quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Preview 2010-11 / Golden State Warriors

Don Nelson conta aquela piada do "A-saltante"



Objetivo máximo: Chegar, suando, aos playoffs
Não seria estranho: Acabar em último do Oeste
Desastre: Não ter a primeira escolha do próximo draft

Elenco:

Golden State Warriors
Titulares
Reservas
Resto
PG
Stephen Curry
Jeremy Lin*
SG
Monta Ellis
Charlie Bell
Rodney Carney
SF
Dorrell Wright
Reggie Williams
Brendan Wright
PF
David Lee
Ekpe Udoh*
Vlad Radmanovic
C
Andris Biendris
Dan Gadzuric


Técnico: Keith Smart

Uma das coisas que mais nos perguntam no formspring do Bola Presa é quando o Don Nelson vai se aposentar. Há uma sensação constante, por entre os três ou quatro torcedores do Warriors que existem por aí, de que a única coisa que impede a equipe de ser campeã é o técnico louquinho. Agora ele  está oficialmente dando o fora, demitido por uma franquia desesperada por um novo começo, e os torcedores poderão finalmente respirar aliviados. Quer dizer, até perceberem que o Warriors vai continuar mais ou menos a mesma coisa sem ele.

Na temporada passada, o Denis escreveu um perfil fantástico sobre Don Nelson, o gênio que inova sem parar na quadra de basquete, enlouquecendo seus adversários enquanto enlouquece também seus próprios jogadores ao não lhes dar padrões ou critérios. Suas constantes experimentações, cada vez mais ousadas conforme os resultados foram piorando nos últimos anos, tornaram o Warriors motivo de piada. Ao invés de parecer inovador, enfrentar pela décima vez um time que não defende e tem armadores improvisados no garrafão dá a impressão de vitória fácil, de que o outro time está fazendo piada ao invés de tentando a vitória. Tudo, claro, é simples questão de resultado: se o time vence com um armador jogando de pivô, é genialidade do técnico; se perde diversas vezes seguidas, inventando outras táticas ainda mais estranhas, é maluquice do técnico. É tipo naquele filme "Bud, o cão amigo": se você sai vencedor usando um cachorro em quadra, vai virar até filme da Disney, caso contrário é apenas a ideia mais idiota que alguém já teve depois de um cão que é policial. Nesse Warriors com péssimos resultados e assolado por lesões, as instromissões do Don Nelson pareciam, por isso, brincadeira de cientista maluco ou de Feira de Ciências de sétima série. Ao perderem a efetividade, as táticas deixaram de trazer vitórias e ajudaram a desmoralizar o time. Apesar de sua genialidade, há tempos não fazia sentido mantê-lo, o estranho mesmo é que tenha durado por tanto.

Para substituí-lo, o escolhido foi seu assistente técnico Keith Smart. Sua pequena experiência como técnico principal inclui um dos piores times de todos os tempos, o Cavs de 2002-03, com Smush Parker, Dajuan Wagner, Ricky Davis e Darius Miles - aquele time que os torcedores, de verdade, levavam cartazes de "Percam por LeBron" para o ginásio. É difícil saber como será ter um elenco um pouco melhor em mãos, mas dá para supor que o Warriors não será muito diferente. Keith Smart já era o responsável por organizar a defesa (ou seja, tomar uma cafezinho), coordenava a maioria dos treinos e aprendeu todo o sistema de Don Nelson nos últimos 6 anos. Terá uma chance de mostrar que pode ser o técnico do futuro e provavelmente deve dar aos jogadores papéis mais definidos e colocar a pirralhada para jogar, mas em matéria tática deve ficar muito próximo do velhinho maluco - e agora desempregado.

...

O elenco do Warriors é interessante e bastante versátil. Stephen Curry provou com a seleção americana que é um dos melhores arremessadores do planeta, enquanto Monta Ellis é um dos melhores armadores vivos quando se trata de finalizar perto da cesta. No ataque, quando estão um ao lado do outro, tornam a equipe um pesadelo para as defesas adversárias e são o segundo melhor motivo para ver todos os jogos Warriors (o primeiro melhor motivo é que os jogos do Warriors costumam ser os últimos da rodada a começar e quem tem League Pass - e insônia - não tem outra opção a não ser dar uma olhada). A princípio Ellis achou que seria ridículo jogar ao lado de Curry, já que os dois são anões de circo, externou seu desgosto para seu companheiro de equipe e não escondeu a frustração quando compartilharam da mesma quadra. No entanto, Stephen Curry foi ganhando a confiança de Ellis aos poucos, mostrou que é um dos mais promissores armadores da liga, e agora os dois sabem que podem jogar juntos e estão ansiosos por uma temporada inteira lado-a-lado pontuando como malucos. O problema é que essa união mostra de forma bem clara o motivo por trás das táticas doidas de Don Nelson.

Pra mim, Don Nelson se encaixa naquele mesmo saco de farinha do Mike D'Antoni, em que o esquema tático parece ruim apenas porque ele esconde um elenco que seria ainda pior sem ele. Esse Warriors joga com tanta velocidade e ignora tanto a defesa simplesmente porque não tem os jogadores adequados para um basquete eficiente ou defensivo. Colocar Monta Ellis e Stephen Curry ao mesmo tempo em quadra é pedir para não ter qualquer defensor no perímetro, o que obriga o time a correr mais e tentar compensar no ataque. O garrafão do Warriors agora é composto por Andris Biedrins, Dan Gadzuric, Luis Amundson e David Lee, todos jogadores com limitações ofensivas muito sérias, especialistas em rebotes, mas que não são exatamente grandes defensores, o que deve aumentar ainda mais a necessidade de um ataque que marque muitos pontos e que, por falta de gente capaz de jogar de costas para a cesta com regularidade, deve ficar arremessando trocentas bolas de três pontos.

O Don Nelson criou um Dallas Mavericks sensacional que só sabia correr e atacar e Avery Johnson, seu assistente, tornou o time uma defesa impecável assim que o Don Nelson saiu. Não acho que possa ser o caso com esse Warriors. Faltam as peças necessárias para que seja possível uma mudança tática séria ou uma defesa de verdade, não adianta apenas mudar a mentalidade e o técnico, é preciso repensar essa equipe inteira para se encaixar a um novo esquema. Mais fácil será implementar o mesmo esquema e torcer para que as contusões constantes deixem o elenco em paz e que as novas aquisições como David Lee e os novatos Jeremy Lin e Ekpe Udoh não sejam fracassos totais. Se esse time tiver todo mundo saudável e souber, com perfeição, quem estará em quadra todas as noites e por quantos minutos, acredito que chegar aos playoffs não seja absurdo. O problema é que o Warriors costuma ter tantas lesões que o pessoal da D-League já mora lá no ginásio, e é preciso criar alguma constância que não seja apenas a certeza de que alguém vai quebrar o pé.

A tática do Don Nelson de mudar sempre as escalações e os minutos dos jogadores cria times versáteis, confunde os adversários e funciona bem em times maduros. Quando o grupo acredita no técnico e no plano e as vitórias aparecem, todo mundo tem a sensação de estar participando de uma equipe criativa e divertida, Baron Davis sempre adorou o fato de que a equipe treinava pouco e improvisava muito. Mas assim que as derrotas aparecem todo mundo começa a questionar o método e sua participação no grupo. Nos playoffs de 2006, o Warriors inteiro amava o Don Nelson, mas bastou a desclassificação para o Baron Davis reclamar da falta de constância. Além disso, o grupo tem jogadores muito novos, já que os anos de fracasso levaram a equipe a colecionar novatos no draft, e a pirralhada precisa de minutos e constância para evoluir. Muitos jogadores fraldinha se afundaram no Warriors simplesmente porque a situação era terrível para eles, precisavam ganhar níveis de experiência para virarem novos Pokémon enquanto o Don Nelson estava apenas preocupado em misturar todos os ingredientes para ver se alguma coisa dava certo. Cenário terrível para iniciantes, e motivo pelo qual Don Nelson sempre odiou novatos. Só que num time que fede, é preciso colocá-los para jogar o máximo possível, como bem sabe o Timberwolves.

