Mostrando postagens com marcador Miami Heat. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Miami Heat. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Miami Heat, o retorno

Monstro de três cabeças

Antes da temporada passada começar, muito se especulava sobre como seria o Miami Heat de LeBron, Wade e Bosh. A equipe parecia estar investindo todas as fichas no que podemos chamar de "modelo Celtics": juntar três estrelas, colocar todo o foco na defesa, deixar que se virem como bem entenderem no ataque, e tapar os buracos da equipe com pivetes ou jogadores veteranos dispostos a receber salários minúsculos pela chance de ganhar um título. No caso do Celtics, a pivetada deu muito certo (Rondo, Perkins) e os vovôs continuam topando a brincadeira até hoje (Shaquille O'Neal ficou até onde deu, Jermaine O'Neal deve fazer o mesmo).

O modelo parecia perfeito para o Heat imitar, LeBron e Wade só falavam em defesa durante os primeiros treinamentos com o técnico Erik Spoelstra, o time apostou em um pirralho na armação (Mario Chalmers) e um no garrafão que só sabia defender (Joel Anthony), e os veteranos se acotovelaram pela chance de jogar: passaram pelo Heat em seu primeiro ano vovozinhos como Jerry Stackhouse, Ilgauskas, Dampier, Juwan Howard, Mike Bibby, Jamaal Magloire, Mike Miller e Eddie House (esse último, aliás, havia participado também desse modelo no Celtics). Não dava pra culpar o Heat, copiaram um modelo recentemente vencedor e, por não serem um grande mercado na NBA, aproveitaram o fato de que o Wade trouxe seus amiguinhos para finalmente se tornar um lugar interessante para jogadores veteranos. Afinal, como fica bem fácil de perceber, jogadores bons e velhos querem jogar em equipes boas, não nas franquias mais famosas.

O problema é que nenhuma cópia sai exatamente como o original, e já no primeiro mês de temporada dava pra ver os deslizes do projeto. O primeiro, e mais sério, era que a defesa simplesmente não funcionava como deveria. Contra equipes mais fracas, a defesa era sufocante e vencia o jogo sozinha como esperado, mas contra equipes dispostas a rodar a bola, atacar o garrafão, ou com pivôs um pouco mais competentes do que o normal, a defesa não conseguia acertar a rotação, cometia erros bobos, batia cabeça e acabava se frustrando, tentando tanto roubar bolas que acabava deixando jogadores completamente livres quando os roubos não aconteciam. No ataque a coisa também era bastante bagunçada e o time foi alvo de críticas, especialmente com aquele papo de que "não tem na equipe um armador de verdade pra botar ordem na casa". Na prática, o ataque do Heat era tão organizado ou mais do que aquele do Celtics que foi campeão em 2008, justamente porque jogadores tão talentosos sempre dão um jeito de pontuar mesmo que seja na marra - por isso o foco das duas equipes sempre foi na defesa e há um desdém de ambos com relação à parte ofensiva.

Mas o técnico nerd Erik Spoelstra resolveu não deixar o ataque à deriva. Com seus bilhões de números e estatísticas, constatou que o Heat usava sempre as mesmas jogadas no ataque e que eventualmente isso seria um problema. A solução que ele propôs é um tanto videogame: sempre que o Heat tivesse sucesso na defesa, conseguindo um roubo de bola, um toco ou um rebote defensivo, o ataque poderia fazer o que bem entendesse; mas toda vez que o Heat levasse uma cesta era obrigado a seguir uma das jogadas "não-convencionais" que o Spoelstra havia desenhado para variar o ataque. A tática deu certo o bastante, afinal o Heat chegou a uma Final de NBA, mas ela tem vários problemas. Primeiro, ela assume que os problemas defensivos do Heat eram uma questão de comprometimento, não de posicionamento e entendimento da função de cada um em quadra. Depois, ela arrancou completamente pela raíz a espontaneidade do ataque da equipe. O sucesso que o Heat tinha com jogadas de velocidade ou um pick-and-roll simples era imenso, mas nos momentos de aperto cansei de ver a equipe se embananando toda tentando colocar em prática alguma movimentação do Spoelstra na linha de fundo da quadra. LeBron James passou boa parte da série contra o Mavs, na Final, acionando Chris Bosh para arremessos de média distância - em parte porque o garrafão do Mavs intimidava qualquer infiltração, é verdade, mas em parte também porque não tinha permissão para jogar na velocidade como bem entendesse. Os contra-ataques com LeBron e Wade são fulminantes, eles adoram, se divertem, fazem dancinhas, mas são muito raros numa equipe que poderia fazer isso o tempo todo se quisesse. A equipe tentou tomar para si uma identidade que não lhe correspondia. E até que simulou razoavelmente bem esse papel, uma Final de NBA não cai no colo de ninguém, mas em nenhum momento pareceu algo natural, orgânico. Os jogadores foram tirados de sua zona de conforto, do modo em que renderiam mais, e com isso tiveram dificuldades em contribuir em algumas situações.

No ano passado, escrevi sobre a diferença entre essência e aparência na hora de definir a posição de um jogador, e para isso usei uma cena do Chaves que infelizmente foi tirada do ar. Coloco um vídeo similar abaixo para retomar aquela ideia:



Tem jogador que parece de tamarindo e tem jogador que é de tamarindo, como saber a diferença? Definimos uma coisa pelo modo que ela se apresenta a nós, por como nos parece, ou há um modo de descobrir o que ela verdadeiramente é, além das aparências? Essa questão filosófica é importante para nós graças a dois jogadores: LeBron James e Chris Bosh. Ambos parecem alas: LeBron é alto, forte, gosta de infiltrar e é pontuador; Bosh é magro, fisicamente fraco, e sempre se lesionou tendo que jogar de pivô no Raptors. Na essência, naquilo que eles verdadeiramente são, embora o Bosh seja considerado um ala de força exatamente como ele aparenta (mesmo tendo jogado de pivô improvisado no Raptors por toda a carreira), considero LeBron um armador puro (como jogava no colegial, e assim que entrou na NBA) e não um ala como insistem para que ele seja.

LeBron foi o armador principal do Heat na maior parte da temporada, com Mario Chalmers ou Mike Bibby em quadra apenas para marcar o armador adversário na hora de defender, e para arremessarem de três pontos na hora do ataque tendo em vista a falta de arremessadores que o Heat tem (e a inconsistência de LeBron e Wade na função). Armando, LeBron teve alguns problemas para manter o esquema semi-rígido do técnico Spoelstra, muitas vezes tendo que se conter ou se limitar no ataque para cumprir as jogadas estabelecidas. Por outro lado, LeBron simplesmente desapareceu nos momentos em que a armação foi passada para outra pessoa e teve que jogar de ala. Quando LeBron e Wade revezaram a armação, com um fazendo corta-luz para o outro na cabeça do garrafão, foi tudo fantástico, mas com LeBron isolado no perímetro o negócio desandou. Está na hora de admitirmos que LeBron é o armador dessa equipe - talvez até deixando que ele finalmente marque o armador adversário, agora que Shane Battier pode garantir a marcação na ala - e que está tudo bem ele assumir essa função. Como comentamos anteriormente, grande parte dos problemas do Heat na temporada passada foram tentar ser um time que eles não eram.

O caso do Bosh, no entanto, é mais complicado. Depois de uma vida inteira como pivô improvisado (e de uma franquia que se destruiu tentando conseguir pivôs melhores para deixar que sua estrela fosse para a ala, onde queria), finalmente Bosh conseguiu jogar como ala de força no Miami Heat. Em geral o pivô foi Joel Anthony, que todo mundo adora dizer quão ruim é mas que na verdade está no topo da NBA naquelas estatísticas difíceis de contabilizar e que ninguém dá a mínima, como sucesso no corta-luz, proteção nos rebotes (box-out), faltas de ataque sofridas, etc. Bosh conseguiu então realizar seu sonho e jogar longe da cesta, marcar jogadores mais fracos e usar mais seu arremesso - e foi um fracasso. O arremesso do Bosh é ótimo, mas não tão bom quanto seus movimentos embaixo da cesta; sua velocidade na defesa não fica tão evidente contra jogadores mais ágeis e que jogam mais fora do garrafão; sua capacidade de bater para dentro do garrafão no ataque fica diminuída enfrentando alas, mais capazes de acompanhar sua velocidade. Descobrimos que o Bosh só era genial (e sim, ele foi absurdamente genial nos seus tempos de Raptors) porque era rápido, leve, ágil e inteligente contra pivôs grandões e descoordenados.

A parte legal é que o Bosh percebeu tudo isso. Recentemente alegou que ter arremessado abaixo de 50% (teve 49% de aproveitamento na última temporada) e ter conseguido menos de 10 rebotes (foram 8) é algo inaceitável para ele, que ele tentou fugir de ser pivô e que isso sempre volta e pega ele de algum jeito, então que para essa temporada resolveu fazer diferente: adicionou 5 quilos de massa muscular durante a greve e está decidido a ser o pivô da equipe sempre que necessário. Isso é ótimo porque Udonis Haslem volta da contusão que lhe tirou quase toda a temporada passada, e os dois tem tudo para serem muito melhores juntos do que qualquer outra dupla de garrafão do Heat.

No caso do ataque pouco orgânico do Heat e do LeBron contido na armação, Spoelstra também percebeu o problema e oficialmente tirou as amarras. Não haverá mais jogadas chamadas pelo técnico, eles não terão a obrigação de fazer jogadas específicas caso sofram cestas, não terão que evitar as jogadas mais eficientes apenas para "não usá-las demais". Bosh, Wade e LeBron deram entrevistas dizendo que o ataque será livre, que seguirão o ritmo natural do jogo e usarão a experiência e a inteligência que possuem para fazer o que acharem melhor. Claro que com o foco na defesa, agora com mais tempo para que ela bata menos cabeça. É o "modelo Celtics", agora livre e solto, com permissão para correr a quadra e jogar no contra-ataque como todo mundo pensou que eles fariam. E com o Bosh de pivô se precisar, enfim.

E como o "modelo Celtics" não está completo sem veteranos topando a brincadeira, vamos seguir nossa análise das contratações da offseason e dar uma olhada em como os recém-contratados se encaixarão no Heat:

Mario Chalmers
Miami Heat - 12 milhões por 3 anos

Volta para o Heat o armador que não precisa quase nunca armar o jogo, mas cujo arremesso de três é muitas vezes o desafogo da equipe. Com LeBron e Wade sendo tão bons na infiltração, faltou para o time na temporada inteira uma bola consistente de três pontos para abrir espaço no garrafão. Mike Miller chegou à equipe só para isso, passou boa parte da temporada contundido e aí quando finalmente jogou, fedeu. Chalmers não é o melhor arremessador disponível, mas criou fama como o cara cheio de bagos que converte os arremessos de três nas horas mais importantes, e o Heat precisa disso. Quer dizer, é meio bizarro ter LeBron, Wade e Bosh e acabar passando a bola importante para o Chalmers, mas não deveria ser vergonha pra ninguém, o Super Mario Chalmers merece.

Shane Battier
Miami Heat - 20 milhões por 4 anos

A melhor contratação que o Heat poderia fazer na história da humanidade conhecida. Shane Battier é o cara que torna um time bom em um time fantástico, é a peça que falta em qualquer equipe que esteja às portas de ganhar um título. Assisti a ele desperdiçar seus talentos no meu Houston Rockets porque, olha que estranho, o Houston realmente achava que dava pra vencer um titulo e por isso seguraram o Battier a todo custo (aliás, ao custo do Rudy Gay, mas isso é outra história). Battier ainda é um dos melhores defensores de perímetro da NBA, é um ótimo defensor no garrafão, o melhor da liga em cavar faltas de ataque, é tão obediente taticamente que fica até chato, e ainda não compromete no ataque - tem um ganchinho confiável e uma bola de três pontos mortal na zona morta. O Heat finalmente terá uma bola da zona morta para acionar depois das infiltrações de Wade e LeBron, e nenhum dos dois terá que se matar parando a estrela adversária. Colocando Wade, LeBron e Battier em quadra (com LeBron jogando de armador, como deve ser), o perímetro fica espetacular; mas dá pra colocar o Battier de ala de força com o Bosh de pivô dependendo do adversário. Defende, joga várias posições e acerta bolas de três pontos, é tudo que o Heat precisava da vida. E o Celtics. E o Mavs. E o Lakers. E o...

James Jones
Miami Heat - 6 milhões por 3 anos

A necessidade que o Heat tem por arremessadores é enorme. LeBron e Wade nem arremessavam uns anos atrás, melhoram a cada temporada, e na última melhoraram o aproveitamento na marra, porque as defesas fecham o garrafão e deixam os dois chutarem. O problema é que com tanto espaço para o arremesso de três, faltam no Heat especialistas. O James Jones é tão especialista, mas tão especialista, que levou meses na temporada passada para fazer seu primeiro ponto dentro do garrafão. Ou seja, faz aquilo que precisa. Seria péssimo para o Heat perdê-lo, não existem muitos arremessadores disponíveis no mercado por um preço bacana, e o James Jones acabou saindo a preço de banana.

