara criativo e inventa coisas loucas para usar durante os jogos mas nem sempre explica para os seus pupilos, forçando-os a jogar em posições que não estão acostumados, que não se sentem a vontade e eles muitas vezes nem sabem porque aquilo está acontecendo. Com Webber foi assim, que não entendia porque jogava tantas vezes fora de posição e brigou com o técnico. A crise foi tamanha que o time começou a se desmontar e Don Nelson foi mandado embora.

Na sua passagem pelo New York Knicks mais uma vez ele teve boas idéias, uma visão inovadora mas foi completamente incompetente na hora de lidar com jogadores, dirigentes e torcida. Ele simplesmente, no meio dos anos 90, queria convencer a diretoria do Knicks a trocar o Patrick Ewing, um dos maiores ídolos da história de Nova York, para poder abrir espaço salarial para a contratação do Shaquille O'Neal, que estava prestes a sair do Orlando Magic. É mais ou menos um técnico chegar hoje em San Antonio e falar pra trocar o Tim Duncan e tentar o LeBron ou o Bosh no ano que vem. Além disso ele tentou forçar o seu esquema ofensivo e veloz em um time que tinha um elenco montado pelo Pat Riley no ano anterior para ser essencialmente defensivo, foi um desastre anunciado e monumental.

No Dallas Mavericks, como é história recente, acho que muitos ainda lembram. O time encantava, corria, fazia coisas malucas mas sempre caia nos mesmos vícios e defeitos quando enfrentava o San Antonio Spurs ou o Sacramento Kings. Foram 4 anos seguidos com campanhas geniais e depois derrotas para as duas potências do Oeste do começo da década. É uma reprise do que aconteceu no Bucks e no Warriors, os mesmos erros.

Para terminar, sua nova passagem pelo Warriors. A vitória sobre o Dallas foi histórica, mas depois mais uma derrota em semi-finais de conferência, dessa vez para o Jazz. E após essa campanha mágica, brigas com o Baron Davis, com o Stephen Jackson e crises com vários outros jogadores de menos nome, caras que, tentando ganhar seu espaço no time e na NBA, tinham que lidar com um técnico que um dia te deixa jogar 40 minutos, te vê marcar 25 pontos e no dia seguinte te deixa no fundo do banco de reservas sem pisar na quadra. Isso sem falar na aversão do Don Nelson a novatos (Steph Curry é uma grata exceção!), que costumam mofar no banco porque o técnico não os considera ainda aptos para o jogo profissional.

Criatividade, velocidade, ataque e encanto que morrem em suas teimosias, erros repetidos, mau relacionamento com seus jogadores, situações desagradáveis com dirigentes e torcidas. Essa mistura doida é o que consegue transformar um cara em recordista de vitórias na NBA, ganhador de três troféus de técnico do ano e, ao mesmo tempo, sem nenhuma aparição em finais da NBA.

Segundo o Tex Winter, o cara que criou o sistema de triângulos e que até pouco tempo atrás ainda era assistente técnico do Phil Jackson, o Don Nelson é o rei da "filosofia de um jogo". Durante aquela única partida ele é capaz de criar tantas situações diferentes e inovadoras que o seu time sai com a vitória, mas não dá pra sustentar isso por uma série de 7 jogos. A explicação faz sentido, seus times, até seu Warriors "D-League All-Stars" de hoje em dia, é capaz de roubar vitórias de qualquer equipe de qualquer nível, mas sempre que ele enfrentou os playoffs, falhou.

Mas depois de 30 anos falhando nos playoffs, o que é o Don Nelson? Um gênio criativo que é persistente em seu sistema de jogo ofensivo ou um cabeça-dura que não admite mudar de filosofia? Ele é um nobre esportista por ser fiel ao espetáculo mesmo que isso não leve à vitória ou um técnico ruim que não sabe se adaptar para vencer?

A resposta para essa pergunta cai no quanto o Don Nelson quer vencer. Talvez esteja satisfeito com os seus cinco anéis de campeão como jogador e só queira se divertir como técnico, sua atitude de sair de férias assim que acaba a temporada e nem ligar para trocas ou draft durante toda a offseason indica isso, mas ficar se estressando e gritando à beira da quadra com 70 anos de idade nas costas indica outra.

Eu não vou ser idiota de arriscar uma resposta, prefiro encerrar com a dúvida e com uma genial frase do Roland Lazemby, colunista da ESPN, sobre o Don Nelson: "Ele é um monumento à mediocridade. Ou à experimentação ousada. Depende do quanto você comprou daquilo que ele está tentando vender".

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Liberdade ainda que tardia

Stephen Jackson quebra suas correntes


Antes da temporada começar, Stephen Jackson havia pedido para ser trocado do Warriors. O time perdera Baron Davis, conseguiu o Maggette no lugar, e aparentemente o Stephen foi o único que sobrou no elenco capaz de levar basquete a sério. Era o responsável por defender as estrelas adversárias, fossem armadores ou pivôs, o responsável por decidir os jogos, por arremessar de longe, e inúmeras vezes por iniciar as jogadas ofensivas no papel de armador principal. Já jogou em todas as posições, topou todas as furadas que o técnico Don Nelson bolou, já foi para os playoffs com a equipe e já foi o pior time da liga. Ao ver que o Warriors virou um circo, um laboratório de ciências, que os jogadores entram e saem da escalação de um dia para o outro, cada hora com uma função, Stephen Jackson quis é dar o fora. Como o Denis escreveu um tempo atrás, ele pediu para ser trocado quando falava com a imprensa, foi multado por isso, e desde então parou de tocar no assunto, sem no entanto tentar esconder sua frustração em quadra. O problema é que ele só pediu para ser trocado depois de topar uma extensão milionária de contrato com o Warriors, o que não apenas é um pouco sacana como também torna mais difícil encontrar algum time disposto a abraçar o salário do rapaz.

Mas existe um time na NBA que nunca desiste de fazer trocas, um time que está decidido a transformar o elenco inteiro com uma visão em mente. Esse time é o Bobcats, que deu ao técnico Larry Brown carta branca para montar o time como ele bem entender. O velhinho pentelho se livrou do Okafor, do Jason Richardson, do Matt Carroll, e montou um time focado na defesa e sem espaço para o individualismo. O resultado é uma equipe que estreiou na temporada marcando 59 pontos contra o Celtics, com claras dificuldades de passar dos 80 pontos a cada jogo. O time agora tem Raja Bell e Boris Diaw, jogadores capazes de pontuar, mas nenhum deles é um pontuador nato. O papel do Bell é defender e converter seus arremessos de três pontos, função que ele desempenhava muito bem. Mas, para ter um jogador capaz de defender múltiplas posições e que seja capaz de pontuar constantemente, Larry Brown resolveu abrir mão até mesmo do seu queridinho.