É por isso que acredito que a constância será muito positiva para esse elenco, desde que os esquemas táticos do Don Nelson sejam mantidos pelo novo técnico - aliás, manter o assistente técnico já é alguma constância, já que ele é respeitado pelos jogadores e está por perto há quase uma década. A vontade de mudar tudo deve ser evitada: não dá pra inovar com um perímetro que não defende e um garrafão que não ataca, além de jogadores como Dorrell Wright e Rodney Carney que só sabem jogar no contra-ataque. Então, é preciso manter o mesmo plano (o famoso "corra pela sua vida"). Por outro lado, todos nós sabemos nesses anos todos (Mavs, Suns, Warriors) que esse plano é deficiente, expões várias fraquezas da equipe e não seria um absurdo ver o Warriors desistindo no meio da temporada, depois de apanhar um pouco, para tentar uma primeira escolha no draft do ano que vem. Finalmente sem o Don Nelson, há a novíssima possibilidade de colocar a pirralhada pra jogar e apostar no draft, pensando em uma pequena reconstrução em volta de Monta Ellis e Stephen Curry (ou qualquer um dos dois). Provavelmente, isso dependerá mais do sucesso que esse elenco vai ter no começo da temporada do que dos gostos dos engravatados. Se a campanha começar a afundar, será abandonada rapidinho. Caso contrário, trocas e ajustes serão feitos para tentar de verdade chegar aos playoffs, porque apesar de esburacado, o elenco é bastante talentoso e poderia chegar lá com uma forcinha.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Controle de raiva


Rasheed Wallace educadamente comenta uma decisão do árbitro



Em mais de um texto e em várias respostas do "Both Teams Played Hard" já mostramos nossa insatisfação com o Código de Vestimenta da NBA, que está em vigor desde 2005. Sempre me incomodou essa história da liga querer interferir muito na vida e nas atitudes dos jogadores. Não é uma relação fácil, um depende do outro, sempre vão existir brigas de interesse e lados vão ter que ceder, mas chegar ao ponto de controlar a roupa que eles usam ao chegar no ginásio parece demais. Os jogadores, em compensação, poderiam ter lutado contra e não o fizeram. Às vezes é melhor não questionar o chefe para não ter problemas no futuro.

Na mesma linha de raciocínio, não gosto quando os times ou a própria liga punem os jogadores por atos que eles fizeram fora de quadra. Qualquer problema judicial é questão do jogador com a polícia e a justiça, nada a ver com o seu trabalho. A NBA pode até achar que a imagem dela está sendo manchada ou bobagens como essa, mas é só um argumento fraco para controlar todos os lados da vida inteira de uma pessoa. E, por favor, não venham com o argumento do “ele ganha milhões, tem que obecer”, esse pensamento de que dinheiro justifica submissão é uma bobagem sem tamanho.

Agora, o que dizer do controle de atitudes dentro da quadra? Essa questão eu acho bem mais complicada. Os árbitros da liga acabam de ser informados que devem agir de maneira diferente na hora de aplicar faltas técnicas. Os seguintes comportamentos serão punidos:

- Movimentos agressivos, como socos no ar, feitos em qualquer lugar da quadra.

- Demonstrar explicitamente desacordo com a marcação feita pelo juiz. Como por exemplo levantar os braços de maneira incrédula ou usar gestos para mostrar como supostamente recebeu uma falta.

- Correr em direção ao árbitro para reclamar de uma marcação.

- Excessivos questionamentos sobre uma marcação, mesmo que de maneira educada.


Não sei vocês, mas minha primeira reação foi de revolta. Qualquer um que já jogou uma pelada bem mais ou menos com os melhores amigos sabe como o sangue sobe depois que você sofre uma bofetada no braço na hora da bandeja e não acontece nada. Ou quando você dá um toco limpo e o mané grita “Falta!” e já sai andando pra cobrar o lateral. É absolutamente natural, quando se está em uma situação de adrenalina como uma partida esportiva, uma explosão mais agressiva que o normal quando se sente prejudicado. Além de ter técnica e físico acima da média, os atletas terão que ter os nervos controlados como nenhum outro ser humano. Se existem super-heróis na atualidade, são os atletas profissionais. Querem que sejam modelos de comportamento, saúde, beleza, atitude e personalidade.

Por outro lado, dá pra entender de onde nasceu esse desejo da NBA de controlar tudo. Usando esses novos regulamentos, um repórter do Wall Street Journal assistiu a duas partidas da final entre Lakers e Celtics para contar quantas faltas técnicas a mais seriam dadas nesses jogos. No total o número de técnicas aumentaria em 10 vezes! Claro que na prática não seria um número tão alto, já que muita gente seria expulsa com a segunda técnica, mas mesmo assim é assustador. Nesses dois jogos o Derek Fisher teria recebido 5 técnicas e o Kobe 4, os recordistas.

Não é coincidência que os que mais reclamaram foram os dois jogadores mais experientes e capitães do Lakers. Eles sabem que a pressão deles para cima dos juízes pode valer pelo menos uma ou duas faltas marcadas a seu favor em momentos decisivos. Também conhecem os árbitros faz tempo e sabem como lidar com cada um deles. Do outro lado estava o time mais experiente da NBA e não precisamos nos esforçar muito para lembrar de Ray Allen, Paul Pierce, Kevin Garnett, Kendrick Perkins e, ufa, Rasheed Wallace indignados após cada marcação de falta. O vídeo abaixo com as reações do Rasheed é impagável:




Ou seja, os árbitros sofreram demais nesses jogos. Dois times experientes, dois times que reclamam muito, jogos físicos, com muita porrada, marcações difíceis e a natural pressão de que um erro simples pode mudar o campeão de toda a temporada.Tudo o que os árbitros não precisam é de um bando de cara de 2 metros de altura no cangote deles questionando todas suas decisões. Todas. Como no futebol, até chute na cara rende uma reclamaçãozinha com o juiz: "Era só pra tirar o dente, não pra matar! Pra que o vermelho, professor?"

É importante lembrar que várias dessas decisões tomadas pela liga não são novidade. Antes da temporada 2006-07 pelo menos umas duas ou três indicações bem parecidas foram feitas aos árbitros. Na época foram chamadas pela mídia americana de “The Rasheed Wallace Rules”, porque eram feitas simplesmente para evitar o tipo de comportamento que nosso querido Sheed tinha em quadra. Com o passar da temporada 06-07 os juízes foram esquecendo das novas regras, ninguém os lembrou e acabou que não deu em nada. Então tão importante quanto questionar e entender essas novas regras é se perguntar se dessa vez elas vão ser levadas a sério e durar por pelo menos um ano.

Dessa vez não temos mais o Rasheed Wallace para batizar ou justificar a decisão. Depois de 15 temporadas de carreira, três Finais, um título e 4 All-Star Games, ele agora é um ex-jogador. Quando ele anunciou sua aposentadoria muita gente comentou aqui e no Twitter que a gente estaria muito triste já porque somos fãs deles. Somos mesmo. Usamos por muitas vezes suas fotos no nosso layout e ele é o muso inspirador do nosso "Both Teams Played Hard", emprestando sua frase e suas fotos para essa nossa seção de perguntas e respostas. Mas mesmo assim não fiquei tão triste assim. Depois de 15 anos estava esperando a sua aposentadoria e já faz algum tempo que ele não é mais o grande jogador que foi. Foi uma surpreendente e legal despedida vê-lo sendo um dos melhores jogadores em quadra no jogo 7 da última final, quando foi titular no lugar do Kendrick Perkins e, como não fazia há uns 10 anos, pisou dentro do garrafão e fez jogadas de pivô.

Ele ainda tinha gás para jogar pelo menos mais um ano, principalmente se continuasse como reserva, mas gosto ainda mais dele por ter se aposentado. Li em alguns sites americanos que o Sheed não estava se divertindo em Boston. Ele é brincalhão, palhaço e tem seu próprio ritmo. Tem dias que é preguiçoso mesmo, só arremessa de três e pronto, é o seu jeito bonachão que poucos jogadores novos tem hoje em dia. Já o Celtics é um grupo bem fechado, com jogadores éticos, que treinam duro e cobram uns aos outros o tempo todo. Para eles é ótimo e um dos segredos do sucesso deles, mas para o Sheed, ainda mais com essa idade, era demais. Foi bom por um ano, mas abdicou dos milhões que ganharia nessa temporada para descansar. Não se divertir só pelo dinheiro ou pela glória é racional demais, não é Rasheed Wallace.

Por isso não fiquei triste com sua aposentadoria, irei sentir falta, claro, como acontece com todos os ídolos que se aposentam, mas só. Meu pensamento só mudou um pouco com essas novas regras sobre as faltas técnicas. Não tenho dúvidas de que ele não mudaria seu comportamento, mas o que ele faria ao receber uma ou até duas faltas técnicas a cada jogo e ser expulso muitas vezes? Ele poderia ser o grande responsável por um questionamento dessas atitudes, alguém para simplesmente não obedecer.