Eddy Curry
Miami Heat - 1 ano, 1 milhão

Como sabemos, o fato de que o Eddy Curry perdeu 30 quilos (trinta!) para jogar pelo Heat acabou mudando a estrutura do espaço-tempo e quase fez com que a temporada não acontecesse! O Curry já foi um jogador relevante, é muito sólido atacando embaixo da cesta, muito técnico, e muito, muito, muito gordo. Recebeu um contrato bilionário no Knicks mas nunca conseguiu ficar em forma, teve problemas pessoais bizarros (de assédio sexual a homicídio na família), foi ficando uma bola e então finalmente saiu da órbita da Terra, girando ao redor do planeta como uma lua pequena. Nos seus bons tempos era bom no ataque, ruim na defesa, e um dos piores reboteiros a já jogar basquete. O Heat tem problemas sérios com rebotes defensivos (especialmente com o Bosh jogando longe da cesta como ala de força, e com o Haslem machucado), então o Curry não acrescenta muito. Só é legal de ver um cara tentando retomar a carreira, correndo as tripas para fora, perdendo tanto peso e conseguindo um lugar numa equipe como o Heat. Na falta de gente de garrafão, terá sua chance. O problema é que não garantirá rebotes nem acompanhará a velocidade dos contra-ataques. Se estiver bem fisicamente, no entanto, é sempre uma ajuda nem que seja para fazer faltas no Dwight Howard. Vale também lembrar o quanto já zoamos o Zach Randolph por ser gordo e hoje em dia ele é tão bom reboteiro que parece ter cola nas mãos. Aliás, o Randolph também andou perdendo peso e até pegando umas ponte-aéreas nos treinos do Grizzlies. Se o Curry fizer isso também, aí já era a nossa temporada, o espaço-tempo, vai ter greve mundial dos seres humanos e a Lua vai se chocar contra a Terra.

sábado, 2 de julho de 2011

Bravos com quem?

Queima de estoque

Terminada a Final da NBA, com Dallas Mavericks campeão, demos uma respirada por aqui. Não, o blog não acabou, não entramos em greve, não fomos raptados por alienígenas e nem passamos a fazer parte de uma gangue de anões que assaltam bancos, apesar dos boatos. Mas acompanhamos os últimos jogos da Final já meio aos trancos e barrancos, tentando assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, então o final da temporada da NBA veio como um descanso necessário.

Agora, quase três semanas depois do título da Dallas, é oficial: temos greve na NBA. Jogadores e donos de equipes não entraram em acordo então todas as atividades relacionados à liga estão paralisadas - mais do que isso, estão proibidas, e por tempo indeterminado. Nada de trocas, contratos novos, treino, summer league, amistosos, viagens para a Europa para fazer propaganda da liga ou multas pro Gilbert Arenas no Twitter. Isso quer dizer que a NBA está congelada em carbonite, como o Han Solo no "O Império Contra-Ataca", então teremos bastante tempo para postar por aqui longamente sobre cada um dos escolhidos no draft, as trocas que aconteceram até agora, e principalmente a greve - vamos analisar não apenas as regras, mas também a situação econômica, o capitalismo, a rotação da Terra, essas coisas, e até analisar algumas alternativas para o sistema salarial da NBA.

Podemos tratar dessas coisas com tanta calma, já que sabe-se lá quando a NBA vai voltar de novo, que vou até aproveitar para tratar um pouco da Final da NBA, agora longe do calor do momento. Até porque no calor do momento o que predominou foi só bordoada para todos os lados - contra o Heat, que amarelou; e contra o Mavs, que só ganhou "porque o Heat amarelou". Foi melhor mesmo deixar as cabeças esfriarem no mundo ao invés de sair como um maluco lutando contra toda a internet, bloqueando oito manés no nosso Twitter por segundo, ou questionando cada um dos comentários infelizes nos sites por aí. Teria sido uma baita bobagem. Já escrevemos para o Bola Presa a tempo suficiente para entender que basquete não é tão sério assim e que perder minhas noites de sono discutindo contra odiadores na internet seria a segunda coisa mais inútil do mundo - só perdendo para aqueles botões idiotas que você precisa apertar para entrar em bancos agora; será que eles têm medo de ser assaltados por algum terrível ladrão sem dedos?

Confesso, no entanto, que mesmo sem ter tempo para postar acabei gastando mais tempo do que devia silenciosamente assistindo às reações diversas ao título do Mavs e a derrota do Heat. Blogs, comentários, Twitter, fóruns nacionais e gringos - aquele tradicional regime de masoquismo, em que se lê uma opinião mais estúpida do que a outra em sequência, sem parada, e que eu costumo chamar de "conhece a teu inimigo". Dado o tempo necessário tanto para esfriarem as críticas quanto a minha recepção delas, talvez seja hora de voltar ao assunto. Simplesmente porque elas são muito surpreendentes e, como sempre, dedam um bocado nossa cultura e nossos tempos - algo que acreditamos firmemente aqui no Bola Presa.

Eu já estava preparado para um jorro de ódio concentrado em cima de quem perdesse quando escrevi sobre nossa cultura do ódio, sobre como achamos o ato de torcer algo natural que na verdade é construído, apenas um filtro para delimitar o que olhar, um filtro para encaixar o indivíduo em um grupo ou em uma identidade, e que esse filtro ignora as perguntas profundas e realmente importantes para se contentar com o que é mais superficial - "ele é melhor", "ele é amarelão", "ele é o inimigo". Mas eu não estava nem um pouco preparado para que esse ódio recaísse tanto em cima dos perdedores quanto dos vencedores. A quantidade de horrores ditos ao Mavs - como se desse para ser campeão da NBA por acaso, "ops, escorreguei numa casca de banana e ganhei um título, hi-hi-hi, que divertido!" - me pegou completamente de surpresa e provou que o buraco é mais embaixo. Ninguém está a salvo.

Mesmo em meio à sua viagem interplanetária, o Denis fez questão de ressaltar os méritos do Mavs que levaram a equipe a ganhar um título. Às vezes parece que a vontade de desmerecer o Heat é tão grande que, para dizer que a equipe é uma merda e mesmo assim chegou a uma Final de NBA, é preciso desmerecer todo o resto - todas as outras equipes que perderam, todas as equipes fantásticas eliminadas, e até mesmo o Dallas Mavericks que, diabos, é "apenas" o campeão da budega inteira. É um dos claros exemplos de quando a vontade de rebaixar o adversário ofusca todo o resto e até o vencedor acaba indo pra casa melancólico, como se tivesse ganhado só porque todos os outros times eram uma porcaria. Por sorte, o Mavs foi lá e, com todo o dinheiro nerd do Mark Cuban (que pagou a festa em Dallas ao invés de deixar que a cidade tradicionalmente arque com os custos), fez uma festa monstruosa digna de um time fantástico que conseguiu superar uma NBA inteira - uma NBA forte, competitiva, de alto nível.

Eu entendo perfeitamente a vontade de torcer contra esse Miami Heat, do mesmo modo que se torceu tanto contra o Lakers com Malone, Shaq, Kobe e Payton, e até mesmo contra o Celtics que acabara de reunir Garnett, Pierce e Ray Allen. É a vontade de torcer contra o mais forte, contra o grande favorito, manter a esperança de que o fraco - como a maioria de nós, fracassados - ainda tem chances de superar o forte. Minha única ressalva é com o modo que essa torcida contra é feita, a ponto de acabar sobrando para o Mavs, diminuído como nenhum outro campeão da NBA na história recente. Isso porque se o Heat era tão ruim assim, tão amarelão, ou simplesmente "perdeu para si mesmo", não há mérito que pertença ao Mavs - e aí lhes arrancamos aquilo que é mais precioso em uma vitória esportiva, que é não a conquista a qualquer custo, mas a conquista merecida, conquistada. Talvez por isso haja tanta torcida contra esse Heat, porque sentimos que uma vitória deles não seria conquistada, que o time era "uma trapaça". Mas a derrota deles, ainda que na Final, prova que as coisas não são tão simples assim - não é trapaça justamente porque não adianta só juntar uns carinhas bons por aí.

Quando o Celtics foi campeão da NBA em 2008, Garnett, Allen e Pierce venceram o jogo coletivo do Pistons na Final do Leste. Muita gente torcia contra a apelação do trio. Mas bastou que eles vencessem o Lakers de Kobe na Final para se tornarem "a família que venceu o fominha solitário". A mentalidade de analistas, técnicos e torcedores passou a indicar que o melhor modo para vencer seria juntar três estrelas e forrá-las com jogadores velhinhos disponíveis, aproveitando o fato de que todo mundo topa ganhar pouco para poder jogar com essas estrelas e ter chance de título. Nos dois anos seguintes, o "fominha" Kobe foi campeão da NBA ao lado de Pau Gasol, finalmente reconhecido como estrela depois de tantas críticas de amarelão. Novamente, era óbvio que para ser campeão era preciso ter mais de uma estrela no seu time e cercá-lo de jogadores secundários sólidos. LeBron, Wade e Bosh foram jogar juntos seguindo a nova lógica predominante na NBA, nada absurdo, mas repentinamente se tornaram "as estrelas fominhas" jogando contra o jogo coletivo "benéfico" dos adversários. É mais do que memória curta, é negar completamente qualquer senso histórico.

Mas a relação de ódio com o Miami Heat é - assim como acontece com o ódio por Kobe - diferente. As críticas direcionadas a eles não são de que não jogam bem, de que o plano tático está errado, de que os estilos de jogo não funcionam. As críticas são morais. Kobe e LeBron são egocêntricos, apaixonados por suas imagens, pedantes, desrespeitosos, farsantes, que absurdo dizerem por aí que são como Michael Jordan, merecem perder. As críticas nao são preferências pessoais dos torcedores, questões táticas, estilos de jogo - as pessoas estão verdadeiramente bravas. Elas acusam, ofendem, denigrem, diminuem. Muito, muito bravas. Mas com quem, afinal de contas?

Basicamente, são se suporta a ideia de que esses jogadores sejam tão anunciados e vendidos como algo que parecem não comprovar ser em quadra. É muito falatório, muita imagem, muitas comparações com Jordan, programinha pra mostrar onde o cara vai jogar, filme pra mostrar o cara treinando. É terrível, é uma overdose, é um exagero, e esses jogadores parecem acreditar em tudo que se diz deles - se acham os melhores jogadores do planeta, agem como se fossem os melhores do planeta, e quando perdem a torcida tem aquele gostinho saboroso de ver uma mentira sendo desfeita bem diante dos nossos olhos. "Eu sabia que ele não era tudo isso". E a gente torce pra ele não ser tudo isso mesmo.

Estamos bravos com o marketing. Com a mídia. Com as campanhas publicitárias. Com imagens sendo vendida todos os dias. Estamos bravos, muito bravos, com uma cultura que cria imagens comercializáveis, que cria lendas, heróis, vilões, que trás de volta em versões em alta-definição todos os jogadores que já deram certo no passado. Bravos com essa realidade, na mídia, que tenta ser mais real do que o real.

Ninguém em sã consciência acha que LeBron não treinou o bastante, que ele e Wade se juntaram achando que iam ganhar sem ter que se esforçar. Todo mundo sabe que eles treinaram como malucos ao fim da última temporada, que o jogo dos dois ganha novas facetas a cada dia, que um dia o LeBron não teve mão esquerda, que o Wade não arremessava nenhuma bola de três pontos. Quando alguém diz que é bem feito que tenham perdido por acharem que podiam ganhar sem nenhum esforço ou treino, com certeza não acha de verdade que não houve esforço ou treino - isso seria ridículo, débil-mental. O que essa pessoa está dizendo, na verdade, é que está puto com a festa que o Heat fez ao contratar LeBron, Wade e Bosh, uma festa com fogos, música épica, luzes psicodélicas, e os jogadores prometendo oito mil títulos num discurso escrito horas antes por algum marqueteiro. Shaquille O'Neal prometeu títulos em todos os times em que jogou e só cumpriu no Heat, mas ninguém liga. Com ele não teve fogos, tecno, luzes piscantes e todos os jornais do mundo tagarelando sobre a mesma coisa. A dificuldade que o torcedor comum tem em engolir as besteiradas que os jogadores do Heat falam é como essas bobagens repercutem na mídia - como são criadas para e por ela, e tentam ser maiores do que qualquer realidade que o time tenha chances de apresentar em quadra. Nenhuma partida do Heat pode ser tão fantástica quanto o que aparece no comercial de TV e na campanha de internet. Não dá para comparar.

LeBron já mostrou que é decisivo nos playoffs. Fez um dos jogos mais espetaculares de todos os tempos, aquele em que marcou 29 dos últimos 30 pontos da equipe e levou o Cavs à vitória contra o Pistons fodão num Jogo 5. Mas isso nunca será o bastante se ele foi anunciado como o maior jogador de todos os tempos desde que tinha 16 anos de idade, se sua imagem é vendida todos os dias como sendo o melhor jogador do planeta, e se a mídia insiste em compará-lo com Michael Jordan. É por isso que eu digo, constantemente, que LeBron e Kobe não podem vencer: tudo que fizerem não será suficiente, e tudo que fizerem será criticado por gente que está de saco cheio do culto às suas imagens na era do 3D. É fato, essas imagens cultuadas são difíceis de engolir e só costumam descer pela goela dos próprios LeBron e Kobe - e mesmo assim só às vezes. O ponto é que se te dizem que você é um gênio desde os 16 anos de idade, se te dizem que você não precisa mais ser pobre, que sua mãe solteira não vai precisar mudar de emprego toda semana, e tudo porque você é fantástico e tem o poder não apenas para salvar a si mesmo, mas também sua mãe, seus amigos, sua comunidade, sua cidade, Cleveland inteiro... você acredita. É claro que acredita.

