sábado, 29 de janeiro de 2011

A revolução será calculada

O que os números dizem sobre o desempenho de Kobe no último segundo?


Eu peço desculpas pela demora com um post nos últimos dias, nem estava tão ocupado assim, mas sempre que começava a escrever sobre esse assunto eu ficava meio inseguro e corria atrás de mais dados, mais informações e repensava o que eu mesmo tinha para escrever. No fim das contas foram dias preso no mesmo assunto. É sobre talvez o meu assunto favorito dentro do basquete e queria fazer um texto digno sobre o assunto, mesmo que isso custe uns dias de vocês entrando no blog só pra ver a mesma coisa.

O tema que eu tanto amo são as estatísticas. Sou perdidamente apaixonado por elas desde sempre, e me incomodava não existirem sobre o futebol, em especial o brasileiro. Passei um bom tempo desde a era da internet discada fuçando essa internet de meu deus atrás de estatísticas sobre futebol, vocês não sabem o quanto de pornografia barata eu passei nessa jornada! Mas é uma batalha em vão, as opções são poucas e limitadas. Engraçado saber que o Datafolha tem um link para estatísticas de esporte no seu site e os últimos dados são do Brasileirão de 2005. Mas o problema é que enquanto o público americano argumenta sobre MVPs e All-Stars com os números debaixo do braço para a discussão, o futebol é o esporte em que o atacante pode tocar na bola uma vez em todo o jogo e ser o herói, melhor jogador, ídolo e mito. No futebol até existe um prazer secreto em ver um time dominar o jogo em posse de bola, chutes a gol e mesmo assim perder o jogo, é o triunfo do imprevisível sobre o racional.

Mas eu sempre tentei não enxergar assim, os números não precisam ser sempre frios e eu acredito, ingenuamente, que o esporte, principalmente o basquete, pode ser medido por eles. Se eles parecem mentir é porque ainda não achamos o jeito certo de medir. O grande exemplo disso foi dado pelo Rob Mahoney, um blogueiro do New York Times e do blog Two Man Game sobre o Dallas Maverick, em um post recente sobre o Kendrick Perkins. Ele começa o texto citando outro blogueiro do NYT que chamou o Shane Battier de "No-Stats-All-Star". Isso porque o Shane Battier é um defensor preciso, chato, pentelho, técnico, mas que não transforma a sua defesa em roubos ou tocos, ele é capaz de ter sido um jogador decisivo no jogo e não ter nenhum número relevante no box score.

Para conseguir medir a eficiência do Battier então ele buscou as estatísticas de plus/minus (+/-) que medem o placar do jogo para o seu time enquanto certo jogador ou combinação de jogadores estão em quadra. Mas o plus/minus também tem seus defeitos, afinal um jogador nem sempre joga nas melhores situações. Um jogador pode só estar em quadra com companheiros de time ruins ou contra os melhores do outro time, enquanto outros só enfrentam os reservas dos adversários. Pensando nisso foi criado o "Adjusted plus/minus", a conta para explicar o valor é muito maluca e vários analistas nem tentam, fica para a próxima, mas o objetivo é corrigir o plus/minus original de acordo com a situação em que cada jogador atua. Nesse ranking o Shane Battier se destaca absurdamente e figura entre os nomes famosos e de destaque da NBA. Outro número buscado para explicar a produtividade do ala do Rockets foi medir a produtividade dos jogadores marcados por ele e o resultado é que todo mundo que o enfrenta fica abaixo da sua média de eficiência. Finalmente, depois de anos sendo o "No-Stat-All-Star", Shane Battier poderia contar em números como era bom.

A revolução estatística no basquete americano nasceu com o beisebol. Primeiro nos anos 60 com o livro "Percentage Baseball" de Earnshaw Cook, mas só ganhou atenção popular no final dos anos 70 com Bill James, que ao invés de analisar o beisebol como todos os outros de sua época, cheio de romantismo e mística, ao invés disso levantava questões como "Que arremessador sofre mais roubos de base?". A princípio muitos jornais não gostaram da abordagem dele, achando que não interessava ao público, o que lhe fez lançar seus dados em um livro por uma editora pequena, era o  "The Bell James Baseball Abstract" em que analisava o ano anterior do baseball baseado somente nos números. Aos poucos outros membros da imprensa abraçaram a idéia e a cultura da estatística avançada começou a florescer.

No começo dos anos 80 a evolução do beisebol nas estatística chamou a atenção do basquete, em especial de jovens universitários, em especial Dean Oliver e Daryl Morey. Anos depois, Oliver foi o responsável pela criação do fórum APBR Metrics, o grande centro de discussões sobre estatísticas avançadas no basquete em toda a internet. Em 2003 Oliver lançou o livro "Basketball on Paper" que até hoje guia todos os que procuram entender o basquete pelos números, suas contribuições para o basquete renderam para ele um emprego como consultor no Seattle Supersonics e depois no Denver Nuggets, onde trabalha até hoje. Em 2003 também foi lançado o livro "Moneyball: A arte de vencer um jogo injusto", a segunda revolução estatística no beisebol. O livro de Michael Lewis mostrava como o General Manager do Oakland A's usava estatísticas nunca antes consideradas em um jogo de beisebol para conseguir contornar a dificuldade que era comandar um time com recursos bem mais escassos que os gigantes da MLB. Esse livro foi uma das grandes inspirações de Daryl Morey, formado em ciências da computação com ênfase em estatísticas e que trabalhou como assistente de estatísticas para o Celtics antes de virar o General Manager do Houston Rockets.

Esses são apenas dois exemplos de uma tendência crescente na NBA, a de respeito às estatísticas. Até o criador do site Basketball-Reference.com, Justin Kubatko, o maior banco de dados sobre estatísticas da NBA na internet, tem sua vaga dentro da liga como consultor do Portland Trail Blazers, que, por sinal, tem como General Manager o engenheiro com forte formação matemática Rich Cho.

Os números no beisebol são mais fáceis de medir porque não existe muita interação entre os jogadores como no basquete, é mais fácil para eles medir o que é uma ação individual e avaliar o jogador em separado do seu time. No basquete a porcentagem dos arremessos é influenciada pela qualidade dos passes que se recebe, da ameaça que seus companheiros são para a defesa adversária e muitas outras coisas. Tem também a questão das assistências, afinal quantos bons passes não entram para a estatística por causa de um arremesso torto ou uma bandeja parada por falta? Ou mesmo nos rebotes, um jogador pode pegar vários por jogo, mas será que ele pega aqueles mais difíceis, com três ou quatro jogadores batalhando pela bola?  Pouco a pouco é o que as novas estatísticas tentam responder.

Assim como a matemática avançada, quanto mais a fundo se vai para as respostas, menos precisas elas ficam, embora isso perturbe quem busca os números atrás dessa precisão. Elementos como a eficiência, adjusted plus/minus e porcentagem de rebotes estão mais para estimativas do que para certezas concretas, mas são elas que guiam a mente de todos os citados acima. A porcentagem de rebotes é uma conta que diz quantos por cento dos rebotes de uma equipe são pegos por aquele jogador, o atual líder da NBA é Kevin Love com 23.5%, seguido de muito muito perto por Marcus Camby, ou seja, é uma estatística apoiada pela média de rebotes por jogo. Mas a de porcentagem de roubos, por exemplo, mostra Tony Allen liderando com folga! Na frente dos consagrados Chris Paul e Rajon Rondo. Alguns poderiam argumentar que a média por 36 ou 48 minutos corrigiria isso, mas igualar o número de minutos jogados não considera que times jogam em velocidades diferentes e, logo, têm mais ou menos oportnuidades de roubar bolas, arremessar, pegar rebotes, etc.

Possivelmente a maior contribuição de Dean Oliver para o basquete foi a contagem do jogo de basquete pelas posses de bola. Afinal, é mais fácil ter a maior média de pontos por jogo se você joga em extrema velocidade e tem 110 posses de bola por jogo, certamente fará mais pontos do que um time que joga com cuidado e acaba tendo 90 posses de bola, o que não quer dizer que é um ataque mais eficiente. O mesmo vale para a defesa. A questão da posse de bola é também uma das diferenças entre a contagem de eficiência feita apenas somando e subtraindo estatísticas e o famoso PER, criado pelo analista John Hollinger e que, apesar dele mesmo admitir que prejudica jogadores com qualidades defensivas como Shane Battier, é o melhor jeito de analisar com um número único os jogadores mais eficientes da liga. Mas não esqueçam, como diz Oliver no seu livro: "Não tenha esperanças em um sistema definitivo para medir o talento dos jogadores. Isso não existe. Mas existe muito valor nas tentativas". Eu falo mais sobre o PER e sua fórmula nessa coluna de alguns anos atrás.

Mas bom, eu tinha comentado no começo do texto que o post no blog do New York Times era para explicar como o Kendrick Perkins era bom na defesa, não só Shane Battier. Acontece que tudo o que usaram para provar que o ala do Rockets era um bom defensor não funcionava com o Perkins. Como era possível que todos estivessem vendo que ele era uma das pedras fundamentais da melhor defesa da NBA (segundo todas as estatísticas) e os números não mostravam nada? O seu adjusted plus/minus foi um dos piores da NBA na temporada passada mesmo sendo onde os jogadores com as suas características brilhavam. E medindo o valor dos pivôs que jogam contra ele, a eficiência dos adversários continuava na média contra Perkins, com poucas exceções. E é nessa hora que devemos ou jogar os números fora e acreditar nos nossos instintos, ou renegar os instintos e criticar Perkins pelos números. Ou, como fez Mahoney, ir cada vez mais fundo para achar um número que pareça dizer a verdade. Ele usou os números fornecidos pelo genial (e ainda fechado para o público nessa temporada) Synergy Sports e percebeu que nos arremessos próximos ao aro, quando os jogadores recebem próximos a cesta, Perkins permite apenas 0.7 pontos por posse de bola, uma das melhores marcas de toda a NBA, e isso acertando apenas 38% dos arremessos, um número dominante se considerarmos o quanto estão perto da cesta. Por fim, o Perk comete faltas em apenas 6% dessas situações. Em outras palavras, Perkins não tem os melhores números porque enfrenta muitos dos "novos pivôs", caras como Andrew Bynum, Andrew Bogut ou até os famosos alas de força improvisados, como Amar'e Stoudemire ou Pau Gasol, jogadores que tem um bom jogo de meia distância e sabem causar impacto mais longe da cesta. Aí quando enfrenta jogadores que querem se impôr embaixo da cesta, como Dwight Howard, Perkins garante a sua reputação como um dos grandes defensores da NBA.

Como bem descrito no texto do NYT, Shane Battier é um jogador que se destaca quando nos afastamos e vemos o jogo num nível geral, enquanto Perkins se destaca quando vemos o jogo em um "micro level". Pode parecer confuso, talvez até uma sacanagem, sempre buscando números atrás de números até achar um que beneficie ou prejudique o jogador. Mas não é algo que precisa ser visto da perspectiva do bom e ruim, as estatísticas não estão aqui para serem usadas para provar quem é melhor que quem (algo desnecessário e, como defendemos fortemente aqui, só diminui o basquete a algo simplista). O número mostra que o Perkins é bom naquele tipo específico de defesa e ponto, é isso.

