Mostrando postagens com marcador yao. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador yao. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 26 de julho de 2011

A grande rivalidade

Yao, Shaq e Chritina Aguilera. Infelizmente só um deles continua na ativa, você sabe bem quem. 


"Vamos sair de férias, irmão, eu e você?". Com esse convite Shaquille O'Neal encerra um vídeo postado há alguns dias no YouTube. O destinatário da mensagem é, como Shaq, um gigante recém-aposentado e com o rosto reconhecido em todos os cantos do mundo: Yao Ming. O caminho até esse convite tem a trajetória de dois dos melhores pivôs da última década.

Shaquille O'Neal não só era consagrado quando Yao Ming chegou na NBA, ele era o poder supremo do universo conhecido. Em 2002, quando o chinês foi a primeira escolha do Draft pelo Houston Rockets, Shaq vinha de três títulos seguidos com o Lakers, onde foi MVP da liga uma vez (2000) e melhor jogador de finais nas três conquistas. Não havia um pivô em todo o planeta que fizesse algo que chegasse perto de parar aquela força brutal. Na época, nas enfadonhas discussões de melhores da história, muitos ainda relutavam em colocar Shaq no rol dos melhores pivôs ou jogadores de todos os tempos, mas mesmo esses admitiam que aquela era provavelmente a primeira vez que nenhum time tinha uma resposta para o poder ofensivo de um jogador, até na época de Wilt Chamberlain fazendo 50 pontos por jogo pelo menos havia Bill Russell para para-lo.

Esse é um conceito difícil de entender, mas vou tentar explicar: Claro que Michael Jordan também dominou o seu tempo, conquistou títulos em sequência e parecia impossível de se marcar, mas bons marcadores faziam o MJ suar. Ele tinha partidas onde até parecia humano e muitas vezes precisava acertar bolas impossíveis para se consagrar. Com o Shaquille O'Neal não havia a necessidade dessas bolas difíceis, daqueles arremessos doidos que faz você questionar as leis da física para saber como a bola caiu, não, com o então pivô do Lakers tudo parecia brincadeira. Ele recebia a bola, passava por cima de quem o estivesse marcando e fazia pontos como se fosse um treino. Os que questionavam sua presença nos melhores de todos os tempos também traziam outra questão, faltava um outro pivô de alto nível para defendê-lo, depois das aposentadorias de Patrick Ewing e Hakeem Olajuwon e com o envelhecimento de David Robinson, a NBA estava fraca na posição e Shaq podia deitar e rolar.

Foi nesse cenário que Yao Ming pisou entre os profissionais americanos. Atrás dele aquela história que já contamos muitas vezes: uma carreira de sucesso na China, um governo que depositava nele as fichas de embaixador cultural e esportivo do país no ocidente e uma legião de milhões de fãs ávidos por ver um nativo na maior liga de basquete do mundo. A NBA já era transmitida na China há muitos anos e tinha seus fãs, mas foi a chegada de Yao que enlouqueceu os antigos torcedores e conquistou outros tantos, cada novo grande duelo do Rockets se tornava o jogo de basquete com maior audiência da história, o basquete era uma febre no país do tênis de mesa.

A pressão sobre Yao Ming era brutal e sua preparação, complicada. Por dificuldades burocráticas e contratuais ele não pode sair da China a tempo de participar de Summer Leagues ou pré-temporada como a maioria dos novatos normais, ao invés disso chegou em Houston só 10 dias antes da temporada começar e fez sua estréia sem nenhum preparo, não à toa saiu de quadra zerado em pontos. Essa pressão vinha de todos os lados, não só do seu país natal como da imprensa americana. A liga estava dominada pelo tri-campeão Lakers e poucos pareciam capazes de ameaçar o domínio da equipe de Kobe e Shaq. O New Jersey Nets não tinha alguém para parar Shaq, o Sacramento Kings não ganhava nem quando tinha chances claras e o San Antonio Spurs, que veio a eliminar o Lakers em 2003, não dava sinais de tanta força antes da temporada começar. No desespero por novas perspectivas e histórias os jornalistas dos EUA abraçaram o conto bizarro do chinês de quase 2,30m que chegou do outro lado do mundo para jogar basquete. Seria ele tudo o que dizem? Ele vai revolucionar a posição? Ele é tão bom assim? O Houston o escolheu apenas para explorar o mercado chinês? Ele fala inglês? E, mais importante, será que ele pode ser o grande rival de Shaquille O'Neal?

Foi só em Janeiro de 2003, no terceiro mês de temporada, que Shaq e Yao se encontraram pela primeira vez. A preparação para aquele jogo foi fora do normal, pelo o que eu me lembro da minha vaga memória até a ESPN aqui do Brasil transmitiu a partida em um dia onde eles normalmente não passavam jogos de basquete, era uma ocasião especial. Na China uma legião de pessoas acordaram cedo e foram para bares acompanhar a partida com expectativa, essa é, aliás, uma das melhores cenas do ótimo documentário "The year of the Yao" que acompanha a primeira temporada do chinês na NBA. Aquele era o grande teste de Yao; não importava o que ele fazia contra o resto dos pivôs da NBA, importava o que faria naquele jogo. E ajudou bastante o tempero que o próprio Shaq colocou na disputa meses antes quando Yao havia sido draftado, perguntaram para ele como seria enfrentar Yao a resposta foi: "Tell Yao Ming, 'ching-chong-yang-wah-ah-soh.".

Não precisa ser muito esperto para imaginar o fuzuê que ficaram os jornais americanos na época com isso e como todo mundo tratou de lembrar da declaração na época do jogo entre os dois. Acusaram o Shaq de racismo, fizeram discursos calorosos sobre a soberba do pivô do Lakers e correram atrás do Yao Ming para a resposta que colocaria fogo na partida daquela semana. Yao, porém, decepcionou quem queria uma resposta polêmica e irritada. Disse que ele sabia que a diferença cultural entre os países era gigantesca e que algumas coisas são difíceis de entender, mas que ele sabia que Shaq estava brincando, apenas achava que outros asiáticos não iriam pensar o mesmo. E, para fechar, disse o que conquistou Shaquille O'Neal: "O chinês dele que não foi muito bom, mas é uma língua difícil, eu mesmo tinha dificuldades quando pequeno". Cada um do seu jeito, cada um com sua cultura, mas além do basquete, o humor os unia.

O jogo do dia 17 de Janeiro de 2003 entre Lakers e Rockets foi um dos melhores Bola Presa Classics que eu já vi, não só pela aura de jogo importante que é tão raro na temporada regular, mas porque a partida foi disputada em altíssimo nível. Logo na primeira posse de bola o Shaquille O'Neal usou toda sua força para empurrar Yao Ming e pedir a bola, recebeu, partiu para cima e... toco. No ataque Yao respondeu com um arremesso gancho. Nos primeiros quatro minutos e meio de jogo foram três tocos em Shaq, ele ainda daria mais um no fim do primeiro período e um último, muito bonito, no terceiro período. Em 26 partidas até então naquela temporada Shaq havia sofrido 12 tocos, nesse jogo foram 5 só de Yao.



Depois do começo impressionante do Yao, Shaq se acalmou, viu que a coisa era um pouco mais difícil do que ele pensava e aí dominou o jogo. Só não foi o bastante para vencer. Aquela partida foi para prorrogação e lá Shaq fez 10 dos seus 31 pontos (e dos 12 do Lakers no tempo extra) mas viu Steve Francis coroar sua apresentação épica de 44 pontos e 11 assistências e assim garantir a vitória do Rockets. A jogada que confirmou a vitória ainda foi um lindo passe de Francis para enterrada de Yao, que acabou com 11 pontos, 11 rebotes e 6 tocos. Abaixo um vídeo para rememorar essa apresentação do Stevie Franchise, no minuto 9:50 a enterrada de Yao que resolveu a parada.



Como bem disse o jornalista Jack McCallum da SportsIllustrated, depois desse jogo Yao Ming foi aceito pelo clube da NBA. Não só entre jornalistas e fãs, mas mesmo entre os jogadores haviam aqueles desconfiados do real talento desse gigante lerdo que chegou roubando as atenções. Mas nesse jogo ele mostrou que mesmo com a atenção exagerada ele pertencia ao grupo, tinha talento para jogar lá. Após a partida, mesmo no calor da derrota apertada, Shaq sorriu, apertou a mão de Yao, o abraçou e ainda apresentou para ele o seu pai, que assistia ao jogo na primeira fileira. Era a primeira vez que Shaquille O'Neal era simpático com um rival que fosse da sua geração ou mais novo, antes disso os raros elogios que ele dava para algum pivô eram para Olajuwon e Ewing, mais ninguém.

O Shaq foi conquistado pelo Yao quando viu que o cara estava lá pelo talento, quando respondeu sua piada com outra piada e, isso dito pelo próprio pivô do Lakers no dia do seu primeiro jogo contra o chinês, por ele jogar basquete sem frescuras. Naquele primeiro jogo, além de tocos, Yao tomou enterradas homéricas na cabeça, foi empurrado e tomou algumas cotoveladas, mas em momento algum se jogou no chão pedindo falta ou choramingou com os juízes. Para Shaq, que odiava o Vlade Divac, Arvydas Sabonis e outros pivôs estrangeiros por esses motivos, Yao era um não-americano diferente, especial.

A partir de então os dois tomaram caminho distintos, Yao só evoluiu e Shaq começou a sua decadência. Claro que Shaq estava tão no topo que sua decadência passou por alguns bons anos de ainda ótimo aproveitamento e como um dos melhores jogadores da NBA, mas a melhor fase estava atrás dele, provado pela maneira com que ele foi parado não por Yao, mas por Ben Wallace nas finais de 2004 e como dividiu o protagonismo do título de 2006 com Dwyane Wade. Enquanto isso o Yao lutava para fazer com que sua titularidade nos All-Star Games, garantidas pelo voto do público chinês, tivesse algum valor de verdade. Demorou, é verdade, mas aos poucos ele discretamente começou a dominar jogos. No período de 2002 até a sua última contusão em 2009, nenhum outro pivô fez tantos pontos como Yao, nem mesmo Shaq. Ele refinou tanto o seu arsenal de jogadas de costas para a cesta, as chamadas "post plays", que no seu último ano marcou 964 pontos em jogadas assim, a maior marca da NBA nos últimos 8 anos.

Essas linhas em caminhos diferentes pode ser bem observada no histórico de duelos dos dois rivais. No segundo jogo entre os dois, ainda em 2003, Shaq marcou 39 pontos contra 6 de Yao, mas em 2006 foi a vez do chinês mandar 34 para cima de Shaq, que fez 15. Entre altos e baixos de ambos as médias são parecidas, 22 pontos e 9.5 rebotes para Shaq e 18 pontos e 10 rebotes para Yao, que venceu mais jogos, 7 contra 6 em 13 partidas de temporada regular entre os dois.

Mas o mais legal do Yao ter ficado tão bom é que isso finalmente justificou toda a atenção que ele já tinha antes de se tornar esse pivô fora de série. O Henry Abbott da ESPN comenta que um dia, ainda em 2002, foi fazer uma matéria com Yao para a revista oficial da NBA e iria o encontrar em um hotel em San Antonio, onde o Rockets enfrentaria o Spurs. Segundo Abbott, "se Yao tivesse parado para dar autógrafos para todas as pessoas que estavam lá ele ainda estaria no lobby daquele hotel até agora". Tanta atenção para um novato em fase de adaptação é absurdo, mas anos depois as fotos tiradas e os autógrafos finalmente faziam sentido. O curioso é como Yao foi ficando cada vez mais discreto e ganhando menos atenção do público e da imprensa com o passar dos anos, quanto melhor jogador, menos atenção. Alguma dúvida que o que as pessoas querem é espetáculo, boas histórias, e não só ouvir de quem está jogando bem?