Crescemos com essa vontade enraizada de nos descobrirmos especiais. "Harry Potter" não é sucesso só porque a Emma Watson é a maior gracinha, todo mundo quer ser arrancado de sua família idiota e de sua escola imbecil e descobrir que é na verdade alguém fodão, essencial para a história da humanidade, alguém de que as profecias avisavam. Muitas das nossas lendas estão focadas na ideia do herói anunciado, e a cultura do capitalismo depende muito dessa ideia de que você pode se tornar herói do dia para a noite, basta se esforçar muito e ter um pouco de sorte. Então não adianta vir com falsa modéstia e dizer que qualquer um resistiria à chance de ser "O Escolhido" (como LeBron tatuou nas costas), o cara fodão que vai fazer história e salvar o seu povo. O capitalismo vive de vender essa imagem ("você também pode ser rico, se chegar até aqui"), as marcas vivem de vender o herói utilizando seus produtos (promessas de felicidade, de ser um pouco herói como eles se você usar um tênis novo), a mídia vive de vender esses heróis e o interesse por eles ("assista ao jogo, vai ser o melhor da história!") , e é claro que esses supostos heróis acreditam em si mesmos - se não acreditarem não serão heróis ou, pior, serão criticados por serem "amarelões", como assim o LeBron não quer decidir o jogo final? Não há a possibilidade do cara não comprar a imagem que tentam vender dele, dele não querer ser Michael Jordan. Estamos tão bravos com a imagem que é vendida que se o cara não for tão grande quanto a imagem que eu comprei, ele é uma farsa idiota. Mesmo que ele não tenha nada a ver, diretamente, com a imagem criada.

Há uma quantidade surreal de xingamentos direcionados, especialmente, a Kobe e LeBron em tudo quanto é site por aí, e nos comentários aqui no blog, no nosso Twitter e no nosso formspring. Nenhuma das ofensas ou acusações pessoais faz qualquer sentido porque não fazemos ideia de como essas pessoas são em suas vidas, ou de como seriam sem tamanho assédio, oportunidades, pressões, dinheiro, poder, idolatria, críticas, ofensas. É por isso que essas ofensas não são reais, são apenas uma raiva mal direcionada. A fúria é com a cultura que cria essas imagens enormes que não condizem - nem nunca poderiam condizer - com a realidade.

Nowitzki foi campeão e nunca haviam criado uma imagem dele. Não uma imagem positiva, pelo menos, só tacavam merda no alemão. Então ele vence, ganha um anel, e é o cara mais modesto do mundo, claro. Para os jogadores que, desde que nasceram, imagens foram criadas e talhadas a alturas impossíveis, nenhuma vitória poderá ser taxada de humilde, e nem mesmo de satisfatória. Todo erro, todo deslize será punido como um horror, uma discrepância inaceitável com a imagem que eu comprei e a realidade. Mesmo que LeBron e Wade estejam agindo como qualquer jovem da idade deles agiria na vida real. Mas eles não podem ser reais. Em nossa cultura, nunca ganharão essa chance.

sábado, 25 de junho de 2011

A vitória dos derrotados

Como o Danilo disse no último post, eu estou viajando pela Via Láctea e por isso sem muito tempo para postar. Mas achei um dia livre (o último nesse mês) e resolvi aparecer para dar um pouco de atenção para o nosso filho semi-abandonado. O difícil era decidir o assunto! Falar do Mavs campeão, do LeBron James ainda com o mesmo número de anéis que o Cavs, da aposentadoria do Shaq, da contratação do Mike Brown (e do Ettore Messina) pelo Lakers ou, claro, o Draft e todas as trocas que aconteceram junto com a seleção da nova classe de pirralhos? Isso sem contar a discussão sobre a negociação do novo acordo financeiro entre jogadores e os donos de equipes, que devem render mesmo em uma greve. Ou seja, assunto demais para tempo de menos!

Decidi então tratar primeiro do resultado da Final, para encerrar de vez o assunto. Esse post é para comentar sobre a última vitória do Mavs, o que esse título representa para eles e para todos os envolvidos na conquista. Os outros temas podem ou precisam esperar. Falar do Shaq ou do Mike Brown é tão relevante agora como no meio de agosto quando não tivermos assunto e o Draft, assunto do momento, requer muito mais tempo do que eu tenho agora, então fica para Julho, quando eu estiver de volta na terra da coxinha, do feijão e do catupiry.


.....

Brian Cardinal campeão e de óculos escuros: deal with it


O Mavs foi campeão vencendo onde mais venceu em toda a temporada, fora de casa. A habilidade deles em jogar longe do seu ginásio foi essencial para garantir o terceiro lugar no Oeste durante a temporada regular e acabou sendo decisivo nos playoffs. O óbvio é justificar essas boas atuações enaltecendo a experiência do time, mas não é todo time de veteranos que brilha assim fora de casa, só lembrar do veterano Celtics de 2008 que foi campeão vencendo só dois jogos fora de Boston! Eu acho que tem mais a ver com a capacidade do time de se adaptar, de mudar de estratégia, quintetos e sistemas defensivos no meio de uma partida. O normal é um time jogar um jogo mais covarde quando está longe de seus domínios, apelando para jogadas de segurança e sobrecarregando as suas estrelas. Mas ao invés de mandar a bola no Dirk Nowitzki e esperar milagres (que ele era bem capaz de fazer!), eles conseguiam ler o jogo, ir mudando e achar uma solução, sem desespero, antes da partida acabar. Não é à toa que estiveram no lado certo de tantas reviravoltas e viradas nesses playoffs.

Os méritos para essa vitória tem de ser divididos entre muita gente e cada uma delas tem histórias legais para serem contadas, separamos alguns personagens para serem comentados.

Rick Carlisle

A NBA vive hoje o início de uma era onde os técnicos veteranos estão dando adeus: Pat Riley e Phil Jackson dizem que não voltam, Larry Brown quer voltar ao basquete universitário, Gregg Popovich anunciou que se aposenta junto com o Tim Duncan. Para substituí-los existe uma geração que chama a atenção por ser envolvida com o basquete de um jeito diferente, com menos ex-jogadores e mais estudiosos do basquete, caras viciados em táticas e estatísticas. O Carlisle está na liga faz um tempo, mas pode ser considerado do segundo grupo, é sem dúvida um dos que abriu as portas aos nerds brancos bitolados. Ele se destacou no Detroit Pistons no início dos anos 2000, mas saiu (para dar lugar ao calejado Larry Brown) logo antes deles conseguirem Rasheed Wallace e partirem rumo ao título. De lá ele foi para o Indiana Pacers, onde também se destacou (chegou a ter a melhor campanha da temporada regular) mas esbarrou no seu antigo time duas vezes: primeiro nos playoffs de 2004 e depois no "Malice at the Palace", a antológica briga entre os jogadores de Pacers e Pistons que culminou em multas e suspensões que destruiu aquela ótima geração do time de Indiana.

A imagem que o Carlisle deixou depois disso tudo foi que ele manja muito de basquete, sabe de todas as estratégias, táticas e lê o jogo como poucos, mas que na hora de lidar com as pessoas, com os egos e com a motivação ele não sabia o que fazer. Seria como mandar o PVC treinar a seleção brasileira: ele saberia todos os detalhes do adversário e faria a leitura do jogo em dois minutos, mas o que vale isso se ele não souber como conversar com Neymar ou como motivar o Alexandre Pato? Ser técnico envolve muitos talentos e o Carlisle parecia não ter todos.

Eu acho que essa imagem do Carilsle, se não 100% correta, é pelo menos 70% e dá pra passar de ano. É raro vermos ele dando discurso emocional como aqueles do Doc Rivers, gritando até ser obedecido como o Stan Van Gundy ou mesmo fazendo aqueles joguinhos para mexer com o brio dos jogadores que o Phil Jackson se especializou em fazer. Mas aí é que o elenco experiente fez a diferença, o Nowitzki não precisa assistir "Gladiador" antes de começar os jogos pra se motivar, o Jason Kidd já entendeu faz tempo que ele não é a estrela e não fica pedindo atenção ou criando briguinha, o Tyson Chandler não é mais o pivete descontrolado dos tempos de Chicago Bulls. É uma equipe de jogadores controlados, que sabem seu papel e que só precisavam de alguém que entendesse de basquete para dar as ordens. O técnico deu as ordens, treinou, inovou (como a defesa por zona, usada à exaustão na temporada regular) e os jogadores aprenderam rápido, sabiam como se adaptar no meio do jogo e confiaram na nerdice do seu treinador. Combinação perfeita. Repito o que sempre disse nas discussões sobre Deron Williams x Chris Paul: a questão não é quem melhor, mas qual dos dois, com seus estilos distintos, é ideal para cada time, técnico e esquema tático. Então não é que um treinador que motiva é coisa do passado e os bitolados táticos os do futuro, para o Celtics funciona o Doc Rivers, para o Mavs funciona o Rick Carlisle.

Mark Cuban

Muita (MUITA, em Caps Lock mesmo) gente odeia o Mark Cuban, mas eu não sou uma delas. Aliás, muito pelo contrário, eu acho ele o dono de time mais legal da NBA. Poderia gastar um post (ou um livro) só de entrevistas polêmicas, desastradas ou de declarações e provocações idiotas (e dispensáveis, fato) dele, mas não sou inocente a ponto de achar que vivemos em um mundo onde as pessoas não falam asneiras. Eu falo, você fala e o Mark Cuban fala. Aliás, fica uma lição para a vida: Nada é imperdoável, todo mundo fala e faz bobagens trocentas vezes na vida e na grande maioria das vezes é sem perceber. Somos todos imbecis e por isso odiar alguém por ser imbecil é, surpresa, uma imbecilidade.

Atrás de todas as atitudes questionáveis do Mark Cuban está um cara que ficou bilionário no mundo da informática e resolveu investir parte dessa grana para comprar o seu próprio time de basquete. Ao contrário de muitos donos por aí, ele não fez isso porque parecia um bom negócio ou para levar os clientes dele para reuniões na sala VIP do ginásio, mas porque ele é perdidamente apaixonado por basquete. Todas as bobagens que ele fala são completamente perdoáveis quando o vemos vestindo uma camiseta do Nowitzki e pulando atrás do banco, o Mark Cuban é só mais um fã de basquete como nós mas que calhou de ter alguns bilhões de dólares sobrando na carteira, e que fã não sai xingando juízes sem motivo depois de uma derrota? Tá, ele também gosta de aparecer e ser o centro das atenções, mas se formos começar a criticar pessoas com a mesma característica nesse mundo do esporte a gente vai acabar gostando só do John Stockton e mais ninguém.

O Mark Cuban tem tanto dinheiro e gosta tanto do seu time que é um dos poucos donos de time que nunca teve medo de gastar. O Mavs tinha acabado de investir uma grana preta na renovação de contrato do Brendan Haywood antes da temporada começar quando surgiu a oportunidade de conseguir o Tyson Chandler sem precisar mandar ninguém relevante em troca. A folha de salário ficaria inchada e isso significaria que o dinheiro investido no Haywood seria para ele esquentar banco, mas Cuban não ligou, como sempre, em pagar multas e mandou fechar o negócio. O sonho do Cuban era ser campeão e ele gastou demais para isso sempre, nunca aceitando ter um time fraco em mãos. Muito dono de time por aí começaria a cortar gastos depois do primeiro conto do vigário (ver DAMPIER, Erick) contratado a peso de ouro para não fazer nada. Cuban, teimoso/persistente, dá uma nova cartada por temporada e dessa vez deu certo.

Mas o mais legal dessa insistência e paixão do Mark Cuban é que ela foi recompensada bem na temporada onde ele admitiu os seus erros. O Dirk Nowitzki deu uma entrevista dizendo que preferia que o seu chefe não desse nenhuma declaração polêmica (o jeito educado de dizer "estúpida") durante os playoffs e foi plenamente atendido; Cuban permaneceu toda a pós-temporada calado e ganhou de brinde o título que tanto sonhou. O cara pode ser mala, mas eu gosto de ver o título indo para um cara que realmente se importa e se diverte com o time que tem.

Dirk Nowitzki

Na minha cabeça o Dirk já estava naquela lista de jogadores que eu teria que defender e justificar a carreira sem títulos até o fim da vida. Em 2047 quando fossem fazer uma lista dos melhores jogadores nos 100 anos de história da NBA eu estaria lá, velho gagá, para defender a inclusão do alemão mesmo que ele tenha passado a carreira em branco. Isso, claro, depois de dar um piti contra a existência de mais uma chata lista de quem é melhor.

