Mostrando postagens com marcador kobe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador kobe. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de janeiro de 2012

Lakers e Knicks: Elencos ricos e errados

Aproveitamento de arremesso dessa foto: 8/57


Dois dos times com mais torcida, mais fãs e mais "haters" estão com um começo cambaleante de temporada. São o New York Knicks e o Los Angeles Lakers. Os dois tem diversas coisas em comum: estão rendendo menos do que o esperado, são formados por um trio de grandes jogadores, o ataque não flui em nenhum caso e os dois times tem um All-Star que quer resolver os problemas sozinho arremessando por jogo o que o Ben Wallace arremessa em uma temporada. Ultimamente eles também tem tido em comum o fato de toda culpa cair nas costas de seus técnicos.

Vamos começar com o Lakers. O novo técnico Mike Brown prometeu duas coisas para essa temporada. Uma era um esquema tático que iria misturar algumas jogadas do triângulo ofensivo que levou o time aos dois últimos títulos (não como se usassem em toda jogada também, que fique claro) e algumas jogadas que o próprio Mike Brown viu em execução quando era assistente técnico de Greg Popovich no Spurs. Ele usaria Pau Gasol e Andrew Bynum como Pop usou Tim Duncan e David Robinson. A outra promessa era de melhorar o time defensivamente.

Uma delas ele conseguiu, a segunda. O Lakers, assim como no ano passado, tem a 6ª defesa mais eficiente da NBA. Mas em números gerais melhorou no aproveitamento dos arremessos do adversário (43% para 41%) e em bolas de 3 pontos (33% para 31%). Também permite 6 pontos a menos e força mais turnovers. Mas a melhora não tem dado tanto resultado porque o ataque piorou demais. Sim, às vezes usam os triângulos, mas pouco e sem muita eficiência. Assim como têm dificuldade em usar os dois pivôs o número de vezes que gostariam.

E acho que existe um bom motivo para as duas coisas não estarem dando certo: Tanto o triângulo como o uso da dupla Gasol/Bynum exigem que um dos jogadores do time esteja posicionado no pivô, de costas próximo à cesta. Os outros jogadores devem se movimentar em volta disso ou simplesmente se afastar e dar espaço. É o chamado espaçamento da quadra, posicionamento dos atletas de uma forma que atrapalhe a defesa adversária a fazer seu trabalho. O espaçamento só dá certo se esses jogadores se posicionarem em um local onde são um risco ao adversário, obrigando um marcador a se afastar de quem tem a bola para defender uma possível ameaça. Em outras palavras, se o Metta World Peace continuar com 12% de aproveitamento nas bolas de 3 pontos o seu marcador sempre vai deixá-lo livre para embolar a defesa sobre os pivôs.

E embora o outrora conhecido como Ron Artest seja o pior, o resto do elenco não se salva. O Lakers já não era lá uma maravilha no ano passado, com 35% de acerto nas bolas de 3, mas nesse ano caiu para 25%! O que vemos no ataque do Lakers é um time que não tem velocidade para sair no contra-ataque, que não tem bolas de 3 para espaçar a quadra e nem um armador bom o bastante para ser uma real ameaça no pick-and-roll. E mesmo quando Kobe Bryant tenta ser o homem do pick-and-roll, a defesa tem dobrado nele e ajudado no pivô, deixando alguém livre na linha dos 3 pontos com a certeza do erro. Não jogo a culpa em Pau Gasol ou Andrew Bynum, é simplesmente muito difícil marcar pontos em um ataque devagar e embolado.

O Kobe Bryant tentou fazer o que pode para ajudar. Em alguns jogos tentou ser herói e usou a estratégia Allen Iverson: Vocês defendem tudo e eu ataco sozinho arremessando bolas que se qualquer outro jogador tentar fica no banco pra sempre. Venceu alguns jogos contra times mais fracos, mas contra os fortes não chegou nem perto. Nos últimos dois jogos (contra Heat e Magic) tentou ficar mais sem a bola, se movimentou sem ela e forçou menos o jogo individualmente. Foi mais eficiente, aumentou seu aproveitamento e chutou menos bolas. O Lakers continuou mal da mesma forma, não mudou nada. O buraco é mais embaixo.

Segundo os boatos da imprensa americana o Lakers ainda insiste em querer trocar por Dwight Howard. Certamente não seria ruim ter aquela potência toda ao lado de Kobe, mas não resolveria os problemas que o time tem hoje. A não ser que por um milagre divino o Ryan Anderson viesse junto na troca (um favor improvável do Orlando Magic) o time continuaria sem ameaça de longa distância. Iriam dobrar a marcação no Dwight Howard assim como fazem no Andrew Bynum e a produtividade dele iria cair. Se o Kobe vai mesmo jogar mais tempo sem a bola, deveriam procurar um armador, assim como um ala que chuta de três pontos. O problema? Mandar quem em troca disso tudo? Que time em sã consciência vai querer Steve Blake, Metta World Peace, Troy Murphy ou o assassino Josh McRoberts para mandar alguém de qualidade? Ninguém. Tem outros times por aí precisando das mesmas coisas e com peças de troca mais interessantes.

Restam para o Lakers duas opções: A primeira é trocar Pau Gasol ou Andrew Bynum por alguém numa tática cobertor curto. Resolve-se a armação ou o chute de longa distância piorando o garrafão (era o que a troca Gasol/Odom por Chris Paul pretendia). A segunda é colocar Matt Barnes e outros jogadores para arremessar 900 bolas de 3 pontos por dia e ver se eles aprendem. Com um bom aproveitamento nos tiros de longe o time não vai virar o melhor ataque da liga, mas tudo vai ficar mil vezes mais fácil.

Agora o Knicks. O problema é o mesmo? Pior que é. Vocês devem pensar "Não, imagina. O Knicks tem uma defesa ridícula, Carmelo e Amar'e não marcam ninguém! Como é a mesma coisa que o Lakers?". Pois veja bem, o Knicks tem atualmente a 11ª melhor defesa de toda a NBA. Pois é, eu também não esperava. Volta e meia o Amar'e deixa uns caras passarem batidosou faz várias faltas bobas, o Carmelo não sai na ajuda de ninguém, mas o time tem se adaptado bem e permite apenas 101 pontos a cada 100 posses de bola, 10 a menos que na última temporada.

Não é uma defesa perfeita ou sufocante, isso é óbvio. Vimos ontem como não tiveram resposta pra o Brandon Jennings, mas estão na parte de cima da tabela nesse quesito, beirando o Top 10 da liga. Seria o bastante para eles se o ataque fosse como todos imaginaram que seria. Ano passado eram o 7º melhor ataque da NBA com 110 pontos a cada 100 posses de bola, nesse ano são apenas o 24º time ofensivo da liga, com 98 pontos a cada 100 posses. A queda é absurda.

A teoria ainda é a mesma do ano passado. O Mike D'Antoni manda seu time ser veloz e eles ainda são o 3º com mais posses de bola por jogo, mas a execução está péssima. O culpado é o excesso de jogadas de isolação, ou seja, com os jogadores indo no mano a mano. D'Antoni pede que Carmelo Anthony comande boa parte do ataque, sendo o jogador com a bola em pick-and-rolls. Mas ele faz isso com Tyson Chandler, não com Amar'e Stoudemire, que se posiciona do outro lado da quadra para o arremesso de meia distância. O resultado é que Melo não é um grande passador e dificilmente faz boas jogadas com Chandler (uma ou outra ponte aérea que vai pro Top 10 mas não resolve nada) e Amar'e é pouco usado. Sem confiança para passar, Melo tenta resolver sozinho. Quando passa para Stoudemire, este faz sua jogada mano a mano com quem o marca. É simplesmente o pior jeito de usar essas duas estrelas.

Vejam esses números: O Knicks é o time que mais faz jogadas de isolação na NBA, fazendo em 16% de todas as suas posses de bola. Porém faz apenas 0.67 pontos a cada uma dessas posses, a 3ª pior marca entre todos os times. O aproveitamento dos arremessos nessas situação é de apenas 29.3%, o pior entre as 30 equipes da NBA. Não faz sentido insistir naquilo em que você é o pior.

Outra tentativa foi de deixar a bola na mão dos armadores do time para eles tentarem construir jogadas. Primeiro Toney Douglas e agora o novato Iman Shumpert. Douglas tem tomado decisões horríveis e logo perdeu a vaga para Shumpert, que também não sabe o que faz no ataque, mas compensa com forte defesa e roubos de bola. A dupla Shumpert e Landry Fields tem sido responsável pela melhora defensiva, mas no ataque só atrapalham. O novato não é armador nato e muitas vezes, sem saber para quem passar, tenta resolver sozinho e arremessa demais.

É bem fácil jogar a culpa no técnico Mike D'Antoni, mas a culpa não é só dele, não é como se ele pedisse para forçarem jogadas de isolação, isso é o oposto do que ele gosta, aliás. Pense em um técnico de futebol ofensivo, que gosta de montar times com 3 atacantes e meias que sabem passar a bola e avançar. Aí a diretoria vai lá e contrata o Williams do Flamengo que não sabe dar um passe de 3 metros e chama Souza e Aloísio Chulapa pra fazer a dupla de ataque. Como o cara vai montar o time dele? Das duas uma, ou vai tentar fazer os jogadores se adaptarem ao jeito dele, o que provavelmente não dará certo por falta de talento, ou vai fazer o que não sabe. E como disse o Larry Brown na clínica que deu aqui no Brasil"nunca ensine para seus jogadores algo que você não sabe". Mike D'Antoni não é o Rick Carlisle, ele não é uma enciclopédia de basquete pronto para fazer jogadas de todo o tipo, ele tem um estilo de jogo, uma filosofia e o Knicks sabia disso quando o contratou.

E insisto nessa questão do estilo porque já estão colocando a culpa nele em coisas que não tem nada a ver. Quando eles perderam para o Suns cornetaram o D'Antoni porque ele pediu para o pivô e o armador sempre trocarem no pick-and-roll do Steve Nash com o Marcin Gortat, ou seja, ficou Tyson Chandler marcando Nash e Shumpert ou Fields acompanhavam o pivô polonês. "Um absurdo" que foi justamente a tática usada pelo Spurs em diversos momentos de todas as vezes em que eles eliminaram o Suns nos anos áureos do armador canadense. Com Duncan marcando Nash eles fechavam ângulos para passe e o forçavam a jogar sozinho. Muitas vezes ele arremessava na cara de Duncan e fazia, mas a longo prazo valia a pena. Dava certo também porque Tony Parker não ficava isolado contra Stoudemire, a ajuda vinha de todos os lados. Ou seja, é uma estratégia perfeitamente normal se bem executada. E, como já afirmamos antes, a defesa do Knicks tem melhorado nesse ano desde que o assistente técnico Mike Woodson chegou com essa responsabilidade.

O ponto é que os olhinhos do time brilharam com a chance de contratar Carmelo Anthony e depois com a possibilidade de ter um pivô que já levou um time ao título em Tyson Chandler. São bons jogadores, claro, mas não tem nada a ver com o estilo de jogo de D'Antoni e ainda não se entrosaram entre si. Para o Knicks sair desse marasmo as soluções podem ser duas: Uma é demitir o D'Antoni e achar um técnico que saiba o que fazer com o elenco (Phil Jackson e Larry Brown já são nomes sonhados), a outra é uma troca que traga um armador que saiba conduzir o time. Baron Davis pode ser ele, mas ainda demora para voltar da contusão, e outro ponto é o mesmo do Lakers, trocar quem? Eles não vão trocar seus queridos Melo ou Chandler, e Stoudemire tem uma cláusula de contrato em que pode vetar qualquer troca com o seu nome. O mais provável é que D'Antoni tenha vida curta no banco de Nova York.

Não quero com esse post defender D'Antoni e Mike Brown, que já critiquei durante anos por serem limitados. Têm o defeito de justamente não saber se adaptar ao elenco e precisar das coisas muito certinhas para darem certo. Mas pense bem, se eu que sou um blogueiro idiota sei disso, vai dizer que Knicks e Lakers não sabiam? Apostaram e não deram as peças necessárias. No caso do Lakers é ainda pior, já que tiraram Lamar Odom dizendo que era a primeira parte de uma troca maior que nunca aconteceu, o elenco é pior do que aquele que já ralou um bocado sob o comando de Phil Jackson no último ano, cobrar um time pronto para o título e ainda sem tempo de treino é pedir demais.

