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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Miami Heat, o retorno

Monstro de três cabeças

Antes da temporada passada começar, muito se especulava sobre como seria o Miami Heat de LeBron, Wade e Bosh. A equipe parecia estar investindo todas as fichas no que podemos chamar de "modelo Celtics": juntar três estrelas, colocar todo o foco na defesa, deixar que se virem como bem entenderem no ataque, e tapar os buracos da equipe com pivetes ou jogadores veteranos dispostos a receber salários minúsculos pela chance de ganhar um título. No caso do Celtics, a pivetada deu muito certo (Rondo, Perkins) e os vovôs continuam topando a brincadeira até hoje (Shaquille O'Neal ficou até onde deu, Jermaine O'Neal deve fazer o mesmo).

O modelo parecia perfeito para o Heat imitar, LeBron e Wade só falavam em defesa durante os primeiros treinamentos com o técnico Erik Spoelstra, o time apostou em um pirralho na armação (Mario Chalmers) e um no garrafão que só sabia defender (Joel Anthony), e os veteranos se acotovelaram pela chance de jogar: passaram pelo Heat em seu primeiro ano vovozinhos como Jerry Stackhouse, Ilgauskas, Dampier, Juwan Howard, Mike Bibby, Jamaal Magloire, Mike Miller e Eddie House (esse último, aliás, havia participado também desse modelo no Celtics). Não dava pra culpar o Heat, copiaram um modelo recentemente vencedor e, por não serem um grande mercado na NBA, aproveitaram o fato de que o Wade trouxe seus amiguinhos para finalmente se tornar um lugar interessante para jogadores veteranos. Afinal, como fica bem fácil de perceber, jogadores bons e velhos querem jogar em equipes boas, não nas franquias mais famosas.

O problema é que nenhuma cópia sai exatamente como o original, e já no primeiro mês de temporada dava pra ver os deslizes do projeto. O primeiro, e mais sério, era que a defesa simplesmente não funcionava como deveria. Contra equipes mais fracas, a defesa era sufocante e vencia o jogo sozinha como esperado, mas contra equipes dispostas a rodar a bola, atacar o garrafão, ou com pivôs um pouco mais competentes do que o normal, a defesa não conseguia acertar a rotação, cometia erros bobos, batia cabeça e acabava se frustrando, tentando tanto roubar bolas que acabava deixando jogadores completamente livres quando os roubos não aconteciam. No ataque a coisa também era bastante bagunçada e o time foi alvo de críticas, especialmente com aquele papo de que "não tem na equipe um armador de verdade pra botar ordem na casa". Na prática, o ataque do Heat era tão organizado ou mais do que aquele do Celtics que foi campeão em 2008, justamente porque jogadores tão talentosos sempre dão um jeito de pontuar mesmo que seja na marra - por isso o foco das duas equipes sempre foi na defesa e há um desdém de ambos com relação à parte ofensiva.

Mas o técnico nerd Erik Spoelstra resolveu não deixar o ataque à deriva. Com seus bilhões de números e estatísticas, constatou que o Heat usava sempre as mesmas jogadas no ataque e que eventualmente isso seria um problema. A solução que ele propôs é um tanto videogame: sempre que o Heat tivesse sucesso na defesa, conseguindo um roubo de bola, um toco ou um rebote defensivo, o ataque poderia fazer o que bem entendesse; mas toda vez que o Heat levasse uma cesta era obrigado a seguir uma das jogadas "não-convencionais" que o Spoelstra havia desenhado para variar o ataque. A tática deu certo o bastante, afinal o Heat chegou a uma Final de NBA, mas ela tem vários problemas. Primeiro, ela assume que os problemas defensivos do Heat eram uma questão de comprometimento, não de posicionamento e entendimento da função de cada um em quadra. Depois, ela arrancou completamente pela raíz a espontaneidade do ataque da equipe. O sucesso que o Heat tinha com jogadas de velocidade ou um pick-and-roll simples era imenso, mas nos momentos de aperto cansei de ver a equipe se embananando toda tentando colocar em prática alguma movimentação do Spoelstra na linha de fundo da quadra. LeBron James passou boa parte da série contra o Mavs, na Final, acionando Chris Bosh para arremessos de média distância - em parte porque o garrafão do Mavs intimidava qualquer infiltração, é verdade, mas em parte também porque não tinha permissão para jogar na velocidade como bem entendesse. Os contra-ataques com LeBron e Wade são fulminantes, eles adoram, se divertem, fazem dancinhas, mas são muito raros numa equipe que poderia fazer isso o tempo todo se quisesse. A equipe tentou tomar para si uma identidade que não lhe correspondia. E até que simulou razoavelmente bem esse papel, uma Final de NBA não cai no colo de ninguém, mas em nenhum momento pareceu algo natural, orgânico. Os jogadores foram tirados de sua zona de conforto, do modo em que renderiam mais, e com isso tiveram dificuldades em contribuir em algumas situações.

No ano passado, escrevi sobre a diferença entre essência e aparência na hora de definir a posição de um jogador, e para isso usei uma cena do Chaves que infelizmente foi tirada do ar. Coloco um vídeo similar abaixo para retomar aquela ideia:



Tem jogador que parece de tamarindo e tem jogador que é de tamarindo, como saber a diferença? Definimos uma coisa pelo modo que ela se apresenta a nós, por como nos parece, ou há um modo de descobrir o que ela verdadeiramente é, além das aparências? Essa questão filosófica é importante para nós graças a dois jogadores: LeBron James e Chris Bosh. Ambos parecem alas: LeBron é alto, forte, gosta de infiltrar e é pontuador; Bosh é magro, fisicamente fraco, e sempre se lesionou tendo que jogar de pivô no Raptors. Na essência, naquilo que eles verdadeiramente são, embora o Bosh seja considerado um ala de força exatamente como ele aparenta (mesmo tendo jogado de pivô improvisado no Raptors por toda a carreira), considero LeBron um armador puro (como jogava no colegial, e assim que entrou na NBA) e não um ala como insistem para que ele seja.

LeBron foi o armador principal do Heat na maior parte da temporada, com Mario Chalmers ou Mike Bibby em quadra apenas para marcar o armador adversário na hora de defender, e para arremessarem de três pontos na hora do ataque tendo em vista a falta de arremessadores que o Heat tem (e a inconsistência de LeBron e Wade na função). Armando, LeBron teve alguns problemas para manter o esquema semi-rígido do técnico Spoelstra, muitas vezes tendo que se conter ou se limitar no ataque para cumprir as jogadas estabelecidas. Por outro lado, LeBron simplesmente desapareceu nos momentos em que a armação foi passada para outra pessoa e teve que jogar de ala. Quando LeBron e Wade revezaram a armação, com um fazendo corta-luz para o outro na cabeça do garrafão, foi tudo fantástico, mas com LeBron isolado no perímetro o negócio desandou. Está na hora de admitirmos que LeBron é o armador dessa equipe - talvez até deixando que ele finalmente marque o armador adversário, agora que Shane Battier pode garantir a marcação na ala - e que está tudo bem ele assumir essa função. Como comentamos anteriormente, grande parte dos problemas do Heat na temporada passada foram tentar ser um time que eles não eram.

O caso do Bosh, no entanto, é mais complicado. Depois de uma vida inteira como pivô improvisado (e de uma franquia que se destruiu tentando conseguir pivôs melhores para deixar que sua estrela fosse para a ala, onde queria), finalmente Bosh conseguiu jogar como ala de força no Miami Heat. Em geral o pivô foi Joel Anthony, que todo mundo adora dizer quão ruim é mas que na verdade está no topo da NBA naquelas estatísticas difíceis de contabilizar e que ninguém dá a mínima, como sucesso no corta-luz, proteção nos rebotes (box-out), faltas de ataque sofridas, etc. Bosh conseguiu então realizar seu sonho e jogar longe da cesta, marcar jogadores mais fracos e usar mais seu arremesso - e foi um fracasso. O arremesso do Bosh é ótimo, mas não tão bom quanto seus movimentos embaixo da cesta; sua velocidade na defesa não fica tão evidente contra jogadores mais ágeis e que jogam mais fora do garrafão; sua capacidade de bater para dentro do garrafão no ataque fica diminuída enfrentando alas, mais capazes de acompanhar sua velocidade. Descobrimos que o Bosh só era genial (e sim, ele foi absurdamente genial nos seus tempos de Raptors) porque era rápido, leve, ágil e inteligente contra pivôs grandões e descoordenados.

A parte legal é que o Bosh percebeu tudo isso. Recentemente alegou que ter arremessado abaixo de 50% (teve 49% de aproveitamento na última temporada) e ter conseguido menos de 10 rebotes (foram 8) é algo inaceitável para ele, que ele tentou fugir de ser pivô e que isso sempre volta e pega ele de algum jeito, então que para essa temporada resolveu fazer diferente: adicionou 5 quilos de massa muscular durante a greve e está decidido a ser o pivô da equipe sempre que necessário. Isso é ótimo porque Udonis Haslem volta da contusão que lhe tirou quase toda a temporada passada, e os dois tem tudo para serem muito melhores juntos do que qualquer outra dupla de garrafão do Heat.

No caso do ataque pouco orgânico do Heat e do LeBron contido na armação, Spoelstra também percebeu o problema e oficialmente tirou as amarras. Não haverá mais jogadas chamadas pelo técnico, eles não terão a obrigação de fazer jogadas específicas caso sofram cestas, não terão que evitar as jogadas mais eficientes apenas para "não usá-las demais". Bosh, Wade e LeBron deram entrevistas dizendo que o ataque será livre, que seguirão o ritmo natural do jogo e usarão a experiência e a inteligência que possuem para fazer o que acharem melhor. Claro que com o foco na defesa, agora com mais tempo para que ela bata menos cabeça. É o "modelo Celtics", agora livre e solto, com permissão para correr a quadra e jogar no contra-ataque como todo mundo pensou que eles fariam. E com o Bosh de pivô se precisar, enfim.

E como o "modelo Celtics" não está completo sem veteranos topando a brincadeira, vamos seguir nossa análise das contratações da offseason e dar uma olhada em como os recém-contratados se encaixarão no Heat:

Mario Chalmers
Miami Heat - 12 milhões por 3 anos

Volta para o Heat o armador que não precisa quase nunca armar o jogo, mas cujo arremesso de três é muitas vezes o desafogo da equipe. Com LeBron e Wade sendo tão bons na infiltração, faltou para o time na temporada inteira uma bola consistente de três pontos para abrir espaço no garrafão. Mike Miller chegou à equipe só para isso, passou boa parte da temporada contundido e aí quando finalmente jogou, fedeu. Chalmers não é o melhor arremessador disponível, mas criou fama como o cara cheio de bagos que converte os arremessos de três nas horas mais importantes, e o Heat precisa disso. Quer dizer, é meio bizarro ter LeBron, Wade e Bosh e acabar passando a bola importante para o Chalmers, mas não deveria ser vergonha pra ninguém, o Super Mario Chalmers merece.

