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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Mais do que um defensor

Quem sabe defender, dá uma risadinha

Quando Kendrick Perkins foi trocado no meio da temporada passada, tudo levava a crer que o Celtics se sairia normalmente sem ele. Perkins era um bom jogador, pivô titular da equipe, mas não era nenhum gênio - até porque paredes sólidas de tijolos não costumam ser geniais. Havia passado todo o começo da temporada fora, contundido, e o Celtics nem por um segundo pareceu sentir sua ausência. Até, claro, ele ser trocado e a equipe inteira desandar como um bolo tirado do forno antes da hora.

Fizemos trocentos posts analisando aquela troca, as mudanças táticas que a saída do Perkins causou, os remendos que o Celtics fez para tentar tapar o buraco, mas a verdade é que o real estrago não aconteceu no campo tático, mas naquele campo intangível do emocional, do simbólico, do motivacional. A "família Celtics" foi desfeita e tudo aquilo que o Perkins representava, como âncora defensiva de uma equipe que se gabava justamente de sua defesa, virou farofa. Não foi a morte do Celtics, aos poucos a equipe até encontrou outros caminhos para refazer sua identidade, mas até hoje tem torcedor da franquia querendo voltar no tempo e matar  o Danny Ainge antes dele efetuar essa troca.

O Perkins permitia um estilo de jogo, representava um estilo de jogo, que ia muito além do seu simples talento individual. Mesmo no Thunder, equipe para o qual foi trocado, nunca teve grandes atuações e não passou de um jogador discreto em quadra - mas levou uma mentalidade defensiva, uma cara de quem iria proteger seus companheiros frente a qualquer contato mais agressivo do adversário, uma postura de quem vinha de time grande e podia chamar seus companheiros para dar bronca caso perdessem um jogo por bobagem. Repito: ele não é um grande jogador, teve uma temporada bem meia-boca, mas representa bem mais do que o seu talento em quadra deda à primeira vista.

Retomei o "caso Perkins" porque ele explica muito do que está acontecendo com outro jogador: Tyson Chandler escolheu sair do Mavs, onde acabou de ser campeão, para ir jogar com Amar'e e Carmelo em New York, com um contrato de 56 milhões por 4 anos. É tanta grana, mas tanta grana, que a contratação acabou virando uma bagunça só para conseguir fazer com o que valor funcionasse. Como o Knicks não tinha espaço na folha salarial, o Chandler teve que assinar com o Mavs, que podia oferecer esse contrato gigante porque estava reassinando o jogador. Aí o Knicks usou a anistia no Billups (que, até um dia antes, seria o armador titular da equipe) e teve que se livrar do pivô Ronny Turiaf. Mas o Mavs não queria o Turiaf, então entrou em cena um daqueles times oportunistas que estão abaixo do teto salarial - no caso, o Wizards - e aceitou o Turiaf só pra troca poder acontecer, levando como brinde 3 milhões de verdinhas do Knicks além de duas escolhas de segunda rodada do draft. O Mavs, por sua vez, levou de presente uma "trade exception", que é uma espécie de vale-compra que pode ser usado em trocas por jogadores que custam mais caro do que aqueles que você está mandando - e que na prática o Mavs usou para conseguir o Lamar Odom do Lakers, mas dessa troca a gente fala outra hora. Ou seja, Wizards e Mavs se beneficiaram nessa bagunça apenas porque o Knicks fez questão de levar pra casa o Tyson Chandler por uma quantia surreal de verdinhas. Ele deve ser genial, não é mesmo?

Não, não é. Mas o que ele tornou possível em Dallas lembra o que o Perkins simbolizava em Boston. O Mavs da última década foi um time muito focado na parte ofensiva e que sempre teve problemas na defesa, especialmente no garrafão. Quando Avery Johnson assumiu a equipe em 2006 e levou o Mavs a uma Final de NBA, o foco na defesa transformou a equipe e mostrou que, embora faltassem os talentos individuais para formar uma defesa realmente competente, sobrava vontade e dedicação tática ao elenco inteiro. Tyson Chandler foi o talento individual defensivo que tanto faltou à equipe durante anos, mas acima disso ele mostrou que o esforço defensivo coletivo da equipe seria recompensado, que esse esforço teria um motivo para existir com a presença de Chandler embaixo do aro. Aquele esforço que sabíamos que o Mavs poderia efetuar, mas que não deu em nada, parecia mais justificável quando a pressão defensiva acabava afunilando o ataque adversário em direção à envergadura imponente do Chandler no garrafão. O Mavs continuou a ser aquele time de sempre, sem grandes estrelas defensivas no perímetro, com o Jason Kidd ancião quase de cadeira de rodas não conseguindo acompanhar os armadores adversários, mas o esforço e o comprometimento que mostraram culminou em título. Vale lembrar que nos playoffs contra o Mavs, Kobe conseguiu apenas um par de bandejas durante toda a série - o Mavs sabia que a dedicação na defesa resultaria no Tyson Chandler tendo a possibilidade de parar e intimidar qualquer infiltração no garrafão.

Tyson Chandler jogou por outras equipes e mesmo deixando claro suas capacidades, nunca teve um impacto tão grande nas partidas ou no funcionamento de uma equipe. Calhou de cair numa equipe que precisava dele, exatamente daquilo que ele era capaz de entregar, de representar tudo aquilo de que o Mavs precisava, e de mudar a mentalidade defensiva de uma equipe inteira - assim como o Perkins fez no Thunder. Mesmo na parte ofensiva o Mavs era a situação perfeita para o Chandler, que fez a festa nos passes de Jason Kidd assim como fazia nos passes de Chris Paul, só tendo que pular e enterrar sem movimentações complexas de costas para a cesta que ele nunca soube executar.

Quando o Knicks monta o circo para poder oferecer 14 milhões por ano para o Tyson Chandler, não está querendo um jogador cujo talento corresponda a esse valor. Está querendo comprar a mudança de postura, a presença, a justificativa para um esforço defensivo coletivo. O técnico Mike D'Antoni sempre focou exclusivamente no ataque, Amar'e Stoudemire sequer finge tentar defender, e o Carmelo Anthony até se esforçou em alguns momentos no Knicks, mas não consegue esconder que é um defensor medíocre. A esperança é de que Chandler mude tudo isso, que ele seja a presença defensiva que tire o Knicks das 10 piores defesas da liga sem, no entanto, comprometer no ataque porque pode acompanhar o resto do elenco na correria e finalizar em transição.

O único problema é que o Knicks não é o Thunder e nem o Mavs. Tyson Chandler não foi contratado pelo seu talento individual, ele não pode ser uma força defensiva solitária na defesa e com isso ter algum impacto no time. Seria necessário comprometimento de todo o elenco, esforço, obediência tática na defesa - coisas que o Knicks, mesmo se quisesse, não conseguiria ter. Pelo menos não sem comprometer o esquema ofensivo desenhado por D'Antoni. A intenção do Knicks é compreensível, eles precisam defender melhor especialmente no garrafão, mas a situação é muito diversa daquela em que Chandler fez a diferença e em que mereceria, forçando a barra, os 14 milhões por ano. Dificilmente sua presença será tão marcante quanto foi para o Dallas, o investimento foi muito maior do que ele pode oferecer realmente à equipe, mas é uma atitude desesperada de um time consciente de que só vai chegar em algum lugar com um sistema defensivo mais elaborado.

Com a mesma intenção, o Knicks contratou o ex-técnico do Hawks, Mike Woodson, para ser o responsável pelo sistema defensivo. O Hawks de Woodson tinha uma defesa forte e gostava de partir em velocidade para o ataque, então deve casar bem com aquilo que o Knicks pretende fazer. Jared Jeffries também assinou novamente com a equipe para manter seu papel de único defensor consistente do elenco - em muitos momentos, cabia ao Jeffries defender quem fosse, armador ou pivô, e o pior é que ele nem é tão bom defensor assim. O salário é pequeno, num contrato de apenas um ano (ao invés do contrato gigante ridículo que havia assinado com o Knicks na época do Isiah Thomas cuidando das finanças), então o Knicks faz bem de mantê-lo. Woodson e Jeffries são, ao menos, a garantia de que Tyson Chandler não será o único responsável por tornar o Knicks uma equipe defensivamente respeitável.

Para balancear e impedir o Universo de entrar em colapso, o Knicks também contratou um jogador puramente ofensivo, Mike Bibby, que está velho e pedindo arrego e mesmo assim teve uma temporada respeitável no Heat no papel de arremessador ocasional - armava pouco, defendia bulhufas, não forçava nenhum arremesso, mas manteve um aproveitamento bem alto quando acionado. O próprio Bibby disse que sempre sonhou em jogar para o D'Antoni, que seu estilo é perfeito para o treinador, e realmente acho que a união dos dois seria perfeita - uns 5 anos atrás, claro. No estado em que está, Bibby ainda será útil, especialmente agora que o Billups teve que ser jogado fora como modess usado, mas deve render mesmo apenas como arremessador eventual que vem do banco. Deve armar mais o jogo do que armava no Heat, mas nada  digno de nota, até porque o D'Antoni anda comentando que vai tentar usar o Carmelo mais tempo na armação nessa temporada, e Toney Douglas deve ser o armador titular.

Mas um time com Bibby vovô, Carmelo armando e Amar'e no garrafão não tem como ser transformado simplesmente com a chegada de Tyson Chandler. Será preciso um longo trabalho com Woodson e um comprometimento de gente que, em toda carreira, nunca pareceu capaz disso. Defesa não é só vontade, é compreensão, é costume, cacoete. Chandler e Perkins encabeçam uma lista de pivôs que recebem contratos gigantescos porque se imagina que possam mudar toda a mentalidade de suas equipes, transformar todo mundo em um defensor exemplar. Mas há tanta responsabilidade dos outros jogadores, da comissão técnica, da situação, que nem sempre essas apostas bilionárias podem dar certo. Se der, o Knicks dá o passo definitivo rumo à relevância nos playoffs, enfim, após décadas gastando mais do que qualquer outro time e não ganhando necas. Mas se der errado, é só mais um pivô de contrato milionário que ganha uma quantia que não tem nada a ver com os próprios talentos - e vai estar mais relacionada com a esperança de que Carmelo e Amar'e se empenhem em defender como fizeram Jason Kidd e Nowitzki. Não é esperança demais em cima de um simples pivô enquanto o D'Antoni e sua defesa pífia continuam intocáveis? Aos poucos o Knicks tenta mudar velhos hábitos, mas precisa encontrar um modo de conciliar essa vontade de ser defensivamente imponente e a presença de D'Antoni - que, no fundo, é o responsável por Carmelo e Amar'e (e agora Bibby) quererem jogar no Knicks.

sábado, 12 de março de 2011

O caso Chris Bosh

Garrafa invisível

No Toronto Raptors, Bosh sempre teve que jogar como pivô - e sempre deixou bem claro como isso lhe incomodava. Magro, leve, rápido, com bom quique de bola e arremesso de média distância consistente, queria receber a bola fora do garrafão e enfrentar seu marcador de frente para a cesta. O Raptors tentou de tudo para usar o Bosh como ala, chegou até a torrar uma escolha de draft com o Baby, baita cagada. Mas nunca foi o bastante para que o Bosh pudesse passar um jogo inteiro sem ter que jogar embaixo do aro. As lesões no seu pé ficavam cada vez mais graves, o Bosh reclamava cada vez mais do improviso, e assim que ele foi pro Heat chegaram as informações de que havia um comprometimento do time de usá-lo como ala. Genial, se ele fazia tanto estrago sendo improvisado numa posição em que não se sentia confortável, imagina o que faria na sua posição natural! Muita gente, incluindo o Bola Presa, apostou que o Bosh ganharia alguns jogos para o Heat sozinho e que poderia brilhar muito sem a atenção que seria dedicada a LeBron e Wade. Funhé.

