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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Contra uma maldição


- Eu juro tacar a bola pra cima.
- Eu juro enterrar a bola, então.

Quem acompanha a NBA há pouco tempo nem imagina que o Los Angeles Clippers seja a franquia mais amaldiçoada da liga, mas quem é velho de guerra sabe que o Clippers foi fundado em cima de um cemitério indígena e usa a expressão "que Clippers" para designar qualquer coisa que deu muito errado sem nenhum motivo aparente. Guardou a chave direitinho no bolso e ela sumiu mesmo assim? Deixou o bolo o tempo certo no forno e ele virou carvão? Puxa, que Clippers!

Basta voltarmos um pouco ao passado recente da equipe para vermos o festival de horrores. São falhas de planejamento, escolhas táticas ruins, mas tem também muito azar puro e simples: escolhas de draft que pareciam geniais e foram horríveis, contusões sérias que terminaram carreiras, times talentosos que não se entrosaram, e uma caralhada de jogadores que simplesmente fugiram da equipe assim que tiveram chance.
Michael Olowokandi, escolhido em 1998, foi sem sombra de dúvidas a pior primeira escolha de um draft na história da humanidade. Se você acha que o Kwame Brown fede, então lembre que ao menos o Kwame continua arranjando emprego na NBA enquanto o Olowokandi coça o saco em casa. Já Shaun Livingston, que foi a quarta escolha do draft de 2004, era genial mas teve o joelho desmontado como se fosse construído com peças de Lego, e tudo numa jogada completamente banal. Dá pra ver o lance no vídeo abaixo, mas primeiro tire as crianças da sala:



O próprio Blake Griffin, que é uma das sensações da NBA e tem tudo para ganhar o campeonato mundial de seres humanos, não jogou toda sua primeira temporada de NBA graças a uma lesão adquirida numa jogada fantástica antes da temporada começar. Acabou fazendo sua estreia como novato apenas um ano depois, na temporada 2010-11. Já que o Griffin era a salvação da franquia, a maldição do Clippers deu um jeito de adiá-la ao menos por um ano com a lesão que acontece no vídeo abaixo:



Ao menos o Griffin é uma salvação que deu certo, apesar do susto da lesão inicial. Outros jogadores que carregaram promessa semelhante na franquia não conseguiram se estabelecer: Darius Miles nunca conseguiu render ao ser afastado do seu amigo de infância Quentin Richardson (há até mesmo um documentário fantástico sobre a dupla, chamado "The Youngest Guns") e depois se lesionou gravemente; Chris Kaman tinha tudo para ser o pivô mais dominante da sua geração mas nunca conseguiu consistência graças às lesões constantes;  e até o Al Thornton, que não se contundiu e teve ótima temporada de novato, acabou sendo trocado por um pacote de bolachas graças a problemas de vestiário que nunca foram completamente esclarecidos.

Em 2006, o Clippers enfim foi aos playoffs e venceu sua primeira partida de pós-temporada em 13 anos, chegando até uma semi-final de conferência histórica. Acabou perdendo aquela semi-final para o Suns num jogo 7 dramático, numa série cheia de prorrogações, e desde então foi ladeira abaixo - na temporada seguinte, o joelho do Shaun Livingston viraria farofa. Um ano após isso, seria a vez da então estrela Elton Brand perder a temporada com uma lesão gravíssima (da qual, aliás, ele nunca parece ter se recuperado).
Tirando o azar, os novatos e as contusões (que ocorrem apesar de um dos melhores centros de treinamento de toda a NBA), o Clippers sempre teve problemas para contratar ou manter seus jogadores. Todos os jogadores sem contrato ignoravam as propostas do Clippers, enquanto os jogadores da franquia pareciam apenas aguardar o fim dos seus contratos para fugir para as colinas em liberdade. Elton Brand, estrela do Clippers durante anos, foi mantido à força na equipe quando virou free agent restrito, mas fugiu para o Sixers quando seu segundo contrato terminou. Os elencos no Clippers são notoriamente formados por descontentes, jovens jogadores que sentem-se ignorados pela NBA, presos na franquia mais amaldiçoada e ignorada das últimas décadas. É uma espécie de Sibéria do basquete.

O Clippers é um excelente exemplo de como funciona a distribuição de estrelas na NBA. Apesar de estar num dos chamados "grandes mercados", cercado por uma grande economia, ter bom público, ser economicamente viável e se situar em uma localidade em que qualquer jogador gostaria de viver, nenhuma estrela importante aceita jogar no Clippers - franquia perdedora, com poucas aparições na televisão gringa e, por isso mesmo, com pouquíssima exposição na mídia. Nos Estados Unidos, dá pra acompanhar pela televisão todos os jogos da sua equipe local, de onde você mora, mas para assistir aos jogos das equipes do resto do país depende-se das redes nacionais, como a TNT, a ABC e a ESPN, que passam poucos jogos por semana e sempre com as equipes mais badaladas do momento. Hoje em dia, o Elton Brand joga no Sixers - em uma equipe que supostamente montou-se para disputar o Leste - e é motivo de piada por não jogar bulhufas e estar num time meia-boca. Ou seja, Elton Brand gastou seus anos de ouro, em que foi um dos melhores alas de força da NBA (por vezes o melhor) e fazia 20 pontos com 10 rebotes com a facilidade com que se cutuca o nariz, num time que não tinha qualquer tipo de exposição. A gente até ouvia falar que tinha um cara fodão lá no Clippers, mas ele nunca teve o reconhecimento que merecia. Num exemplo mais recente, podemos citar o Chris Bosh, que chutava traseiros no Raptors mas ninguém nunca viu, afinal a televisão nunca passava jogos da equipe. Agora que está no Heat e não é sombra do que foi, todo mundo pode dizer com propriedade que o Bosh "nunca foi grandes merdas". Aí está, o jogador punido por ter jogado seu melhor basquete em Toronto, e motivo suficiente para demais jogadores pensarem três vezes antes de assinar com a equipe canadense.

É normal alegar-se que jogador nenhum quer morar no Canadá, ou em Milwaukee, ou em Minessota, assim como eu não quero ir morar em Tangamandápio, mas jogadores vão topar qualquer coisa por uma franquia vencedora, com chances de título, e com ampla exposição na televisão. Ninguém quer gastar seus melhores anos na NBA sendo ignorado pela mídia ou, como foi o caso do LeBron por exemplo, tendo seus recordes desdenhados pela falta de um título no currículo. Exposição na tevê, no entanto, não precisa ter a ver necessariamente com vitórias: pode ser simplesmente uma boa história, um time que as pessoas queiram assistir, a presença de uma ou mais estrelas juntas.

Nessa temporada, por exemplo, a ESPN gringa passará 16 jogos do Heat, 15 do Bulls, 15 do Lakers, 14 do Celtics, 14 do Knicks e 12 do Mavericks. O Knicks reconstruído com Amar'e e Carmelo, mais a chegada do Tyson Chandler, é história melhor e mais vendável do que o Mavs campeão mas com elenco desfeito. Já na TNT os times com mais aparições serão Celtics e Lakers, com 10 cada, o Heat com 9, e Knicks e Mavs com 8 jogos cada um.

Mas eis que, olhando mais pra baixo nas tabelas, encontramos finalmente o Clippers: são 3 jogos na TNT, 10 jogos na ESPN e 9 jogos na NBATV, que também é uma rede nacional. Ao todo são 22 jogos na televisão, recorde absoluto da história da franquia. É porque o Clippers é uma equipe vencedora, com chances de títulos? Vale lembrar que a programação das televisões saiu antes da troca do Chris Paul. Então a resposta é não: a presença do Clippers na televisão nacional se deve ao Blake Griffin.

Depois de tantas escolhas frustradas de draft, lesões e dificuldades de sequer chegar aos playoffs, Blake Griffin passou a colocar constantemente o Clippers na TV de um modo inusitado: através das melhores jogadas do dia. Foi uma tonelada de enterradas, bagos na cara de defensores desavisados, faltas-e-cestas, e até um tipo de "melhores momentos" que nunca existira antes: as melhores enterradas que não aconteceram, aquelas em que o Griffin pula por cima de todos os defensores dando uma pirueta e acaba enterrando no aro. De repente todo mundo queria ver os jogos do Clippers graças a essas jogadas, as vitórias são o de menos.

Ainda assim, quando Billups foi liberado pelo Knicks usando a regra de anistia, deixou claro que queria ir para algum time com chances de título e ficou puto da vida de ser chamado pelo Clippers. A NBA deixou claro que pelas regras o Billups não poderia negar o chamado, mas não queria ir nem a pau. É a história eterna do Clippers, o pessoal só fica por lá se for amarrado, se for dopado, se receber uma grana absurda que não se pode negar ou se for alguma brecha legal como no caso do Billups. Mas eis que a troca por Chris Paul, que comentamos aqui, acabou rolando e o Clippers ganhou subitamente chances de título. Escassas, é verdade, o elenco não está terminado, não teve tempo de treinar junto, não teve pré-temporada de verdade, não tem identidade tática. Mas a chegada de Chris Paul consolidou algo tão importante quanto: ao receber a notícia de que o armador fora trocado para o Clippers, Blake Griffin afirmou: "vai ser a cidade do lob", ou seja, a cidade do passe para o alto, a cidade de jogar a bola para cima para que alguém venha enterrar. Além de Griffin e suas enterradas fantásticas, DeAndre Jordan é um pivô fantasticamente atlético que, na impossibilidade intelectual de criar o próprio arremesso (em palavras menos nobres: é uma anta), ao menos consegue pular até a Lua e enterrar os passes que chegam para ele.

Por enquanto, o Clippers não pode ser considerado verdadeiramente como um time de elite no Oeste. Ainda são apenas jogadores aleatórios, reunidos um tanto ao acaso. Chris Paul e Billups estão jogando ao mesmo tempo em quadra, então não há ainda uma definição sobre quem inicia as jogadas, quem finaliza, os armadores estão muito presos no perímetro, há pouca agressividade e muitos passes para o lado, tudo normal para quem ainda tenta se acostumar com um sistema tático meio feito às pressas. Ainda há indecisão nos contra-ataques e muitas jogadas de isolação, também comuns nos ataques em que as movimentações não foram aprendidas (ou que não existem, algo que só vamos descobrir se é o caso com o tempo). Mas mesmo com tantas indefinições, falta de entrosamento evidente e dúvidas sobre quem exerce a liderança da equipe (Billups pode arremessar 20 bolas num jogo como fez, Chris Paul deve segurar a bola, ou Blake Griffin deve ser o foco do ataque?), uma coisa é certa: o Clippers está consolidado como uma equipe que todos querem assistir. As ponte-aéreas têm presença garantida em todas as partidas, tanto para Griffin quanto para DeAndre Jordan, os contra-ataques quando funcionam geram jogadas espetaculares, e a presença na televisão vai ser cada vez maior. Para a próxima temporada, com certeza os jogos mostrados na íntegra serão vários, talvez no mesmo nível de equipes como Lakers, Heat, Knicks e Mavs.