A acusação de manipulação dos números surgiu nos últimos dias com um polêmico post de Henry Abbott no blog True Hoop, "A verdade sobre Kobe Bryant nos momentos decisivos". Nessa análise ele não usa nenhum número muito avançado, mas inova por ir atrás dos números em uma área em que costumamos ser guiados apenas pelos nossos instintos. Quando o Lakers perdeu um jogo em uma air ball de três pontos do Lamar Odom anos e anos atrás contra o Pistons, eu lembro de ter xingado por horas dizendo "Por que não deram a bola para o Kobe?". Milhares de outros fizeram um questionamento parecido quando LeBron James passou a última bola do jogo, o da vitória, contra o mesmo Pistons em um jogo de playoff, para o arremesso de três de ninguém mais ninguém menos que Donnyell Marshall. A chuva de críticas continha coisas como "Uma estrela como LeBron James deve chamar a responsabilidade em uma hora como essa". É natural, queremos o que consideramos o melhor jogador para decidir, é algo até da cultura americana que valoriza tanto o "franchise player", se é o time do LeBron é ele quem deve ganhar e perder pelo time.

O artigo de Abbott lembra a pesquisa feita com os 30 General Managers da NBA (incluindo todos os nerds como Cho e Morey) em que 77% responderam que se tivessem todos os jogadores da NBA para escolher para um arremesso final, escolheriam Kobe. Mas analisando os dados de todos os jogos da NBA desde 1996-97 até hoje, em momentos com 24 segundos ou menos e jogos empatados ou perdendo por até dois pontos, Kobe tem apenas 31% de aproveitamento nesses arremessos decisivos. É apenas o 25º melhor entre os com 30 tentativas ou mais. O líder, disparado, é Carmelo Anthony com 47%. Sem querer puxar sardinha para o nosso lado, mas um estudo muito parecido foi públicado pela gente quando tínhamos uma coluna sobre estatística no BasketBrasil. O texto pode ser lido aqui e contém o seguinte trecho:

"'Kobe Bryant é o melhor jogador para dar o último arremesso'
Falso. Segundo os dados coletados pelo 82games.com, Kobe Bryant é apenas o quarto jogador que mais acertou bolas decisivas e é o que mais bolas errou nas últimas 5 temporadas.


Kobe acertou 14 arremessos vencedores e errou 56, um aproveitamento de 25% das tentativas. Também acertou 12 de 15 lances livres, deu apenas uma assistência e cometeu 5 desperdícios. Podemos dizer que o padrão é Kobe não passar a bola na posse de bola final, arremessar por conta própria e acertar uma a cada quatro."

No mesmo texto mostramos como Carmelo Anthony era o mais decisivo desde aquela época e como jogadores com fama de amarelões como Dirk Nowitzki e Peja Stojakovic eram na verdade acima da média. Enquanto isso Chauncey Billups, o famoso "Mr. Big Shot", tem um aproveitamento terrível. O que é bem curioso é que os nomes e os aproveitamentos não são muito diferentes quando analisados não só a posse de bola final mas também os últimos cinco minutos de um jogo apertado.

A acusação feita por muitos admiradores do Kobe é que essa é uma das formas de manipular os números contra um jogador, que as estatísticas não poderiam ser ousadas a ponto de contrariar toda a maioria de torcedores, jogadores, General Managers e até de alienígenas que acham Kobe o maioral. Mas a verdade é que o Kobe interpreta ao máximo a teoria do "O time é meu e eu decido" e o final dos jogos é com ele. Contando só os números dessa temporada, por exemplo, Kobe é líder absoluto em arremessos tentados nos últimos 5 minutos de jogos decididos por poucos pontos. São 34.7 arremessos tentados a cada 48 minutos do chamado "crunch time", perto dele somente Derrick Rose e Carmelo Anthony, mas com a diferença que Kobe tem 38% de aproveitamento, enquanto Rose tem 39% e Melo impressionantes 45%.

Ou seja, não é exagero. O Kobe acha que a responsabilidade nos finais do jogo é só dele e ele só passa a bola se realmente for a última opção, mas logo pedindo a bola de volta. Mas sejamos sinceros, nos últimos três playoffs em muitas vezes ele soltou a bola, mais do que é normal para ele. Foi assim com aqueles pick-and-rolls no alto da quadra com Pau Gasol e Lamar Odom e os passes que ele deu para Derek Fisher e Ron Artest meterem bolas decisivas de três pontos. Decisões importantes, inteligentes e que renderam títulos, mas raras, não há como negar. Podem argumentar que o Kobe tenta arremessos mais difíceis que os outros, mas isso só acontece porque o adversário sabe que ele só passa a bola em último caso. Não queremos que Kobe perca a sua magia por causa de meia dúzia de números, mas quando se analisa estatísticas dessa maneira você deve estar aberto a engolir coisas que até pouco tempo atrás pareciam verdades absolutas.

Eu dou um exemplo que aconteceu comigo e é bem recente. Vocês devem se lembrar desse meu post analisando o San Antonio Spurs, certo? Eu disse que o Spurs estava se enganando, mas enganaram a mim também. Um dos meus argumentos para explicar a mudança do Spurs em relação aos últimos anos era a velocidade com que eles jogavam, e sustentei a teoria com o número de posses de bola que eles tem por jogo, um dos maiores da NBA. Mas alguns problemas aparecem, como uma jogada com vários rebotes ofensivos conta como uma grande e longa posse de bola. Turnovers também criam mais posses e nem sempre estão ligados a velocidade dos times. Surgiu uma nova maneira de medir a velocidade com que os times jogam e elas desmentem o que eu disse. Rohan Cruffy do SBNation.com (e não da seleção holandesa de 74) criou um método em que se mede a velocidade dos ataques da NBA de acordo com o tempo que eles gastam para efetuar cada posse de bola. Nessa medida os times mais rápidos continuam sendo os mais rápidos se em comparação com os de número de posses de bola por jogo: Nuggets, Knicks, Warrirors e Suns. Mas o Spurs, para a minha surpresa, despenca na tabela.

O time de Tim Duncan é o 13º mais veloz em posses de bola (chegou a ser o 8º mais veloz no início da temporada) e é o 19º se contando o tempo do relógio. E a razão é simples, quando se mede o tempo de arremesso do adversário o Spurs é, sei lá diabos porquê, o time que sofre os arremessos mais rápidos em toda a NBA. Os times que enfrentam o Spurs ao invés de trabalhar a bola partem pra cima e sempre aceleram o jogo, arremessando cedo, causando uma inflação no número de posses de bola por jogo. Sim, o Spurs tem um pouco mais de pontos por contra-ataque por jogo e está usando mais os seus jogadores velozes, mas eles não são um time que joga em um ritmo tão veloz como eu supunha.

O curioso é que isso não parece ter relação com a qualidade da defesa também. Times bons na defesa como o Hornets, Magic, Bulls e Bucks forçam seus adversários a arremessos depois de muito tempo no relógio. Mas outras boas defesas como Lakers, Heat e Celtics forçam arremessos velozes, não parece existir um padrão. Ou, claro, a gente que não ainda não soube analisar os dados direito.

Portanto, precisamos ter a cabeça aberta para admitir que algumas coisas nos enganam. Ver o Spurs tentando puxar mais contra-ataques do que o normal e ter a confirmação numérica dos placares altos e das posses de bola excessivas me fez cometer o erro de ver um Spurs excessivamente rápido, quando na verdade são os adversários deles que impõe essa velocidade. Se para alguns fãs é difícil admitir a derrota para os números, imagine para os jogadores. Esse é o desafio de outro nerd do basquete atual, Erik Spoelstra, treinador do Miami Heat.

Ele foi chamado pelo Pat Riley há mais de 10 anos para buscar novos dados estatísticos para ajudar o Miami Heat a evoluir nesse nicho crescente dentro do basquete. Então Spoelstra chamou um desenvolvedor de software só para o time, Shmuel Einstein. Nas palavras de Spoelstra: "Achei que seria uma boa chamar um cara com o sobrenome Einstein". Juntos eles desenvolveram novas maneiras de analisar o jogo, especialmente separando diferentes tipos de jogadas e analisando a sua eficiência, o sistema é complexo ao ponto de que cada posse de bola defensiva é analisada sob a perspectiva de 54 diferentes critérios, "É um trabalho entediante", admite o técnico.

Assim que o Spoelstra descobriu que teria o árduo trabalho de treinar LeBron, Wade e Bosh ao mesmo tempo, começou a se debruçar sobre toneladas de vídeo do seu Heat, além de Cavs e Raptors. Afinal, como esses jogadores eram mais eficientes e em que jogadas mais se destacavam? A análise foi feita e mesmo assim o tempo para treinar foi pouco e o começo de temporada foi desastroso, especialmente no ataque. O que chamava mais a atenção era como o time tinha números péssimos com LeBron e Wade ao mesmo tempo em quadra. Foi quando Spoelstra chamou todos, disse que os dois não estavam funcionando juntos e afirmou que eles deveriam aprender a jogar juntos, afinal não ia colocar ninguém no banco. Para mostrar o que esperava deles apresentou um gráfico de pizza dividido com todas as maneiras que eles deveriam pontuar: duas ou três enterradas ou bandejas em contra-ataques, algumas cestas cortando em direção à cesta, dois arremessos de longe, duas jogadas de costas pra cesta e assim por diante. Se realizassem tudo isso teriam a liberdade de jogar no high pick-and-roll (com o corta-luz na linha dos três) no final de cada período, situação em que os três mais se destacavam em seus antigos times.

Segundo Spoelstra não são todos os jogadores que sabem lidar assim com os números, então sempre o melhor jeito é mastigar o máximo possível. Segundo ele só 5% de tudo o que eles calculam chega aos jogadores e muitas vezes assim, em gráficos desenhados e fáceis de entender. A experiência com o Heat tem dado certo, nos últimos jogos os gráficos de como cada jogador marca têm mudado para mais perto do ideal pensado por Spoelstra, segundo ele principalmente com Wade, que marca seus pontos das maneiras mais variadas possíveis, como ele havia proposto.

O que podemos tirar disso tudo é que a revolução estatística já chegou na NBA e só cresce. Mas por enquanto ainda é um território dividido, longe da certeza absoluta que o tema a princípio propõe. General Managers, jogadores e mesmo (ou principalmente) os torcedores estão pensando duas vezes em aceitar a revolução. Eu diria, até, que cerca de 65,7% dos torcedores casuais da NBA consideram as estatísticas avançadas uma bobagem. Mas é só uma estimativa.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Filtro Bola Presa - Um resumo semanal

Solo de baixo invisível (via Basketbawful)


Chegamos no dia mais divertido da semana, quando você não precisa ler um texto extenso sobre um time ruim da NBA e ao invés disso se deliciar com histórias frugais, os links irados e as fotos super divertidas que fazem a sua manhã no serviço passarem voando. Para quem chegou agora, o Filtro Bola Presa é o post onde contamos as histórias e compartilhamos os links que achamos interessantes mas que não couberam em posts grandes como os que costumamos fazer. É o resto.

.....