Eis que o Bosh anda tendo dificuldades enormes no Heat, sua produção anda baixíssima, seu jogo baseia-se em arremessar de fora do garrafão e agora ele está reclamando que não recebe a bola perto o bastante do aro, que quer jogar de costas para a cesta. Ou seja, até ele percebeu que fede como ala e já tem torcedor do Heat falando em trocar o Bosh por uma Playboy da Mara Maravilha e ainda voltar o troco.

Quando o trio fodão formou-se no Heat, eu tinha certeza de que o Bosh era o que se daria melhor na situação. Não tinha aquele papo de "quem vai armar o jogo", ele era a única força no garrafão da equipe e iria ficar numa boa caso nunca recebesse a bola decisiva dos jogos ou não fosse tão assediado pela mídia. Esperava que o Bosh ficasse tranquilo, por baixo dos panos, vencendo jogos sem que a gente percebesse enquanto LeBron e Wade bateriam mais cabeça um com o outro. O que aconteceu foi justamente o contrário e mostra como as concepções que a maioria das pessoas tinham e ainda têm do Heat estão furadas. Uma série de preconceitos com a equipe evita que possamos ver os reais problemas acontecendo no time, então vamos analisar alguns deles e ver como se relacionam sempre com Chris Bosh:

1) O Heat não tem jogadas no ataque

O técnico Erik Spoelstra deu um jeito de deixar suas estrelas fazerem o que bem entenderem e não ter que decidir quem leva a bola, quem finaliza, quem chama a jogada: cada vez que o Heat tem sucesso na defesa e consegue um rebote ou intercepta uma bola, pode fazer o que quiser. Supostamente isso incentiva a defesa, o contra-ataque, evita duelo de egos e deixa o ataque mais espontâneo e orgânico. Como sabemos, isso também transforma o Heat numa máquina de fazer porra-louquice em que LeBron e Wade fazem o que bem entendem. Mas nas ocasiões em que a defesa toma uma cesta ou comete uma falta, o Heat precisa seguir as jogadas desenhadas pelo técnico. Por isso, o Heat está entre as 10 equipes com ritmo mais lento da NBA - algo muito diferente do que uma correria anarquista nos levaria a acreditar.

O time tem uma série de jogadas para liberar Wade e LeBron no perímetro, pick-and-rolls para infiltrações, pick-and-pops com Ilgauskas e Bosh, triângulos ofensivos iniciados de costas para a cesta. O arsenal é muito maior do que era no Cavs de LeBron e é uma preocupação constante do Spoelstra, que não quer de jeito nenhum que os pontos venham sempre da mesma maneira, os pick-and-rolls, porque assim apenas um jogador da dupla LeBron e Wade estaria envolvida de cada vez e o time estaria desperdiçando a capacidade de um deles.

Esse é o grande problema, muito mais difícil de resolver do que os odiadores do Heat parecem entender: como aproveitar as capacidades de LeBron e de Wade ao mesmo tempo? Fazer com que joguem em turnos, "agora vou eu, agora vai você", é jogar no lixo o talento de alguém por uma posse de bola. Toda vez que Wade ou LeBron são isolados em um canto da quadra, o outro fica parado assistindo. Spoelstra não quer aceitar isso, não quer abusar do pick-and-roll. De uns jogos pra cá, o número de jogadas diferentes chamadas no Heat subiu muito, inclusive com algumas jogadas vindas do Hawks junto com o Mike Bibby, e quem está chamando cada uma dessas jogadas não é LeBron ou Wade, mas Spoelstra em pessoa. Lá está ele, no banco, gritando jogada por jogada da equipe. O Heat não está à solta, é um time treinado e controlado. Só que quanto mais LeBron e Wade se entendem, quanto mais dizem na mídia que já sabem como cada um pensa e que estão honrados de jogar juntos, quanto mais fazem jogadas juntos (quando um faz corta-luz para o outro, por exemplo, o resultado é sempre fantástico), mais o Bosh está fora disso.

No esquema tático do Heat, o Bosh é usado como o Ilgauskas era no Cavs. Até aí tudo bem, o pick-and-pop funciona bem, o Bosh tem (quase sempre) um bom aproveitamento nos arremessos de média distância e ele libera espaço no garrafão para as infiltrações de LeBron e Wade. Mas quanto mais longe da cesta o Bosh fica, pior o time é em rebotes ofensivos (estão entre os 5 piores da liga, só o Mike Miller salva) e mais dificil é a vida dos arremessadores de três da equipe. No final dos jogos, as equipes adversárias estão congestionando o garrafão do Heat e forçando LeBron e Wade a arremessarem, enquanto o Bosh não é acionado e não está embaixo do aro para cavar faltas ou tentar o arremesso de maior chance de aproveitamento. O Heat tem jogadas, chama essas jogadas constantemente, mas o Bosh não se encaixa nelas. Passa a maior parte do seu tempo fazendo corta-luz, longe da cesta, sem ser uma ameaça real. Esse é um trabalho que qualquer jogador mais ou menos poderia fazer - e que era feito tão bem pelo Udonis Haslem no Heat dos últimos dois anos. Mas o Bosh pode fazer mais do que isso, desde que jogue debaixo do aro dando cabeçada com os pivôs como fazia no Raptors. Ou seja, o Heat tem jogadas sim - só não tem para o Bosh.

2) O time precisa de um armador, o LeBron é um ala

postei aqui antes: assim como nos enganamos achando que o Bosh era ala improvisado de pivô, e na verdade só rende de verdade debaixo da cesta, o LeBron também é um armador que pensamos ser ala e prefere jogar na armação. Jogou como armador no Cavs a maior parte de sua carreira sem ninguém perceber direito, e quando faz isso no Heat acham que falta um armador para a equipe? O problema não é a armação do LeBron, mas o que ela significa. Quando outro armador está em quadra com ele, como Mario Chalmers, antigamente o Arroyo, ou agora o Mike Bibby, eles passam a ser basicamente arremessadores. Isso porque o Heat precisa de arremessadores desesperadamente, e grande parte das últimas derrotas aconteceram porque o elenco de apoio, apesar de receber arremessos de três bastante livres, não tem conseguido converter. Mas Bibby e Chalmers são essencialmente armadores, então deixá-los apenas para o arremesso é perder algo enorme que eles podem contribuir para a equipe. Diversas vezes durante o jogo os dois acabam trazendo a bola e iniciando algumas jogadas, mas o que poderia ser diversificação acaba sendo bagunça. Se o Bibby inicia as jogadas com o LeBron, Wade fica de fora e lhe sobra apenas os arremessos livres de três - que definitivamente não são seu ponto forte. Como Bibby e Chalmers são melhores arremessadores, a movimentação ofensiva fica invertida. O problema do Heat não é que o LeBron arme o jogo, pelo contrário: o problema é que tanta gente diferente arme o jogo o tempo inteiro, com Wade, Chalmers e Bibby iniciando as jogadas. Isso tira as chances de um padrão ofensivo, dos jogadores se acostumarem com os locais de arremesso, do armador saber exatamente qual jogador acionar, e do armador assumir a responsabilidade de escolha das jogadas. É por isso que o Spoelstra tem que ficar lá na lateral chamando as jogadas quenem um panaca. Enquanto isso, com tantos armadores passando a bola uns para os outros, o Bosh é constantemente ignorado. As jogadas evitam isolações, que só acontecem quando Wade e LeBron fazem o que querem após um sucesso defensivo (ou no final dos jogos, em que a insistência nas isolações me intriga um bocado), mas o Bosh tinha que ser isolado no garrafão constantemente para que esse time funcione. Menos armadores, mais bola nas mãos do LeBron, e jogadas de isolação pro Bosh para abrir espaço pra todo mundo. LeBron depende de Wade, Wade depende de LeBron, mas o resto do elenco precisa muito que o Bosh faça algo embaixo do aro.

3) O ego de Wade e LeBron vai implodir a equipe

Os dois estão apaixonados um pelo outro em todas as entrevistas, então quem reclamou dizendo que quer a bola embaixo da cesta foi o Bosh! Essa eu nunca iria adivinhar! Reclamou que não existem jogadas para acioná-lo perto do aro, e o Spoelstra respondeu que o time inteiro precisa atacar o aro, não tem que ter jogada para o Bosh fazer isso. De todo modo, LeBron e Wade estão jogando bem juntos, cada vez mais acostumados um com o outro, e mostraram contra o Lakers como sabem distribuir a bola entre os dois (de novo, menos no final dos jogos em que apenas escolhem quem é que vai jogar sozinho). Bizarramente a maior chance dessa brincadeira implodir está no tranquilo Bosh, insatisfeito e mal aproveitado - e recebendo críticas de todos os lados de gente que alega que ele tem fobia de garrafão. Pois bem, ele está querendo voltar atrás, fingir que não fez manha sua carreira toda, e deixar essa fobia de lado. Se não der certo, aí é hora de se preocupar com o trio.

