terça-feira, 31 de agosto de 2010

Uma outra vitória

Quando Leandrinho erra a última bola, o joga acaba, mas começa o Rebolation!


Para o cidadão comum, essa seleção de basquete dos Estados Unidos é uma vergonha, porque não tem nem Michael Jordan, nem Magic Johnson. Para quem conhece NBA de "ouvir dizer", essa seleção dos Estados Unidos é uma farsa porque não tem nem Kobe Bryant, nem LeBron James. Para quem nunca ouviu falar de NBA e conhece basquete só por causa do "Space Jam", a seleção dos Estados Unidos não vale nada porque não tem o Pernalonga. E para uma garota de 12 anos que passa o dia no Orkut, a seleção dos Estados Unidos é um fracasso porque não tem o Justin Bieber.

O que me surpreende é que até mesmo na gringolândia, os americanos acham essa seleção sem graça e não dão a mínima para o Mundial. Em parte porque, oras, é só o Mundial de basquete mesmo, grandes merdas - pra quem gosta de basquete de verdade, qualquer partidinha da NBA tem mais estrelas e mais qualidade técnica do que ficar vendo a Costa do Marfim no Mundial, e a enorme maioria das grandes estrelas está se poupando ou para a NBA, ou para as Olimpíadas. Mas o desinteresse com a seleção também vem do fato de que os principais jogadores são de equipes ignoradas lá na NBA. A grande estrela, Kevin Durant, virou modinha rápido mas ainda é apenas um jogador do Thunder. Danny Granger, um dos melhores pontuadores da NBA, joga num Pacers mequetrefe e desimportante que ninguém nunca viu jogar. Kevin Love, o jogador mais talentoso no garrafão da seleção, joga no Wolves, aquele time que ninguém conhece a não ser pelas escolhas bizarras no draft. O melhor arremessador do time, Eric Gordon, joga num Clippers famoso apenas por ser o primo pobre do Lakers e ser alvo de uma maldição que lesiosa todos os seus jogadores quando as coisas parecem que vão dar certo. Outro dos grandes arremessadores da liga, Stephen Curry, é pirralho e joga no Warriors, o time que é o circo oficial da NBA. Rudy Gay, melhor jogador do banco da seleção até agora, joga num Grizzlies que é tão engraçado, mas tão engraçado, que o Zach Randolph consegue ser até o melhor jogador da equipe.

Ao contrário do que já chegou a acontecer em mundiais anteriores, essa seleção não é formada pelos jogadores medíocres que sobraram, tipo o gordinho na aula de educação física, e nem é montada com jogadores universitários ou que acabaram de ser draftados. É uma seleção com restrições, claro, que não teve seus principais jogadores à disposição e que ainda sofreu com lesões na preparação e teve que cortar muita gente, mas é muito bem montada por engravatados inteligentes e um técnico perfeitamente consciente do que é necessário para ganhar no basquete da FIBA. Como comentei num post anterior, o perímetro é muito mais importante no basquete internacional, com seus garrafões congestionados, e os Estados Unidos levaram uma caralhada de arremessadores, bons defensores para garantir os contra-ataques e pivôs capazes de passar a bola, arremessar e jogar na correria. Como sempre, a tática é revezar o time sem parar, todo mundo ser capaz de arremessar e defender, e aí matar o outro time começando pelo pulmão. Plano impecável, jogadores talentosos, favoritos na certa. Não tiveram muito tempo de preparação, mas até aí nenhuma seleção tem muito tempo pra perder com essas coisas, e a equipe técnica já aprendeu na raça em torneios anteriores exatamente como montar e executar planos de jogo para o basquete internacional.

Por um lado, é preciso dar crédito a essa seleção. É cheia de jogadores fantásticos, todo mundo chuta traseiros, e não dá pra criticar só porque não tem o Kobe ou o Pernalonga. Quem fala mal desse elenco é porque anda afastado da NBA e não conhece o talento da pirralhada. Mas, por outro lado, é preciso humanizar essa seleção: ela tem limitações, é inexperiente, e num dia ruim quase perdeu para o Brasil, foi por muito pouco. Depois do susto, grande parte do elenco vai aparecer para a próxima partida usando fraldas geriátricas. E a comissão técnica vai ter que repensar algumas coisas muito sérias.

Bizarramente, o Brasil foi a defesa mais forte que os Estados Unidos pegaram até agora no Mundial. Marcando por zona, os brasileiros forçaram os adversários a arremessar e souberam voltar muito bem para dificultar o contra-ataque. Aí está o fantástico dedo do técnico Magnano, essa defesa de contra-ataque é difícil de implementar e é crucial para dificultar as ações americanas. A equação é simples: se eles são tão bons em infiltração, se são tão atléticos que enterram na cabeça de todo mundo, se penetrar no garrafão é tão difícil na FIBA, e se eles correm muito mais do que o resto do planeta, nada mais óbvio do que usar essas armas para penetrar no garrafão apenas quando é simples, ou seja, no contra-ataque. Por isso a defesa é a principal arma dos Estados Unidos, com a seleção marcando pressão na quadra inteira desde o primeiro segundo de jogo e o Lamar Odom de pivô titular pra poder acompanhar todo mundo na corrida. Então, consequentemente, dificultar o contra-ataque é parar a principal arma americana, é tirá-los da zona de conforto. Cada vez que os Estados Unidos tinham que jogar devagar, num basquete de meia-quadra, e acabavam dando um arremesso de três pontos, dava pra ver um sorrisinho macabro na cara do Magnano. Muito, muito macabro.

Para evitar contra-ataques, também é fundamental cuidar bem da bola, não dar passes idiotas e não se desesperar com a marcação pressão dos Estados Unidos. Como todo mundo sabe, nossa seleção sempre teve "passes idiotas" e "desespero" como suas definições na Wikipedia, e não dava pra acabar com isso de um dia para o outro. Numa das primeiras posses de bola, a pressão forçou o Brasil a levar a bola pro ataque com o Tiago Splitter. Em outras ocasiões, roubou bolas fáceis do Leandrinho, que parece que unta a mão com manteiga sempre que vai jogar de armador principal, e do Marcelinho Machado, que sempre se mete a armador mas não tem nem cérebro nem talento pra isso. Por sorte, Marcelinho Huertas fez uma partida simplesmente espetacular. Soube levar a bola pro ataque sem afobação, mandar os companheiros pararem de correr, dar os passes certos sem forçar o jogo. O Huertas emana uma aura de tranquilidade tão grande que perigava até do Brasil pegar no sono. Fiquei imaginando ele e o Billups depois do jogo tomando chá juntos, falando de arte francesa, tudo beeeem devagarinho, assoprando o chá pra ninguém se queimar. Seriam ótimos amigos.

O Brasil tem aquela tendência de jogar na correria e de arremessar de três pontos sempre que dá, sem muito critério. É como se o Marcelinho Machado fosse o cérebro e o Leandrinho fosse os pés, criando um monstro bizarro que só corre e chuta. Foi o Huertas quem colocou ordem nesse experimento de cientista maluco, acionando os arremessos de três apenas quando eram viáveis. Quando esqueciam do Huertas ou quando ele teve que sair de quadra com 4 faltas, vimos os piores momentos do Brasil no jogo, uma seleção estabanada e afobada, permitindo os tão amados contra-ataques para os americanos. Aliás, o Huertas só sentou no banco de reservas no meio do terceiro período, ao cometer sua quarta falta, quando a água bateu na bunda. Se não fosse por isso, teria jogado o tempo inteiro. Sem ele, o Brasil não sabe pra que lado corre e periga fazer cesta contra.

Graças à armação do Huertas, a seleção americana ficou muito exposta. Ficou clara a dificuldade de jogar contra times que não mordam a isca de jogar em velocidade, afinal os pivôs estão lá pra correr e arremessar, não pra ficar dando pancada e lutar por rebote num jogo lento de meia-quadra. Além disso, os americanos vieram para marcar por zona, impedir os arremessos de três, e o Huertas usou e abusou dos pick-and-rolls, jogada manjadissima na NBA, entrando no garrafão e depois passando para alguém finalizar. Foi assim que o afobado Marquinhos conseguiu uma partida fantástica nos arremessos de fora, que o Leandrinho sobrou tantas vezes livre apesar de ser o foco da marcação adversária, e que o Splitter conseguiu pontuar apesar de não ter conseguido estabelecer um jogo efetivo de costas para a cesta. A seleção americana chuta traseiros, mas um bom armador, uma defesa bem montada e um jogo cadenciado mostrou que não dá pra esperar vitórias fáceis.

O Huertas sequer é tão espetacular assim. Tem ótima visão de jogo, sabe mudar o ritmo de uma partida, dá os passes certos, é veloz, mas é fraco na defesa, não tem força física nenhuma, e tem um arremesso muito fraco e sem confiança. Lembra muito o Luke Ridnour, agora futuro reserva do Wolves, que também é branquelo, não defende nem uma cadeira, é fraco pra burro, mas é inteligente, rápido e até arremessa um pouco melhor. O Huertas poderia ser um reserva na NBA se quisesse abrir mão de dinheiro, fama, minutos, títulos de campeão e de mulheres, algo que não deve acontecer, mas é incrível como um jogador que seria no máximo um reserva pode destruir todo um esquema de jogo da seleção americana. Enfrentando um Brasil que nas mãos do Huertas cuidou bem da bola, jogou sem afobação e deu arremessos de três desmarcados, os Estados Unidos tiveram que pela primeira vez testar seu ataque de meia-quadra, e o resultado foi muito negativo para eles.

Em situações normais de jogo, a seleção americana teria substituído os jogadores sem parar e todo mundo teria jogado muito. Com isso, Eric Gordon, Stephen Curry e Danny Granger teriam entrado bastante, corrido muito, arremessado com a facilidade que possuem e destruído nossa defesa por zona. Mas perdendo o jogo graças ao altissimo aproveitamento de arremessos do Brasil, e sem poder contar tanto com o jogo de contra-ataque, o técnico Mike Krzyzewski foi conservador e manteve em quadra os jogadores mais experientes e os melhores defensores. Foi o suficiente para Eric Gordon, Steph Curry e "Granny Danger", pirralhos e defensores mais débeis, ficarem de fora - para a nossa sorte. Achei uma decisão idiota da comissão técnica, mas entendo que o esquema tático do Brasil e a atuação do Huertas e dos arremessadores forçaram os Estados Unidos a serem conservadores. Billups errou 6 das 7 bolas de três pontos que tentou, mas ficou em quadra porque é mais experiente e até boceja nos momentos mais tensos do jogo (aliás, foi ele que, usando o corpo vinte vezes maior do que o Huertas, fez cestas importantes dentro do garrafão no final do jogo pra garantir a vitória). Andre Iguodala não acertou um único arremesso sequer, mas ficou em quadra para ajudar na marcação de Huertas e Leandrinho. E o resultado disso foi um ataque um tanto assustado, limitado pela defesa por zona, e que acabou passando a bola para sua maior estrela e torcendo pra dar certo. Não foi mero acaso que o Kevin Durant marcou 27 pontos, mais do que em qualquer outro jogo com a seleção até agora.

