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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O fundo do poço

Foteeenha de dias mais felizes

Ao fim do primeiro mês de temporada, o Cavs tinha conquistado 7 vitórias e 10 derrotas. Não era nem sombra daquele Cavs que esteve sempre no topo do Leste nos anos anteriores, mas era um número de vitórias respeitável, digno, daqueles que dá pra levar pra jantar e apresentar para os nossos pais sem vergonha. As limitações do elenco eram óbvias, mas o técnico Byron Scott é um gênio e os jogadores pareciam estar se adaptando rápido aos novos papéis. Já tinha gente falando que o JJ Hickson poderia levar o prêmio de jogador que mais evoluiu na temporada, fruto de um aumento de produção digno de quem assumiu a carga de ser a nova cara da franquia. O Cavs era um time ruim, claro, mas com alguns jogadores talentosos, jovens, um técnico competente e vontade de provar para o mundo que eles poderiam sobreviver sem LeBron James.

Enquanto isso, o Heat demorava pra engrenar e enquanto o planeta tacava cocô no LeBron e em sua decisão de ir jogar na praia, o Cavs se alimentava das dificuldades de sua ex-estrela. Quanto pior o Heat jogava, mais ânimo o Cavs tinha para superar suas dificuldades. Até que os dois times se enfrentaram, o Cavs entrou pronto para matar-pilhar-destruir, a torcida vaiou LeBron o quanto conseguiu, e o Heat simplesmente massacrou o adversário. Comentei na época sobre como o ódio ao LeBron em Cleveland havia unido todo o elenco do Heat para defender seu companheiro, e desde então o time parece ter se encontrado, percebeu que o jogo coletivo pode significar fazer turnos ("uma hora vou eu, outra hora vai você") e que o entrosamento maior precisa estar na defesa. Agora o Heat está solidamente lá no topo do Leste e ninguém mais questiona se eles vão ou não dar certo.

Já o Cavs, depois do forte golpe no ego, desmoronou como ex-namorada que viu o amor de sua vida se dando bem na balada - e de quebra lhe cuspindo na testa. O Cavs perdeu seu objetivo, seu ânimo, deixou de  se alimentar das dificuldades alheias, e tornou-se incapaz de superar as próprias. Depois de perder para o Heat, o Cavs perdeu 19 partidas e ganhou apenas uma, contra o Knicks, que só por isso deveria ficar de castigo. Antes o Cavs tinha um recorde bom o bastante pra ir pros playoffs porque o Leste fede, agora eles são o pior time de toda a NBA. Disparado.

No papel, o time não parece tão ruim, mas é preciso lembrar que ele foi inteiramente formado ao redor de LeBron James e, mesmo assim, sem muito critério. Nunca foram jogadores que se encaixavam ou faziam sentido juntos, eram apenas trazidos para mostrar serviço para o LeBron, para tentar aumentar o nível do time como fosse possível. A diretoria nunca poupou esforço ou dinheiro para trazer reforços, mas também nunca teve muito tutano. O conjunto acabou dando certo basicamente porque seus papeis eram limitados e a única parte tática era defensiva. Levou muito tempo até que os assistentes técnicos dessem um padrão ofensivo para o Cavs, e mesmo assim sempre foi gritante a queda de nível toda vez que LeBron passava a bola. Sem ele, mesmo os jogadores mais talentosos agora estão expostos como nunca estiveram, e ao invés do papel secundário precisam assumir jogadas e responsabilidades. Agora enfrentam marcações exclusivas, dupla marcação, precisam criar o próprio arremesso. Mo Williams nunca foi um armador nato, levou seus companheiros do Bucks à loucura até que tiveram que trocá-lo para salvar o clima na equipe, e agora sua afobação no ataque e sua dificuldade para chamar jogadas fica evidente, esfregada na nossa cara. Não tem o LeBron armando o jogo para camuflar.

No par de vezes nas últimas temporadas em que o LeBron não jogou pelo Cavs, contundido, sempre fiquei surpreso em ver como o elenco conseguia se virar bem sem ele, mas era um tipo de jogo completamente diferente. Todos os carregadores de piano, secundários até o osso, davam o sangue uns pelos outros. O que sempre impressionou no Cavs é que ele era um time incrivelmente unido, em que todo mundo sabia seu lugar, sua importância e seu papel. Foi esse tipo de compreensão e união que segurou o Cavs no começo dessa temporada, mas quando a moral foi derrubada, a fraqueza do elenco foi escancarada.

