domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mente sobre a matéria

"Papai do céu, não me permita perder do Nets, amém."


Às vezes um time não tem os jogadores mais talentosos. Muitas vezes falta força física, ar nos pulmões, pernas jovens para correr de um lado para o outro da quadra, velocidade, e até coisas menos importantes, tipo saber jogar basquete. Mas um número enorme de partidas é decidido apenas com aquela coisa oval e esquisita que fica acima do pescoço e de que a Carla Perez nunca ouviu falar: a cabeça.

O Dallas Mavericks pode não ser um time perfeito, e eu vou continuar incrédulo e achando que eles não tem chances reais de ganhar um título, mas pelo menos eles podem se gabar de ser um time inteligente. Umas semanas atrás, escrevi um post sobre como a troca pelo Jason Kidd passava a fazer sentido graças ao técnico Rick Carlisle, que decidiu usar melhor o armador do que acontecia no antigo esquema tático, em que Kidd apenas passava a bola para o lado iniciando jogadas de isolação de Nowitzki e Josh Howard. O Devin Harris é um jogador fenomenal, tem uma velocidade absurda e pune times que não conseguem marcar armadores que infiltram sem parar, mas ele não é nenhum gênio da física moderna. Seus passes são descabidos e seu jogo é muitas vezes afoito, o oposto perfeito de Jason Kidd, uma mente de cientista maluco num corpo castigado pela idade.

Antes o Mavericks tinha problemas de defesa, já que apenas Shawn Marion é um defensor considerável no elenco, todos os outros fedem nesse quesito, e o Marion acaba prejudicando o ataque porque o Mavs gosta de jogar no contra-ataque mas atrás da linha de três pontos, onde seu aproveito vem sendo pífeo. Por isso, a troca com o Wizards foi tão importante: trouxe defesa, arremessadores de três pontos e versatilidade ao time. As novas aquisições teriam seu primeiro teste de verdade contra o Lakers, mas aí o Caron Butler teve uma reação alérgica a um medicamento e não conseguiu jogar. Todo mundo pergunta se o Mavs tem chances de título, mas no papel simplesmente faltam as armas necessárias: Kidd está velho, corre pouco e marca mal; sem Butler o titular foi DeShawn Stevenson, que caiu de qualidade rapidamente no Wizards e não acerta mais seus arremessos; Shawn Marion tem problemas até hoje para se adaptar à vida sem Steve Nash; Eric Dampier nunca mais jogou bem desde que assinou seu contrato milionário, é lento, pesado e parece que está jogando debaixo d'água quando tenta defender; Nowitzki é criticado pela sua defesa, por não atacar a cesta e por ser incomodado por defensores mais baixos e mais fortes do que ele. Como o Mavs pode parar Kobe, como impedir que Bynum e Gasol destruam no garrafão, como acompanhar a velocidade e a versatilidade do Odom, e quem do banco pode ajudar a equipe que não sejam simples arremessadores?

É nessas horas que a mente vence. O Mavs é um time experiente, focado, perfeitamente dentro de um esquema tático que finalmente envolve todos os jogadores sem ser previsível, e que coloca poder de decisão e controle do ritmo de jogo nas mãos do Kidd. Por isso, é um time com menos jogadas de isolação sem, no entanto, ter que aumentar desnecessariamente a velocidade da partida. É um time controlado, vivido, com experiência nos playoffs, e que de repente após as trocas começou a acreditar que pode ganhar um título. Não é aquela merda de "O Segredo", em que você acredita e o troço acontece, mas saber que você pode ganhar faz com que o time lute até o fim pela vitória. Se a vitória deveria estar vindo, perder é um absurdo que deve ser combatido, enquanto se a derrota é esperada, ter o traseiro chutado é comum e não provoca reações. O Mavs achou que deveria vencer o Lakers e venceu, com DeShawn Stevenson marcando bem o Kobe, Kidd tomando todas as decisões certas e Nowitzki simplesmente destruindo a partida. Lembra quando ele era previsível e só arremessava de longe? Passado. O Kidd soube quando acionar o alemão, que foi marcado por quase todo mundo do Lakers (Odom, Kobe, Gasol, Artest) e tinha uma surpresa guardada para cada um: terminou o jogo com 31 pontos, atacou a cesta, e cobrou 11 lances livres.

Na partida seguinte, contra o Hawks, o Mavs chegou a estar perdendo por 15 pontos no quarto período. Mas o time agora acredita que pode vencer, que deve vencer, e os jogadores são experientes e inteligentes. Jason Kidd pegou a bola nas mãos e assumiu o jogo: foram bolas de três, passes precisos, faltas cavadas, roubos de bola, rebotes ofensivos e uma mudança total da cara do jogo. E tudo isso com aquela corridinha migué que ele dá agora, sem nunca colocar a língua pra fora. Perdendo por 2 pontos a 1:30 do fim, o Jason Kidd mostrou que não é preciso ser atlético como o Josh Smith - que jogou um absurdo e fez a cesta que levou o jogo para a prorrogação - para conseguir uma cesta, nem ter o arremesso do Kobe Bryant para pontuar - o Jason Kidd ainda é chamado de "Ason Kidd" por não ter o "j" de "jumper", ou arremesso. Basta ser inteligente: vendo Mike Woodson, técnico do Hawks, dentro da quadra dando ordens à equipe (algo que todo técnico faz o tempo inteiro, nem adianta culpar o coitado), Kidd correu em sua direção, forçou um contato intencional mas moderado, e aí fingiu ter sido brutalmente atrapalhado. Foi o bastante para qualquer árbitro do planeta ser obrigado a marcar uma falta técnica no Woodson - que o Nowitzki cobrou numa boa e, claro, acertou. O engraçado foi ver vários jogadores do Hawks (e um assistente técnico) correndo para cima do Kidd, provavelmente para lhe dar uma surra, enquanto o Kidd mantinha um sorriso que escapava da cara séria que tentava manter, repetindo sem parar "Foi a coisa certa a se apitar".


Dá pra ler os lábios dele no vídeo acima reiterando como a arbitragem foi correta, e ele tem razão. A arbitragem foi inevitável, não dava pra fingir que ele não foi tocado pelo técnico (por mais que o Mike Woodson tenha tentado sair da frente, mas é que esses técnicos são velhos e fora de forma), e não tem nada mais inteligente em quadra do que tornar as coisas inevitáveis: das marcações dos árbitros aos passes precisos. A opção do Kidd pode não ter sido a mais correta do planeta, mas a arbitragem foi, o lance livre foi, a partida do Kidd foi. Foram 19 pontos, 16 rebotes e 17 assistências para o armador - nada forçado, tudo simples e inevitável. Fiquei pensando em como Devin Harris ficaria batendo para dentro do garrafão jogada após jogada, tentando cavar faltas, para diminuir uma diferença de 15 pontos no último período, e que talvez até desse certo, mas Kidd fez isso como apenas os mais experientes e inteligentes podem fazer. E foi parar nas nossas memórias e no YouTube com uma jogada genial e inesperada, digna de quem devora o livrinho de regras do basquete enquanto faz cocô todas as manhãs. O Devin Harris se tacando pra dentro do garrafão teria, inclusive, tirado o ritmo do Nowitzki, coisa que o Kidd consegue manter mesmo quando dá seu showzinho particular. Foram 37 pontos para o alemão, ele engoliu sozinho o Hawks na prorrogação, mas é a calma do Kidd que permitiu tudo isso. Dá pra ver nos olhares que o time do Mavs troca durante a partida que todos eles sabem que são experientes, confiam uns nos outros, apanharam na carreira, e que agora é a hora de vencer. Uma mentalidade capaz de levar um time ainda limitado rumo a um anel de campeão.

O contrário está acontecendo com o Celtics. Na primeira vez em que eles enfrentaram o Cavs após as trocas que levaram Jamison para Cleveland, parecia que estavam preparados para a derrota. No quarto período, Mo Williams acertou duas bolas de três seguidas, o Ray Allen errou feio uma bola marcado por um LeBron furioso, e no contra-ataque James deu um passe para a terceira bola de três em sequência de Mo Will. Naquele instante o Celtics simplesmente desistiu de um jogo que, até então, parecia disputado. Dois anos atrás o Garnett teria arrancado o braço do LeBron, palitado os dentes com os seus ossinhos, e babado sangue gritando com cada companheiro porque não deram a vida para tentar reverter o resultado. Agora, Garnett parece cansado, exaurido, comedido, triste, e o time faz apenas o essencial. Ainda jogam muito, defendem bem, tem um dos elencos mais talentosos da NBA, mas falta cabeça, intensidade, a mentalidade de quem sabe que vai vencer. Parece reinar na equipe o medo de perder - afinal, Ray Allen, Garnett e Pierce (atualmente contundido) estão ficando velhos, lesionados, e seus contratos, prestes a terminar, podem desmanchar a equipe - além de um desinteresse por se doar ao jogo que só acontece em vestiários problemáticos. Pra mim parece óbvio que Garnett foi criticado demais por ser muito exigente com os companheiros (provavelmente criticado até dentro da equipe) e agora não é mais tão vocal, além de ter voltado de contusão mais frustrado com seu próprio jogo e desanimado com os rumos que a equipe toma sem ele. A simples presença de Rasheed Wallace no Celtics tem também um peso enorme nesse desânimo: ele é um jogador espetacular, poderia ser uma estrela, mas joga como se não desse a mínima, não se esforça no Celtics, não consegue dar o suor que só aparecia quando jogava "pela sua família" (ou seja, o Pistons), e o resto do elenco parece não se conformar. Ele toma frias terríveis quando erra seus insistentes arremessos de três, olhares furiosos quando faz cagadas na defesa, e parece não aceitar as críticas que recebe dos companheiros. É um clima de bunda, uma mentalidade de quem agora acha que perder é normal quando antes uma derrota qualquer - mesmo para os melhores times da NBA - era inconcebível.

Por isso foi tão engraçado ver como o Celtics, que agora acha perder uma possibilidade, encarou o Nets, que agora acha vencer uma possibilidade. Já que por algum motivo bizarro que nem os melhores psicólogos do mundo poderiam explicar eu assisti uma caralhada de jogos do Nets nessa temporada (possível traço de masoquismo?), sempre insisti que eles não tem um time tão ruim a ponto de terminarem a temporada com a pior campanha de todos os tempos. Pelo contrário, o time é bom o bastante para um bom punhado de vitórias, deveria estar quebrando um belo de um galho contra os times mais-ou-menos da NBA. Mas é que com as trocentas contusões que assolaram o time no começo da temporada, a pirralhada do Nets sem confiança, sem cabeça e sem experiência começou a achar que tinha tudo ido pra merda. Todos os jogos já estavam perdidos antes de começar, não havia qualquer esperança, a vida era horrível e o melhor era sentar num canto e ouvir NX Zero. Com o tempo, uma melhora aqui, uma melhora ali, um bom psicólogo acolá, o Nets foi começando a achar que poderia vencer, talvez um dia quem sabe. Estão melhores a cada jogo, evoluindo aos poucos, mais confiantes. Jogaram uma partida impecável contra o Celtics, achando que dava pra ganhar, e quer saber? Ganharam.