Mas não é que no fim tudo deu certo e ele venceu? A ficha ainda não caiu pra mim. Eu sempre torço para os meus jogadores favoritos vencerem, mas torço em dobro quando eles tem uma reputação manchada pelos motivos errados. Se alguém não gosta do Ron Artest pelo seu comportamento, beleza, eu não acho que seja motivo para odiar mas realmente ele já fez coisas condenáveis. Agora, o Dirk tinha fama de amarelão! Isso era injustiça demais contra um dos jogadores mais legais (e decisivos!) que eu já vi jogar. E não é que ele foi campeão em um time fora de série que venceu todo mundo por 20 pontos de vantagem, foi em um time que tinha limitações no ataque e que realizou viradas heróicas no quarto período sempre lideradas por ele.

Continuo achando que grandes jogadores continuam sendo grandes jogadores mesmo quando não ganham títulos (é preciso ter sorte de estar no lugar certo e na hora certa no fim das contas), mas é bem legal quando esses caras conseguem o que tanto buscam.

Isso vale também para outros grandes jogadores que volta e meia recebiam a patética crítica do "foram bons mas nunca ganharam nada" como Jason Kidd, Shawn Marion e Peja Stojakovic. Mas vamos ser sinceros, se é pra medir qualidade individual por resultado de equipe o que vale mais para medir o talento do Kidd, ser campeão com esse Dallas ou levar um time que tinha Kerry Kittles, Keith Van Horn e Jason Collins de titulares (!!!) à final da NBA? Aquilo já deixava o nome dele na história, mas é bom que ele tenha ganhado um anel para os perturbados que pensam que vão-se os dedos e ficam os anéis. A atuação do Shawn Marion marcando Kobe Bryant, Kevin Durant e LeBron James em sequência também faz jus ao seu talento defensivo sempre esquecido e desvalorizado nos tempos de Phoenix Suns.

A franquia

Perceberam um padrão nessas histórias? O Carlisle era o técnico que nunca ia vencer porque não sabia lidar com os jogadores, o Dirk era amarelão, Kidd, Marion e outros tinham passado do seu auge, Mark Cuban estragava tudo com sua boca maior que o Shawn Bradley. Era um bando de derrotados jogando por uma franquia que parecia destinada a ficar sempre no quase. Quando me perguntaram no começo da temporada se o Dallas tinha chance de ser campeão eu disse o que digo todo ano: Elenco para isso eles tem, mas é assim nos últimos 10 anos e nunca deu em nada. Era chato responder o que faltava para o Mavs ser campeão porque eles tinham tudo, o que faltava era simplesmente ir lá e vencer. Soa idiota mas era justamente isso. Meio como um São Caetano da vida, parecia que a NBA tinha uma (argh!) mística que não permitia que fosse só qualquer time investir, contratar e vencer; tinha que ter camisa, tradição e o Mavs não tinha isso.

Esse título, portanto, coloca o Mavs na lista de times respeitados na liga. Quer dizer, respeitado pelos mesmos que não valorizavam o Dirk Nowitzki até um mês atrás, os que não são obcecados por títulos já percebiam a força da franquia quando eles completaram 10 temporadas seguidas com 50 vitórias ou mais. A maioria dos recordes dos últimos 10 anos é do Lakers, Spurs e Mavs e finalmente agora todos eles tem títulos.

O que é curioso é que esse título não veio no ano em que o time mais empolgou. Eles davam mais esperança quando eram o melhor ataque da liga, quando ainda tinham Steve Nash e Michael Finley, quando foram para a final em 2006 ou quando venceram 67 jogos em 2007. Nesse ano foi bem diferente, tiveram uma temporada boa-mas-não-espetacular e ainda causaram muitas dúvidas quando perderam o Caron Butler no meio da temporada por contusão e não fizeram nada para repor a perda. O Butler era o desafogo do Dirk no ataque do Mavs e eu realmente achei que eles não tinham chances nos playoffs sem alguém para o seu lugar, imaginei que fosse acontecer com eles o que aconteceu com o Bulls. O time de Chicago só tinha o Derrick Rose no ataque e quando ele foi anulado pelo LeBron James o ataque morreu, minha teoria era que em algum momento dos playoffs o Nowitzki fosse ser bem marcado e o Mavs não conseguiria mais pontuar, eu não contava com tanta evolução nas trocas de passes, os arremessos cada vez mais precisos do Kidd e muito menos o Shawn Marion criando o próprio arremesso e o JJ Barea costurando algumas das melhores defesas da NBA. Não houve um problema nessa temporada para o qual o Mavs não soube se mexer e se adaptar.

Legado?

Em um dia otimista daria para dizer que esse time deixaria um legado. Que ensinou, como disse o dono do Cavs Dan Gilbert após o jogo final, que "não existem atalhos para a vitória", que ela aparece na persistência. Ou poderia ter ensinado o valor do trabalho em equipe em contraste com o jogo individualista e baseado em estrelas do Miami Heat, seu adversário na final. Mas não é bem assim. Primeiro porque essa história do Heat ser vilão e não jogar como equipe é meio balela que não faz mais sentido desde janeiro, depois porque nenhum time deixa legado, a gente tem memória curta quando o assunto é esporte. Em 2004, que nem tá tão longe assim, o Lakers montou não um Big 3, mas um Fab Four, com Kobe Bryant, Shaquille O'Neal, Karl Malone e Gary Payton. E o que aconteceu? Eles não dominaram a temporada regular como previsto, mas brilharam nos playoffs até chegar na final, onde perderam para um time que os venceu em um jogo eficiente e coletivo. Roteiro mais repetido só se o Dirk usasse o afro do Ben Wallace e a história passasse na Sessão da Tarde.

E mesmo com essa história recente ainda teve gente com certeza de que o Heat ia brilhar desde o começo, citando o exemplo do Celtics de 2008 ao invés do Lakers de 2004, e outros pensando que a vitória do Mavs vai fazer os times da NBA focarem mais na criação de boas equipes do que em colecionar estrelas. O negócio é simples, quem tem chance de ter LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh ou equivalentes no mesmo time não vai perder a oportunidade de juntar todos. E quem não tem não vai admitir derrota e vai buscar uma solução com outros jogadores. Algumas vezes um lado ganha, outras vezes o outro lado ganha. Para surpresa geral de todos não existe só uma fórmula para se ganhar um título, não tem só um jeito de jogar basquete, não tem mais bobo no futebol e o céu é azul.

Esse título do Mavs deu uma confirmação histórica a muita gente que já fazia por merecer, fez muita gente feliz por ver o Miami Heat perdendo, mas não vai mudar os rumos do basquete e não há uma franquia sequer que não sonhe em ter um Big 3 para chamar de seu.

.....
Pelo o que eu sei o Danilo está com um projeto de post sobre o lado dos perdedores, divagando sobre o Heat e o que essa derrota significa para LeBron James e cia. E quando eu voltar para o Brasil começo a trabalhar em tudo o que comentei no começo do texto, certo? Até lá aproveitem o Bola Presa como se ele tivesse sido feito no Geocities nos anos 90. Coisa das boas.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Jogo feio

K.O! You Lose!

A série entre Miami Heat e Boston Celtics tinha tudo para ser muito interessante, divertida, disputada e, já que estamos na internet, épica. Mas acima de tudo feia, no melhor dos sentidos. Quem acompanha NBA há algum tempo deve lembrar da final do Leste de 2004 quando o Detroit Pistons que viria a ser campeão com Chauncey Billups, Rip Hamilton, Tayshaun Prince, Rasheed e Ben Wallace enfrentou o Indiana Pacers de Jamaal Tinsley, Ron Artest, Jermaine O'Neal e Reggie Miller. Foi uma série vencida por 4 a 2 pelo Detroit e que teve placares do tipo 69-63 e 72-67, o máximo que um time marcou em um jogo foi 85 pontos, o Pistons do jogo 3. Esses jogos foram uma guerra, com muita porrada, contato físico, defesa forte em todas as posições e em que os times tinham que batalhar por todo santo ponto; as cestas poderiam ser comemoradas como gol no futebol de tão difíceis de conseguir. Os 26 tocos (19 do Pistons, 7 do Pacers) no jogo 5, se não me engano, ainda são o recorde de um jogo de playoff na história da liga. O mais famoso deles é chamado simplesmente de "The Block", vocês devem conhecer:



O jogo 5 teve 25 tocos (13 a 12 para o Pistons) e inúmeros roubos de bola, defesas exemplares. Foi o momento que eu admiti  pela primeira vez que um jogo com poucos pontos e muitos erros poderia ser tão ou mais bonito que uma partida corrida que acaba 130 a 128. E é exatamente isso que eu esperava da série entre Heat e Celtics: partidas feias que vão dar gosto de assistir pela qualidade defensiva das duas equipes e para ver como esses talentos individuais vão quebrar as defesas. Alguém decepcionado com isso até agora? Por características individuais dos jogadores os jogos não têm muitos tocos como a série que eu citei, mas eu nunca vi uma série onde cada rebote fosse tão disputado. Não dou mais dois jogos pra alguém sair sangrando.

O curioso é que esse jogo pegado e feio acontece na série de playoff mais estrelada da história. São 6 jogadores em cada lado que já passaram por um All-Star Game, Mike Bibby, Jamaal Magloire (eu sei, eu sei...), LeBron James, Dwyane Wade, Chris Bosh e Zydrunas Ilgauskas pelo Heat e Rajon Rondo, Ray Allen, Paul Pierce, Kevin Garnett, Shaquille O'Neal e Jermaine O'Neal pelo Celtics. Somando todo mundo dão 80 aparições em All-Star Games!

Um dos motivos que fizeram o Boston Celtics trocar o Kendrick Perkins, dizem, foi que o Leste não tinha equipes com pivôs bons o bastante para necessitar da defesa do Perk, a exceção era o Dwight Howard, que já está de férias. Se isso é mesmo verdade, foi um erro primário e nada digno de um General Manager que montou essa equipe fantástica que foi o Celtics nos últimos anos. Defender o garrafão não é só marcar pivôs ou alas de força, envolve muito mais do que isso e é nesse aspecto que o Celtics está sofrendo nesses dois primeiros jogos da série. Na temporada regular eles venceram o Heat porque fizeram um paredão na frente do garrafão (quando Perkins estava machucado era com Shaquille O'Neal) e simplesmente impediram qualquer tipo de infiltração. O Heat então tentava vencer os jogos com arremessos forçados de três pontos e arremessos longos e forçados de LeBron James e Dwyane Wade, a parte mais fraca do jogo de ambos.

Mas se a troca trouxe Jeff Green, uma boa alternativa para defender LeBron, deixou frágil a área pintada. Com Perkins fora e Shaq machucado sobram para defender o garrafão o decadente Jermaine O'Neal e a dupla Kevin Garnett e Glen Davis, que até defende bem outros pivôs, mas não é ameaça de toco para armadores que decidem invadir o garrafão. Do Nenad Krstic eu nem comento, nem uma criança medrosa de cueca borrada teria medo de fazer uma bandeja em cima do careca. As infiltrações eram tudo o que o Miami Heat queria para parecer um time imbatível, toda vez que o bicho pega eles podem fazer um pick-and-roll ou uma isolação simples e mandar LeBron James ou Dwyane Wade para uma bandeja ou lances livres. Nos dois primeiros jogos o Heat tem 70% de aproveitamento em arremessos tentados embaixo da cesta, contra 48% do Celtics.

Quando bate o desespero no Celtics e todo mundo tenta compensar as falhas de marcação, sobra alguém livre para chutar de longe. É a vez das não-estrelas James Jones e Mike Bibby brilharem, um alívio para o Heat já que ambos tiveram muitos altos e baixos durante toda a temporada e não se sabia como se comportariam nos playoffs. O Bibby, alías, é uma espécie de Derek Fisher de Miami, virando outro jogador com o começo da pós-temporada. O trio de estrelas vai dar uns 70% dos arremessos, isso é claro, mas é importante que o resto do time seja eficiente nos outros 30% para desafogar; embora sejam piores do que antes, o Celtics ainda é uma defesa bem forte.

Outro fator importante nesses dois jogos, especialmente no primeiro, são os turnovers. O Miami Heat até tem errado mais que o Boston Celtics, mas os verdinhos não conseguem transformar os erros em pontos, enquanto o Heat cria contra-ataques monstruosos que resultam em pontos fáceis, enterradas ou jogadas humilhantes:



A transição defensiva do Celtics sempre foi muito boa, assim como sua defesa de pick-and-roll e a proteção do aro. Porém, tudo isso está falhando na hora que não devia. Méritos do Heat, que até agora parece mais motivado (sangue nos óio, mano!), concentrado e com um plano de jogo certeiro. O estranho é ver o LeBron James focado e comemorando de um lado com o Paul Pierce perdendo a cabeça do outro, não era pra ser diferente? Parece que aquele jogo 5 entre Cavs e Celtics no ano passado foi na verdade há uma década. Muita água pra rolar, mas eu acho que é hora do Celtics passar o bastão para o novo Big 3 do Leste.


.....




Na outra semi-final do Leste, um assunto que não queremos abordar. Depois que o Atlanta Hawks venceu o jogo 1 contra o Chicago Bulls o Danilo pediu que eu escrevesse sobre o time, ele estava cansado de falar mal dos caras e eles irem lá provar o contrário. Eu topei porque sou bróder, amigão, mas na verdade queria fugir dessa também e o motivo é bem simples: eu não sei como eles estão ganhando.