É injusto dizer que esse time fede demais e que portanto o LeBron jogava sozinho nas últimas temporadas, que fez tudo por si só. A maioria desses jogadores do Cavs funciona bem como especialista que vem do banco, como defensor, como arremessador parado, essas coisas essenciais para qualquer time ser campeão. Era um time bom porque tinha gente disposta jogar em volta de uma única estrela e sabia fazer isso muito bem. Mas, sem a estrela, estão todos fora de seu ambiente natural e precisam fazer coisas que não podem fazer. Eles não fedem tanto assim com uma estrela, são limitados mas eficientes no esquema tático certo, mas sem uma estrela eles são um elenco para apanhar um bocado. Um bocado, mas não tanto.

O golpe na moral ao perder para o Heat em casa e ver LeBron sair sorrindo feliz da vida e começar a ganhar um jogo atrás do outro foi muito forte, mas o golpe na saúde dos jogadores foi ainda maior. Toda equipe sofre com lesões, mas no caso do Cavs isso é ainda pior. O LeBron saiu do Cavs quando restavam poucos jogadores sem contrato na NBA, então não havia ninguém para contratar. Fora que a grana em Cleveland é muito curta, em parte pela dificuldade econômica da cidade, mas também porque os dirigentes toparam um monte de contratos gigantes e idiotas (como o do Varejão e o do Jamison, por exemplo) simplesmente para manter ao lado do LeBron a estrutura necessária para vencer. Mas sem uma estrela, não adianta pagar 7 milhões no Varejão e não ter grana para reconstruir o time. E, mesmo com grana, os jogadores da NBA preferem escapar de Cleveland agora, já que não há mais chances de título, a economia lá é ruim e a cidade é uma droga. Com isso, o Cavs teve que usar seus antigos reservas como atuais titulares, e qualquer lesão significa que os jogadores mais zé-ninguém do mundo terão que entrar em quadra. E as lesões vieram a rodo.

O Varejão está fora da temporada com uma lesão no tornozelo adquirida nos treinamentos, e ele vinha sendo o melhor jogador da equipe - o que já mostra como o time é uma porcaria. Não que o Varejão seja horrível, sua defesa tem sido impressionante (o que ele fez com o Dwight Howard nessa temporada não foi bolinho não) e sua energia é essencial para a moral dessa equipe, mas ele é o típico jogador secundário que você encaixa num time pra fazer o trabalho que ninguém quer fazer. Fora ele, o Cavs também está sem o Daniel Gibson (típico arremessador especialista pra vir do banco, mas que no Cavs atual teve que ser titular), sem Joey Graham (que fede mas também já foi titular porque não tinha ninguém pra colocar no lugar do LeBron), sem Leon Powe (que tem "reserva do Celtics" tatuado na testa) e sem Anthony Parker, único desses que se for titular não vai fazer o Universo chorar, pelo menos.

Isso quer dizer que, para enfrentar o Lakers, esse Cavs que já fede, que já não tem moral ou vontade nenhuma, e que perdeu 21 de seus últimos 22 jogos, ainda estava completamente desfalcado e teve que usar uma série de jogadores muito ilustres: Manny Harris foi titular (novato que foi de mal ser usado para jogar mais de 40 minutos por jogo), Samardo Samuels tentou 12 arremessos e só acertou um (vai ver que tentou tanto por causa de sua grande força nominal) e Alonzo Gee foi o cestinha do time com 12 pontos (famoso Alonzo Gee, que está em seu terceiro time em apenas duas temporadas). Esses jogadores fazem caras como Ryan Hollins parecerem famosos como estrelas do rock. Perto desses jogadores, ex-BBB é uma baita celebridade. Se alguém souber qual é a cara de qualquer um deles sem colar no Google, ganha um prêmio.

Samardo Samuels, meu deus, Samardo Samuels. Parece nome de jogador inventado de videogame. Parece nome falso de traficante procurado pela polícia. Não me surpreenderia se ele fosse apenas um torcedor do Cavs sorteado para participar do jogo porque não tinha mais ninguém pra entrar em quadra. Se o Samardo Samuels pode, eu também posso. Vamos fazer uma campanha para que os leitores do Bola Presa possam substituir o Samardo Samuels no elenco do Cavs, cada dia vai um leitor e entra em quadra, e vamos revezando pra todo mundo ficar feliz. E o Cavs sai ganhando, certeza de que se eu ficar arremessando de três do meio da quadra eu acerto uma bola em 12 tentativas!

Não é estranho, portanto, que esse elenco tenha marcado apenas 57 pontos contra o Lakers - e tomado 112. É o maior cacete que eu vi nos últimos anos, a coisa mais humilhante depois do capote no Globocop, e o recorde do Lakers em limitar o número de pontos do oponente. Antes do LeBron ser draftado, a torcida do Cavs levava placas de "percam por LeBron" para o ginásio, mas o time pelo menos fingia que estava jogando basquete. Não colocavam o Samardo Samuels na quadra! É claro que o Cavs já está pensando na primeira escolha do draft pra temporada que vem, mas colocar o Samardo Samuels é o equivalente a jogar a toalha no boxe, é desistir sem tentar, é entregar o jogo. Se um jogador mediano entrar em quadra sozinho e arremessar todas as bolas só ele durante o jogo todo, faz mais de 57 pontos fácil.