O Celtics de antes nunca permitiria essa derrota, Garnett degolaria os juízes responsáveis pelo placar e mudaria o resultado na unha se fosse preciso. Mas não, jogou silenciosamente (e bem!) e assistiu a seu time apático que jogou como sempre, como se fosse qualquer outro jogo, contra qualquer outro adversário, e como se eles não estivessem perdendo para a pior campanha da NBA. Ficaram arremessando de longe, sem se aproximar do garrafão (a fobia de garrafão do Rasheed se alastra pela equipe), enquanto o Nets batia para dentro em toda posse de bola. O Nets cobrou 41 lances livres, o Celtics cobrou 11. Nisso o jogo já estava perdido, mesmo se as bolas de longe do time verde tivessem caído. Mas não caíram, e aí está: um time vencido por sua mentalidade, enquanto o Nets passa a vencer por ter uma mentalidade correta. A cachola acima do pescoço tornando possível superar a falta de talento. É por isso que o Jason Kidd vai estar paraplégico, preso numa cama de hospital, e ainda vai dominar a NBA com sua telecinese paranormal. O Celtics não tem chances de título nessa situação, e agora eu tenho medo do Mavs. Podem não ganhar um anel, mas pelo menos sabem resolver alguns sudokus - e isso, na NBA, já é muito raro.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O novo novo LeBron James

Thabo Sefolosha arruma o pinto dentro da cueca enquanto
Kevin Durant olha para câmera com cara de fodão


Acho que não importa o quanto a gente fale que não gostamos de comparar, que achamos idiota demais pensar que fulano é o novo cicrano, sempre vai ter gente com essa ânsia de comparar e, pior, perguntam pra gente o que achamos disso. Queria que entendessem que essas comparações, junto com as previsões futurísticas sem base alguma e aqueles que querem ser polêmicos apenas pelo prazer de ser polêmico, são as bases que fazem do jornalismo esportivo a área mais patética do jornalismo no Brasil. Não que façamos exatamente jornalismo nesse blog, mas não queremos contribuir para que a área de esportes no Brasil continue sendo tão ruim.

Digo isso porque recebemos várias perguntas no nosso Both Teams Played Hard sobre se o Kevin Durant poderá um dia ser melhor que o LeBron James, outras perguntando se ele já não é melhor que o LeBron e outras, as mais chatas, querendo saber se o Durant é o novo LeBron. Também recebemos mil perguntas querendo saber como se faz ponte aérea no NBA 2k10, mas isso não merece um post, merece um tapa na cara.

Essas perguntas mostram como as pessoas que gostam de esporte estão viciadas em medir o talento de atletas e o fazem sempre via comparação, mas vamos ver o lado bom, também mostra como todo mundo está impressionado com as atuações e números do Kevin Durant. E nisso elas estão certas, o garoto tem jogado demais nessa temporada! Com apenas 22 anos, idade para estar no último ano da faculdade, o Durant é o cestinha da NBA e acabou de fazer algo que nem LeBron, nem Kobe e nem qualquer outro ser humano não chamado Michael Jordan já conseguiu: marcar pelo menos 25 pontos em 29 jogos seguidos. E detalhe, ele marcou mais de 30 em 23 desses jogos.

O Jordan marcou mais de 25 pontos em 40 jogos seguidos, um número insano. E pior, fez isso duas vezes: uma entre os anos de 86 e 87 e outra vez em 88. O segundo colocado era Iverson, com 27 partidas seguidas, posição agora ocupada pelo pivetinho magrelo de 22 anos.

A gente já conhecia o perfil de pontuador do Durant desde que ele chegou na NBA, o que impressionou nesse recorde é que jogadores da idade dele não costumam ser regulares, é mais comum eles terem médias de 20 pontos por fazer 30 num dia e 10 no outro. Outra coisa que impressionou também foi como ele fez os pontos, apenas pouco mais de 20 arremessos por jogo e 11 lances livres por partida. Atacou a cesta como um veterano e não ficou jogando arremessos para o alto apenas em busca do recorde. Realmente impressionante! Somando essas atuações, a briga para ser cestinha do ano e a boa campanha do Thunder (atualmente 6º no Oeste), não serão poucos os votos para o Durant na eleição do MVP da temporada.

A sequência de mais de 25 pontos acabou nessa semana, contra o Spurs. Não que o San Antonio tenha voltado a ser a potência defensiva que já foi um dia, mas pelo menos por um quarto foi. O Durant já tinha 21 pontos ao fim do terceiro período, mas acabou o jogo com os mesmos 21. Errou tudo no último quarto, até uma enterrada, que foi bloqueada pelo Manu Ginobili.


Eu não lembro de outro toco tão espetacular nessa temporada. E se teve, foi em um momento tão decisivo de um jogo como esse? Esse argentino safado é bom até quando já está velho e careca! (pausa: vejam o Ginobili novinho ao lado de Scola e Oberto, hilário). Se o Durant acerta a enterrada ele vira o jogo para o Thunder a 2 minutos do fim. Foi curiosa a declaração do Manu depois do jogo, disse que achou que era bem mais provável que tomasse uma enterrada na cara, mas que subiu para tentar o toco porque não podia deixar uma cesta fácil naquela hora do jogo. Um pensamento muito Spurs, muita estrelinha por aí não gosta do risco de tomar enterrada na fuça.

O Durant costuma crescer no fim das partidas. Com o garrafão sempre brigado e congestionado no fim dos jogos ele prefere confiar nos seus arremessos de longa distância quando o jogo está em seus momentos finais, atitude que tem dado certo. Mas é bastante curioso que ao contrário de outras grandes estrelas ele não exige a bola na sua mão o tempo todo nos momentos decisivos, ao invés disso o Thunder faz o que faz durante o resto do jogo, deixa a bola na mão do Russell Westbrook e o Durant se movimenta para só depois concluir a jogada. Viva o basquete que vai além do esquema Fresh Prince of Bel-Air.

E agora vamos agradar um pouco o povo. Não, nada de mais promoções, vamos abrir uma exceção e comparar um pouquinho. Nada de dizer quem é melhor ou pior, nenhum zumbi comeu meu cérebro ainda, apenas para as pessoas pararem de falar tanta bobagem. Se é pra comparar, que comparem com as pessoas certas!

Não chamei o Durant de magrelo, lá no começo do texto, á toa. É a primeira coisa que ele tem de completamente diferente do LeBron. Uma dos grandes trunfos do LeBron em relação a seus adversários é sua óbvia vantagem física, o ala do Cavs é mais alto, mais forte e mais rápido (e mais bonito) que quase todo mundo em sua posição. Já o Durant ainda hoje sofre por ser leve demais, não tanto quanto nos seus primeiros dois anos de NBA, mas ainda apanha um bocado e tem dificuldades em defender, coisa que o LeBron também não tem.

Uma diferença a favor de Durant, porém, é sua altura. Com 2,06m ele é três centímetros mais alto que o LeBron e o seus braços longos, que fazem o Tayshaun Prince até sentir um pouco de ciúme, fazem com que o Durant arremesse por cima de qualquer um. O LeBron, ao contrário, nem arremessa tanto assim, muito menos com marcação. Com o marcador perto dele o LeBron prefere usar a infiltração, deixando os arremessos para quando tem mais espaço.

Não dá pra esquecer também que o LeBron joga quase como armador, exigindo sempre a bola em sua mão, armando jogadas e decidindo que rumo o time deve tomar a cada posse de bola. No Thunder, como já disse, essa função é do Russell Westbrook, a mais nova máquina de triple-doubles da NBA. O Durant tem a função básica e até um pouquinho importante de se movimentar para marcar boa parte dos pontos da equipe.

Então o Durant é o novo LeBron? Hum... considerando que eles não tem funções iguais nos times, tem característica de jogo bem diferentes e não tem nada a ver fisicamente, acho que a única coisa que eles tem em comum são o fato de serem jogadores de basquete americanos. Coisa que é bem comum na NBA, diga-se de passagem.

Se você quer comparar o Kevin Durant com alguém acho que a sua melhor opção é o Tracy McGrady. Não esse cara que está no Knicks e tem mais problemas físicos que a Alinne Moraes na novela, mas aquele que liderou a liga em pontos por dois anos seguidos no começo dos anos 2000. Os dois tem o físico bem parecido, magrelos com braços longos, gostam do arremesso reto, sobre a marcação, de longa distância e não tem um jogo muito abrangente, são bons em fazer pontos, não saem por aí dando tocos, roubando bolas e distribuindo assistências. São alas que jogam como alas, não como armador-ala-pivô-técnico-cheerleader-físico-nuclear.

Outro jogador que pode ganhar uma comparação é o Carmelo Anthony. Fisicamente os dois não tem tanto a ver, o Melo é muito mais forte e ataca mais a cesta, mas eles tem em comum a facilidade de marcar pontos. Por estarem sempre cobrando lances livres, acertarem arremessos de qualquer cantinho da quadra, os dois são daquele tipo de jogador que faz você pensar "porra, o fulano tá bem apagado hoje ele só tem... 30 pontos". Cansei de ver jogo do Nuggets achando que estavam envolvendo pouco o Carmelo e de repente ele era o cestinha da partida, e na seleção americana acontece a mesma coisa.

Então da próxima vez que ficarem pagando um pau para o Durant e quiserem encher nosso saco na seção de perguntas, vá lá e pergunte "Kevin Durant é o Tracy McGrady dessa década?" ou "Quem faz pontos de maneira mais fácil, Durant ou Carmelo?". Ainda vamos te achar idiota e daremos um jeito de responder te ofendendo, mas pelo menos estará falando algo que faz mais sentido.

