Mostrando postagens com marcador arenas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador arenas. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de abril de 2011

Mulher Invisível

Dwight Howard também quer ser trocado pelo Jeff Green, e
 promete que iria sorrir bem mais que o Kendrick Perkins

Na partida de ontem entre Bulls e Pacers, Derrick Rose teve mais uma atuação incrível para levar o Bulls à vitória, com 36 pontos. Muita coisa deu errado para a equipe de Chicago, no entanto. Depois que o Tyler Hansbrough fez a festa em cima da defesa pobre do Carlos Boozer no Jogo 1, o técnico Tom Thibodeau fez questão de mudar a movimentação defensiva no garrafão, o que foi um desastre. Boozer passou a marcar mais fora do garrafão, onde ele é péssimo e sempre pula em qualquer ameaça de arremesso, e Noah passou a ser responsável pela ajuda defensiva dos dois lados. O resultado foi uma defesa muito pior, cheia de erros na ajuda, na rotação, uma atuação estabanadíssima do Noah, e um Boozer que estava tentando, tadinho, e que é muito pior quando tenta. Ainda assim, com um dos pilares do Bulls desmoronado (e precisando ser reconstruído para a próxima partida), o esquema tático permitiu que Derrick Rose desse 25 arremessos, cobrasse 13 lances livres e saísse vitorioso. Aí está a vitória do esquema de Tom Thibodeau mesmo quando algo dentro do seu esquema dá errado. O elenco foi montado para algo específico e consegue manter as pontas do plano geral mesmo se algo menor, algum componente do todo, for pela privada.

É o oposto do que acontece no Orlando Magic. Dwight Howard teve uma das atuações mais dominantes de um jogador de garrafão nos últimos anos, com 46 pontos, 19 rebotes, 22 lances livres cobrados, e tudo isso contra um time em péssima fase, sem as peças necessárias para vencer uma série, e mesmo assim o Magic saiu derrotado. É algo que eu insisto aqui faz muito tempo: quanto mais o Dwight Howard toca na bola, pior o Magic fica. E isso não é culpa do gigante sorridente, mas do esquema tático e do modo que esse elenco foi formado.

Todo mundo que acompanha o Bola Presa sabe que eu pego no pé do Dwight desde seu segundo ano na NBA, simplesmente porque o jogo dele demorou demais para evoluir e ficava claro que ele estava satisfeito com o que já tinha. Foi apenas quando começou a receber menos a bola e pedir mais posses de bola no ataque que os treinos foram se intensificando e seu jogo começou a ficar sólido. Demorou muito, mas agora é hora de dar os méritos devidos ao rapaz. Seu jogo dentro do garrafão não é genial, ele sempre será duro, como se o Dwight fosse o Robocop, porque não é fruto de entendimento do jogo, mas sim de repetição mecânica em treinamentos. Mas seu posicionamento no garrafão melhorou tanto, tanto, que seus movimentos de cara com torcicolo são agora muito eficientes. É legal ver que no começo de seu treinamento com o Patrick Ewing, os movimentos que o Dwight tentava fazer embaixo da cesta eram refinados, cheios de giros e ganchos complexos, além de um arremesso de média distância, e sempre davam errado. Agora esses movimentos foram reduzidos ao mínimo necessário para que funcionem, são duros, rápidos, curtos, sem frescura ou habilidade. Casam perfeitamente com as possibilidade do Dwight, são mais eficientes para ele, e tornaram o pivô uma grande arma ofensiva. Agora finalmente podemos dizer que ele tem uma série de movimentos que são seus, que funcionam, que lhe são naturais e que não exigem esforço. Parabéns, Dwight! Mas quanto mais ele usa esses movimentos, mais o Magic perde.

A lógica é simples. Alguns times são montados para funcionar no modelo do que se chama de "inside-out", ou seja, a bola entra no garrafão e se não houver uma cesta simples essa bola é mandada para o perímetro, de onde vem um arremesso de longa distância ou um passe de volta para o garrafão. É um excelente modo de trazer a defesa para perto do aro, abrir espaço para os arremessadores, e não permitir que a defesa se comprometa apenas com uma parte da quadra. O Magic foi claramente construído com isso em mente, mas há um sério problema: Dwight é terrível passando a bola, por uma série de motivos. Pra começar, seus movimentos no garrafão são mecânicos, decorados, ele apenas executa ao invés de reagir. Ele não é capaz de ler a defesa, reconhecer uma marcação dupla, proteger a bola de um ladrão, passar para o jogador que corta em direção à cesta. Não, ele apenas faz o movimento que aprendeu e se tiver marcação dupla, tripla, um leão ou os Power Rangers, ele simplesmente vai tentar concluir o movimento na base da força e da explosão. Para piorar, o Dwight tem clara dificuldade quando está mais longe da cesta, com um dos pés pra fora do garrafão e quando precisa começar a jogada de costas para seu marcador. É nessas horas em que seus movimentos são mais robóticos, com giros programados, e portanto são os momentos em que ele tem mais dificuldade de interromper o movimento e passar a bola (é como se fosse videogame ruim, tipo NBA Live, e depois de colocar um comando você não tem mais como voltar atrás). O problema é que ficar de costas para o marcador com um pé fora do garrafão é o momento em que os pivôs ficam sempre mais vulneráveis a ter a bola roubada ou a receber marcação dupla, tornando o Dwight um jogador muito propenso a desperdiçar a bola e não concluir seus passes.

Se o Magic foi criado para ser um time de "inside-out", a bola deveria sair do Dwight e chegar nos arremessadores de três, que devolveriam para o Dwight caso a marcação chegasse. Mas o Dwight perde bolas demais e não consegue efetuar os passes, criando uma cisão. Os arremessadores não confiam no Dwight, não procuram o pivô no ataque, e acabam arremessando sob marcação. Quando acontece do pivô receber a bola, ela não volta para o perímetro, então se o Dwight for eficiente os arremessadores acabam saindo do jogo, ficam só assistindo. O Magic é claramente um time montado para ter um pivô cercado por 4 arremessadores, mas ao invés de funcionarem como um sistema único, funcionam como partes isoladas. Quando uma dessas partes joga, a outra assiste. A solução, com esse elenco, eu já disse aqui: Dwight não pode ser estrela e ficar recebendo a bola de costas para a cesta pra finalizar. Deve interferir no jogo através da defesa, dos tocos, dos desvios de bola, e fazer apenas cestas fáceis comuns a todos os pivôs, ou seja, em rebotes ofensivos ou passes de armadores que tentaram infiltrar. Se ele receber a bola demais, o resto do time desaparece.

Se o Magic tivesse jogado normalmente contra o Hawks, ignorando o Dwight Howard, eles teriam ganhado a partida por 400 pontos - e tudo por causa do Howard. Ele teria vencido o jogo na defesa, tapando o garrafão, teria conseguido rebotes de ataque, teria feito cestas simples embaixo do aro que sobrariam pra ele assim meio sem querer. Não teria marcado 46 pontos, sairia com no máximo 16, mas a série estaria liquidada. Dentro desse Magic, o Dwight só deveria ser acionado quando consegue posição exatamente debaixo do aro, empurrando o seu defensor na marra, e aí não corre o risco de marcação dupla ou de ter que passar a bola. Justiça seja feita, o pivô tem cada vez mais conseguido estabelecer essa posição embaixo da cesta. O problema é que surge um paradoxo bizarro: nessas situações ele quase nunca recebe um passe.

Em geral, quando uma jogada é chamada para o Dwight, ele vai receber com um pé fora do garrafão e aí começa a movimentação ofensiva. Mas o posicionamento adquirido debaixo do aro não é algo que pode ser chamado, é algo que simplesmente acontece devido ao posicionamento da defesa, da força física do adversário, e em geral acontece no meio de uma jogada de ataque que não envolva o pivô. Cabe aos armadores reconhecerem esse posicionamento privilegiado, parar a jogada na metade e mandar pro Dwight. É simples. Mas o Magic não tem armadores puros, o Jameer Nelson e o Gilbert Arenas estão lá para ser arremessadores. O Turkoglu é o melhor em acionar o Dwight nessas situações, fato, mas o elenco inteiro está meio perdido em quadra, porque a função de todo mundo é arremessar e eles não sabem muito bem como, nem quando, porque tem gente demais para isso. O próximo arremesso é do J-Rich, do Nelson, do Arenas, do Turkoglu, ou do Ryan Anderson? As jogadas não são orgânicas, não são reações a movimentações do adversário, e por isso dificilmente alguém reagirá ao posicionamento do Dwight debaixo do aro. Por três vezes no jogo contra o Hawks, Dwight Howard conseguiu o espaço necessário para uma cesta fácil e não recebeu a bola - recebeu, sim, uma violação de 3 segundos no garrafão. Então mesmo nos jogos em que o Dwight está sendo constantemente acionado, como foi nessa partida em que marcou 46 pontos, ele não recebe a bola nas ocasiões em que deveria, simplesmente porque o time é mais travado que garota frígida, fica tentando achar um arremesso de três à força e não sabe nunca quem deve ser o arremessador da vez.

Curiosamente, o Dwight Howard tem todos os atributos para ser um jogador de pick-and-roll graças à sua velocidade, sua impulsão e sua facilidade em correr pela quadra, mas o Magic é um dos times da NBA que menos usa a jogada. E pior, usa apenas para criar espaço para o Jameer Nelson (o Synergy Sports deda: 60% das vezes a jogada é com ele), e é sempre procurando um arremesso, a bola não vai para o Dwight. O Magic foi criado como um time para arremessadores de três e um pivô, e não terá pick-and-rolls enquanto o técnico for Stan Van Gundy.

A princípio, eu achei que a volta de Turkoglu faria com que o Dwight fosse acionado nas horas certas. Achei que Gilbert Arenas, que gosta de criar o próprio arremesso, seguraria mais a bola e exploraria o Dwight só quando necessário. Mas não: Arenas não sabe usar pick-and-rolls nunca, e foi relegado ao cargo de simples arremessador; e Turkoglu aciona cada vez mais Dwight de costas para a cesta, onde a bola nunca voltará ao perímetro, onde o Dwight sofre inúmeras faltas (comprometendo o time tanto com seu baixo aproveitamento quanto na interrupção do ritmo de jogo), e onde ele perde mais bolas para a marcação. Aliás, vale lembrar: Dwight errou 8 lances livres contra o Hawks, dos 22 que tentou. O aproveitamento é bom para ele, mas é péssimo para o time e atrapalha demais o ataque se o time adversário tiver vários jogadores de garrafão para ficar só descendo a porrada nele. E o Hawks tem, por isso não tem medo de descer o sarrafo no pivô. Some a isso o fato que o Dwight desperdiçou 8 bolas (incluindo as três violações de 3 segundos no garrafão por não receber a bola) e fica  fácil ver que o time perde muito para que ele seja capaz de marcar 46 pontos.

