quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Preparados para tudo

Josh Smith prefere nem olhar


O Cavs surpreendeu todo mundo com a facilidade com que venceu o Lakers na noite de Natal. Todo mundo sabia que o time era bom e que eles poderiam vencer, mas não com tamanha facilidade um time com o garrafão tão forte. Será que o estilo de jogo do Cavs que é o certo para bater o Lakers? Será que contra outros times eles teriam o mesmo sucesso? Bom, que tal analisar a sequência de vitórias do Cavs desde aquela derrota para o Dallas Mavericks sem Dirk Nowitzki? Desde então são 6 vitórias em sequência para o Cleveland Crabs.

Primeiro eles pegaram o Phoenix Suns. O Suns é um time veloz mas não tão veloz quanto antigamente. É "apenas" o quarto da liga em posses de bola por jogo e o 9º em pontos de contra-ataque. Mas ainda são velozes e se caracterizam pelas decisões rápidas no ataque e por espalhar os jogadores pela quadra. O espaçamento que os arremessadores de três trazem e a velocidade do Nash nos passes são os segredos do Suns.

A quadra do Suns até parece um campo de futebol às vezes de tão grande. É o Leandrinho num canto, Jason Richardson no outro, Nash correndo pra todo lado e os dois caras de garrafão mais estranhos da NBA. O Amar'e Stoudemire, que deve ter comissão por corta-luz feito, e o Channing Frye, que tem desconto no salário se passar da linha dos três, "tem lava lá dentro", disse ele sobre o garrafão outro dia. Para lidar com esse time no mínimo esquisito (embora bem eficiente, bateu Lakers e Celtics nessa semana), o Cavs botou seu time pequeno em quadra: Mo Williams, Delonte West, Anthony Parker, LeBron e Varejão. Assim, venceu por quase 20 pontos de diferença jogando no estilo imposto pelo Suns.

Logo depois veio o jogo contra o Sacramento. O Kings pressiona na defesa, dobra o tempo inteiro e usa muito mais o ataque de meia-quadra, com infiltrações e gente (Donte Greene e Omri Casspi principalmente) cortando pra cesta. Nesse jogo o garrafão veloz de Jason Thompson e Spencer Hawes estava abusando do Shaq, que só queria pegar seu tricô e ir dormir porque já tinha acabado a novela.

O Cavs então respondeu com sua combinação de garrafão com Ilgauskas e Varejão e uma defesa avassaladora. Nos últimos minutos de jogo ninguém infiltrou no garrafão do Cavs e o jogo foi para a prorrogação, em que o Kings não marcou nenhum ponto e o Ilgauskas acertou 3 bolas de três quando a marcação dobrou no LeBron. 13 a 0 no tempo extra e mais uma vitória.

Depois veio o Lakers no jogo que o Danilo comentou com mais detalhes. Garrafão alto com Shaq e Ilgauskas ao mesmo tempo durante boa parte do segundo tempo, linhas de passe para o garrafão cortadas e muito contra-ataque para não precisar enfrentar Artest, Kobe e Bynum o tempo inteiro. Lavada histórica.

Depois veio o Houston Rockets. Enquanto o Lakers tem dois pivôs de 2,13m, o Rockets tem um pivô de 2,06m. Joga de um jeito completamente diferente e destrói o adversário nos rebotes ofensivos. O Cavs resolveu usar sua formação mais alta, deixou o Shaq mais tempo em quadra e assim bateu o Rockets na sua própria área, com um 15 a 5 nos rebotes ofensivos. Venceu por mais de 20 pontos mesmo cobrando apenas 16 lances livres contra 34 do Rockets.

Para terminar a sequência de vitórias veio uma mini-série contra o Hawks. Um jogo em Atlanta na terça e outro ontem em Cleveland, no aniversário do LeBron James. O Hawks é um adversário difícil porque é um time que tem um plano de jogo e o aplica não importa o que está acontecendo, é um time correto e frio (por isso que os chamo de "Novo Spurs" mesmo não os vendo com 4 anéis nos próximos 10 anos).

O primeiro jogo em Atlanta estava do jeito que o Hawks queria. Bom aproveitamento dos seus jogadores, todo mundo envolvido e defesa pressionada no LeBron, que acabou acertando apenas 6 de 20 arremessos na partida. O ataque do Cavs não estava funcionando nem com macumba.
Mas como o saudoso Detroit Pistons nos ensinou, se você só consegue marcar 60 pontos em um jogo, faça o outro time marcar apenas 59.

O Hawks fez uma cesta faltando 32 segundos para o fim do terceiro quarto com o Zaza Pachulia, depois disso foi marcar outro ponto apenas quando faltavam 3 minutos para o fim do QUARTO período numa cesta do Josh Smith. Sim, um time frio, calmo, correto e que tem Jamal Crawford e Joe Johnson no elenco ficou todo esse tempo sem marcar uma cesta sequer! Defesa melhor só se tivesse o Gamarra no lugar do Mo Williams. O pior é que o ataque do Cavs estava tão ruim que mesmo assim o jogo ficou disputado até o final, a vitória só foi garantida como foi naquele jogo contra o Kings, com uma bola de três do Big Z, o Channing Frye lituano.

Ontem era a revanche do Hawks. O time estava mordido e foi pra vencer. Fez um jogo impecável, com uma partidaça do Mike Bibby, que tinha fedido no dia anterior. A cada cesta do Cavs a torcida ia ao delírio, o time vibrava e o Hawks respondia com um arremesso sem graça de meia distância pra cortar a diferença. Estilão Spurs mesmo! Teve uma hora que o Cavs cortou a diferença de 10 para 1 e o ginásio veio abaixo, uma barulheira só. O técnico Mike Woodson pediu tempo, o time voltou, fez 9 pontos seguidos e o silêncio voltou.

Parecia uma vitória merecida para esse timaço do Hawks que é uma das grandes surpresas da temporada (não surpresa por ser bom, mas por estar pau a pau com o Top 3 do Leste), mas o Cavs está preparado pra tudo. Se usar garrafão alto, baixo, com arremessadores ou o time de defesa não funcionou, que seja então a técnica Fresh Prince of Bel-Air que comandou o time nos últimos anos. O quarto período foi só com a bola na mão do LeBron e o time abrindo pra ele. Deu no que deu, 48 pontos para o King James e o jogo empatado em 101 a menos de um minuto do fim.

O Hawks decidiu dobrar a marcação no LeBron se ele movesse um músculo e fez uma ótima cobertura quando ele tocou a bola. As trocas de passe e de marcação resultaram numa situação ideal para o Hawks: bola na mão do Anderson Varejão na linha dos três com o cronômetro de 24 segundos estourando. E não é que ele acertou sua primeira cesta de três em sua carreira na NBA? Pela milésima vez a torcida foi à loucura e o Hawks teve 17 segundos para tentar uma bola de 3 pontos. O Bibby arriscou mas, bem marcado, errou. O Hawks merecia a vitória, jogou melhor e perdeu.

Essa sequência de vitórias não definiu o campeonato, é óbvio, mas impressionou. Dos 6 jogos, apenas dois (Hawks e Rockets) foram em casa e nenhum foi contra um time ruim, todos contra boas equipes e, mais importante, equipes com características completamente diferentes. E sempre o Cavs teve uma resposta para cada uma delas, sempre explorando a versatilidade dos seus jogadores.

Desde um time bem baixo com o LeBron na posição 4, passando por uma formação com dois jogadores de pelo menos 2,16m no garrafão ao mesmo tempo até apelar para o talento puro do LeBron James, tudo deu certo. Com essas vitórias e as três derrotas seguidas do Celtics, o Cavs está de novo em primeiro do Leste e parece que não vai largar essa vaga tão cedo.

...
Abaixo duas jogadas que chamaram a atenção nesses jogos contra o Hawks. Primeiro a enterrada MONSTRUOSA do Delonte West pra cima do Josh Smith e depois a histórica bola de 3 do Varejão. É engraçado perceber como o Jamal Crawford passa reto pelo Varejão, sem preocupação alguma com ele que está com a bola, só para não deixar o Boobie Gibson livre para o arremesso.





quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Um time exposto

Kobe grita por ajuda


Quase dois meses de temporada se passaram para o Lakers ganhar o topo da NBA com a melhor campanha das duas conferências e já três jogos de vantagem sobre o segundo colocado do Oeste, o surpreendente Mavs. Mas bastou uma semana, quatro jogos, para que toda essa aura em cima do atual campeão caísse e o time parecesse, de novo, mortal.

No começo da temporada o Lakers perdeu alguns jogos, mas todos justificáveis. Fora de casa, em dias consecutivos, com Artest ainda desentrosado e sem o Pau Gasol. Mas quando o espanhol voltou jogando como "o melhor jogador de garrafão da NBA", nas palavras de Kobe Bryant, o Lakers pareceu invencível. Foram 14 vitórias e 1 derrota nos primeiros 15 jogos do espanhol.

Mas aí veio a derrota humilhante para o Cavs, a contusão do Ron Artest, que pateticamente caiu em casa e bateu a cabeça enquanto carregava caixas (!!!), a vitória apertada em duas prorrogações sobre o Kings, mais uma derrota embaraçosa para o Suns, que até outro dia era o mais fiel freguês do garrafão do Lakers, e ontem, para finalizar a cruel sequência de 4 jogos em 5 dias, uma vitória muito apertada sobre o Warriors.

Tá bom que o jogo do Suns teve suas pequenas aberrações, não dá pra esperar que o Jared Dudley, Robin Lopez e Goran Dragic joguem tão bem ao mesmo tempo alguma outra vez na próxima década, mas o jogo foi tão fácil que acho que o Suns ganharia mesmo se eles tivessem tido um jogo ruim.

O negócio é que o Lakers sempre teve seus defeitos (falei isso até depois do time ter sido campeão) e agora eles estão mais expostos do que nunca.

Dependência da movimentação de bola
O Lakers é um time que sabe espaçar bem os seus jogadores, esse é um dos princípios básicos do triângulo ofensivo do Phil Jackson. Todo mundo sabe se espalhar bem pela quadra para criar linhas de passe que vão levar a arremessos livres ou matchups que favoreçam o Lakers.

O Cavs na noite de Natal, como já tinha feito o Celtics nas finais de 2008, fez uma defesa pressionada muito bem executada que limitava os passes do Lakers. Isso fazia com que caras como o Fisher, Gasol e Odom passessem uma eternidade de tempo com a bola na mão procurando alguém pra passar. Eventualmente desistiam e ou forçavam um arremesso ou tentavam um passe de Steve Nash, o que rendeu uns milhões de contra-ataques para o Cavs.

Se você corta as linhas de passe do Lakers, você acaba com toda a fluidez ofensiva que faz deles um dos melhores ataques da NBA. Não é fácil, claro, mas é onde a defesa do outro time deve focar e alguns times já sabem disso.

