quinta-feira, 28 de abril de 2011

O Spurs sempre será o Spurs

O Denis analisou o jogo 5 entre Spurs e Grizzlies, comentando sobre as mudanças táticas no Spurs nessa temporada, a defesa do Grizzlies e o arremesso final de Gary Neal que levou o jogo à prorrogação - e então à vitória do Spurs. Mas o site NBA Playbook fez um trabalho tão genial analisando as últimas posses de bola da equipe de San Antonio que é impossível não compartilhar aqui algumas conclusões que essa análise nos traz num mini-post de sobremesa para quem leu o post anterior, prato principal.

1) O Spurs sempre causa medo com as bolas na zona morta

A análise da jogada no NBA Playbook está aqui. Com 14 segundos no cronômetro, o Spurs optou por não tentar uma bola de 3 pontos. Ao invés disso, Duncan recebe a bola no perímetro e dá um passe certeiro para o Ginóbili finalizar com uma bandeja simples. Tony Allen estava marcando o Ginóbili e ele opta por proteger uma possível bola de 3 do argentino, liberando o jogador do Spurs para uma corrida rumo à cesta. Mas porque a ajuda defensiva não bloqueia o caminho do Ginóbili? Porque o Shane Battier, responsável por essa ajuda, está se borrando de medo de deixar alguém (no caso Gary Neal) livre na zona morta. É justo, o banco do Spurs é o banco que mais converte bolas de 3 na NBA, e a zona morta sempre foi uma das principais armas da equipe na época de Bruce Bowen. Quantos jogos o Suns não perdeu por culpa de uma maldita bola de 3 pontos na zona morta? Mas, como o Denis indicou, o Spurs está tentando apenas metade dos arremessos na zona morta que tentou na temporada regular, estão bem marcados e nenhum jogador mais é especialista na área. Mas é isso, os arremessos daquele região vencendo jogos para o Spurs fazem parte do nosso imaginário, e então o Shane Battier preferiu permitir a bandeja do que desgrudar do Gary Neal.

2) O Duncan sempre causa medo mesmo sendo velho e tendo cara de bobo

A análise da jogada no NBA Playbook está aqui. Com menos de 2 segundos no cronômetro e precisando de uma bola de 3 pontos, o Spurs faz uma série de corta-luzes na cabeça do garrafão para liberar alguém pra receber a bola e o Grizzlies faz a escolha correta: ao invés de lutar contra cada corta-luz, os marcadores fazem a troca, ou seja, quem parar no corta-luz passa a marcar o adversário que fez o corta, e quem estava marcando esse jogador passa para o próximo adversário em movimento, evitando assim o corta-luz. Tudo lindo e maravilhoso, até que Shane Battier - de novo - decide que não vai fazer a troca de marcação. Porque para isso ele teria que sair do Tim Duncan, ali paradinho na linha de lance livre, e todos nós sabemos do que o Duncan pode ser capaz quando está livre nos segundos finais de um jogo, né? Mas por ter ficado no Duncan, Shane Battier deixa Gary Neal livre, e graças às trocas seria ele o responsável por fechar no armador do Spurs. Neal arremessa uma bola de 3 com bastante espaço, converte e leva o jogo para a prorrogação, enquanto o Duncan (que só poderia fazer uma bola inútil de dois pontos) estava muito bem marcado. Pois é, na hora final dá cagaço de deixar o Duncan livre, mas era a única coisa inteligente a se fazer.

3) O Spurs sempre recebe ajuda de algum jogador aleatório

O Battier errou nas duas marcações e ele é simplesmente um dos melhores defensores da NBA. Ele tem responsabilidade pelo erro, claro, mas o peso do Spurs, a fama do Spurs, acaba tendo um papel fundamental em como os jogadores reagem ao time na hora de defender uma posse de bola fundamental. Mas no fim das contas, erro de marcação ou não, quem acertou a bola final foi Gary Neal - mais um para a imensa lista de jogadores eleatórios que já salvaram o Spurs em jogos decisivos de playoffs. Mas quão aleatório é o Gary Neal, afinal? Basta dar uma lida nessa história que o Denis publicou um mês atrás no seu filtro semanal:

Vocês sabiam que o Gary Neal, o novato-sensação (como diria a RedeTV!) do Spurs, teve um caminho complicado pra diacho pra chegar na NBA? Eu não sabia. No seu segundo ano de faculdade foi acusado de estupro e perdeu sua vaga no time. No fim ele foi inocentado, pelo jeito foi um caso de sexo entre bêbados em uma festa, mas mesmo com a inocência oficial não foi recebido de volta e teve que caçar outro lugar pra jogar.

Ele acabou indo para uma faculdade bem pequena e sem renome, Towson, onde passou por zilhares de entrevistas para ser aceito. Depois dessa história é claro que passou em branco pelo Draft da NBA e aí foi para Turquia, Espanha e depois Itália, onde milagrosamente recebeu uma chance do Spurs. Aliás, milagrosamente não, por méritos dele e dos melhores olheiros do planeta. Neal é uma das razões para o Spurs ser um dos melhores time da NBA em bolas de 3 pontos nessa temporada. A história dele tem mais detalhes nesse link do Spurs Nation.

Desastre anunciado

Pois é, foi daí que o Manu acertou o arremesso dele


Foi por pouco, por muito pouco. O Memphis Grizzlies estava a 1.7 segundo de eliminar o San Antonio Spurs, vencer sua primeira série de playoff na história, causar uma zebra do tamanho de um elefante (só pra ficar no mundo animal) e tudo isso, é sempre bom lembrar, sem o Rudy Gay! Ficou no quase porque o técnico Gregg Popovich resolveu colocar o trabalho de um ano inteiro nas mãos de um novato. Ele desenhou uma jogada para Gary Neal, que meteu a bola de três pontos que levou o jogo para a prorrogação e salvou o Spurs das férias indesejadas. Não que vocês não saibam disso tudo, devem ter visto o jogo ou visto o resumo hoje cedo, mas estou colocando tudo isso no papel (ou na tela) para ver se acredito. Alguém alguns meses atrás imaginaria que esse parágrafo pudesse ser escrito de maneira séria?

São muitas coisas estranhas acontecendo e a primeira a gente já alertou durante a temporada regular. Nesse post sobre o Spurs eu disse que eles estavam se parecendo mais com os times que estavam acostumados a vencer, ofensivos, velozes, baseados nas bolas de 3, do que com o "clássico" Spurs defensivo, pragmático e entediante. Acabaram o ano com o segundo melhor ataque da NBA e 11ª melhor defesa, números parecidos com o Phoenix Suns de alguns anos atrás que eles enjoaram de vencer. A fragilidade defensiva era ainda maior quando o Popovich, por falta de opção provavelmente, usava formações que favoreciam as bolas de três pontos ao invés do poder defensivo, foi o aproveitamento insano nas bolas de longe que fizeram o Matt Bonner ser mais usado que o Tiago Splitter durante todo o ano, por exemplo.

O discurso do Popovich e dos jogadores nunca mudou, eles sempre disseram que queriam voltar a ser um time defensivo, mas na prática não mudaram muita coisa, preferiram seguir com esse plano estranho que estava garantindo uma vitória atrás da outra na temporada regular. Eles falharam em perceber alguns sinais importantes, porém, como alguns jogos contra o Lakers e o próprio Grizzlies em que foram engolidos vivos pelos fortes garrafões das duas equipes. Claro que venceram jogos contra eles também, mas ficou bem claro que quando eles enfrentavam um garrafão alto e em boa forma, não sabiam como responder defensivamente e precisavam de dias inspirados nas bolas de três para vencer. E, como todo mundo no mundo do basquete sabe, nada é tão perigoso quanto depender dessas bolas de longa distância, é a bola mais irregular e imprevisível do basquete, uma temporada pode ir para o ralo em um dia ruim.

O Grizzlies provavelmente sabia disso. Perdeu alguns jogos bobos no final da temporada regular quando poderia avançar até a 6ª posição no Oeste e deu a impressão (que eles negam) de que estavam escolhendo enfrentar o Spurs. Verdade ou não a gente nunca vai saber, mas se foi intencional, foi inteligente. Na temporada regular eles fizeram jogo duro para o Spurs e têm as qualidades que mais os incomodam, a começar pela dupla de garrafão mais entrosada da NBA com Zach Randolph e Marc Gasol. Sim, o outro Gasol e o Andrew Bynum são do caralho e Serge Ibaka e Kendrick Perkins são a perfeita combinação na defesa, mas atualmente ninguém é páreo para o entrosamento da dupla do Memphis. Eles executam muitas jogadas um com o outro, ambos passam bem a bola e ainda são potências nos rebotes de ataque.

Como o Spurs usa muito o Tim Duncan no ataque, principalmente fazendo a maioria dos bloqueios e corta-luzes dos pick-and-rolls, que são responsáveis por 27% das ações ofensivas do Spurs (disparado a jogada mais usada por eles), eles liberaram o TD do fardo físico e perigoso, pelas faltas, que é marcar o Zach Randolph. Isso resultou num banho do Z-Bo para cima do Antonio McDyess e, principalmente, do Matt Bonner. Aliás, parece uma ordem bem clara do técnico Lionel Hollins para os seus jogadores: se Bonner está em quadra a jogada é simplesmente acionar quem está sendo marcado por ele, sucesso garantido.

Isso obriga Popovich a usar menos o Bonner e no lugar dele não pode colocar uma escalação mais baixa, que também seria explorada do mesmo jeito pelo garrafão forte do Grizzlies, então tem que colocar o McDyess e, nos últimos jogos, Tiago Splitter. O DeJuan Blair, titular durante muito tempo, é solenemente ignorado e não me pergunte o motivo. Todas essas opções, mesmo quando McDyess e Splitter jogam decentemente, não são o bastante para vencer a disputa no garrafão e ainda tiram as bolas de três do Spurs. O Spurs não tem opção, é na defesa que o Grizzlies está vencendo essa série.

O ótimo site NBA Playbook fez um post só para explicar como o Grizzlies está parando o ataque do time de Popovich. A principal estratégia está em limitar as bolas de três pontos ao mesmo tempo que não abrem um corredor para infiltrações. Na jogada que ele dá de exemplo abaixo, a ajuda fecha a infiltração de Parker mas sem que ele tenha espaço para tocar para Bonner nos três pontos, resta um arremesso longo de dois para Tim Duncan. E nem é da posição onde ele pode usar a tabelinha.



Vale reforçar também o empenho com que todo mundo no Grizzlies está correndo em toda santa posse de bola para cobrir as opções mais óbvias de passe depois de cada corta que o Spurs faz. É um trabalho digno de defesa do Celtics. Em muitas vezes eles sabem onde dobrar, onde ajudar e o cara que fica livre é sempre o mais distante da bola, obrigando o Spurs a passes complicados, longos ou infiltrações em um garrafão congestionado. Outra decisão importante está em tirar o arremesso da zona morta; se deixam alguém livre de três, não é lá. É o arremesso favorito do Spurs, tentavam 8 desses por jogo na temporada regular, e agora estão tentando só metade e sempre marcados. A bola na zona morta era a válvula de escape deles e não está funcionando. Para compensar o Spurs precisa  passar mais a bola no perímetro e forçar jogadas individuais, deixando aparecer ainda mais as qualidades defensivas de Shane Battier, Tony Allen e as mãos rápidas do Mike Conley para interceptar passes. É simplesmente um massacre! Pode-se dizer que o Lionel Hollins era um stalker do Spurs e sabe todas as qualidades, defeitos, desejos, medos e comida favorita do seu adversário.

Se essa série já não está morta e enterrada é porque o Spurs tem a mão certeira de Gary Neal e o Grizzlies também tem os seus defeitos. Quando Zach Randolph está no banco eles não tem alguém que pode criar o seu próprio arremesso do nada diante de uma defesa mais forte, Tony Allen é um dos piores arremessadores da NBA e OJ Mayo compromete na defesa. E embora o Randolph esteja dando conta do recado na hora de arremessar bolas decisivas, às vezes é difícil passar a bola lá pra dentro do garrafão, nessas horas faz falta o Rudy Gay para receber a bola mais longe da cesta e criar alguma jogada.

Mas defeitos a parte, o Grizzlies é o melhor time da série e quem dominou todos os jogos. Se tiverem a cabeça no lugar e não ficarem lamentando a classificação que escorregou por entre os dedos devem fechar a série já na próxima partida. Não dá pra cravar isso porque séries longas de playoff são interessantes pelos ajustes que cada técnico faz para resolver os problemas, mas o negócio é que tenho a pequena impressão de que o Popovich não sabe mais o que tentar para sair das armadilhas do Grizzlies.