Lakers e Knicks, dois times grandes que, ao lado do Boston Celtics, eram exemplos de como equipes de mercado grande conseguiam se fortalecer mais do que os de cidade pequena, mas estão na sombra de Indiana Pacers, Philadelphia 76ers e Denver Nuggets até agora nesse começo de temporada e as perspectivas de melhora não são das mais animadoras.

domingo, 9 de outubro de 2011

8 ou 80: Eficiência e tipos de arremesso - Parte 3

Por algum motivo Kevin Martin cobra muitos lances livres


Chegamos à parte final desse especial sobre diferentes tipos de arremesso na última temporada da NBA. Até agora vimos os mais eficientes, os menos eficientes e os que mais tentam arremessos como bandejas e enterradas (na Parte 1) e arremessos de média e longa distância (na Parte 2). Hoje é dia de lances livres e de um ranking geral. Afinal, quem são os pontuadores mais eficientes da NBA?

Lembro mais uma vez que todo o crédito para essa série de textos é de um blogueiro gringo chamado Evanz, do Golden State of Mind, um blog especializado no Golden State Warriors. O cara teve o saco e a capacidade de analisar toneladas de dados e criar fórmulas complexas (e inteligentes) de analisar as estatísticas. Legal que ele percebeu muitos leitores vindos por links daqui e chegou a nos mandar uma mensagem pelo Twitter agradecendo a divulgação do trabalho dele. Pra quem torce para o Warriors e quiser acompanhar, o twitter dele é o @thecity2

A conta para dar o valor aos melhores e mais valiosos arremessadores de lances livres leva em conta os seguintes critérios: (1) média de lances livres tentados e aproveitamento da posição do jogador a cada 100 posses de bola, (2) arremessos tentados e convertidos pelo jogador a cada 100 posses de bola e (3) quantidade e aproveitamento do jogador em lances livres em situações de falta-e-cesta.

Vamos para a lista. Lembrando que PSAMS é o número resultante da conta que leva em conta os termos que a gente explicou acima.


O Kevin Martin leva essa com muita, mas muita facilidade. O número dele é tão impressionante que vocês verão mais tarde que ele entra na lista de pontuadores mais eficientes da NBA basicamente só pelo que ele conquista nesse quesito. Para se ter uma ideia, K-Mart chuta 12.2 lances livres a cada 100 posses de bola, a média de jogadores da sua posição, a de shooting-guard (2), é de 4.4! E o aproveitamento médio da posição é de 80%, o dele é de 89%. Sem contar que consegue uma jogada de falta-e-cesta 0.85 vezes a cada 100 posses de bola, número não muito distante de caras como o Dwyane Wade com seu ótimo 1.1.

A lista em geral não tem grandes surpresas porque sabemos quem são os jogadores que mais batem lances livres e qual seu aproveitamento, mesmo colocando novos elementos na conta os resultados não mudam tanto assim. Mas surgem umas surpresas escondidas no meio: Danilo Gallinari até uma temporada atrás era criticado por ser só um arremessador de três, hoje ele está aí empatado com o Manu Ginobili justamente porque passou a atacar mais a cesta e sofrer faltas no processo. Claro que o argentino tem mais situações de falta-e-cesta, sua marca registrada, mas o ala italiano do Nuggets consegue hoje em dia ir com regularidade para a linha do lance  livre.

Entre os 20 primeiros apenas quatro jogadores tem aproveitamento menor que 80% nos lances livres: Amar'e Stoudemire, Brook Lopez, Dwyane Wade e LeBron James. Eles compensam com quantidade de tentativas e jogadas em que convertem a cesta e sofrem a falta, mas dá pra imaginar como seriam eficientes se acertassem mais as muitas chances que tem? E em uma lista dominada por jogadores de perímetro é legal ver o Brook Lopez como primeiro pivô na 11ª posição. Esse especial serviu para entender melhor porque o Lopez é esse jogador que ninguém sabe direito o que achar ou esperar, em algumas coisas ele é ótimo, um dos melhores, em outras beira o ridículo.

E para quem comentou que o Nenê está bem na fita nessas listas, ele está em 25º na dos lances livres. Realmente o brasileiro é um pontuador bem eficiente, o que nos faz questionar porque ele é às vezes tão apagado nos jogos. No Nuggets do fim da temporada não era estranho ver ele ser apenas o quinto jogador com mais arremessos no time. Muita coisa disso é carma de pivô, que sempre é esquecido pelos outros jogadores, mas também pela postura às vezes passiva e de role-player assumido que o brasileiro toma.

Abaixo o show de horror, quem são os 10 piores titulares na lista de lances livres?


Surpresa seria o Rajon Rondo não estar no topo da lista. Mas que tal ele estar quase com o dobro de pontos negativos do segundo colocado? Uau! Não é à toa, ele tenta apenas 2.7 lances livres a cada 100 posses de bola e quando vai arremessar esses raros lances acerta só 55% deles. Ele é uma síntese asquerosa de todo o resto do Top 10 que tem jogadores que não atacam a acesta (Battier, Kidd, Bibby, Bogans, Thomas) e jogadores com aproveitamento pífio de lances livres (Martin, Bogut, Biendris, Wallace).

Abaixo o Top 10 com os melhores reservas:


O Corey Maggette só está na NBA há tantos anos porque sabe cavar faltas e tem um bom aproveitamento de lances livres. E eu não exagero quando uso esse "só" na frase. O resto do seu jogo é ultrapassado, comum ou simplesmente ruim, mas ele consegue muitos pontos fáceis no lance livre e complica o outro time em faltas, aí algumas equipes acabam dando contrato pra ele. Com esse PSAMS de 3.21 ele seria o 3º colocado na lista geral dos titulares, atrás apenas dos Kevins, Martin e Durant.

Falando em Durant, o terceiro da lista é seu companheiro de time James Harden. Comentamos muitas vezes aqui no ano passado que um dos motivos do Oklahoma City Thunder ser tão bom no ataque era o número e o aproveitamento de lances livres, as boas colocações de Durant, Harden e Russell Westbrook comprovam a tese. A lista dos reservas é praticamente inteira formada de jogadores que entram com a recomendação de "ataquem a cesta como se não houvesse amanhã", em geral caras que tem esse talento de infiltração mas pecam em outras áreas do jogo.

Para ver os números com mais detalhes e as listas divididas por posição é só conferir esse link do Golden State of Mind.

Depois de tantas contas complexas e números bizarros, finalmente uma conta para o nosso nível de matemática de primário. Para eleger os pontuadores mais eficientes da NBA como um todo apenas se somou o PSAMs (resultado das contas esquisitas) de cada quesito.

Na lista estão presentes as cestas próxima a cesta (INS), chutes de meia distância (MID), três pontos (3PT) e lances livres (FT).


E deu o campeão Nowitzki. Mas ninguém é perfeito mesmo, são pouquíssimos os jogadores dessa lista que não tem pelo menos uma nota negativa em alguma coisa. Na verdade são apenas cinco: Paul Pierce, Al Horford, Stephen Curry, Steve Nash e, surpresa, Brook Lopez.

O Nowitzki conseguiu o seu diferencial na lista ao virar o único mestre supremo do universo em arremessos de meia distância, ao mesmo tempo ainda é levemente eficiente nos 3 pontos e continua cobrando lances livres. LeBron James é o segundo com o seu arsenal completo que já conhecemos, incluindo aí o melhor arremesso de meia distância entre os small forwards. Peca mesmo apenas nas bolas de três pontos. Engraçado é o Kevin Martin em 3º com quase todos os seus pontos vindo dos lances livres, um absurdo, sem dúvida o pontuador mais chato de se assistir na NBA.

A lista consagra alguns nomes que todo mundo já sabia que poderia pontuar de tudo quanto é jeito, como Pierce e Durant, mas tem também caras como Nenê e Stephen Curry no Top 10 e Al Horford logo depois em 11º. São jogadores que jogam bem, são reconhecidos, mas não são as primeiras opções ofensivas de suas equipes.

A impressão que dá é que o Nuggets deveria ter usado mais o seu pivô, posição que hoje em dia tem poucos pontuadores eficientes, e Warriors e Hawks deveriam segurar mais o ímpeto de Monta Ellis e Joe Johnson em prol de seus jovens e eficientes jogadores. Mas a coisa não é tão simples assim, não é só tocar a bola para outro jogador. Hawks e Warriors sofrem de más decisões ofensivas e Ellis e JJ são apenas escapes que usam seus talentos individuais para compensar um sistema pouco eficiente; o que os técnicos desses times precisam entender é que eles não podem ter um ataque típico de times sem talento quando tem dentro do elenco caras tão bons quanto Steph Curry e Al Horford. Na pior da pior das hipóteses esses dois devem compartilhar os arremessos ruins. Outro destaque é a presença de Tyson Chandler fechando o Top 20, mostra que para ser um dos mais eficientes não precisa ser um grande cestinha. Mas claro que ele foi beneficiado porque as médias de tentativas e de aproveitamento dos outros pivôs da NBA não são grande coisa hoje em dia.

O legal dessa lista não é o ranking em si, isso é secundário, questionável, o legal mesmo é ver como ela mostra perfeitamente como cada jogador marca os seus pontos. O Chauncey Billups está muito bem em 10º lugar, mas com números bem ruins em pontos próximos à cesta e de meia distância, o armador do Knicks consegue seus pontos em bolas de três pontos e lances livres. Ele é um caso raro de jogador que mesmo sem ser uma grande ameaça nas infiltrações consegue cavar faltas com regularidade, resultado do seu bom jogo de costas pra cesta contra outros armadores e uma das melhores fintas em arremessos.

Outro caso interessante de analisar é o de Kobe Bryant, 13º da lista. A cada ano que passa ele tem menos pontos próximos à cesta (praticamente não fez um ponto em bandejas ou enterradas na série contra o Mavs) e cada vez mais tenta bolas de 3 pontos. Isso se chama frustração. Ele não tem mais o físico para costurar defesas fortes e precisa compensar com arremessos de longe. Kobe ainda é muito bom nos de meia distância e em seus dias mais inspirados pode decidir jogos com as bolas de longe, mas em geral, ao longo de toda a temporada, os seus chutes de longe são resultado de frustração por não conseguir arremessar dos lugares onde ele quer e de onde ele conseguia quando era um pouco mais jovem.

Abaixo a lista com os pontuadores menos eficientes entre todos os titulares da NBA:


Poxa, pessoal, não é só porque vocês são a nata defensiva da NBA que precisam ignorar o fato de que existe ataque no basquete! Mas tudo bem, em alguns casos não é nem culpa dos jogadores. Caras como Thabo Sefolosha, Luc Mbah a Moute e Keith Bogans são conscientemente excluídos do ataque de suas equipes e ficam com poucos pontos no ranking por tentar poucos arremessos ao longo dos jogos. Já Andrew Bogut paga o preço de tentar resolver sozinho e com jogadas individuais um dos ataques mais toscos da NBA, o do Bucks. O pivô australiano é bom, mas não é um gênio para carregar times ruins nas costas. Assim como ele precisou de um técnico especialista em defesa para virar um dos melhores bloqueadores da liga, precisa de alguém que desenhe boas jogadas para ele ser mais eficiente.

É triste ver Jason Kidd nessa lista, mas existe um bom motivo. Um dos princípios dessa lista era comparar o número de arremessos tentados em média por jogadores de cada posição, quem chutasse menos, na maioria dos casos, era punido por isso. Jason Kidd não só nunca foi muito de arremessar, prefere o passe, como também vive hoje uma era de armadores pontuadores. Não basta fazer poucos pontos, o armador do Mavs é comparado a Derrick Rose, Deron Williams, Russell Westbrook, Brandon Jennings, Tony Parker e outros que fazem 20 pontos em um jogo sem precisar suar muito a camisa. A lista tenta medir o quanto cada jogador é bom em fazer pontos, e nisso o Jason Kidd é realmente ruim, mas não quer dizer que ele não saiba compensar com muitas outras coisas.

A lista dos 10 melhores reservas tem Marcin Gortat (devo meu título do Fantasy do Bola Presa a esses números!), Corey Maggette (que tem números negativos em tudo, menos lances livres), Gary Neal, George Hill, Louis Williams, Hakim Warrick, Kyle Korver, Jason Terry, Thaddeus Young (o líder da liga em pontos próximos à cesta) e, para minha surpresa, Reggie Williams, discreto ala do Warriors.

Os piores reservas são liderados por um conhecido de quem acompanhou de perto a temporada do Lakers, Steve Blake. E tem além dele Earl Watson, Al-Farouq Aminu, Corey Brewer, Donte Greene, Vlad Radmanovic, Al Harrington, Rudy Fernandez, Joel Anthony e Brandan Haywood. Alguns nomes a gente desculpa, mas o que Vlad Radmanovic e Al Harrington tem a contribuir com um time de basquete se não sabem pontuar com eficiência?

