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domingo, 2 de outubro de 2011

8 ou 80: Eficiência e tipos de arremesso - Parte 1

Todas as fotos do Leandrinho em ação são dele fazendo uma bandeja. Existe uma razão para isso.

Para quem é novo no Bola Presa, uma rápida explicação: A seção "8 ou 80" aparece esporadicamente no nosso blog para comentar e analisar estatísticas e números da NBA. Mas tentamos não ficar só nas médias de pontos, rebotes e etc. Gostamos de quem vai mais a fundo, analisa números complicados de encontrar e que tentam mostrar coisas diferentes, difíceis de perceber só acompanhando o jogo casualmente.

Hoje vou pegar várias listas feitas pelo Evanz, blogueiro do Golden State of Mind, um blog gringo focado no Golden State Warriors. Ele pegou dados dos play-by-play dos jogos, estatísticas de posicionamento de arremessos do HoopData e com esses dados fez um levantamento de quem seriam os mais eficientes jogadores em diversos tipos de arremesso: perto da cesta, de meia distância e três pontos. E depois ainda separou os arremessos de perto da cesta em enterradas, bandejas, tapinhas e ganchos.

A medição final que deu a ordem nas listas foi feita de acordo com uma conta que ele criou. Com pequenas variações de uma para a outra, em geral a fórmula leva em conta os arremessos tentados pelo jogador, seu aproveitamento e as médias dos jogadores da mesma posição em toda a NBA nessas mesmas duas coisas.  Essa maneira de analisar equilibra as coisas, afinal alguns jogadores se destacam por bom aproveitamento mas o fazem arremessando muito menos que outros. O Steve Nash, por exemplo, tem um aproveitamento espetacular em bandejas, mas só tenta 2 a cada 40 minutos de jogo, a média dos armadores da liga é de pouco mais de 4. Nash tem aproveitamento melhor porque tenta menos, corre menos riscos e só vai quando tem certeza, o que não quer dizer que ele é um "infiltrador" mais eficiente que alguém como o Derrick Rose.

...
Comecemos pertinho da cesta. Vamos conhecer, dentro dessa análise explicada, quem são os mais eficientes pontuadores próximos do aro.

Lembrando que "POS RANK" indica o lugar do jogador entre os jogadores da sua posição, que aí está indicada nos números de 1 a 5 na coluna "POS". "PSAMS" é o resultado da complexa conta que eu expliquei acima e que define a ordem do ranking.


É impressionante como o Thaddeus Young é muito melhor do que todo o resto da NBA nos arremessos próximos à cesta. O fato do Sixers jogar muito em transição, que resultam em bandejas fáceis, tem peso grande nisso, mas como ele é o único jogador do time entre os 20 primeiros fica claro que não é só isso. Ele também é muito bom jogando de costas para a cesta e geralmente enfrenta jogadores mais baixos do que ele.

Impressiona também ver LeBron James e Dwyane Wade entre os 4 primeiros. Todo mundo sabe que o Miami Heat se baseava demais nas infiltrações dos dois, montavam esquemas só para impedir isso e mesmo assim ambos estão ainda lá entre os melhores. Ainda faltam importantes detalhes para o Heat chegar ao título, mas com dois dos pontuadores mais eficientes próximos à cesta eles já estão muito bem na fita.

Também chama a atenção que entre os 20 primeiros só existem 5 jogadores de garrafão, Dwight Howard, Nenê, Blake Griffin, Marcin Gortat e Carlos Boozer. Na teoria os pivôs e alas de força não deveriam ter aproveitamento melhor perto da cesta? Por outro lado, parabéns aos nanicos Tony Parker e Russell Westbrook, únicos armadores da lista. O francês é um fenômenos por estar no 7º lugar, o aproveitamento dele para alguém do seu tamanho é surreal: Ele tenta 7 arremessos próximos à cesta por jogo contra uma média de 4 dos armadores, e seu aproveitamento é 65% nesses arremessos contra 60% dos seus companheiros de posição. Uma lavada.

Vamos ver agora a parte engraçada: quem são os piores em aproveitamento de arremessos próximos à cesta?  - (lembrando que só se qualificaram para entrar na lista jogadores com mais de 40 jogos na temporada e média superior a 25 minutos por jogo)


Pois é, a coisa tá feia. Os três piores são jogadores de garrafão! Marcus Camby sempre foi negação no ataque, Andrea Bargnani mostra o porque tem fobia de garrafão e o Channing Frye me surpreende porque a estatística prova que em algum momento da última temporada ele tentou um arremesso perto da cesta, alguém lembra disso? O resto da lista mostra outros jogadores que estão na NBA apenas por serem bons arremessadores de longe, como Daniel Gibson e Anthony Morrow, esses só tentam arremessos próximos à cesta em ocasiões especiais e, como visto, sem sucesso.

Mas me surpreende que jogadores como John Salmons, Brook Lopez, Brandon Jennings e Roy Hibbert estejam tão mal posicionados. Tudo bem que os quatro têm em comum o fato de terem tido no ano passado campanhas bem irregulares, mas será que os pontos baixos foram tão baixos assim? E Lopez e Hibbert são vistos como duas das mais promissoras apostas da NBA em termos de jovens pivôs, e mesmo assim estão lá perto do Kwame Brown. Para comparar, o Brook Lopez tentou no ano passado 4.8 arremessos perto do aro, acertando 3 por jogo (62%), o Dwight Howard tentou 7 por jogo, acertando 5.3 (74%). A média de aproveitamento dos pivôs como um todo da NBA é de 66%. Lopez tenta menos que a média e acerta menos que a média, um desastre. Veremos mais tarde como ele e Hibbert tentam compensar isso.

Para ver detalhes da fórmula e a lista por posições, entre nesse post do Golden State of Mind. Lá também, no final, tem a lista sem o ajuste por posições em que cada um joga. Nessa lista Dwight Howard é o líder, mas Thaddeus Young se mantém bem e é o segundo colocado. Nenê é o terceiro para desgosto dos que querem se convencer de que a seleção brasileira não seria muito diferente com ele em quadra.

Talvez um problema, ou pelo menos uma limitação, dessa estatística é que eles levam em consideração apenas a distância da cesta. Esses números que mostrei acima contam jogadas a cerca de 1 metro da cesta. Mas no fim das contas não sabemos o que cada jogador faz por lá. São bandejas, enterradas ou aquela coisa sem nome que o Shawn Marion faz? E sem contar que muitas vezes os pivôs usam ganchos, que são jogadas de pivô, de garrafão, mas um pouco mais longe do aro do que aqueles números computaram. Para isso foi feito outro post só contando o número de bandejas, enterradas, ganchos e tapinhas tentados e o aproveitamento. Os números mostram quantos arremessos de cada tipo os jogadores tentam a cada 100 posses de bola e a porcentagem de acerto.

Vamos começar com as enterradas:


Alguma surpresa em ver o LA Clippers dominando o Top 3? E nem a ordem dos jogadores me impressiona, o aproveitamento do Blake Griffin é naturalmente menor porque ele tem o hábito de tentar as enterradas mais difíceis e improváveis da história. A atenção dada para ele também libera muito espaço para que o DeAndre Jordan tenha mais oportunidades de enterrar. Quem impressiona na lista é o Andre Iguodala, único jogador que não é da posição 4 ou 5 a entrar no Top 20 de quem mais tenta enterradas. Entre jogadores que jogam nas posições 1 ou 2, o primeiro a aparecer é Dwyane Wade, em 25º, com 2.13 tentativas de enterrada a cada 100 posses de bola e 89.4% de aproveitamento.

Uma lista curiosa e cheia de armadores é a dos jogadores que não chegaram nem a tentar uma enterrada em toda temporada passada. Prepara-se que ela é meio extensa: Shane Battier, Andre Miller, Anthony Morrow, Kyle Lowry, Toney Douglas, Beno Udrih, Tony Parker, Richard Hamilton, Sasha Vujacic, Mike Bibby, Daniel Gibson, DJ Augustin, Chris Paul, Steve Nash, James Jones (surpresa!), Derek Fisher, Kirk Hinrich, DeShawn Stevenson, Jameer Nelson, Luke Ridnour, Jason Kidd, Chauncey Billups, Jose Calderon, Steve Blake, Keith Bogans, JJ Barea, JJ Redick, Mario Chalmers, Eric Maynor e Gary Neal.

Lembram dos bons tempos em que o Rip Hamilton dava aquelas enterradinhas marotas com as duas mãos? Já era. E não é à toa que se você digitar "Shane Battier dunk" no YouTube o ala do Rockets está sempre do lado errado da brincadeira. E os torcedores do Lakers vão guardar no coração o longínquo dia em que Sasha Vujacic enterrou e o banco foi ao delírio:



Abaixo a lista com o número de bandejas tentadas a cada 100 posses de bola e a porcentagem de acerto.


De Barbosa a Hilário estes são os 20 que mais tentam bandejas na NBA. O Leandrinho tenta um pouco mais de bandejas que o Tony Parker e tem um aproveitamento pior (62% a 65%), mas a diferença não está tão grande assim e temos que lembrar que o francês é absurdamente fora de série nesse quesito. Ponto para o brasileiro que mesmo já tendo passado do seu auge ainda pode render muito bem em times que saibam usar os seus pontos positivos.

Me surpreendeu ver o Tyreke Evans tão bem colocado em 8º lugar, isso porque no começo da temporada o jogador estava sentindo muito uma contusão no pé e isso levou ele a despencar em números de bandejas tentadas em relação ao seu ano de novato. Estava tentando viver de jumpers de média e longa distância e falhando miseravelmente nisso. Ele terminou melhor a temporada e esse número mostra o motivo, voltou a atacar a cesta como deve fazer para ser eficiente, porém foi um dos poucos desse Top 20 com aproveitamento abaixo dos 60%, dá pra melhorar. Outros bons jogadores com aproveitamento abaixo dos 60% são Carmelo Anthony e Derrick Rose, para os dois o motivo é bem claro: tentam bandejas demais até quando elas não parecem a jogada mais apropriada. A resposta do Rose ao fato do Bulls estar bem marcado e empacado no ataque é abaixar a cabeça e ir para a bandeja. Quando dá certo é lindo, mas não dá pra ser um dos líderes da liga em aproveitamento fazendo isso. Pra falar a verdade, 57% de acerto fazendo essas loucuras é algo louvável.

E lembram que eu chamei a atenção anteriormente ao fato do LeBron James e do Dwyane Wade estarem entre os melhores da NBA em pontos próximos à cesta? Pois o Miami também tem jogadores de destaque em outra área: os jogadores que menos tentam bandejas na liga.

O James Jones é recordista com 0.07 tentativas de bandeja a cada 100 posses de bola. Isso quer dizer que ele precisa de 1.428 posses de bola para finalmente tomar vergonha na cara e tentar uma bandejinha. O segundo colocado na lista é outro arremessador puro, o Kyle Korver, mas até ele tem um número mais digno com 0.53 tentativas a cada 100 posses. No Top 10 dos que menos tentam o Miami também tem o Joel Anthony e o Mike Bibby.

Hora da lista dos tapinhas, os Tip-In.


Lembra que o Marcus Camby era o pior em aproveitamento de arremessos próximos à cesta? Ele é líder em tentativas de tapinhas, mas tem um aproveitamento péssimo nesse tipo de chute. Sem querer pegar no pé, mas o Marcus Camby de hoje em dia é inútil ofensivamente e sua maior contribuição na área, os rebotes ofensivos e tapinhas, não costumam render muita coisa. Ter ele no time é atacar com 4 jogadores. Em aproveitamento quem lidera os tapinhas é o Zydrunas Ilgauskas, com 65%. Atrás dele no Top 5 estão o novato Greg Monroe (62.5%), Amir Johnson (61.2%), Zach Randolph (60%, achei que seria líder) e Ben Wallace (59%).

Por fim a lista de quem mais tenta ganchos, na esquerda, e o ranking de aproveitamento na direita.


O Brook Lopez eu ainda não perdoo, mas o Roy Hibbert ganhou alguns pontos com essa lista. Lá pertinho do aro ele está longe de ser bom como deveria, mas um pouco mais longe é um especialista em ganchos. Tenta bastante, é o 3º da lista, e tem o 6º melhor aproveitamento em ganchos com 54% de acerto. O Brook Lopez tenta dois ganchos a menos que o Hibbert a cada 100 posses de bola e tem 3% a menos de acerto, precisa melhorar, garoto.