Abaixo, o arremesso insano em uma jogada desastrada do Manu Ginobili, que cortou a diferença para um ponto, e depois a bola de três salvadora do Gary Neal. E vale uma nota para algo impressionante: Foi dito pelo próprio elenco do Spurs depois do jogo que a jogada final foi mesmo desenhada para o Neal, não era segunda ou terceira opção. O novato disse que a sensação foi ótima de ouvir as instruções e ver que ninguém nem por um segundo questionou a decisão do treinador de colocar toda a temporada nas mãos de um novato que nem foi draftado. Sangue frio e obediência ao treinador, talvez o Spurs ainda tenha um pouco do velho Spurs escondido lá no fundo.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Pelo caminho errado

Kobe mantém a calma e concentração para não passar desespero para seus companheiros de time

Eu sei, eu sei, eu estava ausente na primeira semana dos playoffs. Mas viajei, tive dificuldade para ver os jogos, fiquei dias sem internet, passei horas em aeroportos, me estressei com problemas pessoais e foi uma semana cansativa que pareceu durar um mês. Para me recuperar, overdose de playoffs correndo atrás do tempo perdido! Assisti a algumas reprises no fim de semana mas ainda não tudo o que eu queria, o que eu mais consegui ver foi, claro, o meu time, o LA Lakers, pegando o New Orleans Hornets. Por ser a série que mais acompanhei, e por ser uma que está bem aberta, é dela que eu falo.

Antes da série começar eu estava bem animado com esse matchup para o meu Lakers, antes estava com medo da gente perder aquele jogo para o Kings na última rodada (o Lakers venceu no sufoco, na prorrogação) e acabar enfrentando o Blazers. Contra o time do Brandon Roy, o zumbi dos playoffs, o Lakers sempre tem dificuldades e normalmente perde fora de casa, contra o Hornets em compensação foram só passeios na temporada regular desse e dos últimos anos. As exceções foram apenas em momentos quando o Chris Paul e algum coadjuvante ficaram muito inspirados. Lembro do David West e até do Peja Stojakovic tendo dias mágicos contra o Lakers pelo Hornets. Mas, sinceramente, não convencia. Eram dias muito inspirados, claramente aberrações que não teriam como sobreviver a uma série de playoff. Quantas atuações alienígenas o Chris Paul, que explorava a deficiência do Lakers em marcar jogadores velozes, poderia ter? E o David West, que poderia limitar o poder da dupla de Pau Gasol e Andrew Bynum, nem está jogando, machucado. Parecia mamata.

Na temporada regular foi 4 a 0 para LA. O Chris Paul perdeu de vez o título de melhor armador da geração, suas contusões fizeram a balança pesar para o Deron Williams segundo a maioria dos críticos e o Derrick Rose é uma apelação de video game usando código e controle turbo, o papo de Chris Paul MVP de uns anos atrás parece tão atual quanto polaina e Smurfs. Meio esquecido e com números bem mais modestos ele caiu para um segundo plano, até tendo algumas partidas em que parecia mais lento e previsível. Não custa lembrar que o Chris Paul até passou jogos inteiros sem marcar pontos nessa temporada, ao invés de viver o seu auge ele parece um Jason Kidd com quase 40 anos, o que é bom, mas não como ele já foi. 

E também como esperar que o Hornets pudesse segurar o garrafão do Lakers? Se com o David West já era difícil, com o Carl Landry soa impossível. Sim, ele é raçudo e marca os pontos mais improváveis da NBA, só quando você percebe que ele tem a mesma sorte em todos os jogos é que se toca que não é pra chamar de sorte. Mas a sua deficiência defensiva já era destaque no Rockets, foi no Kings e nem com todo o esforço do mundo daria pra imaginar ele incomodando o Pau Gasol. Até dava pra imaginar o Trevor Ariza marcando bem o Kobe Bryant no perímetro, mas lá dentro parecia que seria uma surra.

Mas a série está 2 a 2, o Hornets convenceu nas suas duas vitórias e as previsões claramente foram para o beleléu. Sobra pra gente explicar o que aconteceu de inesperado para chegarmos aqui. A primeira e mais óbvia é que o Chris Paul renasceu das cinzas. O Ryan Schwan, que escreve para o blog Hornets247, comentou durante essa temporada sobre a mutação do CP3. No começo da carreira ele era um jogador muito veloz, driblador, agressivo e que tinha um estilo que lembrava demais o do Isiah Thomas nos tempos de bi-campeão pelo Detroit Pistons no fim dos anos 80. Mas com as contusões limitando a sua velocidade e força nas infiltrações ele, de repente, começou a virar, na opinião do blogueiro, um novo John Stockton. Comparações inúteis à parte, o que ele quis dizer é que diante das limitações físicas o Chris Paul estava mudando o seu estilo de jogo e ainda sendo eficiente em quadra. Dificilmente veríamos mais jogos de 30 pontos dele mas ainda veríamos um jogador inteligente, com precisão nos passes e ótima visão de jogo.

Eu acreditei nessa teoria até o início dos playoffs, mas inspirado pela importância dos jogos o Chris Paul resolveu esquecer as contusões e jogar como era há uns dois anos atrás. Claro que ajuda a incompetência do Lakers em marcar armadores rápidos e não podemos esquecer que nas duas derrotas o CP3 não foi tão bom assim, mas nas duas vitórias, uau, faltam adjetivos para descrever aquelas atuações. Então se queremos uma primeira explicação para entender porque a série está empatada, essa é a primeira, Chris Paul está voando. Obviamente não é a única, se bastassem inspirações esporádicas de um jogador para estar pau a pau com o Lakers nos playoffs o Warriors do Monta Ellis seria um timaço, mas precisa de muito mais.

A MySynergySports, empresa que faz estatísticas avançadas da NBA, enrolou a temporada inteira, mas finalmente fez parceria com a liga e tem alguns de seus muitos números divulgados no site oficial da NBA. O mais interessante deles mostra em que tipos de jogada de ataque cada time faz a maior parte dos seus pontos, e sabe que o Hornets não faz só a maioria dos seus pontos em jogadas de isolação e pick-and-roll, mais do que isso, o Hornets é o time que mais faz pontos nessas jogadas entre todos os 16 que disputam os playoffs! O Lakers teve uma das melhores defesas da NBA durante a temporada, mas sofreu bastante com duas coisas: a marcação homem a homem contra armadores velozes (lembrem dos jogos contra o Thunder, com o Westbrook matando a pau) e com pick-and-roll (lembrem do jogo de Natal contra o Heat). Os dois maiores defeitos da defesa do Lakers são os pontos positivos do ataque do Hornets, ou melhor, são quando o Chris Paul joga como Isiah Thomas. Quando é Stockton, como foi na temporada regular, só deu jogo fácil para o Lakers.

Ainda segundo o SynergySports, o Hornets consegue 0,98 pontos por posse de bola sempre que tenta o pick-and-roll e assustadores 1,1 ponto por posse de bola quando fazem uma jogada de isolação. O Lakers só tem números parecidos em três categorias:  Cortes para a cesta (quando alguém escapa do marcador e recebe um passe na corrida, indo para a cesta), em contra-ataques e quando os seus pivôs jogam de costas para a cesta.  Os dois primeiros acontecem muito pouco e a dos pivôs é a mina de ouro mal utilizada do Lakers nessa série. Eles usam essa jogada em mais de 15% das posses de bola, a terceira mais usada pelo time, mas ainda atrás da isolação e do arremesso parado. A isolação é quando um jogador cria a jogada dele sozinho, no drible, e o arremesso parado é o famosos spot-up shot, que é quando o cara fica paradinho, espera o passe e assim que recebe chuta, sem driblar nem nada. Ou seja, mesmo tendo um garrafão melhor, mais alto, mais forte e mais eficiente, o que o Lakers mais tem feito na série é tentar jogar sozinho e, quando não dá mais, tocar pra alguém e esperar este arremessar de longe. Se isso fosse uma boa estratégia de jogo, o Warriors...

Se a primeira explicação para esse empate é o Chris Paul, a segunda é tão simples que soa patética: O Hornets executa as jogadas que tem melhor aproveitamento e o Lakers não. O sistema dos triângulos, baseado em passes e movimentações sem a bola é ótimo para as movimentações cortando para a cesta, por isso o aproveitamento bom, mas elas acontecerem tão pouco mostra como o time às vezes é estagnado em quadra. O aproveitamento alto dos pivôs mostra como o caminho para as vitórias está lá, mas a marcação ativa e física do Hornets está inibindo o Lakers, que prefere arriscar menos os passes e fica muito concentrado na linha dos três pontos, com o tempo de posse de bola passando só resta arriscar uma jogada individual ou passar para alguém arremessar de longe. Esses arremessos de longe são também os que dão rebotes mais longos e imprevisíveis, que diminuem a importância de Gasol e Bynum no rebote ofensivo.

Outra coisa merece atenção nessa série. Vocês lembram desse post que eu fiz sobre o machismo na NBA, sobre ser "Soft" e tudo mais? Nele eu citava uma palestra do Henry Abott em que ele usava dois times como exemplos opostos de como decidir jogos. O Lakers era o time do macho alfa, de Kobe Bryant, que acredita que é sua obrigação arremessar as bolas decisivas de todos os jogos, já que é a estrela da equipe - ele não tem medo, não hesita, não treme. Do outro lado está Chris Paul, autor de uma frase que muitos consideram símbolo de falta de liderança: "No fim do jogo eu arremesso se estiver livre, senão eu passo a bola".

Pois com o jogo 4 para ser decidido, o Kobe tentou um arremesso doido de três para empatar o jogo e errou. O Chris Paul, bom, ele passou a bola para o cara mais frio do seu time, Jarrett Jack, zero arremessos feitos até então, e venceu.



Não tem certo e errado, cada um encara o jogo de um jeito diferente. Mas nesse jogo a vitória foi para o altruísta Chris Paul. Se o Kobe quer ter mais chances de tentar arremessos grandiosos assim e calar a boca de quem acredita na outra teoria, deve conseguir chegar ao fim dos jogos em condições de ganhar. Para isso precisa confiar mais nos seus pivôs e achar maneiras de envolvê-los mais nos jogos. Mesmo com Pau Gasol não jogando tudo o que sabe, Andrew Bynum, Lamar Odom e até Ron Artest podem executar a mesma jogada com sucesso. E para defender o Chris Paul? Bom, colocar o Kobe nele ao invés do Derek Fisher é melhor, mas não a resposta definitiva, eu diria que uma espingarda carregada daria conta do recado. 

sábado, 23 de abril de 2011

Reconstrução capenga

Falando sobre comida

Estamos acompanhando (eu, por entre o muco abundante da minha gripe) playoffs bastante disputados, com jogos interessantes e parelhos. Mas aquele clima de zebra foi embora bem rápido, os resultados não são mais surpreendentes e tudo está mais ou menos dentro do esperado. O Lakers perdeu um jogo mas apenas em atuação épica de Chris Paul, vencendo o segundo mesmo com uma das piores partidas conjuntas de Kobe e Pau Gasol de todos os tempos, e vencendo ontem fora de casa na maior mamata. O Pacers, que deu sufoco no Bulls em todas as partidas até agora, perdeu 3 jogos seguidos mesmo com atuações bem mequetrefes do Derrick Rose (e marcação genial do Paul George, assunto pra um futuro post), estando praticamente eliminado da pós-temporada. Mesma coisa com Sixers e Knicks, que até deram trabalho mas já estão planejando as férias. Thunder contra Nuggets e Mavs contra Blazers são terra de ninguém, como previsto. Então restam apenas duas séries dessa primeira rodada dos playoffs que ainda tem cara de estar completamente fora do controle: a primeira é Magic e Hawks, que exige uma retratação da minha parte então por enquanto vou fingir que nada está acontecendo; e a segunda é Spurs e Grizzlies.

Quão surreal é dizer que uma série com o Grizzlies, que até outro dia era uma das maiores piadas da NBA e se classificou em oitavo para os playoffs, é uma das que está completamente fora de controle? O Spurs dorme todos os dias com medo do Zach Randolph, e nem é de que ele coma tudo que o time tem na geladeira. A defesa do Grizzlies é sufocante, o garrafão é forte e movimenta a bola, os jogadores são jovens e motivados. Em apenas três anos a equipe deixou se ser presa fácil nos playoffs, passou por um processo completo de reconstrução, e venceu sua primeira partida de pós-temporada em cima do todo-poderoso Spurs. Melhor projeto de reconstrução de todos os tempos? Pelo contrário. A reconstrução do Grizzlies foi uma bosta, um projeto completamente atrapalhado e cheio de tropeços, e que deu certo mesmo assim simplesmente porque acertaram em alguns aspectos fundamentais. Ou seja, é a prova definitiva de que reconstruir uma equipe não é tão difícil assim: se até o Grizzlies consegue, qualquer time do planeta pode fazer também. Até eu. Ou sua avó, que quando você diz "basquete" ela entende "chacrete".

