sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Futebol e NBA - Dá pra ganhar dinheiro?

O futebol e a NBA tem mais em comum do que essa foto faz parecer


Eu não saberia dizer ao certo se a NBA é um negócio rentável que está dando prejuízo porque é mal administrado. Assim como não saberia dizer se ele é capaz, em qualquer sistema, de dar os lucros que os donos sonham em ter. Simplesmente não entendo de economia e, como explicado no meu último post, os números sobre a saúde econômica da NBA são confusos e às vezes contraditórios.

Em um exercício não muito fácil, mas divertido, vou tentar responder essa questão baseado no que foi dito sobre outro meio esportivo e que volta e meia dá de frente com números vermelhos, o futebol. A minha fonte é um espetacular livro chamado "Soccernomics". Baseado na febre de livros sobre números no esporte que começou nos Estados Unidos ("Moneyball" sobre o beisebol, que até vai virar filme com Brad Pitt, e "Basketball on Paper" sobre o basquete), os autores Simon Kuper e Stefan Szymanski resolveram fazer um livro tentando responder, com embasamento científico e estatístico, algumas questões básicas do futebol.

Entre as discussões estão coisas como quanto um pênalti pode decidir um jogo, sobre como bater esses pênaltis, questões mais amplas sobre porque a Inglaterra sempre perde, o Brasil ganha ou porque a Noruega é o país mais fanático por esportes (não só futebol, mas principalmente ele) no mundo.

Em um dos capítulos do livro o assunto vira economia. A seção do livro chama, na verdade "O pior negócio do mundo" e tenta mostrar, analisando principalmente a milionária Premier League inglesa, que o futebol é (1) um negócio pequeno, (2) um negócio feito para não dar certo e (3) talvez nem seja um negócio no fim das contas. Vou colocar aqui uns trechos, ideias de lá, e tentar analisar, dentro das minhas limitações no assunto, ver no que a NBA é parecida e no que não é.

A primeira coisa que o livro faz é comparar os dois times de futebol mais ricos do mundo, o Manchester United e o Real Madrid, com a Titanium Metals, na época do livro (2009) a última colocada da lista de 500 empresas mais valiosas da S&P 500. O Real Madrid, time mais rico do mundo com receita de 475 milhões de dólares por ano, não chega à metade do valor dessa pouco glamurosa companhia americana. E isso porque os números comparados são o de receita para o Real Madrid e o de lucros para a Titanium Metals. Segundo os autores, se os clubes fossem ranqueados de acordo com os seus lucros, "os resultados seriam de dar vergonha. Não só a maioria dos clubes não dão lucro e não pagam dívidas, mas até os maiores times estariam no fim da lista". Com isso os autores tenta mostrar que o futebol como um todo pode movimentar muito dinheiro, mas que os clubes são pequenas partes dessa engrenagem mundial e que mesmo as exceções, os maiores times do mundo, não são tão grandes como imaginamos. O exemplo dado no livro compara que o valor de movimento de negócios de um time da Premier League durante um ano é equivalente ao de um Supermercado da rede Tesco. E não a rede inteira, mas uma unidade.

Mas e a NBA? Segundo a Forbes, o time que mais gera receita é o New York Knicks, com 208 milhões de dólares por ano, menos da metade do que o Real Madrid. Mas em compensação a NBA é uma associação de equipes, e elas não são tão independentes quanto os times de futebol. A liga americana tem o poder de juntar 30 times e eles, juntos, movimentam uma boa grana. Como explicamos nesse post, o antigo contrato entre donos e jogadores tinha, por exemplo, uma regra em que o dinheiro gasto pelos times que ultrapassam o teto salarial eram parcialmente repassados para os times que respeitavam o teto. Não resolve tudo, mas mostra como os times estão ligados entre si nesse caso.

A contradição do futebol ser um negócio tão grande e pequeno ao mesmo tempo se dá porque o esporte não tem como controlar tudo o que movimenta. Eles não ganham dinheiro pelos jornais que falam deles todos os dias, pelos blogueiros que vivem de falar do esporte deles ou pelos litros de cerveja vendidos durante os jogos.

Veja o que o jogador holandês Demy de Zeeuw disse sobre isso e se a declaração não tem um paralelo (paralelo mesmo, só vão se encontrar no infinito) com o que os donos falaram na matéria do David Aldridge sobre os times participarem dos lucros dos jogadores até em seus contratos de publicidade: "Existem reclamações de que os jogadores ganham muito dinheiro, mas o mundo inteiro fatura em cima do sucesso dos jogadores; jornais, televisão, empresas". O livro ainda conclui, "O mundo ganha mais dinheiro com o futebol do que o futebol com ele mesmo".

A NBA ainda tem a sua marca e muitos dos que querem falar ou citar a liga precisam pagar, é algo mais regulamentado do que o futebol, mas mesmo assim parece que eles também não conseguem transformar em dinheiro o sucesso em que a NBA se transformou. Afinal, a temporada passada foi recordista de audiência, a internet transformou a NBA num assunto global (veja a gente aqui discutindo eles!) e mesmo assim reclamam de prejuízos descomunais. Uma das reclamações dos donos que eu já li é que o David Stern conseguiu fazer a liga ser um sucesso global, como ele sonhava, mas que os lucros vindos dessa globalização ainda não souberam ser capitalizados.

O próximo passo do livro é explicar algumas atitudes típicas do mundo do futebol que fazem dos times empresas destinadas a darem errado. Uma delas é como eles escolhem seus treinadores ou, no caso inglês, treinadores/managers. Uma empresa séria faria uma série de entrevistas e buscaria o candidato com o melhor currículo, mais preparo e trabalhos recentes de destaque. No futebol se busca quem está desempregado no momento porque se manda alguém embora sem ter outro em mente para contratar. E muitas vezes essas contratações são feitas mais na base da amizade do que no currículo. Managers não precisam ter qualificação profissional (nenhum tipo de certificado) e essa disponibilidade imediata está relacionada, muitas vezes, a uma demissão recente, um fracasso anterior. Isso sem contar quando não se contrata alguém sem experiência alguma para um cargo de alto nível. Dunga nunca havia treinado um time de futebol antes de assumir a seleção brasileira, Mark Jackson irá assumir o Warriors e sua experiência é como jogador e comentarista de TV. Uma função essencial no sucesso do time é tratada, no mundo inteiro, por clubes de todos os tamanhos, como algo banal, escolhido na intuição.

Na NBA, apesar das exceções, a coisa é um pouco diferente. É mais comum times terem planos de longo prazo e casos como o do manager Rich Cho, que ficou no Portland Trail Blazers por apenas uma temporada, são raros. Isso acontece porque a NBA beneficia times que são ruins com boas colocações no Draft do ano seguinte. Sem o desespero de ser rebaixado, técnicos com trabalhos ruins são poupados e a contratação de novos treinadores costuma ser mais séria. Mas mesmo assim ainda existe a restrição de "outsiders" e pessoas sem envolvimento prévio com o basquete (se você não é um ex-jogador não sabe nada do esporte), é a famosa panelinha.

Contratar mal é o primeiro passo para administrações ruins e, logo, derrotas seguidas de prejuízos. Um outro mito que o livro mata é o do torcedor fiel: em todo mundo os times ganham mais dinheiro com seus torcedores (audiência de TV, ingressos, pay-per-view) quando estão ganhando e os números despencam quando estão perdendo. É assim que o Sacramento Kings era um sucesso financeiro em 2001 e um time à beira da extinção 10 anos depois.

A melhor história do livro aparece nesse capítulo. É contada pelo técnico Sven Goran Eriksson e me lembra do Isiah Thomas contratando lixos como o Jerome James ou o Bulls pagando o PIB de um país médio para ter um envelhecido Ben Wallace. Simplesmente negócios milionários feitos como se estivessem comprando balas no supermercado. Eriksson conta que quando estava na Lazio foi até Madri para tentar comprar o atacante Cristian Vieri do Atlético. O time espanhol cobrou 50 bilhões de liras italianas (29 milhões de dólares), o jogador mais caro do mundo na época, portanto. A Lazio poderia também pagar menos, mas colocar jogadores no negócio. Foi então que aconteceu essa profunda conversa:

Cragnotti (presidente da Lazio): Nós podemos fazer isso?
Eriksson: Não, não podemos perder esses jogadores.
Cragnotti:  O que podemos fazer então?
Eriksson: Comprar ele.
Cragnotti: Ok.

E compraram. Não tentaram negociar, pagar 45 ao invés de 50, nem 49. Pagaram 50 e levaram. Nove meses depois a Internazionale de Milão foi atrás de Vieri e perguntou seu preço. Mais uma conversa:

Cragnotti: O que devo pedir por ele?
Eriksson: Peça o dobro. 100.
Cragnotti: Não posso fazer isso!

E pediu só 90 bilhões de liras. A Inter pagou sem negociar.

E assim são feitos dezenas de negócios idiotas no futebol, da mesma forma como são feitos na NBA. O Rashard Lewis pediu um salário que seria muito para o Wilt Chamberlain, mas ele era o que o Orlando Magic acreditava ser a peça final em um elenco campeão, então pagaram, dane-se. Como o esporte é julgado por resultados, não importa a economia, faz-se tudo para ganhar, com um troféu na mão tudo é perdoável.

O livro conta a história do Tottenham do começo dos anos 90 que tentou ser gerido como uma empresa. Levaram o time com contratações razoáveis, vendas quando necessário, nenhuma loucura ou muito risco. O resultado foi um fracasso duplo: os lucros vieram, mas muito baixos para uma empresa com sua receita e o time ficou parado nas posições intermediárias da Premier League, irritando seus fãs que estavam desesperados por contratações de peso. Torcedores não vibram quando seu time está no azul, mas quando vencem campeonatos. Na NBA se pensa do mesmo jeito. No ano passado o Atlanta Hawks poderia não gastar uma nota preta no Joe Johnson e ver seu time afundar na tabela de maneira deprimente, ou poderia aceitar a proposta de salário estratosférico e continuar indo para os playoffs todos os anos. Escolheu a segunda opção para não afastar os fãs e agora reclama do alto salário. A NBA, como o futebol, pede decisões financeiras ruins para manter o nível de competitividade das equipes alto.

E é então que o livro entra com sua última teoria: o futebol nem é um negócio. Depois de citar o caso do Tottenham, ele fala de times que usaram a estratégia Hawks: gastar bastante com jogadores porque os resultados conseguidos depois compensariam os gastos, mas isso deu errado também. Uma tabela mostra como mesmo vários campeões da Premier League nos últimos anos tiveram prejuízos enormes. Na NBA não é muito diferente, muitos times gastam demais para ter times bons e só um ou dois deles conseguem resultados de verdade, o resto só gasta à toa. Outros tentam poupar gastos e suas campanhas pífias afastam torcedores, caso do citado Kings e do Wolves, por exemplo.

No futebol um dos motivos para os negócios serem levados de uma maneira tão trágica é a falta de medo. Times não vão à falência, simples assim. Mesmo em casos extremos, como o da Fiorentina na Itália, o time faliu, foi refeito, começou na quarta divisão e poucos anos depois já estava no topo de novo. Mesmo quando um time está em situação trágica, sempre aparece um investidor, um patrocinador, torcedores e salvam a equipe, dão um jeito. No Brasil já teve até o governo federal criando loterias para salvar equipes de futebol! Com tanta gente lá para quando eles caírem, pra quê precaução? Um mundo onde acontecem essas coisas não pode ser considerado um negócio como outro qualquer.

A NBA viveu isso no ano passado, quando o New Orleans Hornets estava com prejuízos enormes e seu dono não queria mais aquela desgraça que poderia falir a qualquer momento. A própria NBA começou a tomar conta da franquia, então! E agora, mesmo com prejuízos, greve e tudo mais, já foram mais de 5 propostas de compra do Hornets. O que não falta por aí são donos e cidades dispostas a receber times da NBA achando que lá a coisa pode ser diferente.