Na nova geração ainda temos alguns chamados “bad boys”, que nem sempre são realmente maus, apenas pessoas que não seguem um padrão. Mas eles não são as estrelas do jogo, em quem as pessoas realmente prestam atenção. Nem mesmo alguns que acompanham a NBA de perto sabem muito ou lembram-se sempre de caras como o JR Smith. E outros passam a ser desvalorizados dentro da liga depois de algumas atitudes, digamos, anti-éticas, como Jamal Tinsley, Michael Beasley e Josh Howard, que não valem metade do que valiam anos atrás. Não faz bem ter alguém que não seja um profissional exemplar. Pode fazer sentido pra eles, mas pra gente é um saco. Não precisamos concordar com suas atitudes, é apenas bom para o ambiente, para os jogadores e para quem enxerga o esporte como parte e reflexo da sociedade, que não existam apenas jogadores que entopem nossos ouvidos com clichês e termos vagos nas entrevistas coletivas. São caras assim que fazem o esporte parecer verdade e não ficção.

O que eu espero de verdade dessas novas regras é que elas sirvam apenas para dar uma amenizada nos jogadores. Espero que continuem tendo reações naturais de jogo mas que se controlem um pouco na hora daquelas reclamações que só tem a intenção de atrapalhar e manipular os árbitros. E mais do que isso, espero que esse equilíbrio seja encontrado através dos próprios atletas. Sem Rasheed Wallace é bom que apareça outro cara para questionar, testar e provocar quando for necessário, não apenas obedecer. E se esse cara aparecer em um jogo vestindo as roupas que ele bem entender, melhor ainda.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Preview 2010-11 / Charlotte Bobcats

O da esquerda foi pro Knicks, o da direita iria pra 
putaqueopariu se o Larry Brown pudesse escolher


Objetivo máximo: Playoffs
Não seria estranho: Ficar em 9º ou 10º no Leste
Desastre: Passar muito longe dos 8 primeiros da Conferência

Forças: Técnico e elenco especializados em defesa
Fraqueza: Ataque fraco. Perdeu jogadores e não conseguiu reposição à altura

Elenco:

Charlotte Bobcats
Titulares
Reservas
Resto
PG
DJ Augustin
Shaun Livingston
SG
Stephen Jackson
Gerald Henderson
Matt Carroll
SF
Gerald Wallace
Derrick Brown
Dominic McGuire
PF
Boris Diaw
Tyrus Thomas
Eduardo Najera
C
Kwame Brown
Nazr Mohammed
DeSagana Diop


Técnico: Larry Brown

Larry Brown é o único técnico da história do basquete americano a ter um título da NCAA e da NBA. No currículo tem façanhas como fazer aquele Pistons sem estrelas (ou que viraram estrelas depois daquela temporada) de 2004 bater o Lakers de Shaq, Kobe, Malone e Payton e fazer o Allen Iverson jogar o melhor basquete da sua vida. No último ano conseguiu ser o primeiro técnico a levar o Bobcats, caçula da NBA, para os playoffs.

Historicamente, e novamente com o Bobcats, Larry Brown faz sua fama por montar boas defesas. O Sixers de 2001 que foi até a final contra o Lakers era uma defesa sólida, com Dikembe Mutombo ainda em seus bons anos e o ataque todo nas mãos de Iverson. O Pistons de 2004 tinha um ataque mais eficiente, bem montado, mas foi o que foi na história da liga por sua defesa. Sob o comando de Larry Brown é que Ben Wallace deixou de ser um desconhecido para se tornar o melhor defensor do mundo por tantos anos. Outra característica básica do treinador é a sua exigência. É bem comum ele afastar jogadores ou falar mal deles publicamente quando acha que não estão se dedicando o bastante em quadra. É uma espécie de Scott Skiles, mas com jogadores que os respeitam mais.

No Bobcats ele parecia estar tentando simular o que fez em Detroit, se preocupando com uma defesa forte e deixando o ataque mais no jogo de meia-quadra, com um ou dois jogadores inteligentes atuando como o Chauncey Billups do time, segurando a bola na mão por bastante tempo e tomando decisões por conta própria. Primeiro era Boris Diaw, que na temporada passada perdeu esse papel para Stephen Jackson. Apesar dos dois estarem jogando bem, não levam o time nas costas. Larry Brown ainda não conseguiu achar um jeito de fazer a melhor defesa da NBA virar um ataque competente. Seu histórico de ataques pouco eficientes e dependente de estrelas, somado ao elenco do Bobcats, dão a entender que Larry Brown vai penar muito nessa temporada para voltar a seus melhores resultados. Mas sem ele o Bobcats estaria fadado às últimas posições da liga.

...

O Raymond Felton nunca chegou a ser aquela grande estrela que tanta gente achou que ele seria. Mas não é nenhuma decepção também. Bom armador, sabe pontuar e por muitas vezes, com suas jogadas individuais, foi a válvula de escape do Bobcats em quartos períodos. Mas agora ele está no New York Knicks. Então quem entra no lugar dele no time? Em teoria seria o DJ Augustin, único outro armador do elenco, mas o caso não é tão simples assim. Durante muitos jogos o Felton estava jogando mal ou simplesmente precisava descansar e o Larry Brown se recusava a colocar o DJ Augustin, seu reserva imediato, em quadra. Ou deixava o Felton por mais tempo em quadra ou improvisava o Stephen Jackson ou até mesmo, no fim da temporada, o Larry Hughes. Perguntado uma vez sobre porque Augustin não estava jogando, ele respondeu algo como “Porque ele não defende e não sabe armar jogadas” ou algo assim.

Eles definitivamente não se dão bem e já tentaram trocar o cara muitas vezes, sempre sem sucesso. Muita gente até está apostando que o armador titular pode acabar sendo o Shaun Livingston, mas eu duvido. Apesar de ser um jogador inteligente, nunca foi o mesmo depois da sua contusão-Lego (só assista se tiver sangue frio) e eu não acho que seja bom o bastante para ser titular atualmente.

Outro problema do time hoje em dia é a inutilidade do Boris Diaw. Quando ele chegou no time no meio da temporada retrasada revolucionou o ataque da equipe, finalmente dando qualidade de passe e inteligência. Mas essa função passou a ser realizada pelo Stephen Jackson no último ano, agora Diaw é um cara que defende mal, não sabe arremessar e não tem a bola na mão pra fazer o que faz melhor (e faz como poucos no mundo), passar a bola. Diaw também está acima do peso faz algum tempo e Larry Brown, que nunca perdoa, já deixou clara sua insatisfação com isso.

O ótimo blog NBA Playbooks deu uma boa solução para o Bobcats desviar a atenção dos seus defeitos e passar a ser mais conhecido pelas suas qualidades. O segredo é usar a tática que o Philadelphia 76ers usou nos últimos anos, virar o time do contra-ataque, jogar em velocidade. O Sixers se destacou com isso, principalmente na temporada retrasada, porque tinha bons defensores, ótimos ladrões de bola e um time inteiro que sabia fazer pontos de transição. Não dá pra ganhar títulos só com isso, mas quando estamos falando de time com poucas ambições, é uma saída.

O DJ Augustin não sabe armar o time, ele se destaca pelas suas bolas de três e velocidade. Então pode ser bem útil para simplesmente pegar a bola e sair correndo. Se aprender a dar os passes certos nas horas certas, coisa que eu sinceramente não sei se ele sabe fazer, será um passo importante para se firmar como titular. Se isso não der certo eles podem deixar a bola na mão do Stephen Jackson ou do sempre espetacular Gerald Wallace. Apesar de mais altos e pesados, são velozes e puxam contra-ataques com muita qualidade. Eu não descartaria por completo a idéia do Larry Brown colocar no time titular, ao invés do Augustin, o Gerald Henderson, jogador de 2º ano que teve poucas chances na temporada passada. Ele não é armador nato, mas é veloz e atlético nos contra-ataques e se tiver um relativo sucesso marcando os armadores adversários pode ganhar a vaga. Aí a idéia seria usar a defesa esmagadora para roubar a bola ou conseguir um rebote defensivo e sair em velocidade com o trio Henderson, Wallace e Jackson. Em situações de meia quadra aí a armação teria que ficar mesmo com o Captain Jack. Não é o ideal, mas considerando quanto o Larry Brown odeia o Augustin, há uma chance.