Contra o Orlando Magic até que deu para usar de desculpa o aproveitamento bisonho nas bolas de três do adversário, mas e nesse jogo contra o Bulls? O Hawks não tinha Kirk Hinrich, machucado, para marcar Derrick Rose, tinha tudo para ser um desastre. Além disso três titulares, Al Horford, Josh Smith e Marvin Williams, nem chegaram aos 10 pontos marcados. E eles só forçaram o Bulls a 10 turnovers. Como diabos eles venceram esse bendito jogo?

Bom, eu posso chutar como, só não sei a chance de isso acontecer de novo: o Joe Johnson fez uma das melhores partidas da sua vida com 34 pontos em 18 arremessos e teve ajuda dos 22 pontos de Jamal Crawford. Aliás, o JJ fez 51 pontos somando todos os 4 jogos contra o Magic na semi-final do Leste do ano passado, já passou com sobras da metade disso em um só jogo dessa vez, está fazendo os 120 milhões investidos valerem alguma coisa. Os dois jogarem bem é normal, jogarem tão bem, ao mesmo tempo e contra uma das melhores defesas da liga é que foi impressionante. Ajudou também os 15 pontos em 6-9 arremessos que o trio de reservas Damien Wilkins, Zaza Pachulia e Jason Collins e isso, temos que admitir, é mais raro que passagem do cometa Halley! Ainda mais se você lembrar que os pontos do Jason Collins vieram até em jogada de isolação, uma aberração sem tamanho.

Detalhe, a melhor jogada do Jason Collins no jogo 1 foi essa aqui. Fatality:



Vale ressaltar o bom trabalho do Jeff Teague no ataque, sem medo de atacar e ser atacado pelo Derrick Rose, mas acho que o grande segredo foi ter conseguido defender o Bulls sem faltas. O Rose, eleito ontem o MVP da temporada, não cobrou nenhum lance livre no jogo, Carlos Boozer cobrou apenas dois, o mesmo número de todo o banco de reservas da equipe somado. Na temporada regular o Bulls foi o 11º time com mais lances livres tentados por jogo, 24, no jogo 1 foram apenas 16 e eles nem foram cobrados pelos seus principais jogadores. Para se ter uma idéia o último colocado na temporada foi o Warriors com 20 por jogo.

Convenceu? Eu não me convenci. Nem sei como eles conseguiram parar o ataque do Bulls sem fazer faltas! Sei que mais uma ou duas vitórias impressionantes assim e eu vou ficar sem explicações mesmo para esse time. Se não falarmos mais sobre o Hawks a partir de agora é porque estamos envergonhados e não sabemos o que dizer, ele é nosso elefante no meio da sala que vamos ignorar na cara dura até que ele desapareça.

PS. Ah, só para quem não viu, ontem nos questionaram sobre o Hawks no formspring e a resposta que eu dei na hora até merece ser compartilhada aqui, talvez convença alguém:

Pergunta: Tem coisas que não da pra explicar simplesmente o destino quis e pronto. Te dando uma idéia de post sobre porque o Hawks ganhou do Bulls

Denis: Uma vez eu vi um documentário bem legal sobre o infinito. Nele alguns matemáticos dizem que se o infinito realmente existe, existem infinitas planetas, universos, civilizações e que em algum lugar do infinito existem partículas se combinando de uma maneira idêntica ao do nosso planeta aqui. E que a coisa mais improvável que podemos imaginar está acontecendo nesse exato segundo em algum lugar, já que o infinito engloba todas as possibilidades. Então só calhamos de estar no bizarro universo onde o Atlanta Hawks ganha do Chicago Bulls. É a minha melhor explicação.

Colou?

sábado, 12 de março de 2011

O caso Chris Bosh

Garrafa invisível

No Toronto Raptors, Bosh sempre teve que jogar como pivô - e sempre deixou bem claro como isso lhe incomodava. Magro, leve, rápido, com bom quique de bola e arremesso de média distância consistente, queria receber a bola fora do garrafão e enfrentar seu marcador de frente para a cesta. O Raptors tentou de tudo para usar o Bosh como ala, chegou até a torrar uma escolha de draft com o Baby, baita cagada. Mas nunca foi o bastante para que o Bosh pudesse passar um jogo inteiro sem ter que jogar embaixo do aro. As lesões no seu pé ficavam cada vez mais graves, o Bosh reclamava cada vez mais do improviso, e assim que ele foi pro Heat chegaram as informações de que havia um comprometimento do time de usá-lo como ala. Genial, se ele fazia tanto estrago sendo improvisado numa posição em que não se sentia confortável, imagina o que faria na sua posição natural! Muita gente, incluindo o Bola Presa, apostou que o Bosh ganharia alguns jogos para o Heat sozinho e que poderia brilhar muito sem a atenção que seria dedicada a LeBron e Wade. Funhé.

Eis que o Bosh anda tendo dificuldades enormes no Heat, sua produção anda baixíssima, seu jogo baseia-se em arremessar de fora do garrafão e agora ele está reclamando que não recebe a bola perto o bastante do aro, que quer jogar de costas para a cesta. Ou seja, até ele percebeu que fede como ala e já tem torcedor do Heat falando em trocar o Bosh por uma Playboy da Mara Maravilha e ainda voltar o troco.

Quando o trio fodão formou-se no Heat, eu tinha certeza de que o Bosh era o que se daria melhor na situação. Não tinha aquele papo de "quem vai armar o jogo", ele era a única força no garrafão da equipe e iria ficar numa boa caso nunca recebesse a bola decisiva dos jogos ou não fosse tão assediado pela mídia. Esperava que o Bosh ficasse tranquilo, por baixo dos panos, vencendo jogos sem que a gente percebesse enquanto LeBron e Wade bateriam mais cabeça um com o outro. O que aconteceu foi justamente o contrário e mostra como as concepções que a maioria das pessoas tinham e ainda têm do Heat estão furadas. Uma série de preconceitos com a equipe evita que possamos ver os reais problemas acontecendo no time, então vamos analisar alguns deles e ver como se relacionam sempre com Chris Bosh:

1) O Heat não tem jogadas no ataque

O técnico Erik Spoelstra deu um jeito de deixar suas estrelas fazerem o que bem entenderem e não ter que decidir quem leva a bola, quem finaliza, quem chama a jogada: cada vez que o Heat tem sucesso na defesa e consegue um rebote ou intercepta uma bola, pode fazer o que quiser. Supostamente isso incentiva a defesa, o contra-ataque, evita duelo de egos e deixa o ataque mais espontâneo e orgânico. Como sabemos, isso também transforma o Heat numa máquina de fazer porra-louquice em que LeBron e Wade fazem o que bem entendem. Mas nas ocasiões em que a defesa toma uma cesta ou comete uma falta, o Heat precisa seguir as jogadas desenhadas pelo técnico. Por isso, o Heat está entre as 10 equipes com ritmo mais lento da NBA - algo muito diferente do que uma correria anarquista nos levaria a acreditar.

O time tem uma série de jogadas para liberar Wade e LeBron no perímetro, pick-and-rolls para infiltrações, pick-and-pops com Ilgauskas e Bosh, triângulos ofensivos iniciados de costas para a cesta. O arsenal é muito maior do que era no Cavs de LeBron e é uma preocupação constante do Spoelstra, que não quer de jeito nenhum que os pontos venham sempre da mesma maneira, os pick-and-rolls, porque assim apenas um jogador da dupla LeBron e Wade estaria envolvida de cada vez e o time estaria desperdiçando a capacidade de um deles.

Esse é o grande problema, muito mais difícil de resolver do que os odiadores do Heat parecem entender: como aproveitar as capacidades de LeBron e de Wade ao mesmo tempo? Fazer com que joguem em turnos, "agora vou eu, agora vai você", é jogar no lixo o talento de alguém por uma posse de bola. Toda vez que Wade ou LeBron são isolados em um canto da quadra, o outro fica parado assistindo. Spoelstra não quer aceitar isso, não quer abusar do pick-and-roll. De uns jogos pra cá, o número de jogadas diferentes chamadas no Heat subiu muito, inclusive com algumas jogadas vindas do Hawks junto com o Mike Bibby, e quem está chamando cada uma dessas jogadas não é LeBron ou Wade, mas Spoelstra em pessoa. Lá está ele, no banco, gritando jogada por jogada da equipe. O Heat não está à solta, é um time treinado e controlado. Só que quanto mais LeBron e Wade se entendem, quanto mais dizem na mídia que já sabem como cada um pensa e que estão honrados de jogar juntos, quanto mais fazem jogadas juntos (quando um faz corta-luz para o outro, por exemplo, o resultado é sempre fantástico), mais o Bosh está fora disso.

No esquema tático do Heat, o Bosh é usado como o Ilgauskas era no Cavs. Até aí tudo bem, o pick-and-pop funciona bem, o Bosh tem (quase sempre) um bom aproveitamento nos arremessos de média distância e ele libera espaço no garrafão para as infiltrações de LeBron e Wade. Mas quanto mais longe da cesta o Bosh fica, pior o time é em rebotes ofensivos (estão entre os 5 piores da liga, só o Mike Miller salva) e mais dificil é a vida dos arremessadores de três da equipe. No final dos jogos, as equipes adversárias estão congestionando o garrafão do Heat e forçando LeBron e Wade a arremessarem, enquanto o Bosh não é acionado e não está embaixo do aro para cavar faltas ou tentar o arremesso de maior chance de aproveitamento. O Heat tem jogadas, chama essas jogadas constantemente, mas o Bosh não se encaixa nelas. Passa a maior parte do seu tempo fazendo corta-luz, longe da cesta, sem ser uma ameaça real. Esse é um trabalho que qualquer jogador mais ou menos poderia fazer - e que era feito tão bem pelo Udonis Haslem no Heat dos últimos dois anos. Mas o Bosh pode fazer mais do que isso, desde que jogue debaixo do aro dando cabeçada com os pivôs como fazia no Raptors. Ou seja, o Heat tem jogadas sim - só não tem para o Bosh.

2) O time precisa de um armador, o LeBron é um ala

postei aqui antes: assim como nos enganamos achando que o Bosh era ala improvisado de pivô, e na verdade só rende de verdade debaixo da cesta, o LeBron também é um armador que pensamos ser ala e prefere jogar na armação. Jogou como armador no Cavs a maior parte de sua carreira sem ninguém perceber direito, e quando faz isso no Heat acham que falta um armador para a equipe? O problema não é a armação do LeBron, mas o que ela significa. Quando outro armador está em quadra com ele, como Mario Chalmers, antigamente o Arroyo, ou agora o Mike Bibby, eles passam a ser basicamente arremessadores. Isso porque o Heat precisa de arremessadores desesperadamente, e grande parte das últimas derrotas aconteceram porque o elenco de apoio, apesar de receber arremessos de três bastante livres, não tem conseguido converter. Mas Bibby e Chalmers são essencialmente armadores, então deixá-los apenas para o arremesso é perder algo enorme que eles podem contribuir para a equipe. Diversas vezes durante o jogo os dois acabam trazendo a bola e iniciando algumas jogadas, mas o que poderia ser diversificação acaba sendo bagunça. Se o Bibby inicia as jogadas com o LeBron, Wade fica de fora e lhe sobra apenas os arremessos livres de três - que definitivamente não são seu ponto forte. Como Bibby e Chalmers são melhores arremessadores, a movimentação ofensiva fica invertida. O problema do Heat não é que o LeBron arme o jogo, pelo contrário: o problema é que tanta gente diferente arme o jogo o tempo inteiro, com Wade, Chalmers e Bibby iniciando as jogadas. Isso tira as chances de um padrão ofensivo, dos jogadores se acostumarem com os locais de arremesso, do armador saber exatamente qual jogador acionar, e do armador assumir a responsabilidade de escolha das jogadas. É por isso que o Spoelstra tem que ficar lá na lateral chamando as jogadas quenem um panaca. Enquanto isso, com tantos armadores passando a bola uns para os outros, o Bosh é constantemente ignorado. As jogadas evitam isolações, que só acontecem quando Wade e LeBron fazem o que querem após um sucesso defensivo (ou no final dos jogos, em que a insistência nas isolações me intriga um bocado), mas o Bosh tinha que ser isolado no garrafão constantemente para que esse time funcione. Menos armadores, mais bola nas mãos do LeBron, e jogadas de isolação pro Bosh para abrir espaço pra todo mundo. LeBron depende de Wade, Wade depende de LeBron, mas o resto do elenco precisa muito que o Bosh faça algo embaixo do aro.

3) O ego de Wade e LeBron vai implodir a equipe

Os dois estão apaixonados um pelo outro em todas as entrevistas, então quem reclamou dizendo que quer a bola embaixo da cesta foi o Bosh! Essa eu nunca iria adivinhar! Reclamou que não existem jogadas para acioná-lo perto do aro, e o Spoelstra respondeu que o time inteiro precisa atacar o aro, não tem que ter jogada para o Bosh fazer isso. De todo modo, LeBron e Wade estão jogando bem juntos, cada vez mais acostumados um com o outro, e mostraram contra o Lakers como sabem distribuir a bola entre os dois (de novo, menos no final dos jogos em que apenas escolhem quem é que vai jogar sozinho). Bizarramente a maior chance dessa brincadeira implodir está no tranquilo Bosh, insatisfeito e mal aproveitado - e recebendo críticas de todos os lados de gente que alega que ele tem fobia de garrafão. Pois bem, ele está querendo voltar atrás, fingir que não fez manha sua carreira toda, e deixar essa fobia de lado. Se não der certo, aí é hora de se preocupar com o trio.