Stephen Jackson chega ao Bobcats mantendo o foco da equipe, se focando na defesa e pontuando sem ser estrelinha. Ele sabe o que é ser jogador secundário graças ao tempo que passou no Spurs, se orgulha de defender mesmo jogando no Warriors (que provavelmente dá umas surras depois das partidas nos jogadores que ousaram tentar defender) e tem tudo para se dar bem com o Larry Brown. Do jeito que o técnico odeia os armadores da equipe (tanto Raymond Felton quanto o anão do DJ Augustin), é bem possível que o Stephen Jackson até assuma a posição em alguns momentos durante os jogos (se até o boris Diaw já foi armador nesse Bobcats!). Mas também é possível, dizem os fofoqueiros por aí, que ele seja trocado rapidinho para outro time. Não dá para descartar essa possibilidade, afinal o Bobcats está insatisfeito com o que tem e cansado de feder esperando uma boa escolha de draft. Já faz uns anos que todo mundo espera eles finalmente acordarem no tranco e irem aos playoffs, então não tem mais desculpa pra ficar tendo o traseiro chutado por aí. Stephen Jackson se encaixa nessa postura, no planejamento, na filosofia de jogo, e tem tudo para se encaixar bem na equipe. Não deve dar muito resultado, convenhamos, mas o Bobcats continua tentando. Ao menos eles sabem o que querem e se movimentam com uma intenção, não é a porra-louquisse do Warriors que parece trocar só por esporte, pra ver se vem de brinde um Mega Tazo.

Em troca do Stephen Jackson e do Acie Law, que é um armador que nunca deu certo e que o técnico Larry Brown deve comer com granola no café da manha, o Warriors recebeu Raja Bell e o Vlad Radmanovic, que nem fede nem cheira. O Bell traz defesa para o Warriors, e depois dessa afirmação vamos todos tirar uns minutinhos para rir à vontade. Até parece que alguém que cuida dessa equipe mequetrefe se preocupa em instituir uma filosofia defensiva, mas provavelmente eles estão dispostos a pelo menos fingir um pouquinho.

Contra o Brandon Jennings, que marcou 55 pontos, o negócio foi muito feio. Ao rever a partida no meu League Pass (calma, calma, a gente resenha o serviço ainda essa semana), percebi que a maioria dos pontos do Jennings saiu em uma jogada simples de corta-luz na linha de três pontos. Não havia ninguém do Warriors capaz de grudar no garoto, a jogada funcionou à exaustão, e quando eles ficaram muito desesperados de passar vergonha, começaram a dobrar nele depois do corta-luz e o resultado foi o Andrew Bogut recebendo uns passes para ponte-aérea, já que o pivô do Warriors durante quase toda a partida foram o Stephen Jackson ou o Maggette. Aliás, grande parte do mérito pela atuação do Jennings tem que ser dado ao Bogut, que atormentou tanto o garrafão do Warriors que a linha de três ficou completamente livre. Quer dizer, a linha de três do Warriors já é completamente livre, mas ficou pior a ponto de render 55 pontos para o novato. Para critérios estatísticos, a pontuação do Jennings deveria valer só a metade - quando ele tentar algo assim contra o Celtics a gente faz uma estátua e uns sacrifícios humanos pro guri.

Quem ganha com a troca é o Stephen Jackson, que agora terá um técnico capaz de apreciar o que ele traz para as quadras, mas o problema é que o time fede pacas e rapidinho é bem capaz que ele comece a ficar insatisfeito de novo (ou que o time continue insatisfeito e troque de novo). O Warriors deve piorar um pouco com a sua saída, mas o que é um peido para quem já está cagado? Outros jogadores podem continuar pontuando como malucos e talvez o Raja Bell seja capaz de impedir outros jogadores de fazer 50 pontos, o que por si só já seria um lucro, evitando que o Warriors se torne essa anedota estilo Ari Toledo que tem sido nos últimos anos. Da próxima vez que o Jennings for enfrentar o Warriors e tentar quebrar seu recorde de pontos, o Raja Bell estará lá. Sozinho, é verdade, mas lá.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Hora de aposentar

Phil Jackson chama um táxi para a terra da aposentadoria,
onde o Don Nelson mora mas ainda não sabe



Enquanto o Denis comemora a contratação do Lamar Odom pelo Lakers dançando pelado pelas ruas (ele volta depois para postar a respeito), eu lido com minha segunda amigdalite em um mês. E não tem nada que combine tão bem com amigdalite quanto a situação no Warriors.

A notícia mais recente por aqueles lados é de que Marco Belinelli foi mandado para o Raptors em troca de Devean George e um monte de verdinhas. O italiano Belinelli foi o melhor jogador das Summer Leagues por duas temporadas consecutivas, foi uma bela escolha de primeiro round para o Warriors, mas praticamente não entrou em quadra. A troca por George, completamente ridícula, nos leva a dar uma olhada no que o Warriors fez com suas escolhas de primeira rodada do draft nos últimos anos. Achei uma lista na internet que merece ser reproduzida com comentários. Então, se você está de pé, sente-se (até porque, veja bem, que tipo de débil mental usa o computador de pé?). Faça a gentileza também de tirar as crianças do recinto. O negócio vai ficar muito, muito feio.

...

2001: O Warriors draftou Jason Richardson com a quinta escolha do draft, para depois trocá-lo por Brendan Wright (que praticamente nunca entrou em quadra) e um vale-trocas de 10 milhões que o time nunca usou. Troy Murphy também foi draftado, na décima quarta escolha, para depois ser trocado para o Pacers. O Gilbert Arenas foi draftado na segunda rodada, com a trigésima primeira escolha, sacada de gênio. Mas quando seu contrato terminou, o Arenas foi abordado por vários times e resolveu literalmente decidir na moeda para qual iria: Warriors, Clippers ou Wizards. Todos nós sabemos que ele acabou indo parar em Washington e isso deixa bem claro que Clippers e Warriors são definitivamente times amaldiçoados.

2002: No draft, o Warriors escolheu com a terceira escolha Mike Dunleavy, que também foi trocado para o Pacers e só aí começou a render de verdade (na perto de "o próximo Larry Bird" como se esperava, mas quebra um galho)

2003: O Warriors escolheu Mickael Pietrus na décima primeira escolha, e ele sempre se disse insatisfeito na equipe, reclamando da falta de defesa, vontade de ganhar e seriedade técnica. Deu o fora de lá assim que seu contrato terminou, indo para o Magic.