Mas os duelos contra Shaq ainda ganhavam atenção e o motivo era fácil de entender, foi o duelo individual mais interessante dos últimos 10 anos. Ao contrário da maioria dos duelos anunciados e vendidos pela imprensa como Kobe Bryant contra LeBron James, os jogadores realmente se enfrentavam e se marcavam durante todo o jogo. Não tem um outro jogador que marca um deles para poupar o outro do cansaço e do risco de faltas, como tinha Ron Artest marcando LeBron e Anthony Parker segurando Kobe naqueles Cavs/Lakers, era Shaq marcando Yao o jogo inteiro, com o contrário acontecendo no outro lado da quadra. Também foi importante que os dois levavam a sério o confronto e chamavam o jogo para eles sempre que possível, não era, por exemplo, como Kevin Garnett e Tim Duncan, que também se marcavam mas tinham uma abordagem bastante coletiva para o jogo, deixando os confrontos entre um e outro menos emocionantes do que poderiam ser.

Na questão da atenção recebida em relação ao talento, com Shaq aconteceu o oposto de Yao, quanto mais ele piorava, mais chamava a atenção pelas gracinhas, piadas e entrevistas polêmicas/interessantes/hilárias. No último ano de Heat a dancinha com LeBron e Dwight Howard foi a melhor coisa que fez na temporada, no Celtics, seu último time na carreira, vai ficar marcado mais pela aparição como estátua em Harvard e pelo nascimento de seu lado feminino Shaqueeta do que pelo pouco que fez em quadra. No Phoenix Suns as cenas que ficam para a história são as dele mergulhando na torcida (e do time com medo de um novo mergulho no jogo seguinte, a famosa cena do Shaq-Moisés).



Não digo que foi um fim de carreira melancólico, isso seria clichê e um exagero, mas certamente não a altura do que foi o resto da carreira de Shaq. Se Yao tem alguns números importantes para mostrar nas suas 7 boas temporadas de NBA, Shaq tem 19 anos de liga, 13 deles com média de pelo menos 20 pontos e 10 rebotes (recorde da história), 4 títulos, é o quinto maior pontuador da história, o único pivô desde 1994 a ter média de mais de 28 pontos por jogo, além de ser responsável até por mudanças de regras. A liberação da defesa por zona, dizem, foi apressada para que os times tivessem alguma resposta para aquele jogador que não podia ser parado só com defesa 1-contra-1. Aliás o que mais assusta na carreira do Shaq é como ele conquistou tanto e mesmo assim pensamos que poderia ter feito muito mais. Se tivesse aprendido a arremessar lances-livres e não tivesse brigado com Kobe Bryant, qual poderia ser o número de títulos desse cara? Assustador só de imaginar.

Embora pivôs de alto nível sejam raros, apareçam em média uns três ou quatro realmente bons a cada década, não vai ser só por isso que Shaq vai fazer falta. Caras com o carisma e bom humor aliados ao talento dele são ainda mais raros. A NBA.com fez um vídeo com os 10 momentos mais engraçados dos All-Star Games entre erros e palhaçadas, Shaq está lá arremessando de três, driblando e beijando a careca do Tracy McGrady. Ele também já beijou câmeras, se deu os mais diferentes apelidos, falava palavrões em entrevistas quando queria e quando não queria era capaz de dar as coletivas de imprensa mais interessantes da história. E olha que coletivas de imprensa são feitas para serem chatas e insossas!Os 10 melhores momentos de Shaq fora da quadra feito pela ESPN é algo único, só Ron Artest chega perto de algo assim.

Shaq é uma rara combinação de talento, bom humor, inteligência e vontade de ser os centro das atenções. Temos caras com todas essas características na NBA, mas nunca na mesma pessoa. LeBron James quer aparecer mas não sabe dar uma entrevista tão inteligente como a do Andrew Bogut, por exemplo, Steve Nash é engraçado mas não é o egocêntrico que chama toda a atenção para ele como Kobe Bryant. O Jared Dudley é um cara divertidíssimo e inteligente, mas não é bom o bastante para ser relevante para a maioria dos fãs. Cada um tem um pouco, Shaq tinha tudo.

O Yao tinha algumas dessas características. É um cara bem inteligente e tem seu bom humor, mas definitivamente não gosta de ser o centro do mundo como o seu rival, é bem mais discreto. Isso deixou a rivalidade dos dois ainda mais interessante, eles tinham personalidades diferentes, quase opostas, estilos de jogo absurdamente diferentes e ao mesmo tempo se gostavam e levavam os seus duelos bem a sério. Ver a força de Shaq contra os ganchos sutis de Yao era ver o confronto de duas escolas de pivôs. No começo a rivalidade foi um pouco fabricada, mas rendeu o duelo individual mais interessante dos últimos tempos que, infelizmente, não rendeu grandes duelos de pós-temporada.

Eu sempre insisto na história de que para nós, espectadores, a NBA não é nada mais do que uma grande novela. Ou, já que é dividida em temporadas, uma série de TV. Temos nossos favoritos, elegemos heróis, vilões e adoramos um grande drama. Mais do que só assistir basquete queremos saber um pouco da vida de cada um e assim decidir de quem gostamos ou não. Choramos com a história do Chris Paul e a morte do seu avô e criticamos o estrelismo do LeBron James e seu "The Decision". Tudo isso compõe junto com os jogos em si, a série de TV que assistimos todas as temporadas. A perda de Shaquille O'Neal e Yao Ming ao mesmo tempo é a aposentadoria de dois dos atores mais conhecidos dessa série, de rostos conhecidos até por quem só assistia um episódio por ano, meio sem querer. E é a saída de dois dos personagens mais queridos, odiados ou simplesmente discutidos dos últimos 10 anos.

Insisto nessa história dos personagens e da rivalidade porque é o que havia sobrado dos dois, em termos esportivos a coisa não muda muito. Shaq foi pouco relevante no Suns, menos ainda no Cavs e passou mais da metade da temporada machucado pelo Celtics. O Yao já não joga há dois anos e, para ser bem sincero, já tínhamos um post sobre sua aposentadoria feito há um ano, pelo Danilo. Mas acho legal que os dois tenham anunciado a aposentadoria ao mesmo tempo, é um jeito de pontuar historicamente o fim da última década quando o assunto são pivôs. Shaq marcou mais do que essa última década, claro, mas teve em Yao Ming o seu rival mais interessante nos últimos 10 anos e com ele nos fez reviver os grandes duelos de pivôs que marcaram os anos 90. Agora é esperar que Andrew Bynum, Dwight Howard (que toma um vareio do Yao nesse vídeo) e a nova geração de pivôs mantenham o núcleo de pivôs da novela da NBA interessante como foi quando Shaq e Yao estavam em seu auge.

Para quem gostava do duelo como eu, o YouTube está cheio de vídeos legais. Aqui tem em mais detalhes aquele primeiro duelo de 2003, com algumas enterradas legais do Shaq no meio. Em 2004 tem um vareio do Rockets sobre o Lakers com 27 pontos do Yao, que dominou o jogo. E por fim algumas jogadas de um Rockets e Suns de 2008, o vídeo acaba com o Shaq dando um toco em Yao e os dois fazendo piada sobre o lance.

terça-feira, 8 de março de 2011

Fetiche por gigantes

Se o Brooks já era porra-louca, imagina quantas mães ele vai arremessar no Suns


Com a chegada da data limite para trocas na NBA, trocentos times resolveram fazer mudanças importantes. Alguns resolveram que era época de reconstruir, outros conseguiram peças importantes para tentar chegar ao título. Desde então sentamos e analisamos todas essas trocas, Jeff Green para o Celtics, Hinrich para o Hawks, Mo Williams para o Clippers, Deron Williams para o Nets, Carmelo para o Knicks e Gerald Wallace para o Blazers, além dos jogadores que foram dispensados e trocaram de time após as trocas, como o Mike Bibby indo para o Heat e o Troy Murphy indo para o Celtics. Só faltaram duas trocas, que são a parte que me cabe neste latifúndio. Como bom torcedor do Houston, é meu dever de cidadão analisar a troca que mandou Aaron Brooks para o Suns pelo Goran Dragic mais uma escolha de draft e a troca que mandou Shane Battier de volta para o Grizzlies pelo Thabeet e uma escolha de draft. Legal, vamos voltar do carnaval (em que você passou o dia inteiro atrás de atualizações do Bola Presa clicando com cara de fracasso vendo sua lista vazia no MSN, ou então estava bêbado demais para se importar com basquete) e nos deparar com mais um texto sobre o Houston escrito pelo lambedor de bolas oficial do Yao Ming. Ah, não é uma delícia fazer o que a gente bem entende?

No post sobre a troca do Blazers, lembramos do processo de reconstrução da equipe que começou mandando embora Zach Randolph, então melhor jogador da equipe. Mesmo sem outras trocas, escolhas de draft ou contratações, o Blazers já melhorou imediatamente só de não ter o Randolph em quadra. Em parte porque ele era um buraco negro (quando a bola chegava nele, nunca mais escapava), em parte porque ele produzia bons números mas não defendia bulhufas, mas o motivo principal da melhora da equipe foi que  a saída do Randolph abriu espaço para outros estilos de jogo e deu oportunidade para outros jogadores mais jovens. Cada caso é um caso, não é sempre que funciona, o Cavs sem seu melhor jogador virou um dos piores times da NBA, mas às vezes vale a pena perder uma peça que parece essencial e dar minutos ao resto do elenco. Curiosamente é o que está acontecendo com o Nuggets, por exemplo, que sem o Carmelo agora pode se dedicar a um sistema de jogo defensivo e dar minutos a um elenco bastante profundo. Com o Houston aconteceu algo parecido, mas em menor grau.

Desde que o Tracy McGrady foi boicotado e mandado embora, o time continua com sua política de manter um jogo coletivo e sem estrelas que consegue fazer estrago, mas que sem Yao Ming provou que não vai a lugar nenhum. Aaron Brooks foi um dos melhores jogadores da equipe nas duas últimas temporadas, foi líder da NBA em bolas de 3 pontos, deu sufoco para o Lakers nos playoffs e assumiu a responsabilidade nos momentos decisivos de inúmeras partidas - mas ele ainda era apenas mais um armador em uma equipe cheia até as orelhas de outros armadores. Rapidamente ele foi de jogador mais importante para jogador mais desnecessário - e a equipe melhorou muito sem ele.

Isso aconteceu porque a defesa do Houston desmontou inteira sem Yao Ming. Tendo que usar um garrafão muito baixo e com limitações defensivas graves (jeito simpático de dizer que todo mundo fede), a tática de afunilar a defesa para o centro do garrafão virou farofa. Os jogadores de perímetro passaram a ser responsáveis por impedir os adversários de infiltrar, e não de forçar a infiltração pelo meio como antigamente. O problema é que Kevin Martin e Aaron Brooks são simplesmente terríveis na defesa mano-a-mano, é de dar vergonha. Com os dois em quadra como titulares, a defesa da equipe virou uma peneira, mais aberta do que passista bêbada de escola de samba, e vários jogos foram perdidos por pouco no começo da temporada justamente porque o Houston não conseguia impedir pontos nos minutos mais importantes. A temporada foi pro saco bem no começo, com os jogos perdidos por pouco, e desde então o time não fez outra coisa além de correr atrás do prejuízo em busca de uma vaga nos playoffs.

Quando o Brooks se machucou e Kyle Lowry assumiu a armação da equipe, as coisas melhoraram muito. Lowry é um excelente defensor, um dos melhores na posição, e bastou que tivesse mais minutos (e se recuperasse da própria lesão que sofreu) para se acostumar com as funções do Brooks e começar a acertar os arremessos de três pontos que eram característica do antigo dono do cargo. A profundidade do elenco também apareceu com a contusão do Brooks: o Courtney Lee, também excelente defensor, joga muito bem quando tem minutos decentes. Chase Budinger se destaca nas bolas de três se o armador não arremessar tanto. Ish Smith, que teve minutos quando todos os outros armadores estavam lesionados, mostrou que consegue segurar as pontos. E Terrance Williams, que anda destruindo nos treinos da equipe, só não entra em quadra pra pontuar como um maluco porque ele é essencialmente igual ao Brooks no que tange à defesa.

Ou seja, não deu pra sentir falta do Brooks enquanto ele esteve contundido. Tem armador de baciada para entrar no seu lugar, incluindo um armador que sequer tem espaço para ser utilizado e que faz as mesmas coisas que ele. O time ainda tem suas dificuldades, continua perdendo, mas é melhor com Kyle Lowry armando e o resto dos armadores tendo oportunidade em quadra. O Brooks é bom, isso é inegável, mas Lowry é um armador mais experiente com uma carreira inteira em que foi reserva e merecia ser titular, é bonito ver ele finalmente morder a vaga e não largar mais.