Na última temporada o Bobcats foi um dos times que mais forçou erros dos adversários e um dos que mais forçou erros de arremesso, então as chances de pegar a bola e forçar o jogo de transição estão aí. Para ser o time perfeito para atuar nesse esquema falta apenas um melhor reboteiro. No ano passado eles estavam bem abaixo da média para um time especialista em defesa e para essa temporada ainda perderam Tyson Chandler por nada.

Como se perder Felton por nada não fosse o bastante, ainda conseguiram ser piores com o Chandler. Porque dessa vez ganharam despesas em troca. O pivô foi para o Dallas em troca de Erick Dampier, Eduardo Najera e Matt Carroll. Erick Dampier era a peça chave da troca porque ele tinha um contrato não garantido de 13 milhões de dólares para essa próxima temporada, então um time poderia dispensá-lo antes da temporada começar e economizar 13 milhões. A idéia do Bobcats era usar o Dampier como isca de troca para times que queriam se livrar de jogadores caros. Como o Dallas já tinha provado nos meses anteriores, não deu certo. Ninguém queria o Dampier nem para despachar contratos imensos, ou queria no máximo mandar um Eddy Curry da vida, o que também não interessava o Bobcats. Resultado? O próprio Bobcats foi obrigado a dispensar o Dampier para não ter que pagar 13 milhões (mais as multas por passar do teto salarial) por um jogador tão mais ou menos. Ou seja, o Bobcats trocou Tyson Chandler, seu pivô titular, pelos horríveis contratos de Eduardo Najera e Matt Carroll que, juntos, não devem jogar mais de 8 minutos por jogo. Uma offseason para ser esquecida em Charlotte.

Para coroar o novo sistema ofensivo sugerido, poderia também haver uma troca no time titular de Boris Diaw por Tyrus Thomas. O QI do time cairia de um prêmio Nobel para um rato velho, mas ganharia muito em velocidade, defesa e teriam mais um cara para acompanhar os contra-ataques. O grande defeito do Tyrus Thomas é ser inútil no jogo de meia quadra, já que não sabe jogar de costas pra cesta, mas até aí o Diaw não é grande coisa. Mesma coisa no arremesso de média distância, Tyrus Thomas, embora tenha melhorado muito, ainda é irregular, assim como é Diaw hoje em dia. Com essa mudança o Diaw poderia até ser mais útil, voltando a ter a função de organizador do ataque quando o Stephen Jackson fosse descansar.

Embora tenha divagado tanto sobre as possibilidades ofensivas do time, a verdade é que o que define mesmo o time é a sua defesa. Apesar dos pesares, enquanto forem a melhor defesa da NBA vão incomodar muita gente. Vão ser uma espécie de Pacers do meio da última década que era o famoso time construído para vencer por 51 a 49. Deem uma olhada nesse vídeo do último ano em um jogo contra o Heat, foi um massacre defensivo:

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Preview 2010-11 / Boston Celtics

Começamos hoje a seção que faz o preview de todos os times para a próxima temporada. Não vamos ter nenhuma ordem de postagem e iremos tentar brincar bem pouco de futurologia. Também podemos interromper os previews a qualquer momento para postar sobre outro assunto que pareça relevante.


...



- Eu não sei arremessar


Objetivo máximo: Título
Não seria estranho: Perder na semi-final do Leste para Heat, Magic ou Bulls
Desastre: Perder na primeira rodada dos playoffs

Forças: Elenco profundo, experiência em playoffs e entrosamento.
Fraqueza: Idade. Não perderiam se a liga fosse decidida no dominó.

Elenco (Veja todos os elencos da temporada aqui)


Boston Celtics
Titulares
Reservas
Resto
PG
Rajon Rondo
Delonte West
Avery Bradley*
SG
Ray Allen
Nate Robinson
Von Wafer
SF
Paul Pierce
Luke Harangody*
Marquis Daniels
PF
Kevin Garnett
Glen Davis
Semih Erden*
C
Shaquille O'Neal
Jermaine O'Neal
Kendrick Perkins

...
Técnico: Doc Rivers

Quem conhece o blog há algum tempo sabe que a gente não é muito fã do Doc Rivers. Até hoje os seus maiores méritos no Boston não foram as coisas que fez, mas as que deixou os outros assumirem para si. Em 2007-08, primeira temporada do trio Pierce-Allen-Garnett, Rivers deixou toda a parte defensiva sob a tutela de Tom Thibodeau (leia um pouco sobre ele nesse post). O resultado foi a melhor defesa daquela temporada e, digo lembrando do Pistons de 2004-2007, a melhor defesa que eu já acompanhei de perto na vida.

Naquele mesmo ano Doc Rivers foi feliz ao não querer inventar muito no ataque. Fez um sistema ofensivo simples que sabia usar bem os contra-ataques (que eram muitos, graças à forte defesa) e jogadas individuais dos talentosos Paul Pierce e Kevin Garnett.

Na temporada passada, com o ataque estagnado, muito por causa da idade e do desempenho irregular dos três veteranos, Rivers foi feliz ao entregar o ataque nas mãos de Rajon Rondo. Em algumas entrevistas ele disse que o armador tinha sinal verde para fazer o que queria com a bola na mão. E assim o ataque verde floresceu de novo. Com a ajuda de Thibodeau, que fez a vida de LeBron miserável naquela série contra o Cavs, chegaram de novo nas finais em 2010.

Nesse ano eles não tem mais Thibodeau, que é técnico do Bulls, para cuidar da defesa, mas tem um time que já aprendeu muito com ele nos últimos anos. E se Doc Rivers tem outro talento além de deixar quem sabe mais que ele trabalhar, é motivar. Com aqueles gritos e discursos inflamados ele faz o seu time render mais nos momentos mais importantes. O Heat pode ter seus talentos na flor da idade, mas vai ser duro enfrentar esse time sedento por vencer o novo trio de ferro.
...

Todo mundo sabia o que o título do ano passado significava para o Lakers como time: o primeiro título consecutivo de um time desde o tri do mesmo Lakers em 2000-01-02, a doce vingança sobre o Celtics que os destruíram em 2008 e o fim das acusações de time “soft”. Por isso, depois do jogo 7 da última final, perguntaram para Kobe Bryant, “Sabemos para o time, mas individualmente o que esse título significa pra você?” e a resposta foi na lata, sem pensar, “agora eu tenho um a mais que o Shaq.

O dono do Celtics, Wyc Grousbeck (leia o perfil que fizemos dele aqui), disse que foi ao ouvir essas frases, no calor da derrota, que decidiu ir atrás do Big Fella. Claro que deve (ou deveria) ter pesado na contratação o fato do Shaq não estar cobrando caro, a contusão até janeiro do Kendrick Perkins e o fato do Celtics ter tido nos rebotes a sua maior fraqueza na última temporada, mas ficamos felizes com essa apimentada a mais na rivalidade.

Além de Shaq, chegaram ao time outro O’Neal, Jermaine, e Delonte West. Como novatos estão no time Avery Bradley, um armador reserva que parece ser bonzinho, Luke Harangody, que fez estrago nas Summer Leagues com suas bolas de 3, e Semih Erden, pivô turco que fez bons jogos no último Mundial.

Se estivéssemos em 2000, 2001 ou até 2003, o atual Celtics poderia ser visto jogando apenas uma vez por ano, numa cidade cheia de festas e um dia após um campeonato de enterradas. Isso porque há alguns anos atrás, Paul Pierce, Ray Allen, Kevin Garnett, Jermaine O’Neal e Shaq batiam cartão em All-Star Games. Hoje em dia nenhum deles está em seu auge, mas não deixa de assustar olhar todos no mesmo time. A grande missão de Doc Rivers com esse elenco é saber como usar um pouco de todo mundo de maneira eficiente. Na teoria daria pra usar Shaq, Jermaine e KG todos por um período não muito grande de tempo, assim ninguém cansa muito e se preserva para os playoffs, mas na prática não costumam ser muitos os times que conseguem jogar bem fazendo muitas substituições. Lembro do Shaq no ano passado em Cleveland jogando muito bem por um período e depois de “ser preservado” no banco voltava já sem ritmo, fora do jogo, e pouco contribuía. Na seleção brasileira já vimos muito disso também, excesso de rotação e ninguém entra no ritmo do jogo.

Não vou ficar aqui sugerindo as formações que eu gostaria de ver no Celtics, principalmente no garrafão, porque ainda nem vimos elas em ação, faremos isso durante a temporada. O Doc Rivers não é o técnico dos sonhos, mas é esperto o bastante para usar o tempo de treinamento antes da temporada para testar Garnett ao lado de Shaq, de Jermaine, os dois O’Neals juntos e a que eu mais espero, Shaq e Glen Davis no mesmo garrafão, o que pode mudar o pólo magnético da Terra.