Shane Battier
Miami Heat - 20 milhões por 4 anos

A melhor contratação que o Heat poderia fazer na história da humanidade conhecida. Shane Battier é o cara que torna um time bom em um time fantástico, é a peça que falta em qualquer equipe que esteja às portas de ganhar um título. Assisti a ele desperdiçar seus talentos no meu Houston Rockets porque, olha que estranho, o Houston realmente achava que dava pra vencer um titulo e por isso seguraram o Battier a todo custo (aliás, ao custo do Rudy Gay, mas isso é outra história). Battier ainda é um dos melhores defensores de perímetro da NBA, é um ótimo defensor no garrafão, o melhor da liga em cavar faltas de ataque, é tão obediente taticamente que fica até chato, e ainda não compromete no ataque - tem um ganchinho confiável e uma bola de três pontos mortal na zona morta. O Heat finalmente terá uma bola da zona morta para acionar depois das infiltrações de Wade e LeBron, e nenhum dos dois terá que se matar parando a estrela adversária. Colocando Wade, LeBron e Battier em quadra (com LeBron jogando de armador, como deve ser), o perímetro fica espetacular; mas dá pra colocar o Battier de ala de força com o Bosh de pivô dependendo do adversário. Defende, joga várias posições e acerta bolas de três pontos, é tudo que o Heat precisava da vida. E o Celtics. E o Mavs. E o Lakers. E o...

James Jones
Miami Heat - 6 milhões por 3 anos

A necessidade que o Heat tem por arremessadores é enorme. LeBron e Wade nem arremessavam uns anos atrás, melhoram a cada temporada, e na última melhoraram o aproveitamento na marra, porque as defesas fecham o garrafão e deixam os dois chutarem. O problema é que com tanto espaço para o arremesso de três, faltam no Heat especialistas. O James Jones é tão especialista, mas tão especialista, que levou meses na temporada passada para fazer seu primeiro ponto dentro do garrafão. Ou seja, faz aquilo que precisa. Seria péssimo para o Heat perdê-lo, não existem muitos arremessadores disponíveis no mercado por um preço bacana, e o James Jones acabou saindo a preço de banana.

Eddy Curry
Miami Heat - 1 ano, 1 milhão

Como sabemos, o fato de que o Eddy Curry perdeu 30 quilos (trinta!) para jogar pelo Heat acabou mudando a estrutura do espaço-tempo e quase fez com que a temporada não acontecesse! O Curry já foi um jogador relevante, é muito sólido atacando embaixo da cesta, muito técnico, e muito, muito, muito gordo. Recebeu um contrato bilionário no Knicks mas nunca conseguiu ficar em forma, teve problemas pessoais bizarros (de assédio sexual a homicídio na família), foi ficando uma bola e então finalmente saiu da órbita da Terra, girando ao redor do planeta como uma lua pequena. Nos seus bons tempos era bom no ataque, ruim na defesa, e um dos piores reboteiros a já jogar basquete. O Heat tem problemas sérios com rebotes defensivos (especialmente com o Bosh jogando longe da cesta como ala de força, e com o Haslem machucado), então o Curry não acrescenta muito. Só é legal de ver um cara tentando retomar a carreira, correndo as tripas para fora, perdendo tanto peso e conseguindo um lugar numa equipe como o Heat. Na falta de gente de garrafão, terá sua chance. O problema é que não garantirá rebotes nem acompanhará a velocidade dos contra-ataques. Se estiver bem fisicamente, no entanto, é sempre uma ajuda nem que seja para fazer faltas no Dwight Howard. Vale também lembrar o quanto já zoamos o Zach Randolph por ser gordo e hoje em dia ele é tão bom reboteiro que parece ter cola nas mãos. Aliás, o Randolph também andou perdendo peso e até pegando umas ponte-aéreas nos treinos do Grizzlies. Se o Curry fizer isso também, aí já era a nossa temporada, o espaço-tempo, vai ter greve mundial dos seres humanos e a Lua vai se chocar contra a Terra.

domingo, 2 de outubro de 2011

8 ou 80: Eficiência e tipos de arremesso - Parte 1

Todas as fotos do Leandrinho em ação são dele fazendo uma bandeja. Existe uma razão para isso.

Para quem é novo no Bola Presa, uma rápida explicação: A seção "8 ou 80" aparece esporadicamente no nosso blog para comentar e analisar estatísticas e números da NBA. Mas tentamos não ficar só nas médias de pontos, rebotes e etc. Gostamos de quem vai mais a fundo, analisa números complicados de encontrar e que tentam mostrar coisas diferentes, difíceis de perceber só acompanhando o jogo casualmente.

Hoje vou pegar várias listas feitas pelo Evanz, blogueiro do Golden State of Mind, um blog gringo focado no Golden State Warriors. Ele pegou dados dos play-by-play dos jogos, estatísticas de posicionamento de arremessos do HoopData e com esses dados fez um levantamento de quem seriam os mais eficientes jogadores em diversos tipos de arremesso: perto da cesta, de meia distância e três pontos. E depois ainda separou os arremessos de perto da cesta em enterradas, bandejas, tapinhas e ganchos.

A medição final que deu a ordem nas listas foi feita de acordo com uma conta que ele criou. Com pequenas variações de uma para a outra, em geral a fórmula leva em conta os arremessos tentados pelo jogador, seu aproveitamento e as médias dos jogadores da mesma posição em toda a NBA nessas mesmas duas coisas.  Essa maneira de analisar equilibra as coisas, afinal alguns jogadores se destacam por bom aproveitamento mas o fazem arremessando muito menos que outros. O Steve Nash, por exemplo, tem um aproveitamento espetacular em bandejas, mas só tenta 2 a cada 40 minutos de jogo, a média dos armadores da liga é de pouco mais de 4. Nash tem aproveitamento melhor porque tenta menos, corre menos riscos e só vai quando tem certeza, o que não quer dizer que ele é um "infiltrador" mais eficiente que alguém como o Derrick Rose.

...
Comecemos pertinho da cesta. Vamos conhecer, dentro dessa análise explicada, quem são os mais eficientes pontuadores próximos do aro.

Lembrando que "POS RANK" indica o lugar do jogador entre os jogadores da sua posição, que aí está indicada nos números de 1 a 5 na coluna "POS". "PSAMS" é o resultado da complexa conta que eu expliquei acima e que define a ordem do ranking.


É impressionante como o Thaddeus Young é muito melhor do que todo o resto da NBA nos arremessos próximos à cesta. O fato do Sixers jogar muito em transição, que resultam em bandejas fáceis, tem peso grande nisso, mas como ele é o único jogador do time entre os 20 primeiros fica claro que não é só isso. Ele também é muito bom jogando de costas para a cesta e geralmente enfrenta jogadores mais baixos do que ele.

Impressiona também ver LeBron James e Dwyane Wade entre os 4 primeiros. Todo mundo sabe que o Miami Heat se baseava demais nas infiltrações dos dois, montavam esquemas só para impedir isso e mesmo assim ambos estão ainda lá entre os melhores. Ainda faltam importantes detalhes para o Heat chegar ao título, mas com dois dos pontuadores mais eficientes próximos à cesta eles já estão muito bem na fita.

Também chama a atenção que entre os 20 primeiros só existem 5 jogadores de garrafão, Dwight Howard, Nenê, Blake Griffin, Marcin Gortat e Carlos Boozer. Na teoria os pivôs e alas de força não deveriam ter aproveitamento melhor perto da cesta? Por outro lado, parabéns aos nanicos Tony Parker e Russell Westbrook, únicos armadores da lista. O francês é um fenômenos por estar no 7º lugar, o aproveitamento dele para alguém do seu tamanho é surreal: Ele tenta 7 arremessos próximos à cesta por jogo contra uma média de 4 dos armadores, e seu aproveitamento é 65% nesses arremessos contra 60% dos seus companheiros de posição. Uma lavada.

Vamos ver agora a parte engraçada: quem são os piores em aproveitamento de arremessos próximos à cesta?  - (lembrando que só se qualificaram para entrar na lista jogadores com mais de 40 jogos na temporada e média superior a 25 minutos por jogo)


Pois é, a coisa tá feia. Os três piores são jogadores de garrafão! Marcus Camby sempre foi negação no ataque, Andrea Bargnani mostra o porque tem fobia de garrafão e o Channing Frye me surpreende porque a estatística prova que em algum momento da última temporada ele tentou um arremesso perto da cesta, alguém lembra disso? O resto da lista mostra outros jogadores que estão na NBA apenas por serem bons arremessadores de longe, como Daniel Gibson e Anthony Morrow, esses só tentam arremessos próximos à cesta em ocasiões especiais e, como visto, sem sucesso.

Mas me surpreende que jogadores como John Salmons, Brook Lopez, Brandon Jennings e Roy Hibbert estejam tão mal posicionados. Tudo bem que os quatro têm em comum o fato de terem tido no ano passado campanhas bem irregulares, mas será que os pontos baixos foram tão baixos assim? E Lopez e Hibbert são vistos como duas das mais promissoras apostas da NBA em termos de jovens pivôs, e mesmo assim estão lá perto do Kwame Brown. Para comparar, o Brook Lopez tentou no ano passado 4.8 arremessos perto do aro, acertando 3 por jogo (62%), o Dwight Howard tentou 7 por jogo, acertando 5.3 (74%). A média de aproveitamento dos pivôs como um todo da NBA é de 66%. Lopez tenta menos que a média e acerta menos que a média, um desastre. Veremos mais tarde como ele e Hibbert tentam compensar isso.

Para ver detalhes da fórmula e a lista por posições, entre nesse post do Golden State of Mind. Lá também, no final, tem a lista sem o ajuste por posições em que cada um joga. Nessa lista Dwight Howard é o líder, mas Thaddeus Young se mantém bem e é o segundo colocado. Nenê é o terceiro para desgosto dos que querem se convencer de que a seleção brasileira não seria muito diferente com ele em quadra.

Talvez um problema, ou pelo menos uma limitação, dessa estatística é que eles levam em consideração apenas a distância da cesta. Esses números que mostrei acima contam jogadas a cerca de 1 metro da cesta. Mas no fim das contas não sabemos o que cada jogador faz por lá. São bandejas, enterradas ou aquela coisa sem nome que o Shawn Marion faz? E sem contar que muitas vezes os pivôs usam ganchos, que são jogadas de pivô, de garrafão, mas um pouco mais longe do aro do que aqueles números computaram. Para isso foi feito outro post só contando o número de bandejas, enterradas, ganchos e tapinhas tentados e o aproveitamento. Os números mostram quantos arremessos de cada tipo os jogadores tentam a cada 100 posses de bola e a porcentagem de acerto.

Vamos começar com as enterradas:


Alguma surpresa em ver o LA Clippers dominando o Top 3? E nem a ordem dos jogadores me impressiona, o aproveitamento do Blake Griffin é naturalmente menor porque ele tem o hábito de tentar as enterradas mais difíceis e improváveis da história. A atenção dada para ele também libera muito espaço para que o DeAndre Jordan tenha mais oportunidades de enterrar. Quem impressiona na lista é o Andre Iguodala, único jogador que não é da posição 4 ou 5 a entrar no Top 20 de quem mais tenta enterradas. Entre jogadores que jogam nas posições 1 ou 2, o primeiro a aparecer é Dwyane Wade, em 25º, com 2.13 tentativas de enterrada a cada 100 posses de bola e 89.4% de aproveitamento.