Quando voltou de contusão, o Brooks foi pro banco de reservas. Sua vaga como titular estava tomada em definitivo, não adiantava chorar. Seu contrato acaba nessa temporada, então era bem óbvio que o Houston não iria reassinar o armador por uma bagatela e que o Brooks iria procurar outros ares. Seria normal perder o armador por nada e respirar aliviado com o espaço criado pela sua partida, coisa de elenco profundo e nenhuma chance de título, mas o Houston conseguiu trocá-lo numa jogada de mestre. Porque o Suns não sabe o que faz.

O Goran Dragic não estava jogando bem em Phoenix, é verdade, mas ele comandou o ataque do Suns nos playoffs passados com algumas partidas simplesmente espetaculares e é disparado o melhor defensor da equipe na posição (o que não quer dizer nada num time que tem o Nash, claro). Faz tempo que o armador esloveno está sendo cuidadosamente criado para assumir o time numa possível saída do Nash, mas parece que o Suns simplesmente encheu o saco. Mandaram o armador embora, junto com uma escolha de draft (do Suns, se eles não forem para os playoffs, ou do Magic, caso eles consigam ir) e pegaram o Brooks para assumir a reserva e o Ish Smith pra segurar as pontas quando Nash e Brooks jogarem ao mesmo tempo em quadra numa formação mais baixa. Caso a equipe tenha esperanças de se dar bem nos playoffs, o Brooks pode ser uma boa - ele fez chover contra o Lakers, é mais rápido que o Dragic, arremessa melhor e tem experiência levando um time nas costas na pós-temporada. Mas para assumir o lugar do Nash, a troca não faz sentido. O contrato do Brooks vai acabar nessa temporada e não há garantia de que ele vá reassinar com o Suns. A troca pareceu apenas um empréstimo para ver se a equipe consegue ir bem nos playoffs nessa temporada, o que é ridículo. Desde quando o Suns deveria se importar com essa temporada? Tudo bem que o time deveria feder mas nunca fede, que eles continuam ganhando mesmo quando a gente espera que eles desmontem, mas alguém realmente acredita que essa equipe que depende do Channing Frye e do Vince Carter vai a algum lugar? Quando finalmente achamos que o Suns vai se tocar, entrar em reconstrução e trocar o Nash, eles insistem em vencer uns jogos bizarros, continuam com chances de ir pros playoffs e fazem uma troca que não pensa em nada no futuro. Não entendo esse time nem lascando. Pra mim foi a troca mais desequilibrada da data limite, o Houston cometeu um assalto à mão armada e o Suns tá lá, feliz da vida, achando que dá pra vencer o Spurs nos playoffs e mandar o futuro às favas. Legal. Se eles forem campeões com esse time mequetrefe, sendo que não conseguiram com Amar'e e Jason Richardson, façam favor de jogar esse mundo fora porque não vou querer viver nele.

A outra troca do Houston tem muito em comum com a primeira. Os jogadores que ganharam espaço com a lesão do Aaron Brooks, como Courtney Lee e Chase Budinger, não apenas se mostraram competentes com os minutos como também são o futuro do Houston, que não tem motivo para pensar no agora. Shane Battier é um gênio, continua sendo um dos melhores defensores da NBA e é mais obediente do que cachorro de cego, respeita toda e qualquer instrução tática, lê bem o jogo e executa bem todas as pequenas coisas como se jogar no chão e dar cabeçadas em muros de concreto. Mas ele é o tipo de jogador essencial para equipes que querem ser campeãs, não para equipes que estão formando elencos profundos baseados em pirralhada. Ele era a peça final para levar Yao e Tracy McGrady ao titulo, o Houston até abriu mão do Rudy Gay novato porque não tinha paciência para esperar o pirralho amadurecer. Mas o título não veio, as lesões não deixaram, o Rudy Gay virou estrela no Grizzlies e o Battier agora não é mais necessário. Com o contrato expirante do Yao Ming, o Houston vai ter grana para decidir quais jogadores jovens manter e quem trazer para dar uma força, mas está longe de ter chances reais pelos próximos anos. O Battier estava sendo pouco aproveitado. Isso ficava óbvio quando o Houston vencia jogos graças às bolas de três pontos do Battier, não graças à sua defesa. Toda vez que ele entrava em quadra com a mira calibrada, as chances de vitória da equipe eram muito maiores. Pronto, agora o Houston pode usar o Chase Budinger de titular que é especialista nas tais bolas de três e o Courtney Lee pode brilhar na defesa arremessando muito melhor do que o Battier jamais arremessará. Ponto pra meninada.

No Grizzlies a situação é inversa. Agora o time se leva a sério, a reconstrução feita aos trancos e barrancos que começou com a troca do Pau Gasol deu resultado, e eles realmente acreditam que podem surpreender nos playoffs. O projeto do Grizzlies teve um monte de tropeços, o OJ Mayo deu dor de cabeça e foi deixando de ser usado, o Hasheem Thabeet veio com a segunda escolha do draft mas não está pronto para a NBA, o Rudy Gay se contundiu no meio dessa temporada (e só volta agora no final de março), e mesmo assim o Grizzlies continua impressionando todo mundo com uma defesa sufocante e vencendo jogos que não deveria vencer. É um time de verdade capaz de garantir uma vaga nos playoffs e surpreender qualquer adversário através da defesa. Quão bizarro é isso num time que tem Zach Randolph como titular? É maluco mas é real, e agora o Grizzlies precisa acreditar que pode vencer imediatamente, preparando terreno para a inevitável evolução da equipe. Tony Allen encontrou nova vida após o Celtics com a sua forte defesa individual, então Shane Battier com certeza vai se encaixar no esquema defensivo, quebrar um galho nos rebotes enquanto Rudy Gay está fora, e fazer as pequenas coisas que o time precisa nos playoffs. Ainda que o contrato do Battier também seja expirante como o do Brooks, tudo leva a crer que o Battier vai ter muitos movitos para continuar na equipe após essa temporada e terá um papel importante na campanha da equipe nos playoffs e no futuro.

Para conseguir Battier, o Grizzlies teve apenas que desistir de uma escolha de draft futura (provavelmente de 2013, quando eles esperam estar na elite da liga) e de uma cagada, o pivô Hasheem Thabeet. Todo mundo sabia que o pivô estava mais cru do que sashimi quando foi draftado, mas o Grizzlies insistiu em gastar uma segunda escolha com o rapaz. Agora que precisam vencer hoje mesmo, não dá pra esperar mais 10 anos até que o pivô aprenda a amarrar os próprios cadarços. O Houston pode ter essa paciência numa boa, e está tão desesperado por um pivô que vale até a pena arriscar um jogador que precisa de ajuda para se limpar quando vai ao banheiro. O lado positivo pro Houston é que o Thabeet não foi um fracasso completo como novato. Ele teve média de mais de um toco por jogo mesmo ficando em quadra por pouco mais de 10 minutos. Ele é um poste gigantesco com 2,21m de altura capaz de alterar muitos arremessos e bloquear outros tantos, mas com dificuldade para correr de um lado para o outro, técnica nenhuma no ataque e físico inferior ao do Justin Bieber. Se o Houston quer voltar a ter uma presença defensiva no garrafão para que a defesa do perímetro afunile em sua direção, como fazia com Yao e com o Mutombo, o Thabeet é uma esperança. O Grizzlies foi ficando bom e aí não fazia mais sentido dar minutos para o pirralho que só sabe dar tocos, o Houston pode esperar mas é bem capaz que também fique bom demais antes do pivô deslanchar, e aí não vai fazer sentido usá-lo. Por enquanto o Houston está sendo cauteloso, avaliando o Thabeet nos treinos, ainda vendo se a nova formação da equipe se encaixa e se tem chances de lutar por uma oitava vaga. Em breve ele vai ganhar mais chances e minutos, coisa de time com fetiche por pivôs com mais de 2,20m de altura. É legal ganhar um pivô com potencial em troca de um jogador que não era mais tão útil e cuja partida abrirá espaço para outros jovens promissores, mas convenhamos: ficar dependendo de pivôs gigantes mostra que o Houston definitivamente não aprendeu uma lição importante sobre a saúde desses jogadores-aberrações. Aposto que o Grizzlies agora respira aliviado por não ter que lidar com essa bomba, mesmo que no futuro o pivô venha a render alguma coisa. É melhor garantir umas vitórias agora do que ter que carregar o fardo de uma péssima escolha de draft pra vida toda. O fardo agora é do Houston, mas é mais leve porque é só uma pequena aposta que custou pouco - desde que a equipe não morra de amores pelo pivô e deposite todas as suas fichas nele. Mas como ele mal entrou em quadra desde que a troca aconteceu, não acho que seja o caso. Como torcedor, também não vou esperar grandes merdas, vou só ficar de olho porque, né, vai que dá certo?

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Funeral

Basta que Greg Oden e Yao Ming olhem um para o outro para que se lesionem

Já escrevi minha despedida ao Yao Ming faz tempo, mais de um ano atrás. Na época, a lesão no tornozelo adquirida na série de playoff contra o Lakers já havia se mostrado mais problemática do que se esperava, tudo indicava que ele perderia toda uma temporada da NBA e que, quando voltasse, teria minutos limitados em quadra. Era o decreto de que sua carreira não guardava mais surpresas, e lhe restava apenas um papel secundário no mundo do basquete. Sua função de unir o mercado americano e o chinês, derrubar fronteiras culturais entre os dois países e voltar os olhos do mundo para a NBA numa época em que o interesse do público diminuia mais e mais já estava completa. Yao Ming parecia se despedir aos poucos das quadras deixando como legado uma NBA que lucra horrores com consumidores chineses, e uma China que vê o resultado de um longo processo de reconstrução de sua própria imagem. Seu lugar na história independe, portanto, de seu rendimento nas quadras a partir de agora. Basta aquilo que ele apresentou no pouco tempo em que esteve saudável o bastante para competir em alto nível. Mas é impossível não ficar triste com sua aposentadoria. Que se dane a história, seu papel na cultura chinesa, seu legado para o mercado, a camiseta dele que eu comprei aqui no Brasil. O que realmente importa é outra coisa: o Yao jogou basquete a vida inteira, ama o basquete, e é o que ele sabe fazer de melhor. Nunca é legal, não importa qual tenha sido seu papel na história, ser obrigado a parar de fazer aquilo que você ama.

É por isso que recebi com alegria os relatos de que sua recuperação havia sido fantástica. Ele voltou a treinar novamente, recebeu um lugar garantido na equipe para essa temporada e não sentia mais nenhum rastro da lesão. Era possível imaginar que o Yao seria uma versão bizarra do Ilgauskas, que também sofreu lesões similares e que nunca mais foi estrela em quadra, se movimenta como se estivesse correndo dentro de uma piscina, mas consegue ajudar e muito qualquer equipe em que estiver com seus arremessos. Mas quanto nos aproximamos do começo da temporada, surgiu a notícia de que os minutos de Yao Ming seriam limitados a 24 por partida, no máximo. Não porque ele estivesse fora de ritmo, preocupado com a lesão ou cansado dos trabalhos nas férias, mas sim porque finalmente os médicos de Houston foram capazes de enxergar a verdade: um ser humano não deveria correr de um lado para o outro por 82 partidas inteiras por temporada tendo 2,29m de altura. Nenhuma estrutura óssea foi concebida para essas proporções.

É claro que tentamos esconder essa verdade. Queremos que os jogadores corram, se esforcem, joguem com garra e potência, alcancem um aro colocado lá no alto, e nos entretenham enquanto fazem isso por 82 vezes em um ano, fora os playoffs. Poucos corpos podem suportar esse tipo de coisa, independente de sua altura. No caso de Yao, isso é ainda mais terrível. Rapidamente os 24 minutos por partida mostraram que não seriam suficientes para salvar sua carreira e a lesão combatida por mais de um ano voltou novamente. Essa é, então, uma despedida final - e eu não vou ter nenhuma vergonha de ficar brega nela, combinado?

