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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Como comissário, um grande manager

Quem parece mais feliz, Eric Gordon ou Chris Paul?


Acabou a novela Chris Paul. Ah, sempre sonhei em acompanhar uma negociação do mundo esportivo na imprensa tradicional e chamar algo de "novela". Só não é mais legal do que chamar o período de um treinador de "era", mas tá quase lá. Vocês devem lembrar do enredo dessa que contamos nesse post aqui. Se não lembra, vai lá ler que a gente espera aqui antes de começar o último capítulo.

O grande final da novela Chris Paul teve uma reviravolta interessante. Ele foi para Los Angeles como deveria ter ido semana passada, mas ao invés do Lakers ele vai jogar no Clippers: Como em uma boa novela, é o pobre bonzinho que se dá bem em cima do rico esnobe. Depois que as trocas feitas pelo General Manager Dell Demps foram vetadas pela NBA, dona do New Orleans Hornets, o próprio David Stern conduziu as negociações. E, se querem saber a verdade, ele foi muito bem. O Hornets manda Chris Paul e em troca recebe Eric Gordon, Al-Farouq Aminu, Chris Kaman e uma escolha de 1ª rodada do Draft do ano que vem, bem valiosa por ser originalmente do Minnesota Timberwolves.

O negócio é muito bom, antes de mais nada, porque eles recebem um baita jogador em troca. O Eric Gordon fez uma temporada muito boa ano passado, com 23 pontos e 4.4 assistências de média e um jogo muito mais completo do que qualquer um imaginava dele. Aquele simples (e eficiente) arremessador de longa distância passou a driblar, infiltrar e até a dar umas enterradas monstruosas. Ele tem apenas 23 anos e já flerta com uma qualidade de jogo que pode levá-lo à condição de estrela na NBA. Na pior das hipóteses será "apenas" um excelente pontuador. Ao trocar um grande jogador, nada melhor do que receber um que é mais novo e que indica que pode chegar em nível parecido com o que está deixando o time.

Junto dele vêm outro promissor jogador, Al-Farouq Aminu, que no seu primeiro ano de NBA na última temporada foi discreto, mas longe de ser um fracasso. Pecou mais pela falta de consistência do que de talento. É mais um clássico jogador que foi muito cedo jogar entre os profissionais mas ainda pode dar certo. Ironicamente o seu melhor jogo foi contra o Hornets, quando fez 20 pontos, 8 rebotes e 2 roubos em 29 minutos. Aminu tem apenas 21 anos.

O mais velho da troca é Chris Kaman, de 29, curiosamente menos do que Luis Scola, Lamar Odom e a mesma idade de Kevin Martin, os três que o Hornets receberia naquela troca vetada com o Lakers. Kaman tem sofrido com contusões ao longo de sua carreira, mas quando joga é um dos melhores pivôs ofensivos de toda a NBA. Caso eles queiram investir apenas na garotada, podem conseguir uma troca para Kaman num futuro próximo. O seu salário é alto, mas vimos nessa offseason como a maioria dos times não liga de pagar muito alto por pivôs apenas razoáveis, que dirá de um que sabe jogar basquete. E caso queiram ficar com ele, não seria absurdo. Jogadores técnicos como Kaman costumam render bem durante muitos anos, é só as contusões não voltarem.

Mas a grande vitória do Hornets na troca foi ter conseguido a escolha do Wolves. O Clippers quase pulou fora do negócio quando a NBA disse que queria a escolha e mais Eric Gordon, o time de Los Angeles insistia que era um ou outro, mas acabou cedendo para ficar com Chris Paul. A escolha é essencial para apressar o processo de reconstrução do time. O Draft do ano que vem é considerado o com melhores jogadores desde 2003 e agora eles tem grandes chances de terem duas das 5 primeiras escolhas. Por mais evolução que o Wolves possa ter nessa temporada e de bons jogos que Eric Gordon possa ter, é inegável que os dois times são fortes candidatos às últimas colocações do Oeste.

A troca é o oposto da vetada com o Lakers. Aquela focava em jogadores mais velhos, prontos para render e nenhuma garantia para o futuro. Com Scola, Odom e Martin o time não teria a escolha do Wolves e era capaz deles ainda jogarem bem o bastante para a escolha do próprio Hornets não ser tão boa assim. O fato da NBA ser dona de um time e sair por aí vetando trocas é ridículo, isso não muda. Mas David Stern já pode pensar em largar a vaga de comissário da liga e entrar no mundo dos General Managers, ele mandou bem demais e deu boas perspectivas para o futuro do Hornets.

Por outro lado o Clippers abriu mão de muita coisa com a esperança de ter dado o passo definitivo para o mundo dos grandes times. Entre perdas e ganhos diria que eles fizeram a escolha certa. Muitos críticos nos EUA dizem que em uma troca o vencedor é sempre o time que sai com o melhor jogador. O argumento é que jogadores medianos ou até bons podem ser encontrados aos montes, mas que estrelas são raras. Ou seja, o Knicks pode fuçar a NBA e aos poucos recuperar gente do nível de Danilo Gallinari e Wilson Chandler, mas não teria outra chance de ter um cara como Carmelo Anthony. Não sei se a regra se aplica sempre, não é tão simples assim, mas ela definitivamente faz sentido muitas vezes e o caso do Clippers é um deles.

O Chris Kaman é um bom pivô que daria segurança à jovem dupla de Blake Griffin e DeAndre Jordan, mas não daria para segurar uma troca por causa dele. Griffin já é um All-Star e DeAndre Jordan acaba de ser reassinado pelo Clippers pela quantia assombrosa de 43 milhões de dólares por 4 anos! Se você paga isso para o seu pivô é porque confia nele e vai ser titular. O cara ainda é bem cru no ataque, ponto forte do Kaman, mas foi o terceiro jogador que mais enterrou na NBA no último ano (o segundo foi Griffin, atrás apenas de Dwight Howard) e pode segurar a barra numa boa. É uma perda sentida, mas contornável.

O mesmo vale para o Eric Gordon, que é fora de série, mas se destaca por ser um pontuador e pontos não vão faltar para o Clippers se o Chris Paul jogar no nível que costuma atuar. O elenco do Clippers tem uma ótima base no Griffin, uma boa aposta e defesa no DeAndre Jordan e ganhou reforço do Caron Butler, que assinou um contrato de 24 milhões por 3 anos. O ala ex-Mavs defende bem, ataca com consistência, sabe criar o seu próprio arremesso e é experiente. Uma contratação dessas pede outras que sinalizem algo mais do que ser só mais uma grata surpresa.

Os pontos que eram de Gordon também podem vir dos dois armadores que ficaram da temporada passada e que podem atuar tranquilamente na posição 2: Eric Bledsoe, que atuou assim no basquete universitário, e Mo Williams, que no Cavs cansou se ser efetivo sem a bola na sua mão. Ou seja, o Clippers perdeu um grande jogador, mas tem no elenco gente que pode de alguma forma compensar o que ele oferecia.

Agora, existe alguém que possa fazer o que Chris Paul faz? O cara é um dos melhores ladrões de bola da liga (talvez o melhor em tirar a bola da mão do adversário, não em interceptar passes), um dos passadores mais precisos, é rápido, sabe criar o próprio arremesso e até rebotes consegue pegar. Sua criatividade já levou um time bem mais ou menos do Hornets até o jogo 7 da semi-final do Oeste em 2008. Em resumo: Um pontuador como Eric Gordon não é o que faz um bom elenco dar o passo do meio da tabela para o topo, mas um grande armador, pela sua função, pode conseguir o feito. O Clippers percebeu isso e decidiu arriscar.

O risco é alto, mas eles deram um jeito de diminuí-lo. O Chris Paul já havia dito que ao fim dessa temporada iria optar por sair do seu contrato e se tornar um Free Agent, indo provavelmente para o New York Knicks. Mas o Clippers fechou o negócio com a garantia de Paul de que ele não irá optar por sair do contrato, garantindo assim pelo menos duas temporadas de pontes aéreas entre Paul e Griffin para povoar o Top 10 semanal da liga. Se dois anos não for tempo o bastante para o time engrenar e Paul decidir ir para Nova York de qualquer jeito, paciência, mas ninguém pode dizer que o Clippers foi acomodado. Amaldiçoados eles são e tudo, de repente, pode dar errado, mas estão correndo atrás do que podem fazer.

O time está se movimentando tanto nessa curta offseason que está até com excesso de jogadores. Sem saber que conseguiriam Chris Paul e prevendo a citada necessidade de um armador mais experiente e que organizasse o jogo mais do que Mo Williams e Bledsoe, eles tinham acabado de contratar ninguém menos do que Chauncey Billups. O armador foi anistiado pelo Knicks e, ao contrário da última vez que a anistia valeu, dessa vez os jogadores dispensados ficaram à disposição dos times abaixo do teto salarial para uma espécie de leilão. Só virariam Free Agents irrestritos, disponíveis para todos os times, se os abaixo do teto não dessem nenhum lance. O Clippers aproveitou a vaga preferencial e foi o que deu a oferta mais alta, 2 milhões de dólares, para levar o armador.

O porém era a vontade do Billups. Assim que foi anistiado ele se mostrou bem frustrado e disse que não estava mais em idade de ficar mudando de time por aí, que queria só ir para um lugar onde pudesse brigar por títulos e sossegar até o fim da carreira. O Clippers certamente não passava essa impressão. Tanto que a NBA fez questão de mandar um e-mail para o Billups avisando-o de que ele seria punido se não se apresentasse ao time que venceu o seu leilão. Para não ser punido, Billups teria que se apresentar ou anunciar a aposentadoria.

A questão é se essa troca pelo Chris Paul muda a opinião de Billups. Talvez colocar o Clippers já na categoria de candidato ao título seja um grandíssimo exagero, mas certamente é elenco para ir para os playoffs. E difícil imaginar um time que vá ser mais divertido do que esse! Será que o Billups não quer ser um mentor, um líder de vestiário, para a dupla Griffin e Paul? E, assim como Bledsoe e Williams, ele pode jogar na posição 2 e poderia até ter vaga no time titular. Já jogou assim no começo de carreira, tem bom arremesso e é forte fisicamente para dar conta na defesa. A altura e a velocidade atrapalham na hora de marcar caras mais altos, mas Jason Kidd está aí para mostrar que esses obstáculos podem ser superados com a experiência. É motivação o bastante?

Não duvido que o Clippers esteja planejando uma troca para conseguir um shooting guard clássico para a posição, mas não vejo porque ter um desespero para isso. Os outros armadores dão conta do recado. Paciência, como tiveram para conseguir Chris Paul, é essencial. E é necessário lembrar que o Billups, pela forma que foi adquirido, não pode ser trocado até o fim da temporada e como Bledsoe é novo e barato, não deve sair tão cedo também por vontade da diretoria. O mais forte candidato a possível troca é o Mo Williams.

E sabe quem precisa muito dele? O Lakers, que ainda não conseguiu o armador que tanto sonha. O Clippers deveria mandar o Mo Will de presente e dizer que é um favor para um primo pobre.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Trocas, trocas, trocas

Mo Williams e  Baron Davis tem ótimas fotos juntos. (Ex.1 ; Ex2


Meu deus, que suruba! Nunca vi tanto troca-troca em um só dia. A NBA já teve muitos momentos de movimentação intensa no passado, mas eu sinceramente não lembro de um com tanto jogador sendo trocado. Já falamos da troca do Carmelo Anthony que envolveu 12 jogadores e da do Deron Williams, que levou ele para o New Jersey Nets. Mas isso foi só o começo, hoje foram mais um milhão de transações que vamos demorar uns dias para analisar totalmente. Se não terminarmos é porque eu fui trocado para um outro blog, rumores indicam que eu possa começar a escrever no Mão Feita a partir de amanhã.