Postei aqui, um tempão atrás, que essa seleção brasileira carrega um fardo grande demais: depois de tantos anos tendo um basquete mequetrefe e ignorado, dependemos de uma boa atuação no Mundial para que a cobertura do basquete no Brasil aumente, a verba apareça, as categorias de base se fortifiquem. Torcer pro Brasil, em qualquer esporte, é questão de gosto e não de patriotismo, é normal torcer contra se a seleção vai contra aquilo de que você gosta ou em que você acredita, mas nesse caso em particular a seleção carrega nas costas uma função social, cultural. E acho que essa função foi concretrizada hoje, assim de repente, quando a gente nem esperava. Primeiro, humanizando os americanos, mostrando que o Billups também erra vários arremessos nos momentos decisivos (apesar do apelido "Mr. Big Shot"), que a seleção fica sem saber o que fazer e passa pro Durant, que o Iguodala cai de bunda no chão ao tomar um drible do Leandrinho. E, depois, valorizando o nosso basquete, mostrando que não é porque você nasceu nessa linha imaginária aqui e toma caipirinha que não dá pra chegar na NBA, derrubar o Iguodala, assustar os gringos, quase-ganhar-um-jogo. Mesmo brasileiro, branquelo, magrelo e sem arremesso, dá pra destruir o plano de jogo americano como o Huertas fez. Dá pra colocar coragem na criançada de ir jogar basquete no intervalo da escola e sonhar alto. Linha imaginária é um saco, às vezes precisa de um jogo desses pra entendermos que, não importa onde você tenha nascido, dá pra fazer qualquer coisa, ter qualquer gosto ou afinidade. O problema é quando não existe sequer a oportunidade, quando não existe onde treinar, não há incentivo. A gente quase ganhou dos Estados Unidos, tá todo mundo fazendo barulho, então as oportunidades estão surgindo. A gente do Bola Presa, que tem acesso às estatísticas de acesso ao blog, já sabe faz um tempo que os espectadores de basquete no Brasil estão crescendo. Agora deve aumentar mais ainda, e isso é bom pra quem já acompanha, pra quem ainda vai acompanhar, e principalmente pra quem quer viver disso, seja jogando, seja estudando, seja escrevendo a respeito como a gente faz.

Nem precisa vencer o jogo. Basta mostrar que é possível, e vai ter gente querendo tentar fazer, a cobertura vai aumentar, as oportunidades vão aparecer. O Leandrinho errou o arremesso final, mas tá tudo bem. Verdade seja dita, ele não queria sequer chegar perto da bola no quarto período, já escrevi aqui que ele gosta de ser secundário, jogador de apoio e não estrela, e só bateu para dentro no final quando o Huertas quase implorou pra não ter que arremessar. Errou muitas bolas de três especialmente no final do jogo, todas livres, e acertou apenas 3 das 13 bolas de três que tentou no jogo inteiro. Perdeu 3 bolas, todas tendo que armar o jogo e se sentindo mais desconfortável do que o Hermes & Renato na Record. Mas mesmo assim conseguiu fazer uma excelente partida, jogou muito bem, e sua bandeja nos segundos finais colocou o Brasil no jogo - e deixou o Iguodala de popô no chão. A qualidade do vídeo é uma droga, se fosse do LeBron estaria em alta definição, mas dá pra ter uma ideia:



Se aparecer com qualidade melhor, coloco aqui no lugar, porque esse crossover é pra ficar pra história, nem dá pra ficar triste com o arremesso final que ele errou. Assim como não dá pra se irritar com o Huertas, que errou o lance livre que poderia permitir o empate do Brasil. Sua partida foi espetacular, ele jogou quase a partida inteira, estava exausto, e depois ainda conseguiu errar o segundo lance livre de propósito, pegar o rebote e acionar o Leandrinho para um arremesso final que poderia empatar o jogo. Tem todos esses lances no resumo gringo da partida abaixo:



Mesmo na derrota, deu pra ver o jogo refinadíssimo do Tiago Splitter, como ele se movimenta com leveza, como os ganchos são suaves, como ele poderia fazer comercial de amaciante em pó, mas dá pra ver que ele vai sofrer por uns tempos na NBA até aprender a isolar no mano-a-mano de costas para a cesta e se acostumar a levar pancada e finalizar depois do contato. Lembro de como o Jermaine O'Neal, quando era raquítico, demorou para colocar seu jogo refinado em prática porque desciam o braço nele, mas quando deu certo ele ficou dominante. Com o Splitter vai ser assim também, mas pela seleção brasileira ele sempre vai ser constante, eficiente, mas não vai desequilibrar. Já o Marquinhos, que nunca fez nada na NBA (e olha que eu vi muitos jogos do Hornets só pra ver aqueles 3 minutinhos finais dos jogos, em que o Marquinhos entrava só porque já não valia mais nada), rendeu muito melhor na seleção porque não pôde pra jogar na afobação com o Huertas acalmando o jogo, arremessou muito bem de três por estar livre todas as vezes, sem forçar o jogo, e ainda defendeu o Durant da melhor maneira que dava pra defender, ou seja, permitindo que ele fizesse apenas 27 pontos. Tá no lucro!

Sem Nenê, que voltou pra casa lesionado, e o Varejão ainda sendo poupado da torção no tornozelo, a seleção perde muito em ídolos. Assim como os americanos não dão a mínima para a seleção deles porque tem carinha do Pacers e do Grizzlies e não do Heat, os torcedores brasileiros - especialmente os que chegam agora - querem ídolos pra comprar camiseta, se espelhar e começar a praticar o esporte. O Leandrinho teve uma partida sensacional, mas não quer esse papel, tem horror à bola decisiva, e errou muito no jogo. A gente sabe que ele pode render muito em quadra, vimos ele chutando traseiros no Suns, e se jogasse como hoje teria espaço ao lado de Nash por anos ainda, mas sua inconsistência e sua personalidade apontam para outro caminho - o que não é nenhum problema, nada obriga o Leandrinho a ter que ser estrela ou ganhar jogos sozinho, na raça. Tiago Splitter não rende como poderia nesse garrafão bagunçado da FIBA, e seu estilo de jogo é tão refinado e delicado que não atrai muita gente, é tipo o Duncan, que no máximo atrai um bocejo mesmo sendo o melhor de todos os tempos em sua posição. O Marcelinho Huertas não tem pique pra bater com os grandões, não pontua, é fracote, mesmo tendo desequilibrado totalmente o jogo numa atuação memorável. E o Marcelinho Machado, ídolo no Brasil, tende a comprometer na seleção quando arremessa demais ou tenta armar o jogo. Faltam ídolos. E hoje, nesse segundo, isso não importa nem um pouco.

A notícia de que o Brasil estava ganhando dos Estados Unidos no meio da partida começou a se espalhar mais rápido do que gripe suína, e muita gente que nunca deu atenção para o basquete foi dar uma olhada. Gente trabalhando começou a caçar links na internet, e os jornais deram atenção para o fato. A torcida na Turquia, morna e desanimada, passou o quarto período gritando "Brasil, Brasil", porque é legal torcer para o mais fraco, porque é fácil odiar a seleção americana como um reflexo de um país e de seus políticas, e porque todo mundo prefiria que LeBron e Kobe estivessem lá, quem sabe se eles perderem feio não aprendam a levar os melhores? Aquela seleção brasileira de jogadores limitados mobilizou torcedores aqui, e mobilizou os torcedores lá, no ginásio. Não temos grandes ídolos, perdemos o jogo, mas a partida em grande nível abriu os olhos de muita gente: dá pra jogar basquete no Brasil. Somos humanos como os americanos. Eles vão ser campeões, nós não, mas isso não interessa. Por um dia, todos olharam para nosso esporte com carinho, até o Iguodala com a bunda no chão mandando os parabéns pro Leandrinho no Twitter. Missão cumprida, o Mundial pode acabar por aqui. O campeonato não vale nada, a maioria dos jogadores nem se interessa por ele e preferiu ficar debaixo das cobertas, mas nós tiramos algo enorme dele, algo maior do que um título, uma outra vitória. Estão olhando para nosso basquete. Pronto, vamos voltar para casa.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Primeiras impressões

Peter John Ramos - Troféu Ivanov de muso do Mundial


O campeonato mundial começou no último sábado e já tivemos uma renca de jogos. Obviamente não deu pra ver tudo, mas me esforcei para ver o máximo deles e coloco aqui comentários aleatórios do que chamou a minha atenção. Foi mal, nosso negócio é NBA, para uma cobertura mais séria e decente visite o Rebote, o Bala na Cesta e/ou o Draft Brasil.


Nível técnico - Muitos times estão em reformulação, muitos claramente já estão velhos (e usando roupas azuis e brancas) e outros tantos com desfalques importantes. Parecia ser um Mundial em que nenhuma seleção estaria no seu auge. Talvez isso até seja verdade, mas o começo é animador mesmo assim. Esperava um campeonato de nível técnico bisonho e até os times ruins estão me surpreendendo.

Achava que times como Jordânia (a única seleção da história a ter todos os jogadores com o nome "Jordan" no uniforme) e Líbano fossem tão ruins quanto a Costa do Marfim, que até agora é o único time peladeiro da competição, mas não tem mais bobo no futebol. Até a China sem Yao Ming e a Alemanha sem Nowitzki estão jogando direitinho. Ainda dá tempo de todo mundo jogar mal e fazer a gente mudar de idéia, mas esses dois dias até que serviram para eu me animar um pouco.



Alemanha - O que é esse time? Não é a primeira vez que eles jogam bem sem o Dirk Nowitzki, mas eles estão demais. Perderam só de 4 pontos da Argentina no primeiro jogo e ganharam da Sérvia no melhor jogo do campeonato até agora. Eles não deveriam ser péssimos? Eles não estão aí só por um convite da FIBA que obviamente só queria ver o Nowitzki no seu evento mais importante? O Fluminense deixar o Washington bater pênaltis faz mais sentido.

Uma explicação que faz sentido e que é real é que sem o Nowitzki ele jogam basquete de verdade ao invés de só tocar a bola pro Dirk e esperar pra ver o que acontece. Mas mesmo assim não esperava um resultado tão bom, se eu e meus amiguinhos do colégio jogarmos um basquete coletivo e correto num Mundial a gente ainda perde de 100 a 2 do mesmo jeito.

Podemos desistir de tentar entender e só aproveitar os melhores momentos da emocionante vitória em duas prorrogações sobre a Sérvia, que infelizmente não tem o Darko Milicic, que teria rasgado sua camiseta sem pensar duas vezes depois desse jogo.



Marcelinho Huertas - Estão chovendo perguntas no nosso Formpsring sobre a chance do Huertas jogar na NBA. Respondo todas aqui: chance até existe, mas só se ele quiser ser um terceiro armador que esquenta banco.

Ele tem boa visão de jogo, mostrou seu melhor jogo nas finais espanholas contra o Rubio e tudo aquilo que a gente sabe, mas não é o bastante para a NBA. Ainda mais na posição de armador que é a mais bem servida da liga atualmente. Ele teria espaço, mas seria um terceiro armador em times bons e no máximo um reserva em times com menos opção como o Kings. E o que será que vale mais pra ele, ser um zero à esquerda na NBA ou continuar tendo papel de destaque em times de ponta na Europa? Ele pode perguntar pro Juan Carlos Navarro a resposta.

França - Não ganham de ninguém quando tem Tony Parker, Turiaf e toda a renca do pessoal da NBA (incluindo o milionário Johan Petro). Aí foi só todo mundo desistir ou se machucar (pobre Rodrigue Beaubois, tinha tudo pra ser um dos destaques do torneio), que aí eles ganharam da Espanha! Pelo pouco que vi dos franceses eles parecem um time mais organizado do que nos últimos anos, dependendo menos de jogadas individuais, e a defesa parece menos furada também.

Três coisas chamam a atenção no time francês:
1- Se pudesse, Boris Diaw nunca daria uma arremesso na vida. Nem o Jason Kidd tem tanto prazer em dar assistências ao invés de chutar como o francês.
2- Como disse sabiamente o ShamSports, só existe uma coisa mais escura que o Mickael Pietrus no mundo, o seu irmão Florent. Sem racismo, só é muito impressionante. Aliás, dá pra ser racista e gostar de basquete ao mesmo tempo? Fica o questionamento.
3- Os boatos de que o Florent Pietrus iria para o Bobcats bem que poderiam virar verdade, ele é muito bom.