Para as listas completas e divididas por posição, acesse a página do Golden State of Mind.
Agradeço a paciência de todos que não são tão fãs de números como eu. Os insatisfeitos podem continuar nos ajudando ao recomendar temas para posts nos comentários!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Tudo sobre Mike Brown

Mike Brown com cara de sedutor (VC QUER EU SEI)

Quando o Los Angeles Lakers estava atrás de um técnico me mandaram uma pergunta no nosso formspring querendo saber o que eu achava de uma possível contratação do Mike Brown para a posição. Eu disse que não aprovava, óbvio, afinal torço para o sucesso da franquia! Eis que poucos dias depois estava lá Mike Brown sorridente sendo apresentado para o seu novo trabalho à frente do Lakers. Enquanto todo mundo ficava me zoando e rindo da minha cara fui atrás de mais informações sobre ele, vi suas entrevistas e comecei a tentar ter um pingo de esperança de que a decisão não tivesse sido ruim assim. Vamos ver o que eu descobri.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a velocidade com que o Lakers decidiu seu novo comandante. O time foi eliminado dos playoffs em meados de maio e a próxima temporada, ignorando uma greve demorada, só começaria com o período de treinos no finalzinho de setembro, começo de outubro. Então para quê a pressa? Muitos argumentam com razão que é importante ter um técnico logo para poder direcionar as contratações e escolhas de Draft de acordo com o tipo de jogo que o novo treinador quer implantar, mas isso não fazia muito sentido para o Lakers. Eles não tinham escolhas de destaque no Draft (a primeira era a 41) e o General Manager Mitch Kupchak já tinha deixado claro desde sempre que nenhuma loucura seria feita para desmontar o elenco com trocas.

Acho que essa história das trocas até pesou levemente, já que com a greve todas as trocas deveriam ser feitas até o Draft, agora estão proibidas até que tudo se resolva. Mas pode ter pesado ainda mais o fato de muitos outros times estarem também no mercado atrás de novos líderes. Entre eles times de elenco interessante como Rockets e Warriors, além de times mais confusos como o Wolves e Pistons e alguns outros que não tinham confirmado a permanência dos que terminaram a temporada passada como Jazz e Pacers. Claro que na teoria a maioria dos técnicos daria preferência ao Lakers, uma franquia mais conhecida, que paga salários maiores e tem um elenco pronto para disputar títulos, mas ninguém por aí é louco de ficar recusando outras propostas só pela chance mínima de treinar um time. Quem demora, como está demorando o Pistons (eles enrolaram até para oficializar a demissão do John Kuester!), fica com cada vez menos opções.

Baseado nisso tudo o Lakers fez uma maratona de entrevistas. Conversou com Brian Shaw, antigo assistente de Phil Jackson, Mike Dunleavy, ex-Clippers, Rick Adelman, ex-Rockets, e o atual comentarista Jeff Van Gundy. Depois desses entrevistaram Mike Brown e não demoraram para anunciá-lo como a escolha final. Ele não é o meu favorito entre os cotados, mas entendo a decisão.

O Brian Shaw seria como continuar com o Phil Jackson mas sem a confiança e imponência que o Zen Master passava ao time e aos adversários. O ex-armador tem experiência e conhecimento para o trabalho, mas escolhê-lo seria apostar na manutenção do sistema de triângulos no ataque, uma tática que o próprio Phil Jackson estava usando cada vez menos nos últimos tempos. Kupchak queria mudanças em um time que pareceu muito previsível no ano passado e é compreensível que não tenha tido vontade de dar essa continuidade na escola de Phil Jackson. O que foi triste foi que Shaw tinha história no Lakers, como jogador e assistente, e parece ter sido tratado meio mal pela franquia, que o deixou sem resposta e sem feedback até que se anunciasse a contratação de Brown. Shaw, porém, já está empregado, acabou de ser contratado para ser assistente de Frank Vogel, efetivado como técnico do Indiana Pacers.

O curioso é que quando Shaw assumiu no Pacers, disse que estava ressentido com o fato dos assistentes de Phil Jackson não ganharem tanto espaço e admiração como os assistentes de Gregg Popovich, treinador do San Antonio Spurs. Segundo ele todo mundo faz careta quando ele começa a falar do seu tempo com Phil Jackson e suas experiências com os triângulos, enquanto qualquer assistente de Popovich ganha empregos por aí. É fato que o Phil Jackson ganha méritos sozinho por aquilo que toda uma equipe faz, Kurt Rambis no Wolves foi um dos poucos casos de assistentes de Phil Jackson a conseguir vaga como treinador principal nos últimos anos. De Popovich atualmente temos Monty Williams (Hornets) e o próprio Mike Brown com empregos de treinador na NBA além de uma dúzia de assistentes espalhados por aí, o último sendo Quin Snyder que está a caminho do 76ers para auxiliar Doug Collins (correção: Snyder estava no Sixers mas agora saiu do time para ir justamente para o Lakers, leia mais sobre ele nesse artigo do Lakers.com). Pode ser exagero até, mas queria saber mais dessas caretas que os times fazem por aí quando se comenta dos triângulos. Será que a imagem não é boa ao redor da liga? Estranho isso.

Pelo que Mitch Kupchak comentou no anúncio de Mike Brown podemos tirar duas razões para a não contratação de Rick Adelman. O Manager do Lakers disse que queria um treinador focado em defesa e que pudesse ficar na franquia por um longo período de tempo, Adelman é famoso por seu ataque e já está na idade em que diz que toda temporada pode ser sua última. Seria muito interessante ver ele implementando seu ataque veloz em um time com tantos bons passadores, mas a defesa era uma exigência de Kupchak que o histórico de Adelman não cobria. Já o Jeff Van Gundy é o oposto, é capaz de criar defesas fortíssimas mas tem dificuldade em fazer seus times jogarem um basquete minimamente gostoso de assistir no ataque. Sem contar que dizem por aí que o irmão do técnico do Orlando Magic está bem feliz na sua vaga de comentarista de TV e não planeja voltar para o stress da vida de treinador tão cedo.

Sobrou então Mike Brown. Ele é um especialista defensivo que colocou o Cavs como uma das quatro melhores defesas da NBA em duas das quatro temporadas que dirigiu o time e embora o ataque daquele time fosse bastante questionado, estatisticamente esteve entre os seis melhores da liga nos seus últimos dois anos de trabalho. Mike Brown também é jovem o bastante para passar anos no time ao mesmo tempo que não é inexperiente como Brian Shaw, treinou o Cavs por quatro anos e chegou em uma Final de NBA. Alguns ainda apontam que pesou a seu favor os anos de experiência lidando com o ego de LeBron James, o que seria um bom aperitivo para lidar com Kobe Bryant (que publicamente apoiava Brian Shaw), mas será mesmo que o Mike Brown soube lidar com o LeBron James? Não é porque eles estavam juntos e que o Cavs teve uns bons anos que o Brown teve sucesso no assunto, de qualquer forma parece ter sido um argumento que pesou.

Entendemos então o motivo que levou o Lakers a contratar o técnico: Idade, experiência, foco defensivo e calejo em lidar com egos maiores do que a Ásia, África e 24 territórios a sua escolha. Mas e então, o que sua história indica que ele pode trazer de concreto para o Lakers? E ele pode mesmo conseguir tudo isso?

Ele foi contratado para ter como o foco a defesa, um reflexo de um defeito que o Lakers deixou muito claro quando viu Chris Paul dilacerar Derek Fisher na primeira rodada dos playoffs e principalmente quando JJ Barea, Dirk Nowitzki e Peja Stojakovic fizeram o Lakers parecer um time amador na rodada seguinte. Mas aí temos, antes de mais nada, que lembrar que dois desses jogadores que infernizaram o Lakers são armadores velozes e talentosos, coisa que o Derek Fisher a essa altura da carreira nunca vai conseguir parar seja lá quem o estiver treinando. O outro problema é a defesa de pick-and-roll, usada exaustivamente tanto por Hornets quanto por Mavericks para acabar com o Lakers, e isso é algo que um técnico pode sim ajudar a resolver, é só ver como Erik Spoelstra e Tom Thibodeau duelaram muito bem nesse aspecto na última série entre Heat e Bulls.

Mas pera aí, o Mike Brown sabe fazer isso? O Cavs tinha mesmo números impressionantes na defesa, mas perderam aquela série para o Orlando Magic em 2009 justamente porque falharam miseravelmente na marcação de pick-and-roll. Quando o Hedo Turkoglu controlava a bola e recebia o corta-luz do Dwight Howard toda a defesa do Cavs ficava exposta e o Mike Brown não tinha idéia de como responder. No ano seguinte, em 2010, a mesma coisa. Eles foram eliminados pelo Boston Celtics com uma overdose de pick-and-roll entre Rajon Rondo e Kevin Garnett. O KG primeiro começou triturando o Antawn Jamison, que realmente é um péssimo defensor individualmente, e como resposta o técnico colocou o Shaq em cima do Garnett, sendo então destruído pelos arremessos de longa distância do ala do Celtics. Sem saber mais o que fazer, foram presas fáceis. Não parece que o Mike Brown possa resolver esse problema em LA.

Pode-se argumentar que pelo menos o Cavs tinha uma defesa boa no geral, e que essas falhas eram menores e só foram expostas porque eles enfrentaram bons times nos playoffs. Tudo bem, até é verdade, mas o mesmo vale para o Lakers do ano passado, então o time fica na mesma. A última impressão que ficou foi a de que o time angelino tinha uma defesa fraca, mas eles acabaram a temporada regular passada com a sexta melhor marca de pontos sofridos por 100 posses de bola entre os 30 times da NBA, à frente do campeão Dallas Mavericks (8º) e sua invejada defesa por zona. Segundo Chuck Person, que será assistente do Mike Brown na próxima temporada, a estratégia defensiva do Lakers não vai mudar em relação ao ano passado:

"O esquema defensivo será o mesmo. Iremos tirar a bola do meio da quadra e forçar o uso dos cantos, da zona morta. Então a ajuda poderá vir do outro lado, dobrar e manter a bola fora do garrafão. Isso não mudará em nada em relação ao ano passado. O que irá mudar é que os jogadores serão mais cobrados pela defesa, o Mike (Brown) vai perdoar alguns erros no ataque, mas vai cobrar bastante do outro lado da quadra"


Então o tal especialista defensivo irá simplesmente cobrar mais do que Phil Jackson. Isso quer dizer que dependem de Kobe Bryant, Ron Artest e os outros de abraçar tudo o que o Mike Brown cobra para que se veja alguma diferença. E com o elenco ficando na mesma, até por falta de opção, as limitações individuais continuam as mesmas e o Lakers pode contar com vários armadores costurando sua defesa como sempre.

Se a defesa não vai mudar muito, vamos ver então o ataque. A princípio eu fiquei assustado porque a gente lembra como era aquele time do Cavs que o Brown comandou, certo? O famosos "Fresh Prince of Bel-Air Offense" onde o LeBron James era o Will Smith e os outros quatro jogadores eram o Carlton mas sem a dancinha divertida. Era intrigante ver um time com um ataque tão amarrado, forçado e pouco criativo ter tanto sucesso, mas quando chegavam os playoffs e eles enfrentavam boas defesas por sete jogos em sequência tudo ficava mais claro e eles perdiam. Claro que ofensivamente aquele time do Cavs não tinha muitas opções, mas faltava criatividade também, explorar algumas outras coisas que os jogadores poderiam oferecer. Só ver como nesse último ano até o Anderson Varejão, com mais liberdade ofensiva, conseguiu contribuir bastante até se machucar.

O Lakers até que se daria melhor que o Cavs se jogasse com tantas jogadas individuais, por ter Kobe Bryant, Lamar Odom, Pau Gasol e Andrew Bynum que são quatro jogadores capazes de criar seu próprio arremesso, mas os momentos em que eles eram individualistas eram justamente os piores do time nos últimos anos. Eles apelavam para isso quando tudo dava errado e aí é que a coisa ia para o ralo mesmo, é uma das explicações de porque o Lakers, quando perdia, era de lavada.

Mas eu me animei um pouco quando vi a entrevista que o Mike Brown deu assim que assumiu o time, isso porque ele não disse uma palavra sobre seu tempo de Cavs. Disse que aspectos defensivos você pode levar de um time para o outro mas que de ataque não, que você deve se adaptar ao elenco que tem. E para esse time do Lakers ele iria usar mais o que aprendeu quando foi assistente de Gregg Popovich no Spurs de 2000 até 2003. Aquele time tinha sua força no garrafão com dois jogadores muito altos e muito bons, Tim Duncan e David Robinson, sua idéia é usar boa parte daquele estilo de jogo para explorar Pau Gasol e Andrew Bynum, uma dupla que há anos o resto da NBA tem dificuldade de parar.

