terça-feira, 31 de maio de 2011

Senso histórico

Nowitzki em foto tão velha que o Sonics ainda exista


Qualquer um pode chegar agora, sem conhecer nada de NBA, e se apaixonar pelo que está acontecendo. São duas grandes equipes se enfrentando, alguns dos melhores jogadores do planeta, um time que juntou três estrelas e foi crucificado, outro que tenta voltar à Final há anos e nunca foi levado a sério. É uma história bacana para acompanhar em qualquer situação e com qualquer idade. Mas alguns fatores, me parece, só surgem frente ao senso histórico. A importância dessa Final é completamente diferente se você acompanhou o Mavs durante a última década - se vibrou com o estilo ofensivo porra-louca de Don Nelson e Steve Nash, se assistiu ao time aprendendo a defender sob a tutela do Avery Johnson, se viu a derrota na Final para Wade e Shaq em 2006, se acompanhou a melhor campanha na temporada regular cair para o Warriors em 2007. É quase como acompanhar um filho que apanhou na escola, que foi taxado de nerd, que já esteve por cima, que perdeu a namorada, e agora tem barba na cara. O Mavericks vai ser um time bacana de acompanhar para qualquer um que chegar agora à NBA. Mas para quem viu a trajetória, é difícil conter uma lágrima emo no cantinho do olho que a gente só deixa escapar ao som de NX Zero. Há quase 5 anos critico o estilo de jogo do Dallas Mavericks e aí estão eles de volta à grande Final, com mais chances de ser campeão do que nunca tiveram. É lindo. É como ver um filho mesmo, aquele filho que você avisou que seria um fracasso e agora vai conseguir um diploma de mestrado.

Esse Mavs já tentou ser só ataque, já tentou se focar só na defesa, já tentou correr, já tentou jogar na meia-quadra, mas se tem uma coisa que continua sempre igual e que desenha uma identidade nesse time são as jogadas no perímetro e o excesso de isolações. Até mesmo as jogadas mais elaboradas da equipe são iniciadas com alguém sendo deixado sozinho contra a defesa, e eu sempre achei isso um desperdício. Funcionava no Cavs de LeBron, funcionou no Celtics de Pierce, Allen e Garnett, mas o Mavs sempre teve muito mais potencial do que isso. Meu desgosto com a equipe nunca foi por eles serem ruins, mas sim por serem bons pra burro e jogarem fora a chance de serem ainda melhores. Jason Kidd sempre foi mal aproveitado na equipe, as jogadas de transição sempre acabam no perímetro e ele passou várias temporadas só passando para o lado, isolando companheiros para que jogassem no mano-a-mano. É uma pena, se é pra fazer isso me contrata, eu sei passar para o lado e ainda conto piadas no vestiário, não precisa ter um dos melhores armadores da história do esporte no seu time. Mas não dá para discutir com os resultados. Aos poucos o ataque foi ficando mais maleável, rodando mais a bola. O Rick Carlisle foi colocando em prática um ataque mais coletivo e o mais importante: uma defesa por zona.

Em dezembro do ano passado falei com detalhes sobre a mítica defesa por zona do Dallas, como ela funciona, e fiz até uma retrospectiva da equipe até chegar a essa defesa. Vale a pena dar uma lida para se preparar para a série que começa às 22h de hoje, o link para o post é esse aqui. O importante desse texto é que essa defesa não apenas mascara as limitações defensivas individuais dos jogadores, ela também permite que Tyson Chandler e Brendan Haywood usem o melhor de suas habilidades, que é a mobilidade lateral e a capacidade de defender os dois lados do aro contestando todas as infiltrações que conseguem furar a zona. Não é acaso que o Kobe praticamente não tenha finalizado próximo ao aro e que eventualmente o Westbrook ficou confinado aos arremessos de meia distância quando enfrentou o Mavs. Mas a defesa por zona também garante que o Mavericks sabe jogar bem contra esse tipo de marcação e portanto roda mais a bola do que antigamente. Ver aquele Mavs de antigamente e depois ver esse, botando em prática a melhor defesa por zona da NBA, é para fazer qualquer coitado que acordar de um coma de 6 anos ter um aneurisma. Mesmo mantendo alguns padrões questionáveis, aquilo que mudou dentro da tática do time transformou a equipe finalmente em uma máquina assustadoramente eficiente. Não há nada na defesa e no ataque que, ainda que questionáveis, não sejam executadas à perfeição.

Só fico um pouco triste porque essa melhora do Mavs acaba escondendo uma das melhoras mais impressionantes que já tive o prazer de acompanhar: o jogo de Dirk Nowitzki. Como eu disse, ter senso histórico muda o sabor de algumas coisas, muitas vezes para melhor. O Nowitzki que eu vi chegar à NBA era um ala mirrado, arremessando de longe, com pavor de contato físico. Chegava à NBA para ser simplesmente um arremessador. Não conseguia defender bulhufas, nem ponto de vista. Foi aos poucos se aproximando do aro. Passou a pegar rebotes, se posicionar bem quando perto da cesta. Bem marcado, foi encontrando novas maneiras de fazer seu arremesso encobrir as defesas. Os giros nos arremessos foram ficando impecáveis. Os arremessos de média distância, mais confiáveis, foram prevalecendo e deixando as bolas de três pontos cada vez mais secundárias. Era uma pena, apenas, que ele fosse tão tristemente anulado quando marcado de maneira física. Bastava grudar o corpo nele, peito-no-peito, e o Nowitzki era obrigado a colocar a bola no chão (ou seja, sair quicando a bola), e isso era uma merda porque sua infiltração sempre foi desengonçada, estabanada, um alemão tentando sambar depois de três cervejinhas. Lembram como Udonis Haslem, menor mas mais físico, tornou a vida do alemão um inferno em 2006? Mas Nowitzki passou a infiltrar mais, ganhou um passo rápido para a direita, um giro para a esquerda, passou a proteger bem a bola e a cavar faltas. Criou um jogo de costas para a cesta que pode forçar faltas, girar rumo à linha de fundo para uma enterrada, ou arremessar por cima do seu marcador. Se tornou um bom defensor, sólido, que não comete erros táticos mesmo que não possa se apoiar numa defesa atlética ou veloz. Nessa temporada, passou a encontrar Chandler e Haywood livres embaixo da cesta em suas cada vez mais frequentes infiltrações. As bolas de três pontos ainda estão lá, mas são uma parte minúscula do seu jogo. A evolução nas habilidades de Nowitzki é um troço lendário, nível Goku mesmo. Para quem chegou agora, talvez não pareça. "É só um cara arremessando sempre do mesmo lugar", você pode pensar. Mas quando a marcação aperta e ele gira para o fundo, finalizando com força com as duas mãos acima do aro, você nunca vai entender porque nós mais velhinhos estamos emocionados e incrédulos. O Nowitzki era eficiente, um dos melhores arremessadores que o jogo já viu, mas ele não aceitou limitar o seu jogo. Isso é lindo. Isso é mágico. Isso é muito, muito raro (né, Dwight?).

Eu entendo quem diz que o Nowitzki não é um jogador completo. É verdade, ele não faz todas as coisas que jogadores mais versáteis como Kobe ou LeBron podem fazer. Mas o Nowitzki é o mais completo que é possível ser quando se tem 2,13m de altura e não se possui físico privilegiado ou condição atlética de super-herói. Nowitzki faz um absurdo com o que lhe foi dado, e o mais importante: ele impôs seu estilo ao jogo, e não o contrário. Só porque um cara tem 2,13m ele precisa jogar debaixo do aro? Ele é mais eficiente longe da cesta, ele cria novas possibilidades para sua altura, ele quebrou paradigmas e mostrou que é possível dominar um jogo sem ser físico. Nowitzki passa a bola quando atacado por uma marcação dupla, ele pode ter acertado todos os arremessos que deu em um jogo e mesmo assim não tentar de novo, não forçar nenhuma bola, porque quer obedecer ao plano de jogo e envolver os companheiros. E, é claro, ele não ganha nenhuma admiração por isso. A gente quer o cara que assume o jogo sozinho e ganha no muque, como Jordan fazia. O Dirk passa a bola então ele é um banana. Repito: o alemão pegou os paradigmas e jogou no lixo. Só é uma pena que, se não ganhar um título, nunca terá isso reconhecido. Mesma coisa com LeBron James, infelizmente.

Aquele mesmo senso histórico que pode tornar as coisas mais legais pode também tornar as coisas muito mais chatas. Ao invés de ver o tempo como uma trajetória capaz de explicar e iluminar o presente, é possível tentar comparar o passado com o presente, mesmo que todas as circunstâncias (regras, jogadores, cultura, mentalidade, tipos de treinos) impossibilitem esse tipo de análise. E quando isso acontece tem sempre gente comparando Jordan com o Kobe, sem entender que a mudança na realidade histórica muda também as possibilidades de um jogador em quadra, e dizendo que o Dirk deveria ser de um jeito ou de outro, "porque assim são os grandes, assim são os melhores". Notícia chocante: Nowitzki é um dos melhores jogadores de seu tempo e assim entrará para a história, como sempre aconteceu antes dele, mesmo que o Dirk passe a bola sem forçar um único arremesso e prefira que o Mavs gire a bola no perímetro a tentar vencer sozinho uma marcação dupla.

Ontem falamos do Heat, de como o ataque pode parecer mas não se permite ser estagnado, mas como esse ataque reagirá à defesa por zona do Mavs? Como Udonis Haslem, LeBron e Bosh - que devem ser todos responsáveis pela marcação de Nowitzki - vão reagir ao seu agora vasto arsenal ofensivo e ao fato de que ele não terá receio de acionar seus companheiros no perímetro? Erik Spoelstra já avisou que LeBron deve marcar o JJ Barea, simplesmente porque, como mostrei nesse post aqui, o caminho do armador fica livre quando a defesa se foca no Nowitzki. É isso que o Mavs quer, impor um jogo coletivo quando os olhos estiverem no alemão. E o alemão topa, o alemão permite, o alemão é um jogador único, completo dentro de suas possibilidades.

Vamos ignorar esse pessoal que uso o tempo e a história para estragar tudo aquilo que se apresenta diante dos seus olhos, vamos aproveitar essa Final espetacular, e agora só nos vemos aqui no blog quando a Final já tiver começado: história sendo feita.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Os dois menores

Um brontossauro e o Nhonho magro decidiram a série


Eu sei que peguei bastante no pé do Bulls - e do Derrick Rose - nessa temporada, mas também peguei no pé do Celtics que acabou sendo campeão em 2008, então não é nada pessoal. Mesmo com resultados diferentes, os dois times apresentavam os mesmos incômodos problemas: baseados em defesa forte e sufocante, o ataque era simplesmente um adendo, aquilo que você faz simplesmente porque não dá pra ficar defendendo o tempo inteiro porque "pegaria mal". Aquele Celtics quase não tinha jogadas no ataque, tudo tinha cara de improvisação, a bola não girava, e quando parecia que a equipe precisava conseguir um padrão ofensivo senão seria eliminado, Kevin Garnett riu na cara de todo mundo e disse que o ataque se resolveria sozinho caso a defesa funcionasse. Critiquei o técnico Doc Rivers na época pela falta de movimentação ofensiva e por reduzir seu papel no time a ficar gritando umas frases de auto-ajuda e de calendário da Seicho-no-ie. O mais triste era ver que nas bolas decisivas o Celtics chamava jogadas desenhadas envolvendo a movimentação de vários jogadores, por que não tentar implementar isso no jogo inteiro? Mas que seja, aquele Celtics foi um tapa na cara de todo mundo que se preocupa com essa bobagem de "atacar" no basquete e foi campeão mesmo assim simplesmente porque seus jogadores eram bons o bastante pra se virar na parte ofensiva caso a parte defensiva dominasse o jogo. No caso do Bulls, esperei o mesmo, mas o tapa não veio. Alguns poucos problemas no ataque do Bulls fizeram a série contra o Heat ir para o saco.