Espanha - O Ricky Rubio é do clube do Diaw de não-arremessadores, mas seria bom ele chutar de vez em quando. A Espanha tem ótimos jogadores em todas as posições e tem o melhor banco de reservas depois dos EUA, mas poucos estão se apresentando como pontuadores. JC Navarro e Rudy Fernandez são bons, mas depender só dos dois durante o campeonato inteiro é chamar uma zebra.

Porto Rico - Oficialmente o Golden State Warriors do basquete FIBA. Seus jogos sempre são divertidos, imprevisíveis, velozes e cheios de bolas de três. Podem ganhar dos EUA num dia e perder do Líbano no outro com a mesma naturalidade. JJ Barea é o Monta Ellis do Warriors International, tá jogando muito.

Estados Unidos - Existem dois tipos de pessoas que julgam o time americano e que me irritam muito. Os primeiros são os "haters", aqueles que querem odiar o time de basquete dos EUA porque discordam das políticas internacionais do país. Ou seja, querem achar defeito e ver o império sofrer. Esses ficam jogando na cara de todo mundo que os EUA não vencem o mundial desde 94 e que por isso não são favoritos.

Os outros são os que se encantam tanto com a NBA que acham que só por chegar na NBA um jogador é superior aos outros, esquecendo que o Marquinhos nunca vai ser melhor que o Marcelinho Machado. Esses acham que os EUA sempre vão vencer todo mundo muito fácil.

O que deu pra ver nesses dois primeiros jogos contra os bons times da Eslovênia e da Croácia é que os EUA, surpresa, tem o melhor time do mundo. Vão ser os claros favoritos sempre e qualquer derrota vai ser uma zebra, o que não quer dizer que elas não podem acontecer. Se fossem melhor-de-7 como nos playoffs, apostaria minha mãe que eles seriam campeões, mas como é um jogo só dá pra acontecer muita bizarrice em mata-mata. Meio termo costuma ser chato e entediante, mas nesse caso é o meio termo que tem razão.

Uma coisa legal da seleção americana está sendo a chance que muita gente está tendo de ver jogadores de times que nunca estão na mídia, como o Eric Gordon (Clippers), Kevin Love (Wolves), Danny Granger (Pacers) e Rudy Gay (Grizzlies). Fiquei até bem feliz que no jogo contra a Croácia o Love deu um daqueles "outlet passes" que a gente tanto comenta aqui. Ele pegou um rebote croata e já virou jogando a bola com muita força e precisão na mão do Russell Westbrook (e seu cabelo Neymar) que já estava na outra cesta, passe lindo, fora de série.


Canadá - Como o Rodrigo Alves diz no Rebote, é o time mais imprevisível do torneio e do mundo. Tomou surras históricas (chegou a fazer 38 pontos em um jogo inteiro) e logo depois conseguiu resultados impressionantes nos amistosos. Agora, no Mundial, conseguiu perder do Líbano por 10 pontos e depois dar sufoco na Lituânia. Acho que foi o jeito dos canadenses finalmente não parecerem uns chatos previsíveis e assim responder o texto que o Luis Fernando Veríssimo fez sobre eles. (sim, é um texto do Veríssimo, não um dos milhares de fakes que aparecem nos e-mails internet afora. Esse saiu no Estadão na época daquela briga comercial da Embraer com a Bombardier)

Nova Zelândia - O time de rugby é chamado de All Blacks. O de futebol é o All Whites. Sabe como é o de basquete? Tall Blacks. Pois é.

Alguém viu um jogo deles nesse torneio até agora? Achei essa foto deles fazendo o Haka mas ainda não assisti ao vivo. No YouTube só achei um vídeo de 2008 que está aqui abaixo. O haka é a coisa mais legal do esporte no mundo inteiro e fico muito feliz que a seleção de basquete também faça, na Copa do Mundo o time de futebol não quis fazer.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Resultado da promoção da seleção

Sabe como a gente sempre atrasa pra anunciar os vencedores das nossas promoções? Pois é, em uma atitude sem precedentes na história do Bola Presa, vamos anunciar um dia antes! UAU! Já deu tempo de ler tudo, já escolhemos o vencedor e como não tínhamos o que postar hoje, vocês saberão o resultado.


Sem mais demora, quem leva uma camiseta do Phoenix Suns e uma bola da adidas autografada pelo Leandrinho é o Vitor Hugo Sarvas.

A sugestão de time dele foi a mesma de pelo menos uns 70% dos leitores, com Huertas, Leandrinho, Alex, Varejão e Tiago Splitter. Os outros 30% apenas tiraram Splitter ou Varejão para colocar Nenê ou tiraram Alex para colocar Marquinhos. A vitória ficou com o Victor porque o seu texto ficou bem escrito, por dizer que o Alex é o Bruce Bowen sem o instinto assassino e por ser um dos que entende que não é que o Leandrinho não seja um bom passador, ele simplesmente não sabe quando passar a bola, sutil e essencial diferença. Perfeito! Pra ler o texto completinho dele é só clicar aqui!

Os leitores Carlos Alex Soares, Leonardo Moura (será o do moicano?) e Erick (sem sobrenome) podem ficar felizes também, ficaram no quase, perderam nos playoffs. Eu sei que vocês e suas respectivas mães não concordam com o resultado final, mas não tem jeito, é bem subjetivo mesmo.

Entre todos os quases, o vice-campeão no entanto é o nosso glorioso Artur Rauen. Ele fez talvez o texto mais criativo e só não ganhou porque achei que ele fugiu demais do que foi proposto, não fez exatamente um texto e nem tentou nos convencer de qual deveria ser o quinteto inicial da seleção. Fiquei me coçando para dar o prêmio pra ele, mas achei que seria sacanagem com os outros. Olha o que ele mandou:

...
Marcelinho Huertas (0 pontos e 18ass nos dois primeiros amistoso):
"Não perguntes o que é que podem fazer os companheiros por ti, mas sim o que é que tu podes fazer por eles" - Magic Johnson

Marcelinho Machado
"Diziam que eu arremessava todas as bolas. É MENTIRA!! Eu só arremessava as que passavam pra mim!" - Oscar Schimidt

Guilherme Giovanoni
"Defender é coisa de americano!!!" - Antonio Carlos Barbosa, ex-tecnico da seleçao feminina

Nenê
"Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico" -Dom Pedro I

Tiago Splitter
"Vocês já viram muitos jogadores melhores que eu. Mas não vão ver nenhum que tenha treinado mais e que tenha tanta obstinação pelo basquete quanto eu" - Oscar Schimidt
...

Ficou bem legal, né? Um fato curioso é que eu conheço o Artur. Ele é meu braço direito (e esquerdo, pernas e cérebro) na Liga Bola Presa de Fantasy. Ele cuida de absolutamente tudo por lá e a liga não existiria sem a ajuda dele. Nesse fantasy ele é também nosso bi-vice-campeão. Em dois anos de liga foram dois vices e agora um terceiro 2º lugar na promoção. E sabe o pior? Ele ainda torce para o Mavs, ter um time bom e não ser campeão é com ele mesmo. Troféu Cuca pro Artur! (mas ainda vou te conseguir uma camiseta do Mavs por serviços prestados à liga, de verdade).

Parabéns ao Vitor! Não esqueçam de ler e cornetar o texto dele aqui. Ficou bem legal!

E quando o Bruno lá da Adidas voltar de suas merecidas férias, a gente organiza mais uma promoção. Até mais!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

"Kwame, você não sabe jogar"

Provavelmente a única vez que riram um para o outro


Em janeiro de 2007 um homem chamado Alexander Martinez descia uma rua de Los Angeles com um bolo de aniversário enorme no valor de 190 dólares nas mãos. Era para uma gigantesca festa de aniversário que organizava em um local próximo. De repente ele encontrou Ronny Turiaf, então jogador do Lakers. Enquanto pedia uma foto com o ídolo, Kwame Brown viu os dois e sem mais nem menos pegou o bolo e acertou o pobre fã. Com a confusão montada, Kwame foi embora e recebeu uma ameaça de processo. Disse mais tarde que achou que o bolo era de Turiaf e quis só fazer uma brincadeira com o companheiro de time, fugindo assustado quando viu que tinha feito bobagem. Se sentindo mal, pagou um jantar caríssimo para o fã do Lakers no STAPLES Center. Ainda não ouvi uma história que defina melhor Kwame Brown.

Na última segunda-feira, um dia pouco movimentado na NBA, apenas uma notícia chamou a atenção. O Charlotte Bobcats contratou Kwame por um ano e o salário mínimo de veteranos, 1.3 milhão de dólares. As reações mais óbvias para essa notícia foram:

- Aff, até o Kwame arranjou time e o Iverson não!
- Esse cara é a maior enganação da história da NBA.
- Como tanto time é enganado por esse cara?

Não culpo quem pensa assim, principalmente porque eu mesmo, como torcedor do Lakers, fui um dos que mais xingou Kwame nos últimos anos. Reclamei como um doido quando o Lakers trocou Caron Butler por ele, perdi a voz de tanto reclamar em quase todo jogo sempre que aquelas mãos pequenas não seguravam passes perfeitos e confesso que saí correndo pela casa quando descobri (por uma mensagem de texto do Danilo) que o Lakers havia trocado ele pelo Pau Gasol.

Mas acreditem, o buraco é bem mais embaixo quando o assunto é Kwame Brown. Sua contratação pelo Bobcats é reflexo de uma história de 10 anos atrás, que por sua vez é resultado da história de vida do primeiro jogador vindo do colegial a ser a 1ª escolha em um Draft da NBA.

O Draft do ano 2001 teve o Washington Wizards com a primeira escolha, como nesse último ano, mas sem uma escolha óbvia como John Wall. Ao invés disso a discussão girava em torno de três jogadores de colegial que decidiram não ir para a faculdade: Kwame Brown, Tyson Chandler e Eddy Curry. Pau Gasol, apesar de ser facilmente o melhor daquele ano, corria por fora e foi escolhido na terceira posição. Todos estavam arrasando com os torneios colegiais, eram gigantescos e estavam babando para seguir os passos de Tracy McGrady, Kevin Garnett e Kobe Bryant, três dos maiores nomes jovens da liga na época e que tinham pulado a faculdade.

A decisão estava nas mãos do Wizards, mais especificamente nas de Michael Jordan e Doug Collins. O primeiro acabara de assumir seu primeiro cargo executivo na NBA, como presidente de operações de basquete do time, e o segundo era o técnico, escolhido a dedo pelo próprio MJ para liderar uma nova era de renovação na franquia. Ao ficar na dúvida entre Chandler e Kwame, resolveram levar os dois para um treino 1-contra-1 e resolver a parada. Viram Kwame, que tinha acabado de sair de uma última temporada de colegial com médias de 20 pontos, 13 rebotes e 5,5 tocos, simplesmente arrasar com seu concorrente em todos os aspectos do jogo. Ao ver aquele cara grande, jovem, atlético e muito superior a todos os jogadores de sua idade. a dupla da capital fez sua decisão. Querem ver como o mundo dá voltas? Enquanto os consagrados Jordan e Collins escolhiam Kwame, Isiah Thomas, então técnico do Indiana Pacers, alertava: "Vocês vão ficar chocados, ele não vai saber nada sobre basquete".

Por mais incrível que essa frase pareça, Isiah Thomas tinha toda razão. Mas ele tinha falado a verdade pela metade, Kwame não só não sabia nada sobre o basquete como não sabia muita coisa sobre a vida, muito menos sobre como viver sozinho numa cidade grande.

