quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Podcast do Bola Presa

Esse será o menor post da história do Bola Presa! Mas só porque ao invés de escrever muito, falamos muito. Está aqui o primeiro número do Podcast do Bola Presa, uma das várias novidades que queremos implementar para a temporada que vem da NBA! Nesse primeiro episódio abordamos assuntos essenciais como a WNBA, novelas, curling e o Kyle Lowry. 
Nós sempre evitamos o podcast porque não sabemos falar, temos dicção ruim e achamos que ia ser um lixo. Mas como eu entrei numa fase de ouvir podcasts alheios resolvi tacar meus medos fora e tentar. Não sei se o resultado foi o ideal, mas nos divertimos no processo e temos esperança de melhorar número após número.

Para ouvir o podcast aqui no blog é só clicar no player abaixo.
Para baixar o arquivo e ouvir no seu mp3 player, celular, PSP ou para queimar em um CD e ouvir no seu discman (vai saber!), use esse link! (Estamos hospedando nosso podcast em servidor próprio, ele já está disponível para download de novo. Para baixar o arquivo é só clicar no link com o botão direito do mouse e selecionar a opção "salvar link como")




Durante o podcast falamos de duas pesquisas que prometemos postar os seus links aqui. São elas:
Navegg: Perfil dos internautas interessados em esporte
Deloitte: Pesquisa sobre os gostos esportivos dos brasileiros

sábado, 24 de setembro de 2011

Dono da bola - Cleveland Cavaliers

Dan Gilbert não é pão duro como a foto sugere


Dan Gilbert
Temporadas no comando: 6
Playoffs: 5
Títulos de divisão: 2
Títulos de conferência: 1
Títulos da NBA: 0

Riqueza estimada: 1.5 bilhão de dólares
Comprou o time por: 375 milhões de dólares (2005)
Valor atual da equipe: 355 milhões de dólares
Maior contrato oferecido: Larry Hughes  (US$60 milhões, 2005)
Técnicos contratados: 2 (Mike Brown e Byron Scott)

Durante um bom tempo Dan Gilbert teve uma história comum para os donos de time da NBA. Era um empresário de sucesso, ficou milionário, depois bilionário e por gostar de esportes decidiu ter como investimento/hobby um time de basquete. O cara era tão comum que muito torcedor da NBA nem sabia o nome dele, mas isso mudou de um ano pra cá. Nos últimos meses deve ter sido o dono de equipe mais citado pela imprensa especializada, ultrapassando até figurões como Mark Cuban, James Dolan e Jerry Buss.

Comecemos com a história tradicional. Em 1985 Dan Gilbert reuniu os 5 mil dólares que juntou entregando pizzas na faculdade e fundou a Rock Financial, empresa de crédito imobiliário. A companhia foi crescendo pouco a pouco até que estourou nos anos 90 quando decidiu usar a internet para fazer os seus negócios diretamente com os clientes. Em 2000 uma empresa chamada Intuit comprou a Rock Financial, mas três anos depois Gilbert a comprou de volta e como CEO a renomeou para Quicken Loans. Sim, você conhece esse nome, é o mesmo do ginásio onde o Cavs joga, apelidado de "The Q".

Como homem de negócios o Dan Gilbert é um sucesso. Sua empresa sobrevive muito bem mesmo sendo da área que desencadeou a crise econômica de 2008, ficou no Top 30 da Forbes de melhores empresas para se trabalhar e o cara foi listado no ano passado como o 293º homem mais rico dos EUA.

Mas o que achei de mais interessante na história do Gilbert é como ele está investindo em duas das cidades mais decadentes dos Estados Unidos: Cleveland e Detroit. Ambas vivem recessões terríveis há tempos e que foram agravadas pela crise econômica, sofrem com desemprego recorde nos EUA e parecem em um buraco sem fim. Não vou aqui julgar se Gilbert foi investir nas duas cidades por apego emocional (ele nasceu em Detroit e é dono do Cavs), bondade ou só porque era um nicho a ser explorado, não importa, vale o que ele faz. Em Cleveland e em outras cidades grandes de Ohio ele conseguiu uma liberação para cassinos, o que trouxe investimentos, empregos e, quando os cassinos ficarem prontos, provavelmente muitos turistas. Para Detroit as mudanças foram maiores: A sede da Quicken Loans mudou para lá e Gilbert começou a financiar a criação de empresas de tecnologia sediadas em Detroit, sem contar que ele comprou diversos prédios no centro da cidade para poder reformá-los, usá-los e assim revitalizar a cidade.