É nessa hora que a comparação com o Derrick Rose é tão frutífera: o Bulls é montado para que o Rose possa arremessar oito mil bolas, a própria mãe, e dance a macarena, porque o resto do elenco está ali parasuporte, para segurar na defesa, para aliviar nos arremessos quando ele passa para fora. O Magic é construído para que o Dwight faça aquilo que ele não sabe fazer, que é passar a bola, e ignora aquilo que ele faz de melhor, que é o posicionamento embaixo da cesta e o pick-and-roll. Antes eu culpava o Dwight, agora tenho pena dele. Seu jogo tem vários pontos altos, mas nesse elenco, com esse técnico, a melhor coisa que pode fazer é mudar de super-herói e virar a Mulher-Invisível. O Magic só vai ganhar se não deixar o Dwight marcar 46 pontos nunca mais nessa série. Nunca. Mais.

O pior é que do jeito que está, o Magic ainda assim é bom o bastante para chegar numa Final de NBA. Há uma bagunça entre os arremessadores, ninguém tem papel definido, o Dwight não pode ser acionado, mas com leves ajustes dá para criar um esquema vencedor - e mesmo assim vai ser um esquema idiota porque não usa bem as potencialidades de ninguém nesse elenco. Com uma repensagem desse esquema tático, dá pra criar uma potência de novo, mas aí vai esbarrar sempre nisso: qual vai ser o papel do Dwight? Quantas bolas por jogo ele pode arremessar, e de que lugar da quadra? Que tipo de elenco de suporte ele precisa para poder ter carta branco como Derrick Rose? Ou será que ele simplesmente aceitaria ser secundário, tocar pouco na bola, e vencer os jogos na defesa? Desconfio que não e, portanto, será sempre mais difícil encontrar lugar para jogar em plenas condições. Não que um dia ele vá parar na Turquia, mas talvez nunca vejamos ele fazendo aquilo que poderia fazer de melhor, e isso pra mim é tão triste quanto a Turquia - ter que ver o Super-Homem brincando de Mulher-Invisível pra vida toda.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Bagos gigantes

Sam Cassell mostra o tamanho das bolas do Magic, 
que trocou dois de seus jogadores titulares

O Magic sempre mostrou que é um time disposto a arriscar. Quando o elenco parecia ter futuro e os comentários eram de que, com um grande arremessador de três pontos, eles seriam capazes de lutar pelo título, juntaram todas as moedinhas e ofereceram tudo que tinham disponível para o Rashard Lewis - na época um dos arremessadores mais badalados da NBA. O contrato foi ridículo, somando 124 milhões de dólares em 6 anos, e dá pra ter ideia do absurdo fazendo uma visita a esse site aqui, que calcula em tempo real quanto o Rashard Lewis ganhou no mundo real a partir do momento em que você entrou na página (adianto, é mais de 1 dólar por segundo). O jogador não vale tudo isso, nunca fez grandes coisas pela equipe, mas quanto você estaria disposto a pagar por um jogador que pode ser a última peça para vencer um anel? Na temporada seguinte à sua contratação, o Magic se tornou campeão do Leste e perdeu na Final da NBA para o Lakers. Não dá pra criticar a decisão.

Com a derrota, vieram novos papos. Supostamente o que faltava para ganhar o título era, então, alguém capaz de criar o próprio arremesso, decidir os jogos no final, encontrar uma bola de segurança que não fosse um arremesso de três forçado. Fizeram uma troca para conseguir Vince Carter, jogador longe de seu auge e com fama de fominha. Foi arriscado, mas o Magic preferiu apostar na imagem que o Carter construíra no ano anterior como tutor da pirralhada do New Jersey Nets. O sucesso do Carter foi moderado, por vezes parecia estragar o ritmo da equipe, por outras salvava o jogo, mas o Magic com ele chegou novamente à final do Leste - desse vez perdendo para o Celtics.

Não é estranho, portanto, que um time que chegou a duas finais de Conferência em anos consecutivos esteja sempre envolvido em tantos boatos de troca. Estão sempre dispostos a arriscar, a acrescentar uma peça final, a mudar o elenco vencedor para conseguir dar um passo a mais. É por isso que a resposta a uma fase de derrotas nessa temporada foi trocar vários jogadores - aquisições, como as de Carter e Lewis, arriscadas mas inteligentes. O Magic não tem aquela postura bizarra do Cavs da era LeBron, que trocava apenas por trocar e formou um circo de horrores, em Orlando as trocas tem uma visão de conjunto, um plano definido de qual é a identidade do time. Só trocam por quem se encaixa na brincadeira.

O primeiro passo do Magic nessa maratona de trocas anunciadas hoje foi se livrar do Rashard Lewis. Não que ele feda, como muita gente anda sugerindo recentemente. Longe disso, ele é um bom jogador, mas seu contrato vai até 2013 lhe pagando mais de 20 milhões por temporada bem quando o Magic não precisa mais de arremessadores. Todo mundo no elenco, até o garoto da água e a mãe do Dwight Howard, arremessam de três mesmo durante o sono. O processo de montar um elenco eficiente no perímetro que teria o Rashard Lewis como peça final deu tão certo, mas tão certo, que agora o Lewis é descartável. Já não fará nenhuma falta.

Em seu lugar, o Wizards manda nosso canalha favorito, Gilbert Arenas. Nos últimos anos Arenas sofreu com uma lesão, depois com a lesão resultante dele tentar voltar cedo demais para as quadras, depois com a lesão resultante dele treinar demais para se reabilitar mais rápido, e depois com a punição por ter feito uma piada com armas de fogo no vestiário (que ele ainda não engoliu muito bem e diz ter sido julgado injustamente). Faz tanto tempo que ele não pisa numa quadra de basquete que até dá pra esquecer que, uns anos atrás, ele era um dos jogadores mais fodões da NBA, cotado para ser MVP, marcando 60 pontos nos times com os quais tinha birra, e dando mais de 10 assistências por jogo em sua volta às quadras só pra provar que, se quisesse, teria fácil média de double-double como armador. Arenas era tão bom que recebeu um contrato de 111 milhões e um elenco de apoio de respeito para tentar um título do Leste, mas todo mundo do elenco se lesionou numa hora ou em outra (e quando estavam saudáveis perdiam pro Cavs de LeBron nos playoffs) e agora já era, desistiram do projeto, desmontaram o time, e já é tarde demais para o Arenas voltar e tentar fazer valer o contrato gigantesco Ele merecia esse contrato quando o Wizards queria ganhar naquela hora e acreditava em títulos, agora estão reconstruindo em volta do John Wall e o Arenas não apenas ganha dinheiro demais e é bom demais, mas também rouba minutos do novato John Wall porque jogam basicamente na mesma posição. Para o Wizards é melhor se livrar do Arenas por qualquer outro jogador que seja de outra posição e dê ideia de recomeço, de que o John Wall é a estrela, e se tiver um contrato mais curto é brinde. O Rashard Lewis tem um contrato um ano mais curto, não é metido a estrela (nem nunca foi, tem "jogador secundário" escrito na testa), e não vai roubar minutos do John Wall, pronto, tá ótimo. Enquanto isso o Arenas está jogando cada vez melhor, recuperando a forma, e pode criar o próprio arremesso como se esperava que o Carter fizesse na temporada passada. Fora que, como já provou que sabe passar a bola como armador principal, pode substituir Jameer Nelson numa das trocentas contusões anuais do garoto.

É claro que o Arenas pode pregar uma peça e envenenar a água de Orlando, exagerar e querer dar todos os arremessos finais do meio da quadra enquanto grita algo absurdo como "Colher!", e segurar demais a bola, mas é mais um risco para o Magic que simplesmente vale a pena. O Arenas tenta começar de novo e deixar as polêmicas para trás, vai querer ser bom moço na nova equipe, está cada vez em melhores condições de jogo e tem potencial para voltar a ser jogador digno de papo sobre MVP. Se fizer merda e forçar muito o jogo, não vai ser nada que o Carter já não tenha feito tantas vezes no último ano, com a vantagem de que o Arenas é mais versátil e pode jogar nas duas posições de armação.

Essa troca, além disso, permitiu que o Orlando fosse ainda mais além com seus bagos gigantes. Com a chegada do Arenas, ficaram livres para enviar o Carter para o Suns. Aproveitaram para enviar dois jogadores de valor mas que, assim como Rashard Lewis, eram cada vez mais inúteis na equipe: Mickael Pietrus e Marcin Gortat. O Pietrus era importante na equipe graças à sua defesa e às bolas de três, mas desde que o JJ Redick passou a defender o bastante para conseguir ficar em quadra e teve atuações memoráveis nos playoffs, tem tido prioridade. Já o Gortat nunca foi muito usado mesmo, mas ele teve alguns momentos brilhantes em quadra, mesmo que raros, e o Magic resolveu lhe dar um salário gordinho só para impedir que os outros times interessados contratassem o rapaz (sabe como é, pivô é raro hoje em dia). No Magic faltam oportunidades porque o Dwight Howard é o dono absoluto do garrafão e o Brandon Bass joga cada vez melhor, em especial porque ele tem um arremesso de média distância consistente e aí não bate cabeça com o Dwight. No fim, valeu a pena investir no Gortat porque ele agora virou moeda de troca, só isso. Nenhum desses jogadores, no momento, fará falta para o Magic. O risco está mesmo é no que eles recebem em troca.

Em troca de Gortat, Pietrus, Carter e uma escolha de primeiro round no draft, o Suns mandou Jason Richardson e Hedo Turkoglu, além do Earl Clark (que só vai junto porque deve ter entrado no avião sem querer). Pra mim, Jason Richardson é o jogador perfeito para o Magic atual. Sua temporada pelo Suns tem sido fantástica, seus arremessos andam precisos, seu basquete anda eficiente como nunca, ele cria o próprio arremesso, e tudo isso sem exigir a bola nas mãos. Até chega a forçar o jogo, especialmente no primeiro período (dizem que se ele domina o primeiro quarto, é certeza de que terá um jogo fodão), mas nunca segurando demais o jogor. J-Rich joga bem sem a bola em mãos, se posiciona bem no perímetro e está sempre cortando para a cesta. É o jogador ideal para continuar a tradição de arremessos de três do Magic, um especialista no quesito que já liderou a NBA mais de uma vez em bolas de 3 convertidas, mas capaz de se virar quando o perímetro não estiver funcionando - e tudo isso sem comprometer a rotação de bola e o ritmo da equipe. Com o Hedo Turkoglu o negócio é diferente, ele também arremessa bem de três mas segura muito mais a bola, gosta de jogar como armador, e agora o Magic parece ter excesso de gente assim. Mas mesmo que o turco tenha minutos limitados, já deve valer a pena. Postei no começo da temporada sobre como o estilo do Turkoglu não se encaixava com o Suns de modo algum, que ele não tinha como render lá, e que sofrera com a mesma questão em Toronto. No estilo do Magic, pelo contrário, o Turkoglu parece um bom jogador, usa suas principais qualidades. Então mesmo que seus minutos fiquem restritos pela presença de Brandon Bass, Jameer Nelson, Jason Richardson e Gilbert Arenas, será no mínimo um jogador que pode render um pouco ao invés daquela lástima que ele era no Suns, em que não rendia nada. O jogador foi salvo e o Magic ganha de volta um reforço que deve estar muito grato e já conhece todo o andamento da equipe. É arriscado porque o contrato do turco é enorme e ele pode bater cabeça com outros jogadores, mas é tentador conseguir por um preço baixo um jogador que você sabe que vai render muito mais justamente no estilo de jogo da sua equipe - e que não rende nada em nenhum outro lugar.