O então pilar da reconstrução do Wizards era um moleque de 19 anos nascido na minúscula Brunswick, no Estado da Geórgia, uma cidade de 15 mil habitantes povoada por barcos de pesca e só. Kwame era de uma família muito pobre e com uma história que até beira o clichê de tão sofrida: sua mãe, filha de um pescador, conheceu um caminhoneiro mais velho e se casou com ele. Teve cinco filhos e passou a sofrer com a violência do marido. Quando o Kwame, o caçula, tinha 6 anos, seu pai foi preso por assassinar uma namorada de cerca de 20 anos de idade com um machado. Foi condenado à prisão perpétua e só assim deixou a família em paz. Mas não que o crime esteja fora da família, dois irmãos de Kwame estão presos, um por tráfico e distribuição de crack e outro por atirar em um homem. Os outros dois trabalhavam na época do Draft, um fritando hamburgueres e outro lavando carros.

Em um dia, pouco antes de decidir se iria para a NBA ou se jogaria pela Universidade da Flórida, seu carro foi acertado por uma bala perdida. Por pouco ele não foi atingido e foi o que fez com que decidisse por virar profissional. Com os familiares em situação difícil de vida, ele não poderia correr o risco de uma contusão, de fracasso na faculdade ou mesmo de morrer num incidente aleatório como aquele e deixar seus entes próximos sem o dinheiro para sair daquela vida difícil. Uma vez indo a um jogo do Wizards ele confessou a seu assistente pessoal Richard Lopez que um dos seus sonhos de infância era se sentir satisfeito depois de comer.

Richard Lopez foi o cara contratado pelo Washington Wizards para ajudar Kwame Brown a viver. Sério. E uma pequena lista de casos explica essa decisão:

- Em um restaurante francês pela primeira vez nada vida, Kwame se surpreendeu ao pedir um "French Dress" e ouvir que não tinham nada daquilo lá. Um "French Dress" é um tipo de molho parecido com o nosso molho vinagrete que ganha essa denominação com referência francesa nos EUA e na Inglaterra. Sem ter a menor idéia da expressão, achou que era obrigação de ter em um restaurante francês. Um erro tão caipira quanto o Chico Bento tomar banho na fonte do shopping.

- Mas isso era só o começo da ignorância gastronômica de Kwame Brown. Durante meses ele sobreviveu apenas de comer os frangos fritos da rede Popeye's (quem assiste o NBA League Pass conhece aquelas propagandas de dar água na boca). O motivo era que ele não sabia fazer compras, escolher comida e muito menos cozinhar.

- Uma vez antes de um jogo do Wizards, Kwame ligou para Lopez e disse "Não tenho o que vestir". Seu assistente chegou lá e viu um bolo de ternos sujos jogados em um canto do quarto. Todos estavam gastos e Kwame não sabia como lavá-los e muito menos onde levá-los para serem limpos.

E assim foi. Lopez foi quem comprou o carro de Kwame (uma Mercedes S500), seu celular, seu apartamento, o serviço de TV a cabo, seu cartão de crédito. A mãe do jogador até passou um tempo com o filho em Washington, mas eventualmente teve que voltar para casa para cuidar dos outros filhos menos afortunados. Depois disso um outro amigo de Kwame que estava morando com ele por fazer faculdade na região de Washington acabou se mudando para mais perto do campus. Pela primeira vez sozinho em uma casa, prestes a dormir sem ninguém perto como nunca havia feito antes, pediu para Lopez: "Você pode ficar por aqui hoje?".

Se fora da quadra as coisas estavam malucas, complicadas e não indo tão bem, dentro não estavam muito melhores. Pouco antes do começo da temporada, Michael Jordan resolveu sair do seu posto de executivo do time para virar jogador. Essa mera decisão do His Airness transformou o time. De equipe jovem e montada para o futuro, se tornou um time focado em fazer de tudo para ser bom o bastante para ajudar MJ a voltar para os playoffs. Aí o time que deveria dar minutos aos novatos Etan Thomas, Kwame Brown, Brendan Haywood e Bobby Simmons passou a dar espaço para veteranos como Christian Laettner, Popeye Jones e Hubert Davis. No ano seguinte ainda chegaram ao cúmulo de contratarem Charles Oakley, Byron Russell e de trocar o jovem Richard Hamilton por Jerry Stackhouse.

Comparando com a NBA de hoje, seria pegar o Sacramento Kings, time jovem e focado em desenvolver seus jogadores para o futuro e, baseado na volta de um velho ídolo, mudar toda essa filosofia poucos meses antes de começar a temporada. A transformação minou a evolução do Wizards e nem foi bem feita o bastante para levar Jordan de volta à pós-temporada.

Dá pra dizer que o fracasso de Kwame Brown no Wizards começou antes mesmo da temporada começar. Não só com essa mudança repentina de filosofia, mas no primeiro dia de treinamento ele já deu o primeiro passo com o pé esquerdo. Kwame Brown ouviu de muitos "especialistas" que ele estava muito magro para a NBA, que precisava encorpar. Comendo mais (frango frito, provavelmente) e malhando, ganhou 9 quilos e apareceu para os treinos mais pesado do que o técnico Doug Collins esperava e queria.

Logo nos primeiros treinos Kwame Brown sofreu com dores nas costas e nas coxas. Na época, Doug Collins disse a ele: "Você deixa os treinos mais difíceis aparecendo fora de forma como está. Depois começa a jogar mal, perder confiança e vira um círculo vicioso". Algum tempo depois, já no meio da temporada, Kwame teve problemas para respirar em um dos treinos e teve que parar. Foi diagnosticado com asma induzida por esforço físico, causada porque seus pulmões não estavam completamente desenvolvidos para o seu tamanho, provavelmente causado por nunca ter se esforçado tanto fisicamente quanto estava se esforçando naquele momento. Ele não estava pronto para o nível físico dos treinos da NBA.

Como se isso não fosse o bastante, a ignorância basquetebolística de Kwame começou a desesperar Doug Collins. Ele não sabia quando dar um passe por cima, quicado ou de peito, e seu jogo de pernas era primário. Tudo o que ele sabia de basquete havia aprendido sozinho, fazia instintivamente, qualquer coisa aprendida em um treino comum não era do conhecimento dele. Nas palavras de Doug Collins, "Como Kwame deveria aprender jogadas se ele nem sabia onde ficar em quadra? E não estamos falando do nível da NBA, mas de basquete em geral". Ou como disse seu companheiro de time Popeye Jones, "É alguém tentando entrar no mundo das altas finanças depois de apenas duas aulas de economia básica".

O que no começo era só o medo de uma escolha errada começou a virar desespero. Com o Wizards cada vez mais longe da zona de playoffs, começaram a cobrar o primeiro escolhido no Draft. A cobrança vinha da torcida, dos companheiros de time, de Jordan, de Doug Collins e da imprensa, não só a da cidade, que cobria o time, mas do país e do mundo inteiro. A decisão do Jordan de voltar à ativa transformou o Wizards num dos principais times da liga. Até jogos em rede nacional estavam tendo.

De repente Kwame começou a se afastar de todos e virar um cara solitário. Passava o dia inteiro em casa e quando voltava para sua cidade natal tinha que lidar com diversos parentes, amigos e praticamente todo mundo de sua cidade pequena que ia na sua casa atrás de fotos, autógrafos, pedir para sair junto e ser seu amigo e principalmente para pedir dinheiro. E quando ele não atendia o favor era tachado de estar se achando muito por ter ido para a NBA. Decidiu tirar a mãe de lá e colocar em uma casa maior nas redondezas enquanto ele se escondia na capital americana.

Como muitos adolescentes de 19 anos fazem em seus meios quando ficam sozinhos e sem sucesso, Kwame começou a achar que a NBA não era o seu lugar. Mesmo depois de seu primeiro bom jogo na liga, uma partida de 10 pontos e 12 rebotes contra o Spurs de David Robinson e Tim Duncan, o time perdeu e o clima no vestiário era pesado.

No dia seguinte Collins deu um treino forte e todos começaram a forçar Kwame a fazer alguma coisa, lhe provocando, empurrando, jogando fisicamente. Em determinado momento o pivô do time, Jahidi White, o derrubou forte no chão e disse: "Levante, você não está machucado". Ele segurou as costas ainda com dor, começou a levantar e ninguém lhe ajudou. Até Popeye Jones, que era um dos que mais davam força pra ele, disse: "É hora de você crescer. Agora. Hoje. Levanta daí". Collins emendou pedindo que Kwame fizesse flexões para compensar a demora, ao que o jogador respondeu dizendo que suas costas estavam doendo. Aí ouviu mais do treinador, "Pare de ser um bebê e comece a crescer e jogar para merecer o respeito dos seus companheiros de time. Eles estão cansados de você. Estão cansados de você cair e ficar jogado por aí. Estão cansados de carregar você nas costas. Você tem que entrar no vestiário e ser capaz de encarar qualquer um olho no olho".

De cabeça baixa, Kwame só escutava e ao não responder a um intimidante "Você vai jogar ou não?", foi expulso do treino. Ele foi chorando para o vestiário, pensando que a liga não era pra ele, que seus companheiros, técnicos e todo o resto lhe achavam horrível e que era isso que ele deveria ser no fim das contas. Subiu na esteira e correu por uma hora sem parar.

Algum tempo depois Jordan apareceu. O mesmo MJ que era um dos maiores críticos de Kwame, que pegava pesado com ele a cada erro e que já havia mandado o novato jogar com o pé torcido porque ele mesmo já havia jogado "com pés 45 vezes piores que esse". Mas dessa vez Jordan apareceu para dar uma força, disse que tudo ia ficar bem e que "o Doug Collins é assim mesmo, duro, mas em alguns anos você vai perceber como ele é bom". Conversaram por mais um bom tempo, com Jordan chegando a afirmar que ele e o resto do time inteiro sabiam da capacidade dele de virar um grande ala de força na NBA por muitos anos.

A queda de confiança do Kwame chegou a um ponto em que ele disse que seu principal objetivo nos jogos era não comprometer :"É jogar e torcer para que o cara que você está marcando não faça pontos e você não faça nada que te deixe envergonhado". Quando a temporada começou a apertar e todos estavam desesperados pela vaga na pós-temporada, Doug Collins resolveu colocar Kwame na lista de contundidos. A justificativa oficial foi o músculo da batata da perna, na verdade ele queria tirar a pressão de cima do jogador. "O rosto dele estava arrasado, horrível. Eu precisava tirar a pressão de cima dele". O time melhorou depois de sua saída e eles embalaram 9 vitórias em 12 jogos, mas o clima no time continou o mesmo. Em determinado treino, depois de broncas consecutivas, Kwame disse ao técnico: "Eu queria que você parasse de cobrar e só me deixasse jogar", e ouviu em resposta: "Kwame, você não sabe jogar".

Se tudo foi horrível no primeiro ano? Quase. Teve um jogo contra o Blazers, quando Rasheed Wallace foi para o seu tradicional trash talk "E aí garoto, me mostra porque você foi a primeira escolha", e Kwame respondeu com um giro e uma enterrada. "Ok, tudo bem", disse Rasheed já indo para o ataque. Mas foi só.