Uma lista curiosa e cheia de armadores é a dos jogadores que não chegaram nem a tentar uma enterrada em toda temporada passada. Prepara-se que ela é meio extensa: Shane Battier, Andre Miller, Anthony Morrow, Kyle Lowry, Toney Douglas, Beno Udrih, Tony Parker, Richard Hamilton, Sasha Vujacic, Mike Bibby, Daniel Gibson, DJ Augustin, Chris Paul, Steve Nash, James Jones (surpresa!), Derek Fisher, Kirk Hinrich, DeShawn Stevenson, Jameer Nelson, Luke Ridnour, Jason Kidd, Chauncey Billups, Jose Calderon, Steve Blake, Keith Bogans, JJ Barea, JJ Redick, Mario Chalmers, Eric Maynor e Gary Neal.

Lembram dos bons tempos em que o Rip Hamilton dava aquelas enterradinhas marotas com as duas mãos? Já era. E não é à toa que se você digitar "Shane Battier dunk" no YouTube o ala do Rockets está sempre do lado errado da brincadeira. E os torcedores do Lakers vão guardar no coração o longínquo dia em que Sasha Vujacic enterrou e o banco foi ao delírio:



Abaixo a lista com o número de bandejas tentadas a cada 100 posses de bola e a porcentagem de acerto.


De Barbosa a Hilário estes são os 20 que mais tentam bandejas na NBA. O Leandrinho tenta um pouco mais de bandejas que o Tony Parker e tem um aproveitamento pior (62% a 65%), mas a diferença não está tão grande assim e temos que lembrar que o francês é absurdamente fora de série nesse quesito. Ponto para o brasileiro que mesmo já tendo passado do seu auge ainda pode render muito bem em times que saibam usar os seus pontos positivos.

Me surpreendeu ver o Tyreke Evans tão bem colocado em 8º lugar, isso porque no começo da temporada o jogador estava sentindo muito uma contusão no pé e isso levou ele a despencar em números de bandejas tentadas em relação ao seu ano de novato. Estava tentando viver de jumpers de média e longa distância e falhando miseravelmente nisso. Ele terminou melhor a temporada e esse número mostra o motivo, voltou a atacar a cesta como deve fazer para ser eficiente, porém foi um dos poucos desse Top 20 com aproveitamento abaixo dos 60%, dá pra melhorar. Outros bons jogadores com aproveitamento abaixo dos 60% são Carmelo Anthony e Derrick Rose, para os dois o motivo é bem claro: tentam bandejas demais até quando elas não parecem a jogada mais apropriada. A resposta do Rose ao fato do Bulls estar bem marcado e empacado no ataque é abaixar a cabeça e ir para a bandeja. Quando dá certo é lindo, mas não dá pra ser um dos líderes da liga em aproveitamento fazendo isso. Pra falar a verdade, 57% de acerto fazendo essas loucuras é algo louvável.

E lembram que eu chamei a atenção anteriormente ao fato do LeBron James e do Dwyane Wade estarem entre os melhores da NBA em pontos próximos à cesta? Pois o Miami também tem jogadores de destaque em outra área: os jogadores que menos tentam bandejas na liga.

O James Jones é recordista com 0.07 tentativas de bandeja a cada 100 posses de bola. Isso quer dizer que ele precisa de 1.428 posses de bola para finalmente tomar vergonha na cara e tentar uma bandejinha. O segundo colocado na lista é outro arremessador puro, o Kyle Korver, mas até ele tem um número mais digno com 0.53 tentativas a cada 100 posses. No Top 10 dos que menos tentam o Miami também tem o Joel Anthony e o Mike Bibby.

Hora da lista dos tapinhas, os Tip-In.


Lembra que o Marcus Camby era o pior em aproveitamento de arremessos próximos à cesta? Ele é líder em tentativas de tapinhas, mas tem um aproveitamento péssimo nesse tipo de chute. Sem querer pegar no pé, mas o Marcus Camby de hoje em dia é inútil ofensivamente e sua maior contribuição na área, os rebotes ofensivos e tapinhas, não costumam render muita coisa. Ter ele no time é atacar com 4 jogadores. Em aproveitamento quem lidera os tapinhas é o Zydrunas Ilgauskas, com 65%. Atrás dele no Top 5 estão o novato Greg Monroe (62.5%), Amir Johnson (61.2%), Zach Randolph (60%, achei que seria líder) e Ben Wallace (59%).

Por fim a lista de quem mais tenta ganchos, na esquerda, e o ranking de aproveitamento na direita.


O Brook Lopez eu ainda não perdoo, mas o Roy Hibbert ganhou alguns pontos com essa lista. Lá pertinho do aro ele está longe de ser bom como deveria, mas um pouco mais longe é um especialista em ganchos. Tenta bastante, é o 3º da lista, e tem o 6º melhor aproveitamento em ganchos com 54% de acerto. O Brook Lopez tenta dois ganchos a menos que o Hibbert a cada 100 posses de bola e tem 3% a menos de acerto, precisa melhorar, garoto.

O Andrew Bogut é o cara que mais tenta ganchos, mas tem apenas o 21º melhor número em aproveitamento. Isso porque seu arsenal de jogadas não é dos mais extensos, é gancho toda hora em qualquer situação e de qualquer canto do garrafão. Com 7.93 ganchos a cada 100 posses de bola ele está com quase o dobro de tentativas do Brook Lopez, o 5º colocado! O Darko Milicic é outro que tenta bastante e tem aproveitamento parecido, me surpreende sempre o quanto o Wolves envolve o pivô sérvio no ataque, além desse número de destaque em ganchos, é um dos jogadores mais envovlidos em pick-and-rolls, mais até que seu companheiro Kevin Love. O cara é um defensor mediano e só, deveriam deixar ele ser mais secundário no ataque.

O líder em aproveitamento é o Boris Diaw, com 61%, mas ele tenta poucos ganchos, apenas 1.84 a cada 100 posses de bola, aliás ganchos são arremessos pouco tentados na NBA atualmente. E dos 20 que mais tentam esse chute, 9 são gringos, não é muito da cultura americana mesmo.

Um número que assusta é o do Blake Griffin com o 5º melhor aproveitamento em ganchos, 55%! Às vezes a gente acha que o cara só enterra, mas ele tem bom passe, boa visão de jogo quando sofre a marcação dupla, é ótimo nos rebotes de ataque e até gancho ele acerta. Um pouco mais de dedicação defensiva, alguns rebotes a mais e eventualmente uns tocos e esse cara vai dominar a NBA, ele é de outro mundo.

Para ver com mais detalhes as listas postadas e citadas aqui com as tentativas e aproveitamentos em bandejas, enterradas, tapinhas e rebotes, vejam esse post do Golden State of Mind.

Na parte 2 desse post irei mostrar as listas com os arremessos de 3 pontos e os temidos e odiáveis arremessos de meia distância, será que tem alguém melhor que o Dirk Nowitzki nisso?

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Jogo feio

K.O! You Lose!

A série entre Miami Heat e Boston Celtics tinha tudo para ser muito interessante, divertida, disputada e, já que estamos na internet, épica. Mas acima de tudo feia, no melhor dos sentidos. Quem acompanha NBA há algum tempo deve lembrar da final do Leste de 2004 quando o Detroit Pistons que viria a ser campeão com Chauncey Billups, Rip Hamilton, Tayshaun Prince, Rasheed e Ben Wallace enfrentou o Indiana Pacers de Jamaal Tinsley, Ron Artest, Jermaine O'Neal e Reggie Miller. Foi uma série vencida por 4 a 2 pelo Detroit e que teve placares do tipo 69-63 e 72-67, o máximo que um time marcou em um jogo foi 85 pontos, o Pistons do jogo 3. Esses jogos foram uma guerra, com muita porrada, contato físico, defesa forte em todas as posições e em que os times tinham que batalhar por todo santo ponto; as cestas poderiam ser comemoradas como gol no futebol de tão difíceis de conseguir. Os 26 tocos (19 do Pistons, 7 do Pacers) no jogo 5, se não me engano, ainda são o recorde de um jogo de playoff na história da liga. O mais famoso deles é chamado simplesmente de "The Block", vocês devem conhecer:



O jogo 5 teve 25 tocos (13 a 12 para o Pistons) e inúmeros roubos de bola, defesas exemplares. Foi o momento que eu admiti  pela primeira vez que um jogo com poucos pontos e muitos erros poderia ser tão ou mais bonito que uma partida corrida que acaba 130 a 128. E é exatamente isso que eu esperava da série entre Heat e Celtics: partidas feias que vão dar gosto de assistir pela qualidade defensiva das duas equipes e para ver como esses talentos individuais vão quebrar as defesas. Alguém decepcionado com isso até agora? Por características individuais dos jogadores os jogos não têm muitos tocos como a série que eu citei, mas eu nunca vi uma série onde cada rebote fosse tão disputado. Não dou mais dois jogos pra alguém sair sangrando.

O curioso é que esse jogo pegado e feio acontece na série de playoff mais estrelada da história. São 6 jogadores em cada lado que já passaram por um All-Star Game, Mike Bibby, Jamaal Magloire (eu sei, eu sei...), LeBron James, Dwyane Wade, Chris Bosh e Zydrunas Ilgauskas pelo Heat e Rajon Rondo, Ray Allen, Paul Pierce, Kevin Garnett, Shaquille O'Neal e Jermaine O'Neal pelo Celtics. Somando todo mundo dão 80 aparições em All-Star Games!

Um dos motivos que fizeram o Boston Celtics trocar o Kendrick Perkins, dizem, foi que o Leste não tinha equipes com pivôs bons o bastante para necessitar da defesa do Perk, a exceção era o Dwight Howard, que já está de férias. Se isso é mesmo verdade, foi um erro primário e nada digno de um General Manager que montou essa equipe fantástica que foi o Celtics nos últimos anos. Defender o garrafão não é só marcar pivôs ou alas de força, envolve muito mais do que isso e é nesse aspecto que o Celtics está sofrendo nesses dois primeiros jogos da série. Na temporada regular eles venceram o Heat porque fizeram um paredão na frente do garrafão (quando Perkins estava machucado era com Shaquille O'Neal) e simplesmente impediram qualquer tipo de infiltração. O Heat então tentava vencer os jogos com arremessos forçados de três pontos e arremessos longos e forçados de LeBron James e Dwyane Wade, a parte mais fraca do jogo de ambos.