Com Yao jogando minutos limitados, meu Houston Rockets não iria muito longe na NBA, provavelmente chegaria aos playoffs mas não teria reais chances de título. Yao sabia disso e reclamava constantemente da limitação, queria ficar mais em quadra, sabia que podia render mais se ficasse mais tempo em jogo - e o time, como já comentei aqui, pararia de sofrer com uma terrível falta de padrão de jogo. Pelo modo como estava jogando, realmente poderia levar o time nas costas se tivesse mais oportunidades. Mas seu fisico não permitiria e sabotou novamente sua temporada na primeira oportunidade. Yao não queria ser o Ilgauskas, queria quebrar o limite de minutos, não queria ficar mofando no banco. Como ele será capaz de lidar, então, com uma aposentadoria inevitável?

"Eu não morri", foi sua resposta. "Nesse momento estou bebendo uma cerveja e comendo frango frito. O que vocês estava esperando, um funeral?"

Seu contrato termina nessa temporada e nenhuma equipe lhe dará milhões apenas para frequentar o departamento médico. Mesmo que ele ainda sonhasse com mais minutos, que ele quisesse mais oportunidades, sua aposentadoria será praticamente forçada. No entanto, não há nenhum funeral. Yao já havia dito que o mais importante é que ele pudesse levar uma vida saudável fora das quadras, brincar com sua filha, sair com sua esposa. Sim, ele tem uma filha. É claro que quando se sente saudável a história é outra, ele quer entrar em quadra e produzir mais e mais, mas não lhe falta a consciência de que o basquete está em segundo plano frente à saúde necessária para seguir uma vida normal. Yao agora é um homem casado, com um filhinha que não tem nem 1 aninho ainda, e construiu uma vida fora das quadras. É triste que ele não possa jogar basquete, ele se esforçará para voltar, mas durante todos esses anos de carreira ele construiu uma vida adulta na qual pode se escorar.

O Houston Rockets não é bobo nem nada. Sabe que Yao tem uma das personalidades mais cativantes da NBA nas últimas décadas e conhece bem os lados positivos de ser bem visto pelo mercado chinês (que compra qualquer coisa com a marca do Rockets, até tênis do Shane Battier ou do cocô do Rafer Alston), então já avisou que manterá Yao por perto. Ele pode até ter seu contrato renovado por uma ninharia só pra estar no banco, mas deve mesmo é virar assistente técnico, auxiliar, engravatado, burocrata, garoto da água, qualquer coisa que exista ao redor do basquete. A vida continua, e Yao teve a sorte de ter sido capaz de construir uma vida por entre as frestas que a NBA permite a seus funcionários que nunca descansam.

Não podemos dizer o mesmo de todos os jogadores, no entanto. Greg Oden, por exemplo, sofre com lesões desde seu primeiro minuto na NBA e não teve tempo de construir coisa nenhuma. Assim como Blake Griffin, Oden não jogou uma única partida sequer em sua primeira temporada, então estreiou como novato apenas em seu segundo ano de NBA. O Blake Griffin voltou voando, pulando até a Lua para dar uma passeada, mas o Oden voltou com muitas dificuldades. Primeiro pelo físico, com o joelho que ainda incomodava. E depois pela sua personalidade, tão insegura dentro e fora das quadras. Ainda no hospital depois de sua primeira cirurgia no joelho, Greg Oden pediu desculpas em prantos para o dono do Blazers, prometendo que ele não se arrependeria de tê-lo draftado. Oden tem medo de não conseguir ser aquilo que esperavam dele, tem medo de não levar ao campeonato um time que só precisava dele para ter chances reais de título. Admitiu que as críticas lhe comiam o cérebro, e que as reações da torcida de Portland lhe tiravam completamente a cabeça do jogo. Quando começou a pegar confiança devagarinho, se contundiu de novo. E de novo. Esperava voltar às quadras nessa temporada mas constantemente viu as previsões sendo adiadas, até que teve que fazer nova cirurgia e perderá toda essa temporada. Não será, como no caso do Yao, uma impossibilidade de sua estrutura física? Mas Oden tenta ao máximo escapar dessa teoria:

"Me perguntam bastante: você acha que seu corpo simplesmente não foi feito pra isso, ou você é só azarado? Mas tem que ser que eu sou só azarado."

Greg Oden se agarra como pode ao azar, e fico feliz que seja assim. Afinal, nos últimos anos sua tendência foi sentir-se culpado, como se ele tivesse algum controle sobre as lesões que sofre. As pessoas criticaram tanto o coitado por não conseguir ficar saudável que ele começou a acreditar que era um merda e responsável pelo que acontecia com ele. Procurou uma série de especialistas para saber se fazia algo errado, se seu corpo era mal formado, se havia alguma questão óssea. No final, o único especialista que o ajudou foi um psicólogo, alguém para lhe explicar que um garoto de sua idade não deveria lidar com esse tipo de culpa ou pressão. Agora ele acha apenas que é azarado e vai continuar se reabilitando até que seu corpo desista de ficar lhe puxando o tapete. Mas a pergunta é: e se o corpo dele continuar se desintegrando?

Greg Oden tem apenas 22 anos. Não tem uma vida formada e nem fez nada relevante na NBA. Não receberá ofertas para cargos técnicos ou executivos, e nem tem um povo que lhe apoia incondicionalmente. Não tem muitos amigos, está sempre isolado dos seus companheiros de equipe porque treina em separado, e não tem nada no que se segurar caso não possa mais jogar basquete. Enquanto isso, o Blazers simplesmente se esfarela embaixo dos seus pés, porque o time reuniu talento demais, jovem demais, e a falta de um grande pivô podou as chances reais da equipe nos playoffs antes que os egos se chocassem. Agora, os jogadores do Blazers querem mais dinheiro, mais minutos, mais arremessos, mais a bola nas mãos, e parece que a chance de ganhar um anel com esse elenco se perdeu nas lesões do Greg Oden.  O grupo virou um barril de pólvora e o Oden continua lá se sentindo o pior dos mortais, o homem em que se colocou todas as fichas e não conseguiu sequer entrar em quadra. É tipo o Kwame Brown, mas ao invés de feder, foi o corpo que lhe deixou na mão - o que pode ser ainda mais frustrante.

Se já é injusto o tipo de ódio e agressividade que o Kwame recebe por ser ruim, ignorando todas as suas questões psicológicas e as dificuldades que passou na vida, o tipo de coisa que se diz sobre jogadores que estão constantemente lesionados é mais injusta ainda. Como se o Oden, ou o Yao, ou qualquer um, preferissem andar de muleta do que estar chutando traseiros nas quadras. Eu sei que, nos minutos que teve, o Greg Oden não era nenhum gênio e cometia uma falta toda vez que tentava coçar o nariz, mas não temos sequer como imaginar como ele seria se tivesse um pouco de tranquilidade, padrão de jogo e consistência de minutos. Talvez fedesse, talvez fosse uma estrela, sei lá. As exigências físicas da NBA não permitirão que possamos ter um julgamento sobre o pobre do Greg Oden.

Só sei que a NBA seria mais divertida com Yao Ming e Greg Oden. Finalmente vemos a retomada do jogo de garrafão na NBA, com uma nova e habilidosa geração de pivôs chutando traseiros todas as noites, mas Oden e Yao apenas acrescentariam a esse grupo. As lesões não apenas retiram das quadras jogadores divertidíssimos de acompanhar, elas também limitam jogadores que continuam competindo. Estrelas jovens como Brandon Roy e Tyreke Evans já estão caindo aos pedaços, e já não consigo lembrar qual foi a última vez que Kobe Bryant entrou em quadra completamente saudável. Mesmo os que continuam atuando em alto nível estão baleados, como o Kobe e seu dedo que daqui a pouco vai desistir dele e transformar o Kobe no Lula. Eu, como fã, estou disposto a diminuir o número de jogos de uma temporada para poder ver mais jogadores capazes de jogar com todas as suas forças, mais gente saudável no ápice de sua forma física, e mais jogadores que de outra forma abandonarão as quadras. O espetáculo agradeceria o menor número de jogos em uma temporada ao ver Yao Ming e Oden se enfrentando, e um Kobe saudável marcando 81 pontos numa partida. E, se deixarmos o espetáculo de lado e notarmos que os jogadores são pessoas, gente comum com dores e medos e vidas dedicadas a um esporte que lhes toma todo o tempo, a redução do tamanho da temporada é ainda mais urgente.

Já levantamos aqui a questão de um novo modo de estrutura salarial para a NBA, em que o jogador seria pago por minutos jogados e que leva os técnicos a colocarem sempre seus melhores em quadra, independente de quem sejam, e cada jogador receberia por sua importância na equipe. O Denis acabou de levantar a questão sobre a diminuição do número de times na Liga, o que aumentaria a qualidade das equipes restantes. Lavantemos também, já que estamos nessa utopia inofensiva, uma temporada de NBA em que todos os times se enfrentassem apenas duas vezes, em regime de ida e volta. Seriam 58 partidas por temporada, com mais tempo para descanso e sem as temíveis partidas em dias seguidos que o Denis já apresentou com detalhes. Às vezes, é preciso repensar toda uma estrutura que parece funcionar porque algumas coisas dentro dela não funcionam. Temos jogos demais, não há como questionar esse verdade.

A falta de Yao Ming me enche de tristeza, e nem quero discutir suas qualidades técnicas com os odiadores por aí. Só acho importante direcionar o ódio por esses jogadores constantemente lesionados para o lugar certo. Greg Oden diz que as pessoas lhe olham com raiva e perguntam, indignadas, se ele está lesionado "outra vez". Sim, ele está, e não pode controlar. Essa agressividade idiota deveria se voltar para o exagero no calendário do esporte que amamos, e que o torna cada vez mais e mais desfalcado, diluído, porque insistimos em colocar cada vez mais água no feijão.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Fedem mas nem tanto

"Dá um abraço no titio!"


Só de brincadeira, imagine que os 15 times de cada Conferência fossem aos playoffs no mesmo formato em que ele é hoje em dia: o melhor time enfrentando o pior, o segundo melhor enfrentando o segundo pior e assim por diante. Se os playoffs começassem hoje, teríamos o melhor time do Oeste, que é o Spurs, enfrentando o pior da  Conferência, que é o Clippers. Enquanto isso, o Lakers em má fase, que caiu para a quarta colocação, enfrentaria o Houston em fase tenebrosa, amargando a quarta pior campanha do Oeste. E, ainda assim, Clippers e Rockets saíram vitoriosos ontem. As duas zebras mostram não apenas que o Lakers anda tropeçando nas próprias pernas e que o Spurs não é esse time imbatível que se comenta por aí, mas também que Rockets e Clippers são equipes muito melhores do que suas campanhas indicam.

A última posição na tabela para o Clippers, em especial, é muito cruel. Isso porque um dos responsáveis pela péssima campanha é a famosa "maldição do Clippers", que sempre dá um jeito de contundir todo mundo caso o time seja bom: dentre os titulares, Chris Kaman está com uma torção e só jogou metade das partidas até agora, e Baron Davis tem problemas nos joelhos - fora que seus reservas também estão baleados, com o Eric Bledsoe voltando de uma torção no tornozelo e o Randy Foye ainda fora com uma lesão na coxa.

Com Kaman e Baron Davis em plenas condições no quinteto titular, o Clippers certamente teria mais algumas vitórias para sair do fundo do poço. No caso do Kaman, ele é um melhores pivôs da NBA e sua presença embaixo do aro certamente diminuiria a marcação em cima de Blake Griffin - além, claro, de ajudar o time na defesa do garrafão, em que eles fedem. Mas no caso do Baron Davis, o negócio é mais complicado. Quando ele entra bem em quadra, como foi o que aconteceu na partida de ontem contra o Spurs, o Clippers é um timaço. Não faz muito tempo que o Baron Davis era considerado um dos melhores armadores da liga, levando nas costas aquele Warriors que desclassificou o Mavs, dono da então melhor campanha na temporada regular. O problema é que, mesmo quando as contusões não aparecem, é muito difícil ver o Baron Davis entrar bem em quadra, simplesmente porque ele não se importa.