Depois desse primeiro ano desastroso, todos estavam arrependidos e haviam aprendido grandes lições. Arn Tellem, empresário de quem já falamos nesse post, disse que aprendeu mais sobre como lidar com adolescentes que nunca tinham vivido sozinhos antes. Doug Collins, ao fim da temporada, comentou a evolução difícil de seu pupilo: "Não vimos só o aprendizado de Kwame Brown, mas o aprendizado de Doug Collins também". Perguntado se faria tudo de novo da mesma maneira, Collins disse que não, que não sabia no começo como Kwame estava despreparado para a NBA e que às vezes foi mais duro do que devia ser com o jogador, que entendeu mais da sua vida e de sua personalidade apenas depois. Mas o próprio jogador afirmou que entende que Collins sempre fez o que fez tentando fazer de Kwame um jogador melhor.

Isso foi só a primeira temporada e, pra mim, a que definiu quem era Kwame Brown na NBA. Ele nunca mais recuperou a confiança que tinha antes de entrar na NBA, fez poucos amigos dentro da liga e ainda não se sente à vontade dentro da quadra. No segundo ano de Jordan e na permanência de Collins até 2003, Kwame continuou jogando pouco. Virou motivo de piada na liga e de vergonha para os torcedores, que começaram a pegar no pé do jogador cada vez mais, principalmente depois que não tinham mais Jordan na equipe e que eles estavam de novo em busca de um novo ídolo.

Em 2005, último ano dele no Wizards, ele era vaiado pelos torcedores do próprio time toda vez que tocava na bola. A situação ficou constrangedora a um ponto nunca antes visto na NBA. Antes de um jogo de playoff contra o Bulls, o telão do Verizon Center chegou a exibir um vídeo do Gilbert Arenas pedindo que não vaiassem o jogador! Não que o Agent Zero fosse inocente, ele e Kwame brigavam tanto que logo depois desse jogo Brown deixou de ir para os treinos e foi afastado do time até o fim da pós-temporada. Em entrevista, Kwame disse que não entraria mais em quadra porque se ficasse ao lado de Arenas seria capaz de dar um soco nele.

Seus pedidos de sair de Washington foram atendidos quando o Lakers ofereceu Caron Butler para o Wizards em troca de Kwame. O time de LA estava em busca de um novo jogador de garrafão para compensar a saída do Shaq e todos achavam que Phil Jackson era o cara certo para mexer com a cabeça de Kwame e dele tirar todo o potencial do jogador. Não deu certo. A torcida do Lakers não aguentava aquele time fraco e jogava a culpa em Brown por ele ser mais conhecido do que os outros jogadores ruins do time. Isso minou a confiança dele, qualquer leigo via a insegurança em seus olhos em cada jogada.

Esse desastre culminou no que foi chamado de "os piores minutos da história da NBA", uma sequência impressionante de erros nunca antes vista em um jogo. Kwame errou duas enterradas, uma bandeja, errou pelo menos uns dois ou três passes, perdeu a bola, tudo em posses de bola consecutivas e sem ser tirado de quadra. Phil Jackson achou que seria pior para ele sair e os jogadores continuavam dando a bola pra ele para que seu companheiro pudesse se redimir. Foi um desastre triste de assistir. Era o segundo time de Kwame na NBA e a segunda torcida que o vaiava sem dó. Menos de um mês depois ele foi mandado para o Grizzlies em troca de Pau Gasol.

Os minutos desastrosos de Kwame podem ser vistos em um vídeo em duas partes. A primeira, maior, está aqui embaixo, e a segunda pode ser vista nesse link.


Como todos já lembram, Kwame só serviu como contrato expirante no Grizzlies e nos dois anos que passou no Pistons mal entrou em quadra. Agora, como disse no começo do post, vai para o Bobcats, cujo presidente é justamente Michael Jordan.

Ir para o Charlotte foi uma escolha. Ele topou ir lá disputar vaga com DeSagana Diop, Erick Dampier e Nazr Mohammed em um time com chances de no máximo se classificar em oitavo, mesmo tendo recebido ofertas mais lucrativas de times com muito mais chance de playoff, como o Utah Jazz, o Phoenix Suns e o Atlanta Hawks. Esse último era uma opção bem óbvia, aliás, já que o novo técnico do time planeja usar o Al Horford cada vez menos como pivô e mais como ala de força.

Agora, por que Kwame recusou propostas de bons times para se juntar a alguém que o lembra tanto daquele começo de carreira desastroso? E por que Jordan quer se envolver mais uma vez com um cara que não deu em nada e tornou sua carreira como executivo da NBA uma piada?

Mark Bartlestein, novo agente de Kwame, explica como foram as negociações:

"Kwame realmente queria o desafio de jogar para Michael Jordan de novo. Os últimos anos foram difíceis para o Kwame e agora ele está atrás de uma nova oportunidade para provar alguma coisa para ele mesmo e para os outros. E Michael foi uma parte importante nesse negócio. Ele quis que isso acontecesse, correu atrás para dar uma nova chance ao jogador".

Muita gente está julgando essa contratação como uma piada da offseason. O Jordan cometendo mais um erro ao contratar um jogador ruim e as pessoas criticando ainda mais o cara mais humilhado da NBA junto com Darko Milicic. Mas deu pra ver que existe uma história bem profunda e traumática que motivou essa reunião depois de quase 10 anos.

Acho que o Kwame não tem nenhuma habilidade ofensiva, mas compensa com boa defesa e isso deve bastar para ele ter espaço num time treinado pelo Larry Brown. Infelizmente não vai bastar para se redimir e fazer as pessoas pararem de se referir a ele como uma das piores escolhas da história do Draft. Mas pelo menos comigo ganhou muita moral, recusar propostas melhores para enfrentar um velho fantasma e se redimir com o Jordan foi um ato muito bonito e corajoso do Kwame. Assim como, para o Jordan, aceitar e dar uma nova chance ao jogador valeu tanto ou mais que aquela conversa no vestiário quando ele disse que as coisas iriam acabar bem. E, pense bem, ainda não acabaram.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O símbolo de uma seleção

Rajon Rondo fingiu dor de barriga e foi cagar em casa

A seleção dos Estados Unidos precisava tomar uma última decisão: quem cortar do grupo de 13 jogadores que restaram até agora no elenco? Após uma série de contusões, desistências e fedor (caso específico do JaVale McGee), acreditava-se que três jogadores estavam com a corda no pescoço: Eric Gordon, Russell Westbrook e Stephen Curry. Para entender o motivo, vamos dar uma olhada em todos os jogadores do elenco e em que posições estão jogando pela seleção:

...

PG

Rajon Rondo: Foi titular em todos os amistosos e só perdeu a vaga nos dois últimos. Joga nessa seleção como o Kidd jogava na seleção campeã olímpica, ou seja, sem dar um único arremesso sequer e se encarregando de armar o jogo o tempo inteiro, pegar rebotes e puxar o contra-ataque. Não acertaria um arremesso nem pra salvar a mãe, mas num elenco sem pivôs sua capacidade de pegar rebotes é fundamental e mantém o time jogando em contra-ataques. Além disso, jogou duas finais de NBA e apesar de não ter um pelo sequer na cara, seria a voz da experiência nesse time assim como o Kidd foi para a seleção olímpica. Fora que ele é, disparado, o melhor defensor dessa equipe e poderia cancelar a armação adversária. Contra os times mais estabanados, a seleção poderia vencer apenas com a marcação do Rondo, mas contra as seleções mais fortes, sua falta de arremesso pode ser explorada.

Stephen Curry: Teve minutos limitados por lesão e atuações muito inconstantes, mas soube como vencer a zona driblando por entre defensores e arremessando de três sem dificuldades. Apesar de só ter jogado um ano de NBA e ter mais cara de bebê do que o Jermaine O'Neal (vale dar uma olhada nessa camiseta "Baby Faced Assassin"), o Steph Curry já é um dos melhores arremessadores da liga e sabe correr no contra-ataque como só um jogador do Warriors saberia fazer. A lesão e a inexperiência limitaram muito seu papel na equipe.

Derrick Rose: Um gênio da infiltração, forte como oito touros selvagens, mas com bom arremesso e visão de jogo. Pessoalmente não acho ele tudo isso, mas confesso que é provavelmente o armador mais completo dessa seleção, faz tudo bem e não tem nenhuma falha aparente. Acabou ganhando o posto de titular no último amistoso da seleção.

Russell Westbrook: Provavelmente o melhor jogador no contra-ataque dessa seleção, mortal quando defendido no mano-a-mano, mas limitadíssimo contra zonas porque não tem um arremesso de três pontos decente. A equipe tem armadores demais e ele parecia o mais desnecessário, até que mostrou serviço na defesa, nos rebotes, e provou que tem um arremesso mortal de média-distância que nem a mãe dele conhecia quando começou o segundo tempo do penúltimo amistoso como titular.

SG

Chauncey Billups: O vovô da equipe, essencial para manter a calma (e os bocejos) do elenco mesmo quando estiverem perdendo por 40 pontos como acontecia nos seus tempos de Pistons. Curiosamente, na seleção ele não joga armando o jogo, mas sim finalizando no perímetro. É forte e inteligente o bastante para saber levar armadores adversários até o garrafão e jogar de costas para a cesta, tem fama de acertar os arremessos decisivos quando o time precisa, e pode armar o jogo se precisar. É titular absoluto.

Eric Gordon: Limitado por lesões, também jogou pouco. É baixinho, um defensor esforçado mas não espetacular, não tem nenhuma experiência na NBA, e não estaria nessa conversa se não fosse um dos melhores arremessadores de três do planeta. Ele tem aquela síndrome de Sasha Vujacic, a gente vê ele arremessando nos jogos e acha que ele é só bom, mas quem lhe vê treinando diz que ele é de outro planeta. Sempre esteve para ser cortado da seleção, mas aí deixava todo mundo babando nos treinamentos e tinha um ou outro momento fantástico nos jogos. Não é consistente, mas pode vencer um jogo sozinho de repente.

SF/PF

Kevin Durant: Agora o Durant não é mais surpresa, todo mundo sabe quão bom ele é, e podemos então começar a odiá-lo por ser estrelinha e dizer que ele é "muito 2009". Vai levar essa seleção nas costas quando o negócio apertar, é impossível marcá-lo, pode jogar tanto tão bem dentro quanto fora do garrafão, e com seus braços de Tayshaun Prince ainda é um monstro na defesa, venceu o jogo contra a Espanha com dois tocos seguidos nos segundos finais.



Rudy Gay: Na seleção, vai jogar dentro do garrafão. É forte e técnico o bastante para saber jogar contra os jogadores mais altos do resto do mundo, mas tem um arremesso de três confiável pra burro. É um dos jogadores mais consistentes daquele Grizzlies em que todo mundo quer garantir seus pontinhos e sabe jogar bem sem a bola. Deve ser titular ao lado do Durant.

Danny Granger: Um dos melhores pontuadores da NBA, vai ser cestinha da temporada regular mais cedo ou mais tarde, é um dos melhores arremessadores de três pontos, e forte o bastante para, como LeBron fez na seleção olimpica, jogar dentro do garrafão. O "Granny Danger" também teve sua situação na seleção abalada por uma contusão, mas assim que seu dedo lesionado melhorou um pouquinho, já voltou pontuando como um maluco. Não dá pra abrir mão dele especialmente contra defesas por zona.

Andre Iguodala: Um dos melhores defensores da equipe, pau a pau com o Rondo, ideal para anular a estrela adversária. Só por isso já merecia estar no banco, mas o Iguodala também tem um arremesso de três pontos bacaninha o bastante para conseguir se garantir no ataque, fora que é um monstro nos contra-ataques e é uma das armas principais da defesa sufocante que a seleção colocou em prática nos amistosos.