O Andrew Bogut é o cara que mais tenta ganchos, mas tem apenas o 21º melhor número em aproveitamento. Isso porque seu arsenal de jogadas não é dos mais extensos, é gancho toda hora em qualquer situação e de qualquer canto do garrafão. Com 7.93 ganchos a cada 100 posses de bola ele está com quase o dobro de tentativas do Brook Lopez, o 5º colocado! O Darko Milicic é outro que tenta bastante e tem aproveitamento parecido, me surpreende sempre o quanto o Wolves envolve o pivô sérvio no ataque, além desse número de destaque em ganchos, é um dos jogadores mais envovlidos em pick-and-rolls, mais até que seu companheiro Kevin Love. O cara é um defensor mediano e só, deveriam deixar ele ser mais secundário no ataque.

O líder em aproveitamento é o Boris Diaw, com 61%, mas ele tenta poucos ganchos, apenas 1.84 a cada 100 posses de bola, aliás ganchos são arremessos pouco tentados na NBA atualmente. E dos 20 que mais tentam esse chute, 9 são gringos, não é muito da cultura americana mesmo.

Um número que assusta é o do Blake Griffin com o 5º melhor aproveitamento em ganchos, 55%! Às vezes a gente acha que o cara só enterra, mas ele tem bom passe, boa visão de jogo quando sofre a marcação dupla, é ótimo nos rebotes de ataque e até gancho ele acerta. Um pouco mais de dedicação defensiva, alguns rebotes a mais e eventualmente uns tocos e esse cara vai dominar a NBA, ele é de outro mundo.

Para ver com mais detalhes as listas postadas e citadas aqui com as tentativas e aproveitamentos em bandejas, enterradas, tapinhas e rebotes, vejam esse post do Golden State of Mind.

Na parte 2 desse post irei mostrar as listas com os arremessos de 3 pontos e os temidos e odiáveis arremessos de meia distância, será que tem alguém melhor que o Dirk Nowitzki nisso?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

FAQ - Seleção Brasileira

Eu não tinha a menor ideia de quem era o cara que chutou a bunda do Scola


No glorioso 7 de setembro, independência da nossa grande nação das garras portuguesas, um grupo de heróis resolveu homenagear a nossa pátria acertando uma bola laranja dentro de um cesto defendido por um grupo de estrangeiros. Ao fim de 40 minutos de batalha, o número de bolas acertadas nesse cesto foi grande o bastante para que 190 milhões de pessoas (ou pelo menos umas 300 no Twitter) conclamasse que Rafael Hettsheimer tinha um valor tão grande quanto o de Dom Pedro I para essa data.

Ao ver que o Bola Presa, esse blog da imprensa imperialista/golpista/mala-sem-alça/anti-patriota não tinha comentado nada sobre o jogo, pipocaram muitas perguntas no nosso Twitter e Formspring questionando o motivo de não tocarmos no assunto e, ao mesmo tempo, nos pedindo opiniões sobre a seleção brasileira e seus jogadores, em especial perguntas suuuper novas como "Por que o Machado ainda está na seleção?" e "Por que o Huertas não está na NBA?".

Resolvemos então fazer um FAQ respondendo as perguntas repetidas que recebemos e encerrando o assunto. E faremos isso antes do decisivo jogo de amanhã contra a República Dominicana para não ser uma resposta motivada por resultado.


Pergunta 1
Versão educada: "Por que vocês não falam do Pré-Olímpico e do Eurobasket?"
Versão troll: "Te peguei no flagra assistindo a seleção! Cadê os Mr.NBA? Cadê? Tão vendo outras coisas agora, é?"

Se você acompanha o blog desde os tempos mais remotos, quando éramos underground, pouco conhecidos e não eramos modinha mainstream, você irá lembrar que já fizemos cobertura de Pré-Olímpico, Pré-Olímpico Mundial, de Mundial, de Olimpíada (mesmo com o Brasil fora) e até de Paraolimpíada! Ou seja, já tentamos.

Mas depois de fazer tudo isso, eu e o Danilo paramos para refletir se realmente valeria a pena partir para essa mais uma vez. A proposta do blog quando o criamos era falar de NBA, não de basquete em geral, e isso foi uma decisão baseada nos nossos gostos, talentos e conhecimentos. Mudamos no meio do caminho e não gostamos do resultado, o que não quer dizer que não gostamos do assunto. As revistas INFO ou Capricho evitam o assunto política porque não é a proposta delas, não porque os seus repórteres e responsáveis não achem o assunto digno de atenção, a mesma coisa da gente com o basquete fora da NBA.

Sentimos que estávamos saindo fora do nosso meio, que não nos divertíamos no processo e, mais importante e broxante, não acrescentávamos nada de novo à discussão. Modéstia à parte, acho que trazemos à tona assuntos, pensamentos e informações que são novas e interessantes para o público da NBA. Mas quando falamos de outros torneios acabamos caindo no lugar comum e só repetindo informações e opiniões que estão em toda a parte. Estão aí o Rodrigo Alves, o Balassiano, o BasketBrasil, DraftBrasil e o novo Basketeria cobrindo a seleção com gosto, vontade e conhecimento, não somos necessários nessa frente.


Pergunta 2
Versão educada: "Então quer dizer que você só assistem NBA?"
Versão troll: "Bando de paga pau dos EUA, só assiste o que acontece lá, né?"

Eu volta e meia estou assistindo a NBB, Euroliga, ACB e NCAA, no Chipre eu até assisti a jogos da bizarra Divisão A Cipriota, mas não quer dizer que assista todo dia/semana e entenda do assunto. Um dos motivos que faz com que eu me sinta à vontade fazendo um post sobre, por exemplo, o Bucks, é que eu já assisti uns trocentos jogos deles antes de escrever. E assisti ainda mais no ano passado e no anterior e no anterior. E acompanho a carreira do Michael Redd, do Brandon Jennings, do Richard Luc Mbah a Moute, do Andrew Bogut e de quase o elenco inteiro desde o começo. Sei das brigas e doideiras do Scott Skiles e do seu estilo de jogo. Ou seja, é um assunto que eu posso contribuir de maneira profunda e interessante.

Em contrapartida, o que eu poderia falar sobre o grande nome (em todos os sentidos) do último jogo entre Brasil e Argentina, o Rafael Hettsheimer? Nunca tinha ouvido falar até alguns meses atrás, não sabia onde o cara jogava, nada. Acabaria fazendo o que eu mais odeio que façam em jogos da NBA: que comentem só o momento, aquele segundo, sem saber nada da história do jogador, suas características ou função no time. Quantas vezes um jogador está fazendo uma temporada espetacular mas aquele jogo que calhou de passar na ESPN é um dos seus piores? Aí dá-lhe os comentaristas desinformados dizendo que o cara é um prego. Sim, naquele dia o cara está sendo e isso merece ser dito, mas não sempre e a informação passada fica toda errada.

Pergunta 3
Versão educada: "Mas vocês não acham que tem que dar uma força para o basquete nacional?"
Versão troll: "Por isso que o basquete brasileiro não vai pra frente, ninguém dá atenção. A SporTV fica passando o US Open ao invés de Venezuela x Panamá!"

Nessas 4 temporadas de NBA que acompanhamos no Bola Presa muita gente veio nos dizer que tinha desanimado da NBA e de basquete por muitos anos, mas que voltou a acompanhar o esporte por causa dos nossos textos. Alguns se animaram até a começar/voltar a jogar! Para dar uma força ao basquete basta fazer com que as pessoas achem ele um esporte interessante e dá pra fazer isso falando de qualquer torneio.

O futebol americano e o rugby cresceram em número de praticantes no Brasil porque assistimos aos gringos jogando. Para crescer ainda mais precisamos de mais jogos da NFL por semana ou precisamos passar jogos amadores dos brazucas? Na minha opinião é de mais NFL, é vendo o jogo em seu melhor que as pessoas se encantam e desejam praticar e consumir o jogo.

Nossa intenção com o Bola Presa nunca foi nobre e não pensamos em fazer um site sobre NBA para incentivar o esporte no território brasileiro. Fizemos porque achamos que seria legal, mas naturalmente vimos que ajudamos algumas poucas pessoas a criarem gosto pelo basquete. E para isso não precisamos mentir dizendo que a Liga Sub-13 do Mato Grosso do Sul é interessante.

Pergunta 4
Versão educada: "Mas já que vocês assistem, podem dar a opinião de vocês sobre a seleção?"
Versão troll: "Comenta aê, porra!"

Agora que vocês já sabem que nossa opinião não vale muita coisa, sim, comentamos.

Pergunta 5
Versão educada: "O que acham do Marcelinho Huertas comandando a seleção?"
Versão troll (na íntegra e direta do formspring): "Como voces podem dizer que o Huertas não tem vaga na NBA? O cara destrói, inclusive contra os caras da própria liga americana"

O curioso da segunda pergunta é que a gente nunca disse que ele não tem vaga na NBA! E pior, no ano passado fizemos mais de um post só discutindo o assunto de maneira mais profunda do que uma mera especulação mereceria. Vou tentar ser mais breve dessa vez.

O Huertas é o cara mais importante dessa seleção. Até o jogo contra a Argentina, quando o time (sei lá porque) começou a movimentar a bola e jogar como um time, ele segurava a bola durante 23 segundos dos 24 de posse de bola do time. Quando o Brasil jogava bem era por causa dele, quando estava mal era por causa dele, quando era o melhor time do mundo, era graças ao Huertas. Por um lado vimos um jogador amadurecido, de visão de jogo espetacular e um "floater" quase infalível. Por outro um cara que parecia não confiar em ninguém que não fosse o Tiago Splitter e que queria ganhar sozinho. Não dá pra culpar totalmente ele, o resto do time não é de inspirar tanta confiança assim, mas não é o papel dele como armador. No maior estilo Kobe Bryant, ele é fantástico, mas seus times são melhores quando eles tentam controlar menos o jogo.

E lembram quando entrevistei o Splitter? Parei e conversei um pouco com o Huertas também para uma matéria para o site do Clube Paulistano, onde estou trabalhando. Ao fim da conversa não resisti e disse "Todo mundo fica enchendo o saco de você na NBA, o que VOCÊ acha disso tudo?". Ele me disse que o sonho de ir pra lá sempre existe e que ele acha que tem jogo pra atuar lá, mas que teria que ser no time certo (ele não queria ir para o Miami Heat assistir o Wade e o LeBron controlar a bola, por exemplo) e nem queria ser um novo Sarunas Jasikevicius, ídolo/deus na Europa e que foi para a NBA ser um arremessador que jogava 5 minutos por jogo.

No fundo não faz sentido para ele arriscar uma carreira ótima na Europa (grandes times, torneios importantes, atenção, salário, fãs apaixonados, etc) para jogar na NBA sem garantia nenhuma. Acho que ele tem toda razão, jogo para ir para a NBA é claro que ele tem, mas vale mais a pena você gastar o auge da sua carreira sendo armador titular do Barcelona ou correndo o risco de algum técnico que nunca viu basquete europeu na vida dar piti e te jogar na reserva do Mardy Collins? Se fosse para ir para um time onde ele se encaixasse e tivesse espaço e tempo para se adaptar, ótimo, ir só para dizer que foi é furada.


Pergunta 6
Versão educada: "Por que o Nezinho e o Marcelinho Machado, tão criticados, ainda estão na seleção?"
Versão troll: "O que os técnicos ainda veem nesses merdas do Nezinho e do Crazy Shooter?"

Triste choque de realidade aqui, mas até eu que não assisto basquete brasileiro tão de perto assim já percebi que quando o Marcelinho Machado e o Nezinho jogam, eles dominam. Não é à toa que eles estão todos os anos disputando os títulos mais importantes, não é sorte, no nosso cenário nacional eles ainda estão entre os melhores. De longe.

Talvez, por questão de princípios, de implantar uma nova mentalidade e de forçar uma renovação, você até pode não querer chamá-los, mas se for para levar os melhores jogadores de suas posições eles tem que estar lá. Eles tem uma tonelada de defeitos condenáveis? Sim, e isso mostra como o basquete brasileiro, com ou sem vaga olímpica, é pior do que gostaríamos de admitir.