Quando jogava no Warriors, jogava com intensidade, enterrava na cabeça de todo mundo e chamava para si a responsabilidade. Às vezes, até demais. Por ser fominha demais em jogos cruciais que decidiriam a vaga para os playoffs, Don Nelson começou a deixar o Baron Davis de molho no banco de reservas nos momentos importantes das partidas. Não demorou para que ele desse o fora de lá, por conta própria, e escolhesse jogar em Los Angeles para estar mais próximo de sua empresa, uma produtora de filmes. Mas o arrependimento veio logo: Baron Davis descobriu que todas as outras equipes de basquete não comandadas pelo técnico-biruta Don Nelson eram times de verdade, com horários, treinos, defesa, regras de alimentação, jogadas planejadas. Em mais de uma ocasião, Davis foi a público dizer como as coisas eram mais "suaves" no Warriors, e que ele não se dava bem com o clima rígido e pesado do Clippers. Aos poucos foi se desinteressando, focado na produção de filmes nas suas férias, e deixando o basquete de lado.

A troca de técnico talvez pudesse renovar o interesse do Baron Davis, mas o primeiro passo foi catastrófico: ele se apresentou ao time completamente gordo, sem ter jogado um único minuto de basquete nas férias, e o novo técnico Vinny Del Negro ficou puto da vida. Esse é o Baron Davis, senhoras e senhores: um jogador que poderia estar chutando traseiros mas que já torrou o saco, apenas aguarda sua aposentadoria pra poder parar com essa bobagem de basquete. Tipo quem trabalha em banco.

O curioso é que o Baron Davis gordo e desinteressado já seria o bastante para que o Clippers se tornasse um time respeitável. É por isso que, tirando as lesões, a culpa é quase toda do Vinny Del Negro, que de bom só tem o nome de boxeador. Quanto mais vejo o Clippers jogar, mais lembro dos problemas do Bulls na temporada passada e mais acho o Vinny Del Negro um técnico medonho. No Clippers, quando a bola gira no ataque para um dos lados da quadra, ela simplesmente morre por lá. É como se o time tivesse uma jogada para levar a bola para a zona morta, mas quando não surge com isso uma oportunidade de arremesso, a jogada congela. Fica um jogador com cara de bunda segurando a bola bem marcado, 15 segundos sobrando no relógio de arremesso, e aí vai forçando caminho contra a defesa até fazer alguma merda. Essas jogadas que simplesmente "morrem" se extendem a qualquer jogada planejada pelo Clippers. Quando eles fazem um corta-luz na cabeça do garrafão, por exemplo, e não surge uma oportunidade de cesta, o armador sobra com a bola nas mãos e o time inteiro fica parado - provavelmente pensando algo como "nós só planejamos até aqui". As jogadas não tem nem ritmo, nem continuidade, e nem um "plano B". Provavelmente por isso o Derrick Rose era obrigado a se virar tanto sozinho, naquelas jogadas de abaixar a cabeça e correr pra frente que eu tanto critiquei na temporada passada. Pronto, tá aí: depois de ver o Clippers jogar e de ver o Derrick Rose acabar com o meu Houston Rockets uma semana atrás, posso dizer que ele chuta mesmo traseiros e que a culpa era do Vinny Del Negro.

Por isso mesmo o Baron Davis é tão importante para esse Clippers: só ele pode fazer o que o Derrick Rose fazia, que é conseguir espaço à força na defesa e conseguir uma situação de cesta. Ontem contra o Spurs, parecia até brincadeira de criança: o gordinho ia com seus movimentos em câmera lenta adentrando no garrafão da equipe de San Antonio e aí passava pro Griffin só porque era legal. Foi assim que o Griffin deu mais enterradas livres do que em qualquer outro jogo da carreira, e contra uma defesa que deveria ter engolido o novato vivo (pensando melhor, o Griffin já jogou contra o Knicks, então com certeza já deu mais enterradas livres, sim). O Blake Griffin anda despirocando a cabeça da molecada, já diriam essas gírias que eu não faço ideia do que significam. Ele já virou queridinho de uma grande parte do pessoal que acompanha a NBA e tinha saudades de ver tanta enterrada de um cara que não chame Dwight Howard. E tem mais, o Blake Griffin cria os próprios arremessos, arranja na marra o espaço para enterrar, e pode finalizar com as duas mãos sem ter que enterrar em toda jogada. Ou seja, sua inteligência no ataque é o bastante para vencer alguns jogos sozinho, enquanto a inteligência ofensiva do Dwight consegue no máximo fazer cruzadinhas no nível "É sopa!".

Mas é claro que o Dwight dá um pau quando o assunto é defesa, e é nesse ponto que os novos fãs do Clippers precisam respirar fundo e entender que o time ainda fede. Recebemos perguntas e comentários no formspring o tempo inteiro dizendo que o Griffin vai ser MVP, que o time só precisa de um armador para ser campeão, que o Clippers vai para os playoffs. Vamos parar com as "dorgas", por favor. Se não bastasse o ataque do Vinny Del Negro ser um desastre e depender justamente de um jogador que não está nem um pouco interessado em jogar basquete, a defesa é ainda pior. O posicionamento para os rebotes é péssimo (inclusive por parte do Griffin), a cobertura é mal feita porque a marcação não roda, e faltam defensores no perímetro. No garrafão, DeAndre Jordan é muito cru e, mesmo tendo muito potencial, não deixa de ser simplesmente uma anta. Suas falhas defensivas são assustadoras, coisa que um gorila treinado não faria, mas aí ele dá alguns tocos espetaculares porque ele conseguiria pular até a Lua se quisesse e todo mundo esquece das cagadas. Kaman precisa voltar logo, pena que os joelhos dele são feitos de farinha.

Eric Gordon está chutando traseiros, voltou espetacular de seu tempinho com a seleção gringa, mas o aproveitamento nas bolas de três pontos tem sido um problema. Eric Gordon tem problemas para se livrar da marcação no perímetro, e as jogadas do Clippers nunca lhe deixam livre. Falta um bom passador no garrafão (coisa que o Griffin, só às vezes, consegue ser) e jogadas que girem a bola atrás de um jogador livre, não que morram nas mãos do Eric Gordon bem marcado e ele não possa fazer nada a não ser forçar uma bola de três pontos horrorosa. Contra defesas de perímetro mais vagabundas, o Clippers é um time bem mais eficiente.

Coisa similar acontece com o Houston Rockets, que também não merece amargar a quarta pior campanha do Oeste. Já falei deles num post recentemente, abordando a dificuldade do time em conseguir um padrão de jogo, mas ainda assim formam uma equipe muito perigosa quando as bolas de três pontos estão caindo. As movimentações ofensivas do técnico Rick Adelman se focam muito em cortes em direção à cesta, seja pelo meio do garrafão, seja pelo fundo da quadra. As equipes que defendem bem o garrafão acabam diminuindo a movimentação do Houston, e as bolas de três pontos precisam cair porque sobra muito espaço para arremessar nesse esquema. Bons arremessadores o time até tem, mas além da maioria não arremessar tanto quanto deveria (deve ser resultado de muita lavagem cerebral do tipo "passem primeiro para o garrafão, procurem primeiro o Yao Ming", que vai resultar em cedo ou tarde alguém passando a bola para o Yao de terno no banco de reservas), o aproveitamento também tem sido péssimo. Minha sugestão é que se trata, agora, de uma questão de confiança. Após perder os primeiros jogos por placares apertados, não ter mais Yao Ming, e ver a posição na tabela caindo cada vez mais, os arremessos de três ganham outro peso, ficam mais difíceis de converter. Especialmente porque o melhor arremessador da equipe, que é o armador titular Aaron Brooks, passou a maior parte da temporada fora lesionado. Quando ele acerta um par de bolinhas o time acalma, respira, e fica mais fácil para os jogadores secundários acertarem as deles. Depender de bolas de três de quem está tremendo e não quer arremessar fica muito complicado.

É por isso que o Houston venceu o Lakers ontem na experiência do Shane Battier, que sempre foi um bom arremessador de três da zona morta mas que pouco arremessa nesse time, executando outras funções - especialmente defensivas porque o resto do Rockets fede e muito na defesa. Quando as bolas de três caem o Houston é muito perigoso, e isso agora significa - sem Aaron Brooks - que o Battier precisa usar seu sangue frio para arremessar mais. O time coloca cada vez mais a bola nas mãos do Kevin Martin nos momentos difíceis, e ele é um bom arremessador, mas sua tendência é sempre de bater para dentro. Dá pra ver que ele força arremessos de três que não queria dar apenas porque sabe que o time precisa deles, mas sua especialidade é outra - e os próprios arremessos de três que dá seriam mais eficientes se ele pudesse chutar apenas quando está realmente livre, sem a pressão de ter que arremessar a toda hora.

Quando Brooks e Yao voltarem, a situação melhora e o fundo da tabela vai ser coisa do passado, mas a falta de padrão de jogo vai acompanhar para sempre esse time enquanto o Yao for peça central. Assim como o Clippers, que sabe muito bem como é depender de um jogador como o Baron Davis que você nunca sabe se estará lá de verdade, se você poderá ou não contar com ele. O potencial para que os times escalem rumo aos playoffs existe, mas as chances beiram ao ridículo graças à essa dependência de jogadores inconstantes e o quanto isso destrói o padrão de jogo de uma equipe.

Sobre o Lakers e o Spurs, que perderam, a gente comenta nos próximos dias. Mas não antes de comentar a partida de hoje à noite entre Cavs e Heat, que é também um jogo entre um dos quatro melhores do Leste contra um adversário mais fraco - mas que estaria indo para os playoffs, em oitavo, com seus próprios méritos. E tudo isso sendo bem pior do que Clippers e Rockets, vale ressaltar. O mistério do rendimento do Cavs e a reação da equipe - e da cidade - à presença de LeBron James serão nosso post de amanhã. E, antes disso, não deixe de acompanhar a partida (que começa às 23h) através do nosso twitter, que vai estar bombaaaando, cheio de curtição e azaração para a nossa galerinha irada!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Não farei uma piada com a frase "Houston, nós temos um problema"

Facepalm!

Quando o Houston Rockets, na temporada passada, estava chutando uns traseiros e surpreendendo todo mundo apesar da ausência de Yao Ming, o maior pânico do técnico Rick Adelman era que Tracy McGrady ficasse saudável novamente. Não importava que T-Mac fosse uma estrela, e que pudesse vencer um ou outro jogo sozinho - a dúvida diária sobre ele entrar em quadra ou não, dadas suas lesões constantes, não valia a pena. Nada é tão eficiente para acabar com um time do que lhe tirar a certeza da rotação, dos papéis em quadra e do padrão de jogo. Uma equipe que tem que jogar de um jeito diferente todas as noites não aguenta o tranco. Aquele Warriors do Don Nelson, em que os jogadores nunca sabiam se iam jogar, por quantos minutos, e em qual posição, era um pesadelo kafkaniano. Aposto que jogadores como o Marco Belinelli até hoje acordam chorando no meio da noite após um pesadelo em que o Don Nelson é contratado para treinar o Hornets. O Belinelli agora está muito bem obrigado, e o próprio Warriors é um time bastante diferente só de saber quem vai entrar em quadra.

Mesmo estando supostamente saudável, o Houston se livrou do T-Mac o mais rápido que conseguiu. Agora ele está lá no Pistons e mesmo jogando cada vez mais minutos ainda é uma dúvida constante, nunca dá pra saber se ele estará em condições de jogo. Somando isso ao fato que o Pistons não faz ideia se está tentando vencer ou se está reconstruindo o time, temos casos bizarros como o Austin Daye ser titular num dia e sequer entrar em quadra no outro. E os resultados são sempre catastróficos.

O Houston da temporada passada, sem T-Mac, não foi para os playoffs - mas foi por pouco. Com Kevin Martin na melhor forma física da carreira, as chances de se sair melhor nesse ano eram grandes. Mas aí o Houston passou a lidar com a volta de Yao Ming. Seria ridículo achar que o time piora com sua presença em quadra, pelo contrário, só de estar lá existindo e respirando, sem nem levantar os braços, o Yao Ming já faz o Houston um time melhor. Seu tamanho por si só altera infiltrações no garrafão defensivo e cria espaços ao ser marcado no garrafão ofensivo. Mas seus minutos limitados por ordens médicas (sempre os sugestivos 24 minutos por jogo) e a proibição de jogar em dias seguidos trouxe para o Houston aquele fantasma de Tracy McGrady.