Ele é, portanto, um cara importante no seu meio, nas suas cidades, mas, como a maioria dos donos das equipes, não era muito de chamar a atenção para os fãs da NBA. Ele ficava lá no seu camarote e as grandes e polêmicas decisões sobre os rumos que o Cavs tomava eram feitas pelos técnicos e General Managers escolhidos por Gilbert, que tinham total autonomia e pouca pressão. O dono, aliás, nunca regulou muito dinheiro e aprovou trocas como a do Antawn Jamison e contratos insanos como o do Larry Hughes. Mas o foco saiu dos managers e passou para o dono há pouco mais de um ano, no instante em que LeBron James decidiu levar os seus talentos para South Beach.

Na fatídica noite do "The Decision", quando torcedores do Cavs queimavam camisetas de LeBron nas ruas, Dan Gilbert resolveu se manifestar. Em poucas horas redigiu uma carta e a publicou no site do Cavs. Nela disse coisas como "EU GARANTO QUE O CLEVELAND CAVALIERS IRÁ VENCER UM TÍTULO DA NBA ANTES QUE O AUTOINTITULADO REI GANHE UM".

Eu não tropecei sobre o Caps Lock do meu teclado não, ele escreveu esse trecho da carta em caixa alta mesmo, assim como escreveu toda a mensagem em Comic Sans, a fonte mais odiada da internet! Procure a coitada no Word e veja como não é das fontes mais bonitas, mas o ódio sobre ela na internet é algo digno de ganhar um site próprio, um documentário e matéria na BBC. Bizarrices da internet (e de designers metidos a artistas) à parte, só serviu para a carta, que já era uma demonstração de total descontrole emocional de Gilbert, virar piada mundial.

O esquecido dono de time então virou celebridade e as opiniões sobre ele eram as mais diversas possíveis. Por um lado ele era um herói por ter falado mal publicamente do LeBron James, o vilão número 1 da América no último ano, por outro ele era o dono incompetente que teve o mesmo LeBron no seu time durante anos e nunca ganhou um título. Alguns exaltavam o seu jeito desastrado-porém-sincero de se expressar, outros viam o cara como um maluco despreparado para qualquer função dentro do time. Comentários bons ou ruins, Gilbert se tornou um daqueles poucos donos que todo mundo lembrava o nome.

Quando o Miami Heat perdeu a final para o Dallas Mavericks todos esperavam uma palavrinha do dono do Cavs, afinal sua promessa da franquia ser campeã antes do LeBron estava ainda viva, e Gilbert não decepcionou: "Uma velha lição para todos: NÃO EXISTEM ATALHOS. NENHUM". Novamente o Caps Lock é todo dele. Toda a torcida anti-Heat (o planeta Terra, menos Miami) foi ao delírio, mas os mais sóbrios o associavam a uma ex-namorada ainda inconformada e ressentida. Mesmo quando ganhava, Dan Gilbert não tinha uma imagem lá muito boa no mundo do basquete. Algo oposto da percepção no seu mundo de negócios.

Ele virou notícia de novo quando o Cavs venceu o sorteio que definia a ordem de escolha do Draft 2011, e não só porque ficaram com a escolha 1 (que virou Kyrie Irving), mas também com a 4 (Tristan Thompson). No dia do sorteio cada time escolhe uma pessoa para representar a franquia no programa de TV que anuncia o resultado, geralmente equipes levam seus donos, managers, algum jogador ou, como já aconteceu, sorteiam um torcedor para ir lá tentar dar sorte. O Dan Gilbert resolveu levar o seu filho de 14 anos, Nick Gilbert, que sofre de Neurofibromatose, um distúrbio genético de ficção científica que faz com que tumores possam crescer a qualquer hora em qualquer parte do corpo. Durante a participação de muita sorte, que reergueu a esperança da franquia voltar a ser relevante, ele ainda conseguiu juntar dinheiro e atenção para a "Children's Tumor Foundation", entidade de pesquisa especializada em tumores em crianças.



Foi um momento bonito que humanizou Gilbert e fez sua imagem melhorar. Por pouco tempo. Eis que semana passada lá está ele de volta aos noticiários. Nada a ver com LeBron James, nenhuma carta pública e ninguém para ver o lado bom das suas ações dessa vez. Dizem os noticiários norte-americanos que os donos das equipes da NBA estavam prontos para aceitar algumas propostas dos jogadores que estavam emperrando as negociações, mas quando se reuniram entre si, Dan Gilbert e Robert Sarver, dono do Phoenix Suns, rejeitaram as ofertas e tudo voltou à estaca zero. Eram coisas como o não congelamento e mantimento sem restrições dos salários atuais e a chance dos jogadores aumentarem seus salários quando a liga começar a dar mais lucros.

