sábado, 25 de junho de 2011

A vitória dos derrotados

Como o Danilo disse no último post, eu estou viajando pela Via Láctea e por isso sem muito tempo para postar. Mas achei um dia livre (o último nesse mês) e resolvi aparecer para dar um pouco de atenção para o nosso filho semi-abandonado. O difícil era decidir o assunto! Falar do Mavs campeão, do LeBron James ainda com o mesmo número de anéis que o Cavs, da aposentadoria do Shaq, da contratação do Mike Brown (e do Ettore Messina) pelo Lakers ou, claro, o Draft e todas as trocas que aconteceram junto com a seleção da nova classe de pirralhos? Isso sem contar a discussão sobre a negociação do novo acordo financeiro entre jogadores e os donos de equipes, que devem render mesmo em uma greve. Ou seja, assunto demais para tempo de menos!

Decidi então tratar primeiro do resultado da Final, para encerrar de vez o assunto. Esse post é para comentar sobre a última vitória do Mavs, o que esse título representa para eles e para todos os envolvidos na conquista. Os outros temas podem ou precisam esperar. Falar do Shaq ou do Mike Brown é tão relevante agora como no meio de agosto quando não tivermos assunto e o Draft, assunto do momento, requer muito mais tempo do que eu tenho agora, então fica para Julho, quando eu estiver de volta na terra da coxinha, do feijão e do catupiry.


.....

Brian Cardinal campeão e de óculos escuros: deal with it


O Mavs foi campeão vencendo onde mais venceu em toda a temporada, fora de casa. A habilidade deles em jogar longe do seu ginásio foi essencial para garantir o terceiro lugar no Oeste durante a temporada regular e acabou sendo decisivo nos playoffs. O óbvio é justificar essas boas atuações enaltecendo a experiência do time, mas não é todo time de veteranos que brilha assim fora de casa, só lembrar do veterano Celtics de 2008 que foi campeão vencendo só dois jogos fora de Boston! Eu acho que tem mais a ver com a capacidade do time de se adaptar, de mudar de estratégia, quintetos e sistemas defensivos no meio de uma partida. O normal é um time jogar um jogo mais covarde quando está longe de seus domínios, apelando para jogadas de segurança e sobrecarregando as suas estrelas. Mas ao invés de mandar a bola no Dirk Nowitzki e esperar milagres (que ele era bem capaz de fazer!), eles conseguiam ler o jogo, ir mudando e achar uma solução, sem desespero, antes da partida acabar. Não é à toa que estiveram no lado certo de tantas reviravoltas e viradas nesses playoffs.

Os méritos para essa vitória tem de ser divididos entre muita gente e cada uma delas tem histórias legais para serem contadas, separamos alguns personagens para serem comentados.

Rick Carlisle

A NBA vive hoje o início de uma era onde os técnicos veteranos estão dando adeus: Pat Riley e Phil Jackson dizem que não voltam, Larry Brown quer voltar ao basquete universitário, Gregg Popovich anunciou que se aposenta junto com o Tim Duncan. Para substituí-los existe uma geração que chama a atenção por ser envolvida com o basquete de um jeito diferente, com menos ex-jogadores e mais estudiosos do basquete, caras viciados em táticas e estatísticas. O Carlisle está na liga faz um tempo, mas pode ser considerado do segundo grupo, é sem dúvida um dos que abriu as portas aos nerds brancos bitolados. Ele se destacou no Detroit Pistons no início dos anos 2000, mas saiu (para dar lugar ao calejado Larry Brown) logo antes deles conseguirem Rasheed Wallace e partirem rumo ao título. De lá ele foi para o Indiana Pacers, onde também se destacou (chegou a ter a melhor campanha da temporada regular) mas esbarrou no seu antigo time duas vezes: primeiro nos playoffs de 2004 e depois no "Malice at the Palace", a antológica briga entre os jogadores de Pacers e Pistons que culminou em multas e suspensões que destruiu aquela ótima geração do time de Indiana.

A imagem que o Carlisle deixou depois disso tudo foi que ele manja muito de basquete, sabe de todas as estratégias, táticas e lê o jogo como poucos, mas que na hora de lidar com as pessoas, com os egos e com a motivação ele não sabia o que fazer. Seria como mandar o PVC treinar a seleção brasileira: ele saberia todos os detalhes do adversário e faria a leitura do jogo em dois minutos, mas o que vale isso se ele não souber como conversar com Neymar ou como motivar o Alexandre Pato? Ser técnico envolve muitos talentos e o Carlisle parecia não ter todos.

Eu acho que essa imagem do Carilsle, se não 100% correta, é pelo menos 70% e dá pra passar de ano. É raro vermos ele dando discurso emocional como aqueles do Doc Rivers, gritando até ser obedecido como o Stan Van Gundy ou mesmo fazendo aqueles joguinhos para mexer com o brio dos jogadores que o Phil Jackson se especializou em fazer. Mas aí é que o elenco experiente fez a diferença, o Nowitzki não precisa assistir "Gladiador" antes de começar os jogos pra se motivar, o Jason Kidd já entendeu faz tempo que ele não é a estrela e não fica pedindo atenção ou criando briguinha, o Tyson Chandler não é mais o pivete descontrolado dos tempos de Chicago Bulls. É uma equipe de jogadores controlados, que sabem seu papel e que só precisavam de alguém que entendesse de basquete para dar as ordens. O técnico deu as ordens, treinou, inovou (como a defesa por zona, usada à exaustão na temporada regular) e os jogadores aprenderam rápido, sabiam como se adaptar no meio do jogo e confiaram na nerdice do seu treinador. Combinação perfeita. Repito o que sempre disse nas discussões sobre Deron Williams x Chris Paul: a questão não é quem melhor, mas qual dos dois, com seus estilos distintos, é ideal para cada time, técnico e esquema tático. Então não é que um treinador que motiva é coisa do passado e os bitolados táticos os do futuro, para o Celtics funciona o Doc Rivers, para o Mavs funciona o Rick Carlisle.

Mark Cuban

Muita (MUITA, em Caps Lock mesmo) gente odeia o Mark Cuban, mas eu não sou uma delas. Aliás, muito pelo contrário, eu acho ele o dono de time mais legal da NBA. Poderia gastar um post (ou um livro) só de entrevistas polêmicas, desastradas ou de declarações e provocações idiotas (e dispensáveis, fato) dele, mas não sou inocente a ponto de achar que vivemos em um mundo onde as pessoas não falam asneiras. Eu falo, você fala e o Mark Cuban fala. Aliás, fica uma lição para a vida: Nada é imperdoável, todo mundo fala e faz bobagens trocentas vezes na vida e na grande maioria das vezes é sem perceber. Somos todos imbecis e por isso odiar alguém por ser imbecil é, surpresa, uma imbecilidade.

Atrás de todas as atitudes questionáveis do Mark Cuban está um cara que ficou bilionário no mundo da informática e resolveu investir parte dessa grana para comprar o seu próprio time de basquete. Ao contrário de muitos donos por aí, ele não fez isso porque parecia um bom negócio ou para levar os clientes dele para reuniões na sala VIP do ginásio, mas porque ele é perdidamente apaixonado por basquete. Todas as bobagens que ele fala são completamente perdoáveis quando o vemos vestindo uma camiseta do Nowitzki e pulando atrás do banco, o Mark Cuban é só mais um fã de basquete como nós mas que calhou de ter alguns bilhões de dólares sobrando na carteira, e que fã não sai xingando juízes sem motivo depois de uma derrota? Tá, ele também gosta de aparecer e ser o centro das atenções, mas se formos começar a criticar pessoas com a mesma característica nesse mundo do esporte a gente vai acabar gostando só do John Stockton e mais ninguém.

O Mark Cuban tem tanto dinheiro e gosta tanto do seu time que é um dos poucos donos de time que nunca teve medo de gastar. O Mavs tinha acabado de investir uma grana preta na renovação de contrato do Brendan Haywood antes da temporada começar quando surgiu a oportunidade de conseguir o Tyson Chandler sem precisar mandar ninguém relevante em troca. A folha de salário ficaria inchada e isso significaria que o dinheiro investido no Haywood seria para ele esquentar banco, mas Cuban não ligou, como sempre, em pagar multas e mandou fechar o negócio. O sonho do Cuban era ser campeão e ele gastou demais para isso sempre, nunca aceitando ter um time fraco em mãos. Muito dono de time por aí começaria a cortar gastos depois do primeiro conto do vigário (ver DAMPIER, Erick) contratado a peso de ouro para não fazer nada. Cuban, teimoso/persistente, dá uma nova cartada por temporada e dessa vez deu certo.

Mas o mais legal dessa insistência e paixão do Mark Cuban é que ela foi recompensada bem na temporada onde ele admitiu os seus erros. O Dirk Nowitzki deu uma entrevista dizendo que preferia que o seu chefe não desse nenhuma declaração polêmica (o jeito educado de dizer "estúpida") durante os playoffs e foi plenamente atendido; Cuban permaneceu toda a pós-temporada calado e ganhou de brinde o título que tanto sonhou. O cara pode ser mala, mas eu gosto de ver o título indo para um cara que realmente se importa e se diverte com o time que tem.

Dirk Nowitzki

Na minha cabeça o Dirk já estava naquela lista de jogadores que eu teria que defender e justificar a carreira sem títulos até o fim da vida. Em 2047 quando fossem fazer uma lista dos melhores jogadores nos 100 anos de história da NBA eu estaria lá, velho gagá, para defender a inclusão do alemão mesmo que ele tenha passado a carreira em branco. Isso, claro, depois de dar um piti contra a existência de mais uma chata lista de quem é melhor.

Mas não é que no fim tudo deu certo e ele venceu? A ficha ainda não caiu pra mim. Eu sempre torço para os meus jogadores favoritos vencerem, mas torço em dobro quando eles tem uma reputação manchada pelos motivos errados. Se alguém não gosta do Ron Artest pelo seu comportamento, beleza, eu não acho que seja motivo para odiar mas realmente ele já fez coisas condenáveis. Agora, o Dirk tinha fama de amarelão! Isso era injustiça demais contra um dos jogadores mais legais (e decisivos!) que eu já vi jogar. E não é que ele foi campeão em um time fora de série que venceu todo mundo por 20 pontos de vantagem, foi em um time que tinha limitações no ataque e que realizou viradas heróicas no quarto período sempre lideradas por ele.

Continuo achando que grandes jogadores continuam sendo grandes jogadores mesmo quando não ganham títulos (é preciso ter sorte de estar no lugar certo e na hora certa no fim das contas), mas é bem legal quando esses caras conseguem o que tanto buscam.