A conclusão do livro é algo que a NBA e os donos de times iriam vomitar se lessem, mas que faz bastante sentido. Para os autores, os times deveriam ser conduzidos como museus: "organizações de espírito público que têm por objetivo servir à comunidade ao mesmo tempo que são razoavelmente lucrativas". Ou seja, serem conduzidas não totalmente como negócios, mas só a ponto de sobreviverem. Como museus, eles cobram e se esforçam para faturar, mas nada além de ir um pouco mais do que os gastos necessários.

Na NBA isso passaria por um time ajudar o outro, por exemplo. Os times de Los Angeles e Nova York dão lucro sempre, por estarem em grandes cidades, eles poderiam usar esse dinheiro extra para sustentar equipes de lugares menores. Isso seria sustentar a NBA como um todo, não pensar em equipes de maneira individual. Isso significaria, também, manter a liga grande, mas talvez sem as ambições de dominação universal do David Stern.

O Hard Cap é uma maneira de controlar os gastos e fazer da NBA um negócio mais controlado e sustentável, mas como o Danilo explicou bem, implica em diversos problemas que exigem estudo. É um começo, mas não a solução mágica. Muitos direitos, conquistas e dinheiro gerados pelos jogadores estão em jogo na negociação dessa parte do acordo.

O que podemos dizer depois de ler sobre tudo isso é que os donos estão desesperados para fazer um negócio que tem tudo pra dar errado (e tem dado errado segundo eles mesmos!) virar algo milionário e lucrativo, e para isso estão colocando a culpa nos jogadores e seus salários. Estão comprando a briga com o inimigo errado e tentando forçar os lucros da maneira mais destrutiva para a liga, prejudicando quem gera o dinheiro. A culpa está mais no sistema em que a liga está inserida do que nos salários.

Eles deveriam perceber logo isso para pensar em um sistema menos ambicioso que fosse ao mesmo tempo levemente lucrativo sem que os jogadores, os que fazem a gente escrever textos desse tamanho e gostar de basquete, sejam punidos. Mas a NBA, do jeito que é, no país onde se realiza, pensar em ser algo gerido de maneira a não tentar ter o máximo de lucros possível e ser apenas sustentável? Mais fácil o Messi enterrar na cabeça do LeBron James.




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Falando de outro futebol: Tem um blog bem legal chamado Two-Minute Warning que está fazendo uma série de posts para iniciantes no Futebol Americano. Eu estou lendo porque quero começar a ver mais de perto nesse ano (sei as regras, mas entendo pouquíssimo e quero me entreter durante a greve), então quem quiser aprender e me fazer companhia, confiram lá!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Salário duro

Enquanto eu escrevia esse post, Eddy Curry ganhou
 8 bilhões de dólares apenas para ser gordo

Continuando nossa série de posts sobre as negociações e os salários na NBA, é hora de falar dos modelos de teto salarial, os tais "salary cap". Como lembramos nos posts anteriores, as discussões entre donos de equipes e jogadores estão focadas na repartição dos lucros, mas passam também por qual modelo de teto salarial será utilizado pela liga. O modelo atual, conhecido como "soft", estipula um valor máximo a ser gasto com salários para cada equipe (que foi de pouco mais de 70 milhões na temporada passada), mas esse valor pode ser ultrapassado através de uma série de exceções ou pagamento de multas. Esse modelo, dizem, favorece os times milionários que podem pagar quantas multas quiserem, os times que estão em mercados mais favoráveis (e que portanto ganham mais dinheiro com propaganda, camisetas, ingressos), e ainda por cima inflaciona o salário dos jogadores, gerando gastos absurdos que estariam levando os times à falência. A solução, portanto, seria um "hard cap", um teto salarial duro, em que o limite máximo de gastos nunca poderia ser ultrapassado. Só assim todos os times teriam chances iguais de competir, os salários dos jogadores cairiam normalmente e a NBA ficaria mais equilibrada e economicamente saudável, além de curar o câncer e acabar com a fome na África.

Usar um teto salarial rígido, como os donos (e muitos dos nossos leitores) propõem, é uma opção bacanuda - mas que tem uma série de problemas que não andam sendo considerados por aí. Vamos então analisar os principais benefícios associados a um "hard cap" e ver se eles funcionam tão bem quanto se imagina.

- Um teto salarial duro iria diminuir o salário das grandes estrelas

O que muita gente não sabe é que o "soft cap" não é frouxo apenas porque os donos podem pagar multas para extrapolá-lo, mas também porque existem trocentas exceções que permitem aos times que já atingiram o limite gastar mesmo assim. Para entender melhor, o Denis escreveu um post excelente sobre as principais exceções e vale a pena dar uma lida. Aqui, vou dar apenas uma resumida nas principais: as exceções "Bird" ("Larry Bird", "Early Bird", "Non-Bird") permitem a um time reassinar seus jogadores mesmo sem ter espaço salarial para isso; a "mid-level" permite assinar todos os anos um jogador que custa o preço médio de um jogador (por volta de 5 milhões); a "bi-annual" permite gastar mais 2 milhões ano sim, ano não; a "rookie" permite que um time assine os novatos que draftou mesmo sem ter grana pra isso; e a "minimum player salary" permite assinar jogadores veteranos por um salário mínimo (por volta de 1 milhão) mesmo sem essa grana sobrando no teto salarial.

Ou seja, todas essas exceções permitem que os times possam contratar jogadores "comuns" (veteranos ganhando salário mínimo, novatos, jogadores com salário médio) mesmo sem ter espaço salarial para isso, e ainda tenham chance de manter suas estrelas. Sem essas exceções, teríamos dois problemas graves. O primeiro é que as equipes, após contratações até um valor máximo estipulado, não poderiam adicionar mais jogadores de jeito nenhum - nem novatos, nem veteranos. Os times ficariam "engessados", e quem mais sofreria com isso seriam os jogadores médios e ruins, os "role players", os "tapa-buracos". As equipes vão continuar gastando o que for necessário em suas estrelas, mas com os times engessados quem não conseguiria trabalho seriam os jogadores que recebem salário médio (de 5 milhões), os novatos e os veteranos.

O outro problema do fim das exceções é que elas não ajudam os times de mercado pequeno - pelo contrário, elas prejudicam essas equipes! Vejam bem: digamos que um jogador tem que escolher entre jogar em sua atual equipe, o Bobcats, ou então jogar pelo Knicks. Se as duas equipes podem oferecer exatamente o mesmo salário, financeiramente falando será melhor para esse jogador ir para o Knicks, onde conseguirá as melhores ofertas de propaganda, comerciais, patrocínios e vendas de camisetas. O time pequeno (no caso o Bobcats) só tem atualmente ao seu favor o fato de que pode oferecer um contrato maior para seu jogador, mesmo se isso extrapolar seu teto. Sem as exceções, times de mercado pequeno são obrigados a competir com os times de mercado grande em iguais condições de pagamento salarial, o que se torna muito injusto porque existe dinheiro disponível fora das quadras nos mercados maiores.

As estrelas, aliás, sentiriam pouco as mudanças no teto salarial. As equipes continuarão pagando o que for necessário por elas. Como vimos, a maior mudança seria nos jogadores de salários baixos ou então na hora das equipes reassinarem suas estrelas. Então os salários dos jogadores mais bem pagos cairiam um pouco na hora de renovar os contratos, mas seriam anos e anos até que esses salários diminuam consideravelmente. Além disso, imagine se o "hard cap" entrasse em vigor agora: os times que estão acima do limite se livrariam do Kobe e do LeBron? Obviamente que não. O Heat, por exemplo, está abaixo do limite salarial mesmo com LeBron, Wade e Bosh, apenas não sobra muita grana para adicionar outras peças como novatos ou veteranos. Essas equipes não cortariam LeBrons e Wades, mas sim outros salários e não poderiam, por muitos anos, adicionar mais ninguém para mudar esses elencos. É o fim dos veteranos indo ganhar mixaria para tentar vencer títulos - e também o fim das equipes que mudam e renovam todos os anos. A mobilidade da liga e o fator novidade cairiam bastante.

- O teto salarial duro deixaria a liga mais competitiva

Com um limite salarial rígido, provavelmente seria mais difícil assinar várias estrelas ao mesmo tempo. Mas, como vimos acima, isso não diminuirá a vontade das grandes estrelas de jogar por equipes de grande mercado. As equipes pequenas ou perdedoras teriam mais dificuldade em segurar as estrelas que já possuem, o que poderia prejudicar ainda mais os mercados pequenos. Mas, de fato, um dono rico influenciaria muito menos suas equipes do que acontece hoje em dia.

Segundo a Forbes, o Dallas Mavericks, atual campeão da NBA, ultrapassou o teto salarial em 15 milhões de dólares - tudo culpa do seu dono nerd e biruta, o Mark Cuban, que não mede gastos para tornar seu Mavs competitivo. Mas como seu time tem fins recreativos e ele tira do próprio bolso, tenho certeza de que não é um dos donos choramingando por falta de dinheiro. Vale lembrar que por ultrapassar o teto, Mark Cuban pagou outros 15 milhões de dólares em multa - que foram parar nos bolsos da NBA e das outras 23 equipes que não ultrapassaram o limite salarial. Ou seja: apenas 7 equipes ultrapassaram o teto salarial da temporada passada (Lakers, Mavs, Magic, Celtics, Nuggets, Jazz e Rockets). Rapidamente dá pra perceber que as equipes que mais gastaram definitivamente não foram as equipes com maior sucesso.

A Forbes fez uma lista bem legal com todos os classificados para os playoffs passados para mostrar quanto elas pagaram de salário e quantas vitórias tiveram na temporada regular. A melhor relação entre salários e vitórias foi do Chicago Bulls, que teve 62 vitórias pagando apenas 52 milhões de dólares em salário - bem abaixo do teto salarial de 70 milhões. Logo atrás veio o Thunder, com 55 vitórias e apenas 53 milhões em salários, mostrando o sucesso de seu plano de reconstrução focado na pivetada. Dos 16 classificados para os playoffs, apenas 4 ultrapassaram o limite: Boston Celtics, Los Angeles Lakers, Orlando Magic e Dallas Mavericks. Tirando o Mavs, campeão, as outras equipes só levaram na cabeça.

E não é como se o Mavs dominasse a NBA todos os anos porque o Cuban tem dinheiro enfiado nas orelhas, pelo contrário, sempre pareceu que o Mavs nunca ia ganhar um título nem no campeonato de par ou ímpar. Mesmo o Lakers, que ganhou dois títulos seguidos estando bem acima do teto salarial, é frágil e foi eliminado dos playoffs numa boa. É claro que um teto salarial duro seria saudável para impedir equipes exageradamente fortes como o Lakers e o Mavs, mas não dá pra sonhar com uma igualdade total, uma NBA em que "qualquer equipe pode ser campeã". Mesmo no formato atual as equipes que mais gastam não garantem melhores resultados (o Knicks foi, por anos, ao mesmo tempo a equipe com maiores salários e uma das piores em número de vitórias), times com poucos gastos estão chutando traseiros nos playoffs, e as equipes de mercado pequeno vão continuar tendo problemas para contratar jogadores porque nem só de salário vivem os jogadores (tem gente que escolhe o time baseado até no clima ou na presença de estrangeiros na cidade, como o Yi Jianlian).

- O teto salarial rígido vai fazer mais torcedores acompanharem a NBA

Muita gente diz que a NBA não tem o sucesso de público que deveria porque não é competitiva, culpa do modelo salarial que permite "super equipes". O Denis, que anda lendo o sensacional Soccernomics (já comentado em seu post anterior), fez questão de desmistificar essa ideia numa conversa que tivemos - e que eu aproveito para colocar aqui, na íntegra:

"Em um capítulo do livro, há uma comparação entre a Premier League e a NFL e algumas pessoas defendem que a NFL é mais legal porque qualquer um pode ser campeão, enquanto na Premier League só 3 times foram campeões nos últimos 15 anos.