- Um dos melhores filmes que eu vi ultimamente (entenda por "ultimamente" a minha vida) foi o "Whatever Works" do Woody Allen, e isso é impressionante porque eu nem gosto do Woody Allen. Mas ele tem muitas frases geniais, uma delas comentando a bizarra mania que os americanos tem de fazer "camps". Aqueles encontros nas férias onde todo mundo vai aprender alguma coisa: Baketball Camps, Jewish Camp, Adventure Camp, Fitness Camp. A sugestão do personagem é que mandem as crianças para um Concentration Camp, um campo de concentração, para aprenderem desde pequenas do que o ser humano é capaz de fazer um com o outro. Fantástico.

A idéia do John Hollinger, colunista da ESPN, porém, é outra não menos genial. Um camp para que os donos de time aprendam a gerenciar os seus times. Afinal, segundo ele, os times são chamados de franquias e em todo o sistema de franquias os novos donos participam de cursos para aprender a não fazer bobagem, sendo ensinados por aqueles que já passaram por aquelas situações. O "Curso de como não estragar tudo" imaginado por Hollinger tem aulas geniais como "O Mid-Level Excpetion: Apenas diga não", "Você não precisa usar todo o seu espaço salarial agora" e "Jogadores medianos de 29 anos viram jogadores medíocres de 32 anos".  A pior parte de tudo é que donos de times e General Managers precisavam mesmo disso, não é piada.

- Nos bons tempos em que o League Pass passava os comerciais americanos ao invés de nos entediar com aquela música de elevador nos intervalos, era possível ver muita coisa da cultura dos EUA. Víamos basicamente propaganda de fast food, carros e seguros. Mas eventualmente de cerveja, onde no meio de tanto lixo, tinha a genial sacada do "Homem mais interessante do mundo". Tá, é meio copiado da idéia de zoar o Chuck Norris que a Sagrada Internet criou, mas mesmo assim é bom.

O comercial fez sucesso e agora foi copiado pelo Rudy Gay, o Jogador Mais Interessante da NBA:



As melhores frases, porém, estão nos comentários do vídeo, como "Ele ganhou o Most Improved Player no seu primeiro ano" ou "Rudy pode enterrar durante um fade-away".

- Em um vídeo um pouco menos extraordinário, o Darko Milicic fez uma cesta contra. Em uma bola ao alto.



- Recebemos no formspring uma pergunta de um cara indignado com o número enorme de arremessos de três que todo mundo no Houston Rockets tenta. Mas aqui uma lição pra você levar pra vida: sempre pode ser pior.

- Nessa jogada o Chris Bosh saiu de quadra machucado com uma torção no tornozelo, foi uma jogada normal em que o novato Omer Asik estava lutando pela bola. O estranho foi depois do jogo o Bosh cheio de mimimi dizendo que "É assim que jogadores se machucam. Todos tem que tomar cuidado, só queremos jogar, sustentar nossa família e ter um trabalho".

O exagero e o sentimentalismo do Chris Bosh rendeu a hashtag #chrisboshquotes no Twitter com frases como "Quando estiver gripado não me marque muito perto. É assim que os germes se espalham" ou "Você pode acertar o meu olho acidentalmente, não tente bloquear meu arremesso. É assim que jogadores se machucam". É só digitar a hashtag no Twitter e se divertir com a frescura alheia. (A dica foi do leitor Luis Faé)

- Mas sabe que o zoado e esquecido Chris Bosh é essencial para o Heat? Sério. Mesmo com todas as críticas os números estão do lado do ala. Nos 153 minutos em que Wade e LeBron jogaram juntos na temporada com Bosh no banco, o Heat foi derrotado por 332 a 298. A dupla Wade e Bosh é positiva, assim como LeBron e Bosh. Mas se o ala está fora o Heat mais sofre mais pontos do que faz.

- Tem gente que acha estranho quando jogador da NBA vai parar em um país esquisito, jogando basquete na China ou sei lá aonde. Mas um fim de carreira pode ser bem mais bizarro que isso. Mais bizarro do que virar prefeito de Sacramento. O Rashad McCants agora está co-produzindo um web-seriado e que ele atua ao lado da atriz pornô Traci Lords como um bissexual travesti que vende produtos roubados. Que tipo de comentário eu poderia fazer para deixar isso mais engraçado? Não dá, tudo tem um limite.





Frase da Semana
"Garotas, mantenham as pernas fechadas e os livros abertos. Estou dizendo isso porque eu me importo. Temos que nos tornar uma geração mais inteligente" - Amar'e Stoudemire, sei lá deus em que contexto. 




- Você é LeBron James. Lida com acusações diárias de ser o máximo do egocentrismo na Terra, o que fazer para melhorar a imagem? Que tal um desenho animado em que quatro dos personagens são o próprio LeBron dublado por ele mesmo? YES! 




Sabe o que deve ser mais legal que o desenho do LeBron? Ver isso por 30 minutos sem parar.


- Uma das coisas que mais nos cobram no Bola Presa são textos sobre a história da NBA. Não é nossa proposta aqui e por isso deixamos meio de lado. Mas as pessoas gostam e isso fez o sucesso do falecido NBA Champions. Mas agora surgiu outro blog muito bom sobre a história da NBA, vale a pena acompanhar, é o The Classic NBA, todinho em português. Aos poucos tem tudo para virar uma enciclopédia sobre a liga.

- Vocês sabiam que o antigo dono do Hornets, o George Shinn, organiza uma grande oração cristã antes de todo jogo do time em casa? Logo antes do hino nacional. Desafio nossos leitores a discutir manifestações religiosas dentro da NBA de maneira inteligente nos comentários.


....
8 ou 80 - O cantinho das estatísticas desnecessárias
As estatísticas são colhidas em todo canto da Internet. Algumas em blogs, outras em sites, algumas na marra por conta própria. Mas a grande parte é coletada nas divulgações do Elias Sports Bureau e Basketball-Reference.com

- Quer mais um exemplo de como o Clippers é ruim? O time nunca (NUNCA!) teve uma sequência de 5 anos com pelo menos 50% de aproveitamento na história da franquia. O melhor período de 5 anos deles foi de 75 a 79 com 47%.  Quem mostra isso é esse estudo do Basketball-Reference analisando os melhores e piores períodos de 2, 3, 4, 5 e 6 anos de cada franquia da NBA. Dá pra perder umas horas brincando nisso aí.

- Existe uma estatística chamada "True Shooting Percentage" que é complicada, mas em resumo une todos os tipos diferentes de arremesso, dá pesos distintos a eles e chega a um aproveitamento "mais real" de cada jogador mesmo que sejam de características diferentes. A média de aproveitamento da NBA inteira é de 54% em TS%. Pois sabia que desde a mega troca do Magic sete de seus jogadores estão acima da média? Dwight, Nelson, Turkoglu, Richardson, Redick, Anderson e Bass. É muita coisa! O único bem abaixo, com 45%, é Gilbert Arenas.

- O senhor de idade Kurt Thomas tomou a água do Michael Jordan, pulou no DeLorean e marcou o seu primeiro jogo de 20 pontos depois de quase seis anos ontem, contra o Bucks. Foi o segundo maior hiato entre jogos de 20 pontos, atrás apenas de Anthony Carter que ficou 7 anos entre um jogo e outro com essa marca de pontos.

- Kevin Love continua pegando rebotes e quebrando recordes relacionados a rebotes (bocejo)

- Estatística absurdamente absurda do dia: Rudy Gay fez o arremesso da vitória contra o Raptors a 0.5 segundo do fim e logo depois deu um toco em Sundiata Gaines, que tentava vencer a partida. O último jogador a acertar um arremesso vencedor nos últimos 10 segundos de um jogo e depois garantir a vitória com um toco foi Amar'e Stoudemire em 2008. Um beijo na boca de quem pesquisou isso, genial!

- Na última sexta-feira o Grizzlies venceu o Rockets mesmo tendo tentado apenas 4 bolas de três pontos. O Grizz é o único time nas últimas duas temporadas a ter vencido jogos em que tentou menos de 5 bolas de três pontos.

- No mesmo dia o Bulls venceu o Mavs com 28 pontos de Derrick Rose. Mas ele precisou de 28 arremessos para isso, tendo acertado só 9 deles. Foi a terceira vez na temporada que Rose errou pelo menos 19 arremessos em um jogo, só Kobe (4) e LeBron (1) também estão no grupo dos teimosos. No mesmo jogo o Rose se tornou o terceiro jogador na última década a vencer um jogo mesmo sendo o único da equipe a passar dos dez pontos. O Lakers venceu o Mavs com 62 pontos de Kobe e mais ninguém com mais de 10 em 2005 e o LeBron fez 37 sem nenhuma ajuda dos companheiros em 2008.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Dono da Bola - Los Angeles Clippers

Sterling depois do churras com a galera do prédio


Falei do Los Angeles Clippers no último post e prometi um texto com o perfil do dono da equipe, Donald Sterling. Também aproveitei para postar esse texto sobre o cara feito pelo blog Grandes Ligas. O texto é bom e diz muito do que vou dizer aqui, mas promessa é promessa e precisamos continuar a parada série sobre donos de equipes.

Donald Sterling
(via: HoopsHype)

Temporadas no comando: 31
Playoffs: 4
Títulos de divisão: 0
Títulos de conferência: 0
Títulos da NBA: 0

Riqueza estimada: 500 milhões de dólares
Comprou o time por: 13 milhões de dólares (1981)
Valor atual da equipe: 295 milhões de dólares
Maior contrato oferecido: Elton Brand (US$82.1 milhões, 2003)
Técnicos contratados: 16 (Paul Silas, Jim Lynam, Don Chaney, Gene Shue, Don Casey, Mike Schuler, Larry Brown, Bob Weiss, Bill Fitch, Chris Ford, Jim Todd, Alvin Gentry, Dennis Johnson, Mike Dunleavy, Kim Hughes e Vinny Del Negro)

...
Você não leu errado, em 31 anos como dono do Los Angeles Clippers o Sr. Donald Sterling viu o seu time ir aos playoffs apenas 4 vezes. Nunca venceu título de divisão, conferência ou da liga. Ele também não é nenhum fanático bilionário que comprou o time por amar basquete e nem faz isso pelo dinheiro, o Clippers, apesar de estar na segunda maior cidade americana, é apenas o 24º time que mais rende dinheiro na NBA segundo a Forbes. O que faz Sterling prosseguir no cargo é um mistério.

Ele é de uma família de imigrantes judeus de Chicago, mas se mudou para Los Angeles com apenas 8 anos de idade. Lá ele estudou, se formou em Direito e começou a atuar como advogado e a investir no mercado imobiliário, que foi onde realmente se destacou e rapidamente construiu uma fortuna, hoje é o maior dono de terrenos em Beverly Hills. Já cheio da grana, em 1979, ele fez um grande investimento de 2.7 milhões de dólares em apartamentos de propriedade de Jerry Buss, que precisava desse dinheiro extra para finalizar a compra do Los Angeles Lakers. Pouco tempo depois Buss disse ao Sterling que ele deveria também comprar seu próprio time na NBA, conselho que acatou comprando o San Diego Clippers. A franquia tinha se mudado há poucos anos de Buffalo para San Diego, mas sem sucesso nas quadras e com a torcida local.