4) O Erik Spoelstra é um bunda e o Pat Riley vai assumir a qualquer momento

O Spoelstra tomou muitas decisões polêmicas, mas todas elas caminham na direção de construir um ataque equilibrado e um elenco voltado para a defesa. Pode não funcionar sempre, pode ter um trilhão de arestas, mas Spoelstra é um nerd que sabe perfeitamente o que está acontecendo, exige variação ofensiva dos jogadores (enquanto a maioria dos técnicos só diria "faça um pick-and-roll", o Mike Brown não foi técnico do ano com isso?) e montou uma defesa sensacional muito antes de LeBron e Bosh chegarem em Miami. Seu maior problema é apenas em não saber lidar com o Bosh. Ele quer um time que ataque o aro mas com o Bosh fora do garrafão para abrir esse espaço, quer o Bosh participativo mas sem receber a bola a não ser para arremessos de média distância, quer o Bosh defendendo mas ele jogar como ala lhe afasta dos rebotes defensivos e impede que use sua velocidade para defender na cobertura e interceptar passes para os pivôs. Ele está usando o Bosh como usava o Udonis Haslem, e continua fã do Joel Anthony como pivô por ele ser silencioso, obediente e dedicado. Spoelstra está tão obsessivo em aproveitar bem suas duas estrelas que está esquecendo aquilo que todos sabiam desde o começo: a chave das vitórias nos playoffs estará na terceira estrela que agora, nas suas mãos, sequer é uma estrela mais. Tem gente querendo trocar o Bosh pelo Samardo Samuels... resumindo, o Spoelstra só é um bunda porque insiste em não estabelecer um ataque que comece no garrafão e aí vá para fora, usando o Bosh.

5) O Heat afoga gatinhos em piscinas

Foi apenas uma vez e ao contrário do que dizem os boatos, o gatinho não estava dormindo. Eles não são assim tão malvados.

sábado, 5 de março de 2011

Em busca de respostas

Se você está ganhando, levanta a mão!


Estava evitando falar sobre o Miami Heat por dois motivos: primeiro porque falamos muito dele no começo da temporada e queria dar atenção para outros times, depois por ignorância, eu não sabia explicar o que eu queria explicar: o motivo que leva o Heat a ser tão bom contra equipes fracas e tão ruim contra os melhores times da NBA. E por que, mesmo quando não são tão ruins, perdem no final os jogos apertados. O que diabos acontece com essa equipe?

Os números são assustadores para um time que deveria ser tão bom. Apesar das 43 vitórias e 19 derrotas na temporada, são só 14 vitórias e 16 derrotas contra equipes com mais de 50% de aproveitamento, além de um patético número de 1 vitória e 8 derrotas contra o Top 3 de cada conferência: Bulls, Magic, Celtics, Spurs, Lakers e Mavs. O único triunfo foi no Natal contra o Lakers, o outro time da elite da NBA que sofre com o mesmo problema de perder jogos importantes. Nos últimos dois dias não foram só derrotas, mas humilhações, primeiro venciam o Orlando Magic por 24 pontos de vantagem e tomaram a virada, em casa. No dia seguinte tomaram uma sacolada de 125 a 95 do Spurs, sofrendo dessa vez os 24 pontos de desvantagem e só no primeiro período! Com o perdão da expressão, foi uma surra de pau mole. Do Kid Bengala. Isso sem esquecer que uma semana atrás desperdiçaram uma liderança de 10 pontos, em casa, contra o Knicks e que os próximos 8 jogos do time são contra times com 50% ou mais de aproveitamento, tá feia a coisa.

Outro número perturbador sobre o Heat: Em jogos decididos por 3 pontos ou menos eles tem 2 vitórias e 7 derrotas. São 2 vitórias e 12 derrotas em jogos decididos por 5 pontos. Não eram LeBron James e Dwyane Wade dois dos melhores jogadores da NBA em finais de jogos? Segundo os dados do 82games.com, que analisa a performance dos jogadores nos 5 minutos finais de jogos disputados (nenhum time liderando por mais de 5 pontos), o LeBron era o principal pontuador da NBA nessa situação no ano passado, com o Wade em 22º. No ano anterior o LeBron era o 2º, com Wade em 4º. Na atual temporada LeBron é o 13º, Wade nem aparece na lista. Mas mais do que os pontos marcados nessa situação, o que chama mais atenção é o aproveitamento dos arremessos do King James: Caíram de 55% e 48% nos dois últimos anos para 33% até agora.

Dados os números, vem o que eu estava evitando, a explicação. Por que eles não conseguem vencer os outros times da elite da NBA e por que perdem jogos apertados? Teve gente já tentando explicar isso por aí antes, mas coloco aqui o que eu pensei antes de analisar a resposta dos outros. Começo tentando responder a última questão.

O meu palpite depois de assistir a vários jogos do Heat é que o problema deles em finais de jogos é o mesmo do resto da partida, o ataque em meia quadra. Lembram aquele time do Suns do Mike D'Antoni que era o melhor ataque da NBA mas que tinha vários problemas em finais de jogos? O problema era que eles tinham a tendência de pegar rebotes defensivos, roubos de bola ou até resposições depois de cestas sofridas e correr para o ataque para arremessar o mais rápido possível, antes da defesa adversária se arrumar. Mas no final das partidas o instinto natural é querer acalmar as coisas e não tentar arremessos bestas que desperdicem uma valiosa posse de bola, e aí a única coisa que sobrava para eles era o pick-and-roll com Steve Nash e Amar'e Stoudemire, uma boa opção, claro, mas previsível e única. O Heat nem essa opção tem. Foi um time construído meio em cima da hora, sofreu com contusões no período de treinamentos e desde sempre tem um ataque irregular, passou a dar mais certo quando a defesa começou a funcionar e eles passaram a torturar outros times com imparáveis contra-ataques liderados por LeBron e Wade. Acontece que no fim dos jogos eles tentam atacar com menos velocidade e aí o time é empacado, se movimenta mal e acaba por decidir partidas com arremessos contestados de meia distância do LeBron e do Wade, a pior situação para eles.

O problema que contra a maioria dos times é só no fim dos jogos, contra os bons times é no jogo inteiro. Além da motivação extra que eles tem de enfrentar o Heat, os melhores da NBA estão todos muito bem ranqueados (com exceção do Spurs) em pontos de contra-ataque sofridos por jogo, ou seja, são bons em impedir a melhor arma ofensiva do Heat. As três equipes do Leste, Bulls, Magic e Celtics estão entre as quatro melhores (junto com o Bucks) também em proteger o garrafão, o que no caso do Heat significa menos bandejas de Wade e LeBron e mais bolas de três de Mario Chalmers, James Jones, Mike Miller e agora Mike Bibby, todos esses que tem tido atuações patéticas nesses jogos contra as grandes equipes. Se fosse para explicar em uma resposta curta eu diria que o Heat é um time muito bom com alguns poucos defeitos, os piores que poderiam ter.

Agora, depois dessas contestações é preciso saber os motivos e as soluções. Se o Heat tem um ataque estagnado é culpa de quem? Muita gente por aí quer o Erik Spoelstra fora a qualquer custo, mas tenho minhas dúvidas se a culpa é dele. Queria muito ter acesso aos treinos e pedidos técnicos dele para saber se em algum momento ele vira para o LeBron James e diz "Bata a bola por 20 segundos e depois force um arremesso idiota" ou se diz para o resto dos jogadores "Só fiquem parados em um canto esperando que algo aconteça". Na NBA é mais normal do que em outros esportes que os grandes jogadores assumam liberdades e ignorem o que o técnico diz, esses dias mesmo o Phil Jackson disse que o Ron Artest é melhor que o Kobe no sistema de triângulos que eles usam no ataque pelo simples fato de que o Kobe muitas vezes ignora a parte tática e faz o que quer. Nunca quis e nem quero entrar nessa modinha de transformar o LeBron James em um demônio que concentra nele todos os males da humanidade, mas alguém duvida de que ele confia mais no próprio taco do que nas instruções do técnico? E mesmo quando erra eu vejo mais o Wade e Bosh dando tapinha nas costas dele do que cobrando.

Outra coisa é importante aqui, precisamos nos livrar dessa mania futebolística de acreditar que se existem jogadores talentosos em quadra a derrota tem que ser culpa do técnico. Um exemplo magnífico disso foi feito nesse texto da ESPN americana em que eles analisam as últimas sete posses de bola do Heat contra o Knicks, quando eles tomaram a virada e foram derrotados. A coisa resumida é mais ou menos assim:

Posse de bola 1: O Heat tenta uma jogada para o Dwyane Wade, que se movimenta sem a bola, o Knicks defende bem e LeBron acaba errando um passe simples.

Posse de bola 2: Dessa vez é Bosh que lidera a jogada e acha Wade cortando em direção à cesta, mas o passe não sai perfeito e dá a chance da defesa se recuperar. Sem muito espaço, Wade força e erra um arremesso ao invés de passar a bola para Bosh ou Mike Miller.

Posse de bola 3: Eles tentam um pick-and-roll com Joel Anthony, que estava livre embaixo do aro, mas o passe é bloqueado. Joel consegue ainda pegar a bola para passar para Wade, que então passa para Bosh que corre em direção à cesta. Na hora de tentar arremessar ele se atrapalha e então passa de volta para Wade, que precisa forçar o arremesso e erra. 

Posse de bola 4: Como em outras vezes eles usam o Bosh na cabeça do garrafão para começar a jogada, mas ele recebe uma inesperada marcação dupla e salta antes de dar um passe, erro primário que resulta no roubo de bola de Chauncey Billups.

Posse de bola 5: Pick-and-Roll com LeBron James que ataca a cesta, sofre falta e converte os lances livres. Mais simples do que isso, impossível. Únicos pontos da equipe no fim do jogo.

Posse de bola 6: Dessa vez LeBron ataca a cesta de novo, mas sem um corta-luz. Carmelo Anthony defende bem e Amar'e Stoudemire completa o serviço com um lindo toco. Como o cara da ESPN disse, uma jogada defensiva tão boa de Carmelo e Amar'e é tão incrível quanto improvável.

Posse de bola 7:  Precisando de 3 pontos com apenas 6 segundos no relógio, LeBron James recebe a bola e ao invés de chutar quando tem espaço prefere esperar para procurar um passe. Nenhuma oportunidade aparece e ele dribla para o lado para conseguir espaço e arremessa sem sucesso.  

Erros do Erik Spoelstra nesse fim de jogo eu só diria um, que é o de não confiar em seus arremessadores de três para o fim dos jogos, mas é algo até que compreensível e discutível já que Eddie House e James Jones não fizeram o bastante para merecer essa confiança. As outras jogadas já haviam dado certo em outros momentos do jogo e não funcionaram aí por erros de LeBron, Bosh, Wade e competência da defesa do Knicks (primeira vez que escrevo essa frase). Será que se fosse outro cara no banco comandando o time algo teria sido diferente? Será que o erro do Spoelstra é estar pedindo muitas jogadas diferentes quando as mais eficientes são as do estilo Mike Brown de só isolar o LeBron? Prefiro acreditar que não.

Embora sempre seja um assunto subjetivo e meio GalvãoBuenístico, podemos tentar entrar na cabeça dos jogadores e interpretar que eles simplesmente não estão conseguindo se focar no final dos jogos. Essa pressão por precisar vencer as partidas apertadas e/ou contra adversários importantes pode incomodar, ou essa história de ter um time dividido em três não faz bem para a confiança deles. Eu consigo visualizar (o que não quer dizer nada) o Wade não ligando se acertava ou errava um arremesso no ano passado porque o time era dele, mas nesse ano pode sentir aquela responsa de não deixar Bosh e LeBron decepcionados. São só suposições, vocês podem ignorar, mas como disse antes é difícil saber a explicação exata e eu já tô atirando pra todo lado. Hora de buscar explicação de gente mais qualificada do que eu.

Nesse fim de semana aconteceu no MIT (Massachusetts Institute of Technology) o quinto "MIT Sloan Sports Analytics Conference", um encontro para discutir e analisar o mundo esportivo atual profundamente. O organizador foi o atual General Manager do Houston Rockets, Daryl Morey, e teve como convidados caras como RC Buford (manager do Spurs), Bill Simmon (colunista, dos bons, da ESPN), Jeff Van Gundy (ex-técnico e atual comentarista de TV), Mark Cuban (dono do Dallas Mavericks), Kevin Pritchard (ex-manager do Blazers) e muito mais gente que manja demais de basquete. Entre muitas coisas que eles trataram lá (vou tentar fazer um post sobre isso na segunda, vamos ver se dá tempo), falaram sobre esses problemas do Miami Heat.