Em 2003, o Grizzlies conseguiu chegar aos playoffs pela primeira vez, mas perdeu todos os jogos. Tudo bem, era um time ruim que estava apenas pegando o jeito das coisas. Na temporada seguinte, foram aos playoffs de novo e perderam todos os jogos de novo. Vários jogadores deixaram a equipe, outros foram contratados às pressas, mas o time foi aos playoffs de novo, uma terceira vez. E, de novo, foi eliminado da pós-temporada sem vencer uma mísera partida sequer. As duas temporadas seguintes foram cheias de contusões e jogadores fazendo de tudo pra não jogar lá. Como diabos lidar com uma franquia em que nenhum jogador quer jogar? Em um post de dois anos atrás, o Denis conta como Steve Francis foi draftado pelo Grizzlies e se negou a jogar lá, e como quase todos os novatos de 2009 (quando o time tinha a segunda escolha do draft) se negaram a treinar pela equipe, evitando assim ser draftados pela franquia. Como melhorar uma equipe em decadência se ninguém quer jogar por ela? O Grizzlies tinha a possibilidade de se reconstruir em volta de Pau Gasol e seu salário gigantesco, mas teria que apostar em novatos com uma equipe que sempre estaria às bordas dos playoffs, correndo o risco de ser ruim demais para ganhar um joguinho sequer na pós-temporada mas boa demais para conseguir escolhas altas no draft. Foi preciso muita coragem e muita falta de cérebro (coragem e burrice não estão intimamente ligadas?) para cortar esse círculo vicioso e trocar Pau Gasol por um pacote de bolachas.

A troca, na verdade, visava o futuro e só pode ser melhor analisada agora. Na época, foi Pau Gasol e uma escolha de segunda rodada por duas escolhas de primeira rodada, Kwame Brown, Javaris Crittenton e os direitos pelo Marc Gasol, escolhido na segunda rodada pelo Lakers. Na prática, o Kwame Brown era apenas um contrato expirante para o Grizzlies economizar dinheiro e reconstruir as finanças, o Crittenton foi mandado para o Wizards por uma escolha de primeira rodada (e lá acabou sacando uma arma contra o Gilbert Arenas no incidente que quase acabou com a carreira do Arenas), e o que o Grizz conseguiu no final das contas foi uma caralhada de escolhas de draft e o Marc Gasol.

O que o Grizzlies fez com essas escolhas de draft é coisa de Grizzlies mesmo, uma bagunça: eles são obrigados a escolher os jogadores que ninguém mais quer, ou então draftar jogadores que claramente não querem jogar para a franquia ou que não treinaram para eles antes do draft. Chegaram a ter o Kevin Love, por exemplo, e acabaram trocando pelo OJ Mayo porque não tinham visto o Love em ação. Gastaram a segunda escolha do draft de 2009 com o Hasheem Thabeet, o pivô gigante que não sabe amarrar os próprios cadarços. Então é claro que eles não são o Spurs, cujos olheiros conseguem prever o futuro e draftam gênios até em divisão de time de futebol de aula de Educação Física da quarta série. Pra piorar, o Grizzlies ainda encrenca com os novatos na hora de assinar contratos, criando uma imagem ainda pior na mídia. É bem claro que eles são atrapalhados, não tomam as decisões certas e têm dificuldades com novatos, tanto na hora de draftar quanto na hora de assinar, agradar e tentar mantê-los na equipe. Mas há uma coisa que eles fizeram muito bem: guardar a grana liberada com a troca dentro de um cofre de porquinho.

Em geral quando uma equipe tem espaço salarial sobrando, a lógica é que você está sendo burro se não usar esse espaço salarial para contratar alguém e melhorar seu time. As regras te deixam pagar salários até um limite, pra quê ficar abaixo dele ao invés de contratar o máximo de ajuda com ele? O problema é que usar o espaço salarial em uma temporada significa que você sem querer comprometeu o espaço salarial das temporadas seguintes. Os contratos tendem a ser de longa duração, os jogadores ficam sob contrato por vários anos, e os salários vão subindo de temporada em temporada. Então usar o espaço salarial ao máximo numa temporada "só porque eu posso" pode mandar pelo ralo as finanças do time pela próxima década (né, Knicks?). O Grizzlies conseguiu espaço salarial de sobra ao trocar Pau Gasol, e com ele tentou contratar o Josh Smith, por exemplo. O Hawks igualou a oferta, o Josh ficou em Atlanta, e aí ao invés de gastar a grana no segundo melhor jogador disponível, ou contratando um pivô qualquer que não sabe o que é basquete mas é alto e pode trocar lâmpadas sem escadas, o Grizzlies economizou. Não teve medo de feder, de conseguir escolhas altas no draft, e de evitar ao máximo ter prejuízos. Por muitos anos a equipe teve a pior audiência de toda a NBA, o melhor a se fazer mesmo é tentar cortar os gastos ao máximo e saber esperar. Fazendo trapalhadas no draft ou não, se metendo em bagunças com os novatos ou não, o Grizzlies soube esperar e cuidar do dinheiro.

Quando isso acontece, é possível se aproveitar de oportunidades que volta e meia dão sopa na NBA mas ninguém está em condições de agarrar. Tipo um time querendo se livrar do Kevin Garnett, por exemplo, ou do Ray Allen, ou do Kendrick Perkins, ou do... Pau Gasol? Então, o que o Grizzlies fez foi achar alguém que quis se livrar do Zach Randolph (porque havia na cagada conseguido a primeira escolha no draft e iria pegar o Blake Griffin) e, com o espaço salarial para conseguir fazer a troca funcionar, conseguiu um jogador que de outro modo não aceitaria jogar por eles. Paciência foi tudo: conseguiram jogadores veteranos como o Zach Randolph, tiveram grana para dar um contrato gigantesco para os novatos que deram certo como o Rudy Gay, deixaram os novatos que eram mais-ou-menos em quadra sem medo de perder até ver se podiam render algo, deram a grana para os que se sairam bem depois de muita insistência como o Mike Conley, e trocaram os que não deram em nada por jogadores veteranos, como o Hasheem Thabeet mandado pelo Shane Battier.

Essa é uma receita razoável para reconstruir um time, mesmo se for feita de modo capenga. Basta apertar o botão do apocalipse, se livrar das estrelas, guardar a grana para abraçar alguma oportunidade maluca, draftar uma caralhada de novatos, e não ter vergonha de perder muito até dar certo. O Wolves está no mesmo caminho. Não é um plano genial como o do Thunder ou do Blazers, mas é um plano acessível até para as equipes mais confusas, como o Pistons. Só que ainda falta o ingrediente secreto capaz de tornar essa reconstrução capenga do Grizzlies uma equipe capaz de vencer o Spurs, falta o "elemento X" capaz de tornar açúcar, tempero e tudo-que-há-de-bom em Meninas Superpoderosas: um cara como o Tony Allen.

"Isso é fácil", você deve estar pensando. "Conheço um monte de idiotas sem cérebro capazes de se machucar sozinhos dando uma enterrada que não vale pra porcaria nenhuma".



Sim, isso é verdade. Jogadores que esquecem o cérebro num pote na geladeira antes de saírem de casa são comuns, e o Tony Allen deu mais dor de cabeça para o Celtics do que ajudou nos anos que esteve lá. Mas algumas coisas são fundamentais: ele é um bom defensor, aprendeu a defender em conjunto com Kevin Garnett, e veio de um ambiente extremamente motivado, coletivo e focado em vitórias. Imagina só o Tony Allen e sua mentalidade vencedora herdada dos tempos de Celtics no vestiário do Grizzlies, em que todo mundo devia achar a coisa mais natural do mundo perder jogos de lavada (especialmente o Zach Randolph, que provavelmente sempre pensou que "vitória" fosse apenas uma palavra que queria dizer "o time adversário"). O confronto com certeza foi imediato. Tony Allen não teve medo de pegar no pé dos companheiros, de exigir uma postura diferente em quadra, de cobrar por defesa. Mesmo sendo um jogador zé-ninguém com minutos limitados. Em quadra, guiou pelo exemplo sendo um jogador burro que mesmo assim dava o sangue dentro de quadra na defesa.

Diz a lenda que numa partida de pôquer no avião do Grizzlies, indo para um jogo, OJ Mayo perdeu 1.500 dólares para o Tony Allen mas se recusou a pagar. Tony Allen teria agredido verbalmente o adversário, questionado sua moral, e os dois saíram na porrada a um ponto tal que o OJ ficou cheio de hematomas na cara e teve que ficar de fora da partida seguinte da equipe. Desde então, pelo que dizem, os jogadores do Grizzlies chegaram a um acordo: todo mundo pode falar o que quiser para todo mundo, cobrar, questionar caráter, o que for, porque eles são uma família e não vão sair na porrada. O pôquer passou a ser proibido nas viagens da equipe, mas o incidente uniu os jogadores. Tony Allen vem de um lugar em que é normal exigir, cobrar e questionar seus companheiros de equipe, o Garnett até fez o Glen Davis chorar dentro de quadra. Quando o Grizzlies entendeu que é esse tipo de ligação que faz equipes vencedoras (e equipes defensivas), as coisas finalmente entraram nos rumos.

O dinheiro do Grizzlies foi bem usado com os novatos que quiseram ficar (ao invés de esperar por estrelas que só querem jogar com outras estrelas) e com jogadores caros que seus times estavam jogando no lixo, como o Zach Randolph, que agora se sente acolhido e valorizado (tudo porque o Grizzlies, além de dar uma oportunidade ao ala, não esperou um segundo para lhe dar um contrato gordo assim que ele teve uma partida genial contra o Duncan). Mas um dos dinheiros mais bem gastos dessa equipe é com o porcaria do Tony Allen. O que ele trouxe à franquia é inigualável. O Grizzlies até trouxe de volta o Shane Battier, ainda um dos melhores defensores da liga, mas ele é bom moço, reservado, controlado. Tony Allen vem da linhagem Garnett de gritos, cuspe na cara e beber sangue de criancinhas que motiva qualquer equipe - mesmo aquelas que preferem sair para ir no bingo.

É claro que esse Grizzlies ainda tem muitos problemas. Pra começar, sentem falta do Rudy Gay, que sabe criar o próprio arremesso, é o melhor arremessador de três da equipe e defende várias posições. Falta um facilitador no ataque para que as cestas não precisem ser todas brigadas, ganhas na marra. E o banco ainda é mais mirrado do que os seios da Keira Knightley. Mas agora eles têm uma dupla de garrafão que acredita um no outro, Marc Gasol e Zach Randolph se procuram no ataque, abrem espaço um para o outro, e se complementam na defesa - e essa dupla só foi possível graças à troca do irmão do Marc, Pau Gasol. E isso é maior do que parece: nenhuma dupla de garrafão na NBA tem, nesse momento, esse grau de companheirismo e essa intimidade em quadra, nem mesmo Pau Gasol e Andrew Bynum. E o resto do time acredita que pode vencer jogos de verdade, mesmo se forem nos playoffs, mesmo se forem fora de casa, mesmo se forem contra o Spurs, e mesmo se forem contra o melhor colocado do Oeste - tudo porque um tal de Tony Allen mudou a postura dessa equipe, encheu de porrada um ladrão no pôquer, e custou apenas um punhado de milhões antes tão bem economizados.

Tony Allen e Shane Battier vão ter muito trabalho marcando Tony Parker e especialmente Manu Ginóbili, que voltou de contusão agora com um braço biônico e continua acertando aquelas cestas idiotas e inexplicáveis que vencem jogos de playoffs dos modos mais aleatórios possíveis. Mas bizarramente a batalha no garrafão contra o todo-poderoso Tim Duncan parece tender para o Grizzlies. Eu sei que todo mundo aqui por essas bandas da caipirinha pede pelo Tiago Splitter para ajudar na marcação de Randolph e Marc Gasol, mas sejamos realistas, por melhor defensor que o Tiago seja, ainda falta treino físico para lidar com o muro de tijolos que é o Marc e o muro de banha que é o Randolph. É desleal. Popovich prefere apostar na experiência de Duncan e McDyess, ou compensar no ataque com Matt Bonner, coisa que o Splitter ainda não pode fazer. De todo modo, o Grizzlies está um passo a frente no garrafão (com a ajuda do excelente Darrel Arthur e de Sam Young, também vindos com escolhas de draft da troca do Gasol) e mordendo com força em tudo em que estão atrás, tentando vencer mais na vontade do que na técnica - e gerando com isso a série mais equilibrada desses playoffs. Se fosse a equipe de Pau Gasol e Jason Williams de três anos atrás, com técnica de sobra, entraria se achando incapaz de vencer uma partida de playoff. Isso não é auto-ajuda, não tem nada mais idiota do que esse lance de "tudo que você acha que pode fazer, você pode fazer", mas postura é algo essencial no esporte. Quando uma equipe realmente acha que pode vencer, ela fará o que for necessário. Se tiver dois gordos gigantes no garrafão, então, é capaz que até consiga.