O que revoltou a galera é que um acordo entre as partes deveria estar, claro, em um meio termo entre o pedido por donos e jogadores. O meio termo estava lá, era só aceitar e bola pra frente. A maioria dos donos já tinha feito isso, mas Gilbert e Sarver deram pra trás. O dono do Cavs, aliás, sempre teve uma política de torrar dinheiro, pagar multas e contratar caras de salários estratosféricos para dar um elenco decente para LeBron James (fortunas para Anderson Varejão, Zydrunas Ilgauskas, Antawn Jamison, Mo Williams, Larry Hughes e outros caras mais ou menos), mas agora que ninguém mais quer ir para Cleveland, ele tem essa visão de que não é certo alguns times gastarem tanto e que qualquer economia é necessária. Defender só o próprio time ao invés da liga como um todo não pegou bem entre donos, jogadores, imprensa e torcida.

Foi a vez da internet de novo jogar sua fúria sobre Dan Gilbert e diversos blogs sobre NBA nos Estados Unidos desceram a lenha no cara que havia impedido o fim da greve. Como resposta ele disse no Twitter que "esses blogssistas inventam histórias do nada e tentam fazer seus leitores acreditarem. Triste e patético". De novo não é erro meu, ele inventou a palavra "bloggissist" mesmo. Não preciso explicar a chuva de piadas e de blogueiros se chamando de blogssistas.

Não sabemos ao certo se o que aconteceu foi isso mesmo, pra falar a verdade nem sei o quanto apenas dois donos podem empacar o que os outros 27 querem. Mas é o que foi noticiado. Como afirmo desde que começou a greve, nenhum dos dois lados se sente na obrigação de contar tudo o que acontece para a imprensa e para os fãs, que são completamente ignorados, e tudo o que sabemos são de fontes anônimas que muitas vezes estão manipulando a imprensa para fazer jogos com a outra parte. Nesse caso, portanto, Dan Gilbert pode não ser vilão como muita gente quer que pareça. Mas convenhamos que é fácil, prático e conveniente jogar nossas frustrações com a falta de NBA em cima do cara da carta em Comic Sans.

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"Dono da Bola" é uma série que faz perfis dos donos de equipes da NBA. Abaixo o link para os textos já publicados dentro dessa coleção:

Philadelphia 76ers - Ed Snider
Boston Celtics - Wyc Grousbeck
Washington Wizards - Abe Pollin
Los Angeles Clippers - Donald Sterling

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A fantasia de um mundo sem patrão

O Itaquerão da Flórida


Hoje aconteceu mais uma reunião entre a Associação dos Jogadores e os donos de equipes da NBA. O clima para antes do encontro era ótimo, o pessoal dos boatos já dizia que o Derek Fisher, presidente da Associação, já havia mandado até mensagens para os jogadores dizendo para eles irem se preparando fisicamente para a temporada, notícia que ele desmentiu depois. De qualquer forma os dois lados pareciam mais dispostos do que antes e existia um ar de otimismo.

Mas o final não foi de conto de fadas. Derek Fisher e Billy Hunter, o advogado que negocia em nome dos jogadores, saíram da reunião dizendo que poucos progressos foram feitos e que não existe razão para achar, hoje, que o Training Camp e a Pré-Temporada vão ocorrer no final de Setembro e começo de Outubro como previsto. Se a temporada começar na hora certa, será com o sacrifício dessas duas fases. Pelo jeito alguns avanços foram feitos nas questões econômicas, mas que além delas ainda existem questões da estrutura e formato da liga (que também influenciam a questão econômica) que os jogadores não aprovaram.

As razões e ambições dos dois lados a gente já discutiu aqui. Falamos da briga entre a divisão da renda, do hard cap/soft cap, garantia de salários e tudo mais. E já que falamos dos problemas, que tal agora uma solução? Propostas de novos formatos pipocam a toda hora, mas um deles foi o que mais me chamou a atenção e o que vou reproduzir aqui. É uma liga sem donos, criada pelos jogadores e gerenciada por eles com o apoio de governos municipais.

A proposta nasceu em um texto do economista David Berri, e vale a pena um parênteses para falar sobre o cara. Ele é formado em Economia e é especializado em esportes, ganhou fama ao escrever o livro "The Wages of Win", que analisa de forma racional, econômica e estatística os 4 grandes esportes americanos: Beisebol, Basquete, Hóquei e Futebol Americano. Lá o autor discorre, por exemplo, sobre o quanto a folha salarial influencia nas vitórias de um time de beisebol, o quanto o desempenho de um quarterback define o sucesso de um time de futebol americano e, no basquete, ele cria uma nova maneira de medir o quanto um jogador, individualmente, contribui para a vitória da sua equipe, é o "Wins Produced", que é algo impossível de entender e mais ainda de explicar, mas os resultados podem ser vistos aqui. O importante é que ela vai completamente contra as formas acumulativas de medir eficiência, aquelas que simplesmente somam pontos, rebotes, assistências e outros números que vemos no box score.