Isso vale também para outros grandes jogadores que volta e meia recebiam a patética crítica do "foram bons mas nunca ganharam nada" como Jason Kidd, Shawn Marion e Peja Stojakovic. Mas vamos ser sinceros, se é pra medir qualidade individual por resultado de equipe o que vale mais para medir o talento do Kidd, ser campeão com esse Dallas ou levar um time que tinha Kerry Kittles, Keith Van Horn e Jason Collins de titulares (!!!) à final da NBA? Aquilo já deixava o nome dele na história, mas é bom que ele tenha ganhado um anel para os perturbados que pensam que vão-se os dedos e ficam os anéis. A atuação do Shawn Marion marcando Kobe Bryant, Kevin Durant e LeBron James em sequência também faz jus ao seu talento defensivo sempre esquecido e desvalorizado nos tempos de Phoenix Suns.

A franquia

Perceberam um padrão nessas histórias? O Carlisle era o técnico que nunca ia vencer porque não sabia lidar com os jogadores, o Dirk era amarelão, Kidd, Marion e outros tinham passado do seu auge, Mark Cuban estragava tudo com sua boca maior que o Shawn Bradley. Era um bando de derrotados jogando por uma franquia que parecia destinada a ficar sempre no quase. Quando me perguntaram no começo da temporada se o Dallas tinha chance de ser campeão eu disse o que digo todo ano: Elenco para isso eles tem, mas é assim nos últimos 10 anos e nunca deu em nada. Era chato responder o que faltava para o Mavs ser campeão porque eles tinham tudo, o que faltava era simplesmente ir lá e vencer. Soa idiota mas era justamente isso. Meio como um São Caetano da vida, parecia que a NBA tinha uma (argh!) mística que não permitia que fosse só qualquer time investir, contratar e vencer; tinha que ter camisa, tradição e o Mavs não tinha isso.

Esse título, portanto, coloca o Mavs na lista de times respeitados na liga. Quer dizer, respeitado pelos mesmos que não valorizavam o Dirk Nowitzki até um mês atrás, os que não são obcecados por títulos já percebiam a força da franquia quando eles completaram 10 temporadas seguidas com 50 vitórias ou mais. A maioria dos recordes dos últimos 10 anos é do Lakers, Spurs e Mavs e finalmente agora todos eles tem títulos.

O que é curioso é que esse título não veio no ano em que o time mais empolgou. Eles davam mais esperança quando eram o melhor ataque da liga, quando ainda tinham Steve Nash e Michael Finley, quando foram para a final em 2006 ou quando venceram 67 jogos em 2007. Nesse ano foi bem diferente, tiveram uma temporada boa-mas-não-espetacular e ainda causaram muitas dúvidas quando perderam o Caron Butler no meio da temporada por contusão e não fizeram nada para repor a perda. O Butler era o desafogo do Dirk no ataque do Mavs e eu realmente achei que eles não tinham chances nos playoffs sem alguém para o seu lugar, imaginei que fosse acontecer com eles o que aconteceu com o Bulls. O time de Chicago só tinha o Derrick Rose no ataque e quando ele foi anulado pelo LeBron James o ataque morreu, minha teoria era que em algum momento dos playoffs o Nowitzki fosse ser bem marcado e o Mavs não conseguiria mais pontuar, eu não contava com tanta evolução nas trocas de passes, os arremessos cada vez mais precisos do Kidd e muito menos o Shawn Marion criando o próprio arremesso e o JJ Barea costurando algumas das melhores defesas da NBA. Não houve um problema nessa temporada para o qual o Mavs não soube se mexer e se adaptar.

Legado?

Em um dia otimista daria para dizer que esse time deixaria um legado. Que ensinou, como disse o dono do Cavs Dan Gilbert após o jogo final, que "não existem atalhos para a vitória", que ela aparece na persistência. Ou poderia ter ensinado o valor do trabalho em equipe em contraste com o jogo individualista e baseado em estrelas do Miami Heat, seu adversário na final. Mas não é bem assim. Primeiro porque essa história do Heat ser vilão e não jogar como equipe é meio balela que não faz mais sentido desde janeiro, depois porque nenhum time deixa legado, a gente tem memória curta quando o assunto é esporte. Em 2004, que nem tá tão longe assim, o Lakers montou não um Big 3, mas um Fab Four, com Kobe Bryant, Shaquille O'Neal, Karl Malone e Gary Payton. E o que aconteceu? Eles não dominaram a temporada regular como previsto, mas brilharam nos playoffs até chegar na final, onde perderam para um time que os venceu em um jogo eficiente e coletivo. Roteiro mais repetido só se o Dirk usasse o afro do Ben Wallace e a história passasse na Sessão da Tarde.

E mesmo com essa história recente ainda teve gente com certeza de que o Heat ia brilhar desde o começo, citando o exemplo do Celtics de 2008 ao invés do Lakers de 2004, e outros pensando que a vitória do Mavs vai fazer os times da NBA focarem mais na criação de boas equipes do que em colecionar estrelas. O negócio é simples, quem tem chance de ter LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh ou equivalentes no mesmo time não vai perder a oportunidade de juntar todos. E quem não tem não vai admitir derrota e vai buscar uma solução com outros jogadores. Algumas vezes um lado ganha, outras vezes o outro lado ganha. Para surpresa geral de todos não existe só uma fórmula para se ganhar um título, não tem só um jeito de jogar basquete, não tem mais bobo no futebol e o céu é azul.

Esse título do Mavs deu uma confirmação histórica a muita gente que já fazia por merecer, fez muita gente feliz por ver o Miami Heat perdendo, mas não vai mudar os rumos do basquete e não há uma franquia sequer que não sonhe em ter um Big 3 para chamar de seu.

.....
Pelo o que eu sei o Danilo está com um projeto de post sobre o lado dos perdedores, divagando sobre o Heat e o que essa derrota significa para LeBron James e cia. E quando eu voltar para o Brasil começo a trabalhar em tudo o que comentei no começo do texto, certo? Até lá aproveitem o Bola Presa como se ele tivesse sido feito no Geocities nos anos 90. Coisa das boas.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Draft 2011 - Força Nominal

De que seu time precisa no draft? De um cara chamado Byiombo, claro!

Tem gente preocupada com o Bola Presa, achando que a gente morreu ou desistiu, e por isso fazendo greve de fome ou xingando muito no Twitter - sinal dos novos tempos. Com o fim dos playoffs, o Denis dando as últimas pernadas em sua viagem pela galáxia e eu todo embananado com textos acadêmicos indutores de coma profundo, demos uma pequena pausa nas atividades por aqui. Mas foi apenas por uma semana, não é mesmo motivo para drama. Prometemos voltar no fim de semana passado, não deu, não somos muito bons com promessas, mas agora estamos de volta. Mais ou menos.

As únicas promessas que a gente sempre consegue manter são os prêmios alternativos que damos ao fim da temporada regular da NBA, e o "draft por Força Nominal", uma previsão de quem será escolhido no draft de acordo com o nome de cada um dos elegíveis - mas esse a gente só consegue manter tradicionalmente todo ano porque não é a gente que escreve!

O draft de Força Nominal é escrito pelo Sbub, nosso leitor, amigo, dono de franquia no fantasy Bola Presa, e PhD em força nominal. O conceito é melhor explicado em seu primeiro draft, o de 2008, e é obrigatório ler se você é novato aqui no blog. Vale também acompanhar o sensacional trabalho do Sbub no draft de 2009 e no draft de 2010, provas de que ele faz parte de nossa tradição anual e que para ele, sim, promessa é dívida!

O draft de verdade acontece hoje às 20h, e para saber quem são os jogadores mais badalados o melhor lugar é o draft por consenso do NBA.com, em que eles juntam as previsões dos melhores sites sobre draft do planeta, dá para conhecer mais sobre cada jogador e ficar brincando de futurologia. Só está faltando para o NBA.com colocar junto o draft de Força Nominal, né?

Em breve voltaremos com a também tradicional análise do Denis dos escolhidos no draft, com as notas para as escolhas de cada time, mas dessa vez pode demorar um pouco porque ele ainda está passeando pela Via Láctea. Mas, bem, não teremos Summer League esse ano e a NBA pelo jeito vai entrar mesmo em greve, então pra quê ter pressa? Por enquanto, vamos ficar com a coisa mais legal e divertida do draft: a Força Nominal!

...

Draft 2011 - Força Nominal (por Sbub)


1. Bismack Byiombo - Cavaliers

Após o fracasso na Copa de 86 e o declínio físico de Zico, o Brasil buscava um meia talentoso, que armasse e chegasse na frente, compondo com Careca, Renato Gaúcho e com os promissores Muller, Romário e Bebeto. Tentaram o Silas, tentaram o Valdo, tentaram o Neto. Nenhum vingou por motivos muito distintos. Tentaram também o Bismarck. Que também não deu certo. Mas mesmo assim, foi um jogador muito maneiro.

Bismarck também era o nome de um nobre prussiano que uniu a Alemanha, de uma cidade pequena na Dakota do Norte, que aparece naquele filme Fargo, e de uma ilhota na Oceania.

Byiombo é um nome que remete a um objeto em português que pode significar defesa forte. Ou melhor, imagine alguém que faz corta-luz como um biombo? 

Por sorte, o atleta não se chama Bismarck e sim Bismack. A exclusão do R certamente é uma manobra divina para reduzir a força nominal do cara. Se ele se chamasse Bismarck, sua força nominal atingiria proporções cósmicas e poderia inverter os pólos da Terra. Como ele se chama Bismack, talvez o máximo que ocorra seja um lock out que atrase a temporada em alguns meses. 

Mesmo assim, o indivíduo tem um nome com B duplicado, vem de um time com força nominal (Balocesto Fuenlabrada), tem uma grafia estranha e rima com Mutombo.
Puxa, como eu gostaria de me chamar Bismack Byiombo. Eu teria sido um jogador bem melhor. Ou, no mínimo, a primeira escolha em um draft de força nominal!

2. Eres Kanter - Timberwolves

Jogador: Eres Kanter. Quesito: estranheza. Dez...Nota dez! 

Se o Eres Kanter fosse uma Escola de Samba e houvesse o quesito estranheza, certamente ele tiraria dez. O nome "eres" já seria bizarro em português, imagine em inglês. O nome parece compor com o sobrenome, criando um único nome mucholoco "ereskanter". 

Eres Kanter consegue ter um nome doido sem apelar para nomes grandes e cheios de consoantes e soa tão bem que certamente dará um salto e convencerá os managers de que ele merece ser a segunda escolha do draft.