Em pouco tempo, 1984 para ser exato, Sterling já havia convencido a NBA a mudar a franquia para a sua cidade, Los Angeles. Embora a mudança tenha rendido alguns frutos em termos de público e curiosidade geral na cidade, o fracasso nas quadras continuou: Nos seis primeiros anos de Clippers em LA o melhor aproveitamento deles foi de 39%; e na temporada 86-87 eles somaram apenas 12 vitórias, a segunda pior marca da história. Ao mesmo tempo o Lakers fazia a rapa de títulos no Oeste e na NBA. O mais próximo de sucesso nessas 31 temporadas foi a segunda rodada nos playoffs de 2006 quando perderam para o Phoenix Suns em 7 jogos. Só. Fim.

Mas quanto um dono de time pode influenciar negativamente uma equipe? Afinal, em teoria ele só coloca o dinheiro e são General Managers, técnicos e jogadores que fazem o trabalho. Bom, olhe o que eu mesmo disse aqui sobre porque o Clippers, mesmo cheio de espaço salarial, não atraiu nenhum Free Agent de nome:

"Os motivos para não atrair jogadores de nome são vários: o time não ganha nada faz tempo, não tem um técnico que impressione os jogadores, não tem atenção da mídia, tem fama de perdedor e o seu dono, Donald Sterling, é um idiota que volta e meia faz comentários racistas, sexistas ou só idiotas mesmo. Nessa offseason ele comentou as contratações de Randy Foye e Ryan Gomes dizendo "Eu nunca ouvi falar desses caras, mas o que eu posso fazer se o técnico pediu?". Boa primeira impressão para os novos funcionários."

Dá pra imaginar a motivação de atuar para um dono desse? Claro que depois de um tempo você atua porque você quer vencer por conta própria, pelos companheiros e pelos fãs, mas é a pior primeira impressão para um novo funcionário na franquia. Mas fica pior que isso: Desde a temporada passada Sterling tem dado uma de Mark Cuban e fica perto do banco de reservas torcendo. Mas se "torcer" para o dono do Mavs significa incentivar os jogadores que ele paga, para Sterling é uma chance de gritar coisas como "Por que você tentou esse arremesso?", "O que você está fazendo em quadra?" e um singelo "Você está fora de forma!", esse olhando diretamente para o cara mais bem pago do time, Baron Davis. O jogador tentou evitar polêmica ao comentar o assunto, mas disse que a situação já estava difícil e ele ainda precisava "lutar batalhas desnecessárias".  Até mesmo o Chris Kaman, talvez o grande ponto positivo da temporada passada, recebeu críticas do dono do time durante os jogos. Sterling também foi a público no fim do ano passado dizer que se pudesse trocaria todos os jogadores e em uma das poucas visitas que fez ao vestiário só o fez para apontar para Al Thornton e chamá-lo de fominha e egoísta.

Está dando pra sacar como um dono pode influenciar o time negativamente? Nessa temporada ele voltou de novo a visitar seus empregados, dessa vez acompanhado de mulheres, para quem mostrava os jogadores se trocando e dizia "Veja que belos corpos negros". Pior, aconteceu mais de uma vez. Um cara de dentro do Clippers que não quis ser identificado disse ao Yahoo! que "O dono de um time tem que ser o cara que apoia todo mundo na franquia, quando ele não faz isso acaba com a confiança de todos". E faz sentido, quando seu chefe só te põe pra baixo você sai da zona de conforto, bate o desespero, o medo de ser demitido, de ter sua imagem manchada no mercado e tudo mais. É comum para todo tipo de profissão.

Como se não bastasse fazer isso só com os jogadores, fez também com o General Manager do time, o lendário jogador Elgin Baylor. Depois de trabalhar no time de 1986 até 2008, ele saiu da equipe e imediatamente processou Donald Sterling por racismo. A acusação é meio estranha, o Baylor cita casos de racismo contra ele e outros ao longo desses 22 anos que serviu ao time, mas por que contar tudo só quando é mandado embora? E não só isso, ele diz que nesse período de tempo o Clippers perdeu muitos jogadores negros bons porque o Sterling não os queria. Ele cita Danny Manning, Charles Smith, Michael Cage, Ron Harper, Dominique Wilkins e Corey Maggette. Bom, como o blog Clipsnation lembra, Cage foi trocado por outro negro, Gary Grant, uma troca que ainda foi considerada boa na época. Manning foi trocado por Dominique Wilkins em fim de carreira, outro negro. Maggette foi trocado depois de assinar uma extensão milionária com o próprio Clippers. O problema mesmo está em outro dado, o Clippers só assinou seis extensões de contrato com mais de 3 anos de duração nos 30 anos de Sterling! Só seis! Ou seja, seja branco, negro, amarelo ou azul, ninguém quer ficar no Clippers.

Mas voltando ao Elgin Baylor. O momento em que resolveu falar sobre o racismo do Sterling foi estranho, assim como esse argumento de que eles perderam jogadores, mas não quer dizer que ele partiu do nada. Sterling é mesmo racista se acreditarmos em todos os (muitos) depoimentos espalhados por aí. Baylor diz que o seu antigo chefe uma vez disse sobre Danny Manning que estava "Oferecendo muito dinheiro para um pobre garoto negro" e chegou ao cúmulo de comparar o seu time a uma fazenda "com garotos pobres do sul comandados por um treinador branco". Ou seja, o Baylor tinha razões para acusar Sterling de racismo, coisas ditas desde 20 anos atrás, mas só decidiu trazer a público depois que foi colocado de lado no comando do time, tendo suas funções aos poucos ocupadas pelo então técnico Mike Dunleavy. Embora embasado, ficou mais parecendo vingança do que qualquer outra coisa.

Fora do mundo do basquete a fama de Sterling também não é das melhores. Como descrito perfeitamente pelo site Deadspin em um momento Amélie Poulain, "Donald Sterling não gosta de: Mexicanos, negros e crianças. Gosta de: Coreanos e sexo oral".

Uma vez ele disse para uma das mulheres que cuidavam de um dos seus prédios que não queria inquilinos que "se diferenciassem muito de sua imagem". Com isso ele queria dizer que não queria negros, mexicanos, descendentes de mexicanos, crianças e nem pessoas que recebiam subsídios do governo para moradia. Segundo depoimentos de inquilinos, Sterling sabia que não podia negar moradia para essas pessoas, então resolvia o seu problema transformando a vida deles em um inferno. Ele recusava os cheques dados por eles para no dia seguinte acusá-los de não pagamento, aparecia com constantes visitas surpresas de inspeção para achar qualquer tipo de irregularidade, ameaçava sempre de expulsão e nunca providenciava consertos para qualquer tipo de problema na infraestrutura dos apartamentos. Eventualmente, exaustos, eles acabavam saindo. Segundo o depoimento de uma funcionária de Sterling, ele dizia que os mexicanos só sentam por aí fumando e bebendo o dia todo, enquanto negros cheiravam mal e não tinham higiene.

Existe o caso de uma mulher idosa e negra com problemas de saúde e parte do corpo paralisado que tinha um vazamento constantes no seu apartamento (ela tinha que usar um saco plástico ao invés de privada e tinha o apartamento alagado por muitas vezes). Ela pediu para a empresa de Sterling consertar, o que ele respondeu para a sua funcionária com "Despeje a vagabunda". Já em compensação gostava de inquilinos coreanos porque "eles aceitam qualquer condição que eu ofereço e não importa o que aconteça sempre pagam". A admiração pela cultura asiática era tamanha que ele pedia que seus funcionários pedissem desculpas abaixando a cabeça como nos cumprimentos japoneses e dizendo "Desculpe por tê-lo desapontado, Sr. Sterling, farei melhor da próxima vez".

Quando precisava de funcionários para trabalhar nos jogos do Clippers o próprio Sterling colocava anúncios nos jornais pedindo mulheres bonitas para trabalhar como hostess na entrada do STAPLES Center ou mesmo para festas organizadas pela franquia. Ele pedia que as garotas levassem fotos sensuais e o próprio Sterling fazia a seleção de quem seria contratada ou não, fazendo-as passar por situações constrangedoras. Uma mulher que uma vez tentou o emprego disse que ele pediu fotos semi-nuas e deu a entender que queria mais, dando um "sorriso vazio" quando teve o pedido negado. Outra contou que "Trabalhar para o Sr.Sterling foi o trabalho mais desmoralizante que eu já tive". O caso mais extremo foi de Christine Jaksy, funcionária que o processou por assédio sexual. Ela disse que ele não só tentava relações com ela como pedia que ela arranjasse massagistas dispostas a fazer sexo oral nele. O processo foi encerrado quando ambas as partes chegaram em um acordo financeiro.

Racistas existem em todos os lugares, é fato. Pessoas idiotas que acham que podem tudo porque tem dinheiro também. Sterling não é exceção ou novidade em nenhum dos casos, mas é especial por ser o dono de time mais fracassado em toda a NBA, disparado, e ao mesmo tempo o que tem o pior histórico em questão de comportamento. Por que será que a NBA, que é capaz de multar e suspender jogadores que dirigem bêbados nas férias ou brigam em uma casa noturna, não faz nada contra um dono de equipe com tantas acusações de racismo e mal comportamento dentro e fora do time? Ele também não mancha a imagem perfeitinha da NBA? Difícil sugerir o que fazer, não sei nada da lei e dos contratos entre as franquias e a NBA, mas algum tipo de pressão teria que existir.

Na página sobre Donald Sterling no site do LA Clippers não há nenhuma dessas informações, mas você descobre que ele ganhou o prêmio BBA de Humanitário do Ano em 2008 e o prêmio de "Herói das Crianças" em 2006.

.....
Outros textos da coleção "Dono da Bola" sobre donos de equipes:
Philadelphia 76ers - Ed Snider
Boston Celtics - Wyc Grousbeck
Washington Wizards - Abe Pollin

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O time do momento

A difícil vida de Blake Griffin


Não deixem a antepenúltima posição do Oeste e a 7ª pior colocação na NBA te enganarem, o LA Clippers é hoje um dos grandes times da liga. Talvez não dure muito tempo, a maldição está aí para acontecer a qualquer segundo e estragar tudo, mas temos que aproveitar o momento para enaltecer como esse time está jogando bem. E eu estou falando do time mesmo, não só do novo queridinho do público, Blake Griffin.

Se formos olhar no calendário e buscarmos os jogos desde exatamente um mês atrás, eles tem 11 vitórias e 5 derrotas nesse período, se lembrarmos que eles tem hoje 16 vitórias e 26 derrotas no total fica fácil fazer a conta e descobrir como o time era horripilante antes dessa boa fase. E a pergunta que não quer calar é o que diabos aconteceu para o time começar a vencer de lá pra cá?

Certamente não foi um calendário fácil como aqueles que motivaram o começo de temporada forte do Lakers ou aquela sequência de vitórias do Knicks, só lembrar que no meio do caminho eles bateram o Bulls, o Heat e o Lakers, sendo o primeiro em Chicago! E se você olhar os números, dá pra ver que eles melhoraram em tudo. O número de pontos sofridos caiu de 105 por jogo em novembro para 95 em dezembo, nesse período o número de pontos marcados caiu um pouco de 98 para 96, mas em compensação em Janeiro pulou para 106 por partida. O número de assistências também sobe mês a mês, junto com a dos tocos e tudo mais que pode ser mensurado em um jogo de basquete.