C

Tyson Chandler: O único pivô de verdade no elenco, mas quando está em quadra o time perde bastante poder ofensivo. Ele está no time apenas porque é o único cara realmente grande que sobrou depois que David Lee, Brook Lopez, Robin Lopez, JaVale McGee e Amar'e Stoudemire deram o fora da seleção ou foram chutados pra longe. Seu papel é puramente defensivo desde que perdeu o posto de titular para o Lamar Odom, e deve ser assim durante o Mundial. Carta na manga apenas para ser usada para marcar os melhores pivôs adversários. E convenhamos, na FIBA, com os melhores da posição não jogando por suas seleções, isso nunca será sequer necessário.

Lamar Odom: Virou pivô nessa seleção, o que é muito esperto. O Odom finge saber arremessar de três pontos como deve-se fazer no basquete internacional, é grande o bastante para atrapalhar pivôs adversários, e é imarcável porque bate bola como armador, infiltra como armador, e nenhum jogador de garrafão será capaz de correr atrás dele. No contra-ataque ele sempre acaba sobrando livre, sem no entanto comprometer nos rebotes. Vai ser o titular acertadamente.

Kevin Love: Por ser um ótimo arremessador, inclusive de três pontos, e passar a bola melhor do que qualquer um dos armadores dessa seleção, é um achado para jogar contra zonas. Além disso, é um ótimo reboteiro e com seus passes de "quarterback" liga rapidamente os contra-ataques. Deve ter um papel limitado no Mundial, mas como o time não tem outros pivôs, tem lugar garantido.

...

Como pudemos ver, todos os jogadores de garrafão estão garantidos na seleção porque não sobraram muitos otários para a função. Nas alas, todos os quatro jogadores arremessam de três, são bons defensores, e podem jogar tanto dentro quanto fora do garrafão. Na armação, o Billups é o único que tem cadeira cativa, pode até comer a filha do dono se quiser, mas Derrick Rose e Rajon Rondo receberam mais confiança e tiveram papéis importantes durante os amistosos. Westbrook não arremessa de três, Eric Gordon é muito baixo e não sabe armar o jogo, Stephen Curry arremessa demais e não tem nenhuma experiência, e todos eles sofreram com alguma contusão durante o preparamento. Um dos três deveria ser cortado eventualmente. No último amistoso da seleção dos Estados Unidos, o Rajon Rondo não jogou e a comissão técnica disse que queria ver o que Curry, Gordon e Westbrook poderiam produzir. Para mim, uma clara indicação de que os três estavam com a água na bunda e que quem se saísse pior iria voltar pra casa, no maior estilo prova de "Big Brother".

Mas o Rajon Rondo entendeu diferente. Frente às alegações da comissão técnica de que não dava pra jogar no basquete internacional com dois jogadores que não sabem arremessar, ele entendeu que não jogar na última partida foi apenas a confirmação de que com Curry, Gordon e Westbrook, a seleção iria se sair melhor do que com ele em quadra. Enquanto todo mundo pensou que a alegação era apenas a justificativa final para colocar Tyson Chandler no banco, Rondo achou que tudo se referia a ele. Típico de menina com mania de perseguição que acha que todo mundo está dando indiretas sobre ela estar gorda.

No entanto, pouco tempo depois saiu o comunicado de que Rajon Rondo pediu para sair da seleção por questões pessoais, familiares. A comissão técnica agradeceu os serviços do armador, ficou feliz da vida e não teve que fazer corte nenhum. Talvez a paranóia do Rondo tenha ido longe demais e ele tenha se sentido tão pouco querido que preferiu pedir pra cagar e ir embora. É possível que, depois de ter jogado como titular tantos jogos na NBA e ter assumido tão bem a posição de armador titular da seleção, Rondo tenha ficado verdadeiramente ofendido com a indireta sobre jogadores que não arremessam, com ter sido substituído no quinteto titular pelo Westbrook no segundo tempo de um jogo, e por não ter jogado nenhum minuto sequer no último amistoso. Mas se foi isso que aconteceu, é culpa dos engravatados por não terem explicado direito, bastava sentar e dizer para o Rondo que só estavam testando os outros jogadores, mas que ele estava garantido. Se não fizeram isso, começo a desconfiar que não era paranóia do Rondo mesmo. Ele tem razão de se sentir pouco querido e ter pedido para sair porque, pelo jeito, a comissão técnica não tinha certeza de sua vaga apesar da qualidade dos serviços prestados. Parto do pressuposto que eles são espertos o bastante para deixar o Rondo contente e seguro se realmente quisessem ele na equipe.

Para confirmar essa hipótese, começaram a surgir boatos de que a comissão se reuniu com o Rondo, anunciaram que ele seria cortado, e aí deram um tempo para que o Rondo anunciasse que estava deixando a seleção por conta própria, só pra não ficar feio, do tipo "fala que teu cachorro comeu a lição de casa". Acho isso um tanto difícil, mas possível. Mas, independente do que realmente aconteceu entre eles, o que importa é que a titularidade do Rondo nunca foi garantida para a comissão técnica como parecia para nós, torcedores, e ninguém fez questão de tranquilizar a situação do armador, trataram o Rondo como alguém que poderia ser cortado a qualquer momento mesmo sendo titular - algo que não aconteceu com Billups, Durant, Odom, e até com o Kevin Love, que é mais "B" do que o resto.

Não consigo pensar em prova maior da inteligência do técnico Mike Krzyzewski. Postei recentemente sobre as defesas por zona internacionais e as diferenças das regras da NBA e da FIBA, e a conclusão óbvia é que não interessa levar os melhores jogadores da NBA, os jogadores mais famosos e mais fodões. O que importa é levar os jogadores mais competentes para competir dentro das regras da FIBA, ou seja, arremessadores de três pontos. Um garrafão forte sem arremessadores não ganhará um Mundial para o Brasil e também não funcionaria para os Estados Unidos. Odom e Kevin Love são pivôs perfeitos dentro das regras da FIBA, e eu estava achando muito idiota alguém pensar em cortar Stephen Curry ou Eric Gordon, dois dos melhores arremessadores da NBA. Se alguém tinha que ir embora, que fosse o Russell Westbrook, que não sabe arremessar de três, mas no fim das contas seu arremesso de média distância se provou muito útil contra zonas. A incapacidade de Rajon Rondo de acertar arremessos tornou sua presença cada vez mais nociva, e as boas atuações dos outros armadores na hora de chamar as jogadas provaram que sua capacidade de armar o jogo não era tão essencial assim.

O Rajon Rondo é um gênio em quadra, faz tudo certo, sempre com o mínimo de esforço. Mas se as defesas da NBA já se beneficiam de seu arremesso mequetrefe, nas regras da FIBA ele passa a ser uma piada, o cara que não precisa ser marcado e que torna a defesa por zona ainda mais eficiente porque pode se concentrar nos outros. Quando bate para dentro, sofre faltas e tem péssimo aproveitamento de lances livres, não dava pra deixá-lo em quadra nos momentos decisivos, então cabia a ele não pontuar e apenas armar para um time em que quase todo mundo pode armar, até o próprio Lamar Odom, e em que até os jogadores menos talentosos sabem passar bem a bola, como o Kevin Love. Aqui está a prova de que os Estados Unidos devem ser campeões mundiais: Rajon Rondo é um dos melhores jogadores desse elenco e mesmo assim foi para casa sem dó, inventando desculpa ou não, porque os outros se encaixam melhor nas regras, no plano, na tática. Esse tipo de culhão e foco garante que os melhores fiquem em casa enquanto os mais adequados para o torneio estejam em quadra. Quero ver alguém vencer uma equipe com tantos arremessadores dentro de regras em que o garrafão é tão prejudicado. Não existe mais prepotência dentro da seleção americana, agora eles encaram a realidade da FIBA de frente, como algo diferente que deve ser compreendido e dominado, e assim podem vencer tranquilamente. O Rondo é o grande símbolo dessa seleção, de como os nomes são menos importantes do que a eficiência, de como talento não significa necessariamente vitória. Com um quinteto titular de Derrick Rose, Billups, Durant, Iguodala e Odom, o trabalho está feito. Em nome da vitória, Rondo assistirá de casa.

domingo, 22 de agosto de 2010

Uma zona

O Nash dá conselhos para o Leandrinho: "no Canadá tem 
muito urso, mas é melhor que apodrecer no banco"


Volta e meia, sempre tem um carinha perdido por aí dizendo que na NBA não é permitida a tal "defesa por zona", tão usada no basquete da FIBA que se joga no resto do planeta. Assim, quando a seleção dos Estados Unidos enfrenta outras seleções em torneios mundiais, em que valem as regras da FIBA, haveria uma suposta dificuldade em se acostumar, em aprender tudo correndo e em cima da hora. Balela. A partir da temporada 2001-02 a marcação por zona, tão implementada no basquete universitário e portanto conhecida pela imensa maioria dos jogadores, passou a valer sem frescura. Antes, um monte de regras chatinhas dificultava as marcações duplas e a defesa sem a bola, mas já faz quase 10 anos que isso mudou. Todo time decente da NBA eventualmente marca por zona, e a gente viu como o Thunder conseguiu usar essa defesa para dar uma canseira no Lakers nos playoffs passados.

O que não pode é um defensor ficar dentro do garrafão por mais de 3 segundos sem estar acompanhado por outro macho do time adversário. Isso não impossibilita as defesas por zona de forma nenhuma, apenas impede que um gigante chinês fique embaixo do aro o tempo inteiro, obrigando que ele esteja sempre próximo a algum jogador adversário que ocupe aquela área. Se não tiver nenhum adversário no garrafão, o gigante chinês precisa sair do garrafão também. Além disso, aquele desenho de um semi-círculo no chão também impede os defensores de ficarem ali "guardando cachão", como se diz em linguagem de esconde-esconde. Dentro daquele semi-círculo, não importa se o defensor está parado lendo um livro, filosofando, trocando figurinhas ou contando anedotas: se tocar num jogador que esteja atacando a cesta, vai ser falta do defensor, e toca ter sua retina derretida pelas imagens do Ginóbili ou do Dwyane Wade cobrando lances livres.

Ou seja, a marcação por zona existe e está lá, em todas as partidas da NBA (menos as do Warriors, eles nem fingem que defendem). Mas a regra dos três segundos de defesa e o semi-círculo garantem que exista um caminho mais aberto para a cesta, favorecem o time que ataca, e facilitam a vida do jogador que ataca o aro lhe presenteando com muitas faltas e lances livres. O resultado disso é que, na NBA, os placares são mais altos e há um foco maior no jogo de garrafão - não necessariamente dos pivôs, mas de todos os jogadores, incentivados a infiltrar mais. Há mais de um ano atrás, o Rodrigo Alves do Rebote fez um levantamento estatístico fenomenal para descobrir quantos arremessos de três pontos tenta-se por jogo em diversos países, com a finalidade de tentar entender o motivo dos jogadores brasileiros arremessarem tanto de fora. Mesmo eu tendo desenterrado isso de um armário mofado virtual, todo mundo deveria dar uma olhada nesse artigo e nos dados levantados. É fácil perceber que, mesmo jogando partidas mais longas, o pessoal da NBA arremessa muito menos da linha de três do que o resto do planeta. E olha que o Orlando Magic sozinho deve ter inflado essa estatística um bocado.

Sem dúvida nenhuma isso faz parte da cultura de cada país, que pratica o esporte com seu temperinho próprio. No Brasil, por exemplo, a gente arremessa de três como se todo mundo fosse o JR Smith e a marcação por zona é associada a "covardia", coisa de quem "não sabe jogar". Isso fica bem claro no desabafo idiota do Nezinho ao ser campeão do NBB:



Mas há também um grande fator para os jogadores da NBA arremessarem bem menos de três pontos: as regras. Como vimos antes, as infiltrações valem a pena. Nas regras da FIBA, todo time marca por zona o tempo todo, o garrafão fica uma bagunça, infiltrar é quase impossível, e os jogos viram um festival de arremessos de três pontos. As grandes equipes do mundo sabem jogar de várias maneiras, mas se consagram com grandes arremessadores no elenco. Pior do que a seleção brasileira de basquete arremessar demais de três pontos é como os arremessos saem, se jogadas foram planejadas para que saiam livres, se os jogadores são bons arremessadores, se há técnica e velocidade no arremesso. Pelas estatísticas coletadas pelo Rebote, os brasileiros não arremessam tãaaao mais do que o resto do mundo, o que assusta é mesmo o aproveitamento, que fede muito.

