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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Por pouco de novo

Scola quer seu abraço, vai lá, campeão!


Eu gostaria muito de ter escrito aqui antes do jogo entre Brasil e Argentina a conversa que tive com o Felipe, nosso webdesigner. Saímos para bater um basquete na segunda-feira e conversando sobre o jogo da seleção eu disse: "Acho que o Brasil ganha. Mas pra isso a gente tem que abrir uma vantagem e administrar ela no final. Se chegar no fim do jogo empatado, o Scola vai acertar tudo pra Argentina e o Leandrinho vai errar pro Brasil".

Juro por Lady Gaga que eu disse isso. Deveria ter postado aqui para pagar de adivinho, porque foi isso o que aconteceu. O jogo foi disputadíssimo desde o primeiro segundo até o último, mas quando era para decidir, o Scola simplesmente não errou. Seja bem marcado, mal marcado, contestado, no arremesso, na bandeja e por fim, pra fechar o caixão, até quando tentou errar um lance livre.

Sobre a Argentina, não achei que fizeram nada de novo, fizeram o que a gente disse desde o começo. Todo o time é inteligente, todo mundo sabe o que fazer em quadra, cometem poucas bobagens e compensam a falta de pontuadores com o Luis Scola. Eventualmente o Carlos Delfino tem boas noites de pontuação e para o azar dos brazucas, o jogo de ontem foi uma delas. Outra zica brasileira foi ter a volta do Fabricio Oberto, que apesar de bem mais lento e velho do que em seu auge, quebra um galho enorme para o Scola com seu bom passe e aproveitamento embaixo da cesta.

O Ruben Magnano tentou parar o Scola usando o Tiago Splitter, o Anderson Varejão, o Guilherme e até o Marquinhos. Tentou trocar a marcação no pick-and-pop, tentou não trocar, tentou macumba e só não apelou para as armas de fogo porque é um gentleman. Tem dias em que não dá certo mesmo. Em algumas jogadas a gente vacilou, é verdade, mas no geral não perdemos o jogo porque marcamos mal o Scola.

Aliás, perder esse jogo não foi nenhuma desgraça. Foi um jogo disputado em que a grande estrela da partida, o melhor jogador em quadra, resolveu a parada nos minutos decisivos, nada mais natural no basquete. Sem contar que nos classificamos em terceiro no nosso grupo e eles em segundo, apesar dos times em nível técnico parecido, não foi absurdo perder o jogo, na teoria eles eram mesmo os favoritos. Mas no que devemos pensar não é só nesse jogo, mas no total do torneio. O Brasil venceu 3 jogos e perdeu outros 3. Os três vencidos foram lavadas, abrimos diferença e matamos o jogo. As três derrotas foram resultados apertados, jogos decididos no último minuto. Quando acontece três vezes em uma semana não é coincidência. O que faltou para o Brasil nesse mundial foi saber decidir jogos. Só.

A defesa do Brasil não é perfeita, mas não consigo imaginar nada melhor desse elenco. Até jogadores que sempre foram criticados (por nós também) por serem defensores fracos tiveram momentos ótimos, como Marcelinho Huertas, o Machado e o Leandrinho. Reafirmo aqui que nunca vi (e provavelmente nunca vou ver) o Barbosa marcando tão bem quanto naquele jogo contra os EUA. O ataque também esteve do jeito que sempre sonhamos. Não temos o nosso Scola/Nowitzki/Durant para colocar a bola na mão e esperar os dois pontos acontecerem de alguma forma, mas o lado bom é que dessa vez sabíamos disso. Em campanhas passadas ficávamos esperando milagres ofensivos de Leandrinho, Marcelinho e Tiago Splitter e eles não apareciam. Dessa vez colocamos a mão da nossa grande estrela no torneio, Huertas, e executamos um ataque coletivo e bem pensado. Quase chorei hoje quando vi que em todo o primeiro tempo a seleção havia cometido apenas 3 erros no ataque. Antigamente eram 3 erros a cada 5 minutos de jogo, geralmente tentando forçar alguma jogada individual idiota.

Temos um bom elenco que demonstrou muita vontade, raça e disciplina. Um técnico que entende de basquete, tem comando sobre o grupo e que melhorou o ataque e a defesa do time. Parece piada dizer isso, mas é verdade: o time melhorou em tudo, agora só falta ganhar.

Saber ganhar jogos apertados é difícil. Até porque muitas vezes é uma questão individual, não de treino coletivo, instrução do técnico. Claro que ter um mongolóide no banco não vai ajudar, mas é o momento do jogo com a defesa mais apertada, jogadores mais tensos e juízes dispostos a deixar o jogo rolar. Não é à toa que os jogos costumam ser decididos em jogadas simples, como uma isolação, um pick-and-roll ou um bloqueio para arremesso. A Argentina usou muitas jogadas durante o jogo inteiro, tanto que no último quarto vimos até Oberto e Jasen aparecerem no ataque, mas quando o bicho pegou foi só pick-and-pop com o Scola ou a isolação dele contra algum marcador brasileiro. Já o Brasil parecia não saber o que decidir, e errou dando a bola na mão de Leandrinho, que tem muitos talentos, mas definitivamente decidir que jogada fazer não é um deles. Quanto menos ele tem a bola na mão, melhor.

Outro que não pode decidir jogos é o Tiago Splitter, e o Brasil também tentou ele na hora H. Geralmente jogadores de garrafão só conseguem decidir jogos em equipes que tem arremessadores muito bons em volta deles. Pensa bem, o Splitter está empurrando o Oberto para perto da cesta e você está marcando o Marquinhos ou o Alex, o que você faz? Corre para forçar um erro do Splitter ou deixa ele marcar a cesta só para não deixar os dois livres? Deixa livre, claro! Se o Splitter conseguir dar o passe, dane-se, qual a chance do Alex acertar uma bola de três? E pior, qual a chance dele acertar com a pressão do fim do jogo? Quase zero. Quem acompanha NBA pode ver isso muito bem. Às vezes o pivô do time é a estrela, mas quem decide é o cara do perímetro. Até porque em fim de jogos os juízes costumam deixar a pancadaria rolar um pouco mais e isso só dificulta o trabalho dos pivôs, que também têm aproveitamento pior nos lances livres. No Lakers o Shaq recebia pouco a bola no fim dos jogos porque ele sofria faltas de propósito, já que fede na linha de lance livre.

Claro que existem exceções, mas todas tem explicação. O Scola e o Nowitzki são jogadores completos. Eles podem receber e bola em fim de jogo porque se precisar eles nem entram no garrafão e resolvem a parada com um arremesso de longe, além de serem bons no lance livre. Outros como o Duncan e o Garnett são passadores acima da média e costumam ter bons arremessadores no time. É só buscar vídeos de qualquer título do Spurs e ver os jogos, quando se arriscavam a dobrar a marcação no Duncan no fim dos jogos ele entregava a bola para Steve Kerr, Stephen Jackson, Manu Ginobili, Bruce Bowen ou qualquer outro grande arremessador que o acompanhou na carreira. O Brasil não tem esses arremessadores, Splitter não é um grande passador e ele não é efetivo quando recebe a bola longe da cesta.

Para a partida de hoje em especial, acho que a melhor decisão teria sido deixar o Marcelinho Huertas trabalhando com vários bloqueios para achar espaço no garrafão. Ele estava com a mão calibrada, confiante e claramente muito motivado. Fez a partida da sua vida e eu esperava ver a paz no Oriente Médio antes de ver ele fazer 32 pontos num jogo, mas foi o que aconteceu. De qualquer forma, seria uma solução para hoje, isso não vai acontecer sempre.

Falando em momentos decisivos, lembrei de um caso interessante na NBA, o Los Angeles Clippers. Infelizmente não tenho mais os números, mas vale pelo caso. Na temporada 2004-05, o Clippers liderou a liga em jogos perdidos por 5 pontos ou menos (ou eram 3 pontos? Jogos apertados, enfim). Era um número assustador de derrotas no fim do jogo. Aquele time tinha o Marko Jaric (o puto que é CASADO com essa deusa) na sua melhor temporada na NBA, Bobby Simmons no único ano em que foi decente, Corey Maggette, Chris Kaman bem pivete e Elton Brand na época em que ainda fazia 20 pontos e 10 rebotes todo jogo. Parecia bom, mas não vencia no final.

No ano seguinte conseguiram a pechicha de trocar Jaric-Lima pelo muso Sam Cassell. Aproveitaram e conseguiram uma troca por Cuttino Mobley, o experiente arremessador que fez história como parceiro e amigo de Steve Francis no Houston Rockets. Com a dupla experiente o Clippers passou a ser um dos times que mais venceu jogos apertados na NBA. E assim chegou aos playoffs, à semi-final do Oeste, e só foi eliminado no jogo 7 pelo Phoenix Suns. Era dito por todos os jogadores e era óbvio para quem via os jogos que a razão da mudança era a presença de dois jogadores experientes e bons na decisão. Quando precisava armar, Cassell armava, no fim do jogo, quando precisavam de pontos, ele ia lá e fazia seu arremesso tradicional, o step back, e matava a parada.