Para o Mark Cuban o Heat fracassa no fim dos jogos porque são previsíveis. Segundo ele ninguém do elenco de apoio tem se destacado durante a temporada e assim as defesas conseguem se focar mais no Big 3. Faz sentido, nas jogadas que vimos contra o Knicks podemos citar a dobra na marcação do Bosh que forçou um turnover e a ajuda do Amar'e Stoudemire sobre o LeBron James. Por outro lado o Dallas é bom no fim dos jogos e todo mundo sabe das jogadinhas com Jason Terry e Dirk Nowitzki que eles fazem há anos. Talvez o Heat só precise de tempo para pegar o jeito? É o que o Kevin Pritchard acha. Para ele o Heat não passou por situações o bastante para poder ser analisado como um todo, que eles precisam de mais jogos decididos por poucos pontos no final para se ter uma amostragem suficiente. Ele também diz que eles ainda são uma equipe muito nova, junta há pouco tempo e que compará-la em momentos de fim de jogo com times como o Lakers e Celtics não é justo.

O John Hollinger, especialista em estatísticas da ESPN, não gosta nem dessa análise dos jogos decididos por 5 pontos ou menos, achando ela muito arbitrária. Ele diz que jogos decididos por 5 pontos são tão apertados quanto os decididos por 6 e que colocando eles na estatística a análise poderia mudar completamente, por exemplo. Outro cara da ESPN, o Marc Stein, tocou no assunto da disputa contra outros times da elite da NBA, lembrando que o Heat campeão de 2006 também tinha um recorde péssimo contra bons times, incluindo duas derrotas para o Mavs, equipe que derrotaram na final daquele ano.

Esse assunto me lembrou uma pesquisa do Basketball-Reference que eu postei no começo da temporada em um dos nossos Filtros. A pesquisa feita por eles queria saber se existe alguma relação entre vencer jogos contra times com bom aproveitamento na temporada regular e ir bem nos playoffs. Para isso eles se basearam em um estudo parecido feito no futebol americano e separaram as vitórias em diferentes tipos:

Guts: São as vitórias por 5 ou menos pontos contra boas equipes (mais de 50% de aproveitamento)
Stomps: Vitórias por mais de 9 pontos contra equipes ruins (menos de 50% de aproveitamento)
Skates: Vitórias por 5 ou menos pontos contra equipes ruins
Dominations: Vitórias por mais de 9 pontos contra equipes boas

Analisando os resultados em Finais e Finais de Conferência desde a fusão da ABA com a NBA em 1976 os resultados foram:

As melhores marcas são do Domination, ou seja, óbvio: nada é um indicador melhor do que simplesmente ir lá e vencer fácil contra boas equipes, como o Spurs fez contra o Heat. Mas o segundo melhor indicador são os Stomps, mais do que os Guts. Ou seja, historicamente os times que arrasam com os mais fracos se dão melhor nos playoffs do que os que vencem apertado os times bons. Talvez pelos jogos apertados serem decididos em detalhes e a amostragem deles durante a temporada não ser tão grande, o indicador não seja tão válido assim no fim das contas. Como foi citado no artigo do B-R e dito no estudo (que teve o mesmo resultado!) feito no futebol americano, "Times campeões são definidos pela sua habilidade de dominar equipes inferiores, não pela habilidade de vencer partidas apertadas". É mais uma vez os números brigando com as nossas certezas mais antigas e profundas.

É triste ler tanta coisa para não chegar em conclusão alguma, mas é um assunto difícil. De todas essas opiniões e análises, incluindo até a que eu fiz antes de começar a minha pesquisa, eu concordo mais com Kevin Pritchard, que é a de que é cedo para ter qualquer conclusão. A marca do Heat até agora não é boa e isso claro que significa alguma coisinha, mas ainda é uma amostragem pequena feita sobre um time que começou do zero há pouco tempo. Um time baseado em estrelas que não estavam acostumados a jogar ao lado de outros como eles. É muita mudança, muita coisa nova e pouca temporada para sair declarando qualquer coisa absoluta.

Erik Spoelstra, LeBron James, Dwyane Wade, Chris Bosh e todo o resto do time ainda têm muita coisa para aprender e talvez não aprendam a tempo de vencer esse ano, mas enquanto eles tiverem consciência de que ainda não são os melhores e continuarem trabalhando para chegar lá eles tem muitas chances de sucesso. É fácil e uma tentação odiar o Miami Heat, o que não faltou ontem foi gente tendo orgasmos com o Spurs, símbolo de uma equipe coletiva e humilde, vencendo o Heat que é só um apanhado de talento e gente convencida. Mas se um já é um time hoje, temos que dar tempo para o outro pelo menos tentar ser. No meio do hype, dos egos inflados e do ódio que circula esse time, ainda existem jogadores fora de série e um bom técnico.

sábado, 29 de janeiro de 2011

A revolução será calculada

O que os números dizem sobre o desempenho de Kobe no último segundo?


Eu peço desculpas pela demora com um post nos últimos dias, nem estava tão ocupado assim, mas sempre que começava a escrever sobre esse assunto eu ficava meio inseguro e corria atrás de mais dados, mais informações e repensava o que eu mesmo tinha para escrever. No fim das contas foram dias preso no mesmo assunto. É sobre talvez o meu assunto favorito dentro do basquete e queria fazer um texto digno sobre o assunto, mesmo que isso custe uns dias de vocês entrando no blog só pra ver a mesma coisa.

O tema que eu tanto amo são as estatísticas. Sou perdidamente apaixonado por elas desde sempre, e me incomodava não existirem sobre o futebol, em especial o brasileiro. Passei um bom tempo desde a era da internet discada fuçando essa internet de meu deus atrás de estatísticas sobre futebol, vocês não sabem o quanto de pornografia barata eu passei nessa jornada! Mas é uma batalha em vão, as opções são poucas e limitadas. Engraçado saber que o Datafolha tem um link para estatísticas de esporte no seu site e os últimos dados são do Brasileirão de 2005. Mas o problema é que enquanto o público americano argumenta sobre MVPs e All-Stars com os números debaixo do braço para a discussão, o futebol é o esporte em que o atacante pode tocar na bola uma vez em todo o jogo e ser o herói, melhor jogador, ídolo e mito. No futebol até existe um prazer secreto em ver um time dominar o jogo em posse de bola, chutes a gol e mesmo assim perder o jogo, é o triunfo do imprevisível sobre o racional.

Mas eu sempre tentei não enxergar assim, os números não precisam ser sempre frios e eu acredito, ingenuamente, que o esporte, principalmente o basquete, pode ser medido por eles. Se eles parecem mentir é porque ainda não achamos o jeito certo de medir. O grande exemplo disso foi dado pelo Rob Mahoney, um blogueiro do New York Times e do blog Two Man Game sobre o Dallas Maverick, em um post recente sobre o Kendrick Perkins. Ele começa o texto citando outro blogueiro do NYT que chamou o Shane Battier de "No-Stats-All-Star". Isso porque o Shane Battier é um defensor preciso, chato, pentelho, técnico, mas que não transforma a sua defesa em roubos ou tocos, ele é capaz de ter sido um jogador decisivo no jogo e não ter nenhum número relevante no box score.

Para conseguir medir a eficiência do Battier então ele buscou as estatísticas de plus/minus (+/-) que medem o placar do jogo para o seu time enquanto certo jogador ou combinação de jogadores estão em quadra. Mas o plus/minus também tem seus defeitos, afinal um jogador nem sempre joga nas melhores situações. Um jogador pode só estar em quadra com companheiros de time ruins ou contra os melhores do outro time, enquanto outros só enfrentam os reservas dos adversários. Pensando nisso foi criado o "Adjusted plus/minus", a conta para explicar o valor é muito maluca e vários analistas nem tentam, fica para a próxima, mas o objetivo é corrigir o plus/minus original de acordo com a situação em que cada jogador atua. Nesse ranking o Shane Battier se destaca absurdamente e figura entre os nomes famosos e de destaque da NBA. Outro número buscado para explicar a produtividade do ala do Rockets foi medir a produtividade dos jogadores marcados por ele e o resultado é que todo mundo que o enfrenta fica abaixo da sua média de eficiência. Finalmente, depois de anos sendo o "No-Stat-All-Star", Shane Battier poderia contar em números como era bom.

A revolução estatística no basquete americano nasceu com o beisebol. Primeiro nos anos 60 com o livro "Percentage Baseball" de Earnshaw Cook, mas só ganhou atenção popular no final dos anos 70 com Bill James, que ao invés de analisar o beisebol como todos os outros de sua época, cheio de romantismo e mística, ao invés disso levantava questões como "Que arremessador sofre mais roubos de base?". A princípio muitos jornais não gostaram da abordagem dele, achando que não interessava ao público, o que lhe fez lançar seus dados em um livro por uma editora pequena, era o  "The Bell James Baseball Abstract" em que analisava o ano anterior do baseball baseado somente nos números. Aos poucos outros membros da imprensa abraçaram a idéia e a cultura da estatística avançada começou a florescer.

No começo dos anos 80 a evolução do beisebol nas estatística chamou a atenção do basquete, em especial de jovens universitários, em especial Dean Oliver e Daryl Morey. Anos depois, Oliver foi o responsável pela criação do fórum APBR Metrics, o grande centro de discussões sobre estatísticas avançadas no basquete em toda a internet. Em 2003 Oliver lançou o livro "Basketball on Paper" que até hoje guia todos os que procuram entender o basquete pelos números, suas contribuições para o basquete renderam para ele um emprego como consultor no Seattle Supersonics e depois no Denver Nuggets, onde trabalha até hoje. Em 2003 também foi lançado o livro "Moneyball: A arte de vencer um jogo injusto", a segunda revolução estatística no beisebol. O livro de Michael Lewis mostrava como o General Manager do Oakland A's usava estatísticas nunca antes consideradas em um jogo de beisebol para conseguir contornar a dificuldade que era comandar um time com recursos bem mais escassos que os gigantes da MLB. Esse livro foi uma das grandes inspirações de Daryl Morey, formado em ciências da computação com ênfase em estatísticas e que trabalhou como assistente de estatísticas para o Celtics antes de virar o General Manager do Houston Rockets.

Esses são apenas dois exemplos de uma tendência crescente na NBA, a de respeito às estatísticas. Até o criador do site Basketball-Reference.com, Justin Kubatko, o maior banco de dados sobre estatísticas da NBA na internet, tem sua vaga dentro da liga como consultor do Portland Trail Blazers, que, por sinal, tem como General Manager o engenheiro com forte formação matemática Rich Cho.

Os números no beisebol são mais fáceis de medir porque não existe muita interação entre os jogadores como no basquete, é mais fácil para eles medir o que é uma ação individual e avaliar o jogador em separado do seu time. No basquete a porcentagem dos arremessos é influenciada pela qualidade dos passes que se recebe, da ameaça que seus companheiros são para a defesa adversária e muitas outras coisas. Tem também a questão das assistências, afinal quantos bons passes não entram para a estatística por causa de um arremesso torto ou uma bandeja parada por falta? Ou mesmo nos rebotes, um jogador pode pegar vários por jogo, mas será que ele pega aqueles mais difíceis, com três ou quatro jogadores batalhando pela bola?  Pouco a pouco é o que as novas estatísticas tentam responder.

Assim como a matemática avançada, quanto mais a fundo se vai para as respostas, menos precisas elas ficam, embora isso perturbe quem busca os números atrás dessa precisão. Elementos como a eficiência, adjusted plus/minus e porcentagem de rebotes estão mais para estimativas do que para certezas concretas, mas são elas que guiam a mente de todos os citados acima. A porcentagem de rebotes é uma conta que diz quantos por cento dos rebotes de uma equipe são pegos por aquele jogador, o atual líder da NBA é Kevin Love com 23.5%, seguido de muito muito perto por Marcus Camby, ou seja, é uma estatística apoiada pela média de rebotes por jogo. Mas a de porcentagem de roubos, por exemplo, mostra Tony Allen liderando com folga! Na frente dos consagrados Chris Paul e Rajon Rondo. Alguns poderiam argumentar que a média por 36 ou 48 minutos corrigiria isso, mas igualar o número de minutos jogados não considera que times jogam em velocidades diferentes e, logo, têm mais ou menos oportnuidades de roubar bolas, arremessar, pegar rebotes, etc.

Possivelmente a maior contribuição de Dean Oliver para o basquete foi a contagem do jogo de basquete pelas posses de bola. Afinal, é mais fácil ter a maior média de pontos por jogo se você joga em extrema velocidade e tem 110 posses de bola por jogo, certamente fará mais pontos do que um time que joga com cuidado e acaba tendo 90 posses de bola, o que não quer dizer que é um ataque mais eficiente. O mesmo vale para a defesa. A questão da posse de bola é também uma das diferenças entre a contagem de eficiência feita apenas somando e subtraindo estatísticas e o famoso PER, criado pelo analista John Hollinger e que, apesar dele mesmo admitir que prejudica jogadores com qualidades defensivas como Shane Battier, é o melhor jeito de analisar com um número único os jogadores mais eficientes da liga. Mas não esqueçam, como diz Oliver no seu livro: "Não tenha esperanças em um sistema definitivo para medir o talento dos jogadores. Isso não existe. Mas existe muito valor nas tentativas". Eu falo mais sobre o PER e sua fórmula nessa coluna de alguns anos atrás.