Frente a esse tipo de exposição, com tanta atenção da mídia, com certeza Chauncey Billups está repensando seu desgosto em ter sido contratado - na marra - pelo Clippers. Do mesmo modo, Chris Paul vai ter muitas dificuldades em escolher deliberadamente abandonar a equipe ao fim da temporada, quando se encerra seu contrato. O Clippers, claro, não estava nos planos de nenhum dos dois. Mas depois de uma pré-temporada arrasadora com jogadas fantásticas, e de uma estreia contra o Warriors em que o Clippers conseguiu impor seu ritmo, a atenção da mídia - e os papos de que a equipe pode ter mais vitórias do que o Lakers, algo que não acontece desde a temporada 2004-05 e só havia acontecido antes em  93 - com certeza deixou os dois recém-chegados com água na boca. A derrota para o Spurs, que veio em seguida, veio apenas para mostrar em definitivo que a equipe tem muito a arrumar, mas o potencial dessa equipe é inegável.

Como convencer jogadores como Chris Paul e Billups a ficarem numa equipe fracassada? Fazendo trocas ousadas, arriscando, ganhando espaço na mídia com jogadas de efeito, e tendo um novato capaz de atrair a atenção de todo o planeta. Se o Clippers der certo nessa temporada, mais jogadores importantes vão querer entrar nessa brincadeira. Se der errado, se não chegar nem aos playoffs, ainda assim os jogadores que já estão lá serão obrigados a encarar a atenção que receberam, e as possibilidades futuras da franquia. Esse é o tipo de reconstrução que equipes desconsideradas pelos free agents precisam planejar, porque simplesmente abrir espaço salarial - que é a estratégia que toda equipe pequena usa - não serve para nada. De que adianta poder oferecer todo o dinheiro do universo se ninguém vai topar jogar no seu time porque ele não aparece na televisão e não tem chances de título? Por sorte, o Heat abriu o espaço salarial e convenceu a ficar e trazer seus amiguinhos. Mas se Wade fosse embora, o que o Heat iria fazer com aquela grana toda? Que jogador iria topar jogar numa franquia como o Heat, apesar das gostosas nas praias de Miami?

O Clippers está no caminho certo porque seus jogadores sabem fazer pontes-aéreas. É estranho de ouvir e pouco ortodoxo, mas é a mais absoluta verdade. E continuará funcionando até que a maldição retorne, puxe o pé do Blake Griffin enquanto ele dorme, e o avião da equipe caia no oceano. São 30 equipes, 66 jogos nessa temporada, uma caralhada de viagens de avião, e se um avião tiver que cair, já sabemos qual será. Na pior das hipóteses, se ninguém morrer e nenhum avião cair, o Clippers pode chegar à beira do título e aí estaremos em 2012: o mundo acaba e vamos todos pro saco. Esse Clippers fez tudo certo, mas não ignorem a maldição. Ela está à espreita.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Como comissário, um grande manager

Quem parece mais feliz, Eric Gordon ou Chris Paul?


Acabou a novela Chris Paul. Ah, sempre sonhei em acompanhar uma negociação do mundo esportivo na imprensa tradicional e chamar algo de "novela". Só não é mais legal do que chamar o período de um treinador de "era", mas tá quase lá. Vocês devem lembrar do enredo dessa que contamos nesse post aqui. Se não lembra, vai lá ler que a gente espera aqui antes de começar o último capítulo.

O grande final da novela Chris Paul teve uma reviravolta interessante. Ele foi para Los Angeles como deveria ter ido semana passada, mas ao invés do Lakers ele vai jogar no Clippers: Como em uma boa novela, é o pobre bonzinho que se dá bem em cima do rico esnobe. Depois que as trocas feitas pelo General Manager Dell Demps foram vetadas pela NBA, dona do New Orleans Hornets, o próprio David Stern conduziu as negociações. E, se querem saber a verdade, ele foi muito bem. O Hornets manda Chris Paul e em troca recebe Eric Gordon, Al-Farouq Aminu, Chris Kaman e uma escolha de 1ª rodada do Draft do ano que vem, bem valiosa por ser originalmente do Minnesota Timberwolves.

O negócio é muito bom, antes de mais nada, porque eles recebem um baita jogador em troca. O Eric Gordon fez uma temporada muito boa ano passado, com 23 pontos e 4.4 assistências de média e um jogo muito mais completo do que qualquer um imaginava dele. Aquele simples (e eficiente) arremessador de longa distância passou a driblar, infiltrar e até a dar umas enterradas monstruosas. Ele tem apenas 23 anos e já flerta com uma qualidade de jogo que pode levá-lo à condição de estrela na NBA. Na pior das hipóteses será "apenas" um excelente pontuador. Ao trocar um grande jogador, nada melhor do que receber um que é mais novo e que indica que pode chegar em nível parecido com o que está deixando o time.

Junto dele vêm outro promissor jogador, Al-Farouq Aminu, que no seu primeiro ano de NBA na última temporada foi discreto, mas longe de ser um fracasso. Pecou mais pela falta de consistência do que de talento. É mais um clássico jogador que foi muito cedo jogar entre os profissionais mas ainda pode dar certo. Ironicamente o seu melhor jogo foi contra o Hornets, quando fez 20 pontos, 8 rebotes e 2 roubos em 29 minutos. Aminu tem apenas 21 anos.

O mais velho da troca é Chris Kaman, de 29, curiosamente menos do que Luis Scola, Lamar Odom e a mesma idade de Kevin Martin, os três que o Hornets receberia naquela troca vetada com o Lakers. Kaman tem sofrido com contusões ao longo de sua carreira, mas quando joga é um dos melhores pivôs ofensivos de toda a NBA. Caso eles queiram investir apenas na garotada, podem conseguir uma troca para Kaman num futuro próximo. O seu salário é alto, mas vimos nessa offseason como a maioria dos times não liga de pagar muito alto por pivôs apenas razoáveis, que dirá de um que sabe jogar basquete. E caso queiram ficar com ele, não seria absurdo. Jogadores técnicos como Kaman costumam render bem durante muitos anos, é só as contusões não voltarem.

Mas a grande vitória do Hornets na troca foi ter conseguido a escolha do Wolves. O Clippers quase pulou fora do negócio quando a NBA disse que queria a escolha e mais Eric Gordon, o time de Los Angeles insistia que era um ou outro, mas acabou cedendo para ficar com Chris Paul. A escolha é essencial para apressar o processo de reconstrução do time. O Draft do ano que vem é considerado o com melhores jogadores desde 2003 e agora eles tem grandes chances de terem duas das 5 primeiras escolhas. Por mais evolução que o Wolves possa ter nessa temporada e de bons jogos que Eric Gordon possa ter, é inegável que os dois times são fortes candidatos às últimas colocações do Oeste.

A troca é o oposto da vetada com o Lakers. Aquela focava em jogadores mais velhos, prontos para render e nenhuma garantia para o futuro. Com Scola, Odom e Martin o time não teria a escolha do Wolves e era capaz deles ainda jogarem bem o bastante para a escolha do próprio Hornets não ser tão boa assim. O fato da NBA ser dona de um time e sair por aí vetando trocas é ridículo, isso não muda. Mas David Stern já pode pensar em largar a vaga de comissário da liga e entrar no mundo dos General Managers, ele mandou bem demais e deu boas perspectivas para o futuro do Hornets.

Por outro lado o Clippers abriu mão de muita coisa com a esperança de ter dado o passo definitivo para o mundo dos grandes times. Entre perdas e ganhos diria que eles fizeram a escolha certa. Muitos críticos nos EUA dizem que em uma troca o vencedor é sempre o time que sai com o melhor jogador. O argumento é que jogadores medianos ou até bons podem ser encontrados aos montes, mas que estrelas são raras. Ou seja, o Knicks pode fuçar a NBA e aos poucos recuperar gente do nível de Danilo Gallinari e Wilson Chandler, mas não teria outra chance de ter um cara como Carmelo Anthony. Não sei se a regra se aplica sempre, não é tão simples assim, mas ela definitivamente faz sentido muitas vezes e o caso do Clippers é um deles.

O Chris Kaman é um bom pivô que daria segurança à jovem dupla de Blake Griffin e DeAndre Jordan, mas não daria para segurar uma troca por causa dele. Griffin já é um All-Star e DeAndre Jordan acaba de ser reassinado pelo Clippers pela quantia assombrosa de 43 milhões de dólares por 4 anos! Se você paga isso para o seu pivô é porque confia nele e vai ser titular. O cara ainda é bem cru no ataque, ponto forte do Kaman, mas foi o terceiro jogador que mais enterrou na NBA no último ano (o segundo foi Griffin, atrás apenas de Dwight Howard) e pode segurar a barra numa boa. É uma perda sentida, mas contornável.

O mesmo vale para o Eric Gordon, que é fora de série, mas se destaca por ser um pontuador e pontos não vão faltar para o Clippers se o Chris Paul jogar no nível que costuma atuar. O elenco do Clippers tem uma ótima base no Griffin, uma boa aposta e defesa no DeAndre Jordan e ganhou reforço do Caron Butler, que assinou um contrato de 24 milhões por 3 anos. O ala ex-Mavs defende bem, ataca com consistência, sabe criar o seu próprio arremesso e é experiente. Uma contratação dessas pede outras que sinalizem algo mais do que ser só mais uma grata surpresa.

Os pontos que eram de Gordon também podem vir dos dois armadores que ficaram da temporada passada e que podem atuar tranquilamente na posição 2: Eric Bledsoe, que atuou assim no basquete universitário, e Mo Williams, que no Cavs cansou se ser efetivo sem a bola na sua mão. Ou seja, o Clippers perdeu um grande jogador, mas tem no elenco gente que pode de alguma forma compensar o que ele oferecia.

Agora, existe alguém que possa fazer o que Chris Paul faz? O cara é um dos melhores ladrões de bola da liga (talvez o melhor em tirar a bola da mão do adversário, não em interceptar passes), um dos passadores mais precisos, é rápido, sabe criar o próprio arremesso e até rebotes consegue pegar. Sua criatividade já levou um time bem mais ou menos do Hornets até o jogo 7 da semi-final do Oeste em 2008. Em resumo: Um pontuador como Eric Gordon não é o que faz um bom elenco dar o passo do meio da tabela para o topo, mas um grande armador, pela sua função, pode conseguir o feito. O Clippers percebeu isso e decidiu arriscar.

O risco é alto, mas eles deram um jeito de diminuí-lo. O Chris Paul já havia dito que ao fim dessa temporada iria optar por sair do seu contrato e se tornar um Free Agent, indo provavelmente para o New York Knicks. Mas o Clippers fechou o negócio com a garantia de Paul de que ele não irá optar por sair do contrato, garantindo assim pelo menos duas temporadas de pontes aéreas entre Paul e Griffin para povoar o Top 10 semanal da liga. Se dois anos não for tempo o bastante para o time engrenar e Paul decidir ir para Nova York de qualquer jeito, paciência, mas ninguém pode dizer que o Clippers foi acomodado. Amaldiçoados eles são e tudo, de repente, pode dar errado, mas estão correndo atrás do que podem fazer.