Curiosidade imbecil
Na página do Kevin Durant na Wikipedia tem um aviso dizendo "Não confundir com Kevin Durand". O quase homônimo do Durant é um ator canadense que nasceu, ironicamente, numa cidade chamada Thunder Bay e fez o papel do Blob no filme do Wolverine.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O melhor dos quebra-galhos

Jason Richardson tenta roubar a carteira
do Darren Collison no meio do jogo


Em novembro, exatamente três meses atrás, escrevi um post porque Deron Williams e Chris Paul se contundiram quase ao mesmo tempo - se um pular da ponte, como diriam as mamães do mundo, o outro pula atrás. Dois novatos selecionados em escolhas seguidas de draft, um na vigésima e outro na vigésima primeira (assim como Deron e Chris Paul foram selecionados seguidamente, na terceira e na quarta), assumiram a vaga de titulares e começaram a chutar traseiros. Pelo Jazz, o novato era Eric Maynor, que desde então foi mandado para o Thunder (assim como o Ronnie Brewer acabou de ser mandado para o Grizzlies) apenas para economizar uma grana, e agora lhe cabe ser reserva num time jovem que ainda tem muito a crescer. Mas o outro novato, jogando pelo Hornets, é Darren Collison. Na ausência do Chris Paul provavelmente pelo resto da temporada, se recuperando de uma cirurgia no joelho, Collison está dominando partidas e de repente ficou famoso, com seu nome aparecendo em todas as listas de melhores novatos do ano.

O engraçado é que essa oportunidade só surgiu para o Collison graças à burrice do David West. Numa partida contra o Bulls, a oito segundos do final, o Hornets ganhava por dois pontos e o David West só tinha que cobrar um maldito lateral nas mãos do Chris Paul. Com medo do passe ser interceptado, ele mandou a bola para a putaqueopariu na quadra de defesa, o Paul teve que se atirar parar salvar a bola (que foi parar nas mãos do time do Bulls a tempo deles empatarem a partida, irem para a prorrogação e ganharem o jogo) e o coitado do Chris Paul acabou contundindo o joelho quando se jogou no chão. Ou seja, deu mais errado do que a terceira edição da "Casa dos Artistas" no SBT, e o Darren Collison teve que assumir a armação outra vez. Três meses atrás, quando escrevi o post, era só por tempo limitado, graças a uma torção de tornozelo, mas agora é pra valer.


O Hornets dessa temporada é uma bela de uma porcaria, basicamente porque não existem pontuadores no elenco. Conforme Chris Paul foi ficando mais e mais frustrado no começo da temporada, foi passando a atacar mais a cesta e pontuar por conta própria. Quando o Collison começou a substituí-lo, o grande medo foi perder todo o poder ofensivo, então outros jogadores começaram a se concentrar mais nesse aspecto. O também novato Marcus Thornton passou a ganhar minutos, Peja Stojakovic foi acordado de seu sono na câmara criogênica, e Collison fez um bom trabalho envolvendo todo mundo. O grande lance sobre ele é que, mesmo tendo um arremesso não muito confiável (e de mecânica esquisitinha), sendo magrelo, fracote e mais-ou-menos na defesa, ele sabe perfeitamente bem como liderar um time e tomar as decisões corretas. O ultimo draft foi a melhor leva de armadores de todos os tempos, sem brincadeira, mas acho que o Collison é o mais inteligente em quadra quando se trata de dar os passes certos do modo mais fácil. Além disso, ele pode ser também o armador mais rápido do draft sem deixar com que isso lhe faça jogar na correria. Ele prefere segurar a bola, dar a assistência mais simples, e utiliza sua velocidade apenas quando faz sentido. Ele pode não ser o mais talentoso dessa safra, e eu tendo a achar que ele está pronto demais e não deve melhorar muito o seu jogo (e nem a estrutura física, dizem que ele é naturalmente magrelo), mas é certamente perfeito para jogar no Hornets e isso fica óbvio no seu desempenho.

Alguns estilos realmente fazem a vida dos jogadores. O Jazz do técnico Jerry Sloan é famoso por fazer com que qualquer humano bípede pareça um bom jogador na posição de armador - Brevin Knight, Raul Lopez e até o Raja Bell já chutaram traseiros no sistema de pick-and-rolls da equipe. No Hornets de uns anos para cá, o sistema tático consiste em dar todo o poder do mundo para o armador da equipe, pode até comer a esposa do dono. A bola passa o tempo inteiro nas mãos do Chris Paul, o ritmo do jogo fica em suas mãos, o resto do time só toca na bola quando ele quer, e na defesa cabe ao armador cuidar das linhas de passe na cabeça do garrafão enquanto o resto da defesa afunila o ataque adversário em direção à linha de fundo. É claro que, com tanta responsabilidade e tanto tempo com a bola nas mãos, qualquer armador do Universo (estou falando do espaço sideral, não do time brasuca) vai conseguir bons números. Mas o Darren Collison não é um fruto desse sistema, ele é apenas perfeito para esse sistema. Dê a bola o tempo inteiro para o Aaron Brooks ou o Louis Williams e você terá um pontuador maluco que terá belos números mas perderá todos os jogos. Collison é calmo, não tenta passes impossíveis, cuida bem da bola, sabe o que consegue e o que não consegue fazer em quadra, e é perito em controlar o ritmo da partida. Além disso, é um bom ladrão de bolas - perfeito para um sistema que exige apenas isso de sua defesa.

Nos 20 jogos em que foi titular, Darren tem uma média de 18 pontos, 4 rebotes, 8.4 assistências e 1.5 roubos de bola por jogo. Mas aos poucos, assim como Chris Paul, tem percebido que sua equipe fede muito e tem que pontuar cada vez mais. Nos últimos 10 jogos a média é de quase 22 pontos, assustador para um novato de arremesso mequetrefe. Contra o Houston, jogo que assisti recentemente, Collison engoliu o Houston com azeite e sal simplesmente em penetrações no garrafão, rápido demais para que o Aaron Brooks fosse capaz de marcá-lo. Passa boa parte do tempo dando os passes certos, obrigando o time a se mover, e de repente bate para dentro com uma velocidade surreal. Acabou decidindo o jogo assim no quarto período, o que é o mais importante: ele está fazendo o Hornets vencer de vez em quando em uma temporada que deveria ter sido jogada no lixo com a contusão do Chris Paul. O Hornets está atualmente em nono no Oeste, não muito longe do oitavo colocado Blazers e apenas meia vitória à frente do Grizzlies, que também luta pelos playoffs. Num Oeste tão disputado quanto o desse ano, lutar pela última vaga é uma conquista incrível. Ainda mais porque, insisto, o Hornets fede. De verdade.

Mesmo se não levar o time para os playoffs, no entanto, o Darren Collison se coloca imediatamente pela briga de melhor novato do ano. O problema é que não dá pra vencer o Tyreke Evans, que já é um dos melhores jogadores do planeta e de novato não tem nem a cara, mas a briga é boa com o Stephen Curry, que está jogando demais no Warriors, e com o Brandon Jennings, que cada vez mais tem "novato" escrito na testa. O engraçado é que Collison e Jennings teriam se enfrentado no basquete universitário se o Jennings tivesse jogado na Universidade de Arizona, como quase aconteceu, ao invés de preferir o basquete europeu pra ganhar uma graninha. Quando eles finalmente se pegaram pela primeira vez na NBA, trocaram cestas decisivas no quarto período, Jennings cobrou dois lances livres que colocaram o Bucks três pontos na frente, mas o Collison acertou um arremesso de 3 para forçar a prorrogação. No tempo extra, o Collison bateu a carteira do Jennings e cobrou os lances livres da vitória do Hornets, num jogo fantástico entre dois armadores sem idade para beber cerveja. Na noite de ontem eles se enfrentaram de novo, Collison teve uma atuação incrível, com 22 pontos e 9 assistências, deu um pau no Jennings - que é incapaz de acompanhá-lo na corrida, defendê-lo, e anda tendo problemas terríveis para acertar seus arremessos - e mostrou que vai acabar na frente do armador do Bucks na corrida por novato do ano, mas ainda assim o Hornets perdeu. Enquanto o Bucks tem a ajuda de Andrew Bogut (aliás, o time é dele e pronto), o Darren Collison só vem tendo ajuda do outro novato Marcus Thornton. Desde o dia 10 de janeiro ele só deixou de ter dígitos duplos em pontos por duas vezes, e desde que ganhou minutos na primeira contusão do Chris Paul três meses atrás, tem mostrado que é melhor pontuador do que qualquer um daquele elenco mequetrefe. Além de ter um arremesso muito bom com os pés parados, sabe colocar a bola no chão e bater para dentro do garrafão com agressividade. Ele tem uns problemas de confiança e se intimida muito com defesas mais agressivas, mas quando seu arremesso está caindo é imparável e joga como veterano. Será uma peça fundamental no Hornets tão desesperado por pontuadores, mas o Darren Collison precisa de mais ajuda do que isso. O problema é que, quando essa ajuda chegar, Chris Paul já estará na equipe e Collison será reserva, vai poder aproveitar menos a festa. O importante, no entanto, é não ter pressa. É sensacional ver o Chris Paul dando dicas para o novato em cada parada de bola e treinar com ele deve ser um privilégio. Jogar num esquema que o favorece tanto também, então o Hornets ganhou um belo reserva. É triste saber que ele deu 18 assistências em seu primeiro jogo desde a contusão do Chris Paul, que ele fez um triple-double com 18 pontos, 13 rebotes e 12 assistências, e que mesmo assim não poderá ser titular porque ele e Paul juntos, em quadra, seria um terrível problema defensivo. Mas resta a certeza de que, ao menos, o Hornets terá alguém decente no banco de reservas. Quando foi a última vez que isso aconteceu?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Casamentos perfeitos

T-Mac, se liga, é a última vida!


A principal diferença entre Tracy McGrady e Kevin Martin, dois grandes jogadores que acabaram de ser trocados, é que um sempre quis ser estrela enquanto o outro se tornou estrela meio que por acaso. Quando T-Mac foi draftado pelo Raptors, não via a hora de deixar o time que pertencia ao seu primo Vince Carter para poder brilhar em um time que fosse inteiramente seu. Conseguiu uma equipe só para ele no Magic, onde descobriu que carregar uma franquia inteira nas costas é uma merda. Ele queria ser estrela e conseguiu, foi cestinha da NBA duas vezes seguidas, mas aprendeu que sem um elenco decente não é possível ganhar jogos. Foi ficando cada vez mais frustrado, mais insatisfeito, até que não aguentou mais e chutou duas bolas pra fora da quadra:


O mais engraçado desse vídeo é que o T-Mac parece bem calmo até que, de repente, uma vontade incontrolável de ser expulso lhe toma o corpo, enquanto o Juwan Howard tenta desesperadamente impedí-lo de chutar a bola porque se o McGrady não estiver em quadra não iria sobrar ninguém no Magic capaz de amarrar o próprio cadarço. Após esse incidente a troca foi inevitável e o T-Mac foi ser estrela no Houston, onde ele sabia que, com o apoio de uma outra estrela, poderia ser campeão.