2004: Também com a décima primeira escolha, mas no ano seguinte, o escolhido foi Andris Biedrins, que pelo menos está no time até hoje, embora volta e meia seja colocado aleatoriamente no banco de reservas e esteja em tudo quanto é boato de troca, incluindo aquela para o Suns que supostamente incluiria Amaré Stoudemire.

2005: O Warriors escolheu com a nona escolha o Ike Diogu, trocado para o Pacers junto com Troy Murphy e Mike Dunleavy, e que agora acabou de assinar com o Hornets. Mas pior do que trocá-lo é gastar uma nona escolha nele, credo.

2006: Por falar em gastar escolhas, o Warriors escolhe Patrick O'Bryant, que alega no dia do draft não ser bom o bastante para uma nona escolha. Como era de se esperar, ele nunca foi usado, fedeu bastante, e após seu segundo ano foi liberado da equipe.

2007: Draft do Marco Belinelli, na décima oitava escolha, que brilha nas Summer Leagues, não ganha nunca minutos em quadra e acaba de ser trocado para o Raptors. Pelo Devean George, aliás, o que é quase tão ofensivo quanto xingar a mãe. Foi nesse draft que o Warriors trocou o Jason Richardson pela oitava escolha, o Brandan Wright, que está acorrentado ao banco de reservas do time e não consegue sair nem pra usar o banheiro.

Escolha de primeira rodada em 2010, 2o11, 2012 ou 2013: Foi mandada para o Nets em troca do Marcus Williams, que era uma grande promessa mas nunca havia tido minutos atrás de Jason Kidd e, depois, atrás de Devin Harris. Finalmente o Nets deixou o garoto tentar a vida em outro lugar, mas o Marcus Williams sequer conseguiu entrar em quadra pelo Warriors, porque o técnico Don Nelson não deixou. Com isso o Marcus Williams foi liberado ao fim da temporada passada, acabou saindo um dos melhores jogadores das Summer Leagues desse ano, e acaba de assinar com o Grizzlies.

...

As escolhas de draft do Warriors não são tão ruins, eles acertaram um bocado apesar de cometerem uns erros desastrosos (Patrick O'Bryant, o pus nas minhas amígdalas te mandou lembranças). O que torna esse time tão ridículo, no entanto, é o fato de que os jogadores que vão parar lá não são utilizados, vão mofar no banco de reservas, são trocados ou até mesmo mandados embora. De que adianta draftar Belinelli, Wright e até mesmo o Anthony Randolph, tão elogiado e cheio de promessa, se nenhum deles entra em quadra? Pra que formar um núcleo com Jason Richardson, Murphy, Dunleavy, Arenas, se o time não consegue manter seus jogadores? Pra que gastar dinheiro de contratações com jogadores como Corey Maggette, de que o time não precisava e que claramente é cada vez mais deixado de lado na equipe? O caso do Marcus Williams, no entanto, é o que me lembra mais o incômodo da minha amigdalite. Ao chegar ao Warriors, trocado por uma escolha de primeira rodada, Marcus Williams foi acusado pelo técnico Don Nelson de estar fora de forma, tiveram uma discussão, e então o jogador já estava imediatamente fora dos planos da equipe. Preferiram se livrar do garoto, sem receber bulhufas em troca. O Clippers parece um circo mas lá parece haver um critério: conseguir jogadores bons, aleatórios, e colocá-los ao mesmo tempo em quadra. No Warriors, não há plano nem critério. Sabemos que o técnico Don Nelson gosta de jogar na correria, defendendo pouco, arremessando de fora e explorando os rebotes ofensivos, mas não há uma tentativa de draftar ou trocar por jogadores que se encaixem no padrão. Eles trocam primeiro para descobrir que não usarão o jogador logo depois, porque não se encaixa, porque não faz sentido dentro do conjunto. É assim que o Warriors é um time em reconstrução há quinhentos anos, quando jogava-se basquete com ovo de avestruz, e só chegou aos playoffs com aquele time aleatório que derrotou o Mavs, desmanchou-se e não repetiu a dose.

Sou obrigado a questionar a sanidade do Don Nelson, apesar de ter gostado tanto dele nos tempos de Mavs. Acredito em sua filosofia de jogo, no que ele pode fazer taticamente com uma equipe, mas já está bem óbvio que ele não tem mais idade para ficar lidando com os jogadores. Está o tempo inteiro brigando com alguém, fazendo experimentos bizarros, mandando titulares para o banco e nenhum jogador faz a menor ideia de quantos minutos terá em quadra. Suas trocas não fazem sentido e as contratações parecem tiradas na moeda, tipo as decisões do Arenas. Don Nelson não parece mais ter idade para a brincadeira e se alguém quer levar o Warriors a sério apesar do nome meio RPG, vai ter que se livrar do técnico gagá. Às vezes, por mais geniais que sejam, os técnicos podem atingir momentos em que mais complicam do que ajudam suas equipes.

Sei que alguém vai colocar agulhas de vudu na minha garganta e eu não vou sarar nunca da amigdalite, mas estou começando a achar que é o caso do Phil Jackson. O esquema dos triângulos é genial, assim como sua dedicação ao estudo do jogo, seu entendimento do que os times adversários estão fazendo em quadra, sua capacidade de alterar partidas e a motivação e independência que fornece aos jogadores do Lakers. No documentário "Kobe doin' work", do qual falaremos mais em breve aqui no Bola Presa, podemos ver um Phil Jackson que mal aparece nos tempos técnicos enquanto os jogadores meio que decidem as coisas sozinhos. Kobe é um nerd absoluto e vai se virando, conversando com os companheiros e compreendendo o jogo por si só. O que importa, mesmo, é o respeito que o Kobe tem pelo Phil Jackson e a compreensão do jogo que alcançou através da ajuda do técnico, bem menos do que a presença real do Phil em quadra. Mas o problema é que, com a idade, o técnico zen na verdade não tem muita paciência pra ficar lidando com a pirralhada. Ele quer que os jogadores aprendam sozinhos, com seus erros, mas já faz um bom par de anos que Phil Jackson não tem medo de queimar seus jogadores afundando-os no banco de reservas quando as cagadas começam a aparecer. Os novatos não tem vez, são humilhados, cuspidos e perdem suas chances em quadra. Para quem se lembra, Smush Parker tomava uns esporros do Phil que dava vontade de chorar por compaixão, e por fim acabou na lista negra e foi tacado no lixo da equipe apesar de ter feito um trabalho sólido num time que melhorava cada vez mais no Oeste. Sobre o Kwame Brown, nem se fala. Pra mim, Phil Jackson é o responsável por ter acabado com sua carreira. Com a pressão de ter que render num Wizards que queria ganhar imediatamente graças à ajuda do Michael Jordan nas quadras, pudemos perceber que o Kwame não consegue jogar quando é exigido e pressionado em níveis elevados. Ele precisa de papéis menores, funções mais restritas e menos cobrança para poder render um pouco. No Lakers, teve uma chance de ficar em segundo plano, atrás de Kobe, e mesclar-se num elenco que queria destacar-se pelo conjunto. Kwame só tinha que mostrar algum talento defensivo, comer pelas beiradas. Mas Phil Jackson não aturava a falta de compreensão do Kwame com o sistema dos triângulos, humilhava o pobre jogador, castigava-o com o banco de reserva por vezes em partidas inteiras, e a confiança do coitado que já era uma merda foi parar no esgoto. Passou a ser vaiado pela torcida e, nessas ocasiões, fazia umas cagadas dignas de risada. Se fosse apoiado, se a torcida vibrasse, se o Phil Jackson tivesse a paciência de outrora para lidar e motivar jogadores, Kwame Brown seria uma peça sólida no Lakers provavelmente até hoje.