Esse Grizzlies então nos serve de alerta não só para o papel da postura, da defesa e da paciência na construção de uma equipe, mas também para como uma troca pode parecer muito, muito idiota quando acontece - e ser mesmo idiota - apenas porque não temos como perceber que seria ainda mais idiota continuar insistindo nos mesmos erros. Memphis Grizzlies: tropeçando sempre de novas maneiras desde 1995.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Mulher Invisível

Dwight Howard também quer ser trocado pelo Jeff Green, e
 promete que iria sorrir bem mais que o Kendrick Perkins

Na partida de ontem entre Bulls e Pacers, Derrick Rose teve mais uma atuação incrível para levar o Bulls à vitória, com 36 pontos. Muita coisa deu errado para a equipe de Chicago, no entanto. Depois que o Tyler Hansbrough fez a festa em cima da defesa pobre do Carlos Boozer no Jogo 1, o técnico Tom Thibodeau fez questão de mudar a movimentação defensiva no garrafão, o que foi um desastre. Boozer passou a marcar mais fora do garrafão, onde ele é péssimo e sempre pula em qualquer ameaça de arremesso, e Noah passou a ser responsável pela ajuda defensiva dos dois lados. O resultado foi uma defesa muito pior, cheia de erros na ajuda, na rotação, uma atuação estabanadíssima do Noah, e um Boozer que estava tentando, tadinho, e que é muito pior quando tenta. Ainda assim, com um dos pilares do Bulls desmoronado (e precisando ser reconstruído para a próxima partida), o esquema tático permitiu que Derrick Rose desse 25 arremessos, cobrasse 13 lances livres e saísse vitorioso. Aí está a vitória do esquema de Tom Thibodeau mesmo quando algo dentro do seu esquema dá errado. O elenco foi montado para algo específico e consegue manter as pontas do plano geral mesmo se algo menor, algum componente do todo, for pela privada.

É o oposto do que acontece no Orlando Magic. Dwight Howard teve uma das atuações mais dominantes de um jogador de garrafão nos últimos anos, com 46 pontos, 19 rebotes, 22 lances livres cobrados, e tudo isso contra um time em péssima fase, sem as peças necessárias para vencer uma série, e mesmo assim o Magic saiu derrotado. É algo que eu insisto aqui faz muito tempo: quanto mais o Dwight Howard toca na bola, pior o Magic fica. E isso não é culpa do gigante sorridente, mas do esquema tático e do modo que esse elenco foi formado.

Todo mundo que acompanha o Bola Presa sabe que eu pego no pé do Dwight desde seu segundo ano na NBA, simplesmente porque o jogo dele demorou demais para evoluir e ficava claro que ele estava satisfeito com o que já tinha. Foi apenas quando começou a receber menos a bola e pedir mais posses de bola no ataque que os treinos foram se intensificando e seu jogo começou a ficar sólido. Demorou muito, mas agora é hora de dar os méritos devidos ao rapaz. Seu jogo dentro do garrafão não é genial, ele sempre será duro, como se o Dwight fosse o Robocop, porque não é fruto de entendimento do jogo, mas sim de repetição mecânica em treinamentos. Mas seu posicionamento no garrafão melhorou tanto, tanto, que seus movimentos de cara com torcicolo são agora muito eficientes. É legal ver que no começo de seu treinamento com o Patrick Ewing, os movimentos que o Dwight tentava fazer embaixo da cesta eram refinados, cheios de giros e ganchos complexos, além de um arremesso de média distância, e sempre davam errado. Agora esses movimentos foram reduzidos ao mínimo necessário para que funcionem, são duros, rápidos, curtos, sem frescura ou habilidade. Casam perfeitamente com as possibilidade do Dwight, são mais eficientes para ele, e tornaram o pivô uma grande arma ofensiva. Agora finalmente podemos dizer que ele tem uma série de movimentos que são seus, que funcionam, que lhe são naturais e que não exigem esforço. Parabéns, Dwight! Mas quanto mais ele usa esses movimentos, mais o Magic perde.

A lógica é simples. Alguns times são montados para funcionar no modelo do que se chama de "inside-out", ou seja, a bola entra no garrafão e se não houver uma cesta simples essa bola é mandada para o perímetro, de onde vem um arremesso de longa distância ou um passe de volta para o garrafão. É um excelente modo de trazer a defesa para perto do aro, abrir espaço para os arremessadores, e não permitir que a defesa se comprometa apenas com uma parte da quadra. O Magic foi claramente construído com isso em mente, mas há um sério problema: Dwight é terrível passando a bola, por uma série de motivos. Pra começar, seus movimentos no garrafão são mecânicos, decorados, ele apenas executa ao invés de reagir. Ele não é capaz de ler a defesa, reconhecer uma marcação dupla, proteger a bola de um ladrão, passar para o jogador que corta em direção à cesta. Não, ele apenas faz o movimento que aprendeu e se tiver marcação dupla, tripla, um leão ou os Power Rangers, ele simplesmente vai tentar concluir o movimento na base da força e da explosão. Para piorar, o Dwight tem clara dificuldade quando está mais longe da cesta, com um dos pés pra fora do garrafão e quando precisa começar a jogada de costas para seu marcador. É nessas horas em que seus movimentos são mais robóticos, com giros programados, e portanto são os momentos em que ele tem mais dificuldade de interromper o movimento e passar a bola (é como se fosse videogame ruim, tipo NBA Live, e depois de colocar um comando você não tem mais como voltar atrás). O problema é que ficar de costas para o marcador com um pé fora do garrafão é o momento em que os pivôs ficam sempre mais vulneráveis a ter a bola roubada ou a receber marcação dupla, tornando o Dwight um jogador muito propenso a desperdiçar a bola e não concluir seus passes.

Se o Magic foi criado para ser um time de "inside-out", a bola deveria sair do Dwight e chegar nos arremessadores de três, que devolveriam para o Dwight caso a marcação chegasse. Mas o Dwight perde bolas demais e não consegue efetuar os passes, criando uma cisão. Os arremessadores não confiam no Dwight, não procuram o pivô no ataque, e acabam arremessando sob marcação. Quando acontece do pivô receber a bola, ela não volta para o perímetro, então se o Dwight for eficiente os arremessadores acabam saindo do jogo, ficam só assistindo. O Magic é claramente um time montado para ter um pivô cercado por 4 arremessadores, mas ao invés de funcionarem como um sistema único, funcionam como partes isoladas. Quando uma dessas partes joga, a outra assiste. A solução, com esse elenco, eu já disse aqui: Dwight não pode ser estrela e ficar recebendo a bola de costas para a cesta pra finalizar. Deve interferir no jogo através da defesa, dos tocos, dos desvios de bola, e fazer apenas cestas fáceis comuns a todos os pivôs, ou seja, em rebotes ofensivos ou passes de armadores que tentaram infiltrar. Se ele receber a bola demais, o resto do time desaparece.

Se o Magic tivesse jogado normalmente contra o Hawks, ignorando o Dwight Howard, eles teriam ganhado a partida por 400 pontos - e tudo por causa do Howard. Ele teria vencido o jogo na defesa, tapando o garrafão, teria conseguido rebotes de ataque, teria feito cestas simples embaixo do aro que sobrariam pra ele assim meio sem querer. Não teria marcado 46 pontos, sairia com no máximo 16, mas a série estaria liquidada. Dentro desse Magic, o Dwight só deveria ser acionado quando consegue posição exatamente debaixo do aro, empurrando o seu defensor na marra, e aí não corre o risco de marcação dupla ou de ter que passar a bola. Justiça seja feita, o pivô tem cada vez mais conseguido estabelecer essa posição embaixo da cesta. O problema é que surge um paradoxo bizarro: nessas situações ele quase nunca recebe um passe.

Em geral, quando uma jogada é chamada para o Dwight, ele vai receber com um pé fora do garrafão e aí começa a movimentação ofensiva. Mas o posicionamento adquirido debaixo do aro não é algo que pode ser chamado, é algo que simplesmente acontece devido ao posicionamento da defesa, da força física do adversário, e em geral acontece no meio de uma jogada de ataque que não envolva o pivô. Cabe aos armadores reconhecerem esse posicionamento privilegiado, parar a jogada na metade e mandar pro Dwight. É simples. Mas o Magic não tem armadores puros, o Jameer Nelson e o Gilbert Arenas estão lá para ser arremessadores. O Turkoglu é o melhor em acionar o Dwight nessas situações, fato, mas o elenco inteiro está meio perdido em quadra, porque a função de todo mundo é arremessar e eles não sabem muito bem como, nem quando, porque tem gente demais para isso. O próximo arremesso é do J-Rich, do Nelson, do Arenas, do Turkoglu, ou do Ryan Anderson? As jogadas não são orgânicas, não são reações a movimentações do adversário, e por isso dificilmente alguém reagirá ao posicionamento do Dwight debaixo do aro. Por três vezes no jogo contra o Hawks, Dwight Howard conseguiu o espaço necessário para uma cesta fácil e não recebeu a bola - recebeu, sim, uma violação de 3 segundos no garrafão. Então mesmo nos jogos em que o Dwight está sendo constantemente acionado, como foi nessa partida em que marcou 46 pontos, ele não recebe a bola nas ocasiões em que deveria, simplesmente porque o time é mais travado que garota frígida, fica tentando achar um arremesso de três à força e não sabe nunca quem deve ser o arremessador da vez.

Curiosamente, o Dwight Howard tem todos os atributos para ser um jogador de pick-and-roll graças à sua velocidade, sua impulsão e sua facilidade em correr pela quadra, mas o Magic é um dos times da NBA que menos usa a jogada. E pior, usa apenas para criar espaço para o Jameer Nelson (o Synergy Sports deda: 60% das vezes a jogada é com ele), e é sempre procurando um arremesso, a bola não vai para o Dwight. O Magic foi criado como um time para arremessadores de três e um pivô, e não terá pick-and-rolls enquanto o técnico for Stan Van Gundy.

A princípio, eu achei que a volta de Turkoglu faria com que o Dwight fosse acionado nas horas certas. Achei que Gilbert Arenas, que gosta de criar o próprio arremesso, seguraria mais a bola e exploraria o Dwight só quando necessário. Mas não: Arenas não sabe usar pick-and-rolls nunca, e foi relegado ao cargo de simples arremessador; e Turkoglu aciona cada vez mais Dwight de costas para a cesta, onde a bola nunca voltará ao perímetro, onde o Dwight sofre inúmeras faltas (comprometendo o time tanto com seu baixo aproveitamento quanto na interrupção do ritmo de jogo), e onde ele perde mais bolas para a marcação. Aliás, vale lembrar: Dwight errou 8 lances livres contra o Hawks, dos 22 que tentou. O aproveitamento é bom para ele, mas é péssimo para o time e atrapalha demais o ataque se o time adversário tiver vários jogadores de garrafão para ficar só descendo a porrada nele. E o Hawks tem, por isso não tem medo de descer o sarrafo no pivô. Some a isso o fato que o Dwight desperdiçou 8 bolas (incluindo as três violações de 3 segundos no garrafão por não receber a bola) e fica  fácil ver que o time perde muito para que ele seja capaz de marcar 46 pontos.

É nessa hora que a comparação com o Derrick Rose é tão frutífera: o Bulls é montado para que o Rose possa arremessar oito mil bolas, a própria mãe, e dance a macarena, porque o resto do elenco está ali parasuporte, para segurar na defesa, para aliviar nos arremessos quando ele passa para fora. O Magic é construído para que o Dwight faça aquilo que ele não sabe fazer, que é passar a bola, e ignora aquilo que ele faz de melhor, que é o posicionamento embaixo da cesta e o pick-and-roll. Antes eu culpava o Dwight, agora tenho pena dele. Seu jogo tem vários pontos altos, mas nesse elenco, com esse técnico, a melhor coisa que pode fazer é mudar de super-herói e virar a Mulher-Invisível. O Magic só vai ganhar se não deixar o Dwight marcar 46 pontos nunca mais nessa série. Nunca. Mais.