O Yao Ming é meio tímido, não tende a dominar jogos, e o McGrady nunca deixou de carregar nos ombros a responsabilidade pela equipe. Dava discursos sobre ser a estrela, sobre recair sobre ele o peso da vitória, e garantiu que se a equipe fosse eliminada nos playoffs a culpa seria sua. Mas aí ele jogou bem pra burro, fez tudo que poderia, foi eliminado mesmo assim e aí - depois do lendário choro na entrevista coletiva - percebeu que a culpa era do resto do time. McGrady sempre balançou de um lado para o outro nessa história de assumir a responsabilidade ou delegá-la para a equipe, mas nunca cogitou não ser a estrela, o astro principal. Quando as dores nas costas começaram a destruí-lo e minar seu tempo de jogo, disse que esperava ser campeão logo para poder se aposentar. Estava apenas esperando as honras para poder se livrar do fardo.

Kevin Martin é o extremo oposto. Foi draftado com a vigésima sexta escolha depois de jogar numa faculdade obscura e mal entrava em quadra pelo Kings, até acertar o arremesso da vitória contra o Spurs nos playoffs de 2006.


Quando lhe deram mais minutos na temporada seguinte, ele explodiu apesar do seu jogo silencioso, quase invisível, em que marcou mais de 20 pontos por jogo dando o menor número de arremessos por partida de toda a NBA. Quando a temporada terminou e Kevin Martin tinha números incríveis, havia batido recordes com o número de lances livres cobrados e convertidos, o Kings lhe ofereceu um questionável contrato de 55 milhões de doletas por 5 anos, um contrato que nem a mãe do Martin esperava. Tanta grana para um jogador que não era uma estrela, vinha de apenas uma grande temporada e se portava timidamente em quadra foi uma ação duramente criticada. Um salário de mais de 10 milhões por ano deveria ser entregue a alguém que pudesse carregar nas costas o Kings inteiro, algo que não parecia ser o caso de Martin. Ele virou estrela pela grana que recebia, pelas suas estatísticas, não por quem ele era. Embora seus números sejam de um pontuador nato, Kevin Martin arremessa pouco, não tem um drible devastador, não arma o jogo e não tem explosão rumo à cesta nem força física. Tem um corpo de quem ainda escuta os álbuns da Xuxa e descobriu agora que meninos tem pipi, não gosta de ser um líder e não é vocal na quadra, preferindo ficar quietinho. Ele é apenas um jogador coadjuvante, mas bom demais, eficiente demais, pontuador demais, ladrão de bolas demais, para ser considerado coadjuvante. O Kings achou que ele merecia 55 milhões então ótimo, sorte dele que vai ter grana para comprar muitos álbuns da Xuxa e enfiar o resto nas orelhas.

Assim que Tracy McGrady chegou no Knicks, agiu como estrela. Ele é obviamente o jogador mais talentoso da equipe, o mais experiente, e apesar de estar completamente sem ritmo de jogo começou como titular. Exigiu a bola nas mãos logo de cara, atacou a cesta mesmo sem qualquer sinal de velocidade, e fez os torcedores explodirem com duas cestas com falta ainda no primeiro quarto. Movido pela torcida amalucada do Knicks, arremessou e bateu para dentro do garrafão sempre que deu na telha, colocando em prática o seu "veteranoból", aquele basquete de velhinhos que não envolve pulos, força ou velocidade, e se aproveita das manhas de quem sabe onde estar na quadra, como enganar a pirralhada e como usar os juízes ao seu favor. Para alegria do técnico Mike D'Antoni, que estava desesperado por um armador desde que o Chris Duhon caiu de produção de uma temporada para a outra, McGrady é inteligente o bastante para armar o jogo, tem boa visão de quadra e encontra os companheiros livres com os passes certos, mas tudo isso sem correr. O resto do time batendo para a quadra de ataque como gatos no cio e o McGrady trotando devagarinho, na velocidade em que ele consegue, jogando de armador principal pela primeira vez na carreira. Ainda assim cansou logo e mal participou da prorrogação, em que o Eddie House provou que sem o Garnett para comer o seu fígado se ele fizer cagada (e com o D'Antoni que quer mais é que todo mundo arremesse mesmo) ele vai arremessar o tempo inteiro, ganhar uns jogos sozinho e perder dez vezes mais jogos por culpa sua e de sua falta de cérebro.

A estreia do T-Mac foi digna de uma estrela, de um jogador que domina o esporte, se encaixa em qualquer lugar, sabe chamar a torcida e sabe como conseguir pontuar do jeito que bem entender. Falta oxigênio, joelho, ter nascido quando já existia internet, mas fora isso ele ainda é espetacular. Só que, como em todo o resto de sua carreira, para ele ser estrela e chamar a responsabilidade para si é preciso um time horrível à sua volta que lhe trará derrota atrás de derrota. Cada vez mais cansado, questionando se seria capaz de enfrentar o Celtics depois de sentir dores no joelho após duas partidas, T-Mac faz o que consegue. Mas ele não consegue vencer.

Já a estreia do Kevin Martin foi, assim como ele, muito mais discreta. Começou no banco de reservas, o que é muito sensato porque ficaria bem feio colocar Ariza ou Battier no banco depois de tudo que eles fizeram juntos na temporada até agora. K-Mart começou devagar, arremessou algumas bolas quase por obrigação, tentou não participar muito, e foi ajudando a equipe em todos os aspectos mesmo sem seus arremessos caírem: roubou bolas, pegou rebotes, soube encontrar seus companheiros livres. Quem não prestou atenção nem reparou que ele estava em quadra. Em sua segunda partida, instruído a arremessar mais, acabou errando mais. Mas só dá para notá-lo por causa do arremesso esquisito, do jeito engraçado que ele joga, porque ele nunca chama o jogo, jamais compromete a equipe, nunca dá para xingá-lo. Ganhará os jogos cobrando lances livres, arremessando bolas de três apenas quando estiver livre, preferindo cavar o contato ao invés de tentar um arremesso forçado. Ele não é uma estrela mesmo que tenha números de estrela, mesmo que bata recordes, que sua eficiência o coloque estatisticamente ao lado de lendas como Michael Jordan e Nate Archibald.

O Knicks precisa de atenção. Precisa de audiência na TV, marketing, barulho, o que for preciso para atrair as grandes estrelas ao término da temporada, já que a equipe terá dinheiro para assinar dois contratos máximos. T-Mac é perfeito para isso, ele será uma estrela mesmo aos 80 anos, mesmo quando não acerta os arremessos, mesmo na derrota. Já avisou que o que ele quer da vida é poder jogar, e que está mais do que disposto a assinar um contrato pequeno e permitir que duas estrelas venham jogar com ele em contratos máximos. Está se preparando para sumir nas sombras, brilhando agora para se tornar ajudante na temporada que vem. São os últimos suspiros do McGrady que conhecemos, mesmo que ele não ganhe uma partida sequer. Ainda que para o Knicks perder não dê resultados porque a escolha de draft desse ano não é deles (o Sampa City me avisou nos comentários que a escolha era do Jazz, e aí fui descobrir que o Knicks mandou para o Suns quando trocaram pelo Marbury), o que importa mesmo, mais do que as vitórias, é o T-Mac ter bons números para iludir outras estrelas a jogar com ele. O casamento foi perfeito para os dois, nem importam os resultados.

O Houston sente falta de Carl Landry, único pontuador do time em quartos períodos, e perdeu suas duas partidas até agora no final porque a equipe não sabia como marcar pontos de modo algum. Mas o casamento com o Kevin Martin também é perfeito, um jogador inteligente e discreto que não quer ser e nem nunca será uma estrela. Ele pode ajudar como quiser, como conseguir, sem nunca ter que chamar a responsabilidade que se espalha por todo o elenco graças ao planejamento de uma vida toda do técnico Rick Adelman. Cansei de ver o Rafer Alston querer decidir jogos pro Houston e eu tendo um aneurisma cerebral, e ando cansando do Aaron Brooks querer bancar o herói em momentos impróprios. É um alívio ver que o Kevin Martin vai eventualmente começar a ganhar jogos, decidir partidas, tudo daquele jeito estranho de moleque de 12 anos que não sabe jogar basquete, e eu nem vou perceber quando ele errar porque é inteligente e discreto. Quando acertar também não vai querer ser estrela, não vai reclamar de minutos, de vir do banco, de não ter certo número de arremessos. Enquanto até o Travis Outlaw diz que estava louco para sair do Blazers porque lá ele nunca teria o número de arremessos que merece, o Kevin Martin entra para a história com o menor número de arremessos para atingir sua média de pontos. Não consigo imaginar alguém que se encaixe tão bem no atual momento do Houston, mesmo que as derrotas continuem vindo. Essa sim é uma equipe, ao invés do erro lendário de juntar duas estrelas e ver o que acontece. Com o Houston não deu certo, será que dará com o Knicks?

Por que tantos times acreditam que, juntando dois jogadores fantásticos, ganharão títulos? Contusões, elenco de apoio, tática, psicológico, identidade, química - uma tonelada de fatores que vão muito além de ganhadores de contratos máximos. O Celtics percebe que, com outro clima no vestiário, tem menos chances de ser campeão apesar de reunir tanta gente fantástica no mesmo lugar, todos com contratos máximos e alguns a preço de banana. É por isso que desejo boa sorte para quem T-Mac receber como ajuda na temporada que vem. Como torcedor feliz com a equipe pela primeira vez em anos, acompanhando o basquete coletivo e sem estrelas do Houston Rockets, prefiro ficar com o Kevin Martin.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Filtro Bola Presa - um resumo semanal

Não tente explicar, Varejão, só vai ficar pior


Outro dia eu descobri que tinha gente que não sabe o que (e não quem!) era Tessália. Na época isso correspondia a não assistir a Globo, não ter Twitter e não abrir nenhum dos grandes portais da internet brasileira! Considerando que existe gente assim tão mal informada, não custa explicar mais uma vez o que é o Filtro Bola Presa.

No Filtro, publicado toda segunda-feira, pegamos assuntos, vídeos, notícias, fotos ou qualquer outra coisa relacionada a NBA que foi assunto nos últimos 7 dias (ou, no caso, 14, já que segunda passada não teve Filtro por causa do resumão do All-Star Game) na NBA e acabou não sendo citado aqui no blog. São muitos assuntos, apenas um blog e apenas dois blogueiros, muitas coisas interessantes ficam de fora e essa coluna está aqui para reparar um pouco esse problema.

Vamos ao trabalho:

- Alguma dúvida de que o Shaq deveria estar em todos os All-Star Games até o fim de sua vida, nem que fosse só como convidado?