4) O Erik Spoelstra é um bunda e o Pat Riley vai assumir a qualquer momento

O Spoelstra tomou muitas decisões polêmicas, mas todas elas caminham na direção de construir um ataque equilibrado e um elenco voltado para a defesa. Pode não funcionar sempre, pode ter um trilhão de arestas, mas Spoelstra é um nerd que sabe perfeitamente o que está acontecendo, exige variação ofensiva dos jogadores (enquanto a maioria dos técnicos só diria "faça um pick-and-roll", o Mike Brown não foi técnico do ano com isso?) e montou uma defesa sensacional muito antes de LeBron e Bosh chegarem em Miami. Seu maior problema é apenas em não saber lidar com o Bosh. Ele quer um time que ataque o aro mas com o Bosh fora do garrafão para abrir esse espaço, quer o Bosh participativo mas sem receber a bola a não ser para arremessos de média distância, quer o Bosh defendendo mas ele jogar como ala lhe afasta dos rebotes defensivos e impede que use sua velocidade para defender na cobertura e interceptar passes para os pivôs. Ele está usando o Bosh como usava o Udonis Haslem, e continua fã do Joel Anthony como pivô por ele ser silencioso, obediente e dedicado. Spoelstra está tão obsessivo em aproveitar bem suas duas estrelas que está esquecendo aquilo que todos sabiam desde o começo: a chave das vitórias nos playoffs estará na terceira estrela que agora, nas suas mãos, sequer é uma estrela mais. Tem gente querendo trocar o Bosh pelo Samardo Samuels... resumindo, o Spoelstra só é um bunda porque insiste em não estabelecer um ataque que comece no garrafão e aí vá para fora, usando o Bosh.

5) O Heat afoga gatinhos em piscinas

Foi apenas uma vez e ao contrário do que dizem os boatos, o gatinho não estava dormindo. Eles não são assim tão malvados.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Fim de feira

"Abrir mão de 6 milhões de dólares para não mofar no Wizards? Eu topo!"


Ainda falta um time a ser comentado na nossa maratona de trade deadline, o Houston Rockets, que fez algumas mudanças importantes. O post sobre eles sai ainda essa semana, vai ser feito pelo nosso querido torcedor do Rockets, porque eu não vou me arriscar a falar mal do time dele e estragar a nossa amizade e o blog, né? E não é porque a data-limite de trocas chegou que não tem mais gente mudando de time, vários jogadores foram dispensados e começou uma corrida para assiná-los. Vamos ver hoje a primeira parte desse fim de feira chique.


Mike Bibby (do Wizards para o Heat)

Em uma era em que tanta gente chama atletas de mercenários sempre é uma surpresa quando alguém abre mão de muito dinheiro em nome de uma chance de jogar onde quer. Como quando o Gilbert Arenas recusou uma extensão de 120 milhões de dólares para assinar uma de "apenas" 100 milhões com o Wizards, foi aquele dia na história em que "humilde" e "100 milhões de dólares" estavam na mesma frase e não falavam de uma doação. Mesmo ele ainda tendo dinheiro para ter um aquário com tubarões, abrir mão de 20 milhões não é algo que vemos todo dia.

Com o Bibby não foi tanto dinheiro como com o Agent Zero, mas desistiu de belos 6 milhões de dólares para poder sair do Washington Wizards depois de uma bonita história de 29 minutos que rendeu uma emocionante homenagem. Ele recebeu o dinheiro que teria direito até o fim da temporada e simplesmente não irá receber um tostão da continuação do contrato no ano que vem, ficando livre para assinar com qualquer equipe. Ele não é mais o cara que jogava muito pelo Kings em 2002, nem o que deu um boost no Hawks em 2008, mas é bom. E é o único armador de alto nível no mercado. Em terra de cego quem tem um olho é caolho, mas se você precisa de um armador, é melhor um caolho do que um cego.

Em questão de dias o Miami Heat foi o escolhido. Vai ganhar o mínimo de um veterano, valor simbólico para os padrões da liga, mas foi para lá porque era o mais óbvio: Chance clara de título e garantia de ser titular. O Boston Celtics até tentou ir atrás dele e também seria uma chance de ser campeão, mas o futuro parece um grande banco de reservas quando você é substituto do Rajon Rondo. Para o Bibby, portanto, foi uma escolha fácil e perfeita.

Para o Miami eu acredito que não era a solução ideal que eles procuravam, mas devem estar agradecendo aos céus que ela apareceu. Diz a lenda que eles foram atrás de vários times em busca de armadores, mas alguns no Leste não querem ajudar ainda mais o Heat e os outros estão esperando receber em troca algo melhor do que o Mike Miller, a única peça de troca relevante que eles tem sem desmontar o Big 3. A minha crítica ao Bibby no Hawks era de que ele não era mais um armador, mas um arremessador, mas é justamente isso o que o Heat quer de seus armadores. Eles já se acostumaram a jogar com o LeBron James comandando o show ou revezando esse serviço com o Dwyane Wade, os dois gostam de ter a bola em mãos, os dois são bons passadores e só precisam de gente que saiba se movimentar e receber os passes para funcionar. Tá, o ataque poderia tentar ser mais complexo que isso às vezes, mas não é a realidade deles hoje. Para o jeito que eles executam o seu ataque o Bibby é perfeito, não só virou um simples arremessador como é um dos melhores nesse quesito. Segundo o SynergySports, um sistema que analisa a NBA por vídeo, ele marca 1.24 pontos a cada jogada de "catch-and-shoot", aquela quando você só recebe a bola e arremessa. Essa é a 13ª melhor marca da NBA e a 2ª melhor entre os armadores. A jogada, aliás, poderia ser chamada James Jones, o ala do Heat soma duas estatísticas bisonhas na temporada: Não fez NENHUM ponto no garrafão e nunca fez uma cesta em que criou o seu arremesso, todas vieram de assistência.

O problema do Bibby seria na defesa. Não só o sistema defensivo é o forte e prioridade do Heat como a sua defesa de perímetro é onde eles se focam mais, será que ele não iria estragar tudo? Foi meu primeiro medo, mas depois de pensar, pesquisar e ler a opinião de gente por aí, acho que não vai ser uma grande coisa. Até porque o antigo titular era o Carlos Arroyo, que também não é nenhum gênio defensivo e nem por isso o sistema inteiro caía. O Arroyo, aliás, foi titular em 42 dos 49 jogos que jogou na temporada e agora foi dispensado para abrir lugar para o Bibby, qual será a sensação de um dia ser titular e no outro ser dispensado antes do bacon ambulante do Jamaal Magloire? Vai entender! Mas a gente lembra também de uns momentos nessa temporada, principalmente no começo, quando alguns armadores arrasaram com o Heat. Pois desde então, quando o time enfrenta uns Derons e Pauls da vida, é Wade ou LeBron que os marcam, deixando Arroyo, e agora Bibby, para alguém que ofereça menos riscos no ataque. Em uma eventual série de playoff contra o Bulls, por exemplo, eles podem deixar o Wade marcando o Derrick Rose e o Bibby com o Keith Bogans. Perfeito.

blog sobre o Miami Heat na ESPN vai ainda mais longe e defende a defesa do Mike Bibby. E ele me convenceu; poderia até ser o elo mais fraco da defesa do Hawks, mas não é um cara inútil. Ele cita o fato da defesa do seu antigo time estar listada acima da média (13ª da NBA) nos últimos dois anos e que os números são melhores com ele dentro de quadra do que fora. Claro, o time poderia ser ainda melhor com outro no lugar do Bibby (provavelmente será com Hinrich) e tinha números inferiores sem ele porque seus reservas conseguiam ser piores, mas mostra que ele não é um cara com uma deficiência tão grande assim, dá pra ter uma defesa sólida com ele em quadra. Outra prova está quando se usa de novo o sistema SynergySports. Eles dão uma nota para toda jogada (toda maldita jogada em toda a bendita temporada regular!) onde o jogador está diretamente envolvido na defesa, somando essas análises Bibby é considerado um defensor "na média", longe dos grupos da elite defensiva e dos queijos-suíços da NBA. E ele termina a sua argumentação mostrando que o maior defeito do Bibby na defesa é como ele marca o pick-and-roll, a única categoria onde ele é listado como "abaixo da média", mas é justamente nesse tipo de defesa que o Heat é bom por ter alas bem velozes que sabem ser agressivos e impedir bem essa jogada. É algo que se defende em dupla.

O Mike Bibby não é perfeito, mas o Miami é um time atrás de pequenos detalhes para fechar um elenco que já é bom. Bibby não vai estragar nada e não tenho dúvida alguma que é melhor do que tudo o que eles tinham antes. Ótima contratação.



Troy Murphy (do Golden State Warriors para Boston Celtics)


Troy Murphy foi para a Lua antes de ir para os playoffs

Vocês não sabem como eu estou feliz por ele! O coitado do Troy Murphy faz jus àquela lei que leva o seu sobrenome. Ele chegou na NBA em 2001 e depois de uma década na NBA, mesmo jogando bem e sendo reconhecidamente talentoso, nunca jogou um minuto sequer de Playoff! Ele estava no Warriors em seus piores dias, saiu na troca do Stephen Jackson que foi o que levou o Golden State à pós-temporada. No Pacers, pegou a época pós-Artest, uma fase onde o mais próximo de sucesso que eles chegaram foi não ser o pior time da NBA inteira. Mas foi justamente para o pior que ele foi trocado na última offseason, o Nets, de onde foi trocado bem no dia que eles conseguiram seu melhor jogador desde Jason Kidd, o Deron Williams. 

A troca o levou de novo para o fracassado Warriors. Parecia o destino do Murphy ser o jogador mais azarado da história, mas então uma luz finalmente bateu à sua porta e ele conseguiu negociar um "buyout" e ficou livre, poderia negociar com quem quisesse. Alguma dúvida que ele iria para um time muito bom? Ele disse que ficou entre Heat e Celtics, mas que escolheu o Boston porque "eu acho que me encaixo melhor no sistema deles". Bom, nos dois times ele só teria que ajudar nos rebotes defensivos, coisa que o banco das duas equipes precisam, e abrir espaço com suas bolas de três. Pra mim é a mesma coisa nos dois lugares e com participação parecida, mas dane-se, o que importa é que ele finalmente vai estrear na pós-temporada! (embora não devamos subestimar o poder que o nome Murphy traz a alguém, contusões podem acontecer)

Para o Celtics foi uma boa ou má contratação dependendo do que você pensa que o time deles deveria ser. Tenho meus receios com essa idéia de ter muita gente abrindo espaços com bolas de três e mobilidade e menos jogadores de garrafão, eu prefiro ter mais pivôs fortes e defensivos. Para eles, assinar com Murphy é coerente com o novo plano e deve executar o que esperam do rapaz, mas não resolve o buraco no pivô aberto pela saída de Perkins, Erden e as contusões de Shaq e Jermaine O'Neal. 



Jared Jeffries (do Houston Rockets para o NY Knicks)




Um monte de gente fez piadinha dizendo que o Knicks dispensou o Corey Brewer porque ele tinha o terrível hábito de defender. Do jeito que o D'Antoni é, faz sentido, mas em compensação a primeira contratação da equipe depois disso foi o Jared Jeffries, que estava no Houston Rockets.