As bolas de 3
Essa marcação pressionada se dá principalmente no jogador que faz o pivô. No triângulo, sempre um jogador fica na diagonal da cesta, um na zona morta e um faz o pivô. A bola passa por essa cara no garrafão e aí começam as movimentações que reagem de acordo com as decisões da defesa. Para isso dar certo o passe mais importante do ataque é o "passe de entrada", aquele que vai colocar a bola na mão do pivô em uma boa posição. (Não custa lembrar que o cara que faz o pivô no triângulo não precisa ser um pivô. No Lakers, com exceção do Fisher, todo mundo faz essa função eventualmente).

Quando esse passe de entrada não dá certo o Lakers tem duas opções: arremessar de longe ou forçar uma infiltração. Qualquer uma das duas acaba saindo forçada, mas se dá resultado algumas vezes, abre a defesa. Acontece que o Lakers não tem bola de 3. O Odom acertou tudo nas finais do ano passado mas foi sorte de campeão, o Artest não arremessa e o Fisher só acerta se é um jogo decisivo de playoff.

Sobra a infiltração, que foi o que o Lakers tentou contra o Cavs e aí ficou na dependência de conseguir algumas faltas. Quando o outro time defende bem e não comete essas faltas, o ataque mais completo da NBA, de repente, parece previsível e limitado.

O banco de reservas
Eu disse isso ontem no Twitter e todo mundo concordou: quando o Lamar Odom é titular por causa de alguma contusão, o Lakers tem o pior banco de reservas da NBA. Não o pior entre os times bons, não o pior entre os favoritos, o pior da NBA.

Com o Odom de titular, como foi o caso contra o Suns, o banco do Lakers tinha Shannon Brown (a única parte boa, mas bem limitado), Jordan Farmar, Sasha The Machine, Adam Morrison, Josh Powell e DJ Mbenga. Sério, o banco do Nets com Rafer Alston, Terrence Williams e Josh Boone é melhor que isso.

Um dos motivos do Lakers estar tendo dificuldades nesses jogos é o cansaço. Como eu disse antes, foram 4 jogos em 5 noites. Todos os jogos foram tensos, estressantes, um teve duas prorrogações e ainda tiveram as viagens para Phoenix e Sacramento. Não é desculpa para as derrotas, óbvio, mas é em situações extremas que um time precisa se mostrar preparado. O Blazers se mostrou preparado para lidar com várias contusões, por exemplo, o Lakers não consegue lidar com o cansaço porque não tem banco.

Jordan Farmar é uma das maiores decepções do elenco. O Zé Boquinha odeia ele desde sempre, mas muitos, eu inclusive, viam um grande potencial nele. Triste que tantos anos depois dele ter entrado na NBA, parece não ter evoluido em nada o seu jogo. Não virou um grande passador, ainda é um arremessador bem mais ou menos e defende mal. Parece piada que anos atrás existiu uma discussão séria (rolou em alguns sites, fóruns e até no nosso chat, durante um jogo de playoff) sobre quem era melhor, Farmar ou Rajon Rondo. Hoje um é um reserva ruim e o outro o melhor armador do Leste.


Mas não é para nenhum torcedor do Lakers entrar em desespero. Hoje não existe nenhum time beirando a perfeição na NBA. Magic, Cavs, Celtics, Nuggets, Mavs, Spurs, todo mundo tem uma lista de defeitos, de buracos no elenco e que por isso podem ser consideradas no mesmo nível do Lakers mesmo durante a má fase do time de L.A.

O Lakers até pode ficar feliz de perceber que o time evoluiu em um aspecto em relação ao ano passado, quando foi campeão. O Phil Jackson conseguiu que o time jogasse bem na defesa não somente em alguns jogos, mas até contra os times mais fracos. No ano passado eu reclamava que o Lakers era preguiçoso na defesa quando enfrentava times sem expressão e tentava ganhar só no ataque, aí de repente se mostrava um time forte na defesa quando enfrentava o Spurs. Era falta de respeito, aquilo! Nessa temporada o Lakers tem defendido bem até em jogos já resolvidos e acho que pode-se creditar muito disso à presença do Ron Artest no elenco.

O calendário do Lakers agora tem uma revanche contra o Kings em Los Angeles e depois duas visitas vindas do Texas, o segundo colocado Dallas Mavericks e depois o Houston Rockets, time que já venceu o Lakers em Los Angeles. Será bom para medir o quanto dessa má fase foi por cansaço e excesso de comida no Natal e o quanto é porque os outros times já sacaram qual é a do Lakers.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

8 ou 80 - Jogos apertados

Alguns jogos decisivos fazem a diferença


Há umas duas semanas o Washington Wizards passou por uma situação bizarra: perdeu 6 jogos seguidos por 4 pontos ou menos, nos dois jogos anteriores tinha vencido um por 4 pontos de diferença e o outro por 2.

Foram 8 jogos decididos nos detalhes, no último minuto do último período, 10% de uma temporada decidida em uma bola que roda no aro e não cai, em uma ou outra jogada de sorte. Esse caso do Wizards foi uma aberração, mas é estranho pensar que se o Wizards tivesse vencido todos esses jogos que teve chance de vencer estaria em 6º no Leste e não com a sexta pior campanha da NBA. Se tivesse dividido esses 6 jogos em 3 vitórias e 3 derrotas, algo já mais realista, estaria em 7º e indo para os playoffs.

O caso extremo do Wizards chama a atenção para a questão da importância de saber decidir esses jogos apertados. Afinal de contas, eles acontecem com frequência? Ter um jogador decisivo faz tanta diferença assim? Algum time teria algum recorde muito diferente se resolvesse melhor os jogos decididos por 3 pontos ou menos?

Começando pelo começo: até agora foram disputados 444 jogos na temporada regular da NBA. Destes, 69 (ou 15%) foram decididos por 3 pontos ou menos e 23 foram para a prorrogação. Em compensação, mais de 50% dos jogos da temporada, 256, foram decididos por 10 pontos ou mais.

Dá pra tirar como primeira conclusão que decidir jogos apertados não faz milagre. Ter um bom finalizador, um cara com sangue frio, não vai fazer o seu time pular de último para primeiro lugar. A maioria dos jogos são decididos por mais de 10 pontos e, assim, vencido por quem jogou melhor desde o primeiro minuto. Lógico, mas sempre bom ressaltar.

Como temos apenas os dois primeiros meses de temporada até agora, fui olhar para os números da temporada passada para ver se existe um padrão. No ano passado, nos 1.230 jogos da temporada regular, apenas 70 partidas (cerca de 5%) foram para a prorrogação, enquanto 171 (13%) foram decididas por 3 pontos ou menos de diferença.

Os números são parecidos com a temporada atual e parecem ser uma tendência na NBA. Porém, olhando os números da temporada passada vi um caso que mostra como essa pequena diferença causada pelos jogos decididos por pouco podem acabar fazendo alguma importante diferença.

Em quarto lugar, com mando de quadra, portanto, se classificou o Portland Trail Blazers, com 54 vitórias. Uma a mais do que o seu adversário sem mando de quadra, o Rockets, quatro vitórias na frente do Mavs, cinco na frente do Hornets e seis na frente do oitavo colocado, o Jazz. O Blazers teve 10 jogos decididos por 3 pontos ou menos e venceu 9 deles! Se tivesse tido 50% de aproveitamento, o que é bem comum na maioria dos times, teria quatro vitórias a menos e poderia até ter se classificado em 6º lugar, perdendo mando de quadra e pegando um adversário muito mais forte, o Spurs.

O pior time da temporada passada em decidir jogos foi o Kings. Dono também da pior campanha do ano passado, decidiu 16 jogos por 3 pontos ou menos e perdeu 14! Mas mesmo se tivesse vencido todos essas 14 partidas que perdeu por pouco teria acabado a temporada com 31 vitórias e ficado mais de 10 vitórias longe da zona de playoff. Por curiosidade, nesse ano, com Tyreke Evans comandando o time no fim dos jogos, o Kings decididu 5 jogos por pouco, venceu três e perdeu dois.

Juntando tudo isso acho que fica claro que saber decidir os jogos é aquela pitada final que um time bom precisa para virar ótimo. Um time ruim ainda é um time ruim mesmo se sabe jogar bem os últimos minutos, mas dentro da elite dos times bons, uma ou duas vitórias a mais fazem toda a diferença do mundo e para eles vale ter alguém que resolva a parada em jogos disputados.

Nessa temporada o time que mais teve jogos decididos por 3 pontos ou menos foi o Milwuakee Bucks, com 10. Destes o time do Brandon Jennings venceu apenas dois, mas mesmo assim ainda está dentro da zona de playoff. Será o preço de ter um novato com a bola na mão na hora de decisão? Outro time que confia num novato pra isso está melhor, o Kings. Como dissemos antes, tiveram 2 vitórias e 14 derrotas em jogos apertados no ano passado e nesse ano estão com as mesmas 2 vitórias mas apenas 3 derrotas.

Dos times com menos jogos decididos por pouco, dois são dos que tomam lavadas e um é o que os aplica. O Atlanta Hawks, o time com a segunda maior margem de pontos de média nas vitórias (8,5), decidiu apenas dois jogos por pouco, venceu um e perdeu um, recorde igual ao do Toronto Raptors. Já o Golden State Warriors, que ganha de muito quando as bolas caem e perde de muito quando não caem, decidiu dois jogos por pouco e não venceu nenhum.

Entre os times com poucos jogos decididos por pouco está o Indiana Pacers, com apenas 4 (duas vitórias, duas derrotas), o que é bem diferente da temporada passada, quando foi o time que mais decidiu jogos por 3 pontos ou menos. Foram 9 vitórias e 12 derrotas, somando 21 jogos (25% dos seus jogos na temporada) em jogos apertadíssimos.

Em prorrogações o líder é o Dallas Mavericks, com 5, três vitórias e duas derrotas. Atrás estão Lakers e Bucks, cada um disputando 4 prorrogações até agora, incluindo uma entre as duas equipes. O Lakers venceu as quatro que disputou e o Bucks venceu apenas uma. Nuggets, Suns, Wolves, Magic, Heat e Nets ainda não jogaram nenhum tempo extra na temporada.

Abaixo a lista do desempenho de todos os times até agora em jogos decididos por 3 pontos ou menos. Os times estão listados na ordem de classificação e tem o número de vitórias, seguido pelo de derrotas.