Mas aí o livro mostra duas coisas: uma é que a NFL não é tão igualitária assim, tem alguns poucos times fazendo boas campanhas todos os anos, mas o que passa a impressão de igualdade são os diversos campeões, algo mais influenciado pelos playoffs em jogos únicos do que por equilíbrio entre as equipes. Na NBA, que extrapola com melhor de 7, existem menos chances de surpresa e se um time é superior vai ganhar mais vezes mesmo.

Mas depois ele mostra uma coisa ainda mais importante. As pessoas nem gostam tanto assim de ligas iguais. A audiência e interesse das pessoas passa pelos super times, pelos super campeões. Quando existe um time imbatível todo mundo quer assisti-lo. Ninguém perde uma chance de ver (e torcer contra) o Manchester United ou o Miami Heat. Se um time domina tudo sozinho pode até ser meio chato (vide Schumacher), mas quando tem dois ou três para fazer frente, fica mais interessante ainda. As pessoas gostam de saber quem é forte e quem é fraco, quem é favorito, a zebra e o coitado.

E um exemplo claríssimo é o Campeonato Brasileiro. O campeonato de 2009 foi um dos mais disputados da história, todo jogo era difícil, os times eram nivelados. E o que aconteceu? Todo mundo reclamou que iria ganhar o menos pior. Que não tinha time lá com cara de campeão, que ninguém queria vencer. E curiosamente é o que estão dizendo do Brasileirão HOJE. No fim de semana o Corinthians perdeu e todo mundo achou que ele seria ultrapassado, mas Flamengo, São Paulo, Palmeiras e Vasco, todos com chance disso, empataram e deixaram a chance escapar. Hoje os torcedores e mesas redondas já estão com o papinho de "ninguém quer vencer" e "nivelado por baixo". 

Então, mesmo se o "hard cap" nivelar a NBA, isso não garante que as pessoas irão se interessar por isso. Um ou outro, talvez, mas o grande público prefere Lakers, Celtics, Bulls e Knicks lutando pelo título todo ano do que eventualmente se deparar com Kings e Bucks na final."



Não apenas o "hard cap" não necessariamente deixaria a liga mais equilibrada então, já que salários e resultados não parecem tão relacionados e a falta de exceções atrapalharia os times pequenos, mas também podemos ver nas afirmações do Denis que esse suposto equilíbrio não é algo procurado pela grande maioria dos fãs de esporte. Tenho certeza de que ele retornará a esse tema num futuro próximo, mas por enquanto nos basta colocar em dúvida alguns dos benefícios associados ao "hard cap" - e o interesse dos torcedores está certamente entre eles. 

Vale lembrar, também, que grande parte da diversão dos torcedores de uma temporada para a outra é saber como seus times podem melhorar, que jogadores podem contratar, quem serão os novatos que entrarão na equipe. Com "hard cap", um time (seja ele grande ou pequeno) que usou todo seu espaço salarial e fedeu durante a temporada será obrigado a continuar fedendo até que os contratos se encerrem. Não daria para contratar ninguém, nem um quebra-galho sequer, nem um novato cheirando a fralda, nada. Os torcedores de um time ruim vão ter que amargar esse time do mesmo exato jeito durante anos, o que certamente diminuirá o interesse não apenas nos times, mas na liga como um todo.

Eu sei que esse post faz parecer que eu estou apenas metendo o pau no "hard cap" e quero que a liga continue como está, mas é exatamente o contrário. Sou a favor do "hard cap", mas basicamente por um motivo: ele facilita o entendimento e a compreensão da NBA. Hoje em dia para saber se seu time pode ou não contratar alguém, você tem que ser doutor em direito trabalhista e físico quântico. Tem que ver a duração dos contratos, as exceções disponíveis, há quantos anos um jogador que será reassinado está jogando por seu time (porque isso influencia o salário máximo da extensão), se o time usou a "bi-annual" no ano anterior, qual é o salário médio da temporada, qual é o mínimo para veteranos... é um inferno completo! Com um "hard cap" você simplesmente vê se tem espaço, vê quanto custa um jogador e pronto, é só saber somar, não requer prática nem habilidade e nem ter feito a quarta série. Mas para isso funcionar é preciso levar em consideração a série de problemas que vão vir no pacote e tentar dar um jeito de resolvê-los: os times não podem ficar engessados, tem que existir um modo de melhorar as equipes de uma temporada para a outra; as equipes precisam ter algum tipo de vantagem na hora de reassinar suas estrelas; e a divisão dos lucros (das equipes que tiverem lucros, claro) deve ser maior com as outras equipes, para ajudar os mercados menores. 

Mas mesmo que todas essas questões sejam resolvidas, não adianta sonhar com uma suposta igualdade de condições entre as equipes e nem com uma diminuição significativa nos salários das grandes estrelas. Como os jogadores bem disseram durante as negociações com os donos, os cortes salariais vão ser mais fortes justamente nos jogadores com menores salários, esses itinerantes que vão de equipe em equipe sendo contratados apenas com as exceções salariais.

O "hard cap" traz, portanto, mais problemas a serem resolvidos do que soluções aos problemas atuais da liga, infelizmente. Seu maior mérito econômico é impedir que os donos gastem demais - mas no modelo atual eles escolhem gastar ou não, e nem dá pra dizer que você "precisa gastar para ser competitivo" porque os salários definitivamente não compram vitórias (né, Eddy Curry?). Se eu gasto mais do que tenho aqui em casa comprando um elefante e uma banheira, a culpa vai ser minha, não preciso de uma regra em casa que me proíba de fazer cagadas. O que está em jogo, então, é a falta de opções para os times desfazerem as suas cagadas, os exageros, as más contratações. Só que um "hard cap" torna desfazer cagadas algo ainda mais difícil, porque fica impossível remendar a merda feita! Entra em jogo, então, um outro modelo como opção: o de salário por mérito. Os donos parecem estar oferecendo algo nesse molde para os jogadores, ainda que não saibamos exatamente em que grau. Mas analizaremos aqui no Bola Presa, em breve, um modelo totalmente "meritocrático" para os salários e vamos ver se ele resolveria essas questões que parecem continuar tanto com o "soft cap" quanto com o "hard cap". Aguardem!

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A história do outro lado

São tantas piadas a serem feitas com essa foto que minha cabeça já pifou


Como disse rapidamente no post de ontem, a NBA tem sido lenta em negociar com a Associação dos Jogadores. Até agora os jogos mentais, provocações e declarações à imprensa tem dominado o cenário sobre a greve/locaute da liga. Mas muito do que a gente sabia havia sido dito pelos jogadores e por jornalistas e suas fontes sempre anônimas. Porém, na última semana o David Stern deu uma entrevista de mais de uma hora ao Bill Simmons, da ESPN, só sobre o assunto, e esclareceu muitas coisas sobre a opinião do outro lado da mesa de negociações.

O David Stern, além de comissário da NBA, é quem está representando os donos de times nessas negociações. Ele estar à frente é algo que eu entendo, mas discordo. Assim como os jogadores se uniram e escolheram representantes, Derek Fisher sendo o principal deles junto do advogado e ex-jogador da NFL Billy Hunter, os donos deveriam entrar em um consenso e escolher alguém para representá-los. O Stern, como representante da liga, seria o mediador. Afinal, a NBA é feita pelos times e pelos jogadores que os representam, as duas partes precisam de um acordo e do jeito que está agora parece que a NBA faz de tudo para agradar os donos e os jogadores são uns intrusos. Cada lado quer uma coisa e Stern, ao invés de tomar partido, deveria tomar cuidado para alcançar um bom meio termo para que todos os lados saiam satisfeitos. Hoje, em teoria, ele tenta a mesma coisa, mas como está representando os donos, os jogadores não botam tanta confiança no que ele diz.

Para entender o que o Stern fala é bom estar um pouco inteirado do que está acontecendo. Comecei a tentar explicar tudo com um post que concluía que o grande ponto de discussão entre as duas partes eram a divisão dos lucros em primeiro lugar e, só depois, a questão do teto salarial "duro" (o tal "Hard Cap") e o atual modelo de "Soft Cap", em que os times podem extrapolar o limite devido a algumas exceções na regra. Os que defendem o Hard Cap dizem que isso ajudaria os times de mercado menor e aumentaria a competitividade da NBA, mas esse será o assunto de um futuro post. Hoje cuidamos de detalhar o que os donos querem de verdade, o que David Stern tem a dizer sobre esse período de locaute e as dificuldades de comunicação encontradas até agora.

Como a questão é sobre dinheiro, gostaria de ter mais números para discutir o assunto, mas não é fácil. A NBA não divulga todos os seus dados, apenas solta, de vez em quando, alguns releases com números que não sabemos a procedência. Isso rendeu uma pesquisa independente da revista Forbes, que concluiu que a liga teve lucro de 183 milhões de dólares na temporada 2009-10. A NBA, em resposta, disse que na verdade o que houve foi um prejuízo de 340 milhões. Palavra de um contra a palavra do outro, acreditar em quem? David Stern afirmou a Bill Simmons que os jogadores tem acesso aos números que eles produziram e que não questionam mais, como fizeram no começo, a validade deles. A Associação dos Jogadores contratou seus economistas e parecem estar de acordo com o dito oficialmente pela NBA. Mas acusações de manipulação de estatísticas ainda rondam a área.

Segundo a Forbes, a NBA é "um negócio saudável e lucrativo", a NBA diz que "a liga perdeu dinheiro em todos os anos do atual contrato da CBA e nunca operou no azul". A diferença, para a revista, seria que a NBA estaria usando alguns truques na hora de contabilizar os números, para fazer com que alguns ganhos não sejam contados e assim a liga pareça menos lucrativa. A motivação para isso seria um pedido e pressão dos donos de times que, como divulgado em uma matéria de David Aldridge, teriam dito, sobre os jogadores, que estão "cansados de fazer esses caras ricos". Eles dizem que se não fosse pela infraestrutura que a liga oferece, os atletas nunca teriam tanto dinheiro e por isso até uma porcentagem do dinheiro ganho em propagandas e contratos com empresas de material esportivo deveriam entrar no BRI, o PIB da NBA que é distribuído entre jogadores e equipes.

A acusação de que a liga está sim ganhando dinheiro, mas fazendo parecer que não, é pesada, mas faz algum sentido. Primeiro porque a maioria dos donos de equipes não são como Mark Cuban, um fã de basquete disposto a gastar dinheiro pra seu time ir bem nos playoffs. São na verdade homens de negócio que pulam fora e vendem a franquia quando acham que não dá pra faturar mais. Ou seja, são pessoas que seguem os princípios de mercado de que se não for para dar o máximo de lucro possível, não vale a pena.

E também faz sentido porque alguns números indicados pela própria NBA, aos poucos e ao longo dos anos, dão a entender que eles estão ganhando uma boa bolada. Os contratos de TV assinados há pouco tempo são os mais lucrativos da história, a NBATV hoje existe na maioria dos pacotes a cabo dos EUA, o League Pass é mais vendido do que nunca e agora atinge todo o mercado mundial junto com outros produtos relacionados à marca. Só a China, por exemplo, rende 50 milhões por ano à liga. A venda de ingressos só cresceu nos últimos 10 anos, 12% segundo números oficiais, 22% segundo a Forbes. E o BRI do último ano, segundo a própria NBA, foi de 3.8 milhões de doletas, é dinheiro demais. Como se gasta tantos bilhões de dólares assim? Com o quê? A NBA nunca divulgou como gasta seu dinheiro, apenas coloca a culpa nos salários enormes dos jogadores, que levam 57% do BRI.