Pergunta 7
Versão educada: "Se classificarmos, precisamos de Nenê, Varejão e Leandrinho ou isso é uma prova que eles não são necessários?"
Versão troll: "Chupa Leandrinho! Chupa Nenê! Não precisamos de quem não ama o nosso país!!!!1"

Reproduzo aqui uma resposta que o Danilo deu no nosso formspring:

"Olha, o Leandrinho já topou jogar pela seleção antes. Já topou jogar por uma CBB bagunçada, com técnico medíocre, elenco medonho, fora da sua posição natural em quadra, chance de não ter seu seguro pago (como já sabemos que aconteceu), botando em risco seu emprego na NBA, seu salário milionário e sua carreira lá fora, a contragosto dos chefes que assinam seus cheques e pagam suas contas. E sabe o que aconteceu? O Leandrinho foi Leandrinho, ou seja, assumiu um papel secundário, que é o que ele sabe fazer e onde se sente confortável, e a torcida brasileira caiu matando. Gente que não entende bulhufas de basquete, que não faz ideia do que significa o cara ir contra a NBA e vir jogar aqui pra essa zorra da CBB, querendo pendurar o Leandrinho num poste porque ele é "amarelão" e "cagão". Sério? Então foda-se, o Leandrinho tem mais é que não jogar mesmo. Mesma coisa com o Nenê, que além de ser desrespeitado quando joga por aqui, ainda se lesiona sempre porque tem ossos de vidro.

Seleção brasileira é uma escolha, não é serviço militar obrigatório. É um time aí que você joga se estiver com vontade, com pique, com clima, com saúde, se você for respeitado, e se não quiser gastar seu tempo com sua filha recém-nascida, que merece bem mais atenção.

E eu já desencanei desse papo de que "os nossos melhores jogadores precisam vir pra cá para tirar o basquete brasileiro desse buraco". Isso é furada e uma baita falácia. Se tivermos uma geração fantástica aqui e formos para as Olimpíadas, a estrutura do basquete no Brasil vai continuar a mesma, com os mesmos campeonatos, o mesmo nível técnico, a mesma administração, e o público comum vai continuar assistindo só quando for contra a Argentina para extravasar um mal colocado patriotismo. Andei lendo por aí que a "geração de ouro" argentina não é fruto de categorias de base fantásticas como se imaginava, que não mudou a estrutura do basquete no país, e que a renovação da seleção é um pesadelo. Mesma coisa por aqui. Ainda acredito que a popularização do esporte passa por acompanhar com qualidade a melhor liga de basquete do mundo ao invés de ficar se preocupando se o Nenê ou o Leandrinho vão enfrentar a Venezuela."

...
E completo com minhas palavras. Caso o Brasil fique com uma vaga, terá provado que não precisa de Nenê, Leandrinho e Varejão para ser melhor que República Dominicana e Porto Rico. Nada mais do que isso. Mesmo vencendo a Argentina é ingenuidade achar que a equipe brasileira é melhor, em geral, que a deles. Se ir para os Jogos Olímpicos basta e estar lá deva ser um prêmio para quem conquistou a vaga, algo no espírito Dunga de ser, então não precisamos dos jogadores da NBA. Agora se o importante é levar os melhores jogadores e tentar ganhar umas partidas, é óbvio que eles tem que ser chamados. Mas pelo o que eu vejo por aí o público do basquete é muito patriota e não vai querer alguém que "fugiu à luta" os representando na próxima guerra Olimpíada.


Pergunta 8
Versão educada: "Como dá ponte aérea no NBA2K11?"
Versão troll: "Como dá ponte aérea no NBA2K11?"



.....
Eu sei que essas respostas vão gerar mais perguntas, mais trolls e mais discussões, mas acho que serviu para deixar claro o motivo do assunto ser geralmente ignorado por aqui. E que ironia um assunto deixado de lado ter rendido algo tão grande, não? É hora de parar.

sábado, 23 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Toronto Raptors

 Não resisti


Objetivo máximo: Fazer as pessoas lembrarem que ainda existe um time no Canadá
Não seria estranho: As pessoas se lembram, mas se referem a eles como "O ex-time do Chris Bosh"
Desastre: Pior time da NBA

Forças: Nenhuma pressão de torcida ou imprensa para desenvolver seus moleques
Fraquezas: Praticamente tudo. É um time ruim que perdeu seus dois melhores jogadores

Elenco:







.....
Técnico: Jay Triano

O coitado do técnico que vai ter que levar esse time do Raptors nas costas durante a temporada é o Jay Triano. Ele, como a maioria dos técnicos, já trabalhou um bom tempo como assistente. No mesmo Raptors ajudou a montar os times bem mais ou menos de Lenny Wilkens, Kevin O'Neill e Sam Mitchell. Quando esse último foi demitido, Triano ganhou sua chance de falhar. Até foi bem quando assumiu, no final da temporada 2008-09, vencendo 9 dos últimos 15 jogos na temporada, mas no ano passado aconteceu o que vocês viram, mesmo com Chris Bosh e Hedo Turkoglu no elenco ele não conseguiu um time capaz de pegar a oitava vaga do Bulls, um time que praticamente se desmontou e abandonou a temporada.

Mas Triano tem moral lá no Canadá, ele foi técnico da seleção nacional de 1998 até 2005 e no meio do caminho levou o Canadá às quartas-de-final das Olimpíadas de 2000, acabando em sétimo lugar, um feito para um país que tem tantas dificuldades em produzir jogadores bons (Dalembert nasceu no Haiti, Nash na África do Sul e Magloire não é bom, nem comecem). Além disso ele é o primeiro canadense a treinar uma equipe da NBA.



Apesar de ser herói nacional, não sei se durará muito no cargo. Ele fez muitas besteiras no ano passado, deixou o Turkoglu maluco de raiva ("Ball", lembram?) porque não montava um time que funcionava e agora, com menos opções, é difícil acreditar que irá tirar uma solução criativa do nada. Mas pelo menos ele é muito bom em "trick shots", quem sabe não chamam para participar da competição de HORSE no All-Star Weekend? Se ele não for demitido até lá...



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O Raptors tinha um elenco bom o bastante no ano passado para pelo menos ir para a primeira rodada dos playoffs. Afinal, tinham um dos melhores alas de força da NBA, Chris Bosh, um bom jogador de perímetro em Hedo Turkoglu e ótimos coadjuvantes como Andrea Bargnani, que fez a melhor temporada da sua carreira, e Jarrett Jack. Mas não passaram do nono lugar. O resultado foi Turko pedindo pra ser trocado e Bosh levando seus talentos para South Beach.

Só para não dizer que eles não melhoraram em nada, receberam em troca do Turkoglu o brazuca Leandrinho, que pelo o que estamos vendo na pré-temporada parece ter pegado de novo o ritmo de jogo e está jogando bem. O problema é que o Leandrinho é aquele tipo de jogador que faz um time bom parecer espetacular, mas nunca um time ruim ficar bom. Faz sentido pra vocês? A pontuação e velocidade que ele traz do banco é difícil de achar na NBA e pode ser aquele detalhe que falta para um time no meio da tabela avançar, mas ele não é completo o bastante para carregar nas costas um time com tantos defeitos.

A mesma coisa vale para o Linas Kleiza, que é um pontuador nato e arremessador de três. Foi um dos motivos que fez o Nuggets ir para a final do Oeste há duas temporadas, mas não carrega ninguém nas costas.

E poderia falar a mesma coisa de quem ficou por lá. Da garota Andrea que é uma versão desnatada do Dirk Nowitzki, dos armadores Jarrett Jack e Jose Calderon, do reboteiro Reggie Evans, etc. Só não digo do Amir Johnson, que recebeu uma extensão de contrato milionária nessa offseason, porque ele ainda não provou isso na sua carreira. Eterna promessa desde os tempos do Pistons, é mais um dos que ficam milionários só pelo que podem ser, nunca pelo que já jogaram. Donos de time dão 20 milhões para o Darko Milicic, 20 milhões para o Amir Johnson, 120 para o Joe Johnson e depois dizem que estão com problemas financeiros, alguém entende?

Alguns times na NBA já tiveram muito sucesso somente com jogadores medianos, mas são mais exceção do que regra. Dentre os sucessos dá pra lembrar do Grizzlies do Hubie Brown com o Gasol bem novinho e bem menos dominante, Bonzi Wells, Mike MillerJason Williams e do falecido Lorenzen Wright (que foi estranhamente assassinado em julho desse ano), e da exceção mais famosa, o Pistons de 2004, que começou como um time mediano, mas que viu seus jogadores melhorarem tanto quando jogavam juntos que um ano depois Billups, Hamilton, Ben e Rasheed Wallace eram All-Stars. Acontece, mas é complicado contar com isso.

A esperança do time em não ter alguma estrela está nas mãos de dois pirralhos, o novato Ed Davis e o segundo-anista DeMar DeRozan. O primeiro é um novato que jogou bem nas summer leagues, mas que está machucado, então vamos demorar mais um pouco para começar a ver até onde é capaz de ir.

O segundo tem força nominal para ser uma estrela, mas DJ Strawberry está aí para provar que às vezes isso não é o bastante. O técnico Jay Triano já disse que não ficou satisfeito com o DeRozan na temporada passada, que se contentava em dar umas enterradas em contra-ataques ou em infiltrar quando a chance era muito clara, incentivou o garoto a treinar bastante o seu arremesso e nessa temporada ele terá a liberdade de se arriscar mais, de tentar ser o macho alfa do ataque do Toronto. Nas ligas de verão deu bem certo e o DeRozan, junto com seu parceiro Sonny Weems, foram os destaques do Raptors. Mas na pré-temporada ele não empolgou. Jogou bem, garantiu seus 12 pontos em 25 minutos por jogo, mas não teve nenhuma atuação acima da média.

Vai até ser interessante acompanhar como (ou SE) o DeRozan cresce como jogador e como o Jay Triano vai juntar todos esses jogadores medianos, se num time bom ou num D-League All-Stars. Repito, vai ser interessante acompanhar, mas vai ser de longe. Só pelo YouTube, vendo as melhores enterradas do DeRozan. (detalhe: o passe do Turkoglu na jogada número 6 é uma das coisas mais lindas que eu já vi numa quadra de basquete)

Preview 2010-11 / Phoenix Suns

Você não enxerga na foto, mas Nash foi atingido por uma bolinha de papel

Objetivo máximo: Eles vão dizer que é o título, mas na verdade se darão por satisfeitos em voltar pra final do Oeste
Não seria estranho: Cair na primeira rodada dos playoffs
Desastre: Sentir mais falta do Amar'e Stoudemire do que o Cavs do LeBron James


Forças: Um armador que faz até o Louis Amundson parecer um bom jogador e um elenco faz-tudo
Fraquezas: Tudo o que Amar'e fazia e Turkoglu não vai fazer

Elenco:








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Técnico: Alvin Gentry

É engraçado que esse trabalho à frente do Phoenix Suns tenha caído nas mãos do Alvin Gentry. Sua pouca experiência à frente de times chamava a atenção pelo trabalho com jovens e pela assistência a técnicos puramente defensivos. Agora ele está à frente de um time velho que não defende, vai entender!

Alvin Gentry já foi assistente técnico de Larry Brown (ao mesmo tempo que Gregg Popovich) e teve seu trabalho de maior destaque como técnico quando treinou o amaldiçoado Clippers de 2000 até 2003. Nos dois primeiros anos o técnico montou um time que parecia muito promissor, liderado por Lamar Odom, Quentin Richardson, Darius Miles e depois por Elton Brand. Todos eram bem jovens, pareciam ter um futuro brilhante pela frente e o time só precisava de um armador. Em 2003 eles contrataram Andre Miller, que havia liderado a NBA em assistências no ano anterior e o time piorou. Por quê? Sei lá, porque é o Clippers. Mas foi o que bastou para toda a animação em relação a Gentry e a pivetada acabar e ele ser mandado embora.

Logo depois ele já foi pro Suns e lá foi assistente de Mike D'Antoni e depois do desastre Terry Porter. A vaga caiu no colo de Gentry depois da demissão do segundo, mas ele ganhou o emprego em definitivo quando as coisas começaram a dar certo. Aos poucos ele conseguiu um bom equilíbrio entre manter o time ofensivo feito por D'Antoni e deixar o garrafão mais forte e mais defensivo como Terry Porter tentou sem sucesso. Não que a defesa seja forte, foi a 7ª pior da NBA no ano passado, mas já foi pior e principalmente a defesa de garrafão melhorou quando Gentry conseguiu juntar Amar'e Stoudemire e Robin Lopez no time titular. Foi a primeira real dupla de garrafão do Suns em uns 7, 8 anos.