Inocento um pouco o Thibodeau porque ele tentou desesperadamente, ao longo dessa série contra o Heat, fazer os ajustes necessários tanto no ataque quanto na defesa. Mudou a marcação para lidar com o LeBron, depois mudou a marcação para lidar com o Bosh, depois mudou de novo pra tentar se aproveitar do fato que o Joel Anthony não sabe amarrar os próprios cadarços. No ataque tentou tirar a bola das mãos do Derrick Rose, colocou o armador para correr pela linha de fundo e receber passes do Joaquim Noah, aumentou as jogadas de isolação, tentou fugir da marcação dupla do Heat. Mas o problema é que nada disso tinha sido usado na temporada regular e o Bulls deixou claro que não aprende rápido. É um time novo e assustado que, como o Denis bem disse, não acreditava ser o melhor time da série. Viu desde o começo que teria que se ajustar, se adequar ao confronto - ação sempre da equipe mais frágil - e não estava preparado para isso. Se as movimentações ofensivas tivessem vindo antes, se o Thibodeau tivesse evitado colocar tanta pressão no Derrick Rose antes, os playoffs teriam sido diferentes. Mas seu armador era o MVP, a defesa era sufocante, para quê se preocupar com esse tipo de bobagem? A crença de que o ataque se resolveria sozinho saiu pela culatra porque o Bulls não aprendeu a improvisar, a se transformar. Mesmo as variações defensivas, implementadas desde a série contra o Pacers, eram recebidas com trapalhadas dignas de Dedé, Didi, Dida, Aldair, Mussum e Zacarias. No garrafão, Boozer e Noah passaram a bater cabeça no que antes era a defesa mais sólida da NBA, tudo porque o Bulls teve que adequar seu jogo a um Pacers que conseguiu se impor em quadra ao limitar Derrick Rose (mérito absurdo do novato Paul George). Ao invés da defesa garantir o ataque, como era o plano, foi a falta do ataque que passou a exigir modificações na defesa. Todas as pequenas falhas defensivas foram se tornando maiores e mais óbvias conforme o ataque não era suficiente para impor uma vantagem no placar. Se o Pacers conseguiu se impor desse modo, como o Heat não conseguiria?

Mas você pode se perguntar: o Heat não é exatamente a mesma coisa? Não usa também a escola "Celtics de 2008" de se focar exclusivamente na defesa e deixar que o ataque se resolva na base do talento, da experiência e do improviso? Bem, o plano era esse. Antes mesmo de LeBron e Bosh chegarem, o Heat já se mantinha vivo no Leste na base da defesa e do Wade fazendo o que desse na telha. Então quando o trio se formou em Miami, a filosofia defensiva foi a primeira coisa a ser abraçada e LeBron mesmo invocou seu Garnett interior para afirmar que o ataque não era uma preocupação. Pois é, não era mesmo uma preocupação dele, mas sempre foi uma preocupação do técnico nerd Erik Spoelstra.

O Heat mostrou, ainda nos primeiros jogos da temporada regular, que conseguiria se virar muito bem focando nas jogadas de contra-ataque, nas isolações de LeBron e Wade e em jogadas de pick-and-roll com o Bosh. É claro que o Heat perdeu uns jogos que não esperava, tomou uns sustos, mas a culpa poderia ficar com a falta de entrosamento, o banco limitado, as dúvidas sobre que papel cada jogador teria em quadra. Só que o técnico Spoelstra colocou a culpa no ataque. Continuou se focando na defesa, mas insistiu que o Heat perdia muitos jogos porque estava fazendo cagada na parte ofensiva. Fez questão de que a movimentação ofensiva fosse diversificada, com várias opções possíveis. Alguém se lembra da época em que o George Karl estipulava para o Carmelo Anthony um número de jogadas que ele tinha que finalizar no garrafão todos os jogos, porque achava que o Carmelo não era tão bom quando ficava no perímetro? Ou então do Gregg Popovich, que limitava os arremessos de três pontos que o Tony Parker podia dar por jogo e o francês era obrigado a recusar arremessos completamente livres para não irritar o técnico? O Spoelstra colocou em prática uma versão nerd disso: cada tipo de jogada realizada pelo Heat (isolação, passe seguido de arremesso, corte para a cesta, pick-and-roll, pick-and-pop, jogadas de costas para a cesta) aparecia no vestiário com a porcentagem que deveria ser executada no jogo. Em geral, a intenção era manter as porcentagens bastante próximas, então para cada jogada de isolação, o Heat precisava chamar uma jogada de arremesso, por exemplo.

Falando assim parece a ideia mais idiota do mundo, e por uma série de motivos. Pra começar, nem todas as jogadas possuem o mesmo grau de eficácia. É bem óbvio que o Heat é mais eficiente no pick-and-roll, com Wade e LeBron atacando a cesta, do que dando arremessos de longa distância. Mas o absurdo vai além: com jogadores inteligentes como LeBron e Wade, que seguram a bola e são excelentes em criar as próprias jogadas, você nunca vai querer limitar o que eles podem fazer em quadra apenas para cumprir uma meta idiota numa lousa branca que seu técnico nerd impôs. No começo foi mesmo bem idiota, mas todo começo é sempre a pior parte, é quando você está consciente do que está fazendo ("puta merda, estou mesmo correndo sem sair do lugar, como um rato, nessa esteira de academia?") e o processo fica explícito na sua cara, com todos os seus absurdos, ridículos e impossibilidades. Mas depois se torna natural, com o tempo é como se fosse parte da sua natureza, como se você escolhesse aquilo livremente ("é claro que eu escolhi Coca-Cola, sempre foi minha favorita!"), e é possível ser espontâneo enquanto se segue o padrão. Aí dá pra jogar o padrão fora, esconder a lousa e as estatísticas nerds, e ir pra praia porque o trabalho já está feito. Tem muita gente dizendo que o Heat tropeçou no começo porque não tinha entrosamento e que agora eles pegaram o jeito. É verdade, mas vai além: no começo eles estavam pensando, eles estavam tentando seguir padrões delimitados pelo Spoelstra. Agora não pensam mais, apenas fluem com o padrão.

A dúvida inicial ainda continua, no entanto: para quê forçar uma jogada em que você tem menor acerto do que num simples pick-and-roll? Por que seguir aquele padrão estatístico? A resposta pode não ser óbvia na temporada regular, mas ela surge em toda sua glória nos playoffs: essas jogadas passam a ser necessárias dependendo da defesa do adversário, especialmente em séries longas, em que as defesas vão aprendendo o que você faz e vão se ajustando. No fim do jogo, depois de usar uma série de movimentações diferentes, o Heat pode usar o tão amado pick-and-roll sem parar e o Bulls não está tão acostumado a defendê-lo. No quinto jogo, eles ainda não conseguiam um plano capaz de parar a jogada de isolação do LeBron porque ele podia simplesmente não executar essa jogada e colocar outra em prática. A defesa do Bulls se tornou um cobertor curto. O Heat tem tantas armas, mesmo que elas não sejam bem executadas, que quando resolveu chamar apenas isolações no Jogo 5, o Bulls ainda não fazia ideia do que fazer. É importante ter em quadra o Mike Bibby, mesmo errando todos os arremessos que der até o fim da vida, apenas para mostrar que essa jogada de três pontos existe, que ela é uma de várias opções, que ela precisa ser contestada. É por isso que James Jones nunca fez uma bola de dois pontos na temporada, ele não precisa - na verdade, ele não deve! Spoelstra teve muito trabalho na série decidindo qual deveria ser a rotação da equipe, qual jogador traria para a quadra a necessidade de ser marcado, de ser contestado, de tornar uma jogada diferente possível. No final acabou colocando tantos jogadores diferentes, sem qualquer padrão, que o Bulls não fazia ideia do que esperar. O Bulls ficou doidão, mesmo que o Spoelstra tenha corrido o risco de deixar o Heat doidão também com sua rotação maluca. Cheguei ao nível de passar a apostar comigo mesmo quais seriam os jogadores usados pelo Heat em cada jogo da série, e errei sempre. O cara é doido.

Aí vemos que Bibby, Mike Miller e Udonis Haslem são fundamentais. Eles tornam possível a variação ofensiva que o Spoelstra exigia desde o começo. Mas o jogador mais importante nesse quesito é Chris Bosh. Eu sei que quando analisei o trio assim que ele havia se formado afirme que o Bosh ganharia uns jogos sozinho, nos dias ruins de LeBron e Wade, e isso nunca aconteceu. Ele sofreu para encontrar um papel, sofreu por não jogar mais como pivô, tomou pau da imprensa e todo mundo esqueceu dele, coitado. Mas o Bosh é a variação ofensiva máxima nesse Heat, porque as jogadas que ele executa são muito diferentes das que o LeBron e o Wade gostam de finalizar. Se o time precisa executar um pick-and-pop, que é um corta-luz em que o jogador que faz o corta abre para receber a bola e arremessar de longe, tem que ser com ele. As bolas podem nem cair, mas a defesa é obrigada a responder a isso. Assim que o Bosh dominou um jogo contra o Bulls, a série estava acabada, porque ter que responder ao Bosh abriria a defesa do Bulls a uma série de possibilidades essenciais para o Heat. No dia em que o Bosh é o cestinha do jogo nos playoffs, não há mais esperança para o adversário.

Para entender isso, vamos mostrar com algumas jogadas do Heat a importância do Spoelstra e do Bosh na série contra o Bulls. Primeiro, um momento raro: uma jogada chamada para o Bosh finalizar dentro do garrafão.


Vejam que o LeBron arma o jogo enquanto Mike Bibby faz um corta-luz para o Bosh. Espera, não deveria ser o contrário? Não era o Bosh que deveria fazer um corta para o Bibby arremessar livre? Bem, esse é um mundo bizarro e o Spoelstra um cara esperto. Como o Boozer está tentando ser um bom menino e tá marcando de perto o seu homem, mesmo que seu homem seja o Joel Anthony inútil, o Bosh vai sair livre embaixo da cesta:


Tá lá, o Boozer continua fora do garrafão e o Bosh vai finalizar com o Kyle Korver correndo atrás do seu cangote. Uma série de pequenas variações dessa jogada tornou o Bosh relevante no jogo, recebendo livre na lateral do garrafão e atacando a cesta ou arremessando por cima dos defensores. Onde está o segredo para o Bosh ser relevante? Em lugar nenhum, ele sempre poderia ser relevante se recebesse mais a bola e tivesse jogadas chamadas para ele. Do mesmo modo que o Tyler Hansbrough incomodou o Bulls e expôs a marcação patética do Boozer, forçando uma modificação defensiva (que deu em merda), incentivar o jogo do Bosh causou a mesma coisa. De novo, isso só é possível porque o Spoelstra nunca deixou esse time ficar só isolando LeBron e Wade pelos cantos. O resultado a gente vê na foto abaixo:


O Bosh agora é relevante, ele dominou um jogo e o Bulls tem que responder a isso. Então quando ele se aproxima do LeBron para um possível corta-luz, a marcação não está mais só preocupada com LeBron, mas também com o Bosh. Como aconteceu tanto contra o Pacers, a defesa medonha do Boozer força o Noah a sair para ajudar e muitas vezes eles batem cabeça, marcando o mesmo homem. Na imagem acima, Noah está de olho no corta-luz enquanto Boozer acha que está sendo um bom menino e marca Bosh de perto pra não tomar bronca depois. O resultado é o Joel Anthony recebendo a bola livre embaixo da cesta. LeBron pode jogar uma partida inteira apenas distribuindo a bola e mesmo assim punir o Bulls imensamente, como fica claro aqui. O Bosh passa a punir o Bulls mesmo sem tocar na bola depois de já ter sido envolvido no ataque. Tudo isso porque o Heat não mantém um padrão único de jogo mas todo mundo sabe qual é seu ponto forte, então a defesa precisa ficar constantemente preocupada com a infiltração do LeBron mesmo que ela não venha:


Esse é LeBron isolado na cabeça do garrafão sendo marcado pelo Derrick Rose. Como o resto do time está espaçado porque pode arremessar de longe (Bosh incluso), LeBron tem um caminho para usar sua força e atacar a cesta, cavando faltas e finalizando um arremesso de alta porcentagem para ele. O Bulls reage com uma grande sacada do Thibodeau, que é colocar um jogador só em zona, marcando a bola, enquanto os outros marcam individualmente:



Esse é o Noah indo marcar por zona, correndo para impedir uma suposta infiltração do LeBron. E aquele é o Boozer sendo o Boozer, ou seja, não sabendo quem diabos deve marcar numa situação bizarra dessas. LeBron é um passador fantástico e encontra o Bosh num buraco entre três jogadores para converter um arremesso fácil.