O time está se movimentando tanto nessa curta offseason que está até com excesso de jogadores. Sem saber que conseguiriam Chris Paul e prevendo a citada necessidade de um armador mais experiente e que organizasse o jogo mais do que Mo Williams e Bledsoe, eles tinham acabado de contratar ninguém menos do que Chauncey Billups. O armador foi anistiado pelo Knicks e, ao contrário da última vez que a anistia valeu, dessa vez os jogadores dispensados ficaram à disposição dos times abaixo do teto salarial para uma espécie de leilão. Só virariam Free Agents irrestritos, disponíveis para todos os times, se os abaixo do teto não dessem nenhum lance. O Clippers aproveitou a vaga preferencial e foi o que deu a oferta mais alta, 2 milhões de dólares, para levar o armador.

O porém era a vontade do Billups. Assim que foi anistiado ele se mostrou bem frustrado e disse que não estava mais em idade de ficar mudando de time por aí, que queria só ir para um lugar onde pudesse brigar por títulos e sossegar até o fim da carreira. O Clippers certamente não passava essa impressão. Tanto que a NBA fez questão de mandar um e-mail para o Billups avisando-o de que ele seria punido se não se apresentasse ao time que venceu o seu leilão. Para não ser punido, Billups teria que se apresentar ou anunciar a aposentadoria.

A questão é se essa troca pelo Chris Paul muda a opinião de Billups. Talvez colocar o Clippers já na categoria de candidato ao título seja um grandíssimo exagero, mas certamente é elenco para ir para os playoffs. E difícil imaginar um time que vá ser mais divertido do que esse! Será que o Billups não quer ser um mentor, um líder de vestiário, para a dupla Griffin e Paul? E, assim como Bledsoe e Williams, ele pode jogar na posição 2 e poderia até ter vaga no time titular. Já jogou assim no começo de carreira, tem bom arremesso e é forte fisicamente para dar conta na defesa. A altura e a velocidade atrapalham na hora de marcar caras mais altos, mas Jason Kidd está aí para mostrar que esses obstáculos podem ser superados com a experiência. É motivação o bastante?

Não duvido que o Clippers esteja planejando uma troca para conseguir um shooting guard clássico para a posição, mas não vejo porque ter um desespero para isso. Os outros armadores dão conta do recado. Paciência, como tiveram para conseguir Chris Paul, é essencial. E é necessário lembrar que o Billups, pela forma que foi adquirido, não pode ser trocado até o fim da temporada e como Bledsoe é novo e barato, não deve sair tão cedo também por vontade da diretoria. O mais forte candidato a possível troca é o Mo Williams.

E sabe quem precisa muito dele? O Lakers, que ainda não conseguiu o armador que tanto sonha. O Clippers deveria mandar o Mo Will de presente e dizer que é um favor para um primo pobre.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Avaliação anual de pivetes - Draft 2010

Samardo Samuels. Nem precisa de legenda.


Quando a gente começou o blog uns bons anos atrás, não éramos tão chatos como somos hoje. Uma prova disso é que bem de vez em quando a gente até entrava na brincadeira de fazer apostas, palpites e futurologia. Comparar jogadores a gente sempre foi contra e vamos morrer sem fazer isso! Nem em 1º de abril eu faço um post comparando Kobe e LeBron. Mas nos últimos dois anos fizemos posts (Draft 2008, Draft 2009) que analisavam a classe de novatos e arriscávamos, baseado no que vimos no primeiro ano, qual poderia ser o futuro de cada uma dessas crianças nos próximos cinco anos.

Conceitualmente eu hoje não gosto desses posts que fiz. Acho que no fim das contas é um jeito barato, fácil e meio vazio de analisar os novatos. Mas ao mesmo tempo é bem prático, já que são mais de 30 por ano é difícil falar individualmente de cada um deles e a generalização da lista, seguida de alguns comentários específicos, cobre esse espaço na nossa cobertura. Na dúvida entre fazer e não fazer acabei decidindo por manter a tradição e analisar a classe de novatos do Draft 2010 ao mesmo tempo que faço minha magia negra para saber o futuro de cada um. Não é perfeito, mas pelo menos alguma coisa temos que manter todo ano nesse blog. Você se pergunta se deve confiar nessas previsões? Eu não acreditaria, mas você pode tirar as suas conclusões baseado no que dissemos no passado. Uma parte divertida desses posts é analisar o que eu já disse sobre os então novatos que hoje já são até candidatos a MVP.

Mas antes de mais nada vocês precisam saber os critérios. Dividimos as crianças em 8 grupos futurísticos, prevendo o que eles vão ser daqui uns anos. São critérios altamente científicos:

1.Mega Estrelas: São aqueles jogadores que vão jogar bem todo dia, que vão liderar franquias, que vão vender doces, biscoitos, tênis e celulares com seu nome, serão entrevistados pela Angélica e vão participar de vários All-Star Games.
Exemplos: LeBron James, Kobe Bryant, Tim Duncan, Derrick Rose.

2. Estrelas Light: Sem áçucar, a estrela de soja só é uma estrela dependendo do desempenho do time na temporada. O cara só é cotado para participar do All-Star Game se o time está bem. Geralmente esse atleta é mais discreto e não é unanimidade entre os fãs, apesar de serem excelentes.
Exemplos: David West, Pau Gasol, Stephen Jackson, Chris Bosh.

3.Caolho em terra de cego: Caolho em terra de cego é rei, mas ainda é caolho e não pega mulher. Esse tipo de jogador é muito melhor que a maioria da NBA mas ainda não pode se achar tudo isso.
São os jogadores que obviamente tem muito talento mas que nunca vão ser cogitados para liderar um time a uma campanha vitoriosa como uma primeira opção, são aqueles caras que só funcionam sendo a terceira opção do time. Em geral são jogadores que sofrem um certo preconceito porque um dia acharam que eles seriam Estrelas Light, ou sofrem pressão porque são novos e acham que podem virar uma Mega Estrela.
Exemplos: Lamar Odom, Michael Beasley, Jason Terry.

4. Role Player Integral: Cheio de gordura mas sem ser o Zach Randolph, são aqueles caras que têm um papel específico no time e que sempre fazem esse papel muito bem. Eles são os jogadores limitados mas que, o que sabem fazer, fazem com perfeição. Costumam ser o sexto-homem de um bom time.
Exemplos: Shane Battier, Eddie House, James Posey, Arron Afflalo.

5. Role Player Desnatado: Se não tiver integral vai desnatado mesmo. Têm a mesma função dos role players integrais mas são incompetentes demais para serem regulares e confiáveis. É o tipo de jogador que joga bem em casa e mal fora ou bem contra time ruim e mal contra time bom.
Exemplos: Sasha Vujacic, Chris Andersen, Zaza Pachulia, JJ Barea

6. Zé Alguém: São aqueles caras que você sabe que estão na NBA, que participam dos jogos, mas que em um jogo disputado e que vale alguma coisa nunca vão estar em quadra nos momentos finais a não ser que algo bizarro aconteça (muitas contusões, muitos jogadores eliminados por falta, chantagem atômica).
Exemplos: Hilton Armstrong, Ryan Hollins, Charlie Bell, Jason Collins

7. Pedaço de carne desforme e imprestável: É aquele tipo de jogador que entra ano, sai ano e por algum milagre divino o cara continua com contrato. Na prática é só um pedaço de carne desforme e imprestável que nunca entra em quadra, só esquenta banco, entrega gatorade, aplaude e depois da temporada arranja outro time pra fazer a mesma coisa. Eles estão na liga mas não jogam.
Exemplos: Sean Marks, Brian Cardinal, DJ Mbenga


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Uma coisa engraçada é que só para postar essa explicação eu já preciso dar uma editada nos exemplos porque algumas coisas mudam de ano para ano. Colocar o Rajon Rondo na categoria 3 parece estúpido hoje, assim como colocar o Lorenzen Wright como Pedaço de Carne Desforme e Imprestável é cruel depois que o coitado foi assassinado! Só isso já mostra como essas previsões são perigosas, mesmo jogadores já estabelecidos na NBA mudam muito de ano pra ano com treino, novas funções, novos times. Para os novatos tudo acontece com ainda mais intensidade. Então que fique claro, as previsões são baseadas mais no que cada um fez nesse ano, é mais um estudo do passado do que um feeling (tem que falar com o nariz empinado) irracional do que vai acontecer no futuro.

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Essa foi a minha lista do Draft de 2008:





1. Mega Estrelas: Derrick Rose e OJ Mayo
2. Estrelas Light: Brook Lopez, Michael Beasley, Russell Westbrook, DJ Augustin, Greg Oden
3. Caolhos em terra de cego: Kevin Love, Eric Gordon, Jason Thompson, Jerryd Bayless, Rudy Fernandez
4. Role Player integral: Danilo Gallinari, Courtney Lee, George Hill, Nicolas Batum, DeAndre Jordan, Mario Chalmers, Marc Gasol
5. Role Player desnatado: Brandon Rush, Mareese Speights, Roy Hibbert, JaValle McGee, Ryan Anderson, Darrell Arthur, Luc Mbah a Moute, Mike Taylor, Anthony Morrow
6. Zé Alguém: Joe Alexander, Robin Lopez, Anthony Randolph, Donte Greene, Chris Douglas-Roberts, Kyle Weaver
7. PCDI: Kosta Koufos, Goran Dragic
0. Estarão fora da NBA: Alex Ajinca, DJ White, JR Giddens

No ano passado mesmo eu já tinha admitido algumas derrotas: Percebi logo que tinha subestimado o Kevin Love e o Jason Thompson, que vinham jogando bem. Mas bastou mais um ano pra tudo mudar, o Love é ainda mais espetacular do que eu poderia imaginar e o Jason Thompson, nunca entendi bem o motivo, perdeu espaço no Kings. Também tinha percebido que o Goran Dragic era melhor do que as minhas pessimistas primeiras impressões de pirralho inseguro. Não vejo ele ainda com condição de ser titular em nenhum time, mas obviamente o cara é bom. E já no ano passado admiti o erro em pensar que o Danilo Gallinari seria só um arremessador. É bom ler os meus arrependimentos passados para não me darem as broncas que já me deram um ano atrás!

Com o OJ Mayo eu ainda tinha esperanças, mas elas se foram nesse ano. Ele não conseguiu se firmar como armador principal, nem titular e nem reserva, que era o seu plano na offseason. Também não melhorou o seu arremesso e na defesa ficou estagnado. Como resultado perdeu a posição no time justamente para o cara com quem teve uma briga de socos e pontapés, Tony Allen, que revolucionou a defesa de perímetro do Grizzlies. Por pouco não foi trocado do Memphis e se for embora não vai fazer falta. É bom, pode ser titular ou 6º homem por aí, mas não é indispensável.