Também foi ele o responsável por arriscar montar um time reserva que joga inteiro junto. Todos os titulares, ou pelo menos quatro deles, saem de quadra e um bando de reservas entra com outras características de jogo, outra velocidade. Deu muito certo nos playoffs e não deve ser fácil de fazer, é como treinar dois times diferentes ao mesmo tempo. Por pouco esse time reserva não bateu o Lakers na final do Oeste do ano passado.

Já vi gente dizendo que o Gentry não é um grande líder, mas que o Suns não sente falta disso porque tem o Steve Nash que é uma voz ativa no vestiário. Não sei se é verdade, mas faz sentido. De qualquer forma, se esse é um defeito dele, não tem feito muita diferença. Acredito que ele vai ter muito trabalho nesse ano para ajustar Hedo Turkoglu na rotação, mas entra com moral por tudo que fez no ano passado.

Abaixo o vídeo com o tapinha na bunda que ele recebeu do Kobe Bryant. Méritos por ele ter recebido o tapinha no bom humor, poucos técnicos teriam feito a mesma coisa.



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Não tenho muito mais do que falar do Suns porque falei deles já nessa offseason. Sério, o post foi em agosto, mas é um preview do Suns mais completo do que eu faria aqui. Falo da contratação do Turkoglu, dos motivos, das consequências, da perda do Amar'e, da perda do Leandrinho, de como podem usar Josh Childress e Grant Hill, tudo. Me sentiria um idiota escrevendo tudo de novo!
Então se você quer saber o que eu acho do Phoenix Suns, leia o post "O time da criatividade".

O que eu posso acrescentar de diferente são comentários sobre a pré-temporada. No último amistoso deles, por exemplo, tomaram 144 pontos do Denver Nuggets, um massacre que não pega bem nem em jogos que não valem nada e que foi o ápice de uma sequência de apresentações defensivas lamentáveis. Tomaram 129 e 121 em dois jogos contra o Raptors, 105 e 108 em dois jogos contra o Jazz e mais 109 do Kings! Bizarramente, só pra mostrar que é pré-temporada, tomaram poucos pontos do Warriors, uma estranhíssima vitória de apenas 92 a 87 entre os dois melhores ataques da liga. Além dessa vitória sobre o Golden State a única outra foi contra o Mavs em um jogo em Indian Wells, tradicional jogo outdoor que a NBA faz todo ano.

Ou seja, 2 vitórias, 6 derrotas esmagadoras e o Turkoglu de titular (a previsão de time com Nash, J-Rich, Hill, Turko e Robin aconteceu em todos os jogos) com patéticas médias de 5 pontos, 4 rebotes e 1 assistência em 20 minutos por jogo. As atuações do Turkoglu foram muito desanimadoras e foi também bem ruim ver que o time não apanhou só de times que tinham força no garrafão. Eles perderam do Jazz mesmo no dia que o Al Jefferson jogou pouco e tomaram dois sacodes do Raptors, que não tem nenhum jogador forte que jogue lá dentro. Nem dá pra jogar a culpa na história do time baixo.

É só pré-temporada, claro, todo mundo ainda pegando o jeito e bem desinteressado, mas não foi uma boa primeira impressão para um time que precisa se reinventar.

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Vocês viram ontem como foi decidido o jogo entre Mavs e Rockets pela última rodada da pré-temporada? O Jason Kidd, com nada mais nada menos que o Yao Ming na sua frente, mandou um passe perfeito para o Shawn Marion a 0.4 segundos do fim do jogo. Cesta e vitória! Kidd e Marion fizeram história juntos jogando justamente pelo Suns. Maldade que quem estava marcando o Marion era o Courtney Lee, que errou a bandeja em uma jogada muito parecida na final de 2009.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Por pouco de novo

Scola quer seu abraço, vai lá, campeão!


Eu gostaria muito de ter escrito aqui antes do jogo entre Brasil e Argentina a conversa que tive com o Felipe, nosso webdesigner. Saímos para bater um basquete na segunda-feira e conversando sobre o jogo da seleção eu disse: "Acho que o Brasil ganha. Mas pra isso a gente tem que abrir uma vantagem e administrar ela no final. Se chegar no fim do jogo empatado, o Scola vai acertar tudo pra Argentina e o Leandrinho vai errar pro Brasil".

Juro por Lady Gaga que eu disse isso. Deveria ter postado aqui para pagar de adivinho, porque foi isso o que aconteceu. O jogo foi disputadíssimo desde o primeiro segundo até o último, mas quando era para decidir, o Scola simplesmente não errou. Seja bem marcado, mal marcado, contestado, no arremesso, na bandeja e por fim, pra fechar o caixão, até quando tentou errar um lance livre.

Sobre a Argentina, não achei que fizeram nada de novo, fizeram o que a gente disse desde o começo. Todo o time é inteligente, todo mundo sabe o que fazer em quadra, cometem poucas bobagens e compensam a falta de pontuadores com o Luis Scola. Eventualmente o Carlos Delfino tem boas noites de pontuação e para o azar dos brazucas, o jogo de ontem foi uma delas. Outra zica brasileira foi ter a volta do Fabricio Oberto, que apesar de bem mais lento e velho do que em seu auge, quebra um galho enorme para o Scola com seu bom passe e aproveitamento embaixo da cesta.

O Ruben Magnano tentou parar o Scola usando o Tiago Splitter, o Anderson Varejão, o Guilherme e até o Marquinhos. Tentou trocar a marcação no pick-and-pop, tentou não trocar, tentou macumba e só não apelou para as armas de fogo porque é um gentleman. Tem dias em que não dá certo mesmo. Em algumas jogadas a gente vacilou, é verdade, mas no geral não perdemos o jogo porque marcamos mal o Scola.

Aliás, perder esse jogo não foi nenhuma desgraça. Foi um jogo disputado em que a grande estrela da partida, o melhor jogador em quadra, resolveu a parada nos minutos decisivos, nada mais natural no basquete. Sem contar que nos classificamos em terceiro no nosso grupo e eles em segundo, apesar dos times em nível técnico parecido, não foi absurdo perder o jogo, na teoria eles eram mesmo os favoritos. Mas no que devemos pensar não é só nesse jogo, mas no total do torneio. O Brasil venceu 3 jogos e perdeu outros 3. Os três vencidos foram lavadas, abrimos diferença e matamos o jogo. As três derrotas foram resultados apertados, jogos decididos no último minuto. Quando acontece três vezes em uma semana não é coincidência. O que faltou para o Brasil nesse mundial foi saber decidir jogos. Só.

A defesa do Brasil não é perfeita, mas não consigo imaginar nada melhor desse elenco. Até jogadores que sempre foram criticados (por nós também) por serem defensores fracos tiveram momentos ótimos, como Marcelinho Huertas, o Machado e o Leandrinho. Reafirmo aqui que nunca vi (e provavelmente nunca vou ver) o Barbosa marcando tão bem quanto naquele jogo contra os EUA. O ataque também esteve do jeito que sempre sonhamos. Não temos o nosso Scola/Nowitzki/Durant para colocar a bola na mão e esperar os dois pontos acontecerem de alguma forma, mas o lado bom é que dessa vez sabíamos disso. Em campanhas passadas ficávamos esperando milagres ofensivos de Leandrinho, Marcelinho e Tiago Splitter e eles não apareciam. Dessa vez colocamos a mão da nossa grande estrela no torneio, Huertas, e executamos um ataque coletivo e bem pensado. Quase chorei hoje quando vi que em todo o primeiro tempo a seleção havia cometido apenas 3 erros no ataque. Antigamente eram 3 erros a cada 5 minutos de jogo, geralmente tentando forçar alguma jogada individual idiota.

Temos um bom elenco que demonstrou muita vontade, raça e disciplina. Um técnico que entende de basquete, tem comando sobre o grupo e que melhorou o ataque e a defesa do time. Parece piada dizer isso, mas é verdade: o time melhorou em tudo, agora só falta ganhar.

Saber ganhar jogos apertados é difícil. Até porque muitas vezes é uma questão individual, não de treino coletivo, instrução do técnico. Claro que ter um mongolóide no banco não vai ajudar, mas é o momento do jogo com a defesa mais apertada, jogadores mais tensos e juízes dispostos a deixar o jogo rolar. Não é à toa que os jogos costumam ser decididos em jogadas simples, como uma isolação, um pick-and-roll ou um bloqueio para arremesso. A Argentina usou muitas jogadas durante o jogo inteiro, tanto que no último quarto vimos até Oberto e Jasen aparecerem no ataque, mas quando o bicho pegou foi só pick-and-pop com o Scola ou a isolação dele contra algum marcador brasileiro. Já o Brasil parecia não saber o que decidir, e errou dando a bola na mão de Leandrinho, que tem muitos talentos, mas definitivamente decidir que jogada fazer não é um deles. Quanto menos ele tem a bola na mão, melhor.

Outro que não pode decidir jogos é o Tiago Splitter, e o Brasil também tentou ele na hora H. Geralmente jogadores de garrafão só conseguem decidir jogos em equipes que tem arremessadores muito bons em volta deles. Pensa bem, o Splitter está empurrando o Oberto para perto da cesta e você está marcando o Marquinhos ou o Alex, o que você faz? Corre para forçar um erro do Splitter ou deixa ele marcar a cesta só para não deixar os dois livres? Deixa livre, claro! Se o Splitter conseguir dar o passe, dane-se, qual a chance do Alex acertar uma bola de três? E pior, qual a chance dele acertar com a pressão do fim do jogo? Quase zero. Quem acompanha NBA pode ver isso muito bem. Às vezes o pivô do time é a estrela, mas quem decide é o cara do perímetro. Até porque em fim de jogos os juízes costumam deixar a pancadaria rolar um pouco mais e isso só dificulta o trabalho dos pivôs, que também têm aproveitamento pior nos lances livres. No Lakers o Shaq recebia pouco a bola no fim dos jogos porque ele sofria faltas de propósito, já que fede na linha de lance livre.

Claro que existem exceções, mas todas tem explicação. O Scola e o Nowitzki são jogadores completos. Eles podem receber e bola em fim de jogo porque se precisar eles nem entram no garrafão e resolvem a parada com um arremesso de longe, além de serem bons no lance livre. Outros como o Duncan e o Garnett são passadores acima da média e costumam ter bons arremessadores no time. É só buscar vídeos de qualquer título do Spurs e ver os jogos, quando se arriscavam a dobrar a marcação no Duncan no fim dos jogos ele entregava a bola para Steve Kerr, Stephen Jackson, Manu Ginobili, Bruce Bowen ou qualquer outro grande arremessador que o acompanhou na carreira. O Brasil não tem esses arremessadores, Splitter não é um grande passador e ele não é efetivo quando recebe a bola longe da cesta.

Para a partida de hoje em especial, acho que a melhor decisão teria sido deixar o Marcelinho Huertas trabalhando com vários bloqueios para achar espaço no garrafão. Ele estava com a mão calibrada, confiante e claramente muito motivado. Fez a partida da sua vida e eu esperava ver a paz no Oriente Médio antes de ver ele fazer 32 pontos num jogo, mas foi o que aconteceu. De qualquer forma, seria uma solução para hoje, isso não vai acontecer sempre.

Falando em momentos decisivos, lembrei de um caso interessante na NBA, o Los Angeles Clippers. Infelizmente não tenho mais os números, mas vale pelo caso. Na temporada 2004-05, o Clippers liderou a liga em jogos perdidos por 5 pontos ou menos (ou eram 3 pontos? Jogos apertados, enfim). Era um número assustador de derrotas no fim do jogo. Aquele time tinha o Marko Jaric (o puto que é CASADO com essa deusa) na sua melhor temporada na NBA, Bobby Simmons no único ano em que foi decente, Corey Maggette, Chris Kaman bem pivete e Elton Brand na época em que ainda fazia 20 pontos e 10 rebotes todo jogo. Parecia bom, mas não vencia no final.

No ano seguinte conseguiram a pechicha de trocar Jaric-Lima pelo muso Sam Cassell. Aproveitaram e conseguiram uma troca por Cuttino Mobley, o experiente arremessador que fez história como parceiro e amigo de Steve Francis no Houston Rockets. Com a dupla experiente o Clippers passou a ser um dos times que mais venceu jogos apertados na NBA. E assim chegou aos playoffs, à semi-final do Oeste, e só foi eliminado no jogo 7 pelo Phoenix Suns. Era dito por todos os jogadores e era óbvio para quem via os jogos que a razão da mudança era a presença de dois jogadores experientes e bons na decisão. Quando precisava armar, Cassell armava, no fim do jogo, quando precisavam de pontos, ele ia lá e fazia seu arremesso tradicional, o step back, e matava a parada.