O Bulls é um time fodão, mas eles tiveram que se adaptar no desespero a duas coisas principais. No ataque, como qualquer pick-and-roll do Derrick Rose com o Noah passou a ser respondido com marcação dupla no Rose (e o Noah livre, provando que no ataque ele é uma versão banguela do Varejão), o Noah passou a ser o passador e o Rose a receber na lateral. Ótimo, mas também inédito, pouco explorado na temporada regular, e com isso tirando o time da sua zona de conforto. E na defesa, tiveram que reagir ao ponto forte do Heat (as infiltrações nas isolações do LeBron) mesmo quando elas aconteciam, e as outras jogadas do Heat foram minando o Bulls aos poucos, especialmente o Bosh e as jogadas chamadas para ele. Wade foi menos eficiente no ataque, mas exigiu que o Bulls mantivesse um marcador só para ele e com isso limitou muito os minutos de jogadores maiores ou do Kyle Korver em quadra. A maior participação do Wade foi mesmo na defesa, em que ele fez simplesmente de tudo, e esse Heat pode se permitir isso. Wade pode só defender, LeBron pode só passar, Bosh pode ficar fora do garrafão e nem lutar pelos rebotes, invisível durante dez ou vinte jogos. É fácil olhar para esse Heat e achar que eles só chamam as mesmas jogadas, as mesmas isolações, mas essas jogadas só vem com frequência na hora que importa, na hora de dar o bote, quando o adversário já está confuso tentando marcar todo o resto. Nesse time dá pra não carregar nada, fazer seu papel, passar a bola para os caras ruins, estar vivo no final do jogo e de repente colocar em prática os pontos fortes. Não é preciso jogar sempre do mesmo modo, exaurir as possibilidades, telegrafar suas jogadas, se cansar o tempo inteiro, lutar sozinho contra a defesa. É o exato oposto daquele antigo Cavs do LeBron, e o mais bizarro é que talvez essa abordagem tática até funcionasse por lá ao invés da jogada única que promovia o Mike Brown.

É surreal que o Spoelstra tenha apostado nas jogadas que o time faz pior, nos jogadores menos efetivos, tenha tirado a responsabilidade exclusivamente de LeBron e Wade, e tudo isso mesmo tendo a cabeça a prêmio quando o time tava tomando uns sacodes na temporada regular. Mas agora, mesmo com jogadores piorzinhos executando as jogadas, todas as opções precisam ser contestadas. E Bosh, que é um jogador espetacular e teve que ouvir muita merda nessa temporada, está lá para comer pelas beiradas, para obrigar a defesa a respeitá-lo, para abrir os espaços, e para trucidar o time que quiser deixá-lo livre (ou que tiver o Boozer, o que dá na mesma). O Bulls é um timaço, mas mal resistiu ao Paul George marcando Rose, caindo de vez para LeBron marcando o Rose e as marcações duplas impedindo o corta-luz, prensando o armador contra a lateral ou a linha de meia-quadra.

O Mavs vai ser assunto para outro post, já que nos preparamos para a Final que começa na terça, mas a defesa por zona da equipe de Dallas terá que se preocupar com mais coisas do que enfrentou até agora nos playoffs. Se o Mavs quiser apenas marcar as infiltrações de LeBron e Wade, talvez fique apenas esperando enquanto o resto do Heat vai fazendo estrago aos poucos. Ao invés de se focar nos dois mais importantes, o Mavs vai ter que se focar também nos dois menores: Bosh estará pronto para ter grandes atuações se for ignorado, e o Spoelstra continuará mantendo a diversidade - a um ponto tal que ninguém mais se pergunta quem vai decidir os jogos no final, se eles vão obedecer as ordens táticas, se o técnico vai conseguir segurar as pontas. Agora, são um time.

domingo, 29 de maio de 2011

Resultado da promoção Bulls - Heat

Colocamos o nosso poderoso Random.org em ação para sortear duas pessoas entre as mais de 800 que participaram da nossa promoção pelas camisas estilosas do Miami Heat e do Chicago Bulls. A cada pessoa sorteada checávamos se ela tinha acertado os palpites de vencedor da série, placar e cestinha para ver se poderia levar o prêmio.


E foi aí que o bicho pegou, porque só 6% das pessoas apostaram que a série acabaria em 4-1. Mas depois de muitos sorteios achamos o palpite de Diego Nogueira Gois que cravou Heat por 4-1 com LeBron James cestinha da série. Parabéns, Diego, você pode escolher qual das duas camisetas quer levar pra casa! Entraremos em contato no seu e-mail.

Quem ficará com o presente negado pelo Diego é uma conhecida nossa de longa data, a segunda sorteada a acertar tudo foi a Luma Caroline dos Santos, ela foi uma das primeiras garotas a acompanhar o Bola Presa de perto, sempre manda palpite pelo Twitter e, coitada, gosta do Cavs, merecia ganhar alguma coisa. É a primeira garota sorteada em uma promoção aqui do blog.

Entraremos em contato com os dois, agradecemos os outros que participaram e já avisamos que nessa semana anunciamos uma promoção nova especial para as Finais!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Versão 2.0 - Perdendo um jogo em 3 minutos

-Tenho nada a ver com isso não, véio


O Chicago Bulls leu o meu post "Como perder um jogo em 5 minutos" sobre o Oklahoma City Thunder e pensou: Challenge accepted. Precisaram de apenas 3 minutos para jogar uma liderança de 12 pontos no lixo e assim foram eliminados por 4-1 pelo Miami Heat, que vai para a final enfrentar o Dallas Mavericks. O placar está sendo chamado de "Gentleman's sweep" (varrida de cavalheiro) na imprensa americana como se fosse uma varrida moral, com um time dando um joguinho de lambuja pro adversário só pra não ficar muito feio. Não é bem o caso, mas é um termo muito bom pra gente ignorar.

O que aconteceu foi que o Chicago Bulls ficou muito perto de vencer vários jogos, não só esse quinto, e simplesmente não conseguiu a mesma eficiência que o Miami Heat na hora de fechar. Se o Dallas precisou de uma combinação bem estranha de acontecimentos para a sua virada, o Heat também, LeBron James vinha tendo um aproveitamento bem mediano da linha dos três e em bolas longas de dois em toda série, enquanto Dwyane Wade não acertava um arremesso de três desde o dia 7 de maio. As duas coisas aconteceram em sequência ao mesmo tempo que o Bulls errava um arremesso atrás do outro, incluindo um lance livre que empataria o jogo nas mãos do Derrick Rose. O Bulls tinha uma marca de 53 vitórias e 0 derrotas em toda a temporada regular e playoffs quando liderava por mais de 10 pontos no quarto período, agora tem um doloroso 53-1.

A vantagem perdida foi bem diferente, mas o Bulls já tinha tido a experiência de perder um jogo apertado na partida 4 em Miami, quando o jogo foi para a prorrogação. Aquele foi um jogo bem estranho. Lembro de estar vendo e observar o Bulls tão acuado, penando para marcar pontos e os jogadores e a torcida do Heat tão dentro do jogo que depois de uma cesta empolgante pensei "já era pro Bulls", aí olhei para o placar e vi que eles estavam na frente ainda! Mais tarde, antes da prorrogação começar, vi LeBron, Wade e Chris Bosh conversando e rindo na beira da quadra enquanto o Bulls parecia cansado, abatido e tenso. Cada um se expressa de um jeito e eu não estava esperando ver o Derrick Rose dando uma gargalhada, mas a minha impressão foi de que naquele momento o Heat já se sentia um time superior e que era questão de tempo até o placar da série e do jogo mostrarem aquilo.

Essa sensação me remete imediatamente ao antigo Cleveland Cavaliers do LeBron James contra o Boston Celtics no ano passado e até um pouco a série que o Cavs perdeu para o Magic em 2009. Nas duas ocasiões, como o Bulls hoje, o Cavs tinha o MVP da temporada, um cara que estava dominando completamente a liga, uma defesa sólida, forte, entre as melhores da liga e um elenco de apoio que mesmo que com algumas limitações tinha rendido a melhor campanha da NBA na temporada. E mesmo assim nessas duas séries, principalmente contra o Celtics, eles jogaram como se fossem o pior time mesmo quando estavam na frente. Jogaram tensos, sem confiança, com gente desaparecendo do ataque e com falhas defensivas que nunca tinham aparecido antes, o Carlos Boozer de hoje é o Antawn Jamison de ontem e, mais importante, Derrick Rose é LeBron James. O ala do Cavs também recebeu uma blitz da defesa do Celtics e começou a ver seus companheiros que tinham dado tão certo na temporada regular não darem conta do assunto nos playoffs, aí ficava aquela dúvida entre tentar envolver todo mundo ou carregar o time nas costas, entre ser fominha com três na marcação ou assistir o Kyle Korver ou o Mo Williams errando bolas de três pontos que são pagos para acertar. Nesse ano vimos o LeBron, mesmo em jogos apertados, gritando depois de enterradas, abraçando seus companheiros de time e jogando com a confiança que parecia faltar exatamente um ano atrás quando eles tomaram aquele vareio épico no jogo 5 contra o Celtics. LeBron não é mais ou menos macho/amarelão ou qualquer adjetivo que quiseram dar pra ele ano passado, a diferença é que nem ele acreditava que tinha o melhor time antes, agora ele tem certeza. Vemos essas séries e pensamos, como esses Cavs e Bulls da vida se viraram com esses defeitos durante os 82 jogos da temporada regular?

Bom, se viraram, mas não é como se ninguém soubesse dos defeitos. Quem faz parte do grupo de analistas de basquete que analisa o basquete ao invés dos resultados já sabia disso tudo, no caso do Cavs e no caso do Bulls. Não sabíamos até onde chegariam, se cairiam no meio do caminho, mas vimos os jogos e já comentamos sobre tudo o que aconteceu. Quando criticávamos o Chicago Bulls durante a temporada regular falamos muito de sua limitação ofensiva, de como tudo saía das mãos do Derrick Rose e que eles não tinham outro jogador com características de segurar a bola, driblar e criar jogadas além dele. O mais próximo disso era, bizarramente, o Joakim Noah. O pivô maluco é um excelente passador e o parceiro ideal de pick-and-roll do Derrick Rose já que pode, quando receber o passe, encontrar qualquer outro jogador em posição de arremesso, seja ele Carlos Boozer mais embaixo da cesta, Luol Deng na zona morta ou Kyle Korver correndo por aí. Foi com essa jogada que ele conseguiu 4 assistências no jogo 1 e 6 nos jogos 3 e 4 em Miami.