Falta para o Brasil ter esse Sam Cassell para matar as partidas decisivas. Ele poderia ter vencido Argentina, a Eslovênia e os EUA. E ele não é Leandrinho, Huertas, Marquinhos ou qualquer um que estava no elenco desse Mundial. Acho que o Brasil tem seu melhor time em muito tempo, talvez o melhor dos últimos 15 anos, mas com esse pequeno e muito decisivo defeito.

Citando o gênio Dunga, qual o legado dessa seleção? Podemos ver por dois lados, o do time, pensando em resultados; e o social. Para o lado do time não tem legado, foi só o primeiro campeonato importante e serviu para mostrar na prática nossos defeitos e qualidades. Deu pra ver que sonhar com medalha é demais mas com Olimpíada é bem real.

Pelo lado social foi mais importante, mas ainda pequeno. Aquela quase-vitória sobre os EUA deve ter feito muita gente que ignorava o basquete desde o Oscar falar sobre o esporte, e motivado algumas pessoas até a bater uma bolinha. Isso é uma grande coisa. Lembro que comecei a querer jogar tênis quando as TVs começaram a passar jogos do Guga. Não precisei de muito tempo para começar a gostar mais do esporte do que do Guga, aliás torcia até mais para o Patrick Rafter, por ser fã de um bom saque-e-voleio. Mas foi com um brasileiro na mídia que eu tive o primeiro contato com o esporte.

Acredito que a seleção ter bons resultados seja importante para isso. Não torço para o Brasil vencer por amor à nossa pátria, sei que incomoda muita gente mas não dou a mínima pra isso, torço pelo efeito que esses bons resultados podem trazer para o esporte. Gostaria, por exemplo, de descobrir na próxima temporada da NBA um leitor do blog que está começando a acompanhar a liga americana depois de ter se encantando com o Scola na partida de ontem. A presença da seleção nacional chama a atenção e depois o basquete bem jogado por alguém (seja lá em que território esse cara nasceu) conquista o torcedor. É uma fórmula simples e que parece bem encaminhada. Sem contusões e pensando em uma solução para não perder todos os jogos apertados, o Brasil deve estar na briga com os grandes em todas as próximas grandes competições.

domingo, 7 de março de 2010

A era dos veadinhos

Aquela ponto laranja na cabeça do Jennings é seu cabelo


Não resisti a colocar esse título ridículo, desculpem. Mas é que quando a gente vai se dar ao trabalho de falar do Bucks de novo? Entre os times que vivem grande fase na NBA, o Bucks é a maior surpresa. O Dallas tem 11 vitórias seguidas, mas era de se esperar já que o time já era bom e adicionou Caron Butler e Brendan Haywood. O Magic vive sua melhor fase na temporada, mas também não é surpresa já que o time tem um elenco recheado de talento, bastava o Vince Carter jogar o que sabe para eles deslancharem. Mas e o Bucks? Alguém realmente achava que eles tinham chance de playoff quando caíram para a nona colocação da conferência algumas semanas atrás?

Pra mim o Leste já estava bem decidido. Os 4 primeiros seriam Cavs, Magic, Hawks e Celtics. Depois viria o Raptors, que finalmente tinha aprendido a defender o bastante para vencer jogos de basquete em nível profissional, depois o Heat, que com o Wade não teria como ficar de fora dos playoffs e, para fechar, os bons times do Bulls e do Bobcats.

As coisas começaram a mudar quando o técnico (e chato) Scott Skiles resolveu fazer algumas mudanças no time. Insatisfeito com o aproveitamento cada vez pior dos arremessos de Brandon Jennings, chamou o garoto de lado e pediu para ele ser mais armador do que pontuador. Difícil pedir isso para o seu melhor pontuador que está cercado de jogadores irregulares no ataque como Luc Mbah a Moute, Carlos Delfino e Andrew Bogut. Mas acabou sendo uma decisão perfeita. Com o Jennings se preocupando mais em passar e usando sua habilidade na infiltração para os passes, o time começou a acertar mais bolas de três e Bogut começou a viver a melhor fase da carreira.

Embora o pivô australiano pareça ser ruim porque é, afinal, um pivô australiano, ele é bem talentoso no ataque. Ele funciona muito melhor em ataques velozes, onde pode usar sua agilidade, do que naquele ataque filmado pela supercâmera que o Bucks usava até um tempo atrás. Com o time mais dinâmico ele apareceu muito mais e tem sido a peça mais importante do ataque do Bucks nos últimos 20 jogos.

Nas últimas 20 partidas o Bucks tem 15 vitórias e 5 derrotas, um aproveitamento digno dos melhores times de toda a liga. E no meio dessa sequência é que houve aquele dia em que a NBA virou casa de swing e todo mundo foi trocado. Na putaria o Bucks acabou perdendo um sapato, a cueca furada, mas levou pra casa o John Salmons.

O Salmons não é nenhum deus, nunca vai ser um All-Star, não é grande defensor ou passador e nem é bonito. Mas sabe fazer uma coisa muito bem: pontos. E embora os pontos pareçam ser muito mais importantes que outra função como roubos ou tocos, quando você só faz pontos você entra na categoria de especialistas, como o Chris Andersen é um especialista em tocos ou o Quentin Richardson um especialista em bolas de 3. Da mesma maneira que os dois tocos por jogo do Andersen não serviriam de nada em um time que não defende, o Salmons não faria grande diferença em um time que já tem muitas opções de pontos, ele seria mais um. Mas no Bucks ele era exatamente o que eles precisavam!

Tem um tipo de arremesso que eu chamo de arremesso McDonald's. Sabe quando você vai sair com o pessoal e um quer ir na balada, outro no barzinho, outro no karaoke, outro no fliperama e como ninguém decide nada a última opção é um bom e velho McDonald's? Tem algumas posses de bola onde o armador não consegue nada, o pivô não consegue nada, ninguém fica livre e só resta uma última e básica opção, isolar alguém para dar um drible simples e arremessar. Todo time que se preza tem um cara pra fazer isso, mas o Bucks não tinha. Eles tentavam usar o Jennings, mas nem sempre ele conseguia ser esse cara porque ele já é o cara que estava tentando armar a jogada antes, que queria ir no karaoke e não conseguiu. Apareceu então o Salmons, um cara muito bom no arremesso depois do drible e que sabe chutar de três.

Com esses talentos o Salmons já chegou decidindo jogos no Bucks. O mala do Skiles claro que não deixou barato e soltou a pérola de que o Salmons tinha jogado bem "para alguém que não sabia o que estava fazendo em quadra". Algo como dizer "Você é muito inteligente, considerando que você é uma mulher". O negócio é ignorar, o Skiles é bem metódico com sua defesa e com como as coisas são feitas em quadra e qualquer jogador que chegasse no meio da temporada não saberia de nada disso, o importante é que o Salmons ajudou mesmo assim e só o fez por ser exatamente o que o time precisava.

Com essa sequência de vitórias o Bucks hoje já está perto do Raptors no quinto lugar do Leste! Deixou Heat, Bobcats e Bulls pra trás. Eu, sinceramente, torço para que nessa briga o Bulls fique de fora. Sou fã de Derrick Rose e Luol Deng mas o time tem que pagar pelas decisões que tomou. Trocaram Tyrus Thomas e John Salmons apenas para ter espaço salarial no ano que vem, mandou cada um para um rival direto na classificação para os playoffs e só pensou na próxima temporada o tempo todo, que se ferrem nessa então!

Espero que os times que tenham pensado nessa temporada sejam recompensados por isso e vão para os playoffs, até porque Bobcats e Bucks são dois times que lutam há anos por uma vaga na pós-temporada e fazem isso sem conseguir atrair nenhum nome de peso para seu elenco. São dois remanescentes da escola Pistons de se montar um time, com muitos role players e defesa. E para um playoff ter graça, precisa de todos os personagens, desde os times de puro ataque como o Suns, os chatos como o Spurs, os convencidos como o Lakers, os mal-encarados como o Nuggets e o pequeno trabalhador esforçado como Bucks e Bobocats.

Na sequência de 20 jogos o Bucks só teve duas derrotas inaceitáveis. Perdeu um jogo para o fraco Pistons e outro para o Rockets, não é que o Houston seja ruim, mas tomar 127 pontos em casa é motivo de vergonha. As outras derrotas foram para Hawks, Mavericks e Magic, todos times com melhor recorde, elenco e que jogaram em casa.

Já falei da mudança de estilo de jogo do Jennings, que favoreceu o Bogut, e da adição do Salmons, mas o segredo do sucesso desse time desde o primeiro jogo da temporada, o que segurou eles perto da zona dos playoffs mesmo nos momentos mais complicados do ano, foi a defesa. Atualmente o Bucks é o terceiro colocado no ranking de defesa que mede o número de pontos sofridos a cada 100 posses de bola, um número assustador para um elenco que não tem nenhum especialista em defesa. Talvez o Mbah a Moute esteja acima de média, mas o resto é Jennings, Bogut, Ridnour, Delfino, todos jogadores que passaram a carreira ouvindo que não defendiam bem, que eram soft, um jeito simpático de dizer que eles são mariquinhas.