Algo similar está acontecendo com o Bynum. Apesar de ter se saído muito bem antes de sua contusão em 2008, na temporada passada o Phil Jackson não teve qualquer paciência com o garoto. É preciso lembrar que ele tem um contrato monstruoso para ser um dos pilares do Lakers pela próxima década, mas é jovem, inseguro e ainda está aprendendo o jogo. Chegou a dominar algumas partidas mas ainda é inconstante. Definitivamente Phil não está ajudando em nada quando espinafra com o garoto e pune suas cagadas deixando-o em quadra apenas nos 5 minutos finais de uma partida de playoff. O pivô poderia estar sendo uma peça fundamental e contribuindo profundamente para a equipe, mas sem paciência, Phil prefere deixar o menino no banco e não ter que lidar com pirralhisse. Eu entendo, deve ser mesmo um saco treinar esses milionários que ainda não têm pêlos no saco, mas o Lakers precisa pensar em seu futuro - principalmente com relação a um jogador com quase 60 milhões em contrato pelos próximos 4 anos. Se ele ficar para sempre relegado ao banco de reservas, ou demonstrar os mesmos problemas de confiança do Kwame Brown (e do Greg Oden, pelo jeito, que agora está recebendo acompanhamento ferrenho de psicólogos especializados), o Lakers terá um problema gigantesco em mãos.

O Denis me avisou que o assistente técnico do Lakers, Kurt Rambis, recusou várias propostas para ser técnico e continuou no Lakers, apenas esperando a chance de assumir o cargo do Phil Jackson. Será uma boa, sangue novo para lidar com os jogadores mais jovens e alguém que domine o esquema tático do Phil o suficiente para o nerd do Kobe respeitar e não olhar completamente de cima. Titio Phil merece um descanso, mas sua saída, nesse ponto, será mesmo melhor para o Lakers. O mesmo acontece com o Don Nelson: espero que alguém com bom senso arrume um técnico novo para o Warriors e aconselhe o Don a simplesmente comprar um gato. Que, provavelmente, vai ser alimentado só às vezes, sem muito critério.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Insatisfeitos

Don Nelson explica pro Jamal Crawford como abrir a porta de saída


Primeiro foi a troca que mandou Richard Jefferson para o Spurs. Depois, Randy Foye e Mike Miller foram para o Wizards em troca de mais uma escolha de draft para o Wolves. Agora é a vez de mais uma troca inesperada, dessa vez com a participação do Warriors, o time mais insatisfeito da NBA.

Sob o comando do técnico biruta Don Nelson, o Warriors parece uma madame entediada com um cartão de crédito nas mãos. A contratação de jogadores é aleatória, as escolhas de draft nunca fazem sentido, e o time está sempre arrependido do elenco que consegue montar. Na temporada passada, ao perder seu armador principal Baron Davis para o Clippers, o Warriors se vingou contratando Corey Maggette, apesar de terem uma coleção de jogadores que jogam mais ou menos nessa mesma posição. Sem um único armador puro capaz de organizar o jogo depois que o Don Nelson decidiu não usar o Marcus Williams, que veio de uma troca com o Nets, o Warriors mandou Al Harrington para o Knicks em troca do Jamal Crawford, que não é nem nunca foi um armador nato.

A situação no Warriors durante a temporada passada parecia alguém que não sabe jogar NBA Live. No papel de armador principal, só estiveram jogadores improvisados: Monta Ellis quando voltou de contusão, CJ Watson, Jamal Crawford e, no começo da temporada, Stephen Jackson, que jogou até de ala de força lá dentro do garrafão mas teve que brincar de armar quando o negócio apertou.

De segundo armador, além de todos os jogadores acima, jogaram também o Azubuike, Corey Maggette, o italiano mantido como refém Marco Belinelli, e também o Anthony Morrow, que ninguém nunca tinha ouvido falar até começar um jogo como titular e fazer 37 pontos arremessando como um maluco. Vale destacar que todos esses sete jogadores foram titulares ao menos alguma vez na temporada jogando em uma das duas posições de armação.

Nunca um time teve tantas opções de armadores sem, no entanto, ter um único jogador capaz de chamar jogadas, controlar o ritmo do jogo e envolver seus companheiros. Todos eles são pontuadores, arremessadores ou alas, nenhum deles tem experiência na função de armar o jogo, e o Don Nelson nunca conseguiu ficar contente com nenhum deles. Na verdade, ele nunca fica contente com ninguém em nenhuma posição e seus experimentos malucos fariam o Macaco Louco corar de vergonha, sentando pivôs, afundando jogadores importantes no banco e colocando novatos em situações absurdas.

O Jamal Crawford é um excelente pontuador e sabe chamar para si a responsabilidade de uma partida, mas tende a colocar a bola debaixo do braço e ignorar todo o resto do planeta. No esquema "corra pela sua vida" que o Don Nelson implementa, Crawford nunca teve qualquer desculpa para tentar se controlar apesar dos protestos de seu técnico. Na verdade, com o Warriors fedendo e ninguém assistindo, rapidinho o Jamal Crawford não viu motivo algum para deixar de se preocupar apenas com suas estatísticas numa evidente esperança de ser trocado. O próprio Don Nelson não fez mistério de que adoraria se livrar do armador (que, por alguns dias, foi anunciado como a solução para a franquia) e agora finalmente conseguiu. Mulheres com cartão de crédito são volúveis.