O primeiro instinto é celebrar a temporada maravilhosa que fazem dois jovens jogadores, Eric Gordon e Blake Griffin. O Eric Gordon é a estrela silenciosa da equipe, sem ninguém dar muita atenção pra ele (afinal joga no Clippers e tem a sombra colossal do Griffin) tem média de 24 pontos por jogo, o que faz dele o 8º cestinha da temporada atrás de Durant, Amar'e, Kobe, LeBron, Wade, Ellis e Rose. Ou seja, juntinho de todo mundo que está todos os dias aparecendo nas listas de MVP da temporada. Completando o Top 10 de cestinhas estão Dirk Nowitzki e Carmelo Anthony, o que faz de Eric Gordon, disparado, o cara mais desconhecido entre os grandes pontuadores da NBA na atualidade.

O Eric Gordon é mais um dos jogadores que chegaram cheios de confiança depois do mundial da Turquia vencido pelos EUA, junto com Russell Westbrook, Kevin Durant, Steph Curry e outros que vão ser exemplo por anos de como jogar na offseason pode render bons frutos ao invés de ser apenas risco de contusão. O Luis Scola já disse que jogar durante as férias ajuda ele a não perder o ritmo e eu não tenho dúvidas de que seria bom para o Tiago Splitter jogar pela seleção no pré-olímpico só para se mexer depois de tantos meses esquentando banco. Mas além disso, Gordon funciona no Clippers porque ele é o tipo de jogador perfeito para atuar ao lado de jogadores do tipo de Blake Griffin e Baron Davis. Ele é bom arremessador, abre espaços na quadra e não precisa ter a bola na mão o tempo inteiro para ser efetivo. Gordon já seria útil só arremessando, que era basicamente o que ele fazia até o ano passado, mas agora ele também está batendo pra dentro e se movimentando muito bem sem a bola. Com esse tipo de jogo você dificilmente vê ele forçando bolas idiotas, o que é raro para alguém que faz tantos pontos. É um daqueles casos de role players que são tão bons que são estrelas, mas com as características de role players. Confuso? É como aquela garota que nem é tão bonita, mas se veste tão bem e é tão engraçada que parece uma Miss Universo. Sim, você pensou naquela menina da sua classe e agora entendeu.

A verdadeira garota mais linda da escola é o Blake Griffin. Não dá pra descrever o impacto que o garoto está tendo na NBA e o quanto ele é espetacular. As enterradas impressionam mais do que tudo, é claro, daria pra fazer um Top 50 de melhores jogadas dele todas de altíssimo nível e só estamos no meio da temporada! Mas tem muito mais além disso, ele tem um bom arremesso de meia distância e sabe usar a tabela como o Tim Duncan, tem um giro para infiltrar que é muito eficiente, é rápido e, o que mais me surpreendeu, bate a bola como um armador, dribla como o bom e jovem Kevin Garnett. E se eu usei Duncan e Garnett para dar parâmetros do estilo e qualidade de jogo de um novato já deu pra sacar, ele é um absurdo de bom! Vale lembrar, para mostrar o nível do rapaz, como ele foi anulado por Gasol e Odom no primeiro tempo da partida contra o Lakers e voltou no segundo tempo com outro jogo, outras jogadas, outra estratégia e ganhou o jogo para o Clippers. Essa capacidade de adaptação para um novato é coisa de outro mundo.

Só pra não dizer que ele é perfeito e o melhor de todos desde já, como algumas pessoas insinuam, ele tem seus defeitos. Muitas vezes ele falha no posicionamento de rebote defensivo (embora no ataque seja fantástico) e para alguém com esse tamanho e impulsão a média de apenas 0.6 tocos por jogo é decepcionante. Como vimos ontem contra o cada vez melhor LaMarcus Aldridge, ele ainda tem uns macetes para pegar na defesa também. Mas sinceramente, é o tipo de comentário focado nos detalhes, uma coisinha ou outra para ajustar com o tempo e em poucos anos se tornar incontestável.

Um blog gringo que eu sempre recomendo aqui é o Basketbawful, que é sem dúvida o mais engraçado sobre NBA. Uma das características do blog, a principal na verdade, é apontar tudo o que de ruim acontece na liga, todo dia tem um resumo deixando claro as merdas que cada um faz. Mesmo quem é bom e joga muito tem aquele detalhe negativo exposto para o nosso entretenimento. Sem contar que eles são sempre céticos e pessimistas, não dão elogios de graça para ninguém além do ídolo máximo do blog, Larry Bird.

Porém, eis o que eles escreveram há poucos dias quando Blake Griffin marcou 47 pontos contra o Indiana Pacers, maior marca de um jogador nessa temporada:

"Pense em todos os jogadores que deveriam dar uma reviravolta no Clippers: Bill Walton, Danny Manning, Antonio McDyess, Michael Olowokandi, Lamar Odom, Darius Miles, Elton Brand, Shaun Livingston... tantos fracassos.


Mas o Griffin é de verdade. O garoto é impressionante. E eu digo isso mesmo sendo o mais cínico da blogosfera em relação a tudo dentro da NBA. Não é só o seu talento, mas a sua atitude também. Eu sou um fã de Blake Griffin, ele me fez assistir ao Clippers.


E eu nunca achei que isso fosse acontecer. Nunca."


Esse pequeno texto deixa claro como é difícil se destacar no Clippers, não basta ter talento. E foca também na atitude do Griffin. Ele não é medroso e aceita derrotas como todos dentro da franquia, ele é agressivo, encara depois da enterrada, infla os companheiros de motivação a cada jogada, chama o jogo no final das partidas (e com sucesso, ao contrário do DeMarcus Cousins). Foi essa atitude positiva do Griffin, a mensagem que ele passa de que é um jogador que tem talento e quer vencer, que provocou a grande mudança na temporada Clipperiana.

O recorde patético mudou para um dos melhores da NBA quando Baron Davis voltou ao time e começou a jogar o seu melhor basquete desde que ainda não brigava com Don Nelson no Golden State Warriors. No começo dessa temporada o B-Diddy foi afastado do time pelo técnico Vinny Del Negro por estar fora de forma e não ter treinado na offseason. Até fizemos piada aqui quando ele disse que quando era novo ficava em forma rapidinho e agora se surpreende em como demora para ficar magro, é duro ficar velho. Mas depois do período fora ele recuperou (um pouco) a boa forma e, mais do que isso, voltou a ter vontade de jogar. Baron Davis é um daqueles jogadores com o ego difícil de controlar e que se acha o centro do mundo, se as coisas não são do jeito dele, dá o fora, ignora. Quando o resto do time não era bom ele não se dava ao trabalho de tentar melhorar as coisas, simplesmente deixava pra lá, mas agora, vendo que esse elenco com Eric Gordon, Blake Griffin e outras promessas como Al-Farouq Aminu e especialmente DeAndre Jordan está jogando bem, quer fazer parte da festa.

Dá pra questionar suas atitudes, sua personalidade, mas não o seu basquete. Quando ele tem aquele arremesso de meia distância funcionado ele é imparável nos pick-and-rolls e quando não está bocejando pensando no que vai comer quando voltar pra casa pode defender como um dos melhores. É mais um como Lamar Odom ou Vince Carter, é um dos melhores, mas só se valer a pena o esforço e a fadiga.

Para esse ano provavelmente não vai dar para ir para os playoffs. No Oeste é provável que os times precisem de 48 a 50 vitórias para estar em oitavo lugar e o Clippers tem 16 vitórias faltando 40 jogos. Se eles conseguirem 32 vitórias em 40 jogos não só se classificam como já entram favoritos a ganhar de todo mundo, porque seria heróico. Mas não só fica a boa impressão para o próximo ano como vale a pena vê-los em ação só pelo prazer de ver um time que agora tem padrão de jogo, jogadas bonitas e jogadores criativos. O resto dos times bons você vê nos playoffs, para a temporada a melhor pedida é pegar o League Pass e procurar o jogo do Clippers. E, juro, não estou sendo irônico.

Os 47 pontos de Griffin contra o Pacers:



E só pra lembrar que o Eric Gordon faz mais do que só bolas de 3




Ah, o Clippers tem um lado sombrio que vai além da sua maldição de fracassos. O dono do time Donald Sterling, para saber mais dele vai ter um perfil do cara por aqui nesse fim de semana. E vocês sabem, promessa do Bola Presa... (é furada, mas vou me esforçar!)

Atualização: Me avisaram nos comentários que o Blog Grandes Ligas fez um texto sobre o Donald Sterling. É muito bom, conta bastante dos absurdos que esse cara faz por aí! Ótima leitura.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

De volta pra casa

O Turkoglu é o da esquerda

A situação do Turkoglu no Suns era a maior furada. Tudo que ele sabia fazer era redundante na equipe, e tudo aquilo de que a equipe precisava era justamente o que o turco não podia fazer. O Turkoglu não é nenhum gênio, mas ele é um baita de um jogador se você colocar a bola em suas mãos e deixar que ele arme o jogo, distribua a bola quando quiser, infiltre para criar o próprio arremesso e fuja do garrafão para arremessar de três. No Suns, apenas a parte dos arremessos de três poderia ser utilizada, porque o responsável por segurar a bola e armar o jogo é o soberano Nash, e o time precisava desesperadamente de uma presença no garrafão - nem que fosse apenas na defesa, vai. O turco simplesmente não se encaixava no Suns, assim como não tinha se encaixado no Raptors. Quando postei sobre o jogador um tempo atrás, disse que ele não tinha esperanças de encontrar um lar já que parecia combinar apenas com o estilo de jogo do seu ex-time, o Magic, de onde havia saído para entupir as orelhas de dinheiro.

Mas como diz o filósofo Badauí, "o mundo dá voltas" e eis que o Turkoglu voltou para o Magic em uma troca gigante, que comentamos bastante aqui. Apesar da bagunça, de tanta gente nova, de perder dois titulares e de não conseguir treinar com o novo elenco, o Magic ganhou 11 de suas últimas 16 partidas desde a troca. Todo mundo esperava que os novos jogadores batessem cabeça, que o Arenas apontasse uma arma para alguém ou trocasse a água de todo mundo por xixi, que demorasse para o técnico Stan Van Gundy encontrar um novo padrão de jogo e uma rotação definida. Mas foi tudo mais simples do que parecia, em parte porque o técnico com cara de pizzaiolo foi bastante conservador e tentou manter tudo o mais próximo possível de como era, mas também em parte porque o Turkoglu se sentiu novamente em casa.