O Cavs, vergonhosamente, fica para nós como um exemplo do que acontece quando um time constrói ao redor de uma única estrela - e perde essa estrela sem trocá-la. Mesmo o Mavs sem Nowitzki e sem Caron Butler consegue segurar melhor as pontas. O Cavs foi mal montado, aos trancos e barrancos, e jamais teve um "plano B". Quando o Celtics montou várias defesas especiais para parar LeBron nos playoffs (que eu analisei na época aqui), não havia nada pensado, programado, planejado ou ensaiado para manter o time funcionando. Nenhuma contratação visava tapar um buraco específico. Apenas foram agrupando, agrupando, agrupando. Montaram um circo incapaz de se encaixar e que não tem mais cabeça para superar essas cagadas.

Quanto o Nets flertava na temporada passada com a pior campanha da história da NBA, comentei aqui que o elenco não era tão ruim, que eles tinham algumas grandes partidas, que não era motivo para bater um recorde histórico de ruindade. Mas é que depois das primeiras derrotas o time praticamente desistiu, começou a ficar frustrado, via as lesões acontecendo e tinha ainda menos vontade de entrar em quadra. Perder entra na cabeça dos jogadores e come seus cérebros, você se acostuma, entra em quadra como um zumbi, esquece que era possível vencer. Esse Cavs entrou nesse buraco, e sequer quer sair dele. Vai feder, tomar surras históricas, colocar o Samardo Samuels em quadra, marcar 57 pontos, e esperar começar tudo de novo no draft. Mas o processo de reconstrução vai ser longo, tem que se livrar do Jamison, do Mo Williams (que já está enlouquecendo os companheiros de novo), decidir se vale a pena manter o Varejão num time em que ele é inútil ou conseguir umas escolhas de draft em troca. Só esperemos que esse processo de reconstrução não culmine em mais um time construído apenas em volta de uma futura escolha do draft. Porque já vimos que isso não dá certo, e uma hora você acaba tendo nas mãos apenas Samardo Samuels. Samardo Samuels. Samardo Samuels.

A lição serve para o Nuggets também. Eles tentaram uma série de trocas para colocar o talento necessário ao redor de Carmelo Anthony para levá-lo a um título, e não foi um erro, o Nuggets teve altos e baixos mas é um time de respeito. Mas se perderem Carmelo por nada, como aconteceu com o Cavs e LeBron, terão apenas um time de jogadores secundários e especialistas, ninguém para manter um padrão de jogo, e o Billups será um jogador bom mas incapaz de levar qualquer coisa nas costas sozinho, velho demais para participar de uma reconstrução, e caro demais para permitir novas contratações. Mesmo melhor montado do que o Cavs, o Nuggets despencaria para um buraco muito rápido. Melhor do que ficar torcendo para o Carmelo reassinar é admitir a derrota, fazer uma troca por pivetes e escolhas de draft, se livrar do Billups, do Kenyon Martin, e começar de novo sem maiores dificuldades. Sem Samardo Samuels.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Cleveland Cavaliers

Nenhum jogador do Cavs merecia ter uma foto aqui, então resolvemos
 usar melhor o espaço com nossa musa na série "As Cariocas"


Objetivo máximo: Chegar aos playoffs para começar bem o projeto de ganhar um título antes do Heat
Não seria estranho: Ficar em último lugar do Leste
Desastre: Perder LeBron James... opa, acho que já era.

Forças: Um técnico inteligente e jogadores coadjuvantes dispostos a dar umas cabeçadas
Fraquezas: Um elenco em que todos os jogadores, sem exceção, seriam reservas em qualquer outra equipe

Elenco:








.....
Técnico: Byron Scott

Sem dúvida nenhuma, Byron Scott é o melhor técnico a assumir o Cavs nos últimos 10 anos, o que é bem irônico porque também é um dos piores elencos do Cavs nos últimos 10 anos. Scott é famoso não apenas por ser um excelente motivador e fazer seus times darem o máximo, mas também por implementar a famosa "Princeton Offense", um complexo sistema de movimentações ofensivas que costuma ser o pesadelo de qualquer defesa da NBA. O sistema basicamente coloca quatro jogadores próximos ao perímetro e não permite isolações, garantindo que todas as jogadas sejam feitas em grupos de 2 ou 3 jogadores enquanto os outros continuam a se mover ocupando os espaços vazios da quadra. Isso costuma garantir que os pivôs sejam abandonados pela defesa que tenta conter as movimentações e que sobre muito espaço próximo à linha de fundo, nas costas da defesa, onde jogadores podem cortar despercebidos em direção à cesta. No vídeo abaixo dá pra acompanhar o técnico Eddie Jordan ensinando o básico do básico da "Princeton Offense":