Conferência Leste
Celtics 4-2
Cavs 1-2
Magic 1-2
Hawks 1-1
Heat 3-1
Raptors 1-1
Bucks 2-8
Bobcats 2-4
-------
Bulls 4-3
Pistons 2-1
Knicks 0-4
Wizards 2-6
Pacers 2-2
76ers 4-4
Nets 1-4

Conferência Oeste
Lakers 5-0
Mavericks 5-0
Nuggets 3-1
Blazers 2-1
Suns 3-2
Spurs 1-2
Rockets 2-3
Jazz 3-1
------------
Thunder 1-3
Hornets 3-1
Grizzlies 2-1
Kings 3-2
Clippers 4-1
Warriors 0-2
Wolves 2-4

É interessante perceber como quase todos os clichês tem algum fundamento. Os times mais experientes e com um bom finalizador, como Lakers, Celtics e Mavs, tem ótimos resultados em jogos disputados, ao contrário de times muito jovens como o Thunder, o Warriors e o Bucks.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Secundário

Mo Williams todo feliz de ganhar uma massagem carinhosa do Varejão


Na NBA, jogadores secundários costumam ter certa dificuldade em serem notados. Marcar 50 pontos numa partida pode garantir uma entrada fácil no mundo da fama, dinheiro e mulheres, mas jogadores especialistas em outras áreas do jogo podem ter atuações fantásticas completamente invisíveis dos olhos do cidadão comum. Um bom defensor, por exemplo, precisa estar num time em que seu trabalho seja necessário, precisa torcer para a equipe ter um ataque competente de modo que ele possa se focar mais na defesa, e acima de tudo precisa estar num time vencedor. São muitas condições ao mesmo tempo, enquanto um bom jogador ofensivo se destaca muito mais até por quem apenas passeia os olhos pelas estatísticas. Mesmo gordo, fora de forma, preguiçoso, todo mundo sabia quem era Zach Randolph porque ele pontuava aos montes, ainda que se isso significasse a derrota de sua equipe. Agora as coisas com nosso gordinho favorito estão diferentes, ele está jogando como nunca, mas pense como excelentes defensores foram completamente esquecidos enquanto lembramos de Randolph pela eternidade.

Apenas faça um teste mental e tente lembrar de onde estão jogando Trenton Hassel ou Yakhouba Diawara, por exemplo, dois excelentes defensores (não vale colar no Google). O pior é que ambos sofrem em busca de minutos porque seus times precisam de outras coisas que os dois não podem oferecer, ou seja, caíram no lugar errado na hora errada. Uma caralhada de jogadores acaba desaparecendo nesse tipo de situação, até mesmo um punhado de pontuadores mais-ou-menos que seriam ídolos em times vencedores. Com o tempo, a ideia de que um jogador precisa estar na situação certa para ser notado começa a ficar mais clara e percebemos que, no fundo, vale mais a pena ser um jogador completamente secundário num time campeão do que ter um baita papel num time fracassado. Ninguém jamais lembraria do Bruce Bowen se ele defendesse num time fracassado, não importa quantas voadoras ele desse na cabeça de seus adversários. Ninguém jamais se lembraria do Mo Williams se ele fosse o arremessador fominha do Bucks. Mas quando o time vence, quando briga por títulos, esses jogadores secundários tornam-se divindades, seus talentos únicos são consagrados, carneiros são sacrificados em seus nomes.

Alguns jogadores percebem isso. Não estou falando dos mercenários estilo Malone, "sou bom pra caralho mas se eu não ganhar um anel de campeão não vão gostar de mim então vou estragar a brincadeira, desequilibrar a NBA e tentar entrar pra história." Me refiro, sim, aos jogadores bons que percebem que podem ser beneficiados por jogar com jogadores ainda melhores. São jogadores que conseguem colocar seus egos de lado, deixam de canto a vontade de mostrar tudo aquilo que podem fazer, e compreendem que ajudando grandes estrelas ou grandes sistemas acabarão constribuindo para seu próprio rendimento. Um exemplo claro é um dos nossos favoritos aqui no Bola Presa, Ron Artest. No Kings, provou que poderia liderar um time meia-boca, pontuar bastante, jogar de costas para cesta, arremessar do perímetro e defender como ninguém. Sempre forçou arremessos, nunca teve bom senso na hora de arremessar, então seu arsenal ofensivo sempre pareceu bobagem perto de sua defesa espetacular. Nos últimos anos, no entanto, pouco se falou sobre seu talento defensivo, até que ele percebeu que ajudar Kobe Bryant é o melhor modo de ajudar a si mesmo. Alguns jogadores poderiam reclamar de um papel mais limitado, de não poder mostrar todo o poder ofensivo, de abaixar a cabeça e beijar o bumbum de Kobe, dos minutos em quadra, da falta da bola em suas mãos, mas Artest entende a glória que o espera no futuro, quase como a centena de virgens que esperam um terrorista suicida muçulmano. Quietinho, na dele, sem arrumar problemas, sem pedir mais a bola, sem pedir mais espaço na equipe, Artest pode se dedicar à defesa e agora, porque está à vista de todo mundo e tem tudo para ganhar um anel de campeão, seu talento é amplamente reconhecido. Suas chances de levar o prêmio de melhor defensor da temporada nunca foram tão grandes, e olha que com a idade ele nem de longe anda defendendo como nos seus tempos áureos. Mas os torcedores do Lakers vão chupar o dedo mindinho do pé do Artest para sempre caso venha um campeonato, suas técnicas defensivas serão lendárias e um templo será erguido em sua honra. Enquanto isso, aos pouquinhos, mais e mais responsabilidade vai caindo em seu colo. Phil Jackson andou pedindo que Artest seja mais agressivo no ataque, pedindo mais a bola e arremessando mais. Dá pra imaginar que realidade alternativa é essa em que é preciso pedir para o Artest arremessar mais? O que acontece é que fazendo sua função direito, mais e mais espaço vai surgindo para o jogador secundário conforme for surgindo a oportunidade. Pode ser apenas um jogo em que o Kobe está mal e isso já é o bastante para a crítica e o público babarem em cima de uma excelente atuação salvadora de Artest, muito mais fácil do que ter que ficar chutando traseiro todos os jogos para ser percebido em algum time mequetrefe por aí.

Até um jogador pelo qual tenho tanta birra, o Mo Williams, se encaixa nessa história. No Bucks ele era um fominha maluco desesperado por atenção, ignorando ordens técnicas, se recusando a passar a bola para o Michael Redd (então estrela de seu time), arremessando sem critério nenhum. Quando foi para o Cavs, fiquei desesperado com a ideia de um fominha tirando a bola das mãos do LeBron James, mas a verdade é que Mo Williams percebeu rápido que sua vida é muito mais fácil em Cleveland. Se ele obedece direitinho e deixa o LeBron armar as jogadas quando quer, se ele só força arremessos quando o LeBron está no banco ou tendo um dia ruim, ele passa a ser o herói que salvou o dia - sem ter que salvar o time todos os dias. Basta um par de atuações boas quando LeBron está mal, basta se focar nos seus arremessos de fora, basta entender que sua grande chance de figurar entre os grandes está em ser menor do que ele queria ser em Milwaukee.

Curiosamente, Artest e Mo Williams se enfrentaram na rodada de Natal. A gente acabou engasgando de tanto chester (a famosa ave mutante) e passamos uns dias longe do blog, sem comentar a rodada natalina, mas para quem não viu é importante saber que o Cavs chutou o traseiro gordo do Lakers. Artest fez sua parte defensivamente, ao menos aquilo que um mamífero bípede pode fazer quando não está munido de armas de fogo, mas quem realmente deixou sua marca na partida foi o Mo Williams. Acertou suas bolas quando todo mundo esquece que ele está em quadra, não forçou nada e fez muitos pontos fáceis graças à defesa fortíssima do Cavs que voltou a se encontrar. Aliás, muita gente comentou que o Cavs estava fedendo no começo da temporada porque não sabia como encaixar o Shaq direito no ataque. A desculpa foi dada por vários jogadores, incluindo o LeBron, mas é uma baita de uma besteira porque o Shaq mal participa do ataque e a movimentação ofensiva continua aquela merda de sempre. O que o Cavs demorou pra se acostumar foi com o Shaq na defesa, sua presença no garrafão e como isso altera as ajudas defensivas da equipe. O ataque do Cavs é uma vergonha, mas funciona justamente porque todo mundo lá sabe que é secundário, todo mundo sabe seu papel, sabe que está na história por jogar com LeBron James, então ninguém tenta fazer o que não consegue (só o Varejão, mas o bizarro é que ele agora anda conseguindo, está jogando demais no ataque, vai saber de quem ele roubou o talento). A defesa, sim, é que o ganha os jogos para eles e agora que tudo está encaixado novamente, o Cavs volta a figurar entre os favoritos ao título. O Shaq é fundamental nisso porque compreendeu que está velho, quebrado, desdentado e no momento de sua carreira de ajudar outros jogadores mais novos. Ele acha divertido jogar com LeBron, toma umas caipirinhas com o Varejão, não reclama de jogar poucos minutos e nem de ser contratado só pra parar defensivamente outros jogadores específicos (no Suns ele chegou apenas com a função de marcar Duncan, no Cavs sua presença é só para marcar Dwight Howard).

O Lakers não soube lidar com uma defesa tão forte, com um Mo Williams secundário e orgulhoso disso, com uma arbitragem que não estava muito afim de marcar faltas no Kobe a cada entrada no garrafão, e com um Shaq que marcou direitinho o pirralho do Bynum. O Lakers continua sendo o grande favorito para o título e o Cavs volta a ser considerado, mas no grande jogo do Natal em que deveríamos ver o confronto dos melhores do planeta em Kobe e LeBron, quem roubou minha atenção foram os jogadores secundários que escolheram ser secundários e, por isso, brilham muito mais. Nada do Artest fedendo em Sacramento tendo que forçar arremessos ou do Mo Williams sendo um fominha no Bucks, os dois agora sabem que são apenas pequenas peças perto de grandes estrelas - e que serão lembradas pela história graças a isso. Quando o Jarryd Bayless diz que quer ser o Mo Williams para o Brandon Roy interpretando o LeBron, então, ele tem muita razão: aceitar ser um jogador secundário costuma ser mais recompensador do que tentar ser uma estrela solitária, e não faltam oportunidades de brilhar. Quando o Brandon Roy marcou 41 pontos contra o Nuggets na noite de Natal para ganhar o jogo numa boa, o Bayless não precisou fazer bulhufas, mas quando o Roy sentou no jogo anterior com dores no ombro, Bayless enfiou 31 pontos na vitória contra o Spurs. É possível ser inconstante, é possível ser mais-ou-menos, basta estar do lado das pessoas certas e aceitar isso. Aceitar, no universo de ego da NBA, é a parte mais difícil, claro. Tracy McGrady, por exemplo, não muito depois da minha análise sobre a oportunidade de ouro que estava recebendo com pouquinhos minutos em Houston, resolveu ir embora pra casa descontente com seu papel na equipe. Dizem que ele usava uma máscara de Allen Iverson enquanto fazia isso, mas não posso confirmar. Só posso afirmar que é preciso cabeça para aceitar um papel secundário, e que é bom ver o sucesso daqueles que topam. Mas sobre o T-Mac e seu futuro, a gente conversa depois. Será que algum time se interessa pela ex-estrela? Será que ele entende, como Shaq, que já é hora de ajudar os jogadores mais novos a terem espaço em quadra? Para seu bem, esperamos que sim.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A minha rodada de Natal

O Natal tem seu lado bom

O dia 24 de dezembro é uma das poucas noites durante a temporada regular que não tem nenhum jogo. David Stern esquenta um pouco seu coraçãozinho e deixa uma noite para os jogadores se encontrarem com suas mulheres, famílias, amigos ou putas de luxo favoritas.