Pro Suns, é um alívio se livrar do Turkoglu e receber o Marcin Gortat é um motivo para ver alegria na vida outra vez. Hakim Warrick quebra um belo galho no garrafão ofensivo mas falta alguém que possa sequer se fingir de pivô desde que o Robin Lopes se contundiu. Se o Gortat for mesmo aquilo que se supunha e puder dominar na defesa enquanto contribui no ataque com enterradas e jogo físico, o Suns nem fica com tanta saudade do Amar'e e para de tomar um pau de qualquer jogador com mais de um metro e meio de altura. E se o Gortat for um jogador limitado e souber apenas levantar os braços, o garrafão do Suns também já fica imediatamente melhor - estavam numa situação tão ruim que se um torcedor sorteado fosse jogar de pivô, seria lucro. Para isso perdem J-Rich numa temporada magistral, o que é uma pena, mas o Carter tem ao menos em teoria a possibilidade de tapar o buraco. Precisa de entrosamento com o Nash, soltar a bola, correr um bocado, mas o Carter já começa se encaixando no time em um aspecto básico: ele nunca defendeu bulhufas mesmo.

O Wizards deu o último passo necessário em sua reconstrução - que pra mim foi, até agora, impecável e relâmpago - se livrando de seu melhor jogador e dando espaço para John Wall, e o Suns ainda se debate para conseguir um garrafão pós-Amar'e e vai tentar tapar o buraco do J-Rich enquanto tenta descobrir se pode sonhar com alguma coisa enquanto ainda possuem o Nash. São todas mudanças significativas, mas quem mais tinha a perder com tudo isso era o Magic, porque o Suns e o Wizards fediam enquanto o Magic é um timaço que vem de duas finais de Conferência. A equipe de Orlando tem testículos de jumentinho para arriscar a esse ponto, e pra mim só apostou em coisas que valem a pena - mesmo se derem errado.

Jameer Nelson já está confirmado como titular (enquanto não se contundir, ele nunca joga mais de 70 partidas numa temporada), Arenas já avisou que está sussa de vir do banco, então o resto do quinteto inicial deve ter Jason Richardson (no papel de Vince Carter) e Turkoglu (no papel de Rashard Lewis), com o garrafão reforçado por Brandon Bass. Subitamente o time mantém as características usuais, sua identidade como um time de arremessadores, mas todo mundo sabe criar o próprio arremesso e o garrafão fica mais forte. Gilbert Arenas pode vir do banco armando o jogo e, claro, criando as próprias situações de cesta, ao lado de JJ Redick, e nos momentos cruciais de jogo o quinteto pode ter Jameer Nelson, Arenas, J-Rich, Turkoglu de ala (como teve que jogar no Suns) e Dwight no garrafão. Lembra quando ninguém no Magic queria decidir? E a bola parecia batata quente? O Turkoglu passou a criar cestas mesmo que a contragosto, o Jameer Nelson aprendeu a bater para dentro e forçar pontos, Arenas tem história como um dos jogadores mais decisivos de sua geração, e o Jason Richardson sabe muito bem criar espaço para si mesmo. É um Magic irreconhecivel.

Passei muito tempo não levando esse Magic a sério, meio como se eles fossem um Mavericks do Leste, sabendo que eles poderiam chegar a uma Final de NBA e esfregar minha cara no troféu e mesmo assim eu sempre iria achar que tudo ia dar merda. É que acho difícil ter medo de times que se baseiam nos arremessos de três porque eles são inconstantes e é preciso ter uma bola de segurança pra quando tudo o mais falha, pra quando a água bate na bunda. Pois agora eles tem, ao menos no papel, tudo o que é necessário. Devem chegar a mais uma final de Conferência, mesmo com os inevitáveis problemas de entrosamento que surgirão nos próximos meses. E, mesmo se der tudo errado, aplaudo os bagos dos engravatados de Orlando. Essa equipe que arrisca e inova já tem, pra mim, muito mais valor do que qualquer equipe de sucesso que bate na trave e não tem coragem de mudar os rumos. Quero ser igual ao Magic quando eu crescer.

Outras equipes, como Lakers, Nets e Rockets, fizeram trocas recentemente e vamos comentar delas nos próximos dias (sei que estamos meio devagar, prometo que a gente engrena ainda esse ano). Mas pegar um time vencedor, com chances de título, e mandar embora peças tão importantes para trazer jogadores polêmicos é coisa para poucos. Só por isso, já merecia que desse certo. Bem que o Arenas poderia tentar não andar nos vestiários armado dessa vez só pra ajudar um pouco.

domingo, 10 de outubro de 2010

Preview – 2010-11 / Washington Wizards

Se o Arenas foi punido por essa piada, imagina se 
ele tirasse uma foto com um fuzil tipo o Adriano


Objetivo máximo: Voltar aos Playoffs
Não seria estranho: Ficar fora da pós-temporada por pouco
Desastre: Continuar sendo um dos piores times da NBA

Forças: Muitos jogadores jovens e talentosos e a volta de Gilbert Arenas
Fraquezas: O time é inexperiente, nunca jogou junto e a volta de Gilbert Arenas

Elenco: Veja aqui (somos incompetentes a ponto de lutar por horas com o Blogger sem conseguir colar aqui uma simples tabela que, misteriosamente, conseguimos colar normalmente nos outros Previews, mas assim que entendermos o que aconteceu voltaremos ao normal).

Técnico: Flip Saunders

O Flip Saunders é uma espécie de Rubinho Barrichello dos técnicos da NBA. Ele é muito melhor que a média geral e ganhou destaque por isso, mas nunca conseguiu ultrapassar a linha que separa os bons dos que fazem história. Ele começou sua carreira como técnico em nível universitário, mas brilhou mesmo na CBA, uma liga menor americana. Lá ele ganhou dois títulos, conseguiu promover 23 jogadores para a NBA. Em 1995 foi trabalhar nos bastidores do Minnesota Timberwolves e um ano depois assumiu o cargo de técnico do time.

Lá foi um dos responsáveis por transformar o Kevin Garnett, um pirralho magricelo recém-chegado do colegial, num dos melhores alas de força de todos os tempos. Ao lado de KG, conseguiu levar o sempre fracassado Wolves aos playoffs. Mas aí entra a parte Rubinho: foram sete anos seguidos perdendo na primeira rodada! Não era culpa de Saunders, o time sempre foi limitado, e quando ganhou os reforços de Sam Cassell e Latrell Sprewell conseguiu ir para a final do Oeste, em que perdeu para o Lakers de Kobe, Shaq, Malone e Payton.

No ano seguinte o Wolves, que fez um trabalho ridículo ao tentar renovar os contratos de Cassell e Spree, caiu de produção e Saunders foi demitido. Se mudou então para o Detroit Pistons, que vinha de duas finais de NBA consecutivas. Lá chegou a três finais do Leste, mas perdeu as três. Uma para o Heat, outra para o Cavs e a última para o Boston Celtics. A derrota para o Cavs foi bem traumática, mas nenhum resultado foi completamente absurdo. Mas mesmo assim ficou aquela sensação de Sauders falhar na hora H. Ele, sempre conhecido por seus eficientes sistemas ofensivos, foi acusado de ter feito o Pistons, especialista em defesa, piorar muito nesse quesito. De fato o Pistons não era o mesmo do tempo de Larry Brown, mas não sei quantos times na história conseguiriam manter aquele padrão quase perfeito de defesa do time de 2004 e 2005 por muito tempo.

Depois de tantas derrotas em estágios avançados ele foi demitido, o GM Joe Dumars disse que o time precisava “de uma nova voz” e o dispensou. No ano passado ele foi para o Wizards, onde não teve muita chance de mostrar seu trabalho. As contusões, a confusão e suspensão do Arenas e as trocas de Antawn Jamison e Caron Butler limitaram seu trabalho, que será realmente testado nesse ano. Na pré-temporada já está mostrando suas inovações ofensivas ao escalar nos primeiros jogos três armadores ao mesmo tempo: John Wall, Gilbert Arenas e Kirk Hinrich. Ainda não tenho opinião formada sobre o assunto porque foram só dois jogos de pré-temporada, mas o Bulls arriscou umas coisas assim ano passado com o próprio Hinrich e não deu certo por muito mais do que alguns minutos por jogo.

...
Há uns três anos a gente fala que a próxima temporada é a da volta do Gilbert Arenas. Por duas vezes erramos por conta de contusões sucessivas dele e no ano passado erramos porque ele resolveu brincar com armas de fogo. Pois é, acontece de tudo nesse mundinho da NBA. Se você não lembra, pode ler sobre o acontecido nesse nosso post da época.

Nesse ano, porém, o foco não esta no novo camisa 9 do Wizards. Ele mesmo está querendo tirar de si toda a atenção, dizendo (mas nem sempre convencendo) que o time é do John Wall, que o novato é um grande talento e que ele não precisa ser mais o nome do time. Em uma ocasião o Arenas disse que queria ser um mentor para o novato e depois disse que “Ele é o Batman, eu sou o Robin”.

Por outro lado, essas declarações do Arenas e sua insistência em não parecer mais tão alegre e receptivo com a imprensa também têm chamado a atenção, criando o oposto do que ele queria e chamando mais a atenção. Acredito, no entanto, que se ele conseguir se concentrar por mais um tempo em só jogar, dar declarações vazias e deixar o jogo do John Wall chamar a atenção, ele irá conseguir o sossego que deseja. Eu não sei se isso é bom para os torcedores, que perderiam um dos caras mais divertidos e que dá algumas das declarações que mais fogem do lugar-comum, mas talvez fosse bom para o próprio jogador. Difícil é saber se ele vai conseguir se segurar.

Uma grande vantagem do Wizards sobre outros times nessa temporada é que eles não estão sentindo tanta pressão. O time é jovem e os anos anteriores foram tão desastrosos que basta um sinal de melhora que tudo está ótimo, não há pressão para playoffs, passar da primeira rodada ou algo do tipo, como existia com o trio Arenas-Butler-Jamison. Essa pressão menor também ajudará o técnico Flip Saunders a resolver algumas questões difíceis na montagem do time titular.

O armador titular é claro que é John Wall, disso não há dúvida. Também parece óbvio que Gilbert Arenas será o segundo armador. Não só ele já jogou nessa posição e tem tudo para se adaptar com sucesso como colocá-lo no banco poderia trazer uma dor de cabeça desnecessária nesse começo de temporada, talvez mais pra frente. Mas depois disso começam as dúvidas. Kirk Hinrich joga nessas duas posições já ocupadas, mas tem talento para ser titular em qualquer time da liga, talvez por isso está sendo bem improvisado de ala nesse começo de pré-temporada. Uma estratégia meio Don Nelson que exige adaptação do adversário mas que tem uma série de falhas. Além dele, podem jogar na posição Josh Howard, que pode ser muito bom quando está focado, e Al Thornton, que apareceu bem no Wizards depois de vir do Clippers no meio da última temporada. Nenhum dos dois, porém, jogou bem a ponto de convencer como titular absoluto.