Poderia ser a NBA, portanto, apenas um negócio mal administrado? Só os donos, com votos unânimes, podem tirar David Stern do poder, por que então eles se juntam a ele se o cara não consegue fazer uma liga que rende tanto dinheiro dar lucros? O fato é que até os próprios jogadores, com a exceção de Spencer Hawes até agora, também evitam falar mal do todo-poderoso comissioner. Nunca se sabe o dia de amanhã e muitos querem trabalhar dentro da liga (como comentaristas, assistentes, técnicos) quando se aposentarem e ter uma briga com o chefe tão bem relacionado não é um bom começo. E mesmo assim Stern disse que se acha mais atacado do que nunca, comentando inclusive aquela notícia de que ganha 23 milhões de dólares por ano. Na entrevista ele diz que o número mais real seria 1/3 disso, e que já cortou seu próprio salário em tempos de vacas magras.

Sobre as acusações do negócio ser mal administrado, Stern se foca no dinheiro que os jogadores ganham. Ao ser questionado se ele não deveria ter mais soluções criativas para ganhar mais dinheiro (o mais próximo de ser acusado de ser um mal administrador, Simmons sugere patrocinadores nos uniformes), Stern responde que tem sido criativo desde que entrou na NBA: O primeiro teto salarial era de 3 milhões de dólares por time, hoje beira os 60. A liga chegou até esse número porque cresceu, passou a render mais, foi inovador em contratos de TV, internet, em atingir o público global mas, nas palavras de Stern, "A cada dólar que faturamos, 57 centavos vão para os jogadores. Gastamos 50 centavos para render 1 dólar e 57 centavos vão embora logo depois, não dá para ter lucro assim". 

A ideia que o líder da NBA tenta passar em toda a entrevista é que eles já fizeram de tudo para ter lucros, e que eles acreditam que estão fazendo o negócio acontecer do melhor jeito possível, mas que tudo o que chegam perto de faturar, acaba nas mãos dos jogadores. O salário médio de um atleta da NBA no último ano foi de 5.5 milhões de dólares, o que Stern disse ser "ridículo, é a união de trabalhadores com o salário médio mais alto no mundo". E diz que os jogadores esquecem dos outros 5 mil funcionários, da liga e das equipes, que também ralam para a NBA acontecer e que também querem sua parte do bolo. Alguns desses, aliás, tem sido mandados embora mesmo com a promessa da liga de que não haveriam cortes de pessoal.

O David Stern deixou claro até demais (eu esperava mais mistério) a proposta deles para os jogadores e os motivos:

Divisão da receita da liga: Atualmente o sistema é 57% para os jogadores, 43% para a NBA. Stern quer deixar a divisão em 50-50, o que significaria para os jogadores abrir mão de 200 milhões de dólares por temporada nos atuais números. Segundo Stern é o único jeito da NBA ser um negócio lucrativo.

Diminuição dos anos de contrato: Os jogadores sempre dizem querer fazer um contrato para a carreira. Um com muito dinheiro e longa duração, imune à queda de produção e principalmente a contusões, o contrato que vai garantir a vida até depois da aposentadoria. Stern comenta de times que gastam demais com jogadores que não produzem nada, a ideia é que o máximo permitido para um contrato seja de 4 anos e não 6 como é hoje.

Quando comenta sobre isso Stern até fala de uma idéia que eu achei bem divertida. Dar a chance dos times quebrarem o contrato de um jogador em mais anos e assim abrir espaço na folha salarial. Ao invés de pagar 20 milhões para o Rashard Lewis esse ano, o Wizards poderia pagar 5 milhões por ano pelos próximos 4 anos. Eles ficam mais tempo com o jogador, pagam o que prometeram, mas abrem 15 milhões de espaço salarial para contratar alguém que possa jogar melhor. Só não vejo os jogadores aceitando isso, claro.

Pagar de acordo com a performance: Ele não dá detalhe de como seria esse sistema, mas seria algo que premiaria quem está jogando bem e daria menos dinheiro para quem está jogando mal. Uma reação clara aos donos de time cansados de ver o seu jogador mais bem pago não ser nem o terceiro melhor do time (ARENAS, Gilbert).

Hard Cap: Isso já estava claro desde muito antes da greve. Os times querem ter mais controle dos seus gastos e não querem enfrentar times que podem gastar mais do que eles. Mas, pra mim, os donos lutando pelo Hard Cap para gastar menos parece quando alguém está de regime e esconde os doces para não poder achar depois. É uma luta dos donos para se prevenir da própria incompetência.

Embora o David Stern tente fazer parecer que só aceitando tudo isso é que a NBA tem alguma chance de ser um bom negócio, é óbvio que vão ter que abrir mão de algumas coisas. Assim como os jogadores não podem abusar e ainda pedir aumento do salário médio, como o Stern disse que aconteceu. Já existem muitos empecilhos entre as duas partes e cabeça dura não deveria ser mais um.

Na semana passada haveria uma reunião entre as duas partes. Horas antes do seu início os jogadores mandaram dizer que só iriam comparecer se os donos aparecessem com uma proposta diferente da apresentada antes, a resposta foi de que eles tinham a mesma, mas que queriam conversar mesmo assim, argumentar sobre aquilo. Os jogadores se recusaram a ir e a reunião não aconteceu. O comissário insistiu que os jogadores não fizeram nada de errado, "estão em seu direito", mas disse uma coisa que realmente é incontestável, "nunca se sabe que rumos tomarão uma conversa". Nem que tivesse sido para falar "não" 100 vezes seguidas durante uma hora, os jogadores deveriam ter ido. Eles estão tão preocupados em se mostrar um grupo forte e unido que às vezes podem parecer só tolos.

Achei legal a entrevista do Stern, mas é muito difícil ficar do lado dos donos nessa questão. Quem faz a NBA ser interessante e um negócio atraente são os jogadores, por que eles não podem ficar com a maior fatia dos lucros? É uma discussão que me lembra aquela de com quanto os artistas deveriam ficar pela venda de cada disco e quanto ficaria com a gravadora. Por mais importância que a última tenha na divulgação, queremos que quem seja recompensado seja o artista, o talento. Será mesmo que só tirando essa "vantagem" dos jogadores é que a NBA, a melhor liga de basquete do planeta, disparado, teria alguma chance de ser lucrativa? Sério?

Isso me fez pensar bastante. Se a NBA que é a NBA, sem concorrentes no mercado de ligas de basquete, não consegue ter lucro, quem pode ter? Será que esse tipo de esporte pode ser rentável ou é um negócio fadado ao fracasso, a sobreviver com números ridículos? Pensar isso nos EUA deve ser uma loucura, mas existe um outro esporte famosos no resto do mundo que sobrevive há mais de um século sendo o que algumas pessoas chamam de "o pior negócio do mundo", o futebol. O próximo post será uma comparação do mercado financeiro do futebol com o da NBA, tentaremos descobrir o que os dois mundos tem em comum e o que podem aprender um com o outro.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

As poucas palavras de Splitter

Splitter viu muita coisa estranha em seu primeiro ano de NBA


Sim, eu sei, faz tempo que a gente não escreve aqui. Mas as coisas estão corridas e não está fácil manter o ritmo. Por sorte (sorte?!) o mundo da NBA também anda tão lento que nem estamos deixando de acompanhar nada. Alguns jogadores estão cogitando ir para o exterior, pouquíssimos estão realmente assinando contratos, e a NBA e a associação de jogadores enrolam, enrolam e nunca se encontram para discutir pra valer o fim da greve. Tá parecendo briga de namorado em que um diz "se ele quisesse realmente falar comigo ele ligaria, eu que não vou ligar!". E nessa quem fica deprimido no sofá comendo brigadeiro é a gente.

Nesse tempo de vacas magras, anoréxicas, vamos achando assunto por aí. O mais recente foi meio por acaso, antes do jogo de ontem entre Paulistano e São José pelo campeonato Paulista de basquete a seleção brasileira estava treinando no clube aqui da capital. Consegui, assim, uma rápida entrevista com o Tiago Splitter, o solitário representante da NBA na seleção brasileira.

Eu estava meio receoso em conversar com ele. Se tem uma coisa que ele não parece gostar ou nunca está disposto é dar entrevistas. Lembro ainda daquele "Bola da Vez" que ele participou na ESPN Brasil e que eu considerei um desastre, todas as perguntas, das mais interessantes até as mais tolas, viraram respostas curtas e que não inspiravam novos questionamentos. Nada de errado com isso, claro, tem gente que simplesmente não gosta de falar, não se sente à vontade ou que só diz algo realmente relevante se entrevistado por aquelas mágicas pessoas que tem um dom bizarro de fazer as pessoas se abrirem. Quem já assistiu algum documentário do Eduardo Coutinho sempre pensa durante o filme em como diabos ele faz as pessoas ficarem tão à vontade diante de uma câmera! Eu não tenho essa resposta, definitivamente não sou um grande entrevistador e por isso fui lá falar com o Splitter esperando pelo pior.

A entrevista, no fim das contas, foi como a própria primeira temporada do brazuca na NBA: não foi um desastre, mas também não foi nada de mais. Tentei puxar assuntos diferentes mas durante todo o tempo ele manteve o semblante sério (que não estava nada sério antes da entrevista, cheio de risadas enquanto combinavam o pôquer de mais tarde) e respondeu sempre o básico, o politicamente correto e, no fundo, o que a gente já sabia. Aliás, é esse um dos motivos que me fazem pensar que entrevistas com atletas são absurdamente superestimadas. Vira e mexe tem site aí se gabando de ter conversado com o atleta X, aí quando você vai ler é um monte de lugar comum. Não é culpa entrevistador, que certamente tentou tirar algo legal, nem do entrevistado, que diz o que quiser. A culpa é de tentar dar tanto valor para algo que não é tão interessante assim. Assistir a meia dúzia de vídeos do Splitter e fazer uma análise do jogo dele teria rendido bem mais comentários interessantes do que esse texto que vocês estão lendo agora.

Conversando sobre a sua primeira temporada, ele confirmou que o Spurs, até mais do que outros times da NBA, treinam muito pouco de maneira coletiva durante a temporada regular, explicando assim porque ele ficou fora da rotação do time por tanto tempo e porque às vezes parecia bastante perdido, principalmente no ataque, quando tinha chances em quadra. Ter se machucado durante a pré-temporada foi crucial e ele sabia disso, mas sem poder fazer nada a respeito apenas tentava compensar nos poucos treinos que tinha. Também não podemos esquecer de quando o Richard Jefferson disse que ele ficou perdidão lá na primeira temporada dele pelo Spurs, mesmo participado do período de treinos, e que todo mundo lá sempre dizia que a segunda temporada é mais fácil. Mas o próprio Splitter lembrou muito bem que o Gary Neal apareceu como novato e se destacou mesmo assim. Bom que ele que lembrou do Neal e não me obrigou a dizer o mesmo, iria parecer uma ofensa e o cara é bem grande.

Sobre os playoffs ele disse que o que o time concluiu ao fim da série contra o Grizzlies foi que o que pesou foi aquele jogo 1 que perderam em San Antonio. O resto da série foi parelho e com o time da casa vencendo os jogos restantes, o diferencial foi aquela estréia, jogo que o Manu Ginóbili não atuou por estar machucado (contusão que aconteceu em um inútil último jogo da temporada regular). Segundo o Splitter o time do Grizzlies mudou após aquela partida, ganhando muita confiança e passando esse sentimento para a sua torcida, que empurrou o time e fez os jogos em Memphis ainda mais difíceis do que seriam inicialmente. Sobre Zach Randolph, que Splitter teve que defender bastante, o comentário do brasileiro foi aquele típico elogio-crítica de quando você não quer admitir que seu adversário é tão bom assim. Ele reconheceu que o cara é cheio de recursos, mas também disse que chegou uma hora que qualquer coisa que ele jogasse para cima caía dentro da cesta.