Mas se a troca trouxe Jeff Green, uma boa alternativa para defender LeBron, deixou frágil a área pintada. Com Perkins fora e Shaq machucado sobram para defender o garrafão o decadente Jermaine O'Neal e a dupla Kevin Garnett e Glen Davis, que até defende bem outros pivôs, mas não é ameaça de toco para armadores que decidem invadir o garrafão. Do Nenad Krstic eu nem comento, nem uma criança medrosa de cueca borrada teria medo de fazer uma bandeja em cima do careca. As infiltrações eram tudo o que o Miami Heat queria para parecer um time imbatível, toda vez que o bicho pega eles podem fazer um pick-and-roll ou uma isolação simples e mandar LeBron James ou Dwyane Wade para uma bandeja ou lances livres. Nos dois primeiros jogos o Heat tem 70% de aproveitamento em arremessos tentados embaixo da cesta, contra 48% do Celtics.

Quando bate o desespero no Celtics e todo mundo tenta compensar as falhas de marcação, sobra alguém livre para chutar de longe. É a vez das não-estrelas James Jones e Mike Bibby brilharem, um alívio para o Heat já que ambos tiveram muitos altos e baixos durante toda a temporada e não se sabia como se comportariam nos playoffs. O Bibby, alías, é uma espécie de Derek Fisher de Miami, virando outro jogador com o começo da pós-temporada. O trio de estrelas vai dar uns 70% dos arremessos, isso é claro, mas é importante que o resto do time seja eficiente nos outros 30% para desafogar; embora sejam piores do que antes, o Celtics ainda é uma defesa bem forte.

Outro fator importante nesses dois jogos, especialmente no primeiro, são os turnovers. O Miami Heat até tem errado mais que o Boston Celtics, mas os verdinhos não conseguem transformar os erros em pontos, enquanto o Heat cria contra-ataques monstruosos que resultam em pontos fáceis, enterradas ou jogadas humilhantes:



A transição defensiva do Celtics sempre foi muito boa, assim como sua defesa de pick-and-roll e a proteção do aro. Porém, tudo isso está falhando na hora que não devia. Méritos do Heat, que até agora parece mais motivado (sangue nos óio, mano!), concentrado e com um plano de jogo certeiro. O estranho é ver o LeBron James focado e comemorando de um lado com o Paul Pierce perdendo a cabeça do outro, não era pra ser diferente? Parece que aquele jogo 5 entre Cavs e Celtics no ano passado foi na verdade há uma década. Muita água pra rolar, mas eu acho que é hora do Celtics passar o bastão para o novo Big 3 do Leste.


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Na outra semi-final do Leste, um assunto que não queremos abordar. Depois que o Atlanta Hawks venceu o jogo 1 contra o Chicago Bulls o Danilo pediu que eu escrevesse sobre o time, ele estava cansado de falar mal dos caras e eles irem lá provar o contrário. Eu topei porque sou bróder, amigão, mas na verdade queria fugir dessa também e o motivo é bem simples: eu não sei como eles estão ganhando.

Contra o Orlando Magic até que deu para usar de desculpa o aproveitamento bisonho nas bolas de três do adversário, mas e nesse jogo contra o Bulls? O Hawks não tinha Kirk Hinrich, machucado, para marcar Derrick Rose, tinha tudo para ser um desastre. Além disso três titulares, Al Horford, Josh Smith e Marvin Williams, nem chegaram aos 10 pontos marcados. E eles só forçaram o Bulls a 10 turnovers. Como diabos eles venceram esse bendito jogo?

Bom, eu posso chutar como, só não sei a chance de isso acontecer de novo: o Joe Johnson fez uma das melhores partidas da sua vida com 34 pontos em 18 arremessos e teve ajuda dos 22 pontos de Jamal Crawford. Aliás, o JJ fez 51 pontos somando todos os 4 jogos contra o Magic na semi-final do Leste do ano passado, já passou com sobras da metade disso em um só jogo dessa vez, está fazendo os 120 milhões investidos valerem alguma coisa. Os dois jogarem bem é normal, jogarem tão bem, ao mesmo tempo e contra uma das melhores defesas da liga é que foi impressionante. Ajudou também os 15 pontos em 6-9 arremessos que o trio de reservas Damien Wilkins, Zaza Pachulia e Jason Collins e isso, temos que admitir, é mais raro que passagem do cometa Halley! Ainda mais se você lembrar que os pontos do Jason Collins vieram até em jogada de isolação, uma aberração sem tamanho.

Detalhe, a melhor jogada do Jason Collins no jogo 1 foi essa aqui. Fatality:



Vale ressaltar o bom trabalho do Jeff Teague no ataque, sem medo de atacar e ser atacado pelo Derrick Rose, mas acho que o grande segredo foi ter conseguido defender o Bulls sem faltas. O Rose, eleito ontem o MVP da temporada, não cobrou nenhum lance livre no jogo, Carlos Boozer cobrou apenas dois, o mesmo número de todo o banco de reservas da equipe somado. Na temporada regular o Bulls foi o 11º time com mais lances livres tentados por jogo, 24, no jogo 1 foram apenas 16 e eles nem foram cobrados pelos seus principais jogadores. Para se ter uma idéia o último colocado na temporada foi o Warriors com 20 por jogo.

Convenceu? Eu não me convenci. Nem sei como eles conseguiram parar o ataque do Bulls sem fazer faltas! Sei que mais uma ou duas vitórias impressionantes assim e eu vou ficar sem explicações mesmo para esse time. Se não falarmos mais sobre o Hawks a partir de agora é porque estamos envergonhados e não sabemos o que dizer, ele é nosso elefante no meio da sala que vamos ignorar na cara dura até que ele desapareça.

PS. Ah, só para quem não viu, ontem nos questionaram sobre o Hawks no formspring e a resposta que eu dei na hora até merece ser compartilhada aqui, talvez convença alguém:

Pergunta: Tem coisas que não da pra explicar simplesmente o destino quis e pronto. Te dando uma idéia de post sobre porque o Hawks ganhou do Bulls

Denis: Uma vez eu vi um documentário bem legal sobre o infinito. Nele alguns matemáticos dizem que se o infinito realmente existe, existem infinitas planetas, universos, civilizações e que em algum lugar do infinito existem partículas se combinando de uma maneira idêntica ao do nosso planeta aqui. E que a coisa mais improvável que podemos imaginar está acontecendo nesse exato segundo em algum lugar, já que o infinito engloba todas as possibilidades. Então só calhamos de estar no bizarro universo onde o Atlanta Hawks ganha do Chicago Bulls. É a minha melhor explicação.

Colou?

sábado, 12 de março de 2011

O caso Chris Bosh

Garrafa invisível

No Toronto Raptors, Bosh sempre teve que jogar como pivô - e sempre deixou bem claro como isso lhe incomodava. Magro, leve, rápido, com bom quique de bola e arremesso de média distância consistente, queria receber a bola fora do garrafão e enfrentar seu marcador de frente para a cesta. O Raptors tentou de tudo para usar o Bosh como ala, chegou até a torrar uma escolha de draft com o Baby, baita cagada. Mas nunca foi o bastante para que o Bosh pudesse passar um jogo inteiro sem ter que jogar embaixo do aro. As lesões no seu pé ficavam cada vez mais graves, o Bosh reclamava cada vez mais do improviso, e assim que ele foi pro Heat chegaram as informações de que havia um comprometimento do time de usá-lo como ala. Genial, se ele fazia tanto estrago sendo improvisado numa posição em que não se sentia confortável, imagina o que faria na sua posição natural! Muita gente, incluindo o Bola Presa, apostou que o Bosh ganharia alguns jogos para o Heat sozinho e que poderia brilhar muito sem a atenção que seria dedicada a LeBron e Wade. Funhé.

Eis que o Bosh anda tendo dificuldades enormes no Heat, sua produção anda baixíssima, seu jogo baseia-se em arremessar de fora do garrafão e agora ele está reclamando que não recebe a bola perto o bastante do aro, que quer jogar de costas para a cesta. Ou seja, até ele percebeu que fede como ala e já tem torcedor do Heat falando em trocar o Bosh por uma Playboy da Mara Maravilha e ainda voltar o troco.

Quando o trio fodão formou-se no Heat, eu tinha certeza de que o Bosh era o que se daria melhor na situação. Não tinha aquele papo de "quem vai armar o jogo", ele era a única força no garrafão da equipe e iria ficar numa boa caso nunca recebesse a bola decisiva dos jogos ou não fosse tão assediado pela mídia. Esperava que o Bosh ficasse tranquilo, por baixo dos panos, vencendo jogos sem que a gente percebesse enquanto LeBron e Wade bateriam mais cabeça um com o outro. O que aconteceu foi justamente o contrário e mostra como as concepções que a maioria das pessoas tinham e ainda têm do Heat estão furadas. Uma série de preconceitos com a equipe evita que possamos ver os reais problemas acontecendo no time, então vamos analisar alguns deles e ver como se relacionam sempre com Chris Bosh:

1) O Heat não tem jogadas no ataque

O técnico Erik Spoelstra deu um jeito de deixar suas estrelas fazerem o que bem entenderem e não ter que decidir quem leva a bola, quem finaliza, quem chama a jogada: cada vez que o Heat tem sucesso na defesa e consegue um rebote ou intercepta uma bola, pode fazer o que quiser. Supostamente isso incentiva a defesa, o contra-ataque, evita duelo de egos e deixa o ataque mais espontâneo e orgânico. Como sabemos, isso também transforma o Heat numa máquina de fazer porra-louquice em que LeBron e Wade fazem o que bem entendem. Mas nas ocasiões em que a defesa toma uma cesta ou comete uma falta, o Heat precisa seguir as jogadas desenhadas pelo técnico. Por isso, o Heat está entre as 10 equipes com ritmo mais lento da NBA - algo muito diferente do que uma correria anarquista nos levaria a acreditar.

O time tem uma série de jogadas para liberar Wade e LeBron no perímetro, pick-and-rolls para infiltrações, pick-and-pops com Ilgauskas e Bosh, triângulos ofensivos iniciados de costas para a cesta. O arsenal é muito maior do que era no Cavs de LeBron e é uma preocupação constante do Spoelstra, que não quer de jeito nenhum que os pontos venham sempre da mesma maneira, os pick-and-rolls, porque assim apenas um jogador da dupla LeBron e Wade estaria envolvida de cada vez e o time estaria desperdiçando a capacidade de um deles.

Esse é o grande problema, muito mais difícil de resolver do que os odiadores do Heat parecem entender: como aproveitar as capacidades de LeBron e de Wade ao mesmo tempo? Fazer com que joguem em turnos, "agora vou eu, agora vai você", é jogar no lixo o talento de alguém por uma posse de bola. Toda vez que Wade ou LeBron são isolados em um canto da quadra, o outro fica parado assistindo. Spoelstra não quer aceitar isso, não quer abusar do pick-and-roll. De uns jogos pra cá, o número de jogadas diferentes chamadas no Heat subiu muito, inclusive com algumas jogadas vindas do Hawks junto com o Mike Bibby, e quem está chamando cada uma dessas jogadas não é LeBron ou Wade, mas Spoelstra em pessoa. Lá está ele, no banco, gritando jogada por jogada da equipe. O Heat não está à solta, é um time treinado e controlado. Só que quanto mais LeBron e Wade se entendem, quanto mais dizem na mídia que já sabem como cada um pensa e que estão honrados de jogar juntos, quanto mais fazem jogadas juntos (quando um faz corta-luz para o outro, por exemplo, o resultado é sempre fantástico), mais o Bosh está fora disso.