Se você é um daqueles que viu o vídeo e ficou com a mesma cara do coitado do estagiário que não fazia ideia de pra onde se mover no vídeo acima, dá pra entender logo de cara os problemas que o Byron Scott enfrenta ao adotar a "Princeton Offense". Além de demorar para que uma equipe se acostume a fazer a série de movimentações com naturalidade, também é preciso ter um punhado de jogadores inteligentes e dispostos a se mover o tempo inteiro para que o ataque funcione com um mínimo de eficácia. Quando Byron Scott assumiu o Nets em 2000, o time foi um fracasso, ninguém entendia bulhufas do que estava acontecendo. Mas na temporada seguinte, um time mais acostumado com a "Princeton Offense" se livrou do Marbury em troca do gênio-da-física-quântica Jason Kidd, e aí eles foram simplesmente os campeões do Leste. Quase a mesma coisa aconteceu quando o Scott assumiu o Hornets em 2005, com duas temporadas fracassadas seguidas por um segundo lugar no Oeste na temporada regular e uma derrota na semi-final apenas no Jogo 7 com o então campeão San Antonio Spurs. Mesmo com um elenco muito, muito, muito limitado, a "Princeton Offense" e a motivação sensacional de Byron Scott permitiram que a armação de Chris Paul brilhasse e todos pudessem render em quadra mesmo sem muito talento.

Depois de flertar com o convite de alguns times, Byron Scott resolveu topar ser treinador do Cavs porque pela primeira vez pegaria um elenco já formado. A "Princeton Offense" permitiria que LeBron sempre tivesse opções de passe ao invés de ter que jogar sozinho enquanto o resto do time tomava chá e assistia. Mas LeBron foi brincar com seus amiguinhos em Miami e, de novo, Scott tem uma bomba nas mãos, um elenco fraco que vai levar um tempo para entender o esquema ofensivo e aí, quem sabe, chegar longe nos playoffs como o Nets e o Hornets fizeram em suas mãos. Mas pra quem esperava LeBron, acho que ter esse elenco não é lá muito animador, como dá pra ver no vídeo abaixo durante um jogo de Summer League do Cavs:



...

Por anos e anos o Cavs adicionou peças aleatórias ao elenco apenas para provar ao LeBron que estavam fazendo o possível para melhorar o time. Várias aquisições foram polêmicas, e mesmo as que não foram - como a troca por Antawn Jamison, numa última e desesperada tentativa de manter LeBron em Cleveland - acabaram se mostrando impensadas, feitas às pressas, e nunca se encaixaram dentro de um time que não tinha muita identidade além de defender e passar para o LeBron. Sem sua grande estrela, o Cavs se viu repentinamente com um elenco que não faz um puto de um sentido, punição divina (nórdica) por falta de planejamento.

Mo Williams foi a aquisição mais criticada por mim, contratado pelo Cavs para dividir com LeBron o fardo de ter que pontuar. Ele é um armador fominha que levou seus parceiros de Bucks à loucura por tentar decidir todos os jogos sozinho e não obedecer nem à tática ofensiva nem à defensiva. O pior é que ele deu muito certo no Cavs porque não tinha que carregar a bola, já que LeBron cumpria essa função, e podia se focar em arremessar como um maluco sempre que LeBron estivesse no banco ou o resto do time, que basicamente só tem defensores e jogadores "carregadores de piano", não quisesse ver a cor da bola. Agora, Mo Williams é o mais próximo de uma estrela que restou nesse Cavs, e vai caber a ele o papel de armar as jogadas. Seu cérebro de azeitona vai demorar para sacar a "Princeton Offense" e forçar arremessos é todo o necessário para destruir completamente com as movimentações ofensivas do ténico Byron Scott. A não ser que o tempo com LeBron tenha tornado o Mo Williams um jogador focado e maduro, prevejo um desastre similar à candidatura da Gretchen no Rio de Janeiro.