Mas o Heat teve uma boa resposta para isso quando deixou de marcar Noah quando ele recebia a bola na cabeça do garrafão. Cada um preferia ficar focado no seu marcador para não dar a opção de passe, fazendo Noah tentar infiltrar ou arremessar, o que dá errado em 90% das vezes. Foi um bom ajuste que tirou o Noah ofensivamente da partida, deixando Derrick Rose ainda mais sozinho. O Taj Gibson, excelente marcador que com um pouco mais de fama estará recebendo votos para times de defesa da temporada, só teve bom aproveitamento de arremessos em dois jogos, um deles o primeiro, quando fez a diferença para a vitória. Quem se salvou no ataque foi o Carlos Boozer, mas seus defeitos defensivos comprometeram do outro lado, não quero nem imaginar como estava a cabeça do Tom Thibodeau tomando essa decisão, era melhor deixar o bom defensor Taj Gibson e ficar sem opções de ataque ou viver com os erros do Boozer e ter alguém que faça pontos?

O Boozer é outro ponto que bastante gente apontou o dedo e que rendeu uma discussão interessante aqui no blog no começo da temporada. Nos acusaram de entrar em contradição quando na verdade somos pessoas diferentes com opiniões diferentes. E não é que, no fundo, eu e o Danilo estávamos certos ao mesmo tempo? O Danilo achava o Boozer um defensor horripilante que eventualmente comprometeria o time, eu dizia que ele era limitado, mas que como bom reboteiro e esforçado que é, não seria um impedimento para a equipe ser  uma potência defensiva como seu técnico imaginava. Boozer jogou, participou e não impediu o Bulls de ser a melhor defesa da temporada regular, mas o Miami Heat foi lá atrás do ponto fraco deles e explorou o Boozer até não poder mais nessa série. Atacaram ele individualmente com o Bosh, infiltravam pelo seu lado do garrafão, faziam o pick-and-roll com o cara que estava sendo marcado pelo Boozer... foi um massacre.

Ou seja, o Bulls perdeu porque não tinha ninguém para dividir a bola com o Rose, porque o Boozer defende mal e porque o elenco de apoio não estava num nível tão elevado assim. No fim das contas não foi tão inesperado assim, vai. Mas difícil pensar em outro time além de Bulls e Heat dominando o Leste em um futuro próximo, Knicks e Magic vão ter que correr demais para alcançá-los e imagino que o Derrick Rose terá sua chance de revanche. Fica para a offseason a missão de achar um segundo armador que saiba criar o próprio arremesso (será que o Jamal Crawford ou o Caron Butler aceitam ganhar pouco? Chris Douglas-Roberts pode ser a opção de emergência) e a contratação de um cientista maluco da Alemanha nazista que saiba como unir Carlos Boozer e Taj Gibson no mesmo corpo. Não deve ser muito difícil.

O que não podemos nunca esquecer é que o Miami Heat ganhou essa série na defesa. Não foi à toa que precisaram de algumas bolas milagrosas de suas estrelas (que são estrelas por acertarem bolas milagrosas eventualmente) para vencer jogos apertados. O Bulls, mesmo com o Boozer, não foi um queijo suíço e forçou o Heat a arremessos difíceis e situações bem complicadas no ataque, só não conseguiu usar isso a seu favor. Foram poucas as situações de contra-ataque geradas pela defesa, por exemplo, o que foi uma pena já que nos privou de maravilhas parecidas com essas:



Essa segunda enterrada foi chamada no Twitter (preciso muito começar a lembrar de quem fala as coisas por lá) de "o mais rápido que um homem já correu com uma bola de basquete na mão".  Mas apesar das jogadas impressionantes, os contra-ataques foram raros e Rose foi praticamente anulado por LeBron James. O tamanho e a velocidade do LeBron não deixavam ele arremessar por cima e nem ele passar driblando, sem contar que qualquer corta-luz para evitar o confronto virava uma marcação dupla que fechava em cima do armador do Bulls. Não tem melhor exemplo do que a bola que poderia ter decretado a vitória no jogo 4:



Rose não teve opção e decidiu, mesmo com tempo no cronômetro e espaço, por um arremesso forçado, caindo pra trás e longe dos seus locais favoritos na quadra. E esse é um exemplo do que aconteceu o jogo todo, LeBron James merece todos os créditos defensivos por parar Derrick Rose nessa série, o que ele fez foi algo para ficar na história. E se a gente não estivesse tão ocupado odiando ele por ser um idiota egocêntrico (ninguém aqui está falando que ele não é), estaríamos construindo estátuas para cada uma de suas atuações. Mas como nossa base de leitores odeia o LeBron acho que é uma boa idéia fechar o post com esse vídeo:



Mais tarde ou amanhã eu publico aqui os vencedores da nossa promoção da adidas sobre a série Bulls/Heat. E o Danilo está preparando um post bem legal mais focado no ataque do Miami Heat para explicar essas duas últimas vitórias sobre o Bulls. Aguardem! Mas aguardem sentados, a gente é devagar.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Como perder um jogo em 5 minutos

Estão falando mal do Perkins? Abraça ele, Tyson!


Meu apelo por séries de sete partidas está indo para o ralo. Os jogos estão disputados, as séries interessantes e tem muita coisa para comentar, muitas decisões e atuações dignas de comentários, mas no fim das contas esses jogos apertados renderam duas séries em 3 a 1, um buraco difícil de sair em qualquer situação, ainda mais contra times embalados e visando uma vaga na final. Não vale nem a pena discutir se as séries já acabaram ou não, mas é óbvio que se algo mudar drasticamente será um milagre. O que vale muito a pena é discutir como essas coisas aconteceram, comentar o passado é muito mais produtivo do que futurologia barata.

Aliás, esse assunto de comentar passado ou futuro me faz criar aqui um parênteses para falar sobre como a imprensa esportiva em qualquer lugar do mundo comenta esportes. Quando estamos bem perto do assunto, lendo bastante e acompanhando de perto e sempre lendo tudo que é comentarista, vemos como esse lado do jornalismo é muitas vezes amador e patético, é tanta bobagem que dá até desgosto de fazer parte desse grupo às vezes. Vejamos o caso do Dirk Nowitzki que está fazendo chover nesses playoffs. Ele era um jogador limitado que não sabia defender quando jogava pelo Don Nelson no começo da última década, depois virou um amarelão quando perdeu a final para o Miami Heat em 2006, um jogador decadente quando o Dallas passou a ser eliminado no começo dos playoffs e agora, com seu time a uma vitória da final, um dos 30 maiores jogadores de todos os tempos, o mais próximo do estilo de Larry Bird desde os anos 80. Sim, o Dirk mudou um pouco do seu jogo com o passar dos anos, evoluiu em alguns aspectos, alterou estilo em outros, mas os rótulos, adjetivos e o reconhecimento de fãs e dos mais conceituados jornalistas esportivos são todos baseados nos resultados dos times. Ele era um mal defensor quando todo o Dallas não defendia nada, era amarelão quando todo Dallas perdeu e é um gênio agora que o time como um todo tem jogado demais. Essa memória curta e a desastrosa mania de querer fazer rankings criam absurdos que só olhando com uma certa distância dá pra reparar. Outro dia um cara no Twitter postou algo simples e que mostra o que estou dizendo, ele disse assim: Melhor ala de força da história - Costumava ser o Duncan, nos dois últimos anos foi o Gasol, no começo dos playoffs foi o Zach Randolph e agora é o Nowitzki. E detalhe, ele ainda esqueceu de dizer do Kevin Garnett em 2008!

Vocês realmente acham que o Pau Gasol mudou muito desde que foi do Memphis Grizzlies para o Los Angeles Lakers? O que mudou foi ter um time melhor em volta e ter gente assistindo aos seus jogos pela primeira vez na vida com alguma atenção. E o Garnett, idolatrado em 2008, não estava jogando metade do que fazia, sem nenhuma atenção da mídia, quando era mais jovem no Minnesota Timberwolves. A verdade é que a grande parte de quem comenta esportes só comenta uma coisa: resultados. E os resultados imediatos, o do mês passado, não querem dizer mais nada. Outro exemplo? A troca do Kendrick Perkins. Algumas semanas atrás estavam idolatrando o Perk, agora tem gente chamando de troca "Spy vs. Spy" em que os dois lados se envenenaram e se mataram simultaneamente. O que fez o pessoal mudar de opinião assim foi que nessa série contra o Mavs o Perkins tem sido inútil e os números do time são bem piores quando ele está em quadra. Mas quem assiste basquete com calma ou simplesmente só lê sobre o assunto deve saber quem é o Kendrick Perkins. Ele é um especialista. Assim como o Kyle Korver é um especialista em três pontos ou o Arron Afflalo um especialista em defesa, o Perkins é muito bom em só uma coisa, só uma, mas talvez o melhor da liga nisso; ele defende pivôs embaixo da cesta, lá na área pintada, contra caras pesados que jogam de costas para a cesta. Ele também é bom ocupando espaço no garrafão, fechando espaço para infiltrações com bom posicionamento, e é isso, nada mais.

Acontece que eles estão enfrentando o Dallas Mavericks. O garrafão deles é formado pelo Dirk Nowitzki, que apesar do tamanho joga longe da cesta e tem muita mobilidade, e pelo Tyson Chandler, que só recebe a bola no ataque em algumas ponte aéreas, uma jogada que pode passar um jogo inteiro sem acontecer. O reserva é o Brendan Haywood, também nulo no ataque. O Mavs é também um estranho time que só tem um jogador com a característica de infiltrar, ele é um armador porto-riquenho de um metro e dez de altura, o resto vive e morre de seus arremessos. Sem um jogador de post-up ou infiltrações para proteger, o Kendrick Perkins é tão útil quanto uma nota de 100 reais na Lua. Isso não quer dizer que a troca foi péssima, que ele é horrível ou qualquer bobagem do tipo, apenas não é o cara certo para esse matchup. Eu imagino se essas pessoas lembram do começo da temporada quando qualquer timinho mais ou menos que tivesse um armador rápido estava costurando a defesa do Thunder e fazendo bandejas sem contestação no meio do garrafão, ou se lembram como o Scott Brooks estava quebrando a cabeça para conseguir dar minutos merecidos para Serge Ibaka e James Harden, que elevaram demais o seu jogo desde a saída de Jeff Green. A troca foi um sucesso para o Thunder mesmo que não funcione em uma série de playoff.

Com isso meio que fechei o meu parênteses-desabafo sobre essa cobertura esportiva idiota que a NBA recebe em todo lugar. E já embalei falando da série Thunder/Mavs. Na última partida o Thunder foi o primeiro time nos últimos 10 anos (dez malditos anos! 5.016 jogos) a estar liderando por 15 ou mais pontos a menos de 5 minutos para o fim do tempo regular e perder a partida. É algo único e difícil de explicar, até porque até esses minutos finais dava pra fazer um post dizendo tudo o que o time tinha arrumado em relação ao jogo anterior e que tinha rendido essa vantagem confortável.

A primeira coisa foi que eles acharam o seu quinteto ideal. O Perkins começa o jogo mas teve seus minutos reduzidos devido a todas as razões que explicamos acima, no lugar dele entra o Nick Collison, que foi um monstro marcando Zach Randolph e agora faz um trabalho espetacular contra Nowitzki, se o alemão acerta arremessos de costas, com a mão esquerda enquanto morde uma maçã e recita um poema de Goethe isso já está fora da alçada do Collison, melhor do que ele faz é impossível. Além dele, no lugar do Thabo Sefolosha entrou o James Harden, e essa foi a grande sacada do técnico Scott Brooks. Ao invés de deixar Harden apenas atuando com os reservas, deixou ele em quadra ao mesmo tempo que Kevin Durant e Russell Westbrook (além de Serge Ibaka, que fecha o quinteto) para dar mais uma opção ofensiva.