3. Donatas Montiejunas - Jazz

O leste europeu é pródigo em fornecer jogadores com grande força nominal à NBA. Na verdade, os grandes jogadores que de lá vieram não tinham necessariamente um supernome (Toni Kukoc? Faça-me um favor! Petrovic é vulgar, mas com Drazen até que é maneiro). Porém, os managers acreditam inconscientemente que quanto mais esquisito é o nome, mais europeu é o jogador. 

O Montiejunas, a princípio, pode até parecer mexicano, mas, acreditem, não existe naquele país o hábito de dar nomes parecidos com Montezuma. Donatas é lituano. Ainda assim, se o jogador fizer sucesso, podemos imaginar manchetes como "A vingança de Montiejunas", quando ele ganhar e "O Mal de Montiejunas", quando ele perder. 

Lituano-mexicano? Escolhido! Na posição de número 3.

4. Markieff Morris - Cavaliers

Quem acompanha o draft de força nominal há anos aqui no Bola Presa sabe o valor que iniciais duplicadas tem. Markieff Morris combina um sobrenome classudo com um nome intrigante e, porque não, marcante. 

Um nome com tanta sofisticação chamaria atenção num armador puro. Mas num promissor power forward vai chamar mais atenção. 

Melhor caso nominal: Pau Gasol. Pior caso nominal: Arvydas Sabonis

5. Brad Wannamaker - Raptors

Brad é um desses nomes em inglês que sempre cai bem, como Bill ou Greg. Passa uma impressão de alguém descolado para ter um nome curto, quase um apelido. Mas se este nome for composto com sobrenomes vulgares, como Johnson ou Smith, a legalzeza se converte em neutralidade. Quando ele vem acompanhado de um bom sobrenome, torna-se um suporte perfeito.

Brad Wannamaker soa, de cara, como o nome de um músico secundário de uma banda com algum sucesso no mundo do jazz. A sonoridade vem acompanhada de signicado. Wannamaker é o cara que quer fazer. E playmaker é como se chamam os armadores que dão grandes assistências. O que explica porque o jogador passou de small forward a armador ao longo da carreira.

Melhor caso nominal: Steve Nash. Pior caso nominal: Ivano Newbill

6.JaJuan Johnson - Wizards

Primeiros nomes com duas maíusculas foram febre nos drafts anteriores, culminando na existência do DeMar DeRozan. Sem grandes resultados na NBA, o artifício nominal saiu de moda. Mesmo assim, este draft traz um representante da tendência. A inovação, aqui, é iniciar o nome com Ja, em vez de De ou Da. Isso traz um nome com três iniciais repetidas, elevando ao cubo a potência de um nome inicialmente ridículo. Em meio a tantos nomes interessantes, o triple J sobressairá e será escolhido no sexto lugar e irá para o Washington Wizards.

7. Kyrie Irving - Kings

Kyrie Irving é um nome a princípio estranho, mas que soa mais divertido cada vez que se pronuncia. Com a semelhança entre ie no final do nome e o i no começo do sobrenome, poderia se imaginar uma transição suave e um nome quase único. Mas não. Existe uma pausa obrigatória que te faz dizer cairi(pausa)ârvin. 

Seria mais usual se ele fosse um ponta-esquerda da seleção da Irlanda, mas ele calhou de jogar basquete, e bem, nos Estados Unidos. Então a beleza exótica de seu nome falha em termos de adequação, mas ganha algum destaque em um draft fraco em relação a outros nomes.

8. Brandon Knight - Pistons

Brandon - nome maneiro. Knight - o cavaleiro, o fidalgo, o varão ou o cavalo no jogo de xadrez. Precisa de mais alguma coisa? Brandon Knight para solucionar o jogo de xadrez que virou o elenco do Pistons

9. Jonas Valaciunas - Bobcats

Outro representante do Leste Europeu, só que com um nome menos forte que Donatas Montejiunas. Por possuir as mesmas características, mas ao perder em todos os quesitos pro Donatas, cai por comparação. Mas não precisa sair da salinha verde. 

Melhor caso nominal: Drazen Petrovic.  Pior caso nominal: Zeljko Rebraka

10. Kemba Walker - Bucks

Outro representante da classe de nomes que soam bem como se fossem um só, Kemba Walker é prejudicado pela presença de Eres Kanter no mesmo draft. Ainda assim, Kemba é forte e poderá dizer para sempre que foi uma escolha top 10 e no futuro ser conhecido como Bucks' Kemba Walker. Vai Kemba!

11. Malcom Lee - Warriors

Uma coisa que vocês (é! vocês!) precisam aprender é que a força nominal não é só de nomes estranhos. Lee é um sobrenome que potencializa o que o nome traz. Por exemplo, Courtney Lee é um nome péssimo porque Courtney é ruim. David Lee é um nome médio, porque David é neutro. E Malcom Lee é um bom nome porque Malcom é legal. 

Melhor caso nominal: Bruce Lee.  Pior caso nominal: Rita Lee

12. Jimmer Fredette - Jazz

Em português, Freddette soaria meio afeminado, mas em inglês isso não acontece. O pai de Freddete percebeu o potencial do filho e não escolheu um nome comunzão, como Jimmy. Colocou Jimmer Fredette, deu uma bola de basquete quando o menino completou um ano e torceu. Sua torcida deu certo, papai, e Jimmer Fredette irá para o Jazz. Se for um bom menino, ficará por lá. Se for um mal menino, será trocado por um pivô reserva. 

13. Tristan Thompson - Suns 

Tristan Thompson é uma combinação de um nome estranho e um sobrenome comum. Se fosse no Brasil, em vez de jogar basquete ele se chamaria Tristão Ernesto de Carvalho Filho e seria médico, deputado por um partido liberal e nome de rua. 
 
14. Tobias Harris - Rockets

Eu tenho um amigo que um dia ganhou uma cadela e botou o nome de Tobias. Perguntado do porque, ele disse que achava esse nome lindo. Em nenhum momento ele desconfiou que isso fosse um nome de homem. Desde então, o nome Tobias me intriga. Se me intriga, imagina para um gerente de basquetebol americano que nunca viu esse nome e fala tall-be-as. Nessa altura do draft, só o Spurs sabe o que está fazendo. Então o Rockets dirá que Harris é uma boa aposta para um small forward que atue bem dos dois lados da quadra, que o Tenesse é uma Universidade que traz bons valores, como disciplina tática e treinamento duro. Mas, no fundo, ele será escolhido porque se chama Tobias.

Melhor caso nominal: Shane Battier. Pior caso nominal: Ryan Gomes

15. Kahwi Leonard - Pacers

Kahwi é um nome de índios da América do Sul ou um nome japonês? Leonard é nome e sobrenome? Estas perguntas martelarão a cabeça de Larry Bird até o dia do draft. Os olheiros do time recomendarão Marshon Brooks, mas Bird não conseguirá desviar os olhos de Kahwi Leonard. Então ele vai argumentar que ele tem mais velocidade lateral e escolherá Leonard. Vai dar um abraço e dizer "Welcome onboard, Kahwi" e sentir-se satisfeito. 

Fora do draft por fraqueza nominal: Lucas Bebê - Ninguém

Os ufanistas que me perdoem, mas se tem um nome com força nominal negativa, é o do brasileiro Lucas Bebê. Primeiro que Lucas é nome de jogador de vôlei e não de basquete. Segundo, Bebê é obviamente algo que traz denotações de debilidade e tibieza. Não bastasse, Bebê seria o terceiro nome de um jogador brasileiro ligado a humanos na primeira infância: Nenê, Baby e agora Bebê. Se fosse só o Nenê, talvez desse um ânimo. Mas quem é que vai draftar o sujeito cujo nome é tradução pro português de Baby? Ninguém. 

Para quem não entendeu porque ele saiu do draft na última hora, o fato dele perceber que precisa convencer a todos de que não se chama Lucas Bebê explica integralmente a decisão.

Enquanto lamento este nome, aguardo ansioso pela candidatura ao draft de Jordan Burger. Aí sim o Brasil terá um nome candidato para uma das cinco primeiras escolhas do draft, jogo dos novatos e all star game nominal.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Resultado da Promoção das Finais

Pessoal, é o Denis por aqui. Sei que sumi durante as finais e que o Danilo que carregou o time nas costas enquanto eu amarelei, mas foi por um bom motivo. Finalmente minha aventura cipriota acabou e eu aproveitei a proximidade com o velho mundo para conhecer alguns lugares, ver amigos que moram por essas bandas e reviver parte da história da minha família. Durante boa parte das finais eu estava em um pueblo minúsculo e absurdamente vazio próximo a Santiago de Compostela, no meio da Galícia, norte da Espanha. Fui lá com meu avô para saber onde ele morava antes de pegar um navio em Vigo e passar 18 dias viajando para o distante e desconhecido Brasil. Conheci familiares que nunca tinha visto antes, a casa onde meus avós nasceram, foi algo bem pessoal, bem emocionante e que valeu a ausência, até porque o Danilo manja das coisas e cuidou do nosso filho.

Também valeu porque de Santiago fui para Barcelona exatamente no dia seguinte após a conquista deles da ACB. Hoje fui visitar o Camp Nou e aproveitei para ver a festa do título, a homenagem da torcida. Vi Ricky Rubio, JC Navarro, Fran Vásquez e outros desses que a NBA acha que são lenda urbana, foi bem legal!

Achar internet tem sido um martírio e o último jogo que vi ao vivo foi o 4, o resto foi na base da reprise mesmo. Saber logo após o jogo 6 que foi DeShawn Stevenson que riu por último (ou primeiro) na sua rivalidade com o LeBron James, só por mensagem de telefone enviada pelo Danilo! Mas eu me esforcei, sobre essa partida 4 que vi ao vivo eu até escrevi um post, offline, e fiquei de postar quando tivesse internet. Mas foi tanto tempo depois, tanto, que não valia mais a pena. Vou linkar aqui pra quem tiver tédio e curiosidade, mas foi um tempo perdido.

Análise atrasada do jogo 4

....
A justificativa e o texto atrasado são uma encheção de linguiça para deixá-los nervosos em relação ao resultado da promoção. Entre os quase 1.000 participantes dos mais diversos tipos sanguíneos o vencedor do conjunto de camiseta, bermuda e jaco da adidas é o Michel Bergamaschi Bocca. Parabéns!

Na promoção pedimos que os participantes nos dessem seu tipo sanguíneo, só pra encher o saco. E nosso vencedor é do tipo A- como apenas 6% dos nossos leitores, raridade. Aliás vamos ver como os nossos leitores são de tipo sanguíneo em relação a média brasileira.