O pior é que do jeito que está, o Magic ainda assim é bom o bastante para chegar numa Final de NBA. Há uma bagunça entre os arremessadores, ninguém tem papel definido, o Dwight não pode ser acionado, mas com leves ajustes dá para criar um esquema vencedor - e mesmo assim vai ser um esquema idiota porque não usa bem as potencialidades de ninguém nesse elenco. Com uma repensagem desse esquema tático, dá pra criar uma potência de novo, mas aí vai esbarrar sempre nisso: qual vai ser o papel do Dwight? Quantas bolas por jogo ele pode arremessar, e de que lugar da quadra? Que tipo de elenco de suporte ele precisa para poder ter carta branco como Derrick Rose? Ou será que ele simplesmente aceitaria ser secundário, tocar pouco na bola, e vencer os jogos na defesa? Desconfio que não e, portanto, será sempre mais difícil encontrar lugar para jogar em plenas condições. Não que um dia ele vá parar na Turquia, mas talvez nunca vejamos ele fazendo aquilo que poderia fazer de melhor, e isso pra mim é tão triste quanto a Turquia - ter que ver o Super-Homem brincando de Mulher-Invisível pra vida toda.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Individual e coletivo

Chris Paul, meio Robin Hood, quer dividir a bola com os 
pobres, mas o Derrick Rose não solta nem fodendo

Houve uma época em que a NBA era lotada de armadores especialistas em pontuar. Baixinhos, rápidos, colocando suas equipes nas costas na hora de marcar pontos, esses armadores capturaram o imaginário de todos nós nanicos apaixonados pela ideia de anões marcando 40 pontos na cabeça dos gigantes. Allen Iverson era o cestinha da NBA e levou o Sixers a uma final, Steve Francis enterrava como se fosse ala de força, Stephon Marbury carregava o Suns para os playoffs. Mas então houve uma mudança ideológica na NBA e esses jogadores começaram a se tornar impopulares, símbolos de um modo de jogo ineficiente que deveria ser abolido. Aos poucos foram perdendo lugar em suas equipes, foram trocados múltiplas vezes, e quando menos percebemos já estavam todos desempregados. Iverson era ídolo absoluto, deus de uma geração, um dos jogadores mais espetaculares do planeta - e aí virou motivo de piada, sinônimo de jogador fominha e individualista. E o que poderíamos fazer para salvá-lo? Afinal, ele era mesmo um fominha individualista, não dava pra negar. O problema é que todo mundo achava isso o máximo até que, de um ano para o outro, tornou-se um comportamento inaceitável comparável a ouvir "É o Tchan". Quem gostava do Iverson passou a dizer isso baixinho. Os fãs do Marbury desapareceram no instante em que ele colocou um vídeo na internet em que comia vasilina. E os torcedores do Houston respiraram aliviados quando Francis foi trocado, afinal um fominha daqueles nunca seria campeão com Yao Ming.

Os tempos são outros. Cada vez mais o importante é ser sagrado campeão. Se um jogador aparentemente fantástico não consegue vencer nos playoffs, deve ser culpa dele, e não queremos nada ineficiente, nada meramente plástico. Carmelo Anthony é um dos melhores pontuadores que o jogo já viu, mas o Nuggets com ele não ia a lugar nenhum - mesmo Nuggets, aliás, que não venceu bulhufas quando tinha Allen Iverson. E para quê serve um jogador que é um dos melhores no que faz se ele não traz vitórias? Sem Carmelo, o Nuggets está nos playoffs dando trabalho para o Thunder e não sente saudade nenhuma da estrela individualista. O Knicks é que se vire com suas estrelas obcecadas pela bola.

Lembro bem de quando Kobe era admirado pelo que conseguia fazer ao monopolizar o jogo. Agora, ele é duramente criticado até por forçar arremessos num All-Star Game, que não vale merda nenhuma. Foi uma mudança de postura da crítica e da torcida, talvez influenciada pelos títulos do Spurs e seu jogo coletivo, talvez pelo anel do Pistons e seu basquete supostamente sem estrelas. Foi um movimento que acabou aposentando vários jogadores e levou Iverson para a Turquia e Marbury para a China, o equivalente a sair da Globo e ir fazer novela no SBT.

Essas coisas acontecem naturalmente no esporte. No futebol nos anos 50, a seleção brasileira era genial porque tinha talento e criatividade ao invés do jogo físico dos adversários, mas bastou perder uma Copa do Mundo para um adversário brucutu e aí o futebol brasileiro não prestava mais porque não tinha obediência tática e condicionamento físico. As opiniões mudam rápido, sempre influenciadas pelos resultados, e jogadores vão de queridinhos a desempregados muito depressa se não souberem se adaptar.

Mas eis que essa era de coletividade e idolatria dos armadores puros, em que a frase "tornar seus companheiros melhores" é o novo hit do verão, vê a chegada de Derrick Rose - e fica completamente apaixonada. É fácil entender, o Derrick Rose é um jogador excelente, um primor físico, o cara mais rápido do planeta, dá enterradas absurdas e penetra no garrafão como faca quente em manteiga, é apaixonante para a gente que curte um jogador suado. Mas ele é a representação atual de tudo aquilo que a torcida achava odiável apenas alguns minutos atrás, e é isso que me intriga tanto. Ao contrário do que acham alguns leitores do Bola Presa, não sou um odiador do Rose. Pelo contrário, acho ele um jogador fantástico de se assistir, é um dos meus armadores favoritos. Apenas acho importante apontar alguns aspectos do seu jogo que compreendemos como falhas em outros jogadores, e relativizar um pouco sua importância dentro do Bulls.

Na vitória do Chicago em cima do Pacers no primeiro jogo de playoff do sábado, Derrick Rose teve números absurdos: foram 39 pontos, 6 rebotes, 6 assistências, um roubo de bola e 3 tocos. A vitória foi mérito dele, o Pacers não fazia ideia de como pará-lo e ele praticamente passou o jogo inteiro dentro do garrafão fazendo bandejas, sofrendo faltas e tomando um suquinho. Mas vejam só: ele acertou apenas 10 dos 23 arremessos que tentou, errou todas as suas 9 tentativas da linha de três pontos, e desperdiçou 3 bolas. Sua prioridade foi sempre, sempre, atacar a cesta. Quando não era possível, tentava um arremesso do perímetro. As bolas não estavam caindo, mas ele compensou porque é capaz de penetrar em qualquer espaço, passar por baixo do sovaco de alguém e sofrer a falta. Foram 19 lances livres certos em 21 tentativas.

Derrick Rose venceu o jogo sem tornar nenhum dos seus companheiros melhor. Sua média foi de 2 assistências apenas para cada desperdício de bola. A enorme maioria dos seus arremessos de três foi idiota e precipitada, e ele continuou forçando mesmo ao ver que nenhuma bola estava caindo. Muitas das suas infiltrações, que davam certo, eram coisa para técnico enfiar o sujeito no banco de castigo para sempre caso não funcionassem. Mas funcionaram, a vitória é dele, e a torcida tem um novo ídolo merecidíssimo.

Mas precisamos lembrar que Derrick Rose só pode ser esse baita jogador com moral pra tentar coisas idiotas (e conseguir) porque joga na melhor defesa da NBA. O elenco todo está desenhado para defender, para servir ao Rose, para arremessar bolas de três pontos quando o Rose não tem mais ângulo para forçar uma bandeja. Esse Bulls só está onde está porque tem Noah na defesa do garrafão, Brewer e Deng na defesa do perímetro, Korver nas bolas de três, e porque quando o Rose vai sentar no banco entra em quadra CJ Watson, dono de um dos melhores números defensivos da liga. A defesa deixa o Derrick Rose ser um idiota descerebrado que faz mágica e nos enche os olhos de lágrimas com a maravilha que é uma estrela na NBA em seu auge.

O triste dessa história, infelizmente, é o Carlos Boozer. Apesar das controvérsias (até entre o Denis e eu), acho o Boozer um dos piores defensores do planeta. Ele é excelente atacando no pick-and-roll, e excelente embaixo do aro e no arremesso de média distância. Mas se o Rose decidiu que faz tudo sozinho no ataque e aciona tão pouco o Boozer, resta a ele servir ao Rose como o resto do elenco o faz: defendendo. E é então que as fraquezas do Boozer ficam tão expostas, que o Tyler Hansbrough pode pontuar infinitamente em sua cabeça, e que surge gente dizendo que o Boozer é ridículo e o Bulls não sentiria sua falta. Não sentiria mesmo se o Bulls quer ser o time do Rose, quatro defensores fodões, e uns caras arremessando de longe. E não tem nenhum problema em querer ser isso. Mas lembram quando todo mundo dizia que o Bulls só seria um time bom se tivesse um cara no garrafão que fizesse pontos perto do aro? Pois o Bulls agora tem esse jogador, e ele se chama Rose, não Boozer.

Não vejo problema nenhum no jogo do Rose, e nem no esquema do Bulls. Até porque ele funciona muito bem e tem grandes chances de ser campeão ainda nessa temporada. Mas não é um esquema que favorece o Boozer, é um esquema feito para o Derrick Rose e por isso exige sacrifícios dos outros jogadores. Como acontecia com o Sixers que foi para a Final da NBA em 2001, em que Iverson fazia tudo sozinho no ataque e todo o resto do elenco se sacrificava para que isso desse certo, especialmente na defesa. Mas enquanto isso passou a ser um absurdo e o Iverson está na Turquia vendo mulher de burca, Derrick Rose vai levar pra casa o prêmio de MVP.

É engraçado ver que em outra série desses playoffs, entre Lakers e Hornets, também tivemos um armador vencendo o jogo, mas em situação completamente inversa. Como avisamos na prévia dos jogos de domingo, para o Hornets ter alguma chance de vencer seria preciso que o Chris Paul jogasse em níveis épicos, aproveitando o fato de que o Lakers tem um histórico de não conseguir defender armadores rápidos, e que o Derek Fisher não defende mais nem ponto de vista. E níveis épicos foi o que o Chris Paul alcançou: 33 pontos, 7 rebotes, 14 assistências, 4 roubos. As diferenças para o Derrick Rose são enormes: ele acertou 11 de seus 18 arremessos, apenas arriscou 3 bolas de três pontos e converteu duas, e desperdiçou apenas 2 bolas (ou seja, deu 7 assistências para cada cagada). Como ele manteve a bola nas mãos o tempo todo, o Hornets como time só desperdiçou 3 bolas em toda a partida, duas do Chris Paul e uma do DJ Mbenga (tinha que ser ele!). O Chris Paul simplesmente não cometeu erros, cuidou da bola com carinho de mãe. Acionou os companheiros livres constantemente, dando cestas muito fáceis para o Carl Landry (que faria as cestas mesmos se fossem difíceis, ele é mágico, pena que é um dos piores defensores vivos) e até para o Aaron Gray, que é só um pedaço de carne disforme e imprestável. Se você torna até o Aaron Gray melhor numa quadra de basquete, você tem que ser um gênio. E acionar tanto os companheiros abriu cada vez mais espaço para os arremessos, que nunca foram o forte do Chris Paul, mas livre fica mais fácil, né? Para piorar, Fisher não conseguia parar as infiltrações e a defesa de transição do Lakers foi medonha, cheia de trocas absurdas de marcação que resultaram no Paul Gasol tendo que marcar o Chris Paul em posses de bola cruciais (e tomando arremessos na cabeça, claro). O Lakers se manteve dentro do jogo, colado no placar a partida inteira, mas não conseguiu defender as bolas importantes porque não sabia o que fazer com o Chris Paul, não sabia se ele iria arremessar ou passar, e não conseguia defender em transição (a impressão que dá é que o Lakers é um time cansado, que não quer mais correr, mas isso é papo para outra hora).

Chris Paul teve uma partida incrivelmente eficiente, tornou os companheiros melhores, foi um armador puro e cerebral. Derrick Rose forçou o jogo, deu arremessos idiotas, ignorou os companheiros em várias posses de bola e errou muitas bolas. E quer saber? Os dois tiveram atuações espetaculares, os dois são jogadores geniais, e há espaço para essas duas abordagens na NBA. Não faço ideia do motivo que trouxe o estilo individualista do Derrick Rose de volta à moda (será que foi simplesmente a melhor campanha da temporada?), mas espero que ele volte para ficar dessa vez. Somos apaixonados pelos jogadores capazes de forçar o jogo e colocá-lo no bolso do mesmo modo que somos maravilhados pelos jogadores que tornam seus parceiros melhores e ganham o jogo mais indiretamente. Sempre vai ter um idiota criticando o Chris Paul (e o LeBron, e o Nowitzki, e até o Kobe) por não dar o último arremesso e preferir passar para alguém livre, mas sempre vai ter um idiota criticando o Carmelo por tentar demais o último arremesso (mesmo tendo o melhor aproveitamento disparado dos últimos anos). Grandes merdas. Odiadores odiarão. O importante é saber que existem os dois tipos de jogadores e que há espaço para esses dois modos de jogo na NBA.