O Thunder estava sofrendo porque não conseguia deixar os seus dois principais pontuadores, KD e Westbrook, em condições de fazer cestas. Como em quase todos os jogos dessa série, estavam penando contra Jason Kidd e Shawn Marion. Westbrook não tem lá tanta dificuldade de passar pelo Kidd em velocidade, mas não sabe o que fazer depois disso quando lida com a cobertura do resto da equipe, especialmente Tyson Chandler. É muita velocidade e pouco cérebro ainda para o Westbrook que, não custa lembrar, não era armador principal antes de chegar na NBA. Já o Durant tem tido dificuldades para receber a bola quando marcado pelo Shawn Marion e fica meio de lado no ataque, ele só consegue receber com tranquilidade quando recebe um corta-luz de Westbrook, quando o Dallas tem trocado a marcação. Veja as imagens (clique para ampliar):



Isso parece bom na teoria para o Thunder. O Westbrook é marcado por um cara mais alto, Marion, e o Durant por um anão de jardim, Kidd, mas na prática tem sido um desastre. O Kevin Durant não tem a velocidade e o controle de bola para passar pelo Kidd no drible, além de ainda não ter desenvolvido um jogo de costas para a cesta (próximo passo óbvio na evolução dele como jogador) prefere usar o tamanho para arremessar por cima do Kidd, mas como recebe a bola longe da cesta são sempre arremessos longos e complicados. Já o Westbrook não tem trabalho fácil contra a velocidade impressionante do Shawn Marion, que é capaz de marcar qualquer jogador adversário. Pela habilidade defensiva dos dois, o Mavs fica bem à vontade em trocar a marcação, não dar espaço e fazer o Thunder continuar bem longe da cesta.

E é aí que o James Harden entra em ação, ele tem sido o único capaz de criar mais ataque em jogadas individuais. Seu arremesso vindo do drible, a infiltração e os passes vindos dessas infiltrações têm sido a inspiração que Westbrook não foi capaz de produzir, é ele que envolve Ibaka no ataque e são suas infiltrações que fazem Tyson Chandler sair da sua zona de conforto e deixam o Nick Collison fazer a festa nos rebotes ofensivos (foram mais de 20 no último jogo!).

O James Harden é meio que um Nowitzki do Thunder. Não que seja o melhor jogador ou algo assim, o que eles têm em comum é o fato de suas características obrigarem a defesa adversária a se adaptar de uma maneira que cria espaços e assim eles são responsáveis por jogadas em que tocam pouco na bola ou só se movimentam do jeito certo. Quando o barbudo-mor da NBA foi eliminado com 6 faltas faltando 5 minutos para o fim do jogo 4 é que tudo desmoronou. Veja o box score da partida a partir do momento que ele saiu eliminado:

































Em 5 minutos de tempo normal mais 5 de prorrogação, eles acertaram 3 arremessos em 15 tentados! O Durant errou todos e o Westbrook fez só um, foi horrível. E a defesa não foi ruim, eles mantiveram um bom trabalho. O Dirk fez 4 arremessos mas pelo menos 3 foram de um nível de dificuldade Ninja Gaiden, o que é aceitável para uma defesa, enquanto os arremessos do Kidd e do Jason Terry foram resultado de jogadas envolvendo o alemão que podem e sempre acontecem normalmente em um intervalo de 10 minutos. O que machucou de verdade foram os 12 lances livres cobrados pelo Mavs. Acho que pelo menos seis deles vieram de faltas bobas cometidas ainda no campo de ataque do Thunder quando eles já tinham ultrapassado o limite de faltas e se arriscaram tentando pegar bolas perdidas.

Então o Thunder jogou melhor que o Mavs por 43 minutos, achou soluções boas para atacar a zona do adversário e para segurar o ataque e mesmo assim perdeu o jogo por causa de 10 minutos horripilantes em que tudo veio abaixo de uma vez só, o Nowitzki acertou arremesos impossíveis e eles fizeram todas as faltas que não poderiam. Não sei se chamo de injusto ou só de cruel, talvez um meio termo sobre o qual o Thunder não quer nem parar para pensar. O ruim é pra gente que não torce pra ninguém, uma série tão boa e disputada, com tantas alternativas táticas, agora está mais perto de um fim precoce.

E antes de ir embora, um vídeo com tudo o que o Nowitzki fez nesse jogo 4. Simplesmente perfeito.



Gastei mais tempo e espaço do que eu imaginava com esse post. A análise da prorrogação entre Heat e Bulls fica para amanhã. E você sabe, no Bola Presa promessa é... é promessa.

domingo, 22 de maio de 2011

Detalhes tão pequenos

-Tô bem, mãe


Outro dia o Fábio Balassiano, comentando algum jogo de basquete brazuca, reclamou de como muitas vezes os jogadores ou técnicos derrotados, ou até comentaristas, dizem que o jogo foi decidido "nos detalhes". Realmente é bem irritante, até porque isso levanta uma importante questão: que raio de detalhes são esses?! Não é nem uma resposta errada, é só uma resposta pela metade, ou por um terço. É comum que séries de playoff muito disputadas com times muito parelhos seja realmente definidas em alguns detalhes, mas dizer só isso é vago. Estou aqui então para dar um pouco de atenção aos pequenos detalhes que vão aparecendo como os fatores decisivos na final do Leste entre Chicago Bulls e Miami Heat.

Os dois times estão muito no mesmo nível, é simplesmente impossível afirmar com qualquer grau de certeza quem é a melhor equipe. Ambos tem defesas absurdamente fortes, jogadores que individualmente decidem partidas e até problemas semelhantes no ataque que fazem com que não sejam equipes perfeitas. O nível equilibrado das equipes foi mostrado no primeiro tempo das duas primeiras partidas da série em Chicago, o jogo 1 teve o primeiro tempo encerrado com um 48-48 depois de uma cesta de LeBron James no último segundo e o jogo 2 acabou com um 48-46 para o Heat depois que o Bulls errou um arremesso no último segundo que teria empatado o jogo. Falando em igualdade, curioso que embora tenham sido times diferentes ditando o ritmo da partida nos segundos tempos, ambas partidas tiveram exatas 85 posses de bola. Até na velocidade em que tentam jogar os times são parecidos.

As coisas mudaram sempre no segundo tempo, no jogo 1 a favor do Bulls e no jogo 2 a favor do Heat e, curiosamente, eles não fizeram nada de muito diferente. Claro que cada um dentro de seu esquema tático e usando seu elenco de maneira diferente, mas tudo pode ser resumido em movimentação ofensiva e proteção dos rebotes. No jogo 1 o Bulls ganhou a batalha dos rebotes por 45 a 33, quase empataram nos defensivos, mas no de ataque destruíram com 19 a 6, Joakim Noah sozinho, com 8, bateu o Heat. Os rebotes de ataque renderam 23 pontos de segunda chance para o Bulls! Como já disse o próprio presidente do Heat, Pat Riley, anos atrás quando era técnico, "No rebounds, no rings" (sem rebotes, sem anéis).

No segundo jogo eles perderam de novo a batalha dos rebotes ofensivos, deixando o Bulls pegar 17, mas dessa vez responderam com 10 e asseguraram mais defensivos. É difícil demais enfrentar um garrafão com Carlos Boozer, Taj Gibson e principalmente Noah e sair ganhando nos rebotes, principalmente quando se usa caras como Joel Anthony e Jamal Magloire como pivôs durante o jogo, mas nos playoffs é assim, você enfrenta grandes times com suas óbvias qualidades e tem que viver com isso, apenas precisa minimizar o estrago a um nível aceitável. O Heat diminuiu o número excessivo de arremessos extras do Bulls e quando não conseguiu garantir o rebote pelo menos conseguiu defender melhor. O Chicago estava matando no primeiro jogo com rebotes que viravam assistências fáceis para os arremessadores no perímetro, na segunda partida houve uma melhor cobertura e maior atenção para que os rebotes virassem uma nova posse de bola bem defendida e não uma bandeja ou arremesso rápido e fácil.

Os rebotes são importantes em todos os jogos de basquete, mas ganham importância bônus em partidas em que arremessos errados acontecem com mais frequência, o que é o caso dessa série. As duas defesas são fortes e fazer pontos às vezes é um parto. Por isso o outro detalhe importante que vai decidir a série é como os times se comportam ofensivamente para conseguir fazer alguns pontinhos extras que fazem toda a diferença.

No jogo 1 o Bulls fez o que faz sempre, conseguiu a maior parte dos seus pontos em três tipos de jogadas: pick-and-roll, isolações e spot-up shots, aqueles arremessos onde o mané fica paradinho esperando o passe e só chuta quando recebe a bola. As duas primeiras jogadas acontecem porque é o que eles fazem quando o Derrick Rose tem a bola na mão (todo o tempo em que ele está em quadra) e os arremessos são ou jogadas armadas pelo Rose ou aqueles arremessos fáceis vindos de rebotes ofensivos que eu citei antes. No segundo jogo as três jogadas mais usadas foram as mesmas, mas com uma diferença, os spot-ups subiram do terceiro lugar para o primeiro entre as jogadas mais usadas. Isso é sinal da defesa mais agressiva que o Miami Heat tentou e conseguiu. Usando uma escalação mais baixa, com Udonis Haslem e Chris Bosh como os dois homens de garrafão, eles ganharam mais mobilidade e foram apertar o Bulls lá longe, não era estranho eles só conseguirem começar a rodar uma jogada nos últimos 14 ou 12 segundos de posse de bola. Aí o máximo que conseguiam eram uns arremessos xoxos por aí. Geralmente a resposta para defesas baixas e leves assim são os post-ups, as jogadas no garrafão com o atacante de costas para a cesta, mas nenhum jogador do Bulls, nem os pivôs, são especialistas nessa jogada. Os post-ups foram a jogada menos usada (cerca de apenas 3% das posses de bola) pelo Bulls em todo o jogo 2.

A alteração tática do Miami Heat teve efeito duplo porque o mesmo Udonis Haslem que permitiu que eles não precisassem usar Joel Anthony ou Jamal Magloire em quadra foi o que abriu os espaços para o ataque do Heat florescer (além de ter feito isso). As três jogadas mais usadas pelo Heat no jogo 1, o que perderam, foram as mesmas do Bulls (eu insisto, os times são mais parecidos do que a maioria das pessoas quer admitir): pick-and-roll, isolações e spot-ups. Mas lembram como o Boston Celtics era perfeito marcando o pick-and-roll? Então, eram lições do então assistente técnico Tom Thibodeau, o seu Bulls faz a mesma coisa hoje em dia. As isolações rendem de vez em quando pelo excesso de talento individual e os arremessos são trabalho dos coadjuvantes, depende do humor deles. No jogo 2, o da vitória, Udonis Haslem estava inspiradíssimo e toda vez que a excelente marcação do Bulls fechava todos os espaços para LeBron e Wade eles respondiam achando Udonis Haslem, que estava preciso nos arremessos. Ele fez bolas importantíssimas e causou uma situação nova que quase nenhum time que enfrentou o Heat teve que lidar antes: um time de cinco jogadores capazes de fazer pontos. Uma das razões do primeiro jogo fraco do LeBron James foi que ele não teve espaço para fazer nada, estava sempre rodeado de pessoas como se ele estivesse jogando basquete na 25 de março em semana de Natal. Mas quando os seus companheiros de time começam a acertar arremessos tudo fica mais fácil e vazio.