Média Brasileira / Média BP
O+ .  36% / 32%
A+ . 34% / 33%
B+ . 8% / 10%
AB+ . 2.5% / 7%
O- . 9% / 9%
A- . 8% / 6%
B- . 2% / 3%
AB- . 0.5% / 0%

Isso mostra que nossos leitores devem ter sido em sua maioria bem sinceros em suas respostas, afinal as médias estão bem parecidas com as nacionais. Agradecemos a sinceridade, espero que ela seja recompensada em promoções futuras. Ah, e meu sangue é O-, se eu eventualmente precisar vou cobrar desses 9% que nos leem!

O do Danilo eu não tenho ideia, por que iria perguntar pra ele o seu tipo sanguíneo? Que diacho de pergunta idiota é essa!?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Para dentro da História

Para comemorar o título do Mavs na noite de ontem, que gerou até lágrima no canto do olho dos escritores desse blog, o Bola Presa volta a apelar para seus famosos infográficos para imortalizar esse momento. Para tanto, usamos novamente uma ferramenta capaz de derrotar todos os obstáculos do tempo, imortal, de modo que você possa mostrar para os filhos dos seus filhos e eles consigam entender a magnitude desse momento: o Paint. O infográfico abaixo aborda as diferentes reações ao Dirk Nowitzki ao longo da história por parte dos torcedores médios, entre 1998 - ano em que entrou na NBA - até um futuro próximo.

Clique na imagem para ver em alta resolução e efeitos 3D se você tiver óculos eletrônicos idiotas

As reações ao Nowitzki sempre foram das mais absurdas e nunca levaram em conta as coisas que o compunham: equipe, adversários, momento histórico, seu estilo de jogo, tipo físico. É por isso que títulos acabam sendo tão importantes, finalmente a tonelada de bobagens pode ser jogada na privada e o Nowitzki pode receber a apreciação que merece já há tantos anos. Pelo que fez na carreira, e pelas merdas que ouviu, essa conquista tem um gosto todo especial - e se torna ainda mais épica porque vários de seus companheiros passaram pela mesma coisa: Shawn Marion sempre foi "o cara que só sabe jogar com o Nash", Peja Stojakovic era "o amarelão que afundou o Kings", Jason Kidd era "o cara que não sabe arremessar e não pula uma gilete". Hoje, eles são isso - mas são também muito mais, recebendo o devido valor histórico. Isso, claro, até que os anos se passem e eles comecem a ser taxados em conversas de bar como "infinitamente superiores" a quaisquer outros jogadores que nunca tiveram a oportunidade de ganhar um anel.

Enquanto escrevo esse post, em algum lugar do planeta o Brian Cardinal tem um anel de campeão no dedo. Isso invalida qualquer argumento. Sobre qualquer assunto. "Não importa se você estudou física quântica, o Brian Cardinal é campeão da NBA então seu argumento é inválido". Então, vamos aproveitar aquele breve momento em que Nowitzki, Kidd, Marion, Peja e seus amigos são apenas reconhecidos pelo trabalho fantástico que fizeram, reconhecidos pelas carreiras que tiveram e pelos caminhos que traçaram para chegar até esse momento, sem comparações e acusações e futurologia. Nas palavras de Dirk Nowitzki, "se eu tivesse ganhado um anel de campeão antes, não teria me esforçado tão duro e treinado tanto em minha vida". Lindo. O trajeto foi uma coisa bacana de acompanhar, e foi também a vitória de dois nerds: o técnico Rick Carlisle e sua fama de não saber se relacionar com os jogadores, e o dono do Mavs, Mark Cuban, bilionário da internet, que se transformou nesses playoffs pela primeira vez em um cara sensato capaz de deixar seu time em primeiro plano.

Foi bacana também, mesmo com todos os obstáculos da nossa vida aqui fora da internet, poder analisar esses playoffs a fundo, debulhando jogadas, esquemas táticos, variações defensivas, e tentar ver mais do uma visão rápida do jogo poderia nos dar. A vitória do Mavs ganhou então um gostinho especial, porque diante dos nossos olhos o time foi capaz de se adaptar e vencer o Heat no plano tático - não foi no muque, no talento, na arbitragem, mas no planejamento e na capacidade tática do time como um todo. Fez suas lambanças, claro, mas tirou também uma ou duas coisas da cartola que simplesmente deram um nó na cabeça do Heat.

Agradecemos bastante quem acompanhou os playoffs aqui com a gente, tendo saco para se debruçar em nossas análises um tanto prolixas, e esperamos com todas as forças que todo mundo - mesmo os torcedores do Heat - tenham se divertido bastante e estejam até mesmo felizes de ver o título nas mãos de Dirk e seus coleguinhas. Se aprendemos um pouco nesses playoffs sobre reações dos torcedores e o ódio em nossa cultura, resta apenas a tranquilidade de saber que o peso destinado ao Nowitzki será diminuído, e que o Heat terá outras oportunidades de tentar novamente - e de ouvir uma tonelada de merda no processo. Mal podemos esperar.

Em breve o Bola Presa analisará o jogo final, o futuro do Heat, a namorada do JJ Barea, o draft e todos os papos de greve para a temporada que vem. Por enquanto, fiquemos com nossa alegria de ver o Mavs campeão - mesmo sem ter torcido diretamente pra eles. E com uma boa noite de sono, que ninguém é de ferro. Como curiosidade, para quem chegou agora, deixo também os links para alguns dos outros infográficos do Bola Presa, marcos eternizados no Paint de história sendo feita (ou desfeita):

- Como o Celtics poderia evitar a derrota para o Heat na semi-final de Conferência
- Como acompanhar a série entre Hawks e Magic
- Kevin Love bate o recorde moderno de double-doubles seguidos
- Ray Allen bate o recorde de bolas de 3 pontos

domingo, 12 de junho de 2011

Decidindo no ataque

Barea pede a bola, é fominha até fora de quadra

Séries boas nos playoffs vão sempre para o time que se adapta melhor ao que é imposto pelo adversário. Nas séries ruins, dois times possuem estilos de jogo muito distintos (ou uma discrepância de talento muito grande) e um estilo automaticamente chuta o traseiro do outro, tornando os jogos uma mera formalidade. É tipo Pokémon, em que dois bichinhos escravizados pelo homem podem ser muito fortes e terem vencido todos os seus adversários, mas se um for do tipo água e outro do tipo pedra, a batalha entre eles já está decidida. Quando os dois são do mesmo tipo, ou um tipo não é especialmente forte contra o outro, é que entra a capacidade de adaptar, de mudar o estilo de jogo, de improvisar.

Se você chegou até esse paragrafo do post, parabéns, você é um nerd em essência e não fechou o seu navegador ao ver uma referência a Pokémon. Tendo então filtrado nossos leitores, podemos voltar à NBA e analisar como os dois times, com estilos semelhantes, têm se adaptado um ao outro nessa série - e como o Mavs tem feito um trabalho melhor na hora de alterar seu modo de jogo.

Num post anterior, analisamos as defesas de Heat e Mavs e como elas estavam sendo fundamentais para tirar o adversário de sua zona de conforto. O Heat resolveu focar sua defesa no perímetro, contestando todas as linhas de passe, apertando os jogadores com a bola e principalmente fazendo um sanduíche no armador que usar um corta-luz.  Ao invés de defender o jogador de garrafão que faz o corta, impedindo que ele corra para a cesta, o Heat coloca dois defensores no armador com a bola e o resto da defesa roda para evitar uma infiltração se ela vier. Com isso os passes para o garrafão ficam contestados e o Mavs é obrigado a rodar a bola no perímetro. Por um lado isso é ótimo para o Mavs, já que o time inteiro roda bem a bola e eles sempre encontram alguém livre para uma bola de 3 pontos, mas o problema é que o Heat ataca tanto as linhas de passe que os jogadores do Mavs não conseguem ter tranquilidade para passar a bola para o lado. Forçar a equipe de Dallas a trocar passes afoitos na linha de 3 pontos gerou uma infinidade de turnovers e com isso contra-ataques para o Heat, imparáveis já que todos os seus jogadores correm na velocidade da luz.

O Mavs, por sua vez, resolveu focar sua defesa no pick-and-roll (o corta-luz em que o jogador que faz o corta corre em direção à cesta). A marcação do Dallas troca constantemente, todo jogador está sempre acompanhado mesmo que por um jogador mais fraco ou mais baixo, e isso dá tempo para que a defesa de garrafão (especialmente o Tyson Chandler) se posicione. O que o Mavs está fazendo é forçar o Heat a jogar no um-contra-um, algo que parece o sonho de Wade e LeBron, mas na prática é um pesadelo. Quando os jogadores do Heat iniciam uma infiltração, a ajuda defensiva é perfeita e o Chandler usa sua velocidade lateral para defender os dois lados do garrafão. Wade pode até se sair bem nessas jogadas, com o seu passo "um para dentro, outro para fora" que exige que sua coluna vertebral seja feita de borracha, mas ele é constantemente contestado no aro e a ajuda causa vários desperdícios de bola. O Heat é obrigado a jogar no mano-a-mano no perímetro (onde há cada vez mais espaço para o arremesso), passar para trás após as infiltrações, ou então colocar a bola nas mãos do jogador que faz o corta-luz, como Bosh e Haslem - diminuindo assim o perigo de LeBron e Wade, que de outro modo segurariam a bola a maior parte do tempo.

Nenhuma das duas defesas, tanto a do Heat quanto a do Mavs, acontece sem falhas. A equipe de Miami às vezes chega atrasada na hora de contestar o perímetro e permite bolas fáceis de 3 (o Mavs acertou 13 das 19 bolas de três pontos que tentou no último jogo). Já o Dallas às vezes erra na ajuda defensiva e o Tyson Chandler fica sozinho contra os ataques à cesta, algo piorado com a ausência do Brendan Haywood, lesionado. Ninguém se lembra do Haywood nessa série, mas ele era a garantia de que a defesa que levou o Mavs até a Final possa ser colocada em prática o tempo inteiro, mesmo quando Chandler está descansando ou com excesso de faltas. Foi essa defesa que cansou todas as equipes do Oeste, e que fez Kobe desistir de tentar entrar no garrafão. É uma boa notícia para o Mavs, então, que o Haywood deve voltar essa noite para o Jogo 6. A defesa fica ainda mais forte, mesmo que não perfeita. Mas o fantástico dessa série é que nenhuma das duas defesas precisa ser perfeita para tirar o adversário do seu plano de jogo. Basta que sejam sólidas e funcionem com certa frequência para que as equipes não tenham mais plena confiança em seus ataques.