Todo mundo vê David Berri como alguém que analisa a NBA da forma mais diferente possível. Concordando ou não, é interessante que ele tenta ver o esporte por outra perspectiva que vai além do lugar comum que jornalistas e comentaristas esportivos veem. Provavelmente por ele ser um economista, não alguém da imprensa ou ex-atleta, claro.

No texto que Berri fez para o Huffington Post, ele dispara a pergunta: Os jogadores e as cidades dos EUA realmente precisam dos donos?

A primeira coisa que ele traz à tona são histórias conhecidas: A mudança do Sacramento Kings para Anaheim, que quase aconteceu na temporada passada, e que é muito parecida com a história do fim do Seattle Sonics e sua mudança para Oklahoma City. Nos dois casos a NBA pressionou as franquias para a construção de novos ginásios, construções maiores, com mais lugares, ingressos mais caros e maior área de entretenimento e alimentação. Em outras palavras, mais formas dos torcedores saírem de casa e ir lá torrar dólares mesmo que o time seja ruim.

Mas tanto o Sonics como o Kings não tinham dinheiro para bancar arenas milionárias e foram então correndo atrás da prefeitura da cidade atrás de financiamento. A de Seattle votou e decidiu que não iria gastar dinheiro público com arenas esportivas para uso de equipes privadas, já a de Sacramento, onde o prefeito é o ex-jogador da NBA Kevin Johnson, decidiu tirar a mão do bolso e prometer que vai construir um novo ginásio em um futuro próximo, fazendo a NBA e os donos da franquia, os irmãos Maloof (façam vocês as piadas), esquecerem temporariamente a ideia de mudar de cidade.

Não são fatos isolados, isso aconteceu mais vezes. O Orlando Magic tinha uma das arenas mais velhas da liga, então logo a NBA pressionou o time e cidades como Oklahoma City (na época sem o Thunder), Kansas City e Las Vegas estavam babando para pegar o Magic. Então a franquia foi falar com a prefeitura da cidade e negociaram uma maneira da cidade bancar o projeto: Dos 450 milhões de dólares que o ginásio custou, o Magic pagou 50 milhões, a prefeitura e uma nova taxa cobrada em hotéis da cidade (se você é um turista que foi pra Disney, ajudou a pagar) bancaram o resto. Como compensação a cidade recebeu uma parte dos direitos de nome (Amway Center, que custou 40 milhões à empresa de vendas diretas) e 1 milhão de dólares por ano pelos próximos 30 anos do Orlando Magic.

E tem mais: A arena do Charlotte Bobcats foi 100% paga com dinheiro público, assim como as do Memphis Grizzlies, Phoenix Suns e Oklahoma City Thunder. A do San Antonio Spurs foi 85% paga pela prefeitura, a do Houston Rockets 81% e a do Dallas Mavericks, 50%. Todas essas arenas construídas nos últimos 10 anos.

Isso está soando bem familiar, não é? Estádios da Copa do Mundo estão sendo feitos pelo governo para depois serem entregues a clubes privados e Andrés Sanchez está sorrindo em algum lugar. Os argumentos usados aqui são os mesmos usados lá: fará bem para a cidade, dará lucros para todos a longo prazo, irá movimentar a economia da região, gerar empregos e etc, etc, etc que ouvimos de todos os políticos que decidem bancar a brincadeira.

Esse assunto é tratado em dois outros textos que li recentemente, um é o já citado Soccernomics, livro que é um Wages of Win do futebol, e em uma matéria da revista piauí sobre a Copa do Mundo da África do Sul, "A Copa do Cabo ao Rio" da Daniela Pinheiro. Ela até cita o Soccernomics no texto dela quando o assunto é a construção de obras em cidades que vão sediar Olimpíadas ou Copas do Mundo. Ambos os textos concluem que o custo de infraestrutura e construção de obras sempre supera a receita da competição, e que o tal aquecimento da economia da região (cidade, bairro, entorno da arena) é impossível de medir já que as projeções são sempre feitas a longo prazo e, logo, influenciadas por outras trocentas mil coisas. Como saber se a economia de Phoenix foi beneficiada pela arena nos últimos 10 anos se a crise econômica mascarou tudo?