Nessa classe ainda podemos ficar preocupados com Michael Beasley e Brook Lopez, que entra ano e sai ano continuam com os mesmos defeitos. Se o Beasley não defender e não pensar mais em quadra, e se o Lopez não começar a pegar mais de um rebote a cada 100000 minutos em quadra, fica difícil ser chamado de estrela. Em compensação, mal aê Westbrook, respeito.

Essa análise é um bom exemplo de como a gente tem que ter muita paciência com vários jogadores. Os Blake Griffins desse mundo que já chegam jogando como se fossem veteranos são raros, o normal é ir com calma e é muito difícil adivinhar quem deslancha ou não. Alguns novatos até jogam poucos minutos e a gente, que não assiste treino, fica dando tiro no escuro. Lembro disso porque no começo dessa temporada, quando só Blake Griffin, Landry Fields e John Wall estavam se destacando entre os novatos, muita gente já queria decretar o Draft passado como o pior desde o trágico grupo de 2001. Calma lá, sem ejaculação precoce.

...
Para o Draft 2009 a minha lista foi essa:



1. Mega Estrelas: Tyreke Evans e Brandon Jennings
2. Estrelas Light: Stephen Curry
3. Caolhos em terra de cego: Ty Lawson, Jonny Flynn, Omri Casspi, James Harden
4. Role Player integral: Jordan Hill, DeMar DeRozan, Hasheem Thabeet, Terrence Williams, Chase Budinger, Jonas Jerebko, DeJuan Blair
5. Role Player desnatado: Earl Clark, Jrue Holiday, Tyler Hasnbrough, Rodrigue Beaubois, Wesley Matthews, Marcus Thornton, Darren Collison, Eric Maynor, Jeff Pendegraph
6. Zé Alguém: James Johnson, Jon Brockman
7. PCDI: Gerald Henderson, Austin Daye
0. Estarão fora da NBA: BJ Mullens

Sabe que eu estou até orgulhoso dessa lista? Um ano depois e eu não mudaria lá muita coisa. Quer dizer, mudaria bastante, é verdade, mas nada muito drástico ou absurdo. O interessante dessa lista é que as minhas mudanças são quase que todas para cima. Vários jogadores podem subir um ou dois degraus nessa lista. É o caso de DeJuan Blair, que se estabeleceu como titular no Spurs, DeMar DeRozan, menos cagão, Chase Budinger, bom titular no Rockets desde a saída do Shane Battier, Marcus Thronton, melhor notícia do Kings na temporada. Ainda tem o Darren Collison, certamente mais que só um role playerTyler Hansbrough, que  renasceu depois da mudança de técnico, Jrue Holiday por muitas vezes é o melhor jogador do Sixers e Wesley Matthews, no fim das contas, realmente vale toda aquela fortuna insana que o Blazers desembolsou para tirá-lo do Jazz.

Os que menos melhoraram foram justamente os melhores. Tyreke Evans e Stephen Curry sofreram com contusões, é verdade, além de estarem em times ridículos, mas esperava-se mais deles. Já o Brandon Jennings tem seus altos e baixos, coisa que deveria ter acabado mas que é compreensível em um time em que todo o sistema ofensivo sempre foi meio capenga. De qualquer forma, não acho que fiz nenhuma previsão absurda.

Os maiores erros, de novo, foram menosprezando bons jogadores. Depois de primeiros anos apagados, o Gerald Henderson e o Austin Daye têm mostrado talento. Naquela coisa dolorosa que é ver o Pistons jogar, as únicas coisas que não machucam os olhos são o renascimento do Tracy McGrady, o Rip Hamilton jogando por um novo contrato e a ascenção do Austin Daye. Ele tem um estilo meio Tayshaun Prince que pode render muito no futuro ao lado do Jonas Jerebko, boa promessa que perdeu toda essa temporada contundido.

Os poucos que caíram de nível foram o Terrence Williams, máquina de triple-doubles só na D-League, que não acha espaço no Rockets. Earl Clark, ainda longe do potencial anunciado mesmo com alguns bons momentos no Magic, e Hasheem Thabeet, que tem jeitão de ser um daqueles caras que é encarado promessa por 10 anos. Mas nunca se sabe, né? Tyson Chandler demorou uma eternidade até virar bom jogador, tudo pode acontecer. Também tem o Jonny Flynn, que mal consegue se firmar num time fraco como o Wolves mesmo depois de um primeiro ano com algumas boas atuações. Ele me lembra o TJ Ford, veloz demais e com algumas boas jogadas que dão a impressão de que o cara é um gênio, mas quanto mais você assiste mais percebe como ele está perdido em quadra. Talvez o esquema tático do Wolves não ajude, talvez ele esteja sempre perdido mesmo.

Para ler o post do ano passado quando eu elaborei a lista, clique aqui. 

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E, finalmente, minha lista para o Draft 2010:






1. Mega Estrelas: John Wall, Blake Griffin
2. Estrelas Light: DeMarcus Cousins, Wesley Johnson
3. Caolhos em terra de cego: Greg Monroe, Evan Turner, Derrick Favors, Paul George, Landry Fields, Jordan Crawford, Tiago Splitter
4. Role Player integral: Patrick Patterson, Gordon Hayward, Eric Bledsoe, Ed Davis, Gary Neal
5. Role Player desnatado: Trevor Booker, Samardo Samuels, Ekpe Udoh, Cole Aldrich, Xavier Henry, Al-Farouq Aminu
6. Zé Alguém: Luke Harangrody, James Anderson, Luke Babbitt, Greivis Vásquez, Avery Bradley
7. PCDI: Dexter Pittman
0. Estarão fora da NBA: Daniel Orton


Eu confesso que coloco o Evan Turner nessa posição por um pouco de acaso. Tive sorte ao assistir vários jogos do Sixers em que o Turner teve seus bons momentos; nos ruins, muitos, eu estava vendo outros times. Então sei que ele é capaz de ser melhor do que é embora tenha tido uma temporada broxante. Acredito que com mais confiança ele pode fazer algum estrago na NBA. Mesma coisa com o Wesley Johnson, não foi impecável, mas melhora pouco a pouco e vai ter espaço pra crescer no Wolves.

O Tiago Splitter tem talento para ser mais do que isso, mas não passou muita confiança nesse primeiro ano. Mesmo sem o período de treinos (ele não participou porque estava machucado), eu esperava mais de um cara com tanta experiência internacional. Talvez esse novo Spurs mais veloz e com mais bolas de três também não tenha ajudado.

O Jordan Crawford é um exemplo de como é difícil analisar novatos. A maioria deles a gente só conhece em uma situação, um esquema tático, um técnico, uma rotação. E só com o passar dos anos, com mudanças no time ou trocas, é que vamos conhecendo mais do cara. Com o Jordan Crawford essa troca aconteceu já no primeiro ano e ele saiu do fim do banco do Hawks, quase não entrava, para ser titular no Wizards. Em Washington ao lado de John Wall está sendo o pontuador que era no basquete universitário. Meteu 39 pontos na cachola do Miami Heat e outro dia fez seu primeiro triple-double na carreira. Talvez outros mal ranqueados só estejam escondidos como estava Crawford no Hawks.

Zoamos muito o Samardo Samuels, mas o fato é que ele garantiu seu lugar na NBA. Ter um cara não draftado, desconhecido e de nome engraçado como titular menos de um ano depois de ter a melhor campanha da NBA mostrava a decadência do Cavs pós-LeBron. Mas Samuels, símbolo dessa fase, fez bonito quando teve chance e certamente tem espaço na liga como um bom reserva. Orgulho do novo mascote do Bola Presa!

Não dá pra comentar todas as decisões hoje, qualquer coisa em especial perguntem nos comentários. Mas ano que vem voltarei aqui para apontar para mim mesmo, dar risada das bobagens que disse e me perguntar de novo por que diabos eu me arrisco em prever o futuro.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Trocas, trocas, trocas

Mo Williams e  Baron Davis tem ótimas fotos juntos. (Ex.1 ; Ex2


Meu deus, que suruba! Nunca vi tanto troca-troca em um só dia. A NBA já teve muitos momentos de movimentação intensa no passado, mas eu sinceramente não lembro de um com tanto jogador sendo trocado. Já falamos da troca do Carmelo Anthony que envolveu 12 jogadores e da do Deron Williams, que levou ele para o New Jersey Nets. Mas isso foi só o começo, hoje foram mais um milhão de transações que vamos demorar uns dias para analisar totalmente. Se não terminarmos é porque eu fui trocado para um outro blog, rumores indicam que eu possa começar a escrever no Mão Feita a partir de amanhã.

Algumas transações, como o botão de auto-destruição que o Boston Celtics apertou, merecem esperar pelo menos um dia para que a gente possa ter certeza de todos os desdobramentos e detalhes de todos os jogadores envolvidos. É um momento importante da temporada e não queremos falar bobagem! Antes de escolher as primeiras trocas a serem analisadas é hora de informar um pouco, já que está meio confuso de acompanhar. As trocas que aconteceram hoje, com nomezinhos coloridos, foram:

Boston Celtics envia: Kendrick Perkins e Nate Robinson
Oklahoma City Thunder envia: Nenad Krstic e Jeff Green

Boston Celtics envia: Luke Harangody e Semih Erden
Cleveland Cavaliers envia: Uma escolha de 2ª rodada de Draft

Boston Celtics envia: Marquis Daniels
Sacramento Kings envia: Grana

Oklahoma City Thunder envia: DJ White e Mo Peterson
Charlotte Bobcats envia: Nazr Mohammed

Portland Trail Blazers envia: Dante Cunningham, Sean Marks, Joel Pryzbilla e duas escolhas de 1ª rodada de Draft
Charlotte Bobcats envia: Gerald Wallace

Washington Wizards envia: Kirk Hinrich e Hilton Armstrong
Atlanta Hawks envia: Maurice Evans, Mike Bibby e Jordan Crawford

Sacramento Kings envia: Carl Landry
New Orleans Hornets envia: Marcus Thornton

Houston Rockets envia: Aaron Brooks
Phoenix Suns envia: Goran Dragic e uma escolha de 1ª rodada de Draft

Houston Rockets envia: Shane Battier e Ish Smith
Memphis Grizzlies envia: Hasheem Thabeet e uma escolha de 1ª rodada de Draft

Los Angeles Clippers envia: Baron Davis e escolha de 1ª rodada de Draft
Cleveland Cavaliers envia: Mo Williams e Jamario Moon

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Pois é, temos assunto para um mês. Algumas dessas trocas podem não estar completas, faltam detalhes e não é em todas que sabemos ao certo que escolhas de Draft estão sendo enviadas. Ainda é tudo muito recente e vamos começar analisando as que a gente tem certeza de como aconteceram.