O que precisa acabar, no entanto, é esse mito de que o jogador individualista não envolve o time. Do mesmo modo que o elenco do Hornets é essencial para que o jogo de Chris Paul funcione, acertando os arremessos que surgem com os passes do armador, abrindo espaço para as infiltrações e se movimentando para receber a bola, o elenco do Bulls (e daquele Sixers, por exemplo) também precisa permitir que Derrick Rose monopolize o jogo, garantindo especialmente uma boa defesa, um bom espaçamento em quadra e não exigindo a bola no ataque para funcionar. Tudo no basquete, até ter um fominha maluco em quadra, exige um elenco montado e construído para que isso aconteça. Se o Nuggets queria jogar um basquete focado na defesa, e se tinha o material humano para instalar um basquete coletivo, por que não se livrou do Carmelo Anthony antes? O que é idiota não é ter um jogador individualista no elenco, mas sim tê-lo e querer manter um time que não explore essa característica. Se o Knicks quer duas estrelas que exigem a bola nas mãos, como Carmelo e Amar'e, não faz sentido cercar os dois com jogadores dispostos a participar muito do ataque num basquete coletivo, tem que ser um elenco montado para dar suporte, para permitir que os dois brilhem. O Knicks está nesse caminho, o elenco ainda não está pronto. Já o Nuggets agora pode colocar em prática o que pelo jeito o técnico George Karl sempre quis mas não podia, esse basquete em que todo mundo participa do ataque e fica empolgado para participar também da defesa.

O problema é que esse Nuggets ultra-coletivo acabou colocando uma bola decisiva no finalzinho do jogo nas mãos do Kenyon Martin, assim meio sem querer. Enquanto isso, Russell Westbrook e Kevin Durant monopolizaram o jogo, cercados por um elenco de jogadores secundários que não precisa da bola e que está lá apenas para garantir o jogo das estrelas de forma eficiente. O Thunder é absurdamente bem montado, funciona como intestino de quem come fibras, e para isso não tem problema o Westbrook ser um armador fominha que nunca pensa em passar a bola e prefere tentar pular por cima de três defensores. Já imaginou o Chris Paul fazendo isso? Com o elenco que ele tem, o melhor a se fazer é dar cestas para o Aaron Gray e rezar por um milagre.

Muito mais importante do que o jogador ser fominha, do que idolatrar o Derrick Rose, tacar cocô no Kobe, comparar com o Chris Paul, é saber como o jogador está sendo usado pelo time e como o esquema tático está desenhado ao seu redor. Nesses termos, o Iverson não é e nem nunca foi um problema - o problema está nos times que o contrataram, e no que eles tinham em mente. O Pistons era um time inteiramente coletivo, foi cagada achar que o Iverson jogaria por lá. O Grizzlies, que vimos vencer o Spurs no domingo com uma dupla de garrafão que se ama e passa a bola um para o outro o tempo inteiro, nunca poderia ter um jogador que segurasse a bola no perímetro. Ou seja, culpa deles por contratar o Iverson, que era o jogador errado. Para ter o Iverson, é preciso explorar suas qualidades e, pra isso, montar um elenco que permita que sua individualidade aconteça. O Derrick Rose talvez nos ajude a romper esse preconceito com os jogadores que forçam o jogo, e nos mostre o valor do elenco, do esquema tático, e portanto a dificuldade de se comparar jogadores. Quem é melhor, Rose ou Paul? Depende: com que elenco, em que plano tático?

O Dwight Howard, por exemplo, pode ser um jogador genial e fazer 46 pontos num jogo - e ainda assim estar no esquema tático errado, com o elenco errado, e conseguir perder para a porcaria do Hawks. Mas esse é um caso pra ser analisado em particular, e fica pro nosso post de mais tarde.

domingo, 17 de abril de 2011

Preview da primeira rodada - Parte 2

Ontem tivemos o primeiro dia de playoffs, com 4 partidas durante todo o dia. O esquema é esse: assiste jogo, come, faz pipi, estica os joelhos, assiste jogo, come, faz pipi, escreve no Twitter, assiste pipi, come, estica o jogo, escreve no joelho, e assim vai. Hoje o esquema se repete com Spurs e Grizzlies logo às 14h, seguido por Lakers e Hornets, Celtics e Knicks e Thunder e Nuggets. As séries de ontem foram todas disputadas, com os times mandantes passando algum sufoco com exceção do Magic que... que... bem, deixa pra lá. A partir de segunda-feira teremos análises completas de várias partidas, analisando o andamento das séries com detalhes. Por enquanto, ficamos apenas com a abordagem minimalista que usamos para analisar as séries anteriores, ou seja, vamos tentar explicar a cara de cada jogo com o mínimo de palavras possível (e dá-lhe infográfico para alegrar quem folheia livro só pra ver as figuras!):


Spurs e Grizzlies

O Spurs é o melhor time do Oeste, estamos em ano ímpar e o Duncan está em quadra, ou seja, a lógica natural é botar os anéis de campeão no correio e pronto, estamos de férias e vamos acompanhar, sei lá, críquete. Mas a verdade é que eu acho essa a série mais enganadora, a que mais parece fácil e não é. Pra começar, esse Spurs é diferente, joga em ritmo acelerado, depende de pirralhos como o George Hill e o Gary Neal (coisa que o Popovich nunca aceitaria uns anos atrás), envolve menos o Duncan no ataque e ainda está com o Ginóbili com o braço contundido, ninguém sabe se ele entrará em quadra no domingo. Então é um Spurs que não sabemos como vai reagir nos playoffs depois que o continuum do espaço-tempo foi rompido com a eliminação para o Suns nos playoffs passados. Hoje em dia não dá mais pra contar nem com o que é óbvio e certo, não é mesmo? Vai que esse Spurs, que corre às vezes um pouco demais e volta e meia defende de menos, se atrapalha todo nas mãos da criançada e se lasca. E tem mais, o Grizzlies também não é mais o mesmo. Depois de irem para os playoffs três vezes e nunca ganhar um maldito jogo sequer na pós-temporada, eis que eles são um time completamente mudado e que se orgulha de defender. Sabe como é, a defesa do Garnett é tipo lepra, você fica muito tempo perto dele e começa a se contaminar, e o Tony Allen contaminado acabou despejando o vírus em todo o Grizzlies.

O banco do Spurs pode decidir a série, mas ele é jovem e cheira a fralda. O Zach Randolph pode infernizar o garrafão do Spurs, botando pressão no Duncan, que cheira a asilo. O Grizzlies gosta de jogar na correria e contra times velozes é que eles se saem melhor forçando erros do adversário, o que cheira a Suns antigo que apanhava do Spurs. Mas esse Spurs talvez não consiga diminuir o ritmo do ataque como fazia, porque cheira a novo. E falta para o Grizzlies consistência nos arremessos de três pontos desde que o Rudy Gay se lesionou, o que cheira a OJ Mayo tendo que forçar bolas idiotas demais. Então tem muitos cheiros diferentes nessa série e, embora o Spurs seja obviamente o favorito, vamos aprender muitas coisas tanto sobre esse novo modelo de Spurs nos playoffs quanto sobre se esse Grizzlies ainda vai dar em alguma coisa nos anos seguintes (e quebrar essa sequência de 12 derrotas seguidas em partidas de playoff).


Lakers e Hornets

Tem coisa mais aleatória do que perder seu armador reserva porque ele pegou catapora? Onde diabos um marmanjo de 30 anos pega catapora? Jogando basquete no parquinho com seus amigos da pré-escola? Dando uma de Michael Jackson? Sei lá, mas é isso que deixa a série interessante. Sem o David West, lesionado e fora por mais pelo menos uns 6 meses, esse Hornets é limitadíssimo. Eu acho o substituto dele, o Carl Landry, um absurdo de um jogador, ele tem o poder mutante de fazer a bola entrar de algum jeito quando está embaixo do aro, mas ele não tem como se sair bem contra Gasol e Bynum (que no máximo deve perder o primeiro jogo). Então sobra pro Hornets ter atuações espetaculares do Chris Paul, que na ausência do Steve Blake e sua catapora será marcado pelo Derek Fisher, que se tomasse conta de três tartarugas ia acabar com uma grávida e duas foragidas. É a única chance do Hornets dificultar a série, e depende do Chris Paul infiltrar sem parar e aí pontuar ou alimentar seus companheiros para bolas de três pontos.

Só tem um problema: o Chris Paul depende tanto de pick-and-rolls que chega a ser absurdo, e ninguém no Hornets consegue fazer isso como o David West fazia. O Fisher vai ser estraçalhado, mas o Chris Paul vai ter problemas para atacar o aro consistentemente sem alguém para fazer o "pick" com ele em toda jogada. O Lakers é maior e mais barbudo, e mesmo tirando seus cochilos só vai ter que se preocupar mesmo é se o Chris Paul se animar em níveis épicos. Ou se o Kobe pegar catapora, nunca se sabe.


Celtics e Knicks

Uma das melhores defesas contra um dos melhores ataques. Uma das melhores marcações no garrafão contra um dos melhores times de costas para a cesta. Um dos melhores times na defesa individual contra um dos melhores times em jogadas de isolação. Sabe o que isso significa? Que o time bom no ataque não tem a menor chance. É fato, nessas horas a defesa - especialmente se for física como a do Celtics - sempre leva vantagem e o ataque dos verdes dá um jeito sozinho, como eles provaram tão bem nos últimos anos.

O problema é que o Celtics não é mais essa defesa fodona que os números indicam. Aliás, os números mostram que houve pouca mudança na defesa desde que o Perkins foi trocado, mas para isso o posicionamento dos jogadores mudou, o esforço aumentou, e agora não dá pra ser tão físico como antigamente - e aí ninguém mais tem medo de ficar infiltrando, foi-se o fator psicológico. O Celtics é um time cansado, esbaforido, velho, e ter que marcar um dos melhores ataques da NBA vai ser difícil pra burro. Era pra ser uma série fácil, fácil para os verdes, afinal o Knicks está nos playoffs meio sem querer, o plano era só montar um time decente na temporada que vem, ainda são um projeto pela metade (imagine um carro que ainda vai comprar e parcelar o motor em 12 vezes no cartão Wall-Mart). Mas não, agora vai ser uma série difícil e sofrida e o Celtics, se passar, deve chegar ainda mais cansado na próxima rodada. Eles vão perdendo estamina de rodada em rodada, como se fosse videogame, e não dá pra fazer isso pra sempre. Mas não se acudam, fãs do Celtics, porque o Bola Presa fez um infográfico com tudo que é preciso fazer para o time de Boston vencer a série:


Clique na imagem para ver em alta definição (pilhas não inclusas)


Thunder e Nuggets

Lembram-se que o LeBron disse que o Sixers era "o Nuggets do Leste" e que o time acabou dando um sufoco para o Heat ontem? Pois bem, o Nuggets é "o Nuggets do Oeste" e vai dar sufoco para qualquer time. Qualquer time. Menos o Thunder.