Mas para mim a maior surpresa do ataque do Heat no jogo 2 foi como eles se movimentaram mais sem a bola. Durante a vitória eles não tiveram de novo os mesmos três tipos de ataque do Bulls como predominantes, o pick-and-roll e o spot-up estavam lá em primeiro e terceiro lugares, mas entre eles uma nova modalidade: cut. O cut é quando o jogador que tenta o arremesso é o que corta em direção à cesta, recebe o passe e então finaliza. Só depois dessas três formas de atacar é que aparece a bendita isolação.

O excelente site NBA Playbook fez uma seleção com algumas dessas jogadas de cut feitas pelo Miami Heat no jogo 2, veja como eles são muito mais eficientes quando se movimentam sem a bola ao invés de só assistir alguém brincar de 1-contra-1.



Até a câmera aqui ajuda. Vendo por cima dá pra ver como o LeBron James se movimenta bem sem a bola, faz o Luol Deng se perder no meio de bloqueios e assim consegue uma boa posição próxima à cesta. Wade e LeBron juntos tentaram 17 arremessos dessa distância no último jogo e acertaram 13! Eles sabem chegar até lá com velocidade, dribles e giros, mas tudo pode ser mais fácil com jogadas como essa.



A decisão do Keith Bogans de dobrar a marcação em cima do Chris Bosh é bem questionável, mas aqui estamos para comentar o ataque do Heat. Wade fez o certo ao se posicionar perto da cesta e aguardar o passe do companheiro de time, que não forçou um arremesso imbecil como o próprio Wade seria capaz de fazer.

A média de cuts do Heat durante a temporada regular foi de 7% das jogadas, no jogo 1 foram 6%, no jogo 2 pulou para 18%! Difícil acreditar que a média vai continuar tão alta de uma hora para a outra, mas é possível que tendo percebido como isso é efetivo executem com mais frequência. E olhe que pensamento assustador: O  Heat pode ter, de repente, um elenco monstruoso, Udonis Haslem saudável e acertando arremessos e ainda, acreditem, podem jogar em equipe. Aí vai ser brabo parar!

O Heat quer manter a invencibilidade em casa nos playoffs e o Bulls não pode ficar abaixo 3 a 1 senão a vaca começa a deitar. Para as próximas duas partidas esses times tem os seguintes objetivos:

Miami Heat: Manter a movimentação ofensiva sem a bola do Jogo 2, não tomar uma surra muito dolorida nos rebotes e continuar variando Dwyane Wade e LeBron James na marcação de Derrick Rose. O tamanho de LeBron atrapalha nos arremessos e passes, a velocidade e força física de Wade tem sido muito úteis para incomodar Rose e tirar tempo do ataque do Bulls.

Chicago Bulls: Forçar o jogo dentro do garrafão quando o Miami Heat usar sua escalação mais baixa, talvez o novato Omer Asik seja uma boa opção para jogar de costas para a cesta contra a dupla Bosh e Haslem. Precisam de melhor cobertura e ajuda na marcação da movimentação do Heat para forçar eles a voltar com o infrutífero ataque de jogadas de isolação. No jogo 2 as bolas de três também não caíram (3-20), eles precisam dessas bolas para que a defesa seja obrigada a deixar o garrafão e abra espaço para Derrick Rose.

Torcedores: Nós precisamos relaxar, abrir um pacote de salgadinho, tomar uma coca-cola gelada e torcer para que nenhum dos dois times consiga tudo isso logo de cara. Paguei pelo meu League Pass e quero ver sete jogos!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Promoção Bulls/Heat

A final do Leste está bombando, Bulls e Heat tem bons times, dois bons jogos já aconteceram e a série parece que vai ser longa. Como uma boa final de conferência, merece a primeira promoção de pelo menos três que temos planejadas para esse final de playoff com a ajuda da adidas.

Temos um prêmio do Bulls e um do Heat, são as chamadas "Camisas Fashion" que a adidas lançou faz pouco tempo. São essas aqui abaixo:




Para ganhar as camisetas será uma mistura entre sorte e futurologia, tudo o que a gente tenta não fazer por aqui vocês vão fazer pra gente. Vocês precisam dizer quem vai ganhar a série, por quanto e quem será, entre os dois times, o cestinha da série. Entre os que acertarem eu vou fazer um sorteio para definir os dois vencedores. O primeiro sorteado escolhe uma das camisetas e o segundo fica com a outra. Vocês entenderam, né? Acertar os palpites não quer dizer vitória, quer dizer que vocês estão na briga. Não são muitas opções de resultado então eles só servem para filtrar o sorteio.


O prazo para o envio dos palpites é o dia 24 de maio, terça que vem, vou fechar os pitacos logo antes do jogo 4 começar.


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Alegria de pobre

- Aí meu pai batizou meu irmão de Comic Sans

Ontem aconteceu um daqueles momentos bizarros que só o acaso pode proporcionar. Era o sorteio que definiria a ordem do próximo Draft da NBA envolvendo todos os times que não se classificaram para os playoffs nessa temporada, a única chance de um time vagabundo ser notícia no meio do mês de maio. Para quem não sabe, o sorteio dá mais chances para os times com pior campanha e menos para os que ficaram na beira dos playoffs, é um jeito de tentar equilibrar a liga. O sorteio é confuso, mas dá pra tentar simplificar em poucas linhas: cada time recebe diversas combinações de 4 números representando cada time e uma máquina (ou as Paquitas jogando cartinhas para o alto, não se sabe ao certo) sorteiam três combinações desses números, representando a primeira, segunda e terceira escolhas do próximo processo de seleção. Do 4 ao 14 não tem sorteio, vai de acordo com a campanha na temporada regular.

As probabilidades de cada time vencer o sorteio ontem eram essas:

1. Minnesota Timberwolves - 250 combinações, 25% de chance de ter a 1ª escolha
2. Cleveland Cavaliers - 199 combinações, 19.9% de chance
3. Toronto Raptors - 156 combinações, 15.6% de chance
4. Washington Wizards - 119 combinações, 11.9% de chance
5. Sacramento Kings - 88 combinações, 8.8% de chance
6. Utah Jazz (via Nets) - 63 combinações, 6.3% de chance
7. Detroit Pistons - 43 combinações, 4.3% de chance
8. Cleveland Cavaliers (via Clippers) - 28 combinações, 2.8% de chance
9. Charlotte Bobcats - 17 combinações, 1.7% de chance
10. Milwaukee Bucks - 11 combinações, 1.1% de chance
11. Golden State Warriors - 8 combinações, 0.8% de chance
12. Utah Jazz - 7 combinações, 0.7% de chance
13. Phoenix Suns - 6 combinações, 0.6% de chance
14. Houston Rockets - 5 combinações, 0.5% de chance

E é aí que o acaso entrou em ação. Como vocês devem estar sabendo desde ontem, quem garantiu a primeira escolha foi o Cleveland Cavaliers. O Cavs era o segundo time com mais chance, certo? Mas seria muito sem graça se isso acontecesse com as combinações que o próprio Cavs possuía, esses números não foram sorteados, mas ao invés deles foram para o primeiro lugar um dos 28 conjuntos de quatro dígitos que representava o Los Angeles Clippers, que mandou essa escolha para o Cavs em Fevereiro na troca que envolveu Baron Davis e Mo Williams. Os números que representavam o Cavs ainda ficaram atrás do Minnesota Timberwolves, que terá a segunda escolha, e do Utah Jazz, que também teve sorte, foi sorteado com a escolha que seria do New Jersey Nets e ficou em terceiro.

O quanto é legal a primeira escolha envolver dois dos times mais zoados dos últimos tempos? O Cavs foi a viúva do LeBron James por um ano todo e estava botando todas a sua fé nesse Draft, se borrando porque sabe que não será atraindo Free Agents que a franquia irá pra frente. Já o Clippers finalmente parece tomar um rumo com Blake Griffin, mas perde uma chance de ouro de conseguir outra primeira escolha com essa troca. Prato cheio pra gente tirar muito sarro do time mais zicado da história da liga. E a história é tão boa que até sentimentalismo esteve envolvido no drama. Cada time escolhe uma pessoa para representar a equipe durante o sorteio, pode ser um fã sorteado (como o Kings fez ano passado), um jogador do elenco (como o John Wall e o Kyle Lowry nesse ano) ou o General Manager da equipe, por exemplo. Mas o Cavs decidiu mandar o filho do dono Dan Gilbert, Nick, de 14 anos, que sofre de uma doença rara e absurda: neurofibromatose, que tem a simpática característica que também tem tudo a ver com o acaso, pode criar um novo tumor a qualquer hora em qualquer lugar do corpo. Nick estava lá para dar sorte e também para arrecadar 22 mil dólares para a fundação que pesquisa a sua doença. Dan Gilbert provavelmente não estava tão feliz desde quando teve a primeira escolha no saudoso Draft de 2003.



Essa é a salvação do Cavs? Difícil saber assim por antecipação, Draft é muito imprevisível, mas chance melhor que essa eles não teriam. O time não é rico para ficar pagando multas, tem um dono com uma imagem manchada após aquele papelão de dizer que o Cavs iria ganhar um título antes de LeBron James (em uma carta escrita em Comic Sans, por deus!) e nem é uma equipe com tradição vitoriosa para atrair outros Free Agents. A única chance deles era ter sorte no Draft, onde os coitados dos pivetes não têm direito de escolher onde jogar e eles agora tem a chance de ter o melhor jogador do próximo ano e ainda mais uma quarta escolha, que tem tudo para ser um bom jogador. Eu já tinha aprovado a troca deles pelo Baron Davis, veja o que escrevi na época:

"Sendo o pior time da temporada eles tem ótimas chances de ter a 1ª escolha no Draft do ano que vem e com todo o azar do mundo ficam pelo menos com a 4ª. Essa do Clippers, se nada de muito drástico acontecer, deve ficar entre a 7ª e 10ª. Ou seja, um ano após o término do namoro com o LeBron James eles tem uma escolha Top 5 e outra Top 10 para recomeçar um núcleo jovem no time, não é nada mal!"

No fim das contas ficaram com a primeira escolha mesmo, só do jeito mais bizarro e ainda conseguiram a quarta. Se o primeiro cenário era nada mal esse é o paraíso na terra. O Cavs realmente ganhou na loteria.

Mas e o Clippers, será que eles fizeram mesmo uma bobagem ao realizar a troca? Deveriam ter protegido a escolha para que ela ficasse no time caso fosse Top 3? O General Manager Neil Olshley responde:  
 "Nossa posição no Draft não seria nem a mesma se não tivéssemos feito a troca, então não é provável que teríamos mesmo essa escolha. Tinhámos 97% de chance de estarmos aqui hoje com o Baron Davis tomando 25% do nosso espaço salarial, a oitava escolha em um draft fraco e o sétimo jogador com menos de 23 anos no nosso elenco". Ele tem a mais absoluta razão, é até estranho ver tanta razão saindo da boca de um dirigente Clipperiano! Qualquer vitória a mais ou a menos com o velho elenco e o sorteio já teria sido diferente, é ridículo ficar pensando nisso agora.

Sobre proteger a escolha caso fosse uma Top 3, ele disse que estava fora de questão durante a negociação, que o Cavs não teria finalizado a negociação nesses termos. Não há o que culpar então, os dois times fizeram o que tinham que fazer e foi o acaso, só ele, que pesou a balança a favor de Cleveland alguns meses depois. Alguém realmente surpreso que o Clippers ficou no lado azarado da troca?