Independente das escolhas, parece claro que o Celtics tem o garrafão com mais opções na NBA e é de lá que eles devem arrancar suas vitórias mais importantes. Quando Perkins voltar vão ser tantos jogadores de características diferentes que eles tem todas as ferramentas para parar Chris Bosh, Dwight Howard, Gasol-Bynum, Duncan-Splitter, Boozer-Noah e qualquer outro que apareça pela frente. Garnett e Jermaine são fortes mas sem perder a mobilidade, Glen Davis é pesado e rápido, Perkins é uma parede, Shaq uma parede mais velha e Erden parece ser capaz até de marcar alas de força.

Nem tudo é bom no mundo verde, porém. As contusões atrapalharam o time nos últimos anos e nessa temporada eles tem o Jermaine, é quase certo que ele vai se quebrar de alguma forma. Com outros se machucando talvez tenham dificuldade de criar um padrão de jogo até os playoffs. E também tem a questão da queda de qualidade dos seus jogadores. Rajon Rondo é espetacular, mas não dá sinal de que está aprendendo a arremessar e só tem piorado nos lances livres (vide final do ano passado), incomoda ter sempre essa característica do jogo explorada. Ray Allen é capaz de quebrar recordes de 3 pontos em um jogo e passar os outros em branco e, como diz muito bem esse post do Celtics Town, Paul Pierce tem ficado pior nos minutos decisivos das partidas.

Como todo time experiente, o Celtics deve levar a temporada regular em banho-maria, não se incomodando de acabar em primeiro ou quarto lugar. Vamos ver do que eles são realmente capazes apenas nas partidas mais simbólicas, como a da estréia contra o Miami Heat. Até vou perder a novela pra assistir!

sábado, 18 de setembro de 2010

Mudança sem mudanças

Vocês entenderam tudo errado. Quando o Danilo disse que a gente estava de mudança vocês acharam que a gente ia morar junto, né? Embora não seja uma idéia ruim e na verdade algo que já cogitamos um tempo atrás, não é caso. Na verdade nós nunca moramos tão longe um do outro quanto agora.


Enquanto o Danilo mudou de uma casa pra outra no mesmo bairro de São Paulo, eu mudei de cidade, país e continente. Irei fazer o próximo ano da minha faculdade, de agora até junho do ano que vem, no Chipre. Sim, Chipre, não escrevi Chile errado. É aquela ilha estranha escondida no canto do Mar Mediterrâneo. Não conhece, Wikipédia neles.

Enquanto todo mundo que vai estudar nos EUA, Espanha, Inglaterra ou França escuta "Que legal, parabéns!", eu escuto "Por quê?". Mas beleza, falo mais sobre isso num blog que estou criando sobre a viagem e que colocarei o link aqui para quem se interessa pela minha vida pessoal, ou simplesmente para quem quer saber como é morar no Chipre.

Sobre o que interessa, o Bola Presa, não vai mudar muita coisa. Vou ter internet aqui (não tenho agora, estou usando a de um bar que está passando Premier League em um telão e campeonato cipriota no outro) mas vou estar online quando a temporada começar. E aí vou comprar o League Pass, ver os jogos normalmente e postar como sempre. Eventualmente podem acontecer algumas coisas que me impeçam de postar durante alguns dias, claro, não sei exatamente como vai ser minha rotina aqui, mas em geral só muda a hora em que assisto aos jogos.

Uma coisa que irá mudar pra valer é que estando aqui não poderei participar de encontros com os leitores que organizamos junto com a adidas. Mas aí vocês usam e abusam do Danilo até eu voltar.

Acho que assim fica justificada a minha ausência na última semana. Foram uns bons dias resolvendo burocracia, no avião (com a seleção masculina de vôlei), um dia inteiro no aeroporto de Frankfurt esperando a conexão para Lanarca e depois disso descobrindo um pouco da cidade onde vou morar pelos próximos 9 meses. Aos poucos o ritmo dos posts volta ao normal e quando a temporada começar vocês nem vão perceber que estou longe. Agora deixa eu ir embora logo, preciso ainda entrar na Globo.com pra ver o que perdi da novela nos últimos dias. Já basta ter perdido o Corinthians x Fluminense na quarta-feira, não descobrir o segredo do Gérson é demais. Morar longe não é fácil!

...
Curiosidade sobre o basquete no Chipre: Aqui eles tem uma liga de 9 times em que todo mundo joga um contra o outro em turno e returno. O bizarro é que depois disso os 8 primeiros se classificam para os playoffs. E a gente que achava que a temporada regular da NBA é que era inútil. Apesar disso o basquete é o segundo esporte nacional, atrás apenas do futebol.

Peças de museu

"Não tô chorando, é que entrou um cisco aqui..."

Quando falta um tempinho para a pré-temporada (que começa dia 3 de outubro) e as coisas andam devagar na NBA, começam a surgir questões em nossa mente que aos poucos vão comendo nosso cérebro, especialmente naquelas horas em que você precisa passar muito tempo no banheiro. No meu caso, fico tentando encontrar respostas mágicas, místicas, sociológicas, marxistas, estatísticas ou astrológicas para entender o motivo do Allen Iverson ainda não ter um contrato com um time da NBA - e, pelo jeito, a temporada começará e ele continuará desempregado. O que mais me intriga é que o jogador em quem eu apostava para estar desempregado, Tracy McGrady, ganhou uma chance de um time que não tem qualquer motivo para contratá-lo. Qual o critério?

Desde que o McGrady foi parar no meu Houston Rockets, acompanhei sua carreira bem de pertinho. Antes disso, ele era o cestinha da NBA, um dos melhores jogadores da liga, mas não conseguia vencer com o elenco terrível que era aquele Magic. No Houston ele supostamente teria a ajuda que queria, mas nunca teve sucesso. Costumo colocar a culpa no elenco, que era meio esburacado, nas constantes contusões de Yao Ming e do próprio T-Mac, que são de vidro, e no estilo de jogo das duas estrelas, que nunca se complementaram. Mas a verdade é que, apesar de ter sempre inocentado o McGrady dos fracassos da minha equipe, nunca me senti tranquilo quando ele estava em quadra.

A capacidade de ser cestinha da NBA está lá, McGrady é um pontuador nato, mas sua seleção de arremessos nunca foi muito inteligente. Ofensivamente, sempre esteve tão acostumado a forçar o jogo que parece que ele não acha divertido arremessar livre, prefere enfrentar toda a defesa adversária e mais a torcida do Corinthians. Sua mecânica de arremesso também não é das mais confiáveis, então todo arremesso importante seu é motivo para um ataque cardíaco da torcida, especialmente quando ele dá o arremesso marcado por cinco carinhas em seu cangote. O mais triste é que ele quer envolver os companheiros, sabe passar a bola, mas perde muito de sua efetividade quando faz isso. McGrady só funciona quando tem a bola nas mãos, não se sente confortável armando as jogadas, e tende a desaparecer do jogo quando não está inteiramente envolvido no ataque. É daquelas coisas impossíveis de solucionar: o que o cara faz de melhor é bater para a cesta e forçar arremessos, mas com isso não envolve seus companheiros e ai não dá pra ganhar; quando resolve passar a bola e trabalhar na armação de jogadas, aí deixa de lado o que faz de melhor e torna-se apenas um jogador comum.

Assim como Kobe e LeBron, que já passaram jogos inteiros dos playoffs passando a bola pro lado e se negando a arremessar, T-Mac entrou em quadra em jogos decisivos disposto a apostar nos companheiros, provar que o basquete é um esporte coletivo. Os resultados - assim como para Kobe e LeBron - foram desastrosos, com gente chamando o McGrady de amarelão, clamando que ele precisava ser o homem encarregado de decidir o jogo. Aí ele entra em quadra, faz miséria, pontua como um maluco, o resto do time não faz nada porque está apenas sentado assistindo, e a equipe é derrotada nos playoffs. Quando sentou e chorou numa coletiva de imprensa após a eliminação, T-Mac havia prometido que ganharia o jogo com seu próprio esforço, teve uma partida histórica e perdeu mesmo assim. Que mais poderia ter feito? Passado a bola e visto um Houston apavorado querendo que sua estrela decidisse?