Algumas transações, como o botão de auto-destruição que o Boston Celtics apertou, merecem esperar pelo menos um dia para que a gente possa ter certeza de todos os desdobramentos e detalhes de todos os jogadores envolvidos. É um momento importante da temporada e não queremos falar bobagem! Antes de escolher as primeiras trocas a serem analisadas é hora de informar um pouco, já que está meio confuso de acompanhar. As trocas que aconteceram hoje, com nomezinhos coloridos, foram:

Boston Celtics envia: Kendrick Perkins e Nate Robinson
Oklahoma City Thunder envia: Nenad Krstic e Jeff Green

Boston Celtics envia: Luke Harangody e Semih Erden
Cleveland Cavaliers envia: Uma escolha de 2ª rodada de Draft

Boston Celtics envia: Marquis Daniels
Sacramento Kings envia: Grana

Oklahoma City Thunder envia: DJ White e Mo Peterson
Charlotte Bobcats envia: Nazr Mohammed

Portland Trail Blazers envia: Dante Cunningham, Sean Marks, Joel Pryzbilla e duas escolhas de 1ª rodada de Draft
Charlotte Bobcats envia: Gerald Wallace

Washington Wizards envia: Kirk Hinrich e Hilton Armstrong
Atlanta Hawks envia: Maurice Evans, Mike Bibby e Jordan Crawford

Sacramento Kings envia: Carl Landry
New Orleans Hornets envia: Marcus Thornton

Houston Rockets envia: Aaron Brooks
Phoenix Suns envia: Goran Dragic e uma escolha de 1ª rodada de Draft

Houston Rockets envia: Shane Battier e Ish Smith
Memphis Grizzlies envia: Hasheem Thabeet e uma escolha de 1ª rodada de Draft

Los Angeles Clippers envia: Baron Davis e escolha de 1ª rodada de Draft
Cleveland Cavaliers envia: Mo Williams e Jamario Moon

......
Pois é, temos assunto para um mês. Algumas dessas trocas podem não estar completas, faltam detalhes e não é em todas que sabemos ao certo que escolhas de Draft estão sendo enviadas. Ainda é tudo muito recente e vamos começar analisando as que a gente tem certeza de como aconteceram.

Começo com a última listada e a primeira confirmada do dia, a do Baron Davis por Mo Williams. Todo mundo sabe que o Clippers queria trocar o Baron Davis faz MUITO tempo, acho que no dia seguinte em que eles assinaram o cara eles provavelmente já estavam arrependidos. Em toda sua carreira o B-Diddy sempre foi um misto de muito talento, nenhum esforço, brigas com técnicos e desinteresse total. Foi assim no Hornets com Byron Scott (que será seu técnico de novo no Cavs!), no Warriors com o Don Nelson e no Clippers não só com Vinny Del Negro e Mike Dunleavy mas até com o dono Donald Sterling, que sentava na beira da quadra para ver o jogo e xingava o próprio atleta. Nos poucos momentos em que jogou pra valer era constantemente colocado em listas dos 3 ou 5 melhores armadores da liga, mas durava pouco.

O problema para trocar Baron Davis era o seu contrato monstruoso, mais de 13 milhões por ano até o fim da temporada 2012-13, além desse comportamento que acabei de citar, óbvio. Ninguém queria pagar tanto por problemas. A coisa mudou um pouco de figura quando eles encontraram o Cleveland Cavaliers, o atual pior time da NBA e que está desesperado por qualquer coisa que dê um mínimo de esperança para um futuro próximo ou nem tão próximo assim. O Clippers tinha o que oferecer, não Davis, claro, mas uma linda e cristalina escolha de 1ª rodada no Draft do ano que vem. Em um time quebrado, em um mercado pequeno e numa época em que as estrelas só querem jogar juntinhas em cidades famosas, o Cavs não tem esperança de voltar a ser relevante com espaço salarial e Free Agents, o negócio deles é buscar talento no Draft.

Sendo o pior time da temporada eles tem ótimas chances de ter a 1ª escolha no Draft do ano que vem e com todo o azar do mundo ficam pelo menos com a 4ª. Essa do Clippers, se nada de muito drástico acontecer, deve ficar entre a 7ª e 10ª. Ou seja, um ano após o término do namoro com o LeBron James eles tem uma escolha Top 5 e outra Top 10 para recomeçar um núcleo jovem no time, não é nada mal! O preço a ser pago não é barato, porém, o contrato pesadíssimo do Baron Davis aumenta a folha de pagamento do time em quase 5 milhões de dólares por temporada em relação ao que pagavam pelo Mo Williams, mas repito o que disse: eles não vão conseguir jogadores com espaço salarial, estão pagando para ter essa valiosa escolha de Draft. É rezar para não fazer bobagem com ela agora.

Até agora a troca parece bastante certinha, certo? O Clippers está entupido até as orelhas de jovens e bons jogadores e não precisa de mais uma 10ª escolha, então a usou para se livrar do jogador que tentam trocar há quase 3 anos. Mas o que causou espanto na maioria das pessoas foi que a troca foi realizada bem na época em que, pela primeira vez em todos esses anos, o Baron Davis está jogando bem de verdade! Todas as críticas que eu citei acima são verdade, ele é desinteressado e joga quando quer. Chegou fora de forma no começo da temporada e foi afastado pelo técnico Vinny Del Negro, nos anos anteriores também estava gordo e jogava de um jeito desleixado, individualista e sem esforço algum. Suas bolas de três forçadas na transição deixariam até o JR Smith angustiado, pra mim parece um jogador de streetball no fim da pelada, quando já está cansado e continua em quadra tentando uns truques (que dão errado) só para não parar de jogar e ficar entediado.

Acontece que ele não é daqueles jogadores que lideram um time pelo exemplo e fazem todo mundo jogar bem, ele é o maria-vai-com-as-outras. Se o resto do time está motivado, tem talento e joga bem, aí ele quer participar. Foi assim naquele Warriors que surpreendeu o Mavs em 2007 e começou a ser assim quando ele se tocou que aquele novato Blake Griffin que estava no seu time era um fenômeno. Seus olhinhos brilharam como uma criança quando vê o novo Comandos em Ação e ele quis começar a brincar, entrou em forma (para o seu padrão), foi aceito pelo Del Negro e começou a dar assistências de todos os cantos da quadra para enterradas do Griffin. Passou a aparecer no Top 10 da NBA, a ser relevante, comentado, a transpirar confiança, falar mais em quadra, dar passes para enterrada dentro de carros e, de repente, foi trocado.

Trocar o Baron Davis fez todo o sentido do mundo por tanto tempo e bem quando passou a não ser tão óbvio assim eles puxaram o gatilho. Fizeram certo? Difícil afirmar com certeza, mas vou tomar coragem, dar um gole na birita, respirar fundo, sair de cima do muro e responder: sim, tinham que trocar. Em uma visão otimista o Clippers iria ter esse mesmo time que começou a jogar bem em dezembro no ano que vem e poderia lutar pelos Playoffs, mas em uma visão mais pessimista (o que faz todo o sentido para o Clippers), o Baron Davis poderia se machucar de novo ou simplesmente começar a sabotar o time como já fez outras vezes, só lembrar do também jovem e promissor Warriors que depois de um momento de encantamento despencou para a mediocridade. Ele simplesmente não é um cara confiável, já provou isso em 10 anos de carreira e o Clippers não tem motivo para dar esse voto de confiança. Os passes para ponte-aérea irão fazer falta, mas adeus.

Só reforçando, perder a escolha de Draft não foi legal, mas jovens talentos não são o problema do Clippers. Eles tem Blake Griffin, Al-Farouq Aminu, Eric Bledsoe, Eric Gordon, Randy Foye e DeAndre Jordan, pegar mais um pivete para não deixar ele ter espaço para se desenvolver seria inútil. E temos que pensar também na economia, o Mo Williams ganha 8.5 milhões de dólares por temporada no próximo ano contra os quase 14 de Baron Davis, depois disso Mo tem a opção de virar Free Agent (Player Option) mas não é provável que ele recuse ganhar mais 8.5 milhões, só se a vontade de mudar de time falar 10 vezes mais alto que essa fortuna. De qualquer forma o dinheiro que o Clippers poupa e o espaço aberto na folha salarial são importantes para esses mesmos jovens jogadores, que cedo ou tarde precisam de seus contratos renovados. Em dois anos eles precisam oferecer uma bolada para o Eric Gordon, depois uma extensão digna do talento do Blake Griffin. Ter o salário do lixo do Baron Davis atrapalhando seria um Epic Fail típico do Clippers, mas eles evitaram.

E é inteligente da parte deles pensar no futuro e não no agora. Com a decadência do Portland Trail Blazers depois das contusões de Brandon Roy e Greg Oden, as saídas de Carmelo Anthony e Deron Williams da conferência, podemos considerar que o Oeste tem quatro forças óbvias: LA Lakers, San Antonio Spurs, Dallas Mavericks e Oklahoma City Thunder. Os três primeiros estão no Top 5 de equipes mais velhas da liga, prontas para dar suas últimas cartadas atrás de um título antes de começar um novo processo de renovação. Quando isso acontecer o topo da conferência está nas mãos do Thunder e de quem conseguir montar um elenco bacana até lá, o Clippers está fazendo a sua parte para melhorar na hora certa.

Pensando a curto prazo o time deve dar uma piorada mesmo, é verdade, o Mo Williams vai dar uma melhorada no arremesso de três deles (Baron Davis chuta o mesmo número de bolas por minuto que Ray Allen, mas não chega aos 30% de aproveitamento), mas está longe de ser o cara que comanda o ataque como B-Diddy fazia. É bem provável até que Mo não atue como um armador principal o tempo todo, mas auxiliando no trabalho e jogando como arremessador, já que eles provavelmente vão querer dar espaço para o novato Eric Bledsoe, e seus outros companheiros de posição, Randy Foye e Eric Gordon, sabem quebrar um bom galho como armadores principais. Vão precisar de um tempo para se adaptar mas não é motivo para desespero.

Uma outra coisa que eu acho que vai ser bem interessante de acompanhar é o Baron Davis em Cleveland. Um cara eternamente desmotivado jogando pela franquia mais perdedora da temporada? Seria lindo ele usar seu talento e carisma (é um cara divertido, admitamos) para dar um boost na cidade, mas eu apostaria todas as minhas fichas que uma estranha contusão o tirará do resto da temporada. Não sei, devemos esperar o melhor das pessoas, mesmo quando parece bem improvável.
.....
Vamos tentar manter um ritmo acelerado de posts para comentar todas as trocas. Aguentem aí e tentem não enlouquecer!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O fundo do poço

Foteeenha de dias mais felizes

Ao fim do primeiro mês de temporada, o Cavs tinha conquistado 7 vitórias e 10 derrotas. Não era nem sombra daquele Cavs que esteve sempre no topo do Leste nos anos anteriores, mas era um número de vitórias respeitável, digno, daqueles que dá pra levar pra jantar e apresentar para os nossos pais sem vergonha. As limitações do elenco eram óbvias, mas o técnico Byron Scott é um gênio e os jogadores pareciam estar se adaptando rápido aos novos papéis. Já tinha gente falando que o JJ Hickson poderia levar o prêmio de jogador que mais evoluiu na temporada, fruto de um aumento de produção digno de quem assumiu a carga de ser a nova cara da franquia. O Cavs era um time ruim, claro, mas com alguns jogadores talentosos, jovens, um técnico competente e vontade de provar para o mundo que eles poderiam sobreviver sem LeBron James.