Falta para o Brasil ter esse Sam Cassell para matar as partidas decisivas. Ele poderia ter vencido Argentina, a Eslovênia e os EUA. E ele não é Leandrinho, Huertas, Marquinhos ou qualquer um que estava no elenco desse Mundial. Acho que o Brasil tem seu melhor time em muito tempo, talvez o melhor dos últimos 15 anos, mas com esse pequeno e muito decisivo defeito.

Citando o gênio Dunga, qual o legado dessa seleção? Podemos ver por dois lados, o do time, pensando em resultados; e o social. Para o lado do time não tem legado, foi só o primeiro campeonato importante e serviu para mostrar na prática nossos defeitos e qualidades. Deu pra ver que sonhar com medalha é demais mas com Olimpíada é bem real.

Pelo lado social foi mais importante, mas ainda pequeno. Aquela quase-vitória sobre os EUA deve ter feito muita gente que ignorava o basquete desde o Oscar falar sobre o esporte, e motivado algumas pessoas até a bater uma bolinha. Isso é uma grande coisa. Lembro que comecei a querer jogar tênis quando as TVs começaram a passar jogos do Guga. Não precisei de muito tempo para começar a gostar mais do esporte do que do Guga, aliás torcia até mais para o Patrick Rafter, por ser fã de um bom saque-e-voleio. Mas foi com um brasileiro na mídia que eu tive o primeiro contato com o esporte.

Acredito que a seleção ter bons resultados seja importante para isso. Não torço para o Brasil vencer por amor à nossa pátria, sei que incomoda muita gente mas não dou a mínima pra isso, torço pelo efeito que esses bons resultados podem trazer para o esporte. Gostaria, por exemplo, de descobrir na próxima temporada da NBA um leitor do blog que está começando a acompanhar a liga americana depois de ter se encantando com o Scola na partida de ontem. A presença da seleção nacional chama a atenção e depois o basquete bem jogado por alguém (seja lá em que território esse cara nasceu) conquista o torcedor. É uma fórmula simples e que parece bem encaminhada. Sem contusões e pensando em uma solução para não perder todos os jogos apertados, o Brasil deve estar na briga com os grandes em todas as próximas grandes competições.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Uma outra vitória

Quando Leandrinho erra a última bola, o joga acaba, mas começa o Rebolation!


Para o cidadão comum, essa seleção de basquete dos Estados Unidos é uma vergonha, porque não tem nem Michael Jordan, nem Magic Johnson. Para quem conhece NBA de "ouvir dizer", essa seleção dos Estados Unidos é uma farsa porque não tem nem Kobe Bryant, nem LeBron James. Para quem nunca ouviu falar de NBA e conhece basquete só por causa do "Space Jam", a seleção dos Estados Unidos não vale nada porque não tem o Pernalonga. E para uma garota de 12 anos que passa o dia no Orkut, a seleção dos Estados Unidos é um fracasso porque não tem o Justin Bieber.

O que me surpreende é que até mesmo na gringolândia, os americanos acham essa seleção sem graça e não dão a mínima para o Mundial. Em parte porque, oras, é só o Mundial de basquete mesmo, grandes merdas - pra quem gosta de basquete de verdade, qualquer partidinha da NBA tem mais estrelas e mais qualidade técnica do que ficar vendo a Costa do Marfim no Mundial, e a enorme maioria das grandes estrelas está se poupando ou para a NBA, ou para as Olimpíadas. Mas o desinteresse com a seleção também vem do fato de que os principais jogadores são de equipes ignoradas lá na NBA. A grande estrela, Kevin Durant, virou modinha rápido mas ainda é apenas um jogador do Thunder. Danny Granger, um dos melhores pontuadores da NBA, joga num Pacers mequetrefe e desimportante que ninguém nunca viu jogar. Kevin Love, o jogador mais talentoso no garrafão da seleção, joga no Wolves, aquele time que ninguém conhece a não ser pelas escolhas bizarras no draft. O melhor arremessador do time, Eric Gordon, joga num Clippers famoso apenas por ser o primo pobre do Lakers e ser alvo de uma maldição que lesiosa todos os seus jogadores quando as coisas parecem que vão dar certo. Outro dos grandes arremessadores da liga, Stephen Curry, é pirralho e joga no Warriors, o time que é o circo oficial da NBA. Rudy Gay, melhor jogador do banco da seleção até agora, joga num Grizzlies que é tão engraçado, mas tão engraçado, que o Zach Randolph consegue ser até o melhor jogador da equipe.

Ao contrário do que já chegou a acontecer em mundiais anteriores, essa seleção não é formada pelos jogadores medíocres que sobraram, tipo o gordinho na aula de educação física, e nem é montada com jogadores universitários ou que acabaram de ser draftados. É uma seleção com restrições, claro, que não teve seus principais jogadores à disposição e que ainda sofreu com lesões na preparação e teve que cortar muita gente, mas é muito bem montada por engravatados inteligentes e um técnico perfeitamente consciente do que é necessário para ganhar no basquete da FIBA. Como comentei num post anterior, o perímetro é muito mais importante no basquete internacional, com seus garrafões congestionados, e os Estados Unidos levaram uma caralhada de arremessadores, bons defensores para garantir os contra-ataques e pivôs capazes de passar a bola, arremessar e jogar na correria. Como sempre, a tática é revezar o time sem parar, todo mundo ser capaz de arremessar e defender, e aí matar o outro time começando pelo pulmão. Plano impecável, jogadores talentosos, favoritos na certa. Não tiveram muito tempo de preparação, mas até aí nenhuma seleção tem muito tempo pra perder com essas coisas, e a equipe técnica já aprendeu na raça em torneios anteriores exatamente como montar e executar planos de jogo para o basquete internacional.

Por um lado, é preciso dar crédito a essa seleção. É cheia de jogadores fantásticos, todo mundo chuta traseiros, e não dá pra criticar só porque não tem o Kobe ou o Pernalonga. Quem fala mal desse elenco é porque anda afastado da NBA e não conhece o talento da pirralhada. Mas, por outro lado, é preciso humanizar essa seleção: ela tem limitações, é inexperiente, e num dia ruim quase perdeu para o Brasil, foi por muito pouco. Depois do susto, grande parte do elenco vai aparecer para a próxima partida usando fraldas geriátricas. E a comissão técnica vai ter que repensar algumas coisas muito sérias.

Bizarramente, o Brasil foi a defesa mais forte que os Estados Unidos pegaram até agora no Mundial. Marcando por zona, os brasileiros forçaram os adversários a arremessar e souberam voltar muito bem para dificultar o contra-ataque. Aí está o fantástico dedo do técnico Magnano, essa defesa de contra-ataque é difícil de implementar e é crucial para dificultar as ações americanas. A equação é simples: se eles são tão bons em infiltração, se são tão atléticos que enterram na cabeça de todo mundo, se penetrar no garrafão é tão difícil na FIBA, e se eles correm muito mais do que o resto do planeta, nada mais óbvio do que usar essas armas para penetrar no garrafão apenas quando é simples, ou seja, no contra-ataque. Por isso a defesa é a principal arma dos Estados Unidos, com a seleção marcando pressão na quadra inteira desde o primeiro segundo de jogo e o Lamar Odom de pivô titular pra poder acompanhar todo mundo na corrida. Então, consequentemente, dificultar o contra-ataque é parar a principal arma americana, é tirá-los da zona de conforto. Cada vez que os Estados Unidos tinham que jogar devagar, num basquete de meia-quadra, e acabavam dando um arremesso de três pontos, dava pra ver um sorrisinho macabro na cara do Magnano. Muito, muito macabro.

Para evitar contra-ataques, também é fundamental cuidar bem da bola, não dar passes idiotas e não se desesperar com a marcação pressão dos Estados Unidos. Como todo mundo sabe, nossa seleção sempre teve "passes idiotas" e "desespero" como suas definições na Wikipedia, e não dava pra acabar com isso de um dia para o outro. Numa das primeiras posses de bola, a pressão forçou o Brasil a levar a bola pro ataque com o Tiago Splitter. Em outras ocasiões, roubou bolas fáceis do Leandrinho, que parece que unta a mão com manteiga sempre que vai jogar de armador principal, e do Marcelinho Machado, que sempre se mete a armador mas não tem nem cérebro nem talento pra isso. Por sorte, Marcelinho Huertas fez uma partida simplesmente espetacular. Soube levar a bola pro ataque sem afobação, mandar os companheiros pararem de correr, dar os passes certos sem forçar o jogo. O Huertas emana uma aura de tranquilidade tão grande que perigava até do Brasil pegar no sono. Fiquei imaginando ele e o Billups depois do jogo tomando chá juntos, falando de arte francesa, tudo beeeem devagarinho, assoprando o chá pra ninguém se queimar. Seriam ótimos amigos.

O Brasil tem aquela tendência de jogar na correria e de arremessar de três pontos sempre que dá, sem muito critério. É como se o Marcelinho Machado fosse o cérebro e o Leandrinho fosse os pés, criando um monstro bizarro que só corre e chuta. Foi o Huertas quem colocou ordem nesse experimento de cientista maluco, acionando os arremessos de três apenas quando eram viáveis. Quando esqueciam do Huertas ou quando ele teve que sair de quadra com 4 faltas, vimos os piores momentos do Brasil no jogo, uma seleção estabanada e afobada, permitindo os tão amados contra-ataques para os americanos. Aliás, o Huertas só sentou no banco de reservas no meio do terceiro período, ao cometer sua quarta falta, quando a água bateu na bunda. Se não fosse por isso, teria jogado o tempo inteiro. Sem ele, o Brasil não sabe pra que lado corre e periga fazer cesta contra.

Graças à armação do Huertas, a seleção americana ficou muito exposta. Ficou clara a dificuldade de jogar contra times que não mordam a isca de jogar em velocidade, afinal os pivôs estão lá pra correr e arremessar, não pra ficar dando pancada e lutar por rebote num jogo lento de meia-quadra. Além disso, os americanos vieram para marcar por zona, impedir os arremessos de três, e o Huertas usou e abusou dos pick-and-rolls, jogada manjadissima na NBA, entrando no garrafão e depois passando para alguém finalizar. Foi assim que o afobado Marquinhos conseguiu uma partida fantástica nos arremessos de fora, que o Leandrinho sobrou tantas vezes livre apesar de ser o foco da marcação adversária, e que o Splitter conseguiu pontuar apesar de não ter conseguido estabelecer um jogo efetivo de costas para a cesta. A seleção americana chuta traseiros, mas um bom armador, uma defesa bem montada e um jogo cadenciado mostrou que não dá pra esperar vitórias fáceis.

O Huertas sequer é tão espetacular assim. Tem ótima visão de jogo, sabe mudar o ritmo de uma partida, dá os passes certos, é veloz, mas é fraco na defesa, não tem força física nenhuma, e tem um arremesso muito fraco e sem confiança. Lembra muito o Luke Ridnour, agora futuro reserva do Wolves, que também é branquelo, não defende nem uma cadeira, é fraco pra burro, mas é inteligente, rápido e até arremessa um pouco melhor. O Huertas poderia ser um reserva na NBA se quisesse abrir mão de dinheiro, fama, minutos, títulos de campeão e de mulheres, algo que não deve acontecer, mas é incrível como um jogador que seria no máximo um reserva pode destruir todo um esquema de jogo da seleção americana. Enfrentando um Brasil que nas mãos do Huertas cuidou bem da bola, jogou sem afobação e deu arremessos de três desmarcados, os Estados Unidos tiveram que pela primeira vez testar seu ataque de meia-quadra, e o resultado foi muito negativo para eles.