No esquema tático do Heat, o Bosh é usado como o Ilgauskas era no Cavs. Até aí tudo bem, o pick-and-pop funciona bem, o Bosh tem (quase sempre) um bom aproveitamento nos arremessos de média distância e ele libera espaço no garrafão para as infiltrações de LeBron e Wade. Mas quanto mais longe da cesta o Bosh fica, pior o time é em rebotes ofensivos (estão entre os 5 piores da liga, só o Mike Miller salva) e mais dificil é a vida dos arremessadores de três da equipe. No final dos jogos, as equipes adversárias estão congestionando o garrafão do Heat e forçando LeBron e Wade a arremessarem, enquanto o Bosh não é acionado e não está embaixo do aro para cavar faltas ou tentar o arremesso de maior chance de aproveitamento. O Heat tem jogadas, chama essas jogadas constantemente, mas o Bosh não se encaixa nelas. Passa a maior parte do seu tempo fazendo corta-luz, longe da cesta, sem ser uma ameaça real. Esse é um trabalho que qualquer jogador mais ou menos poderia fazer - e que era feito tão bem pelo Udonis Haslem no Heat dos últimos dois anos. Mas o Bosh pode fazer mais do que isso, desde que jogue debaixo do aro dando cabeçada com os pivôs como fazia no Raptors. Ou seja, o Heat tem jogadas sim - só não tem para o Bosh.

2) O time precisa de um armador, o LeBron é um ala

postei aqui antes: assim como nos enganamos achando que o Bosh era ala improvisado de pivô, e na verdade só rende de verdade debaixo da cesta, o LeBron também é um armador que pensamos ser ala e prefere jogar na armação. Jogou como armador no Cavs a maior parte de sua carreira sem ninguém perceber direito, e quando faz isso no Heat acham que falta um armador para a equipe? O problema não é a armação do LeBron, mas o que ela significa. Quando outro armador está em quadra com ele, como Mario Chalmers, antigamente o Arroyo, ou agora o Mike Bibby, eles passam a ser basicamente arremessadores. Isso porque o Heat precisa de arremessadores desesperadamente, e grande parte das últimas derrotas aconteceram porque o elenco de apoio, apesar de receber arremessos de três bastante livres, não tem conseguido converter. Mas Bibby e Chalmers são essencialmente armadores, então deixá-los apenas para o arremesso é perder algo enorme que eles podem contribuir para a equipe. Diversas vezes durante o jogo os dois acabam trazendo a bola e iniciando algumas jogadas, mas o que poderia ser diversificação acaba sendo bagunça. Se o Bibby inicia as jogadas com o LeBron, Wade fica de fora e lhe sobra apenas os arremessos livres de três - que definitivamente não são seu ponto forte. Como Bibby e Chalmers são melhores arremessadores, a movimentação ofensiva fica invertida. O problema do Heat não é que o LeBron arme o jogo, pelo contrário: o problema é que tanta gente diferente arme o jogo o tempo inteiro, com Wade, Chalmers e Bibby iniciando as jogadas. Isso tira as chances de um padrão ofensivo, dos jogadores se acostumarem com os locais de arremesso, do armador saber exatamente qual jogador acionar, e do armador assumir a responsabilidade de escolha das jogadas. É por isso que o Spoelstra tem que ficar lá na lateral chamando as jogadas quenem um panaca. Enquanto isso, com tantos armadores passando a bola uns para os outros, o Bosh é constantemente ignorado. As jogadas evitam isolações, que só acontecem quando Wade e LeBron fazem o que querem após um sucesso defensivo (ou no final dos jogos, em que a insistência nas isolações me intriga um bocado), mas o Bosh tinha que ser isolado no garrafão constantemente para que esse time funcione. Menos armadores, mais bola nas mãos do LeBron, e jogadas de isolação pro Bosh para abrir espaço pra todo mundo. LeBron depende de Wade, Wade depende de LeBron, mas o resto do elenco precisa muito que o Bosh faça algo embaixo do aro.

3) O ego de Wade e LeBron vai implodir a equipe

Os dois estão apaixonados um pelo outro em todas as entrevistas, então quem reclamou dizendo que quer a bola embaixo da cesta foi o Bosh! Essa eu nunca iria adivinhar! Reclamou que não existem jogadas para acioná-lo perto do aro, e o Spoelstra respondeu que o time inteiro precisa atacar o aro, não tem que ter jogada para o Bosh fazer isso. De todo modo, LeBron e Wade estão jogando bem juntos, cada vez mais acostumados um com o outro, e mostraram contra o Lakers como sabem distribuir a bola entre os dois (de novo, menos no final dos jogos em que apenas escolhem quem é que vai jogar sozinho). Bizarramente a maior chance dessa brincadeira implodir está no tranquilo Bosh, insatisfeito e mal aproveitado - e recebendo críticas de todos os lados de gente que alega que ele tem fobia de garrafão. Pois bem, ele está querendo voltar atrás, fingir que não fez manha sua carreira toda, e deixar essa fobia de lado. Se não der certo, aí é hora de se preocupar com o trio.

4) O Erik Spoelstra é um bunda e o Pat Riley vai assumir a qualquer momento

O Spoelstra tomou muitas decisões polêmicas, mas todas elas caminham na direção de construir um ataque equilibrado e um elenco voltado para a defesa. Pode não funcionar sempre, pode ter um trilhão de arestas, mas Spoelstra é um nerd que sabe perfeitamente o que está acontecendo, exige variação ofensiva dos jogadores (enquanto a maioria dos técnicos só diria "faça um pick-and-roll", o Mike Brown não foi técnico do ano com isso?) e montou uma defesa sensacional muito antes de LeBron e Bosh chegarem em Miami. Seu maior problema é apenas em não saber lidar com o Bosh. Ele quer um time que ataque o aro mas com o Bosh fora do garrafão para abrir esse espaço, quer o Bosh participativo mas sem receber a bola a não ser para arremessos de média distância, quer o Bosh defendendo mas ele jogar como ala lhe afasta dos rebotes defensivos e impede que use sua velocidade para defender na cobertura e interceptar passes para os pivôs. Ele está usando o Bosh como usava o Udonis Haslem, e continua fã do Joel Anthony como pivô por ele ser silencioso, obediente e dedicado. Spoelstra está tão obsessivo em aproveitar bem suas duas estrelas que está esquecendo aquilo que todos sabiam desde o começo: a chave das vitórias nos playoffs estará na terceira estrela que agora, nas suas mãos, sequer é uma estrela mais. Tem gente querendo trocar o Bosh pelo Samardo Samuels... resumindo, o Spoelstra só é um bunda porque insiste em não estabelecer um ataque que comece no garrafão e aí vá para fora, usando o Bosh.

5) O Heat afoga gatinhos em piscinas

Foi apenas uma vez e ao contrário do que dizem os boatos, o gatinho não estava dormindo. Eles não são assim tão malvados.

sábado, 5 de março de 2011

Em busca de respostas

Se você está ganhando, levanta a mão!


Estava evitando falar sobre o Miami Heat por dois motivos: primeiro porque falamos muito dele no começo da temporada e queria dar atenção para outros times, depois por ignorância, eu não sabia explicar o que eu queria explicar: o motivo que leva o Heat a ser tão bom contra equipes fracas e tão ruim contra os melhores times da NBA. E por que, mesmo quando não são tão ruins, perdem no final os jogos apertados. O que diabos acontece com essa equipe?

Os números são assustadores para um time que deveria ser tão bom. Apesar das 43 vitórias e 19 derrotas na temporada, são só 14 vitórias e 16 derrotas contra equipes com mais de 50% de aproveitamento, além de um patético número de 1 vitória e 8 derrotas contra o Top 3 de cada conferência: Bulls, Magic, Celtics, Spurs, Lakers e Mavs. O único triunfo foi no Natal contra o Lakers, o outro time da elite da NBA que sofre com o mesmo problema de perder jogos importantes. Nos últimos dois dias não foram só derrotas, mas humilhações, primeiro venciam o Orlando Magic por 24 pontos de vantagem e tomaram a virada, em casa. No dia seguinte tomaram uma sacolada de 125 a 95 do Spurs, sofrendo dessa vez os 24 pontos de desvantagem e só no primeiro período! Com o perdão da expressão, foi uma surra de pau mole. Do Kid Bengala. Isso sem esquecer que uma semana atrás desperdiçaram uma liderança de 10 pontos, em casa, contra o Knicks e que os próximos 8 jogos do time são contra times com 50% ou mais de aproveitamento, tá feia a coisa.

Outro número perturbador sobre o Heat: Em jogos decididos por 3 pontos ou menos eles tem 2 vitórias e 7 derrotas. São 2 vitórias e 12 derrotas em jogos decididos por 5 pontos. Não eram LeBron James e Dwyane Wade dois dos melhores jogadores da NBA em finais de jogos? Segundo os dados do 82games.com, que analisa a performance dos jogadores nos 5 minutos finais de jogos disputados (nenhum time liderando por mais de 5 pontos), o LeBron era o principal pontuador da NBA nessa situação no ano passado, com o Wade em 22º. No ano anterior o LeBron era o 2º, com Wade em 4º. Na atual temporada LeBron é o 13º, Wade nem aparece na lista. Mas mais do que os pontos marcados nessa situação, o que chama mais atenção é o aproveitamento dos arremessos do King James: Caíram de 55% e 48% nos dois últimos anos para 33% até agora.

Dados os números, vem o que eu estava evitando, a explicação. Por que eles não conseguem vencer os outros times da elite da NBA e por que perdem jogos apertados? Teve gente já tentando explicar isso por aí antes, mas coloco aqui o que eu pensei antes de analisar a resposta dos outros. Começo tentando responder a última questão.

O meu palpite depois de assistir a vários jogos do Heat é que o problema deles em finais de jogos é o mesmo do resto da partida, o ataque em meia quadra. Lembram aquele time do Suns do Mike D'Antoni que era o melhor ataque da NBA mas que tinha vários problemas em finais de jogos? O problema era que eles tinham a tendência de pegar rebotes defensivos, roubos de bola ou até resposições depois de cestas sofridas e correr para o ataque para arremessar o mais rápido possível, antes da defesa adversária se arrumar. Mas no final das partidas o instinto natural é querer acalmar as coisas e não tentar arremessos bestas que desperdicem uma valiosa posse de bola, e aí a única coisa que sobrava para eles era o pick-and-roll com Steve Nash e Amar'e Stoudemire, uma boa opção, claro, mas previsível e única. O Heat nem essa opção tem. Foi um time construído meio em cima da hora, sofreu com contusões no período de treinamentos e desde sempre tem um ataque irregular, passou a dar mais certo quando a defesa começou a funcionar e eles passaram a torturar outros times com imparáveis contra-ataques liderados por LeBron e Wade. Acontece que no fim dos jogos eles tentam atacar com menos velocidade e aí o time é empacado, se movimenta mal e acaba por decidir partidas com arremessos contestados de meia distância do LeBron e do Wade, a pior situação para eles.