Por outro lado, a "Princeton Offense" deve fazer Antawn Jamison voltar aos seus tempos áureos. Foi com ela que Jamison fez estrago no Wizards, podendo jogar mais longe da cesta e se aproveitando dos espaços no fundo da quadra para as infiltrações. Seu tempo até agora no Cavs foi vergonhoso, com defesa fajuta e problemas de confiança que ferraram até mesmo com seus lances livres, mas agora o time não tem mais nenhuma pretensão, o plano não é mais passar a bola para o LeBron, e pelo que parece ele vai até começar os jogos no banco, enfrentando os reservas adversários. JJ Hickson também está se aproveitando da "Princeton Offense" e já está pronto para comandar ofensivamente o garrafão do Cavs, sendo provavelmente a primeira opção do time no ataque, o pilar para a movimentação constante. Varejão também deve melhorar muito ofensivamente porque é inteligente pra burro e vai estar nos lugares certos nas horas certas, se aproveitando dos espaços vazios criados, mas o problema é que a habilidade nem sempre segue o cérebro, então não dá pra esperar que ele comece a pontuar como um doido. Deve ser uma melhora moderada.

Jamison, Varejão e JJ Hickson são, juntamente com o tão-cru-quanto-sushi pivô Ryan Hollins e o eternamente lesionado Leon Powe, os únicos jogadores de garrafão relevantes do elenco. Ou seja, não tem nenhum pivô de verdade, todo mundo vai ter que jogar no improviso embaixo da cesta. É um time baixo e rápido sem muitos arremessadores de três nem jogo debaixo do aro, então vai demorar para que a defesa forte e o jogo de contra-ataque consigam se encaixar com a movimentação lenta e metódica da "Princeton Offense". Talvez a melhor chance de que isso dê certo seja Ramon Sessions, que é um armador inteligente que ainda não teve chances de mostrar que pode ser titular, mas sua falta de arremesso limita muito um time que sofre pela falta de finalizadores. Pelas próximas temporadas, devem feder muito até que alguns desses jogadores floresçam na movimentação ofensiva de Byron Scott, se empolguem com seus discursos motivacionais que devem bater bastante na tecla do "vamos provar que podemos vencer sem LeBron", mas uma hora pode dar certo o bastante para formar um time sólido e com identidade que aguardará com calma o próximo grande novato chegar à equipe. Mas dessa vez o novato já chegará num elenco que sabe seu papel e com um técnico fodão, ao invés de ter que começar tudo de novo ao seu redor.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Os reis - Parte 2: LeBron James

Começamos no Bola Presa uma série de 3 artigos sobre o novo Miami Heat. Cada um deles foca em um dos três jogadores que acabam de assinar com a equipe (LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh), analisando o que essa superequipe significa para cada um, para suas carreiras, e como decidiram tornar essa união possível. O primeiro artigo foi sobre Dwyane Wade e seu posto soberano no Heat. Abaixo, o segundo artigo aborda LeBron James, sua infância e as motivações e consequências de sua decisão de abandonar Cleveland.

Antes, LeBron James era obrigado a fazer amor com o lixo do Damon Jones

Ter um blog de basquete às vezes tem suas vantagens. Uma das coisas mais legais que o blog já rendeu foi um presente do nosso leitor Sandro Palma, que resolveu nos mandar, uns meses atrás, um DVD (de capinha personalizada) com o filme "More than a game", sobre o time de basquete de LeBron James no colegial. Para quem não conhece, vai o trailer do filme:



O documentário aborda uma série de aspectos de LeBron James com os quais não estamos acostumados. Ao invés de uma estrelinha com dinheiro nas orelhas e apaixonada por sua própria imagem, podemos ver uma criança pobre, criada apenas pela mãe, sendo obrigada a mudar de casa constantemente graças aos problemas financeiros. Seu maior desespero é ter que mudar de escola, conhecer novas pessoas, fazer novos amigos. LeBron foi uma criança solitária, carente de estabilidade. No basquete, encontrou ainda criança o pilar familiar que é uma equipe de basquete com um técnico apaixonado. Seus companheiros de equipe viraram seus melhores amigos, a ponto de todos eles abrirem mão da escola em que jogavam apenas para manter o núcleo unido quando o armador, nanico, conseguiu garantia de minutos de jogo apenas em outro colégio. Por trás do assédio monstruoso da imprensa, arquibancadas lotadas a ponto do time ter que mudar de ginásio, transmissão de jogos de um time colegial ao vivo na ESPN, garotas histéricas apaixonadas e a certeza de que em breve estaria na NBA, encontramos um LeBron focado em estar com seus amigos acima de tudo. Ele dá o seu melhor em quadra em nome do sonho de seus companheiros de time, do tempo gasto com eles, do objetivo que todos traçaram juntos por anos a fio. É fácil entender como todo o assédio, desde muito pequeno, fez com que LeBron achasse super normal ter uma câmera em sua cara, ser idolatrado e ter seus bagos lambidos diariamente. Todo mundo quer saber dele desde que seu primeiro pelinho pubiano nasceu, então para ele não há nada de bizarro em fazer um pronunciamento sobre onde irá jogar em rede nacional - ou mundial. Pro garoto miserável que escutou desde cedo que era o melhor jogador do planeta, não há outro caminho que não um ego do tamanho do Eddy Curry, mas o documentário mostra claramente como nada disso jamais ficou maior do que seu carinho pela equipe, pela sua família em quadra, e do que seu comprometimento com o objetivo do time: vencer o campeonato. Quem acha que o LeBron se masturba vendo as próprias estatísticas precisa assistir ao filme e ver seu comprometimento com seus amigos. O basquete parece apenas desculpa para poder criar laços, tipo o gordinho que fuma para ter amigos. Calhou apenas do LeBron ser bom demais nisso.