O Nuggets teria um confronto mais parelho com o Mavs, com o Lakers, mas foi pegar justo o Thunder que deu uns cacetes neles bem na última semana da temporada regular. Tudo porque o Nuggets encaixa bem mal no Thunder. O George Karl gosta de usar Raymon Felton e Ty Lawson ao mesmo tempo em quadra muitas vezes, mas aí quem vai marcar o Russell Westbrook, que é um monstro? A simples ideia de que o Ty Lawson vai entrar em quadra nessa série é assustadora, porque o Westbrook vai engolir aquele anão com azeite e sal. E ele não é o único, para parar o Durant seria necessário usar o Wilson Chandler, que ainda está baleado de uma contusão, ou o Kenyon Martin (que é muito melhor defendendo no perímetro do que as pessoas costumam lembrar), mas aí o Nuggets perde muito em tamanho no garrafão. E esse tamanho, que seria útil contra todas as outras equipes do Oeste, vai sofrer para se fazer presente contra o Kendrick Perkins. Aliás, o Perkins e o Nenê se odeiam, quase saíram na porrada nos últimos jogos, e eu não ficaria surpreso se rolasse uma pancadaria. Mas seja como for, o Nenê tem dificuldades contra o Perkins e o Nuggets vai acabar apostando demais nas bolas de três. São dois times que jogam em ritmos bem parecidos, que gostam de correr, que se divertem na transição, a grande diferença está no fato de que o Thunder ataca mais a cesta, cobra mais lances livres, e o Nuggets arremessa mais bolas do perímetro (especialmente quando os jogadores de garrafão são contestados ou bem marcados). As bolas de três, todo mundo sabe, são terra de ninguém. O Nuggets pode vencer 4 jogos seguidos se o JR Smith ficar louco e acertar tudo, mas pode perder 4 jogos também e o JR só vai parar de arremessar se for algemado. Nas costas. No fundo, são dois times inexperientes e um tanto parecidos, mas o Nuggets terá muitas dificuldades no encaixe com o Thunder e no jogo de garrafão. Mérito, de novo, do Perkins. Se você é fã do Nuggets, pode usar o infográfico acima e também tentar evitar a troca. Pode funcionar.

sábado, 16 de abril de 2011

Preview da primeira rodada - Parte 1

Começam hoje os playoffs da temporada 2010-11, nem acredito! A temporada foi tão longa, mas tão longa, que achei que eu fosse descer no meio do caminho, a gente chega nos playoffs já exausto, até esqueceu o que é bom basquete depois de umas semanas regadas a Eddie House e Jamaal Magloire. Por outro lado, os playoffs sempre chegam cedo demais, nem deu tempo de fazer todas as coisas que eu me prometi fazer antes de começar a parte da temporada que realmente importa. Então toca lavar a roupa que eu jurei que ia lavar semana passada, fazer mercado, plantar uma árvore, pregar aquele botão, tudo às pressas antes de começar o primeiro jogo. Os playoffs são difíceis para os jogadores, os jogos são físicos e brigados, mas nem se compara com o esforço para nós torcedores: tem que ver todos os jogos, vários por dia, não dormir, comer nos intervalos, tomar banho rápido na pia, cagar num piniquinho e dar migué para o chefe no trabalho, pro professor na escola, e pra Alinne Moraes na cama. Para isso, é sempre essencial ler o post do Denis com as dicas de como acompanhar os playoffs. É um post clássico, tem 3 anos, mas é imortal e vai te transformar num especialista da arte de dar migué. Depois não venha choramingar dizendo que perdeu um jogo importante porque precisou fazer provinha ou alguma coisa ainda mais idiota tipo realizar uma cirurgia cerebral pra salvar uma criança. Lembre-se, as crianças sempre podem esperar. As crianças e os anões.

Os playoffs começam hoje com Bulls e Pacers, e seguem com mais três jogos ao longo do dia: Heat e Sixers, Magic e Hawks, e Blazers e Mavs. Ou seja, é dia de ficar na frente do computador ou da TV tomando só purê de maça na veia.

Como são muitas séries, o tempo é curto, e preciso resolver todos os perrenhes da vida pra poder me trancar num bunker nuclear e acompanhar integralmente os playoffs, vou optar por uma abordagem mais... digamos, minimalista no preview dessa vez. Tentarei resumir os confrontos de sábado com o mínimo de palavras possível, fazendo uso de vídeos e infográficos se necessário, assim até aquele seu priminho analfabeto vai poder se preparar para as séries de hoje. Amanhã tem mais, resumindo as séries de domingo.

É claro que se expressar com poucas palavras vai contra o continuum do espaço-tempo no Bola Presa, mas assim que todas as séries tiverem começado faremos nossas tradicionais análises dos jogos - gigantes - com mais embasamento do que esses exercícios Walter Mercadianos de futurologia que todo mundo faz por aí e a gente sempre tenta evitar. Claro, meio-que-estou-dando-um-migué, mas o que conta é analisar quando virmos exatamente como os times vão se enfrentar. Vamos, então, para o resumo de leve dos jogos que acontecerão no sábado:


Bulls vs Pacers



Ai. Esse, senhoras e senhores, é o Ronnie Brewer, que volta de contusão e deve jogar hoje mesmo. E essa, senhoras e senhores, é a defesa do Pacers, uma peneira. Os dois times jogam em alta velocidade, os dois times gostam de jogar no contra-ataque, então devemos ter jogos divertidos cheios de porra-louquice. A defesa do Bulls está entre as duas melhores da temporada, mas a dificuldade deles é justamente em parar os contra-ataques e em defender jogadores de garrafão com as costas para a cesta. Isso quer dizer que se o Pacers abusar do contra-ataque e acionar Roy Hibbert com frequência, talvez não seja um massacre. A defesa do Bulls, no entanto, tem tudo para comer o Danny Granger vivo e para ter contra-ataques o Pacers vai precisar defender o ataque do Bulls com eficiência. Ainda acho que o Derrick Rose solta pouco a bola, mas quer saber? Quanto menos ele soltar dessa vez, melhor contra o Pacers, que não vai ter ninguém pra parar o garoto. E tem mais: me sinto ridículo escrevendo um preview para essa série porque o Pacers foi para os playoffs sem querer. Sem querer. Em pleno projeto de reconstrução. Se a Conferência Leste tivesse times de basquete, isso nunca aconteceria.


Heat vs Sixers

O LeBron chamou o Sixers de "o Nuggets do Leste". Ele provavelmente quis dizer que trata-se de um time que sem nenhum puto de um sentido continua ganhando e pode assustar os times grandes. Fato, o Sixers não faz sentido, eles deveriam feder mas não fedem, eles não tem uma estrela. Mas se o Heat está assustado com eles, é melhor parar por aqui e todo mundo ir ver Ursinhos Carinhosos - O Filme, afinal o próprio LeBron lembrou de um troço importante: é o Nuggets DO LESTE. Isso quer dizer, dentre outras coisas, que o ataque do Sixers tem tanta dificuldade de funcionar em meia quadra que se você estiver com sono, pode até achar que se trata do Bucks, então imagina como eles vão sofrer contra a defesa do Heat. Talvez se o Elton Brand usar o robô gigante do Jaspion, o jogo de meia quadra funcione contra o garrafão mais fraco e baixo do Heat, pena que ele tenha perdido seu talento para os Monstars uns anos atrás. Fora isso, os dois times vão viver dos contra-ataques, são dois dos times que mais fazem pontos de transição na NBA. O problema vai ser o Sixers conseguir defender a ponto de ter transição. Real motivo pra ver a série? Se você quer ver o circo pegar fogo, uma derrota do Heat seria a maior broxada da história da humanidade depois da vez que a Tiazinha tirou a máscara na Playboy. É pra contar pros filhos. Se o Heat vencer, a gente boceja, diz que o time é apelação, que assim "até eu", e sabe que o Nuggets vai perder a série deles no Oeste também.


Magic vs Hawks

Eu já escrevi esse preview ano passado. E é terrível que a NBA ainda não tenha dado um jeito de impedir que essa série aconteça de novo! Nós esperamos tanto tempo, a temporada regular é tão estupidamente longa, e aí somos obrigados a ver o time que perde para qualquer pivô meia-boca enfrentar o time com o pivô mais dominante da atualidade? Abaixo, vai um infográfico com tudo que você deve fazer ao acompanhar a série entre Hawks e Magic:

Clique para ver de pertinho cada detalhe visual de nossos infográficos



Blazers vs Mavs

Putamerda, mais uma vez o Mavs é favorito, mais uma vez o Mavs tem mando de quadra, e mais uma vez aquela sensação de que eles vão ser eliminados na primeira rodada está viva e andando entre nós. Estatística bizarra: o Mavs é o segundo time que faz mais pontos em jogadas de isolações (entenda "esse time idiota continua usando mal o Kidd") e o Blazers é o segundo time que pior defende isolações no mano-a-mano. Ou seja, dá pra prever o Nowitzki fazendo chover e descobrindo a cura para o câncer. Por outro lado o Blazers é mais eficiente justamente onde o Mavs peca, que é no jogo ofensivo de garrafão com o LaMarcus Aldridge. O Blazers se salva em muitos jogos nos rebotes ofensivos, o Dallas é um dos melhores times em rebotes defensivos da liga. E as duas equipes jogam em velocidades parecidas, valorizando o jogo de meia-quadra, com o Mavs usando os contra-ataques para as bolas de três pontos, e o Blazers atacando mais o garrafão. Ou seja, vai ser sem dúvida nenhuma a série mais parelha dessa rodada - até mais do que Thunder e Nuggets, me desculpem. Engraçado é que o Blazers também não devia estar aí depois de perder Greg Oden e Brandon Roy, além de muitas outras contusões, e do Roy ter voltado com peças de Lego no lugar de joelhos, mas o Mavs também não deveria estar na terceira posição do Oeste depois de perder Caron Butler pela temporada inteira. E, minha nossa, o Mavs é um time tão pior sem o Butler em quadra! Os dois times conseguiram campanhas surpreendentes apesar das contusões, têm estilos parecidos em alguns pontos, opostos em outros, são muito piores sem os jogadores que perderam, e deve ser uma briga boa. Mas o Mavs, sabe como é, o Mavs. Se passarem da primeira rodada, é capaz que tenham Caron Butler de volta para as semi-finais, seria épico. Mas para isso...

Basta apenas olhar para o Blazers, puxar um pouco da memória, olhar para o Mavs e saber que tem tudo pra dar merda. Torcedores do Mavs: tenham medo.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Prêmios Alternativos do Bola Presa - 10/11

Matt Carroll dá entrevista depois de levar um Troféu Bola Presa para casa


Final de temporada regular. Enquanto todos os sites e blogs sérios de basquete estão discutindo coisas importantíssimas como MVP, Técnico do Ano, Jogador que mais evoluiu e blá blá blá, o Bola Presa vai pagar de alternativo. Vamos usar nosso cabelo de uma forma esquisita, usar roupas compradas em brechó e distribuir prêmios únicos na internet basquetebolística brasileira ocidental contemporânea.

Isso não é novidade, já é o quarto ano dos nossos Prêmios Alternativos. Para quem é novato em Bola Presa vale dar uma olhada nos anos anteriores:

Prêmios Alternativos 07/08
Prêmios Alternativos 08/09
Prêmios Alternativos 09/10

No ano passado fizemos dois posts, um com os candidatos a voto popular e depois um com os resultados. Achei que ficou meio maçante e desnecessário, então voltamos ao formato em que simplesmente distribuímos os prêmios. Se acharem que eu esqueci de alguma coisa é só cornetar nos comentários.

1. Jogada Bola Presa do Ano
É o meu prêmio favorito. Uma jogada que por toda sua beleza, sabedoria, criatividade e expressão artística consegue definir tudo o que é o basquete, o Bola Presa, eu, você e todo mundo canta junto. Nesse ano foi bem complicado escolher o vencedor pelo excesso de grandes jogadas, mas levou o prêmio quem riu (ou nos fez rir) por último: Von Wafer. Ainda nessa última semana da temporada ele conseguiu a proeza de errar uma enterrada, sair comemorando como se tivesse acertado e trombar com o seu companheiro que havia pegado o rebote. Tudo isso na prorrogação! Se você sofre de Vergonha Alheia Aguda não assista:



Os outros candidatos ao prêmio foram:
Tim Duncan: Um dos melhores defensores de garrafão da história toma uma aula. Do Earl Boykins.

Marreese Speights: Todo mundo erra enterradas de vez em quando. Poucos erram por tanto.

Andray Blatche: Como o título do vídeo diz, "Andray Blatche faz algo de Andray Blatche"

Darko Milicic: Darko. Cesta contra. Em uma bola ao alto.


Todo o time do Wolves: Com grande assistência (sem olhar) do Chris Bosh, diga-se de passagem:



2. Troféu Kareen Rush de melhor atuação de um jogador ruim
O prêmio homenageia Kareen Rush, jogador do fim do banco do Lakers em 2004 mas que com 6 bolas de 3 pontos foi o responsável pela vitória do time de LA sobre o Wolves na partida 6 da final do Oeste daquele ano. Volta e meia algum jogador meia boca sai do banco de reservas para fazer história e só aqui no Bola Presa ele ganha um prêmio por isso.

A disputa desse ano ficou entre dois arremessadores, como era o saudoso Kareen Rush: Em março o grande CJ Miles, 12 pontos por jogo, meteu 40 na fuça do glorioso Wolves, com direito a 77% de aproveitamento dos arremessos e 6 bolas de três. Do outro lado da batalha está Matt Carroll, que nos primeiros dias de abril aproveitou que Stephen Jackson estava machucado para tomar conta do show e meter 26 pontos, 11-16 arremessos e mais 4 rebotes.

O jogo do Miles foi melhor, mas ele é um jogador melhor também. Pela sua ruindade e pelas cestas lindas que acertou naquele dia mágico, o vencedor é Matt Carroll.


3. Troféu Lonny Baxter de jogador que só joga nas Summer Leagues
O Lonny Baxter praticamente fez sua carreira baseado nas ligas de verão. Todo mês de julho lá tá o cara pegando 15 rebotes por jogo. Depois disso ele conseguia vaga em algum time e fedia a temporada inteira. Infelizmente Baxter não engana mais ninguém, mas nomeia nosso troféu que parabeniza aqueles jogadores que nos enganaram jogando bem quando não valia nada.