- Em algum lugar do nosso polvo internético (aqui, twitter, tumblr, Both Teams Played Hard) vi que o Greg Oden tinha pedido desculpas públicas aos torcedores do Blazers depois que vazaram algumas fotos suas pelado na internet. Não me dei ao trabalho de pesquisar para ver o teor das fotos, mas pelo jeito ele não é a Paris Hilton e ao invés de ganhar fama, pediu perdão. Achei bizarro mas deixei quieto, afinal o Greg Oden não joga basquete nunca, o tédio nos faz fazer umas idiotices.

Mas eis que semana passada aparece um outro pedido de desculpas. Dessa vez o George Hill se disse envergonhado por ter fotos suas pelado distribuídas na internet! Qual o problema com esses caras? Já é idiota para uma pessoa comum tirar fotos suas pelado na era da internet, para uma pessoa famosa é pior ainda. E se fez isso por diversão, pra que pedir desculpas depois? É só um pinto. Como bons negros eles deveriam se gabar e me humilhar, um pobre branquelo na média nacional.

- Algumas notícias conseguem ser importantes e inúteis ao mesmo tempo. Um exemplo? O anúncio da USA Basketball dos jogadores candidatos a disputarem o mundial da Turquia nesse ano. É importante porque é o elenco do melhor time do mundo, é inútil porque são 27 malditos nomes!!! Como vão tirar só 12 dessa lista, continuamos praticamente na mesma incógnita de antes do aviso.

O que será mais interessante nessa convocação será acompanhar o mercado dos Free Agents. Provavelmente caras como Amar'e, LeBron, Wade, Bosh, Boozer e David Lee só darão certeza se estarão na Turquia se já tiverem contrato assinado na NBA. No fim das contas até a seleção americana, além de uma outra dezena de times, depende desses benditos Free Agents para saber do seu futuro.

- Falando em Free Agents, achei muito legal a manobra do Toronto para manter o Bosh por lá. Eles tentaram, sem sucesso, porém, uma troca pensando em trazer para o time não um grande jogador, mas um amigão do Chris Bosh, o Josh Powell. Eles ofereceram Marcus Banks e o lixo do Patrick O'Bryant em troca de Powell e Sasha "The Machine" Vujacic.

Powell é brother camarada do Bosh e seria mais um artifício da equipe para criar o ambiente ideal para o ala em Toronto. Mesmo sem a troca ter sido fechada (por mais que o Lakers queira se livrar do Sasha, o Patrick O'Bryant vale o mesmo que um o.b. usado), o Bosh tem ficado mais convencido. Outro dia disse que se acha bom o bastante para atrair outro jogador para o seu time ao invés de precisar sair atrás de um novo.

- Viram o jogo do Nuggets contra o Cavs na última quinta-feira? Provavelmente o melhor jogo da temporada regular até agora. Carmelo Anthony fez uma partidaça e acertou o arremesso da vitória na cara do LeBron.

Aliás, o LeBron foi ridículo nesse jogo, quase patético. Tomou um monte de arremesso na cara, perdeu um jogo em casa e fez esses números: 43 pontos, 13 rebotes, 15 assistências, 2 roubos e 4 tocos. É muito óbvio que ele é só um produto da mídia, um queridinho dos juízes que só faz pontos por causa do seu físico.

Espero que entendam o sarcasmo, mas os odiadores do LeBron podem usar outro número a seu favor: LeBron errou seus últimos 4 arremessos nesse jogo decisivo e o Carmelo acertou 7 dos últimos 8.

- Nós fizemos um post uma vez com os melhores comerciais envolvendo jogadores da NBA. Uma pena que a lista foi feita meses antes do melhor comercial da história, estrelando Lamar Odom. E esse comercial me lembra de dar a dica para todo mundo assistir ao filme "Rebobine por favor" (Be kind rewind).



- O Danilo postou aqui sobre a insatisfação aparente do elenco do Cavs com a troca do amigão parceiraço Ilgauskas pelo rival Jamison. Acho que LeBron e companhia deveriam parar de reclamar e ouvir um pouco o Deron Williams, que parece muito, muito bravo com a decisão da equipe de trocar o Ronnie Brewer para o Memphis por dois panetones e um freio ABS.

Não dá pra culpar ele, o Jazz venceu 17 dos últimos 19 jogos, assumiu a terceira posição do Oeste, tem sido o melhor time de toda a NBA nas últimas semanas (eu achava que eles estavam acabados!) e agora perdeu uma peça importante por questões puramente financeiras. E a coisa fica pior, que motivação terá o Boozer para ficar em um time que troca um titular por nada só para economizar uns trocados?

- Ontem o Stephen Curry, novato do Warriors, deu mais um show em uma vitória de virada sobre o Hawks. Ele dominou o jogo com 32 pontos, roubos de bola e algumas assistências lindas (uma foi num contra-ataque, na corrida, com a mão esquerda. Mais Steve Nash, impossível). Só que em um determinado momento do jogo, o finalzinho pra ser mais exato, ele deu um passe ridículo na mão do Jamal Crawford, um erro infantil que poderia ter custado o jogo.

E é a única diferença entre o Curry (que já passou o Jennings na corrida de melhor novato do ano) e o Tyreke Evans: o novato do Kings não comete erros de novato.

Dêem uma olhada nesse drible do Tyreke sobre o Jared Jeffries na vitória do Kings sobre o Knicks. Tem coisa mais de veterano que isso?


- Aqui não falamos de NBB, Euroliga e basquete universitário porque é um blog sobre NBA. Mas não deu pra ignorar esse lance livre do Brady Morningstar (o nome mais gay da história da Terra) da universidade de Kansas.


- Enquanto o Jay-Z estava no All-Star Weekend, a sua digníssima senhora estava no Rio de Janeiro sendo gostosa. Mas ele conseguiu matar a saudade quando o Benny The Bull, o mascote do Chicago Bulls, dançou "Single Ladies" para ele no meio da quadra. A cara do Jay-Z após a dança diz mais do que eu poderia dizer aqui.


Atualização de fim da tarde
8 ou 80 - O cantinho atrasado das estatísticas

- Antawn Jamison teve A pior estréia de todos os tempos na NBA. Com nenhum acerto em 12 tentativas de arremesso ele superou o antigo recorde de Corie Blount pelo Warriors em 2001 e Kevin McKenna em 1983, os dois erraram todos os arremessos em 10 tentativas.

- A atuação do LeBron que eu citei acima foi algo único na história da NBA. Nunca um mesmo jogador tinha conseguido tantos pontos, rebotes, assistências, roubos e tocos no mesmo jogo. E ignorando os roubos e tocos foi a primeira vez desde 1962 que um jogador conseguiu pelo menos 43 pontos, 15 assistências e 13 rebotes num mesmo jogo, naquele tempo o feito foi do Oscar Robertson.

- Outra curiosidade numérica sobre o Cavs: Com 28,4 pontos eles são os líderes da NBA em pontos no primeiro período. Porém são apenas o 11º em pontos no segundo período, 22º em pontos no terceiro período e 22º no último período. Quem tiver uma explicação plausível pode mandar.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pisou na merda, abre os dedos

Jamison deixava jogadores do Cavs sangrando no
chão, agora tem que ser miguxo do LeBron


Primeiro o Arenas foi suspenso pela piadinha com armas de fogo. Depois, Caron Butler (junto com o Haywood) foi trocado para o Mavs e agora, para finalizar, Antawn Jamison foi trocado para o Cavs. Não sobrou nenhum dos três ex-jogadores de All-Star para contar história num time que, ao menos no papel, era colocado por todo mundo como um dos favoritos para brigar pelo título do Leste. Enquanto quase todos os times da NBA ficariam batendo a cabeça na parede, insistindo num erro por medo de se queimar com os torcedores, o Wizards resolveu desmontar a equipe inteira assim que percebeu que o trio não iria adiantar para levar o time ao topo. Uma decisão segura seria dizer que, novamente, o trio não passou tempo o bastante jogando junto, colocar a culpa na mudança de técnico, esperar Arenas voltar temporada que vem e tentar de novo, de novo e de novo. Mas o Wizards não quis ser novamente um time mediano, compreendeu as limitações que os três All-Star juntos enfrentavam em quadra, e teve a coragem de começar de novo. Essa coragem falta para muitos times que acabam ficando para sempre naquele limbo do meio da tabela, lutando pelos playoffs ou conseguindo as últimas vagas, sem nunca ter chance de vencer de verdade. O único modo de transformar essa situação é reconstruir o time, feder por uns tempos, conseguir escolhas de draft, dar minutos para os pirralhos. Mas como explicar para o torcedor apaixonado que o time bom pra burro, mas não bom o bastante, vai ser jogado no lixo e o time vai feder por uns anos? Como explicar caso uma equipe que já chegou a competir por títulos comece a namorar com a pior campanha de todos os tempos? O Nets poderia muito bem ter mantido vários de seus jogadores e ficado no mais-ou-menos pra não passar vergonha, mas essa campanha horrorosa uma hora vai dar frutos.

O Pistons teve esse medo de feder para os torcedores, o Joe Dumars quis concertar tudo muito rápido para que não houvesse um período de reconstrução, e o resultado foi um time que não consegue se livrar de Richard Hamilton, contratou lixos como Ben Gordon e Villanueva, e não tem identidade. Pra quê tanto medo de feder? O passo do Wizards rumo à lama é a coisa mais inteligente e corajosa que a equipe poderia ter feito. Eles já estavam na merda mesmo, o melhor é abrir os dedos, garantir uma boa escolha de draft, construir um time inteiro do nada de acordo com as preferências do novo técnico (ao invés de ter que fazer o técnico suar para colocar um padrão numa equipe aleatória já montada) e dar minutos para a pirralhada jogar.

Como o Wizards não tem dado certo nos últimos anos, o time arrumou um bom número de fedelhos com potencial. O Arenas dizia que o Nick Young lembrava o Kobe quando entrou na NBA e seria uma estrela, Andray Blatche é um ala cheio de potencial que domina ligas de verão e há anos todo mundo espera ver ele estourar, e JaVale McGee é um pivô enorme, magrelo e completamente cru com capacidade para dominar na defesa. Nenhum deles tinha muitas oportunidades de jogo estando atrás de Butler, Jamison e Haywood, respectivamente, e apesar dos três terem se saído bem nas constantes contusões da equipe, nunca tiveram minutos suficientes para conseguir alguma consistência. Agora isso mudou: Blatche e McGee formam o garrafão titular da equipe, enquanto Nick Young ganha sua chance ao lado do Josh Howard, que chegou na troca do Butler desacreditado por não ter se tornado aquilo que se esperava dele - embora o potencial ainda esteja lá. Mesma coisa com o Al Thornton, que parecia um dos jogadores mais promissores do Clippers até que a comissão técnica foi ficando mais e mais descontente com seu jogo e ele foi mofar no banco.