Foi assim que o Warriors acabou de mandar Jamal Crawford para o Hawks em troca de dois armadores puros: Acie Law e Speedy Claxton. O único problema é que esses dois também seriam a solução para o Hawks há anos e nunca fizeram absolutamente nada. O Claxton teve uns playoffs sensacionais com o Spurs no que parece agora uns 90 anos atrás e chegou no Hawks como o armador veloz de que eles tanto precisavam. Uma contusão atrás da outra acabou com sua carreira e ele nunca mais deu sinais de vida nem pra sua esposa, que acha que ele foi comprar cigarros e nunca mais voltou. Já o Acie Law foi draftado para ser o armador do futuro da franquia, mas nunca conseguiu apresentar nada em quadra. Nas poucas oportunidades que teve, deixou bem claro que era melhor o Joe Johnson jogar de armador improvisado mesmo. A troca que trouxe Mike Bibby foi a gota final para o Law, sinal de que já não se esperava mais nada dele e que ninguém teria paciência com o garoto. A troca, então, livra o Hawks de duas promessas que não deram certo e traz um pontuador nato ao time. Como Crawford se sairá ao lado de Joe Johnson, sendo que os dois exigem muito a bola no ataque, isso teremos que ver. Mas a princípio, ainda que o Joe Johnson tenha que continuar jogando de armador improvisado, eles parecem formar a dupla de armação mais poderosa ofensivamente da NBA e será um porre para qualquer equipe arrumar dois jogadores de defesa no perímetro ou decidir quem receberá a marcação dupla. Do jeito que está, com o Joe Johnson recebendo marcações triplas em finais de partida, não tinha mesmo como continuar.

Para o Warriors, os dois armadores trazem ao menos a possibilidade de colocar alguém em quadra que tenha experiência em armar o jogo, mas não vou perder meu tempo analisando se uma troca do Warriors vai dar certo. É claro que o Don Nelson não vai gostar de nenhum deles, vai afundá-los no banco, e a brincadeira foi apenas para se livrar do Crawford descontente antes que ele se pegasse com o vovôzinho do Nelson no vestiário. Com a sétima escolha no draft dessa quinta-feira, pode apostar que o Warriors pega inclusive mais um armador - cada um tem o fetiche que merece. Mas talvez, com a quantidade enorme de armadores puros nesse draft, o Don Nelson encontre alguém que mereça ficar em quadra e, assim, não estrague a carreira de mais um novato (Belinelli, Brandan Wright e Anthony Randolph mandaram lembranças).

Vale lembrar que o draft acontece nessa quinta-feira e vamos acompanhar ao vivo aqui no chat do Bola Presa. Também estamos com um novo visual no blog para comemorar o draft (é nossa noite de Natal!), então aperte o "atualizar" aí até o dedo cansar e, enquanto isso, aproveite para participar da nossa promoção especial do Draft 2009 e ganhar uma bola muito da batuta.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O basquete que ganha jogos

Nash mostra o que o basquete bonito fez com ele todos esses anos


Primeiro já deixo claro que não estou aqui pra falar do jogo do Cavs. Vamos falar do time do LeBron só quando eles enfrentarem um desafio de verdade, o que quer dizer que ficaremos mais algumas semanas sem mencioná-los. Essa série do Cavs com o Hawks já poderia ter acabado, deveriam usar uma variação da regra da Copa do Brasil de eliminar o jogo da volta. Somando os dois primeiros jogos, o Cavs está vencendo a série por 47 pontos, deveria ser o bastante.

Mas parei com o Cavs. Estou aqui para continuar a discussão do post de ontem do Danilo. Ele comentou o tal "basquete de playoff" e lamentou como os juízes levaram o jogo entre Lakers e Houston. O assunto rendeu muitos comentários então estou aqui para dar uma visão do lado vencedor do jogo, de modo que aqui todas as opiniões estão livres de qualquer sentimento imediato de derrota.

Primeiro eu acho deplorável que exista tal diferença de definição, não deveria existir o "basquete de temporada regular" e o "basquete de playoff" na NBA. É natural que o jogo seja mais disputado, mais tenso, com os jogadores se importando mais. Mas o jogo deve ser diferente para os jogadores, não para a arbitragem. Volta e meia tem comentarista gringo comentando que tal jogada teria sido falta na temporada regular mas que nos playoffs não é nada. Como assim? Falta é falta, o que não é falta não é falta.

Uma comparação que eu sempre faço na minha cabeça e que acho engraçada é que no futebol mundial é diferente. Os jogos da Copa do Mundo e da Champions League tem muito menos falta e é bem mais "leal" (não sei se é a palavra certa) do que a maioria mesmo sendo jogos de importância bem maior, os playoffs do futebol mundial. Em compensação, na América do Sul a Libertadores é dez vezes mais física que qualquer joguinho de playoff da NBA.

Na questão das faltas podemos fazer uma crítica geral, que engloba temporada regular e playoffs. O Danilo já fez um post comentando a vida dura dos pivôs que sofrem tanto com marcações de faltas, o Yao sofre com isso, o Dwight Howard, o Shaq e, no Lakers, o Bynum também. Tem jogo que eles simplesmente não conseguem jogar porque tudo o que fazem é falta, um dia depois fazem a mesma coisa e tá beleza, dominam o jogo. Parece escanteio no futebol, todo mundo se pega e tem dia que os juizes resolvem que um cara é o culpado e dão pênalti, ou que só o décimo quarto soco é que foi realmente falta.

Essa diferença de marcações dos juízes de um jogo para o outro e da temporada regular para os playoffs atrapalha bastante a vida dos jogadores, isso é fato, eu acho que demoraria para me adaptar a saber, de uma hora pra outra, o que pode e o que não pode fazer. Claramente o Bynum, por exemplo, não está conseguindo diferenciar o que é um jogo físico do que é fazer falta na visão dos juizes.

Essa diferenciação é idiota pra mim, mas nos EUA praticamente não achamos críticas sobre isso. Para eles é natural um empurrão ser falta na temporada regular e não ser nada nos playoffs, isso é consenso principalmente entre os ex-jogadores da liga que comentam jogos. O que é bem intimidante, convenhamos, quem sou eu pra discordar de caras que são jogadores de verdade e que estiveram lá jogando? Mas o dia em que eu entender, juro que concordo com eles.

Isso mostra como o jogo físico nos playoffs não só é aceito como é muito valorizado. É sempre dito por lá que times que jogam baseado em passes, velocidade e finesse são times de temporada regular, como o Suns do D'Antoni, o Mavs do Don Nelson e o Kings do Rick Adelman de 2002, 2003. Enquanto os times que são pura defesa, com jogo físico, são os que têm sucesso nos playoffs, como o Pistons de 2004, o Spurs dos últimos 10 anos e o atual campeão Boston Celtics.