Para quem não lembra, o Jeffries era do Knicks antes de ser trocado para o Rockets e naquela época era o maior curinga da NBA. Embora tenha sido trazido (e foi caro, como foi caro...) pelo Isiah Thomas, foi o Mike D'Antoni o seu maior fã. O técnico simplesmente procurava o melhor jogador da outra equipe e mandava o Jeffries marcá-lo, não importa se era o Kobe Bryant, o LeBron James ou o Dwight Howard, era mais ou menos como o Shawn Marion no Suns quando marcava o Tony Parker e o Tim Duncan no mesmo jogo.

Essa versatilidade está de volta e em um time que estava usando o diabo do Shawne Williams como titular e marcando os pivôs adversários, por isso as notícias davam a possibilidade dele ser titular já ontem contra o Hornets. Não foi, mas foi o primeiro a vir do banco e jogou mais minutos que o Ronny Turiaf, que começou o jogo no seu lugar. Eu vejo ele como um eterno improvisado, aquele cara que pode marcar todo mundo mas dificilmente é o ideal para marcar qualquer um deles, um tapa buraco que é símbolo de um time que está mais interessado em marcar pontos do que defender. Como o contrato é só até o fim da temporada, não existem riscos, pode ser uma boa para o time parecer melhor nos últimos meses e compensar um pouco da perda de tanta gente na troca do Carmelo Anthony.

Depois dessa tapada de buraco, no ano que vem eles tem a chance de decidir se investem no jogador para continuar ou se contratam coisa melhor. Para o Knicks é risco zero, para o Jeffries uma nova chance de ser relevante na NBA, de jogar para o técnico que mais gosta dele na liga e tentar garantir emprego para a próxima temporada. Depois da difícil decisão de mandar tanto jogador bom pelo Carmelo, essa foi fácil.



Al Thornton (do Washington Wizards para o Golden State Warriors?)



O Al Thornton tem uma história meio estranha na NBA. Ele entrou na NBA no Draft de 2007 e teve uma temporada de novato muito sólida e regular no Clippers ("sólido" e "regular" em uma frase para definir alguém do Clippers!), mas nunca evoluiu muito depois disso e acabou trocado a preço de banana no ano passado para abrir espaço na folha salarial da equipe de LA. No Wizards até jogou, mas nunca recebeu muita atenção e agora acabou sendo dispensado. Muita gente se revolta dizendo que as duas equipes estão em reconstrução e deveriam dar uma chance ao jovem jogador, mas é aí que está a armadilha que faz a história do Thornton parecer estranha: Ele não é tão jovem como todo mundo acha.


Apesar de ter chegado na NBA em 2007, ele o fez depois de jogar os 4 anos da faculdade, em que demorou para entrar. É nascido em 1983, mesmo ano de Devin Harris, Danny Granger (Draft de 2005), Ben Gordon (2004), TJ Ford (2003) e até o saudoso Dajuan Wagner (2002). Ou seja, apesar do pouco tempo de NBA ele não é jogador com idade que os times que hoje são jovens procuram. O jogador jovem que a gente acha que eles dispensam é, na verdade, um veterano sem experiência que não deve mais evoluir o seu jogo.

Ele, no fim das contas, só teve o azar de estar em times que querem investir apenas em pirralhos. Agora, porém, parece estar a caminho do Golden State Warriors, ainda não assinou, mas todos dão como quase certo. Lá ele deve ser um bom reserva para o Dorrell Wright e está em uma equipe que já fez seu processo de reconstrução com Monta Ellis e Stephen Curry e que agora busca justamente peças um pouco mais experientes (como Wright e David Lee) para tentar voltar aos playoffs. Sem moral por aí, Thronton saiu bem barato, mas seu histórico nos times errados esconde um bom talento. Foi uma boa contratação para o Warriors, que tem um dos bancos de reservas mais fracos da NBA e bom para o Thronton, que pela primeira vez está em uma situação que faz sentido pra ele.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

As trocas discretas

A arte de achar os jogadores trocados na mesma foto


Eu sei que vocês estão esperando a análise da troca do Kendrick Perkins pelo lado do Thunder, mas deixei esse prazer para o Danilo, que está fora no fim de semana. Amanhã esse é o assunto então, certo? Hoje vou falar de duas trocas um pouco menores, que não chamaram a atenção no dia mais movimentado da temporada regular até agora. Mas nem por isso não são assuntos interessantes, muito pelo contrário.

Para ver todas as trocas que ocorreram na data-limite de negociações, clique aqui.

A primeira envolve o Atlanta Hawks e o Wahsington Wizards. Nela o Hawks mandou o Mike Bibby, uma escolha de Draft e os reservas Jordan Crawford e Maurice Evans em troca de Kirk Hinrich e Hilton Armstrong. Essa troca do Hawks foi muito, digamos, Hawks. Desde que contrataram o Joe Johnson em 2005 eles nunca foram um time de fazer loucuras para mudar o elenco, a maior, se vocês pensarem bem, foi gastar uma nota preta na renovação do mesmo JJ justamente com o intuito de não mudar o time. Depois de fracassar por tanto tempo nos anos 90 e no começo dos anos 2000 eles sossegaram agora que estão satisfeitos com a posição que estão: Não são bons o bastante para brigar com Miami Heat, Chicago Bulls, Boston Celtics e Orlando Magic pelo topo, mas ainda estão bem à frente de quem corre atrás como New York Knicks, Indiana Pacers, Milwaukee Bucks e etc.

A ambição para ser melhor até existe, mas eles não estão prontos para implodir o time atrás disso, então vão comendo pelas beiradas, pouco a pouco, quando a oportunidade aparece. Foi assim em 2008 quando aproveitaram um momento de reconstrução do Sacramento Kings para trocar por Mike Bibby, o tipo de armador que eles procuravam faz tempo. A chegada dele melhorou o time, mas não durou muito tempo, desde o  fim da temporada passada o jogador tem mostrado sinais de envelhecimento: está lento, defendendo mal e, como eu até mostrei no gráfico do Buraco Negro, hoje até atua mais sem a bola, como um arremessador. Com isso, para a armação o Hawks tinha três shooting guards, Bibby, Joe Johnson e Jamal Crawford. Não é o ideal.

A solução foi negociar com um time que tinha armador sobrando, precisava de arremessadores e queria economizar um pouco. A economia foi pouca para os padrões da NBA, mas é alguma coisa. O Hawks pega o contrato do Hinrich, que ganha 9 milhões nesse ano e 8 milhões na próxima temporada, junto com Hilton Armstrong que ganha menos de 1 milhão esse ano, o último de seu contrato. O Wizards pega o Bibby, que tem contrato ainda por essa e mais uma temporada, ganha 5 milhões nessa e 6 na próxima. Os 2,5 milhões do Maurice Evans fizeram a troca viável, mas o contrato é expirante, acaba ao fim dessa temporada. O Wizards salva uma graninha ano que vem, nada mal.

Com poucos riscos para os dois lados é de se surpreender que tenham deixado a troca pra última hora. O Wizards é um dos piores times em bolas de três pontos mesmo tendo trocado pelo Rashard Lewis há algum tempo, ter o Bibby para atuar alguns minutos ao lado do John Wall é um bom jeito de abrir espaço para infiltrações, além de manter a mesma estratégia de deixar um armador experiente treinando e jogando do lado do garoto. É pouco, claro, mas Kirk Hinrich não estava fazendo muito diferente e na troca eles ainda receberam duas coisas para investir: Uma escolha de Draft, que sempre pode virar alguma coisa, e Jordan Crawford. O cara ficou famoso no mundo todo por ter enterrado na cabeça do LeBron James no infame caso do vídeo confiscado, mas depois disso ainda fez carreira como impressionante pontuador no basquete universitário. Pode acabar virando um bom reserva para o Nick Young, nunca se sabe.

O Hinrich não ajudava muito o Wizards porque para quê serve um cara que defende bem no 1-contra-1 se na cobertura dele está o Rashard Lewis que não se dá ao trabalho de se mexer, o Andray Blatche que está ocupado demais comendo seu Danoninho Ice e o JaValle McGee, que é capaz de cometer 18 erros de rotação seguidos só para conseguir um grande toco que apareça no Top 10 do dia? Era desnecessário ele por lá. E convenhamos, o rapaz merece a chance de jogar em um time melhor. Captain Kirk foi o rosto que simbolizou o Bulls dos últimos 10 anos: Bom, mas longe de ser espetacular. Ele ficou em Chicago por muito tempo sendo o melhor jogador ou pelo menos o líder de equipes que deveriam ser melhores do que foram. Quando eles finalmente conseguem um técnico espetacular, um jogador de garrafão que sabe pontuar (meu deus, depois de uma década pedindo!) o pobre do Kirk é trocado para, lembrem-se, abrir espaço para contratar LeBron James e/ou Dwyane Wade. Se o Bulls hoje é o 6º time que menos gasta com salários, um dos motivos foi por ter se livrado dele.

Por ter sofrido tanto em times ruins ele merece a chance de jogar em uma equipe que tem chance de brigar (o que não quer dizer vencer) com equipes do alto escalão da liga. O técnico Larry Drew desde o começo da temporada tenta implantar um novo sistema ofensivo em que os jogadores se movimentam mais e eles usam menos isolações do Joe Johnson. No começo da temporada eles estavam voando e todos os jogadores elogiando a mudança, mas alguns meses depois e eles, que eram o segundo ataque mais eficiente da temporada passada, são hoje só o 15º. Muito da dificuldade está na criação das jogadas, sem um armador nato eles acabam tendo um ataque estagnado e mesmo tendo dois bons jogadores no garrafão, Josh Smith e Al Horford, marcam mais pontos longe do que perto da cesta. É um time que por mais que tente mudar ainda vive de pontos oriundos de jogadas individuais, ter o Hinrich comandando os pick-and-rolls pode mudar um pouco isso.

Por outro lado creio que a maior mudança será mesmo no outro lado da quadra, se a defesa deles não é espetacular um dos motivos é que todo armador um pouquinho mais rápido voava pelo Mike Bibby. O Hinrich em compensação é um ótimo marcador e pode dar conta do recado por lá. Eu acho que para ir além da posição que está agora o Hawks deveria trocar Josh Smith e/ou Marvin Williams por um grande pivô, alguém que possa parar o Dwight Howard (provável adversário de primeira rodada e que tem o hábito de almoçar o Hawks com molho da própria carne e purê de maçã) e que deixasse o Al Horford usar seu talento e força para torturar outros alas de força ao redor da liga. Mas acho que isso seria um risco muito grande para o conservador Hawks, talvez na próxima temporada.
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Mark Cuban faz o que melhor sabe: reclamar


A outra troca é praticamente insignificante para o resto da NBA. O New Orleans Hornets mandou o Marcus Thornton em troca do Carl Landry, que estava no Sacramento Kings. A troca é engraçada por um lado porque ela até poderia ter sido relevante se tivesse sido realizada há, sei lá, 10 meses. Nessa época o Landry havia sido trocado do Rockets para o Kings e era um dos líderes da NBA (é sério!) em pontos no quarto período, a sua força e seus insanos rebotes ofensivos era o que muito time por aí queria. Já o Marcus Thornton era, junto com Darren Collison, os pontos positivos de uma temporada desastrosa do Hornets. Ele tinha um arremesso de três preciso e liderou o time em pontos muitas vezes.