Quando Yao está em quadra, o time precisa aproveitá-lo ao máximo, afinal ele terá que ir para o banco em breve. E isso é até bom, porque os passes chegam em sua mão e o time é realmente melhor quando as jogadas ofensivas se focam nele e em sua capacidade de passar a bola para o perímetro. Mas quando ele senta e não pode mais entrar em quadra, é como se o time inteiro precisasse encontrar um outro modo de jogar que tivesse esquecido durante o jogo. Os jogadores não estão envolvidos, as movimentações de bola precisam ser diferentes, é como começar um novo jogo no meio de outro. E aí, no jogo seguinte, caso seja um jogo em dia seguido, Yao está fora desde o começo da partida, então é preciso se acostumar com Brad Miller em quadra. Mas no jogo seguinte é o Yao Ming quem joga, e aí a bola tem que ir pra ele. E assim o Houston não tem padrão nem ofensivo, nem defensivo.

É claro que os problemas se extendem: com a saída de Trevor Ariza para dar espaço para Kevin Martin, a defesa de perímetro do time sofre um absurdo. Tirando Yao Ming, nenhum jogador do elenco é capaz de dar um único toco, então impedir infiltrações é ainda mais essencial - coisa que Kevin Martin e Aaron Brooks não conseguem fazer. Kyle Lowry, que é um defensor melhor na armação, passou todo o começo de temporada contundido. Quando voltou, Aaron Brooks já estava fora e assim permanecerá por mais um mês. E o próprio Yao Ming, quando começou a reclamar que deveria no mínimo voltar a jogar partidas em dias seguidos para não ferrar com a química do time, acabou torcendo o pé e ficando fora pra valer. E com o Yao nunca tem lesão simples, a torção deixou uma lasca de osso no pé dele, e o tempo de recuperação foi mais longo do que o esperado. O retorno deve ser no comecinho de dezembro.

Mas dentre todos esses problemas, o que mais afeta o Houston é mesmo a impossibilidade de criar uma rotação e um padrão de jogo definidos. As primeiras derrotas da equipe foram todas por muito pouco, nos minutos finais, em bolas decisivas. Era preciso manter um ritmo e deixar que o time aprendesse a fechar os jogos. Mas não, a rotação mudou tanto que a equipe não sabe mais o que precisa fazer para mudar o placar da noite anterior. Uma hora joga com Brad Miller, que arremessa de três e não defende, na outra joga com Chuck Hayes, que só defende mas é nanico, aí coloca o Jordan Hill em quadra, que consegue pular mas é desmiolado. Não seria surpresa uma hora dessas o Tiririca entrar em quadra e passarem a bola pra ele normalmente, como se nada estivesse acontecendo. Não basta apenas ficar esperando o Yao Ming voltar de contusão e rezar pra ele não se contundir de novo - o que já é difícil o bastante - porque quando ele estiver em quadra ainda haverá incerteza, minutos limitados, padrões diferentes de jogo. Nessas circunstâncias, a temporada do meu Houston provavelmente foi pelo ralo.

As coisas no Miami Heat são um tanto parecidas. Não tem ninguém com minutos limitados, mas assim que o time começou a mostrar fraquezas e precisava buscar um ritmo para engrenar, começou a ficar claro que quase todo mundo lá é quebra galho e não tem, ainda, papel definido. Culpa, em parte, das contusões. Mario Chalmers poderia ser titular na vaga do Carlos Arroyo, mas se machucou nas férias e ainda está fora de forma. Mike Miller poderia jogar de SF para que finalmente o LeBron pudesse ser escalado oficialmente como PG e resolveria, em parte, as dificuldades da equipe com o arremesso de três pontos, mas ele só volta no fim de dezembro. Udonis Haslem, que não decidiram ainda se é reserva do Bosh ou se joga ao lado dele, sofreu uma lesão séria no pé e agora pode estar fora por toda a temporada. E para tapar o buraco no garrafão, o Heat acaba de contratar Erick Dampier, que pega a temporada no meio e vai ter que correr tanto na parte física quanto na parte tática.

Todo mundo tinha aquela pergunta básica sobre o Heat, "quem é que vai decidir os jogos?", mas essa é menor das preocupações do elenco. Wade e LeBron continuam batendo cabeça no perímetro porque nenhum deles é um arremessador consistente de três pontos, e a resposta para isso nunca aparece porque uma hora o James Jones está em quadra, outra hora é o Eddie House quem tem mais minutos, tem hora que o Arroyo é que arremessa mas sempre com a incerteza sobre ter a posição porque ele não defende nem tem a função de armar o jogo, tem hora que é o Wade o responsável pela armação, o Mario Chalmers é sempre um dúvida se vai entrar ou não, e o Mike Miller continua lá lesionado e com cara de menina. Sabe como o Pacers deu um pau no Heat? Toda vez que LeBron e Wade fizeram o pick-and-roll, a marcação da equipe de Indiana deixou o armador livre e seguiu os jogadores de garrafão, fechando o caminho para a cesta. Pronto! Não requer prática tampouco habilidade! O treinador do Pacers, Jim O'Brien, chegou a dizer que se o Heat tivesse acertado alguns dos seus arremessos teria dado uma surra no Pacers, porque é sempre uma tática arriscada deixar jogadores tão bons constantemente livres para arremessar. Mas nessa equipe em que os coadjuvantes não têm papéis e rotações definidas, sem arremessadores de três designados, dá pra arriscar numa boa.

O meu Houston vai ter que tomar decisões duras que vão definir, agora, a carreira de Yao Ming. Quando voltar da nonagésima contusão de sua vida, jogará em dias seguidos? Continuará jogando apenas 24 minutos? Vale a pena arriscar a saúde de um jogador numa temporada praticamente perdida? Pior: vale a pena manter um jogador que pode arriscar sua saúde num time de temporada perdida? Como o contrato do Yao termina ao fim dessa temporada, o Houston precisa decidir até onde está disposto a seguir com essa bagunça - e começar a dar as respostas agora, o quanto antes, para definir o que fará mais para frente.

No caso do Heat, parte da solução para o problema é aguardar os jogadores voltarem de contusão, mas o mais importante é tomar um banho de água bem gelada. O time precisa de estabilidade na rotação e nas funções em quadra, mas como esperava estar vencendo tudo logo de cara e todo mundo quer arrancar o coitado do técnico Erik Spoelstra de lá para colocar seu chefe Pat Riley no lugar, cada hora o time acaba tentando um troço novo pra ver se funciona. Não dá pra criar um padrão se o técnico precisa fazer qualquer coisa pra vencer ou seu emprego vai pro saco, o cara nunca vai pensar em criar uma equipe a longo prazo, ele vai pensar é em pagar o leitinho das crianças. O Spoelstra é um bom técnico, ele só está com a cabeça a prêmio, um elenco cheio de buracos, lesões pra burro, e muita dificuldade de coordenar o ataque. E o problema é que, pra consertar o ataque, ele deixa de se focar na sua especialidade, que é a defesa, e aí o Heat se ferra ainda mais por culpa das falhas defensivas. É preciso respirar e se concentrar em coisas específicas e transformá-las em padrão. Vamos ganhar os jogos com a defesa e se focar só nisso? Vamos. Vamos tornar o James Jones o arremessador designado e deixar ele em quadra o tempo todo? Vamos. O buraco no garrafão ainda vai continuar, LeBron e Wade ainda vão sofrer com o arremesso, e o Mike Miller ainda vai ter cara de menina lesionado no banco de reservas, mas as coisas já iriam melhorar um bocado.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dia cheio

Faz carinha de quem tá gostando


A gente já cogitou aqui no Bola Presa fazer um resumo da rodada anterior todos os dias. Mas nunca fizemos porque não temos como garantir que teremos tempo de fazer todo dia, e porque isso tiraria o nosso tempo de fazer textos mais profundos analisando as coisas com calma que, acho, é o que a gente faz melhor aqui no blog.

Acontece que ontem rolou tanta coisa, foram tantas estréias, são tantos comentários que fica difícil escolher um assunto pra falar. Sem contar isso: o que eu posso falar de mais profundo depois de um jogo só? Então hoje vai ser sobre a renca de jogos de ontem, certo? Só não se acostumem com isso, assim que cada time começar a ter mais de um jogo de história ficará mais fácil falar deles e voltaremos ao formato de sempre.

O que mais me chamou atenção na rodada de Itu de ontem (13 jogos é muita coisa!) foi a vitória do Cavs sobre o Celtics, óbvio! Muito irônico o mesmo time bater o super time do LeBron e depois perder das viúvas. Duas teorias explicam o resultado:

1. O Cavs jogou melhor e venceu
2. O Celtics entregou o jogo só pra zoar com a cabeça do LeBron

O mundo seria um lugar mais divertido se a segunda opção fosse verdade, mas não é bem assim. Outras coisas explicam de verdade a vitória do Cavs e todas podem ser interpretadas em declarações dadas no pós-jogo. O Ramon Sessions, que jogou no lugar do Mo Williams, machucado, disse que "o ginásio estava com uma atmosfera de jogo 7 da Final", o Antawn Jamison, que jogou pouco, mal, mas fez cestas importantes no final, disse que "essa vitória foi para a cidade e para mostrar para os fãs que o Cavs vai sobreviver e que Cleveland ainda é um bom lugar para ver basquete". E o Shaq, do outro lado, disse: "Acho que não jogamos duro o bastante com eles".

Em outras palavras, a torcida e os jogadores do Cavs encararam essa primeira partida como a mais importante das suas vidas, a torcida apoiou o time como se fosse o jogo mais importante da história da franquia e o Celtics, um time velho, jogou pela segunda noite seguida e sem a motivação e a concentração necessária. E, falando em Celtics, vocês sabem porque o Rajon Rondo está jogando sem a sua tradicional hand band na cabeça? O motivo é absurdo: Ele era um dos poucos jogadores (JR Smith, Marcus Williams e Chris Wilcox eram os outros) a usar a faixa com o logo da NBA de ponta-cabeça.


E a partir desse ano o David Stern disse que os jogadores que usarem a faixa assim vão ser multados! Tem que deixar o Jerry West direitinho pra ele não ficar com todo o sangue na cabeça. Dá pra ser mais chato e pentelho que o Stern? O que deixa a história ainda mais estranha é que perguntaram da faixa para o Rondo durante a pré-temporada e ele disse que tinha parado de usar porque não estava mais a fim, essa nova regra veio só à tona numa entrevista do dono do Celtics, Wyc Grousbeck, a uma rádio de Boston. Alguém duvida que o Stern não só proibiu os jogadores de usar como de falar sobre o assunto? Eu não.

Teve gente na imprensa americana apostando em apenas 12 vitórias para o Cavs em toda a temporada. Eu acho isso um exagero descomunal. O time perdeu a sua peça mais importante, fato, mas ganhou um técnico de verdade e ainda tem bons jogadores, coadjuvantes, secundários, mas bons. A grande dúvida era como eles iriam encarar o campeonato, já que nos últimos anos entravam em quadra sabendo que eram um dos melhores times e pensando em título, jogar com ou sem confiança faz toda a diferença do mundo. Para o primeiro jogo a mentalidade deles foi perfeita, jogaram em um clima de "ele nos abandonou mas ainda temos uns aos outros", mas será que dura 82 jogos? Será que sobrevive a uma sequência de derrotas?

O Cavs tem elenco para ser um time de meio de tabela, mas pode ser muito mais ou muito menos dependendo da motivação com que os seus jogadores vão ter em quadra. Se o JJ Hickson continuar jogando bem, claro, também ajuda.

Enquanto isso o novo time do LeBron faturou sua primeira. Se perdessem do Sixers seria demais! Um dia depois de encarar Shaq e Garnett no garrafão deve ser um alívio ver Elton Brand e Spencer Hawes na sua frente. O LeBron continuou cometendo muitos turnovers (9 na noite de estréia, 8 ontem), mas compensou com alguns bons passes e cestas, James Jones acertou 6 bolas de três pontos e Dwyane Wade foi o cestinha da partida com 30 pontos. Lado negativo? Lembram do clássico drible do Iverson no Jordan no seu ano de novato? Temos uma versão light com o novato Evan Turner e o D-Wade.