São todos jogadores com potencial, terrivelmente inconstantes, tendo a oportunidade de suas vidas. Precisam mostrar que têm valor, precisam mostrar que conseguem aprender jogo após jogo, e que rendem quando recebem minutos. Enquanto eles se desenvolvem, a temporada vai pro saco e o próximo draft rende algum outro jogador de potencial para ajudar a equipe. Quando o técnico tiver decidido quem tem chances de permanecer na equipe e decidir por uma cara para o time, basta ir atrás de talentos veteranos, com a grana economizada, que se encaixem na nova formação tática. Sem pressa, com coragem de botar os fedelhos no fogo e dinheiro para gastar apenas quando o time já tiver alguma identidade, o processo de reconstrução do Wizards vai acabar sendo rápido e indolor. Prova disso é ver todos os jogadores cheirando a fralda do time jogando como se suas vidas dependessem disso, se atirando em todas as bolas, bebendo sangue nos intervalos de jogo. Foram duas vítórias nas últimas duas partidas, com atuações impressionantes de Blatche (33 pontos e 13 rebotes contra o Wolves, 18 pontos e 11 rebotes contra o Nuggets) e de McGee (14 pontos, 11 rebotes, 5 tocos contra o Wolves, 9 pontos, 7 rebotes e 3 tocos contra o Nuggets). Enquanto Butler e Jamison, estrelas consagradas, jogavam com aquela tristeza de quem perdeu a temporada e não tem motivo para se esforçar, o sangue jovem do Wizards joga pelo seu futuro e engoliu o Nuggets ontem na raça, mesmo quase tacando o jogo fora no final.

Para o Jamison, por mais que ele se dissesse feliz com o Wizards, com os companheiros, a cidade e os dirigentes, a temporada já não valia mais nada. Era só uma perda de tempo até que o Arenas voltasse temporada que vem, uma torcida para que o resto do time não desmontasse com contusões. No Cavs, agora ele volta a jogar como se pudesse ganhar um campeonato, como se seus resultados realmente importassem. O problema é que ele está tentando mostrar serviço num time que aprendeu, nos últimos anos, a odiá-lo loucamente.

A NBA anda meio morna com rivalidades ultimamente (a mais recente é Hawks e Celtics), e as brigas nas partidas entre Wizards e Cavs eram a coisa mais animada que existia nesse sentido nos últimos anos. É uma rivalidade meio fajuta porque o Cavs sempre ganha, mas o Wizards joga sério, dá porrada, xinga, enlouquece, e depois perde. Dizem que a rivalidade foi o principal motivo do Wizards ter tentado evitar a troca, e agora é o Jamison quem está sentido o peso dela. Não é como se ele fosse chegar em Cleveland e de reBoldpente ser amiguinho de todo mundo, como se não tivessem se odiado tanto há anos. Mo Williams, Shaq e LeBron ignoraram Jamison várias vezes quando ele estava sozinho para o arremesso, o Jamison foi ajudar o LeBron a se levantar e a estrela do Cavs fingiu que não notou, e o Delonte West deu a maior fria no Jamison depois de lhe mandar um passe horrível, impossível de pegar. O clima não é dos melhores, é bem óbvio que todo mundo na equipe ainda se lembra das tretas com o Wizards, o LeBron estava torcendo para conseguir o Amar'e, e o Jamison arremessar 12 bolas para tentar ser querido (e errar todas elas) não ajudou muita coisa. Pior ainda foi o Cavs ter saído de quadra com a derrota e o Jamison ter falhado tão miseravelmente na defesa em momentos importantes do jogo.

Vai levar um tempo para o Cavs se acostumar com o Jamison, perceber que ele é valioso para a equipe e, principalmente, que ele foi uma escolha melhor do que o Amar'e seria. Talvez surjam muitas derrotas até o Jamison se encaixar bem no estilo de jogo do Cavs, aprender a defender em conjunto, ser mais discreto em quadra, mas eventualmente vai dar muito certo e o LeBron vai ter percebido que os engravatados do time não poupam dinheiro para ficar acima do teto salarial e conseguir quem for para melhorar suas chances de título. Será que ofereceriam tanta grana para ser paga em multas em qualquer outro time da NBA, tipo o Knicks, que anda recheado de dívidas?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Estando bom para todas as partes

Kevin Martin e Artest agora têm algo em comum além do sorriso bobo:
deixaram de ser estrela para ser coadjuvante em Houston


Nessa temporada, o Houston Rockets não é o time de Yao Ming ou de Tracy McGrady: ele é o time do técnico Rick Adelman. Pela primeira vez em sua carreira, Adelman tem um time inteiro nos seus moldes, capaz de executar com perfeição suas loucuras tática, um elenco profundo, recheado de especialistas e sem uma estrela sequer. A equipe surpreendeu no começo da temporada chutando um punhado de traseiros, escalando rumo ao topo do Oeste e provando que a filosofia de jogo do Adelman poderia levar à vitória um time visto como mais-ou-menos. Mas esses não são os Jogos Escolares de São Bernardo, e sim a conferência Oeste da NBA. O nível é cada vez mais alto, os times mais emparelhados, e uma sequência simples de vitórias ou derrotas é a diferença entre ser líder da conferência e estar fora dos playoffs. Sem um líder em quadra, sem uma estrela capaz de trazer tranquilidade ao time e garantir cestas fáceis e decisivas nos finais dos jogos, o Houston foi de fininho escorregando para fora da zona de classificação. De repente, o Rick Adelman não parecia mais tão genial - e nem tão feliz - assim.

Por essa razão, o técnico do Houston foi entregando cada vez mais liberdade e responsabilidade nas mãos de Aaron Brooks e Carl Landry. O armador Brooks é o único disposto a arremessar sem parar nos finais de partida, e o Landry é simplesmente o líder em pontos no quarto período de toda a NBA. No entanto, abrir essa exceção tática para os dois deixava Rick Adelman cada vez mais frustrado, tudo porque o Brooks não tem muito cérebro e dá arremessos bastante idiotas, enquanto o Landry compromete o time na defesa. Ainda assim, parecia melhor do que deixar Tracy McGrady entrar em quadra com sua falta de ritmo, falta de defesa e postura de estrela. Não importa que T-Mac tivesse treinado como um maluco nas férias com os melhores treinadores do mundo, ao lado de Dwyane Wade. Não importa que T-Mac estivesse se dizendo saudável pela primeira vez em anos. Rick Adelman não queria comprometer sua visão de um time coletivo e perfeito, não queria sujeitar seu elenco de carregadores de piano à dúvida de McGrady jogar ou não jogar todas as noites, graças às suas incessantes contusões. Preferiu tentar salvar a temporada desde o começo retirando o mal pela raíz. Sobrou pro T-Mac, que não tinha nada com isso.

Sua troca era inevitável. Tracy McGrady está no último ano de um contrato que lhe paga 23 milhões de doletas, ou seja, deixa salivando qualquer time interessado em liberar espaço salarial para a temporada que vem com poluções noturnas pelo LeBron James. Mas a troca não poderia ser por alguma outra estrela, por um jogador que comprometesse o trabalho do Adelman. Os engravatos de Houston acreditam no técnico, o elenco de ajudantes de luxo em quadra acredita nele, então o poder está nas mãos do homem. Durante vários dias, os boatos indicavam que T-Mac seria trocado por mais uma série de ajudantes de luxo: se fosse para o Knicks traria Jared Jeffries e Al Harrington, se fosse para o Sixers traria Iguodala e Dalembert. Chega a ser engraçado imaginar uma equipe com Trevor Ariza, Shanne Battier e Andre Iguodala, três dos melhores defensores da NBA, capazes de se encaixar em qualquer equipe e ajudar uma estrela a ser campeã. Mas conseguiriam ganhar alguma coisa ajudando apenas uns aos outros? Seria um excelente experimento sociológico, quase tão bom quanto Big Brother, mas sem sexo debaixo do edredom.

Na última hora, o Sixers vetou a troca. Parece que eles ainda estão convencidos de que o Iguodala pode ser campeão sozinho, sem uma estrela, e preferiram viver em seu mundo de fantasia com o Coelhinho da Páscoa, o Papai Noel, a Alinne Moraes e todas essas coisas que não existem. Restou então mandar o T-Mac para o Knicks, mas aí o Kings apareceu.

O Sacramento virou um dos meus times favoritos nessa temporada. Sempre fui fanático pelo jogo pouco ortodoxo do Kevin Martin (por "pouco ortodoxo", é claro que eu quero dizer "ridiculamente bizarro") e fiquei muito interessado em descobrir o porquê do time vencer com ele fora, contundido. Foi aí que o Tyreke Evans começou a jogar um absurdo, cravou seu nome como o calouro do ano antes mesmo do meio da temporada, conquistou o coraçãozinho do Denis e transformou o Kings numa das equipes mais divertidas de se assistir em toda a NBA. Declarei em outro post meu amor súbito pelo Kings e como abandonei jogos do Houston para acompanhar a equipe do Evans (mas não contem pra ninguém!), e depois assisti atento ao Kevin Martin voltar de contusão e tentar se encaixar com o futuro novato do ano. Eu não fiquei convencido de que a dupla não funciona, ficou bem claro que os dois têm problemas para se encaixar em quadra mas pareciam estar aprendendo aos poucos. Mas a verdade é que os dois jogam melhor quando não estão juntos, tendo o jogo armado pelo Beno Udrih, e é compreensível que com as derrotas acontecendo em massa desde a volta do K-Mart, o Kings não quisesse sentar e ficar assistindo ao apocalipse. Até porque, poucas semanas atrás, eles estavam indo para os playoffs, exatamente como o Houston.

A troca então foi a seguinte: o Kings mandou o Kevin Martin para o Houston e o Sergio Rodriguez para o Knicks. O Knicks mandou o Jared Jeffries, o Larry Hughes e o Jordan Hill para o Houston. E o Houston mandou o Tracy McGrady para o Knicks e Carl Landry e Joey Dorsey para o Kings.