Alguns meses depois e o Kings afundou Landry no banco atrás de Jason Thompson, DeMarcus Cousins e até Donte Greene algumas vezes. Uma das peças de troca mais importantes deles foi sabotado pela própria equipe. Coisa parecida aconteceu no Hornets: enquanto trocaram Collison a peso de ouro, Thornton foi para o banco, perdeu espaço para Marco Belinelli e Trevor Ariza e aos poucos foi morrendo na rotação do novo técnico Monty Williams. Com os dois valendo metade do que valiam há pouco tempo, foram trocados um pelo outro.

O Hornets está satisfeito com sua rotação de armadores com Chris Paul, Jarret Jack, Marco Belinelli e Willie Green, fazia sentido trocar por um jogador de garrafão melhor que o Jason Smith para dar uma força vindo do banco. Em compensação o Kings era o oposto, com tanta gente no garrafão era desnecessário ter um cara como o Landry e eles estavam rezando para ter um shooting guard melhor que o Luther Head pra usar quando o Tyreke Evans se machuca, o que tem sido constante nessa temporada. Uma troca que teria sido útil e discreta se não fosse por uma pessoa, Mark Cuban.

O Mark Cuban é dono do Dallas Mavericks, mas também se considera um pouco dono do New Orleans Hornets. E não sozinho, mas junto com os outros 28 donos de times na liga. Como explicamos nesse post, o Hornets foi vendido e agora é gerido pela própria NBA, ou seja, todos os outros times da liga, por fazer parte da Associação, são um pouco responsáveis pelo Hornets até arranjem um novo dono. Cuban se mostrou insatisfeito com a troca porque ela não foi financeiramente boa para o Hornets, que teoricamente está nessa situação por falta de dinheiro. Eles mandaram o contrato de menos de 1 milhão de dólares de Thornton e pegaram o de 3 milhões do Landry em troca, fazendo o negócio funcionar apenas por usar uma daquelas "trade exceptions" que explicamos no post do Carmelo Anthony.

As trade exceptions fazem a troca funcionar, mas não mudam a questão financeira. A folha salarial e os gastos do Hornets aumentam. Nas palavras do Mark Cuban:

"Se o New Orleans está pagando 2 milhões a mais, o time está perdendo dinheiro e eu sou dono de 1/29 da equipe, vou contra a maré e digo que isso está errado. Eles estavam dispensando jogadores por causa de salário antes de serem vendidos para a gente e agora querem pegar jogadores mais caros. Está errado em todos os sentidos. A NBA deveria criar um orçamento para o time e nunca me ocorreu que esse orçamento diria para eles gastarem ainda mais para trazer novos jogadores."

O Mark Cuban ainda afirma que outros times tinham interesse no Carl Landry, mas que não o pegaram por causa do salário e que agora esses times, de certa forma, estão pagando para ele jogar em outra equipe. As críticas dele fazem todo o sentido do mundo e começam a mostrar a dor de cabeça que é a NBA ser dona de uma de suas franquias. É torcer para aparecer algum milionário logo para encerrar essa situação que era uma polêmica esperando para acontecer. Quem está certo ou errado nem tem muita importância nessa caso, aposto que a NBA não jogaria dinheiro no lixo, mas o problema é existir essa situação que inevitavelmente vai criar questões difíceis de serem respondidas.

É torcer para acabar logo ou para o Hornets pegar o Dallas na primeira rodada dos playoffs e o Carl Landry fazer uma cesta no último segundo. Só pra ver a entrevista do Cuban depois.

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Aos poucos estou atualizando a nossa planilha de Elencos da temporada com todas essas trocas. Consultem sempre, fica na nossa barra lateral.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O novo Spurs

Josh Smith aprova este texto


Quando eu comecei esse blog pra falar de NBA com o Danilo, nunca pensei que um dia iria escrever isso, mas vai lá: o Atlanta Hawks é melhor que o San Antonio Spurs. Pronto, falei! Mudamos para o mundo bizarro da NBA e ninguém percebeu porque estávamos muito ocupados dizendo #comofas no Twitter.

Não queria admitir, ia esperar mais tempo pra dizer, mas não resisti a falar a verdade. Hoje o Spurs é ainda um time forte, cheio de talentos, mas que não mete medo em ninguém e está recheado de defeitos óbvios. O ataque é lento nas trocas de passes e acabam forçando jogadas individuais no fim da posse de bola, a defesa não chega nem perto da fortaleza que já foi e as contusões insistem em encher o saco. Não temos nem um mês completo de temporada e tanto Duncan quanto Ginobili e Parker já perderam jogos por lesão.

Não sou doido de dizer que eles não tem chance de título nesse ano. Qualquer time com um bom elenco, histórico vencedor e um bom técnico não pode ser deixado de fora depois de menos de um mês de temporada, mas se caírem na primeira rodada dos playoffs de novo eu vou achar bem normal.

Enquanto isso, o Atlanta Hawks é um time sólido, regular, de boa defesa e agora até com banco de reservas. Até banco de reservas! Vocês tem noção que em 12 jogos o Hawks venceu 10 e no meio disso tem duas vitórias sobre o Blazers, uma sobre o Nuggets e até uma sobre o Celtics em Boston? Bizarramente uma das duas derrotas deles foi para o Bobcats, a outra foi para o Lakers.
O time foi o Clippers do Leste por tanto tempo e agora eles tem banco de reserva. E eu achando que ver o São Caetano na final da Libertadores tinha sido a maior aberração esportiva da década.

A história desse time do Hawks é rara nos dias de hoje. Eles montaram essa equipe na base de Free Agency, draft e muita, muita paciência. Josh Smith, Al Horford e Marvin Williams vieram em draft. Mike Bibby e Jamal Crawford foram trocas, o Bibby foi para Atlanta numa troca com o Kings e o Crawford numa troca com Warriors. O Joe Johnson foi para lá quando virou free agent.

Não são poucos os times que sabem escolher jogadores bons no draft mas não tem saco para montar o time em volta deles. Ou então não montam um ambiente animador para o pivete, que na primeira chance parte para um contrato milionário com outra equipe. Mas o Hawks não, foi visionário ao ver que o Joe Johnson poderia sim liderar uma equipe. Decidir quem é o franchise player não é fácil para esses times menores, eles costumam pegar o melhor jogador que têm, pagar uma nota e não vêem que muitas vezes o cara é só bom, não espetacular. Só ver o Bucks com o Michael Redd, Warriors com o Monta Ellis ou o Kings com o Kevin Martin.
O Joe Johnson, ao contrário desses todos que citei, acabou se tornando um líder dentro do elenco, evoluiu para se tornar mais que só um arremessador e hoje é daqueles caras que pode ganhar um ou outro jogo sozinho, como já fez até nos playoffs.

Esse processo todo foi lento. O JJ não chegou do Suns já sendo uma estrela, ele não evoluiu mais rápido que Pokémon como o LeBron James. E nessa lentidão quem o acompanhou foi o Josh Smith, que de aberração física se tornou bom defensor, bom reboteiro e, mais importante, um jogador inteligente. Em entrevista recente à revista Dime, ele disse que não está mais chutando de 3 nessa temporada porque não é a área dele. Como não estava com bom aproveitamento, resolveu se focar no que é de verdade, um ala de força. Também disse que não liga em não ser o principal jogador do time, que apenas quer vencer e ajudar. Um cara com o ego do tamanho do mundo exigiria uma troca para ser uma estrela, afinal potencial pra isso o Josh Smith tem, mas ele foi esperto o bastante para sacar que pelo menos hoje em dia ele não é tão bom assim e que ganha mais ficando no Hawks. Ganha mais experiência, mais (e melhor) visibilidade, mais jogos.
Nessa temporada até o Al Horford está melhorando. Depois de ser ótimo como novato, ele desanimou todo mundo na temporada passada quando parecia ter estagnado. Foi só comodismo de segunda temporada, porque nessa temporada ele já está fazendo muitos pontos, com ótimo aproveitamento de arremessos (até porque quase nunca força o que não sabe) e até tocos está dando. Nada mal para um cara que nitidamente é improvisado como pivô.

Do Bibby acho que até comentamos algumas vezes na temporada passada. Não é o mesmo jogador que fazia muito estrago na época do Kings mas chegou para livrar o Joe Johnson de ter que bater o escanteio e ir cabecear (inventei essa agora!). O Bibby arma o jogo, dificilmente faz alguma asneira e ainda sabe arremessar de três, coisa que foi bem problemática para o Hawks por anos a fio.

A cereja no bolo foi a adição do Jamal Crawford. O banco do Hawks já tinha o esforçado (eufemismo para “ele compensa a falta de talento com vontade”) Maurice Evans e a piada pronta Zaza Pachulia para dar um gás na equipe, cobrir buraco. Mas não tinha alguém que chegasse pra mudar a cara de um jogo amarrado ou para simplesmente marcar pontos quando o Joe Johnson não estivesse na quadra.

O Jamal Crawford pode ter dificuldade para fazer mil coisas: para passar a bola, para ser bonito, para ter relações amorosas estáveis, para fechar Goldeneye 007 no nível "00 Agent", para chamar a amiguinha da sala pra ir no cinema e tudo mais, mas não tem dificuldade em marcar pontos. Deus chamou ele antes dele vir pra Terra e disse “Você vai à terra para marcar pontos em uma atividade humana chamada basquete. Sim, sua vida é patética”.

Jamal topou o desafio e veio aqui fazer a vontade divina. O cara marca muito ponto, dribla fácil (Top 5 em dribles mais devastadores da NBA) e faz isso todo jogo. Por fazer só isso e nada além disso, no Bulls, no Knicks e no Warriors era visto mais como um câncer fominha do que como um bom jogador. Mas na verdade ele só estava na função errada. Colocar o Jamal Crawford para liderar o seu time é pedir para o Eddie House pensar antes de arremessar, nunca vai dar certo!
No Hawks a função dele é jogar poucos minutos, ser fominha, arrasar com os reservas adversários. Ele é a principal razão para que o Hawks seja o time que mais evoluiu em pontos por jogo em relação à temporada passada. Em 2008-09 eram 97 pontos por jogo, agoram são 107.