Mas outro número me impressionou mais. O site Hoopdata tem os números de aproveitamento das equipes em todos os tipos de arremesso, desde os mais próximos da cesta até os mais distantes. O Bucks, sem ter nenhum bloqueador nato em seu elenco, é a sétima melhor equipe em defender os arremessos próximos à cesta. O Lakers, com Gasol e Bynum, fica atrás do Bucks na hora de defender os arremessos dados perto do aro, como os ganchos dos pivôs ou as infiltrações dos armadores. E dos 6 times que estão na frente do Bucks ainda podemos tirar o Pacers, que apesar do aproveitamento baixo dos seus adversários é um dos times que mais comete faltas e sofre pontos de lances livres, ou seja, o adversário não faz os pontos na bandeja mas faz no lance livre.

Para terminar, o Bucks é o quarto time que mais força turnovers em toda a NBA, atrás apenas de Celtics, Bobcats e do Warriors, que só é líder por jogar na defesa como se jogasse NBA Live, tentando roubar bolas o tempo inteiro e deixando o adversário dar 10 enterradas livres no processo.

Que fique claro que o Bucks merece muitos créditos por estar na situação em que está, parecia piada pensar no Bucks lutando pela quinta vaga do Leste no começo da temporada, mas mesmo assim devemos reconhecer que o time ainda é limitado. Aproveitei para falar deles agora porque a sequência de 20 jogos foi impressionante, mas será difícil manter o ritmo agora que pegam, em sequência, Celtics e Jazz e, na semana seguinte, Nuggets e Hawks. Mas provavelmente eles já estão jogando bem o bastante para relaxar um pouco e deixar a briga pela última vaga no Leste para Bobcats e Bulls. Na briga com Tyreke Evans, Stephen Curry e Darren Collison, o Jennings vai poder se gabar pelo menos de ser o primeiro deles a jogar um jogo de pós-temporada.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O mesmo filme

"Dá um beijinho no titio, dá!"


Sexta-feira é sempre um bom dia para fingir diarréia para o chefe ou febre para a mamãe. Aí dá pra ficar três dias de folga e ter aquela sensação de amostra grátis de férias, ou de feriado prolongado. Com semi-finais de basquete olímpico na televisão, então, melhor ainda. Quem saiu de debaixo das cobertas hoje de manhã é a mulher do padre, e tenho dito.

Em geral eu não costumo torcer em jogos internacionais, fico só apreciando a beleza da coisa (ou resmungando com a chatice da coisa, depende do meu humor) com cara de pseudo-intelectual, mas na partida entre Lituânia e Espanha fiquei no aconchego da cama me exaltando um bocado. Minha lógica interna era a seguinte: o filme "Estados Unidos versus Espanha" eu já assisti, já sei qual vai ser o final, quais vão ser os momentos divertidos e conheço bem todos os atores envolvidos. Mas o filme "Lituânia versus Estados Unidos" ainda é inédito, não estreiou nessas Olimpíadas e mesmo que você já saiba o final logo de cara (tipo "Titanic"), pelo menos vai ter um ar de novidade. Ou seja, torci para os lituanos e declarei meu amor pelo Sarunas Jasikevicius, mas em voz baixa - já sou zoado o bastante pelo suposto fetiche por gigantes chineses, não preciso de um novo suposto fetiche por lituanos de nomes esquisitos.

O Jasikevicius sempre foi uma incógnita para mim: joga demais nas competições internacionais e fedeu demais na NBA. Até aí a história é meio comum, mas o "joga demais" do Jasikevicius não é o mesmo "joga demais" de, por exemplo, Carlos Arroyo, que chuta traseiros pela seleção de Porto Rico. Jasikevicius tem um jogo que visivelmente se traduziria bem para a NBA, bom nas infiltrações, especialista nas bolas de 3 pontos, inteligente, solidário e extremamente competente jogando em velocidade, puxando contra-ataques. Dia desses vi a primeira declaração do lituano sobre sua passagem pela NBA, e foram afirmações cheias de ódio e rancor. Segundo ele, o técnico Rick Carlisle, à frente do Pacers na época, prometeu que Jasikevicius teria muitos minutos e encontraria no time total apoio e um estilo de jogo veloz que seria perfeito para o tipo de jogo do lituano. Na prática, Jasikevicius teve pouquíssimas chances, passou dois anos esquentando banco e o estilo de jogo do Pacers era mais lento do que o Kwame Brown resolvendo sudoku. Quando foi trocado para o Warriors, lugar em que todos os funcionários devem ter "correr" no currículo, acabou sofrendo nas mãos de Don Nelson - o velho louco que não gosta muito de sangue novo no pedaço. Depois do trauma, voltou correndo para a Europa e nunca mais se aproximou novamente daquele mundo de mentiras, falsas promessas e Big Macs.

Longe de Golden State ou Indiana, Jasikevicius joga um absurdo e contra a Espanha fez um pouquinho de tudo - pontos, rebotes, roubos, assistências - para tentar parar Pau Gasol e seus amigos. Como descobri uns dias atrás, o time espanhol teve o pior aproveitamento nas bolas de 3 pontos da primeira fase, e a tendência se manteve contra a Lituânia: foram apenas 4 acertos em 16 tentativas. Ainda assim, o trabalho no garrafão foi sólido, os espanhóis foram agressivos e acabaram cobrando 9 milhões de lances livres durante a partida. A Lituânia continuou mais do que competente nas bolas de 3, mas não resistiu à agressividade espanhola: três lituanos foram desqualificados com 5 faltas. A cada vez que eu piscava, mais um espanhol estava na linha dos lances livres.

O jogo foi de alto nível, bastante disputado, mas mesmo dentro da minha torcida não cheguei a acreditar por nenhum segundo que a Espanha perderia o controle da partida. Tudo isso, vale lembrar, sem Jose Calderon, o armador futura-estrela do Raptors, que está contundido. O rapaz faz muita falta principalmente nos arremessos de fora. Seu reserva Ricky Rubio foi titular e jogou muito bem para alguém que não tem ainda nenhum pêlo no saco, mas não converteu nenhum arremesso, errando quatro bolas de 3 pontos. Também não posso deixar de mencionar que a Espanha ganhou o jogo mesmo com o Marc Gasol sendo uma farsa. Imagina se o pirralho fosse bom de verdade.

Juro que não entendo. O Grizzlies fez questão de incluir o Marc, que tinha seus direitos ligados ao Lakers, na troca do Pau Gasol. Kobe Bryant, dia desses, estava conversando com Jason Kidd e chegaram juntos à conclusão de que o Marc sabe jogar basquete como poucos, que ele entende bem o jogo e que o Lakers deveria ter dado um jeito de mantê-lo na equipe. Como diria o João Kléber, "pára pára pára pára!" Vocês estão falando do mesmo Marc que eu? Será que não estão confundindo com o Pau Gasol, afinal branquelo alto de barba é tudo igual? Me resta acreditar que eles estão falando sobre um excelente jogador chamado Marc Gasol que foi engolido por um cara muito gordo que, depoisdo crime, adotou seu nome. O gordo que devorou o jogador de basquete é o sujeito fedendo na seleção espanhola e ninguém percebeu. Os Estados Unidos, claro, vão enfrentar a Espanha na final. Se o Marc Gasol não mostrar algum tipo de genialidade contra os americanos, desisto de entender esse esporte idiota.

O direito americano de ir para a final veio num duelo semi-épico contra a Argentina. Foi épico porque foi um bom jogo e os Estados Unidos tiveram trabalho. Foi semi porque em nenhum momento a Argentina pareceu que iria de fato tomar a liderança do placar. Como argentino curte um pouco de choro, durante os próximos quatro anos vamos ouvir que a culpa pra essa derrota foi a ausência de Manu Ginobili, que saiu no primeiro quarto contundido. Confesso que passei o jogo inteiro esperando ele voltar a qualquer momento, de maneira heróica, porque achei que ele tivesse simulado a contusão. Não é culpa minha, o Ginobili é que construiu essa fama. Acho que se eu o encontrasse baleado, arrebentado, com um braço arrancado na rua, iria achar que ele está fingindo. Safado.

Verdade seja dita, o sangue frio e as ginobiladas características do argentino astro do Spurs teriam feito uma diferença brutal no jogo, mas dificilmente teriam alterado o resultado final. Tudo por culpa do início desastroso da seleção argentina. Durante as Olimpíadas, a Argentina não usou a marcação por zona em nenhum momento sequer, guardando a arma secreta para momentos importantes - e para o confronto contra os Estados Unidos. Estranhamente, começou o jogo contra os americanos com uma marcação individual, homem-a-homem, e topou uma lavada. Depois de alguns minutos, perdendo por trocentos pontos e tendo tomado um 18 a 0 em poucas piscadelas, a Argentina resolveu marcar por zona. Só assim conseguiu incomodar brutalmente os americanos, que não sabiam como infiltrar, quando passar e quando arremessar. Forçaram bolas de longe desnecessárias, ficaram perdidos e erraram passes de forma grosseira. Michael Redd ficou em quadra por meia dúzia de segundos mas não mais que isso, deve ser aposta. Com isso, a Argentina se recuperou bem mas Jason Kidd voltou para quadra, segurou o ritmo do jogo, administrou os passes e as bolas de 3 pontos dos Estados Unidos começaram a cair. O tempo que os americanos precisaram para se acostumar com a defesa por zona não foi o suficiente para que os argentinos recuperassem a diferença gigante no placar que havia se instaurado. Por que diabos não começaram marcando por zona? Sem Ginobili, com uma defasagem mosntruosa no placar, o jogo já estava perdido. A zona não funcionou por muito tempo, Scola não foi o suficiente apesar de uma brilhante atuação e Carlos Delfino não acertou nada de longe, ao contrário do jogo anterior. Adiós, hermanos.