Entendo perfeitamente a euforia da torcida brasileira com a presença de um garrafão realmente forte no Mundial de Basquete, formado por Varejão, Nenê e Tiago Splitter, galerinha toda da NBA reunida. Entendo também o receio com a seleção americana, que está mandando para o Mundial um time de reservas dos reservas dos reservas, formado por uns carinhas aí que toparam não tirar férias, e não tem absolutamente ninguém relevante para jogar dentro do garrafão. Mas a verdade é que, contra as melhores defesas do mundo dentro das regras da FIBA, o garrafão acaba sendo muitíssimo secundário. Os Estados Unidos podem colocar 5 jogadores em quadra capazes de arremessar de todo lugar, defender forte pra burro, e aí infiltrar no garrafão nos únicos momentos em que isso é possível: nos contra-ataques. O Brasil, mesmo que ainda tivesse Nenê, que volta para casa agora por estar contundido, teria dificuldades em impor um jogo de garrafão e não tem arremessadores técnicos e inteligentes o bastante para derrotar defesas por zona.

A seleção dos Estados Unidos demorou, mas eles finalmente aprenderam um troço importante: o problema não é levar para o Mundial uma seleção de restos, sem as maiores estrelas da NBA. O problema é levar os jogadores errados para as regras que irão enfrentar. Já vi seleção americana sem um único arremessador, e aí eles levam cacetada na orelha mesmo, não tem jeito. Isso também tem a ver com cultura e com as regras: como na NBA os jogadores que infiltram são beneficiados, é normal que haja uma maior admiração por eles do que pelos simples arremessadores. O Ray Allen nunca vai ter tantos fãs quanto o Dwyane Wade, é simples assim. Então muitas vezes leva-se aquela estrela fodona que não sabe arremessar de três e a equipe não funciona, quando um monte de jogadores secundárias teriam rendido muito mais. Claro que na NBA existem muitos jogadores que podem fazer de tudo ao mesmo tempo, mas levar gente focada nos arremessos é sempre o passo mais fácil para vencer no âmbito internacional. Não é mero acaso que o Carmelo Anthony, apaixonado pelo próprio arremesso, sempre acaba sendo cestinha da seleção americana, e que LeBron e Wade voltaram das Olimpíadas com arremessos de três pontos bem mais calibrados depois de tanto treino. Some a isso o fato de que a linha de três pontos na FIBA é cerca de um metro mais perto do aro do que a da NBA e teremos arremessadores muito eficazes e felizes. Não precisa levar LeBron, Carmelo, Wade e Dwight Howard, tá tudo bem colocar uns pirralhos para arremessar, como Eric Gordon, Stephen Curry, Danny Granger, Kevin Durant, e deixar qualquer manezinho dentro do garrafão mesmo. No basquete internacional, isso é o mais importante para vencer.

A FIBA parece estar ciente disso e colocou em prática algumas mudanças de regras. Pra começar, a linha de três pontos ficará mais longe uns 50 centímetros, o garrafão terá o mesmo formato retangular que o da NBA e o semi-círculo embaixo do aro será adotado. O formato atual do garrafão faz com que os jogadores tenham mais dificuldade de se aproximar da aro com um jogo de costas para a cesta, porque os 3 segundos máximos que um jogador ofensivo pode ficar no garrafão começam a contar mais cedo. Isso também leva vários pivôs europeus a arremessarem de três pontos, pra fugir do jogo lento e truncado do garrafão. Agora a vida de quem joga de costas para a cesta ficará mais tranquila, os arremessos de três ficarão mais dificultados pela distância e o semi-círculo vai recompensar um pouco os jogadores que decidirem infiltrar mais. Não sei exatamente quando as regras passam a valer oficialmente (ouvi dizer que é apenas em 2012, alguém me tira a dúvida?), mas vários torneios do mundo já estão implementando as mudanças, inclusive o NBB. Será uma ducha de água fria na nossa cultura apaixonada pelo arremesso e talvez, aos poucos, mude mesmo o nosso modo de jogar. Não ficaria nada surpreso se daqui a alguns anos a FIBA também colocasse em vigor a regra dos três segundos de defesa, de modo a abrir ainda mais o caminho para a cesta. Embora as diferenças sejam culturais e tem muita gente que gosta bem mais do basquete internacional do que do estilo de jogo da NBA, não dá pra negar que o modelo da NBA é mais dinâmico, privilegia o ataque e é muito mais popular. Se o objetivo é colocar doce na boca da criançada, o caminho é mesmo inibir a bagunça que é o garrafão do basquete internacional.

Mas, por enquanto, em que as regras da FIBA são o paraíso dos arremessadores, o basquete brasileiro ainda sofre mesmo é com a falta de arremessadores competentes e inteligentes. É curioso como nosso trabalho de base, que é limitado por verbas escassas e dificuldades culturais, parece gerar em maior quantidade jogadores enormes de garrafão e forma arremessadores sem critério ou sem a técnica de arremesso adequada. Nos arremessos, Leandrinho sempre deixou muito a desejar (antes mesmo de entrar no draft os relatos de sua mecânica esquisita já espantavam algumas equipes), e sua capacidade de infiltração é muito limitada fora da NBA, em que o garrafão é mais fechado. Seu estilo de jogo simplesmente não casa com o basquete internacional, assim como sua personalidade não casa com ser líder uma equipe como esperam que ele seja na seleção brasileira.

Engraçado é que descobri recentemente, numa entrevista da revista Dime, que o Leandrinho é quem pediu para ser trocado. Depois de tantos anos em que sair de Phoenix era o grande pavor de sua vida (lembro de um causo em que ligaram para o quarto de hotel do Leandrinho avisando que ele tinha sido trocado só de brincadeira e ele saiu chorando na frente dos colegas de equipe), parece que agora ele quer um papel maior, mais oportunidade de jogo, novas chances de ganhar minutos em quadra. Pediu para ir para o Raptors porque é amigo do engravatado Bryan Colangelo e acha que lá terá oportunidades para ser titular. Bacana. Mas mesmo essa maturidade e vontade de jogar não conseguem camuflar o fato de que Leandrinho não quer liderar uma equipe e tem uma enorme dificuldade em organizar as jogadas ofensivas de qualquer time (papel que Goran Dragic faz muito melhor e tornou o Barbosa desnecessário no Suns). Seu jogo depende da velocidade, não dos arremessos, e de receber a bola em contra-ataques, não de chamar jogadas. Seria muito tolo imaginar que ele pode chegar chutando traseiros na seleção brasileira quando tudo que acontece por ali vai contra seu estilo de jogo.

Do mesmo modo, Varejão e Splitter devem render muito bem na NBA na próxima temporada, mas serão limitados pelas possibilidades do basquete internacional. Varejão deve render muito, apesar da forma física meio baleada, quando se trata de defesa. Mas as principais armas ofensivas adversárias estarão no perímetro e, ofensivamente, Varejão não conseguirá segurar as pontas. Splitter é um jogador refinadissimo embaixo da cesta, do tipo que arrota em francês, mas a defesa por zona torna suas atuações muito mais complicadas - dificilmente conseguirá dominar uma partida por completo. Curiosamente os melhores momentos da seleção brasileira surgem quando Marcelinho "irch" Machado acerta a mira, então não dá pra esperar milagre nem do Splitter, nem da seleção - a gente já sabe que o Marcelinho vai ganhar um jogo e perder outros dois se receber sinal verde para arremessar.

Não acredito que o Splitter vai chegar na NBA chutando traseiros e dominando o garrafão do Spurs, falta físico e levará um tempo para que ele se acostume com mais contato e mais espaço para se mover perto do aro. Mas arrisco dizer, sem muito medo, que ele será eventualmente melhor na NBA do que foi na Europa, tudo graças às regras diferentes. Dar espaço para o Splitter atuar é pedir para ele te fazer de bobo, assim como o Duncan faz tão bem até hoje e terá o maior prazer (embora a cara não vá mostrar) de ensinar para o Splitter como lidar com os brutamontes que estarão lá para marcá-lo.

As notícias são boas para os brasileiros na NBA, mas no Mundial não consigo ver qualquer traço de esperança. Como expliquei em outro post, não vemos muito motivo em ficar torcendo para a seleção só porque compartilhamos as mesmas linhas imaginárias, idioma e piadinhas com a Preta Gil - mas dessa vez o sucesso da seleção apontava para uma atenção que o esporte não recebe há décadas no país e que traria recursos, incentivo e apoio para a base. Infelizmente não será dessa vez. Com ou sem Nenê, iriamos enfrentar defesas por zona incríveis durante todo o Mundial e o jogo de garrafão estaria imediatamente limitado, exigindo um preparamento ofensivo que - focado na defesa - o técnico Magnano não conseguiu colocar em prática. Sem Nenê, então, pior: perdemos defesa no garrafão e voltamos a olhar apenas para o perímetro, onde Leandrinho estará pensando em como será legal jogar na terra de seu colega Steve Nash, o Canadá, onde não terá que liderar uma equipe e nem ficar arremessando o tempo inteiro.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Os 20% de Xavier Henry


Xavier Henry não sabia a dor de cabeça que esse boné traria



O ala Glen Robinson foi a primeira escolha no Draft de 1994 pelo Milwaukee Bucks, até aí nenhuma surpresa. Embora aquele ano fosse revelar estrelas como Jason Kidd e Grant Hill, a escolha do Big Dog como o número um era esperada. O que realmente chocou o mundo da NBA foi quando o Bucks apareceu com um contrato de 100 milhões de dólares por 13 anos! Enquanto pessoas desmaiavam, anunciavam o fim do mundo ou entravam em estado de choque, o Bucks acalmou um pouco a empolgação e assinou com o rapaz um singelo contrato de 68 milhões de dólares por 10 anos, até hoje o maior salário já assinado por um novato.

A loucura do Bucks anunciava um período de contratos malucos que estava por vir para assombrar a NBA. Imagina a grana que o Sixers não pagaria por Iverson em 96 ou o tamanho do contrato que o Cavs assinaria com o LeBron em 2003. Se o Bucks fazia aquilo por Glen Robinson, a que cifras chegariam outros jogadores que entravam na NBA com mais fama ainda?

Um ano depois, em 1995, aconteceu uma reunião entre a associação dos jogadores e a NBA para negociar questões relacionadas a salários dos jogadores e dinheiro de uma forma geral. É uma reunião que acontece de cinco em cinco anos (mais ou menos, às vezes são 6) e que vai acontecer após a próxima temporada, quando a NBA vai tentar forçar cortes de gastos, de salários, e uma greve de jogadores é iminente. Mas naquele ano nada de greve, decidiram apenas pela criação do Rookie Scale.

O Rookie Scale é uma tabela que padroniza os salários dos novatos escolhidos na primeira rodada do Draft da NBA. Ao invés de negociar livremente, deve-se respeitar essa tabela. O valor dos contratos condiz com a posição em que o cara foi escolhido. O primeiro ganha mais e os valores vão diminuindo gradativamente até a trigésima e última escolha de primeira rodada. Os escolhidos na segunda rodada não tem contrato garantido e estão sujeitos às ofertas dos times que os escolheram.