Aliás, depois de ser um desastre nas ligas de verão e de ter momentos péssimos na pré-temporada, Evan Turner, segunda escolha do Draft 2010, acordou e jogou muito bem ontem. Acertou 7 de 10 arremessos, fez 17 pontos, 7 rebotes e 4 assistências. Nada, nada mal! Outros novatos também se destacaram:

O DeMarcus Cousins foi pivô titular no Kings (Dalembert está machucado) e fez 14 pontos, 8 rebotes e 5 assistências. Wesley Johnson marcou 13 para o Wolves no mesmo jogo, e ainda deu essa enterrada só pra começar bem a carreira. No mesmo jogo o Kevin Love, estrela do Wolves, jogou apenas 23 minutos. Segundo o técnico Kurt Rambis foi porque "o Anthony Tolliver estava jogando de maneira extraordinária". Ele jogou bem mesmo, é verdade, mas não dava pra usar os dois juntos? Tirar sua estrela do time, logo no primeiro jogo do ano, por causa do Tolliver? Acho que o Rambis acreditou que esse vídeo passou na ESPN:



O grande destaque entre os novatos, no entanto, foi o Blake Griffin. Sua primeira jogada como profissional foi essa:



Nada mal, hein? Foram 20 pontos, 14 rebotes e 4 assistências no total. Mas o Clippers é o Clippers e eles perderam do Blazers. Lembram que no preview deles eu tinha dito que o Baron Davis precisava voltar a jogar basquete? Pois é, ontem foram 8 pontos, 3-11 arremessos, 3 assistências e 4 turnovers. Errou todas as bolas de três que tentou e metade dos lances livres. Também foi assustador como o Clippers é ruim nos rebotes defensivos! O Blake Griffin em especial. Dos 14 que ele pegou 9 foram de ataque (DeJuan Blair parte 2) e só 5 de defesa, enquanto deixou o Blazers pegar 21 rebotes ofensivos. Em alguns momentos se via o Griffin e o Chris Kaman só olhando para o alto esperando a bola cair, sem fazer bloqueio em nenhum adversário. Marcus Camby fez a festa.

Outros momentos interessantes nos jogos de ontem. O Pistons (que teve o T-Mac zerado) vencia por 7 pontos quando faltava um minuto e meio para o fim do jogo, mas perderam. Para o Nets. Para o bendito Nets, que teve contribuição quase nula do novo zilionário Travis Outlaw (1-7 arremessos) e uma bola de três salvadora do outro estreante Anthony Morrow. Vai ser uma loooooooooooonga temporada para o Detroit Pistons.

O Atlanta Hawks venceu um Grizzlies sem garrafão. Marc Gasol está machucado e nosso gordinho-muso Zach Randolph caiu com as costas no chão ainda no primeiro tempo, tentou jogar no sacrifício (herói!) mas não deu certo. Imagina aqueles 900kg caindo com tudo nas costas, deve doer. O Hawks marcou 119 pontos e o Joe Johnson ao fim da partida disse estar apaixonado pelo esquema ofensivo do novo técnico Larry Drew. Segundo o jogador ele só não fez mais pontos nas muitas vezes que ficou livre porque estava excitado demais com o novo estilo de jogo, faltou calma. Vai ser legal ver como funciona esse ataque contra uma defesa de verdade.

Em um dos jogos mais empolgantes da noite o Chicago Bulls perdeu do Oklahoma City Thunder. Nada de surpresas ou bizarrices no jogo, tudo como o esperado: Show de Durant, Westbrook e Derrick Rose, milhões de rebotes para o Joakim Noah (18!) e o sempre esquecido Thabo Sefolosha fazendo todas as jogadas certas na hora certa para vencer o jogo. Vale uma olhada nos muitos melhores momentos do jogo.



No último jogo da noite, um presente de Golden State Warriors e Houston Rockets para todo mundo que tem seus jogadores nos seus times de fantasy. Foram números impressionantes pra todo mundo na vitória do Warriors por 132 a 128! 28 pontos para o Kevin Martin, 36 pontos e 16 rebotes para o Scola, 17 pontos, 16 rebotes e 6 assistências para o David Lee, 25 pontos e 11 assistências para o Steph Curry e um jogo NBA Live para o Monta Ellis: 46 pontos em 18-24 arremessos. Passar de 40 pontos com menos de 25 arremessos é para poucos, muito poucos. Só quem tem o Yao no time de fantasy que não ficou feliz, ele não jogou. Segundo as regras para se poupar nessa temporada, ele não joga jogos em dias consecutivos.

Hoje tem a estréia do Orlando Magic contra o Wizards do John Wall, não perco por nada nessa vida! Eu pareço empolgado com esse começo de temporada? Pareço? Pareço?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Não é mais um preview

A beleza da NBA está de volta


Como o Rodrigo Alves disse no seu texto no Rebote, a noite de abertura da NBA foi divertida desde o Twitter até as quadras. No Twitter, geralmente um lugar desagradável onde tem mais gente tentando pagar de inteligente e/ou engraçado para as outras, o clima foi divertido, com comentários inteligentes, piadas, apostas e um monte de gente aprendendo a mexer no League Pass. Faremos uma análise do LP ainda essa semana, mas já avisamos aqui que durante essa semana ele está disponível de graça. É só entrar no site deles, se cadastrar e escolher o jogo que quer ver.

Ah, e também sei que não acabamos os previews antes do primeiro jogo! Faltaram Nuggets, Thunder e Knicks. Tudo culpa do Danilo, claro, nunca minha. Mas ele já cuidou disso e os links para todos os previews estão agora em um só post, esse aqui.

Eu não lembro de outra noite de abertura tão aguardada como a de ontem. Geralmente a NBA (ou mais especificamente esse cara) escolhe jogos que o pessoal está afim de ver, mas nunca tinha conseguido montar logo de cara um jogo com tamanha expectativa. Nada como a estréia do trio LeBron-Wade-Bosh contra o atual campeão do Leste que tem o seu próprio trio de ferro e mais Shaquille O'Neal, Rajon Rondo e Jermaine O'Neal. É muita gente boa ao mesmo tempo e um público na seca por basquete. Perfeito!

A partida começou com 8 jogadores na quadra que já foram All-Stars, os cinco do Boston e o trio do Miami. Apenas Carlos Arroyo e Joel Anthony destoavam. Pelo menos o porto-riquenho pode dizer que era uma estrela no basquete FIBA. No banco ainda tinham outros ex-all-stars, Jerry Stackhouse (recém-contratado pelo Heat), Jamal Magloire e Jermaine O'Neal. Em 2010 esse é um jogão em outubro, 10 anos atrás seria um jogão em fevereiro, no All-Star Weekend.

O Boston Celtics começou tentando explorar o pivô não-galático do Miami, jogando bastante a bola no estreante Shaq, que nas primeiras bolas errou arremessos ridículos embaixo da cesta, mas logo deu umas enterradas alucinantes, se pendurou no aro, pingou suor como um porco e até acertou lances livres, que foram motivo de vibração incontrolável da torcida.

Embalados por Shaq, por passes perfeitos do Rajon Rondo (17 assistências e nenhuma faixa na cabeça) e bolas de três do Ray Allen, o Celtics abriu quase vinte pontos de diferença já no primeiro tempo. Com uma defesa bem forte eles forçaram o Heat a apenas 9 pontos no primeiro período e 30 no primeiro tempo como um todo, marca pior do que o menor número de pontos marcados no primeiro tempo pelo Heat do ano passado. Sim, aquele time com Michael Beasley, Daequan Cook e Dorrell Wright. 

Muitas coisas explicam esse primeiro jogo, em especial o primeiro tempo, horripilante do Heat. Primeiro a falta total de entrosamento, o trio que controla a bola por 90% do tempo jogou junto só por 3 minutos durante a pré-temporada. Wade, machucado, mal treinou. E não é um time que tinha uma base e treinou pouco nos últimos meses, é um time que começou do zero. Também não é um time tradicional, com jogadores que se completam naturalmente, eles tem características conflitantes (tanto Bosh quanto Wade e LeBron gostam de segurar a bola e não são bons arremessadores, por exemplo) o que não significa que vão fracassar, mas que precisam de treino mais do que um time normal. Se você juntar um trio como Chris Paul, Kevin Durant e Dwight Howard, por exemploa coisa fluiria mais naturalmente.

Outra razão pode ter sido o nervosismo, afinal todos esperam o melhor time da história e eles tem uma reputação a zelar, deve bater um medo de fracassar. Alguns passes que eles deram para o meio da arquibancada e outras infiltrações precipitadas não foram só falta de entrosamento, foram desespero mesmo. Também não ajudou o fato deles terem o primeiro jogo fora de casa contra uma das melhores defesas da NBA nos últimos três anos! Se cometerem todos os mesmos erros de novo contra o Sixers aí sim o buraco é mais embaixo. O Celtics soube perfeitamente explorar as fraquezas que o Heat ainda tem: a falta de um pontuador dentro do garrafão (até LeBron tentou se arriscar lá dentro pra compensar, sem sucesso), a falta de arremessadores de longe (e meia distância) e assim deixou o garrafão congestionado para evitar as infiltrações.

No fim das contas, segundo o site HoopData, o Heat tentou 22 infiltrações, conseguindo finalizar 12 com sucesso, um número respeitável. Mas em todos os outros pontos da quadra eles acertaram 15 arremessos em 52 tentativas! O Celtics estava deixando o Heat arremessar porque estava um desastre. Era como se o outro lado tivesse 5 Rondos.

As coisas começaram a mudar quando o Celtics primeiro relaxou, fugindo do que estava dando certo e mostrando que eles também estão em ritmo de começo de temporada, depois mudou por completo, com o Heat chegando a diminuir a diferença para 3 pontos quando o Heat começou a jogar como, quem diria, o Cavs. Ironias da vida. Com Wade e Bosh no banco e jogando ao lado de Zydrunas Ilgauskas, Eddie House e James Jones o LeBron James fez o que fazia em Cleveland. Pegava a bola, recebia um corta-luz na linha dos três e atacava a cesta, aí era ou cesta, ou falta ou um passe para alguém na linha dos três. Básico, simples, Cavs.

Foi o bastante para colocar o Heat de volta no jogo, mas logo a defesa apertou e ficou aquele joguinho de LeBron tentando vencer sozinho de um lado e o Ray Allen matando o jogo com bolas de três do outro. Por um lado foi péssimo para o técnico Erick Spoelstra ver que vai ter muito trabalho pela frente e que durante esse trabalho vão ouvir piadas, críticas, vaias e gritos de "overrated" como da torcida de Boston, ontem. Por outro lado foi bom ver que depois de um jogo em que o time jogou de maneira mais desorganizada que a 25 de março em semana de Natal, perdeu só por 8 pontos, esteve perto da virada e mostrou alguns bons momentos na defesa.

Como tudo o que vamos falar em todos os posts nas próximas semanas, esses comentários sempre vêm com um "apesar de ser só o começo da temporada" embutido. Não dá pra querer achar que vai ser ruim assim pra sempre, mas também não dá pra ignorar que foi um fiasco.




O segundo jogo da noite foi Blazers e Suns em Portland. O time da casa começou bem, com Brandon Roy e Andre Miller mostrando algum entrosamento e sabendo dividir a responsabilidade da armação, mas o time não embalou porque LaMarcus Aldridge foi incapaz de tirar vantagem da sua estatura contra o Hedo Turkoglu. O Suns, mesmo sem convencer, jogou bem. Só foi estranho ver o Nash arremessando mais do que passando e triste ver o Turkoglu ajudando tão pouco, mas deu certo e no terceiro período eles estavam voando.

Porém, no último quarto um dos maiores candidatos a jogador que mais evoluiu na temporada, Nicolas Batum, fez 11 dos últimos 18 pontos do Blazers, que venceu o período final por 20 pontos de vantagem e levou a vitória pra casa. O Batum já era bom antes, ótimo defensor, bom arremessador e sabe bater pra dentro. Nesse ano como titular absoluto ele tem tudo pra ter grande destaque. Olho nele e peguem o rapaz na sua liga de fantasy.

Antes do jogo de ontem o próprio Nash disse que se estivesse vendo tudo de longe não apostaria no Suns como um time para ir para os playoffs. Bem racional da parte dele, mas o time já superou outras limitações de elenco antes e nem tudo está perdido, só vai ser bem difícil. Um bom começo seria o Nash confiar mais no Robin Lopez que, coitado, tentou brincar de Amar'e Stoudemire ontem e não recebeu um passe do Nash depois dos bloqueios que fazia, só ficava com a mão esperando a bola e nada aparecia.