Para a próxima temporada Splitter disse estar bastante focado no seu arremesso de meia distância. Afirmou que nunca foi seu forte, que provavelmente nunca vai ser, mas que tem treinado para adicionar isso ao seu arsenal ofensivo. Ele precisa mesmo, na NBA é muito importante para um pivô (especialmente para os que não são tão fortes, caso do brasileiro) ter algum jogo de fora para poder ser menos óbvio e assim ganhar espaço onde ele é mais eficiente, lá perto da cesta. Serge Ibaka virou uma das sensações da última temporada e fez o Thunder se sentir à vontade para trocar Jeff Green quando desenvolveu esse arremesso. Perguntei se isso era incentivo do Spurs, mas parece que não, desde o ano passado o trabalho individual com o Splitter tem sido geral, um pouco de tudo, sem foco em um tipo específico de defesa ou fundamento. Legal que o Splitter, portanto, tenha pessoalmente essa noção da importância de um arremesso de meia distância na NBA. E decepcionante que o Spurs não pareça tão perfeito assim, eles tem uma imagem a manter, afinal!

Perguntei também da influência do Tim Duncan em seu jogo, muita gente estava esperançosa de ver o quanto o brasileiro, que já é muito técnico, poderia aprender com um dos caras com mais recursos no garrafão na história do basquete. Mas pelo o que o Splitter me disse, não acontece tanto assim. A influência do Duncan parece ser mais em termos de comportamento do que qualquer outra coisa. O pivô brasileiro disse que seu companheiro de time está sempre tentando acalmar e tranquilizar a equipe em momentos mais complicados do jogo e pedindo tranquilidade na hora de finalizar as jogadas, para conter a afobação da ala mais nova do elenco de San Antonio. Mas é assim algo mais mental mesmo, nada de ensinar algumas manhas ou movimentos. Perguntei, no maior bom humor, se então a gente nunca veria ele aprendendo aquele arremesso usando a tabela patenteado pelo Duncan, Splitter nem esboçou um sorriso, me olhou com uma cara entediada e disse "Essa é uma jogada dele. Não é porque a gente treina junto que eu vou fazer também". Tá aí o que a gente leva na cara quando tenta ser metido a engraçadinho.

Também conversamos sobre a troca do George Hill, que foi mandado para o Indiana Pacers em troca do novato Kawhi Leonard. Ele não quis se comprometer, disse que o Hill jogou muito bem ano passado, mas que entende que a diretoria do Spurs já procurava há algum tempo um ala com mais características defensivas. Nas entrelinhas eu percebi ele bastante satisfeito com a movimentação, ele até havia comentado antes de como a defesa tinha sido um dos problemas durante a temporada do Spurs. Deve ter ouvido muita bronca do Popovich por causa do Richard Jefferson, acredito.

Sem querer piorar ainda mais o humor do Splitter, dei por encerrada a conversa. Não acrescentou lá muita coisa ao que já sabíamos dele e de sua temporada no Spurs, mas valeu a tentativa. Agradeci, me despedi, desejei boa sorte para a seleção e pouco tempo depois estavam todos rindo de novo e falando da tal "noite do pôquer". Pelo jeito ela acontece toda noite mas, por algum motivo que eu não saquei, ontem não iria rolar. Marcelinho Machado disse que estavam todos fugindo só porque ele sempre ganhava. Não sei se é verdade, mas eu apostaria que o Marcelinho blefa bastante, mas que às vezes tem uma trinca mesmo, uma a cada dez tentativas, talvez. Splitter, por outro lado, é a poker face por excelência, nem precisa das aulas do Tim Duncan pra isso.
....

Atualização: Muita gente nos comentários dizendo que pensava que o Splitter era um cara bacana e que estão decepcionados. Não é bem assim. Ele não respondeu muita coisa, é bem quieto, mas é o jeito dele, não parece ser marra. Tem gente que gosta de falar, tem gente que não gosta.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O basquete clássico de Larry Brown

Uma história de amor


Meio que caiu no meu colo, muito em cima da hora, a chance de ir em uma clínica ministrada pelo Larry Brown no Clube Paulistano aqui em São Paulo. O Larry Brown, pra quem não lembra, é o único técnico campeão da NBA e da NCAA na história do basquete americano, tem entre seus times famosos o Indiana Pacers do fim dos anos 90, o Philadelphia 76ers de Allen Iverson que foi para a final de 2001 e o Detroit Pistons campeão da liga em 2004 em cima do Fab Four do Los Angeles Lakers. Já escrevemos sobre ele duas vezes, uma em 2008 e outra em 2010. Bom, o cara manja, tem história e a chance tava lá, eu fui.

O público-alvo do programa eram treinadores e eles estavam até que em peso por lá. Não sou grande conhecedor do meio basquetebolístico nacional, mas vi caras conhecidas e uniformes de pelo menos uns 6 ou 7 times da NBB, além de uma porrada de desconhecidos que se anunciavam como treinadores de categorias de base, deu pra encher uma arquibancada do ginásio. Querendo conhecer o seu público, em certo momento o Larry Brown perguntou "Quantos de vocês são técnicos de High School?" e o tradutor mandou "Quantos de vocês são técnicos de categorias de base?", Coach Brown nunca vai saber que a relação escola-esporte não é nada como no país dele.

Nos dois dias de clínica, sábado e domingo, Larry Brown mostrou o que é ser um técnico old school dos Estados Unidos: Cobrou muito, com gritos, os jovens garotos-cobaia que mostravam seus exercícios, enfatizou o jogo de equipe, a defesa forte, os fundamentos e fez questão de deixar claras suas raízes no basquete, principalmente quando encerrou a clínica fazendo um breve discurso em que mostrou como estava a apenas algumas pessoas (entre seus técnicos e técnicos de seus técnicos) do próprio James Naismith, criador do jogo de basquete. Ele queria dizer que o que estava ensinando lá é do jeito que foi ensinado desde o princípio.

Mas nem precisava de tudo isso, dava pra ver como ele era da velha geração pelos seus exercícios. Nada de mirabolante, nada que usasse aparelhos modernos, trocentas pessoas ou movimentações revolucionárias, eram aquecimentos simples, movimentações de bola básicas e sistemas de ataque e defesa que vemos qualquer dia na televisão. Isso provocou algumas reações negativas da platéia, ouvi vários "Isso eu faço todo dia nos meus treinos", mas o segredo estava nos detalhes. Larry Brown, chato, não deixava passar nada. Cobrava intensidade e velocidade dos movimentos (não o mais intenso possível e nem o mais rápido possível, tudo do jeito certo), o pé que começava os movimentos, a cabeça levantada, a altura dos passes, o movimento das mãos na hora de passe e bandeja, em que altura driblar a bola, se o drible deve ser ao lado do corpo ou na frente, etc, etc, etc. Um simples "oito", aquele exercício em que três jogadores correm trocando passes, sem drible, até a cesta, era desculpa para milhares de pequenos comentários que nunca passariam pelas nossas cabeças.

Não quero ser preconceituoso com o basquete brasileiro, até aproveito pra divulgar aqui que tinha bastante gente lá e vários estavam até filmando e fazendo toneladas de anotações, mas não faltavam também bocejos e comentários como o que eu citei antes dizendo que ele não estava apresentando nada de novo. Não estava mesmo, mas estava apresentando o bem feito, o que é bem mais difícil. Afinal, quem de nós não morre um pouquinho por dentro sempre que vemos erros primários mesmo em jogos entre os maiores times e melhores jogadores aqui do Brasil? Não queremos admitir, é chato, mas somos ruins pra cacete nesse esporte que a gente tanto gosta.

Uma coisa que parece ter decepcionado parte da platéia e animado outra é que muitas vezes os comentários e exercícios mostrados pelo Larry Brown eram voltados para quem está ensinando crianças e adolescentes a jogar basquete, não para os profissionais. Uma vez perguntaram sobre pick-and-roll e a resposta dele foi "NUNCA usem pick-and-roll com os mais novos", a dica era ensinar o básico, a jogar, passar, driblar, arremessar, defender e só depois, muito depois, complicar com o pick-and-roll. Ele também é cegamente contra o uso de defesas por zona nas categorias de base. Os jogadores, para ele, devem aprender os princípios de defesa individual, só marcar assim e, no futuro, aprender a zona, que é mais posicionamento do que a técnica de defender o seu homem. Ah, ele também disse algo que eu espero que todos os técnicos lá tenham anotado: não force os meninos novinhos a jogar em uma posição apenas. Todo mundo tem que fazer todos os exercícios em todas as funções e aprender a jogar nas cinco posições, quando forem mais velhos, com o físico e a altura mais definidos, aí sim vão se especializar em algo. Não precisamos de mais pivôs de 1,95m que só sabem jogar de 5 porque eram os mais altos da escola.

Na parte ofensiva os times do Larry Brown sempre foram muito simples, e tudo ficou bem claro depois de ouví-lo falar. Ele explicou que nas primeiras semanas de treino com qualquer equipe ele só treina defesa, defesa, mais defesa e rebote. Depois de um tempo um pouco de contra-ataque e só semanas mais tarde algumas movimentações ofensivas mais simples. Quando ele mostrou essas movimentações - simplíssimas e que os técnicos das categorias de base podem usar quando bem entenderem com qualquer pirralho - ele ia dizendo como as usava nos seus times da NBA! Apontava para um garoto e dizia "Essa a gente fazia em Philadelphia, esse é o Allen Iverson" e mostrava como isolar o segundo armador no lado da quadra. Os exemplos da NBA, aliás, deixavam tudo mais fácil de entender. Uma jogada fazia mais sentido se você tivesse um cara como o Tim Duncan na posição 4, ou a defesa do pick-and-roll muda se um dos envolvidos for um arremessador como o Dirk Nowitzki.

O Allen Iverson foi o jogador mais comentado do fim de semana. E nem é porque todo mundo queria saber dele, simplesmente o Larry Brown o citava a todo momento! O assunto poderia ser ataque, defesa, disciplina, futebol de botão, não importa, Iverson era o exemplo. Quando estava pregando a obediência às regras e horários disse que quando o ônibus de um time seu tem hora marcada, sai naquela hora e quem ficou pra trás não joga. Mas quando o Allen Iverson certa vez, em um jogo importante, se atrasou, ele mandou o motorista ir arrumar o motor, que ficou pronto justamente quando o AI entrou pela porta do automóvel.

O curioso é que ele falava de indisciplina com certa raiva, como se fosse um câncer para o time, ele é do tempo (que nunca acabou aqui no Brasil, especialmente no basquete) em que o técnico é um líder-general e os jogadores são soldados jovens, burros, submissos e sem vontade. O técnico fala, grita, dá ordens, broncas e o jogador deve fazer tudo em nome da equipe, é uma visão militar do esporte que, confesso, me perturba um pouco. Alguém já presenciou a cena de um técnico gritando com um jogador profissional? E não pela TV, mas ao vivo, vocês já viram um marmanjo de 30 anos levando um esporro humilhante só porque executou uma função de maneira inapropriada em um jogo? É uma cena bizarríssima, pelo menos pra mim. Não vejo razão alguma para um homem adulto gritar com outro homem adulto dessa forma, ainda mais em um contexto esportivo, mas vai saber, pode ser só porque eu não sou do meio. Bom, Larry Brown é desse tempo e dá esporros, mas quando conta de Allen Iverson é sempre com uma pitada de humor e nostalgia. Embora o Detoit Pistons tenha tido mais sucesso, a impressão que temos é que ele se orgulha mesmo daquele Sixers, de como fez aquele time limitado render muito, jogar como time unido e como domou o indomável Allen Iverson.