Aí depois, no dia 25, é a grande rodada da temporada. Enquanto outros dias de jogos são escolhidos quase sempre por computador, o dia do Natal é montado com alguns duelos bastante esperados. Tirando o ano passado, quando se enfrentaram Lakers e Celtics, os últimos anos eram essencialmente o dia de Kobe e Shaq se enfrentarem. Também colocavam para se enfrentar times que tinham tido alguma boa série de playoff no ano anterior.

Nesse ano a rodada tem Heat x Knicks, Nuggets x Blazers, Suns x Clippers, Lakers x Cavs e Magic x Celtics.

Sinceramente eu acho a rodada de Natal mais fraca dos últimos anos. Ter o Heat é legal porque tem o Wade, eles tem feito alguns bons jogos contra o Knicks nos últimos anos, mas ter o Knicks que só quer perder numa rodada de Natal é ridículo. Nuggets e Blazers é um bom confronto mas sem histórico recente nenhum, esse era jogo pra jogar numa quinta-feira qualquer e pronto.

Os grandes jogos, porém, são os outros dois, os que vão passar na TV aberta dos EUA. Celtics x Magic é um revival da série de 7 jogos da semi-final do Leste do ano passado e Lakers x Cavs é só pelo confronto Kobe e LeBron.

Só que os confrontos de Kobe e LeBron não costumam ser muito bons. Geralmente eles se marcam por muito pouco tempo, nenhum nunca teve desempenho extraordinário contra o outro (o Lamar Odom foi a grande estrela do último jogo!) e eles se respeitam até demais, rivalidade passa longe desse duelo. Mas como criticar é fácil, coloco abaixo os cinco jogos que formariam a minha rodada de Natal ideal.


Cleveland Cavaliers x Orlando Magic













Nada de LeBron enfrentando o Kobe. Quero ver o LeBron ser perseguido pelo Mickael Pietrus como na final do Leste do ano passado! O Cavs ficou engasgado com aquela derrota de 4 a 2 em que o LeBron foi embora sem congratular seu adversário e gerou uma baita polêmica.

Embora não tenha sido 4 a 3 como a série contra o Celtics, a rivalidade ficou bem mais forte entre Cavs e Magic. O confronto ainda teria o bônus de ter o confronto entre Shaquille O'Neal e Dwight Howard. Os dois já se pegaram feio quando o Shaq estava no Suns e rolou um trash talk entre os dois, o confronto é ainda mais importante agora que dizem que o Cavs contratou o Shaq só para ter alguém pra segurar o Dwight. É Superman velho x Superman novo como se fosse uma história em quadrinho ruim.

Sacramento Kings x Milwuakee Bucks

















Tá bom, não vou culpar a NBA por essa. Quem diria, dois meses atrás, que um jogo entre Bucks e Kings poderia ser bom? É mais fácil prever o fim do mundo baseado no calendário de uma civilização extinta.

Porém todo o hype em torno do confronto entre os armadores Tyreke Evans e Brandon Jennings foi válido e a partida disputada pelas duas equipes foi boa, disputada e decidida no último segundo. Se tivesse sido no Natal ninguém teria do que reclamar. E se as contusões não atrapalhassem poderíamos acompanhar também o duelo entre dois arremessadores esquecidos, Kevin Martin e Michael Redd correndo um atrás do outro como Hamilton e Ray Allen.

Só o israelense Omri Casspi do Kings que não ia entender porque todo esse auê em volta da rodada de Natal. Tá, um cara qualquer nasceu, e daí?

Miami Heat x Atlanta Hawks
















Se a NBA quer colocar o Wade pra jogar no dia de Natal, não tem um adversário melhor que o Hawks. Ano passado os dois times se pegaram numa série de playoff muito boa de 7 jogos, decidida nos detalhes. O confronto de Wade com Joe Johnson rendeu bons momentos e os dois times são muito bons, não seria um confronto só de nome como é o com o Knicks, seria um bom jogo de basquete mesmo.

E não faria nenhum mal ter um jogo em rede nacional para todo mundo ver o Josh Smith mandar suas enterradas e tocos também. Quem sabe assim o número de votos do J-Smoove para o All-Star Game não cresce? Vocês viram o número de votos do T-Mac e do Iverson para o All-Star? O pessoal precisa aprender a ter novos ídolos...

Denver Nuggets x Dallas Mavericks















Ano passado Nuggets e Mavs fizeram uma série de playoff muito melhor do que o seu resultado indica. Aquele 4 a 1 final não mostra que a arbitragem foi decisiva para que o Mavs não empatasse a série em 2 a 2. Não que o Denver, melhor time, não merecesse a vitória, mas ficou um gostinho esquisito para o time do Mark Cuban.

Nada melhor do que uma revanche na rodada mais importante do ano pra tirar a nêga. Seria também o confronto entre os dois times que atualmente dividem a segunda posição no Oeste e devem brigar ferozmente por essa vaga até o fim da temporada regular.

Os duelos individuais dão o toque final: Billups e Kidd pra render discussão sobre os melhores armadores da década, Josh Howard e Shawn Marion se revezando para parar o cestinha da temporada Carmelo Anthony, o duelo de reservas entre JR Smith e Jason Terry e, claro, Dirk Nowitzki e Chris Andersen! Os dois se pegando nos playoffs do ano passado foi o mais próximo que já chegamos de luta livre na NBA desde a briga de Pistons e Pacers em 2004.

Los Angeles Lakers x Boston Celtics












Para o inferno com essa rivalidade inventada entre LeBron e Kobe. Quero ver o circo pegar fogo! Kobe e Ray Allen não se suportam, Gasol e KG se matam dentro do garrafão, as torcidas das duas equipes se odeiam demais e eles tem um histórico de rivalidade que supera qualquer outro em toda a NBA. E se tem rivalidade histórica, recente e os dois melhores times da NBA, por que não um jogo deles no Natal?

E daí que não se enfrentaram na final do ano passado? Duvido que uma partida entre essas duas equipes não teria o clima de playoff que essa rodada de Natal pede. Aquele jogo do 25 de dezembro do ano passado foi, sem dúvida alguma, a melhor partida da temporada regular, seguida de perto pelo outro jogo entre as duas equipes que foi para a prorrogação em Boston. Enquanto Lakers e Celtics tiverem times fortes, um confronto entre eles no Natal deveria ser obrigatório.

E já que citei a briga do Pistons com o Pacers em 2004, que tal o Lakers-Celtics agora ter como bônus Rasheed Wallace e Ron Artest? Não acredito que deixaram essa passar...

...
Feliz Natal pra quem acredita, feliz jantar forçado em família para quem não acredita (presente!) e boa rodada de NBA pra todo mundo!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O próximo grande chato

Os dois são chatos, mas o Tyreke Evans é o da direita


O ano está terminando, a temporada da NBA caminha para a metade, mas eu já escolhi quem ganhará o prêmio de novato do ano quando a temporada estiver terminada. Não posso falar disso por aí, pega mal decidir o vencedor de um prêmio tão cedo, não é profissional, não é correto, não é ético e eu vou perder minha licensa internacional de blogueiro que me dá meia entrada nos cinemas. Mantenho então como um segredo, escondido do mundo. Em plena madrugada, quando estou assistindo meu amado Houston Rockets jogar, vou torcendo secretamente para o jogo acabar logo, pra não ir pra prorrogação, pro placar se alargar logo pra eu não ter que assistir o quarto período - tudo para eu poder mudar logo para o jogo do Sacramento Kings.
Da última vez em que isso aconteceu, sequer lembro contra quem o Houston estava jogando, se o time venceu ou se perdeu, só sei que mudei o mais rápido possível para o Kings enfrentando o Wizards porque eu sabia que o meu calouro do ano estaria engolindo com azeite e sal os armadores adversários. Tyreke Evans é um absurdo de tamanho e força, quem diabos seria capaz de segurá-lo no elenco mirrado do Wizards, que não comeu feijão o bastante? Quando passei a acompanhar o jogo, já no segundo tempo, Evans estava literalmente dentro do garrafão em todas as posses de bola, jogando de costas para a cesta, dando tapas no bumbum dos seus marcadores. Quando o anão do Earl Boykins entrou em quadra, não pude deixar de gargalhar: o Tyreke Evans era provavelmente maior do que o Boykins já no segundo em que saiu do útero de sua mãe (por cesariana, esperamos, pelo bem da pobre senhora).

Arenas sofreu dos dois lados da quadra: na defesa tinha que se virar no muque tentando empurrar Evans pra fora do garrafão, enquanto no ataque tinha que lidar com a força de Evans quando tentava infiltrar. Na jogada final, Evans roubou a bola de um Arenas que tentava empatar o jogo e assim garantiu a vitória do Kings. Na coletiva, Tyreke Evans contou sobre sua conversa com Arenas:

"Gilbert me disse depois do jogo que ele espera que eu ganhe o prêmio de Novato do Ano. Mas ele também me disse que espera que eu comece a jogar na posição 2 para que ele não tenha que me marcar nunca mais."

Isso é o que mais assusta com relação ao Tyreke Evans: ele está jogando improvisado em uma posição com a qual não tem grandes experiências. Na universidade, não era ele quem iniciava as jogadas ou organizava o ataque. Sua função sempre foi bater para dentro do garrafão, mas sua excelente visão de jogo sempre garantiu que encontrasse seus companheiros livres com os passes certos. Foi isso que permitiu a fé do Kings de que ele poderia ser o armador principal da equipe quando o escolheram na noite do draft. O time, montado ao redor do Kevin Martin, não precisava de um jogador na posição 2 para roubar minutos de sua estrela. O que eles tanto queriam era alguém para organizar a movimentação ofensiva, jogar na posição 1, capaz de envolver seus companheiros. Evans foi uma decisão ousada, duramente criticada, porque o draft tinha mais armadores puros do que a Mari Alexandre tem de capas de revista masculina na carreira, dava pra escolher uma dúzia e ver se vinha desconto. O engraçado é que todos esses armadores deram certo, todos estão tendo excelentes temporadas, mesmo aqueles que jogam minutos extremamente limitados (como o Ty Lawson ou o Darren Collison). Mas nenhum deles, nem mesmo Brandon Jennings, deu tão certo na brincadeira quanto Tyreke Evans, justo o cara que foi improvisado na posição. Desde que o Kevin Martin se contundiu e o Evans tem carta branca para passar mais tempo com a bola nas mãos e fazer o que quiser (só não pode dançar pelado em cima da mesa do chefe), sua produção tem sido espetacular. Sua média de 20 pontos, 5 rebotes e 5 assistências até agora coloca o rapaz num grupo muito seleto. E não é um seleto "escolhidos para participar do Big Brother" ou "eu gosto de banana com queijo ralado" no Orkut, estamos falando de um seleto de respeito: apenas Oscar Robertson, Michael Jordan e LeBron James são detentores dessas estatísticas durante seus anos de novato. Que tal?