Quando chegou na NBA, LeBron estava num beco sem saída: por um lado, seu time fedia, o elenco era terrível, e ele havia sido draftado para salvar a franquia de uma longa maldição de derrotas; por outro lado, LeBron vinha de um costume de envolver seus companheiros, passar a bola, colocar seus amigos em condições de pontuar. Era preciso dominar os jogos, cravar seu lugar como líder da equipe, assumir a responsabilidade, mas sem matar a coletividade e os laços que sempre foram essenciais no jogo de LeBron no colegial. Seu discurso sempre foi de que ele estava lá pelo time, que o mais importante de tudo é o time, que ele está disposto a se sacrificar pelo time. Mas encontrar o equilíbrio entre jogar pela equipe e dominar os jogos sozinho sempre foi um percurso cheio de altos e baixos. No começo da carreira na NBA, passava muito a bola em jogadas decisivas. Em alguns momentos, era o passe certo a se fazer - mas encontrava, livre, algum jogador mequetrefe que nunca deveria estar decidindo uma partida. Desconcertadas, as pessoas criticavam LeBron duramente porque não era assim que Jordan, Kobe e os grandes jogavam, ele estava amarelando. Levou um tempo para que ignorasse os companheiros e resolvesse os jogos sozinho, como fez tantas vezes nos playoffs - como bem sabem os torcedores do Wizards e do Pistons, por exemplo. Mas também ousou colocar uma bola decisiva cirurgicamente nas mãos de um zé-ninguém como o Damon Jones, que por acaso deu certo, mas se tivesse dado errado ele seria novamente o amarelão que não decide jogos e apostou num jogador que fede muito. Já foi criticado por tentar vencer sozinho, forçar o jogo, e já foi crucificado por em jogos decisivos insistir em acionar os companheiros quando ninguém queria jogar, sobrando para o Varejão (e suas duas mãos esquerdas) arremessar bolas importantes. Já disse por aqui que jogadores como Kobe e LeBron não podem vencer, serão sempre criticados tanto pela individualidade quanto pelo jogo coletivo, mas para LeBron essa questão sempre foi mais dolorosa justamente por seu tempo de colegial. Ele quer jogar pela equipe, pelos seus amigos, não quer ficar monopolizando ou decidindo sempre o jogo. A NBA, como sempre, lhe fez à imagem e semelhança dos outros jogadores, dos outros grandes do passado, dos anseios dos fãs por uma reprise, um "revival", uma nostalgia.

De modo algum podemos afirmar que não existe ego. Desde o colegial, dizem ao LeBron que ele é deus, que pode andar sobre a água e multiplicar pães, e quando repetem muito qualquer coisa, fica difícil não acreditar. Por isso tem gente de saco cheio de tanta babação de ovo, indignada que o LeBron não seja tão bom (afinal ele não curou a AIDS ainda nem acabou com a fome na África), que ele fique cantando durante os jogos, que ele tire sarro, se ache o máximo nas entrevistas, tome decisões em rede nacional. Acham que ele é pura imagem, fazendo aquelas micagens de circo se fingindo de fotógrafo durante o aquecimento dos jogos, quando seus companheiros de equipe fazem poses engraçadinhas e o LeBron comanda a festa com uma câmera imaginária nas mãos. De fato, essa geração é fascinada pela imagem - especialmente a própria imagem. Ela é também uma geração mais descontraída, brincalhona, desbocada. Mas LeBron parece mais interessado no conceito de estar entre amigos numa quadra de basquete. Relatos sobre suas ações nos bastidores, nos vestiários, são de um jogador tirador de sarro que trata todo mundo como família, leva pra casa, convida pra jantar com a esposa. Ele é mais irmão do que líder e sempre deixou claro que se divertia em quadra ao lado dos companheiros.