Enquanto isso, o Heat demorava pra engrenar e enquanto o planeta tacava cocô no LeBron e em sua decisão de ir jogar na praia, o Cavs se alimentava das dificuldades de sua ex-estrela. Quanto pior o Heat jogava, mais ânimo o Cavs tinha para superar suas dificuldades. Até que os dois times se enfrentaram, o Cavs entrou pronto para matar-pilhar-destruir, a torcida vaiou LeBron o quanto conseguiu, e o Heat simplesmente massacrou o adversário. Comentei na época sobre como o ódio ao LeBron em Cleveland havia unido todo o elenco do Heat para defender seu companheiro, e desde então o time parece ter se encontrado, percebeu que o jogo coletivo pode significar fazer turnos ("uma hora vou eu, outra hora vai você") e que o entrosamento maior precisa estar na defesa. Agora o Heat está solidamente lá no topo do Leste e ninguém mais questiona se eles vão ou não dar certo.

Já o Cavs, depois do forte golpe no ego, desmoronou como ex-namorada que viu o amor de sua vida se dando bem na balada - e de quebra lhe cuspindo na testa. O Cavs perdeu seu objetivo, seu ânimo, deixou de  se alimentar das dificuldades alheias, e tornou-se incapaz de superar as próprias. Depois de perder para o Heat, o Cavs perdeu 19 partidas e ganhou apenas uma, contra o Knicks, que só por isso deveria ficar de castigo. Antes o Cavs tinha um recorde bom o bastante pra ir pros playoffs porque o Leste fede, agora eles são o pior time de toda a NBA. Disparado.

No papel, o time não parece tão ruim, mas é preciso lembrar que ele foi inteiramente formado ao redor de LeBron James e, mesmo assim, sem muito critério. Nunca foram jogadores que se encaixavam ou faziam sentido juntos, eram apenas trazidos para mostrar serviço para o LeBron, para tentar aumentar o nível do time como fosse possível. A diretoria nunca poupou esforço ou dinheiro para trazer reforços, mas também nunca teve muito tutano. O conjunto acabou dando certo basicamente porque seus papeis eram limitados e a única parte tática era defensiva. Levou muito tempo até que os assistentes técnicos dessem um padrão ofensivo para o Cavs, e mesmo assim sempre foi gritante a queda de nível toda vez que LeBron passava a bola. Sem ele, mesmo os jogadores mais talentosos agora estão expostos como nunca estiveram, e ao invés do papel secundário precisam assumir jogadas e responsabilidades. Agora enfrentam marcações exclusivas, dupla marcação, precisam criar o próprio arremesso. Mo Williams nunca foi um armador nato, levou seus companheiros do Bucks à loucura até que tiveram que trocá-lo para salvar o clima na equipe, e agora sua afobação no ataque e sua dificuldade para chamar jogadas fica evidente, esfregada na nossa cara. Não tem o LeBron armando o jogo para camuflar.

No par de vezes nas últimas temporadas em que o LeBron não jogou pelo Cavs, contundido, sempre fiquei surpreso em ver como o elenco conseguia se virar bem sem ele, mas era um tipo de jogo completamente diferente. Todos os carregadores de piano, secundários até o osso, davam o sangue uns pelos outros. O que sempre impressionou no Cavs é que ele era um time incrivelmente unido, em que todo mundo sabia seu lugar, sua importância e seu papel. Foi esse tipo de compreensão e união que segurou o Cavs no começo dessa temporada, mas quando a moral foi derrubada, a fraqueza do elenco foi escancarada.

É injusto dizer que esse time fede demais e que portanto o LeBron jogava sozinho nas últimas temporadas, que fez tudo por si só. A maioria desses jogadores do Cavs funciona bem como especialista que vem do banco, como defensor, como arremessador parado, essas coisas essenciais para qualquer time ser campeão. Era um time bom porque tinha gente disposta jogar em volta de uma única estrela e sabia fazer isso muito bem. Mas, sem a estrela, estão todos fora de seu ambiente natural e precisam fazer coisas que não podem fazer. Eles não fedem tanto assim com uma estrela, são limitados mas eficientes no esquema tático certo, mas sem uma estrela eles são um elenco para apanhar um bocado. Um bocado, mas não tanto.

O golpe na moral ao perder para o Heat em casa e ver LeBron sair sorrindo feliz da vida e começar a ganhar um jogo atrás do outro foi muito forte, mas o golpe na saúde dos jogadores foi ainda maior. Toda equipe sofre com lesões, mas no caso do Cavs isso é ainda pior. O LeBron saiu do Cavs quando restavam poucos jogadores sem contrato na NBA, então não havia ninguém para contratar. Fora que a grana em Cleveland é muito curta, em parte pela dificuldade econômica da cidade, mas também porque os dirigentes toparam um monte de contratos gigantes e idiotas (como o do Varejão e o do Jamison, por exemplo) simplesmente para manter ao lado do LeBron a estrutura necessária para vencer. Mas sem uma estrela, não adianta pagar 7 milhões no Varejão e não ter grana para reconstruir o time. E, mesmo com grana, os jogadores da NBA preferem escapar de Cleveland agora, já que não há mais chances de título, a economia lá é ruim e a cidade é uma droga. Com isso, o Cavs teve que usar seus antigos reservas como atuais titulares, e qualquer lesão significa que os jogadores mais zé-ninguém do mundo terão que entrar em quadra. E as lesões vieram a rodo.

O Varejão está fora da temporada com uma lesão no tornozelo adquirida nos treinamentos, e ele vinha sendo o melhor jogador da equipe - o que já mostra como o time é uma porcaria. Não que o Varejão seja horrível, sua defesa tem sido impressionante (o que ele fez com o Dwight Howard nessa temporada não foi bolinho não) e sua energia é essencial para a moral dessa equipe, mas ele é o típico jogador secundário que você encaixa num time pra fazer o trabalho que ninguém quer fazer. Fora ele, o Cavs também está sem o Daniel Gibson (típico arremessador especialista pra vir do banco, mas que no Cavs atual teve que ser titular), sem Joey Graham (que fede mas também já foi titular porque não tinha ninguém pra colocar no lugar do LeBron), sem Leon Powe (que tem "reserva do Celtics" tatuado na testa) e sem Anthony Parker, único desses que se for titular não vai fazer o Universo chorar, pelo menos.

Isso quer dizer que, para enfrentar o Lakers, esse Cavs que já fede, que já não tem moral ou vontade nenhuma, e que perdeu 21 de seus últimos 22 jogos, ainda estava completamente desfalcado e teve que usar uma série de jogadores muito ilustres: Manny Harris foi titular (novato que foi de mal ser usado para jogar mais de 40 minutos por jogo), Samardo Samuels tentou 12 arremessos e só acertou um (vai ver que tentou tanto por causa de sua grande força nominal) e Alonzo Gee foi o cestinha do time com 12 pontos (famoso Alonzo Gee, que está em seu terceiro time em apenas duas temporadas). Esses jogadores fazem caras como Ryan Hollins parecerem famosos como estrelas do rock. Perto desses jogadores, ex-BBB é uma baita celebridade. Se alguém souber qual é a cara de qualquer um deles sem colar no Google, ganha um prêmio.

Samardo Samuels, meu deus, Samardo Samuels. Parece nome de jogador inventado de videogame. Parece nome falso de traficante procurado pela polícia. Não me surpreenderia se ele fosse apenas um torcedor do Cavs sorteado para participar do jogo porque não tinha mais ninguém pra entrar em quadra. Se o Samardo Samuels pode, eu também posso. Vamos fazer uma campanha para que os leitores do Bola Presa possam substituir o Samardo Samuels no elenco do Cavs, cada dia vai um leitor e entra em quadra, e vamos revezando pra todo mundo ficar feliz. E o Cavs sai ganhando, certeza de que se eu ficar arremessando de três do meio da quadra eu acerto uma bola em 12 tentativas!

Não é estranho, portanto, que esse elenco tenha marcado apenas 57 pontos contra o Lakers - e tomado 112. É o maior cacete que eu vi nos últimos anos, a coisa mais humilhante depois do capote no Globocop, e o recorde do Lakers em limitar o número de pontos do oponente. Antes do LeBron ser draftado, a torcida do Cavs levava placas de "percam por LeBron" para o ginásio, mas o time pelo menos fingia que estava jogando basquete. Não colocavam o Samardo Samuels na quadra! É claro que o Cavs já está pensando na primeira escolha do draft pra temporada que vem, mas colocar o Samardo Samuels é o equivalente a jogar a toalha no boxe, é desistir sem tentar, é entregar o jogo. Se um jogador mediano entrar em quadra sozinho e arremessar todas as bolas só ele durante o jogo todo, faz mais de 57 pontos fácil.

O Cavs, vergonhosamente, fica para nós como um exemplo do que acontece quando um time constrói ao redor de uma única estrela - e perde essa estrela sem trocá-la. Mesmo o Mavs sem Nowitzki e sem Caron Butler consegue segurar melhor as pontas. O Cavs foi mal montado, aos trancos e barrancos, e jamais teve um "plano B". Quando o Celtics montou várias defesas especiais para parar LeBron nos playoffs (que eu analisei na época aqui), não havia nada pensado, programado, planejado ou ensaiado para manter o time funcionando. Nenhuma contratação visava tapar um buraco específico. Apenas foram agrupando, agrupando, agrupando. Montaram um circo incapaz de se encaixar e que não tem mais cabeça para superar essas cagadas.

Quanto o Nets flertava na temporada passada com a pior campanha da história da NBA, comentei aqui que o elenco não era tão ruim, que eles tinham algumas grandes partidas, que não era motivo para bater um recorde histórico de ruindade. Mas é que depois das primeiras derrotas o time praticamente desistiu, começou a ficar frustrado, via as lesões acontecendo e tinha ainda menos vontade de entrar em quadra. Perder entra na cabeça dos jogadores e come seus cérebros, você se acostuma, entra em quadra como um zumbi, esquece que era possível vencer. Esse Cavs entrou nesse buraco, e sequer quer sair dele. Vai feder, tomar surras históricas, colocar o Samardo Samuels em quadra, marcar 57 pontos, e esperar começar tudo de novo no draft. Mas o processo de reconstrução vai ser longo, tem que se livrar do Jamison, do Mo Williams (que já está enlouquecendo os companheiros de novo), decidir se vale a pena manter o Varejão num time em que ele é inútil ou conseguir umas escolhas de draft em troca. Só esperemos que esse processo de reconstrução não culmine em mais um time construído apenas em volta de uma futura escolha do draft. Porque já vimos que isso não dá certo, e uma hora você acaba tendo nas mãos apenas Samardo Samuels. Samardo Samuels. Samardo Samuels.

A lição serve para o Nuggets também. Eles tentaram uma série de trocas para colocar o talento necessário ao redor de Carmelo Anthony para levá-lo a um título, e não foi um erro, o Nuggets teve altos e baixos mas é um time de respeito. Mas se perderem Carmelo por nada, como aconteceu com o Cavs e LeBron, terão apenas um time de jogadores secundários e especialistas, ninguém para manter um padrão de jogo, e o Billups será um jogador bom mas incapaz de levar qualquer coisa nas costas sozinho, velho demais para participar de uma reconstrução, e caro demais para permitir novas contratações. Mesmo melhor montado do que o Cavs, o Nuggets despencaria para um buraco muito rápido. Melhor do que ficar torcendo para o Carmelo reassinar é admitir a derrota, fazer uma troca por pivetes e escolhas de draft, se livrar do Billups, do Kenyon Martin, e começar de novo sem maiores dificuldades. Sem Samardo Samuels.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Cleveland Cavaliers

Nenhum jogador do Cavs merecia ter uma foto aqui, então resolvemos
 usar melhor o espaço com nossa musa na série "As Cariocas"


Objetivo máximo: Chegar aos playoffs para começar bem o projeto de ganhar um título antes do Heat
Não seria estranho: Ficar em último lugar do Leste
Desastre: Perder LeBron James... opa, acho que já era.