A teoria ganhou ainda mais força nas finais da temporada passada quando o Celtics venceu o Lakers na final. O LA tinha um time que jogava com um ataque todo baseado em jogadores leves, rápidos e bom passadores, e o Celtics os anulou usando um basquete de força. E não vão entender que essa simplificação pareça que eu acho que o Celtics venceu só porque bateram no Lakers ou qualquer coisa assim.

Eu mesmo defendi que o Lakers deveria buscar jogadores mais físicos para conseguir competir com o Celtics e outros times parecidos nos playoffs para ser campeão (lembro que, num fórum, um torcedor do Lakers disse que faltavam uns "pretos ruins" pra fazer do Lakers campeão). Mas pra falar a verdade essa é a minha opinião de torcedor do Lakers, que quer ver o time ser campeão usando qualquer esquema de jogo. Como simples amante do basquete eu queria que o Lakers ganhasse com o time que joga mas bonito (que por sinal é o que tem o Odom no lugar do Bynum).

Mas fica aquela coisa, o Kings de 2002 tinha um dos basquetes mais bonitos de todos os tempos e perdeu do Lakers que tinha forte defesa, jogadores nada simpáticos com os adversários (Shaq, Kobe, Horry e a doçura do Rick Fox, por exemplo). O Suns e o Dallas, com um jogo de pura velocidade, eram presas fáceis para o Spurs. O Mavs só venceu o Spurs quando o Avery Johnson chegou lá implementando defesa forte, ataque de meia quadra e usando brucutus do nível de Erick Dampier e DeSagana Diop.

Como torcedor você acaba querendo o time mais físico porque historicamente é o que dá mais resultado e não quer torcer pra time de temporada regular.

Já sei que uns vão dizer que time que joga bonito é time que ganha. Mas isso pra mim é palhaçada, esse argumento só vale pra torcedor. Eu aceito ver o Corinthians ganhar com uma defesa forte e violenta e com 1 a 0 gol de sorte. Mas se o Once Caldas faz isso eu acho um porre.
Se o Lakers vence jogando como o Spurs eu acho legal, ver o Spurs jogar aquele joguinho deles trocentas vezes não é legal.

Mas será que tem um jeito de ser campeão da NBA sem se entregar à essa regra de time defensivo com alguma variação do Kendrick Perkins no garrafão? Qual é o limite do jogo físico, quando ele se torna desleal? Ele deveria ser aceito na temporada regular ou os playoffs é que deveriam ter arbitragem mais firme? Mais assuntos para a sessão "Kobe ou LeBron?" de discussões infinitas.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Feliz dia da mentira!

Mentiiiira


Hoje é dia primeiro de abril e eu como um blogueiro nível Superpop (de um ranking que vai de Zorra Total até Família da Pesada) tenho que escrever alguma coisa que tenha a ver com esse dia.

Aliás, não sei quem teve a bendita/maldita idéia de fazer um dia da mentira. Era pra celebrar a mentira ou para chamar a atenção de todos alertando que a mentira existe (surpresa!)? De qualquer forma, acabou virando uma espécie de Dia mundial do humor barato ou dia em que qualquer mané do escritório se mete a engraçadinho dizendo "Cara, casei!" ou "Você viu quem morreu?".

Em homenagem ao humor ruim em todo mundo e em homenagem à nobre arte da mentira gratuita, um post do Bola Presa com 5 verdades que pareceriam mentiras no começo da temporada e 5 coisas que parecem mentiras mas que eu garanto que ainda vão acontecer.


5 verdades que pareceriam mentiras no começo da temporada

1. O Thunder é um dos times mais promissores da NBA
Pois é, pois é, o time que no começo da temporada era alvo da discussão "Qual é o pior time da história da NBA" hoje é um dos mais promissores. O Russell Westbrook joga muito, o Jeff Green é o melhor jogador que ninguém lembra que existe da liga (depois daquele que eu não lembrei na hora de escrever esse texto), e o Kevin Durant evolui seu jogo a cada gole de Gatorade que toma.

Pra completar, eles contrataram os bons Nenad Krsitc e Thabo Sefolosha e ainda mandaram o lixo do PJ Carlesimo embora e botaram um técnico que coloca a molecada pra correr e jogar na transição. Hoje eles jogam na velocidade, são um time delicioso de ver jogar e são o quarto time que mais enterra na NBA. Nesse ano tiveram um recorde de 7 vitórias e 7 derrotas em janeiro e 7 vitórias e 8 derrotas em março. Nada mal para um dos piores times da história.

2. O Sixers é melhor sem o Elton Brand
Essa pareceria uma mentira deslavada. Todos aqueles blogueiros metidos a entendidos de basquete primeiro dizem que só falta um cara de garrafão para o Sixers e agora vão dizer que o time funciona melhor sem esse cara?

É isso mesmo. A maior contratação da offseason da NBA foi um fracasso maior que a carreira de apresentadora da Irís Stefanelli. Mas claro que a eterna Siri tem sua beleza, digamos, exótica, que compensa tudo ao assistirmos ela vender câmera digital no TV Fama.

Pra mim não cola essa história do Brand fechar o garrafão para as infiltrações do Iguodala ou dele atrapalhar os contra-ataques. Mas é fato que quando fazem marcação dupla ele não tem um arremessador de longe pra passar a bola. De qualquer forma: FAIL.

3. O Don Nelson passará mais da metade da temporada sem fazer experiências na hora de escalar o time
Eu sei, ainda parece mentira. Mas vou explicar: há uma semana mais ou menos, o folclórico técnico do Warriors deu uma entrevista dizendo que agora, como a temporada já está perdida, ele iria começar a fazer experiências com formações diferentes no time titular.

Ou seja, quando um cara é titular e joga 40 minutos e no outro ele não entra, não era uma experiência. Quando um cara é titular e sai depois de 2 minutos e não volta, não é uma experiência maluca. Quando usa 5 escalações diferentes em 5 jogos seguidos não é uma experiência pirada. Quando ele chama uma cara da D-League e bota ele com função de melhor jogador do time ele não estava testando nada.

Em 74 jogos até agora foram 44 times titulares diferentes!!! E ele disse que ia começar a experimentar coisas novas há uma semana. Quem parece uma mentira é esse técnico.