O caso do Mavs é incrível. Num mundo ideal em que a Alinne Moraes fosse secretária do Bola Presa e o Mavs pudesse jogar como quisesse, eles colocariam a bola nas mãos do Nowitzki (no lado direito do garrafão, sempre) e deixariam ele arremessar por lá. Se a marcação respondesse bem ou dobrasse no alemão, ele colocaria a bola no perímetro, que rodaria até achar alguém livre para arremessar. Se ninguém ficasse livre, então o Mavs faria um corta-luz para o armador e ele teria espaço para devolver para o Nowitzki ou para outra bola de três pontos. É simples. Mas absolutamente nada disso funciona bem contra o Heat. O Nowitzki é bem marcado, em geral por dois defensores. A bola gira no perímetro sendo contestada e gerando contra-ataques. E o corta-luz se transforma numa marcação dupla no armador, forçando um passe desesperado. O resultado disso é um Mavs que passa longos, loooooongos períodos sem sequer passar a bola para o Nowitzki e um bando de jogadores no perímetro com medo de passar a bola para o lado tentando uns passes malucos que tenham efeito como cobrança de falta do Marcelinho Carioca - e esses passes, assim como o Marcelinho, são patéticos. Mas o time se adaptou.

Primeiro, começou a isolar mais os seus jogadores (embora eu não entenda o porquê deles insistirem em isolar o Shawn Marion), forçando a defesa do Heat a se comprometer mais com uma defesa mano-a-mano. Depois, deu a bola para o JJ Barea, que não passa para o lado. Ele é como um anão hiperativo, costura pela defesa, encontra espaços, chega até o aro, coisa que ninguém lá faz - mas tem um bom arremesso de três, o que permite manter as jogadas principais do Mavs. O problema é que o Barea acha que é o Tony Parker (até porque está dando uns amassos numa ex-Miss Universo no nível Eva Longoria) mas não consegue acertar as bandejas livres e nem dar um passe decente para a zona morta, alguém precisava dar uma maracujina para o garoto, mas tudo bem. Colocar Barea no quinteto inicial muda as reações da defesa do Heat e foi uma sacada genial mesmo quando dá errado. Além dele, Brian Cardinal passou a ganhar mais minutos. Ele fede, é verdade, e sua careca ofusca a lente da câmera, mas é um defensor muito melhor do que o Stojakovic, tem mais físico para o corta-luz, e mantém o perigo no perímetro porque acerta suas bolas de três. O Cardinal libera o Nowitzki na defesa e o mais importante, faz o papel do alemão no ataque no que foi a grande sacada do Mavs até agora: o corta-luz duplo.

Um corta-luz só para o armador com a bola não funciona, porque a defesa do Heat dobra no armador e força um passe apertado. Tyson Chandler, que é excelente fazendo corta-luz porque tem ótima velocidade, é um estabanado batendo bola e tem dificuldade em receber a bola do armador quando ainda está a caminho da cesta. Então o Mavs resolveu passar a fazer um corta-luz duplo, com Chandler e Nowitzki ao mesmo tempo. Os dois ficam do mesmo lado e formam uma parede para o armador, em geral Barea ou Jason Terry. Com isso, o armador sai livre de frente para a cabeça do garrafão e os dois marcadores do Heat tentam perseguí-lo. O problema é que dois defensores saíram do garrafão e então temos três defensores do Heat lá no perímetro tendo que decidir o que fazer. Vão os três no armador, para manter o padrão de impedir o passe ao invés de marcar o jogador que faz o corta-luz? Se forem os três, temos dois jogadores do Mavs livres e um garrafão vazio. Se apenas dois vão, temos um jogador do Mavs livre - o que é natural - mas quem é ele? A defesa do Heat não sabe se fica no Nowitzki após o corta-luz ou se persegue o Tyson Chandler correndo em direção à cesta. O que acontece, em geral, é que a defesa do Heat trava como Windows 98 sem saber o que fazer e a rotação no garrafão não acontece por não saber quem ajudar.

Há outra coisa genial nessa jogada: se o problema do Mavs é conseguir passar a bola para o jogador livre quando o armador é pressionado por dois marcadores, essa jogada arruma tudo. Pra começar, o armador já tem mais espaço porque recebeu dois corta-luzes ao invés de um, mas além disso a grande sacada está no armador mandar a bola para algum companheiro do outro lado da quadra (em geral Kidd, Terry ou Barea, para se aproveitar do fato de que dois armadores nanicos estão jogando juntos). Com isso, esse segundo armador pode passar sem problemas para o Dirk livre (ou o Cardinal, que faz papel de dublê) ou para o Tyson Chandler no garrafão. Além disso, ainda há espaço para os dois armadores baterem para dentro do garrafão, especialmente quando a defesa se atrapalha.

Vamos ver de novo a jogada que venceu o Jogo 2 para o Mavs, aquela que eu queria que os pontos fossem para o Tyson Chandler? Ela é um bom modo de ver todas as possibilidades que essa corta-luz duplo oferece:



Vejam que Chandler e Nowitzki fizeram um corta-luz duplo, então o Jason Terry saiu com bastante espaço de frente para a cesta (poderia até chutar, se quisesse). Se a marcação apertasse (se a ordem do Heat fosse levada à risca, LeBron e Bosh deveriam correr para ele), Kidd está à direita do Terry com espaço para receber. A bagunça da defesa do Heat deixou o Nowitzki livre. E o Tyson Chandler poderia correr para baixo da cesta (já que o Bosh está no Terry e o Haslem tenta chegar no Nowitzki) para receber um passe não do Terry, mas sim do Kidd, que receberia a bola. Ao invés disso o Chandler fez mais um corta-luz e lá está a cesta mais livre da vida do Nowitzki, mas essa era apenas uma das múltiplas possibilidades da jogada.

O Rick Carlisle é um gênio. Essa jogada apareceu constantemente na série desde então e deixa a defesa do Heat maluca. Toda vez que o Mavs está perdendo muito a bola, forçando passes, tomando sufoco, essa jogada entra em ação. E não é o tempo todo, porque o Mavs ainda tenta impor seu jogo com o Nowitzki, rodar a bola, arremessar de três. O que acontece não é o simples abandonar de tudo que deu certo na temporada até agora, é apenas uma jogada que adapta o time à necessidade, e que entra em prática sempre que o resto não está dando certo.

E o Heat, como se adaptou à defesa do Mavs? A primeira coisa foi acionar seus arremessadores para matar a defesa por zona do Dallas. LeBron entrou em quadra pronto para isso desde o primeiro jogo, colocando a bola nas mãos do Bosh para arremessos nos espaços vazios da defesa por zona. Além disso, os arremessos contestados no garrafão foram deixados de lado em nome de passes para os arremessadores livres. É por isso que o Bosh acabou com o Mavs em um dos jogos, e por isso que o LeBron insistiu em colocar a bola nas suas mãos. Quando o Mavs desistiu da defesa por zona (faz tempo que não vejo ela em prática nessa série), o Heat manteve ainda assim uma postura parecida. Como a equipe de Dallas costuma trocar a marcação ao sofrer um corta-luz, Bosh e Haslem costumam enfrentar marcadores menores ou ter mais espaço para arremessar do que o jogador que carrega a bola. Então a ideia continua ser passar a bola após o pick-and-roll e se aproveitar dessa marcação.

LeBron abraçou inteiramente essa causa mesmo que ela não funcione, como vimos com o Lakers aniquilado pelo Mavs quando resolveu que não dava para contestar a defesa e que então ia arremessar de fora, usando os espaços vazios. LeBron recebe o corta-luz já olhando para os lados, dando passos para trás, procurando os buracos na defesa para acionar os companheiros. Ele é um armador nato (defendo que essa é sua posição natural), não se importa de passar a bola, gosta de exercer esse papel e constantemente encontra Bosh, Haslem e Wade em boas condições. Mas "é uma cilada, Bino", como o Lakers bem sabe. O Heat é um time montado na base da sucata e tudo que o Mavs quer é que a responsabilidade caia nas mãos desses jogadores menos importantes. Quer que o Bosh decida, e lá longe, nos arremessos, com o garrafão bem protegido. Até porque quando um time já sabe onde deve defender, é muito mais fácil fazer o trabalho. Se toda vez que o LeBron recebe um corta-luz eles já sabem que o LeBron vai para trás, e não para frente, e vai passar a bola para alguém arremessar, o perímetro se fortalece. Aos poucos o jogo vai se transformando num campeonato de bolas de três pontos, e é claro que o Mavs leva vantagem nisso.

A adaptação do Heat quanto a isso é muito esquisita. A mais evidente é que o Bosh passou a atacar a cesta depois de receber a bola livre no pick and roll. Mesmo quando tem espaço para arremessar, ele tenta ser agressivo e invadir o garrafão. Obviamente é uma resposta do técnico-nerd Erik Spoelstra ao ver as estatísticas e perceber que seu time faz cada vez menos pontos debaixo do aro, mas os arremessos livres do Bosh são o que ele faz de melhor e uma das únicas armas consistentes contra essa defesa. Além disso, Spoelstra percebe que LeBron precisa pontuar no garrafão e se aproveitar dos defensores menores e mais fracos que têm marcado ele na série, então colocou ele para receber a bola de costas para a cesta, com um pé no garrafão. Que diabos? Não se enganem, LeBron tem um jogo consistente de costas para a cesta e a força física necessária para isso, mas não é disso que o Heat precisa. Quando LeBron está de costas para a cesta o garrafão se amontoa, a marcação dobra, e aí novamente temos jogadores livres no perímetro para arremessar - coisa que o LeBron já encontra constantemente quando joga de frente para a cesta. Se o objetivo era pontuar no garrafão, temos uma falha épica, porque o resultado é exatamente o oposto.

Para quem acha que eu sou baba-ovo do Heat, aqui está a hora de admitir meu desgosto. Acho o Erik Spoelstra um baita técnico por tomar o caminho mais difícil e forçar o Heat a não depender de uma jogada só e a colocar em prática uma das melhores defesas dos últimos anos, mas ele está decepcionando demais em sua capacidade de adaptação. LeBron abraçou o papel do cara que não ataca no pick-and-roll, do cara que tem que passar pro lado e girar a bola para achar os companheiros livres no perímetro, e portanto está passivo em quadra, mas colocá-lo de costas para a cesta não é o modo de tirar o LeBron dessa passividade. Além disso, na procura por jogadores para arremessar contra essa defesa, o Spoelstra foi perdendo o padrão e agora jogadores que se saem bem (como o Mario Chalmers) ainda assim não garantem seus minutos de jogo, porque a rotação parece aleatória. Num Jogo 5 de final não é hora de caçar no seu banco de reservas o cara que você não usou na temporada inteira (Eddie House), é hora de ter encontrado um padrão que possa ser usado agora, ou na pior das hipóteses tirar um coelho desconhecido da cartola mas ficar com ele.