Forças: Um técnico inteligente e jogadores coadjuvantes dispostos a dar umas cabeçadas
Fraquezas: Um elenco em que todos os jogadores, sem exceção, seriam reservas em qualquer outra equipe

Elenco:








.....
Técnico: Byron Scott

Sem dúvida nenhuma, Byron Scott é o melhor técnico a assumir o Cavs nos últimos 10 anos, o que é bem irônico porque também é um dos piores elencos do Cavs nos últimos 10 anos. Scott é famoso não apenas por ser um excelente motivador e fazer seus times darem o máximo, mas também por implementar a famosa "Princeton Offense", um complexo sistema de movimentações ofensivas que costuma ser o pesadelo de qualquer defesa da NBA. O sistema basicamente coloca quatro jogadores próximos ao perímetro e não permite isolações, garantindo que todas as jogadas sejam feitas em grupos de 2 ou 3 jogadores enquanto os outros continuam a se mover ocupando os espaços vazios da quadra. Isso costuma garantir que os pivôs sejam abandonados pela defesa que tenta conter as movimentações e que sobre muito espaço próximo à linha de fundo, nas costas da defesa, onde jogadores podem cortar despercebidos em direção à cesta. No vídeo abaixo dá pra acompanhar o técnico Eddie Jordan ensinando o básico do básico da "Princeton Offense":



Se você é um daqueles que viu o vídeo e ficou com a mesma cara do coitado do estagiário que não fazia ideia de pra onde se mover no vídeo acima, dá pra entender logo de cara os problemas que o Byron Scott enfrenta ao adotar a "Princeton Offense". Além de demorar para que uma equipe se acostume a fazer a série de movimentações com naturalidade, também é preciso ter um punhado de jogadores inteligentes e dispostos a se mover o tempo inteiro para que o ataque funcione com um mínimo de eficácia. Quando Byron Scott assumiu o Nets em 2000, o time foi um fracasso, ninguém entendia bulhufas do que estava acontecendo. Mas na temporada seguinte, um time mais acostumado com a "Princeton Offense" se livrou do Marbury em troca do gênio-da-física-quântica Jason Kidd, e aí eles foram simplesmente os campeões do Leste. Quase a mesma coisa aconteceu quando o Scott assumiu o Hornets em 2005, com duas temporadas fracassadas seguidas por um segundo lugar no Oeste na temporada regular e uma derrota na semi-final apenas no Jogo 7 com o então campeão San Antonio Spurs. Mesmo com um elenco muito, muito, muito limitado, a "Princeton Offense" e a motivação sensacional de Byron Scott permitiram que a armação de Chris Paul brilhasse e todos pudessem render em quadra mesmo sem muito talento.

Depois de flertar com o convite de alguns times, Byron Scott resolveu topar ser treinador do Cavs porque pela primeira vez pegaria um elenco já formado. A "Princeton Offense" permitiria que LeBron sempre tivesse opções de passe ao invés de ter que jogar sozinho enquanto o resto do time tomava chá e assistia. Mas LeBron foi brincar com seus amiguinhos em Miami e, de novo, Scott tem uma bomba nas mãos, um elenco fraco que vai levar um tempo para entender o esquema ofensivo e aí, quem sabe, chegar longe nos playoffs como o Nets e o Hornets fizeram em suas mãos. Mas pra quem esperava LeBron, acho que ter esse elenco não é lá muito animador, como dá pra ver no vídeo abaixo durante um jogo de Summer League do Cavs:



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Por anos e anos o Cavs adicionou peças aleatórias ao elenco apenas para provar ao LeBron que estavam fazendo o possível para melhorar o time. Várias aquisições foram polêmicas, e mesmo as que não foram - como a troca por Antawn Jamison, numa última e desesperada tentativa de manter LeBron em Cleveland - acabaram se mostrando impensadas, feitas às pressas, e nunca se encaixaram dentro de um time que não tinha muita identidade além de defender e passar para o LeBron. Sem sua grande estrela, o Cavs se viu repentinamente com um elenco que não faz um puto de um sentido, punição divina (nórdica) por falta de planejamento.

Mo Williams foi a aquisição mais criticada por mim, contratado pelo Cavs para dividir com LeBron o fardo de ter que pontuar. Ele é um armador fominha que levou seus parceiros de Bucks à loucura por tentar decidir todos os jogos sozinho e não obedecer nem à tática ofensiva nem à defensiva. O pior é que ele deu muito certo no Cavs porque não tinha que carregar a bola, já que LeBron cumpria essa função, e podia se focar em arremessar como um maluco sempre que LeBron estivesse no banco ou o resto do time, que basicamente só tem defensores e jogadores "carregadores de piano", não quisesse ver a cor da bola. Agora, Mo Williams é o mais próximo de uma estrela que restou nesse Cavs, e vai caber a ele o papel de armar as jogadas. Seu cérebro de azeitona vai demorar para sacar a "Princeton Offense" e forçar arremessos é todo o necessário para destruir completamente com as movimentações ofensivas do ténico Byron Scott. A não ser que o tempo com LeBron tenha tornado o Mo Williams um jogador focado e maduro, prevejo um desastre similar à candidatura da Gretchen no Rio de Janeiro.

Por outro lado, a "Princeton Offense" deve fazer Antawn Jamison voltar aos seus tempos áureos. Foi com ela que Jamison fez estrago no Wizards, podendo jogar mais longe da cesta e se aproveitando dos espaços no fundo da quadra para as infiltrações. Seu tempo até agora no Cavs foi vergonhoso, com defesa fajuta e problemas de confiança que ferraram até mesmo com seus lances livres, mas agora o time não tem mais nenhuma pretensão, o plano não é mais passar a bola para o LeBron, e pelo que parece ele vai até começar os jogos no banco, enfrentando os reservas adversários. JJ Hickson também está se aproveitando da "Princeton Offense" e já está pronto para comandar ofensivamente o garrafão do Cavs, sendo provavelmente a primeira opção do time no ataque, o pilar para a movimentação constante. Varejão também deve melhorar muito ofensivamente porque é inteligente pra burro e vai estar nos lugares certos nas horas certas, se aproveitando dos espaços vazios criados, mas o problema é que a habilidade nem sempre segue o cérebro, então não dá pra esperar que ele comece a pontuar como um doido. Deve ser uma melhora moderada.

Jamison, Varejão e JJ Hickson são, juntamente com o tão-cru-quanto-sushi pivô Ryan Hollins e o eternamente lesionado Leon Powe, os únicos jogadores de garrafão relevantes do elenco. Ou seja, não tem nenhum pivô de verdade, todo mundo vai ter que jogar no improviso embaixo da cesta. É um time baixo e rápido sem muitos arremessadores de três nem jogo debaixo do aro, então vai demorar para que a defesa forte e o jogo de contra-ataque consigam se encaixar com a movimentação lenta e metódica da "Princeton Offense". Talvez a melhor chance de que isso dê certo seja Ramon Sessions, que é um armador inteligente que ainda não teve chances de mostrar que pode ser titular, mas sua falta de arremesso limita muito um time que sofre pela falta de finalizadores. Pelas próximas temporadas, devem feder muito até que alguns desses jogadores floresçam na movimentação ofensiva de Byron Scott, se empolguem com seus discursos motivacionais que devem bater bastante na tecla do "vamos provar que podemos vencer sem LeBron", mas uma hora pode dar certo o bastante para formar um time sólido e com identidade que aguardará com calma o próximo grande novato chegar à equipe. Mas dessa vez o novato já chegará num elenco que sabe seu papel e com um técnico fodão, ao invés de ter que começar tudo de novo ao seu redor.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Novos começos

Ramon Sessions precisa levantar mesmo esses cotovelos pra 
impedir que o Mo Williams arranque a bola das suas mãos


A saída de LeBron James não significa para o Cavs apenas a perda de sua maior estrela, ela também explicita quão desastrosa foi a montagem desse elenco com o passar dos anos e como todo o time está impossibilitado de fazer qualquer coisa em quadra sem LeBron. Não há como negar que o time funcionava perfeitamente e era um dos mais fortes da NBA, mas sempre foi óbvio que o Cavs conseguia jogadores aleatoriamente apenas para rodear LeBron, sem qualquer critério ou esquema tático em vista. Quando Mo Williams foi contratado, era um jogador fominha que havia levado seus companheiros de Bucks à loucura, não existia motivo algum para que ele se encaixasse no Cavs. Suas limitações na armação sempre forçaram LeBron a iniciar a maior parte das jogadas, seus arremessos precipitados sempre forçaram LeBron a manter a bola pouco em suas mãos. Com essas rédeas Mo Williams rendeu muito bem, enlouqueceu pouca gente, ganhou vários jogos, fez poucas cagadas. Agora, de repente, tornou-se um dos únicos pontuadores da equipe e o único armador capaz de carregar a bola. É como se a Preta Gil fosse a única mulher da Terra e não houvesse outra solução além de casar com ela, mas seus desastres físicos ficassem por isso mesmo mais evidentes. Como dizemos por aqui, em terra de cego quem tem um olho é caolho.

Os engravatados do Cavs sabem da merda que os espera. Depois de chorar muito na cama, tomar sorvete direto no pote, ouvir muita música emo, xingar muito no Twitter e dizer que o Cavs vai ganhar um anel de campeão antes do LeBron,  a primeira coisa que fizeram foi ir atrás de um armador puro. Se esse time ficar sob responsabilidade da armação de Mo Williams, será um desastre terrível - apenas ampliado pela falta de qualidade do resto do elenco. O primeiro armador que tentaram contratar foi, acertadamente, Kyle Lowry. Como torcedor do Houston sei muito bem como ele chuta traseiros, defende como poucos na liga, tem uma visão incrível de jogo e toma sempre as decisões mais simples possíveis, sem frescura. Ele é indicado para treinador que não quer ficar de saco cheio e nem derramar uma única gota de suor, Lowry não precisa receber ordens, vai sempre colocar a bola nas mãos do jogador certo, só vai arremessar se fizer sentido, só vai bater pra dentro se houver espaço. Apesar de ser reserva no Houston porque o titular Aaron Brooks é o mais perto que o time tinha de um pontuador, bastou que o Lowry se contundisse para que o Rockets entrasse numa triste sequência de derrotas humilhantes. É simples assim, o time não funciona sem ele. Suei frio com a possibilidade de sua saída, tive pesadelos em que o Ilgauskas vinha em câmera lenta e roubava o Lowry de mim (pensando melhor ele não estava em câmera lenta, o Ilgauskas se move nessa velocidade na vida real), mas o Houston fez a coisa certa e igualou o contrato. Obrigado, time querido!

Não sobraram muitos armadores puros por aí, mas o Wolves está sempre disposto a fazer uma troca bizarra que ninguém entende. Ontem, mandaram Ramon Sessions, Ryan Hollins e uma escolha de segunda rodada do draft em troca de Delonte West e Sebastian Telfair. É até um pouco engraçado: na prática o Cavs mandou dois armadores problemáticos e incapazes de assumir a armação de uma equipe em troca de um armador que, no mínimo, merece uma chance de tentar.