Começo com a última listada e a primeira confirmada do dia, a do Baron Davis por Mo Williams. Todo mundo sabe que o Clippers queria trocar o Baron Davis faz MUITO tempo, acho que no dia seguinte em que eles assinaram o cara eles provavelmente já estavam arrependidos. Em toda sua carreira o B-Diddy sempre foi um misto de muito talento, nenhum esforço, brigas com técnicos e desinteresse total. Foi assim no Hornets com Byron Scott (que será seu técnico de novo no Cavs!), no Warriors com o Don Nelson e no Clippers não só com Vinny Del Negro e Mike Dunleavy mas até com o dono Donald Sterling, que sentava na beira da quadra para ver o jogo e xingava o próprio atleta. Nos poucos momentos em que jogou pra valer era constantemente colocado em listas dos 3 ou 5 melhores armadores da liga, mas durava pouco.

O problema para trocar Baron Davis era o seu contrato monstruoso, mais de 13 milhões por ano até o fim da temporada 2012-13, além desse comportamento que acabei de citar, óbvio. Ninguém queria pagar tanto por problemas. A coisa mudou um pouco de figura quando eles encontraram o Cleveland Cavaliers, o atual pior time da NBA e que está desesperado por qualquer coisa que dê um mínimo de esperança para um futuro próximo ou nem tão próximo assim. O Clippers tinha o que oferecer, não Davis, claro, mas uma linda e cristalina escolha de 1ª rodada no Draft do ano que vem. Em um time quebrado, em um mercado pequeno e numa época em que as estrelas só querem jogar juntinhas em cidades famosas, o Cavs não tem esperança de voltar a ser relevante com espaço salarial e Free Agents, o negócio deles é buscar talento no Draft.

Sendo o pior time da temporada eles tem ótimas chances de ter a 1ª escolha no Draft do ano que vem e com todo o azar do mundo ficam pelo menos com a 4ª. Essa do Clippers, se nada de muito drástico acontecer, deve ficar entre a 7ª e 10ª. Ou seja, um ano após o término do namoro com o LeBron James eles tem uma escolha Top 5 e outra Top 10 para recomeçar um núcleo jovem no time, não é nada mal! O preço a ser pago não é barato, porém, o contrato pesadíssimo do Baron Davis aumenta a folha de pagamento do time em quase 5 milhões de dólares por temporada em relação ao que pagavam pelo Mo Williams, mas repito o que disse: eles não vão conseguir jogadores com espaço salarial, estão pagando para ter essa valiosa escolha de Draft. É rezar para não fazer bobagem com ela agora.

Até agora a troca parece bastante certinha, certo? O Clippers está entupido até as orelhas de jovens e bons jogadores e não precisa de mais uma 10ª escolha, então a usou para se livrar do jogador que tentam trocar há quase 3 anos. Mas o que causou espanto na maioria das pessoas foi que a troca foi realizada bem na época em que, pela primeira vez em todos esses anos, o Baron Davis está jogando bem de verdade! Todas as críticas que eu citei acima são verdade, ele é desinteressado e joga quando quer. Chegou fora de forma no começo da temporada e foi afastado pelo técnico Vinny Del Negro, nos anos anteriores também estava gordo e jogava de um jeito desleixado, individualista e sem esforço algum. Suas bolas de três forçadas na transição deixariam até o JR Smith angustiado, pra mim parece um jogador de streetball no fim da pelada, quando já está cansado e continua em quadra tentando uns truques (que dão errado) só para não parar de jogar e ficar entediado.

Acontece que ele não é daqueles jogadores que lideram um time pelo exemplo e fazem todo mundo jogar bem, ele é o maria-vai-com-as-outras. Se o resto do time está motivado, tem talento e joga bem, aí ele quer participar. Foi assim naquele Warriors que surpreendeu o Mavs em 2007 e começou a ser assim quando ele se tocou que aquele novato Blake Griffin que estava no seu time era um fenômeno. Seus olhinhos brilharam como uma criança quando vê o novo Comandos em Ação e ele quis começar a brincar, entrou em forma (para o seu padrão), foi aceito pelo Del Negro e começou a dar assistências de todos os cantos da quadra para enterradas do Griffin. Passou a aparecer no Top 10 da NBA, a ser relevante, comentado, a transpirar confiança, falar mais em quadra, dar passes para enterrada dentro de carros e, de repente, foi trocado.

Trocar o Baron Davis fez todo o sentido do mundo por tanto tempo e bem quando passou a não ser tão óbvio assim eles puxaram o gatilho. Fizeram certo? Difícil afirmar com certeza, mas vou tomar coragem, dar um gole na birita, respirar fundo, sair de cima do muro e responder: sim, tinham que trocar. Em uma visão otimista o Clippers iria ter esse mesmo time que começou a jogar bem em dezembro no ano que vem e poderia lutar pelos Playoffs, mas em uma visão mais pessimista (o que faz todo o sentido para o Clippers), o Baron Davis poderia se machucar de novo ou simplesmente começar a sabotar o time como já fez outras vezes, só lembrar do também jovem e promissor Warriors que depois de um momento de encantamento despencou para a mediocridade. Ele simplesmente não é um cara confiável, já provou isso em 10 anos de carreira e o Clippers não tem motivo para dar esse voto de confiança. Os passes para ponte-aérea irão fazer falta, mas adeus.

Só reforçando, perder a escolha de Draft não foi legal, mas jovens talentos não são o problema do Clippers. Eles tem Blake Griffin, Al-Farouq Aminu, Eric Bledsoe, Eric Gordon, Randy Foye e DeAndre Jordan, pegar mais um pivete para não deixar ele ter espaço para se desenvolver seria inútil. E temos que pensar também na economia, o Mo Williams ganha 8.5 milhões de dólares por temporada no próximo ano contra os quase 14 de Baron Davis, depois disso Mo tem a opção de virar Free Agent (Player Option) mas não é provável que ele recuse ganhar mais 8.5 milhões, só se a vontade de mudar de time falar 10 vezes mais alto que essa fortuna. De qualquer forma o dinheiro que o Clippers poupa e o espaço aberto na folha salarial são importantes para esses mesmos jovens jogadores, que cedo ou tarde precisam de seus contratos renovados. Em dois anos eles precisam oferecer uma bolada para o Eric Gordon, depois uma extensão digna do talento do Blake Griffin. Ter o salário do lixo do Baron Davis atrapalhando seria um Epic Fail típico do Clippers, mas eles evitaram.

E é inteligente da parte deles pensar no futuro e não no agora. Com a decadência do Portland Trail Blazers depois das contusões de Brandon Roy e Greg Oden, as saídas de Carmelo Anthony e Deron Williams da conferência, podemos considerar que o Oeste tem quatro forças óbvias: LA Lakers, San Antonio Spurs, Dallas Mavericks e Oklahoma City Thunder. Os três primeiros estão no Top 5 de equipes mais velhas da liga, prontas para dar suas últimas cartadas atrás de um título antes de começar um novo processo de renovação. Quando isso acontecer o topo da conferência está nas mãos do Thunder e de quem conseguir montar um elenco bacana até lá, o Clippers está fazendo a sua parte para melhorar na hora certa.

Pensando a curto prazo o time deve dar uma piorada mesmo, é verdade, o Mo Williams vai dar uma melhorada no arremesso de três deles (Baron Davis chuta o mesmo número de bolas por minuto que Ray Allen, mas não chega aos 30% de aproveitamento), mas está longe de ser o cara que comanda o ataque como B-Diddy fazia. É bem provável até que Mo não atue como um armador principal o tempo todo, mas auxiliando no trabalho e jogando como arremessador, já que eles provavelmente vão querer dar espaço para o novato Eric Bledsoe, e seus outros companheiros de posição, Randy Foye e Eric Gordon, sabem quebrar um bom galho como armadores principais. Vão precisar de um tempo para se adaptar mas não é motivo para desespero.

Uma outra coisa que eu acho que vai ser bem interessante de acompanhar é o Baron Davis em Cleveland. Um cara eternamente desmotivado jogando pela franquia mais perdedora da temporada? Seria lindo ele usar seu talento e carisma (é um cara divertido, admitamos) para dar um boost na cidade, mas eu apostaria todas as minhas fichas que uma estranha contusão o tirará do resto da temporada. Não sei, devemos esperar o melhor das pessoas, mesmo quando parece bem improvável.
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Vamos tentar manter um ritmo acelerado de posts para comentar todas as trocas. Aguentem aí e tentem não enlouquecer!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Sabadão com o Gugu

Faz carinha de quem tá gostando


(História bizarra do dia: Não sabíamos que nome dar ao post. Danilo pensou em "Sabadão Sertanejo" e eu disse "Ou Sabadão com o Gugu, que era o nome do programa depois que não era mais só sertanejo. Mas se for assim temos que colocar frases do Chico Xavier nos intervalos". Eis que então damos uma Googlada e descobrimos que demos esse mesmo nome no All-Star Saturday Night de 2008! Como bem disse o Danilo pra fechar, somos uma sátira mal feita de nós mesmos)

Esse fuso horário ainda me mata! Ontem fui dormir à uma da manhã no horário cipriota para depois acordar às 3 para assistir ao famoso sábado do All-Star Weekend. Quase não sobrevivi na primeira meia hora de papinho besta da transmissão gringa até que começasse tudo de verdade. Mas quer saber, quando acabou tudo às 6 da manhã eu estava tão excitado com o que tinha acabado de assistir que aí não conseguia nem pensar em ir para a cama. Melhor campeonato de enterradas de todos os tempos? Nos perguntaram isso já, acho que não, mas nem tudo precisa ser o melhor da história para ser do caralho.

O primeiro evento da noite foi o torturante Shooting Stars, que já teve algumas edições divertidas mas que em geral é um porre. Tão chato que eu juro que não está no nosso bolão porque eu esqueci completamente da sua existência, a gente tenta apagar da cabeça as coisas ruins, saca? Dependendo dos ex-jogadores que eles escolhem para participar é até divertido ver o cara lá em ação, brincar de nostalgia e de explicar para os leigos que assistem do seu lado quem é quem. Mas nesse ano escolheram a porcaria do Rick Fox e o resto são todos comentaristas da TV americana, uma panelinha tola e desnecessária. Seria fazer um All-Star do futebol brasileiro e na hora de chamar ex-jogadores só teria Casagrande e Caio Ribeiro.

Sem contar que, como disse o Danilo no Twitter ontem, o Shooting Stars é um jogo no estilo Passa-ou-Repassa. Não importa o que acontece durante todo o programa, vence o todo quem vence a última prova que vale 1 milhão de pontos. Nesse caso vence quem acerta mais rápido a bola do meio da quadra, um arremesso que ninguém treina, que não é divertido de assistir e que na verdade só me lembra pessoas que não jogam ou gostam de basquete. Quem joga de verdade nunca fica chutando do meio da quadra, é coisa do seu amigo que só joga futebol e aparece uma vez na vida na quadra tentando fazer algo impossível. É tão coisa de escola que até chamam meninas para participar, pra ver se impressionam alguma jogando basquete (sério, não funciona!). O time vencedor tinha a musa Coco Miller, o comentarista da NBA e ex-jogador mais ou menos Steve Smith e o Al Horford.