Depois que Brown disse isso, o blog NBA Playbook, especialista em tática, fez um apanhado de como funcionava esse ataque do Spurs e destacou alguns pontos que podem ser aproveitados pelo Lakers do próximo ano.

Posicionamento
Naquele Spurs, como no Lakers de agora, os dois pivôs podem atuar nas posições 4 e 5. Então assim como Tim Duncan e David Robinson alternavam quem ficava mais perto da cesta e quem ficava mais longe, Bynum e Gasol farão o mesmo. Claro que Duncan e Gasol tem um arremesso de meia distância mais treinado, o que indica que eles ficarão longe mais vezes, mas nada fixo ou pré-determinado.

O Spurs, quando pegava os rebotes, sempre tentava um jogo de transição, mas não era correria. Era apenas um ataque um pouco mais veloz na tentativa de pegar um de seus jogadores de garrafão lá perto da cesta antes da defesa se posicionar. Mas ao contrário de times conhecidos pela velocidade, o Spurs não queimava passes para executar tudo em velocidade, se não havia a chance de jogada eles paravam e faziam o jogo de meia-quadra. E enquanto um dos pivôs tinha corrido para se colocar embaixo da cesta o outro pivô corria em outro ritmo para chegar, mais tarde, na cabeça do garrafão. Isso não só possibilitava o jogo high-low, entre os dois pivôs como era uma opção de pick-and-roll longe da cesta, jogada básica para iniciar uma movimentação de meia-quadra.

Essa facilidade de adaptação dos dois jogadores possibilita uma transição natural e fácil entre o jogo de velocidade e o de meia quadra, pode dar muito certo com os dois versáteis pivôs do Lakers. O elenco do Lakers, aliás, combina muito bem com esse estilo de jogo que é veloz mas que não é necessariamente de contra-ataque.

Ataque de meia quadra
O ataque do Spurs daquela época se baseava totalmente na habilidade de sempre colocar a bola em pelo menos um de seus dois pivôs em toda posse de bola. Para isso usavam duas estratégias. A primeira era deixar um pivô na cabeça do garrafão (geralmente Duncan) e outro mais perto da cesta, os passes altos entre os dois sobre uma defesa mais baixa eram um caminho fácil para a cesta. A segunda opção era deixar cada um de um lado do garrafão e então rodar bastante a bola até acha o ângulo certo de passe.


A jogada abaixo tem um pouco de tudo o que comentamos: Tim Duncan corre mais rápido e David Robinson espera, o último então espera um pouco na cabeça do garrafão até perceber que o melhor era se posicionar no lado oposto de Duncan no garrafão. Ao receber a bola então ele usa o passe alto para acionar Duncan que se livrou de seu marcador.



Ter duas ameaças no garrafão é essencial para que esses pivôs sofram menos com dobras na marcação e tenham espaço para agir, mas é importante ressaltar que o Spurs do começo da última década tinha ótimos arremessadores, o que é sempre importante para abrir espaço para os jogadores de garrafão, o Lakers não tem esses especialistas em longa distância no atual elenco.

Entrosamento
Gasol e Bynum já tem um grande entrosamento e ambos são bons passadores, os mesmos talentos eram encontrados na dupla do Spurs. Essas habilidades impediam que o marcador do outro pivô dobrasse a marcação no jogador que tivesse a bola. Essa jogada separada pelo NBA Playbook mostra bem como isso funciona.



O jogo entre os dois gigantes do Spurs, porém, ia além, eles até faziam pick-and-rolls usando os dois pivôs! Colocar os dois jogadores de garrafão tão próximos é muito raro em qualquer esquema, mas aqui está uma prova de como pode dar certo com os jogadores certos. Me lembra, de uma maneira um pouco distante, aqueles corta-luzes duplos que o Mavs fez nos playoffs com Dirk Nowitzki e Tyson Chandler, outra situação onde juntar os pivôs no mesmo lugar pode confundir toda a defesa adversária. Coincidência ou não, Mike Brown foi assistente técnico do campeão Rick Carlisle, então no Pacers, em 2004, logo depois que saiu do Spurs. Abaixo o pick-and-roll gigante:



O NBA Playbook fez outro post analisando o ataque de Mike Brown, dessa vez vendo como ele usava LeBron James no Cleveland Cavaliers e como ele poderia adaptar isso a Kobe Bryant. Importante que ele usou vídeos da temporada 2008-09 que foi, disparada, a melhor do Cavs ofensivamente. Naquele ano eles usaram como assistente e coordenador de ataque o John Kuester, que vai participar da comissão técnica do Lakers na próxima temporada. Kuester ganhou notoriedade após esse ano, quando dinamizou o ataque do Cavs e fez o Mo Williams render mais do que nunca na vida, mas depois foi contratado para ser treinador principal do Detroit Pistons e lá ele falhou completamente, até mais no relacionamento com os atletas do que taticamente. Com um elenco bizarro e sem armadores até dá pra perdoar más campanhas, mas foi ainda pior do que isso. Porém, o que vale para a gente nesse post é o que fez como assistente e especialista em ataque, que é o que irá fazer em Los Angeles.

Uma das jogadas que Kuester e Brown tentaram implementar naquele ano foi usar LeBron James no garrafão, jogando de costas para a cesta. O LeBron tem tamanho para isso, mas nunca foi um grande fã da jogada e prefere jogar de frente para a cesta. Aos poucos tem se rendido mais a essa jogada, mas ainda é pouco. Kobe, ao contrário, adora jogar de costas para a cesta e até era o principal alvo das jogadas de pivô do Lakers naquele período no começo da temporada retrasada quando o Pau Gasol estava machucado. Durante um bom pedaço daquele ano Kobe Bryant foi um dos líderes da NBA em pontos no garrafão, a maioria vindo desse tipo de jogada. Sem dúvida essa será uma jogada explorada pelo novo treinador.

Dentre as maneiras usadas para colocar LeBron embaixo da cesta uma das mais simples é a de tirar um dos pivôs de perto da cesta e colocar LeBron no lugar aberto. Isso daria muito certo com Kobe usando o espaço aberto por Gasol, que seria o próprio passador. Até vimos isso acontecer algumas vezes no ataque do Lakers dos últimos anos e não teria porque mudar. Curioso ver no vídeo abaixo como o LeBron muitas vezes tinha o posicionamento para jogar de costas pra cesta e mesmo assim decide se virar e jogar de frente.



Mas o que eu mais gostava desse Cavs de 2008-09 era como o LeBron James jogava mais sem a bola nas mãos, se movimentando sem ela e assim agindo mais como um pontuador e menos como armador. O NBA Playbook comentou também as jogadas "off the ball" do LeBron e elas serão importantes demais para o Lakers. Kobe gosta de jogar com a bola na mão, mas já não tem mais idade, físico e velocidade para fazer seus 25 pontos por jogo assim. Em um time que tem bons jogadores para controlar a bola e passar, como Lamar Odom, Gasol e Derek Fisher, Kobe pode se dar ao luxo de se movimentar mais e assim conseguir uns pontos mais fáceis.



A jogada acima é muito bem feita, com três jogadores ocupando um lado da quadra e atraindo a defesa do adversário enquanto LeBron ganha espaço do outro. O problema é que quandoo King James recebe a bola ele resolve parar, esperar o marcador e estragar tudo ao invés de só fazer o arremesso. Kobe, bem mais confiante no seu chute de meia distância, não terá problemas com isso.

A última jogada mostrada é a que foi apelida de "Kraken" pelo Cavs Blog, em referência ao polvo gigante e devastador das mitologias nórdica e grega. A jogada é realmente impressionante e arrasadora, muito difícil de ser marcada. Claro que funciona melhor com LeBron James do que com Kobe, pelo aspecto físico de cada jogador, mas o Lakers tem a vantagem de poder executar a jogada com jogadores diferentes. O próprio Kobe pode fazer a função do cara que infiltra e chama a defesa enquanto Lamar Odom pode ser o jogador que sai da cabeça do garrafão e corta em direção à cesta.



Apesar de LeBron James ser usado menos como armador nessa temporada, como essas últimas jogadas mostram, isso não quer dizer que ele era usado pouco, a comparação com os outros anos é que era injusta. Por isso e pela idade de Derek Fisher dá para esperar Kobe sendo utilizado como armador muitas vezes, mas por ter menos visão de jogo que LeBron James devemos ver mais de Steve Blake em quadra e muito de Lamar Odom na posição 1 também.

Já falamos de Chuck Person e John Kuester na comissão técnica do Lakers, mas falta mais um nome importante: Ettore Messina. O italiano é um dos técnicos com maior fama e sucesso no basquete europeu, venceu a Euroliga duas vezes com Virtus Bologna e mais duas com o CSKA Moscou. Lá também foi considerado um dos 10 melhores treinadores da Europa em todos os tempos. Passou os últimos anos no Real Madrid e agora decidiu tentar a sorte na NBA contribuindo com Mike Brown no Los Angeles Lakers.

O blogueiro Os Davis, do BallinEurope, comentou as características de Ettore Messina como técnico para saber como ele poderia ajudar o Lakers. Uma das primeiras coisas que ele deixou claro foi a preferência de Messina em usar jogadores de garrafão nos seus ataques, então o foco na dupla Gasol e Bynum que já havia sido deixado claro por Mike Brown deve realmente ganhar muita atenção. Segundo Davis muitos jogadores de garrafão sem muito destaque melhoraram muito sob o comando de Messina, com isso ele prevê melhoras no jogo de Bynum, Gasol e até de Derrick Caracter. O jogo lento que o italiano usava na Europa (com exceção de algumas temporadas no CSKA) também combinam com o elenco e idade do Lakers.

Sobre a mudança de estilo entre o basquete europeu e americano o próprio Messina já deixou claro que terá dificuldades e irá precisar de tempo. Nas palavras do Italiano, "Eu preciso primeiro ir lá descobrir se posso ser um bom assistente antes de tirar o emprego de alguém como técnico".  Mas quem entende e estuda basquete aprende com o tempo, será muito interessante acompanhar como um treinador europeu pode ajudar e mudar o basquete americano. A chegada dos jogadores estrangeiros já mudou muita coisa, legal que a mudança tenha chegado aos bancos de reservas.

O Mike Brown tem história em times bons e de qualidade defensiva, vimos como tem boas idéias para usar a dupla de garrafão do Lakers, o maior diferencial em relação aos outros times, e até como seu tempo em Cleveland mostra boas maneiras de aproveitar o talento de Kobe Bryant. Mas também não dá pra esquecer que ele já falhou feio nos playoffs nos seus anos de Cavs e que muitas vezes não soube como evitar que seu time fosse previsível no ataque. Ruim ele não é, mas tem muito o que provar para convencer a gente e todo mundo de que é um treinador capaz de tomar boas decisões na pressão dos playoffs para levar o time ao título. E pensando nisso é que o alto e bom investimento do time na comissão técnica pode fazer a diferença na próxima temporada.

......
Curiosidade tola: Mike Brown morou na gringolândia quando jovem. Fez o colegial e se formou em um colégio em Würzburg, na Alemanha. Dentre tantas cidades européias foi se meter justamente naquele onde nasceu e cresceu Dirk Nowitzki!

sábado, 2 de julho de 2011

Bravos com quem?

Queima de estoque

Terminada a Final da NBA, com Dallas Mavericks campeão, demos uma respirada por aqui. Não, o blog não acabou, não entramos em greve, não fomos raptados por alienígenas e nem passamos a fazer parte de uma gangue de anões que assaltam bancos, apesar dos boatos. Mas acompanhamos os últimos jogos da Final já meio aos trancos e barrancos, tentando assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, então o final da temporada da NBA veio como um descanso necessário.

Agora, quase três semanas depois do título da Dallas, é oficial: temos greve na NBA. Jogadores e donos de equipes não entraram em acordo então todas as atividades relacionados à liga estão paralisadas - mais do que isso, estão proibidas, e por tempo indeterminado. Nada de trocas, contratos novos, treino, summer league, amistosos, viagens para a Europa para fazer propaganda da liga ou multas pro Gilbert Arenas no Twitter. Isso quer dizer que a NBA está congelada em carbonite, como o Han Solo no "O Império Contra-Ataca", então teremos bastante tempo para postar por aqui longamente sobre cada um dos escolhidos no draft, as trocas que aconteceram até agora, e principalmente a greve - vamos analisar não apenas as regras, mas também a situação econômica, o capitalismo, a rotação da Terra, essas coisas, e até analisar algumas alternativas para o sistema salarial da NBA.