Falamos bastante por aqui do Delonte West, sempre torcendo para que ele conseguisse passar por cima de seus problemas pessoais. Há anos luta contra sua depressão crônica, falou bastante sobre ela - clamando para que as pessoas entendam que depressão não é escolha, é doença - e volta e meia está envolvido com problemas em seu bairro natal, cheio de pobreza, drogas e criminalidade. Foi preso recentemente por portar uma porção de armas enquanto andava de triciclo por aí (caso que abordamos longamente num post da época) e somente agora saiu sua condenação, que envolve prisão domiciliar, horas de serviço comunitário e tratamento psicológico. A NBA deve suspendê-lo por vários jogos, nessa mania imbecil de botar a colher na vida pessoal dos jogadores, mas a prisão comum lhe permitirá participar dos jogos normalmente. O problema é que o Cavs cansou dessa bagunça toda. Deram todo o apoio possível, inclusive financeiro, e arcaram com a encrenca toda vez que o Delonte se auxentava graças à depressão ou algum outro problema pessoal. No fim, entenderam que não dá para vencer a realidade. O jogador é quem ele é, nasceu onde ele nasceu, e não há nada que possa ser feito para arrancá-lo bruscamente da realidade que o sufoca. Muito progresso foi feito, mas muitos passos para trás também ocorreram. Numa NBA cada vez mais aterrorizada com a ideia de mostrar a origem dos jogadores e os problemas reais fora das quadras, Delonte West não tem muitas chances. Comentamos no post do link acima que os problemas de Jamaal Tinsley com armas fizeram com que não arrumasse mais emprego na NBA e torcemos para que o mesmo não ocorresse com o West. Com informações chegando de que o Wolves mandou o armador embora (seu contrato não era inteiramente garantido caso fosse despedido antes de agosto), parece que Delonte West é mais um para as estatísticas de jogadores soterrados por seus problemas pessoais. Uma pena, porque jogava bem, era inteligente, bom arremessador. Vamos torcer para que arrume um time e não tenha que ir vender pipoca.

Sebastian Telfair não fica muito longe disso. Era um gênio nos seus tempos de colegial, um dos melhores armadores que já vi, mas resolveu não ir para a universidade, pulou direto pra NBA, teve problemas de imaturidade e postura em quadra, brigas com companheiros, desentendimentos com técnicos, falta de vontade nos treinos, prisões por armas e por drogas, e no fim nenhum time lhe deu os minutos necessários para que pudesse fazer alguma coisa. Na única temporada em que jogou pra valer estava no Wolves e chutou muitos traseiros, embora tenha mostrado que é incapaz de defender qualquer um. Mereceria uma vaga de reserva em qualquer time da NBA, mas quem está disposto a lhe dar essa chance? Seu tempo no Cavs foi curto e, dizem, cheio de desgosto de ambas as partes. Sua volta ao Minessota também tem planos de ser passageira, com o Wolves querendo mandá-lo embora ou trocá-lo imediatamente. O coitado não vai ter, de novo, a chance de mostrar que joga bem pra burro.

Eu defendi longamente o Kahn dia desses, dizendo que era cedo demais pra chamar o engravatado do Wolves de burro, mas o cara não ajuda. O que ele fez foi basicamente se arrepender de ter assinado um contrato grande com o Ramon Sessions (motivado por aquela vontade doente de usar dois armadores puros em quadra ao mesmo tempo) e então trocá-lo junto com o Ryan Hollins, que é um belo pivô quebra-galho, por dois jogadores que ele só queria mandar embora para liberar mais teto salarial. Uma troca apenas para desfazer sua cagada e começar o Wolves de novo pela milésima vez. Tem até certa razão, esse lance de usar o Flynn e o Sessions juntos nunca funcionou, ele ainda espera que o Ricky Rubio venha jogar na temporada que vem, acabou de contratar o Luke Ridnour, então tinha que se desfazer do contrato que assinou com o Sessions. Mas trocá-lo por coisa nenhuma não vai fazer com que ele ganhe nenhum Nobel da Física, diabos! A política do Wolves continua clara: perder bastante, não ter vergonha disso, e pagar o mínimo possível de salário enquanto isso acontece.

Para o Cavs, foi um presentão de graça, tipo a Larissa Riquelme no Paparazzo. O Ramon Sessions é aquele armador que era reserva do Mo Williams no Bucks e, quando o Mo se machucou, o Sessions assumiu a vaga de titular e deu 24 assistências num jogo, marcou 44 pontos em outro, fez um triple-double com 16 assistências em outro, e assim por diante. Chutou traseiros pra valer, o elenco do Bucks sentiu o gostinho de finalmente tocar na bola, e aí a situação do Mo Williams fominha ficou insustentável por lá, com ele sendo praticamente expulso do time pelos companheiros. Curiosamente, o Sessions - que assinou com o Wolves pra ser titular mas não teve muitas chances de jogo porque a ordem da casa era deixar o Flynn aprender na marra - vai agora para o Cavs jogar de novo com o Mo Williams. Apenas espero que não seja para ser reserva outra vez! O Sessions não é um arremessador maravilhoso, mas sabe quando arremessar, infiltra bem, é excelente reboteiro, bom nos contra-ataques e tem uma visão de jogo simplesmente espetacular, dá pra confiar as jogadas de um time em suas mãos. Se jogar ao lado do Mo Williams, vai pelo menos limitar um pouco o tempo que o Mo passa com a bola nas mãos e impedir que ele arremesse em exagero. Se for reserva do Mo, então podemos esperar que em breve o Cavs ame o Sessions de paixão e dê uma sova no Mo Williams, expulsando ele do time pra aprender a não ser otário.

Conseguir o Sessions foi enorme para o Cavs, mas também não deve fazer milagre. O time precisa entender que a melhor saída agora é simplesmente feder por uns tempos. Assinar o Varejão por 7 milhões de dólares pareceu uma boa ideia quando significava manter o elenco intacto em volta de LeBron (quer dizer, para alguns foi cagada mesmo na época), mas agora fica evidente o tamanho da merda. Trocar por Jamison foi legal quando era a peça final pra ganhar um título, agora é só um contrato de mais de 13 milhões que vai durar ainda dois anos. Mo Williams rendeu e foi até All-Star quando estava controlado, agora é um fominha que ganha 9 milhões de dólares. É um time muito caro com jogadores limitados, aleatórios, que não combinam, e não adianta gastar qualquer grana que eles tenham tentando contratar mais alguém. Resta dar a armação pro Sessions, estabelecer o estilo de jogo do novo técnico Byron Scott (altamente focado na armação e no cadenciamento do jogo), criar um time organizado, e perder. Imagina que legal se eles conseguem a primeira escolha do draft do próximo ano, o cara se torna uma estrela, e aí encerram-se os contratos de Jamison, Mo Williams e Varejão. Se o time for organizado e Byron Scott tiver feito um bom trabalho, conseguirão contratar um novo elenco em volta de seu novato e terão seu novo LeBron James. Na temporada de 2002, os torcedores do Cavs iam para o ginásio com placas "Percam por LeBron", foi o que o Cavs fez, e deu tudo certo. Agora, começa a tática de novo, mais uma vez. Em uns 10 anos, devem ter que fazer de novo quando o tal novato-estrela for jogar com os amiguinhos em outro time, mas de todo modo é melhor do que ficar tentando remendar o estrago com mais contratos horríveis e apressados. É a lição definitiva, crianças: não sejam o Detroit Pistons.

O plano do Wolves também deve ser perder sem medo por uma boa escolha de draft, mas como tudo dá sempre errado para os lobinhos, a troca idiota já começou mal: ao trocar Sessions, que não ia ser usado mesmo, por dois armadores que devem ser mandados embora para economizar dinheiro, o Jonny Flynn foi pra cirurgia e deve perder vários meses na recuperação. Ou seja, agora o Wolves não tem armador reserva (o Ridnour vai ter que assumir a armação quando a temporada começar) e talvez tenha que manter o Telfair a contragosto. Nem as cagadas que eles fazem dá certo, é incrível. Mas vejam pelo lado positivo: pelo menos o Wolves não paga milhões e milhões por Jamison e Varejão. Às vezes, é melhor economizar.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Só defesa

Kevin Garnett com certeza está falando sobre o Gilbert Arenas


Ao fim do massacre do Celtics em cima do Cavs por mais de 30 pontos, perguntaram para o Garnett qual havia sido o plano ofensivo para aquela noite. O Garnett ficou até surpreso: "Ataque? Nem pensamos no ataque!". Confessou tranquilamente que o único plano desenhado era para a defesa, e que foi ela quem permitiu o bom andamente ofensivo. É por isso que o melhor modo de entender o que está acontecendo nessa série até agora é estudar as diferentes defesas que o Celtics utilizou. Foram diversas variações, todas focadas em apenas uma coisa: parar LeBron James.

...

Jogo 1

Defesa do Celtics: Paul Pierce ficou responsável por marcar LeBron individualmente, com a ajuda chegando apenas nas infiltrações. A ideia foi marcar o Cavs como se eles fossem um time comum e o Paul Pierce fosse um baita defensor. Rá.

Resposta do Cavs: O LeBron chutou o traseiro do Paul Pierce logo no começo do jogo, jogando principalmente dentro do garrafão e de costas para a cesta. Quando infiltrou, a ajuda chegou sempre atrasada e ou cometeu faltas ou deixou os jogadores de garrafão livres para enterradas. Vitória do Cavs.

Jogo 2

Defesa do Celtics: Marcação dupla em LeBron James quando ele ultrapassou a linha de três pontos, forçando que ele passasse a bola. Além disso, o Celtics apertou a saída de bola para tentar evitar que o LeBron saísse armando o jogo, para ter que receber a bola já na quadra de ataque.

Resposta do Cavs: LeBron teve que bater para dentro antes da marcação dupla chegar, o que faz o Cavs jogar num ritmo muito rápido, errar mais e permitir mais contra-ataques. Nos três primeiros quartos, LeBron preferiu passar a bola para alguém livre, sempre no perímetro, e o resultado foi muito ruim porque o Mo Williams fedeu. No final do jogo LeBron tentou ser mais agressivo e o resultado foi melhor. A marcação pesada na saída de bola levou a muitos erros de reposição e a uma tonelada de pontos fáceis para o Celtics, já que o Cavs não soube o que fazer. Apesar de uma recuperação no segundo tempo, o Celtics tinha aberto uma vantagem grande demais a princípio - essencial para vencer um time com LeBron. Além de evitar que a estrela possa decidir o jogo no final, abrir uma vantagem logo de cara permite que o banco do Celtics possa produzir sem muita responsabilidade, porque quando o jogo está apertado ninguém tem coragem de fazer merda e ameaçar tomar surra de chinelo do Garnett no vestiário.

Jogo 3

Defesa do Celtics: Se a marcação dupla deu tão certo e LeBron só teve algum sucesso no final do jogo, quando começou a infiltrar mais rapidamente, então o Celtics imaginou que o ideal seria dobrar no LeBron quando ele se colocasse em movimento rumo à cesta e colapsar toda a defesa para debaixo do aro, evitando a bandeja. Descer a mão tá valendo, LeBron é muito pior cobrando lances livres do que é dando enterradas. Ou seja, o que o Celtics fez foi desafiar o LeBron a arremessar, e puní-lo se ele entrasse no garrafão.