No último jogo da noite tivemos o já famoso Bola Presa Classic. Meu Lakers contra o Rockets do Danilo. Finalmente a NBA nos ouviu e colocou esse jogo numa data importante. Antes da partida, claro, a entrega dos anéis de campeão para o Lakers. Em uma cerimônia fresca e ensaiada: o anel era dado para um jogador que pegava o microfone e chamava o coleguinha de classe. Para provar que era tudo ensaiado até elogiaram o Sasha Sharapova ao chamá-lo ao centro da quadra. O anel que eles ganharam era todo rico e brega, como sempre. Tem 16 diamantes, para simbolizar os 16 títulos do Lakers, pedaços de couro arrancados da bola usada no jogo 7 da final e a cara de cada jogador nos anéis. Doideira! Olha as fotos aí embaixo. Certo o Ron Artest que vai leiloar o dele.





O jogo de verdade começou com Aaron Brooks e Kevin Martin me dando a certeza absoluta de que vão ser a dupla de armação com mais bolas de três feitas na história da NBA. Aposto um chocolate nisso. E chocolate só não é a melhor coisa do mundo porque existe sexo, então a aposta é séria! O Rockets jogou muito bem durante toda a noite e até merecia a vitória, que só não veio porque o Shannon Brown resolveu achar que é o Anthony Morrow e acertou 4 bolas de três, quase todas no último período . E depois, quando o Houston vencia por um ponto a 18 segundos do fim, o estreante Steve Blake meteu uma bola de três para ganhar o jogo. Quem é Jordan Farmar mesmo? Não lembro. É muito difícil bater o Lakers quando Pau Gasol está bem (98% dos jogos) e as bolas de longe estão caindo.

O Lakers jogou o seu basquete preguiçoso de temporada regular. Muito bem durante uns momentos, relaxado em outros e bem sério quando a água bate na bunda nos minutos finais. Deu certo, mas o time ainda parece fora de ritmo, especialmente Kobe, que está bem lento na defesa. O Rockets pareceu mais entrosado, mais interessado e parece que vai dar trabalho pra valer. O Yao Ming jogou e até que tá bem para alguém todo quebrado, que não joga há um ano e que se move como se estivesse embaixo d'água. Mas o que me deixou mais surpreso foi ver como o Luis Scola pareceu mais à vontade no ataque no fim do jogo, chamando a responsa ao invés de aceitar ser coadjuvante. Ele é bom o bastante pra isso e sempre foi, mas no ano passado era mais comum a gente ver o Aaron Brooks querer bancar o herói.

Foi um bom primeiro dia, mas só o primeiro. Hoje tem mais 13 partidas, com quase todos os outros times fazendo seu primeiro jogo e aí vem a primeira grande dúvida da temporada: O que assistir no League Pass? Tem Miami tentando a sua primeira vitória contra o Sixers, a estréia do lixo do Cavs ou um potencial  jogão entre Bulls e Thunder. E mais tarda a estréia do Warriors sem Don Nelson e o primeiro jogo oficial do Blake Griffin, isso sem contar a estréia do Amar'e como um Knick e um empolgante Nuggets-Jazz. Por enquanto só sei que não vou ver Hawks contra o Grizzlies. Como eu vivi todos esses meses sem NBA todo dia?

sábado, 23 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Houston Rockets

Um dia comum na rotina de Yao Ming, após acordar e antes de passar na padaria


Objetivo máximo: Passar da primeira rodada dos playoffs pra mostrar que não foi sorte
Não seria estranho: Não se classificar para os playoffs, ficando na 9a posição
Desastre: Ter o Yao Ming contundido mais uma vez

Forças: Um elenco cheio de especialistas e disposto a jogar coletivamente
Fraquezas: A falta de uma estrela para decidir os jogos e séries mais complicadas, já que o Yao é de vidro

Elenco:










....
Técnico: Rick Adelman

Quando o Adelman assumiu o Blazers em 1989, o time era bom o bastante para chegar aos playoffs mas batia cabeça em quadra, não tinha identidade nem padrão ofensivo. Sob comando do Adelman, foram para os playoffs na temporada que ele assumiu e para a Final do Oeste nos três anos seguintes, ganhando o Oeste duas dessas vezes. Esse é um bom exemplo do que esse técnico pode fazer com um bom elenco. Quando assumiu o Kings em 98, tornou aquele elenco bacanudo num dos times mais legais de assistir de todos os tempos, levando-os a múltiplas finais do Oeste. O truque é uma versão modificada da "Princeton Offense", de que tanto falamos no preview do Cavs. A versão do Adelman se foca mais no jogo entre dois jogadores do que no de três, costuma tirar os pivôs de dentro do garrafão para que eles possam passar a bola para jogadores cortando pelo fundo, e pede mais velocidade e correria ao invés da enorme quantidade de passes e jogo contido da "Princeton Offense". Adelman gosta de contra-ataques e, assim como naquele Suns do Mike D'Antoni, insiste que os arremessos rápidos são melhores do que ficar passando a bola por 24 segundos. Seu ataque é criativo e instintivo, com pouca intervenção do técnico e muita liberdade para os jogadores. Os dois armadores trocam constantemente de papel um com o outro e em geral são os pivôs que iniciam as jogadas com um passe na cabeça do garrafão.

Todos os jogadores dizem que o sistema ofensivo do Rick Adelman é uma delícia de jogar, há liberdade para inovar e improvisar, velocidade e no entanto não tem porra-louquice, as movimentações são bem planejadas. O problema é que além de ser um sistema complexo para aprender e se acostumar, o fato de que ele precisa de criatividade e improviso exige jogadores inteligentes ou que, no mínimo, consigam manter calma e naturalidade nas movimentações. Além disso o sistema deve responder à defesa, sem que existam jogadas fixas, o que costuma deixar as estrelas de lado. Rick Adelman não vai chamar 40 jogadas seguidas para o Yao Ming, a bola deve chegar no pivô naturalmente, quando for possível, como resultado da postura da defesa. É comum ver estrelas jogando pelo Adelman sem receber a bola por longos minutos, o que não lhes deixa muito contentes, e no final dos jogos isso é sempre um problema. Os times de Adelman são famosos por amarelar nos jogos decisivos em parte porque não é natural para o sistema ofensivo colocar a bola nas mãos de um jogador só e deixá-lo decidir. O Kings fodão dos anos 2000 perdeu jogos fantásticos porque a última bola caía nas mãos de um Stojakovic livre - um baita arremessador que se borrava de medo de dar o último arremesso, mas que por estar livre deve receber as bolas no ataque de Adelman. 

O Houston sem Tracy McGrady e sem Yao Ming foi um sonho para o Adelman porque não havia qualquer estrela para encher o saco, seu ataque era seguido à risca, todo mundo recebia as bolas apenas quando elas faziam sentido, e a campanha da equipe foi fenomenal - mas não o bastante para ir para os playoffs numa Conferência Oeste disputada como nunca. Na temporada anterior, o Houston sem T-Mac e com Yao contundido levou o Lakers para um Jogo 7 na semi-final do Oeste, mas não foi o bastante para vencer. Ou seja, o esquema é lindo de se ver, envolve todo mundo, mas não costuma ser muito decisivo.

Além disso, o Adelman é famoso por saber lidar com todo tipo de personalidade. Ron Artest foi para o Houston por afirmar que o Adelman era o único técnico que o respeitava de verdade, e a postura "foda-se, faça o que quiser" do Adelman dá cabo de qualquer jogador-problema. No entanto, dizem que ele é meio relaxado, principalmente nos treinos, e deixa os jogadores livres demais às vezes. Não dá pra agradar todo mundo... 

.....
Esse Houston Rockets de agora levou bastante tempo para entender a fundo o sistema ofensivo do Rick Adelman. No começo, executavam tão mal no ataque que o Adelman tinha que chamar todas as jogadas, uma por uma, todos os jogos, na lateral da quadra. Aos poucos Aaron Brooks foi se acostumando com a armação, o elenco de especialistas sem estrela alguma abraçou a causa, os jogadores são incrivelmente inteligentes e executaram tudo com perfeição, e o Adelman pode dormir feliz mesmo com um elenco limitado. Em suas próprias palavras:

"Às vezes você tem alguns times que talvez não sejam tão talentosos quanto outros times, mas certamente dá para tirar deles o mesmo que você tiraria de times melhores. Se você consegue com que joguem com todo seu potencial, e joguem duro todas as noites e se esforcem todas as noites, isso já é satisfação. Você não vai ter sempre o melhor time." 

Mas para vencer nos playoffs, o time precisa de ajuda. Apesar de já ter provado que pode jogar sem Yao Ming, aumentando a velocidade dos contra-ataques e se focando mais nos arremessos de três pontos, com Yao em quadra o time ganha um defensor embaixo do aro - mantendo a tática, implementada por Jeff Van Gundy, de fazer com que a defesa afunile os jogadores em direção do Yao e de repente se choquem numa parede de quase 2,30m. Além disso, Yao é um excelente passador da cabeça do garrafão, essencial para iniciar as jogadas de Adelman, e o time é muito melhor com ele em quadra. 

Infelizmente o pivô chinês será limitado a 24 minutos por jogo, o que não tem qualquer relação com sua sexualidade, mas é uma grande sacada para evitar lesões em um esqueleto que não foi feito para carregar aquele peso e aquela altura pulando de um lado para o outro numa quadra de basquete. Quando ele estiver em quadra, ótimo, mas quando não estiver caberá ao recém-chegado Brad Miller assumir a função de pivô passador e arremessador. Brad Miller teve o melhor momento de sua carreira jogando no Kings do Rick Adelman e mostrou ser um excelente passador, além de sólido arremessador de 3 pontos. Na maioria dos outros times, seria mal usado, mas ele nasceu para jogar para o Adelman. Agora, com e sem Yao, o Houston terá um padrão de jogo no garrafão e poderá correr menos, poupando um pouco o fôlego durante a temporada regular.

Como parceiros de garrafão de Brad Miller e Yao Ming, o Luis Scola vem de um Mundial espetacular e como sempre renderá bem no ataque com seu cérebro super-desenvolvido encontrando os espaços livres, enquanto Chuck Hayes cuidará da defesa apesar de ser anão simplesmente incomodando os adversários, cutucando a bola e sendo o marcador mais irritante de toda a NBA. Com a saída de Trevor Ariza, agora Shane Battier volta a ser titular, o que aumenta o QI da equipe em oito mil pontos, garantindo a defesa de perimetro e a movimentação impecável do ataque, com os clássicos arremessos de três da zona morta. Courtney Lee, também nova aquisição, deve ser o reserva do Battier nas funções defensivas enquanto Chase Budinger (que poderia ser estrela de vôlei mas escolheu ir jogar basquete mesmo sendo pior) e seus arremessos precisos de três substituirão Battier no ataque.

A aquisição mais importante da equipe, no entanto, chegou já na temporada passada, mas estava lesionada e demorou para compreender o sistema ofensivo. Trata-se de Kevin Martin, um dos melhores pontuadores da NBA e que detesta a ideia de ter que carregar um time nas costas. Agora, em plena forma física depois de um longo regime de reabilitação e treinamentos nas férias, diz estar pronto para tomar as rédeas do time quando for necessário. Ou seja, Kevin Martin não vai se importar de estar num esquema coletivo que não colocará a bola em suas mãos, mas se diz disposto a decidir as partidas com seu enorme arsenal de movimentos de infiltração (e capacidade mutante de cavar faltas). Ao contrário de T-Mac, que só rende quando joga com a bola nas mãos o tempo inteiro, Kevin Martin brilha por se movimentar bem, arremessar ao receber a bola depois do corta-luz, e pode manter a bola nas mãos justamente nos momentos em que o Houston (e o Rick Adelman, em toda sua carreira) mas sofre: nos minutos finais. Creio que Adelman deve ter percebido que seu time perfeito, sem estrelas, e seguindo seu plano à risca, não foi o bastante para chegar aos playoffs, e que será necessário abrir espaço para Kevin Martin resolver algumas partidas. Se estiver ao lado de Yao Ming, que deve ser poupado para os minutos finais dos principais jogos, o Houston pode ser muito mais forte do que se imagina, com um excepcional elenco de apoio carregando o time quando necessário durante a temporada regular.