Na posição de ala de força a situação é parecida. Yi Jianlian e Andray Blatche já tiveram momentos muito bons e outros péssimos em suas jovens carreiras, os dois precisam de tempo e regularidade para mostrarem o que sabem mas só um pode ser titular. Até já improvisaram o Blatche de pivô algumas vezes, mas tudo o que ele não precisa é ficar quebrando galho nesse ponto de sua carreira. Pelo ótimo fim de temporada passada acho que Blatche ganha a vaga de titular, mas a briga está aberta, o Wizards até já se mostrou disposto a oferecer uma extensão de contrato para o chinês.

A posição de pivô, que era a que mais teve brigas nos últimos antes, principalmente entre Etan Thomas e Brendan Haywood, agora tem dono: JaValle McGee. Além de ser All-Star na categoria força nominal, é um jogador bom e promissor. Com tempo de quadra para pegar o ritmo deve refinar um pouco mais o seu jogo e poderá se tornar uma espécie de Tyson Chandler: bem atlético, especialista em tocos, mas no ataque ajudando só nas pontes-aéreas. Não é nada fantástico, mas o bastante se o resto do time for bom. No fim da temporada passada ele já teve uns jogos muito bons, será legal ver ele se desenvolver nessa temporada.

...
Na temporada passada nós fizemos aqui um perfil de Abe Polin, antigo dono do Wizards que morreu no ano passado. Depois de sua morte o time ficou nas mãos da mulher de Polin, e então foi vendido à empresa de Ted Leonsis, que já havia sido dono de uma parte do Wizards um tempo atrás (ele foi o cara que vendeu sua parte para Michael Jordan em 2000).

Querendo renovar completamente a equipe, Leonsis fez uma lista de 101 coisas que devem mudar na equipe a partir dessa temporada. E o mais legal é que você pode ver a lista completa no site dele! É só clicar aqui. A lista envolve tudo, desde coisas como “draftar e desenvolver jogadores internacionais” e “manter a relação do time com a família Polin e suas obras de caridade” até “pizzas mais quentes” e “pipocas sempre frescas”. Os banheiros agora estão reformados, eles servem comida vegetariana no ginásio e até está na lista a idéia do time voltar a se chamar Washington Bullets. De John Wall a comida vegetariana é quase tudo novo em Washington.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Dia da mentira

Tim Duncan rindo? Mentiiiira

Não sei porque, mas como blogueiro eu me sinto obrigado a fazer um post de humor duvidoso sobre o Dia da Mentira. Parece uma conspiração liderada pelo Zorra Total que obriga as pessoas a ficarem metidas a engraçadinhas nesse dia! Mas não vou fazer um post dizendo que o LeBron é ruim e nem elogiando a torcida linda do Jazz, não conseguiria enganar vocês nem durante meio parágrafo, então vou repetir a fórmula do ano passado.

Há um ano fiz um post dizendo 5 coisas que pareciam mentiras no começo da temporada e eram verdade e depois 5 coisas que pareciam mentiras mas que eu garantia que seriam verdade. Vou começar analisando o que eu prometi que ia acontecer, será que meu saldo é bom? Eu costumo feder na hora das previsões...


1. O Bobcats vai ser um dos melhores times do Leste nos próximos 2 anos
Aeee!!! Bom começo! Eles melhoraram muito, já estão garantidos nos playoffs e se não fossem alguns vacilos (tipo perder duas vezes para o Nets!) estariam em quinto no Leste. Com um forte elenco, Larry Brown no comando, um possível desmanche no Cavs e a decadência do Boston é bem capaz que o Bobcats lute pelas primeiras posições do Leste no próximo ano, essa previsão ainda está viva!

2. O Nash vai jogar no Knicks
Merda, errei feio! O Suns estava ameaçando um desmanche total e o Knicks estava sofrendo com o Chris Duhon na armação, achei que alguma coisa ia sair disso e Nash e D'Antoni iriam se juntar novamente. Ter apostado no Fluminense campeão da Sul-Americana do ano passado teria me deixado mais perto de um acerto do que isso.

3. O Greg Oden vai ser um bom jogador
Hum... acho que essa não dá pra dizer que tá certa ou errada. Eu até acho que ele estava jogando bem quando estava vivo, mas o cara não consegue passar meia dúzia de jogos sem cair no chão! Deve ser porque ele tem 80 anos. Só vamos saber disso quando ele for um jogador profissional de basquete.

4. O Bynum vai machucar o joelho em janeiro do ano que vem em um jogo contra o Grizzlies.
O David Stern me sacaneou nessa, o Lakers nem pegou o Grizz em janeiro. Manobras políticas fizeram os times se enfrentarem só no dia 1º de fevereiro e aí nada aconteceu, o encanto foi quebrado. Mas o Bynum é o Bynum e tratou de machucar em março, que é mais perto dos playoffs e preocupa ainda mais a torcida do Lakers.

5. O Houston Rockets vai passar da primeira rodada dos playoffs
Aê, boa timê! Salve o Blazers que jogou mal pra cacete nos playoffs do ano passado e tomou uma sova do Rockets! Com a passagem deles para a segunda rodada dos playoffs do ano passado eu fiquei com um saldo positivo nas previsões! Nem eu esperava por essa!

..........

Agora vamos repetir nesse ano, começando pelas 5 verdades que pareceriam mentiras no começo da temporada:

1. O Tim Duncan não é nem um dos cinco melhores alas de força da NBA na temporada
Eu ainda acho ele o melhor que eu já vi, com muitas sobras, a ponto de deixar qualquer comparação parecer o mesmo que dizer que o Tcheco foi melhor que o Pelé. Mas nessa temporada tá difícil. Ele teve ótimos momentos, uma sequência boa de jogos há algum tempo, mas no resumo da temporada dá pra dizer sem pensar duas vezes que Dirk Nowitzki, Chris Bosh, Pau Gasol, Amar'e Stoudemire e... e... (limpa a garganta)... Zach Randolph, estão jogando melhor que o Mr. Poker Face.

2. Zach Randolph é um jogador bom de verdade
Falando no gordinho, quem iria prever essa? Além de melhorar os seus números, que sempre foram bons, agora ele realmente ajuda o seu time! Tem se esforçado na defesa (o que não quer dizer que ele é um grande defensor, mas é um começo), é o líder da NBA em rebotes ofensivos, não tem sido um buraco negro no ataque e até pro All-Star Game o porpeta foi! As bochechas gordas são as mesmas, mas o jogador...

3. Kevin Durant é candidato a MVP
Se tivesse gente prevendo que ele seria o cestinha da NBA já ia ter gente (presente!) reclamando e dizendo "Calma, é muito cedo, espera mais um pouco", mas o moleque é precoce e fenomenal. Não só está na briga séria para ser cestinha com o LeBron, como não duvido que ele acabe em segundo na votação para MVP da temporada regular.

4. O Bucks é o quinto colocado do Leste
O time titular tem um armador novato, um projeto de Ginobili que não deu certo, um turco desengonçado que "parece o Hannibal Lecter mas joga como o Larry Bird", um príncipe camaronês e um pivô esquizofrênico! Quem poderia prever que eles seriam uma das potências defensivas da NBA e que depois de trocar pelo John Salmons (SALMONS, não LeBron James) teriam a melhor campanha da NBA depois do All-Star Game?

5. O Gilbert Arenas ficará fora da temporada de novo e não será por causa de uma contusão.
Se falassem que ele perderia a temporada de novo acho que 95% das pessoas iriam acreditar numa boa e responder dizendo "E algum desastre natural irá ocorrer em algum lugar", mas dizer que seria por causa de armas de fogo dentro do vestiário ao invés do bom e velho joelho estourado pareceria mais mentira que a bunda da Cacau! Eu esperava ver mais uma briga à la Pacers x Pistons antes de ouvir falar de um jogador com armas no vestiário.

..........

O meu saldo nas previsões do ano passado não foi espetacular, mas mesmo assim eu já estou feliz, costumo ser muito pior do que isso! É só eu enxergar alguém se ferrando que o time começa a vencer, sou um desastre. Por isso nesse ano não vou prever nada, isso fica com vocês, digam quais coisas parecem hoje mentira mas serão verdades num futuro próximo! Daqui um ano tiraremos esse baú do fundo do quintal e iremos rir das palhaçadas que vocês falaram!

Para finalizar, um vídeo da ESPN com algumas pegadinhas esportivas de 1º de abril. Minhas favoritas são o cara que finge ser jogado do topo do prédio, e o jogador (nem sei de que esporte) que recebe a notícia falsa que foi trocado para um time do Japão!

Vejam que no meio tem uma briga de mentira entre o Mark Cuban, dono do Mavs, e um juiz! Sensacional que o assistente técnico Del Harris ficou achando que era de verdade, um clássico.

terça-feira, 16 de março de 2010

Decisivos

- Não acredito, eles me pagam mais de 10 milhões e eu fedo!
- Não esquenta, pelo menos você tem cabelo!


Nos playoffs passados, Ben Gordon fez a humanidade valer a pena. Erros grotescos como a Playboy da Mara Maravilha ou a invenção da uva passa foram perdoados pela possibilidade de assistir à série entre Bulls e Celtics ir até o decisivo Jogo 7, ter quatro partidas com prorrogações e um total de sete prorrogações ao longo da série, tudo recorde absoluto. O Ben Gordon foi um dos grandes responsáveis por fazer o Bulls segurar tão firme nas pequenas chances de eliminar o Boston Celtics, e simplesmente colocou alguns dos jogos da série no bolso sozinho, acertando um punhado de arremessos sem sentido. Na primeira partida que ele comandou, já avisei que o rapaz estava garantindo um salário gordo na temporada que vem de algum time tolo o bastante para morder a isca. Depois, ainda teve o arremesso mais fantástico de sua carreira. Mas no jogo decisivo, o sétimo, nada deu certo, os arremessos não caíram e o Celtics venceu uma partida fácil, fácil.

Assim que reclamei do contrato obeso mórbido que o Ben Gordon assinou com o Pistons, muita gente não entendia o motivo para eu odiar tanto assim o talentoso armador. Do mesmo modo, tem gente que até hoje quer saber o porquê do meu ódio pelo Rafer Alston, mesmo ele estando há tanto tempo longe do meu Houston Rockets e minha frequência cardíaca tendo diminuído bastante por causa disso. A resposta é bastante simples: no basquete, as vitórias e as derrotas são causadas por uma infinidade de fatores. Às vezes, perde-se por culpa de um trabalho ruim nos rebotes, de uma marcação fraca, da falta de movimentação de bola. São todos motivos aceitáveis e que podem ser arrumados de um jogo para o outro, ou até mesmo no decorrer das partidas. Um fator que você não quer ter para uma derrota, no entanto, é o jogo de um dos seus jogadores secundários.

Quando Kobe Bryant joga bem, por exemplo, as chances do Lakers vencer sobem muito. Quando ele joga mal, no entanto, não existe uma derrota praticamente certa. O jogo do Lakers é bastante equilibrado, depende da atuação de vários jogadores e todos eles contribuem para a vitória. Isso retira um pouco da responsabilidade de um jogador único - mesmo que ele seja, como no caso do Kobe, o jogador mais importante da equipe. Imaginem então o caso do Houston, em que há uma tentativa de espalhar por todo o elenco as responsabilidades ao longo das partidas. Se um jogador não está bem, todos os outros seguram as pontas, fazem o seu trabalho, seguem com o plano de jogo. As vitórias e as derrotas ficam nas costas de todos os jogadores.