Resposta do Cavs: Incomodado com a defesa que havia recebido no jogo anterior, em que passou a maior parte do tempo passando a bola para os seus companheiros, LeBron entrou em quadra decidido a arremessar. Não enterrar, nem fazer bandeja, nem bater para dentro, nem passar a bola: apenas arremessar. Ficou no perímetro, sem marcação dupla, vendo a defesa do Celtics focada no garrafão, e acertou uma série de arremessos de fora. Enquanto a defesa do Celtics continuou com o plano original, LeBron pontuou sem parar em arremessos de longa distância e encontrando outros companheiros para arremessar de fora também. Quando a defesa adversária já não sabia mais o que fazer e entrou em colapso, LeBron deitou e rolou e o resultado foi a pior derrota da história em playoffs jogando em casa para o Celtics.

Jogo 4

Defesa do Celtics: Ao invés de marcar LeBron James, o plano foi marcar seu caminho. Funciona assim: um carinha qualquer marca o LeBron, não precisa ser o Paul Pierce, mesmo atrás da linha de três pontos. Outros dois jogadores, um de cada lado do LeBron, abandonam os jogadores que estão marcando apenas para dar uns passos para o lado, ocupando os espaços que LeBron usaria para infiltrar tanto à sua direita quanto à sua esquerda. Se ele infiltra, ao invés dos três fecharem em cima dele, apenas vão afunilando o caminho em direção à linha de fundo da quadra. Na prática isso deixou jogadores do Cavs livres, mas nem tanto assim (os marcadores estão próximos) e sem precisar dobrar a marcação a defesa no perímetro foi muito melhor, permitindo menos bolas de três do Cavs. Foi a melhor defesa que eu já vi ser usada contra o LeBron.

Resposta do Cavs: LeBron tentou arremessar, mas estava marcado mais de perto e errou tudo, dia ruim. Quando tentou infiltrar, começou a ver que os espaços estavam ocupados e que tinha que bater para a esquerda, rumo ao fim da quadra. Ficou preso na linha de fundo algumas vezes, onde enfim a marcação dobrava, e perdeu a bola constantemente. Rapidamente LeBron ficou frustrado e começou a passar a bola para os jogadores que ficavam livres com a defesa de espaços do Celtics, em especial Antawn Jamison. Bizarramente o Jamison só sabe cortar para a direita e ninguém no Celtics sabe disso, o técnico Doc Rivers não tem qualquer informação para ajudar a equipe, e então LeBron continuou colocando a bola para o Jamison cortar para dentro e atacar a cesta com facilidade. Mas a defesa mais forte de perímetro do Celtics fez o Cavs errar muitas bolas de três, e o time não soube mudar de estratégia. Bolas erradas de três pontos dão rebotes mais longos, que caíram nas mãos de Rajon Rondo, que assim pode puxar o contra-ataque mais rápido, para assim o Celtics não ter que enfrentar a fortíssima defesa de meia-quadra do Cavs, e assim LeBron e seus amigos não tinham como vencer o jogo. Mas pelo menos foi disputado.

Jogo 5

Defesa do Celtics: Mesma do jogo anterior, mas com alguns ajustes. A escolha foi de novo por marcar o caminho do LeBron, deixando jogadores do Cavs livres no garrafão. O objetivo era impedir os arremessos de três para pegar rebotes e jogar no contra-ataque, e deixar que Shaq recebesse a bola - marcando os espaços, é fácil para os jogadores do Celtics se aproximarem a tempo de fazer uma falta no pivô. Além de contar com o baixo aproveitamento de lances livres do garrafão do Cavs, isso ainda vai cortando o ritmo da equipe até convencer todo mundo a arremessar de três. Dessa vez, até mesmo o Shelden Williams entrou em quadra para o Celtics ter mais faltas para fazer no Shaq. Eu podia ter esse emprego: não jogar nunca, ficar lá apenas existindo, e entrar em quadra uma vez por ano para dar um chute no saco de um pivô velho.

Resposta do Cavs: LeBron não consegue ver essa defesa do Celtics e não enxergar espaços para os companheiros. Começou o jogo passando a bola, distribuindo assistências e principalmente dando a bola para Shaq toda vez que a marcação no LeBron dobrava na linha de fundo, liberando o pivô livre embaixo da cesta. O Shaq foi sofrendo faltas, fazendo seus pontinhos, errando lances livres, e o Celtics com isso acabava saindo no lucro. LeBron de novo não conseguiu acertar os arremessos, e ao infiltrar tomou safanão desde o primeiro passo - o objetivo é fazer falta antes de que LeBron possa cobrar os lances livres para que assim a jogada ofensiva recomece e, dessa vez, ele resolva passar a bola para alguém, de preferência o Shaq mesmo. Durante um tempo o elenco de apoio do Cavs segurou as pontas, com o LeBron só tocando de lado, mas quando o Celtics está tendo um grande jogo - às vezes acontece - é preciso uma atuação dominante para equilibrar a partida. Ela não veio, a defesa não deixou. Novamente, o Celtics jogou muito bem no contra-ataque e, na frente do placar, os reservas entram e jogam com facilidade, pontuam numa boa, bocejando, sem medo do Garnett beber o sangue de seus familiares.

...

A defesa permitiu a vitória, sem dúvidas, mas o Celtics também está ficando mais inteligente no ataque. Garnett, Paul Pierce e Ray Allen finalmente jogaram bem juntos, o que é raro, mas a minha impressão foi de que todos os pontos feitos pelo Celtics no jogo inteiro foram marcados em cima do Antawn Jamison. Sem brincadeira, basta espiar os melhores momentos para vê-lo tomando vários arremessos do Garnett, dribles secos do Paul Pierce, cestas consecutivas do Glen Davis, dentre outros. Finalmente o Celtics entendeu algumas chaves básicas para a vitória: defender como malucos, fazer LeBron James colocar para fora seu lado Madre Teresa e passar a bola, jogar no contra-ataque, e sempre que tiver que atacar em meia quadra, atacar o pobre do Antawn Jamison. Tá bom que o Jamison tem feito um bom trabalho no ataque em cima do Garnett, mas bastou que o Garnett se focasse em pará-lo para não existir mais um motivo sequer para que permanecesse em quadra. Eu teria tirado o Jamison, demitido seu traseiro gordo e proibido sua mãe de pisar em Cleveland nos primeiros 5 minutos de jogo, mas ele jogou mais de 30 - provavelmente para dar tempo do time inteiro do Celtics conseguir fazer uma cesta em sua cabeça. Me inscrevi para tentar pontuar em cima dele também, mas o jogo terminou antes que chamassem a minha senha.

Faz sentido que Garnett tenha ficado surpreso com a pergunta sobre o ataque impecável que o Celtics teve na noite de ontem: ele só se focou na defesa, jogou no contra-ataque, e quando teve que executar jogadas ofensivas foi marcado pelo Antawn Jamison, que é a mesma coisa que jogar sozinho. O ataque foi moleza, difícil foi defender com garra, pular em toda bola, garantir rebotes para o contra-ataque e parar LeBron James.

Bizarramente, no que parece ser uma frase vinda do Universo Bizarro, o ponto fraco de LeBron parece ser justamente sua mania de passar a bola para os jogadores livres durante o jogo. No começo de carreira ele perdeu muitos jogos passando a bola do último arremesso para algum cara aleatório que estava livre e que, por ser zé-ninguém, tremeu e errou. Todo mundo dizia que a verdadeira estrela arremessaria aquela bola não importando se a Alinne Moraes estivesse nua, livre e desempedida pedindo a porcaria da bola da zona morta. Aos poucos o LeBron foi parando de dar esse último passe, aprendeu a resolver finais de jogos sozinho, mas durante uma partida inteira em que três jogadores estão focados em pará-lo e outros companheiros tem espaço para infiltrar, ele não sabe fazer outra coisa além de acioná-los. Parece passivo, desinteressado, mas na verdade está fazendo o mais óbvio. No primeiro tempo do último jogo, quando seus companheiros acertaram arremessos, pareceu ótimo. Mas depois, quando todo mundo começa a ficar frustrado com LeBron por não assumir e com a defesa do Celtics por ser forte (e estar descendo o cacete!), os arremessos param de cair e aí é o LeBron que vai ficando frustrado com o resto do time. O elenco é incrível, muitos jogadores talentosos e capazes, mas ninguém ali além do LeBron tem aquela vontade de dar os últimos arremessos, de decidir sozinho. O único ali que quer fazer isso é o Mo Williams, mas ele não tem cérebro: vai te ganhar um jogo e perder outros três se você continuar lhe dando a bola. No entanto, é nele que resta a última esperança do Cavs. Se no próximo jogo, em Boston, Mo Williams não justificar os passes de LeBron, a série vai acabar. Se ele estiver inspirado e permitir um pouco de espaço para que LeBron faça o que sabe no final do jogo, a coisa complica. O que importa para o Cavs é manter a diferença de pontos sob controle até o quarto período, quando os reservas do Celtics amarelam e o LeBron pode pontuar e cavar faltas à vontade.

Na mesma entrevista, quando perguntado como fazer para vencer a série, Garnett respondeu com sinceridade: é só ganhar o próximo jogo em casa, é o único jeito. Admitiu que o Celtics não tem chances de enfrentar o melhor time da NBA com o melhor jogador da NBA num Jogo 7 sendo disputado em casa. Para o Celtics, a sensação para a próxima partida em Boston também é de tudo ou nada. Será que LeBron mudará sua resposta à defesa? Será que Mo Williams aparecerá para decidir? Porque para o Celtics, não há nada a aprender ou decidir: basta manter a defesa.

sábado, 8 de maio de 2010

Problemas de memória

- Super Gêmeos, ativar! Forma de um armador canadense que não pula!
- Forma de um armador esloveno que marca 21 pontos no quarto período!

É fácil, na empolgação do momento, esquecer algumas coisas. Na vida real, isso em geral quer dizer alguns filhos indesejados ou uma nudez a mais no YouTube. No mundo do esporte, em geral, significa que torcendo, vibrando, vendo história sendo feita, apenas deixamos de fazer sentido. As coisas numa quadra de basquete mudam rapidamente de um momento para o outro, e em meio à torcida dizemos coisas esquecendo ter afirmado outras diferentes minutos atrás. Para os técnicos e jogadores, o calor do jogo leva a esquecimentos de plano de jogo, ou até mesmo a um jogador ignorado no planejamanto da partida que volta pra lhe morder a bunda. Por isso, vamos tentar refrescar a memória de todo mundo e tentar colocar um pouco de critério e puxão de orelha na amnésia de torcedores e jogadores das partidas de ontem.

1) Lesão ou não-lesão

Vamos combinar que o LeBron ou está lesionado ou não está? E que a lesão ou incomoda ou não incomoda em nada? Não dá pra ele estar morrendo de dor num segundo, incapaz de mover o braço, se recuperar com o fator de cura do Wolverine em poucos minutos, e depois voltar a colocar a culpa na lesão de novo. Ou ele é mutante ou ele não é!

No primeiro jogo contra o Celtics, LeBron começou o jogo praticamente dentro do garrafão, tentando jogar de costas para a cesta, e distribuindo ganchos e arremessos com a mão esquerda, do cotovelo saudável. Então todo mundo começou um discurso sobre como a lesão estava incomodando LeBron e ele estava tendo que usar o outro braço. Mas aí ele começou a atacar a cesta, e a acertar bolas de três pontos, tudo com o braço direito, e o papo foi sobre como a lesão parecia não estar modificando seu jogo. Aí ele começou a se focar na defesa porque o resto do time estava destruindo no ataque, e o papo foi sobre como a lesão estava deixando LeBron mais passivo no ataque, para poupar o braço. Caso de memória mais curta do que eleitor brasileiro. O cotovelo nem deveria ser assunto nesses playoffs, mas o pessoal consegue trazê-lo à tona quer o LeBron jogue bem, quer ele jogue mal.