Existe, portanto, algum lado bom em sediar uma Copa do Mundo ou, no caso dos Estados Unidos, ter uma franquia da NBA em sua cidade? Sim. De acordo com pesquisas realizadas nas cidades com essas características dá pra ver que a população local fica mais feliz, que o sentimento de patriotismo ou bairrismo aumenta e que a auto-confiança da cidade transparece. Vale a pena pelo intangível, não por questões econômicas. O Soccernomics chega a ir além ao mostrar que seleções nacionais disputando grandes torneios e equipes que criam identificação com cidadãos de sua cidade são capazes de prevenir suicídios.

Voltamos então à questão de uma liga criada pelos jogadores. As cidades já gastam muito com os times e os jogadores são o material imprescindível para a qualidade do espetáculo, onde entram os donos na história? Como bem lembra o David Berri, no capitalismo os donos entram com o capital (prédios, instalações, maquinário) e os trabalhadores com a sua força de trabalho, a renda depois é distribuída entre as duas partes. Mas na NBA o governo está bancando uma parte enorme do capital (os ginásios onde eles jogam, a parte mais cara de ser um time) e o resto (viagens, salários) podem ser pagos por qualquer fonte de renda, como direitos de TV que os jogadores receberiam em sua totalidade se fossem donos das próprias equipes. Outra coisa, na NBA os trabalhadores não podem ser substituídos por quaisquer outros, é um negócio completamente diferente se você trocar o Kobe Bryant pelo Nezinho no Los Angeles Lakers. 

A ideia, portanto, é: Os jogadores, unidos, procuram um grupo de cidades que não tem times de basquete profissional e oferecem a ideia de uma liga. As cidades bancam o ginásio, os jogadores entram com sua força de trabalho. O lucro gerado por ingressos, TVs e produtos é distribuído entre os jogadores da maneira que eles acharem mais justa (isso dá pano para discussão, mas aí é jogador contra jogador até virar uma Revolução dos Bichos, pelo menos) e outra parte vai de compensação para a cidade, que está investindo na sua população, como já o faz, mas dessa vez até recebendo financeiramente em troca, já que não existe o dono do time para tirar um pedaço.

Essa liga perderia coisas muito importantes, primeiro o nome "NBA", uma marca muito forte ao redor do mundo, além dos direitos à história da liga (nada mais de clipe de abertura das finais com cenas do Michael Jordan fazendo falta de ataque no Byron Russell) e de outras marcas famosas como Los Angeles Lakers e Chicago Bulls. Seria como começar do zero, o dinheiro seria menor, mas quem é fã de basquete provavelmente não iria deixar de assistir se, no fim das contas, mesmo em outros uniformes, estivessem Kobe Bryant, LeBron James, Tim Duncan, Derrick Rose e Kevin Garnett dentro de quadra.

Porém, mais do que o funcionamento e rendimento dessa liga, que poderia ser até temporária na minha opinião, o David Berri argumenta que seria uma forma dos jogadores mostrarem na prática o seu lado e sua importância. Que eles podem viver sem os donos, mas que os donos não podem viver sem os jogadores, e assim ganhar espaço e apressar as negociações.

A criação da liga em si é ainda uma fantasia. Não deve chegar perto de acontecer a não ser que a temporada seja realmente cancelada, e mesmo assim eu vejo mais os jogadores indo para a Europa ou China do que se dando ao trabalho de criar uma liga própria. Mas o mérito do raciocínio do David Berri é questionar o quanto os jogadores realmente necessitam dos donos e trazer à tona a questão da ajuda pública para esses times. Trazer as cidades para a questão foi importante, mas por enquanto, como o exemplo de Sacramento mostrou, os prefeitos ainda são obedientes aos donos para não ter que arcar com o mico de dizer a seus eleitores que deixaram o seu time querido fugir da cidade.

A greve parece que vai ser longa, bastante tempo pra gente divagar sobre esses assuntos.

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Algum assunto que você quer ver abordado aqui no Bola Presa? Faça sua sugestão nos comentários. Não prometemos obedecer, claro, mas não custa tentar.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

FAQ - Seleção Brasileira

Eu não tinha a menor ideia de quem era o cara que chutou a bunda do Scola


No glorioso 7 de setembro, independência da nossa grande nação das garras portuguesas, um grupo de heróis resolveu homenagear a nossa pátria acertando uma bola laranja dentro de um cesto defendido por um grupo de estrangeiros. Ao fim de 40 minutos de batalha, o número de bolas acertadas nesse cesto foi grande o bastante para que 190 milhões de pessoas (ou pelo menos umas 300 no Twitter) conclamasse que Rafael Hettsheimer tinha um valor tão grande quanto o de Dom Pedro I para essa data.