Mas bom, eu tinha comentado no começo do texto que o post no blog do New York Times era para explicar como o Kendrick Perkins era bom na defesa, não só Shane Battier. Acontece que tudo o que usaram para provar que o ala do Rockets era um bom defensor não funcionava com o Perkins. Como era possível que todos estivessem vendo que ele era uma das pedras fundamentais da melhor defesa da NBA (segundo todas as estatísticas) e os números não mostravam nada? O seu adjusted plus/minus foi um dos piores da NBA na temporada passada mesmo sendo onde os jogadores com as suas características brilhavam. E medindo o valor dos pivôs que jogam contra ele, a eficiência dos adversários continuava na média contra Perkins, com poucas exceções. E é nessa hora que devemos ou jogar os números fora e acreditar nos nossos instintos, ou renegar os instintos e criticar Perkins pelos números. Ou, como fez Mahoney, ir cada vez mais fundo para achar um número que pareça dizer a verdade. Ele usou os números fornecidos pelo genial (e ainda fechado para o público nessa temporada) Synergy Sports e percebeu que nos arremessos próximos ao aro, quando os jogadores recebem próximos a cesta, Perkins permite apenas 0.7 pontos por posse de bola, uma das melhores marcas de toda a NBA, e isso acertando apenas 38% dos arremessos, um número dominante se considerarmos o quanto estão perto da cesta. Por fim, o Perk comete faltas em apenas 6% dessas situações. Em outras palavras, Perkins não tem os melhores números porque enfrenta muitos dos "novos pivôs", caras como Andrew Bynum, Andrew Bogut ou até os famosos alas de força improvisados, como Amar'e Stoudemire ou Pau Gasol, jogadores que tem um bom jogo de meia distância e sabem causar impacto mais longe da cesta. Aí quando enfrenta jogadores que querem se impôr embaixo da cesta, como Dwight Howard, Perkins garante a sua reputação como um dos grandes defensores da NBA.

Como bem descrito no texto do NYT, Shane Battier é um jogador que se destaca quando nos afastamos e vemos o jogo num nível geral, enquanto Perkins se destaca quando vemos o jogo em um "micro level". Pode parecer confuso, talvez até uma sacanagem, sempre buscando números atrás de números até achar um que beneficie ou prejudique o jogador. Mas não é algo que precisa ser visto da perspectiva do bom e ruim, as estatísticas não estão aqui para serem usadas para provar quem é melhor que quem (algo desnecessário e, como defendemos fortemente aqui, só diminui o basquete a algo simplista). O número mostra que o Perkins é bom naquele tipo específico de defesa e ponto, é isso.

A acusação de manipulação dos números surgiu nos últimos dias com um polêmico post de Henry Abbott no blog True Hoop, "A verdade sobre Kobe Bryant nos momentos decisivos". Nessa análise ele não usa nenhum número muito avançado, mas inova por ir atrás dos números em uma área em que costumamos ser guiados apenas pelos nossos instintos. Quando o Lakers perdeu um jogo em uma air ball de três pontos do Lamar Odom anos e anos atrás contra o Pistons, eu lembro de ter xingado por horas dizendo "Por que não deram a bola para o Kobe?". Milhares de outros fizeram um questionamento parecido quando LeBron James passou a última bola do jogo, o da vitória, contra o mesmo Pistons em um jogo de playoff, para o arremesso de três de ninguém mais ninguém menos que Donnyell Marshall. A chuva de críticas continha coisas como "Uma estrela como LeBron James deve chamar a responsabilidade em uma hora como essa". É natural, queremos o que consideramos o melhor jogador para decidir, é algo até da cultura americana que valoriza tanto o "franchise player", se é o time do LeBron é ele quem deve ganhar e perder pelo time.

O artigo de Abbott lembra a pesquisa feita com os 30 General Managers da NBA (incluindo todos os nerds como Cho e Morey) em que 77% responderam que se tivessem todos os jogadores da NBA para escolher para um arremesso final, escolheriam Kobe. Mas analisando os dados de todos os jogos da NBA desde 1996-97 até hoje, em momentos com 24 segundos ou menos e jogos empatados ou perdendo por até dois pontos, Kobe tem apenas 31% de aproveitamento nesses arremessos decisivos. É apenas o 25º melhor entre os com 30 tentativas ou mais. O líder, disparado, é Carmelo Anthony com 47%. Sem querer puxar sardinha para o nosso lado, mas um estudo muito parecido foi públicado pela gente quando tínhamos uma coluna sobre estatística no BasketBrasil. O texto pode ser lido aqui e contém o seguinte trecho:

"'Kobe Bryant é o melhor jogador para dar o último arremesso'
Falso. Segundo os dados coletados pelo 82games.com, Kobe Bryant é apenas o quarto jogador que mais acertou bolas decisivas e é o que mais bolas errou nas últimas 5 temporadas.


Kobe acertou 14 arremessos vencedores e errou 56, um aproveitamento de 25% das tentativas. Também acertou 12 de 15 lances livres, deu apenas uma assistência e cometeu 5 desperdícios. Podemos dizer que o padrão é Kobe não passar a bola na posse de bola final, arremessar por conta própria e acertar uma a cada quatro."

No mesmo texto mostramos como Carmelo Anthony era o mais decisivo desde aquela época e como jogadores com fama de amarelões como Dirk Nowitzki e Peja Stojakovic eram na verdade acima da média. Enquanto isso Chauncey Billups, o famoso "Mr. Big Shot", tem um aproveitamento terrível. O que é bem curioso é que os nomes e os aproveitamentos não são muito diferentes quando analisados não só a posse de bola final mas também os últimos cinco minutos de um jogo apertado.

A acusação feita por muitos admiradores do Kobe é que essa é uma das formas de manipular os números contra um jogador, que as estatísticas não poderiam ser ousadas a ponto de contrariar toda a maioria de torcedores, jogadores, General Managers e até de alienígenas que acham Kobe o maioral. Mas a verdade é que o Kobe interpreta ao máximo a teoria do "O time é meu e eu decido" e o final dos jogos é com ele. Contando só os números dessa temporada, por exemplo, Kobe é líder absoluto em arremessos tentados nos últimos 5 minutos de jogos decididos por poucos pontos. São 34.7 arremessos tentados a cada 48 minutos do chamado "crunch time", perto dele somente Derrick Rose e Carmelo Anthony, mas com a diferença que Kobe tem 38% de aproveitamento, enquanto Rose tem 39% e Melo impressionantes 45%.

Ou seja, não é exagero. O Kobe acha que a responsabilidade nos finais do jogo é só dele e ele só passa a bola se realmente for a última opção, mas logo pedindo a bola de volta. Mas sejamos sinceros, nos últimos três playoffs em muitas vezes ele soltou a bola, mais do que é normal para ele. Foi assim com aqueles pick-and-rolls no alto da quadra com Pau Gasol e Lamar Odom e os passes que ele deu para Derek Fisher e Ron Artest meterem bolas decisivas de três pontos. Decisões importantes, inteligentes e que renderam títulos, mas raras, não há como negar. Podem argumentar que o Kobe tenta arremessos mais difíceis que os outros, mas isso só acontece porque o adversário sabe que ele só passa a bola em último caso. Não queremos que Kobe perca a sua magia por causa de meia dúzia de números, mas quando se analisa estatísticas dessa maneira você deve estar aberto a engolir coisas que até pouco tempo atrás pareciam verdades absolutas.

Eu dou um exemplo que aconteceu comigo e é bem recente. Vocês devem se lembrar desse meu post analisando o San Antonio Spurs, certo? Eu disse que o Spurs estava se enganando, mas enganaram a mim também. Um dos meus argumentos para explicar a mudança do Spurs em relação aos últimos anos era a velocidade com que eles jogavam, e sustentei a teoria com o número de posses de bola que eles tem por jogo, um dos maiores da NBA. Mas alguns problemas aparecem, como uma jogada com vários rebotes ofensivos conta como uma grande e longa posse de bola. Turnovers também criam mais posses e nem sempre estão ligados a velocidade dos times. Surgiu uma nova maneira de medir a velocidade com que os times jogam e elas desmentem o que eu disse. Rohan Cruffy do SBNation.com (e não da seleção holandesa de 74) criou um método em que se mede a velocidade dos ataques da NBA de acordo com o tempo que eles gastam para efetuar cada posse de bola. Nessa medida os times mais rápidos continuam sendo os mais rápidos se em comparação com os de número de posses de bola por jogo: Nuggets, Knicks, Warrirors e Suns. Mas o Spurs, para a minha surpresa, despenca na tabela.

O time de Tim Duncan é o 13º mais veloz em posses de bola (chegou a ser o 8º mais veloz no início da temporada) e é o 19º se contando o tempo do relógio. E a razão é simples, quando se mede o tempo de arremesso do adversário o Spurs é, sei lá diabos porquê, o time que sofre os arremessos mais rápidos em toda a NBA. Os times que enfrentam o Spurs ao invés de trabalhar a bola partem pra cima e sempre aceleram o jogo, arremessando cedo, causando uma inflação no número de posses de bola por jogo. Sim, o Spurs tem um pouco mais de pontos por contra-ataque por jogo e está usando mais os seus jogadores velozes, mas eles não são um time que joga em um ritmo tão veloz como eu supunha.

O curioso é que isso não parece ter relação com a qualidade da defesa também. Times bons na defesa como o Hornets, Magic, Bulls e Bucks forçam seus adversários a arremessos depois de muito tempo no relógio. Mas outras boas defesas como Lakers, Heat e Celtics forçam arremessos velozes, não parece existir um padrão. Ou, claro, a gente que não ainda não soube analisar os dados direito.

Portanto, precisamos ter a cabeça aberta para admitir que algumas coisas nos enganam. Ver o Spurs tentando puxar mais contra-ataques do que o normal e ter a confirmação numérica dos placares altos e das posses de bola excessivas me fez cometer o erro de ver um Spurs excessivamente rápido, quando na verdade são os adversários deles que impõe essa velocidade. Se para alguns fãs é difícil admitir a derrota para os números, imagine para os jogadores. Esse é o desafio de outro nerd do basquete atual, Erik Spoelstra, treinador do Miami Heat.

Ele foi chamado pelo Pat Riley há mais de 10 anos para buscar novos dados estatísticos para ajudar o Miami Heat a evoluir nesse nicho crescente dentro do basquete. Então Spoelstra chamou um desenvolvedor de software só para o time, Shmuel Einstein. Nas palavras de Spoelstra: "Achei que seria uma boa chamar um cara com o sobrenome Einstein". Juntos eles desenvolveram novas maneiras de analisar o jogo, especialmente separando diferentes tipos de jogadas e analisando a sua eficiência, o sistema é complexo ao ponto de que cada posse de bola defensiva é analisada sob a perspectiva de 54 diferentes critérios, "É um trabalho entediante", admite o técnico.

Assim que o Spoelstra descobriu que teria o árduo trabalho de treinar LeBron, Wade e Bosh ao mesmo tempo, começou a se debruçar sobre toneladas de vídeo do seu Heat, além de Cavs e Raptors. Afinal, como esses jogadores eram mais eficientes e em que jogadas mais se destacavam? A análise foi feita e mesmo assim o tempo para treinar foi pouco e o começo de temporada foi desastroso, especialmente no ataque. O que chamava mais a atenção era como o time tinha números péssimos com LeBron e Wade ao mesmo tempo em quadra. Foi quando Spoelstra chamou todos, disse que os dois não estavam funcionando juntos e afirmou que eles deveriam aprender a jogar juntos, afinal não ia colocar ninguém no banco. Para mostrar o que esperava deles apresentou um gráfico de pizza dividido com todas as maneiras que eles deveriam pontuar: duas ou três enterradas ou bandejas em contra-ataques, algumas cestas cortando em direção à cesta, dois arremessos de longe, duas jogadas de costas pra cesta e assim por diante. Se realizassem tudo isso teriam a liberdade de jogar no high pick-and-roll (com o corta-luz na linha dos três) no final de cada período, situação em que os três mais se destacavam em seus antigos times.

Segundo Spoelstra não são todos os jogadores que sabem lidar assim com os números, então sempre o melhor jeito é mastigar o máximo possível. Segundo ele só 5% de tudo o que eles calculam chega aos jogadores e muitas vezes assim, em gráficos desenhados e fáceis de entender. A experiência com o Heat tem dado certo, nos últimos jogos os gráficos de como cada jogador marca têm mudado para mais perto do ideal pensado por Spoelstra, segundo ele principalmente com Wade, que marca seus pontos das maneiras mais variadas possíveis, como ele havia proposto.

O que podemos tirar disso tudo é que a revolução estatística já chegou na NBA e só cresce. Mas por enquanto ainda é um território dividido, longe da certeza absoluta que o tema a princípio propõe. General Managers, jogadores e mesmo (ou principalmente) os torcedores estão pensando duas vezes em aceitar a revolução. Eu diria, até, que cerca de 65,7% dos torcedores casuais da NBA consideram as estatísticas avançadas uma bobagem. Mas é só uma estimativa.