É fácil entender o motivo de sua estadia em Cleveland ter terminado. O jogador individualista e narcisista que alguns enxergam está, na verdade, de saco cheio da pressão brutal de ter que decidir e ser criticado por qualquer postura que tomar em quadra. Mesmo com um elenco decente, o Cavs sempre foi claramente um projeto mal feito de feira de ciências. Desde a chegada do LeBron ao time, sempre apontamos que os engravatados do Cavs estavam dispostos a fazer qualquer troca para mostrar serviço, mesmo que essa troca não fizesse nenhum sentido. Algumas deram improvavelmente certo, como a do Mo Williams, outras deram muito errado, como a do Jamison, mas no fundo nenhuma delas fazia muito sentido lógico. O time foi montado com peças aleatórias que se encaixavam como dava, com um dos piores técnicos da NBA, e LeBron precisava resolver sozinho para vencer, correndo o risco de ignorar o elenco, ou então envolver os outros jogadores e perceber que todos preferiam que LeBron tivesse segurado a bola e arremessado sozinho. Ele quer alguém pra passar a bola, alguém para dar a assistência para a última bola ao invés de ter que arremessar sempre, quer confiar nos companheiros, e mais: quer ser melhor amigo dos companheiros de equipe, recriar seu time de colegial, resgatar seu estilo de jogo coletivo, se divertir com seus 'familiares" em quadra. Assim, o destino do Cavs foi traçado na falta de um plano para o futuro que pensasse em atrair e assinar estrelas e liberar espaço salarial ao invés de fazer trocas das mais diversas, aleatórias. Também foi traçado em 2008, quando LeBron foi campeão olímpico.

A seleção dos Estados Unidos tinha LeBron, Wade e Bosh, uma rara oportunidade dos três jogarem em uma equipe com talento. Ficou bem claro que os três adoraram a oportunidade, com o Wade inclusive topando vir do banco de reservas já que o talento transbordava em todas as posições. Mas fora das quadras as coisas funcionavam ainda melhor. Wade e LeBron já eram grandes amigos desde que se conheceram pouco antes do draft em 2003, trocando suas experiências de novatos sempre que podiam. Em 2006, já iam na casa um do outro (e ao cinema) todas as vezes em que suas equipes se enfrentavam. Só que nas Olimpíadas, passando mais tempo juntos, viram que suas afinidades eram ainda maiores no ambiente de trabalho. Começaram aí a perceber quão legal pode ser jogar ao lado de grandes jogadores, e quão legal é jogar com melhores amigos. Como Wade e LeBron estão entre os 5 melhores da NBA (talvez entre os três?), jogar juntos dá conta dos dois fetiches ao mesmo tempo. Como o Cavs, em toda sua falta de planejamento, poderia lidar com isso? Tanto LeBron quanto Wade assinaram extensões menores de contrato, típico de jogadores em times perdedores, que não querem arriscar ter que ficar na merda sem motivo. Foi o acaso que fez os dois estarem em times que não ganharam nada, em que seus esforços individuais tiveram resultados limitados e duramente criticados. Foi o bom senso que fez LeBron, desejoso de passar a bola para amigos, e Wade, o cara que topa vir do banco na seleção americana, pensarem em jogar juntos.

Jogar ao lado de duas grandes estrelas, dizem, diminuirá o impacto de LeBron nos jogos e, portanto, na história. Ele não será tão grande se não vencer sozinho. São visões bastante limitadas do que são os grandes jogadores e de como eles vencem campeonatos, claro, a lavagem cerebral dos anos 80 e 90 foi bastante forte. Basta voltar ao documentário "More than a game", ao colegial de LeBron, para ver que suas prioridades são outras. Ele quer ser o melhor jogador de todos os tempos, fato, mas nunca quis fazer isso sozinho. Seu estilo de jogo é outro. Vai se colocar na história como um vencedor, caso a junção com Bosh e Wade dê certo, e deixar para os chatos decidirem se foi apelação ou não, se vale ter ajuda ou não. Enquanto isso, estará finalmente de volta ao seu estilo de jogo ideal, ao modo como gosta de conduzir as partidas, a uma quadra com seus melhores amigos. Laços familiares são mais importantes para o LeBron do que tentar vencer sozinho batendo a cabeça em Cleveland - a cidade que caiu matando quando ele perdeu nos playoffs porque se negou a "dominar sozinho" e começou a passar para o lado. A cidade que vaiou duramente uma apresentação de LeBron que fechou a temporada com um triple-double.

LeBron e Wade queriam jogar juntos, mas precisavam encontrar um lugar em que isso fosse possível. Wade e Bosh já estavam, por sua vez, decididos a estar no mesmo time. Então foi apenas o caso de ver se acomodar os três salários seria possível em algum lugar, ou se teriam que deixar o sonho para outra ocasião. Quando Pat Riley se encontrou com LeBron e lhe ofereceu tratamento especial no ginásio para seus amigos (lugares, comidas, livre acesso, tudo como tinham em Cleveland) além de vagas de emprego para familiares e amigos mais próximos, ficou claro que o lugar ideal era Miami. LeBron estaria ajudando amigos dentro e fora das quadras, estreitando laços, tirando a pressão de seus ombros e voltando à sua zona de conforto em quadra, que ele perdera desde seus tempos de colegial.