Ao ver que o Bola Presa, esse blog da imprensa imperialista/golpista/mala-sem-alça/anti-patriota não tinha comentado nada sobre o jogo, pipocaram muitas perguntas no nosso Twitter e Formspring questionando o motivo de não tocarmos no assunto e, ao mesmo tempo, nos pedindo opiniões sobre a seleção brasileira e seus jogadores, em especial perguntas suuuper novas como "Por que o Machado ainda está na seleção?" e "Por que o Huertas não está na NBA?".

Resolvemos então fazer um FAQ respondendo as perguntas repetidas que recebemos e encerrando o assunto. E faremos isso antes do decisivo jogo de amanhã contra a República Dominicana para não ser uma resposta motivada por resultado.


Pergunta 1
Versão educada: "Por que vocês não falam do Pré-Olímpico e do Eurobasket?"
Versão troll: "Te peguei no flagra assistindo a seleção! Cadê os Mr.NBA? Cadê? Tão vendo outras coisas agora, é?"

Se você acompanha o blog desde os tempos mais remotos, quando éramos underground, pouco conhecidos e não eramos modinha mainstream, você irá lembrar que já fizemos cobertura de Pré-Olímpico, Pré-Olímpico Mundial, de Mundial, de Olimpíada (mesmo com o Brasil fora) e até de Paraolimpíada! Ou seja, já tentamos.

Mas depois de fazer tudo isso, eu e o Danilo paramos para refletir se realmente valeria a pena partir para essa mais uma vez. A proposta do blog quando o criamos era falar de NBA, não de basquete em geral, e isso foi uma decisão baseada nos nossos gostos, talentos e conhecimentos. Mudamos no meio do caminho e não gostamos do resultado, o que não quer dizer que não gostamos do assunto. As revistas INFO ou Capricho evitam o assunto política porque não é a proposta delas, não porque os seus repórteres e responsáveis não achem o assunto digno de atenção, a mesma coisa da gente com o basquete fora da NBA.

Sentimos que estávamos saindo fora do nosso meio, que não nos divertíamos no processo e, mais importante e broxante, não acrescentávamos nada de novo à discussão. Modéstia à parte, acho que trazemos à tona assuntos, pensamentos e informações que são novas e interessantes para o público da NBA. Mas quando falamos de outros torneios acabamos caindo no lugar comum e só repetindo informações e opiniões que estão em toda a parte. Estão aí o Rodrigo Alves, o Balassiano, o BasketBrasil, DraftBrasil e o novo Basketeria cobrindo a seleção com gosto, vontade e conhecimento, não somos necessários nessa frente.


Pergunta 2
Versão educada: "Então quer dizer que você só assistem NBA?"
Versão troll: "Bando de paga pau dos EUA, só assiste o que acontece lá, né?"

Eu volta e meia estou assistindo a NBB, Euroliga, ACB e NCAA, no Chipre eu até assisti a jogos da bizarra Divisão A Cipriota, mas não quer dizer que assista todo dia/semana e entenda do assunto. Um dos motivos que faz com que eu me sinta à vontade fazendo um post sobre, por exemplo, o Bucks, é que eu já assisti uns trocentos jogos deles antes de escrever. E assisti ainda mais no ano passado e no anterior e no anterior. E acompanho a carreira do Michael Redd, do Brandon Jennings, do Richard Luc Mbah a Moute, do Andrew Bogut e de quase o elenco inteiro desde o começo. Sei das brigas e doideiras do Scott Skiles e do seu estilo de jogo. Ou seja, é um assunto que eu posso contribuir de maneira profunda e interessante.

Em contrapartida, o que eu poderia falar sobre o grande nome (em todos os sentidos) do último jogo entre Brasil e Argentina, o Rafael Hettsheimer? Nunca tinha ouvido falar até alguns meses atrás, não sabia onde o cara jogava, nada. Acabaria fazendo o que eu mais odeio que façam em jogos da NBA: que comentem só o momento, aquele segundo, sem saber nada da história do jogador, suas características ou função no time. Quantas vezes um jogador está fazendo uma temporada espetacular mas aquele jogo que calhou de passar na ESPN é um dos seus piores? Aí dá-lhe os comentaristas desinformados dizendo que o cara é um prego. Sim, naquele dia o cara está sendo e isso merece ser dito, mas não sempre e a informação passada fica toda errada.