O problema que contra a maioria dos times é só no fim dos jogos, contra os bons times é no jogo inteiro. Além da motivação extra que eles tem de enfrentar o Heat, os melhores da NBA estão todos muito bem ranqueados (com exceção do Spurs) em pontos de contra-ataque sofridos por jogo, ou seja, são bons em impedir a melhor arma ofensiva do Heat. As três equipes do Leste, Bulls, Magic e Celtics estão entre as quatro melhores (junto com o Bucks) também em proteger o garrafão, o que no caso do Heat significa menos bandejas de Wade e LeBron e mais bolas de três de Mario Chalmers, James Jones, Mike Miller e agora Mike Bibby, todos esses que tem tido atuações patéticas nesses jogos contra as grandes equipes. Se fosse para explicar em uma resposta curta eu diria que o Heat é um time muito bom com alguns poucos defeitos, os piores que poderiam ter.

Agora, depois dessas contestações é preciso saber os motivos e as soluções. Se o Heat tem um ataque estagnado é culpa de quem? Muita gente por aí quer o Erik Spoelstra fora a qualquer custo, mas tenho minhas dúvidas se a culpa é dele. Queria muito ter acesso aos treinos e pedidos técnicos dele para saber se em algum momento ele vira para o LeBron James e diz "Bata a bola por 20 segundos e depois force um arremesso idiota" ou se diz para o resto dos jogadores "Só fiquem parados em um canto esperando que algo aconteça". Na NBA é mais normal do que em outros esportes que os grandes jogadores assumam liberdades e ignorem o que o técnico diz, esses dias mesmo o Phil Jackson disse que o Ron Artest é melhor que o Kobe no sistema de triângulos que eles usam no ataque pelo simples fato de que o Kobe muitas vezes ignora a parte tática e faz o que quer. Nunca quis e nem quero entrar nessa modinha de transformar o LeBron James em um demônio que concentra nele todos os males da humanidade, mas alguém duvida de que ele confia mais no próprio taco do que nas instruções do técnico? E mesmo quando erra eu vejo mais o Wade e Bosh dando tapinha nas costas dele do que cobrando.

Outra coisa é importante aqui, precisamos nos livrar dessa mania futebolística de acreditar que se existem jogadores talentosos em quadra a derrota tem que ser culpa do técnico. Um exemplo magnífico disso foi feito nesse texto da ESPN americana em que eles analisam as últimas sete posses de bola do Heat contra o Knicks, quando eles tomaram a virada e foram derrotados. A coisa resumida é mais ou menos assim:

Posse de bola 1: O Heat tenta uma jogada para o Dwyane Wade, que se movimenta sem a bola, o Knicks defende bem e LeBron acaba errando um passe simples.

Posse de bola 2: Dessa vez é Bosh que lidera a jogada e acha Wade cortando em direção à cesta, mas o passe não sai perfeito e dá a chance da defesa se recuperar. Sem muito espaço, Wade força e erra um arremesso ao invés de passar a bola para Bosh ou Mike Miller.

Posse de bola 3: Eles tentam um pick-and-roll com Joel Anthony, que estava livre embaixo do aro, mas o passe é bloqueado. Joel consegue ainda pegar a bola para passar para Wade, que então passa para Bosh que corre em direção à cesta. Na hora de tentar arremessar ele se atrapalha e então passa de volta para Wade, que precisa forçar o arremesso e erra. 

Posse de bola 4: Como em outras vezes eles usam o Bosh na cabeça do garrafão para começar a jogada, mas ele recebe uma inesperada marcação dupla e salta antes de dar um passe, erro primário que resulta no roubo de bola de Chauncey Billups.

Posse de bola 5: Pick-and-Roll com LeBron James que ataca a cesta, sofre falta e converte os lances livres. Mais simples do que isso, impossível. Únicos pontos da equipe no fim do jogo.

Posse de bola 6: Dessa vez LeBron ataca a cesta de novo, mas sem um corta-luz. Carmelo Anthony defende bem e Amar'e Stoudemire completa o serviço com um lindo toco. Como o cara da ESPN disse, uma jogada defensiva tão boa de Carmelo e Amar'e é tão incrível quanto improvável.

Posse de bola 7:  Precisando de 3 pontos com apenas 6 segundos no relógio, LeBron James recebe a bola e ao invés de chutar quando tem espaço prefere esperar para procurar um passe. Nenhuma oportunidade aparece e ele dribla para o lado para conseguir espaço e arremessa sem sucesso.  

Erros do Erik Spoelstra nesse fim de jogo eu só diria um, que é o de não confiar em seus arremessadores de três para o fim dos jogos, mas é algo até que compreensível e discutível já que Eddie House e James Jones não fizeram o bastante para merecer essa confiança. As outras jogadas já haviam dado certo em outros momentos do jogo e não funcionaram aí por erros de LeBron, Bosh, Wade e competência da defesa do Knicks (primeira vez que escrevo essa frase). Será que se fosse outro cara no banco comandando o time algo teria sido diferente? Será que o erro do Spoelstra é estar pedindo muitas jogadas diferentes quando as mais eficientes são as do estilo Mike Brown de só isolar o LeBron? Prefiro acreditar que não.

Embora sempre seja um assunto subjetivo e meio GalvãoBuenístico, podemos tentar entrar na cabeça dos jogadores e interpretar que eles simplesmente não estão conseguindo se focar no final dos jogos. Essa pressão por precisar vencer as partidas apertadas e/ou contra adversários importantes pode incomodar, ou essa história de ter um time dividido em três não faz bem para a confiança deles. Eu consigo visualizar (o que não quer dizer nada) o Wade não ligando se acertava ou errava um arremesso no ano passado porque o time era dele, mas nesse ano pode sentir aquela responsa de não deixar Bosh e LeBron decepcionados. São só suposições, vocês podem ignorar, mas como disse antes é difícil saber a explicação exata e eu já tô atirando pra todo lado. Hora de buscar explicação de gente mais qualificada do que eu.

Nesse fim de semana aconteceu no MIT (Massachusetts Institute of Technology) o quinto "MIT Sloan Sports Analytics Conference", um encontro para discutir e analisar o mundo esportivo atual profundamente. O organizador foi o atual General Manager do Houston Rockets, Daryl Morey, e teve como convidados caras como RC Buford (manager do Spurs), Bill Simmon (colunista, dos bons, da ESPN), Jeff Van Gundy (ex-técnico e atual comentarista de TV), Mark Cuban (dono do Dallas Mavericks), Kevin Pritchard (ex-manager do Blazers) e muito mais gente que manja demais de basquete. Entre muitas coisas que eles trataram lá (vou tentar fazer um post sobre isso na segunda, vamos ver se dá tempo), falaram sobre esses problemas do Miami Heat.

Para o Mark Cuban o Heat fracassa no fim dos jogos porque são previsíveis. Segundo ele ninguém do elenco de apoio tem se destacado durante a temporada e assim as defesas conseguem se focar mais no Big 3. Faz sentido, nas jogadas que vimos contra o Knicks podemos citar a dobra na marcação do Bosh que forçou um turnover e a ajuda do Amar'e Stoudemire sobre o LeBron James. Por outro lado o Dallas é bom no fim dos jogos e todo mundo sabe das jogadinhas com Jason Terry e Dirk Nowitzki que eles fazem há anos. Talvez o Heat só precise de tempo para pegar o jeito? É o que o Kevin Pritchard acha. Para ele o Heat não passou por situações o bastante para poder ser analisado como um todo, que eles precisam de mais jogos decididos por poucos pontos no final para se ter uma amostragem suficiente. Ele também diz que eles ainda são uma equipe muito nova, junta há pouco tempo e que compará-la em momentos de fim de jogo com times como o Lakers e Celtics não é justo.

O John Hollinger, especialista em estatísticas da ESPN, não gosta nem dessa análise dos jogos decididos por 5 pontos ou menos, achando ela muito arbitrária. Ele diz que jogos decididos por 5 pontos são tão apertados quanto os decididos por 6 e que colocando eles na estatística a análise poderia mudar completamente, por exemplo. Outro cara da ESPN, o Marc Stein, tocou no assunto da disputa contra outros times da elite da NBA, lembrando que o Heat campeão de 2006 também tinha um recorde péssimo contra bons times, incluindo duas derrotas para o Mavs, equipe que derrotaram na final daquele ano.

Esse assunto me lembrou uma pesquisa do Basketball-Reference que eu postei no começo da temporada em um dos nossos Filtros. A pesquisa feita por eles queria saber se existe alguma relação entre vencer jogos contra times com bom aproveitamento na temporada regular e ir bem nos playoffs. Para isso eles se basearam em um estudo parecido feito no futebol americano e separaram as vitórias em diferentes tipos:

Guts: São as vitórias por 5 ou menos pontos contra boas equipes (mais de 50% de aproveitamento)
Stomps: Vitórias por mais de 9 pontos contra equipes ruins (menos de 50% de aproveitamento)
Skates: Vitórias por 5 ou menos pontos contra equipes ruins
Dominations: Vitórias por mais de 9 pontos contra equipes boas

Analisando os resultados em Finais e Finais de Conferência desde a fusão da ABA com a NBA em 1976 os resultados foram:

As melhores marcas são do Domination, ou seja, óbvio: nada é um indicador melhor do que simplesmente ir lá e vencer fácil contra boas equipes, como o Spurs fez contra o Heat. Mas o segundo melhor indicador são os Stomps, mais do que os Guts. Ou seja, historicamente os times que arrasam com os mais fracos se dão melhor nos playoffs do que os que vencem apertado os times bons. Talvez pelos jogos apertados serem decididos em detalhes e a amostragem deles durante a temporada não ser tão grande, o indicador não seja tão válido assim no fim das contas. Como foi citado no artigo do B-R e dito no estudo (que teve o mesmo resultado!) feito no futebol americano, "Times campeões são definidos pela sua habilidade de dominar equipes inferiores, não pela habilidade de vencer partidas apertadas". É mais uma vez os números brigando com as nossas certezas mais antigas e profundas.

É triste ler tanta coisa para não chegar em conclusão alguma, mas é um assunto difícil. De todas essas opiniões e análises, incluindo até a que eu fiz antes de começar a minha pesquisa, eu concordo mais com Kevin Pritchard, que é a de que é cedo para ter qualquer conclusão. A marca do Heat até agora não é boa e isso claro que significa alguma coisinha, mas ainda é uma amostragem pequena feita sobre um time que começou do zero há pouco tempo. Um time baseado em estrelas que não estavam acostumados a jogar ao lado de outros como eles. É muita mudança, muita coisa nova e pouca temporada para sair declarando qualquer coisa absoluta.