Em situações normais de jogo, a seleção americana teria substituído os jogadores sem parar e todo mundo teria jogado muito. Com isso, Eric Gordon, Stephen Curry e Danny Granger teriam entrado bastante, corrido muito, arremessado com a facilidade que possuem e destruído nossa defesa por zona. Mas perdendo o jogo graças ao altissimo aproveitamento de arremessos do Brasil, e sem poder contar tanto com o jogo de contra-ataque, o técnico Mike Krzyzewski foi conservador e manteve em quadra os jogadores mais experientes e os melhores defensores. Foi o suficiente para Eric Gordon, Steph Curry e "Granny Danger", pirralhos e defensores mais débeis, ficarem de fora - para a nossa sorte. Achei uma decisão idiota da comissão técnica, mas entendo que o esquema tático do Brasil e a atuação do Huertas e dos arremessadores forçaram os Estados Unidos a serem conservadores. Billups errou 6 das 7 bolas de três pontos que tentou, mas ficou em quadra porque é mais experiente e até boceja nos momentos mais tensos do jogo (aliás, foi ele que, usando o corpo vinte vezes maior do que o Huertas, fez cestas importantes dentro do garrafão no final do jogo pra garantir a vitória). Andre Iguodala não acertou um único arremesso sequer, mas ficou em quadra para ajudar na marcação de Huertas e Leandrinho. E o resultado disso foi um ataque um tanto assustado, limitado pela defesa por zona, e que acabou passando a bola para sua maior estrela e torcendo pra dar certo. Não foi mero acaso que o Kevin Durant marcou 27 pontos, mais do que em qualquer outro jogo com a seleção até agora.

Postei aqui, um tempão atrás, que essa seleção brasileira carrega um fardo grande demais: depois de tantos anos tendo um basquete mequetrefe e ignorado, dependemos de uma boa atuação no Mundial para que a cobertura do basquete no Brasil aumente, a verba apareça, as categorias de base se fortifiquem. Torcer pro Brasil, em qualquer esporte, é questão de gosto e não de patriotismo, é normal torcer contra se a seleção vai contra aquilo de que você gosta ou em que você acredita, mas nesse caso em particular a seleção carrega nas costas uma função social, cultural. E acho que essa função foi concretrizada hoje, assim de repente, quando a gente nem esperava. Primeiro, humanizando os americanos, mostrando que o Billups também erra vários arremessos nos momentos decisivos (apesar do apelido "Mr. Big Shot"), que a seleção fica sem saber o que fazer e passa pro Durant, que o Iguodala cai de bunda no chão ao tomar um drible do Leandrinho. E, depois, valorizando o nosso basquete, mostrando que não é porque você nasceu nessa linha imaginária aqui e toma caipirinha que não dá pra chegar na NBA, derrubar o Iguodala, assustar os gringos, quase-ganhar-um-jogo. Mesmo brasileiro, branquelo, magrelo e sem arremesso, dá pra destruir o plano de jogo americano como o Huertas fez. Dá pra colocar coragem na criançada de ir jogar basquete no intervalo da escola e sonhar alto. Linha imaginária é um saco, às vezes precisa de um jogo desses pra entendermos que, não importa onde você tenha nascido, dá pra fazer qualquer coisa, ter qualquer gosto ou afinidade. O problema é quando não existe sequer a oportunidade, quando não existe onde treinar, não há incentivo. A gente quase ganhou dos Estados Unidos, tá todo mundo fazendo barulho, então as oportunidades estão surgindo. A gente do Bola Presa, que tem acesso às estatísticas de acesso ao blog, já sabe faz um tempo que os espectadores de basquete no Brasil estão crescendo. Agora deve aumentar mais ainda, e isso é bom pra quem já acompanha, pra quem ainda vai acompanhar, e principalmente pra quem quer viver disso, seja jogando, seja estudando, seja escrevendo a respeito como a gente faz.

Nem precisa vencer o jogo. Basta mostrar que é possível, e vai ter gente querendo tentar fazer, a cobertura vai aumentar, as oportunidades vão aparecer. O Leandrinho errou o arremesso final, mas tá tudo bem. Verdade seja dita, ele não queria sequer chegar perto da bola no quarto período, já escrevi aqui que ele gosta de ser secundário, jogador de apoio e não estrela, e só bateu para dentro no final quando o Huertas quase implorou pra não ter que arremessar. Errou muitas bolas de três especialmente no final do jogo, todas livres, e acertou apenas 3 das 13 bolas de três que tentou no jogo inteiro. Perdeu 3 bolas, todas tendo que armar o jogo e se sentindo mais desconfortável do que o Hermes & Renato na Record. Mas mesmo assim conseguiu fazer uma excelente partida, jogou muito bem, e sua bandeja nos segundos finais colocou o Brasil no jogo - e deixou o Iguodala de popô no chão. A qualidade do vídeo é uma droga, se fosse do LeBron estaria em alta definição, mas dá pra ter uma ideia:



Se aparecer com qualidade melhor, coloco aqui no lugar, porque esse crossover é pra ficar pra história, nem dá pra ficar triste com o arremesso final que ele errou. Assim como não dá pra se irritar com o Huertas, que errou o lance livre que poderia permitir o empate do Brasil. Sua partida foi espetacular, ele jogou quase a partida inteira, estava exausto, e depois ainda conseguiu errar o segundo lance livre de propósito, pegar o rebote e acionar o Leandrinho para um arremesso final que poderia empatar o jogo. Tem todos esses lances no resumo gringo da partida abaixo:



Mesmo na derrota, deu pra ver o jogo refinadíssimo do Tiago Splitter, como ele se movimenta com leveza, como os ganchos são suaves, como ele poderia fazer comercial de amaciante em pó, mas dá pra ver que ele vai sofrer por uns tempos na NBA até aprender a isolar no mano-a-mano de costas para a cesta e se acostumar a levar pancada e finalizar depois do contato. Lembro de como o Jermaine O'Neal, quando era raquítico, demorou para colocar seu jogo refinado em prática porque desciam o braço nele, mas quando deu certo ele ficou dominante. Com o Splitter vai ser assim também, mas pela seleção brasileira ele sempre vai ser constante, eficiente, mas não vai desequilibrar. Já o Marquinhos, que nunca fez nada na NBA (e olha que eu vi muitos jogos do Hornets só pra ver aqueles 3 minutinhos finais dos jogos, em que o Marquinhos entrava só porque já não valia mais nada), rendeu muito melhor na seleção porque não pôde pra jogar na afobação com o Huertas acalmando o jogo, arremessou muito bem de três por estar livre todas as vezes, sem forçar o jogo, e ainda defendeu o Durant da melhor maneira que dava pra defender, ou seja, permitindo que ele fizesse apenas 27 pontos. Tá no lucro!

Sem Nenê, que voltou pra casa lesionado, e o Varejão ainda sendo poupado da torção no tornozelo, a seleção perde muito em ídolos. Assim como os americanos não dão a mínima para a seleção deles porque tem carinha do Pacers e do Grizzlies e não do Heat, os torcedores brasileiros - especialmente os que chegam agora - querem ídolos pra comprar camiseta, se espelhar e começar a praticar o esporte. O Leandrinho teve uma partida sensacional, mas não quer esse papel, tem horror à bola decisiva, e errou muito no jogo. A gente sabe que ele pode render muito em quadra, vimos ele chutando traseiros no Suns, e se jogasse como hoje teria espaço ao lado de Nash por anos ainda, mas sua inconsistência e sua personalidade apontam para outro caminho - o que não é nenhum problema, nada obriga o Leandrinho a ter que ser estrela ou ganhar jogos sozinho, na raça. Tiago Splitter não rende como poderia nesse garrafão bagunçado da FIBA, e seu estilo de jogo é tão refinado e delicado que não atrai muita gente, é tipo o Duncan, que no máximo atrai um bocejo mesmo sendo o melhor de todos os tempos em sua posição. O Marcelinho Huertas não tem pique pra bater com os grandões, não pontua, é fracote, mesmo tendo desequilibrado totalmente o jogo numa atuação memorável. E o Marcelinho Machado, ídolo no Brasil, tende a comprometer na seleção quando arremessa demais ou tenta armar o jogo. Faltam ídolos. E hoje, nesse segundo, isso não importa nem um pouco.

A notícia de que o Brasil estava ganhando dos Estados Unidos no meio da partida começou a se espalhar mais rápido do que gripe suína, e muita gente que nunca deu atenção para o basquete foi dar uma olhada. Gente trabalhando começou a caçar links na internet, e os jornais deram atenção para o fato. A torcida na Turquia, morna e desanimada, passou o quarto período gritando "Brasil, Brasil", porque é legal torcer para o mais fraco, porque é fácil odiar a seleção americana como um reflexo de um país e de seus políticas, e porque todo mundo prefiria que LeBron e Kobe estivessem lá, quem sabe se eles perderem feio não aprendam a levar os melhores? Aquela seleção brasileira de jogadores limitados mobilizou torcedores aqui, e mobilizou os torcedores lá, no ginásio. Não temos grandes ídolos, perdemos o jogo, mas a partida em grande nível abriu os olhos de muita gente: dá pra jogar basquete no Brasil. Somos humanos como os americanos. Eles vão ser campeões, nós não, mas isso não interessa. Por um dia, todos olharam para nosso esporte com carinho, até o Iguodala com a bunda no chão mandando os parabéns pro Leandrinho no Twitter. Missão cumprida, o Mundial pode acabar por aqui. O campeonato não vale nada, a maioria dos jogadores nem se interessa por ele e preferiu ficar debaixo das cobertas, mas nós tiramos algo enorme dele, algo maior do que um título, uma outra vitória. Estão olhando para nosso basquete. Pronto, vamos voltar para casa.

domingo, 22 de agosto de 2010

Uma zona

O Nash dá conselhos para o Leandrinho: "no Canadá tem 
muito urso, mas é melhor que apodrecer no banco"


Volta e meia, sempre tem um carinha perdido por aí dizendo que na NBA não é permitida a tal "defesa por zona", tão usada no basquete da FIBA que se joga no resto do planeta. Assim, quando a seleção dos Estados Unidos enfrenta outras seleções em torneios mundiais, em que valem as regras da FIBA, haveria uma suposta dificuldade em se acostumar, em aprender tudo correndo e em cima da hora. Balela. A partir da temporada 2001-02 a marcação por zona, tão implementada no basquete universitário e portanto conhecida pela imensa maioria dos jogadores, passou a valer sem frescura. Antes, um monte de regras chatinhas dificultava as marcações duplas e a defesa sem a bola, mas já faz quase 10 anos que isso mudou. Todo time decente da NBA eventualmente marca por zona, e a gente viu como o Thunder conseguiu usar essa defesa para dar uma canseira no Lakers nos playoffs passados.

O que não pode é um defensor ficar dentro do garrafão por mais de 3 segundos sem estar acompanhado por outro macho do time adversário. Isso não impossibilita as defesas por zona de forma nenhuma, apenas impede que um gigante chinês fique embaixo do aro o tempo inteiro, obrigando que ele esteja sempre próximo a algum jogador adversário que ocupe aquela área. Se não tiver nenhum adversário no garrafão, o gigante chinês precisa sair do garrafão também. Além disso, aquele desenho de um semi-círculo no chão também impede os defensores de ficarem ali "guardando cachão", como se diz em linguagem de esconde-esconde. Dentro daquele semi-círculo, não importa se o defensor está parado lendo um livro, filosofando, trocando figurinhas ou contando anedotas: se tocar num jogador que esteja atacando a cesta, vai ser falta do defensor, e toca ter sua retina derretida pelas imagens do Ginóbili ou do Dwyane Wade cobrando lances livres.

Ou seja, a marcação por zona existe e está lá, em todas as partidas da NBA (menos as do Warriors, eles nem fingem que defendem). Mas a regra dos três segundos de defesa e o semi-círculo garantem que exista um caminho mais aberto para a cesta, favorecem o time que ataca, e facilitam a vida do jogador que ataca o aro lhe presenteando com muitas faltas e lances livres. O resultado disso é que, na NBA, os placares são mais altos e há um foco maior no jogo de garrafão - não necessariamente dos pivôs, mas de todos os jogadores, incentivados a infiltrar mais. Há mais de um ano atrás, o Rodrigo Alves do Rebote fez um levantamento estatístico fenomenal para descobrir quantos arremessos de três pontos tenta-se por jogo em diversos países, com a finalidade de tentar entender o motivo dos jogadores brasileiros arremessarem tanto de fora. Mesmo eu tendo desenterrado isso de um armário mofado virtual, todo mundo deveria dar uma olhada nesse artigo e nos dados levantados. É fácil perceber que, mesmo jogando partidas mais longas, o pessoal da NBA arremessa muito menos da linha de três do que o resto do planeta. E olha que o Orlando Magic sozinho deve ter inflado essa estatística um bocado.