Um time que ele citou no máximo uma vez foi o seu último trabalho, o Charlotte Bobcats, mas estava implícito em diversas outras falas. Pra quem não lembra, há duas temporadas o Bobcats acabou com 44 vitórias, 7º lugar no Leste, primeiro playoff da história do clube e a melhor defesa, disparada, de toda a liga. Larry Brown disse incontáveis vezes que não importa o elenco que você tem e a incapacidade deles de marcar pontos, jogando com mais vontade e jogando bem na defesa (o que é possível, segundo ele, mesmo sem os melhores defensores individuais) é possível vencer qualquer um. Defesa foi a palavra mais falada do fim de semana, até quando estava ensinando movimentações de ataque ele terminava dizendo "treinar isso é também um bom jeito de treinar sua defesa". Obsessivo.

Em um dos intervalos eu consegui chamar o Larry Brown de lado para uma conversa, disse que queria fazer uma entrevista rápida e ele topou com um sorriso no rosto. Eu estava animado e com umas trezentas perguntas pra fazer, mas não consegui fazer nem 10% delas. Primeiro porque o tempo era curto, depois porque fomos interrompidos um gazilhão de vezes por uma caralhada de gente querendo tirar fotos. Larry Brown, sempre sorrindo, aceitava todos os pedidos e eu até fui o fotógrafo algumas vezes. Quando finalmente começamos a conversar apareceu um cara nos interrompendo e dizendo que tinha morado na Philadelphia na época que ele treinava lá e que era uma honra conhecê-lo e blá blá blá. Ou seja, foi uma conversa curta e picotada, mas foi uma conversa com o Larry Brown.

Como o assunto anterior ao intervalo em que conversamos tinha sido a dobra defensiva (como fazer, onde fazer, em que situação) eu trouxe à tona aquele fatídico lance do jogo 5 da Final de 2005 quando o Pistons, em casa, perdeu para o Spurs com uma bola do Robert Horry depois que o Rasheed Wallace dobrou a marcação no Manu Ginóbili. É a última bola desse vídeo:



O Larry Brown riu quando mencionei esse lance e comentou com o seu pessoal, "Ah não, ele está me perguntando daquela bola de 2005", ao que seu assistente respondeu "Aquilo não foi culpa nossa".  Disse que no tempo pedido logo antes da jogada tinha dito apenas que seus jogadores não dessem a chance da bola de três pontos e nem dobrassem a marcação de maneira alguma, depois até me falaram pelo Twitter que em um DVD do Spurs tem a cena dele dizendo isso. Rasheed Wallace simplesmente não obedeceu. Mas ele me explicou o motivo daquilo ter acontecido, disse que o Rasheed era o líder defensivo daquela equipe, que não parava de falar em uma posse de bola sequer comandando onde todo mundo deveria estar, avisando onde estavam os bloqueios, onde estava a ajuda, era uma matraca com total consciência do sistema defensivo do time. E completou falando que os jogadores tinham a liberdade de improvisar na defesa quando vissem algo diferente acontecendo, e foi o que o Rasheed viu e fez quando percebeu Ginóbili no canto da quadra. O Larry Brown até deixou claro que a dobra foi bem feita e o argentino teve que fazer um passe muito difícil, mas ei, é o Ginóbili, fazer coisas difíceis pra ele é mais fácil do que fazer o básico. Foi um erro que não foi dele, mas que ele parecia aceitar.

Logo depois conversamos sobre o seu trabalho no Charlotte Bobcats. Ele contou com certa alegria como os jogadores abraçaram a idéia de que poderiam vencer qualquer um mesmo tendo consciência de que, como elenco, não eram os melhores. Então eu perguntei da fama de alguns jogadores do time de serem difíceis de treinar, em especial o desobediente Stephen Jackson e o preguiçoso Boris Diaw. Sobre o francês ele disse na hora que isso é lenda, que Diaw é um dos melhores caras que ele já treinou, mas que Stephen Jackson, esse era um inferno mesmo. Brown me disse que no seu primeiro ano o time estava indo bem e o Jackson atuando muito bem dentro de quadra, então que fingiu não ver muitas bobagens no seu comportamento, mas que no segundo ano ele chegou para Michael Jordan e o resto da direção do time e disse que eles não iriam longe com aquele cara no elenco. "Então alguns meses depois eles não tinham mais o Ray Felton e o Tyson Chandler, mas o Stephen Jackson ficou lá. É por isso que eu não sou mais o técnico daquele time".

Conversamos também sobre a clínica em si, sobre a motivação dele. Pela dedicação que ele demonstra não parece que faça isso só pelo dinheiro, ele realmente se dedica a ensinar tudo e não sossega até ver que tudo foi assimilado pelos jogadores e que os técnicos não têm mais perguntas. Ele também já tem dinheiro de sobra para o resto da vida, nem poderia ser isso também. E nem digo isso porque o coitado tá com idade avançada, mas seus contratos como treinador foram zilionários, o que teve com o Knicks logo depois que saiu do Pistons daria pra acabar com a fome na África e ainda criar um problema de obesidade no continente. Ele me disse então do prazer de ensinar, que gosta de basquete e quer que o jogo seja mais praticado ao redor do mundo e, mais do que isso, jogado do jeito certo. Larry Brown realmente acredita do fundo do coração dele que o seu jeito de ensinar é o melhor e quer compartilhar isso, é algo impressionante mesmo que você não compartilhe de tudo o que ele fala.

Eu perguntei para ele sobre o uso de estatísticas avançadas na NBA atualmente, ele disse que odeia, que é coisa criada por gente que nunca jogou ou treinou basquete e que não sabe o que se passa lá dentro, uma bobagem cara e desnecessária. Em alguns momentos ele também pareceu muito descrente de times muito velozes ou com ataques complexos cheios de invenções. O negócio do Larry Brown é defesa e simplicidade, é como ele aprendeu, como ele construiu sua carreira e como quer ensinar para o mundo todo. Old School, como disse antes.

Como fã de NBA eu não estou 100% com ele. Acho que o uso das estatísticas pode fazer muita diferença na hora de arrumar um time e que quando se tem os jogadores mais talentosos do planeta nas mãos, até deve-se tentar ser inventivo, criativo e tentar coisas novas para tirar o máximo deles. Mas entendo o lado dele também, na hora de espalhar o basquete pelo mundo você deve ensinar o pessoal a como bater a bola certo e não dar um passe no pé, depois de décadas aprendendo isso é que você começa a pensar em um time jogando no run-and-gun. É quando os times já sabem jogar e estão nivelados num nível alto e em um campeonato estável que as estatísticas podem fazer mais diferença, as duas coisas, de certa forma, podem se completar. Ele não acha isso, mas concordamos pelo menos que o seu jeito clássico de ensinar é bastante indicado para qualquer tipo de iniciante, seja um garoto querendo evoluir como jogador ou um país precisando de uma leva desses garotos.

Pessoalmente eu não consegui tudo o que eu queria. Ainda poderia conversar muito mais sobre aquele Pistons de 2004 e 2005, sobre o que ele achava do Raymond Felton como armador principal e porque brigava tanto com o DJ Augustin, também se ele vai mesmo ser assistente do Celtics no ano que vem e, claro, sobre o Iverson.  Mas foi corrido, não dava tempo e, no fundo, o negócio lá era para os técnicos. Espero que eles tenham feito mais do que tirar fotos de tiete e aproveitado todas as dicas dadas para a preparação de novos jogadores, por incrível que pareça os conselhos de um cara tão conservador da velhíssima guarda americana podem ser úteis para revitalizar o esporte por aqui.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Autonomia

Tudo pelo esporte

Como sabemos, a NBA está paralizada, algo muito bem explicado pelo Denis em nosso post anterior. Donos de times e jogadores negociam suas parcelas de lucro e demais regras financeiras da liga enquanto torcedores, horrorizados, já são obrigados a imaginar como será a vida sem NBA num futuro próximo. Já tem gente tendo até mesmo que considerar medidas extremas para passar o tempo sem basquete, como sair de casa ou até mesmo ler um livro. Mesmo compreendendo as questões econômicas envolvidas, grande parte dos torcedores não compreende como fatores assim podem impedir o que realmente importa, que é o esporte. Alguns jogadores da NBA estão topando sair do país e ir jogar em lugares bizarros por menos dinheiro do que conseguiriam caso chegassem a um acordo, então por que não abrem mão de algumas exigências e se focam no basquete?

Uma das coisas principais que a paralisação da NBA acaba deixando clara, sem querer, é a opinião continuamente mutável que temos sobre a relação do esporte com o mundo fora dele. Por vezes, acreditamos que o esporte é um mundo à parte, isolado ("o que acontece na quadra, fica na quadra"). Por outras, vemos o esporte apenas como outro negócio empresarial cuja intenção é, como tudo o mais, alcançar os maiores lucros possíveis. Tendemos a ir de um extremo ao outro constantemente, dependendo apenas da situação - ou de quanto ela nos atinge ou nos diz respeito. No esporte, especialmente, muitas vezes nos falta o distanciamento necessário para compreender sua estrutura, seu papel cultural e analisar as motivações presentes em cada mudança brusca de opinião.

Conceitualmente, os jogos são afastados do mundo da vida. Não quero dizer com isso que não façam parte de nossa vida, do nosso dia-a-dia, mas sim que simulam situações reais mas de modo fictício, ordenado, delimitado. Quando jogamos, seja uma brincadeira de roda infantil, seja um esporte como o basquete, estamos executando uma ação que não tem qualquer relação com o mundo fora do jogo. Jogar ou brincar não produz, não tem importância material, não tem propósito definido. O jogo está sempre delimitado por regras, tem hora e local para acontecer, não pode se extender para além da arena (ou ginásio, ou campinho, ou ringue). É o local em que se vive na segurança e na restrição da bolha, fora do mundo "real". Por isso, quando um boxeador dá uma porrada no outro fora do ringue, ou quando um jogador de basquete quer acertas as contas depois de encerrado o tempo de partida, estamos falando de uma corrupção do jogo. No mundo real, as ações têm consequências e se extendem indefinidamente, um confronto entre duas pessoas pode durar uma vida inteira e o cara pode te achar no Facebook e dizer que você tem pinto pequeno. No esporte, quando a partida acaba está tudo encerrado, não está mais "valendo", é como dar "pause" no videogame.

Podemos dizer, nesse sentido, que o jogo é algo autônomo. O que vale na vida não precisa valer no esporte, e o que vale no esporte não precisa valer na vida (mesmo que em geral um dede o outro, mas isso é pra depois). É como eu sempre digo, o Bruce Bowen dá uma voadora na cara de um sujeito e está tudo bem porque ele só quer vencer, está dando o sangue pelo seu time; mas se um cara no seu emprego só quer vencer, ser promovido, e para isso te dá uma voadora, todo mundo vai achar escroto e o cara vai pra rua. Nesse sentido, o que acontece no esporte fica no esporte porque entendemos que ele é um mundo à parte, simulado, controlado. E o mesmo vale para qualquer jogo (muitas autoridades ainda precisam entender isso sobre videogames, aliás). É claro que o esporte é, justamente por isso, excelente para dedar algumas coisas: se o Bowen chuta cabeças e nossa cultura acha isso válido em nome de um fim, percebemos muitas das motivações da nossa cultura (e do Bowen) no mundo real mesmo que elas não sejam colocadas em prática. O esporte, por ser autônomo, deda muitas das coisas que queríamos fazer mas recalcamos porque o mundo real não deixa.