Podemos tratar dessas coisas com tanta calma, já que sabe-se lá quando a NBA vai voltar de novo, que vou até aproveitar para tratar um pouco da Final da NBA, agora longe do calor do momento. Até porque no calor do momento o que predominou foi só bordoada para todos os lados - contra o Heat, que amarelou; e contra o Mavs, que só ganhou "porque o Heat amarelou". Foi melhor mesmo deixar as cabeças esfriarem no mundo ao invés de sair como um maluco lutando contra toda a internet, bloqueando oito manés no nosso Twitter por segundo, ou questionando cada um dos comentários infelizes nos sites por aí. Teria sido uma baita bobagem. Já escrevemos para o Bola Presa a tempo suficiente para entender que basquete não é tão sério assim e que perder minhas noites de sono discutindo contra odiadores na internet seria a segunda coisa mais inútil do mundo - só perdendo para aqueles botões idiotas que você precisa apertar para entrar em bancos agora; será que eles têm medo de ser assaltados por algum terrível ladrão sem dedos?

Confesso, no entanto, que mesmo sem ter tempo para postar acabei gastando mais tempo do que devia silenciosamente assistindo às reações diversas ao título do Mavs e a derrota do Heat. Blogs, comentários, Twitter, fóruns nacionais e gringos - aquele tradicional regime de masoquismo, em que se lê uma opinião mais estúpida do que a outra em sequência, sem parada, e que eu costumo chamar de "conhece a teu inimigo". Dado o tempo necessário tanto para esfriarem as críticas quanto a minha recepção delas, talvez seja hora de voltar ao assunto. Simplesmente porque elas são muito surpreendentes e, como sempre, dedam um bocado nossa cultura e nossos tempos - algo que acreditamos firmemente aqui no Bola Presa.

Eu já estava preparado para um jorro de ódio concentrado em cima de quem perdesse quando escrevi sobre nossa cultura do ódio, sobre como achamos o ato de torcer algo natural que na verdade é construído, apenas um filtro para delimitar o que olhar, um filtro para encaixar o indivíduo em um grupo ou em uma identidade, e que esse filtro ignora as perguntas profundas e realmente importantes para se contentar com o que é mais superficial - "ele é melhor", "ele é amarelão", "ele é o inimigo". Mas eu não estava nem um pouco preparado para que esse ódio recaísse tanto em cima dos perdedores quanto dos vencedores. A quantidade de horrores ditos ao Mavs - como se desse para ser campeão da NBA por acaso, "ops, escorreguei numa casca de banana e ganhei um título, hi-hi-hi, que divertido!" - me pegou completamente de surpresa e provou que o buraco é mais embaixo. Ninguém está a salvo.

Mesmo em meio à sua viagem interplanetária, o Denis fez questão de ressaltar os méritos do Mavs que levaram a equipe a ganhar um título. Às vezes parece que a vontade de desmerecer o Heat é tão grande que, para dizer que a equipe é uma merda e mesmo assim chegou a uma Final de NBA, é preciso desmerecer todo o resto - todas as outras equipes que perderam, todas as equipes fantásticas eliminadas, e até mesmo o Dallas Mavericks que, diabos, é "apenas" o campeão da budega inteira. É um dos claros exemplos de quando a vontade de rebaixar o adversário ofusca todo o resto e até o vencedor acaba indo pra casa melancólico, como se tivesse ganhado só porque todos os outros times eram uma porcaria. Por sorte, o Mavs foi lá e, com todo o dinheiro nerd do Mark Cuban (que pagou a festa em Dallas ao invés de deixar que a cidade tradicionalmente arque com os custos), fez uma festa monstruosa digna de um time fantástico que conseguiu superar uma NBA inteira - uma NBA forte, competitiva, de alto nível.

Eu entendo perfeitamente a vontade de torcer contra esse Miami Heat, do mesmo modo que se torceu tanto contra o Lakers com Malone, Shaq, Kobe e Payton, e até mesmo contra o Celtics que acabara de reunir Garnett, Pierce e Ray Allen. É a vontade de torcer contra o mais forte, contra o grande favorito, manter a esperança de que o fraco - como a maioria de nós, fracassados - ainda tem chances de superar o forte. Minha única ressalva é com o modo que essa torcida contra é feita, a ponto de acabar sobrando para o Mavs, diminuído como nenhum outro campeão da NBA na história recente. Isso porque se o Heat era tão ruim assim, tão amarelão, ou simplesmente "perdeu para si mesmo", não há mérito que pertença ao Mavs - e aí lhes arrancamos aquilo que é mais precioso em uma vitória esportiva, que é não a conquista a qualquer custo, mas a conquista merecida, conquistada. Talvez por isso haja tanta torcida contra esse Heat, porque sentimos que uma vitória deles não seria conquistada, que o time era "uma trapaça". Mas a derrota deles, ainda que na Final, prova que as coisas não são tão simples assim - não é trapaça justamente porque não adianta só juntar uns carinhas bons por aí.

Quando o Celtics foi campeão da NBA em 2008, Garnett, Allen e Pierce venceram o jogo coletivo do Pistons na Final do Leste. Muita gente torcia contra a apelação do trio. Mas bastou que eles vencessem o Lakers de Kobe na Final para se tornarem "a família que venceu o fominha solitário". A mentalidade de analistas, técnicos e torcedores passou a indicar que o melhor modo para vencer seria juntar três estrelas e forrá-las com jogadores velhinhos disponíveis, aproveitando o fato de que todo mundo topa ganhar pouco para poder jogar com essas estrelas e ter chance de título. Nos dois anos seguintes, o "fominha" Kobe foi campeão da NBA ao lado de Pau Gasol, finalmente reconhecido como estrela depois de tantas críticas de amarelão. Novamente, era óbvio que para ser campeão era preciso ter mais de uma estrela no seu time e cercá-lo de jogadores secundários sólidos. LeBron, Wade e Bosh foram jogar juntos seguindo a nova lógica predominante na NBA, nada absurdo, mas repentinamente se tornaram "as estrelas fominhas" jogando contra o jogo coletivo "benéfico" dos adversários. É mais do que memória curta, é negar completamente qualquer senso histórico.

Mas a relação de ódio com o Miami Heat é - assim como acontece com o ódio por Kobe - diferente. As críticas direcionadas a eles não são de que não jogam bem, de que o plano tático está errado, de que os estilos de jogo não funcionam. As críticas são morais. Kobe e LeBron são egocêntricos, apaixonados por suas imagens, pedantes, desrespeitosos, farsantes, que absurdo dizerem por aí que são como Michael Jordan, merecem perder. As críticas nao são preferências pessoais dos torcedores, questões táticas, estilos de jogo - as pessoas estão verdadeiramente bravas. Elas acusam, ofendem, denigrem, diminuem. Muito, muito bravas. Mas com quem, afinal de contas?

Basicamente, são se suporta a ideia de que esses jogadores sejam tão anunciados e vendidos como algo que parecem não comprovar ser em quadra. É muito falatório, muita imagem, muitas comparações com Jordan, programinha pra mostrar onde o cara vai jogar, filme pra mostrar o cara treinando. É terrível, é uma overdose, é um exagero, e esses jogadores parecem acreditar em tudo que se diz deles - se acham os melhores jogadores do planeta, agem como se fossem os melhores do planeta, e quando perdem a torcida tem aquele gostinho saboroso de ver uma mentira sendo desfeita bem diante dos nossos olhos. "Eu sabia que ele não era tudo isso". E a gente torce pra ele não ser tudo isso mesmo.

Estamos bravos com o marketing. Com a mídia. Com as campanhas publicitárias. Com imagens sendo vendida todos os dias. Estamos bravos, muito bravos, com uma cultura que cria imagens comercializáveis, que cria lendas, heróis, vilões, que trás de volta em versões em alta-definição todos os jogadores que já deram certo no passado. Bravos com essa realidade, na mídia, que tenta ser mais real do que o real.

Ninguém em sã consciência acha que LeBron não treinou o bastante, que ele e Wade se juntaram achando que iam ganhar sem ter que se esforçar. Todo mundo sabe que eles treinaram como malucos ao fim da última temporada, que o jogo dos dois ganha novas facetas a cada dia, que um dia o LeBron não teve mão esquerda, que o Wade não arremessava nenhuma bola de três pontos. Quando alguém diz que é bem feito que tenham perdido por acharem que podiam ganhar sem nenhum esforço ou treino, com certeza não acha de verdade que não houve esforço ou treino - isso seria ridículo, débil-mental. O que essa pessoa está dizendo, na verdade, é que está puto com a festa que o Heat fez ao contratar LeBron, Wade e Bosh, uma festa com fogos, música épica, luzes psicodélicas, e os jogadores prometendo oito mil títulos num discurso escrito horas antes por algum marqueteiro. Shaquille O'Neal prometeu títulos em todos os times em que jogou e só cumpriu no Heat, mas ninguém liga. Com ele não teve fogos, tecno, luzes piscantes e todos os jornais do mundo tagarelando sobre a mesma coisa. A dificuldade que o torcedor comum tem em engolir as besteiradas que os jogadores do Heat falam é como essas bobagens repercutem na mídia - como são criadas para e por ela, e tentam ser maiores do que qualquer realidade que o time tenha chances de apresentar em quadra. Nenhuma partida do Heat pode ser tão fantástica quanto o que aparece no comercial de TV e na campanha de internet. Não dá para comparar.

LeBron já mostrou que é decisivo nos playoffs. Fez um dos jogos mais espetaculares de todos os tempos, aquele em que marcou 29 dos últimos 30 pontos da equipe e levou o Cavs à vitória contra o Pistons fodão num Jogo 5. Mas isso nunca será o bastante se ele foi anunciado como o maior jogador de todos os tempos desde que tinha 16 anos de idade, se sua imagem é vendida todos os dias como sendo o melhor jogador do planeta, e se a mídia insiste em compará-lo com Michael Jordan. É por isso que eu digo, constantemente, que LeBron e Kobe não podem vencer: tudo que fizerem não será suficiente, e tudo que fizerem será criticado por gente que está de saco cheio do culto às suas imagens na era do 3D. É fato, essas imagens cultuadas são difíceis de engolir e só costumam descer pela goela dos próprios LeBron e Kobe - e mesmo assim só às vezes. O ponto é que se te dizem que você é um gênio desde os 16 anos de idade, se te dizem que você não precisa mais ser pobre, que sua mãe solteira não vai precisar mudar de emprego toda semana, e tudo porque você é fantástico e tem o poder não apenas para salvar a si mesmo, mas também sua mãe, seus amigos, sua comunidade, sua cidade, Cleveland inteiro... você acredita. É claro que acredita.

Crescemos com essa vontade enraizada de nos descobrirmos especiais. "Harry Potter" não é sucesso só porque a Emma Watson é a maior gracinha, todo mundo quer ser arrancado de sua família idiota e de sua escola imbecil e descobrir que é na verdade alguém fodão, essencial para a história da humanidade, alguém de que as profecias avisavam. Muitas das nossas lendas estão focadas na ideia do herói anunciado, e a cultura do capitalismo depende muito dessa ideia de que você pode se tornar herói do dia para a noite, basta se esforçar muito e ter um pouco de sorte. Então não adianta vir com falsa modéstia e dizer que qualquer um resistiria à chance de ser "O Escolhido" (como LeBron tatuou nas costas), o cara fodão que vai fazer história e salvar o seu povo. O capitalismo vive de vender essa imagem ("você também pode ser rico, se chegar até aqui"), as marcas vivem de vender o herói utilizando seus produtos (promessas de felicidade, de ser um pouco herói como eles se você usar um tênis novo), a mídia vive de vender esses heróis e o interesse por eles ("assista ao jogo, vai ser o melhor da história!") , e é claro que esses supostos heróis acreditam em si mesmos - se não acreditarem não serão heróis ou, pior, serão criticados por serem "amarelões", como assim o LeBron não quer decidir o jogo final? Não há a possibilidade do cara não comprar a imagem que tentam vender dele, dele não querer ser Michael Jordan. Estamos tão bravos com a imagem que é vendida que se o cara não for tão grande quanto a imagem que eu comprei, ele é uma farsa idiota. Mesmo que ele não tenha nada a ver, diretamente, com a imagem criada.