Pro Knicks, a troca é simples. O contrato gigante do Larry Hughes ia acabar mesmo, o essencial era se livrar do Jared Jeffries. Não que ele seja ruim, pelo contrário, o Mike D'Antoni sempre disse que o Jeffries foi o jogador que mais lhe deixou impressionando quando ele chegou em New York. Mas é que o burro do Isiah Thomas deu pro Jeffries um contrato de quase 7 milhões por ano apesar dele ser simplesmente um jogador secundário, versátil porque pode jogar em todas as posições (todas mesmo, de armador a pivô), bom defensor, mas irrelevante no ataque. No Knicks que não defende, que fede inteiro, de que serve um carregador de piano que ganha uma fortuna? Seu contrato duraria ainda mais uma temporada, e se livrando dele o Knicks fica finalmente pelado como queria, pronto para oferecer toda a grana disponível para as estrelas desempregadas na temporada que vem. Restaram apenas 4 jogadores com contratos para a próxima temporada no Knicks: o Danilo Gallinari, o Toney Douglas, o Wilson Chandler e o gordo do Eddy Curry, que o time tentou desesperadamente trocar mas ele está tão gordo que não passou pela porta e não conseguiu sair do ginásio. Como o contrato do T-Mac termina também, o Knicks abriu mão do novato Jordan Hill (que o D'Antoni odiava) e de uma escolha de primeira rodada para se livrar do Jeffries e nadar em dinheiro para a próxima temporada. Dá pra oferecer dois contratos máximos, ou seja, segundo a política do Isiah Thomas dá pra oferecer dois contratos com valores máximos para gênios como o Kwame Brown e o Sasha Vujacic.

Para o Kings, a troca foi um belo jeito de se livrar do contrato gigante do Kevin Martin, dar o time inteiro nas mãos do Tyreke Evans, contratar outro jogador que se encaixe melhor com ele na temporada que vem, e de quebra ainda levar o Carl Landry. Já faz um tempão que o Kings tem problemas para pontuar no garrafão, já que o pivô Spencer Hawes prefere arremessar de três e o James Thompson é genial mas prefere o arremesso de média distância. O Landry é um cara que não defende, não pega rebotes, não assobia, não lava a louça, não conta até dez, mas se você lhe der a bola debaixo da cesta, ele dará um jeito de pontuar. Chega a ser surreal, ele arruma um jeito dando porrada, na força, no jeitinho, com ganchos, na marra, reverses, pagando propina para o juíz, qualquer coisa, mas ele consegue. Será perfeito para vir do banco do Kings assim como fazia no Houston e pontuar no quarto período, momento em que o Kings tem perdido a imensa maioria dos seus jogos. O time é imediatamente melhor agora, dá espaço pra molecada e arruma um antigo problema. É com dor no coração e lágrimas nos olhos que eu vejo o Carl Landry ir embora, mas ele estará numa equipe que precisa dele e que, com sua presença, só tende a melhorar.

Mas para o Houston a troca tem tudo para dar certo também. Dia desses me perguntaram que estrela poderia ir para o Rockets sem lascar com a química e a visão do Adelman, e sugeriram o Joe Johnson por ser um armador completo e pontuador que não é individualista. Eu sempre achei que o jogador perfeito para o Houston seria o Michael Redd, que ele seria o par perfeito para o Yao, que permite tão bem que os seus companheiros arremessem livres de três pontos. Na falta dele, não consigo imaginar um jogador melhor do que o Kevin Martin para cumprir esse papel. Não só é um dos meus jogadores favoritos, ele também é um excelente arremessador de três pontos, quieto, discreto, sem problemas com ego ou com companheiros de equipe, e é especialista em cavar faltas e cobrar lances livres quando o time precisa de pontos fáceis ou não tem nada caindo. Se o K-Mart jogar minutos limitados e sempre estiver em quadra ao lado de Ariza ou Shane Battier (ou até de Jared Jeffries, mais um grande defensor nesse time cada vez mais defensivo e versátil), sua defesa patética não será um problema tão grande, ele será muito útil impedindo que o Aaron Brooks arremesse tanto, tornará o perímetro mais perigoso e cavará mais faltas nos momentos de pânico, quando o Houston não consegue manter o plano do Adelman porque os arremessos não caem e o Brooks se desespera. É exatamente o que o Rick Adelman queria: um jogador secundário, especialista, disposto a cumprir uma simples função em quadra ao invés de ser uma estrela, cargo que o Martin nunca quis assumir em Sacramento. É um ajudante perfeito para um time formado por ajudantes, com a diferença de que ele ganha quase 10 milhões de doletas por ano. No Kings pagavam e esperavam que ele fosse o líder da equipe, assim como no Knicks pagavam para o Jeffries e esperavam que ele evoluísse ano a ano. No Houston, os dois podem encher as orelhas de dinheiro para ser simples coadjuvantes, do mesmo modo que o todo o resto da equipe. Sem essa cobrança, os dois vão logo se sentir em casa, o coitado do Kevin Martin nunca quis ser nada além de coadjuvante e o Kings resolveu lhe pagar um contrato de 55 milhões, completamente inesperado, achando que ele levaria a franquia para algum lugar - justo ele, o cara menos vocal do mundo, o único cara do planeta que não gostaria de ser líder no Big Brother. Além disso, se o Jordan Hill souber pontuar um pouco e não der motivos para o Aldeman odiá-lo tanto quanto o D'Antoni odiava, a troca terá sido perfeita, com mais um carregador de piano para substituir o Landry nem que seja um pouquinho. Até o Larry Hughes tem jogado bem e, se tiver minutos bem limitados, pode quebrar um baita de um galho enquanto o Kyle Lowry está contundido. Aliás, a troca terá sido perfeita para todas as partes. Até para o Knicks, que com tanto nome e fama vai conseguir levar duas estrelas de peso na temporada que vem. Pode não ser o LeBron, mas alguém topa a brincadeira. Afinal, eles não são o Clippers. E o Kings continua sendo um dos times mais divertidos de acompanhar, dessa vez com o líder de pontos no quarto período. Será o bastante para levar a pirralhada para os playoffs?

EDIT: Pois é, ao contrário do que algumas fontes apontaram, o Larry Hughes foi para o Kings e não para o Houston. Então ao invés de ser um reserva quebra-galho pro Lowry, ele vai ser só um contrato de 13 milhões que expira e deixa o Kings com grana pra fazer o que quiser, gastar com estrelas, jogos, bebidas ou mulheres. Se ele entrar em quadra, ainda mais depois que o Francisco Garcia está de volta de contusão, é porque alguém tomou um tiro em quadra.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

As trocas menores

Tyrus Thomas e mais um monte de gente voou para outro time nessa quinta-feira

Enquanto o Danilo não chega para falar da grande troca do dia, a que levou Kevin Martin para o Rockets, Tracy McGrady para o Knicks e muito espaço salarial para o Kings, eu aproveito para falar de todas as pequenas trocas que tornaram o dia de hoje um dos dias-limite para trocas mais movimentados dos últimos anos.

Sem enrolação, vamos lá:

Chicago Bulls manda: Tyrus Thomas
Charlotte Bobcats manda: Acie Law, Flip Murray e uma escolha de 1º rodada de draft do Bobcats

Dois vencedores nessa troca. O Bulls queria se livrar do Tyrus Thomas e do máximo de contratos que pudesse para ter o espaço necessário na folha salarial para entrar na briga por LeBron ou Wade na temporada que vem. Conseguiu isso já que os contratos de Murray e Law acabam nesse ano. De brinde, conseguiram o que o Clippers não foi capaz de fazer com Thronton e Camby, levaram uma escolha de draft para tentar a sorte num futuro próximo.

Boris Diaw não tem sido regular, Diop e Chandler só se machucam e Nazr Mohammed é bom mas nem tanto. O Bobcats procurava desesperadamente alguém para dar um jeito no seu garrafão e conseguiu! Perdeu pouca coisa e em troca ganhou um baita jogador que deverá brilhar muito sob a tutelagem do Larry Brown. Ele é reboteiro, agressivo no ataque e nos tocos, e com os toques defensivos do técnico será imediatamente importante na equipe.

A troca, porém, deixou a armação do Bobcats com pouquíssimas opções, Larry Brown terá que respirar fundo e usar dois caras que não estavam agradando o exigente (jeito simpático de dizer "chato, pé no saco") técnico: DJ Augustin e o novato Gerald Henderson.

atualização: O garrafão do Bobcats está tão mal que o Yahoo!Sports diz que eles acabaram de conseguir o avô do (já avô) Greg Oden, Theo Ratliff, com o Spurs. Isso que é desespero! Só não informaram ainda o que os Bobgatos mandaram em troca.
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Chicago Bulls manda: John Salmons
Milwuakee Bucks manda: Joe Alexander e Hakim Warrick

Outra troca puramente financeira para o Bulls. Ao invés de se contentar em ser o sexto melhor time do Leste eles estão perdendo bons jogadores apenas para poder tentar dar um passo rumo ao topo na temporada que vem. Arriscado, mas necessário. E Warrick ainda poderá quebrar um galho com a ausência do Tyrus Thomas.

Para o Bucks a troca é muito boa. Perdem dois jogadores que jogavam pouco e não eram essenciais no elenco e em troca recebem um pontuador. Considerando que marcar pontos é a maior dificuldade da equipe e que o Salmons joga na posição do machucado Redd, foi uma boa aquisição para tentar roubar a oitava vaga nos playoffs.
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Washington Wizards manda: Dominic McGuire
Sacramento Kings manda: Uma escolha de 2º round e bufunfa

Típica troca de último dia de trocas. Um time quer fazer uma graninha, outro quer uma escolha de draft, um perdeu muita gente em trocas maiores e quer compor o elenco e por aí vai. Você nunca mais vai ouvir desse negócio na sua vida.
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New York Knicks manda: Darko Milicic
Minnesota Timberwolves manda: Brian Cardinal

Com essa troca o campo magnético da Terra foi alterado, as regras vigentes na economia mundial mudaram por completo e o Wolves agora é sério candidato ao título e à presidência dos Estados Unidos. Ou numa versão menos plausível...

O David Kahn, manager do Wolves, disse estar intrigado com o Darko. Disse que ele às vezes dá flashes de grande jogador e logo depois de jogador horrível e que decidiu dar meia temporada de chance ao pivô sérvio na NBA antes de sua despedida, já que Darko disse que após essa temporada ele não pretende nunca mais jogar nos EUA.

Já o Knicks fez a troca porque o contrato do Cardinal, que expira também ao término dessa temporada, é um pouco mais barato, rendendo uma economia nas multas pagas pela equipe.
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Memphis Grizzlies manda: Escolha de 1a rodada
Utah Jazz manda: Ronnie Brewer

O Jazz já trocou Eric Maynor por um pacote de Trakinas vencidas por questões financeiras e aqui repete a dose. Por uma singela escolha de primeira rodada mandam um belo jogador, Brewer, que ajudaria qualquer time com sua velocidade, explosão, ótimos números em roubo de bola e eficiência no contra-ataque.