Os titulares então fazem tudo aquilo que estamos vendo há uns 3 anos pelo menos. Movimentação de bola bem lenta no jogo de meia quadra, jumpers de meia distância e infiltrações do JJ e do Josh Smith. Na defesa, agressividade e contra-ataque rápido, essa sim a melhor arma ofensiva deles. Se você viu o Hawks só naquela série contra o Boston Celtics dois anos atrás você sabe do que estou falando. Não mudaram em nada, a diferença é que agora não tem tantos altos e baixos entre um jogo e outro.

Paciência, evolução da meninada, um jogador principal calmo e técnico e um doido agressivo como sexto homem. O Hawks não é só melhor que o Spurs, é o Spurs do Leste.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O que fazer com Jermaine O'Neal?

Da série "acho que fiz caca"


Alguns times têm que decidir o que fazer com o Kwame Brown, outros o que fazer com o Eddy Curry. Portanto, decidir o que fazer com o Jermaine O'Neal é um luxo para poucos, mesmo que ele seja um problema em muitos aspectos e, às vezes, mais atrapalhe do que ajude.

Das 43 partidas do Raptors na temporada até agora, Jermaine jogou apenas 29, isso contando os jogos em que passou meia dúzia de minutos em quadra antes de sair mancando. É impossível contar com ele, montar um esquema consistente, depender de sua presença. Suas lesões têm destruído sua promissora carreira desde os tempos no Pacers, que eventualmente foi obrigado a decidir o que fazer com o rapaz. O pessoal de Indiana tinha em mãos um All-Star, um jogador técnico e dominante capaz de liderar um time para granfes feitos, mas como lidar com seu salário de mais de 20 milhões de dólares quando ele mal entrava em quadra? Sua ausência, aliada a terríveis decisões do pessoal engravatado, levaram o Pacers a feder - e muito. Jermaine pediu para ser mandado para um lugar onde pudesse ser aproveitado, onde pudesse fazer a diferença. Sua saúde dava sinais de melhoras no final da temporada e a produção em quadra parecia razão para esperança. Rapidamente, foi parar em Toronto numa troca que aparentava envolver duas estrelas potenciais em Jermaine e TJ Ford. Agora, olhando com mais calma, parece que as duas equipes simplesmente queriam se livrar o mais depressa possível da bomba que tinham em mãos, estrelas cujas contusões tornaram-nos um fardo grande demais para suas equipes.

É aquela velha história da galinha do vizinho ser sempre melhor do que a nossa, principalmente se a galinha do nosso vizinho é uma de raça, tipo a Mari Alexandre. O TJ Ford parece um excelente armador, jovem, veloz, reboteiro, joga demais, mas quem conhece de perto sabe todos os podres. O TJ é frágil, teve lesões graves na coluna, ameaçou se aposentar do esporte depois que médicos alertaram que ele quase ficara aleijado após uma queda feia. Além disso, é agressivo demais no ataque, o que compromete tanto sua condição física quanto a capacidade de controlar o ritmo da equipe, sabendo quando atacar a cesta e quando passar a bola. Os times de TJ Ford são muitas vezes obrigados a ficar parados, assistindo o nanico correr de um lado para o outro da quadra sozinho.

O Pacers queria se livrar do contrato exagerado do Jermaine O'Neal e de sua presença que não permitia que o time fosse bem - já que ele estava sempre machucado - nem que fosse absolutamente mal, porque acabava sempre dando uma força. Para se renovar e colocar o controle em novas mãos, mais jovens, é necessário ter a coragem de feder um pouco, por uns tempos, e às vezes se livrar dos jogadores que impedem esse processo natural e obrigatório. Dois times querendo se livrar de dois estorvos que pareciam ser bastante apetitosos aos olhos alheios: um casamento perfeito que só poderia ter como resultado final dois times insatisfeitos. Afinal, casamento em que as duas partes estão satisfeitas, só naqueles casamentos arranjados em que uma russa quer nacionalidade americana, e um americano rico quer comer uma russa. Fora isso, a gente sabe que vai dar merda.

O TJ Ford jogou 34 dos 41 jogos do Pacers até agora. Ou seja, sofreu novamente com contusões. O time está fedendo como nunca e está lá no fundo da tabela do Leste. E, pra ser bem sincero, às vezes parece que o Pacers joga até melhor sem ele, com a bola mais nas mãos do Danny Granger e mais oportunidades para Marquis Daniels (por quem tenho um estranho Complexo de Drew Barrymore desde os tempos dele no Mavs) e para Jarret Jack.

Com o Jermaine, a história é mais complicada. Quando está em quadra, não há dúvidas de que torne o Raptors um time melhor. O problema é que talvez ele não melhore o time o suficiente. A situação acaba lembrando mais ou menos a do próprio Pacers, quando decidiu trocar sua estrela para dar espaço para o "Granny Danger": o Raptors não fede nem cheira, não está dando certo, muito provavelmente ficará fora dos playoffs, mas não estará entre os piores times. Não há chances mínimas de título e nem planos de tacar tudo no lixo e começar de novo, o que acaba deixando o time inteiro no limbo, sem saber para onde correr. Jermaine não resolve todos os problemas do Raptors, mas resolve alguns. Ele tem seus dias de estrela, mas em geral está no banco vestindo um terninho - que aliás não combina em nada com sua eterna cara de bebê.

Creio que o Raptors não está em condições de aceitar soluções pela metade. A crença de que o time estava apenas a uma peça de alcançar grandes feitos no Leste ainda permanece, embora eu ache ela tão pertinente quanto achar que a Terra está flutuando em cima de uma tartaruiga espacial. Então, se o Jermaine não é a peça que faltava, existem duas opções: trocá-lo imediatamente pela peça que falta, pois a data limite para trocas termina em 19 de fevereiro, ou então mantê-lo e esperar seu contrato terminar para liberar espaço na folha salarial para a lendária temporada de 2010 (LeBron, Wade, Bosh, dizem que talvez até Jesus Cristo e Buda).

Como antigo fã de Jermaine O'Neal que se achou velho quando ele parecia não ser mais capaz de ficar em pé, confesso que fiquei surpreso com seu rendimento em Toronto. Sua defesa continua impecável, embora os arremessos não tenham conseguido voltar ao velho ritmo e seu corpo não aguente mais o jogo físico de trombada que ele, com muito custo, havia desenvolvido em Indiana. Agora, é um jogador que pode ao menos contribuir sempre que consegue levantar da cama, e acho que ainda há espaço para ele na NBA se a natureza deixar. Ainda assim, concordo que o melhor a fazer é deixar Jermaine ir embora, por troca ou fim de contrato. Não que outra peça venha suprir aquilo que ele não conseguiu, é apenas que o Raptors também tem um Danny Granger que precisa de espaço para se desenvolver. Trata-se de uma versão com nome de garota e hábitos alimentares de uma Tartaruga Ninja: Andrea Bargnani.

Quando o Jermaine está desmontado como se fosse feito de Lego, o Bargnani é titular e tem médias excelentes de 17 pontos, 6 rebotes, 1.3 tocos e acerta 45% dos seus arremessos de três pontos. Jogar com o Bosh permite a "tática Rashard Lewis" de obrigar o defensor adversário a sair do garrafão e acertar arremessos de fora se ele não o fizer. Quando Jermaine joga, Bargnani joga em outras funções, passa menos minutos em quadra, e com isso faz apenas 8 pontos, pega 3 rebotes e acerta somente 34% dos arremessos de fora. A diferença é grande demais e é hora do conterrâneo do Super Mario ganhar confiança. Pra mim, todo time que não parece ir a lugar nenhum deveria começar a pensar em suas futuras estrelas, e o Raptors deveria estar distribuindo minutos para o Bargnani, para o Ukic (o armador que volta e meia tanto me impressiona) e para qualquer urso ou guarda florestal que parecer promissor lá no Canadá. Até porque eu duvido muito que o Chris Bosh continue por lá quando seu contrato se encerrar.

Pelo que parece, o pivô perdeu a paciência com a equipe. Na última partida contra o Hawks, surtou por completo com os erros de seu coleguinha Jamario Moon (que merecia respeito ao menos pela sua força nominal). Com o Raptors na frente e 90 segundos para o final, Moon deixou Joe Johnson livre para uma bandeja em que sofreu falta, diminuindo a diferença para um ponto. Com 55 segundos para o final, caiu na "tática Billups" de "eu vou fingir que arremesso pra ver se você é imbecil e vai pular no meu cangote" usada pelo Mike Bibby e cometeu uma falta, que resultou em dois lances livres e o Hawks liderando por um ponto. Em seguida, com 36 segundos para o final, deu um arremesso idiota de três pontos precipitado e bem, bem errado, que terminou de vez com o jogo. O Bosh arrancou os cabelos e, assim que a partida terminou, criticou o Moon abertamente, tanto pelas falhas defensivas quanto pelo arremesso desnecessário. Acrescentou que a mentalidade do time está errada, que no final dos jogos eles fazem tudo equivocado, e que não dá pra vencer assim.

Desconfio que, com essa equipe, o Bosh não queira ficar em Toronto. Como o contrato do Jermaine acaba potencialmente junto com o do Bosh, talvez acabe sendo tarde demais para usar a grana para contratar alguém de peso e convencer o pivô com pescoço de dinossauro a ficar. A lógica, portanto, se os engravatados estiverem dispostos a manter sua maior estrela, seria trocar Jermaine imediatamente - por alguém que, preferencialmente, não comprometa os minutos do Bargnani.

Os Nelsons Rubens do mundo da NBA falam constantemente de uma troca de Jermaine por Shawn Marion. Esse é um dos meus boatos preferidos, só perdendo para aquele que diz que a Maísa é na verdade uma anã e tem mais de 40 anos. Para o Raptors, essa troca traria uma defesa mais do que necessária, uma ajuda nas bolas de três pontos, daria uma força nos rebotes e permitiria que o Bargnani fosse titular ao lado do Marion. Além disso, o Jamario Moon iria para o banco de reservas, lugar a que ele pertence, já que contribui e muito para uma equipe mas jogar os minutos decisivos já é demais. Para o Heat, a troca traria tamanho - simples assim. Assistir Houston e Miami foi hilário, porque o Yao Ming podia fazer o que quisesse, incluindo pegar rebotes ofensivos no meio de 4 defensores enquanto dançava a macarena, e acabou o jogo com 12 arremessos convertidos em 12 tentados. Com Jermaine O'Neal, o Heat não teria que usar como titular o pivô Joel "Quem diabos?" Anthony, e o novato Beasley receberia muito mais minutos - coisa que ele está precisando urgentemente para pegar o jeito da brincadeira.