Mas o pior do Spoelstra, pra mim, é que a insistência em diversificar finalmente está saindo pela culatra. O Mavs usa o corta-luz duplo toda vez que as coisas estão dando merda. Bem, o Heat possui jogadas muito eficientes, como o LeBron fazendo o corta-luz para o Wade, e deveria usá-las à exaustão, mas como o ataque tem que ser variado essa jogada é chamada poucas vezes. Mesmo motivo para o Wade, mesmo estando jogando melhor do que qualquer um nessa série, não ter tantas jogadas chamadas para ele. Isolar o Wade do mesmo modo em todas jogadas, com variações de pick-and-roll para ele, não apenas tornaria o Wade ainda mais efetivo - lembram que ele venceu uma Final assim em 2006? - mas também tornaria o LeBron um jogador melhor. Vamos dar uma olhada numa jogada diretamente do meu League Pass:

É uma jogada parecida com a que o Mavs anda fazendo. LeBron faz um corta-luz para o Wade enquanto o Bosh sai do garrafão.


Assim que o corta-luz acontece, o Wade muda de lado: o Bosh faz um corta-luz enquanto o LeBron é que fica ali, parado fora do garrafão.


Na bagunça, a defesa não sabe se aperta o Wade ou se fica no Bosh, que pode receber para arremessar . Aí o LeBron corre sozinho para a cesta sem o Chandler ou a rotação do Mavs para contestá-lo.


Pronto, é só isolar o Wade e aí Bosh e LeBron terão oportunidades quando o Wade não quiser bater para dentro. Quando LeBron está com a bola, topando ser facilitador, ele apenas procura Wade e Bosh para acioná-los, e aí a defesa não tem que se preocupar em defendê-lo. É um caso em que a passividade do LeBron está sendo explorada do modo errado. A gente sabe que ele topou ir jogar com o amiguinho, ele não está ali pra provar que é melhor do que o Wade, isso é bobagem. Mas se ele topa ser o facilitador, o jogador que joga pela equipe (algo que ele sempre disse que sonhava em poder ser), deixem então a bola no Wade, e não o contrário. Como facilitador sem a bola ele terá mais chances, fará o corta-luz e poderá usar sua força batendo para dentro. Como armador, ele ser o facilitador neutraliza seu poder de ataque, facilita a defesa do Mavs e limita sua participação a passes e bolas de três pontos. É assim que LeBron consegue um triple-double e mesmo assim é criticado, porque seus pontos fortes não estão sendo bem usados nessa abordagem.

O ataque do Heat ainda é bom demais mesmo assim, o que é uma pena, porque dá mais gás para esse plano estilo Celtics "ah, vamos só defender que no ataque qualquer merda dá certo". O que realmente machuca o Heat é não saber mais defender o Mavs nos momentos finais porque o Mavs se adaptou de maneira genial. Eis que temos então o embate entre duas defesas que acabou se transformando num duelo de ataques fantásticos e pontos pra burro: o Mavs deu um jeito de fazer o ataque funcionar (mesmo com o Dirk bem marcado ou tocando pouco na bola), e o Heat sempre dá um jeitinho porque tem caras bons demais por ali. São duas defesas tão boas que o que decide o jogo agora é o ataque. O do Mavs, mais adaptado. O do Heat, tendo que correr atrás e criar novos modos de funcionar. Pra mim, não importando os resultados ou os jogos em casa que o Heat faz agora, o Dallas é completamente favorito só porque mostrou que sabe mudar o  modo de jogar no meio da brincadeira. Para o Heat se safar dessa, coloco o peso no Spoelstra. Sobre o peso que vai cair nas costas do LeBron, isso a gente debate longamente depois. Por enquanto, o peso é principalmente tático.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Promoção das Finais

Essa é daquelas promoções fáceis que todo mundo gosta! Para celebrar essa linda Final de NBA que estamos acompanhando, a adidas nos mandou uma camiseta, uma bermuda e uma jaqueta com o tema das Finais da liga! E não precisa ser criativo, nem acertar palpites e nem subornar os blogueiros, embora vocês possam tentar e a gente vê o que pode fazer. É só colocar seu nome, e-mail e tipo sanguíneo (pra dar um pouco mais de trabalho) e você já está concorrendo.

Aqui as fotos dos produtos, é só clicar para ampliar.



Só uma coisa: Não somos burros e sabemos quando você coloca o seu nome dez vezes com 10 e-mails diferentes, coloque só uma vez, seja justo. E se cadastrar com o nome da sua vó e ela ganhar vai ter que mandar uma foto dela usando os prêmios, combinado?

Sapatadas

Vencer é bobagem, Dirk e LeBron jogam apenas pra 
não ter que ouvir merda no Twitter quando perdem

Não ter o seu time jogando uma Final de NBA às vezes é um alívio. Ao invés de se envolver emocionalmente, torcer como um idiota e tacar seu gato pela janela do prédio com as cagadas do seu técnico, é possível apenas relaxar, aproveitar ambas as equipes, analisar os planos táticos, as nuances defensivas, as grandes jogadas. Por vezes, não ter que escolher uma ou outra equipe para apreciar é uma dádiva. É uma postura que garante o pleno proveito de todos os feitos em quadra, seja qual for a equipe ou o jogador. É o abraçar do espetáculo, do esporte, das possibilidades concretizadas. Toda escolha é limitação, então se eu estivesse torcendo apenas para uma das equipes nessa Final provavelmente estaria limitando minha apreciação - e minha diversão - a apenas metade dos acontecimentos. Como dizemos tanto por aqui, gostar do Kobe e simplesmente por isso odiar o LeBron é algo que subtrai, porque retira de você os feitos e possibilidades de um dos melhores jogadores de todos os tempos (qualquer um dos dois), enquanto apreciar os dois jogadores - mesmo se for preferindo o Kobe, por motivos pessoais  - é algo que soma, que acrescenta, que torna os dois jogadores mais interessantes porque brilham em suas individualidades, no que há de mais único e inalienável nos seus modos de jogo. "Legal como só o Kobe faz isso", "olha como o LeBron dá esse passo que ninguém faz igual".

Torcer, essa coisa que nos parece tão natural, tão espontânea que até os bebês nascem cantando o hino do Corinthians, na verdade não é algo essencial ao esporte. Há esporte sem torcida. Quando vemos duas pessoas dançando, interagindo uma com a outra dentro de regras e espaços delimitados, não sentimos uma vontade inata de torcer por uma delas - e odiar a outra por consequência. Torcer é construção, e é cada vez mais sintoma de uma sociedade em que absolutamente tudo se tornou competição. Agora, dançar é algo que se faz na televisão não para interagir com alguém ou expressar-se através do corpo, mas para derrotar outros dançarinos numa competição decidida pelo telefone. O mesmo vale para o canto e demais talentos, para o ambiente da escola, para o vestibular, para o trabalho empresarial. Não é à toa, portanto, que a competição no esporte é cada vez mais acirrada e que a torcida tem papel cada vez mais forte no esporte, se apresentando de forma mais radical e apaixonada. Mas, repito, ela não é necessária. Por vezes não controlamos, como diversos outros aspectos de nossa cultura que nos parecem naturais e estão enraizados em nossa identidade. Eu torço para o Houston Rockets e não consigo evitar quando vejo meu time jogar. Mas como já abordamos aqui, somos brasileiros da terra da caipirinha e nenhum de nós nasceu em Houston, ou em Dallas, ou em Miami, nossos pais não eram torcedores apaixonados dessas equipes e provavelmente nunca conversamos sobre basquete numa ida ao barbeiro. Nossa relação com os times de basquete é muito menos orgânica, está menos no campo da cultura, do "já era assim antes mesmo de eu nascer", "já nasci corinthiano", e está mais no campo da escolha, do "vou torcer para aquele time porque ele me apetece, porque é legalzinho, porque ele está vencendo", etc. Mesmo quando não conseguimos evitar torcer para os nossos times, no basquete é impossível não perceber que essa torcida - e a paixão que surge com ela - é algo escolhido, construído, nada natural. E, por isso, é muitas vezes um fardo. Minha experiência com essas finais, tirando fotos dos jogos para analisar as movimentações táticas, estudando as jogadas do Erik Spoelstra, contando as posses de bola em que o Mavs marca por zona, não seria tão prazerosa se eu estivesse torcendo alucinadamente por apenas uma das equipes. Dei sorte, acho, porque gosto dos dois times e de todos os envolvidos nessa final. Não corto ninguém da minha visão quando assisto ao jogo, não olho ninguém ali com desdém ou raiva (por sorte o Rafer Alston não está em nenhum dos times). Essa Final está espetacular, uma delícia. Só há uma coisa que me incomoda, que perturba esse local quase zen em que fui parar analisando o jogo de fora: as merdas que os torcedores andam dizendo tanto de um time quanto de outro. As sapatadas que eu vejo voando em direção às cabeças dos jogadores frente a qualquer deslize. Os trocentos pedidos de retratação, ou esfregadas na minha cara, ou palavrões puros e simples, porque o Nowitzki errou um arremesso e portanto fede, é amarelão e provavelmente é o causador da seca no Nordeste e do terremoto no Japão.

Me pego por vezes desesperado, no meio do jogo, pensando na quantidade surreal de merdas que serão ditas caso o Nowitzki perca essa Final. Se depois de marcar 12 pontos seguidos no Jogo 3 - os últimos 12 do Mavs - e  empatar um jogo novamente já perdido contra o Heat, ele errou o arremesso final e foi chamado de amarelão de novo, outra vez, feito piada da Praça é Nossa, imagina então o que falarão se ele perder a série. E se já dizem que o LeBron não assume a responsabilidade, que não alcançará Jordan, que não brilha no final dos jogos, que será sempre um fracassado mesmo depois de tudo que já fez nos playoffs e ter as atuações que tem, imagina se ele perder mais uma Final e dessa vez com a ajuda que possui em quadra. A minha alegria de ver Nowitzki finalmente campeão será eclipsada pelo ódio irracional que será atirado a LeBron, Wade e Bosh. Ver LeBron finalmente campeão, colocando-o oficialmente no debate dos melhores (porque pra isso, dizem, precisa ter anel), não vai apagar o desgosto de ouvir as críticas ao Nowitzki amarelão, ao Jason Kidd que não sabe arremessar, ao Shawn Marion que só sabe jogar com o Nash. Engraçado é que no meu post anterior, teve gente dizendo que eu puxo a sardinha demais para o lado do Mavs - e logo depois gente dizendo que eu sempre puxei a sardinha para o lado do Heat. Não é engraçado que eu esteja sofrendo com as merdas que os dois times vão ouvir se perderem, enquanto leitores acham que eu torço para um time, ou para o outro? E no mesmo post? É por isso que na bolha em que não há torcida, em que os dois times possuem chances de vencer e devem ser tratados como tal, ainda consigo ouvir as sapatadas sendo lançadas contra alguns dos melhores jogadores da atualidade. Torcida, pelo jeito, também é maneira de sublimar o ódio, que não tem lugar na nossa sociedade do politicamente correto. E é modo de demarcar identidade, é o "eu" contra o "outro" - e como nas línguas indígenas, o "outro" é sempre denominado como inimigo.