Pergunta 3
Versão educada: "Mas vocês não acham que tem que dar uma força para o basquete nacional?"
Versão troll: "Por isso que o basquete brasileiro não vai pra frente, ninguém dá atenção. A SporTV fica passando o US Open ao invés de Venezuela x Panamá!"

Nessas 4 temporadas de NBA que acompanhamos no Bola Presa muita gente veio nos dizer que tinha desanimado da NBA e de basquete por muitos anos, mas que voltou a acompanhar o esporte por causa dos nossos textos. Alguns se animaram até a começar/voltar a jogar! Para dar uma força ao basquete basta fazer com que as pessoas achem ele um esporte interessante e dá pra fazer isso falando de qualquer torneio.

O futebol americano e o rugby cresceram em número de praticantes no Brasil porque assistimos aos gringos jogando. Para crescer ainda mais precisamos de mais jogos da NFL por semana ou precisamos passar jogos amadores dos brazucas? Na minha opinião é de mais NFL, é vendo o jogo em seu melhor que as pessoas se encantam e desejam praticar e consumir o jogo.

Nossa intenção com o Bola Presa nunca foi nobre e não pensamos em fazer um site sobre NBA para incentivar o esporte no território brasileiro. Fizemos porque achamos que seria legal, mas naturalmente vimos que ajudamos algumas poucas pessoas a criarem gosto pelo basquete. E para isso não precisamos mentir dizendo que a Liga Sub-13 do Mato Grosso do Sul é interessante.

Pergunta 4
Versão educada: "Mas já que vocês assistem, podem dar a opinião de vocês sobre a seleção?"
Versão troll: "Comenta aê, porra!"

Agora que vocês já sabem que nossa opinião não vale muita coisa, sim, comentamos.

Pergunta 5
Versão educada: "O que acham do Marcelinho Huertas comandando a seleção?"
Versão troll (na íntegra e direta do formspring): "Como voces podem dizer que o Huertas não tem vaga na NBA? O cara destrói, inclusive contra os caras da própria liga americana"

O curioso da segunda pergunta é que a gente nunca disse que ele não tem vaga na NBA! E pior, no ano passado fizemos mais de um post só discutindo o assunto de maneira mais profunda do que uma mera especulação mereceria. Vou tentar ser mais breve dessa vez.

O Huertas é o cara mais importante dessa seleção. Até o jogo contra a Argentina, quando o time (sei lá porque) começou a movimentar a bola e jogar como um time, ele segurava a bola durante 23 segundos dos 24 de posse de bola do time. Quando o Brasil jogava bem era por causa dele, quando estava mal era por causa dele, quando era o melhor time do mundo, era graças ao Huertas. Por um lado vimos um jogador amadurecido, de visão de jogo espetacular e um "floater" quase infalível. Por outro um cara que parecia não confiar em ninguém que não fosse o Tiago Splitter e que queria ganhar sozinho. Não dá pra culpar totalmente ele, o resto do time não é de inspirar tanta confiança assim, mas não é o papel dele como armador. No maior estilo Kobe Bryant, ele é fantástico, mas seus times são melhores quando eles tentam controlar menos o jogo.

E lembram quando entrevistei o Splitter? Parei e conversei um pouco com o Huertas também para uma matéria para o site do Clube Paulistano, onde estou trabalhando. Ao fim da conversa não resisti e disse "Todo mundo fica enchendo o saco de você na NBA, o que VOCÊ acha disso tudo?". Ele me disse que o sonho de ir pra lá sempre existe e que ele acha que tem jogo pra atuar lá, mas que teria que ser no time certo (ele não queria ir para o Miami Heat assistir o Wade e o LeBron controlar a bola, por exemplo) e nem queria ser um novo Sarunas Jasikevicius, ídolo/deus na Europa e que foi para a NBA ser um arremessador que jogava 5 minutos por jogo.

No fundo não faz sentido para ele arriscar uma carreira ótima na Europa (grandes times, torneios importantes, atenção, salário, fãs apaixonados, etc) para jogar na NBA sem garantia nenhuma. Acho que ele tem toda razão, jogo para ir para a NBA é claro que ele tem, mas vale mais a pena você gastar o auge da sua carreira sendo armador titular do Barcelona ou correndo o risco de algum técnico que nunca viu basquete europeu na vida dar piti e te jogar na reserva do Mardy Collins? Se fosse para ir para um time onde ele se encaixasse e tivesse espaço e tempo para se adaptar, ótimo, ir só para dizer que foi é furada.


Pergunta 6
Versão educada: "Por que o Nezinho e o Marcelinho Machado, tão criticados, ainda estão na seleção?"
Versão troll: "O que os técnicos ainda veem nesses merdas do Nezinho e do Crazy Shooter?"