Eu vou com a cara do pirralho, não queria dar esse prêmio para ele. Mas você não pode humilhar o John Wall na Summer League, depois ter média de 2 pontos por jogo em 9 minutos por partida e ir pra casa sem um prêmio do Bola Presa. Se Jeremy Lin jogou bem nesse ano foi só quando estava rebaixado à Liga de Desenvolvimento.

Dá para ler sobre a linda história de Lin na Summer League nesse post aqui.


4. Troféu Isiah Thomas de troca do ano
O Isiah Thomas contratou Jerome James, trocou escolhas de draft valiosas por Eddy Curry, juntou ele com o Zach Randolph e pagou zilhões de dólares pelo Jared Jeffries. Tantas bobagens serviram para homenagear o antigo General Manager do Knicks com o troféu que premia a troca mais idiota da última temporada regular.

Uma troca que estava me coçando a mão premiar foi uma que aconteceu logo antes da temporada regular começar. O Bucks mandou o famosíssimo Darnell Jackson e uma escolha de 2ª rodada de Draft em troca do futuro Hall da Fama Jon Brockman. Foi uma troca tão bombástica que uma notícia do tipo "Nana Gouvêa toma sol na praia" rende mais repercussão.

Mas eu decidi não premiar Bucks e Kings. Correndo o risco de quebrar a cara (nos próximos meses ou anos) vou dar o troféu Isiah Thomas para Danny Ainge. Trocar Kendrick Perkins foi a maior cagada que ele poderia ter feito nessa temporada. Ele desmontou o time que se orgulhava de ser uma família só porque soava como um bom negócio. Ainge, com sua boa visão de negócios e pensando no futuro financeiro e esportivo da franquia, acabou com toda a graça da coisa. Pela troca mais balde de água fria que eu já vi um Manager fazer com o próprio elenco, Ainge é o vencedor.


5. Troféu Grant Hill de jogador bichado do ano
Hoje o Grant Hill é um idoso saudável que come iogurte azedo, faz crochê, caminha toda manhã e tem boa saúde, mas sua carreira sempre vai ser marcada pelo o que ele poderia ter sido e nunca foi porque perdeu tantos anos machucado. No Magic ele passou quase uns 5 anos por lá e não jogava nem por decreto, seu tornozelo era forte como aqueles seus bonequinhos do Futebol Gulliver (o saudoso Futebol Pelé!). Homenageando o Grant Hill, o prêmio de bichado do ano. Mas só uma coisa: se esse velhaco jogar mais uma temporada inteira sem uma contusãozinha sequer e metendo 34 pontos na fuça das pessoas, eu mudo essa droga para Troféu Greg Oden. Tá avisado!

Nessa temporada o prêmio, que ano passado já havia sido dominado pelo Blazers, continua em Portland. O vencedor é Brandon Roy. Antes da temporada começar o Kobe Bryant deu uma entrevista dizendo que Brandon Roy era mais difícil de ser marcado do que Kevin Durant, dois anos atrás havia sido Ron Artest que tinha dito que Roy era mais completo que o próprio Kobe! Uma temporada depois esse mesmo super jogador é um reserva do Blazers que jogou só 47 jogos, com médias de 27 minutos e 12 pontos por jogo. Sim, Roy tem a mesma média de pontos que CJ Miles.

Não foi culpa dos Monstars, mas sim dos seus joelhos que, segundo alguns especialistas, só deixam ele jogar em alto nível (e nem tão alto assim) por no máximo uns dois ou três anos. Grant Hill, muso do prêmio, está aí para mostrar que reviravoltas são possíveis. Mas por enquanto o futuro é obscuro para Brandon Roy.


6. Troféu Darius Miles de atuação surpresa na última semana
Darius Miles marcou 47 pontos na última rodada da temporada regular em seu ano de contrato. Bastou para enganar o Blazer e garantir mais uns milhões na conta de um dos jogadores mais decepcionantes da última década. Como homenagem, um prêmio para a atuação mais inesperada da última semana da temporada regular.

Ontem a gente teve umas atuações interessantes de última semana, como os 19 rebotes do Jamal Magloire, o triple-double do Goran Dragic e os 35 pontos do Eddie House. Mas nada o bastante para ofuscar o primeiro triple-double da carreira do glorioso Drew Gooden. No último domingo ele meteu um jogo de 15 pontos, 13 rebotes e 13 assistências (!!!) pra cima do glorioso Cavs. Números tão altos em um triple-double nessa temporada só o Russell Westbrook que fez 34-13-13 contra outra defesa feroz, a do Wizards.


7. Troféu Shawn Bradley de enterrada na cabeça
Ah, o Shawn Bradley! Lembram dele? O branquelo gigante de 2,25m que ficou famoso pela cara de bobo, pela participação no Space Jam e por ser protagonista do Top 10 mais embaraçoso da história do YouTube. Em homenagem a esses gloriosos jogadores que se humilham para o nosso prazer, o prêmio Shawn Bradley de melhor cravada na cabeça!

Tudo bem que essa enterrada do Wade no Perkins foi beeem legal, mas como não dar o prêmio para uma vítima do Blake Griffin? Desculpa, Wade, mas o prêmio já estava dado desde o momento que ele colocou as bolas na cara do Timofey Mozgov.



A NBA.com tem nessa temporada uma página chamada "Dunk Ladder" que faz uma lista com as melhores enterradas do ano, venceu a do JR Smith contra o Spurs, mas eles lá não sabem de nada.


8. Troféu Michael Schumacher de volta frustrada
Antes o Troféu chamava Ronaldo Fenômeno, depois ficou sem nome e, por enquanto, vai chamar Schumacher. Que mais pode chamar agora? Troféu Belletti? É o Tchan? Vasto mundo esse dos fracassos.

Eu sou incapaz de definir apenas um vencedor para essa categoria. Yao Ming ou Greg Oden? Oden ou Yao? A história dos dois são parecidas, ambos sofrem com contusões faz tempo, ambos estavam anunciando a volta para essa temporada há meses e ambos fracassaram imensamente devido às mesmas contusões de sempre. Vamos então pelos números, Yao jogou 5 partidas, Oden, nenhuma. O Vovô de Portland leva o troféu pra casa.

9. Troféu Zach Randolph de melhor jogador em time que só perde
O nosso glorioso gordinho passou boa parte da sua carreira fazendo 20 pontos e pegando 10 rebotes em times que mal passavam das 30 vitórias por temporada e só disputou uma vez os playoffs. Mas dessa vez o Grizzlies tá com tudo. O pança então não concorre, seu time está bem nos Playoffs, mas pelo conjunto da carreira ainda é o nome do troféu que já presenteou duas vezes o Al Jefferson e que ano passado presentou Tyreke Evans.

Nesse ano, porém, o Tyreke Evans sofreu com contusões, não manteve o mesmo nível do ano passado e não está na briga. O seu time ruim, porém, continua ruim. Eu fiquei em dúvida entre cinco jogadores para esse prêmio: Blake Griffin, Eric Gordon, Steph Curry, Monta Ellis e Kevin Love. Logo, foi fácil definir o vencedor. Griffin e Gordon são demais e seu time é ruim, mas como decidir quem merece mais o prêmio? O Clippers nem é tão ruim assim, penaram mais por causa de um começo de temporada Cavalierístico, o resto foi aceitável.

E fiquei meio assim de premiar alguém do Warriors. Tá bom, 36 vitórias numa temporada não é grande coisa, mas no Leste eles estariam a uma vitória dos playoffs com esse número. Não é exatamente um time ruim. Sobrou então Kevin Love, que soma impressionantes marcas pessoais (maior sequência de double-doubles da história e jogos de 30 pontos e 20 rebotes) com o fato de ter acabado a temporada no pior time da liga. Sim, mesmo com o recorde histórico de derrotas seguidas o Cavs acabou na frente do Wolves. All-Star, Prêmio Bola Presa, Recordes e muitas, muitas derrotas para o Señor Amor.


10. Troféu Gary Payton de jogador que mais involuiu
O Gary Payton era um dos melhores armadores da história da NBA, mas foi para o Lakers ser pior do que o Derek Fisher em 2004. Ele que dá o nome do troféu mais triste dos nossos prêmios alternativos.

Esse prêmio acabou saindo bem irônico porque por mais que eu tenha pensado em alternativas, não consigo premiar outro que não o Aaron Brooks. O mesmo jogador que no ano passado recebeu da NBA o prêmio de jogador que mais evoluiu na temporada. "Mr. Rollercoaster" pode ser seu apelido agora? Em 2009-10 ele foi cestinha do Rockets, líder da NBA em bolas de 3 por partida e parecia que tinha futuro promissor, mas nessa temporada seus defeitos começaram a florescer: Muito individualista, fraco na defesa e o Rockets claramente era melhor quando tinha Kyle Lowry armando o jogo. Não à toa o sábio General Manager Daryl Morey tinha a chance de extender o contrato dos dois na última offseason e só o fez com Lowry.

Aaron Brooks acabou trocado e hoje é reserva do Steve Nash no Phoenix Suns. Isso quer dizer que ele joga poucos minutos e quando entra é só para disparar arremessos idiotas de três pontos. Nenhum outro jogador despencou na média de pontos (de 19.6 para 11.6) como ele nesse último ano. Em segundo em terceiro lugares no prêmio eu coloco Richard Hamilton e Ben Gordon, mas não, não é coincidência que ambos jogam no Pistons. Michael Jordan teria dificuldade de jogar bem naquela espelunca atualmente.


11. Troféu Bruce Lee Bowen de jogada suja do ano
Fico triste pelas crianças que começaram a assistir a NBA agora e nunca tiveram o desprazer de acompanhar o Bruce Bowen dando voadora na boca do Wally Szszczzerbiak, ou ele chutando o saco do Nash ou ainda forçando a torção no pé do Steve Francis e do Vince Carter. Ah, aqueles bons tempos que não voltam mais. Mas aqui homenageamos o grande mestre do jogo sujo! Palmas para Bruce Bowen.

Para mim a vitória vai para um time às vezes chamado de "soft", o Lakers. A obra de arte foi feita por Andrew Bynum, com uma bela de uma ombrada no Michael Beasley. Se fosse no Luke Ridnour o coitado estaria morto e enterrado hoje.



Mas confesso que as jogadas que não levam o prêmio foram mais engraçadas do que a tentativa de homicídio do Bynum. Primeiro esse toco (que só pegou bola) do Kevin Garnett no Channing Frye. E depois esse empurrão do tipo "cansei dessa merda" do Hilton Armstrong no Joel Anthony, um duelo de titãs:



Repararam na mão do Anthony na cara do Arenas quando ele está caindo? E o empurrão do Juwan Howard no Armstrong é sensacional. Que jogada linda.


12. Troféu 8 ou 80 de Estatística Bizarra do Ano
Um prêmio novo para comemorar a seção "8 ou 80" que agora aparece toda semana no nosso Filtro Bola Presa. Aqui premiamos aquela estatística que nos surpreende por ser impressionante, bizarra ou que fascina só porque paramos pra pensar que alguém perdeu tempo da sua vida pensando nela.

Do Elias Sports Bureau: "Chris Bosh acertou apenas um de seus 18 arremessos (5,6%) na derrota do Miami Heat para o Chicago Bulls. Foi o pior aproveitamento de um jogador que tentou pelo menos 15 arremessos desde que Tim Hardaway fezz 0-17 em uma vitória do seu Warrirors sobre o Wolves em 1991. O último jogador a ter um aproveitamento tão ruim em uma derrota, caso de Bosh, foi Frank Ramsey do Boston Celtics, que fez 0-15 em 1960".

Um Epic Fail para a história da NBA merecia um prêmio. E foi no mesmo jogo em que ele fez isso:




13. Troféu Buscapé de foto do ano
Nada como congelar para sempre um belo momento de nossa existência em uma foto. Aos poucos vamos esquecendo do que aconteceu nessa temporada, mas sempre que olharmos para essas oito fotos vamos lembrar de como essa temporada valeu a pena. Posto começando da campeã até a última colocada entre as finalistas.

Simplesmente perfeita em todos os aspectos possíveis


Foda e esnobe como o próprio Miami Heat


Feio e sonolento como o próprio Washington Wizards


-Tira a mão de mim, tira a mão de mim, TIRA MÃO DE MIM!!


Quem vê essa foto acha que ao invés de empurrar, o Hilton Armstrong 
usou a velha tática da casca de banana com o Joel Anthony


-Ball


No lugar do pirralho eu estaria chorando também


E como eu suspeitava o monstro na verdade é o Dr.Villanueva