Há uma quantidade surreal de xingamentos direcionados, especialmente, a Kobe e LeBron em tudo quanto é site por aí, e nos comentários aqui no blog, no nosso Twitter e no nosso formspring. Nenhuma das ofensas ou acusações pessoais faz qualquer sentido porque não fazemos ideia de como essas pessoas são em suas vidas, ou de como seriam sem tamanho assédio, oportunidades, pressões, dinheiro, poder, idolatria, críticas, ofensas. É por isso que essas ofensas não são reais, são apenas uma raiva mal direcionada. A fúria é com a cultura que cria essas imagens enormes que não condizem - nem nunca poderiam condizer - com a realidade.

Nowitzki foi campeão e nunca haviam criado uma imagem dele. Não uma imagem positiva, pelo menos, só tacavam merda no alemão. Então ele vence, ganha um anel, e é o cara mais modesto do mundo, claro. Para os jogadores que, desde que nasceram, imagens foram criadas e talhadas a alturas impossíveis, nenhuma vitória poderá ser taxada de humilde, e nem mesmo de satisfatória. Todo erro, todo deslize será punido como um horror, uma discrepância inaceitável com a imagem que eu comprei e a realidade. Mesmo que LeBron e Wade estejam agindo como qualquer jovem da idade deles agiria na vida real. Mas eles não podem ser reais. Em nossa cultura, nunca ganharão essa chance.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Fim da linha

Bynum tenta abraçar Barea para dar parabéns pela vitória

Eu sei que o último post foi sobre o Lakers e que algumas pessoas vão se irritar que falamos sobre eles de novo. Mas podem ter certeza que dessa vez é a última pra valer. O atual campeão está eliminado, varrido pelo Dallas Mavericks e só joga na temporada que vem, que nem sabemos quando começa. Mas é que a repercussão da derrota categórica do Lakers na série, 4 a 0, e no jogo 4, 122 a 86, está rendendo mais comentários do que qualquer outra nos últimos anos. São todos os tipo de espécimes achados na fauna torcedorística: os indignados, os que colocam a culpa em tudo, os conselheiros da ONU que só querem saber da paz entre os atletas, os piadistas, os torcedores adversários, os Kobe-haters, os Kobe-lovers, os que sempre vão achar que o Lakers perde só para si mesmo, as viúvas de Phil Jackson, os que querem explodir tudo e começar do zero, os que culpam a arbitragem e por aí vai. Sério, ficar bem do lado de fora e só ver o circo pegar fogo pode ser uma experiência interessante sobre o comportamento humano diante de eventos que não podem controlar.

Vamos ter outras chances de comentar o Dallas Mavericks, no mínimo mais uma série, mas antes de falar do Lakers temos que lembrar que eles jogaram contra outra equipe de basquete e ela jogou bem demais. Eu sempre digo que vitórias muito expressivas em um jogo não são só mérito de um time e nem demérito de outro, diferenças de quase 40 pontos são uma soma das duas coisas, o mesmo vale para varridas em séries inteiras. Se só o Dallas fosse melhor a série poderia ter sido 4 a 2, se só o Lakers tivesse mal e o Dallas não espetacular poderia ter sido 4 a 1, sei lá, mas quando as duas coisas acontecem ao mesmo tempo dá no que deu. O Lakers foi superior mesmo nos três primeiros quartos do jogo 1 e durante pelo menos metade do jogo 3, só.

O interessante é que é muito normal um time começar uma série mais forte e o outro mudar algumas coisas, deixar mais difícil e aí o outro time responde e essas pequenas mudanças táticas ou de atitude que deixam uma série divertida. É o Zach Randolph e o resto do garrafão do Grizzlies dominando o jogo 1, sendo anulado no 2 e vencendo o 3 na série contra o Thunder. Ou o Celtics tomando pau em dois jogos para, em casa, vencer com um armador de um braço só. E isso é que decepcionou nessa série entre Lakers e Mavs, a série começou com uma estratégia tática do Dallas, o Lakers não conseguiu responder e a série acabou. Histórico para a NBA, sensacional para os torcedores do Mavs, mas uma série bem desinteressante de assistir.

A análise tática pode ser vista um pouco no nosso último post e nesse excelente texto do Fábio Balassiano em seu blog. A defesa do Mavs forçou os arremessos de longe, impediu a entrada da bola no garrafão (Kobe só fez uma bandeja e nenhuma enterrada em toda série!!!) e forçou o Lakers a arremessar, mas as bolas nunca caíram e a série acabou. Funhé. Fim de papo. Mas aí começa a parte difícil de aguentar e de responder: De quem foi a culpa e o que mudar para o ano que vem.

Culpa, antes de mais nada, do Rick Carlisle que reconheceu uma deficiência no jogo do Lakers e a explorou. Culpa também de enfrentar um garrafão que tinha defensores bons o bastante para segurar Gasol e Bynum, coisa que boas duplas como Perkins e Garnett, Boozer e Millsap ou K-Mart e Nenê não conseguiram no passado. Mas ok, ok, tem gente aí querendo tacar pedras, então vamos lá.

O Pau Gasol não jogou nada e ele admitiu isso, ao final da série disse: "aprendi a não deixar problemas de fora da quadra interferirem no meu jogo". Não sabemos exatamente do que ele está falando, mas as Sônia Abrão e os Nelson Rubens dos EUA afirmam que a história é a seguinte: Pau Gasol queria que sua namorada fizesse mais amigos em Los Angeles, ela então começou a sair com Vanessa Bryant, mulher de Kobe. A senhorita Bryant, porém, teria dito coisas sobre os bastidores do Lakers que teriam feito a namorada de Gasol dar um pé na bunda dele. Gasol então culpou Kobe por falar demais para a sua mulher e o clima teria ficado péssimo. Não sabemos se isso é verdade, de confirmado só a frase do Gasol dizendo que algo na vida pessoal dele tirou o foco do basquete. Só que eu preciso realmente me dar ao trabalho de responder todos os torcedores que estão xingando ele? Sério? Como disse um cara gringo no Twitter, "Quem reclamar do Gasol e exigir trocas merece ter Kwame Brown e Smush Parker de volta". Se o Lakers é um time de elite hoje é porque o espanhol chegou por lá.

O próximo alvo é Kobe Bryant, claro. E aqui mais do mesmo: "Ele deveria ter carregado o time nas costas", "ele não envolveu os companheiros", "ele não é capaz de carregar o time nas costas" e todo aquele papo que eu escuto desde que ouvi o nome de Bryant pela primeira na vez na vida. Sinceramente, Kobe teve nessa série os mesmos defeitos e qualidades que teve durante toda a temporada e durante boa parte da carreira, nada de novo. O que acontece é algo que pode surpreender muita gente: não se ganha ou perde jogos sozinho. Mas ei, shhh, não conta esse segredo pra ninguém, poucos sabem. Outro segredo de bônus para os assinantes VIP: Kobe Bryant não é o centro do universo, coisas podem acontecer sem que ele esteja diretamente envolvido.

Próximo tópico: O Lakers não sabe perder. Primeiro foi a falta dura de Ron Artest sobre o JJ Barea no jogo 2 e ontem duas expulsões, Lamar Odom e Andrew Bynum. Ambos, com o jogo já perdido faz tempo, fizeram faltas covardes sabendo que seriam mandados para fora do jogo. Coisa de gente nervosa, frustrada, que não sabe perder e que certamente merece e terá punição. Mas que note-se a diferença: Ron Artest ficou claramente arrependido e decepcionado no mesmo segundo que fez a falta, Odom e Bynum saíram com ares triunfantes de "foda-se o mundo, eu bato mesmo". Então por favor, xinguem o Artest por jogar mal, por não conseguir ser nessa série o bom defensor que geralmente é, o critiquem por não saber arremessar mesmo depois de uma década como profissional, mas não venham com o papo de que ele nunca mudou e pra sempre será um bad boy. E outra coisa, Kobe e outros jogadores do Lakers foram, depois do jogo, atrás de Barea para pedir desculpas por Bynum e perguntar se ele estava bem. A atitude idiota de uns não quer dizer que o time inteiro não sabe perder.

Alguns estão colocando a culpa dessas agressões no Phil Jackson, já que o comportamento dos jogadores em quadra deveria ser controlado pelo técnico. E isso vale principalmente para o Bynum, já que o Odom tinha sido expulso antes e dado uma razão para Phil chamar todo mundo de canto e dizer para eles se acalmarem. Mas quem diz isso nunca viu o Zen Master em uma partida de basquete. O Phil Jackson é o oposto daquela sua ex-namorada controladora e acha que os jogadores são homens adultos com capacidade de aprender sozinhos, se for pra chutar eu diria que Phil acha que o Bynum aprendeu e amadureceu mais sendo o vilão idiota e imaturo da noite do que se tivesse tomado só um puxão de orelha no banco de reservas. É como quando ele vê o seu time errando sem parar e não pede tempo para que eles aprendam a se virar sozinhos. Para um torcedor em desespero essa atitude pode parecer suicida, mas a longo prazo sempre vemos os times dele como um dos mais autoconfiantes da NBA. Autoconfiança que facilmente vira frustração se os resultados não confirmam sua expectativa, diga-se de passagem.

Se o Phil Jackson errou nessa série foi ao não conseguir mudar o time taticamente para conseguir furar a defesa do Dallas Mavericks, mas quando a coisa chega ao ponto que seus jogadores não acertam um arremesso sem marcação, a coisa complica pra qualquer técnico. Não diria nem que Phil Jackson errou, mas que ele só não conseguiu ser fora de série como sua fama e história sugerem. História essa que acabou na humilhante derrota de ontem, como prometido antes da temporada ele é agora um senhor aposentado. Até cheguei a pensar que talvez Phil Jackson ficasse envergonhado em sair de cena desse jeito e pensasse em continuar, mas logo mudei de idéia. Lembrei de Michael Jordan e Yao Ming: Jordan teve o final de carreira mais cinematográfico que alguém poderia imaginar, um arremesso vencedor depois de um drible desconcertante em um jogo de final da NBA, e mesmo assim não ligou de voltar, velho e sem metade do físico anterior, para jogar em um time horrível e passar dois anos sem ver a cara dos playoffs. Era a vida dele, a vontade dele e o cara foi lá e fez. Se alguém está preocupado com legado, imagem e em endeusar alguém somos nós, não eles. Mesma coisa com o Yao Ming respondendo aos tristes com sua centésima contusão que ele está bem, vivo e feliz. Imagino o Phil pensando da mesma forma, ele queria se despedir com um título (quem não quer?), mas não deu, paciência, hora de ir pra casa, descansar, fazer sexo e fumar charuto.

Ou seja, tentamos dar muita importância para essa derrota do Lakers mas os motivos são meio tolos. São muitos torcedores a favor, muita gente contra, muita expectativa sobre nomes como Kobe Bryant, Pau Gasol e Phil Jackson e aí tudo o que acontece fica muito grande. Mas o Kobe perde como outros jogadores perdem, o Lakers perde por motivos que outros times perdem. E esse pensamento é importante na hora de pensar o futuro da equipe, se fosse outra equipe, com menos pressão e atenção em cima, alguém pensaria que é hora de destruir tudo e começar do zero?

Eu acho que não. O Andrew Bynum e o Pau Gasol tiveram momentos ótimos na temporada e são claramente talentosos, com saúde física para um e mental para o outro podem ser a melhor dupla ofensiva da NBA. Kobe Bryant aos poucos vai perder mais e mais sua potência física, mas ainda faz muito estrago. Lamar Odom foi o melhor reserva da temporada com méritos. Ron Artest não jogou bem na maior parte do ano, mas em determinados momentos também foi ótimo, talvez seja o caso de procurar um titular para que ele fique no banco, mas trocá-lo seria não só tolo como inviável. Quem jogou mal durante quase o ano todo e precisa de mudanças é o banco de reservas, o Steve Blake foi a maior decepção do mundo pra mim, o Matt Barnes não fez grande coisa e chegamos a um ponto triste da nossa vida como torcedor quando ficamos sonhando em ter Vlad Radmanovic ou Sasha Vucjacic no banco só para acertar pelo menos uma bolinha de três num jogo. Só não me venham com esse papinho de torcedor megalomaníaco do Lakers de "Por que não trazemos Deron Williams e Dwight Howard?". Se fosse tão fácil eles não estariam esperando perder para o Mavs para contratar os caras, acreditem.