Depois dessa palhaçada veio o Skill Challenge, a disputa do sábado que mais atrai jogadores de nome além do jogo de domingo. Se nas bolas de três vemos uns role players aleatórios e no de enterradas já tivemos até o Gerald Green ganhando, no de habilidades é só estrela de verdade. Não sei porque isso acontece, mas até o amarelão do LeBron, que nunca teve as bolas de ir para o de enterradas, já participou da brincadeira. Nesse ano estavam lá Chris Paul, Russell Westbrook, Stephen Curry, John Wall e Derrick Rose.

Acabou sendo meio que uma decepção porque muitos erraram vários passes e arremessos, então mesmo sendo alguns dos armadores mais rápidos da NBA, tudo ficou meio empacado. O ápice da noite foi quando o CP3 errou a bandeja inicial do circuito, algo absolutamente inédito (e patético) na competição. O nível foi tão baixo na primeira rodada que o Steph Curry foi para a final contra o Westbrook mesmo depois de errar bastante. E aí na decisão finalmente algo digno de um cara rápido e com arremesso preciso como ele, passou por todos os obstáculos voando, acertou o tãaao temido arremesso de meia distância, o passe longo e fechou o circuito em 28.2 segundos, o melhor tempo do torneio desde que Deron Williams fez o recorde de 25.5 em 2008.

Parecia que o sábado não era mesmo o dia de grandes atuações quando começou o torneio de três pontos. Na primeira rodada o Daniel Gibson, que era a minha aposta para o Cavs finalmente ganhar algum troféu antes do LeBron James, passou vergonha e fez apenas 7 pontos, chegando a errar 10 bolas em sequência. A piada dele errar 26 em sequência ficou coçando na garganta durante todo o evento. Pelo menos para ele não se sentir sozinho o Kevin Durant, que nem deveria estar lá por não ser um especialista em três pontos, também fez papelão e mostrou que, repito, nem deveria estar lá por não ser especialista em três pontos, diacho. Até quem parecia em uma noite boa, como o Dorrell Wright, esfriou mais que aquela sua ex-namorada frígida depois dos primeiros arremessos. O nível baixíssimo deixou Paul Pierce, mesmo indo mal, ir para a final contra James Jones e Ray Allen.

E aí, pela primeira vez na temporada, deu Heat. Pierce foi mais ou menos, James Jones fez sólidos e bons 20 pontos e o Ray Ray mostrou que só é bom em quantidade de bolas de três pontos (opa, polêmica!). Brincadeira, ele só mostrou que não venceu uma brincadeira. O dia que essas brincadeiras de All-Star provarem alguma coisa a ciência se mata com um tiro na cabeça. O título de James Jones premia o jogador com a estatística mais bisonha da NBA: Ele tem 357 pontos na temporada e NENHUM foi feito dentro do garrafão. Isso tem que ser um recorde!

Ai chegou o campeonato de enterradas. A parte mais esperada da noite que é a mais legal de assistir e a mais chata de ler no dia seguinte, mas vamos nos esforçar para não sermos chatos como a maioria. Porque eu morro um pouco por dentro a cada campeonato mais ou menos em que alguém diz "Não é a mesma coisa como antigamente que tinha Michael Jordan e Dominique Wilkins" e tenho vontade de arrancar meus olhos fora quando depois de um campeonato bom dizem "O torneio de enterradas está de volta!!!". É como o rock ser salvo a cada nova boa banda que aparece. Não há nada para ser salvo e, surpresa, em alguns anos vai ser legal e em outros não. Não é biologia molecular, é fácil de entender.

Agora é hora de comentar cada enterrada, mas não vou fazer isso sozinho, o Danilo vai me ajudar. Uma por uma, jogador por jogador.

Serge Ibaka: O melhor último colocado da história! Até no antológico campeonato de enterradas do ano 2000 a gente teve gente ridícula como o Larry Hughes, mas nesse ano foi só alto nível.



Denis: Foi do lance livre MESMO, antes da linha pra dizer a verdade, não pisando em cima como o Jordan ou o Julius Erving! O problema foi que a enterrada não saiu muito forte, então o final foi um pouco decepcionante para um salto tão fantástico. Não foi inovadora, mas fez melhor do que quem havia tentado antes, merecia mais que os 45 pontos que recebeu.

Danilo: Achei uma das enterradas mais mal-amadas da noite, merecia nota máxima. Acertou de primeira, não precisou ir até Joanópolis pra pegar distância, não colocou fita-crepe no chão pra marcar a passada, e o mais importante: não pulou nem muito antes da linha (porque aí erraria) e nem muito depois como todo mundo faz porque acertar os passos é o diabo. Fez direitinho uma enterrada difícil pra burro, e daí que já tinham feito antes? Se valer só enterrada nova, vamos ter que voltar ao pessoal enterrando com roupa de sex-shop.



Denis: A segunda enterrada dele foi criativa e acabou por decidir o campeonato de enterradas. JaValle McGee disse que chegou ao fim do torneio sem idéias porque a sua para fechar a noite era fazer exatamente isso. Funhé. Ela foi bem impressionante também, a coordenação para tudo isso e a altura do salto são coisas de outro planeta. Mas mais legal foi ver que o pirralho de corte de cabelo patético não saiu do seu papel nem por uma fração de segundo!  Aproveita e já continua em Los Angeles, pivete!

Danilo: Foi bem executada, pena que não foi de primeira. Foi a primeira enterrada com teatrinho, personagens e falas no campeonato. Como eu comentei no Twitter, agora só falta ter anões e mulheres de biquini. Fora essa bobagem, também merecia mais carinho.


DeMar DeRozan: Se teve algum injustiçado na noite de ontem foi o DeRozan, embora eu ache que essa é uma palavra muito forte para uma brincadeira de enterradas.




Denis: Enterrada por baixo da perna vindo da lateral da quadra, não dá pra pedir muito mais do que isso. Se não é para nota máxima é para chegar perto.

Danilo: O legal é que saiu plasticamente bonita a enterrada, movimentação bacana no ar.



Denis: Essa foi simplesmente a melhor da noite! Não tem o que dizer. Foi de primeira, foi sem frescura, sem parafernalha, sem historinha, só jogou a bola pra cima, deu um salto lindo, fez uma pegada difícil e enterrou com força. Impecável.

Danilo: Saiu tudo perfeito, absolutamente tudo, é a enterrada que todo mundo deveria dar de exemplo para o campeonato desse ano.


JaValle McGee: A grande surpresa da noite. Ele dá enterradas legais durante o jogo, mas é sempre em ponte aérea, muitas delas bem desengonçadas. Não esperava absolutamente nada do gigante que quase se tornou o mais alto vencedor da história do torneio de enterradas.



Denis: É impressionante, é difícil de fazer até se você tiver duas cesta de só 2 metros de altura pra treinar no quintal de casa e jogar uma das bolas na tabela foi o charme estético que faltava. Perfeita. (Dwight Howard que parece não ter gostado muito...)

Danilo: Só dá pra fazer se você for o Dhalsim. Ou seja, genial.



Denis: Levar a mãe lá pra dar beijinho nos juízes foi apelação! Imagina o dia que o Kris Humphries levar a Kim Kardashian para pedir votos, ele vai ser um All-Star no ano que vem. Mas a enterrada foi boa! Três de uma vez eu juro que achava impossível! Apenas acho que é mais difícil do que bonito.

Danilo: O McGee é a versão cult desse campeonato de enterradas. O que ele faz é difícil, inviável, vai contra as leis do espaço-tempo. Depois que ele enterra você senta no chão e se questiona sobre a viabilidade da Física moderna. Vale nota máxima só porque é impossível. Mas a enterrada não é bonita, não é espetacular, não é nada além de prazer intelectual.



Denis: Todo ano tem uma enterrada como essa, que você olha e diz "legal, daria um 9" e quando você vê no replay diz "Puta que pariu dá um 11 e mais um carro pra ele".

Danilo: É bem isso, incrível como a enterrada do McGee é feita para ver no replay em câmera lenta, com a cabeça desviando da porrada na tabela. De novo, uma enterrada para apreciar intelectualmente depois, na hora pareceu normal.



Denis: Essa é pra usar em palestra empresarial dizendo: Sempre tenha um plano B.

Danilo: Funhé.


Blake Griffin: Deixar o voto popular decidir já deixava bem claro quem levaria o prêmio para casa. Griffin não foi mal, muito longe disso, mas ao mesmo tempo acho que a maioria esperava um pouco mais.



Denis: Essa é no meu estilo, sem efeito técnico, só algo diferente e bem executado. Foi a minha favorita dele em toda noite! Mal eu sabia que no fim das contas ele é quem ia fazer mais teatro no fim das contas.

Danilo: Talvez a enterrada mais plástica da noite, a mais bonita de ver quando aconteceu. E com um discurso de que "não tinha frescura", completamente oldschool.



Denis: A cara dele após a enterrada diz tudo, não era o que ele queria. Mas quando esse é o seu plano B que você faz quando não tem mais tempo é porque você é um jogador até que razoável. A primeira que ele tentou e errou era para acabar o campeonato na hora, porém, seria linda.

Danilo: Quando ele tentou da primeira vez e errou, com um giro fantástico, a torcida foi ao delírio e ele não conseguiu conter o riso, a enterrada era foda. Mas a água bateu na bunda e ele foi para um plano B bem melhor do que o do McGee, né?



Denis: O "Vince Carter revisited" dito pelo narrador já diz tudo. Foi o que Carter havia feito já em 2000, mas agora em um passe vindo da tabela. Não foi a melhor da noite, mas assim como Ibaka no lance livre ele pegou algo que já haviam feito antes e fez melhor.

Danilo: Quem é que tinha tentado fazer igual num campeonato de enterradas uns anos atrás e enfiou só a mão pra dentro, foi ridículo, e ainda quase tomou um capote? O Griffin fez com explosão um troço difícil e bonito de ver.



Denis: Quando me perguntam porque eu gosto de jornalismo eu costumo dizer que é porque a vida real sempre dá um chute no meio da bunda da ficção. Podemos criar quantas histórias de mentirinha a gente quiser, com dragões, ETs ou qualquer merda, mas no fim sempre alguma coisa bem real vai aparecer na nossa frente e deixar a gente boquiaberto. Um carro? Um coral? O clima no ginásio, todos de pé, a gritaria e todos correndo dentro da quadra foi um show surreal. Prefiro as enterradas mais simples, mas tenho que admitir que isso foi bem divertido e um ótimo encerramento de festa.