As médias do turco não lembram as dos seus antigos momentos no Magic, agora o time é forrado de pontuadores e Turkoglu não tem mais que segurar o ataque nas costas com 20 pontos por jogo, mas só de ter a bola nas mãos e voltar a armar já podemos ver seus olhinhos brilhando. E a melhora da equipe ao colocar a armação nas mãos do turco é gigante simplesmente por um motivo: ele consegue acionar o Dwight Howard embaixo da cesta. Quando a armação cabe ao Jameer Nelson, por exemplo, a impressão é sempre de que a prioridade é o arremesso. De fato, sobra espaço para arremessar (especialmente após algum corta-luz do Dwight) e, quando a marcação aperta no armador, em geral isso significa que outro arremessador está livre para receber a bola. Quando a equipe precisa de agressividade, o que se cobra é que Jameer Nelson ataque mais a cesta, segurando mais a bola e assumindo a responsabilidade. Dwight Howard só é acionado então no início das jogadas quase como um plano secundário, em geral com apenas um pé dentro do garrafão, de costas para a cesta. Quando o jogo se aproxima do final, sequer é acionado porque - como eu insisto em dizer, enchendo o saco do pivô - não consegue converter lances livres, sofre faltas constantemente, e tende a perder a bola tentando infiltrar no garrafão. Não tenho nenhuma dúvida de que, no final dos jogos, o Magic é um time melhor sem Dwight em quadra. Mas o Turkoglu mudou tudo isso com sua capacidade de colocar a bola nas mãos do Dwight embaixo da cesta (ou em cima dela, numa quantidade enorme de pontes-aéreas). Num elenco de arremessadores e pontuadores que não confiam em seu pivô para definir jogos, o Turkoglu surpreende com passes longos, altos, que colocam Dwight de frente para a cesta sempre em possibilidade de finalização. Não é à toa que o Turkoglu tem agora a melhor média de assistências da carreira, e que a média de pontos do Dwight tem subido cada vez mais (é de quase 30 pontos nós últimos 5 jogos).

O problema não é bem o tipo de jogador que o Dwight Howard é, mas que tipo de jogador ele e seus companheiros pensam que ele é. Se continuarem achando que ele pode jogar de costas para a cesta fora do garrafão, acertando arremessos longos usando a tabela e ganchos em movimento, batendo bola para cima da marcação, teremos apenas a constatação de suas dificuldades, da falta de evolução em seu jogo e de como ele compromete uma equipe no ataque nos momentos importantes de um jogo apertado. Admitir os problemas do jogo do Dwight é o primeiro passo para explorar suas qualidades e saber usá-lo de forma correta, algo que o Turkoglu parece perceber agora. O Dwight tem que receber mais a bola, mas no alto, dentro do garrafão, nas costas dos defensores - e não fora do garrafão pra tentar imitar o Duncan.

Esse Magic que aciona o Dwight Howard em melhores situações de arremesso é muito mais eficiente. Quanto mais a defesa adversária se preocupa com o miolo do garrafão, mais difícil é dobrar a marcação no pivô com eficiência e mais espaço sobra para os arremessadores. Jameer Nelson agora tem carta branca para arremessar o quanto quiser, especialmente quando o Turkoglu assume a armação, e Jason Richardson já nasceu arremessando a placenta na lata de lixo, para ele o esquema tático do Magic é muito natural. A única coisa mais diferente nesse grupo é a entrada do Brandon Bass como titular no garrafão, algo de que eu gosto bastante mas que muda o desenho do Magic em quadra mais do que o Van Gundy acha saudável. Seu forte é o jogo de meia distância, algo que falta no Magic e que o técnico abomina, mas que funciona muito bem especialmente com o turco cuidando da armação. Mas o time sempre pode voltar para o esquema tático antigo simplesmente colocando o Ryan Anderson em quadra, que sempre foi um clone do Rashard Lewis e agora com mais minutos conseguiu provar que pode manter os mesmos números do seu sósia mais famoso (e mais caro). O Ryan Anderson também é um especialista em três pontos que alarga a marcação e abre mais espaço para o Dwight, não demanda a bola e quebra um galho na defesa. Com a falta de treinos e as mudanças tantas no elenco, toda vez que o Stan Van Gundy quer voltar a um ar retrô, à segurança dos bons e velhos tempos, coloca o Ryan Anderson na quadra. É uma espécie de estabilidade nostálgica que tem funcionado bem e ainda joga na cara do Rashard Lewis o quanto ele era desnecessário pra esse Magic que pode colocar qualquer outro arremessador de três mais altinho para ocupar seu lugar.

Quem ainda não se encaixou no grupo foi o Arenas, mas o Van Gundy também não está muito disposto a arriscar a estabilidade do elenco para dar mais minutos ao armador. A prioridade é não colocar Jameer Nelson e Arenas juntos em quadra, para assim garantir a armação do Turkoglu que vem dando resultado e os minutos do JJ Redick, que finalmente ganhou a confiança do técnico nos arremessos e na defesa. Uma escalação mais baixa, que colocaria Arenas em quadra junto com os outros tantos armadores, é cada vez mais deixada de lado para que o Ryan Anderson possa jogar mais e mais minutos e manter o padrão tático do Magic de uns tempos atrás. Resta ao Arenas, então, aproveitar os minutos limitados e decidir se ele será armador ou arremessador, porque a dúvida tem tornado seu jogo bastante inseguro e inconsistente. Com mais tempo de time tudo deve ficar mais confortável para ele, mas nunca chegará ao nível de conforto que o Turkoglu experimenta ao estar em um esquema tático que se aproveita de todas as suas qualidades e camufla todas as suas dificuldades. Esse é o tipo de coisa que faz a carreira de um jogador, que lhe garante contratos milionários, que faz a gente achar o jogador espetacular, até que de repente mude de time para uma situação diferente e todos os seus defeitos sejam expostos e nos deixem com cara de otário. Toda essa bobagem de "que jogador é melhor, Deron Williams ou Chris Paul" nunca leva em conta que os esquemas táticos são, em geral, os grandes responsáveis pelo rendimento de um jogador. Coloque o Deron no Hornets e o Chris Paul no Jazz e subitamente teremos dois jogadores muito piores do que estamos acostumados a ver.

Um exemplo ótimo para isso é o Tracy McGrady. Já foi um dos melhores jogadores do planeta nos seus tempos de Magic e de Houston, até que durante uma de suas trilhões de lesões o Houston se tornou um time veloz, de contra-ataques, de jogo coletivo, sem ninguém segurando a bola, e aí a simples ideia de que o T-Mac pudesse voltar às quadras dava calafrios na espinha do técnico Rick Adelman. Nas poucas vezes em que pisou na quadra após a lesão, T-Mac ainda parecia um bom jogador, mas lento, sem explosão, com a bola nas mãos - incapaz de acompanhar o ritmo da equipe ou de manter o jogo fluindo. Parecia um velhinho caquético tomando purê de maçã na veia. Quando foi mandado para o Knicks, parecia ainda mais lento no esquema do Mike D'Antoni, e a tendência da equipe em arremessar de três apenas expôs seus problemas com o arremesso de média distância. Era um jogador acabado. Mas floresceu meio sem querer no esquema tático como um excelente passador.

É praticamente impossível julgar tudo aquilo que um jogador sabe e não sabe fazer fora de um esquema tático que não favoreça cada coisa em especial. Um jogador pode parecer um bom arremessador de três, mas num esquema que foque nisso podemos descobrir que ele estava limitado a um tipo específico de arremesso, apenas em contra-ataques, por exemplo. Agora está na moda dizer que o Carmelo Anthony é "unidimensional", ou seja, que só sabe fazer uma única coisa: pontuar. Como saber que ele não seria diferente em um esquema que lhe pedisse para passar a bola ou jogar mais dentro do garrafão? Tracy McGrady já foi chamado constantemente de "fominha" e agora vê a carreira dando novamente sinais de vida justamente porque está jogando como armador no Pistons. T-Mac está mais lento, não tem mais a impulsão que tinha nos arremessos e nem a potência para invadir o garrafão e cravar na cabeça de todo mundo, mas ele é um jogador inteligente e sabe colocar a bola onde quer. Em qualquer equipe ele seria usado como um pontuador e então sua lentidão seria exposta, tornando-o imprestável. No Pistons, em que nenhum dos armadores tem como foco passar a bola (Rodney Stuckey e Will Bynum atacam a cesta, Ben Gordon arremessa até a mãe), Tracy McGrady é o mais perto que se pode conseguir de um armador puro, e aí não precisa de velocidade ou de potência - o Nash não nos ensinou que dá pra ser o melhor armador da NBA sem sequer sair do chão? O que vemos no McGrady agora é sua inteligência, sua visão de jogo, seus macetes de jogador velho que sabe como encontrar espaços, forçar contato, cavar faltas. Sua carreira só não foi para a privada porque o Pistons não faz sentido e é um time em reconstrução disposto a dar 30 minutos por noite para um jogador lesionado de mais de 30 anos, e numa posição em que ele ainda pode brilhar apenas porque o elenco inteiro não tem um único armador capaz de armar o jogo.

O que não faltou nos últimos tempos foi gente metendo o pau no Turkoglu, dizendo que ele fedia. Não é o caso. Seus únicos grandes momentos no Raptors foram quando deixaram que ele jogasse como jogava no Magic, e aí vimos que ele pode render um bocado. Para o Raptors não valia a pena desmontar o esquema tático por um único jogador, e fazer o mesmo no Suns seria podar o jogo do Nash, que é a grande estrela. Se o carinha chegou na NBA, se assinou um contrato milionário, é porque é capaz de render em alto nível em alguma situação, em algum esquema tático. Cabe às equipes ter a noção de que o cara não vai ser bom em qualquer time, é preciso saber ler exatamente quais são as qualidades maximizadas pelo esquema. Se isso não for feito, vai ter ainda muito time contratando o Turkoglu e descobrindo, de um dia para o outro, que ele é apenas um turco que se movimenta em câmera lenta. Do mesmo jeito que vai ter gente insistindo que o Dwight tem que aprender a arremessar de fora, usando a tabela.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Por que o Oeste é melhor?

Incrível, mas Daryl Morey, esse branquelo, pode ser uma das razões


Antes dessa temporada começar muita gente clamou que era o ano em que o Leste finalmente recuperaria o seu domínio sobre o Oeste. Essa foi a regra durante os anos 90 e acabou logo após a aposentadoria de Michael Jordan; desde a temporada 1999-2000 o Oeste sempre vence a maioria dos jogos contra os adversários da sua conferência oposta. Quem previu as mudanças estava de olho na má campanha do Spurs no ano passado, no Jazz perdendo Carlos Boozer e outros times que em teoria estariam decadência. Ao mesmo tempo o Heat emergia como um time a beirar as 70 vitórias, o Knicks estava mais forte e até fracassos como Wizards e Nets tinham as duas primeiras escolhas no Draft para dar uma voltar por cima.

Metade da temporada chegando nessa semana e o que vemos é o Oeste ainda vencendo 55% dos confrontos. E ,de novo, vemos times com 40% de aproveitamento dentro da zona de playoff do Leste enquanto no Oeste você precisa de mais de 50% para estar no oitavo lugar com três times bons no seu cangote. Sim, o Leste talvez tenha candidatos mais fortes ao título com o Orlando Magic, Miami Heat e Boston Celtics, mas como um todo ainda está muito distante.

Eu comecei a pensar nesse assunto porque estou assistindo a muitos jogos do Chicago Bulls nessa temporada e é impressionante como o Carlos Boozer domina o jogo com muito mais facilidade do que fazia quando enfrentava mais times do Oeste. Dos 82 jogos que um time faz na temporada, são 30 contra os da conferência oposta e 52 dentro da própria, então dá pra sentir a diferença. Ver jogos do Boozer ou de qualquer outro jogador de garrafão do nível (alto) dele contra Indiana Pacers, Washington Wizards, New Jersey Nets ou Toronto Raptors é quase desleal. Quem está acompanhando o Amar'e Stoudemire de perto deve ter percebido a mesma coisa.