Parece que, aos poucos, esses jogadores foram ganhando papéis cada vez mais secundários, ou então sumindo do mapa, sendo tacados para debaixo do tapete. Se o cara só consegue render quando ganha o jogo sozinho, ele não é mais bem visto pela liga. Talvez a resposta mágica para o contrato oferecido ao Tracy McGrady seja justamente algo que quase acabou com sua carreira: suas contusões. Depois de sofrer tanto com seus joelhos e costas, T-Mac teve que aprender a comer pelas beiradas, jogar um basquete diferente. Nas poucas vezes em que entrou em quadra pelo Houston Rockets na temporada passada, não tinha nem sinal da explosão que lhe era característica, tinha nítida dificuldade de bater para dentro do garrafão e pouca elevação em seu arremesso. Acabou se focando em passar a bola, acertar arremessos livres, jogar basquete como um jogador comum, talentoso mas que não resolverá nenhuma partida. Curiosamente o Houston havia montado um elenco apenas de coadjuvantes, então o T-Mac não era necessário - fora que o medo de que seus companheiros olhassem para ele como se fosse alguma estrela capaz de fazer milagres poderia destruir o trabalho coletivo montado pelo técnico Rick Adelman. Conforme sua carreira foi avançando, ele não conseguia passar da primeira fase dos playoffs e as contusões iam piorando, McGrady foi ficando mais à vontade com a ideia de ter um papel mais coadjuvante, mas aquilo que as pessoas esperavam dele destruía essa possibilidade. Todo mundo queria ver o T-Mac monopolizando o jogo e fazendo 30 pontos para só aí não chamá-lo de amarelão. É tipo com o LeBron, cujo estilo está mais focado nas assistências (tipo Magic Johnson) do que nos pontos (tipo o Jordan), mas que ninguém permite a omissão no setor ofensivo, não é aceitável. Apenas graças às lesões do T-Mac esse papel secundário foi sendo aceito. Quando foi trocado para o Knicks, ninguém ficava secretamente esperando que alguma hora ele pirasse e tentasse ganhar um jogo sozinho, arremessando do meio da quadra, porque sabiam que seu físico não ia aguentar. Sua estadia em New York foi comportada e deu até que bastante certo principalmente porque T-Mac armou o jogo num time em que ninguém sabia cumprir essa função. Além de, claro, ele ser péssimo na defesa mas isso no Knicks não significar nada, porque ninguém defende mesmo.

O discurso do McGrady agora é de que ele está em forma, que não é mais capaz de enterrar na cabeça de ninguém mas que ainda pode pontuar muito de outras maneiras. Mas a simples constatação de que nem ele, nem seus companheiros, acreditam que ele possa ganhar um jogo sozinho garante que não haverá monopólio da bola nem ataque-de-um-homem-só. É aí que provavelmente deve morar o medo com relação ao Allen Iverson: supostamente ele ainda acredita ser um dos melhores jogadores da NBA, ainda acha que pode ser cestinha da temporada, e quem quer arriscar destruir todo o trabalho coletivo de sua equipe colocando um jogador que vai tentar ganhar sozinho apenas para provar que "o mundo estava errado"? Mesmo os piores times da liga não acreditam mais nesse lance de ter uma estrela e deixar que ela faça tudo por si mesma, porque a experiência provou que não dá certo. Se o time for uma merda (como era o Magic com McGrady), o jogador-estrela atrapalha o desenvolvimento da pirralhada, que precisa aprender tudo na prática, com minutos de jogo e a bola nas mãos (deu certo no Thunder com o Durant, não deu?). Se o time for bom (como era o Houston com McGrady) não dá pra vencer se todo o elenco acreditar que a vitória em um jogo decisivo depende de apenas um homem. Nem o Bulls do Jordan ficava parado assistindo as coisas acontecerem, e o Lakers de Kobe só deu resultado com um elenco sólido recheado de jogadores capazes de vencer jogos. O que o Iverson precisa, então, é transformar a sua fama, mostrar para as pessoas que ele não quer mais - ou não pode mais - vencer sozinho. Um jeito, adotado pelo Vince Carter, é jogar de boa num time ruim, aceitar vir do banco, não reclamar de nada, achar tudo divertido e ajudar a molecada. Bastou isso para que o Carter fosse de fominha maluco para "líder dentro e fora de quadra" no Nets e ganhasse uma chance no Magic. O outro jeito é a tática T-Mac, que consiste em se contundir o bastante para que ninguém acredite que você pode carregar um time nas costas. Ou seja, a melhor coisa que pode acontecer para o Iverson agora é quebrar o pé. E feio.

Mas ainda assim não faz sentido o Pistons - que é um time que deveria estar em reconstrução mas não está - achar que tem algo a ganhar com o McGrady em quadra. Provavelmente ele tem mais habilidade na armação do que jogadores mais pontuadores como Rodney Stuckey e Will Bynum, mas colocar um armador veterano num elenco que já tem armadores e veteranos demais não tem qualquer propósito. Se é para tirar minutos da pirralhada, algum engravatado do Pistons deve realmente acreditar que falta apenas o T-Mac para que eles tenham chances de playoff, o que é ridículo. Ou é ilusão de grandeza ou então é simples desespero, necessidade de vender camisetas, ingressos, aparecer na TV se aproveitando da antiga popularidade do McGrady. Mas sua popularidade foi pelo ralo junto com a fama do Iverson nessa NBA subitamente apaixonada pelo jogo coletivo e pela estrela capaz de fazer de tudo, não apenas pontuar. Não vale mais nada ganhar sozinho. E é assim que toda a mentalidade da liga fecha as portas para Iverson e abre as portas devagarinho para LeBron, Wade e Bosh. Aos poucos eles param de receber ovos na cabeça enquanto assistem ao Iverson e ao T-Mac virarem peças de museu.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Os caras maus

"E eu vou pra galera!"

Era 2004 e a temporada da NBA havia acabado de começar. Um dos times favoritos para ganhar o Leste era o Indiana Pacers, com jogadores como Reggie Miller, Jermaine O'Neal, Stephen Jackson, Ron Artest e Jamal Tinlsey. Era um time de defesa forte, dequeles dispostos a ganhar os jogos por um a zero com gol cagado no final. A rivalidade com o Pistons, de quem haviam perdido na Final do Leste da temporada anterior, era enorme. Aí o Ben Wallace sofreu uma falta e quis encher o Artest de porrada, o Ron Ron deitou debochadamente na mesa dos juízes, tacaram um copo de cerveja em sua cabeça, ele socou o torcedor errado, os jogadores entraram numa briga generalizada e tivemos a confusão mais famosa da história da NBA. Ron Artest pegou a maior suspensão de todos os tempos (tirando aquelas dadas por uso de substâncias ilegais) com 73 jogos de molho na temporada regular e mais 13 jogos nos playoffs, até maior do que a suspensão do Gilbert Arenas e seu famigerado caso da arma de fogo. Além dele, outros jogadores também foram suspensos pelo Pacers naquela briga: Jermaine O'Neal pegou 25 jogos de gancho, Stephen Jackson pegou 30, e Anthony Johnson ficou em casa por 5 partidas.

O mais engraçado é que o Pacers ainda foi para os playoffs naquela temporada, perdendo para o Pistons outra vez, mas nas semi-finais. Se não fossem pelas suspensões, aquele time teria feito ainda mais estrago nos playoffs e, apesar da aposentadoria de Reggie Miller, tinha tudo para ganhar um título nos anos seguintes. Mas a briga épica causou traumas profundos: enquanto Ron Artest se sentia culpado por ter destruído a maior chance de seu time até então e pedia para ser trocado afirmando que o Pacers estaria melhor sem ele, os engravatados do Pacers, liderados por Larry Bird, queriam reconstruir completamente a imagem do time e apagar do mapa os acontecimentos de 2004. De quebra, apagaram também do mapa qualquer possibilidade de ganhar um título pelas próximas décadas. Jamal Tinsley, famoso por se envolver em tiroteios em sua cidade natal e alegar que "acontece com todo mundo", tomou um gelo da franquia, perdeu o armário do vestiário, e está mofando em Indiana até que seu contrato termine. Stephen Jackson, que deu uns tiros pra cima depois de uma discussão na saída de um bar de strip-tease, foi trocado. Al Harrington, que depois de quase ser o melhor reserva do ano exigi virar titular, também foi trocado. Jermaine, envolvido na briga com o Pistons, foi o último a ser trocado para finalmente apagar os traços daquele grupo. Aos poucos o Pacers virou um time representado por Troy Murphy e Mike Dunleavy, dois sujeitos brancos, bonzinhos, dóceis e chatos. Nem preciso dizer que, desde então, a equipe de Indiana nunca mais ganhou sequer par-ou-ímpar.