Eu sei que tem gente que vai discordar, que vai dizer que os adversários já sabem os defeitos do Lakers e que o time está velho. Para esses eu digo, de novo, olhem para o outro lado da quadra, o Lakers não joga sozinho. Para quem eles perderam? Para um time velho, que perdeu anos seguidos na primeira rodada e que toda temporada decide adicionar peças ao seu bom grupo ao invés de se desesperar e explodir tudo. Me parece um bom exemplo a ser seguido.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Pelo caminho errado

Kobe mantém a calma e concentração para não passar desespero para seus companheiros de time

Eu sei, eu sei, eu estava ausente na primeira semana dos playoffs. Mas viajei, tive dificuldade para ver os jogos, fiquei dias sem internet, passei horas em aeroportos, me estressei com problemas pessoais e foi uma semana cansativa que pareceu durar um mês. Para me recuperar, overdose de playoffs correndo atrás do tempo perdido! Assisti a algumas reprises no fim de semana mas ainda não tudo o que eu queria, o que eu mais consegui ver foi, claro, o meu time, o LA Lakers, pegando o New Orleans Hornets. Por ser a série que mais acompanhei, e por ser uma que está bem aberta, é dela que eu falo.

Antes da série começar eu estava bem animado com esse matchup para o meu Lakers, antes estava com medo da gente perder aquele jogo para o Kings na última rodada (o Lakers venceu no sufoco, na prorrogação) e acabar enfrentando o Blazers. Contra o time do Brandon Roy, o zumbi dos playoffs, o Lakers sempre tem dificuldades e normalmente perde fora de casa, contra o Hornets em compensação foram só passeios na temporada regular desse e dos últimos anos. As exceções foram apenas em momentos quando o Chris Paul e algum coadjuvante ficaram muito inspirados. Lembro do David West e até do Peja Stojakovic tendo dias mágicos contra o Lakers pelo Hornets. Mas, sinceramente, não convencia. Eram dias muito inspirados, claramente aberrações que não teriam como sobreviver a uma série de playoff. Quantas atuações alienígenas o Chris Paul, que explorava a deficiência do Lakers em marcar jogadores velozes, poderia ter? E o David West, que poderia limitar o poder da dupla de Pau Gasol e Andrew Bynum, nem está jogando, machucado. Parecia mamata.

Na temporada regular foi 4 a 0 para LA. O Chris Paul perdeu de vez o título de melhor armador da geração, suas contusões fizeram a balança pesar para o Deron Williams segundo a maioria dos críticos e o Derrick Rose é uma apelação de video game usando código e controle turbo, o papo de Chris Paul MVP de uns anos atrás parece tão atual quanto polaina e Smurfs. Meio esquecido e com números bem mais modestos ele caiu para um segundo plano, até tendo algumas partidas em que parecia mais lento e previsível. Não custa lembrar que o Chris Paul até passou jogos inteiros sem marcar pontos nessa temporada, ao invés de viver o seu auge ele parece um Jason Kidd com quase 40 anos, o que é bom, mas não como ele já foi. 

E também como esperar que o Hornets pudesse segurar o garrafão do Lakers? Se com o David West já era difícil, com o Carl Landry soa impossível. Sim, ele é raçudo e marca os pontos mais improváveis da NBA, só quando você percebe que ele tem a mesma sorte em todos os jogos é que se toca que não é pra chamar de sorte. Mas a sua deficiência defensiva já era destaque no Rockets, foi no Kings e nem com todo o esforço do mundo daria pra imaginar ele incomodando o Pau Gasol. Até dava pra imaginar o Trevor Ariza marcando bem o Kobe Bryant no perímetro, mas lá dentro parecia que seria uma surra.

Mas a série está 2 a 2, o Hornets convenceu nas suas duas vitórias e as previsões claramente foram para o beleléu. Sobra pra gente explicar o que aconteceu de inesperado para chegarmos aqui. A primeira e mais óbvia é que o Chris Paul renasceu das cinzas. O Ryan Schwan, que escreve para o blog Hornets247, comentou durante essa temporada sobre a mutação do CP3. No começo da carreira ele era um jogador muito veloz, driblador, agressivo e que tinha um estilo que lembrava demais o do Isiah Thomas nos tempos de bi-campeão pelo Detroit Pistons no fim dos anos 80. Mas com as contusões limitando a sua velocidade e força nas infiltrações ele, de repente, começou a virar, na opinião do blogueiro, um novo John Stockton. Comparações inúteis à parte, o que ele quis dizer é que diante das limitações físicas o Chris Paul estava mudando o seu estilo de jogo e ainda sendo eficiente em quadra. Dificilmente veríamos mais jogos de 30 pontos dele mas ainda veríamos um jogador inteligente, com precisão nos passes e ótima visão de jogo.

Eu acreditei nessa teoria até o início dos playoffs, mas inspirado pela importância dos jogos o Chris Paul resolveu esquecer as contusões e jogar como era há uns dois anos atrás. Claro que ajuda a incompetência do Lakers em marcar armadores rápidos e não podemos esquecer que nas duas derrotas o CP3 não foi tão bom assim, mas nas duas vitórias, uau, faltam adjetivos para descrever aquelas atuações. Então se queremos uma primeira explicação para entender porque a série está empatada, essa é a primeira, Chris Paul está voando. Obviamente não é a única, se bastassem inspirações esporádicas de um jogador para estar pau a pau com o Lakers nos playoffs o Warriors do Monta Ellis seria um timaço, mas precisa de muito mais.

A MySynergySports, empresa que faz estatísticas avançadas da NBA, enrolou a temporada inteira, mas finalmente fez parceria com a liga e tem alguns de seus muitos números divulgados no site oficial da NBA. O mais interessante deles mostra em que tipos de jogada de ataque cada time faz a maior parte dos seus pontos, e sabe que o Hornets não faz só a maioria dos seus pontos em jogadas de isolação e pick-and-roll, mais do que isso, o Hornets é o time que mais faz pontos nessas jogadas entre todos os 16 que disputam os playoffs! O Lakers teve uma das melhores defesas da NBA durante a temporada, mas sofreu bastante com duas coisas: a marcação homem a homem contra armadores velozes (lembrem dos jogos contra o Thunder, com o Westbrook matando a pau) e com pick-and-roll (lembrem do jogo de Natal contra o Heat). Os dois maiores defeitos da defesa do Lakers são os pontos positivos do ataque do Hornets, ou melhor, são quando o Chris Paul joga como Isiah Thomas. Quando é Stockton, como foi na temporada regular, só deu jogo fácil para o Lakers.

Ainda segundo o SynergySports, o Hornets consegue 0,98 pontos por posse de bola sempre que tenta o pick-and-roll e assustadores 1,1 ponto por posse de bola quando fazem uma jogada de isolação. O Lakers só tem números parecidos em três categorias:  Cortes para a cesta (quando alguém escapa do marcador e recebe um passe na corrida, indo para a cesta), em contra-ataques e quando os seus pivôs jogam de costas para a cesta.  Os dois primeiros acontecem muito pouco e a dos pivôs é a mina de ouro mal utilizada do Lakers nessa série. Eles usam essa jogada em mais de 15% das posses de bola, a terceira mais usada pelo time, mas ainda atrás da isolação e do arremesso parado. A isolação é quando um jogador cria a jogada dele sozinho, no drible, e o arremesso parado é o famosos spot-up shot, que é quando o cara fica paradinho, espera o passe e assim que recebe chuta, sem driblar nem nada. Ou seja, mesmo tendo um garrafão melhor, mais alto, mais forte e mais eficiente, o que o Lakers mais tem feito na série é tentar jogar sozinho e, quando não dá mais, tocar pra alguém e esperar este arremessar de longe. Se isso fosse uma boa estratégia de jogo, o Warriors...

Se a primeira explicação para esse empate é o Chris Paul, a segunda é tão simples que soa patética: O Hornets executa as jogadas que tem melhor aproveitamento e o Lakers não. O sistema dos triângulos, baseado em passes e movimentações sem a bola é ótimo para as movimentações cortando para a cesta, por isso o aproveitamento bom, mas elas acontecerem tão pouco mostra como o time às vezes é estagnado em quadra. O aproveitamento alto dos pivôs mostra como o caminho para as vitórias está lá, mas a marcação ativa e física do Hornets está inibindo o Lakers, que prefere arriscar menos os passes e fica muito concentrado na linha dos três pontos, com o tempo de posse de bola passando só resta arriscar uma jogada individual ou passar para alguém arremessar de longe. Esses arremessos de longe são também os que dão rebotes mais longos e imprevisíveis, que diminuem a importância de Gasol e Bynum no rebote ofensivo.

Outra coisa merece atenção nessa série. Vocês lembram desse post que eu fiz sobre o machismo na NBA, sobre ser "Soft" e tudo mais? Nele eu citava uma palestra do Henry Abott em que ele usava dois times como exemplos opostos de como decidir jogos. O Lakers era o time do macho alfa, de Kobe Bryant, que acredita que é sua obrigação arremessar as bolas decisivas de todos os jogos, já que é a estrela da equipe - ele não tem medo, não hesita, não treme. Do outro lado está Chris Paul, autor de uma frase que muitos consideram símbolo de falta de liderança: "No fim do jogo eu arremesso se estiver livre, senão eu passo a bola".

Pois com o jogo 4 para ser decidido, o Kobe tentou um arremesso doido de três para empatar o jogo e errou. O Chris Paul, bom, ele passou a bola para o cara mais frio do seu time, Jarrett Jack, zero arremessos feitos até então, e venceu.



Não tem certo e errado, cada um encara o jogo de um jeito diferente. Mas nesse jogo a vitória foi para o altruísta Chris Paul. Se o Kobe quer ter mais chances de tentar arremessos grandiosos assim e calar a boca de quem acredita na outra teoria, deve conseguir chegar ao fim dos jogos em condições de ganhar. Para isso precisa confiar mais nos seus pivôs e achar maneiras de envolvê-los mais nos jogos. Mesmo com Pau Gasol não jogando tudo o que sabe, Andrew Bynum, Lamar Odom e até Ron Artest podem executar a mesma jogada com sucesso. E para defender o Chris Paul? Bom, colocar o Kobe nele ao invés do Derek Fisher é melhor, mas não a resposta definitiva, eu diria que uma espingarda carregada daria conta do recado. 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Individual e coletivo

Chris Paul, meio Robin Hood, quer dividir a bola com os 
pobres, mas o Derrick Rose não solta nem fodendo

Houve uma época em que a NBA era lotada de armadores especialistas em pontuar. Baixinhos, rápidos, colocando suas equipes nas costas na hora de marcar pontos, esses armadores capturaram o imaginário de todos nós nanicos apaixonados pela ideia de anões marcando 40 pontos na cabeça dos gigantes. Allen Iverson era o cestinha da NBA e levou o Sixers a uma final, Steve Francis enterrava como se fosse ala de força, Stephon Marbury carregava o Suns para os playoffs. Mas então houve uma mudança ideológica na NBA e esses jogadores começaram a se tornar impopulares, símbolos de um modo de jogo ineficiente que deveria ser abolido. Aos poucos foram perdendo lugar em suas equipes, foram trocados múltiplas vezes, e quando menos percebemos já estavam todos desempregados. Iverson era ídolo absoluto, deus de uma geração, um dos jogadores mais espetaculares do planeta - e aí virou motivo de piada, sinônimo de jogador fominha e individualista. E o que poderíamos fazer para salvá-lo? Afinal, ele era mesmo um fominha individualista, não dava pra negar. O problema é que todo mundo achava isso o máximo até que, de um ano para o outro, tornou-se um comportamento inaceitável comparável a ouvir "É o Tchan". Quem gostava do Iverson passou a dizer isso baixinho. Os fãs do Marbury desapareceram no instante em que ele colocou um vídeo na internet em que comia vasilina. E os torcedores do Houston respiraram aliviados quando Francis foi trocado, afinal um fominha daqueles nunca seria campeão com Yao Ming.

Os tempos são outros. Cada vez mais o importante é ser sagrado campeão. Se um jogador aparentemente fantástico não consegue vencer nos playoffs, deve ser culpa dele, e não queremos nada ineficiente, nada meramente plástico. Carmelo Anthony é um dos melhores pontuadores que o jogo já viu, mas o Nuggets com ele não ia a lugar nenhum - mesmo Nuggets, aliás, que não venceu bulhufas quando tinha Allen Iverson. E para quê serve um jogador que é um dos melhores no que faz se ele não traz vitórias? Sem Carmelo, o Nuggets está nos playoffs dando trabalho para o Thunder e não sente saudade nenhuma da estrela individualista. O Knicks é que se vire com suas estrelas obcecadas pela bola.

Lembro bem de quando Kobe era admirado pelo que conseguia fazer ao monopolizar o jogo. Agora, ele é duramente criticado até por forçar arremessos num All-Star Game, que não vale merda nenhuma. Foi uma mudança de postura da crítica e da torcida, talvez influenciada pelos títulos do Spurs e seu jogo coletivo, talvez pelo anel do Pistons e seu basquete supostamente sem estrelas. Foi um movimento que acabou aposentando vários jogadores e levou Iverson para a Turquia e Marbury para a China, o equivalente a sair da Globo e ir fazer novela no SBT.