A pena é que jogadores fantásticos tenham que pagar por isso, receptáculo de ódio e identidade de uma cultura com dificuldades de apreciar. Já comentamos isso a fundo em um post longo (e polêmico) sobre o All-Star Game, analisando como a necessidade por filtrar o excesso de informação na nossa sociedade leva muita gente a usar o ódio como filtro: tem coisas demais por aí, então preciso odiar algumas coisas para saber do que gostar, para saber qual é o meu grupo, onde pertenço, qual minha identidade. O ódio é um filtro muito eficiente por vários motivos, pra começar ele canaliza uma frustração que não vai pra lugar nenhum em nossa sociedade, a não ser que você, sei lá, lute boxe; e além disso é um filtro que obedece à voz da maioria, é um filtro moldável à opinião popular e portanto te garante um lugar "em meio aos seus", você ganha uma gangue mesmo que seja virtual, ou conceitual. Quem odeia o LeBron ou o Nowitzki não está apenas odiando de forma gratuita, o ódio é coletivo e imediatamente está delimitando a que espaço você pertence, quem são seus amigos, e quais jogadores você precisa acompanhar. Afinal, acompanhar todo mundo - ler todos os autores, ter todos os videogames, ouvir todas as músicas - dá muito trabalho e odiar alguns já te poupa muito tempo. É uma resposta ao excesso.

Por outro lado, é super legal quando alguém aparece dizendo que não gosta do estilo de jogo do Nowitzki, por exemplo, mas que ele está jogando muito, que ele é incrível, que ele merece um anel. Porque algumas coisas - nesse caso, nosso gosto pelo basquete - estão acima da apreciação ou não de um estilo especifico de jogo. Minha maior reclamação com esses filtros, e com esses sapatos prontos para se jogar no time que perder essa Final, é que eles diminuem o esporte por deixarem uma série de questões fantásticas - e até mesmo essenciais - de fora. Ao invés de perguntar se o Jason Kidd foi melhor que o Magic Johnson, que é uma besteira, por que não perguntar qual deve ser o papel de um armador dentro de cada esquema tático? Deve ele ser capaz de arremessar, quando e por quê? Deve criar arremessos para os companheiros? Deve apenas tornar viável a movimentação de bola? As estatísticas, como as assistências, são um bom modo de ler a importância de um armador? Qual a importância da defesa de um armador frente a uma defesa que afunila para dentro do garrafão ou que marca por zona, como o Mavs? Aliás, será que o Mavs usa bem o Jason Kidd na armação? Como funciona o contra-ataque do Mavs e por que o Kidd tem menos papel nele do que tinha no Nets, por exemplo? (Confesso que há tempos me pergunto algumas dessas coisas mas acho o Carlislie um técnico difícil, talvez complexo demais para mim, para compreender.)

A questão não deveria ser se o LeBron é um fracassado por perder a final ou se o Nowitzki é amarelão por não ter um título. A questão deveria ser qual é a importância de ganhar um título, o que significa ser campeão na NBA atual, como era antigamente, qual valor se dá ao "vencedor" em nossa cultura. A torcida - às vezes mesmo sem o ódio que tantas vezes vem ao seu lado - costuma camuflar o essencial porque dá atenção demais ao que está na superfície. Não que isso esteja errado, torcer dá um gosto diferente para o esporte, lhe dá uma importância que em geral não encontramos em outras coisas da vida, mas há muita coisa a ser apreciada mais embaixo da camada que a torcida costuma alcançar. As reações possíveis de um torcedor à última bola errada do Nowitzki costumam ser "ufa, que alívio", "errou, seu alemão amarelo", ou "acertou, é um gênio". Por trás dessa camada inicial está a insistência do técnico Erik Spoelstra em colocar o Udonis Haslem para marcar o Nowitzki individualmente na cabeça do garrafão nas jogadas decisivas, mesmo com o Joel Anthony tendo feito um bom trabalho no restante do jogo. Por que o Spoelstra percebe que jogadores diferentes devem marcar o Dirk em momentos diferentes do jogo? Há uma leitura de comportamento do Nowitzki que nós não percebemos e que o Spoelstra sabe por ter acesso a bilhões de dados estatísticos, já que ele é um nerd de basquete?

Por trás do "o LeBron não assume a responsabilidade", também há tanta coisa mais legal. A começar pela defesa do Mavs, que acertadamente dobrou tanto no Wade quanto no LeBron, tentando forçar um desperdício de bola - resposta provável ao medo de que um dos dois acertasse um arremesso espírita mesmo pressionados no perímetro, coisa que não ocorreria se os dois não tivessem treinado tanto seus arremessos nessa temporada. Tem também o fato de que o LeBron, desde seus tempos no Cavs, escolhe passar a bola para companheiros livres em momentos decisivos, e que isso não é visto como uma atitude vencedora apenas porque o Jordan fazia diferente - e as pessoas tomaram isso como uma verdade, um paradigma, e não apenas uma de várias opções possíveis. E tem o fato, pra mim o mais fantástico do jogo, que o Spoelstra já tinha programado que, no caso de marcação dupla no perímetro, o arremesso final iria para o Bosh. Basta ver que depois de Wade e LeBron receberem a bola, Haslem está fazendo um corta-luz que libera o Bosh para o arremesso:



O passe do LeBron é um capítulo à parte, mas vejam como Bosh não está livre apenas por culpa da marcação dupla, há um esforço coletivo para colocá-lo ali, e ele acerta. Não é fantástico que ao invés de condenar o perdedor à miséria possamos analisar as opções ofensivas do Heat e enxergar, agora com um senso histórico, a contratação do Bosh justamente porque numa hora decisiva não seria possível marcar as três estrelas do Heat ao mesmo tempo? No próximo jogo, hoje à noite, estarei mais uma vez desenhando aqui as movimentações do Bosh nesse esquema, e tentando desesperadamente entender o porquê do Mavs isolar tanto o Shawn Marion nas posições que o Nowitzki deveria assumir em quadra, tentando compreender o que diabos o Rick Carlisle está fazendo, o papel do Kidd, o trabalho fantástico do Tyson Chandler na defesa do garrafão e o porquê da defesa do Mavs ter falhado tanto justamente no garrafão no primeiro quarto do Jogo 3. Quer dizer, tentarei. Farei isso apenas se o medo do que Nowitzki ou LeBron vão ouvir me deixar. Há tantas possibilidades, tanta profundidade. Mas nesse mundo de torcidas, filtros e ódio, há também muita, muita sapatada.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Adaptação

Nowitzki, que é um amarelão, erra a bandeja final que poderia dar a vitória para o Mavs. Opa. 
Espera. Notícia bombástica: ele não errou, venceu o jogo e amarelão é a senhora tua mãe


Então quer dizer que a moda nesses playoffs é conseguir uma vantagem gigante no placar e jogar na privada durante os minutos finais do quarto período? Seguindo o modelo do Thunder (que perdeu para o Mavs em 5 minutos) e do Bulls (que perdeu para o Heat em 3 minutos), o Miami Heat fez uma versão estendida na noite de ontem e perdeu uma vantagem de 15 pontos em 7 minutos. Nem é tão absurdo assim, 7 minutos é tempo pra burro - toda vez que o Heat tentava queimar tempo no relógio esperando aquele pesadelo acabar com algo restando da vantagem no placar, ficava claro que se o horror continuasse o cronômetro não lhes salvaria a pele. Absurdo mesmo foi a defesa que o Mavs colocou em prática para conseguir virar o jogo nesse tempo, e nem foi a famosa defesa por zona que idolatramos por aqui.

Aliás, a defesa por zona apareceu pouquíssimo na partida de ontem. No primeiro jogo, assim que o Mavs colocou a zona em prática tomou uma cesta livre de Bosh, encontrado no espaço vazio entre os defensores. É claro que a defesa causa estranhamento e levou um tempo para que o Heat atacasse a zona como manda o manual, mas isso acontece com qualquer variação defensiva que é colocada em prática no meio de um jogo. O Heat estranhou, ficou um pouco preso no perímetro, mas a cesta do Bosh era indício de que LeBron e Wade sabiam o que estavam fazendo - afinal, jogaram pela seleção americana e estão mais do que familiarizados com esse tipo de defesa. Rapidinho já estavam quebrando a zona na base do drible, acionando Bosh, e o técnico Rick Carlisle mandou a defesa voltar ao normal. A diferença ficou óbvia já no primeiro jogo: com a defesa por zona, o Heat tendia a bater para dentro do garrafão, enquanto na defesa individual o Heat preferiu arremessar de fora. Todos nós vimos que o LeBron jogou um absurdo no primeiro jogo, que os arremessos de três caíram, e que o Mavs perdeu a partida. Mas, diabos, eles estão enfrentando Wade e LeBron, não há muito o que fazer além de escolher como você prefere ser punido - e contra esse Heat o melhor é ser punido nos arremessos de longa distância. Essa foi a escolha que o Mavs fez ao enfrentar também Lakers e Thunder, permitindo que os dois times arremessassem o quanto quisessem e garantindo que as penetrações seriam limitadas ou então recebidas com agressividade por Tyson Chandler e Brendan Haywood.

Para garantir que as penetrações sejam limitadas, a defesa individual do Mavs não é lá tão individual assim. O pick-and-roll do Miami é defendido com algum jogador de garrafão impedindo o avanço do armador, e então a defesa precisa rodar para impedir que o jogador que fez o corta-luz saia livre. A defesa é individual, portanto, mas está sempre "fazendo a troca", ou seja, ninguém tem um jogador específico em que deve ficar grudado o tempo inteiro. Isso exige uma disciplina que o Mavs possui graças ao costume com a defesa por zona, e limita as infiltrações e o jogo de pick-and-roll do Miami ao máximo. De certo modo, o fato de que o Mavs não consegue usar sua melhor defesa - que é a zona - contra o Heat nessa série é uma vitória para a equipe de Miami, mas a defesa individual do Mavs é tão boa que essa vitória moral não pode ser levada a sério.