Mérito, claro, da preparação da seleção americana para enfrentar defesas por zona, inteligência e raciocínio rápido da comissão técnica, e comprometimento tático de cada um dos jogadores. Por alguns minutos, os americanos jogaram sem pivô, apresentando em quadra um quinteto de Kidd, Wade, Kobe, Carmelo e LeBron. O impacto que essa escalação teve nos rebotes ofensivos e na velocidade dos passes transformou a zona argentina. Carmelo Anthony, um bocado sem cabeça e muito interessado numa pancadaria, jogou dentro do garrafão com agressividade e cobrou 2 milhões e meio de lances livres. Chris Paul foi essencial batendo para dentro do garrafão, mas foi Jason Kidd quem explicou sua própria presença em Pequim com essa partida. Sua calma e maturidade para controlar os passes velozes necessários para lidar com esse tipo de marcação foram essenciais para o resto do elenco. Ainda assim, não resta nenhuma dúvida que cada um dos jogadores americanos em quadra estava visivelmente incomodado pela marcação por zona. Nenhum arremesso de 3 pontos vinha sem que se pensasse duas vezes e os que vinham pareciam precipitados.

Fica a dica para a Espanha, claro. Eu não estou com nenhuma vontade de ver o mesmo filme. Resta torcer para uma forte marcação por zona espanhola, uma atuação maravilhosa de Pau Gasol e nenhuma contusão no elenco. Só assim teremos um pouquinho de emoção numa Olimpíada que parece, cada vez mais, ter um final mais batido do que Titanic. Mas sem a graça de ver o Leonardo Di Caprio morrendo no final.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O dia das bolas de longe

Pertinho da cesta assim, até eu fazia


Hoje foi um dia para Antoine Walker sorrir em sua casa, encostando sua cabeça-de-lego numa almofada confortável. Ele, que quando dorme sonha com bolas de três pontos sendo arremessadas, deve ter ficado orgulhoso das partidas das quartas-de-final. Afinal, arremessar de perto da cesta é um troço muito superestimado.

O primeiro jogo, entre Espanha e Croácia, não seguiu o padrão das bolas de longe mas como foi bem no meio da madrugada ninguém nem teria percebido se eu não tivesse avisado. Eu passei a maior parte do jogo pescando, mas é mais estiloso dizer que eu "aproveitei os momentos menos carregados em emoção para reestabelecer minha carga de energia física de modo a estar preparado para os jogos posteriores". Verdade seja dita, a emoção nem passou perto desse jogo porque o Pau Gasol engoliu, simples assim. Tchau, Croácia.

Lituânia e China veio na sequência e inaugurou o padrão Antoine Walker do dia. Não deixe o placar de 94 a 68 para a Lituânia te enganar, foi um jogo muito disputado, parelho, digno, íntegro e bem asseado. Ainda que atrás no marcador, os chineses mantiveram um ritmo forte e não deixaram os lituanos respirarem aliviados durante a maior parte do jogo. Mas aí no segundo tempo, começou a palhaçada: Yao Ming tocava na bola e imediatamente sofria falta, cobrava os lances livres e fazia dois pontos; como resposta a Lituânia ia para o ataque e metia uma bola de 3 pontos, sem nenhuma dificuldade. Posse de bola seguinte, falta no Yao, bola de 3 pontos lituana. Faça as contas, pode chamar sua irmãzinha de 5 anos para ajudar: 3-2=1, o que significa que de um em um a Lituânia foi construindo uma vantagem. É como dizem, "de grão em grão a galinha come dois grãos".

Só que às vezes o Yao não tocava na bola e, logo, não sofria falta. Alguém da China errava um arremesso e a Lituânia, ao invés de variar também, metia mais uma daquelas bolas de 3 pontos. Foram 13 bolas no jogo em 31 tentativas, a maioria justamente em grandes momentos da seleção da China, tudo no segundo tempo. Sarunas Jasikevicius, o gênio que fedeu na NBA, acertou 5 das 6 bolas que tentou de longa distância e simplesmente parecia incapaz de errar. Pra falar a verdade, só fui notar que ele errou um arremesso depois, conferindo o boxscore. Frente a esse volume de jogo, nenhuma equipe teria sido páreo para a Lituânia - muito menos a China, que fede pra burro e até eles sabem. A derrota foi merecida e, até certo momento, honrada. Era mais do que Yao poderia pedir.

Foi o mesmo que aconteceu no jogo posterior, entre Estados Unidos e Austrália. No começo do jogo, as bolas de 3 pontos da Austrália não paravam de cair, aquele Patrick Mills (que joga no basquete universitário dos Estados Unidos e é cotado para estar no draft em 2010) chutou uns traseiros e a partida ficou bastante honrada, também. Os americanos falharam nos mesmos quesitos de sempre - lances livres e bolas de longe - e se não fosse por erros grotescos daquele tal de Andersen, que errou mais cestas livres do que tem de neurônios no cérebro, a Austrália poderia até ter acabado o primeiro tempo na frente. Mas depois disso, meninos e meninas, as bolas de 3 americanas começaram a cair. Como eles provaram contra a Espanha, não há nada a se fazer contra os Estados Unidos se eles estão acertando os chutes de fora, a não ser rezar. Mas aí vai da fé de cada um, eu por exemplo costumo rezar para o LeBron James e aí não faria sentido pedir ajudar espiritual pra ele no meio de um confronto contra o próprio sujeito. Ao todo foram 12 bolas de 3 pontos convertidas em 29 tentativas, mas muitos dos erros vieram quando o jogo já estava aniquilado. Na hora em que o negócio apertou, as bolas voaram como se o Antoine Walker estivesse bêbado numa fábrica da Spalding - mas os arremessos foram certeiros. Apesar do começo apertado, o jogo foi mamata e o Jason Kidd até chegou ao absurdo de converter duas cestas. Uma, inclusive, foi uns quatro passos distante da cesta, o que acabou com minha teoria de que ele havia feito uma aposta de nunca dar um arremesso pela seleção, no máximo fazendo bandejas. Mas mesmo com a lavada e até pontos do Kidd, o jogo foi mais do que o esperado para a Austrália. O único porém é que o pivô do Bucks, Andrew Bogut, acabou se contundido durante a partida, mas não deve ser nada grave.

Jogos disputados tornados fáceis por bolas de 3 pontos da Lituânia e dos Estados Unidos. Bacana. Mas nada poderia ter nos preparado para o absurdo que foi Grécia e Argentina.

Não vou dizer que foi o melhor jogo das Olimpíadas, a partida que tanto estávamos esperando, o primeiro jogo tecnicamente disputado, de alto nível. Não vou dizer nada disso porque acabei de dizer, meio sem querer, e também porque você deve ter assistido ao jogo. Se não assistiu, é um mané e não seguiu nossas dicas pra acompanhar as Olimpíadas. Hoje era dia de fingir dor de barriga no trabalho, sua obrigação moral e ética era ficar em casa e ver o duelo épico entre gregos e argentinos. E olha, valeu a pena.

Os dois times jogaram demais, mas com estilos de jogo diferentes. Toda vez que a Grécia abria um pouco no placar com um jogo sólido e constante dentro do garrafão, a Argentina ia lá e acertava uma bola de 3. As que o Ginobili converteu foram ridículas, pareciam bolas forçadas, impensadas e sempre nos momentos mais decisivos, mas a maioria caiu. Na verdade, ele acertou 6 bolas de fora e tentou 13. Treze. Taí um número bem débil mental, mas que salvou a Argentina. Além dele, Carlos Delfino (que segundo o Denis estava em seu dia de Kobe Bryant) deu 8 arremessos de trás da linha de 3 pontos, acertando 5 deles. No finalzinho do jogo, quando a Grécia se recuperou no placar e equilibrou pra valer a partida, as bolas de três argentinas pareciam cair o tempo todo e Delfino se mostrou apto ao posto de melhor jogador a sair da NBA para ir jogar na Europa, o Josh Childress que me perdoe.

A Grécia teve chances de vencer o jogo, mas é sempre muito complicado tomar 3 pontos e fazer apenas dois. A seleção grega acabou forçada a tentar mais bolas de fora e sair um pouco de seu ritmo de jogo. Nos segundos finais, uma bola de 3 poderia dar a vitória para a Grécia, mas Vassilis "Não joguei nada no Houston" Spanoulis errou o arremesso histórico que teria definido a budega. Ele não havia acertado nenhum dos dois arremessos de fora que havia tentado até então no jogo, mas mesmo assim aquele último arremesso fez sentido. Ele poderia ter infiltrado, tentado uma bola mais simples, mas o jogo estava épico o suficiente para qualquer um sentir a tentação de decidir a partida numa bola daquelas. No fim, sorte para a Argentina e azar para o Spanoulis, que arriscou mas não petiscou. A atuação épica dos argentinos mereceu que aquela bola grega não caísse, além de que eles têm muito mais chance de vencer os Estados Unidos nas semi-finais, nessa sexta-feira.