Erik Spoelstra, LeBron James, Dwyane Wade, Chris Bosh e todo o resto do time ainda têm muita coisa para aprender e talvez não aprendam a tempo de vencer esse ano, mas enquanto eles tiverem consciência de que ainda não são os melhores e continuarem trabalhando para chegar lá eles tem muitas chances de sucesso. É fácil e uma tentação odiar o Miami Heat, o que não faltou ontem foi gente tendo orgasmos com o Spurs, símbolo de uma equipe coletiva e humilde, vencendo o Heat que é só um apanhado de talento e gente convencida. Mas se um já é um time hoje, temos que dar tempo para o outro pelo menos tentar ser. No meio do hype, dos egos inflados e do ódio que circula esse time, ainda existem jogadores fora de série e um bom técnico.

sábado, 29 de janeiro de 2011

A revolução será calculada

O que os números dizem sobre o desempenho de Kobe no último segundo?


Eu peço desculpas pela demora com um post nos últimos dias, nem estava tão ocupado assim, mas sempre que começava a escrever sobre esse assunto eu ficava meio inseguro e corria atrás de mais dados, mais informações e repensava o que eu mesmo tinha para escrever. No fim das contas foram dias preso no mesmo assunto. É sobre talvez o meu assunto favorito dentro do basquete e queria fazer um texto digno sobre o assunto, mesmo que isso custe uns dias de vocês entrando no blog só pra ver a mesma coisa.

O tema que eu tanto amo são as estatísticas. Sou perdidamente apaixonado por elas desde sempre, e me incomodava não existirem sobre o futebol, em especial o brasileiro. Passei um bom tempo desde a era da internet discada fuçando essa internet de meu deus atrás de estatísticas sobre futebol, vocês não sabem o quanto de pornografia barata eu passei nessa jornada! Mas é uma batalha em vão, as opções são poucas e limitadas. Engraçado saber que o Datafolha tem um link para estatísticas de esporte no seu site e os últimos dados são do Brasileirão de 2005. Mas o problema é que enquanto o público americano argumenta sobre MVPs e All-Stars com os números debaixo do braço para a discussão, o futebol é o esporte em que o atacante pode tocar na bola uma vez em todo o jogo e ser o herói, melhor jogador, ídolo e mito. No futebol até existe um prazer secreto em ver um time dominar o jogo em posse de bola, chutes a gol e mesmo assim perder o jogo, é o triunfo do imprevisível sobre o racional.

Mas eu sempre tentei não enxergar assim, os números não precisam ser sempre frios e eu acredito, ingenuamente, que o esporte, principalmente o basquete, pode ser medido por eles. Se eles parecem mentir é porque ainda não achamos o jeito certo de medir. O grande exemplo disso foi dado pelo Rob Mahoney, um blogueiro do New York Times e do blog Two Man Game sobre o Dallas Maverick, em um post recente sobre o Kendrick Perkins. Ele começa o texto citando outro blogueiro do NYT que chamou o Shane Battier de "No-Stats-All-Star". Isso porque o Shane Battier é um defensor preciso, chato, pentelho, técnico, mas que não transforma a sua defesa em roubos ou tocos, ele é capaz de ter sido um jogador decisivo no jogo e não ter nenhum número relevante no box score.

Para conseguir medir a eficiência do Battier então ele buscou as estatísticas de plus/minus (+/-) que medem o placar do jogo para o seu time enquanto certo jogador ou combinação de jogadores estão em quadra. Mas o plus/minus também tem seus defeitos, afinal um jogador nem sempre joga nas melhores situações. Um jogador pode só estar em quadra com companheiros de time ruins ou contra os melhores do outro time, enquanto outros só enfrentam os reservas dos adversários. Pensando nisso foi criado o "Adjusted plus/minus", a conta para explicar o valor é muito maluca e vários analistas nem tentam, fica para a próxima, mas o objetivo é corrigir o plus/minus original de acordo com a situação em que cada jogador atua. Nesse ranking o Shane Battier se destaca absurdamente e figura entre os nomes famosos e de destaque da NBA. Outro número buscado para explicar a produtividade do ala do Rockets foi medir a produtividade dos jogadores marcados por ele e o resultado é que todo mundo que o enfrenta fica abaixo da sua média de eficiência. Finalmente, depois de anos sendo o "No-Stat-All-Star", Shane Battier poderia contar em números como era bom.

A revolução estatística no basquete americano nasceu com o beisebol. Primeiro nos anos 60 com o livro "Percentage Baseball" de Earnshaw Cook, mas só ganhou atenção popular no final dos anos 70 com Bill James, que ao invés de analisar o beisebol como todos os outros de sua época, cheio de romantismo e mística, ao invés disso levantava questões como "Que arremessador sofre mais roubos de base?". A princípio muitos jornais não gostaram da abordagem dele, achando que não interessava ao público, o que lhe fez lançar seus dados em um livro por uma editora pequena, era o  "The Bell James Baseball Abstract" em que analisava o ano anterior do baseball baseado somente nos números. Aos poucos outros membros da imprensa abraçaram a idéia e a cultura da estatística avançada começou a florescer.

No começo dos anos 80 a evolução do beisebol nas estatística chamou a atenção do basquete, em especial de jovens universitários, em especial Dean Oliver e Daryl Morey. Anos depois, Oliver foi o responsável pela criação do fórum APBR Metrics, o grande centro de discussões sobre estatísticas avançadas no basquete em toda a internet. Em 2003 Oliver lançou o livro "Basketball on Paper" que até hoje guia todos os que procuram entender o basquete pelos números, suas contribuições para o basquete renderam para ele um emprego como consultor no Seattle Supersonics e depois no Denver Nuggets, onde trabalha até hoje. Em 2003 também foi lançado o livro "Moneyball: A arte de vencer um jogo injusto", a segunda revolução estatística no beisebol. O livro de Michael Lewis mostrava como o General Manager do Oakland A's usava estatísticas nunca antes consideradas em um jogo de beisebol para conseguir contornar a dificuldade que era comandar um time com recursos bem mais escassos que os gigantes da MLB. Esse livro foi uma das grandes inspirações de Daryl Morey, formado em ciências da computação com ênfase em estatísticas e que trabalhou como assistente de estatísticas para o Celtics antes de virar o General Manager do Houston Rockets.

Esses são apenas dois exemplos de uma tendência crescente na NBA, a de respeito às estatísticas. Até o criador do site Basketball-Reference.com, Justin Kubatko, o maior banco de dados sobre estatísticas da NBA na internet, tem sua vaga dentro da liga como consultor do Portland Trail Blazers, que, por sinal, tem como General Manager o engenheiro com forte formação matemática Rich Cho.

Os números no beisebol são mais fáceis de medir porque não existe muita interação entre os jogadores como no basquete, é mais fácil para eles medir o que é uma ação individual e avaliar o jogador em separado do seu time. No basquete a porcentagem dos arremessos é influenciada pela qualidade dos passes que se recebe, da ameaça que seus companheiros são para a defesa adversária e muitas outras coisas. Tem também a questão das assistências, afinal quantos bons passes não entram para a estatística por causa de um arremesso torto ou uma bandeja parada por falta? Ou mesmo nos rebotes, um jogador pode pegar vários por jogo, mas será que ele pega aqueles mais difíceis, com três ou quatro jogadores batalhando pela bola?  Pouco a pouco é o que as novas estatísticas tentam responder.

Assim como a matemática avançada, quanto mais a fundo se vai para as respostas, menos precisas elas ficam, embora isso perturbe quem busca os números atrás dessa precisão. Elementos como a eficiência, adjusted plus/minus e porcentagem de rebotes estão mais para estimativas do que para certezas concretas, mas são elas que guiam a mente de todos os citados acima. A porcentagem de rebotes é uma conta que diz quantos por cento dos rebotes de uma equipe são pegos por aquele jogador, o atual líder da NBA é Kevin Love com 23.5%, seguido de muito muito perto por Marcus Camby, ou seja, é uma estatística apoiada pela média de rebotes por jogo. Mas a de porcentagem de roubos, por exemplo, mostra Tony Allen liderando com folga! Na frente dos consagrados Chris Paul e Rajon Rondo. Alguns poderiam argumentar que a média por 36 ou 48 minutos corrigiria isso, mas igualar o número de minutos jogados não considera que times jogam em velocidades diferentes e, logo, têm mais ou menos oportnuidades de roubar bolas, arremessar, pegar rebotes, etc.

Possivelmente a maior contribuição de Dean Oliver para o basquete foi a contagem do jogo de basquete pelas posses de bola. Afinal, é mais fácil ter a maior média de pontos por jogo se você joga em extrema velocidade e tem 110 posses de bola por jogo, certamente fará mais pontos do que um time que joga com cuidado e acaba tendo 90 posses de bola, o que não quer dizer que é um ataque mais eficiente. O mesmo vale para a defesa. A questão da posse de bola é também uma das diferenças entre a contagem de eficiência feita apenas somando e subtraindo estatísticas e o famoso PER, criado pelo analista John Hollinger e que, apesar dele mesmo admitir que prejudica jogadores com qualidades defensivas como Shane Battier, é o melhor jeito de analisar com um número único os jogadores mais eficientes da liga. Mas não esqueçam, como diz Oliver no seu livro: "Não tenha esperanças em um sistema definitivo para medir o talento dos jogadores. Isso não existe. Mas existe muito valor nas tentativas". Eu falo mais sobre o PER e sua fórmula nessa coluna de alguns anos atrás.

Mas bom, eu tinha comentado no começo do texto que o post no blog do New York Times era para explicar como o Kendrick Perkins era bom na defesa, não só Shane Battier. Acontece que tudo o que usaram para provar que o ala do Rockets era um bom defensor não funcionava com o Perkins. Como era possível que todos estivessem vendo que ele era uma das pedras fundamentais da melhor defesa da NBA (segundo todas as estatísticas) e os números não mostravam nada? O seu adjusted plus/minus foi um dos piores da NBA na temporada passada mesmo sendo onde os jogadores com as suas características brilhavam. E medindo o valor dos pivôs que jogam contra ele, a eficiência dos adversários continuava na média contra Perkins, com poucas exceções. E é nessa hora que devemos ou jogar os números fora e acreditar nos nossos instintos, ou renegar os instintos e criticar Perkins pelos números. Ou, como fez Mahoney, ir cada vez mais fundo para achar um número que pareça dizer a verdade. Ele usou os números fornecidos pelo genial (e ainda fechado para o público nessa temporada) Synergy Sports e percebeu que nos arremessos próximos ao aro, quando os jogadores recebem próximos a cesta, Perkins permite apenas 0.7 pontos por posse de bola, uma das melhores marcas de toda a NBA, e isso acertando apenas 38% dos arremessos, um número dominante se considerarmos o quanto estão perto da cesta. Por fim, o Perk comete faltas em apenas 6% dessas situações. Em outras palavras, Perkins não tem os melhores números porque enfrenta muitos dos "novos pivôs", caras como Andrew Bynum, Andrew Bogut ou até os famosos alas de força improvisados, como Amar'e Stoudemire ou Pau Gasol, jogadores que tem um bom jogo de meia distância e sabem causar impacto mais longe da cesta. Aí quando enfrenta jogadores que querem se impôr embaixo da cesta, como Dwight Howard, Perkins garante a sua reputação como um dos grandes defensores da NBA.