O maior problema da defesa individual do Dallas é que quando a rotação defensiva atrasa ou coloca jogadores menores para marcar jogadores maiores, fica mais fácil para o Heat conseguir rebotes ofensivos. No primeiro jogo foram 16 e no fundo garantiram a vitória. Mas ontem o Dallas fez um trabalho bem melhor na rotação, tentando fazer com que o jogador que saiu para impedir uma infiltração receba a cobertura de alguém que empurra os jogadores do Heat para fora do garrafão. Não tem jeito, quando não se marca individual estilo casamento na igreja ("esse é o meu homem, fico com ele até que a morte nos separe"), é difícil evitar rebotes ofensivos com consistência, mas o Mavs limitou o bastante, é o melhor que dá pra fazer.

Com essa defesa bacanuda, estilo casamento aberto ("eu tenho meu homem, mas de vez em quando fico com outros e meu homem sabe disso"), forçando o Heat a arremessar cada vez mais do perímetro, como foi que mesmo assim o Mavs chegou a perder por 15 pontos no quarto período? A culpa é da defesa do outro lado da quadra, que também é espetacular. Enquanto Kidd e Nowitzki, por exemplo, são marcadores decentes mas lentos, com uns anos pesando nas costas, o Heat tem um arsenal de bons defensores individuais com toda aquela energia jovial que só espinhas na cara podem trazer a um homem - a começar por Wade e LeBron. Como o jogo de garrafão ofensivo do Mavs não é lá grandes merdas, e levando em conta que o Mavs trucidou seus adversários com a melhor rotação de bola no perímetro dos últimos anos (especialmente quando a bola sai de dentro do garrafão das mãos do Nowitzki, que sempre encontra um jogador livre na linha de 3 pontos para acionar), o Heat não tem medo de atacar todas as linhas de passe. Não há nenhum passe para o lado, por mais idiota que seja, que o Heat não tente contestar. Quando o defensor chega atrasado na tentativa de roubo de bola e fica batido na jogada, isso em geral obriga que Jason Terry, Shawn Marion e Jason Kidd tenham que infiltrar - algo que não é o ponto forte. Essa defesa do Heat no perímetro, agressiva e um tanto arriscada, dependente das pernas jovens da molecada, nem conseguiu tantos roubos assim a princípio. Mas quando cada passe que você dá é um risco, quando as rotações de bola que você sempre executa precisam ser questionadas porque alguém está tentando roubar cada passe, uma hora teu cérebro vaza pelas orelhas e a vontade é ir pra casa chorar. É muita pressão. O Kwame Brown teria sentado no chão e desistido. No segundo tempo o Mavs não aguentava mais e cometeu uma cagada no ataque atrás da outra, passes cada vez mais idiotas, jogadores tentando passes diferentes do que lhes seria a zona de conforto apenas para tentar evitar um possível roubo. Quando o Mavs quebrou mentalmente, errando passes sem parar, o Heat correu para o contra-ataque - em que é um dos melhores times da NBA - e puniu o adversário. O YouTube agradece.

A defesa fantástica do Mavs não dá conta de contra-ataques, especialmente levando em conta que Wade e LeBron correm na velocidade da luz. Já a defesa do Heat é uma das melhores da liga em defender contra-ataques, então quando o Mavs tenta acelerar o jogo para não ter que girar a bola contestadamente no perímetro, enfrenta também uma marcação sólida. Nesses playoffs o Mavs não tinha ainda suado desse jeito para colocar em prática seu estilo de jogo. Essa é a graça dessa série: calhou, diferente de outros anos, de ser justamente na Final o desafio mais duro para as duas equipes, o desafio que exige mais adaptação e superação.

E o Mavs se superou. Nos 7 minutos finais, colocou em prática a melhor defesa, em termos de execução, desses playoffs até agora. Dwyane Wade estava destruindo com o jogo até então, mas parou de receber a bola. Em parte porque estava bem marcado, porque Shawn Marion é genial (merece post só pra ele ao longo da série), porque o Mavs acalmou o ataque e parou de conceder contra-ataques, mas em parte também porque o Heat parou de procurar o Wade. A frustração do armador ficou clara quando em duas oportunidades tentou receber a bola próximo à linha de fundo e foi ignorado pela armação de LeBron e de Chalmers. É aqui que meu elogio ao Erik Spoelstra esbarra um pouco. Sou um fã do técnico, acho o que ele fez com esse Heat (e com o Heat dos anos anteriores, que fedia mas ganhava mesmo assim) sensacional, adoro o fato dele exigir que as jogadas sejam variadas e que todos os jogadores sejam envolvidos no ataque, mas às vezes ele parece ignorar o fato de que jogadores ficam "quentes", pegam no tranco, se animam. A questão é complicada, vale a pena sair do esquema de jogo e forçar bolas para o Wade só porque ele está indo bem? Ou, se seu time tem tantas armas, o melhor é manter o plano e não permitir que o adversário saiba exatamente quem marcar? No jogo de ontem, polêmica à parte, o ataque do Heat estagnou frente à defesa impecável do Mavs e mesmo assim Wade não foi acionado até os minutos finais, quando já estava frio e não conseguia receber a bola graças à marcação do Mavs.

Com dois minutos para acabar o jogo, Heat vencendo por 2 pontos, LeBron tentou infiltrar duas vezes mas o pick-and-roll à sua direita e à sua esquerda foram defendidos com perfeição. LeBron se viu na linha de três pontos, sem ter pra onde correr, cronômetro acabando, e teve que forçar uma bola de três bem marcada. Wade garantiu o rebote ofensivo, e aí na hora soube que o Heat tinha ganhado o jogo. Um minuto e meio pro fim, o Heat ia gastar mais tempo do relógio e conseguir alguma boa jogada, provavelmente cavar uma falta. Spoelstra gritou uma jogada para o LeBron, que então mandou a bola para o Bosh e fez o corta-luz para o Wade receber a bola. O Mavs percebeu a jogada e bloqueou o Wade, restando que Bosh devolvesse para o LeBron, apertado no canto. A bola foi então para o Mario Chalmers, que tentou infiltrar mas foi bloqueado pelo Nowitzki. Ele então passou para o Haslem, marcado, que devolveu para o LeBron na linha de três. Ou seja, lembra da posse de bola anterior em que o LeBron não conseguiu fazer merda nenhuma e teve que forçar uma bola de 3 impossível? A segunda posse de bola seguida foi igual: passou por LeBron, Bosh, Chalmers e Haslem, mas voltou para o LeBron a tempo apenas de outro arremesso de três idiota e contestado. O resultado foi um contra-ataque perfeito finalizado por Nowitzki para empatar o jogo.

Em alguns momentos a defesa do Mavs quebrou, a rotação não foi sempre perfeita e LeBron soube achar seus companheiros em situações em que a troca defensiva lhes favorecia. Mas nas posses de bola mais importantes do jogo, a defesa do Mavs foi perfeita, nível Alinne Moraes de qualidade. LeBron poderia ter acertado dois arremessos de três espíritas e teria ganhado o jogo - algo que meio que aconteceu no Jogo 1 - mas o Dallas não pode esperar nada melhor do que isso. E nem precisa. É o bastante. Desde que, claro, o ataque do Mavs não perca bolas o tempo inteiro com a mesma frequência que a Mari Alexandre sai na Playboy. Em parte a defesa do Heat cansou um pouco, depois de atacar as linhas de passe o jogo todo, mas o Mavs soube girar menos a bola no perímetro e tirar seus pivôs do garrafão, garantindo passes mais seguros e protegidos nos minutos finais. Vale dar uma olhada na bola de 3 pontos do Nowitzki que virou o jogo a 30 segundos do fim:



No Twitter, sugeri que esses 3 pontos fossem dados para o Tyson Chandler. Olha que absurdo o que o pivô fez para garantir esse arremesso! Assim que o vídeo começa, o Mario Chalmers já está tropeçando feito bêbado por ter recebido um corta-luz do Chandler (é bem no comecinho, tem que prestar atenção para o capote estilo video-cassetada). Isso abre o Kidd na direita. Imediatamente depois o Chandler faz um corta-luz no LeBron, que abre o Jason Terry de frente para a cesta para arremessar ou passar a bola com espaço. Depois o Chandler faz um terceiro corta-luz, em estilo futebol americano, para impedir que o Udonis Haslem chegue no Nowitzki e o alemão possa arremessar completamente livre. Foram TRÊS cortas, deixando três jogadores livres, e impedindo que o Mavs voltasse a ficar girando uma bola contestada no perímetro.

A jogada final, em que o Nowitzki fez uma bandeja de esquerda para virar o jogo, também foi diferente do que o Mavs vinha chamando.



O Nowitzki recebeu a bola no perímetro, ao invés de perto do garrafão, e o Jason Terry na zona morta obrigou o LeBron a não poder ajudar na defesa. O alemão é fantástico, bateu o Bosh na corrida e finalizou com classe sem ter que pular por cima de oito homens com uma enterrada de costas. A grande cagada da jogada foi do Haslem, que não foi cobrir o Bosh na defesa do Dirk, mas no fundo é engraçado: durante o jogo todo, o Heat não quis criar um padrão para dobrar a marcação no alemão, às vezes dobrava e às vezes não, para confundir o jogador do Mavs - mas aí quem ficou confuso foi o Haslem, que só dobrava quando mandavam e nem pensou em dobrar por conta própria quando o alemão bateu pra cima do Bosh. Funhé.

Dobrar no Dirk o jogo inteiro costuma ser cagada, porque ele consegue parar sua jogada quando quiser e passa muito bem a bola para fora (é um ótimo passador, mesmo que não receba o crédito devido nas estatísticas), mas se o Heat ataca tão bem as linhas de passe talvez seja o melhor a fazer. O Mavs precisa se adaptar à defesa do Heat como fez no final do jogo, porque se perder de novo por 15 pontos graças a contra-ataques talvez não consiga correr atrás outra vez. O Heat, por sua vez, precisa também se adaptar à defesa do Mavs - e a defesa individual, não a por zona - ou então vai depender apenas de estar com os arremessadores calibrados (ou das cagadas ofensivas do Mavs), o que é bastante arriscado numa série tão parelha. Como disse, esse é o teste derradeiro e o essencial aqui é se adaptar o mais rápido possível. Por enquanto, a vantagem adaptativa é do Dallas - ao menos até domingo, quando teremos outro duelo desses.