Os contratos do Rookie Scale não são milionários, costumam ficar abaixo dos 5,8 milhões de dólares, a média de um jogador na liga. Nesse ano, por exemplo, o valor destindo ao primeiro do Draft é de 4,2 milhões de dólares na primeira temporada. Todos os contratos dessa tabela são garantidos por 2 anos, então o time tem a opção de mantê-lo por mais dois anos nessa mesma tabela e depois do quarto ano o jogador vira um Free Agent Restrito, aquele que pode assinar com outros times, mas seu antigo detentor tem o poder de igualar a oferta e manter o atleta.

Esses valores, porém, não são fixos, são apenas indicações. Os times podem assinar um jogador por 80% a 120% desse valor, qualquer coisa nesse meio, mas nunca mais e nem menos. E é aí que começa a polêmica que me fez escrever esse post.

Dos 30 jogadores escolhidos na 1ª rodada do Draft 2010, apenas 2 ainda não assinaram contrato, Greivis Vasquez e Xavier Henry, os dois escolhidos pelo Memphis Grizzlies. O motivo de Vásquez ninguém sabe, mas suspeita-se que seja o mesmo do seu companheiro Henry, falta de um acordo com o time sobre que porcentagem do valor da escala será paga. O Memphis está oferecendo 100% do valor da tabela e os outros 20% apenas pagos se o Henry cumprir alguns objetivos durante a temporada. Henry, ou melhor, seu agente Arn Tellem, que é quem está negociando, quer os 120% garantidos.

Vale um parênteses para dizer que brigar com Tellem não é fácil. Ele é, tranquilamente, o agente mais importante da NBA. Ele agencia 38 jogadores na liga, apenas atrás de Mark Bartelstein que agencia 39, mas é o líder disparado nas outras categorias: tem 9 jogadores que já foram All-Star na sua lista (o segundo colocado tem 4), tem 4 jogadores atualmente recebendo contratos máximos e a soma dos salários de seus agenciados dá 179 milhões de dólares por temporada, 50 milhões a mais que Dan Fegan, o segundo colocado.

Entre os agenciados por Arn Tellem estão Pau Gasol, Joe Johnson, Brandon Roy, Antawn Jamison, TJ Ford e até o nosso brazuca Tiago Splitter. Não vamos subestimar o cara que conseguiu fazer o Jermaine O'Neal receber mais de 20 milhões de dólares por temporada, o Joe Johnson ganhar o 5º maior salário da história da NBA e o Ben Wallace receber aquela grana absurda do Bulls há alguns anos.

Mas quem está certo, o Grizzlies ou Tellem/Henry? Pensando apenas nas regras, os dois. O Grizzlies está dentro dos limites do Rookie Scale e Tellem está negociando o melhor para ele e seu cliente. Mas de certo em certo os dois estão ficando errados. Xavier Henry de repente virou o centro das atenções na NBA, ele não participou das Summer Leagues por esse rolo econômico e sua imagem perante o time e a torcida piora a cada nova falha na negociação. Se não chegarem em um acordo dentro de um mês, poderá perder o começo dos treinos da equipe.

O que deixa essa história difícil de entender é que Arn Tellem agencia as carreiras de Danilo Gallinari, Anthony Randolph e Gerald Henderson, todos com contratos de 100% + 20% de incentivos. Tá bom que no ano passado ele conseguiu os 120% limpos para o Tyreke Evans, mas é mais fácil negociar para um cara que é a 4ª escolha e vai ser a nova estrela do time do que com um que foi a 12ª e chega para ser reserva.

Você deve estar perguntando quais são esses incentivos, certo? Em geral existem dois tipos de incentivos pedidos nos contratos de novato, os promocionais e os de performance. Achei no excelente ShamSports o exemplo do contrato do Ty Lawson com o Nuggets na última temporada. Para ele ganhar os 20% além dos 100% assinados, teria que fazer quatro aparições promocionais para o time (em qualquer evento), jogar nas Summer Leagues, atuar por duas semanas num programa de treinamento e condicionamento físico do Nuggets e, por fim, jogar pelo menos 900 minutos durante toda a temporada.

As primeiras partes são fáceis. É só aparecer nos eventos e a grana está depositada. Mesma coisa com as Summer Leagues e o programa de condicionamento. A parte mais difícil é a dos minutos, ainda mais em um time forte como o Nuggets, mas mesmo assim o Lawson se destacou e passou dos 900 com sobras. Levou toda a grana extra pra casa.

Como pode-se ver, as exigências para alcançar os outros 20% costumam ser bem simples e servem apenas para o times ter a garantia de que seus jogadores não vão dar uma de revoltados e fugir das novas obrigações. Nada como prender homem por dinheiro. E são pedidos tão comuns que no ano passado, dos 30 jogadores de primeira rodada, apenas 6 não tinham um programa de incentivo no contrato. Eram eles Tyreke Evans, Jonny Flynn, Austin Daye, Eric Maynor, Darren Collison e Wayne Ellington. Ou seja, até o Top 3 Blake Griffin, Hasheem Thabeet e James Harden tinha.

Dos 28 assinados desse ano apenas 8 conseguiram os 120% limpos: Wesley Johnson, DeMarcus Cousins, Greg Monroe, Gordon Hayward, Avery Bradley, Craig Brackins, Quincy Pondexter e Lazar Hayward. Dá pra ver que são poucos jogadores por ano e poucos dos mesmos times, Wolves, Pistons, Jazz e Kings aparecem nas duas listas. Ou seja, eles tem o hábito de já oferecer os 120% sem incentivos, o resto da liga não, incluindo o Grizzlies. Então por que diabos esse problema?

Começaram a pipocar rumores de que uma de duas coisas estariam acontecendo:
1- O Xavier Henry não quer jogar no Grizzlies e está complicando as negociações para forçar uma troca.
2- O Grizzlies está pedindo coisas absurdas, como média de mais de 20 pontos por jogo ou média de 30 minutos por jogo.

Eu duvido muito da primeira parte. Quando um jogador não quer jogar em um time ele simplesmente pede para ser trocado, dá piti, fala com o General Manager. Os novatos ainda podem não ir treinar para equipes em que não querem jogar. Antes do Draft os atletas são convidados para treinos por alguns times e podem decidir ir ou não. O Eric Bledsoe, por exemplo, não queria jogar no Grizzlies e por isso recusou o pedido de ir fazer um teste lá. Xavier Henry quis, foi, treinou bem e acabou sendo escolhido por isso.

O mais provável é que o Grizzlies, por sei lá que motivo bizarro, estava pedindo coisas absurdas. Cogitou-se questões econômicas, mas a economia seria mínima e eles acabaram de dar 80 milhões para o Rudy Gay, não faria sentido. Essa teoria também foi abaixo quando o jornal Memphis Commercial Appeal descobriu os incentivos pedidos pelo Grizz:

1. Participar das Summer Leagues
2. Participar de 2 semanas de treinos especiais com a equipe de técnicos do time
3. Alcançar pelo menos um desses três objetivos: Participar do jogo entre Novatos e Segundo-Anistas no All-Star Weekend, entrar na seleção de novatos ao fim da temporada ou somar 15 minutos por jogo disputando pelo menos 70 jogos.

Alguém achou alguma coisa de anormal aí? Disputar as ligas de verão e participar dos treinos deveria ser obrigação, não algo que o cara só faz para ganhar o dinheiro extra. Ele é um novato e tem muito o que aprender para se dar bem na NBA, é o mínimo. E depois ele só precisa de uma daquelas três coisas, sendo que todas são possíveis. Não acho um absurdo um cara escolhido na 12ª posição do Draft ir para o jogo dos novatos, muito menos ter 15 minutos por jogo. No ano passado o Hasheem Thabeet, que foi um fracasso completo, jogou 13 minutos por jogo mesmo jogando mal, fazendo uma falta por segundo e disputando vaga com o Marc Gasol. Por que o Henry não conseguiria 15 ao dividir com o Tony Allen, OJ Mayo e ainda podendo jogar na posição 3?

É um dinheiro que pode ser ganho tão facilmente pelo Henry (quer dizer, agora ele já perdeu a Summer League) que não dá pra entender porque diabos isso está acontecendo.

Se o Memphis estivesse pedindo menos dos 100% ou nem tivesse oferecido incentivos até poderia render uma discussão maior, já que apenas 5 jogadores até hoje receberam menos do que a base estipulada no Rookie Scale. Foram eles o Sergio Rodriguez (100% e nenhum incentivo), Donte Greene (100% e mais incentivos que não foram alcançados) e um trio do Spurs: George Hill (120% nos dois primeiros anos, mas apenas 80% no terceiro e quarto), Ian Mahinmi (80% nos quatro anos) e nesse ano o James Anderson (120% no primeiro ano e depois 117% e 115%).

E mesmo o Spurs oferecendo menos, com o absurdo dos 80% do George Hill ser um valor menor do que o mínimo permitido pela NBA e só conseguindo um pequeno aumento por isso, nenhum jogador ou agente implicou. Aceitaram que fazia parte do jogo, das negociações, das regras e estão lá. Será que é só porque o Spurs é muito mais time que o Grizzlies?

Eu acho que eles vão chegar em um acordo mais cedo ou mais tarde, simplesmente porque não está sendo bom pra ninguém essa demora toda. Mas a pergunta que não quer calar é: e se não chegarem? Veja o que pode acontecer com um jogador que já foi draftado por um time mas não chega a um acordo de contrato para jogar lá:

- Se esse jogador assina um contrato fora da NBA, ele pode ficar no outro campeonato, mas tem seus direitos agregados ao time que o escolheu. Quando quiser ir para a liga americana, tem um time lhe esperando. É o caso do Fran Vásquez, ala de força espanhol que foi escolhido pelo Orlando Magic na 11ª posição no Draft de 2005 e logo depois decidiu voltar pra Europa. Se um dia ele quiser ir para a liga americana, deverá ser no Magic ou para onde o trocarem. Mesma coisa com Ricky Rubio e o Wolves.

Nesse caso Xavier Henry poderia decidir jogar por um ano fora dos EUA, teria total liberdade de fazer isso, mas teria que se resolver com o Memphis na hora de voltar.

- Se o Henry não assinar com outro time fora da NBA e nem com o Memphis, o Grizzlies mantém os direitos sobre o jogador até o dia do Draft do ano que vem, quando ele estará disponível para ser escolhido de novo por qualquer outra equipe. Simplesmente um ano perdido para o jogador e uma escolha jogada fora pelo time.

E agora a regra criada apenas porque a Lei de Murphy existe: se o mesmo jogador passar por essa situação de novo no ano seguinte ele não entra num terceiro Draft, ao invés disso vira Free Agent e poderá assinar com quem quiser ignorando o tal Rookie Scale.

As últimas notícias do dia são de uma terceira opção, trocar o jogador. O Grizzlies está recebendo muitas propostas de trocas pelo Xavier Henry, mas sem levá-las a sério ainda, preferem assinar logo o jogador. No ano passado o time já trocou uma escolha de Draft pelo Ronnie Brewer, que jogou 5 jogos, se machucou e foi embora. No Draft desse ano venderam sua escolha 25 (o ótimo Dominique Jones) para o Dallas por grana e agora estão correndo o risco de perder um terceiro jovem jogador por uma bobagem. Tem coisas que só acontecem com o Clippers, mas algumas outras ficam reservadas para o Grizzlies.

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Se aquele outro post foi dedicado para quem gostava de textos grandes, esse é pra quem ter orgulho de ser um "Salary Cap Nerd" como eu. Quem mais se diverte conhecendo esse submundo dos contratos da NBA levanta a mão!