Por que essa troca não seria feita? Bem, provavelmente porque o Heat não é otário de pegar um jogador que tenha que entrar em quadra de cadeira de rodas. Antes de mais nada, é preciso que o Jermaine prove que pode jogar, que está saudável, e isso é como pedir para que o Clippers não tenha ninguém contundido no elenco. No entanto, há sempre uma possibilidade. Como acho que a temporada do Raptors já era, a prioridade deve ser mostrar que o Jermaine ainda dá pro gasto e forçar uma troca. Se não for pelo Marion, será por qualquer outra coisa que convença o Bosh a ter um pouco de fé, nem que seja uma troca por uma cinta pra dar na bunda do Jamario Moon. Mas nesse mundo de casamentos que são perfeitos porque dão errado, fico torcendo para ver o Marion no Raptors. Seria uma combinação ideal, ainda que - pode apostar - o time de Toronto não vá chegar a lugar algum do mesmo jeito.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O Atlanta Hawks não é mais piada

Joe Johnson é mala


E não é que o Atlanta Hawks é um time de verdade?

Estava esperando o jogo chave contra o Celtics para ter uma opinião mais bem formada sobre o Atlanta Hawks e apesar da derrota eles definitivamente ganharam muitos pontos comigo e com qualquer um que os viu jogar nessa temporada. Estão parecendo um time de verdade que vamos ver dando dor de cabeça pra muita gente nos playoffs.

Fazer julgamentos assim no começo da temporada é sempre perigoso, mas quem disse que a vida de blogueiro palpiteiro é fácil? Tem que se arriscar. Por exemplo, no ano passado vimos o Portland Trail Blazers ter um começo de temporada ótimo, 13 vitórias seguidas no meio do campeonato e depois vimos eles caírem na realidade de que eles não eram um time pronto para os playoffs.

Com o Hawks pode acontecer a mesma coisa, mas pelo jeito que eles estão jogando eu não acredito nisso. Meu embasamento vem de uma teoria que eu tenho de que ataques não são confiáveis mas que defesas são. Explico: todo mundo tem sua boa fase no ataque, volta e meia algum jogador bizarro tem uma sequência de 5 ou 6 jogos com pontuações fora do comum ou jogadores medianos tem uma temporada de boas marcas em pontos, isso acontece. No ano passado vimos um bom exemplo disso quando o Damien Wilkins começou a temporada fazendo quase 20 pontos por jogo e depois voltou ao normal, alguns anos atrás tivemos o Mike James com uns 19, 20 por partida e hoje ele se mata pra fazer meia dúzia no Hornets.

Como time temos o caso do Bulls. Em um ano eles eram uma máquina de arremessos certos, Hinrich, Deng e Gordon fizeram 4 a 0 no então campeão Miami Heat e eram o time do futuro. Aí todo mundo se deu conta de que não precisavam marcar o garrafão deles e era só contestar os arremessos e atacar as linhas de passe e já era o Bulls, nem para os playoffs foram.

Em resumo: jogadores medianos conseguem boas marcas ofensivas de vez em quando e times limitados conseguem, muitas vezes pelo elemento surpresa, marcar muitos pontos. Mas quando estes ficam conhecidos, perdem seu poder.

Enquanto isso, quem sabe defender sabe defender e pronto. Arremessadores costumam ter seus dias bons e ruins, defensores não têm esses problemas, quem defende bem, defende bem sempre e quem defende mal tá sempre tomando vareio (e aí Nash, beleza?). Por isso, times que defendem bem estão sempre com boas atuações defensivas, que muitas vezes salvam o time em dias ruins do ataque.

E o Hawks nesses primeiros jogos foi um ótimo time defensivo. Eles obviamente sentem falta do melhor jogador defensivo do time, o Josh Smith, mas eles aprenderam a não viver só dos tocos do Josh, eles defendem como um time, contestam arremessos e pressionam bastante os armadores adversários. O problema principal da equipe está apenas nos rebotes, já que é o time que mais sofre com rebotes ofensivos dos adversários (13,6 por jogo!) mas o número deve baixar com o passar dos jogos e com a volta do Josh.

O técnico do time, Mike Woodson, atribui essa melhora defensiva do time à série de playoff do ano passado contra o Boston, quando o Hawks levou o Celtics a 7 partidas.

"Eles sabiam, depois daqueles dois primeiros jogos em Boston, que era daquele jeito que o jogo deveria ser jogado. E então viemos para casa e jogamos do jeito que eles jogaram contra a gente. Foi uma ótima bagagem que trouxemos para esse ano porque eles sabem que foi a defesa que deu ao Boston a vitória e a única chance que nós temos é se defendermos e pegarmos os rebotes também."

As palavras dele dizem quase tudo, o Joe Johnson completou com algo também importante:

"Nós acreditamos na gente. Acho que aquela série contra o Boston realmente nos deu confiança. Nós olhamos todos os jogos com olhos diferentes agora. Estamos mais focados, mais intensos, mais em sintonia com o que está acontecendo à nossa volta."

A fórmula é simples: confiança no jogo + vontade de defender + aprender a defender é = a um time competitivo. Para completar a mistureba, faltava um ataque mais confiável. Afinal, no ano passado as opções de pontuação já eram poucas e nesse ano eles perderam Salim Stoudemire e Josh Childress.

A solução dos problemas começou com os próprios jogadores. O Bibby está parecendo mais o jogador que era nos tempos de Kings e está jogando muito bem no setor ofensivo, seja como organizador ou como pontuador, o Joe Johnson é hoje um dos melhores jogadores da NBA na posição 2, talvez atrás apenas de Kobe e Wade. E o Horford tem tido seus dias bons ofensivamente, ele ainda pode fazer 25 ou 5 pontos em um jogo, mas só por ter um topo de 25 já é uma melhora em relação ao ano passado.

Mas a grande mudança veio do banco de reservas. No ano passado o único impacto que o Hawks tinha do banco era o Josh Childress, que é um puta jogador, mas que nunca foi grande pela sua pontuação. Hoje, em compensação, eles têm o Mo Evans e o Flip Murray.

O Flip Murray não sabe jogar basquete, sabe fazer pontos. Simples assim. Nasceu para vir do banco, pegar a bola, meter uns 14, 15 pontos e voltar pro banco pra tomar Gatorade, o sexto homem perfeito.
Já o Mo Evans faz um trabalho defensivo ainda melhor que o Childress e se não tem a habilidade de criação de jogadas que o cabeludão, tem um arremesso de 3 muito melhor, o que nos leva a outro ponto muito interessante do Hawks.

Lembram um tempo atrás quando o Salim Stoudamire entrava no jogo só para chutar de 3? Eu lembro claramente (preciso achar os boxscores!) de jogos em que o Atlanta nem bola de 3 acertava. Mas hoje eles tem o melhor aproveitamento de bolas de 3 na NBA inteira! Nada de Suns, Nuggets, Warriors ou Orlando, a melhor marca é do Hawks.

São 42,4% de acerto nos arremessos com uma média de 9 bolas certas por jogo. Créditos para o Mo Evans, Flip Murray, Joe Johnson, Mike Bibby e Marvin Williams. Marvin Williams?

Até o ano passado o rapaz tinha um epíteto no nome. Tinha Alexandre, o Grande, Pepino, o Breve e Marvin Williams, o que foi draftado antes do Chris Paul. Mas hoje já consegue ser destaque no Atlanta e peça muito importante no ataque do Hawks. Nos 6 primeiros jogos da temporada ele chutou 11 bolas de 3 e acertou 8! Ontem contra o Celtics ele acertou todas as 4 que tentou, espetacular!

No jogo de ontem contra o Celtics deu pra ver tudo isso o que eu disse. Boa defesa, ataque forte, dividido entre bons jogadores, as bolas de 3, o Joe Johnson fora de série e tudo mais. Mas deu pra ver também que o Celtics faz tudo isso e faz um pouco melhor ainda. E que se Joe Johnson é um dos melhores jogadores da posição 2, o Paul Pierce é na posição 3. Vejam só o que ele fez no último segundo do jogo:





Oficialmente o Bola Presa deixa de transformar o Hawks em piada. Na hora de nos referirmos a um time medíocre, vamos usar o Thunder.

Exemplo: O Sasha Vujacic é muito ruim, mas seria titular no Thunder.

ou

Até meu time do colegial onde o Danilo era pivô ganhava do Thunder.

ou ainda

O Dwight Howard jogando ao lado de 4 anões pernetas venceria o Thunder.


Essa última afirmativa é até bem realista. Ontem o Superman Dwight meteu um triple-double contra o Thunder com alguns números dignos de um time inteiro: 30 pontos, 19 rebotes e 10 tocos. Para se ter uma idéia, os quatro titulares não chamados Duncan do Spurs somaram: 14 pontos, 1 toco e 13 rebotes.

A NBA deveria suspender o Johan Petro já que ele não teve a dignidade de se aposentar ontem à noite depois da partida.

Ontem ainda tivemos muitas outras grandes atuações. Brandon Roy e Rudy Fernandez jogaram muito contra o Wade, que fez isso. O Chris Paul fez um Dwight Howard dos pequeninos ao marcar 30 pontos e dar 13 assistências e o Kobe fez uma cesta fora do comum para selar a vitória do Lakers contra o Hornets. A bola, um arremesso dificílimo na cara do Posey, foi comentado depois pelo próprio Kobe:

"Eu só queria acertar um arremesso bem na cara dele."

O espírito olímpico ainda está presente em Kobe Bryant.

Mas entre tantas estrelas e atuações geniais e uma boa briga, vocês preferem o quê? Imaginando a resposta eu deixo o melhor para o final e aqui está o vídeo da treta entre o Rafer Alston e o Matt Barnes. Quem diria que o Artest não estaria presente na primeira briga do Rockets na temporada....



Detalhes legais do vídeo:

- O Barnes provocou e merecia uns tapas mesmo.
- O Nash ou é o pior separador de brigas da história ou foi lá causar mais confusão. Quem diria que ele é um brigão?
- O Shaq venceu a luta ao empurrar, em sequência, T-Mac, Yao e um grupo de umas 9 pessoas.
- No final o Yao afaga a cabeça do Alston como quem diz "bom menino". Tocante.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Preview da temporada - Divisão Sudeste

Orlando é um time gostoso de ver

Como todo site de basquete que se preza, faremos um preview da temporada da NBA. "Preview" para quem não sabe é uma mistura de recapitulação do que aconteceu nos últimos meses com o que nossas poderosas mentes projetam para o futuro. Ou seja, a soma de coisas que vocês já sabem com coisas que nós aqui achamos que tentamos adivinhar, uma ciência exata.