Agora é ver como os Estados Unidos vão lidar com a chuva de bolas de 3 pontos da Argentina, e como os espanhóis vão lidar com a chuva de bolas da Lituânia. Serão confrontos para Antoine Walker nenhum botar defeito, e se você não faltar no trabalho na sexta, é a mulher do padre.

domingo, 10 de agosto de 2008

Dormir é para os fracos

Se o Yi Jianlian achava seu Bucks ruim, o que dizer da seleção chinesa?


Vou até o espelho, vejo minha cara amassada, as olheiras bem marcadas, e então não tenho dúvidas: a Olimpíada começou. Vários fãs de basquete podem ir para o espelho e conferir em seus próprios rostos também, afinal muitas pessoas apareceram para assistir aos jogos ao vivo em nosso chat. Tudo um bando de maluco que levou nossas dicas para curtir as Olimpíadas a sério e está duelando com seus despertadores e tirando cochilos esporádicos. Mas a verdade é que, para um primeiro dia, valeu bastante a pena.

A primeira partida da noite foi um desimportante duelo entre Rússia e Irã que eu supostamente deveria ter deixado de lado em nome de importantes minutos de sono, mas era o primeiro jogo e - sabe como é vida de viciado - eu simplesmente não resisti. É claro que os russos não tiveram nenhuma dificuldade, a seleção iraniana praticamente não existe. Aliás, o pivô titular do Irã (cujo nome foi apagado de minha mente pelo sono) é um dos piores jogadores de basquete que já vi na vida, perto dele o lendário Greg Ostertag sentiria pela primeira vez que sua mãe tinha razão quando dizia que ele era "especial" durante sua infância. Ainda assim, vale dizer que nos poucos minutos em que o armador russo Kholden (o naturalizado americano JR Holden) ficou fora da quadra, seu time pareceu bem perdido. Ainda que ele arremesse demais (foram 19 tentativas, com 9 acertos) é bem óbvio que a organização da equipe está em suas mãos.

Após essa brincadeira, a Alemanha enfrentou a Angola. Bem, digamos que se fosse boxe, o treinador angolano teria tacado a toalha ainda no meio do jogo. Mas ainda assim tenho que dizer que gostei da seleção de Angola. O tal do Eduardo Mingas sabe o que está fazendo, os jogadores são simpáticos, não têm pelos nas orelhas e parecem ter bastante potencial. Acontece que ninguém ali poderia ser capaz de parar Nowitzki e Chris Kaman. O pivô do Los Angeles Clippers comandou o jogo, acertando 10 de seus 12 arremessos, num total de 24 pontos. Os míseros dois rebotes a gente ignora, nesses jogos porra-louca não é fácil sobrar tanto rebote para um pivô lento e branco, ainda por cima. Já o Nowitzki fez 23 pontos chutando apenas 9 bolas e acertando 7, incluindo 3 bolas de três pontos e todos os seus 6 lances livres. Não cheguei a ver o alemão bocejando em quadra porque acabei pegando no sono antes. Sabe como é, minutos preciosos e o jogo mais aguardado era o próximo.

Grécia e Espanha era o clássico da madrugada de sábado para domingo e tirou o sono de todo mundo que apareceu no chat. Foi um jogo muito técnico e bastante disputado - quer dizer, até certo ponto. A Espanha simplesmente foi mais consistente e de repente, sem ninguém perceber, criou uma vantagem no placar que era muito difícil de ser revertida. Cheguei a desconfiar que havia rolado uma propina para o sujeito do placar aumentar os pontos espanhóis, porque juro que nem percebi quando a vantagem foi aberta. Pela Espanha, o grande destaque foi Rudy Fernandez, acertando um punhado de arremessos de fora e dando boas enterradas. E aí, você já está com medo do Portlando Trail Blazers? Pois deveria.

Outro espanhol que estará iniciando na NBA temporada que vem é o Marc Gasol, o irmão gordinho do Pau Gasol. Dá pra imaginar a infância desses dois? Um chamava "pau", o outro pesava mais do que todos os coleguinhas juntos. O Marc corre pra burro, tem bastante agilidade, mas aqueles que estão esperando uma estrela para compensar a ridícula troca do Pau Gasol para o Lakers, podem tirar o cavalinho da chuva. Pra mim, ao menos por enquanto, Marc é gordinho (e grosso) demais para os padrões da NBA. Pense num Eddy Curry branco, barbudo e que sabe levantar os braços. Melhor que ele, e que estará em 2010 na NBA, é o armador-sensação Ricky Rubio, que ainda não tem idade para beber mas já joga demais na seleção. Apesar de uns deslizes de pirralho, deu passes absurdos tipo Ronaldinho Gaúcho e é motivo mais do que suficiente para assistir aos próximos jogos da Espanha.

Pela Grécia, o Spanoulis até tentou equilibrar o jogo, mas não foi o suficiente. Para quem não se lembra, o grego era do Houston Rockets mas por não defender nem ponto de vista passou uma temporada inteira esquentando banco. Então, quando avisou que queria voltar para a Europa, o Houston conseguiu trocá-lo com o Spurs pelo argentino Luis Scola. A troca até hoje não faz um puto de um sentido, mas eu e os demais torcedores do Houston agradecemos. O Spanoulis voltou pra Europa e contra a Espanha mostrou que é realmente o Ginobili grego (se bem que, pelo nariz, o Ginobili já é grego em essência). Os dribles do Spanoulis são totalmente ginobilentos, ideais para dominar jogos e matar o técnico Greg Popovich do coração.

Por falar em argentinos, o melhor jogo da rodada foi sem dúvida Argentina e Lituânia. Os lituanos foram liderados por Sarunas Jasikevicious, um dos dez mil novatos estrangeiros que o técnico Don Nelson nunca colocou pra jogar no Warriors, e chegaram a abrir 12 pontos de vantagem com cerca de 5 minutos para o fim do jogo. A reação da Argentina veio na hora certa com arremessos certeiros, grande atuação de Carlos Delfino (que abandonou a NBA e lascou meu time de fantasy), e nos segundos finais o jogo já estava empatado. Ginobili teve a chance de virar o jogo nos segundos finais mas forçou um arremesso horrível. No rebote, Linas Kleiza, ala do Nuggets, acertou uma bola de 3 pontos com 1 segundo sobrando no relógio para vencer o jogo. Foi quase tão emocionante quanto a final de Arco e Flecha feminino por equipes, que estava rolando ao mesmo tempo.

Mas o jogo da Argentina serviu para levantar uma questão interessante. Muita gente reclama que na NBA qualquer coisa é falta, que as estrelas passam tempo demais cobrando lances livres, e até é verdade, já que David Stern mudou as regras de arbitragem justamente para aumentar os placares das partidas. Mas na partida com a Lituânia, ficou muito claro que tanto Oberto quanto Scola, que jogam na NBA, estavam desacostumados com a rígida arbitragem internacional. Os dois pulavam em bolas soltas no garrafão, criando contato que seria ignorado na NBA, e foram premiados com faltas nas Olimpíadas. Os dois ficaram pendurados com faltas boa parte do jogo e o Luis Scola estava visivelmente frustrado com as faltas de ataque que marcavam nele volta e meia. Pra mim ficou bem claro que a NBA é muito mais amena na arbitragem de contatos no garrafão - e de faltas flagrantes também, mas isso a gente comenta outra hora.

Ao fim desse jogo emocionante, foi o momento de tirar um cochilo de emergência. Afinal de contas, quem iria querer assistir Austrália e Croácia? Tudo que sei é que o Bogut fedeu (apenas 3 arremessos e um mísero rebote), que a Croácia praticamente não errou arremessos, e que foi um cochilo bem satisfatório sem nenhum resquício de culpa.

Mas já estava de pé para assistir China e Estados Unidos, claro. Vibrei um bocado com o começo chinês, acertando tudo quanto é bola de 3 pontos, incluindo uma do Yao Ming. A tática da seleção da China era visivelmente deixar o garrafão vazio e Yao passou a maior parte do tempo fora do garrafão, andando pela linha de 3 pontos e fazendo corta-luz para todo mundo. Essa mesma tática foi utilizada pela Rússia nos amistosos contra os Estados Unidos e se mostrou bem eficiente. Embora os rebotes ofensivos fiquem comprometidos, essa prática obriga Dwight Howard a sair do garrafão e principalmente impede os contra-ataques dos Estados Unidos, facilitando a transição defensiva. Obrigar a seleção americana a jogar basquete de meia-quadra é sempre melhor do que deixar que corram como uns malucos para enterrar na sua cabeça, e com isso a China manteve o jogo parelho por um bom tempo. Aos poucos foi se soltando no jogo, querendo correr mais, esquecendo um pouco a velocidade na hora de voltar pra defesa e perdendo bolas graças a marcação mais pressionada americana. Em uma pequena série de contra-ataques, os Estados Unidos abriram 20 pontos de diferença em um punhado de minutos. O fato de que os arremessos de 3 pontos simplesmente pararam de cair também não ajudou. A partir daí, o jogo foi só festa, com todo mundo querendo dar um passe mais maluco do que o outro, Yao ainda na quadra para deixar a torcida feliz (decisão bem imbecil, aliás) e o time reserva dos Estados Unidos com Michael Redd e Deron Williams se mostrando por muitas vezes melhor do que o titular.