Existe uma enorme preocupação em não colocar "maus exemplos" em grandes equipes da NBA, jogadores que podem arrumar encrenca, destruir a química do time, serem suspensos. De repente virou moda se livrar de qualquer cara que possa gerar dor de cabeça, que tenha problemas fora das quadras, que não seja bom menino. Quando menos percebemos, o Allen Iverson acordou desempregado enquanto jogadores bonzinhos mas sem nenhum talento são disputados a tapa por toda a liga. No momento em que o Kwame Brown ganhou um time e o Iverson começou a cogitar ter que ir jogar na China, deu pra ver que essa moda está indo longe demais. Por mais que o Kwame seja um cara legal, que dá vontade de passar a mão na cabeça, ele não vai tornar o Bobcats um time campeão. O Iverson, sim, já carregou times inteiros nas costas até uma final da NBA. O Artest, tão temido quando chegou ao Lakers porque "poderia pirar a qualquer momento e colocar tudo a perder", acabou de ganhar um título. Os bons jogadores às vezes são problemáticos e quem não quer lidar com isso vai ficar assinando Mike Dunleavys e Brian Cardinals (né, Mavs?) a vida inteira e montar uns troços insossos e fracassados como o Indiana Pacers dos últimos anos. Esse lance de "politicamente correto" vai transformar o planeta inteiro em mingau: docinho, inofensivo, sem gosto nem substância, fácil de engolir porque não tem nem que mastigar.

Curiosamente, um dos poucos passos contrários dos últimos tempos veio justamente do Pacers, que resolveu draftar o armador Lance Stephenson. O sujeito poderia ter sido facilmente draftado nas primeiras 10 escolhas, é um monstro no ataque, tem um jogo completo, e às vezes é fenomenal defensivamente. Mas acabou sendo escolhido na posição 40 simplesmente porque existem dúvidas sobre seu caráter dentro e fora das quadras. Teve passagem pela polícia ainda no colegial e, durante os jogos, tende a gritar com árbitros e companheiros, se empolga com o jogo, tenta sempre o lance mais espetacular ao invés do mais fácil. O medo de seu comportamento lembrou o pânico que cercava a contratação do Artest pelo Lakers, mesmo sabendo que um jogador tão espetacular estava saindo tão barato. Na posição 40, Lance Stephenson é uma baita pechincha - mesmo tendo, no mês passado, empurrado sua ex-namorada de um lance de escadas. Desde então, Stephenson não tem permissão para treinar com o resto dos seus companheiros, ficando confinado a treinos particulares até que o Pacers decida o que fazer. Mas gosto de pensar que os engravatados de Indiana não são completos débeis-mentais e que, portanto, sabiam dos riscos envolvidos no draft do Lance Stephenson. Treinos separados ou não, imagino que as temporadas de fracasso tenham forçado uma mudança de atitude simbolizada pelo draft de Lance. Se mandarem o garoto embora, como se cogita por aí, será a prova de que não aprenderam nada com os erros - e de que não leram o perfi dos jogadores que draftaram. Prefiro achar que estão dando uma atenção especial para o pirralho durante um momento difícil, dando conselhos e oferecendo estrutura e que, em breve, reintegrarão o armador à equipe.

Outro time que conseguiu uma pechincha dando uma olhada na baciada de "jogadores problemáticos" foi o Celtics. Com a nítida sensação de que essa será a última chance do elenco de ser campeão, e tendo que enfrentar o trio-fraldinha do Heat, o Celtics tá apelando pra qualquer coisa: mandinga, jogador velho, jogador novo, homem, mulher, e quantos jogadores-problema aparecerem. É por isso que Jermaine O'Neal, que o Pacers jogou fora, vai se unir ao Delonte West, que o Cavs mandou embora por culpa de um incidente em que ele foi preso andando de moto com mais armamentos do que o Rambo. Fiquei muito feliz com o despero do Celtics porque já estava crente de que o Delonte nunca mais ia conseguir um emprego nem no Mc Donald's apesar de ser um jogador excelente. Depois de anos abandonando jogos e treinos graças à sua depressão crônica e andando armado e paranóico pelas ruas de sua cidade natal, seria difícil achar um time que quisesse apostar no armador. Mas aí, pra piorar, o David Stern fez aquela merda que ele sempre faz, que é punir dentro da NBA por causa de uma punição fora dela, então o Delonte West tomou uma suspensão de 10 jogos depois de já ter sido punido pela justiça pelo seu porte de armas. Então qualquer time que aceite o armador tem que saber que, por 10 jogos, ele não poderá entrar em quadra. Convidativo, não?

Mesmo assim, o Celtics só tem a ganhar botando suas fichas no Delonte West. O jogador é inteligente em quadra, é bom arremessador, tem culhão para decidir e joga nas duas posições de armação. Torna o banco do Celtics imediatamente muito melhor, fazendo ainda melhor um papel que já foi de Eddie House, não importa quanto tempo fique suspenso e quantas motocicletas ele dirija por aí carregando lança-mísseis nas costas. Sua importância só será mesmo sentida nos playoffs, então a suspensão não vai ser grandes coisas. Do mesmo modo, Jermaine O'Neal torna o garrafão do Celtics bom o suficiente para que seja possível sonhar em enfrentar o garrafão do Lakers, mesmo que eventualmente ele acabe enchendo o Andrew Bynum de porrada ou se contundindo mais uma vez. Lance Stephenson tem tudo para tornar o Pacers, dono de um dos piores ataques da NBA, um time mais perigoso e talentoso, mesmo que empurre mulheres pelas escadas. É claro que ninguém gosta de gente escrota que anda por aí segurando metralhadoras e socando gurias, mas esses jogadores já foram presos, julgados e condenados, já fizeram serviço comunitário, já sofreram as consequências em suas vidas pessoais. Carregar isso para a NBA não apenas não faz um puto de um sentido, mas também torna os times piores, a liga pior, porque tira dele o mais importante: talento.

O Delonte West foi fundamental para o Cavs nas últimas temporadas, e em jogos decisivos apenas ele (e o Varejão, que não vale porque não tem cérebro) ousavam arremessar quando o LeBron ficava passando a bola. Tudo porque o Cavs topou lidar com os problemas do Delonte, lhe ofereceu tratamento psicológico e psiquiátrico, soube fazer concessões quando ele não queria (ou não conseguia) comparecer aos treinamentos, tentou ajudar o jogador ao invés de puní-lo. Sem LeBron na equipe, sabendo que eles precisam reconstruir, acho que não tiveram a paciência de manter o jogador e seus problemas, mas o Wolves poderia ter recebido o Delonte e tentado ajudá-lo, aproveitando-se de seu talento, ao invés de preferir despedir o jogador e sua imagem problemática. Azar. O apoio psicológico e psiquiátrico mudou a vida de Artest e permitiu que tanto ele quanto o Lakers saíssem vencedores com a parceria. Os times que não querem lidar com problemas e não estão dispostos a oferecer ajuda vão acabar draftando freiras ou comprando canários. E, certamente, vão feder muito, e por muito tempo. Se o Celtics tiver sucesso nessa derradeira temporada, ficará a lição: bons jogadores descobrem um jeito de funcionar juntos se tiverem o apoio necessário, e cabe às equipes da NBA fornecer essa estrutura. Se o Larry Bird não descobrir isso logo, o Pacers vai continuar com a cara sem sal do Mike Dunleavy, sem entender porque não conseguem ganhar bulhufas. Enquanto Allen Iverson continua lá fora, disposto a ganhar pouco, jogar em qualquer função, e ser o jogador sensacional que ele sempre soube ser. A China, que já recebeu o Marbury depois que ele foi bizarramente boicotado pela NBA, deve receber o Iverson logo. Torçamos para que não seja o mesmo destino de Lance Stephenson e Delonte West.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Um campeão no banco

Derrick Rose na fúria do metal

A campanha dos Estados Unidos no Mundial foi tão fácil, mas tão fácil, que quando o jogo final contra a Turquia acabou nós demos um bocejo que nos embalou num sono profundo que durou por dias e do qual acordamos para postar só agora (é claro que o fato de que estamos nos mudando, cada um para um lado, também não ajudou, mas disso falamos depois). Por muito tempo repetimos por aqui, até mais do que piada do Zorra Total: os Estados Unidos não precisam levar os melhores jogadores da NBA, basta que levem os jogadores certos. Compreendendo as diferenças entre o basquete da FIBA e da NBA e utilizando a experiências das campanhas passadas da seleção americana nos torneios internacionais, a comissão técnica sabia perfeitamente quais jogadores levar, dentre os disponíveis, para montar um time campeão. As outras seleções tinham pouquíssima chance, principalmente porque muita gente não dá a mínima para um torneio como o Mundial (que, vai, é sem graça mesmo) e estrelas de vários países preferiram ficar em casa cuidando de assuntos particulares. Os Estados Unidos, por outro lado, levaram estrelas para substituir as estrelas que não toparam jogar, e souberam deixar de lado os nomes mais importantes e levar quem iria render bem no basquete de perímetro da FIBA. O primeiro passo para isso foi deixar Rajon Rondo em casa, porque ele é deus-na-terra mas não sabe arremessar. O segundo passo foi, mesmo levando um pivô só por cagaço de que eles não fossem conseguir jogar sem um, deixar o Tyson Chandler no banco, dar um "ahã, Cláudia, senta aí" pra ele e ignorá-lo até o fim do Mundial. E o terceiro passo, mais audacioso - e no entanto subestimado - foi diminuir os minutos do Derrick Rose.