Uma conferência ter jogadores de garrafão melhores que a outra é normal, é difícil manter um equilíbrio exato sempre, o que surpreende é como a superioridade já dura uma década. Foi de 99 a 2003 com Chris Webber, Tim Duncan, David Robinson, Rasheed Wallace, Kevin Garnett e Shaquille O'Neal, depois os mesmos e mais a ascenção de Dirk Nowitzki, Amar'e Stoudemire e Yao Ming e ainda o bom começo de carreira de outros que são os que dominam hoje, como David WestPau Gasol e Zach Randolph. E quando alguns dos bons do Oeste como Amar'e e Boozer vão para o Leste, aparecem Kevin Love, Blake Griffin e LaMarcus Aldridge. Aliás, esse último merece um destaque: durante os primeiros anos de carreira ele era mais um membro da comunidade Channing Frye de alas de força com alergia ao garrafão (vai saber do que aquela tinta é feita!), mas nessa temporada é outro jogador. Ataca a cesta, busca contato, sofre faltas e tem enterrado muito. Achou o seu Stoudemire interior e tem feito estragos. Quem viu aquele ótimo jogo entre Blazers e Heat viu como o Chris Bosh não teve chance contra a força do Aldridge, a piada nos EUA é que ele finalmente descobriu o que quer dizer o "Power" em "Power Forward".

Como já comentei aqui algumas vezes, todos os times campeões desde 98-99 tem um garrafão muito forte com pelo menos um jogador fora de série. Shaq e Duncan tem 4 títulos cada, Gasol/Bynum tem dois juntos, Garnett tem um e fechando a conta tinha aquela fortaleza defensiva que era a combinação de Rasheed e Ben Wallace. Dá pra dizer que, portanto, o Leste não é tão bom quanto o Oeste porque não tem jogadores de garrafão tão fortes? E que no fim das contas eles fazem uma diferença no jogo grande demais para jogadores em outras posições compensar? Foi meu primeiro palpite.

Fui então no site Hoopstats dar uma olhada nas estatísticas que eles tem sobre as melhores duplas de armação da NBA. Eles olham os números dos dois titulares na posição de cada time e fazem uma conta de eficiência, que usa dados de pontos, rebotes, assistências, aproveitamento de arremessos e outros números. Segundo esses dados a melhor dupla de armação da NBA é Tony Parker e Manu Ginóbili, seguida de Dwyane Wade e Carlos Arroyo, mas com quase só os números do Wade sozinho. Completando o Top 10 tem ainda Bulls, Celtics, Suns, Hornets, Mavs, Thunder, Jazz e Rockets. É um resumo do que é a NBA, alguns times do Leste lá no topo, mas depois disso só Oeste sem parar. O próximo time do Leste a aparecer é o Knicks em 13º.

Ou seja, a minha teoria dos melhores jogadores de garrafão é só meia verdade. Não só o Oeste tem os melhores jogadores de garrafão como tem também as melhores duplas de armação! E outros números mostram a mesma coisa: Entre os times que mais fazem ponto no garrafão o Leste tem apenas 4 representantes (Raptors, Celtics, Knicks e Bulls) no Top 15, enquanto em bolas de 3 pontos por jogo o Leste tem só 6 (Magic, Knicks, Pacers, Heat, Hawks e Cavs) entre os 15 melhores. Essa constatação da superioridade do Oeste por tanto tempo é perturbadora porque a NBA funciona de um jeito em que os piores times tem a chance de se reforçar ao ganhar posições boas no Draft do ano seguinte. Resolvi então ver quantas escolhas Top 3 o Leste teve desde o ano 2000, afinal vai que tiveram azar nos sorteios. Não, nesses 11 anos foram 33 jogadores Top 3 e o Leste teve direito a 19 deles, quase dois terços.

Mas mesmo com essa vantagem é difícil afirmar que eles saíram com os melhores atletas. Em 2001 por exemplo o Leste levou pra casa Kwame Brown com a escolha 1, o Oeste ganhou Pau Gasol com a escolha 3. A escolha 2 era do Clippers, mas a trocou para o Bulls. Na troca o time do Leste ganhou um jovem e ruim Tyson Chandler enquanto o Oeste tinha Elton Brand em sua melhor forma. Em 2002 o Oeste levou Yao Ming, o Leste Jay Williams, o promissor armador que nunca mais jogou depois de um acidente de moto. Em 2005 dois times do Leste nas duas primeiras posições, Bucks e Hawks. Poderiam ter levado Chris Paul e Deron Williams, mas escolheram Andrew Bogut e Marvin Williams. Em 2006 o Bobcats escolheu Adam Morrison deixando Brandon Roy cair para o Portland, do Oeste.

O Leste não errou tudo, claro, Derrick Rose, LeBron James e Andrea Bargnani estão por lá, por exemplo. Mas analisar ano por ano é uma chance de ver como muitos dos times ruins do Leste tiveram oportunidades de conseguir bons jogadores e deixaram escapar. Alguns, como o Knicks, erraram várias vezes seguidas e perderam chances enormes de se reformular. No Oeste é mais difícil ver um time errar tantas vezes assim, em todo esse período de tempo todas as 15 franquias estiveram pelo menos uma vez nos playoffs, mas a maioria mais de uma vez e com times que fizeram mais que figuração. No Leste, ao contrário, você vê times penando por mais tempo e quando vão para a pós-temporada é na sorte, às vezes mal chegando a 40 vitórias e apanhando de cinta na pós-temporada.

O objetivo da minha pesquisa era descobrir porque o Oeste é melhor há tanto tempo em uma liga que tem um formato em que as duas conferências deveriam ser equilibradas. Sempre com uma melhor, natural, mas não por tanto tempo. Tentei pensar em detalhes, como sorte no sorteio do Draft ou força maior no garrafão, mas depois de passar horas e horas procurando e pensando, eu só consigo pensar em uma resposta: Incompetência.

Vamos pensar no Phoenix Suns, um time que passou longe de ter qualquer escolha alta nos Drafts de todos esses anos. Foram competentes ao conseguir o Amar'e Stoudemire em uma 9ª posição em 2002, conseguiram se livrar do câncer que era o Stephon Marbury (mandaram pro Leste) e aí trouxeram o Steve Nash como Free Agent e revolucionaram o time. Mesmo quando sofreram com perdas importantes (Joe Johnson, contusões do Amar'e) foram bons para achar as peças certas. Conseguem pensar em um equivalente do Leste? Eu penso no Hawks, mas mesmo assim precisaram de uma escolha Top 3 para levar o Al Horford e nunca foram além de serem varridos na segunda rodada, Joe Johnson não teve tanto impacto quanto Nash. E tem o Spurs, time que sempre esteve no topo e quando ameaçou sair nunca se desesperou e manteve a base intacta. O equivalente seria o Pistons, até bater o desespero e eles trocarem o Chauncey Billups pelo Allen Iverson, lá foi o começo do fim.

Gosto de lembrar do exemplo do Memphis Grizzlies. Muita gente faz piada da troca do Pau Gasol (a gente fez muita por aqui!), mas na verdade eles tiveram um bom momento com o espanhol como líder, foram três anos seguidos de playoff e quando parou de render, começaram uma reconstrução. Uma que vem dando muito certo! Ganharam o Marc Gasol na troca e o contrato expirante do Kwame Brown possibilitou a troca pelo Zach Randolph, que tem sido um sucesso. O único time do Oeste que eu realmente acho que fracassa por incompetência mais do que qualquer coisa é o Wolves, que só colocou um elenco decente de apoio para o Garnett uma vez na vida e depois que o fez trocou Sam Cassell por Marko Jaric-Lima e jogou tudo no lixo de novo. Pelo menos começaram a compensar mandando um pacote de bolacha passatempo sem recheio pelo Michael Beasley.

Em compensação, é bem mais fácil achar times que cometem um erro atrás do outro no Leste: O Knicks do Isiah Thomas é hors concours, mas ainda tem o Raptors que nunca conseguiu colocar gente boa do lado do Chris Bosh e insiste nessa história de ser um time cheio de estrangeiros medianos. O Cavs teve o jogador mais espetacular da história da franquia na mão e o melhor que colocaram do seu lado foi o Mo Williams, o Pacers demorou quase 6 anos para começar a montar um time mais ou menos depois do desastre da briga em Detroit. O Sixers está sempre atolado em contratos ruins e quando finalmente participou de uma disputa por Free Agents saiu com o Elton Brand velho, machucado e sem jogar metade do que fazia nos bons tempos. E tem o Chicago Bulls, que nesses anos passou pela depressão pós-Jordan, pelo fracasso dos Baby Bulls (Eddy Curry e Tyson Chandler nunca os levaram a lugar nenhum), a triste época quando o Jamal Crawford era seu melhor jogador, as eternas promessas de "ano que vem será melhor" com Kirk Hinrich e Ben Gordon, para finalmente tomar vergonha na cara e contratar um jogador decente de garrafão. Como disse no começo do post, o Boozer faz estragos no Leste e a frase "O Bulls precisa de um jogador de garrafão" é a segunda que eu mais disse na vida depois de "Ah, se eu pegasse a Alinne Moraes".  Se um blogueiro brasileiro sabia, por que eles não sabiam? E se sabiam, por que demoraram 10 anos pra arranjar um? Incompetência.

Gente que prega que o Leste é melhor ainda aparecem, volta e meia leio sobre isso na imprensa americana. Caem na lorota inspirada por Celtics (que também teve seu período negro, devidamente compensado), Magic e outros poucos times que tem noção do que estão fazendo na construção de um time. E aliás, até alguns dos bons times do Leste podem ser questionados: O Heat beirou a irresponsabilidade abrindo tanto espaço salarial para conseguir o Big 3 e o Celtics precisou do Paul Pierce dizendo "Façam alguma coisa ou me troquem" para se tocar, antes disso estavam trocando o Antoine Walker só para contratá-lo de novo meses depois. E pensar que foi o mesmo General Manager que montou esse super time de hoje em dia, coisa de doido.

A ascensão do Knicks e do Bulls, dois times que faziam bobagem atrás de bobagem, é um ânimo para a conferência, mas o buraco é mais embaixo. Enquanto o Oeste investe em novos General Managers, como Daryl Morey, David Kahn, Rich Cho e Masai Ujiri, o Leste insiste em bobagens que não dão certo há anos como Donnie Walsh, Billy King e até o Larry Bird, que não é oficialmente o General Manager mas que ainda manda muito no Pacers. Esses GMs do Leste são mais old school, gente que está no basquete há milênios e tem uma história que os mantém em suas posições, mesmo fazendo bobagens.

A estratégia de vários times do Oeste é diferente. Rich Cho, do Blazers, por exemplo, tem formação em matemática e conhecimento avançado em Direito, entende como poucos (segundo pessoas lá de dentro da NBA) todas as regras e detalhes das regras salariais da NBA. Uma estratégia de ouro em uma liga onde tantos times estão atolados em contratos imbecis e não sabem como sair deles. Já Daryl Morey, do Rockets, é um nerd formado em ciências da computação que ganhou nome dentro do basquete ao se especializar em estatísticas e criar sistemas avançados para medir a qualidade de jogadores, sendo importante nas atividades de scout das equipes. Masai Uriji, do Nuggets, é um olheiro nigeriano que se infiltrou na NBA na marra. Se apresentou ao David Thorpe, treinador famoso por preparar jogadores jovens, especialmente futuros jogadores da NBA, e manteve o contato até conseguir ser contratado como olheiro na Europa. Aos poucos foi levando jogadores para a NBA, conhecendo mais gente, mostrando o que entendia de basquete até chegar ao cargo que ocupa agora no Nuggets. Se é bom ou não veremos nesse grande teste que está sendo a troca do Carmelo Anthony, mas o Nuggets pelo menos fugiu do óbvio.