Ben Gordon e Rafer Alston são jogadores decisivos. Ao tê-los na equipe, na maioria das vezes são eles que decidirão se seu time vencerá ou perderá. Acabam acertando arremessos absurdos, bolas de três pontos, salvando jogos no final e vencem partidas sozinhos. Mas também erram todos os arremessos, forçam no ataque, exageram no ritmo de jogo, e perdem jogos sozinhos. Quando o Rafer Alston começava a arremessar, não importava quão equilibrado fosse o ataque do Houston, toda a responsabilidade ficava nas mãos do armador. Isso porque o excesso de arremessos quebrava o ritmo da equipe, todo mundo era obrigado a ficar assistindo, o esquema de jogo ia pela janela e o Rafer Alston tirava do bolso a possibilidade de acertar 8 bolas de três seguidas e ser o herói do jogo. Ou errar todas as 8 bolas e fazer o time perder de vez. Qual das duas opções vocês acham que acontecia com mais frequência?

Algumas estrelas são jogadores decisivos nesse sentido, ou seja, que acabam decidindo se o time vencerá ou perderá. O exemplo mais claro era o Kevin Durant nas temporadas passadas. Mas que outra escolha o Thunder tinha, afinal? O time era jovem demais, fedia demais, e sua futura estrela precisava de experiência. Além do mais, é melhor colocar a responsabilidade nas mãos do jogador mais talentoso do que nas mãos de todo um elenco que, cheirando a bumbum de nenê, vai desapontar constantemente. Mas não dá para ter um jogador decisivo desses que seja seu segundo, terceiro ou até quarto melhor jogador. Você tem outros dois ou três caras melhores do que ele, e no fundo quem decide o andamento do jogo é o maluco que arremessa mais? Não me parece uma decisão muito inteligente.

Já vi o Ben Gordon ganhar muitas partidas, levar jogos para a prorrogação, acertar arremessos finais. Mas também já vi o Gordon perder jogos sozinho porque ele não tem seleção de arremessos, critério ou inteligência: apenas arremessa, às vezes cai, às vezes não cai, não há muito mais em seu jogo que ele possa fazer. Peguemos um fominha clássico, como o Gilbert Arenas, e fica fácil de ver como dificilmente as derrotas acabam sendo por sua culpa. Já vi ele estragar tudo, mas em geral sabe parar quando a merda está muito grande e dar responsabilidades para outros jogadores, envolver o time, passar a bola. Ben Gordon não pode fazer isso por uma limitação de talento, ele não sabe armar, não sabe defender, é limitado em seu jogo. Já no caso do Rafer Alston, é apenas uma limitação de cérebro: ele não tem nenhum.

Esses jogadores decisivos para o bem e para o mal acabam só se dando bem quando dois fatores muito importantes aparecem juntos: vir do banco de reservas, e estar num time muito forte, com tanto talento que seja mais difícil interferir no resultado de um jogo negativamente. Só consigo imaginar um jogador desse tipo que esteja nesse contexto: JR Smith. Levou muito, muito, muito tempo para o técnico George Karl aprender a usá-lo. A princípio o técnico apenas brigava com o JR, afundava ele no banco, dava multas, puxava a orelha. Depois entendeu que basta limitar os minutos para que, assim, limite-se sua influência na partida. A matemática é bem fácil: se o jogador arremessa todas as malditas bolas que chegam à sua mão, então basta limitar seus minutos em quadra para que ele arremesse menos bolas. O JR fica nas rédeas apenas no que se refere ao seu tempo de jogo, não adianta tentar domá-lo para arremessar menos ou ter cérebro, ele sempre enterrará como um maluco mesmo sem perceber que o jogo não está valendo ou arremessará de três mesmo sem perceber que está tentando na cesta errada. Gênio.

O momento correto de usar o JR, que o George Karl levou tempo para aprender, também deve muito ao elenco forte do Nuggets. É que esses jogadores decisivos acabam sendo muito mais efetivos quando seus times já estão na frente do placar. Não importa quão absurdo seja o Ben Gordon em finais de jogos disputados ou prorrogações. Se o Bulls tivesse elenco para abrir uma pequena vantagem no terceiro período e o Ben Gordon acertasse os arremessos retardados que às vezes caem, a diferença ficaria gigante e não seriam mais necessários arremessos impossíveis nos segundos finais. O Ben Gordon poderia voltar para o banco, com sua missão terminada, e a vitória estaria garantida. Caso seus arremessos idiotas não caíssem, o time não se afundaria num buraco sem saída porque antes estava na liderança e, no máximo, teria perdido os pontos de vantagem. Bastaria colocar o Gordon de volta no banco e começar de novo a tentar galgar outra vantagem, sem precisar de uma recuperação impossível.

Isso acontece com uma frequência absurda no Nuggets. Quando o time está na frente no segundo tempo, o JR Smith entra em quadra e começa seu festival de arremessos que fariam um orangotango corar com tamanha falta de bom senso. Se esses arremessos caem (e muitas vezes caem, ele é bom e tem uma mecânica de arremesso linda), a vantagem vai para a estratosfera e o Nuggets pode ir descansar. Se os arremessos não caem, o JR Smith respira no banco e o resto do elenco tenta segurar um pouco a vantagem. Depois, se houver tempo hábil, repete-se o experimento. Esse é um dos grandes motivos do Nuggets ser um time tão forte, com tantos recursos, e que de repente, sem aviso, abre enormes diferenças no placar. Cansei de ver times que, perdendo por 10, começam a esboçar uma reação - para então tomarem quatro bolas de 3 pontos do JR Smith e passarem a perder por 20 num intervalo muito pequeno de tempo. É um meio de arrancar o coração de times tentando se recuperar, fritá-lo na manteiga e comer com alecrim.

Esse é também um dos motivos para o Ben Gordon ter dado tão, tão errado no Pistons. Lá, que o elenco fede, as atuações do Gordon são ainda mais decisivas do que eram no Bulls, então seus jogos ruins viram estragos que não podem ser desfeitos. Como ele não defende necas, quando seus pontos não estão lá para compensar, a sua presença em quadra nem vale a pena. Para impedir o desastre, os minutos do Ben Gordon vão sendo mais e mais limitados, com jogadores menos decisivos como Hamilton e Will Bynum ganhando prioridade. O pior disso tudo foi uma entrevista recente do Gordon sobre essa que é a pior temporada da sua carreira, com apenas 13 pontos por jogo, menos de 2 rebotes e aproveitamento de 30% nas bolas de três, todas piores marcas desde que entrou na NBA. O armador colocou um pouco da culpa de suas atuações fracas nas contusões, mas admitiu que está com dores assim como muitos outros jogadores de muitos outros times nessa temporada imbecil de 82 jogos. O motivo real para seu desempenho seria então, para ele, a rotação do time, que não o favorece. Reclamou de minutos, de vir do banco, de ter poucas oportunidades. Ou seja, reclamou de não poder decidir os jogos - mesmo que, num time como o Pistons, não dê pra se dar ao luxo de deixar o terceiro melhor jogador do time (talvez quarto) decidir as partidas para o bem ou para o mal. Não era o Pistons que se gabava de ter um jogo totalmente coletivo?

Está aí justamente o que separa Rafer Alston e Ben Gordon do único que deu certo, JR Smith. O Gordon passou a carreira reclamando de começar os jogos no banco de reservas, exigia mais minutos e mais arremessos. Rafer Alston não se conformava de não ser titular, foi trocado trocentas vezes, e ao invés de perceber que seus serviços não eram muito bem aceitos, resolveu dar uma de estrelinha e ir pra casa quando o técnico do Heat, Erik Spoelstra, colocou ele no banco em uma partida e lhe tirou a vaga de titular na outra. Existem uns malucos que só arremessam, isso não é problema. Existem também uns malucos que só defendem, uns que só pegam rebote, uns que só passam a bola, uns que só enterram. O importante é entender as próprias limitações, saber até onde é possível ir, e encontrar uma situação adequada com um técnico que possa utilizá-lo bem. O JR Smith está na situação perfeita, mas o mais importante é que ele não acha que deve ser titular, jogar todos os minutos. Faz a única coisa que sabe quando decidem que ele pode fazê-lo. E é por isso que esse Nuggets, atualmente, parece ser o único capaz de retirar o Lakers de um possível título no Oeste. Muitas armas, forte garrafão, e alguém que vem do banco não para para salvar jogos, mas para esticar vantagens.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pisou na merda, abre os dedos

Jamison deixava jogadores do Cavs sangrando no
chão, agora tem que ser miguxo do LeBron


Primeiro o Arenas foi suspenso pela piadinha com armas de fogo. Depois, Caron Butler (junto com o Haywood) foi trocado para o Mavs e agora, para finalizar, Antawn Jamison foi trocado para o Cavs. Não sobrou nenhum dos três ex-jogadores de All-Star para contar história num time que, ao menos no papel, era colocado por todo mundo como um dos favoritos para brigar pelo título do Leste. Enquanto quase todos os times da NBA ficariam batendo a cabeça na parede, insistindo num erro por medo de se queimar com os torcedores, o Wizards resolveu desmontar a equipe inteira assim que percebeu que o trio não iria adiantar para levar o time ao topo. Uma decisão segura seria dizer que, novamente, o trio não passou tempo o bastante jogando junto, colocar a culpa na mudança de técnico, esperar Arenas voltar temporada que vem e tentar de novo, de novo e de novo. Mas o Wizards não quis ser novamente um time mediano, compreendeu as limitações que os três All-Star juntos enfrentavam em quadra, e teve a coragem de começar de novo. Essa coragem falta para muitos times que acabam ficando para sempre naquele limbo do meio da tabela, lutando pelos playoffs ou conseguindo as últimas vagas, sem nunca ter chance de vencer de verdade. O único modo de transformar essa situação é reconstruir o time, feder por uns tempos, conseguir escolhas de draft, dar minutos para os pirralhos. Mas como explicar para o torcedor apaixonado que o time bom pra burro, mas não bom o bastante, vai ser jogado no lixo e o time vai feder por uns anos? Como explicar caso uma equipe que já chegou a competir por títulos comece a namorar com a pior campanha de todos os tempos? O Nets poderia muito bem ter mantido vários de seus jogadores e ficado no mais-ou-menos pra não passar vergonha, mas essa campanha horrorosa uma hora vai dar frutos.

O Pistons teve esse medo de feder para os torcedores, o Joe Dumars quis concertar tudo muito rápido para que não houvesse um período de reconstrução, e o resultado foi um time que não consegue se livrar de Richard Hamilton, contratou lixos como Ben Gordon e Villanueva, e não tem identidade. Pra quê tanto medo de feder? O passo do Wizards rumo à lama é a coisa mais inteligente e corajosa que a equipe poderia ter feito. Eles já estavam na merda mesmo, o melhor é abrir os dedos, garantir uma boa escolha de draft, construir um time inteiro do nada de acordo com as preferências do novo técnico (ao invés de ter que fazer o técnico suar para colocar um padrão numa equipe aleatória já montada) e dar minutos para a pirralhada jogar.