Como LeBron terminou a partida com 35 pontos, o consenso então foi de que a lesão incomodava (parece deixar o cotovelo dormente às vezes, segundo o próprio LeBron) mas que não chegava a alterar seu jogo. Foi aí que aconteceu o Jogo 2 da série, o Celtics saiu de quadra vencedor, o LeBron teve trocentos problemas ofensivos na partida, e começaram a dizer que a lesão era séria, que jogando baleado o Cavs não ia ter chances, que times deveriam levar o cotovelo do LeBron em consideração na hora de assinar seu próximo contrato. Alguns disseram que o cotovelo do LeBron causou a quebra das finanças na Grécia.

Esse caso de memória curta, além de não permitir que LeBron pague pelos seus erros, tirou do Celtics todos os seus méritos. O Jogo 2 foi vencido pelo time de Boston graças a uma defesa impecável, uma estratégia defensiva incrível em cima de LeBron, e uma série de outros fatores que comentaremos abaixo (porque também são casos diversos de amnésia). Por enquanto, deixemos bem claro: marcando por zona, colocando sempre um jogador no caminho de LeBron enquanto outro força a marcação, forçando o ala do Cavs a arremessar quando ele queria infiltrar, colapsando a defesa para dentro do garrafão e forçando o resto do Cavs a ter a bola nas mãos, LeBron foi momentaneamente vencido. Por nenhum momento sua passividade pareceu fruto da lesão, foi apenas mérito de uma defesa agressiva que cansou de colidir com o LeBron no garrafão, descer a mão e lhe forçar a cobrar lances livres. É super legal quando um time consegue ler o outro e fazer alterações significativas (e vencedoras) durante uma série de playoffs, então por que perder esse gostinho colocando a culpa numa junta?

2) O Garnett sabe jogar no garrafão

Dessa aí eu nem me lembrava. Antigamente, no Wolves, o Garnett tinha umas noites ofensivas absurdas em que atacava a cesta com uma série de movimentos ultra-técnicos, arremessava de dentro do garrafão com giros iniciados de costas para o aro, e cobrava lances livres por forçar a defesa a tentar alcançar seus braços compridos demais nos arremessos ou nas bandejas acrobáticas. Mas aos poucos ele foi se poupando, se afastando do garrafão, e no Celtics pegou aquele vírus terrível que causa fobia de garrafão e que contagiou o Rasheed Wallace tão cedo na carreira (tadinho, era tão jovem!). No primeiro jogo contra o Cavs, o Garnett não fez nada além de arremessar de longe, passivamente no perímetro, e não cobrou um mísero lance livre sequer. Mas no segundo jogo ele resolveu chegar perto do aro e destruiu a estratégia defensiva do Cavs, que tinha esquecido que ele sabia jogar perto da cesta. Tudo porque, quando o Garnett está próximo ao aro, fica quase impossível usar o Jamison em quadra. Ah, bons tempos aqueles em que Garnett e Duncan eram colocados na mesma frase, antes do Garnett beber sangue de crianças num cálice e ter pavor de dar uma enterrada.

3) O Antawn Jamison fede na defesa

É fácil esquecer que um jogador é um merda na defesa quando o time inteiro não faz bulhufas para defender. Por exemplo: me dê o nome do pior defensor do Warriors. Impossível, não é mesmo? O negócio por lá é tão ruim que a sensação é de que ninguém está tentando defender, então não dá pra saber quem é péssimo de verdade. Por isso é que, quando o Suns começou a defender melhor, ficaram tão óbvias as deficiências defensivas do Amar'e, que antes disso disfarçava bem.

No Wizards de defesa ridícula, o Jamison parecia quebrar um galho. Na defesa bem montada e forte pra burro do Cavs, fica muito claro que ele não sabe defender. Aliás, "não sabe defender" seria como dizer que a Carla Perez "não sabe resolver questões de física quântica", quando ela na verdade é uma anta completa. Ou seja, o Jamison é um dos piores defensores de toda a NBA. No perímetro ele é horrível, lento, frouxo. Mas no garrafão é que ele mostra quão funda pode ser a privada. Marcando Garnett próximo ao aro, tomou três cestas seguidas todas do mesmo jeito: passe do Rajon Rondo por cima dele, cesta fácil do Garnett de mão direita, e nenhum único contato físico entre eles. Já vi bem mais contato do que isso em missas católicas por aí. Ridículo o técnico Mike Brown (que é tão bom técnico quanto o Jamison é defensor) não ter colocado mais o Varejão em quadra, mas ele provavelmente também não lembrou que o brasileiro que aluga o cabelo como casa de verão para anões figurou dentre os times de melhores defensores da NBA.

4) O Mo Williams é um arremessador biruta

Até a mãe dele sabe disso, mas é fácil de esquecer quando o LeBron passa tanto tempo com a bola nas mãos. No primeiro jogo, quando LeBron sentou no banco, Mo Williams saiu do armário e arremessou como um louco, marcando 10 pontos seguidos e saindo de quadra com 20, numa vitória fácil em que LeBron se deu ao luxo de se focar na defesa. Quando dá certo, parece que foi premeditado, que estava tudo controlado. Mas no segundo jogo, em que o LeBron não conseguia infiltrar e colocou a bola nas mãos dos companheiros, o Mo Williams arremessou sem critério. E quanto mais frustrado ele ficava pelas bolas não estarem caindo, mais ele queria arremessar não importava que tipo de defesa estivesse em cima dele. Só acertou um dos nove arremessos que deu. Plano para ganhar do Cavs? Lembrar que o Mo Williams é maluco, impedir o LeBron de infiltrar e deixar o Mo frustrado com a bola nas mãos. Ele foi contratado para manter o poder ofensivo quando o LeBron vai pro banco, e ficar controlado quando é o LeBron quem arma o jogo no Cavs. Para essa função, tem sido ótimo. Mas quanto mais a bola fica em suas mãos, e quanto mais forte for a defesa, maior a chance do Mo Williams virar o JR Smith e arremessar até a mãe (enquanto eu escrevia isso, o JR Smith arremessou meu mouse no lixo).

5) O LeBron sabe arremessar

Existem três modos de jogar contra LeBron James. O primeiro é marcá-lo no mano a mano e então assistir a ele enterrando na sua cabeça o jogo inteiro. O segundo modo é marcá-lo no mano a mano mas usar a tática "sanduíche", deixando outro jogador no seu caminho, tentando esmagar LeBron quando ele está entrando no garrafão - e, portanto, lhe dando espaço para arremessar de fora. E o terceiro modo é dobrar a marcação nele no primeiro instante em que ele toca na bola, obrigando uma reação muito rápida ou, com mais frequência porque o LeBron é menos fominha do que se imagina, um passe para outro companheiro.

Do mesmo modo que uma hora a lesão incomoda, na outra todo mundo diz que a lesão não muda nada, a capacidade de arremesso do LeBron varia, na opinião das pessoas, mais do que humor de mulher com TPM. Tem horas em que dizem que ele é só físico, que é só deixar arremessar, tem horas em que ele é um baita arremessador e o adversário é burro de lhe dar espaço. No Jogo 2, criticaram sua falta de arremesso e passividade no ataque, para no Jogo 3 louvar sua distância no arremesso. Amnésia indesculpável, porque depois de tantos anos já deveríamos ter aprendido que o LeBron pode arremessar - se ele quiser. Sabendo da postura defensiva do Celtics, que é de marcá-lo no homem-a-homem mas bloquear seu caminho para a cesta, LeBron chegou em quadra decidido a arremessar de longe. A defesa do Celtics pirou, começou a sair do garrafão para perseguí-lo, mas aí abriu caminho para a cesta e ele infiltrou. LeBron venceu o Celtics em pontos sozinho no primeiro quarto, enquanto a equipe de Boston esquecia de usar Garnett contra Jamison, e o resto do time do Cavs, não tendo que passar muito tempo com a bola em mãos e enfrentando uma defesa focada em LeBron, podia pontuar sem maiores dificuldades. Não houve chance para o Celtics em nenhum momento da partida, e o LeBron só colocou os pés em quadra no quarto período por mera formalidade. Nem precisava.

O Celtics mostrou que ainda sabem defender de vez em quando, que a velharada ainda tem energia, que eles sabem manter o LeBron longe da cesta, que dá pra frustrar o ataque dos outros jogadores do Cavs e acabar com o Jamison quando ele tenta defender. Mas é essencial para o time começar forte, abrir uma vantagem grande depois do intervalo e segurar o placar no quarto período. Quando o LeBron está frustrado no final do jogo e o resto do time tenta assumir, pode ter certeza de que vai dar merda. Perdendo o jogo logo de cara, ainda no primeiro quarto, é sinal de que nem por um segundo o Boston vai ter chances na partida. Se eles lembrarem que o LeBron sabe arremessar, e que o Mo Williams é meio biruta, restará uma última alternativa: dobrar a marcação no LeBron sempre, o tempo todo, desde a primeira posse de bola, ainda que ele esteja no meio da quadra, ou na linha de três pontos. Obrigue-o a passar a bola, deixe Mo Williams decidir o jogo e se frustrar quando os arremessos não caem. O Celtics tem chances, mas é preciso lembrar que eles estão enfrentando um adversário diferente, que pode acabar com o jogo no primeiro quarto, não dá pra ir pegando o jeito no tranco e se recuperar no finalzinho.

6) Escolhas velhas de draft

Essa foi a amnésia da outra partida da noite, entre Spurs e Suns. Todo mundo que leu o post do Denis sobre a rivalidade entre as duas equipes e se lembra dos últimos confrontos sabe que o Nash nunca teve reserva. Chegava exausto aos playoffs, era marcado duramente pelo Bruce Bowen e ficava com a língua de fora. Era triste vê-lo descansando uns poucos minutos na lateral, deitado no chão para aliviar a dor nas costas e coberto com toalhas e casacos para mantê-lo aquecido, já que voltaria logo para a quadra. A defesa do Spurs era fortíssima, Nash tinha que suar as pitangas, e eles marcavam como ninguém o pick-and-roll entre Nash e Amar'e, usando jogadores grandes e mercenários para encher o saco e descer a mão no pivô do Suns.

Aos poucos o Suns foi tentando dar um jeito de conseguir resolver esses problemas. O Leandrinho sempre rendeu muito menos quando jogava de armador no lugar do Nash, e aos poucos foi perdendo esse papel. Até que o Suns se apaixonou por Goran Dragic, o esloveno. Treinaram com o rapaz antes do draft e, sabendo que nenhum time tinha interesse por ele (tem aquela história de que armadores estrangeiros costumam ter fama de levar muito tempo para pegar o jeito, até por causa da língua), foram atrás de uma escolha de segunda rodada por ele. Quem topou a brincadeira foi o Spurs, que draftou o Dragic e mandou o armador para o Suns em troca de uma outra escolha de segunda rodada do draft que, acho, nunca nem jogou na NBA.

Vi muito o Dragic jogar nos últimos anos, e pra mim sempre fez sentido o diagnóstico inicial do Suns: ele é um clone do Steve Nash. Branco, mesmo tamanho, rápido, péssimo defensor, arremesso preciso e com enorme arco, uso das duas mãos perto do aro, inteligente. Mas ele sempre teve certo medo de garrafão e uma covardia geral em seu jogo que sempre o levou a passar a bola para o lado. Quando Nash sentava e o Dragic assumia, era como se o time mudasse seu plano de jogo e parasse de correr para, ao invés, isolar jogadores em jogadas individuais. Ainda assim, sempre entendi que o Dragic era um projeto para o futuro, quando o Suns cansasse de perder e se livrasse do Nash para começar o time de novo do zero. Fiz questão de ter o armador esloveno no meu time de fantasy, por exemplo, para assumir a armação do meu time no futuro.