Essa autonomia do esporte fica muito evidente quando queremos que um jogador aceite menos dinheiro para "jogar no time do coração", quando aceitamos algo em quadra que não aceitaríamos na vida real, quando exigimos que um jogador jogue pela sua seleção mesmo que não ganhe nada com isso, ou quando queremos o fim da greve apenas pelo "amor ao esporte". Mesmo sem consciência de que esportes pressupõe uma autonomia e um distanciamento do mundo da vida, é normal que muitos achem que o dinheiro é muito secundário perto da chance de poder praticar um esporte ou jogar num time de que se gosta. Ninguém trabalha de graça sem ser considerado idiota, escravo ou Pokémon, mas jogadores supostamente deveriam obedecer a outras coisas mais importantes: amor, vocação, honra, orgulho, etc. São sinais da autonomia mal compreendida. É por isso que, quando um time passa a dar prejuízos, seus torcedores não cogitam a possibilidade de fechá-lo. Torcem para seus times, amam seus times, indiferentemente das condições reais econômicas, da crise na bolsa ou da quebra da Grécia. Achamos normal se uma loja do McDonald's do seu bairro fecha porque estava às moscas, mas o fechamento de um time causa merecidamente horror e revolta. O esporte não está na mesma categoria de simples lojinhas: ele não serve para nada, ou ao menos não deveria servir, e por isso é autônomo - e apaixonante.

Mas assim como o soco de um boxeador fora do ringue, a submissão do esporte ao mundo econômico é uma corrupção do princípio básico do jogo, que é o distanciamento. Jogadores de basquete não estão mais tentando alcançar seus limites dentro de um ambiente controlado e delimitado, não estão mais explorando sua criatividade dentro de certas restrições, não estão mais fazendo algo inútil e à parte do mundo da vida. Eles estão, agora, pagando o leitinho das crianças (e a mansão, e o iate, e a ilha no Pacífico) assim como o fazem todas as outras profissões do planeta que estão ligadas ao mundo "real". Não dizemos que um carteiro está exercendo sua criatividade num ambiente controlado, até porque não há espaço para a criatividade e nem nada controlado, ele pode morrer atacado por um cachorro a qualquer momento. Jogadores, agora, competem e alcançam seus potenciais enquanto se preocupam com o salário, com o contrato, com o cabelo e com o jantar. A autonomia foi pro saco.

Por isso temos opiniões contraditórias sobre o esporte todos os dias. Queremos uma autonomia, sentimos essa autonomia, torcemos e vibramos com ela, porque é o que torna o esporte algo mágico, mas ela está completamente corrompida pela parte econômica e não fazemos a menor ideia de como lidar com isso. Vamos agir normalmente como se o seu time do coração fosse o McDonald's? Jogadores são apenas funcionários contratados para executar uma função, devem obedecer aos seus patrões, ir ao trabalho de terno e gravata e fim de história? Vemos jogadores de basquete assim como veríamos engenheiros, bancários ou médicos trabalhando? Essa é, cada vez mais, nossa nova realidade.

No entanto, o esporte não perdeu completamente a autonomia e não dá pra encarar um time exatamente como uma empresa. Donos de equipe são exatamente isso, empresários, e tirando o Mark Cuban (que é um nerd triliardário que só queria ver o Nowitzki campeão), estão atrás de lucros. Mas se uma empresa está dando prejuízos de centenas de milhões de dólares há anos, o que se faz? Corta-se custos, funcionários, e então se nada der certo a empresa vai à falência ou é fechada. Com equipes da NBA, isso não acontece porque o esporte está fora do mundo da vida e mexe com a paixão e o fanatismo de milhões. Um dono nunca vai aceitar fechar o Celtics só porque perdeu dinheiro, e nem os torcedores permitiram uma ação dessas.

O que temos, então, é um paradoxo só possível dentro de uma anomalia, de uma bagunça conceitual bizarra. Queremos que os jogadores joguem por amor (especialmente no que tange à seleção brasileira), vemos que eles são apenas funcionários que trabalham para quem paga mais como todo o resto do planeta, empresas que dão prejuízo deveriam ser fechadas, mas não aceitamos que o time que amamos feche as portas por culpa de uma relação com o mundo "real". Na nossa cabeça, a autonomia do esporte por vezes vence como resquício de tudo aquilo que o esporte representa, e por vezes vira farofa como símbolo do mundo econômico em que vivemos. Confuso pra burro.

Equipes da NBA (e de futebol, e de vôlei, e de handball) não são feitas para darem lucro. O esporte não é feito para gerar dinheiro. O fato de que gostamos de assistir faz com que haja espaço para cobrar por isso, o esporte começa a gerar dinheiro, empresários querem criar modos de gerar ainda mais grana, os jogadores que participam do esporte se veem no direito de receber a maior parte dessa grana, e aí o circo está montado. Só que tudo isso acontece depois do esporte, o basquete não surgiu para encher os bolsos de ninguém, pelo contrário, ele não era para servir para coisa alguma. É normal, portanto, que essas equipes tenham prejuízo, e que decisões empresariais coerentes não sejam usadas quando está em jogo algo desimportante, apaixonante e autônomo como o basquete. Carinha sabe que pagar 20 milhões pro Rashard Lewis é a coisa mais imbecil do planeta, mas vale a pena pela chance de ganhar um título de campeão. O primeiro infeliz que fizesse isso no McDonald's tava lavando privada pro resto da vida.

Isso não muda o fato de que a NBA gera uma grana surreal com venda de ingressos, camisetas, direitos de transmissão, jogo de videogame e alguns bilhões de chineses que só sabem dizer "Yao Ming". É importante entender que não falta dinheiro entrando na NBA, se existem prejuízos é apenas porque se gasta mais dinheiro do que se ganha. Seja com decisões idiotas (Eddy Curry?), seja com decisões passionais (Rashard Lewis pela chance de título), seja com decisões de autonomia do esporte (manter equipes vivas mesmo em cidades de mercado pequeno que não podem bancar direito um esporte desse porte), seja com decisões individuais (os donos querem receber salários enormes, o David Stern quer um salário enorme, o vice-sub-semi-diretor da liga quer um salário enorme). O que os jogadores querem é receber a maior parte da grana que a NBA recebe (justo, já que são os grandes responsáveis), mas querem também que tudo aquilo economicamente relacionado com a autonomia do esporte (as decisões idiotas, passionais, etc) não influencie aquilo que eles conquistaram fora das quadras (o estilo de vida milionário, os salários exorbitantes). Ou seja, os jogadores querem manter os benefícios da NBA ter se tornado uma empresa, querem continuar com seus contratos de milhões de dólares, mas querem também um esporte autônomo e desligado do mundo da vida em que dirigentes continuem oferecendo contratos que não fazem sentido no mundo real, funcionam apenas no mundo fictício do jogo em que ser campeão é importante.

Os donos, por sua vez, querem que a NBA seja uma empresa que lhes dá lucros como qualquer franquia de praça de alimentação, mas querem que a economia possa ter menos influência no andamento das equipes - uma autonomia que seria conquistada com um teto salarial rígido (o "hard cap"), algo que obriga os times a gastarem exatamente a mesma quantia em salários, equilibrando equipes de mercados diferentes (e disponibilizando, com isso, contratos menores para os jogadores).

Um dos principais motivos para as negociações estarem indo tão mal entre donos de equipes e jogadores é que por vezes se requisita autonomia e por vezes se requisita avanço econômico - e é impossível chegar a um acordo que aloque ambas as coisas sem que haja perdas violentas de um dos lados. Mesmo que tentem sentar numa mesa de prédio de escritórios vestindo gravatas e sapatos desconfortáveis, discutindo finanças, é impossível deixar de lado o fato de que o esporte não é e nem pode ser apenas negócio. Não é apenas uma questão de fazer os números baterem, é também questão de manter o basquete um jogo e com isso o interesse do público (e até sua viabilidade econômica).

Incapazes de levar luz às negociações na NBA, talvez essa reflexão sirva para tentar uma consistência na hora de opinarmos sobre o esporte que amamos. Se o Nenê tem que jogar na seleção brasileira mesmo que não ganhe nada com isso, mesmo que lhe tratem mal, apenas em nome do esporte, então não dá para dizer que um jogador tem que fazer o que lhe mandam porque é um funcionário e recebe um salário para isso. Na hora de argumentar, é importante entender se você está exigindo autonomia do esporte para com o mundo da vida, ou então se pensa o esporte como empresa, com razões unicamente financeiras para existir. Embora convivam juntos até mesmo nas ações de donos e jogadores, esses dois modos de lidar com o esporte são excludentes e, se combinados, criam paradoxos impossíveis de se resolver.

Eventualmente, jogadores e donos de equipe provavelmente optarão pelo esporte como empresa e chegarão a um acordo econômico, mas haverá muita resistência até lá. Jogadores ameaçam migrar para a Europa justamente para mostrar que o esporte continua independentemente dessas questões, que podem jogar em qualquer lugar, que podem fazer aquilo que amam independente de questões econômicas (e ao mesmo tempo optam por ir jogar na China só porque é o mercado que paga melhor). Ninguém está sendo burro de abrir mão de seus 20 milhões de dólares em troca de apenas 1 milhão pra jogar num lugar bizarro na Turquia, trata-se de uma demonstração de autonomia (ainda que interesses econômicos ainda lhe caminhem de mãos dadas).

Nas próximas semanas, aqui no Bola Presa, vamos analisar uma série de possibilidades que resolveriam o conflito entre donos e jogadores. Algumas tornariam o esporte completamente autônomo, sem donos ou comissários, outras resolveriam apenas a parte econômica, e até dá pra deixar todo mundo contente - mas é preciso culhão pra jogar fora todo o modelo atual e começar do zero. Além de resolver as dúvidas dos nossos leitores sobre a paralisação (vulgo "greve", vulgo "parou essa merda"), que podem ser colocadas nesse post aqui, vamos analisar à exaustão as possibilidades de resolução do impasse, e comentar o andamento das negociações. Ou seja, o Bola Presa é autônomo: não ganhamos um centavo, não temos basquete pra comentar, mas continuamos firmes e fortes com nossos posts gigantes por aqui!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A greve que não é greve

Derek Fisher fala após a primeira reunião com a NBA. Atrás dele John Salmons usa um chapéu


Hoje é dia 1º de agosto, aniversário oficial de um mês da tão comentada e temida greve da NBA. O período que passou foi certamente um dos mais entediantes da história recente do basquete norte-americano, incluindo aí algumas partidas do San Antonio Spurs. De notícia mesmo só o Deron Williams postando no próprio Twitter que já tinha um contrato para jogar no Besiktas da Turquia, acordo que ainda está pendente devido a problemas do clube. Ou seja, quase nada de concreto e muita falta de assunto. Porém, hoje houve finalmente uma reunião entre as duas partes envolvidas nas negociações: a Associação dos Jogadores e os donos de equipes da NBA começaram a discutir como encerrar essa situação. Ou seja, a partir de agora poderemos, talvez, ter algo de mais concreto para discutir.

Mas antes disso precisamos entender muitos termos e conceitos essenciais na conversa, começando pela própria palavra "greve". Muita gente aqui no Brasil, nós do Bola Presa entre eles, está chamando essa paralisação de greve, mas não sei se é o mais adequado para a situação. A definição da palavra de origem francesa é uma "interrupção no trabalho a fim de obter algo, uma paralisação de funcionários com o intuito de protestar ou lutar por aumento de salários ou condições de trabalho". Porém, não é esse o caso que estamos vendo no basquete dos EUA.

A NBA é uma liga com trinta franquias, os times, que negociam a divisão dos lucros gerados pela NBA com os jogadores, representados por sua Associação, a NBAPA. Essa divisão de lucros, assim como as regras de duração de contratos, salário de novatos, nível do teto salarial e etc, acontece a cada seis anos. O nome do contrato assinado por ambas as partes é o Collective Bargaining Agreement, ou simplesmente CBA. Geralmente o contrato é renovado, com suas devidas alterações, antes de ser expirado, fazendo a liga continuar normalmente. Dessa vez, porém, o CBA venceu no dia 1º de julho e um novo não foi assinado. Claramente a situação é a seguinte, existem duas partes com interesses diferentes e que não chegaram a um acordo sobre alguns pontos, logo não é uma greve, é uma negociação empacada. Os jogadores não são funcionários da liga que estão se recusando a jogar em nome de melhores salários, eles são uma associação separada da NBA que não concordou com os termos de um novo acordo.