A grande sacada dessa seleção americana é estar pouco se lixando para os nomes dos jogadores, colocando pra jogar quem mais se encaixava naquilo que era necessário. O Andre Iguodala não acertaria um arremesso se sua vida dependesse disso, mas a seleção queria defesa na ala e o Iguodala foi lá e fez o que precisava ser feito, podando por isso os minutos do Danny Granger. O Kevin Love não é pivô nem nos seus sonhos mais obcenos, mas a seleção precisava de um reboteiro capaz de arremessar de três, e ele fez o que deu nos minutos que lhe foram dados. A comissão técnica não teve medo de distribuir papéis, mudar de ideia, ignorar jogadores, usar demais outros. Descobriram rápido que o Kevin Durant é perfeito para o basquete da FIBA: excelente arremessador que rende ainda mais com a linha de três pontos anã do basquete internacional, alto demais para os jogadores internacionais de sua posição, com culhão para arremessar nas horas importantes e inteligência para rodar a bola contra a zona. E aí, usaram ele o tempo inteiro, tornaram-no senhor de todo o Universo conhecido e não tiveram vergonha disso. Aquela seleção americana campeã olímpica não teve uma jogada sequer de isolação. Vai, minto, teve uma ou outra para o Carmelo às vezes, mas nesse Mundial o Durant foi isolado contra seus marcadores por trechos inteiros de jogos. Se não tem como pará-lo, se contra zonas ele é melhor arremessador que LeBron, se ele é mais alto do que o Kobe e arremessa por cima dos europeus nanicos, então por que não usá-lo o máximo possível? Não estava nos planos originais, mas todas as alterações necessárias foram feitas em uma seleção disposta a fazer tudo certinho para vencer, sem frescura, frirula ou paradigmas. Jogaram como deve-se jogar no basquete FIBA, e alteram todos os planos conforme as partidas foram acontecendo. Ao vencerem o Brasil graças ao esforço do Kevin Durant e aos minutos finais do Chauncey Billups, os Estados Unidos descobriram exatamente o que fazer caso os jogos apertassem. Mas essa simples descoberta garantiu que nenhum outro jogo apertasse. Depois de jogar com a gente, passearam.

O Derrick Rose acabou sendo um bom exemplo disso. Supostamente seria o armador titular ao lado de Billups, e até que teve uma parcela razoável de minutos na armação, mas seu jogo não deu certo no basquete da FIBA e ele aos poucos foi ficando desnecessário. Não estava no plano afundá-lo no banco, mas acabou virando item de decoração. No basquete internacional, armadores não costumam ser atléticos, eles são arremessadores. A bola costuma girar muito, diminuindo o papel dos armadores puros. Então, assim como a defesa do Rajon Rondo na posição era desnecessária, o físico privilegiado do Rose era desimportante. Para quê ter sua explosão física, força bruta e velocidade nos pés contra um carinha como o Huertas, que é pura técnica e zero de físico? No ataque, seu arremesso inconsistente ficou evidenciado pelas defesas por zona como costumava ficar de vez em quando em seus jogos pelo Bulls, mas suas infiltrações são muito mais difíceis no garrafão superpopuloso da FIBA e impedem que a bola gire no perímetro como deveria girar. A experiência e os arremessos de Billups tornaram-no soberano na vaga de titular, mas até o Russell Westbrook ganhou mais espaço do que o Rose simplesmente porque desenvolveu um arremesso consistente de meia distância.

Eu tenho atualmente um pouco de dificuldade de entender o amor incondicional que existe por aí pelo Derrick Rose. Confesso que já vi alguns grandes jogos dele, acho que é um jogador muito inteligente, mas seu jogo é bastante limitado. Não força passes mas tem dificuldade de encontrar seus companheiros quando a defesa não se taca pra cima dele em suas penetrações de garrafão, e o arremesso não é nada confiável. Apesar de saber controlar bem o ritmo do jogo, ditando direitinho quando o time deve correr e quando deve segurar a bola, tem uma dificuldade enorme de criar jogadas ou colocar a bola no lugar certo e na hora certa. Acaba dependendo do seu físico para bater para dentro, e aí encontrar seus parceiros no perímetro. Contra defesas fortes de garrafão, força uma tonelada de arremessos idiotas que nunca caem e não sabe criar para os companheiros. Seu físico é mesmo incrível, suas penetrações são de outro mundo, mas às vezes parece que ele está condenado a fazer sempre a mesma coisa, sempre do mesmo jeito.

No entanto, sei que minha visão dele é bastante injusta. Seu Bulls sofre por não ter nenhum grande pontuador desde que Ben Gordon deu o fora, então acaba ficando nas costas do Rose a obrigação de colocar a bola na cesta, algo que obviamente não é sua especialidade. Além disso, o Bulls não tem um jogador ofensivo de garrafão desde que a Britney Spears ainda era virgem, então não sabemos como o Derrick Rose se sairia colocando a bola para um pivô ao invés de ter sempre que cortar pra dentro e passar para o perímetro. É louvável que ele tenha feito tanto estrago apesar de estar num time tão mequetrefe, com tantos buracos, e teve atuações sensacionais nos playoffs carregando esse Bulls nas costas. Mas basta uma defesa capaz de atrapalhar o garrafão e aí temos um jogador incapaz de criar para si mesmo e para os outros jogadores. Talvez com Carlos Boozer as coisas fiquem bem diferentes, com as defesas adversárias não podendo se focar apenas no coitado do armador, e com uma presença lá dentro liberando espaço para que o Rose possa começar a arremessar de fora consistentemente. Mas o primeiro passo nessa direção foi um fracasso: com companheiros melhores e mais espaço para arremessar, Derrick Rose teve jogos completamente sem-sal no Mundial e se afundou no banco. Todo mundo com bom senso sabia que os Estados Unidos eram os favoritos, todo mundo sabia que o Durant era um dos melhores jogadores do planeta e - dada a oportunidade - iria colocar os jogos no bolso, então a grande surpresa para mim foi a dificuldade do Derrick Rose de se adequar a um jogo diferente. O Mundial era justamente uma oportunidade de diversificar seu jogo, treinar arremessos loucamente, voltar mais preparado para as defesas que tanto lhe fizeram sofrer na temporada passada. O fato de que seu rendimento foi muito baixo é mal sinal, e coloca ainda mais peso nas costas do Carlos Boozer, a tal "peça que faltava" há 10 anos nesse Bulls. Será mais uma chance de Rose melhorar e diversificar seu jogo, afinal o Bulls não deverá conseguir mais nenhum grande jogador num futuro próximo. Depois de perder Bosh e Wade, que flertaram um pouco com o Bulls com a mesma seriedade que aquelas vagabundas de ônibus ficam olhando pra você, o Rose subir de nível é a única esperança da torcida do Bulls.

Por falar em torcida, nos próximos dias publicaremos finalmente o resultado da Pesquisa Bola Presa. O Denis e eu estamos dando os últimos toques em nossa vida, mudando de casa e colocando as coisas no eixo, para então poder voltar ao blog com força total. Então, se você ainda não respondeu à pesquisa, tem mais um dia para preencher rapidinho e nos ajudar a descobrir o perfil de quem nos lê - e, de quebra, quais são os times da NBA mais populares no Brasil. Fiquem de olho, os dados são surpreendentes, e vamos postar bastante sobre eles nos próximos dias.