Como bem descrito no texto do NYT, Shane Battier é um jogador que se destaca quando nos afastamos e vemos o jogo num nível geral, enquanto Perkins se destaca quando vemos o jogo em um "micro level". Pode parecer confuso, talvez até uma sacanagem, sempre buscando números atrás de números até achar um que beneficie ou prejudique o jogador. Mas não é algo que precisa ser visto da perspectiva do bom e ruim, as estatísticas não estão aqui para serem usadas para provar quem é melhor que quem (algo desnecessário e, como defendemos fortemente aqui, só diminui o basquete a algo simplista). O número mostra que o Perkins é bom naquele tipo específico de defesa e ponto, é isso.

A acusação de manipulação dos números surgiu nos últimos dias com um polêmico post de Henry Abbott no blog True Hoop, "A verdade sobre Kobe Bryant nos momentos decisivos". Nessa análise ele não usa nenhum número muito avançado, mas inova por ir atrás dos números em uma área em que costumamos ser guiados apenas pelos nossos instintos. Quando o Lakers perdeu um jogo em uma air ball de três pontos do Lamar Odom anos e anos atrás contra o Pistons, eu lembro de ter xingado por horas dizendo "Por que não deram a bola para o Kobe?". Milhares de outros fizeram um questionamento parecido quando LeBron James passou a última bola do jogo, o da vitória, contra o mesmo Pistons em um jogo de playoff, para o arremesso de três de ninguém mais ninguém menos que Donnyell Marshall. A chuva de críticas continha coisas como "Uma estrela como LeBron James deve chamar a responsabilidade em uma hora como essa". É natural, queremos o que consideramos o melhor jogador para decidir, é algo até da cultura americana que valoriza tanto o "franchise player", se é o time do LeBron é ele quem deve ganhar e perder pelo time.

O artigo de Abbott lembra a pesquisa feita com os 30 General Managers da NBA (incluindo todos os nerds como Cho e Morey) em que 77% responderam que se tivessem todos os jogadores da NBA para escolher para um arremesso final, escolheriam Kobe. Mas analisando os dados de todos os jogos da NBA desde 1996-97 até hoje, em momentos com 24 segundos ou menos e jogos empatados ou perdendo por até dois pontos, Kobe tem apenas 31% de aproveitamento nesses arremessos decisivos. É apenas o 25º melhor entre os com 30 tentativas ou mais. O líder, disparado, é Carmelo Anthony com 47%. Sem querer puxar sardinha para o nosso lado, mas um estudo muito parecido foi públicado pela gente quando tínhamos uma coluna sobre estatística no BasketBrasil. O texto pode ser lido aqui e contém o seguinte trecho:

"'Kobe Bryant é o melhor jogador para dar o último arremesso'
Falso. Segundo os dados coletados pelo 82games.com, Kobe Bryant é apenas o quarto jogador que mais acertou bolas decisivas e é o que mais bolas errou nas últimas 5 temporadas.


Kobe acertou 14 arremessos vencedores e errou 56, um aproveitamento de 25% das tentativas. Também acertou 12 de 15 lances livres, deu apenas uma assistência e cometeu 5 desperdícios. Podemos dizer que o padrão é Kobe não passar a bola na posse de bola final, arremessar por conta própria e acertar uma a cada quatro."

No mesmo texto mostramos como Carmelo Anthony era o mais decisivo desde aquela época e como jogadores com fama de amarelões como Dirk Nowitzki e Peja Stojakovic eram na verdade acima da média. Enquanto isso Chauncey Billups, o famoso "Mr. Big Shot", tem um aproveitamento terrível. O que é bem curioso é que os nomes e os aproveitamentos não são muito diferentes quando analisados não só a posse de bola final mas também os últimos cinco minutos de um jogo apertado.

A acusação feita por muitos admiradores do Kobe é que essa é uma das formas de manipular os números contra um jogador, que as estatísticas não poderiam ser ousadas a ponto de contrariar toda a maioria de torcedores, jogadores, General Managers e até de alienígenas que acham Kobe o maioral. Mas a verdade é que o Kobe interpreta ao máximo a teoria do "O time é meu e eu decido" e o final dos jogos é com ele. Contando só os números dessa temporada, por exemplo, Kobe é líder absoluto em arremessos tentados nos últimos 5 minutos de jogos decididos por poucos pontos. São 34.7 arremessos tentados a cada 48 minutos do chamado "crunch time", perto dele somente Derrick Rose e Carmelo Anthony, mas com a diferença que Kobe tem 38% de aproveitamento, enquanto Rose tem 39% e Melo impressionantes 45%.

Ou seja, não é exagero. O Kobe acha que a responsabilidade nos finais do jogo é só dele e ele só passa a bola se realmente for a última opção, mas logo pedindo a bola de volta. Mas sejamos sinceros, nos últimos três playoffs em muitas vezes ele soltou a bola, mais do que é normal para ele. Foi assim com aqueles pick-and-rolls no alto da quadra com Pau Gasol e Lamar Odom e os passes que ele deu para Derek Fisher e Ron Artest meterem bolas decisivas de três pontos. Decisões importantes, inteligentes e que renderam títulos, mas raras, não há como negar. Podem argumentar que o Kobe tenta arremessos mais difíceis que os outros, mas isso só acontece porque o adversário sabe que ele só passa a bola em último caso. Não queremos que Kobe perca a sua magia por causa de meia dúzia de números, mas quando se analisa estatísticas dessa maneira você deve estar aberto a engolir coisas que até pouco tempo atrás pareciam verdades absolutas.

Eu dou um exemplo que aconteceu comigo e é bem recente. Vocês devem se lembrar desse meu post analisando o San Antonio Spurs, certo? Eu disse que o Spurs estava se enganando, mas enganaram a mim também. Um dos meus argumentos para explicar a mudança do Spurs em relação aos últimos anos era a velocidade com que eles jogavam, e sustentei a teoria com o número de posses de bola que eles tem por jogo, um dos maiores da NBA. Mas alguns problemas aparecem, como uma jogada com vários rebotes ofensivos conta como uma grande e longa posse de bola. Turnovers também criam mais posses e nem sempre estão ligados a velocidade dos times. Surgiu uma nova maneira de medir a velocidade com que os times jogam e elas desmentem o que eu disse. Rohan Cruffy do SBNation.com (e não da seleção holandesa de 74) criou um método em que se mede a velocidade dos ataques da NBA de acordo com o tempo que eles gastam para efetuar cada posse de bola. Nessa medida os times mais rápidos continuam sendo os mais rápidos se em comparação com os de número de posses de bola por jogo: Nuggets, Knicks, Warrirors e Suns. Mas o Spurs, para a minha surpresa, despenca na tabela.

O time de Tim Duncan é o 13º mais veloz em posses de bola (chegou a ser o 8º mais veloz no início da temporada) e é o 19º se contando o tempo do relógio. E a razão é simples, quando se mede o tempo de arremesso do adversário o Spurs é, sei lá diabos porquê, o time que sofre os arremessos mais rápidos em toda a NBA. Os times que enfrentam o Spurs ao invés de trabalhar a bola partem pra cima e sempre aceleram o jogo, arremessando cedo, causando uma inflação no número de posses de bola por jogo. Sim, o Spurs tem um pouco mais de pontos por contra-ataque por jogo e está usando mais os seus jogadores velozes, mas eles não são um time que joga em um ritmo tão veloz como eu supunha.

O curioso é que isso não parece ter relação com a qualidade da defesa também. Times bons na defesa como o Hornets, Magic, Bulls e Bucks forçam seus adversários a arremessos depois de muito tempo no relógio. Mas outras boas defesas como Lakers, Heat e Celtics forçam arremessos velozes, não parece existir um padrão. Ou, claro, a gente que não ainda não soube analisar os dados direito.

Portanto, precisamos ter a cabeça aberta para admitir que algumas coisas nos enganam. Ver o Spurs tentando puxar mais contra-ataques do que o normal e ter a confirmação numérica dos placares altos e das posses de bola excessivas me fez cometer o erro de ver um Spurs excessivamente rápido, quando na verdade são os adversários deles que impõe essa velocidade. Se para alguns fãs é difícil admitir a derrota para os números, imagine para os jogadores. Esse é o desafio de outro nerd do basquete atual, Erik Spoelstra, treinador do Miami Heat.

Ele foi chamado pelo Pat Riley há mais de 10 anos para buscar novos dados estatísticos para ajudar o Miami Heat a evoluir nesse nicho crescente dentro do basquete. Então Spoelstra chamou um desenvolvedor de software só para o time, Shmuel Einstein. Nas palavras de Spoelstra: "Achei que seria uma boa chamar um cara com o sobrenome Einstein". Juntos eles desenvolveram novas maneiras de analisar o jogo, especialmente separando diferentes tipos de jogadas e analisando a sua eficiência, o sistema é complexo ao ponto de que cada posse de bola defensiva é analisada sob a perspectiva de 54 diferentes critérios, "É um trabalho entediante", admite o técnico.

Assim que o Spoelstra descobriu que teria o árduo trabalho de treinar LeBron, Wade e Bosh ao mesmo tempo, começou a se debruçar sobre toneladas de vídeo do seu Heat, além de Cavs e Raptors. Afinal, como esses jogadores eram mais eficientes e em que jogadas mais se destacavam? A análise foi feita e mesmo assim o tempo para treinar foi pouco e o começo de temporada foi desastroso, especialmente no ataque. O que chamava mais a atenção era como o time tinha números péssimos com LeBron e Wade ao mesmo tempo em quadra. Foi quando Spoelstra chamou todos, disse que os dois não estavam funcionando juntos e afirmou que eles deveriam aprender a jogar juntos, afinal não ia colocar ninguém no banco. Para mostrar o que esperava deles apresentou um gráfico de pizza dividido com todas as maneiras que eles deveriam pontuar: duas ou três enterradas ou bandejas em contra-ataques, algumas cestas cortando em direção à cesta, dois arremessos de longe, duas jogadas de costas pra cesta e assim por diante. Se realizassem tudo isso teriam a liberdade de jogar no high pick-and-roll (com o corta-luz na linha dos três) no final de cada período, situação em que os três mais se destacavam em seus antigos times.

Segundo Spoelstra não são todos os jogadores que sabem lidar assim com os números, então sempre o melhor jeito é mastigar o máximo possível. Segundo ele só 5% de tudo o que eles calculam chega aos jogadores e muitas vezes assim, em gráficos desenhados e fáceis de entender. A experiência com o Heat tem dado certo, nos últimos jogos os gráficos de como cada jogador marca têm mudado para mais perto do ideal pensado por Spoelstra, segundo ele principalmente com Wade, que marca seus pontos das maneiras mais variadas possíveis, como ele havia proposto.

O que podemos tirar disso tudo é que a revolução estatística já chegou na NBA e só cresce. Mas por enquanto ainda é um território dividido, longe da certeza absoluta que o tema a princípio propõe. General Managers, jogadores e mesmo (ou principalmente) os torcedores estão pensando duas vezes em aceitar a revolução. Eu diria, até, que cerca de 65,7% dos torcedores casuais da NBA consideram as estatísticas avançadas uma bobagem. Mas é só uma estimativa.