4. O Andrew Bynum vai machucar o joelho em um jogo contra o Memphis Grizzlies
Essa tem cara de pegadinha do João Kléber. Já imagino a notícia sendo dada pro Kobe com câmera escondida, a cara dele de "Vou ser obrigado a arremessar 32 bolas por jogo, que droga" e o JK interropendo o programa dizendo "pára! pára! pára!". Só depois iam revelar que era uma pegadinha e que nunca que o Bynum machucaria de novo o joelho contra o mesmo time na mesma época do ano com a mesma promessa de voltar logo no começo dos playoffs.


5. O Suns não vai para os playoffs
O time que tem Steve Nash, Amar'e Stoudemire e Shaquille O'Neal não vai para os playoffs? Pfff... Se o Suns não for para os playoffs, nunca mais votem no Maluf.

Sério, pareceria mentira de político alguém dizer isso. A saída do D'Antoni poderia até ser sentida, mas o time tinha a proposta de melhorar na defesa e continuar com o ataque destruidor. No elenco tinha um prêmio de sexto homem, dois novatos da temporada, três troféus de MVP, 3 de MVP das finais, uma caralhada de aparições no primeiro time da NBA e ainda o Louis Amundson que é a menina mais bonita da NBA depois da Andrea (Bargnani) e da Lindsay (Hunter).

Se eu apostasse no Suns fora dos playoffs eu teria me demitido do blog no começo da temporada.


5 coisas que parecem mentiras mas que eu garanto que ainda vão acontecer

1. O Bobcats vai ser um dos melhores times do Leste nos próximos 2 anos
Nunca duvide do Larry Brown, ele já levou o Clippers para os playoffs e um time com o Iverson para a final da NBA, e o Bobcats tá jogando demais nesse fim de temporada. O Boris Diaw merecia vencer o prêmio de jogador que mais evoluiu de novo (após ter ganho o troféu Steve Francis de jogador que mais involuiu na temporada passada).

2. O Nash vai jogar no Knicks
Ele está insatisfeito no Suns, o time não tem futuro e o Knicks está louco pelo seu contrato expirante. Ele vai lá na próxima temporada e depois reassina por um salário menor para vir o LeBron James jogar ao seu lado e do cara que fez o Nash parecer um MVP, Mike D'Antoni.

3. O Greg Oden vai ser um bom jogador
Tá cada vez mais difícil acreditar nisso, eu sei, mas já espero que nos playoffs ele dê sinais que vai ser um puta pivozão na NBA. Não vai ser uma escolha melhor do que o Durant, que fique claro, mas ele vai ter uma carreira boa em breve. Selo Bola Presa de garantia nessa aposta!

4. O Bynum vai machucar o joelho em janeiro do ano que vem em um jogo contra o Memphis Grizzlies.
Alguém aposta contra? Eu aposto um pé do Danilo, um sorvete de damasco e uma latinha de chá verde que ele se machuca de novo.

5. O Houston Rockets vai passar da primeira rodada dos playoffs
O time é bom, é organizado e tem boas chances de não cruzar com o Utah Jazz (está para o Rockets como o Bobgatos está para o Lakers) e, mais importante, não terá o pé frio (e o joelho quebrado) do T-Mac.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Lucha Libre

O Artest sabe como mexer com a torcida


Já faz um tempinho desde que o Ron Artest ficou provocando o Kobe no último período da vitória do Lakers em cima do meu pobre Houston Rockets - que, aliás, acaba de perder Carl Landry graças a um tiro na perna (já se foi o tempo em que dava para brincar de pião na rua, se bem que ninguém está exatamente atrás de piões quando está na rua às 4 da manhã, claro).

O vídeo do bate-boca entre Kobe e Artest pode ser visto no post do Denis sobre a partida e a discussão entre os dois gerou muita atenção por aí, afinal esse tipo de coisa fica cada vez mais e mais rara na NBA. Um jogo sem muita importância acabou ganhando um outro clima, e no fundo um outro desfecho, porque o Kobe acabou chutando o traseiro do Houston depois das provocações. É o tipo de coisa que transforma completamente o esporte que conhecemos, nos faz penser por alguns segundos que aquilo é um combate, uma batalha, e que os adversários se odeiam e reagem uns aos outros espontâneamente.

Na linha de lances livres, o Artest grita "Você não está pronto pra mim", ao que Kobe responde, com cara de surpresa e deboche: "Quê? Não estou pronto pra você? Agora você é um comediante, é?" O Artest faz então a ameaça, prometendo dar o troco no próximo jogo entre as duas equipes, lá em Houston: "Espere por mim." Há confronto, um par de empurrões, nenhum dos dois calou a boca um segundo e os olhares foram ameaçadores. Mas uma provocação do Artest, feita em quadra com ar jocoso, estava no fundo dedando a verdade - batendo no peito e apontando para o Kobe, ele repetia: "Eu te amo, eu te amo."

Ali no palco estava a luta, o duelo, mas nos bastidores não poderia haver outra coisa além de amor - não quero dizer que o Artest quer levar o Kobe para cama, até porque o senhor Bryant parece mais interessado em baranguinhas de 19 anos - mas um amor de respeito, de admiração. Bem-vindos ao mundo da luta livre, do telecatch, dos Gigantes do Ringue, do filme O Lutador: inimigos na arte do espetáculo, admiradores fora da brincadeira. E a prova surgiu para mim justamente procurando o bate-boca da partida entre Lakers e Houston: encontrei o Artest entrevistando o Kobe, pouco depois do prêmio de MVP ter sido entregue na temporada passada.



Por diversas vezes durante a entrevista, Artest diz que o Kobe é seu jogador favorito, e relembra a vez que jogaram, um contra o outro, ainda adolescentes:

"Falaram pra mim que eu podia marcá-lo. Me colocaram em você, e você acabou comigo. Foi bem legal, sempre vou ser um grande fã."

O Artest ganhou fama sendo briguento, polêmico e encrenqueiro, mas bastam alguns segundos de entrevista para que ele deixe aparecer toda sua humildade. Ele está feliz e emocionado de entrevistar o Kobe, e por vezes parece até que está constrangido e envergonhado como uma garotinha perto de um Backstreet Boy (principalmente aquele loiro que a mãe não deixava tirar a camiseta nos clipes). A admiração óbvia pelo Kobe é explicada pelo próprio Artest:

"Você é um dos caras que nunca desistem. Você e o LeBron deveriam ser os caras que eu não gostaria de enfrentar, mas eu não gosto dos caras que não competem! Você tem o estilo de assassino, se o cara não compete você marca 100 pontos nele!"