Como o Wizards não tem dado certo nos últimos anos, o time arrumou um bom número de fedelhos com potencial. O Arenas dizia que o Nick Young lembrava o Kobe quando entrou na NBA e seria uma estrela, Andray Blatche é um ala cheio de potencial que domina ligas de verão e há anos todo mundo espera ver ele estourar, e JaVale McGee é um pivô enorme, magrelo e completamente cru com capacidade para dominar na defesa. Nenhum deles tinha muitas oportunidades de jogo estando atrás de Butler, Jamison e Haywood, respectivamente, e apesar dos três terem se saído bem nas constantes contusões da equipe, nunca tiveram minutos suficientes para conseguir alguma consistência. Agora isso mudou: Blatche e McGee formam o garrafão titular da equipe, enquanto Nick Young ganha sua chance ao lado do Josh Howard, que chegou na troca do Butler desacreditado por não ter se tornado aquilo que se esperava dele - embora o potencial ainda esteja lá. Mesma coisa com o Al Thornton, que parecia um dos jogadores mais promissores do Clippers até que a comissão técnica foi ficando mais e mais descontente com seu jogo e ele foi mofar no banco.

São todos jogadores com potencial, terrivelmente inconstantes, tendo a oportunidade de suas vidas. Precisam mostrar que têm valor, precisam mostrar que conseguem aprender jogo após jogo, e que rendem quando recebem minutos. Enquanto eles se desenvolvem, a temporada vai pro saco e o próximo draft rende algum outro jogador de potencial para ajudar a equipe. Quando o técnico tiver decidido quem tem chances de permanecer na equipe e decidir por uma cara para o time, basta ir atrás de talentos veteranos, com a grana economizada, que se encaixem na nova formação tática. Sem pressa, com coragem de botar os fedelhos no fogo e dinheiro para gastar apenas quando o time já tiver alguma identidade, o processo de reconstrução do Wizards vai acabar sendo rápido e indolor. Prova disso é ver todos os jogadores cheirando a fralda do time jogando como se suas vidas dependessem disso, se atirando em todas as bolas, bebendo sangue nos intervalos de jogo. Foram duas vítórias nas últimas duas partidas, com atuações impressionantes de Blatche (33 pontos e 13 rebotes contra o Wolves, 18 pontos e 11 rebotes contra o Nuggets) e de McGee (14 pontos, 11 rebotes, 5 tocos contra o Wolves, 9 pontos, 7 rebotes e 3 tocos contra o Nuggets). Enquanto Butler e Jamison, estrelas consagradas, jogavam com aquela tristeza de quem perdeu a temporada e não tem motivo para se esforçar, o sangue jovem do Wizards joga pelo seu futuro e engoliu o Nuggets ontem na raça, mesmo quase tacando o jogo fora no final.

Para o Jamison, por mais que ele se dissesse feliz com o Wizards, com os companheiros, a cidade e os dirigentes, a temporada já não valia mais nada. Era só uma perda de tempo até que o Arenas voltasse temporada que vem, uma torcida para que o resto do time não desmontasse com contusões. No Cavs, agora ele volta a jogar como se pudesse ganhar um campeonato, como se seus resultados realmente importassem. O problema é que ele está tentando mostrar serviço num time que aprendeu, nos últimos anos, a odiá-lo loucamente.

A NBA anda meio morna com rivalidades ultimamente (a mais recente é Hawks e Celtics), e as brigas nas partidas entre Wizards e Cavs eram a coisa mais animada que existia nesse sentido nos últimos anos. É uma rivalidade meio fajuta porque o Cavs sempre ganha, mas o Wizards joga sério, dá porrada, xinga, enlouquece, e depois perde. Dizem que a rivalidade foi o principal motivo do Wizards ter tentado evitar a troca, e agora é o Jamison quem está sentido o peso dela. Não é como se ele fosse chegar em Cleveland e de reBoldpente ser amiguinho de todo mundo, como se não tivessem se odiado tanto há anos. Mo Williams, Shaq e LeBron ignoraram Jamison várias vezes quando ele estava sozinho para o arremesso, o Jamison foi ajudar o LeBron a se levantar e a estrela do Cavs fingiu que não notou, e o Delonte West deu a maior fria no Jamison depois de lhe mandar um passe horrível, impossível de pegar. O clima não é dos melhores, é bem óbvio que todo mundo na equipe ainda se lembra das tretas com o Wizards, o LeBron estava torcendo para conseguir o Amar'e, e o Jamison arremessar 12 bolas para tentar ser querido (e errar todas elas) não ajudou muita coisa. Pior ainda foi o Cavs ter saído de quadra com a derrota e o Jamison ter falhado tão miseravelmente na defesa em momentos importantes do jogo.

Vai levar um tempo para o Cavs se acostumar com o Jamison, perceber que ele é valioso para a equipe e, principalmente, que ele foi uma escolha melhor do que o Amar'e seria. Talvez surjam muitas derrotas até o Jamison se encaixar bem no estilo de jogo do Cavs, aprender a defender em conjunto, ser mais discreto em quadra, mas eventualmente vai dar muito certo e o LeBron vai ter percebido que os engravatados do time não poupam dinheiro para ficar acima do teto salarial e conseguir quem for para melhorar suas chances de título. Será que ofereceriam tanta grana para ser paga em multas em qualquer outro time da NBA, tipo o Knicks, que anda recheado de dívidas?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Botão do apocalipse

Caron Butler chora uma lágrima de sangue pelos seus companheiros do Wizards


Durante o fim de semana do All-Star, o Wizards resolveu apertar o botão do apocalipse. Com 17 vitórias e 33 derrotas, o time tem a segunda pior campanha do Leste e a quarta pior de toda a NBA. A equipe aturou o Gilbert Arenas contundido por muito tempo com a esperança de que, com ele de volta, pudesse competir pelo título do Leste. Afinal, Arenas, Jamison e Caron Butler são todos All-Stars e não é qualquer time que consegue ter tantas estrelas juntas ao mesmo tempo. Mas nessa temporada o Wizards aprendeu duas coisas: a primeira é que contar com o Arenas é impossível, porque ou ele vai estar contundido ou vai ter caído numa piscina de xarope, bebido água da privada ou colocado pó-de-mico na cueca de algum companheiro de equipe. A segunda coisa é que nas raras vezes em que Arenas, Butler e Jamison estão juntos em quadra, eles simplesmente não são muito bons. Falta de química, entrosamento, esforço, defesa, não faltam razões para o fracasso de um trio que parece nunca ter entendido o papel de cada um em quadra e que nunca se levou muito a sério. Vendo que não adiantava esperar pela volta do Arenas, então, o Wizards criou um par de bagos, esgotou a paciência, apertou o botão do apocalipse e resolveu se livrar dos jogadores. Como o Arenas ganha 16 milhões e o Jamison ganha 11 milhões (e vai ganhar 15 num contrato que dura ainda mais duas temporadas, fora essa) só sobrou o Caron Butler para interessar algum time na NBA.

Com o Butler no mercado, o Mavs ficou com água na boca. Adicionar o Gooden e o Shawn Marion não adiantou bulhufas particularmente porque o resto do time não defende grandes coisas e porque o Josh Howard cai de produção mais e mais a cada ano. Não faz muito tempo ele era um pontuador excelente com momentos geniais na defesa, com roubos e tocos decisivos e potencial ilimitado. Mas depois de sua polêmica afirmação de que fumava maconha nas férias, problemas com a torcida do Mavs e uma complicada cirurgia no tornozelo durante as férias, ele nunca mais foi o mesmo, joga sem vontade e parece um jogador comum com um salário muito gordo. Trocá-lo por um ladrão de bolas (talvez o melhor de toda a NBA) com mais talento ofensivo que o Josh Howard não foi uma decisão difícil, até o Isiah Thomas conseguiria acertar nessa.

De brinde, o Wizards ainda mandou DeShawn Stevenson, que está velho, se acha a última bolacha do pacote, mas ainda é um defensor razoável, e o Brandon Haywood, que é um ótimo defensor no garrafão e tem tudo para acompanhar melhor o ritmo do Mavs no jogo de transição. O atual pivô do time, Erick Dampier, tem cada vez mais problemas nos joelhos e precisa ser poupado em jogos seguidos, então a chegada do Haywood é essencial para o garrafão do Mavs. O Dampier até que quebra um belo de um galho, especialmente com a ajuda de Jason Kidd (que faz qualquer um render melhor no ataque), e bem provavelmente vai continuar sendo o titular da equipe. Mas o Haywood vai acabar tendo mais minutos do que ele, porque embora nunca tenha sido um gênio nos rebotes, sempre teve um bom tempo de bola e pés bem rápidos na defesa. O pessoal em Dallas já fala de planos de usar os dois ao mesmo tempo contra garrafões mais fortes, o que torna a equipe muito mais versátil.

Para isso, o Mavs teve que perder também o Drew Gooden, mas ele não faz falta para a equipe. O Gooden é muito bom, mas o coitado sempre teve que jogar improvisado a vida inteira. No Grizzlies, equipe que o draftou, tinha que jogar de ala-armador porque não tinha outro mané para ocupar a vaga (o coitado teve que aprender a arremessar de três, sem sucesso), no Cavs e no Mavs tinha que quase sempre jogar de pivô para tapar buraco. Seu jogo sofre muito embaixo da cesta, ele prefere ficar nos arremessos de média distância, mas no Mavs seu talento nos arremessos era meio inútil frente à quantidade de arremessadores na equipe, especialmente o Nowitzki que também joga fora do garrafão sempre que pode. O resultado era o Gooden sendo pago para brigar por rebotes e defender o aro, coisa que ele não faz muito bem e que Haywood vai executar com muito mais facilidade. O Mavs manda também o Quinton Ross, bom defensor de perímetro, e o James Singleton, um ala brigador para dar pancada quando tiver briga com a torcida ou quando alguém não pagar uma dívida.

Pro Wizards, a troca é para começar de novo. Os contratos de Ross e Singleton são praticamente simbólicos e, assim como os contratos de Drew Gooden e Josh Howard, terminam nessa temporada. De repente, com apenas uma troca, o time entra na brincadeira para contratar alguém na imensidão de estrelas que estarão desempregadas ao fim dessa temporada. É um excelente ano para reconstruir, tendo em vista a quantidade de talento disponível, e o Wizards vai ter uma graninha para tentar a sorte. E, por enquanto, só pra não perder demais, fica torcendo para o Josh Howard mostrar que todo o potencial que se via nele não foi ilusão de óptica.

Na tentativa de reconstruir a equipe antes que se diga parangaricutirimirruaru, o Jamison também está disponível para ser trocado e, se conseguirem mandá-lo por mais contratos expirantes, o Wizards vai poder construir um time inteirinho novo com a grana. Mas vai ter que ser em volta do Arenas, porque dele não vai dar pra se livrar. Já cogitam que o Jamison vá para o Cavs ou para o Celtics, por exemplo.