A sorte também bateu na porta do Utah Jazz, o que deixou a troca do Deron Williams muito mais justa. Para quem não lembra, o Jazz mandou D-Will em troca de Devin Harris, Derrick Favors e duas escolhas de primeira rodada, essa 3ª escolha sendo uma delas. Nada contra o Harris, nada além do fato dele ser um shooting guard em corpo de armador, de não ter cérebro e um destino como 6º homem na NBA. E não quero condenar o Derrick Favors depois de uma temporada, mas esse primeiro ano dele não foi lá dos mais animadores. O Jazz conseguiu uma troca muito boa quando o futuro indicava que perderiam o Deron Williams por nada, mas não parecia ser nada que fosse colocar o time de volta nos playoffs em um futuro próximo. Mas agora, com essa terceira escolha, eles tem uma boa chance de já começar a reestruturar a equipe, até porque alguns dos principais nomes para o Draft são das posições 1 e 2, as mais carentes do Jazz. Eles ainda estão em reconstrução, mas essa justiça divina que equilibrou a troca dá uma perspectiva mais otimista para o nosso querido time dos mórmons. Um time com ótimos torcedores merecia essa bênção.

Para ver a lista de como ficou a ordem completa do Draft, primeiro e segundo round, eu recomendo o NBADraft.net. Lá você pode também ver a previsão de escolhas para cada posição e clicando nos nomes ler sobre cada um dos jogadores. É diversão garantida nos dias sem jogo de playoff.

Pós-view da Final do Oeste - Mavs X Thunder

Mesmo marcado por alguém que não sai do chão, o Nowitzki pula pra trás como bailarina


Deu tudo errado nos nossos planos e não conseguimos postar nosso já tradicional preview antes de começar cada nova série dos playoffs. Mesmo que muitas vezes ele vá ao ar em cima da hora, minutinhos antes do jogo, dessa vez nem isso conseguimos fazer. Thunder e Mavs ficou sem uma apresentação, sem uma introdução. Mas já que nos acostumamos a moldar o espaço-tempo com o League Pass (que permite que você assista ao jogo já começado ou terminado quando quiser, voltar a jogada, pausar, cortar os intervalos), vamos fazer uma viagem temporal: retornaremos ao passado, faremos as perguntas que eram fundamentais para entender a série, e então viajaremos de volta para o futuro (!) para mostrar como essas questões foram respondidas no jogo de ontem à noite.

- Como o Thunder fará para marcar Nowitzki? Quem receberá essa função? Usarão marcação dupla?

Essa eu nunca teria adivinhado. O Thunder usou nada mais, nada menos do que 6 marcadores no Nowitzki: foram Serge Ibaka (na maior parte do tempo), Nick Collison, Kendrick Perkins, Kevin Durant, Thabo Sefolosha e James Harden. O Westbrook também acabou marcando o alemão, mas foi numa troca de marcação desastrada. O Ibaka já tinha mostrado contra o Grizzlies todas as suas especialidades e todas as suas dificuldades, e eu esperava que o Nowitzki fosse mesmo uma dor de cabeça ainda maior. O Ibaka deu muito espaço para o Zach Randolph arremessar e, quando tentou jogar de forma física, cometeu muitas faltas ou foi batido em giros rumo à cesta. Seu grande trunfo é a velocidade, então ele é excelente na ajuda defensiva, cobrindo seus companheiros, ou fechando o pick-and-roll. Contra o Nowitzki, dar espaço para o arremesso é loucura, e o alemão tem muitos recursos girando em direção à cesta. Jogando menos na força bruta, que era o caso do Randolph gordinho, imaginei que o Ibaka teria mais problemas para contê-lo, mas que ele estaria ao menos constantemente na frente do Nowitzki para atrapalhar. O que aconteceu foi que assim que recebeu espaço para arremessar no começo do jogo, Nowitzki converteu seus arremessos e entrou num ritmo. Percebendo que precisaria pular mais para contestar os arremessos bizarros do alemão, que pula para trás como se fosse uma mola, Ibaka começou a sair do chão na defesa - cometendo assim muitas faltas e ficando vulnerável para o Nowitzki bater pra dentro. Quando começou o terceiro período, Ibaka já tinha 4 faltas e foi pro banco. Não deu certo. O Perkins se saiu ainda pior, porque para contestar os arremessos tem que mover toda sua massa corporal feita de concreto e o Nowitzki apenas fingia os arremessos para cortar livremente rumo à cesta. Cagada. Então o Thunder tentou o Durant, que é mais rápido e tem braços mais compridos estilo Dhalsim, mas como ele não tem físico para segurar o jogo de costas para a cesta do alemão, acabou cometendo faltas e teve que abandonar a função. Thabo Sefolosha tentou colocar em prática a defesa ideal contra o Nowitzki, que é estabelecer uma posição sólida bem perto do corpo do alemão e obrigá-lo a colocar a bola no chão. Mas o Nowitzki arremessou facilmente por cima do Sefolosha, que é muitíssimo mais baixo do que todos os outros marcadores, e ainda cavou faltas fazendo algo inédito para ele: combatendo a defesa estabelecida do seu marcador com força, usando as costas sem medo do jogo físico. James Harden tentou a mesma tática e se saiu um pouco melhor, mostrou um físico que eu não imaginava que ele tivesse, mas Nowitzki continuou arremessando por cima de todos esses nanicos. Foi um massacre. Quem se saiu melhor foi o Nick Collison, o homem que lascou com a vida do Zach Randolph no jogo final entre as equipes, mas também cometeu muitas faltas tentando evitar os arremessos de arco gigante do alemão. Ao todo, o Nowitzki cobrou 24 lances livres e converteu todos, recorde da história dos playoffs.

É claro que o Thunder tentou dobrar a marcação assim que o Nowitzki começou a acertar arremessos, mandando o Wetbrook para a dobra. É sempre uma boa sacada para pará-lo, porque ele passa a bola toda vez que a dobra chega (a não ser que a dobra venha muito tarde, quando ele já se dirigia para a cesta, como aconteceu algumas vezes). Mas existe uma coisa bizarra a respeito do Mavs: eles são um time com pouca variação ofensiva, que não gira a bola, e que se baseia muito em jogadas de isolação - a não ser que a bola saia de dentro do garrafão. Quando o Nowitzki recebe marcação dupla, ele invariavelmente passa a bola para o perímetro e lá a bola gira com maestria para encontrar um arremessador livre. Por que eles não giram a bola constantemente eu nunca saberei, mas bastou o Thunder dobrar para que o Mavs convertesse uma bola de três pontos. Foram cestas de Jason Kidd, de DeShawn Stevenson, de Peja Stojakovic (a década passada manda lembranças), e principalmente do Jason Terry (que inclusive fez a cesta de três que garantiu a vitória, numa dobra no Nowitzki, quando o Thunder apertava no minuto final). Bastaram alguns desses arremessos convertidos para que o Thunder parasse de dobrar, voltando apenas no quarto período quando a água estava batendo na bunda. E a verdade é que muitos arremessos de três pontos nessas circunstâncias não caíram, mas os que caíram decidiram o jogo.

Voltamos então a uma questão que monopolizava os debates táticos na época em que o Duncan dominava o jogo: deve-se dobrar ou não a marcação num ala de força que sabe passar a bola para um time que é bom arremessador de três? Sempre achei que a marcação deveria dobrar no Duncan e forçar os outros jogadores a decidir no perímetro, mas o Suns perdeu muitos jogos para o Spurs porque estava dobrando - e muitos outros por não estar dobrando, também. O Thunder vai passar por essa questão filosófica durante a série, "dobrar ou não dobrar, eis a questão", e essa pode ser a escolha mais decisiva do confronto.

Vale ressaltar também a paciência absurda do Nowitzki quando sofre a marcação dupla. Ele respira, segura a bola mais um pouco, e aí passa para o perímetro. Apenas uma vez, no jogo inteirinho, recebeu a bola de volta para atacar de novo o garrafão, lá no fim do terceiro quarto. Ele passa para fora mesmo sabendo que a bola não voltará, confia inteiramente no time e o Mavs é feito para isso. Mesmo nos contra-ataques, o que o Mavs quer é arremessar do perímetro, e funciona.

- O banco do Dallas Mavericks prometeu desequilibrar a série. Jason Terry chegou a dizer que queria marcar sozinho mais pontos do que todo o banco do Thunder. Como o banco do Thunder vai responder a isso, e como Jason Terry se sairá?

Pois é, o Jason Terry quase fez o que prometeu. Sozinho marcou 24 pontos, com 4 bolas de três pontos, enquanto o banco inteirinho do Thunder somou os mesmos 24 pontos. Jason Terry se aproveitou um absurdo da dobra de marcação no Nowitzki, e soube também usar isso para fingir arremessos contra a defesa do Thunder afoita por cobrir os buracos, batendo para dentro do garrafão com o caminho livre. O Nowitzki teve uma partida absurda, mas a calma do alemão só foi possível porque ele não teve que forçar arremessos, podia colocar a bola no perímetro para o Jason Terry se aproveitar. De certo modo, foi ele quem decidiu o jogo e permitiu a partida do Nowitzki.

Mas o banco do Dallas teve também os 21 pontos do JJ Barea, que também quase fez tantos pontos quanto o banco do Thunder inteiro. E o JJ Barea nem precisou ficar arremessando, ele atacou a cesta numa boa se aproveitando dos espaços criados pelo Nowitzki. Foi quase uma imitação do que o Devin Harris fazia por lá uns anos atrás. Vamos dar uma olhada em uma imagem do jogo, tirada diretamente de um print screen do meu League Pass.


Reparem primeiro na qualidade da imagem, que parece um quadro pintado pelo Monet (é o espírito do pintor, que às vezes invade meu League Pass). Mas depois, vamos dar uma olhada naquele bolo de jogadores na cabeça do garrafão. Parece uma suruba, mas na verdade é o Brandan Haywood ameaçando fazer um corta-luz para o Nowitzki. Só essa ideia já deixa a defesa do Thunder louca, então tanto o marcador do Nowitzki (o Ibaka) quanto o marcador do Haywood (que é o Perkins) precisam impedir a jogada. Mas vejam, é uma defesa inteira comprometida com isso sendo que a bola sequer está naquela parte da quadra. Enquanto isso, o Nate Robinson está marcando o homem com a bola mas defende seu lado direito, que é onde está o Nowitzki, para tentar impedir um passe para o alemão. O JJ Barea, que tem a bola, pode então caminhar de costas em direção à cesta se quiser, porque ninguém está lhe dando bola. O único homem por perto é o James Harden que, como vimos analisando taticamente as jogadas do Grizzlies, nunca - NUNCA - abandona seu homem na zona morta. E foi assim que o JJ Barea marcou 21 pontos sem nunca ser marcado por ninguém. O Nowitzki muda o jogo mesmo quando está só parado, lendo um gibi.

O banco de reservas também se segura sem o alemão, mesmo que seja capengando. As jogadas que o Mavs chama continuam idênticas (em geral é o Shawn Marion que é isolado de costas para a cesta), o que me enlouquece, é muita burrice e tem resultados mequetrefes. Mas os jogadores são bons o bastante para ao menos segurar as pontas. Com 3 minutos para acabar o primeiro quarto, Nowitzki já estava descansando no banco numa boa com a garantia de que o time não iria se demolir.

O banco do Thunder, por sua vez, não tem esse poder ofensivo. Ontem até o Nate Robinson, que mora de castigo no banco, entrou em quadra para correr atrás do Barea e dar uma força no ataque. O único reserva que ajudou pra valer foi o James Harden, que cada vez se mostra um jogador mais completo. Contra o Grizzlies, mostrou que consegue armar o jogo e passar a bola nas infiltrações, o que lascou muitas vezes o plano defensivo da equipe dos ursinhos. Contra o Mavs, ele foi o único jogador capaz de costurar a defesa por zona da equipe de Dallas e finalizar na bandeja ou então acionar os jogadores do Thunder embaixo da cesta. Se o Westbrook conseguisse ter essa frieza do Harden, seria um gênio.

- O Mavericks vai usar sua famosa defesa por zona? Se usar, o Durant não vai matá-los no perímetro? Como diabos vão marcar o Durant?