Essas coisas acontecem naturalmente no esporte. No futebol nos anos 50, a seleção brasileira era genial porque tinha talento e criatividade ao invés do jogo físico dos adversários, mas bastou perder uma Copa do Mundo para um adversário brucutu e aí o futebol brasileiro não prestava mais porque não tinha obediência tática e condicionamento físico. As opiniões mudam rápido, sempre influenciadas pelos resultados, e jogadores vão de queridinhos a desempregados muito depressa se não souberem se adaptar.

Mas eis que essa era de coletividade e idolatria dos armadores puros, em que a frase "tornar seus companheiros melhores" é o novo hit do verão, vê a chegada de Derrick Rose - e fica completamente apaixonada. É fácil entender, o Derrick Rose é um jogador excelente, um primor físico, o cara mais rápido do planeta, dá enterradas absurdas e penetra no garrafão como faca quente em manteiga, é apaixonante para a gente que curte um jogador suado. Mas ele é a representação atual de tudo aquilo que a torcida achava odiável apenas alguns minutos atrás, e é isso que me intriga tanto. Ao contrário do que acham alguns leitores do Bola Presa, não sou um odiador do Rose. Pelo contrário, acho ele um jogador fantástico de se assistir, é um dos meus armadores favoritos. Apenas acho importante apontar alguns aspectos do seu jogo que compreendemos como falhas em outros jogadores, e relativizar um pouco sua importância dentro do Bulls.

Na vitória do Chicago em cima do Pacers no primeiro jogo de playoff do sábado, Derrick Rose teve números absurdos: foram 39 pontos, 6 rebotes, 6 assistências, um roubo de bola e 3 tocos. A vitória foi mérito dele, o Pacers não fazia ideia de como pará-lo e ele praticamente passou o jogo inteiro dentro do garrafão fazendo bandejas, sofrendo faltas e tomando um suquinho. Mas vejam só: ele acertou apenas 10 dos 23 arremessos que tentou, errou todas as suas 9 tentativas da linha de três pontos, e desperdiçou 3 bolas. Sua prioridade foi sempre, sempre, atacar a cesta. Quando não era possível, tentava um arremesso do perímetro. As bolas não estavam caindo, mas ele compensou porque é capaz de penetrar em qualquer espaço, passar por baixo do sovaco de alguém e sofrer a falta. Foram 19 lances livres certos em 21 tentativas.

Derrick Rose venceu o jogo sem tornar nenhum dos seus companheiros melhor. Sua média foi de 2 assistências apenas para cada desperdício de bola. A enorme maioria dos seus arremessos de três foi idiota e precipitada, e ele continuou forçando mesmo ao ver que nenhuma bola estava caindo. Muitas das suas infiltrações, que davam certo, eram coisa para técnico enfiar o sujeito no banco de castigo para sempre caso não funcionassem. Mas funcionaram, a vitória é dele, e a torcida tem um novo ídolo merecidíssimo.

Mas precisamos lembrar que Derrick Rose só pode ser esse baita jogador com moral pra tentar coisas idiotas (e conseguir) porque joga na melhor defesa da NBA. O elenco todo está desenhado para defender, para servir ao Rose, para arremessar bolas de três pontos quando o Rose não tem mais ângulo para forçar uma bandeja. Esse Bulls só está onde está porque tem Noah na defesa do garrafão, Brewer e Deng na defesa do perímetro, Korver nas bolas de três, e porque quando o Rose vai sentar no banco entra em quadra CJ Watson, dono de um dos melhores números defensivos da liga. A defesa deixa o Derrick Rose ser um idiota descerebrado que faz mágica e nos enche os olhos de lágrimas com a maravilha que é uma estrela na NBA em seu auge.

O triste dessa história, infelizmente, é o Carlos Boozer. Apesar das controvérsias (até entre o Denis e eu), acho o Boozer um dos piores defensores do planeta. Ele é excelente atacando no pick-and-roll, e excelente embaixo do aro e no arremesso de média distância. Mas se o Rose decidiu que faz tudo sozinho no ataque e aciona tão pouco o Boozer, resta a ele servir ao Rose como o resto do elenco o faz: defendendo. E é então que as fraquezas do Boozer ficam tão expostas, que o Tyler Hansbrough pode pontuar infinitamente em sua cabeça, e que surge gente dizendo que o Boozer é ridículo e o Bulls não sentiria sua falta. Não sentiria mesmo se o Bulls quer ser o time do Rose, quatro defensores fodões, e uns caras arremessando de longe. E não tem nenhum problema em querer ser isso. Mas lembram quando todo mundo dizia que o Bulls só seria um time bom se tivesse um cara no garrafão que fizesse pontos perto do aro? Pois o Bulls agora tem esse jogador, e ele se chama Rose, não Boozer.

Não vejo problema nenhum no jogo do Rose, e nem no esquema do Bulls. Até porque ele funciona muito bem e tem grandes chances de ser campeão ainda nessa temporada. Mas não é um esquema que favorece o Boozer, é um esquema feito para o Derrick Rose e por isso exige sacrifícios dos outros jogadores. Como acontecia com o Sixers que foi para a Final da NBA em 2001, em que Iverson fazia tudo sozinho no ataque e todo o resto do elenco se sacrificava para que isso desse certo, especialmente na defesa. Mas enquanto isso passou a ser um absurdo e o Iverson está na Turquia vendo mulher de burca, Derrick Rose vai levar pra casa o prêmio de MVP.

É engraçado ver que em outra série desses playoffs, entre Lakers e Hornets, também tivemos um armador vencendo o jogo, mas em situação completamente inversa. Como avisamos na prévia dos jogos de domingo, para o Hornets ter alguma chance de vencer seria preciso que o Chris Paul jogasse em níveis épicos, aproveitando o fato de que o Lakers tem um histórico de não conseguir defender armadores rápidos, e que o Derek Fisher não defende mais nem ponto de vista. E níveis épicos foi o que o Chris Paul alcançou: 33 pontos, 7 rebotes, 14 assistências, 4 roubos. As diferenças para o Derrick Rose são enormes: ele acertou 11 de seus 18 arremessos, apenas arriscou 3 bolas de três pontos e converteu duas, e desperdiçou apenas 2 bolas (ou seja, deu 7 assistências para cada cagada). Como ele manteve a bola nas mãos o tempo todo, o Hornets como time só desperdiçou 3 bolas em toda a partida, duas do Chris Paul e uma do DJ Mbenga (tinha que ser ele!). O Chris Paul simplesmente não cometeu erros, cuidou da bola com carinho de mãe. Acionou os companheiros livres constantemente, dando cestas muito fáceis para o Carl Landry (que faria as cestas mesmos se fossem difíceis, ele é mágico, pena que é um dos piores defensores vivos) e até para o Aaron Gray, que é só um pedaço de carne disforme e imprestável. Se você torna até o Aaron Gray melhor numa quadra de basquete, você tem que ser um gênio. E acionar tanto os companheiros abriu cada vez mais espaço para os arremessos, que nunca foram o forte do Chris Paul, mas livre fica mais fácil, né? Para piorar, Fisher não conseguia parar as infiltrações e a defesa de transição do Lakers foi medonha, cheia de trocas absurdas de marcação que resultaram no Paul Gasol tendo que marcar o Chris Paul em posses de bola cruciais (e tomando arremessos na cabeça, claro). O Lakers se manteve dentro do jogo, colado no placar a partida inteira, mas não conseguiu defender as bolas importantes porque não sabia o que fazer com o Chris Paul, não sabia se ele iria arremessar ou passar, e não conseguia defender em transição (a impressão que dá é que o Lakers é um time cansado, que não quer mais correr, mas isso é papo para outra hora).

Chris Paul teve uma partida incrivelmente eficiente, tornou os companheiros melhores, foi um armador puro e cerebral. Derrick Rose forçou o jogo, deu arremessos idiotas, ignorou os companheiros em várias posses de bola e errou muitas bolas. E quer saber? Os dois tiveram atuações espetaculares, os dois são jogadores geniais, e há espaço para essas duas abordagens na NBA. Não faço ideia do motivo que trouxe o estilo individualista do Derrick Rose de volta à moda (será que foi simplesmente a melhor campanha da temporada?), mas espero que ele volte para ficar dessa vez. Somos apaixonados pelos jogadores capazes de forçar o jogo e colocá-lo no bolso do mesmo modo que somos maravilhados pelos jogadores que tornam seus parceiros melhores e ganham o jogo mais indiretamente. Sempre vai ter um idiota criticando o Chris Paul (e o LeBron, e o Nowitzki, e até o Kobe) por não dar o último arremesso e preferir passar para alguém livre, mas sempre vai ter um idiota criticando o Carmelo por tentar demais o último arremesso (mesmo tendo o melhor aproveitamento disparado dos últimos anos). Grandes merdas. Odiadores odiarão. O importante é saber que existem os dois tipos de jogadores e que há espaço para esses dois modos de jogo na NBA.

O que precisa acabar, no entanto, é esse mito de que o jogador individualista não envolve o time. Do mesmo modo que o elenco do Hornets é essencial para que o jogo de Chris Paul funcione, acertando os arremessos que surgem com os passes do armador, abrindo espaço para as infiltrações e se movimentando para receber a bola, o elenco do Bulls (e daquele Sixers, por exemplo) também precisa permitir que Derrick Rose monopolize o jogo, garantindo especialmente uma boa defesa, um bom espaçamento em quadra e não exigindo a bola no ataque para funcionar. Tudo no basquete, até ter um fominha maluco em quadra, exige um elenco montado e construído para que isso aconteça. Se o Nuggets queria jogar um basquete focado na defesa, e se tinha o material humano para instalar um basquete coletivo, por que não se livrou do Carmelo Anthony antes? O que é idiota não é ter um jogador individualista no elenco, mas sim tê-lo e querer manter um time que não explore essa característica. Se o Knicks quer duas estrelas que exigem a bola nas mãos, como Carmelo e Amar'e, não faz sentido cercar os dois com jogadores dispostos a participar muito do ataque num basquete coletivo, tem que ser um elenco montado para dar suporte, para permitir que os dois brilhem. O Knicks está nesse caminho, o elenco ainda não está pronto. Já o Nuggets agora pode colocar em prática o que pelo jeito o técnico George Karl sempre quis mas não podia, esse basquete em que todo mundo participa do ataque e fica empolgado para participar também da defesa.

O problema é que esse Nuggets ultra-coletivo acabou colocando uma bola decisiva no finalzinho do jogo nas mãos do Kenyon Martin, assim meio sem querer. Enquanto isso, Russell Westbrook e Kevin Durant monopolizaram o jogo, cercados por um elenco de jogadores secundários que não precisa da bola e que está lá apenas para garantir o jogo das estrelas de forma eficiente. O Thunder é absurdamente bem montado, funciona como intestino de quem come fibras, e para isso não tem problema o Westbrook ser um armador fominha que nunca pensa em passar a bola e prefere tentar pular por cima de três defensores. Já imaginou o Chris Paul fazendo isso? Com o elenco que ele tem, o melhor a se fazer é dar cestas para o Aaron Gray e rezar por um milagre.

Muito mais importante do que o jogador ser fominha, do que idolatrar o Derrick Rose, tacar cocô no Kobe, comparar com o Chris Paul, é saber como o jogador está sendo usado pelo time e como o esquema tático está desenhado ao seu redor. Nesses termos, o Iverson não é e nem nunca foi um problema - o problema está nos times que o contrataram, e no que eles tinham em mente. O Pistons era um time inteiramente coletivo, foi cagada achar que o Iverson jogaria por lá. O Grizzlies, que vimos vencer o Spurs no domingo com uma dupla de garrafão que se ama e passa a bola um para o outro o tempo inteiro, nunca poderia ter um jogador que segurasse a bola no perímetro. Ou seja, culpa deles por contratar o Iverson, que era o jogador errado. Para ter o Iverson, é preciso explorar suas qualidades e, pra isso, montar um elenco que permita que sua individualidade aconteça. O Derrick Rose talvez nos ajude a romper esse preconceito com os jogadores que forçam o jogo, e nos mostre o valor do elenco, do esquema tático, e portanto a dificuldade de se comparar jogadores. Quem é melhor, Rose ou Paul? Depende: com que elenco, em que plano tático?

O Dwight Howard, por exemplo, pode ser um jogador genial e fazer 46 pontos num jogo - e ainda assim estar no esquema tático errado, com o elenco errado, e conseguir perder para a porcaria do Hawks. Mas esse é um caso pra ser analisado em particular, e fica pro nosso post de mais tarde.