Essa é uma daquelas trocas que pode parecer um assalto, mas que deixa os dois lados felizes. O Mavs se transformou num time muito mais forte. Agora Shawn Marion, Butler e Haywood podem tornar o Mavs uma equipe mais defensiva, Butler vai render tudo aquilo que se esperava de Josh Howard no ataque para desafogar Nowitzki (que não é das estrelas mais constantes em pontos), e o garrafão fica mais versátil porque terá dois jogadores capazes de brigar lá dentro, ao invés de ter um ala improvisado. Ainda acho que não é o bastante para que o Mavs pense em título, mas a aquisição de Haywood é essencial para um eventual confronto com Lakers e Nuggets, donos de um garrafão que faz todo o resto do Oeste fazer xixi na cama. O Mavs tem agora um elenco muito mais forte do que tinha na temporada passada, prova de que seu dono Mark Cuban não poupa verdinhas em busca de um título. O teto salarial dessa temporada é de 57 milhões, e o Mavs passa a pagar 90 milhões! São mais de 30 milhões acima do limite, o que resulta em 30 milhões a mais gastos só com multas (daria pra estacionar uma caralhada de carros fora da vaga). Com o esquema tático favorecendo um pouco mais Jason Kidd e um elenco cada vez mais grandioso ao seu lado, esse Mavs deve ser levado a sério, ao contrário de ser um time invisível que todo mundo sabe que não dá em nada como era até pouco tempo atrás. Ainda não acredito, sou um incrédulo infiel sujo, mas quero mais é que essa equipe prove que estou enganado. Agora, ao menos levo o time a sério. Vai demorar um pouco para todas as peças encaixarem, Haywood e Butler não conseguiram treinar com a equipe ainda, e nesse Oeste mais disputado do que mulher sem gonorreia no carnaval é bem capaz que percam várias posições na tabela, mas para os playoffs estarão firmes e fortes. Enquanto o Wizards assiste tudo em casa, tentando garantir que o Arenas não apronte nenhuma e convencendo alguma outra estrela para jogar com o armador. Vai ser difícil, mas pelo menos foi corajoso - melhor do que o Pistons que não decide se renova ou não renova, manteve o Hamilton e torrou a grana antes de poder brincar na temporada que vem. Funhé.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Jogadores debaixo do tapete

"Não penso, logo não existo?"


Num incrível passe de mágica, Gilbert Arenas está desaparecendo. Após ter (se os relatos estão corretos) levado armas sem munição para o vestiário do Wizards, oferecido uma a seu colega Javaris Crittenton como piada, e depois tirado sarro de toda a situação apontando os dedos como se fossem armas para sua equipe numa apresentação do time, qualquer coisa que lembre o Gilbert Arenas está desaparecendo na miúda. Suas fotos sumiram dos produtos do Wizards, um banner com seu rosto desapareceu da entrada do ginásio, sua camiseta não é mais vendida nas lojas e imagens de suas jogadas foram retiradas do vídeo de introdução da equipe. Arenas não teria sido tão eficiente em sumir do mapa nem se tivesse forjado a própria morte (o Elvis está aí pra provar, já que até hoje a gente sabe muito bem que ele não morreu coisa nenhuma e está aproveitando férias no Havaí com o Tupac). Era de se supor que, após a suspensão "por tempo indeterminado" ditada por David Stern, o Wizards brigasse para ter sua estrela de volta às quadras. Pelo contrário, a equipe está feliz da vida de se livrar do armador. Feliz o bastante para apagar quaisquer vestígios de que Gilbert Arenas um dia tenha chegado a acontecer.

O Denis já debateu bem o caso e, realmente, armas são feitas para matar gente e é um tanto imbecil levá-las para o vestiário do seu trabalho, ainda que sob pretexto de tirá-las de casa e de perto dos seu filhos (que tal dar a arma pra polícia e pronto, não ter mais que lidar com isso?). No entanto, é estranho como o caso provocou tanto horror e uma suspensão brutal justamente numa cultura obcecada por armas, em que você pode comprar munição no mercado ali do lado do leite , com grupos de adoradores de armamentos e uma série de leis que favorecem o porte. Armas estão de tal modo dentro da cultura americana que uma longa lista de jogadores estão ou estiveram envolvidos em casos de porte ou utilização de armas de fogo, sem que ninguém sofresse punições muito severas. Escrevi um longo post sobre o Delonte West, que foi parado pela polícia e calhou de estar com duas pistolas no corpo e uma shotgun escondida numa mala para guitarras, não exatamente o tipo de coisa que você leva para tocar no aniversário da sua sobrinha. Não houve qualquer grande medida por parte da NBA, mesmo estando todas as armas repletas de munição, enquanto o Stephen Jackson foi suspenso por 7 jogos depois de ter dado vários disparos depois de uma briga numa boate. O Jamaal Tinlsey também já se meteu em mais tiroteios do que o Charles Bronson, tendo sido suspenso um par de vezes (e dando uns depoimentos engraçados, porque ele realmente acha que é normal pra qualquer cidadão se meter em conflitos armados de duas a três vezes por semana), mas nunca nada grave.

A atitude do Arenas foi uma merda, armas não são bolacha Passatempo ou revistas de mulher pelada pra ficarem no armário do trabalho, e piadas com troços letais sempre dão algum tipo de merda. Mas a mensagem que eu estou recebendo aqui é que você não pode ser burro e fazer uma piada imbecil, sob pena de ser banido da NBA, enquanto está tudo bem dar uns balaços para o alto ou em outras pessoas em confrontos quaisquer mundo afora. David Stern ainda não decidiu nada sobre Javaris Crittenton, que pelo jeito respondeu à piada do Arenas sacando sua própria arma e dando um tiro para cima no ginásio, alegando que aguardará o término das investigações. Mas o Arenas foi suspenso sem espaço para reclamações, simplesmente porque tirou sarro da situação. O Jamaal Tinsley nunca tiraria sarro de um tiroteio, o negócio pra ele é real, sua cabeça parece estar sempre a prêmio e ele vive essa realidade tão barra-pesada e distante que o David Stern quer fingir que não existe. Mas o Arenas não, é apenas um garoto entediado, fazendo piadas no seu blog e no Twitter, tão distante desse lance de armas e balas na periferia que não pode deixar de tirar sarro dessa imagem de bandido maluco favelado que tentaram colocar nele. Se o esteriótipo já é uma besteira para qualquer um, deve ser ainda mais ridículo para um garoto mimado que não fez outra coisa além de jogar videogame enquanto esperava seu joelho se recuperar. A brincadeira com as armas foi idiota, a piada com a imagem que a mídia lhe criou foi ingênua (todo mundo sabia que o também entediado mas poderoso David Stern ia ficar bravinho), mas a punição foi totalmente descabida. Jogadores que usaram suas armas de fogo contra outras pessoas estão jogando por aí. Jogadores acusados e condenados por correr demais, acidentes de carro, dirigir alcoolizado. Li recentemente que, pego em excesso de velocidade, LeBron James disse rindo que estava apenas com sono e queria ir pra casa dormir. É claro que ele nunca seria suspenso, o David Stern é burro mas não é bobo.

Uma cagada não anula a outra. O que o Arenas fez foi uma besteira, mas isso não quer dizer que qualquer ação por parte do David Stern é justificável, a besteira do nosso engravatado favorito não pode passar despercebida apenas porque todo mundo quer tacar cocô no Arenas. Aliás, qualquer medida da sua parte seria uma besteira descabida, o que a NBA tem a ver com a parte legal e judicial de seus jogadores? Deixem Arenas ser acusado, sentenciado e preso por transporte e porte de armas de fogo em Washington como está prestes a acontecer, pronto. Deixe JR Smith passar 60 dias na cadeia por causar, em alta velocidade, o acidente de carro que matou seu melhor amigo. Por que a NBA insiste em se meter nesse tipo de questão? Qual a relação entre basquetebol e o babaca ter dirigido bêbado na noite de ontem? Outros âmbitos são responsáveis por isso, é preciso haver uma separação urgente, antes que David Stern comece a pedir currículos para decidir se um jogador pode participar do draft: só poderão ser escolhidos aqueles que forem brancos, protestantes, não fumarem, não beberem e não saírem de casa depois das 21h (os chineses também podem, eles dão dinheiro).

Voltando ao mundo do basquete, o mais curioso nesse lance do Arenas é o Wizards estar desaparecendo com o seu jogador. Pelo jeito, estão apenas aguardando, com água na boca, o David Stern deixar que eles invalidem o contrato do armador. O motivo é simples: ao pagar 111 milhões num contrato de 6 anos, a franquia esperava não apenas um jogador que levasse o Wizards ao topo do Leste, mas também o jogador mais carismático e vendável da NBA. O que acontece é que esse pirralho bocudo perde o amigo mas não perde a piada, o que não é lá muito vendável. Quanto mais declarações bem-humoradas, mais gente passava a ficar ofendida com alguma coisa (a gente aqui no Bola Presa descobriu, desde muito cedo, que o humor sempre está ofendendo alguém que você nem imagina, basta tirar sarro de andorinhas e o Sindicato dos Adoradores de Andorinha entra em contato por e-mail) e aos poucos o Arenas foi deixando de ser unanimidade. Muita gente meteu o pau no Arenas até por falar demais - como se a gente não falasse demais em todos os veículos que nos dão voz, até no "Fala que eu escuto" às 3h na Record - porque seu papel na vida é jogar. Só que jogar com o joelho transformado em poeira fica difícil, então os 111 milhões não serviam nem para ter um garoto-propaganda bacana nem pra ter um jogador em quadra. Talvez quando ele ficar saudável tudo valha a pena, quem sabe? Aí então ele finalmente ficou saudável depois do time feder tanto sem ele e, surpresa: o time continua fedendo. Dar um salário desses para alguém que, mesmo quando joga, não consegue salvar o time lá das piores colocações do Leste? É por isso que o Wizards quer tanto terminar o contrato e se livrar desse fardo, até porque fazer uma troca nesse valor seria quase impossível.

A mesma coisa anda acontecendo em Milwaukee. O Michael Redd vai ganhar 18 milhões na temporada que vem, e para quê? Passou a última temporada inteira contundido, jogou minutos limitados nessa e já foi anunciado que estará fora pelo resto da temporada graças a uma nova cirurgia. Mesmo quando jogava, no entanto, Redd nunca pareceu o tipo de jogador capaz de carregar sozinho uma franquia. Ele teve a chance de assinar um contrato mais modesto com o Cavs e, ao lado de LeBron, já teria atualmente 14 anéis de campeão. Mas não, preferiu ser a estrela de um time, encher as orelhas de dinheiro, e agora dá discursos dizendo que só quer vencer, só quer estar num time com chances de vencer. Burro foi o Bucks, de pagar tanto por um arremessador. Agora, a postura por lá é fingir que nada aconteceu, dar espaço para o Brandon Jennings e torcer para o Redd ir embora. Aliás, torcer para a lesão durar bastante porque aí a NBA devolve uma parte do salário. Mesma coisa com o Tracy McGrady: atualmente tem o maior salário da temporada (são mais de 23 milhões!), não jogou bulhufas contundido nos últimos anos, e o time acabou dando espaço para outros jogadores e outras formas de jogo. O que o técnico queria é que ele desaparecesse, mas se ele não jogar pelo menos uma parte do salário volta. Com certeza se Michael Redd e Tracy McGrady estivessem envolvidos num escândalo com armas, seus times aproveitariam para sumir com as fotos, banners, camisetas e vídeos. É uma chance de desfazer a burrada de dar um salário tão grande para um jogador que só se contunde, e tudo isso às custas do jogador - que não tem culpa nem de ter recebido a oferta contratual dos times, nem de estar contundido o tempo inteiro (aliás, tanto T-Mac quanto Arenas sempre quiserem jogar, mesmo com lesões).