Foi essa estatística que colocou Tyreke Evans no mapa. Antes disso, ninguém parecia muito interessado em ver jogos do Kings mesmo com o time sendo a maior surpresa da temporada até agora, e meu apreço pelo time - e pelo novato - se mantinha mais escondido do que vício em cocaína. Agora todo mundo quer espiar, e com razão. Não apenas o Kings é um dos times mais divertidos de se acompanhar, tem também o bônus de ver o futuro ganhador do prêmio de calouro do ano chutando traseiros. Não é sempre que podemos ver armadores tão dominantes fisicamente, afinal eles não dão em árvore. Acompanhar a temporada de novato do LeBron, em que ele jogava de armador principal, por exemplo, foi uma coisa pra contar pros netinhos. O Brandon Jennings é fodão, a gente já babou ovo por ele o suficiente aqui no blog, mas seu estilo de jogo é completamente diferente. Na verdade, é quase como se o Evans e o Jennings fossem opostos perfeitos, se fosse história em quadrinhos eles seriam arqui-inimigos. Enquanto o Jennings é um magrelo que domina na habilidade e na velocidade (e num arremesso de três pontos que nem a mãe dele sabia que ele tinha), o Evans domina na força e na simplicidade (em geral batendo pra dentro pra disfarçar o arremesso meia-boca). Já critiquei o Jennings por exagerar nas firulinhas, embora seu jogo seja visualmente maravilhoso, cheio de personalidade e criatividade. O Evans, por sua vez, não força o jogo, não faz nada além do necessário. Em matéria de armar as jogadas, é o cúmulo da simplicidade, típico de quem recebeu um trabalho novo e não tem vontade nenhuma de fazer merda com aquilo que não sabe. Diz a lenda que Tyreke Evans desligou a TV quando viu uma matéria comparando ele com Jordan e LeBron, ele não quer que as coisas subam à cabeça, leva tudo muito a sério e não há espaço em seu jogo para o desnecessário. Ele é o Duncan dos armadores, mas com algum grau de expressão facial (só algum). O resultado é um rapaz que se nega a perder mesmo num time que deveria feder, um elenco que responde acreditando em vitórias impossíveis, e um técnico que confia em seu armador a ponto de experimentar qualquer coisa durante um jogo - seja deixando a bola nas mãos de Evans o tempo todo, seja colocando ele para jogar dentro do garrafão para dar um cacete (e pesadelos) no Gilbert Arenas.

O Jennings pode ter um punhado de jogos com 55 pontos, pode levar o Bucks pros playoffs e tirar o papel de estrela da equipe das mãos do Michael Redd. Mas ainda fico com Tyreke Evans, que aliás tem possibilidades bem similares: terminar a temporada com uma média histórica, levar o Kings para os playoffs e tirar o papel de estrela da equipe das mãos do Kevin Martin. Mas o Evans está aí improvisado, dominando uma das posições mais difíceis da NBA, e fazendo isso com uma seriedade única entre os novatos. Eu perdi a chance de me divertir com o Duncan por muitos anos porque achava o cara muito chato, talvez essa seja minha redenção, acompanhando a carreira do Evans desde o comecinho. Que ele seja chato, que ele seja eficiente, que ele seja burocrático, que ele faça arremessos usando a tabela, vou aproveitar cada segundo de jogo do novato. Quando eu começar a esboçar um bocejo, terei pelo menos a certeza de que o Kings é divertido pra burro de assistir - divertido como apenas os times inteligentes e subestimados podem ser. O Kevin Martin, como eu já comentei, já é um dos meus jogadores favoritos da NBA, com aquela forma de arremessar que parece que ele teve um derrame antes de entrar em quadra, mas agora fico torcendo secretamente pra ele não voltar tão cedo às quadras. Assim como o Houston, que cozinhou o Tracy McGrady por quanto tempo conseguiu para não complicar a química do time, aposto que o Kings não tem nenhuma pressa para que sua estrela volte. É isso que aprendemos com esse Kings: draftar um armador improvisado, mesmo num draft recheado de armadores puros, pode dar certo se a escolha é feita com base em talento. E também aprendemos que construir um time em volta de um armador com cara de jogador secundário como o Kevin Martin não dá muito certo, mas isso é assunto para a gente conversar depois (será que o Hawks, que montou um time em volta do Joe Johnson, confirma ou refuta essa teoria?). São as lições de um time que deveria estar fedendo, que deveria ter feito a escolha errada no draft, mas que deu certo e tem tudo pra ter o calouro do ano. Eu já escolhi o ganhador do prêmio, alguém já quer apostar?

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A derrota do ano

Noah, Thomas e Deng procuram uma explicação

Se estivéssemos dentro do submundo do futebol brasileiro, o Vinny Del Negro já estaria desempregado desde o primeiro segundo após a derrota de ontem. Você ainda não sabe o que acontece ontem? Prepare-se.

O primeiro jogo da noite foi Indiana Pacers e Milwaukee Bucks, um jogo que eu não pensaria em assistir se não fosse o Brandon Jennings. Só que o novato-sensação (que narrador falava assim?) não começou bem e alguns minutos depois eu percebi que estava apenas assistindo ao Ersan Ilyasova, a Lady GaGa da NBA, jogar. Sério, não que ele seja ruim, mas ele é bizarro, é uma outra espécie que se infiltrou no meio de nós, assim como a senhorita p-p-p-poker face.

Então mudei para o outro jogo que estava rolando, Orlando Magic e Utah Jazz. Tinha tudo pra ser um bom jogo, mas tava mais chato que a torcida do Jazz. Muitos turnovers, faltas e até os uniformes dos dois times são feios. Esperei então começar Kings e Bulls e fui lá conferir o confronto entre Tyreke Evans e Derrick Rose.

Quebrei a cara de novo. Com dois minutos de jogo o Bulls já estava esmagando o Kings, com cinco o jogo já parecia acabado. Era turnover atrás de turnover para o Kings enquanto todo mundo no Bulls acertava qualquer arremesso que tentava. Já disse que é nessas horas em que dá tudo certo que os Radmanovics da vida aparecem acertando tudo que é arremesso, tem cara que só funciona quando o jogo tá fácil.

Depois de ver o Jazz e o Magic empatarem por 40 a 40 no primeiro tempo de um jogo, tinha visto o Bulls meter 38 em um período em um Kings sem resposta. O segundo quarto foi um pouco mais disputado, mas o Bulls venceu por 5, levando para o vestiário uma vantagem de 24 pontos. Nessas horas o técnico do time que está perdendo sempre diz "vamos começar com tudo para diminuir pra 15, depois 10 pontos". O Kings não fez isso. Começou fedendo mais ainda e faltando 8 minutos para o fim da partida o desastre chegou a seu topo: 35 pontos de vantagem, 79 a 44.

Hora de jogar a toalha e colocar os jogadores que jogam pouco em quadra. Ao lado do Tyreke Evans estavam então Sergio Rodriguez, Ime Udoka, Donte Greene e o novato com nome de personagem do Pokémon, Jon Brockman. Aí das duas, uma: ou estavam tão relaxados que só jogaram basquete e tudo começou a dar certou, ou o time é tão novo que eles não sabiam que não dá pra vencer um jogo que se está perdendo por 35 no terceiro período.

Com algumas bolas de 3 em um jogo totalmente comandando pelo Spanish Chocolate, Sergio Rodriguez, a diferença caiu para 20. O Bulls, muito relaxado na defesa e forçando as jogadas individuais no ataque, não percebeu o sinal de alerta e continuou com um jogo patético, o completo oposto do jogo do primeiro quarto. E, claro, os Radmanovics nem tentam arremessar nessa hora do jogo. Jason Thompson então entrou no lugar do Greene e o Udrih no lugar do Sergio Rodriguez, o time não perdeu o ritmo e continuou agressivo.

O Bulls conseguiu fazer apenas 10 míseros pontos no quarto período inteiro. 5 do Hinrich, 2 do Salmons, 2 do Rose e um do Deng. Destes, só 4 dos 5 do Captain Kirk que não foram de lances livres. Desde aquele momento dos 35 pontos de vantagem o jogo foi 58 a 19 para o Sacramento Kings!!! Nem nos jogos escolares de São Bernardo quando o time da minha escola e do Danilo enfrentou o saudoso Colégio Leonor o jogo foi tão fácil!

O Bulls já estava com cara de "perdemos, que vergonha!" mesmo quando a diferença estava em 5 e sendo cortada por bolas de 3 do Ime Udoka, mas mesmo assim o Kings precisava fazer sua parte e além do Udoka, foi o Tyreke Evans, de novo, quem acertou arremessos insanos e infiltrações dificílimas para virar a partida. O mesmo Tyreke que em uma semana roubou uma bola do Arenas na última posse de bola do jogo contra o Wizards, que fez a bandeja no último segundo contra o Bucks, que está com médias de 20 pontos, 5 rebotes e 5 assistências, que é 9º colocado na lista de MVPs do site da NBA e que ontem destruiu com o Kirk Hinrich, um dos melhores defensores da NBA.

Não vou me extender em falar dele porque o garoto merece um post só sobre ele, só vou colocar aqui a frase que Gilbert Arenas disse para o Tyreke depois do último Kings-Wizards, "Garoto, espero que você passe a jogar de segundo armador para eu nunca mais precisar enfrentá-lo de novo".

Para o Kings foi a maior virada da história da franquia, para o Bulls a maior vergonha dos últimos anos e para o Vinny Del Negro quase a gota d'água. Eu já disse em outro post que não acho o Del Negro ruim, principalmente julgando o time da temporada passada, que ele transformou em uma bela equipe depois das aquisições do Brad Miller e do John Salmons, mas sua insistência em usar apenas 7 jogadores na rotação, em ignorar o novato James Johnson e o resepeito que ele parece ter perdido em relação aos jogadores parecem indicar que seu ciclo no Bulls está perto do fim.