As atuações de Dwyane Wade e LeBron James foram impecáveis, mas vamos deixar para falar neles após algum jogo de verdade em que não possam simplesmente sair correndo e enterrar porque são mais altos, fortes, atléticos e elegantes. Como o próximo jogo deles é contra Angola, vai demorar um pouquinho. Mas vamos estar aqui para assistir essa partida do mesmo jeito, por que não? Se a gente se empolga no chat assistindo Arco e Flecha debaixo de chuva, como é que iríamos resistir a um jogo de basquete, qualquer que seja?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Banco de talentos

O banco do Pistons é uma prisão



Há alguns posts atrás, o Charles comentou sobre o Jarvis Hayes, que em seus 15, 16 minutos por jogo sempre marca muitos pontos e se destaca no Pistons. Logo depois, o Sbub comentou sobre o Mohammed, recém trocado pelo Pistons para o Bobcats, que virou uma máquina de rebotes em Charlotte. E associando as duas coisas resolvi falar sobre o banco de reservas do Detroit Pistons, o maior desperdiçador de talentos de toda NBA.

Talvez usar o termos "desperdiçar" possa parecer forte demais, vamos apenas dizer que eles são tão bons que não se dão ao trabalho de usar o banco. A base titular com Billups, Hamilton e cia. é tão bem entrosada e funciona tão bem que eles jogam muitos e muitos minutos sem dar muita chance aos reservas. E a estratégia (em grego 'strateegia', em latim 'strategi'...) tem dado muito certo. O Detroit é um time vencedor, chegou em duas finais da NBA, seu estilo de jogo não cansa em excesso os jogadores (por isso o Suns PRECISA de um banco de reservas melhor) e com isso os jogadores não ficam com a língua no chão depois de jogar muito. Mas acontece também deles muitas vezes não precisarem jogar muito já que o Pistons é o segundo, apenas atrás do Celtics, na margem de pontos em relação aos adversários, ou seja, é muito garbage time pra gente ver Amir Johnson e Arron Afflalo enfrentando os reservas dos outros times.

Mas pera aí! Então os reservas têm pouco ou muito tempo? Eles têm um bom tempo. Mas nunca quando a coisa interessa! O ponto é esse, quando o jogo é importante, quando o jogo tá pau a pau, os reservas nem encostam na bola. Entram um por vez pra dar descanso rápido a um dos titulares e já era. Jogar mesmo, pegar ritmo, só quando o jogo tá decidido.

Com essa forma de pensar, o time tem ido longe na NBA, não se pode criticar, mas ao mesmo tempo eles assistiram incríveis talentos sair do time em busca de mais espaço, e viram muitos jogadores desconhecidos por lá virarem grandes jogadores. Vamos conhecer alguns:


Mike James: Alguém lembra dele no Pistons? Eu demorei muito pra lembrar. Ele jogou metade da temporada 2003-04 por lá e teve média de apenas 19 minutos por jogo. Não sou grande fã do Mike James, ele mesmo já disse ser obcecado por suas estatísticas e parece se importar mais com elas do que com o time, mas o cara tem talento e o Pistons poderia tê-lo usado melhor para descansar o Billups.

Nazr Mohammed: Esse foi bem recente. Chegou como o substituto de Ben Wallace e meia temporada depois estava atochado no banco de reservas brincando de Darko. Entrava só para mostrar pro outro time que o jogo tava ganho. Foi trocado há algumas semanas para Charlotte Bobcats e em pouco mais de 24 minutos de jogo já está com média de quase 9 rebotes por jogo e fez vários double-doubles. Ele não é um all-star mas já mostrou no Atlanta e até no Knicks que tem talento, acho que ele tem o perfil do Pistons e poderia ter médias incríveis de rebotes por lá se dada a chance, mas não deram, colocaram o Webber no lugar dele e ele afundou.

Carlos Arroyo: Se o Mike James não teve muita chance de ser reserva do Billups por meia temporada, o Arroyo não teve por duas. Acho que o Billups tem no seu contrato algo que diz que só o Lindsay Hunter pode entrar no lugar dele e mais ninguém. O Arroyo, o mesmo que destruiu os americanos nas Olimpíadas de 2004 e que é titular merecido do Orlando agora, teve uma incrível média de 12 minutos por jogo na sua última temporada em Detroit.

Darko Milicic: Se Mohammed era usado para mostrar para os adversários que o jogo estava ganho, Darko era usado para mostrar que o jogo havia sido ganho, tinha sido uma lavada, tinha sido bem fácil e eles estavam rindo da sua cara. Nas finais de 2004 eu me revoltava, já que sou torcedor do Lakers, quando o Darko entrava. Aquilo era humilhação demais! Mas o fato é que muitas vezes o Darko tinha um bom garbage time, dava seus tocos, pegava uns rebotes, acertava umas cestas e... ué, é isso o que ele ainda faz hoje, não é? Ele nunca vai justificar ser uma segunda escolha, mas é bom jogador e quando tem seus minutos no Grizz (e quando tinha em Orlando) sempre se mostrou útil, com boa média de tocos e rebotes. No Pistons acho que nunca jogou um jogo com diferença menor de 10 pontos entre os dois times em disputa.

Carlos Delfino:
Eu não gostava muito do Delfino. Quando ele chegou na NBA eu vi gente dizendo que ele ia ser melhor que o Ginobili e isso me faz lembrar de quando o Arinélson era o próximo grande jogador do Santos. O Delfino nunca chegou perto das expectativas mas ao mesmo tempo você via que ele era mal aproveitado no Pistons, o coitado entrava, dava dois arremessos e saia, parecia que ele tinha pressa em jogar porque sabia que ia sair logo e isso atrapalhava muito. Nesse ano, no Raptors, ele é outro cara. Muito mais calmo e se sentindo parte do time ele até jogou vários minutos como armador principal do time quando o Calderon senta e o TJ Ford vê o jogo do hospital. E ele arma bem, até! Com vários jogos muito bons já na temporada, ele é peça importante no Raptors e você fica imaginando como ele seria útil dando um tempo de descanso para Hamilton e Prince.

Mehmet Okur: Provavelmente o melhor jogador a não jogar pelo Pistons. Ele estava lá, ficava no banco e volta e meia tinha um jogo em que ele acabava sendo mais bem utilizado. Lembro de um jogo em que ele simplesmente matou o Lakers só porque o Shaq se recusava a sair do garrafão para marcar as bolas de 3 pontos dele. Mesmo assim, o máximo de média que teve foi de 22 minutos por jogo, e muito por causa dos 33 jogos em que foi titular ainda na era pré-Sheed. Depois que o Sheed chegou, ele afundou no banco e de lá foi para o Utah, onde, de repente, estava com médias de quase 20 pontos por jogo.


Com o Jarvis Hayes, que nosso amigo Charles citou, a situação é igual mas é diferente. É igual porque ele é um cara de talento e que tem poucas oportunidades, mas é diferente porque ele que era free agent e topou ir para lá mesmo sabendo desse histórico todo do banco do Pistons. Não quero chamar o Hayes de burro com isso também, ele não estava numa situação fácil, nos seus anos de Wizards, além de provar que tinha certo talento para marcar pontos, mostrou mais ainda que tinha talento para se machucar, e fez uma fama de ser de vidro. Muitos times não ofereceram coisas boas pra ele e quando o Pistons apareceu com uma proposta ele abraçou, mas não dúvido que no fim do contrato ele busque uma vaga em um time em que seja mais participativo. Outro que tem talento, embora seja meio Mike James no fato de só querer fazer pontos e nada mais, é o Flip Murray. Esse tá encostadão no Pistons e dizem que uma troca deve acontecer em breve para tirá-lo de Detroit.

Agora é a hora que o espertalhão aparece e diz: "Ei, Denis, seu torcedor do Lakers cabeçudo! E o Maxiell? Ele é reserva e joga, seu bundão!". Pois é, o Maxiell é um caso que deu certo, assim como o McDyess. Ano passado o McDyess era reserva do Webber e mesmo assim jogava sempre no quarto período só porque o Webber é mais amarelão que o Stojakovic e o Dirk juntos. Com isso ele tinha minutos, e minutos importantes. Nesse ano o McDyess é titular, tem seu tempo em quadra, mas em vários dias o Maxiell entra, entra bem e fica no jogo. Não vou dizer que ele é a exceção que confirma a regra porque isso é brega. Mas é verdade, ele é a exceção que confirma a regra, pronto, falei!


Notas:

- A relação entre os titulares e os reservas do Pistons, apesar da briga por minutos, é boa, como vemos na bela canção interpretada pelo titular Sheed e os reservas Jason Maxiell, Amir Johson e Will Blalock. Ouça e veja AQUI.

- A prorrogação do jogo de ontem do Suns foi feia. De um lado, o Suns parecia bem perdido sem o Nash doente, o Leandrinho provou mais uma vez que ao mesmo tempo em que faz pontos com a mesma facilidade com que corre quando fez 16 pontos só no terceiro quarto, também tem muita dificuldade em ser o armador principal, com alguns turnovers feios. Mas pior que ele de armador foi o Tinsley, que durante a prorrogação não passou a bola uma vez sequer. E não é jeito de falar! Ele partiu pra cima e arremessou todas as bolas, podem até conferir o play-by-play se vocês quiserem. A única cesta que não foi dele na prorrogação foi um rebote ofensivo que o Mike Dunleavy Jr. pegou. Rebote de um chute do Tinsley, claro. Vitória merecida do Suns.