Triste choque de realidade aqui, mas até eu que não assisto basquete brasileiro tão de perto assim já percebi que quando o Marcelinho Machado e o Nezinho jogam, eles dominam. Não é à toa que eles estão todos os anos disputando os títulos mais importantes, não é sorte, no nosso cenário nacional eles ainda estão entre os melhores. De longe.

Talvez, por questão de princípios, de implantar uma nova mentalidade e de forçar uma renovação, você até pode não querer chamá-los, mas se for para levar os melhores jogadores de suas posições eles tem que estar lá. Eles tem uma tonelada de defeitos condenáveis? Sim, e isso mostra como o basquete brasileiro, com ou sem vaga olímpica, é pior do que gostaríamos de admitir.


Pergunta 7
Versão educada: "Se classificarmos, precisamos de Nenê, Varejão e Leandrinho ou isso é uma prova que eles não são necessários?"
Versão troll: "Chupa Leandrinho! Chupa Nenê! Não precisamos de quem não ama o nosso país!!!!1"

Reproduzo aqui uma resposta que o Danilo deu no nosso formspring:

"Olha, o Leandrinho já topou jogar pela seleção antes. Já topou jogar por uma CBB bagunçada, com técnico medíocre, elenco medonho, fora da sua posição natural em quadra, chance de não ter seu seguro pago (como já sabemos que aconteceu), botando em risco seu emprego na NBA, seu salário milionário e sua carreira lá fora, a contragosto dos chefes que assinam seus cheques e pagam suas contas. E sabe o que aconteceu? O Leandrinho foi Leandrinho, ou seja, assumiu um papel secundário, que é o que ele sabe fazer e onde se sente confortável, e a torcida brasileira caiu matando. Gente que não entende bulhufas de basquete, que não faz ideia do que significa o cara ir contra a NBA e vir jogar aqui pra essa zorra da CBB, querendo pendurar o Leandrinho num poste porque ele é "amarelão" e "cagão". Sério? Então foda-se, o Leandrinho tem mais é que não jogar mesmo. Mesma coisa com o Nenê, que além de ser desrespeitado quando joga por aqui, ainda se lesiona sempre porque tem ossos de vidro.

Seleção brasileira é uma escolha, não é serviço militar obrigatório. É um time aí que você joga se estiver com vontade, com pique, com clima, com saúde, se você for respeitado, e se não quiser gastar seu tempo com sua filha recém-nascida, que merece bem mais atenção.

E eu já desencanei desse papo de que "os nossos melhores jogadores precisam vir pra cá para tirar o basquete brasileiro desse buraco". Isso é furada e uma baita falácia. Se tivermos uma geração fantástica aqui e formos para as Olimpíadas, a estrutura do basquete no Brasil vai continuar a mesma, com os mesmos campeonatos, o mesmo nível técnico, a mesma administração, e o público comum vai continuar assistindo só quando for contra a Argentina para extravasar um mal colocado patriotismo. Andei lendo por aí que a "geração de ouro" argentina não é fruto de categorias de base fantásticas como se imaginava, que não mudou a estrutura do basquete no país, e que a renovação da seleção é um pesadelo. Mesma coisa por aqui. Ainda acredito que a popularização do esporte passa por acompanhar com qualidade a melhor liga de basquete do mundo ao invés de ficar se preocupando se o Nenê ou o Leandrinho vão enfrentar a Venezuela."

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E completo com minhas palavras. Caso o Brasil fique com uma vaga, terá provado que não precisa de Nenê, Leandrinho e Varejão para ser melhor que República Dominicana e Porto Rico. Nada mais do que isso. Mesmo vencendo a Argentina é ingenuidade achar que a equipe brasileira é melhor, em geral, que a deles. Se ir para os Jogos Olímpicos basta e estar lá deva ser um prêmio para quem conquistou a vaga, algo no espírito Dunga de ser, então não precisamos dos jogadores da NBA. Agora se o importante é levar os melhores jogadores e tentar ganhar umas partidas, é óbvio que eles tem que ser chamados. Mas pelo o que eu vejo por aí o público do basquete é muito patriota e não vai querer alguém que "fugiu à luta" os representando na próxima guerra Olimpíada.


Pergunta 8
Versão educada: "Como dá ponte aérea no NBA2K11?"
Versão troll: "Como dá ponte aérea no NBA2K11?"



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Eu sei que essas respostas vão gerar mais perguntas, mais trolls e mais discussões, mas acho que serviu para deixar claro o motivo do assunto ser geralmente ignorado por aqui. E que ironia um assunto deixado de lado ter rendido algo tão grande, não? É hora de parar.