Essa pra mim foi a maior surpresa do jogo. Não teria adivinhado nunca, teria mesmo que viajar de volta para o futuro. O Mavericks usou bastante sua defesa por zona e com isso deu um espaço considerável para o Durant arremessar toda vez que recebia a bola vindo de um corta-luz. Mas essa defesa por zona tornou impossível para o Westbrook usar sua velocidade e colocar a bola no chão na cabeça do garrafão! A defesa por zona do Mavs exige um post à parte, que teremos muito tempo para fazer nesses playoffs, o que importa por enquanto é que o Westbrook foi obrigado a acalmar o ritmo, costurar a defesa, lidar com mais de um marcador, e ele é um desastre nessas coisas. Quando finalmente encontrava o caminho livre para o aro (em geral no contra-ataque, porque a defesa de transição do Mavs fede), tomava sopapo dos trogloditas do garrafão: Tyson Chandler e Haywood. O Mavs que fez Kobe Bryant não finalizar praticamente nenhuma vez perto do aro apareceu ontem, mandando Durant e Westbrook pro chão, pra linha de lances livres, e forçando erros com vários defensores em cima da bola ao mesmo tempo. Durant cobrou 19 lances livres, Westbrook cobrou 18. Parece algo desastroso para o Mavs, não? Além disso, Durant marcou 40 pontos, acertando arremessos fáceis. Parece uma merda, não? Aí está a genialidade do Mavs, o sinal de que eles assistiram a todos os jogos da série entre Thunder e Grizzlies e fizeram a lição de casa. A defesa por zona foi colocada em prática para deixar o Durant jogar, mas aloprar com o Westbrook. Quem foi o gênio maligno que pensou nisso? Além disso, é melhor deixar os dois na linha de lances livres do que fazendo bandejas. Como o Lakers mostrou, uma hora o time cansa de apanhar, cansa de ter todas as bandejas contestadas, e passa a arremessar só de longe. O Thunder é pior quando fica nos arremessos (venceu o Grizzlies fácil com o Durant cortando mais em direção à cesta) e depende muito do Westbrook não cometer cagadas e controlar o ritmo de jogo (quando ele armou o jogo com calma, passou a bola e não forçou arremessos, o Grizzlies virou farofa no Jogo 7). Com uma defesa para forçar o Westbrook a não poder bater para a cesta, o Mavs só teve que se preocupar em cometer faltas nas penetrações que passavam e ver os arremessos de fora choverem. O Thunder só encontrou uma bola de segurança nas infiltrações ou espaços dentro da zona que procuravam então passar a bola para alguém embaixo da cesta, como Ibaka ou Perkins. Quem mais fez isso foi o Harden, porque o Westbrook não consegue.

Essas questões foram então bem respondidas, e está dada a tônica da série. Mas e quando os arremessos de fora do Thunder caírem? E quando o Durant marcar 60 pontos porque tem espaço para jogar? Será que o Westbrook consegue vencer a defesa por zona, acalmar o jogo, levantar a cabeça, e acionar o garrafão? E quem diabos, mantemos a pergunta, vai marcar o Nowitzki pra valer? Haverá dobra ou não? São novas questões que resolveremos no próximo jogo, quinta-feira. E você acompanha a análise aqui, num horário aleatório mas no mesmo bat-canal.

domingo, 15 de maio de 2011

Preview da Final do Leste - Bulls X Heat

Gatinho

Antes de mais nada, o que você não encontrará nesse post?

- um palpite idiota e metido a Walter Mercado sobre quem vai ganhar essa série
- uma discussão sobre o LeBron ser melhor ou pior do que o Jordan ou o Kobe ou o Marcelinho Machado
- desdém com o Heat porque as estrelas se venderam e foram jogar juntas
- uma análise sobre o Derrick Rose ser o MVP e como esse prêmio não significa bulhufas
- uma menção ao Atlanta Hawks
- uma foto nua da Talula

Tendo dito isso, vamos para um rápido preview da final do Leste que começa hoje às 21h, comentando as principais dúvidas sobre a série e os elementos vitais para cada time, pra você poder assistir de olho em alguns fatores.

Antes de mais nada, os dois times possuem ritmos bastante parecidos de jogo. Derrick Rose gosta de botar o Bulls pra correr e finaliza constantemente na transição, enquanto o Heat joga um pouco mais devagar, é mais eficiente no basquete de meia-quadra, mas também busca o contra-ataque mais do que qualquer coisa. Isso significa basicamente que erros de passe, desperdícios de bola e arremessos de três pontos errados serão punidos sem dó nem piedade com contra-ataques monstruosos. Nenhum dos dois times se beneficiaria de uma diminuição desse ritmo, então podemos esperar defesa forte e ritmo frenético. Derrick Rose, LeBron e Wade estão entre os jogadores que mais desperdiçam a bola na NBA porque estão constantemente com a bola nas mãos e forçando o jogo para dentro do garrafão. Quanto mais forçarem e mais cagadas cometerem, mais darão pontos fáceis para o adversário. Por isso, surgem algumas questões. Como será a marcação em cima de Derrick Rose, para forçar desperdícios, e como Rose reagirá a ela? Nas últimas partidas, Rose soube distribuir melhor a bola e forçar menos o jogo, e provavelmente terá que fazer isso porque a defesa de pick and roll do Heat é uma das melhores da NBA e estará focada inteiramente no armador do Bulls. Da parte do Heat, LeBron e Wade terão que infiltrar menos e encontrar um ao outro em cortes para a cesta. A dupla é excelente nisso, mas executa pouco a jogada. Quando os dois são isolados com a bola na mão e precisam criar o próprio arremesso, os turnovers são mais frequentes - e as bolas forçadas de três pontos também.

Nenhum dos dois times é exatamente eficiente nas bolas de 3 pontos, tentando pouco e acertando menos ainda. Com o foco no garrafão e os arremessos contestados por duas das melhores defesas da NBA, os rebotes serão um dos pontos mais importantes da série. O Bulls é melhor do que o Heat em rebotes ofensivos, enquanto o Heat é mais eficiente com tapinhas, colocando a bola de volta dentro da cesta. Então proteger o rebote defensivo será vital, vale até dedo no olho. Bizarramente, Joel Anthony é estatisticamente um dos jogadores mais importantes dos playoffs até agora justamente porque garante que a bola se mantenha viva nos rebotes ofensivos e afasta os adversários nos rebotes defensivos. Na luta contra Boozer e Noah, que são bons reboteiros, o Anthony vai ser ainda mais importante. Quem diria, hein? No time do Bosh, do Wade e do LeBron, temos que dar papel importante para o tal do Joel Anthony, que sabe fazer um monte de coisas mas nenhuma delas lembra basquete.

O ponto fraco da defesa do Heat é nos arremessadores de três de equipes que conseguem rodar a bola. Como o foco defensivo está no armador e no pick and roll, vai ter muita gente do Bulls sobrando livre para arremessar de fora. Em dias bons do Derrick Rose e do Kyle Korver, dá pra abrir rapidamente vantagens que o Heat não consiga tirar depois. O que leva a uma dúvida importante: quem marcará os arremessadores e o perímetro? Derrick Rose pode ser marcado por Mario Chalmers, LeBron (que já marcou o Tony Parker contra o Spurs, por exemplo) ou até mesmo o Wade, mas os dois últimos são muito melhores na ajuda defensiva e no esquema tático do Heat estão sempre prontos para cobrir o garrafão. Colocar um deles no Rose complicará o armador do Bulls, mas abrirá espaço na defesa e Chalmers provavelmente marcará um arremessador maior do que ele. Tem também o lance das faltas, que o Rose pode cavar com facilidade num dia bom. O banco de reservas do Heat até tem tido participação importante, mas nessa série devem sentir falta de um defensor especialista quando a coisa apertar.

Do outro lado da quadra, o Heat é especialista em cavar faltas. Para alguns, é porque toda vez que o Wade cutuca o nariz algum árbitro maluco manda bala no apito, e o LeBron seria o queridinho mimado que os árbitros deixam andar, correr e chutar a bola com os pés para depois marcar falta em cima dele. Então é bom Keith Bogans (que talvez não jogue hoje), Ronnie Brewer e Luol Deng (jogando lesionado) darem um jeito de não sair com excesso de faltas - mas também saber cometer a falta para poupar o garrafão do Bulls. Os lances livres constantemente colocam o Heat no jogo porque o ataque é muito truncado, não flui a não ser no contra-ataque, então cavar faltas mantém a equipe viva até eles pegarem o ritmo. Não cometer faltas contra o Heat é uma ótima forma de deixar o time maluco e completamente fora de seu padrão de jogo.

O ataque do Bulls não é muito diferente, já que é muito centrado no Derrick Rose, mas o time depende menos dos lances livres e mais dos arremessos de média distância. Aliás, estejamos preparados para jogos em que os ataques se complicam, se atrapalham, perdem a bola e fazem cagada. E defesas duras, que forçam erros. Mas que cometem erros também. O que o Boozer e o Noah têm batido cabeça na defesa não é brincadeira, e por isso mesmo o Bosh deve sobrar livre o tempo todo nos jogos e pode ser fator decisivo. A defesa do Heat também se atrapalha quando aperta demais os passes, liberando bolas de três. Sabe aquele arremesso de três que o Rose não tinha ano passado e que ele agora usa o tempo inteiro como se fosse o Ray Allen? Se estiver calibrado, vai machucar o Heat um absurdo, mais do que machucou nos playoffs até agora. Mas se não estiver, cada arremesso errado de três vai virar um passe de futebol americano entre a dupla Wade e LeBron. A transição defensiva tem que ser impecável, sempre, e vai levar alguns vários jogos para os dois times se acostumarem com isso.

Em uma das vitórias do Bulls sobre o Heat na temporada regular a estrela da noite foi o Chris Bosh. Não por um bom motivo, claro, ele conseguiu a impressionante, sensacional, histórica e patética marca de um arremesso certo em 18 tentativas! D-E-Z-O-I-T-O. Mas isso não quer dizer que o Bulls tenha uma fórmula mágica para pará-lo, é só um grande exemplo de como coisas bizarras acontecem no meio da temporada regular e que temos que saber o que levar de relevante desses jogos e o que ignorar. Esqueça aquela bobagem de que o Heat perdeu a série na temporada regular, que o Bulls tem a melhor campanha do Leste, coisa e tal. O momento agora é bastante diferente para as duas equipes.

O Bulls vem de um alívio que foi descobrir sua identidade depois de passar mais sufoco do que queria nos playoffs, tiveram que voltar para a realidade e encontrar outro tipo de jogo que fosse mais eficiente do que deixar o Rose jogar. A equipe agora é mais perigosa no ataque, e mais atrapalhada na defesa do que vimos na temporada regular. O Heat, então, é um time completamente diferente: Joel Anthony é uma âncora na defesa e desequilibra o jogo muitas vezes só com posicionamento (é o Nick Collison sem poder ofensivo), Wade e LeBron se procuram no ataque ao invés de ficar fazendo turnos, e o técnico Spoelstra está mais maleável e não coloca em prática aquele ataque engessado de antes. São duas equipes motivadas, com compreensões novas de si mesmos, e portanto não dá pra saber o que esperar. De certo, apenas que esses jogos truncados de placar mais baixo acabam sendo decididos nos detalhes e por mudanças táticas de um jogo para o outro - algo que deve acontecer bastante especialmente porque o Spoelstra é nerd de basquete (tipo o Kobe) e o Thibodeau é um gênio defensivo que tem muito para arrumar conforme a série for acontecendo. Ou seja, vai ter muito material para a gente analisar com cuidado quando a série começar, jogo a jogo. Por enquanto, apenas questões e os fatores importantes para uma primeira leitura. Daqui a pouco, vamos ver como isso se encaixa na prática.