Nos acostumamos a ver os jogadores de cabeça baixa aceitando tudo o que o comissário David Stern dita. Ele regula as multas por palavrões, gestos, agressões ou faltas duras e até instituiu as regras de vestimentas dos jogadores fora de quadra. A maioria ouve quieta e pouco reclama, mas eles são submissos devido ao contrato que assinam. Quando fazem os acordos da CBA os jogadores aí sim se declaram funcionários da NBA e aceitam suas regras e seu líder, mas assim que o contrato vence, estão livres. Então repito, não é que eles estão cruzando os braços e se recusando a jogar, não há um contrato quebrado porque não existe contrato algum valendo nesse momento. O site da NBA e dos times da liga nem podem ter referências e fotos dos jogadores porque não há nada de oficial entre uma parte e a outra valendo nesse momento.

A palavra que os americanos usam para se referir ao que está acontecendo é "lockout". A palavra não tem tradução direta para o português e até por isso ela foi aportuguesada para "locaute". Esta, segundo um dos poucos dicionários que registram a palavra, é uma "coligação de patrões que, em resposta à ameaça de greve de seus operários, fecham as oficinas ou empresas e não admitem nenhum trabalhador enquanto não chegam à solução da questão em debate". Ou seja, é uma greve às avessas, uma greve no mundo bizarro. Mas também não é o caso que vemos na NBA, os donos das equipes não estão respondendo à greve ou uma ameaça dela, estão apenas negociando um novo contrato. Mas no caso da negociação desse ano, estamos mesmo mais perto de um locaute do que de uma greve, porque os jogadores estavam mais dispostos a manter as regras do jeito que elas estavam, são os donos os motores por trás da vontade de mudanças mais drásticas. De qualquer forma, não é locaute e nem greve propriamente ditos, mas entendemos o recado quando qualquer uma das palavras é usada.

Não quero dar a entender com isso que a situação é menos conflituosa do que parece. É sim uma briga das boas entre as duas partes, mas acho importante deixar claro que ninguém está pulando fora de algo combinado para fazer birra e, mais importante, ninguém está se sentindo injustiçado e lutando contra um vilão. Não há ninguém bonzinho ou do mal aqui, mais do que patrões e empregados são duas empresas gigantescas negociando uma maneira das duas conseguirem seguir ganhando uma tonelada de dinheiro. Como já disseram algumas pessoas mais nervosas com a situação, "é uma briga só sobre dinheiro entre donos bilionários e jogadores milionários".

A afirmação tenta minimizar e ridicularizar a discussão, mas não está tão errada assim. Os jogadores são milionários, os donos são, em sua maioria, realmente bilionários, e o impasse entre eles é puramente econômico. Antigamente já houve discussões sobre as regras do Draft, idade mínima para se jogar na NBA, adição ou não de novas equipes e poderiam existir até discussões novas sobre questões de doping, duração da temporada, código de vestimenta e maneiras de punição por indisciplina, mas não, nada disso está em pauta dessa vez. Não há filhos no meio do casamento, aqui a discussão é só sobre como dividir os bens.

Para entender o antigo CBA eu recomendo esse post que eu fiz há algum tempo, é o "Como entender o Salaray Cap". Lá eu explico boa parte das regras que valiam até o fim da temporada passada e que os jogadores querem manter valendo. Uma delas é o "soft cap", um teto salarial maleável e que pode ser ultrapassado desde que o time esteja disposto. Para quem está com preguiça de ler o post antigo inteiro, colo aqui a parte que explica o que é o "soft cap" e a diferença dele para o "hard cap", que é a vontade dos donos.
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"Uma característica importante do salary cap da NBA é que ele é um "soft cap", ao contrário das ligas de hockey e de futebol americano que são "hard cap". Isso quer dizer que o teto dessas outras ligas são duros como pedra, não há como escapar dele, o da NBA tem um teto solar pra dar uma escapadinha. As ligas com "soft cap" têm algumas exceções que fazem com que o limite possa ser ultrapassado em alguns casos. E a verdade é que quase sempre os times da NBA estão acima desse limite. Apenas 5 equipes, Grizzlies, Thunder, Clippers, Blazers e Nets, jogaram a temporada 2009-10 dentro do limite do teto salarial.

Se dá pra escapar, por que ter um limite salarial, afinal? A sacada do "soft cap" é que você pode escapar do limite mas paga por isso, ou seja, você pode escapar mas não tanto, com o risco de ter enormes prejuízos. (...) A primeira mamata na hora de ultrapassar o teto salarial da NBA está no chamado "tax level", que é uma quantidade determinada pela NBA que os times podem ultrapassar o teto salarial sem serem punidos por isso. Na temporada 09-10 o valor foi de 69,9 milhões de dólares. Ou seja, embora apenas 5 times estejam dentro do limite salarial, não são todas as outras 25 equipes que pagarão multas, serão na verdade apenas 12. Porém, as 5 antes citadas dentro do teto terão benefícios que outras não terão.

Essas 12 equipes que passaram desses 69,9 milhões de dólares terão que pagar 1 dólar de multa para cada dólar excedido. Ou seja, se o Lakers paga 91 milhões de dólares em salário, terá que pagar 21,1 milhões de dólares em multas para a NBA. De todo o dinheiro arrecadado, cada time dentro do salary cap (aqueles cinco já mencionados) recebem 1/30 dessa grana cada um, o resto do dinheiro fica para a NBA gastar com ações da própria NBA"
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Os jogadores gostam da regra dessa maneira porque assim sempre existem times contratando. Equipes acima do teto salarial não podem contratar quem bem entender, tem seus limites de gastos (explicados na parte 2 daquela série de posts), mas nunca estão sem chance de contratar alguém. Em uma liga com o hard cap, quando se chega ao limite não há o que fazer a não ser tentar trocar por um jogador que ganha menos.

Os donos acham que da maneira atual eles gastam em excesso, que um time acaba forçando o outro a gastar mais com contratações e todos saem perdendo economicamente, que a melhor solução seria todos respeitarem o mesmo teto e assim os gastos ficariam sob controle, nenhum dono zilionário ou General Manager maluco poderia gastar mais do que o resto. Os jogadores pensam que isso quer dizer que menos jogadores terão chances de atuar na liga e os que ficarem terão que aceitar cortes de salário. Se o teto salarial não pode ser ultrapassado de maneira alguma, será pouco provável que um jogador ganhe contratos com mais de 15 ou 20 milhões por temporada como vemos agora.

Para muitos a questão do hard cap contra o atual soft é a pedra fundamental das discussões, mas para mim é só uma pequena, embora bem importante, parte da discussão. Após a reunião de três horas que aconteceu hoje, o Derek Fisher, presidente da NBAPA (associação de jogadores da NBA), disse que as discussões começaram sobre assuntos não relacionados a dinheiro mas em pouco tempo caíram para a área financeira e não saíram mais de lá. Não tem jeito, no resto todo mundo está satisfeito agora, falta acertar a parte de dinheiro. E embora a questão do formato do teto salarial seja fundamental, nada supera as discussões em torno da divisão dos lucros.

Como também expliquei naquele post antigo, um número importantíssimo para a NBA é o BRI, Basketball Related Income, é uma espécie de PIB da liga. Tudo o que a liga fatura, desde aparição de mascotes em eventos até os ingressos e direitos de TV vendidos, passando por propagandas nos ginásio ao redor dos EUA, tudo conta para a definição do BRI. E é esse número que decidia qual seria o tamanho do teto salarial da NBA, baseado na divisão de lucros entre as partes. Até um mês atrás os jogadores ficavam com 57% de tudo o que a liga faturava e os times com os 43% restantes, o número foi decidido no último CBA e na época considerado uma grande vitória dos donos. Hoje eles querem diminuir ainda mais a porcentagem recebida pelos atletas.

Vocês podem estranhar, afinal os jogadores parecem ter salários fixos, aqueles que sempre divulgamos quando assinam um novo contrato, então como eles podem variar de acordo com o BRI? Aquele número divulgado no contrato é o oficial, é o que conta para o cálculo do salary cap, mas não necessariamente o número exato recebido pelo atleta. De acordo com o dinheiro faturado na NBA os jogadores podem dividir entre eles uma graninha extra ou não ganhar tudo o que lhe parecia prometido. É assim: 8% do salário de cada jogador fica retido com a NBA e só ao fim da temporada ele é dado de vez para o jogador ou fica com os times de acordo com essa conta dos 57% dos lucros.

Na última temporada, por exemplo, a liga faturou 4.8% a mais do que no ano anterior, fazendo o BRI subir de 3.64 bilhões de dólares para 3.81 bilhões. O número foi tão bom que os jogadores não só receberam os seus 8% de volta como ainda um dinheiro extra para conseguir alcançar o número de 57%. No fim das contas, o salário médio de um jogador da NBA no ano passado foi de 5.15 milhões de doletas.

O curioso e ainda muito mal explicado é que tudo aqui funciona na base da porcentagem, ou seja, todas as vezes que os jogadores ganham mais do que em relação ao ano anterior, o mesmo está acontecendo com as equipes. E se o salário dos jogadores aumentou 16% nos últimos cinco anos, isso deveria querer dizer que os rendimentos da liga aumentaram a mesma coisa também. A NBA e os times reclamam que estão perdendo dinheiro, mas a verdade é que no atual formato da CBA o BRI só sofreu uma queda no ano da crise econômica em 2008-09. No formato anterior, não muito diferente do de hoje e que entrou em vigor na temporada 1998-99, também só uma queda, em 2002-03, em todo o período de seis anos do acordo. Para piorar, os números de perda de dinheiro divulgados pela NBA e os times estão sendo bastante contestados pela Forbes, a gigantesca revista de economia que tem divulgado números bem diferentes (e otimistas) dos oficiais. Os jogadores terão que saber em que números confiar para saber se abrem mão dos seus 57%.

Após a reunião de hoje à tarde, Derek Fisher disse à imprensa que nenhum avanço foi feito em relação às conversas anteriores. Já David Stern, comissário da NBA e que representa os times nas reuniões, não foi tão seco como Fisher, apenas mais grosseiro. Perguntado por um jornalista se os jogadores estariam negociando com boa fé, disse "Acredito que não". A reação veio imediatamente via internet, pelo Twitter Spencer Hawes, pivô do Philadelphia 76ers, disse: "23 milhões por ano, hein, Stern? Estranho que nada seja dito para cortar o seu salário enquanto vocês pedem para que todos os jogadores façam o mesmo".

A verdade é que quase ninguém sabe ao certo quanto o David Stern ganha. Esse número de 23 milhões é uma suposição. O repórter Adrian Wojnarowski do Yahoo! tentou descobrir essa informação e ficou sabendo que nenhum jogador sabe do número e que mesmo entre os donos talvez apenas dois ou três tenham o número correto, o chute de 20 a 23 milhões foi jogado por uma fonte mas sem certeza alguma, pode até ser bem mais do que isso. O salário dele nem é relevante para as discussões, mas o assunto ter sido trazido à tona por um dos atletas já mostra que o clima pode esquentar e que a falta de transparência econômica pode ter um peso decisivo na duração e resultado das negociações.

Mais reuniões, dessa vez mais longas e em dias consecutivos, estão sendo marcadas para esse mês. Até lá analisaremos mais a fundo as causas dessa paralisação, possíveis soluções e tentaremos esclarecer algumas dúvidas suas. Quem tiver pergunta é só mandar nos comentários que tentaremos responder nos próximos posts.