- Ontem o Lakers detruiu o Hornets e Kobe depois do jogo disse que o papel dele no time não é mais o de fazer 35 pontos por jogo, é apenas de estar lá para quando o time estiver em dificuldade e precisar de um empurrão. Quem diria que um dia ele falaria isso? E pior que não é da boca pra fora, vendo o jogo é o que acontece mesmo!

- Lembra do post com a foto da mina firmeza do Garnett? Que tal a mina do Okur? Eu pegava fáaaacil.

- Bem no dia em que o Danilo falou que o Yao Ming deixou de ser "soft" para enterrar na cabeça das pessoas, o china fez isso aqui com o Malik Rose. Uau!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Draftados em 2003 - parte 3

Pelo menos 50% dos novatos do Suns em 2003 eram bons


Nessa série de artigos sobre os draftados em 2003 estamos analisando jogador a jogador em busca dos erros e dos acertos de cada time, vendo como cada um se saiu e rindo descaradamente de algumas equipes que nunca sabem o que estão fazendo.

Se você não acompanhou os posts anteriores porque tinha algo melhor pra fazer da vida, ou se acompanhou mas tem menos memória do que time que contrata o Marbury, leia a primeira parte, em que vimos LeBron, Carmelo e Wade chutando uns traseirois; e depois a segunda parte, em que Reece Gaines e Troy Bell formam uma das piores duplas da história dos drafts.

Agora, na sequência, veremos as últimas escolhas do primeiro round. Prepara-se para um certo brasileiro que deixou muito time arrependido...


21 - Boris Diaw (Atlanta Hawks)

Taí um dos jogadores, pra mim, mais misteriosos da NBA. Foi draftado para ser armador principal no Hawks. Mostrou sinais de talento mas nunca nada muito espetacular. Lembro de ler um punhado de videntes dizendo que o Diaw ainda seria um belo jogador, que ele tinha muito potencial e seria um grande armador. No Hawks não deu certo mas também, até uns dois meses atrás, coisa nenhuma dava certo por lá. Quem salvou a carreira do Diaw, portanto, foi o Joe Johnson. Ele era um arremessador carregador-de-piano buxa-de-canhão no esquema do Suns que acabou acertando mais arremessos do que se esperava. Jogou bem demais, deixou muita gente impressionada, aprendeu até a armar o jogo quando o Nash sentava, e aí de repente ele decidiu que com o fim do contrato queria ir liderar alguma equipe. Algum maluco obviamente ia apostar no garoto mas o Hawks chutou o balde acertando com ele um contrato surrealmente enorme. Para não sair de mãos abanando, o Suns arrumou um sign-and-trade e aí, em troca do JJ, recebeu o potencial mal aproveitado do Diaw (e mais duas futuras escolhas de draft).

O Suns tentou o francês na armação. Não deu muito certo. Aí tentaram ele de ala, onde a produção aumentou um pouco. Uma hora, resolveram arriscar como ala-pivô, causando um aumento ainda maior em seus números. E então o Amaré machucou, o Suns pra variar não tinha ninguém para colocar no lugar, e alguma mente insana propôs: "o Diaw já jogou em tudo quanto é posição, coloca ele de pivô também só pela piada." Não sei se foi assim mas é a única hipótese plausível para um armador de 2,03 metros ir parar na posição de pivô. E como esse Universo tem um senso de humor muito bizarro, foi justamente aí que Diaw floresceu. Marcar pivôs quinhentas vezes maiores que ele era moleza, ele jogava de costas para cesta, chutava de longe, passava a bola no garrafão com habilidade, e aí ganhou o prêmio de Most Improved Player, o jogador que mais evoluiu no ano. (valeu pela correção, "eumesmo"!)

Desde então é só ladeira abaixo para o francês. Alguns dizem que ele se nega a treinar ao fim da temporada e fica completamente fora de forma, outros dizem que os Monstars foram vistos conversando com o Diaw e o Pernalonga. Mas o motivo mais esquisito e justamente por isso mais possível é a volta do Amaré. Sem jogar como pivô, o armador Diaw nunca mais foi o mesmo. Ainda assim, espero que ele ganhe um anel com o Suns o mais rápido possível: seria trágico o time mais divertido da década virar farofa sem ter ganhado nada. Aí é que só vai ter retranca na NBA mesmo...

22 - Zoran Planinic (New Jersey Nets)

Um daqueles jogadores absurdamente talentosos no basquete internacional, inteligentes, com fundamentos até pra lavar as mãos, mas que sabe-se lá porque simplesmente fedem na NBA, nunca têm nenhuma oportunidade e voltam para seus países de língua esquisita e basquete arrumadinho antes que sequer consigamos decorar seus nomes bizarros. Planinic, Jasikevicius, Spanoulis e até o Esteban Batista entram nesse grupo, e eu morro de curiosidade para saber o que há de tão errado com eles fora o fato de que alguns não devem tomar banho, afinal lá na Europa é bem frio.

Seja qual for a razão, o Planinic assistiu muito o Kidd jogar, ganhou uma grana, sentiu o fedor da cidade de New Jersey por vários anos e aí voltou pra Europa sem que nenhum time mostrasse interesse e sem que qualquer um no Nets percebesse. Devem ter notado um armário vazio no vestiário mas duvido que alguém se lembrasse de quem era.

23 - Travis Outlaw (Portland Trail Blazers)

Não importa o que aconteça com o planeta Terra e quantos times da NBA se afundem irremediavelmente, escolhas como essa continuarão acontecendo nas noites de draft. O Outlaw é mais um daqueles jogadores que não tem coordenação para usar um garfo e uma faca, mas não precisa: ele quebra cocos com a cabeça, pula para a estratosfera e engole gaivotas, faz duzentas mil flexões de braço quando está entediado e quebra tabelas durante suas noites de sonambulismo. Tipos assim podem destruir a NBA inteira com um braço só, enterrando na cabeça de quem vier, como foi o caso do Dwight Howard, ou podem se transformar em Kwame Browns e Marcus Fizers. Ou seja, podem salvar um time ou levá-los para o buraco de vez. Em geral, deviam ser escolhas a serem evitadas. O Josh Howard tinha chutado vários traseiros no basquete universitário mas tinham dúvidas sobre o rendimento dele na NBA, então preferem apostar num cara que não sabe nem qual é a mão direita mas consegue enterrar do meio da quadra.

Nesse caso em particular, pra quem tem muita paciência, até que deu certo. O Travis Outlaw finalmente começou a colocar seu potencial em ação nessa temporada e é parte fundamental na campanha história do Blazers até agora. Mas e se tivesse dado errado?

24 - Brian Cook (Los Angeles Lakers)

O David West está lá, com seus quase 20 pontos e 10 rebotes de média por jogo, e chega a ser engraçado pensar que o Hornets cogitou pegar o Cook em seu lugar. Com tanta falação sobre o Cook, um ala-pivô forte e que sabia arremessar de 3 pontos com precisão, fica difícil crucificar o Lakers por essa. O que acontece é que todos os defeitos do Cook já eram conhecidos (defesa, falta de critério no arremesso, incapacidade de proteger a bola) mas ele simplesmente não conseguiu progresso em nenhum desses quesitos. Diz a lenda que ele treina tanto quanto o Romário, o que é sempre um problema quando você tem o talento de um biscoito. Pelo menos para os fãs do Lakers, ele conseguiu ser trocado pelo Trevor Ariza, que trouxe atleticismo e um novo ritmo ao time de Los Angeles. Enquanto isso, o Cook ainda não foi aproveitado em Orlando. A essa altura, já devem ter percebido que ele não presta.

25 - Carlos Delfino (Detroit Pistons)

O Pistons campeão tinha talento demais no time, era apelação tipo bater em quem tá tonto no Street Fighter. Carlos Delfino e até o próprio Darko sofreram um bocado com a falta de espaço num time que transpirava talento pelos poros. O Delfino é talentoso mas inconstante, nunca foi nem será um Ginobili da vida mas no dia certo ele pode fazer boas imitações de seu compatriota narigudo. Em Detroit as oportunidades foram escassas, mas o potencial estava lá e foi o bastante para chamar a atenção do Raptors que, no momento, estava interessado em montar um time com jogadores de todo o globo, talvez pra ganhar mais dinheiro exportando camisetas. O Delfino é um bom reserva e seu estilo se encaixa milhões de vezes melhor no Raptors do que se encaixava no Pistons. Ele nasceu para uma correria maluca e criatividade desesperada que em geral saem do controle. Mas tem seu espaço, seus minutos, e o Raptors pode muito bem chegar longe nos playoffs graças a uma profunidade no banco que muitos ignoram só porque eles são um time do Canadá e deveriam estar jogando hóquei ou sendo guardas florestais.

26 - Ndudi Ebi (Minessota Timberwolves)

Levante a mão quem se lembrava que ele existia ou sequer havia ouvido seu nome antes. Ninguém? Foi o que eu pensei. A história do Ndudi é um bocado triste e começa na escola com seus coleguinhas zoando seu nome. No basquete universitário deixou todo mundo de queixo caído: jogava dentro e fora do garrafão em qualquer posição, era físico e com bom arremesso, mas sem o entendimento do jogo, incapaz de tomar decisões em quadra, um talento bruto sem qualquer experiência. Mas o talento foi o bastante para que o considerassem a próxima grande coisa da NBA depois de LeBron James. É muito divertido pensar que já estivessem pensando no "próximo LeBron James" antes mesmo do LeBron ter sequer sido draftado.