Eu achei que a direção do time iria repetir o feito muito cristão de dispensar um técnico na véspera de natal como fizeram com o Scott Skiles, mas hoje já soltaram uma nota dizendo que o Del Negro tem até a metade de janeiro para mostrar uma evolução no time ou estará fora. Não sei se a pressão de ter um deadline vai motivar ou desesperar o Del Negro, mas por mais algumas semanas o Bulls terá o mesmo técnico.

Achei curiosa a frase do Del Negro após o jogo, pouco contente com sua equipe: "Não somos bons o bastante para tirarmos um minuto de folga, imagina um tempo inteiro". Fato, Sr. Del Negro, seu time não pode se dar a esse luxo mas cabe a você transformar o time em algo melhor. Não dá também pra isentar os jogadores, nem Rose, nem Deng, Salmons ou Hinrich, que estavam voando no primeiro tempo, foram capazes de dar uma segurada no Kings.

Nessas horas em que o time não funciona e no finalzinho, quando qualquer ponto vale muito, algumas jogadas individuais salvam jogos. Uma derrota de lavada, assim como uma virada homérica, nunca é culpa só dos jogadores, só do técnico e nem só mérito do adversário, pra se tirar 35 pontos em 20 minutos de jogo precisa tudo acontecer ao mesmo tempo. Mas se na NBA é diferente do nosso soccer, onde o técnico já estaria na rua, é igual quando a qualquer sinal de problema o técnico é o primeiro a dar espaço para um novo.

Eu era contra um técnico novo até ontem, mas depois dessa virada tenho minhas dúvidas se ele ainda tem o respeito dentro do vestiário e com os dirigentes da equipe. Quando o clima começa a ficar ruim talvez seja melhor trocar, até mesmo se o cara não for totalmente culpado. Viúvas do Jordan, podem desabafar nos comentários.

Abaixo os melhores momentos do jogo mais bizarro da temporada até agora



Quarto Quarto
Pessoal, o Quarto Quarto, nosso blog no Portal da MTV, ficou um tempo sem atualização porque eles mudaram a senha de acesso e ficamos sem poder postar. Algumas reclamações depois tudo voltou ao normal e estou postando lá todos os dias um resumão da rodada, com poucas linhas sobre todos os jogos. Lá você pode ver os desfechos dos jogos que eu desisti de ver em prol de Bulls e Kings. (O jogo do Pacers acabou nas mãos tortas do TJ Ford, foi terrível!)

Não é nada ambicioso mas espero que seja divertido pra quem lê e útil pra quem não acompanhou os jogos. O endereço do Quarto Quarto é www.mtv.com.br/quartoquarto

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Zach Randolph versão 2004

Jeitinho sexy sexy sexê

Era o jogo 4 da série de primeira rodada do playoff de 2003 entre Dallas Maverick e Portland Trail Blazers. O Dallas vencia a série por 3 a 0, placar que nenhum time jamais foi capaz de virar, e era anunciado ao público de Portland que no time titular, ao invés do experiente pivô Dale Davis, entraria como ala de força titular um gordinho em apenas seu segundo ano na liga, começando apenas seu 12º jogo na carreira. Zach Randolph.

Perdendo por 3 a 0 do Dallas Maverick, o técnico Maurice Cheeks resolveu que era hora de arriscar. Alguém no elenco do Blazers tinha que ser capaz de parar Dirk Nowitzki, que havia feito mais de 40 pontos em duas das primeiras três partidas da série.

A escolha surpreendeu porque Randolph não tinha se destacado muito na série. Havia feito 4 pontos em 20 minutos no jogo 1, 3 pontos em 11 minutos no jogo 2 e 8 pontos em 22 minutos no jogo 3, mas impressionou nesse último quando pegou 10 rebotes, 5 deles ofensivos. Antes disso, na temporada regular, tinha acabado com médias de 8 pontos e 4 rebotes em 16 minutos de ação por noite, um mero coadjuvante.

O jogo 4 finalmente começou e embora Dirk ainda tenha sido efetivo, com 26 pontos e 11 rebotes, encontrou um adversário à altura. Randolph marcou 25 pontos e pegou 15 rebotes, levando o Blazers à sua primeira vitória na série. O jogo 5 era em Dallas, para o Mavs fechar a série. Mais uma vez Dirk foi bem, mas o Blazers se superou e venceu, com Zach Randolph como cestinha daquela equipe que tinha Arvydas Sabonis, Rasheed Wallace, Derek Anderson, Damon Stoudamire e Bonzi Wells.

O jogo 6 foi a glória. A torcida de Portland acreditava no empate, o ginásio estava bombando e Dirk foi marcado bem, sentiu a pressão e pela primeira vez na série marcou menos de 20 pontos, aliás, bem menos, acabou com 4. Zach Randolph fez seu terceiro 20-10 seguido como titular e levou o Blazers a um improvável empate na série. Mas, como nós sabemos, nenhum time conseguiu virar um 0-3 na história dos playoffs. O Blazers não aguentou o jogo 7 em Dallas e, com 31 pontos de Nowitzki, o Mavs levou a série. Randolph encerrou os playoffs com mais um double-double e a certeza de que era o homem do futuro no Trail Blazers.

O ano seguinte era o último de seu contrato e ele jogou demais. Foi titular nos 80 jogos que disputou, teve média de 21 pontos, 10 rebotes e até deu 41 tocos em toda a temporada. Ruim para um ala de força mas excepcional pra um cara que tem como segunda melhor marca 17 tocos numa temporada inteira. Coroando a temporada foi eleito o jogador que mais evoluiu e assinou um contrato de seis anos no valor de 84 milhões de dólares. E aí começou a desgraça.

Quando um cara no seu terceiro ano de carreira, de quem não se esperava muita coisa, faz 20 pontos e 10 rebotes, é festa. Quando ele é contratado para ser a pedra fundamental do seu time, além dos 20 pontos e dos 10 rebotes espera-se liderança, dedicação e, principalmente, vitórias. Mas não, depois que virou titular o Blazers nunca mais foi para os playoffs até trocá-lo, aliás o Randolph nunca mais jogou um jogo de playoff desde aquele jogo 7 em Dallas.

Nesse tempo ele foi de herói a piada. Era o cara que não corria, o que não defendia, o que aparecia cada dia mais gordo e o que nunca passava a bola não importava o que acontecesse. Ele era o famoso buraco negro do ataque, se a bola chegasse na mão dele, não voltava nunca mais. Não à toa, virou motivo de piadas diárias aqui no Bola Presa. Zoar com o gordinho sempre foi mais fácil.

Depois de 3 anos de Z-Bo como jogador principal da franquia, o Blazers viu que aquilo não tinha futuro e acharam um doido para aceitar seu contrato: Isiah Thomas, claro. Foi para o Knicks em troca de Steve Francis. A torcida do Knicks achou o máximo no primeiro dia, alguns jogos depois viu o quanto aquele "20 pontos, 10 rebotes" na caixa de estatísticas podem ser mentirosos.

Randolph é o que o genial blog Basketbawful chama de "um jogador 20-10-50". É um cara que toda temporada vai te garantir 20 pontos, 10 rebotes e 50 derrotas. E caçando a história da NBA você vê que existem jogadores assim e que o Randolph tem recordes nesse grupo.

Nos anos 80 apenas dois jogadores conseguiram um 20-10-5o: Terry Cummings em 82-83 e Otis Thorpe em 87-88. Nos anos 90, aconteceu apenas três vezes, com Roy Tarpley, Pervis Ellison e Derrick Coleman. Nos anos 2000, foram oito: uma vez com Shareef Abdur-Rahim, uma com Kevin Garnett e duas com Al Jefferson, Elton Brand e, claro, Zach Randolph.

Mas Randolph é um caso extremo. Conseguiu a proeza na temporada 06-07 com o Blazers e na temporada passada conseguiu de maneira dupla, já que os dois times pelo qual jogou, Knicks e Clippers, acabaram com 50 derrotas! E nas temporadas 04-05 e 05-06 ele só não conseguiu a marca porque, por pouco, não chegou na média de 20 pontos.

Nessa temporada era a chance dele conseguir a tríplice coroa, uma terceira temporada seguida com três times difrentes e a mesma marca patética de 20-10-50, mas não é que o puto resolveu jogar basquete?

Não sei se é o técnico, se são os companheiros de time, se é o esquema tático, se ele conheceu uma mulher que o colocou na linha, se entrou na Bola de Neve Church, sei lá e não importa, o que vale é que nesse mês e meio de NBA estamos vendo aquele Zach Randolph dos 4 jogos como titular contra o Mavs.

Sempre gosto de deixar isso claro e deixarei de novo: não pegamos no pé dele nesse blog porque achamos o Randolph ruim, pegamos no pé porque ele consegue a proeza de, mesmo sendo muito bom, estragar os times em que joga só porque não tem vontade e disposição nem para ficar em forma. Não vamos pegar no pé do Mark Madsen ou do Kwame Brown, eles são só ruins, fazemos uma piadinha e pronto.

Lembro que em 2004 era muito difícil acompanhar os jogos, não era como hoje que tem League Pass e o caralho. Tinha que torcer para a ESPN passar alguma coisa ou passar dias baixando jogos ou melhores momentos pra ver no computador. Acho que vi mesmo apenas um jogo daquela série de 2004 (a ESPN estava ocupada demais mostrando o Spurs chutar a bunda de outro 20-10-50, Stephon Marbury) e o Randolph foi uma puta surpresa. Na temporada seguinte, finalmente a TV ia passar um jogo do Blazers e eu e o Danilo fomos ver só pelo Z-Bo, foi naquele mesmo dia que o termo "buraco negro" foi cunhado.

Hoje, tantos anos e piadas depois, fico até feliz de ver o Randolph jogando bem. De tanto tirar sarro ele virou foco da minha atenção, sempre corro pra ver como ele está jogando. E não só ele como todo o time do Memphis Grizzlies está bem nessa temporada. Eles não tem banco de reservas além de alguns minutos de inspiração do Jamal Tinsley e do Sam Young, mas estão se virando muito bem. Hoje, com 12 vitórias e 15 derrotas, estão em antepenúltimo do Oeste, mas apenas 2,5 vitórias da zona de playoff e se estivessem no Leste estariam se classificando para a pós-temporada em 6º lugar!

Um dos motivos para o time estar bem assim é o jogo nada egoísta dos armadores Mike Conley e OJ Mayo, esse último aliás diziam que era um fominha antes de entrar na NBA. Depois porque Rudy Gay está fazendo pontos como se fosse um Carmelo Jr, de todos os cantos da quadra, e também porque o Marc Gasol está fazendo a troca do seu irmão para o Lakers parecer bem menos idiota. Tudo isso ajuda, mas não dá pra ignorar a importância do Randolph nesse time.