A conclusão disso tudo é que se o Oeste monta times melhores em tudo mesmo sem ter as melhores posições no Draft é porque tem General Managers melhores. É a única explicação. E eles tem feito isso inovando na escolha desses profissionais, desde o Spurs com RC Buford e seu exército de olheiros mágicos até o Rockets e Blazers apostando em nerds sem história como atletas ou técnicos da NBA. Enquanto isso não mudar eu não apostaria em uma mudança de forças entre as conferências da liga.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Filtro Bola Presa - Um resumo.

Príncipe Mbah a Moute encontrou sua princesa

Eu sempre me pergunto quantas vezes eu vou demorar até criar um texto padronizado para explicar o que é o Filtro Bola Presa. Toda vez tenho que gastar minha criatividade para enrolá-los por meia dúzia de linhas, não é fácil! O Filtro Bola Presa é uma compilação de notícias, vídeos e fatos curiosos, além de trocentas estatísticas, que achamos interessantes de colocar no blog mas que nunca ganhariam um post só para elas. É o cantinho descontraído do Bola Presa, percebe?

Ah, essa semana temos bastante coisas que foram dicas enviadas por leitores. Podem sempre enviar boas histórias, fotos ou vídeos pelo Twitter, comentários do blog ou por e-mail (bolapresa@gmail.com).

- E como somos bem humorados, descontraídos e relaxados, começamos com a jogada do Paul Pierce que, fanfarrão, roubou um pouco da água de uma torcedora do Pacers. Já pensou se a moda pega? (Ok, parei com o jeito de escrever idiota e nunca, repito, NUNCA, vou dizer "já pensou se a moda pega?" de novo)




- O Denver Nuggets está atrás de um monte de pirralhos para trocar Carmelo Anthony. Quer escolhas de Draft, jogadores jovens além de mais escolhas de Draft e mais jogadores jovens. Tudo para começar uma reconstrução. Esse é o padrão de times que acabam um ciclo e querem começar um novo, mas dá certo?

O Hoopism, site que eu já citei aqui e que sempre faz bons gráficos sobre a NBA, fez um novo em que eles mostram a idade de cada time de duas maneiras. Na primeira coluna usando a idade e na segunda a "idade de NBA", contando os minutos jogados que cada jogador no time tem. Afinal um novato de 24 anos tem menos experiência que um cara de 22 com três anos de liga.




Ver o Thunder, o Knicks e até o Grizzlies lá embaixo pode dar uma animada em times em reconstrução. Mas embora esses times sejam bons, quem vai brigar pelo título? Lakers, Spurs, Mavs, Heat, Celtics e Magic provavelmente. Os 6 times estão entre os 8 mais velhos.

A questão que pode surgir é se vale a pena investir em um time jovem e aí esperar ele evoluir juntos para ficar velho, mas como esses times de hoje foram montados? O Lakers só esperou o Kobe e o Bynum envelhecerem, Gasol, Odom, Fisher, Barnes e Artest vieram em trocas ou como Free Agents. O Magic construiu seu time evoluindo o Dwight Howard e Jameer Nelson e trocando pelo resto. Já o Celtics pegou Pierce e Rondo via Draft e trocou pelo resto, assim como o Heat com Wade e o Mavs com Dirk.

Ou seja, o padrão para construir um time vencedor parece ser conseguir um jovem jogador que consiga trazer vitórias e assim atrair jogadores mais velhos que queiram transformar esse projeto em algo vencedor. Aí a questão é se Derrick Favors, o jovem mais promissor que o Nuggets vai pegar em troca, é esse cara. Se não for é bom que saibam draftar muito bem.

De qualquer forma, legal ver curiosidades do resto da tabela: Cavs e Suns, por exemplo, são o que todo time não quer ser, velhos e ruins.


- Nada mais bonito do que um grande jogador ser o líder de um time e ver seus pupilos seguindo o exemplo. Mas o Blake Griffin precisa ensinar o Al-Farouq Aminu que nem todo mundo pode imitar as suas enterradas.



Mas dá pra entender. Quem não estaria super empolgado e confiante depois desses tocos maravilhosos do DeAndre Jordan?

- O leitor Raphael Farinelli mandou pra gente uma notícia muito estranha que merece seu espaço nesse post. É uma notícia da SuperInteressante, leia um trecho do texto de Cristine Gerk:

"A comunidade científica descobriu uma nova maneira de financiar seus projetos: explorar a vaidade humana, vendendo os nomes científicos de animais e plantas para pessoas que queiram aparecer. Você paga e ganha o direito de batizar criaturas recém-descobertas, que passarão a ser conhecidas pelo seu nome."

O assunto é bizarro, mas é NBAísticamente bizarro quando eles começam a dar exemplos. De repente chegam em um tipo de camarão que agora é chamado Lebbeus clarehanna. Clare Hanna é o nome da filha do ex-pivô do Bulls Luc Longley! Ele viu no eBay um cara vendendo o nome do camarão e decidiu homenagear a sua filha dessa maneira. Reclame com o seu pai agora por você não receber um presente tão legal. Pra quê um Playstation 3 se você pode ter camarões com o seu nome?

- Não é a foto do ano como postamos nas últimas vezes, mas uma boa foto da semana. Também foi sugestão de um leitor, mas pelo o que eu me lembro foi um envio anônimo.


Não sei que brincadeira eles inventaram mas espero que tenha no próximo Skill Challenge.


- É hora de dar os parabéns para Stan Van Gundy. Talvez o troféu de técnico do ano. Ele conseguiu manter os bons números de defesa do Orlando Magic entre o Top 5 da NBA mesmo perdendo dois dos seus melhores defensores, Mickael Pietrus e Marcin Gortat. E não só isso, em retorno ele recebeu três caras que estão muito, muito longe de serem conhecidos por sua defesa: Gilbert Arenas, Jason Richardson e Hedo Turkoglu.

E querem ver como o Suns está se virando com a defesa espetacular de Vince Carter? Ao invés de correr, se mexer ou se esforçar, ele aponta. Só. Como se dissesse "eu deveria estar ali". Patético. Vince Carter é oficialmente um dos melhores jogadores "e se" da história, no caso dele "e se ele se esforçasse..."



O vídeo é cortesia do blog posting and toasting, onde você pode ver outro vídeo da defesa de dedos do Carter; a dica foi do leitor @ezfranca.


- Lembram das duas derrotas do Miami Heat para o Dallas Mavericks? Uma das razões para o domínio do Mavs foi a sua defesa por zona, que deixou o Heat perdidinho. Pois algumas semanas depois olha a diferença! O NBA Playbook pegou um vídeo deles atacando contra a zona do Blazers. Que diferença colossal do ataque de meia quadra do começo da temporada.




- Aqui um texto interessante da SportsIllustrated. O autor Chris Ballard foi jogar uma partida de basquete contra a equipe de um presídio americano. Uma experiência completamente fora da realidade de qualquer cidadão comum como nós, vale a leitura.

O momento esperado da frase da semana:
"Eu sonho com o meu pivô titular pegando 10 rebotes por jogo."
 Avery Johnson, técnico do Nets, ao ser perguntado se sonhava com Carmelo Anthony. Ele preferiu fazer referência ao jogo de 1 rebote de Brook Lopez.

Não só concordo com a frase como ela fica ainda mais legal se você a imaginar com a voz do Avery Johnson. Aliás, dica para estudantes: quando a aula estiver chata, imagine o seu professor dizendo tudo o que diz com a voz do técnico do Nets. Pronto, diversão garantida.


- Duas jogadas marcantes no jogo entre Spurs e Bucks ontem, as duas envolvendo Tim Duncan. Em uma das vezes ele foi quem marcou a cesta em uma jogada linda desenhada por Gregg Popovich. Na outra, abaixo, passou vergonha.



- Kris Humphries, o famoso ninguém que a gente só conhecia porque ele foi a moeda de troca pelo Baby quando o brazuca saiu do Raptors para o Jazz, está bem de vida. Virou titular no Nets, é um dos melhores reboteiros na temporada e está pegando a deliciosa e suculenta Kim Kardashian. Enquanto isso no site do Lakers, um bom texto sobre como o casamento de Lamar Odom com a irmã de Kim, Khloe, mudou a vida do jogador.


8 ou 80 - O cantinho das estatísticas desnecessárias
As estatísticas são colhidas em todo canto da Internet. Algumas em blogs, outras em sites, algumas na marra por conta própria. Mas a grande parte é coletada nas divulgações do Elias Sports Bureau e Basketball-Reference.com


- Vocês sabem qual é a dupla de armação que mais pontuou na NBA nas últimas duas semanas? Monta Ellis e Stephen Curry? Não. Baron Davis e Eric Gordon? Necas. Aaron Brooks e Kevin Martin? Tente de novo. DJ Augustin e Stephen Jackson? Na mosca! 44.5 pontos por jogo. Pois é.

- Steve Nash acertou seus últimos 48 lances livres, maior sequência em atividade na NBA. Agora ele está com 90,4% de aproveitamento na carreira e é o melhor da história nesse quesito. Ele ultrapassou Mark Price, que acertou 90,3% durante sua carreira.

- Ontem Dorrell Wright e Monta Ellis jogaram todos os 48 minutos da partida contra o Lakers. Foi a primeira vez que dois companheiros de time não tiveram um segundo sequer de descanso desde que o mesmo Warriors teve QUATRO jogadores sem descanso na última rodada da temporada regular passada. Naquela ocasião foram Stephen Curry, Anthony Tolliver, Reggie Williams e o mesmo Ellis.

- Em algum jogo nas últimas semanas o Kevin Love teve seu milionésimo jogo de 20 pontos e 20 rebotes na temporada (bocejo).

- No último jogo contra o 76ers, o Pacers foi o primeiro time em 5 anos a liderar uma partida no intervalo mesmo sem ter tentado um lance livre sequer. Arranje uma estatística mais inútil que essa e ganhe um pudim.

- Na vitória do Heat contra o Blazers, LeBron James acertou 17 arremessos e Dwyane Wade fez 15. Foi a primeira vez que dois companheiros de time acertaram pelo menos 15 arremessos de quadra no mesmo jogo desde que Kobe e Shaq o fizeram pelo Lakers em dezembro de 2000 contra o Spurs.

- Wade e LeBron tem outro número impressionante. São os dois líderes da NBA em pontos em contra-ataque: James tem 247 pontos, Wade tem 235. O terceiro colocado tem apenas 197, é Tony Parker.

- Utah Jazz, o time da virada. São agora 7 jogos vencidos depois de perder por mais de 15 pontos, antes do meio da temporada já é a maior marca do tipo desde a temporada 2005-06, quando o mesmo Jazz executou 8 viradas.