Um dos jogos em que o Artest mais se divertiu foi quando ele estava enfrentando o Matt Harpring, ou seja, ele só está interessado em caras que não desistem mesmo (os leitores do Bola Presa que torcem para o Jazz indicam no post abaixo justamente que tipo de jogador o Harpring é, embora não gostem muito do CJ Miles, provavelmente porque ele é negro). Ele prefere ser humilhado num jogo espetacular e ficar provocando o adversário do que participar de um jogo porcaria sem qualquer emoção, sem ninguém que ele possa respeitar. O tipo de coisa que anima o Artest chega a ser engraçado, como ele diz pro Kobe, com um sorriso na cara: "Uma vez você falou que esperava ancioso pra jogar contra mim e eu pensei, diabos, ele vai marcar 50 em cima de mim!"

Eu me divirto quanto o basquete deixa entrever as vidas que correm por baixo dele, quando percebemos que o espetáculo acontece por cima de um outro espetáculo: o da vida. Eles são seres humanos, afinal de contas, e é natural que dois jogadores que levam a sério suas paixões discutam animadamente em quadra, principalmente quando ninguém sai com o olho roxo. Por causa do Kobe, pela sua admiração, Artest quer ser um jogador melhor:

"O Wade perguntou por que eu estava lhe marcando tão duro, e eu respondi: estou me preparando para o Kobe Bryant!"

Os olhinhos do Artest brilham o tempo todo, principalmente quando ele parabeniza o Kobe por ter sido escolhido para o Time de Defesa da NBA, que ele afirma ser um prêmio "mais importante do que o de MVP" que o jogador do Lakers recebeu. A humanidade do Artest fica explícita não apenas na conversa sobre a arte que eles compartilham, com as dicas de como envolver o resto do elenco e o foco na defesa ao invés de no ataque, mas também na comparação de suas vidas pessoais. Kobe tem uma filha de 6 anos, Artest uma de 11 anos, e eles trocam experiências sobre serem abordados por fãs quando estão passando um tempo escasso com suas crianças. Eles são de carne e osso, vejam só, e por isso mesmo eu jamais me atreveria a lhes pedir um autógrafo. Como disse a filha do Kobe, "é só um pedaço de papel" e eles têm mais o que fazer da vida. Seja na vida pessoal, seja na quadra de basquete, o que eles fazem é para eles mesmos, é uma piada interna, uma arte compartilhada entre artistas, uma expressão pura e simples, mas há um pouco que é direcionado para nós, fãs. Há um pouco de espetáculo que nos leva aos ringues de luta livre, amando e odiando quem somos levados a amar e odiar, e que estão ali para nos entreter.

Pra mim, a NBA é um pouco confusa com relação a isso. Tenta inibir a expressão pessoal dos jogadores, qualquer ato humano, espontâneo, qualquer ato de fúria ou desconcerto, na desculpa de que a NBA tem que ser espetáculo e "dar bom exemplo". Mas ao mesmo tempo o espetáculo está morrendo junto com a expressão de seus atletas, não há mais gente batendo no peito e chamando a torcida, não há ninguém interpretando vilões para que possam existir heróis. Agora, tudo é por baixo dos panos, quase inexistente, velado, sem graça. Legal, existem punições e multas terríveis para faltas, xingamentos, gente que levanta do banco de reservas e usa roupas não definidas, mas isso deveria melhorar o espetáculo? Quando foi a última vez que dois jogadores realmente competiram de forma espetacular (ainda que cômica) um contra o outro, chamando a torcida e despertando paixões? Confesso que estou com saudade do Gilbert Arenas falando demais, incitando os torcedores e seus adversários. Mas a NBA faz de tudo para evitar as transgressões e o espetáculo morre junto.

Dia desses, Stephen Jackson e seu técnico-cientista-maluco Don Nelson foram expulsos com três faltas técnicas em questão de segundos. O caso do Don Nelson, gravado com direito a close pelas câmeras de televisão, beira o ridíclo: ele olhou para o juiz, encarou, falou alguma coisa e foi mandado para o chuveiro. Não se deve falar com juízes, não se deve sair da linha, muito embora algumas estrelas possam papear com os juízes quanto quiserem. As regras são burras, idiotas e subjetivas. No basquete universitário, recentemente, um jogo começou com a cobrança de uma falta técnica, na linha do lance livre. Tudo porque um dos jogadores deu uma enterrada durante o aquecimento, o que é proibido pelas regras. Deviam proibir os dois times de fazer cestas também, quem sabe o jogo não fica bem legal? O vídeo das expulsões no Warriors vocês podem conferir aqui.

Aguardo feliz o próximo confronto entre Kobe e Artest, não apenas porque é o nosso semi-consagrado "Bola Presa Bowl" em que o meu time enfrenta o time do Denis, mas porque é uma das poucas relações de respeito na NBA que se transformam em paixão e espetáculo para nós, torcedores. O esporte é apaixonante mas cada vez temos menos jogadores para admirar porque, quando ninguém pode abrir a boca, todos acabam sendo iguais. E se todos são iguais, qual é a graça da brincadeira?

O próprio Artest diz gostar de poucos jogadores, como fala pro Kobe: "Eu tenho 28 anos, você tem 29, e você é um dos meus heróis! O LeBron tem 23, ele é o meu favorito depois de você, e depois tem o Tim Duncan e acaba por aí."

Ou seja, o Artest respeita três jogadores na NBA e só. Mas o mais engraçado é o Tim Duncan estar nessa lista, parece que não tem ninguém que jogue basquete e não admire o maldito. Não abre a boca, não mexe os músculos faciais, mas temos que admitir que ele é um pintor que domina o pincel como nenhum artista de sua geração, mesmo que só pinte em preto e branco. Mas acho que vou ficar com o Artest: atualmente, ele deixa a NBA colorida. O vídeo abaixo, por exemplo, não mente:



Ron Artest canta "Paul, eu sinto muitíssimo por ter humilhado você na televisão baixando sua bermuda, não farei isso de novo!" e depois explica que Paul Pierce estava acabando com ele desde o começo do jogo e que abaixar suas calças não serviu pra nada, já que tomou uma bola de três pontos na cara mesmo assim. Da próxima vez, acrescenta, "vou ter que tirar tudo dele, bermuda, meias, tênis, tudo!" Longe de ser um desrespeito, Artest oferece um espetáculo de certa forma lisongeiro para Pierce e a regra poderia tê-lo punido com prisão perpétua. Parece que eu reclamo das regras da NBA uma vez por semana, mas é que por diversas vezes elas são uma barreira que nos separam da diversão que o basquete deveria nos proporcionar. Quem gosta do esporte precisa saber quando jogá-las fora e agradecer, todas as manhãs, pelo Ron Artest. E pelo Tim Duncan também, vai, eu também sei dar meu braço a torcer.