Sem dúvida nenhuma isso faz parte da cultura de cada país, que pratica o esporte com seu temperinho próprio. No Brasil, por exemplo, a gente arremessa de três como se todo mundo fosse o JR Smith e a marcação por zona é associada a "covardia", coisa de quem "não sabe jogar". Isso fica bem claro no desabafo idiota do Nezinho ao ser campeão do NBB:



Mas há também um grande fator para os jogadores da NBA arremessarem bem menos de três pontos: as regras. Como vimos antes, as infiltrações valem a pena. Nas regras da FIBA, todo time marca por zona o tempo todo, o garrafão fica uma bagunça, infiltrar é quase impossível, e os jogos viram um festival de arremessos de três pontos. As grandes equipes do mundo sabem jogar de várias maneiras, mas se consagram com grandes arremessadores no elenco. Pior do que a seleção brasileira de basquete arremessar demais de três pontos é como os arremessos saem, se jogadas foram planejadas para que saiam livres, se os jogadores são bons arremessadores, se há técnica e velocidade no arremesso. Pelas estatísticas coletadas pelo Rebote, os brasileiros não arremessam tãaaao mais do que o resto do mundo, o que assusta é mesmo o aproveitamento, que fede muito.

Entendo perfeitamente a euforia da torcida brasileira com a presença de um garrafão realmente forte no Mundial de Basquete, formado por Varejão, Nenê e Tiago Splitter, galerinha toda da NBA reunida. Entendo também o receio com a seleção americana, que está mandando para o Mundial um time de reservas dos reservas dos reservas, formado por uns carinhas aí que toparam não tirar férias, e não tem absolutamente ninguém relevante para jogar dentro do garrafão. Mas a verdade é que, contra as melhores defesas do mundo dentro das regras da FIBA, o garrafão acaba sendo muitíssimo secundário. Os Estados Unidos podem colocar 5 jogadores em quadra capazes de arremessar de todo lugar, defender forte pra burro, e aí infiltrar no garrafão nos únicos momentos em que isso é possível: nos contra-ataques. O Brasil, mesmo que ainda tivesse Nenê, que volta para casa agora por estar contundido, teria dificuldades em impor um jogo de garrafão e não tem arremessadores técnicos e inteligentes o bastante para derrotar defesas por zona.

A seleção dos Estados Unidos demorou, mas eles finalmente aprenderam um troço importante: o problema não é levar para o Mundial uma seleção de restos, sem as maiores estrelas da NBA. O problema é levar os jogadores errados para as regras que irão enfrentar. Já vi seleção americana sem um único arremessador, e aí eles levam cacetada na orelha mesmo, não tem jeito. Isso também tem a ver com cultura e com as regras: como na NBA os jogadores que infiltram são beneficiados, é normal que haja uma maior admiração por eles do que pelos simples arremessadores. O Ray Allen nunca vai ter tantos fãs quanto o Dwyane Wade, é simples assim. Então muitas vezes leva-se aquela estrela fodona que não sabe arremessar de três e a equipe não funciona, quando um monte de jogadores secundárias teriam rendido muito mais. Claro que na NBA existem muitos jogadores que podem fazer de tudo ao mesmo tempo, mas levar gente focada nos arremessos é sempre o passo mais fácil para vencer no âmbito internacional. Não é mero acaso que o Carmelo Anthony, apaixonado pelo próprio arremesso, sempre acaba sendo cestinha da seleção americana, e que LeBron e Wade voltaram das Olimpíadas com arremessos de três pontos bem mais calibrados depois de tanto treino. Some a isso o fato de que a linha de três pontos na FIBA é cerca de um metro mais perto do aro do que a da NBA e teremos arremessadores muito eficazes e felizes. Não precisa levar LeBron, Carmelo, Wade e Dwight Howard, tá tudo bem colocar uns pirralhos para arremessar, como Eric Gordon, Stephen Curry, Danny Granger, Kevin Durant, e deixar qualquer manezinho dentro do garrafão mesmo. No basquete internacional, isso é o mais importante para vencer.

A FIBA parece estar ciente disso e colocou em prática algumas mudanças de regras. Pra começar, a linha de três pontos ficará mais longe uns 50 centímetros, o garrafão terá o mesmo formato retangular que o da NBA e o semi-círculo embaixo do aro será adotado. O formato atual do garrafão faz com que os jogadores tenham mais dificuldade de se aproximar da aro com um jogo de costas para a cesta, porque os 3 segundos máximos que um jogador ofensivo pode ficar no garrafão começam a contar mais cedo. Isso também leva vários pivôs europeus a arremessarem de três pontos, pra fugir do jogo lento e truncado do garrafão. Agora a vida de quem joga de costas para a cesta ficará mais tranquila, os arremessos de três ficarão mais dificultados pela distância e o semi-círculo vai recompensar um pouco os jogadores que decidirem infiltrar mais. Não sei exatamente quando as regras passam a valer oficialmente (ouvi dizer que é apenas em 2012, alguém me tira a dúvida?), mas vários torneios do mundo já estão implementando as mudanças, inclusive o NBB. Será uma ducha de água fria na nossa cultura apaixonada pelo arremesso e talvez, aos poucos, mude mesmo o nosso modo de jogar. Não ficaria nada surpreso se daqui a alguns anos a FIBA também colocasse em vigor a regra dos três segundos de defesa, de modo a abrir ainda mais o caminho para a cesta. Embora as diferenças sejam culturais e tem muita gente que gosta bem mais do basquete internacional do que do estilo de jogo da NBA, não dá pra negar que o modelo da NBA é mais dinâmico, privilegia o ataque e é muito mais popular. Se o objetivo é colocar doce na boca da criançada, o caminho é mesmo inibir a bagunça que é o garrafão do basquete internacional.

Mas, por enquanto, em que as regras da FIBA são o paraíso dos arremessadores, o basquete brasileiro ainda sofre mesmo é com a falta de arremessadores competentes e inteligentes. É curioso como nosso trabalho de base, que é limitado por verbas escassas e dificuldades culturais, parece gerar em maior quantidade jogadores enormes de garrafão e forma arremessadores sem critério ou sem a técnica de arremesso adequada. Nos arremessos, Leandrinho sempre deixou muito a desejar (antes mesmo de entrar no draft os relatos de sua mecânica esquisita já espantavam algumas equipes), e sua capacidade de infiltração é muito limitada fora da NBA, em que o garrafão é mais fechado. Seu estilo de jogo simplesmente não casa com o basquete internacional, assim como sua personalidade não casa com ser líder uma equipe como esperam que ele seja na seleção brasileira.

Engraçado é que descobri recentemente, numa entrevista da revista Dime, que o Leandrinho é quem pediu para ser trocado. Depois de tantos anos em que sair de Phoenix era o grande pavor de sua vida (lembro de um causo em que ligaram para o quarto de hotel do Leandrinho avisando que ele tinha sido trocado só de brincadeira e ele saiu chorando na frente dos colegas de equipe), parece que agora ele quer um papel maior, mais oportunidade de jogo, novas chances de ganhar minutos em quadra. Pediu para ir para o Raptors porque é amigo do engravatado Bryan Colangelo e acha que lá terá oportunidades para ser titular. Bacana. Mas mesmo essa maturidade e vontade de jogar não conseguem camuflar o fato de que Leandrinho não quer liderar uma equipe e tem uma enorme dificuldade em organizar as jogadas ofensivas de qualquer time (papel que Goran Dragic faz muito melhor e tornou o Barbosa desnecessário no Suns). Seu jogo depende da velocidade, não dos arremessos, e de receber a bola em contra-ataques, não de chamar jogadas. Seria muito tolo imaginar que ele pode chegar chutando traseiros na seleção brasileira quando tudo que acontece por ali vai contra seu estilo de jogo.

Do mesmo modo, Varejão e Splitter devem render muito bem na NBA na próxima temporada, mas serão limitados pelas possibilidades do basquete internacional. Varejão deve render muito, apesar da forma física meio baleada, quando se trata de defesa. Mas as principais armas ofensivas adversárias estarão no perímetro e, ofensivamente, Varejão não conseguirá segurar as pontas. Splitter é um jogador refinadissimo embaixo da cesta, do tipo que arrota em francês, mas a defesa por zona torna suas atuações muito mais complicadas - dificilmente conseguirá dominar uma partida por completo. Curiosamente os melhores momentos da seleção brasileira surgem quando Marcelinho "irch" Machado acerta a mira, então não dá pra esperar milagre nem do Splitter, nem da seleção - a gente já sabe que o Marcelinho vai ganhar um jogo e perder outros dois se receber sinal verde para arremessar.

Não acredito que o Splitter vai chegar na NBA chutando traseiros e dominando o garrafão do Spurs, falta físico e levará um tempo para que ele se acostume com mais contato e mais espaço para se mover perto do aro. Mas arrisco dizer, sem muito medo, que ele será eventualmente melhor na NBA do que foi na Europa, tudo graças às regras diferentes. Dar espaço para o Splitter atuar é pedir para ele te fazer de bobo, assim como o Duncan faz tão bem até hoje e terá o maior prazer (embora a cara não vá mostrar) de ensinar para o Splitter como lidar com os brutamontes que estarão lá para marcá-lo.

As notícias são boas para os brasileiros na NBA, mas no Mundial não consigo ver qualquer traço de esperança. Como expliquei em outro post, não vemos muito motivo em ficar torcendo para a seleção só porque compartilhamos as mesmas linhas imaginárias, idioma e piadinhas com a Preta Gil - mas dessa vez o sucesso da seleção apontava para uma atenção que o esporte não recebe há décadas no país e que traria recursos, incentivo e apoio para a base. Infelizmente não será dessa vez. Com ou sem Nenê, iriamos enfrentar defesas por zona incríveis durante todo o Mundial e o jogo de garrafão estaria imediatamente limitado, exigindo um preparamento ofensivo que - focado na defesa - o técnico Magnano não conseguiu colocar em prática. Sem Nenê, então, pior: perdemos defesa no garrafão e voltamos a olhar apenas para o perímetro, onde Leandrinho estará pensando em como será legal jogar na terra de seu colega Steve Nash, o Canadá, onde não terá que liderar uma equipe e nem ficar arremessando o tempo inteiro.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O time da criatividade

"Ball"

Pessoal, antes de tudo foi mal pelos dias sem atualização. Como o Danilo disse no formspring, foi uma série de fatores que nos deixaram uns dias de longe, mas já passou e estamos de volta em ritmo normal. Durante a temporada, com coisas acontecendo de verdade, garantimos que vamos fazer de tudo para manter o ritmo de um post por dia, combinado? E se não cumprirmos, foi mal, não temos palavra.

E já que estamos sem postar faz um tempo e precisamos nos redimir, vou pegar um assunto popular, o Phoenix Suns, que apesar de ter chegado na final do Oeste do ano passado e ter ficado bem perto de bater o Lakers, mudou bastante seu elenco.

Duas contratações do time a gente já tinha comentado quando aconteceram, a do Hakim Warrick e do Channing Frye. Elas podem ser lidas aqui, mas resumo aqui mesmo: o Frye saiu caro para um cara tão limitado, mas o pouco que ele faz é perfeito para o Suns e pensando só em basquete, não em grana, é importante ter ele no time. O Warrick também é limitado, mas sabe atacar a cesta e saiu barato. Vai ser uma das poucas opções do time no garrafão.

Os dois foram só o começo e estamos aqui para falar de tudo o que mudou no Suns até agora, então segura firme que o post é grande.

Como todos sabem, Amar'e Stoudemire foi para o New York Knicks. Como muitos também devem saber, ele foi o principal cestinha do Suns nos últimos anos, a única opção de pontos entre os jogadores de garrafão (tirando momentos esporádicos do Robin Lopez) e o parceiro ideal do Steve Nash no famoso pick-and-roll, a jogada de segurança do time.

Ao lembrar disso tudo não tem como não achar que a perda foi desastrosa. Por mais que ele não seja perfeito, se encaixava perfeitamente no estilo do Suns, tinha ótimo entrosamento com o Nash e é um dos melhores jogadores ofensivos de garrafão da NBA. Perder ele e não receber nenhum jogador em troca faria qualquer time despencar de nível, por melhor que fosse o resto do elenco.