Foi no preview do ano passado, quando o Bola Presa ainda era algo como um projeto de participante do BBB, que tinha sua beleza mas ainda não os quinze minutos de fama, em que eu disse que o Bulls seria o campeão do Leste. Como o Derrick Rose está aí pra provar, eu errei, mas fui motivo de piada durante toda temporada. Então curta nossos previews como uma piada do futuro, será mais divertido assim.

O formato que escolhemos é o de dar motivos para assistir ou não assistir aos jogos desse time na temporada. Afinal existem mutretas internéticas para acompanhar qualquer jogo que você quiser pela internet, mas assistir quem? O Clippers ou o Pacers? O Lakers ou o Bulls? O Spurs ou... brincadeira, claro que você não vai assistir ao Spurs.

Os previews estão divididos por divisão e colocamos os times na ordem em que acreditamos que será a classificação depois dos 82 jogos.


Orlando Magic

Motivos para assistir:
Se você gosta de bolas de três e de enterradas, esse é o time certo para se assistir. No ano passado, o Orlando Magic foi o segundo time que mais arremessou bolas de 3 em toda a NBA, mais do que o Suns e atrás só do Warriors. Foram 25,3 bolas de 3 tentadas por jogo! Imagina se o Antoine Walker jogasse lá! Também é legal para ver enterradas porque o Dwight Howard foi o líder, disparado, em enterradas na temporada passada. Foram 267 enterradas, mais de 3 por jogo e 59 enterradas a mais do que o segundo colocado, Amaré Stoudemire. Assistir ao Magic é ver um jogo de NBA Live com pessoas de carne e osso.

Como curiosidade, será legal também ver como o Magic lida com o JJ Redick. Ele vive enchendo o saco porque quer dar o fora de lá e ir para um lugar em que tenha minutos de jogo. Não é irônico que o chamado "melhor arremessador do mundo" por muita gente (não o Damon Jones) não tem espaço no time que mais arremessa de 3? De qualquer forma, o Magic não atendeu seu pedido de troca e disse que nesse ano ele terá sua chance de finalmente brilhar na NBA.

Motivos para não assistir: O motivo para não assistir ao Magic é o mesmo motivo de assistir. Eles são aquela mesma coisa sempre! Depois do terceiro jogo assistindo a um festival de bolas de 3, a coisa fica meio cansativa.

Mas a verdade é que tudo depende também do nível de inspiração do Jameer Nelson. Se começar o jogo e ele estiver jogando bem, pode esperar uma atuação divertida do time do Mickey, com ele inspirado o time joga em velocidade e o jogo flui mais fácil. Mas quando o Jameer Nelson joga mal, aí sai de baixo, aí a coisa é menos criativa do que Feira de Ciências de 5° série e as bolas de 3 são quase um estupro de tão forçadas.

Outro lado ruim de ver o Magic é que para impedir o Dwight Howard de enterrar a bola, os times costumam bater nele, ou seja, o jogo fica lento e você perde minutos preciosos da sua vida assistindo a um cara de 2,15m ficar amassando o aro.


Miami Heat

Motivos para assistir:
O Miami vai acabar na frente do Wizards sim, e se der tudo certo é capaz até de ameaçar o Orlando no título do Sudeste. O motivo desse meu otimismo é o principal motivo para se ver o Miami Heat: Dwyane Wade.

Na minha vida de futurólogo da NBA eu aprendi algumas coisas. Uma das mais importantes é: nunca aposte contra LeBron James, Dwyane Wade, Kobe Bryant e Tim Duncan. O LeBron levou aquele Cavs para as finais da NBA, o Kobe fez 81 pontos em um jogo e o Duncan acerta até bola de 3 quando interessa. O Wade, por sua vez, despedaçou o Pistons e depois virou praticamente sozinho uma final contra o Mavs em 2006. Eles não são imbatíveis, mas é melhor não apostar contra.

O Wade saudável como estava nas Olimpíadas já é motivo pra ver todos os jogos do Heat, mas além disso tem mais gente por lá que é boa. O Shawn Marion é o faz-tudo que se encaixa em qualquer time e está em ano de contrato, ou seja, ele vai jogar mesmo pra poder continuar ganhando uma fortuna. E ainda tem o Beasley, que é o cara que mais faz parecer fácil o difícil ato de marcar pontos. Ele dá uns arremessos aqui, outros ali, faz umas infiltrações, ganchos, enterradas, ele faz tudo e faz parecer fácil. Mesmo que não seja um jogador completo, já pode beirar os 20 pontos por jogo em sua primeira temporada.

Motivos para não assistir:
O Heat tem um elenco estranho, são três jogadores fora de série (se o Beasley realmente der certo), o Haslem que é um ótimo jogador de apoio e o resto é de talento duvidável. Seja duvidável porque o cara tem cara de uma criança de 10 anos (Chris Quinn) ou porque tem o joelho tão forte quanto o de uma criança de 5 (Shaun Livingston).

Isso pode significar que as jogadas espetaculares do Wade podem ser exceções em um time sem qualquer entrosamento. Vale lembrar que a idéia inicial é usar o Marcus Banks como armador principal, o que pode dar bem errado. O técnico Eric Spoelstra disse que planeja usar um esquema ofensivo parecido com o usado pela seleção americana nas Olimpíadas de Pequim. Pode ser bom, porque era um esquema que usava bastante velocidade e contra-ataques, mas dava certo com o Kobe, Kidd, LeBron e cia. Será que dá certo com o Mark Blount?

Saiba dos riscos quando você for assistir ao Heat. Pode vir show dos Beatles ou show da Rita Lee tocando Beatles, são coisas bem diferentes.


Washington Wizards

Motivos para assistir:
Eu não acredito no Wizards nessa temporada, até pensei duas vezes em colocar eles na frente do Hawks! A que ponto chegamos! Mas vou confiar que quando o Arenas voltar, em dezembro ou janeiro, ele volte de uma vez por todas e o Wizards seja um time decente o bastante para ficar na frente do Atlanta.

Mas mesmo se eles não se recuperarem, é um time até legal de se ver jogar. Além do Caron Butler, que é espetacular, tem o DeShawn Stevenson fazendo suas palhaçadas, o Nick Young tentando ser o Kobe, o Pecherov que parece o Stewie do Família da Pesada e ainda pode ficar tentando descobrir como funciona a porcaria da Princeton Offense. Pura diversão!

Ou você fica vendo seus DVDs da Vivi Fernandes até o Arenas voltar. É mais fácil.

Motivos para não assistir:
Enquanto o Arenas não voltar você nem precisa justificar se não quer ver um jogo do Wizards, a gente entende e deixa quieto. Mas mesmo quando o Arenas voltar a coisa pode ser meio feia.

Nos playoffs do ano passado, quando o Agente Zero voltou, ele estava claramente fora de forma e completamente sem entrosamento com os companheiros. Imagina ele de novo sem passar por uma pré-temporada, sem treinar e junto com o Etan Thomas, que também não joga há mais de uma temporada e irá lutar com um novato pela vaga de titular deixada pelo contundido Brendan Haywood.

Dá pra imaginar o nível de entrosamento que esse time vai ter com os dois em quadra? O negócio pode até dar certo, mas até lá vai ser feio. Recomendo cautela para os menores de 16 anos.


Atlanta Hawks

Motivos para assistir:
Te dou dois motivos para assistir ao Hawks: Josh Smith e Joe Johnson.

Há umas duas temporadas o técnico do Hawks, Mike Woodson, disse que o Joe Johnson era tão bom quanto o Kobe, só não tinha o reconhecimento da imprensa. Acho que ele exagerou um pouco, mas ele vale o ingresso sim, o cara é pura finesse, uma maravilha de ver jogar, um dos jogadores mais completos da NBA.

Já o Josh Smith não é nada de finesse, é muita força. E você tem que concordar que o Josh Smith é especialista nas duas coisas que mais fazem os torcedores pularem da cadeira no meio de um jogo, as enterradas e os tocos. O cara é uma máquina de dar tocos quando alguém acha que vai para uma bandeja sozinha no contra-ataque.

Se você realmente se importa com o Hawks, o que eu duvido, você ainda pode acompanhar a evolução do fenômeno reboteiro Al Horford, do segundo-anista Acie Law e até ver como o Mike Bibby se comporta agora que ele está no último ano do seu contrato. Mas só faça isso se não tiver namorada, um video-game ou uma peteca, senão é perda de tempo.

Motivos para não assistir:
Ué, é o Hawks. Mas tudo bem, dou três motivos para você não ver jogos do Hawks então:

-Você gosta de basquete
-Você tem bom senso
-Você não assiste nada que envolva o Zaza Pachulia

Brincadeiras à parte, quem acompanhou a série contra o Boston nos playoffs do ano passado sabe como o Hawks pode ser em um jogo um time empolgante e no jogo seguinte parecer um time juvenil que te dá desgosto de viver.


Charlotte Bobcats

Motivos para assistir:
Pegue tudo o que eu disse acima do Josh Smith e troque o nome por "Gerald Wallace", é a mesma coisa mas com mais chances de contusão.

Além dele tem o Okafor, que nunca foi tão bom quanto deveria ser mas sempre toma uma enterrada bonita na cabeça. A versão 3.0 do Mbenga é legal de assistir pelo motivo errado, mas é legal.

Além disso, tem a volta do Adam Morrison, que obviamente nunca vai dar certo na NBA mas que tem o bigode mais firmeza da história da liga. Sim, bigodes são motivos pra ver um jogo, assim como eu só vejo o Celtics jogar pra ver que penteado o Scott Pollard está usando.

Motivos para não assistir:
Vai dar errado. Eu não estou torcendo para eles se ferrarem, mas essa experiência com o Larry Brown parece aqueles casamentos de artista que você já começa a contar os dias para o divórcio assim que vê os dois recém-casados na Caras. Outro dia ele já deu uma entrevista dizendo que os armadores DJ Augustin e Ray Felton estão se esforçando muito para respeitar o sistema ofensivo, mas que eles estão se esforçando tanto que não tá dando certo, eles têm que se soltar mais.

Aí quando eles se soltarem mais o cara vai dar um piti e vai brigar com todo mundo. Aí o Gerald Wallace vai ter dor nas costas, o Okafor vai torcer o pé, o Adam Morrison já voltou a sentir dor no joelho, o Sean May está gordo, o Matt Carroll é coleguinha de classe do Chris Quinn e o ginásio vai ser atacado por terroristas que vão acusar o Nazr Mohammed de ter traído o movimento.

Então o Larry Brown vai repetir uma frase que ele já disse antes mesmo da temporada começar: "Eu deveria ter me aposentado", que foi o que ele disse, em tom de brincadeira (ainda), depois daquele jogo em que o Bobcats perdeu o primeiro período por 40 a 9.