Danilo: Tem uma coisa importante sobre o campeonato de enterradas: ele é ao vivo. Não dá pra tentar pra sempre até acertar e depois editar o vídeo, não pra cortar você se esborrachando no chão tentando pular uma cadeira. O que conta é o que você faz na hora, na pressão, sendo visto por gente do mundo todo, num ginásio lotado. E como você empolga ou não essas pessoas com os recursos que tiver na hora. Depois a gente para e pensa que o coral foi brega, que ele pulou a parte mais baixa do carro, mas na hora foi um espetáculo, foi tão exagerado que ficou épico. O Blake Griffin tinha que acertar de primeira, não dava pra errar e tentar de novo, e ele não podia se arriscar a pular de costas ou por cima da parte mais alta do carro e quebrar os dentes em rede mundial. Pra começar, ele joga no Clippers e já é azarado o bastante, e além disso ele volta pro trabalho na segunda-feira, não dá pra arriscar muito, seria burrice. O Griffin já foi burro o bastante colocando o Baron Davis dentro do carro para lhe passar a bola, porque o passe poderia vir na hora errada, na altura errada, e tudo estaria perdido. Dava pra ter sido melhor? Dava. Ao vivo, com uma tentativa só, no ginásio de pé e berrando? Provavelmente não dava. Foi o clima perfeito, foi o bastante, e deu muito certo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pirralhos e quase pirralhos

John Wall dando uma espiadinha pra ver o que tem dentro do aro


Pessoalmente acho as micagens de circo do All-Star sempre divertidas, o clima é de brincadeira, ninguém se leva muito a sério e querer assistir ao jogo com seriedade é como sentar pra assistir Chaves esperando uma análise sobre a efemeridade da vida em um filme iraniano. Mas confesso que meu momento favorito do fim de semana do All-Star é o jogo dos Rookies contra os Sophomores (ou "Novatos contra Segundo-anistas", versão brasileira Álamo) porque costuma ser a junção ideal entre festança e jogo competitivo. Em geral temos relações de afeto com os novatos, vimos o começo de suas carreiras na NBA, escolhemos nossos favoritos, acompanhamos com atenção alguns mais secundários e esquecidos, e todos queremos ver o que podem fazer em um jogo leve e solto que não vale bulhufas e não tem amarras dos técnicos. Mas é sempre legal ver bons jogadores se empolgando num jogo disputado, tentando vencer, coisa que quase nunca acontece com os jogadores mais velhos que já estão calejados e sabem que não vale a pena se esforçar por bobagem. É por isso que só no Jogo dos Novatos podemos ver, ao mesmo tempo, o Blake Griffin dando enterradas depois de um passe picado em maior clima de pelada, e o John Wall se jogando nas cadeiras para salvar uma bola porque ele é pirralho e tem cocô na cabeça.

O jogo desse ano, no entanto, teve mais de palhaçada do que nas últimas vezes. Ninguém sequer fingiu defender, a maioria dos jogadores evitou até mesmo ficar próximos uns dos outros, como se tentar impedir uma cesta fosse muito indelicado. É claro que isso diz algo sobre o clima de festa, mas diz também sobre os jogadores envolvidos e sobre os dois convidados para as equipes técnicas, Amar'e e Carmelo. Defender não é a praia de nenhum dos novatos (Blake Griffin tem seus odiadores porque não defende lá essas coisas, o DeMarcus Cousins aproveitou que finamente tinha a bola em mãos e ficou só no ataque), e dentre os segundo-anistas os únicos acostumados a defender, como James Harden e DeJuan Blair, ficaram fascinados demais com a rara liberdade ofensiva (o Harden só vê o Durant atacar, o Blair tem que obedecer ao chato do Popovich). Com isso tivemos o maior placar da história do confronto, 148 a 140 para os novatos, e um ambiente perfeito para que o John Wall pudesse quebrar o recorde de assistências com 22. Seu estilo casa tão bem com esse clima de jogo que acabou levando o prêmio de MVP fácil, basicamente porque o Wizards também é um desses times que arremessa sem critério e finge que nunca ouviu falar em defesa.

O jogador que mais ameaçou o MVP do John Wall foi o DeMarcus Cousins. Por jogar num Kings que fede horrores, quase ninguém acompanhou o novato jogar e só ouviu falar das dores de cabeça que ele dá por não ter muita cabeça e ter reclamado recentemente por não receber a bola. Bem, ontem ele recebeu a bola do John Wall o tempo inteiro e não precisou passar para ninguém, nunca. O resultado foram 33 pontos, 15 rebotes, e a primeira enterrada fodona da noite:



Ele é bom, atlético, jogou um absurdo, mas quem colocou o show pra funcionar foi mesmo o John Wall. Blake Griffin, que teve uma noite discreta sendo bastante poupado porque vai jogar o All-Star Game (ou então os técnicos pensaram que ele já iria brilhar no domingo então era hora de dar espaço para os outros), teve seu grande momento justamente num passe surreal do John Wall. Não dizem que com o Griffin basta você tacar a bola pra cima que ele enterra? Bem, e se ao invés disso você tacar a bola PARA BAIXO?



O John Wall também teve um passe bacana usando a tabela para o Wesley Johnson (que jogou muito, basicamente em arremessos), mas o jogo já tinha acabado. Vamos usar nossa mentalidade futebolística e considerar que o jogo ainda estava nos acréscimos:



E o jogo teve mais John Wall, e não só nas assistências. Dessa vez o homem que mais enterrou, DeMarcus Cousins, é quem deu o passe para o João Parede enterrar:



Já pelos segundo-anistas, o destaque foi mesmo o DeJuan Blair por dois motivos: o primeiro é que ele deveria ter sido o MVP desse jogo no ano passado mas roubaram o prêmio dele. E o segundo é que ele joga no Spurs, então só sabe jogar sério. Quando tava todo mundo correndo de um lado para o outro, ele estava trombando com os adversários no garrafão. Quando todo mundo queria enterrar, ele passava pela defesa para bandejas comuns. O que importa é converter a cesta e sair com a vitória, né? Se você prestar atenção, no lance mais brincalhão do DeJuan Blair, em que ele jogou a bola na tabela para ele mesmo enterrar (e olha que ele nem tem joelhos, os dois já foram doados para ajudar nas enchentes do Rio), você verá um Gregg Popovich em miniatura sentado no ombro dele lhe dando um puxão de orelha:



Se você não viu o Popovich é porque você não é puro de coração, só isso. Por isso o DeJuan corria atrás dos outros jogadores na defesa, enquanto todos os contra-ataques do jogo tinham 3 jogadores atacando e nenhum defendendo. Tudo bem, tudo bem, ao menos esses contra-ataques ridículos permitiram uma enterrada genial do James Harden e de sua barba (os pontos são divididos meio a meio) que fizeram o Carmelo soltar uma cara de "alguém peidou e não fui eu" (ah, que delícia falar do Carmelo e não ter que citar boatos de troca, morram de inveja, outros sites de NBA!). Vale lembrar também que a outra enterrada legal do Harden ontem também foi livre, mas com 5 defensores parados olhando para a barba dele:



Só no final do jogo é que, com o placar empatado, as equipes começaram a se esforçar um pouco e tentar vencer, mas aí os novatos abriram vantagem rapidinho com um pouco de defesa e já era. Ao menos agora todo mundo conhece a cara de alguns novatos, sabemos que o Serge Ibaka não deveria estar no campeonato de enterradas (ele errou uma enterrada ridícula e converteu seus arremessos de três, acho que errou de evento), que a barba do James Harden deveria ir no lugar do Ibaka, que jogador do Spurs não sabe brincar e que John Wall, DeMarcus Cousins e Wesley Johnson chutam traseiros mesmo estando em dois dos piores times da NBA. Dá até vontade de que volte a temporada regular logo pra ver Kings, Wizards e Wolves com mais carinho, não dá? O maravilhoso mundo B da NBA, patrocinado pelo League Pass.

Mas antes disso, vamos acompanhar os eventos do sábado: torneio de habilidades, de arremesso de três pontos e de enterradas. Começa hoje, às 23h, e vamos cobrir tudinho no Twitter, com direito a gincana virtual para ganhar uns brindes. "Gincana virtual", você se pergunta. É. Gincana. Virtual. Quem aparecer, verá.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Saco de pancada

Princípio de bagunça entre Lakers e Clippers. Destaque para o juíz 
segurando o Artest pela camisa, esse não tem medo da morte

Um dos jogos mais divertidos que assisti nos últimos tempos não foi entre Lakers e Celtics, ou entre Heat e Thunder, mas sim entre Cavs e Nets, as duas piores equipes do Leste se degladiando para manter o último fio de auto-estima. Foi um jogo disputado, brigado, sofrido - e medonho, nível "Playboy da Mara Maravilha", capaz de traumatizar pelo resto da vida. Os dois times são uma porcaria, parecia futebol feminino em aula de educação física quando todo mundo corre pra cima da bola e o lance de mais efeito é a bolada na orelha da criança que estava passando na lateral da quadra segurando um copo de refrigerante. Depois de um par de horas vendo Nets e Cavs jogar, mudar para um jogo "normal" foi como se eu passasse a ver seres sobre-humanos capazes de voar, com super-velocidade e super-força. Foi como tirar um sapato muito apertado depois de um dia inteiro de pé no trabalho, uma deliciosa surpresa ao descobrir como o basquete podia ser um esporte bonito e elegante - sem Nets e Cavs em quadra, claro. Foi tão proveitoso ver dois times tão ruins jogando que cheguei a propor no twitter um playoff ao avesso com os 4 piores times de cada conferência, em que o último colocado seria obrigado a sentar no canto usando um chapéu de burro.

A cara do Antawn Jamison, acostumado com dias melhores, conforme ia percebendo que não seria capaz sequer de vencer o Nets, foi impagável. Era o olhar de um homem deseseperado tentando encontrar rotas de fuga, uma janela mais próxima, um emprego de atendente de telemarketing, uma brecha judicial que lhe permitisse anular a troca que o tirou do Wizards na temporada passada. Enquanto isso o resto do Cavs era um bando de homens sem alma, vagando rumo ao vestiário pensando em quais legumes comprariam na quitanda na manhã seguinte e quantos anões daria para contrabandear dentro do cabelo do Varejão. Aliás, alguém verifique a legitimidade da lesão do Varejão, porque na situação dele seria muito justificável um "vou ali comprar cigarro e já volto" versão lesões da NBA, tipo o Shaquille O'Neal quando não queria mais jogar no Heat.

A lista de coisas necessárias para tirar um time dessa situação de saco de pancadas na NBA é imensa. Exige esforço dos engravatados para contratações, para boas escolhas de draft e para uma boa saúde financeira na equipe; exige esforço da equipe técnica para continuar desenvolvendo os jogadores e criar planos de jogo sérios que busquem sempre ser competitivos mesmo frente ao desastre; e exige um elenco que acredite ser capaz de sair das últimas colocações. Equipes que fedem precisam de políticas claras para o futuro. Não adianta ficar tentando remendar a equipe, tapar buracos, tentar escapar imediatamente. Tudo começa com uma reconstrução, uma renovação, se livrar dos contratos ruins, criar flexibilidade salarial. Depois, a equipe técnica precisa dar minutos para quem está nos planos da equipe, quem é essencial para o futuro, não pode se desesperar e botar pirralhos burros para mofar no banco só porque vão perder ainda mais feio sem um veterano qualquer que vai estar com reumatismo daqui alguns meses. Mas não vamos nos focar na parte admnistrativa ou técnica de reconstruções, não estou com vontade de falar mal do Detroit Pistons hoje. Vamos falar de outra coisa essencial para tirar os times da merda: os próprios jogadores. Pra isso, vamos analisar dois casos distintos hoje, mas que possuem algo em comum: o Clippers e o Thunder.