O Gasol é muito bom mas não dá conta do ataque sozinho, quem tira pressão dos jogadores de perímetro é o Randolph, fazendo seus pontos e passando muito mais a bola. Ainda comete muitos turnovers e de vez em quando quer ser herói e forçar arremessos, principalmente quando os jogos estão perto do final, mas vamos dar um desconto, isso não é desenho da Disney e ele não vai ficar perfeito da noite pro dia. O negócio é que ele está muito mais maduro, jogando mais em equipe e, mais impressionante, jogando com vontade!

A vontade já foi mostrada no meu post de sábado que tem ele dando dois tocos seguidos no Tyler Hansbrough. Quando você imaginava ver o Randolph vencendo o Psycho-T na vontade? Porque não foi na impulsão que ele ganhou aqueles bloqueios. Corinthiano que sou, eu não peço talento dos meus jogadores, peço vontade. Eu sei que o Randolph nunca vai dar 250 tocos numa temporada como faz o Josh Smith, mas dar 15 num ano todo é pura preguiça, os 41 que conseguiu quando foi o jogador que mais evoluiu na temporada é uma boa marca a ser buscada nesse ano e iremos monitorar no nosso contador de tocos na barra lateral.

Tem outro dado que mostra como nosso gordinho mais formoso está jogando com vontade. Z-Bo, com 4,6, é o líder de TODA A NBA em rebotes ofensivos. Ontem, no melhor jogo da carreira do Randolph, contra o Nuggets, foram 9! Contra aquele garrafão assustador do Nuggets de Nenê, Chris Andersen e Kenyon Martin o porpeta fez 32 pontos, pegou 24 (!!!) rebotes e ainda meteu a bola de 3 decisiva no último minuto!

Depois de anos enchendo o saco podemos dizer com orgulho de professor formando o aluno capeta que o Zach Randolph é hoje um jogador de basquete. Com inúmeros defeitos, mas um jogador de basquete. E vamos continuar de olho pra ver se nosso elogio não sobe à sua cabeça, sabe que ele lê o Bola Presa todo dia...

domingo, 20 de dezembro de 2009

Liberdade ainda que tardia

T-Mac machucado lendo revista de mulher. Ele ofereceu 50 conto para não publicarmos a foto.


Quando Tracy McGrady chegou ao Houston Rockets, era sua primeira chance de ser a estrela de um time de verdade. Isso porque, no caso do Magic, chamar aquela joça de "time" era ser bastante bonzinho - o único outro jogador de verdade era o Grant Hill, que não chegou a jogar por contusão. Em Houston as coisas mudaram bastante: T-Mac era o grande reforço que tornaria Yao Ming campeão, mas as contusões lascaram os dois. O time, que agora é um time de verdade, segura as pontas sozinho a ponto de nem pensar mais em McGrady. Em Orlando era ele quem segurava um time que não existia, em Houston o time é tão bom que não precisa dele.

Em nenhum desses dois extremos T-Mac poderia dar certo. Quando foi cestinha da NBA seus esforços eram inúteis e foi, como todo grande jogador em time medíocre, tratado como perdedor, nos moldes de Kevin Garnett. Quando jogou em um time coletivo, não conseguia produzir sem reter a bola e diminuir o ritmo da equipe, decidiu passar a bola e foi tratado como amarelão, assumiu toda a responsabilidade pelo time nos playoffs e aí o elenco lhe deixou na mão nos momentos cruciais. Nunca houve um momento de equilíbrio, uma situação em que ele precisasse do time tanto quanto o time precisasse dele.

O técnico Rick Adelman sempre sonhou com um tipo bastante específico de basquete: coletivo, em que todos participem do ataque, criativo, com total liberdade para os jogadores, e baseado na constante movimentação de cada uma das peças da equipe. Na teoria é lindo, cheio de borboletas e pôr-do-sol e fadinhas coloridas, mas na prática exige uma caralhada de jogadores inteligentes que entendam perfeitamente a filosofia por trás dessa brincadeira. O Kings regido por Adelman, quando finalmente pegou o jeito, era uma maravilha de ver. Não ganhou bulhufas, tinha problemas claros, mas funcionava tão bem basicamente pela inteligência de três jogadores:
Vlad Divac
, Chris Webber e Mike Bibby. Os dois primeiros figuram entre os melhores passadores de todos os tempos dentre jogadores de garrafão. O terceiro estava sempre disposto a dar o passe certo, sem frescuras - motivo pelo qual foi amado-idolatrado-salve-salve quando chegou à equipe no lugar do firulento Jason Williams, que curte a ideia de passar bolas enquanto equilibra pratos no nariz. Quando mais Rick Adelman teria outra oportunidade de encontrar jogadores tão eficazes, inteligentes e capazes de colocar sua filosofia ofensiva em prática?

O Houston Rockets parecia uma boa ideia (o Yao Ming é um excelente passador, e não é porque eu tenho fetiche por chineses gigantes não), mas o time era lento, tinha dificuldades em correr, segurava demais a bola e faltavam arremessadores. Tanto Yao quanto T-Mac sofreram bastante tentando abraçar as ideias de Adelman, porque quando faziam a bola rodar, eram criticados por não serem agressivos. Por um bilhão de vezes, Yao chamou uma marcação dupla no garrafão e passou a bola para fora, onde ela girava de encontro a um arremessador livre. Não é exatamente o que se espera de uma estrela de seu calibre passar um jogo tendo arremessado apenas um par de vezes. Eu nunca aceitei muito bem como o Yao era mal aproveitado no esquema, mas era um caso em que a postura do técnico sempre falou mais alto do que os jogadores que deveriam obedecê-la. Não interessava se havia um chinês gigante e um dos maiores cestinhas de todos os tempos na NBA, a postura ofensiva do Rick Adelman já chegou montada e não era maleável. O time que se adaptasse a ela.

É por isso que, justamente nas contusões de Yao e T-Mac, o sistema ofensivo floresceu. O resto do time, inteligente mas com menos talento, pressão ou potencial, parecia perfeito para o Rick Adelman. A escolha do Houston por trazer Trevor Ariza foi tratada com dúvida, "será que ele é jogador para ser estrela, para ser cestinha, para jogar sozinho, liderar um time?". Ninguém entendeu que a comissão técnica procurava justamente isso, um jogador que não fosse estrela, que não pudesse jogar sozinho, que não tivesse pretenções de liderar uma equipe. Esperava-se mais um jogador secundário e inteligente, e isso todo mundo que assistiu ao entendimento relâmpago do Trevor Ariza com relação ao sistema de triângulos do Lakers sabia que o Houston tinha conseguido.

Não há estrelas, não há líderes, não há jogadores que possam dominar o jogo sozinhos. Finalmente a presença de Rick Adelman é maior do que aquilo que está em quadra, é quase como se fosse ele a jogar ali todas as noites. Nunca um elenco entendeu tão bem sua filosofia nem executou tão bem seu plano ofensivo. É o elenco mais inteligente em que o técnico colocou suas mãos, a rotação é definida, todo mundo compreende seu papel e faz diretinho sem reclamar. Pode não dar certo sempre, mas mesmo as derrotas saem sempre como planejado. Durante as últimas temporadas, Rick Adelman passava todos os jogos chamando as jogadas ofensivas em voz alta no banco de reservas, decidindo o que o time deveria fazer em cada posse de bola, e quando parava de fazê-lo - deixando o time tomar as próprias decisões - a coisa descambava para a pourra-louquisse (algo tipo o Knicks de hoje em dia) e ele voltava a chamar as jogadas. Nessa temporada, a câmera durante as partidas insiste em mostrar um Adelman em silêncio, coçando a cabeça, cutucando a barba, apertando o nariz. É a imagem mais clara de que seu plano deu certo. E a constatação óbvia de que ter McGrady de volta lhe dá mais arrepios de medo do que ter que ver a Playboy da Fernanda Young.

Foi por isso que o T-Mac saudável recebeu a postura do "vamos fingir que ele não está aí para ver se desaparece", algo que o Pacers fez com o Jamaal Tinsley e que todos os seres humanos fazem com novela da Record. Mas no caso do Tinsley, o time arrancou até seu nome dos armários da equipe, a gente fica imaginando ele chegando para o jogo e não ter sequer onde se trocar, ao ponto de se esconder num cantinho da parede e ficar cantando músicas de ninar. Com o T-Mac a coisa foi bem mais sutil, falou-se sobre o medo de sua condição física, de ritmo de jogo, pavor de que ele voltasse a desmanchar o joelho - tudo bastante infudado porque ele passou as férias inteiras treinando com os melhores e competindo com jogadores de peso da NBA. Mas tudo também bastante justificável, tendo em vista que voltas apressadas por parte do T-Mac tiveram resultados catastróficos. Então usaram isso como uma desculpa sincera e mantiveram McGrady longe das quadras o máximo de tempo possível, ao ponto da paciência torrar e do T-Mac aparecer para jogar, vestido com o uniforme, mesmo sem a liberação da equipe. Talvez o Rick Adelman quisesse sumir com a placa do T-Mac do vestiário do Rockets, mas preferiram uma abordagem mais diplomática. O problema é que, cedo ou tarde, não daria para manter a postura. Uma hora ele teria que entrar em quadra.

Quando o Trevor Ariza foi pentelhado o jogo inteiro pelo DeMar DeRozan e deu uma cotovelada no ar (louvada seja sua falta de mira), acabou suspenso pela NBA. Além de umas piadinhas na equipe chamando-o de boxeador frustrado e da própria compreensão do Ariza de que ele perdeu a paciência e foi só isso ("me suspende, pronto, e depois deixa eu jogar"), a suspensão lascou a rotação da equipe e deixou bem claro aquele Tracy McGrady quietinho sentado no cantinho do banco, no maior estilo gordinho descoordenado que fica sentado encolhido esperando alguém escolher ele pra jogar na Educação Física. Não havia qualquer desculpa que pudesse impedí-lo de jogar e então, contra o Detroit Pistons, T-Mac entrou em quadra.
Shane Battier foi para o banco depois de uns minutos de jogo e McGrady entrou em seu lugar. Jogou por 7 minutos, até o final do primeiro quarto, e depois não voltou mais, com a desculpa de que não tem ritmo de jogo e não valhe a pena comprometer o ritmo da equipe por isso. Já foram três jogos e o que ocorre é sempre igual, esses minutinhos poucos e controlados. A torcida foi à loucura quando ele finalmente entrou em quadra, teve orgasmos múltiplos quando ele converteu sua primeira cesta, mas lá no fundo todo mundo vê a verdade, um T-Mac com dificuldades para correr, que não sabe para onde deveria passar a bola e que não defende nem ponto de vista. Nessa altura das coisas, não há muito que McGrady possa acrescentar que o time já não faça bem - pontuar, encontrar companheiros livres, arremessar do perímetro - e, ao contrário, sua saída debilita o time defensivamente, já que Ariza e Battier são excelentes defensores. Contra o Nuggets chegou a ser ridículo: assim que T-Mac entrou em quadra o Carmelo Anthony começou a devorar o Houston vivo com azeite e sal. Para que ele entrou em quadra, então? Por mais triste que seja, ele não é mais necessário.