Eu fiquei triste com a saída do Amar'e principalmente porque achei que ele finalmente tinha achado o seu parceiro ideal de garrafão. Durante muito tempo ele foi o pivô do time e não só ele não gostava de ficar limitado a ficar embaixo da cesta, como lá era mais difícil dele usar seu bom arremesso de meia distância e a sua infiltração, uma arma bem poderosa para conseguir pontos fáceis ou lances livres. Para tentar resolver isso chamaram o Shaquille O'Neal, mas os dois não se deram bem juntos, o time ficou lento e Amar'e participava pouco. Na temporada passada tentaram o Channing Frye, mas ele era pivô só no box score, na prática ficava na linha dos três e o Amar'e era o pivô de novo. No meio da temporada então resolveram promover o Robin Lopez para o time titular. Foi quando o Suns deslanchou e quando Stoudemire passou dos 25 pontos por jogo de média. Não seria exagero dizer que o Amar'e estava entre os dois ou três melhores jogadores da liga inteira nos últimos dois ou três meses da temporada quando jogou ao lado de Lopez.

O Robin Lopez sai bastante do garrafão para fazer corta-luz ou só para rodar a bola, abrindo espaço para o Amar'e infiltrar, coisa que o Shaq não fazia. Mas ao contrário do Frye, por exemplo, o Robin depois voltava para o garrafão para pegar rebotes de ataque, assim como ficava no rebote quando o Amar'e saía para arremessar. Os dois também eram velozes o bastante para não empacar o jogo veloz (não tão rápido quanto aquele time de 2005 e 2006, mas ainda baseado na transição) do Suns. Acontecia até do Lopez ser o responsável pelo corta-luz do pick-and-roll do Nash e o passe acabar saindo pro Amar'e! Achei um mix com enterradas do Amar'e na última temporada e é legal ver as que o Robin Lopez está em quadra, sempre abrindo espaço para o STAT. Ah, sem contar que o Robin Lopez livrava a barra do Amar'e ao sempre marcar o cara mais forte do garrafão adversário.

Triste então que bem quando a dupla perfeita de garrafão do Suns foi encontrada, também foi desfeita. E pior, assim como Lopez fazia o Amar'e parecer melhor, o contrário também era verdade. Ter Stoudemire fazendo 25 pontos por jogo disfarçava o quanto o Robin Lopez é limitado no ataque, embora seja até melhor do que parecia quando chegou na NBA. Todos perderam.

Mas como ela já estava consumada e o Suns não estava afim de entregar a rapadura e pensar em uma reestruturação geral, partiram para trocas e contratações. Hakim Warrick e Frye são bons, mas seus contratos indicavam que deveriam ser reservas, eles precisavam de um novo ala de força, de um novo parceiro para Robin Lopez. Mas quem? Chegou-se a cogitar David Lee, mas logo ele fechou com o Warriors. Bosh nem cogitou ir pra lá, Nowitzki, dizem, pensou em se juntar de novo com Steve Nash, mas preferiu ficar no forte time do Mavs. Com os grandes nomes de fora, a solução foi inovar. De novo.

Em 2005 o Phoenix Suns revolucionou a NBA com o seu ataque chamado "7 segundos ou menos". Era um sistema ofensivo em que o time tinha que definir a posse de bola em sete segundos ou menos, antes que a defesa adversária conseguisse se armar direito. Uma das coisas legais desse time era justamente usar o Stoudemire, um jogador relativamente baixo, como pivô, deixando o time mais veloz. No ano seguinte, com Amar'e machucado, o time foi além e usou Boris Diaw, que tinha sido contratado para ajudar o Nash na armação (absurdos de apenas 4 anos atrás!), como pivô! Era um time baixo, sem um cara de físico imponente e mesmo assim o melhor ataque da NBA.

Depois disso eles conseguiram surpreender ao encaixar com relativo sucesso caras que ninguém nunca apostaria que funcionariam em um sistema rápido, como Grant Hill e Shaquille O'Neal. Transformaram jogadores aleatórios em grandes arremessadores, como Jared Dudley e Channing Frye.

O Suns tem feito isso ano a ano. Sempre aparece uma dificuldade nova e eles vão arranjando as peças de reposição e organizando de maneira criativa, mantendo sempre o time rápido e ofensivo. Em alguns anos mais ofensivo e rápido que outros, mas existe uma base, um padrão. E o legal é que isso tem acontecido desde a chegada do Steve Nash e só ele sobrou daquela época! Já saíram todos os jogadores com exceção do canadense, mudaram de técnico umas três vezes e de General Manager duas. Dá até pra considerar que é o time, e não um ou outro lá dentro, que tem essa identidade. Sem as mesmas proporções, porque no exemplo que vou dar essas coisas estão acontecendo há muito mais tempo, mas me lembra um pouco o Barcelona no futebol. Mudam gerações, times inteiros, técnicos, dirigentes, mas existe uma filosofia básica que quem é contratado deve ter condição de seguir.

A base do Phoenix Suns eu definiria como velocidade, esquema de jogo ofensivo e mismatches.
Como disse antes, uns podem ser mais rápidos que outros, o esquema de jogo pode variar de acordo com as peças, mas todos são focados em fazer muitos pontos antes de pensar em defesa e sempre em velocidade. A exceção pode ter sido aquele time de 2007-08 que tentou virar o Spurs e ser certinho e só deu merda. E todos, com exceção desse mesmo time de metade da temporada 07-08, apelava para os mismatches.

Um mismatch é quando o time usa um jogador com alguma característica física ou técnica diferente do padrão para incomodar um adversário acostumado com o habitual. É colocar um armador alto para abusar dos baixinhos, um ala de força ágil para ganhar da maioria pesadona na velocidade, essas coisas. O Suns já usou Tim Thomas e Channing Frye para fazer pivôs pesadões saírem do garrafão para marcar bolas de três, fez armadores principais serem marcados por caras altos como Grant Hill, Shawn Marion ou Jared Dudley, colocou o ala Boris Diaw como um pivô passador, o mesmo Marion como um ala de força que puxava contra-ataque. E se puxar da memória dá pra achar outras bizarrices do tipo que sempre fazem o jogo contra o Suns ser diferente do normal para os adversários.

Nada mais justo, portanto, do que repôr a peça perdida em Amar'e Stoudemire com um improviso, um mismatch. Foi aí que o Suns enviou o brazuca Leandrinho para o Toronto Raptors em troca de Hedo Turkoglu.

Segundo diversos relatos de gente próxima ao Suns, a idéia é ter o Turkoglu para ele jogar na posição número 4, como um ala de força, por mais bisonho que isso possa parecer. Eles querem usar o time com Steve Nash, Jason Richardson, Grant Hill, Turkoglu e Robin Lopez para depois colocar aquele grupo de reservas que apavorou o Lakers nos playoffs da última temporada.

Turkoglu seria útil, nesse esquema, para enlouquecer os alas de força adversários, que acostumados a marcar gente com o estilo de Tim Duncan, Kevin Garnett e Zach Randolph, que são lentos e jogam perto da cesta, teriam que marcar um cara rápido, que sabe controlar a bola, driblar, passar e arremessar de três. É a velha idéia de colocar um time baixo para obrigar o outro a jogar baixo também, com a diferença que eles não estão acostumados a isso.

Outra idéia dita por lá é que com o Turkoglu em quadra, o Nash irá se desgastar menos. Durante alguns momentos do jogo, em especial quando estiverem fazendo ataques de meia quadra ao invés de transição, o Turkoglu será o armador enquanto o Nash irá se posicionar para fazer outra coisa que sabe muito bem: arremessar. Mas que fique claro, ninguém confirmou que isso vai acontecer, a idéia pode ser jogada no lixo depois de um mês se der errado.

Mas se eu tiver que apostar, acho que vai dar muito certo. Provavelmente não tão certo quanto manter o Amar'e Stoudemire e ter um cara que faça pontos no garrafão (isso vai fazer falta, pode ter certeza), não tão certo a ponto de brigar pelo título, mas o suficiente para fazer com que, de novo, a gente sinta aquela vontade de ver jogos do Suns ao invés dos outros times. Vai ser outro Phoenix Suns estranho, improvisado, criativo e inovador.

E uma coisa legal é que o Suns não perdeu quase nada para conseguir essa revolução tática que pode manter o time na elite do Oeste mesmo depois de perder sua estrela. O Leandrinho é bom, não me entendam mal, mas ele simplesmente não era mais necessário por lá. Até por isso a troca foi boa pra ele também! Com o crescimento alucinante do Goran Dragic, ficou desnecessário usar o Leandrinho como reserva do Nash. E com o Jason Richardson acertando tantos arremessos quanto o Barbosa, e o Dudley marcando bem melhor do que ele, sobravam apenas alguns minutos por jogo para o brasileiro. Mesmo quando ele jogava bem, era por poucos minutos. Ele foi um daqueles casos de bom funcionário que perdeu o emprego depois que ninguém sentiu falta dele nas férias.

No Toronto, Leandrinho provavelmente não vai ser titular, de novo não por falta de talento, mas porque o Raptors, sem esperança de ir longe, vai querer dar o máximo de tempo de jogo possível para a prata da casa e esperança do futuro, DeMar DeRozan. Mesmo assim ele terá mais espaço e menos concorrência lá do que em Phoenix. E tempo regular de quadra é só do que ele precisa para voltar a chamar a atenção da NBA. Ao voltar a fazer o que fazia antes, provavelmente vai conseguir um bom contrato quando virar Free Agent. Já estamos cansados de falar que o Leandrinho tem uma renca de defeitos no seu jogo, principalmente a defesa, mas ele pode muito mais do que fez na temporada passada. Um bom mundial pela seleção brasileira e um recomeço no Raptors pode ser o que ele precisava para voltar aos bons tempos. Mas vamos esperar que ele não fique muito bravo em perder, no Suns estava acostumado a ganhar e nesse ano o Raptors tem tudo pra ser saco de pancadas.

A última contratação do Suns para a temporada foi o Josh Childress, dono de um dos penteados mais legais da última década na NBA e que passou as últimas duas temporadas jogando na Grécia. Vi pouco o Childress jogar nos últimos anos se comparado ao que vi de jogadores da NBA, mas pelo que deu pra acompanhar ele só melhorou nos dois anos jogando na Europa. Childress é o exemplo perfeito para a definição "all-around player". Faz um pouco de tudo e faz tudo bem, deve ser um coringa nesse time do Suns. Pode ser o segundo armador titular se o time precisar de mais defesa, pode ser o ala titular se eles preferirem deixar o Grant Hill como organizador do time reserva ou pode mesmo ser reserva, fazendo o papel de segundo responsável pela armação que o Turkoglu fará no time titular. Foi uma ótima contratação, jogadores completos e inteligentes como o Childress são essenciais em equipes que gostam de inovar em esquemas táticos.

A nota triste da offseason do Suns é que eles decidiram não renovar o contrato do Louis Amundson! Ter Nash, Amundson, Robin Lopez e Childress no mesmo time deixaria o Suns como o time com maior força capilar (parente não muito distante da Força Nominal) desde a seleção da Romênia da Copa de 98, quando todo mundo descoloriu o cabelo ao passar da primeira fase.























Minha aposta para o começo de temporada do Suns é a seguinte rotação:

PG: Steve Nash / Goran Dragic
SG: Jason Richardson / Josh Childress
SF: Grant Hill / Jared Dudley
PF: Hedo Turkoglu / Hakim Warrick
C: Robin Lopez / Channing Frye

Mas atenção para possíveis entradas de Warrick ou Frye caso a experiência usando o Turkoglu como point-forward não dê certo e também com a ameaça do Josh Childress sobre Jason Richardson e Grant Hill, nenhum dos dois são intocáveis no time titular.

Não gosto de dar nota para a offseason dos times como muitos sites americanos fazem, não acho justo. O Suns, por exemplo, já recebeu muitas notas baixas por ter perdido o Amar'e, mas eles ofereceram um contrato enorme pra ele, que simplesmente achou que era a hora de sair e tentar vida nova em Nova York, não dá pra culpar o time por uma atitude que foi totalmente do jogador. Então acho que apesar do time ter tudo para ser pior do que o do ano passado, principalmente por não ter força no garrafão, a offseason foi boa. Dentro das limitações salariais e frente à perda de um Free Agent, se viraram muito bem. Perderam apenas uma escolha de 2ª rodada e Leandrinho para ter os multi-uso Turkoglu e Childress, ótimos negócios.

Como primeiro passo foi muito bom e criativo, mas julgaremos de novo daqui uns meses quando as peças começarem a ser treinadas para formar um time.