Caso 1: Los Angeles Clippers

O Clippers fingia ter alguma esperança de sucesso na temporada passada até que o Blake Griffin se contundiu ainda nas Summer Leagues e não chegou a jogar uma partida sequer da tempora regular na NBA. Pronto, temporada jogada na privada, o time parecia um circo, o Al Thornton foi banido da equipe, o Chris Kaman se contundiu duzentas vezes, e o Baron Davis gordo e desmotivado só queria encher os bolsos de grana e nunca mais ter que entrar em quadra. Mesmo com a volta do Griffin nessa temporada, o clima no Clippers era de fracasso total, o time parecia mais elenco de Big Brother do que equipe de basquete, e o começo da temporada refletiu isso: foram 5 vitórias e 21 derrotas.

O que foi necessário para que o Clippers alcançasse o atual recorde de 18 vitórias e 28 derrotas (13 vitórias e 7 derrotas desde o início mequetrefe)? Como o Denis destacou em seu texto sobre o time, Blake Griffin e Eric Gordon são espetaculares, lindos e maravilhosos, evoluem mais rápido do que Pokémon e estão jogando um absurdo. Mas já estavam jogando bem durante o começo desastroso da equipe. A real transformação foi na união e na postura da equipe com a presença de Blake Griffin em quadra.

Griffin tem um gigantesco arsenal de giros, infiltrações, ganchos e arremessos de média-distância usando a tabela, mas seu jogo é predominantemente físico, todo jogo ele pula por cima de alguém, dá uma enterrada de empolgar até a sua mãe aí, e sempre - é de lei - erra uma enterrada que seria completamente histórica se entrasse. Se não bastassem as enterradas fantásticas que ele dá, juro que vale a pena ver um jogo apenas para ver as enterradas que ele não dá, as que ele erra por pouquinho ou sofre falta no processo. E, como sabemos, enterradas não são apenas um modo de fazer cestas bem perto do aro, no imaginário americano as enterradas lidam com agressividade e humilhação do adversário. É a cesta que é feita não porque você é mais habilidoso, mas porque é mais forte, pula mais alto e tem o pênis maior, é a cesta que você impõe na base do muque, e se a enterrada é em cima de alguém, é a cesta que submete o adversário ao seu poder, é a cesta que humilha, que retira toda a honra, que desmoraliza o adversário.

Quando o Blake Griffin enterra o tempo todo em cima de adversários, ele deixa de ser apenas um novato qualquer num time horrível e sem chances de vitória e passa a ser aquele cara ousado que, mesmo sem chances de vencer, veio "aqui na minha casa e me humilhou, me fez passar vergonha". O Clippers fede, quem se importa com eles, mas os vídeos se espalham pelo YouTube e a questão da honra e do ego é central nas quadras de basquete americanas. Antes de Yao Ming ir para a NBA, por exemplo, enterradas não aconteciam na China por serem um desrespeito ao adversário. Quando Griffin enterra em alguém, não importa se o Clippers está perdendo por 50 pontos, o adversário se abala e quer vingança. Por isso, não demorou muito para que quase todas as partidas com o Clippers tivessem algum incidente em que algum mané aleatório tentasse peitar o Griffin, encher ele de porrada, ou simplesmente cometesse faltas mais feias para provar que "ele não vai enterrar assim tão fácil". O Griffin tem jeitão briguento e cara de maloca (e cabelo vermelho, o que lhe caracteriza como um cosplay do Kuwabara, do Yu-Yu Hakushô, algo que um leitor nos avisou em nosso formspring), mas nem ele pode resistir a constantes punições físicas e confrontos em todos os jogos. Até que o Clippers resolveu fazer uma reunião a portas fechadas e decidiu que todo o elenco precisava proteger o Griffin antes que ele amanhecesse com a boca cheia de formigas. Tudo bem que o time fosse uma merda, mas se eles tinham um jogador tão bom apanhando e sendo constantemente ameaçado em quadra, o mínimo que eles poderiam fazer seria protegê-lo, cercá-lo quando ele fosse derrubado no chão, partindo pra cima de quem lhe fizer uma falta mais grave, pressionando os juízes em marcações contrárias a ele.

O resultado dessa união para proteger Griffin de apanhar dos coleguinhas se converteu em vitórias dentro da quadra, no maior estilo "Os nerds contra-atacam". Criou união no grupo, orgulho, vontade de enfrentar os adversários, gente pulando no pescoço do Lamar Odom porque ele deu um empurrão no Griffin após uma jogada mais competitiva no final do jogo. E aí o Clippers passou a ser um time que faz jogadas mais competitivas no final do jogo porque sabe que o resto do elenco estará lá para proteger, apoiar e descer o sarrafo se der pancadaria. Baron Davis admitiu que foi isso que motivou o grupo, defender Blake Griffin dos seus agressores, e olha que o Baron Davis não se motiva por nada nesse mundo. O Clippers depende imensamente do talento do Baron Davis, pena que ele não seja lá muito interessado nesse tal de basquete. Mas agora é.

Nada une tanto um grupo quanto hostilidade do mundo exterior. Já comentei aqui que o momento que finalmente transformou o atual Miami Heat em um time foi a primeira partida dessa temporada em Cleveland, em que todo o elenco teve que estufar o peito e defender LeBron de uma quantidade absurda de hostilidade irracional. Desde então, o time está transformado. Isso me lembra uma vez que fui escrever um texto sobre o movimento "emo" em seu começo no Brasil, entrevistei um monte de gente, e eles não tinham nada em comum - ideologia, gosto musical, opiniões sobre a vida, choradeira, nada - a não ser a hostilidade que recebiam pelo modo com que se vestiam. Durante as entrevistas um monte de gente passava e xingava os emos só por esporte, e a maioria - que nem se considerava emo, no fim das contas - acabava abraçando a identidade do grupo apenas para se defender desse tipo de coisa.

Alguns jogadores são fodões mas são calados, moderados, até bobões, às vezes. A reação do elenco para proteger esses jogadores é diferente, o Houston se uniu para defender o Yao Ming de ser tão hostilizado por ser um banana, mas o Kings não estufou o peito para fazer nada com o castigo físico sofrido pelo Tyreke Evans porque ele tem a cara eterna de "nada" que é característica do Duncan e não responde com agressividade a coisa alguma. No caso de jogadores agressivos, físicos, a resposta dos companheiros tende a ser mais passional, mais agressiva. Jogadores assim podem incendiar equipes, motivar caras como o Baron Davis, e retirar repentinamente a postura derrotista de uma equipe acostumada a ser saco de pancada. Às vezes, jogadores espetaculares com personalidades diferentes acabam sendo menos efetivos na tentativa de transformar uma franquia justamente por isso. Caras como Blake Griffin e sua capacidade de retirar a honra dos adversários e apanhar por isso são perfeitos para unir equipes rapidamente.

Caso 2: Oklahoma City Thunder

O Thunder era um time novo demais, recheado de jogadores jovens e com potencial. Mas Durant, Jeff Green e Russell Westbrook são bons moços, daqueles que a garota tem orgulho de levar pra casa e mostrar pra mãe. Nenhum deles é famoso por enterrar na cabeça de ninguém, pular até a lua, arrancar o coração de um defensor e beber seu sangue em um cálice de cristal. A melhora do Thunder não foi graças à união do grupo, à tentativa de defender Durant dos violentos jogadores adversários, à motivação de estar jogando ao lado de um jogador passional e agressivo. Durant e Westbrook simplesmente ficaram muito bons.

Esse, aliás, é o motivo de que mesmo vencendo jogos e com o Durant liderando a NBA em pontos temporada passada, ainda assim ninguém levava o Thunder muito a sério. Nunca foram um grupo coeso, unido, agressivo ou orgulhoso, daqueles que bate no peito e berra "não perderemos aqui hoje, não na minha casa!". As vitórias de Durant e seus amigos sempre foram recebidas com a estranheza de quem acha que deveria feder mas não fede, aquela surpresa estranha que se aceita rápido antes que percebam que você não merecia. Esse grupo de jogadores só se tornou realmente perigoso quando, após alguns jogos de sorte e atuações friamente espetaculares, começou a perceber que dava para vencer o Lakers em pleno playoff da NBA.

Essa é minha teoria para uma questão que me intriga e está levando vários analistas da NBA à loucura: por que diabos o Thunder quase venceu o Lakers graças a uma defesa por zona fantástica e sufocante nos playoffs e agora tem uma defesa furada - aliás, a defesa que mais involuiu numericamente da temporada passada para cá? Provavelmente aquela defesa não era fruto de treino, tática apurada e união dentro de quadra, era fruto da paixão e desespero de um time que nunca acreditou que poderia ganhar nada e de repente estava diante do Lakers sonhando com a chance de derrotá-lo nos playoffs. Depois daquilo, com a consciência plena de que eles são um dos melhores times do Oeste, não era mais possível tamanha intensidade defensiva, tamanho desespero. Eles sabem que Durant e Westbrook são dois dos melhores jogadores da NBA, podem vencer jogos sozinhos, e pelo jeito isso basta.

Com o Clippers, o time inteiro foi transformado pela intensidade de Blake Griffin e o time responde com igual intensidade para protegê-lo. Com o Thunder, a melhora de dois jogadores levou o time a patamares inesperados, mas a união só veio na compreensão de que poderiam vencer mesmo os maiores times. Entretanto, sem a intensidade de alguém com sangue nos olhos cansado de ser saco de pancada, uma das mais impressionantes defesas da NBA já esmoreceu rapidinho.

É evidente que a melhora de qualquer equipe saco de pancada da NBA está em grande parte nas mãos dos próprios jogadores e da evolução de cada um deles, mas prestamos pouca atenção no papel que a postura ou a personalidade dos jogadores tem nisso. O Thunder, como sabemos, precisa de um bom pivô, mas não tanto quanto precisa de um jogador defensivo apaixonado, vocal e intenso do tipo que exige esforço dos próprios companheiros. É esse tipo de qualidade que Kevin Garnett traz para suas equipes, a certeza de que nenhuma derrota virá sem intensidade, cobrança e esforço mesmo se o time for uma droga como foram muitos dos elencos que o Garnett teve no Wolves. É esse tipo de qualidade que Griffin traz para o Clippers além de seus giros, trabalho de pernas e enterradas, é isso que motiva até um carinha "bleh" como o Baron Davis. É disso que o Thunder precisa, mas seu caminho de evolução foi para outro lado, silencioso, comedido - e muito talentoso. O meu único medo é que o projeto do Thunder acabe seguindo o caminho do Blazers, que sem nada para unír seus jogadores jovens e talentosos além da simples surpresa de estarem vencendo quando não deveriam, ameaça desmoronar o tempo todo. Mas o Blazers é assunto para outro post, claro.