O Grizzlies não perde quase nada e em troca recebe tudo o que precisa. Um cara que se encaixa com o estilo de contra-ataque do time e, finalmente, um jogador decente para vir do banco de reservas. O banco do Memphis era um dos que menos tinha minutos por jogo e era claramente um dos menos talentosos da NBA.
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Boston Celtics manda: Eddie House, JR Giddens e Bill Walker
New York Knicks manda: Nate Robinson e Marcus Landry

A troca estava combinada faz tempo, mas por questões financeiras não poderia ser apenas House por Robinson. Depois de horas e horas de conversa eles pensaram "Hum, que tal a gente mandar um monte de jogador ruim, que não entra em quadra e com contratos que já vão acabar?" Perfeito.

Agora o Eddie House brinca de arremessar de 3 no esquema do D'Antoni até acabar seu contrato no fim do ano, enquanto o Nate Robinson vai lá estragar o Celtics. Claro que ele é melhor e mais completo que o House, mas também mais fominha, estraga mais o resto da equipe e quer ser herói quando não deve. Cansei de ver o Nate perder jogos sozinhos para o Knicks porque ele que queria fazer a cesta da vitória ou a cesta da virada. Ridículo, o Celtics vai se arrepender dessa troca.
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Philadelphia 76ers manda: Royal Ivey, Primoz Brezec e uma escolha de 2º rodada
Milwuakee Bucks manda: Jodie Meeks e Francisco Elson

Uau! Que revolução. Na prática o Sixers mandou um bom dançarino e uma escolha de 2º rodada em troca do jovem e talvez-útil-se-der-sorte Jodie Meeks.
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Em nota também importante, os fracassos: apesar das tentativas de Heat, Cavs, Knicks, Kings e mais um monte de gente, ninguém tirou o Amar'e Stoudemire de Phoenix e nem Carlos Boozer de Utah.

Agora ou nunca

Jamison é um prato cheio pra quem gosta de fazer montagens pornográficas

Na terça-feira falamos sobre a troca que o Wizards fez mandando o Caron Butler para Dallas, ontem falamos do Clippers mandando o Marcus Camby para Portland e ontem à noite foi a vez dos dois times, contando com a ajuda do Cavs, terminarem o desmonte de suas equipes pensando no mercado de Free Agents do ano que vem.

No começo da noite passada Danny Ferry, general manager do Cleveland Cavaliers, ligou uma última vez para Steve Kerr, manager do Phoenix Suns, para saber como estava a situação de Amar'e Stoudemire. Ao saber que de lá não ia sair mais nada, decidiu partir para a segunda opção e fechou uma troca com o Washington Wizards e o Los Angeles Clippers. No saldo final da troca o Wizards perdeu Antawn Jamison e em troca recebeu Zydrunas Ilgauskas, Al Thornton e uma escolha de draft do Cavs, que por sua vez perdeu Ilgauskas e levou pra Cleveland Antawn Jamison e o armador Sebastian Telfair. O Clippers perdeu Thornton e recebeu em troca o Drew Gooden, que, trocado mais uma vez, pelo segundo dia seguido, é o novo Quentin Richardson da NBA.

Vamos analisar essa troca por partes:

Cleveland Cavaliers
Apesar da melhor campanha da NBA, o Cleveland sentia que precisava mudar alguma coisa para chegar ao título, um aprendizado da temporada passada quando terminaram a temporada regular com o maior número de vitórias e depois caíram diante do Orlando Magic porque não tinham ninguém para marcar o Rashard Lewis na defesa e ninguém com bolas no saco para chamar o jogo no ataque além do LeBron James.

Com essa troca o Cavs consegue um cara muito parecido com o Rashard Lewis, que não só poderá marcá-lo como poderá fazer o mesmo estrago no ataque. Jamison é um dos poucos alas de força que tem um arremesso preciso de longa distância sem perder o poder ofensivo dentro do garrafão. Lá perto da cesta ele não é um cara de força, mas com sua finesse consegue os pontos que quer. Imagino que no Cavs ele possa ser útil dos dois jeitos, pode ficar longe da cesta abrindo espaço para as infiltrações do LeBron e para o trabalho do Shaq, enquanto pode ir lá dentro quando estiver sendo marcado por alguém mais baixo.

Essa estratégia de deixar um arremessador do lado do Shaq para se aproveitar da atenção que o pivô chama lá perto da cesta já estava sendo usada quando o técnico Mike Brown colocava Shaq e Ilgauskas ao mesmo tempo em quadra. Até dava certo, mas o time ficava muito lento e apanhava de garrafões mais jovens e atléticos. Com Jamison, muito mais veloz que o Big Z, esse problema fica amenizado.

Apesar de consagrado como ala de força, o Jamison é ágil e rápido o bastante para jogar na posição 3, isso daria ainda mais opções para o Cavs enfrentar qualquer outro tipo de oponente. Podem montar um time alto e rápido com Mo Williams, LeBron, Jamison, Hickson e Varejão, ou um time baixo e cheio de arremessadores e um pivozão no meio com Mo, Delonte West, LeBron, Jamison e Shaq. Ou seja, Jamison é um cara talentoso, experiente e versátil que chega em um time que já tinha jogadores o bastante para montar várias formações diferentes capazes de se adaptar a qualquer time da NBA.

Se no ano passado faltava alguém para lidar com Rashard Lewis e os matchups estranhos do Magic, agora não tem mais essa desculpa. Se na última derrota faltou gente experiente para chamar o jogo além do LeBron, agora eles tem toneladas de experiência com Jamison e Shaq. Podem dizer que o Jamison era a segunda opção, mas acho que era melhor do que a primeira. Se o Cavs pegasse o Amar'e eles reuniriam a dupla Stoudemire e Shaq no garrafão, uma dupla que já não deu certo no ano passado em Phoenix, não existia razão para dar certo dessa vez. Além disso teriam que mandar o promissor JJ Hickson para o Suns, uma das condições primordiais da troca, e nessa com o Wizards eles só perderam o Ilgauskas, que ainda poderá ser dispensado do Washington e voltar para Cleveland daqui 30 dias.

Washington Wizards
Um fato curioso dessa troca é que a discussão está na mesa há semanas e o Wizards estava muito relutante em fazê-la. Não porque não queriam perder o Jamison, mas porque não queriam ajudar tanto o Cavs a serem campeões devido à rivalidade entre as duas equipes que se criou nos últimos anos. Não deve ser legal ajudar um rival mesmo, mas o Wizards deve ter pensado que a rivalidade já é coisa do passado já que eles nem conseguem mais ir para os playoffs perder do Cavs.

Falou mais alto a vontade de limpar o máximo de espaço salarial para a temporada que vem. Já que ninguém quer o Gilbert Arenas, que troquem todo o resto que ainda tem valor de mercado e comecem do zero.

Quem ficou bastante magoado com tudo isso foi o próprio Antawn Jamison. Ele tinha uma relação bastante profunda com a franquia, desde os donos, torcedores, cidade, até com o resto dos jogadores e funcionários. Era o capitão da equipe, o mais experiente e foi a voz dos jogadores e elo entre eles e a torcida e direção da equipe durante todo o escândalo do Arenas com o Javaris Critentton e suas armas. Ontem, ao saber da troca, perguntaram pra ele se tinha alguma mensagem para os fãs, ele respondeu apenas "Eu amo mais eles do que eles me amam".

É interessante essa reação do Jamison um dia depois do Camby também ter ficado triste de ter saído do Clippers. Nos dois casos são jogadores muito bons que estavam afundando com equipes terríveis e foram trocados para potências de suas conferências. Mesmo assim os dois não esconderam a tristeza de deixar um time e uma cidade com quem tinham profunda relação. Claro que não vão reclamar de finalmente voltar a vencer alguns joguinhos (e talvez um campeonato), mas é legal ver a relação que alguns jogadores criam com seus times.

Em termos de basquete o Wizards é hoje um time pior do que era antes da troca, claro, mas é uma chance da pivetada ter minutos de sobra pra mostrar quem deve ou não continuar no time. Ontem o pivô JaValle McGee, que herdou a titularidade do Brendan Haywood, e o Andray Blatche, que é o novo titular no lugar do Jamison, fizeram grandes partidas. Randy Foye e Nick Young tem a chance de suas carreiras agora também.

A troca foi feita por questões de dinheiro e a partir de agora a equipe tem para o ano que vem apenas 7 contratos garantidos: Gilbert Arenas, Randy Foye, Andray Blatche, Nick Young, JaValle McGee, Quinton Ross e o outro cara que chegou na troca, Al Thornton, que, assim como os outro jovens da equipe, terá meia temporada para se firmar na equipe depois de ficar encostado no Clippers.

Isso significa que eles tem um contrato monstro com o Arenas, um bando de pivete barato e um bom espaço para contratar pelo menos um cara espetacular. Se é que algum cara espetacular quer se arriscar nesse time que deu errado até com 3 All-Stars jogando ao mesmo tempo.

Los Angeles Clippers
A troca do Al Thornton é um grande mistério. Ele jogou muito no seu primeiro ano como novato, jogou melhor ainda no ano passado e nesse ano ficou completamente de lado no Clippers. Perdeu a vaga de titular, seus minutos e números despencaram e, de repente, o manager Mike Dunleavy disse que eles estavam fazendo de tudo para trocá-lo afim de liberar espaço salarial.

Conseguiram fazer isso ontem e ao mesmo tempo se livraram do contrato do Sebastian Telfair. Os dois juntos somavam pouco mais de 5 milhões de dólares em salário, são jovens e bons, não é como se os dois carregassem contratos imbecis como o do Jared Jeffries ou do Eddy Curry, juro que não entendo o desespero de se livrar tão rapidamente de um jogador que até outro dia era uma peça tão valiosa em troca de nada além de espaço salarial.

Em dois dias o Clippers perdeu Marcus Camby e Al Thornton e em troca só ganhou a chance de poder oferecer contratos enormes na próxima offseason. Mas e daí? Quantos Free Agents bons você já viu com vontade de ir para o Clippers? No passado recente eu só lembro do Baron Davis, e dizem que foi só porque ele queria ficar perto do estúdio de cinema que ele comprou em Los Angeles. Assim como dissemos ontem em relação à troca do Camby, o Clippers perdeu com o Thornton uma boa chance de receber em troca escolhas de draft ou jogadores novos para reconstruir o time.

O resumo dessa troca é que dois times fizeram mudanças para desmontar o resto de seus times ruins e se preparar para a próxima offseason, o outro já tinha a melhor campanha da liga e conseguiu adicionar um All-Star em troca de um pivô reserva, um fatality. Se o Cavs for campeão, que mande pelo menos uma réplica do anel para Wizards e Clippers, se não for campeão, aí adeus LeBron. Se nem com um elenco monstruoso ele consegue alguma coisa por lá, é bem provável que vá embora.