Mas o tempo passa depressa: agora a defesa do Spurs não é mais forte o bastante para parar todas as armas do Suns. O Bowen não está lá para torrar o saco do Nash. E o melhor marcador do Nash nesse time, George Hill, faz com que o time titular do Spurs seja baixo. Por isso, o Suns pode jogar com um time baixo também e dominar nos rebotes, por ter contratado nos últimos anos alas e armadores muito bons em rebote, como Jason Richardson e Jared Dudley. Grant Hill e Jason Richardson jogam melhor no basquete de meia quadra, que sempre foi o fraco do Suns. E agora Nash tem um reserva e pode passar mais do que 10 segundos fora de um jogo.

Nas séries entre Spurs e Suns nos últimos anos, quando parecia que tudo ia dar errado para o time de San Antonio, aparecia algum jogador aleatório tendo uma partida espetacular: Speedy Claxton (que uma vez assumiu o jogo quando o Parker teve dor de barriga), Brent Barry, Stephen Jackson. Agora, sinal de novos tempos, foi justamente o contrário: jogadores aleatórios do Suns mudaram o jogo com partidas espetaculares. O Suns conseguiu empatar no quarto período um jogo dominado pelo Spurs desde o começo, até que o Nash teve que sentar e Dragic e Leandrinho assumiram a armação. O técnico do Suns, Alvin Gentry, só mandava o Dragic ser agressivo em quadra. E ele foi, com 21 pontos no quarto período, bolas certeiras de três, infiltrações e dribles de corpo no garrafão (os famosos "olé!"), e o Nash gargalhando sentado no chão fora de quadra. A princípio o Nash estava se mantendo aquecido, depois foi se alongando com mais moderação, depois desencanou de vez e foi só batendo palmas. Percebeu que não ia precisar voltar pra quadra. O técnico do Suns mal conseguia conter o sorriso ao olhar para o Dragic em quadra. Os dois ficaram de boa, sabendo que o Jogo 3 estava no papo. O Dragic, com a ajuda de uma boa atuação de Leandrinho no final do jogo, ganhou sozinho.

O mais engraçado? Leandrinho e Dragic foram draftados pelo Spurs e mandados para o Suns. Esqueceu deles, Popovich? Não viu o Dragic jogar nessa temporada? Esqueceu que o Leandrinho é mais rápido do que todos os seus jogadores de perímetro? E foi assim que a série foi pro saco. Nenhum time jamais voltou de um 3-0 para ganhar uma série de playoff. Numa série contra o Spurs a gente nunca duvida de nada, mas não vai dar. O universo só estava esperando o Nash ter um reserva. E o Spurs se esqueceu dele. Foi uma atuação maravilhosa, memorável, coisa de quem não percebeu que era playoff contra o Spurs. Já tinha visto boas atuações do esloveno mas nunca esse grau de agressividade, tentando pontuar em todas as bolas. Boa parte do mérito vai para a transição ofensiva do Suns, que colocou constantemente Nash sendo marcado pelo Duncan. O armador canadense fez questão de pontuar (ou ao menos tentar) todas as vezes em que isso aconteceu, e o Dragic apenas seguiu o exemplo, arremessando em cima do Duncan e tentando aumentar o placar em todas as posses de bola. Esfriou um pouquinho depois que errou o primeiro arremesso do quarto, mas a atitude de atacar ficou mais ou menos intacta. Quando o Nash voltou pra quadra só pra participar da festinha, o Dragic ficou mais tranquilo e conseguiu aproveitar o placar.

Repetimos aqui muitas vezes que o Suns sofreu, nos últimos anos, por achar que o time estava completo e se livrar de escolhas de draft para não ter que gastar dinheiro com elas. Algumas tentativas de troca do Suns para mudar a cara do time foram desastrosas, mas as escolhas de draft (Dragic, Leandrinho, Robin Lopez) e as trocas por jogadores ofensivos e bons arremessadores de três (J-Rich, Channing Frye) deram muito certo. Novatos precisam de tempo, não adianta o Suns se livrar de todo mundo achando que tinha que ganhar "naquele momento e nunca mais". Curiosamente, nas mãos de um Nash mais velho, de um Amar'e que depois de trocentos boatos de troca que poderiam ter tirado ele da equipe finalmente se dá com seus companheiros, e de um jogador pivete que finalmente amadurece estão as chances do Suns. Não de apenas vencer o Spurs, mas de ser campeão. Quando ninguém mais lhes dava um centavo.

sábado, 1 de maio de 2010

Preview dos Playoffs - Cavs x Celtics

Boa estratégia de marcação!


Começa hoje a segunda rodada dos playoffs. Embora ainda falte uma série na primeira rodada, a série entre Hawks e Bucks, a outra série do Leste já começa, com uma revanche da semi-final do Leste de 2008 entre Cleveland Cavaliers e Boston Celtics.

O histórico indica que a série vai ser disputada, mas não necessariamente com jogos disputados. Nos últimos 19 encontros entre as duas equipes, em 17 vezes o time da casa venceu! As duas exceções, no entanto, foram nessa temporada, quando os dois times empataram a série da temporada regular em 2 a 2, com cada um vencendo um jogo em casa e um fora.

O primeiro jogo foi logo o primeiro da temporada, o Celtics venceu em Cleveland. Mas vale lembrar que essa foi a estréia do Shaq, que demorou algumas boas semanas para começar a render, aliás todo o time do Cavs demorou um pouco até embalar na temporada. A segunda partida foi a derrota do Celtcis em Boston, o time vencia no primeiro tempo mas tomou uma surra de 60 a 32 no segundo, foi um típico jogo do Celtics nessa temporada: um primeiro tempo bom, envolvente e com defesa boa, e um segundo tempo com defesa preguiçosa, nenhum rebote e o que o técnico Doc Rivers chama de "one-pass offense", um ataque em que o time dá um passe e já tenta decidir logo com um arremesso forçado.

As duas últimas partidas foram até que disputadas mas vencidas pelo time da casa e, importante, foram jogos em que o Antawn Jamison já estava no Cavs, depois da troca com o Wizards, mas também jogos em que o Shaq estava machucado e o JJ Hickson é que entrou como pivô titular. E o JJ jogou bem nessas duas partidas, será que ele vai ter chance na série? Contra o Bulls ele quase não participou dos jogos.

O que o Cavs precisa para vencer:
Antes de mais nada, continuar defendendo bem o seu mando de quadra. Foram 14 vitórias nas últimas 16 partidas de playoffs que o time jogou em Cleveland e eles tem o mando de quadra na série. Se continuarem com dificuldade de vencer em Boston, garantir vitórias tranquilas em Cleveland pode ser o diferencial da série.

Em termos de estratégia de jogo acho que é importante que os arremessadores do Cavs estejam inspirados nas bolas de longa distância. A estratégia do Celtics contra o LeBron sempre foi obrigá-lo a arremessar de longe ao invés de infiltrar, e para isso eles fecham o garrafão e descem a mão no LeBron quando ele ousa entrar lá. Para tirar os marcadores do garrafão você precisa ter gente acertando arremessos, aí que entram Mo Williams, Anthony Parker e principalmente Antawn Jamison. Se ele começar a acertar bolas importantes de longe, o Kevin Garnett vai ser obrigado a dar mais atenção pra ele e o caminho para o LeBron infiltrar fica aberto.

Outra batalha interessante vai ser no garrafão, entre Kendrick Perkins e Shaquille O'Neal. Nem um e nem o outro são caras simpáticos, legais, que tratam bem as pessoas, os dois jogam fisicamente, brigam, empurram e fazem faltas duras, vai sair sangue nessa disputa. Mas assim como o Perk é ótimo marcando o Dwight Howard, pode incomodar muito o Shaq. Se isso acontecer vai ser legal ver o que o técnico Mike Brown fará a respeito. O Varejão de pivô deixa o time mais forte na defesa, o Ilgauskas é mais uma opção para abrir o garrafão e o JJ Hickson é o tipo de pivô que mais incomoda o Perkins, é o pivô mais baixo, veloz e agressivo.

Também será legal ver quem ficará marcando o Rajon Rondo nos momentos decisivos da partida, já que o Mo Williams teve dificuldade nesse confronto durante a temporada. Podem colocar o Mo correndo atrás do Ray Allen e o Delonte West ou o Anthony Parker no Rondo. Ou até o LeBron no Rondo, como fizeram com o Bron marcando o Derrick Rose na série contra o Bulls.

Em resumo, o Cavs tem um elenco muito completo e diversas opções, jogadores de estilos diferentes não faltam pra eles, assim como não falta talento. A grande questão dessa série será analisar bem os jogos e fazer os ajustes necessários a cada jogo. O Mavs nos mostrou bem que não adianta ter um elenco bom se quando chega uma situação nova e diferente você não sabe o que fazer com ele e começa a usar formações estranhas que quase nunca foram usadas antes. O Cavs leva a série se souber ler o jogo.


O que o Celtics deve fazer para vencer:
Não sou daqueles que ainda acham que o LeBron não sabe arremessar, ele sabe, mas é bem claro que ele machuca bem menos o adversário em arremessos do que em infiltrações. Quando ataca a cesta ele faz a defesa se mexer, acha jogadores embaixo da cesta e consegue situações de rebote ofensivo (porque o pivô adversário deixa de marcar o rebote para atacar no toco), enquanto quando ele arremessa ou ele acerta ou o ataque já era. Por isso a estratégia de obrigar ele a arremessar deve continuar sendo usada. Tá bom que não deu muito certo na temporada regular, quando o LeBron teve média de 36 pontos por jogo na série, mas o problema não é com a estratégia, o problema é que o LeBron é bom demais!

Essa estratégia, como disse antes ao falar do Cavs, deixa os jogadores de longe com mais liberdade para arremessar, mas é um risco que eles devem correr. Melhor ter o jogo decidido por arremessos do Anthony Parker do que por bandejas do LeBron. Mas isso não significa que a defesa deve deixar os caras arremessar, o Celtics é bom o bastante na defesa para ter sempre alguém na ajuda correndo para pelo menos colocar a mão na cara do arremessador.

A defesa é a parte mais importante do jogo do Boston porque é defendendo que eles atacam melhor, não tem bola mais imarcável do que aquela bola de 3 do Ray Allen em contra-ataque. O Ray Ray aparece do nada, sozinho e com a defesa desesperada voltando do ataque, é mortal. Também é na velocidade do contra-ataque que o Garnett é ótimo em se posicionar mais perto da cesta que seu marcador e que o Rondo destrói defesas com suas infiltrações.

Além de defesa, o Celtics precisa de rebote para impulsionar esses ataques velozes e rebotes tem sido o maior problema do time na temporada inteira. Como já disse aqui tantas vezes, o Celtics está entre os cinco piores times da NBA em quase todas as estatísticas referentes a rebotes nessa temporada. Ou eles pegam mais rebotes ou o Varejão vai fazer a rapa no garrafão ofensivo e garantir muito mais posses de bola para o Cavs.

...

Palpite: Cavs 4 x 3 Celtics. A série contra o Heat me animou em relação ao Celtics, defenderam bem, atacaram com mais calma. Também me animei com o Celtics ao ver que eles tiveram bem menos turnovers que o comum nas partidas contra o Cavs, eles sabem enfrentar o Cavs. Mas o time do LeBron é mais completo, tem mais banco de reserva, tem o mando de quadra e tem o LeBron James. Isso tudo é o bastante para garantir um jogo 7 em casa e a vaga na final de conferência.