O Arenas está sendo varrido pra baixo do tapete com tanta intensidade que agora quando você vai no site da NBA.com e tenta fazer uma camiseta personalizada com o número "0" e o nome "Arenas" (já que sua camiseta oficial não está mais à venda), o site diz não permitir camisetas com nome ou conteúdo ofensivo. Ou seja, tentar criar uma camiseta com "Caralho, "Puta merda" ou "Arenas" dá na mesma, ele virou um palavrão. Tracy McGrady ainda pode ter suas camisetas compradas, mas está sendo completamente ignorado pelo Houston até que seu contrato termine e ele desapareça. Michael Redd, provavelmente, seguirá o mesmo caminho. Mesmo antes de sua contusão recente, havia um sério questionamento sobre sua liderança na equipe e a comissão técnica decidiu que ele não era mais o jogador principal, cargo dado a Jennings e Bogut.

Frente a tudo isso, dou dois conselhos: o primeiro é que se você encontrar uma camiseta do Arenas em alguma loja da adidas pelo Brasil, compre imediatamente porque ela vai ser raridade (e palavrão). O segundo conselho é que você tente salvar Tracy McGrady de desaparecer por completo no Houston: participe agora mesmo da nossa promoção, monte uma troca para libertar T-Mac e concorra a 5 bonés do Houston Rockets!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Dono da Bola - Washington Wizards


Já tinha prometido esse perfil quando o Abe Pollin, dono do Washington Wizards, morreu logo no começo da temporada. Achei que era a hora de terminar o serviço depois que citei ele no post de ontem sobre o Arenas, dizendo que foi ele quem decidiu mudar o nome do time de Bullets (balas) para Wizards (magos) porque não gostava da conotação violenta do nome.


Abe Pollin
Temporadas no comando: 46
Playoffs: 25
Títulos de divisão: 7
Títulos de conferência: 3
Títulos da NBA: 1

Riqueza estimada: 180 milhões de dólares
Comprou o time por: 1 milhão de dólares (1964)
Valor atual da equipe: 313 milhões de dólares
Maior contrato oferecido: Gilbert Arenas (US$111 milhões, 2008)
Técnicos contratados: 18 (Buddy Jeannette, Paul Seymour, Mike Farmer, Gene Shue, KC Jones, Dick Motta, Kevin Loughery, Wes Unseld, Jim Lynam, Bernie Bieckerstaff, Jim Brovelli, Darrell Walker, Gar Heard, Leonard Hamilton, Doug Collins, Eddie Jordan, Ed Tapscott e Flip Saunders)

Oficialmente Abe Pollin não é mais o dono do Wizards e isso acontece por um motivo bem simples: ele morreu. Mas como foi dono da franquia por 46 anos, a coluna Dono da Bola é sobre ele. Sua morte aconteceu no dia 24 de novembro do ano passado, logo antes de um jogo contra o Philadelphia 76ers, time da cidade onde Pollin nasceu, mas de onde se mudou aos 8 anos de idade para ir morar na cidade onde viveu até sua morte, Washington.

Sua família era dona de uma grande empresa de construção civil da capital americana e em 1964 eles conseguiram juntar dois bons negócios em um só: construir uma grande arena esportiva e comprar uma franquia de basquete, o então Baltimore Bullets. A primeira aquisição foi o time, que ficou em Baltimore até 1973, quando eles finalmente conseguiram construir o ginásio Capital Centre em Washington.

Essa história de um grupo de empresários de uma cidade comprar um time de outra cidade e depois mudar para sua cidade natal foi justamente o que aconteceu com o Sonics, que vendeu a franquia para um grande empresário de Oklahoma City. Mas no caso de Pollin não consegui descobrir se ele, como fez o dono do Thunder, prometeu que o time não mudaria de cidade. Também não sei qual foi a reação da população de Baltimore em relação a isso, talvez não tenha sido tão impactante para eles porque o time não tinha tanta história e porque Washington é uma cidade bastante próxima.

A construção do Capital Centre e depois do Verizon Center mudou a cara de Washington. O Capital era a casa do Bullets, virou a casa do time de hockey Washington Capitals até ser demolido em 2002. Hoje os dois times dividem o Verizon. Como todo bom empresário americano, Pollin não fez o ginásio sozinho e no entorno nasceram diversos outros empreendimentos de entretenimento, lojas, restaurantes, que transformaram a região em um ponto de encontro da cidade. O lado ruim dessa valorização do bairro é que antes da construção do ginásio o local era basicamente de imigrantes chineses, muitos deles tiveram que fechar seus pequenos negócios devido à valorização dos terrenos.

Embora os imigrantes chineses e alguns moradores de Baltimore pudessem não ser muito fãs de Pollin, o resto da cidade era. O dia 3 de dezembro é o "Pollin Day" em Washington e o antigo dono virou o nome da rua do ginásio. Em Washington valorizam muito o fato de Abe Pollin ter arriscado bastante ao gastar boa parte de sua fortuna investindo em equipes que viraram a paixão da cidade, ele poderia muito bem ter investido em qualquer outra coisa e feito muito mais dinheiro arriscando menos.

Para a NBA ele também foi importante, afinal é o cara que mais passou tempo sendo dono de alguma franquia. Ele participou de todas as mudanças e revoluções vividas pela liga desde os anos 60. Foi Pollin, inclusive, quem deu o primeiro passo no que se tornou a grande revolução da última década na liga, o seu crescimento ao redor do mundo.Em 1979, um ano em que os governos de EUA e China ameaçavam uma aproximação, o time da capital foi para o outro lado do mundo disputar uma partida contra a seleção chinesa de basquete. Logo depois, no começo dos anos 80, a China começou a transmitir ao vivo as partidas da liga americana.

Abaixo tem uma pequena matéria da NBA TV com algumas imagens dessa viagem.


A viagem aconteceu em 79, em 78 o Bullets havia conseguido seu maior feito: em 46 anos de comando de Abe Pollin e pela única vez na história da franquia, o time da capital havia sido campeão da NBA. Comentei antes do caso do Sonics e é engraçado que o título do Wizards aparece com destaque no documentário Sonicsgate, que eu comentei meses atrás e que fala sobre a mudança do Sonics de Seattle. Afinal, o título do Bullets veio em um jogo 7 em Seattle. Comentam no filme como um dos momentos mais tristes da história da cidade.

O Sonics, porém, teve sua revanche no ano seguinte quando pegou o mesmo Bullets na final e dessa vez venceu por 4 a 1. Sem dúvida foi o melhor time de Washington em toda a história. Contava com grandes jogadores como Elvin Hayes, o atual General Manager do Lakers Mitch Kupchak, Bob Dandridge e o Hall da Fama Wes Unseld, que era grande amigo de Abe Pollin (os dois, um empresário e um pivô, disputavam torneios de três pontos) e até se tornou técnico da equipe anos depois.

Os jogadores do seus times diziam que Pollin era do estilo paizão, que ia dar conselhos, puxões de orelha e parabéns após as partidas. Logo após o jogo do dia de sua morte, contra o Sixers, o ala Antawn Jamison disse, com lágrimas nos olhos, "Depois das vitórias, saber que você não vai ouvir aquela voz dizendo 'bom trabalho' ou 'acredito em você' será difícil". Etan Thomas, outro jogador que passou anos no Wizards, fez um texto bem legal sobre seu antigo patrão.

Lá ele conta uma história de quando fez um discurso em uma passeata anti-guerra em Washington e logo depois foi chamado pelo Sr. Pollin para uma conversa. Etan Thomas é conhecido por ser o jogador mais, digamos, intelectual da NBA. Ele tem um livro de poesia chamado "Mais que um atleta" e é presença constante em discussões sobre política na capital. Esse discurso havia sido logo após a invasão do Iraque, Etan Thomas confessou que pensou "ah não, esse republicano ficou ofendido com o que eu disse e não quer mais que eu trabalhe no time dele".

Nas palavras do Etan Thomas, esse foi o encontro dos dois:

"Entrei no seu escritório, e ele estava lá sentado com um sorriso enorme no rosto e apertou minha mão. Começou a falar que seu filho estava naquela passeata e estava radiante com o meu discurso. Ele disse que depois leu o que eu disse e que estava bastante impressionado. Começamos então uma longa conversa sobre política. Falamos do Iraque, da administração Bush, Vietnã, educação em cidades pequenas do interior... até falamos sobre a gentrificação que tem acontecido na nossa cidade. Ele me contou de sua dedicação em construir casas para pessoas de diferentes rendas e que ele não se focava apenas nas construções para os mais ricos, o que é bem comum em Washington. (...) Quando fomos ver já tinhámos conversado por mais de uma hora e meia. Ele pediu desculpas por tomar tanto tempo meu e disse para eu continuar sustentando o que eu acreditava mesmo que ouvisse muitas críticas."

Depois Thomas conta outra história sobre quando ele fez uma cirurgia no coração. Muitos duvidavam que ele teria condições físicas de voltar a jogar e Abe Pollin fez seu papel de paizão ao dizer o contrário. Ligou para Thomas no hospital, contou histórias de suas próprias operações e disse para ele esquecer a imprensa porque tudo iria acabar bem e ele iria jogar de novo. E, nas palavras de Etan Thomas: "Ele estava mais preocupado com a minha saúde do que em me ver o mais depressa possível na quadra. Isso definitivamente não é o padrão nesse meio. Aquelas conversas significavam muito pra mim".

Outra história pouco comentada sobre Pollin é a sua relação com Michael Jordan. Depois de aposentado pela segunda vez, Jordan resolveu comprar uma pequena parcela do Wizards. Não comprou uma parcela de Pollin e sim de seu sócio, Ted Leonosis, e se tornou o cara que mandava no basquete. Como não aguentou, foi jogar e para isso vendeu a sua parte como dono do time, esperando comprá-las de volta quando se aposentasse em definitivo.

Mas Abe Pollin não gostou do que viu. Presenciou um jogador grande demais para a organização, alguém que tomou conta de todo o ambiente, com uma personalidade forte demais que queria tudo do seu jeito. Depois que Jordan se aposentou e quis voltar à direção do time, Pollin cortou qualquer esperança de MJ com uma reunião curta de 20 minutos. "A atmosfera ficava no limite, não era um ambiente saudável para produzir um time feliz e vencedor. Eu sabia que iam falar um monte de mim depois disso mas tomei minha decisão e não a mudei".

Histórias sobre Pollin não faltam, são 46 anos rodando pela NBA. Anos de sobra pra ele fazer coisas legais, ruins, ter boas idéias, péssimas idéias. Ler sobre ele depois de sua morte é achar um monte de puxação de saco, claro, todo mundo vira santo depois que morre, mas de fato ele teve muitas boas contribuições pra NBA e era muito querido pela maioria, principalmente pelos jogadores que atuaram em suas equipes.

O Wizards atua nessa temporada com o nome de Abe no uniforme.

...
Outros textos da coleção "Dono da Bola" sobre donos de equipes:
Philadelphia 76ers - Ed Snider
Boston Celtics - Wyc Grousbeck