O bonitinho dessa história é o discurso de Tracy McGrady, de que ele não tem nada a provar a ninguém: já foi All-Star sete vezes, cestinha da NBA por duas, frequentou os playoffs com constância. Tá bom que nunca passou da primeira rodada, nunca ganhou nada, mas deixou seu nome na história como um dos grandes de seu tempo. O que T-Mac diz querer é provar coisas para ele, provar que ainda pode jogar, que venceu suas contusões, que pode se encaixar. Seu discurso nunca soube encontrar um equilíbrio, em horas colocava todo o peso nas suas costas, em outras responsabilizava seus companheiros. Agora ele sabe que é desnecessário e no discurso só quer entrar em quadra e mostrar que pode jogar. Sem ser líder, sem responsabilidades, sem ganhar um título. Até porque essa postura é a mais capaz de lhe levar a um título. Nem ele nem nós, torcedores, podemos esperar grandes coisas: uns minutos aqui, outros minutos ali, umas bolas no último segundo, dar uma força no ataque em momentos específicos do jogo. Ou seja, tornar-se mais um jogador secundário e inteligente nas mãos de Rick Adelman. Se ele compreender que é apenas um grão de areia nas mãos do todo-poderoso técnico, jogará pouco e conquistará muito.

Será uma pena ver seu talento mal aproveitado, e muito possivelmente ele procurará outro lugar em que possa ter a bola nas mãos na temporada que vem, quando seu contrato finalmente termina. Mas se o seu discurso for real, o Houston será uma oportunidade fantástica de lhe tirar o peso nas costas, o caráter de estrela que sempre lhe podou o estilo de jogo, a fama de amarelão, as contusões que sempre lhe cobraram por um corpo que se esforça demais. É a chance que T-Mac tem de ser livre - tudo que ele tem que fazer é se deixar escravizar por Rick Adelman. A torcida de Houston vibra quando McGrady entra em quadra, resquício dos velhos tempos, mas a real felicidade está em vê-lo funcionando num papel limitado. Aplaudamos Tracy McGrady por tudo que ele fez, mas sejamos abertos àquilo que ele quer e pode fazer agora: vencer jogos, liberto das pressões que colocou em si mesmo. O engraçado é que trata-se do mesmo futuro que aguarda Yao Ming, desnecessário, pressionado, contundido. Que os dois, então, pequenos perto de Rick Adelman, possam ser livres.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Zach Randolph não brinca em serviço

Me sinto obrigado a postar esse vídeo aqui no Bola Presa. É o resumo do jogo de ontem entre Pacers e Grizzlies, que teve a vitória do Memphis por 107 a 94.


Prestem atenção que mais para o final do vídeo aparece um jogada onde o Zach Randolph dá dois tocos lindos e em sequência no Tyler Hansbrough! Sim, o cara com o apelido de Psycho-T tomou duas sovas do gordinho que no máximo teria o apelido de Lazy-Z. Que ainda meteu um jumper na cara do branquelo depois! Se tem um tipo de jogador que eu nunca achei que tomaria uma surra dessa do Zach Randolph seria desses alas ultra empolgados e explosivos.

Randolph acabou o jogo com 26 pontos, 16 rebotes, 3 tocos (sabiam que o máximo da carreira dele foi 5?) e, pra não perder o costume, 5 turnovers. Parabéns, Zach, o Bola Presa torce por você! (prestem atenção também na meia maratona que o Rudy Gay dá antes de partir para uma enterrada linda)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Profundidade a prova

Free Hugs

Contusões servem para muitas coisas na NBA. Uma delas é para estragar jogos que a televisão comprou meses antes. Quantas vezes na temporada passada não fomos obrigados a ver o Wizards passar vergonha em rede nacional só porque um tempão antes a ESPN tinha achado que era uma boa idéia passar um jogo do Gilbert Arenas? Tortura das mais cruéis aquela.

Mas em outros casos as contusões obrigam os times a se virar e eles se viram muito bem. Exemplo mais óbvio que o Houston Rockets, que insiste em parecer melhor quando não tem T-Mac e Yao Ming, não existe.

Então quando o Blazers começou a querer parecer o Clippers, fiquei na dúvida sobre o que esse time seria. Em questão de semanas eles perderam o Greg Oden, o Travis Outlaw, o Rudy Fernandez, o Nicolas Batum, os novatos Jeff Pendegraph e Patrick Mills e até o técnico Nate McMillan se machucou ao mostrar um movimento de defesa em um treino da equipe. Era a hora de mostrar se a tal profundidade exemplar do Blazers era mesmo de verdade.

Eles começaram capengando, em um mês de temporada foram 4 derrotas em casa, contra 7 em toda a temporada passada. Chegaram ao cúmulo de perder para o Grizzlies dentro do Rose Garden. Nos últimos jogos perderam para o Knicks, depois para o Bucks, Cavs, e venceram o Kings num jogo suado e vencido na marra. Mas ontem parece ter começado uma nova fase.

Não que vencer o Suns fora do Phoenix tenha sido uma missão lá tão difícil. Invicto em casa, o time do Nash tem só 50% de aproveitamento fora. Mas o jogo de ontem foi simbólico porque mostrou superação em um time que parecia cada vez mais apático e deu uma luz de que formação eles podem usar para voltar a vencer.

Depois de pagar uma nota preta pelo Andre Miller, o Blazers, claro, está usando ele como armador titular, mas não tem dado nem um pouco certo. Quando a troca foi feita eu achei que um armador não deveria ser a prioridade do Blazers (e não foi, é verdade, eles tentaram o Millsap antes) mas que mesmo assim tinha sido um acerto. Na minha cabeça, embora ele não fosse veloz e jogasse na correria, talvez justamente isso fizesse com o que o Blazers fosse um time mais completo. Não teria como ele atrapalhar. Um cara experiente, que sabe distribuir a bola, poderia muito bem dar certo em um time talentoso daquele. Mas sua lentidão, o quanto gosta de ficar com a bola na mão e o fato de não ter um bom arremesso de longe estão incomodando muito mais do que eu poderia imaginar.

É mais ou menos como o Elton Brand no Sixers. Antes a gente achava que só faltava um cara de garrafão pra eles, agora que tem ele parece atrapalhar até quando joga bem. Mesmo quando num bom dia, parece que está indo para o lugar oposto do resto do time, um incomodo. Melhor o Speights num dia mediano do que o Brand num dia bom e melhor um Steve Blake coadjuvante do que um Andre Miller protagonista.

Ontem o Andre Miller jogou por 17 minutos apenas e o time perdeu por 7 pontos nos minutos em que ele esteve em quadra. Com o Blake a coisa andou melhor e o auge do Blazers no jogo foi quando o Jerryd Bayless assumiu a armação da equipe. Sim, aquele Bayless que o Blazers pegou no draft do ano passado, que foi o melhor jogador das ligas de verão e que não tinha um minuto de quadra sequer no ano passado.

No ano passado o Bayless só entrava no garbage time para enfrentar os Scalabrines da NBA. Era o Steve Blake titular, o Sergio Rodriguez reserva e depois ele. Nesse ano saiu o Sergio e entrou o Andre Miller. Mas o que o Nate McMillan deve ter sacado agora, na marra, é que o Bayless não tem nada a ver com nenhum desses e que por isso mesmo pode ser o melhor parceiro para o Brandon Roy.

O Roy é daqueles shooting guards, os armadores da posição 2, que gostam de ter a bola na mão. Gosta de ditar o ritmo do jogo principalmente nos momentos decisivos. Caras assim pedem ajudantes que o complementam, como caras que arremessam de três ou cortam para a cesta atrás de um passe. O Andre Miller prefere comer repolho com mostarda a fazer qualquer uma dessas duas coisas. Não à toa, o Steve Blake, bom arremessador, era visto em quadra nos quartos períodos.

O Bayless é um mini Brandon Roy. É menor, mais elétrico, também gosta de bater pra dentro e tem um arremesso decente de longe. Ontem, com os dois em quadra, a bola podia ficar na mão de qualquer um deles e um podia fazer o papel do outro. Vimos o Bayless infiltrar pra fazer a cesta (ou tomar a falta, ele é a Rihanna num garrafão de Chris Browns) ou passando para o Roy, que infiltrava e passava para o Bayless, que ou chutava de três ou estava nas costas de um pivô recebendo a bola. O time ficou tão dinâmico com os dois dividindo os papéis dos dois armadores que o Suns não sabia mais o que fazer.

O Phoenix chegou a abrir uma grande diferença, mas liderados pelos 27 pontos do Roy e os 29 (em 29 minutos) do Bayless, a vitória de virada, empolgante, aconteceu. Engraçado que o grande jogo da carreira do Roy, que o levou ao status de estrela, foi também contra o Suns, quando marcou 52 na temporada passada. O Bayless não é do nível dele, mas parece saber disso. Contou em uma entrevista após o jogo que já conversou muito com o seu companheiro de time dizendo que os dois podem fazer em Portland o que Mo Williams e LeBron James fazem em Cleveland.

No Cavs o Mo Williams é meio armador, meio arremessador. Eventualmente o LeBron quer abraçar o mundo e vira armador, transformando o cabeça de azeitona em seu shooter particular. Essas ações divididas de jogar com ou sem a bola dão certo nos melhores dias do Cavs e acho que podem dar muito certo no Blazers também. Eu ainda começaria os jogos com o Steve Blake de armador principal, por eles ser mais tranquilo que o Bayless, que deve tomar a mesma água do Joakim Noah. E com certeza começaria a procurar pela NBA times interessados em levar o Andre Miller.

No fim das contas esse momento ruim do Blazers está servindo para muitos jogadores considerados bons terem espaço para mostrar que são mesmo. O Martell Webster, por exemplo, está conseguindo provar que é muito mais que um arremessador, que pode brigar por rebotes, infiltrar ou humilhar o Grant Hill. Já o Pryzbilla a gente já sabe que é um bom pivô e quebra um galhão na ausência do Oden.

Ou seja, o time é bom, o elenco ainda é profundo demais. Só que o elenco cortado pela metade exige que os jogadores lidem melhor com mais minutos em quadra, com o cansaço, tem menos gente para cobrir um jogador que está num dia ruim e alguns caras acostumados a jogar com os reservas precisam se adaptar aos titulares. Dificuldades que vão deixar o Blazers longe da briga pelo topo da divisão Noroeste mas mais do que preparados para brigar de igual pra igual com qualquer um nos playoffs. E Bayless, a gente entendeu o que você quis dizer, mas você nunca começa a carreira na NBA dizendo que quer ser o Mo Williams, nunca.