Aí o "próximo LeBron" ouviu os caras errados e resolveu ir pra NBA de uma vez ao invés de ganhar experiência na universidade. A pior coisa que pode acontecer para um moleque dessa idade é ele se apaixonar por si mesmo. O fedelho se achava a última bolacha do pacote, entrou no draft, mostrou-se incapaz de jogar no nível da NBA imediatamente e no entanto se negou a ir para a Liga de Desenvolvimento porque se dizia "bom demais". Depois de dois anos sem mostrar sinais de que poderia jogar no próximo nível, e sem poder mandá-lo jogar na D-League para ganhar alguma condição de jogo, o Wolves resolveu que era melhor ir assistir o filme do Pelé. Resultado: alguém ouviu falar de algum time que tenha resolvido apostar no Ndudi depois disso? Nem eu.

O mais triste, pra mim que sou fã do Kevin Garnett, é que o Wolves passou 3 anos punido pela Liga sem escolhas de draft no primeiro round e, quando eles finalmente puderam escolher, pegaram um cara que jogou meia dúzia de partidas em dois anos. E ainda tem uns manés que dizem que o Wolves perdia por culpa do KG. Sei.

27 - Kendrick Perkins (Memphis Grizzlies)

O Perkins foi para o Celtics na noite do draft, trocado junto com o Marcus Banks por Troy "Zé Ninguém" Bell e Dahntay "Só enterro" Jones. Diz a lenda que a troca tinha a simples intenção de adquirir o Perkins e apostar nele para ser o pivô do futuro do Celtics. Na época, a vaga era do Marc Blount, um pivô que gosta de arremessar e odeia coisas como correr, andar, levantar os braços e defender. Era justamente o potencial defensivo do Perkins que impressionava o Celtics e rapidinho ele já era titular gerando climas desconfortáveis com o Blount, que acabou sendo mandado para empilhar coquinho na descida. É óbvio que não demorou para ficar claro que o Perkins era tão atlético quanto a Dercy Gonçalves e não era lá essas coisas na defesa. O irônico é que eles acertaram: o Perkins realmente é o pivô do futuro do Celtics porque só sobrou ele por lá e se não tem ninguém, vai tu mesmo. E o Perkins pode estar ganhando um anel de campeão daqui pouco tempo para mascarar sua falta de talento.

28 - Leandro Barbosa (San Antonio Spurs)

Todo mundo sabe que eu acho o Spurs um porre, mas se tem uma coisa que os safados sabem fazer é draftar. Eles simplesmente escolhem aqueles valores internacionais que ninguém mais notou e é batata, os caras sempre são bons. O Spurs draftou Parker, Ginobili, Oberto, Scola, Beno Udrih, Leandrinho e agora o Splitter. O único problema é que eles não são fãs de manter esses jogadores (coisa de time que já está montado) e se livram desse monte de talento por preço de banana. O Leandrinho foi trocado por uma escolha de draft na mesma noite porque o Suns achou que a correria do brasileiro se encaixaria bem por lá, o que acabou resultando no prêmio de Sexto Homem do Ano na temporada passada. O Udrih foi trocado por dinheiro e agora destrói no Kings. O Scola foi trocado por uma lapiseira 0.5 e agora está lá fracassando no Houston, mas a gente sabe que ele é bom.

Ser mandado para o Suns foi a melhor coisa que poderia ter acontecido com o Leandrinho. No Spurs ele seria obrigado a se tornar um robozinho e seguir o técnico Popovich, coisa que o Barbosa não é lá muito excepional em fazer. Quer matar o Leandrinho, basta colocar ele num ataque de meia quadra. Quer matar o Popovich, basta colocar outro jogador que corra muito e pense pouco para arremessar no time dele. Então ir para o Suns foi perfeito para a saúde de ambas as partes.

Sei que tem um monte de brasileiros que queriam o Leandrinho titular em outras equipes, liderando times e tendo médias de 60 pontos por jogo. Mas, ainda que eu seja fã dele, tenho que admitir que não consigo pensar em muitos times em que o Leandrinho se encaixaria. Jogar meia quadra corta bastante sua produção, minimiza sua maior qualidade que é a velocidade, e armar o jogo e defender sempre foram suas maiores deficiências. Então coloque-o no Spurs ou no Pistons e assista enquanto o Barbosa apodrece no banco e comete suicídio se enforcando com o cadarço. Para ele, os times ideais seriam Warriors, Raptors, Sonics, e acho que só nesse último ele teria chances de ser titular. No Suns ele tem chances de vir do banco, se focar no ataque e correr como um desesperado, e ganhar um anel. Não poderia estar melhor.

O potencial do "Brazilian Blur" é gigantesco e o prêmio de Sexto Homem do Ano, esperamos, foi apenas o começo. Ele ainda será cotado entre os melhores armadores da NBA e, quem sabe, até jogue um All-Star Game. Mas eu volto a bater na tecla de que ele deve merecer chegar lá, deve provar que é melhor ou mais divertido, não que é "mais brasileiro". Ninguém merece votos no All-Star por ser mais brasileiro, ou mais chinês, ou mais argentino, e não me interessa se o resto do mundo está votando em seus compatriotas e sendo ridículo!

Toda vez que saem os resultados parciais para o All-Star Game eu fico com vergonha pelos chineses. O Yi Jianlian está em quinto lugar nos alas do Leste e ele sequer está na lista para votação! Os chineses simplesmente não sabem brincar, não tem nada mais ridículo do que votar num cara que tem 12 pontos por jogo só porque ele nasceu no seu país. Eu olho a lista e fico constrangido, de verdade. O mundo inteiro fica assistindo os chineses serem ridículos. Imagino a cara que o Yi faz quando vê os resultados da votação. Tenho certeza que, ao invés de ficar feliz, ele deve ficar vermelho e rezar baixinho para nunca ter que ir para um All-Star ser assistido pelo mundo todo tendo média de 12 pontos com cada torcedor sabendo que ele só está lá porque tem os olhos puxados e um bando de chinês parou de jogar Ragnarok para votar nele. É com isso em mente que torço para que o Leandrinho vá porque ele comanda, porque ele é memorável, não porque nasceu na terra da caipirinha. Pior ainda seria o Nenê ganhando uns milhões de votos, já pensou que vergonha ele sendo titular de um All-Star? Toda a brincadeira vai pelo ralo e seria melhor cancelar a partida do All-Star e todo mundo ao redor do globo ir jogar gamão com o vovô.

29 - Josh Howard (Dallas Mavericks)

Ah, o Josh Howard. Estava esperando ancioso por ele. Ele é o Reece Gaines do Mundo Bizarro: um cara que sabe fazer absolutamente de tudo em quadra mas não é especialista em nada. Só que o Gaines era um lixo e desapareceu, enquanto o Howard é genial.

O Josh Howard sempre vai simbolizar para mim o absurdo do draft da NBA. Tem um cara lá no universitário cheio de fundamento, faz de tudo, arremessa, defende, passa a bola, é atlético, se destaca em sua equipe e você está lá assistindo seus jogos e avaliando seu rendimento todos os dias. Mas ao invés de draftá-lo, você prefere escolher um estrangeiro maluco que dizem ser o próximo Dirk, um chinês que ninguém nem sabe quantos anos tem, um adolescente direto do colegial que, diz a lenda, engole espadas pegando fogo? A gente acha que o draft é cheio de ponderação e análises detalhadas mas parece que todo mundo gosta mesmo é de chutar. Os jogadores comprovados, como Josh Howard e David West, vão ficando de lado porque todo mundo quer arriscar aquele cara meia-boca que um dia pode ser o novo Jordan. É tudo pelo potencial, e aí os caras que sabem jogar basquete agora e não são nem serão o Jordan ficam de escanteio.

Times que querem arriscar demais draftam o Kwame Brown na 1a escolha, às vezes. Times que são inteligentes e draftam jogadores prontos para contribuir acabam se dando muito melhor. Como seria a NBA hoje se qualquer um dos times anteriores tivesse draftado o Josh? O Wolves teria feito estrago nos playoffs com Garnett e Josh Howard ao invés do Ndedi sentado no banco? Como seria o Josh Howard jogando ao lado de Kobe Bryant? Como seria ele nesse Blazers de hoje?

Sou um baita fã do Josh Howard e é impossível não ser fã do Dallas simplesmente por draftá-lo. Hoje em dia é preciso ser uma franquia de muita coragem para nadar contra a maré e aceitar draftar um cara bom que nunca será absurdamente espetacular. Draftar um cara bom é sinal de coragem. Baita mundo estranho esse.

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Na futura última parte desse artigo (eu juro que será a última, eu juro!) , menções às escolhas da segunda rodada que deram certo, e algumas que não deram mas renderam boas histórias. Além disso, como seria o draft se fosse refeito nesse momento? Em que posição o Josh Howard seria escolhido? Faça a sua lista, poste nos comentários, e compararemos no próximo post. Até lá!