Para LeBron e para Wade, a união faz muito sentido. Achar que LeBron não se encaixará nessa equipe é beber demais em preconceitos e não lembrar de como ele era ao chegar na NBA, antes de ser duramente forçado a assumir um papel que nunca lhe pareceu confortável. Podemos esperar um aumento grande de sua média de assistências, talvez até de rebotes, e ele estará mais perto do que nunca de uma média de triple-double na temporada. Desequilibrante. Esse é o único problema da decisão de LeBron, Wade e Bosh, ela desequilibra o jogo. No dia 1o de abril de 2006, Heat e Cavs se enfrentaram: LeBron terminou o jogo com 47 pontos, 12 rebotes e 9 assistências, enquanto Wade teve 44 pontos, 8 rebotes e 9 assistências. O quarto período foi sensacional, com LeBron marcando 16 e Wade marcando 21. Os dois estavam nitidamente num negócio deles lá, muito pessoal, rindo das cestas um do outro, se desafiando a fazer os pontos mais impossíveis, a meter mais bolas de três, a dominar mais o jogo. Duas das atuações mais impressionantes que eu já vi foram essas, uma contra a outra, justamente porque estavam se forçando a superar o outro. Um grande jogador obriga o adversário a ser ainda melhor, e no caso dos melhores da NBA, essa melhora forçada parece não ter teto, parece ser possivelmente infinita. É como se LeBron fosse o Goku e cada combate obrigasse ele a ser ainda melhor, lhe desse cada vez mais possibilidades de ser um super sayajin. É triste saber que os dois estarão agora do mesmo lado, principalmente por isso: além de não se forçarem a melhorar, de não haver o confronto que os levou tão além de seus limites com o passar dos anos, também veremos um time forte demais e que pouco sofrerá com a maioria das outras equipes da NBA. Será incrível ver o entrosamento do trio, mas perderemos grande parte dos melhores confrontos, dos embates pessoais, das partidas com dois malucos tendo que fazer mais de 40 pontos por uma chance de vitória. O Goku vence um adversário e faz questão de deixá-lo vivo para que volte depois ainda mais forte e seja um desafio ainda maior, mas não dá pra culpar uns coitados (que jogam 82 partidas no mínimo por temporada) por quererem diminuir ao máximo o desafio que enfrentam. Uma hora pode ficar fácil demais, aí eles vão jogar baseball, mas depois de tanto esforço em vão, eles querem mais é que os próximos anos sejam bem facinhos. Não serão, ainda existem equipes que podem bater de frente com o Heat, mas LeBron será espetacular num esquema tático real, com técnico de verdade, em que possa passar a bola com a frequência que ele gostaria de ter feito desde que chegou à NBA, quando jogava de PG e sequer tinha a quem servir no time. Dependendo das circunstâncias, pode jogar de armador principal por boa parte dos jogos outra vez sem nenhum problema. O que não veremos, no entanto, serão mais jogos em que fará 47 pontos com o Wade marcando 44. Por sorte, podemos ver esse confronto dos dois em 2006 no YouTube, que tem todo o quarto período para assistir. A primeira das quatro partes desse vídeo dá pra ver abaixo:



Ainda em 2006, quando o Cavs saiu dos playoffs, LeBron afirmou categoricamente: "Se há um cara que eu quero ver ganhando um anel de campeão, além de mim mesmo, é o Dwyane Wade". A relação sempre foi de carinho e admiração. Entraram na NBA juntos, com posturas parecidas em quadra, egos gigantes que não influenciam o modo de jogar, bom humor, e talentos absurdos. É difícil pensar em outra dupla tão forte na história da NBA, e com o diferencial de serem melhores amigos, estarem loucos para jogar juntos, terem feito isso por conta própria e não necessidade, troca, obrigação ou desespero de fim de carreira. Outros supertimes já foram montados, mas nunca - nunca mesmo - com estrelas desse naipe no auge de suas carreiras. LeBron sonha com isso desde seus tempos de moleque, na sua cidade natal, quando abriu mão de sua escola e foi jogar numa de branquelos metidos a riquinhos apenas para ajudar um amigo. Na final da NBA, continuará passando a bola - mas dessa vez não será para Varejão ou um Jamison que, diabos, se nega a arremessar. Na dupla, os dois poderão decidir. E isso porque sequer estamos falando de Bosh, também em seu auge, também entre os 10 melhores, também lá por escolha própria. São três reinando nisso, com tudo para deixar os egos fora da quadra. Mas do Bosh trataremos amanhã, para fechar essa trilogia.

sábado, 1 de maio de 2010

Preview dos Playoffs - Cavs x Celtics

Boa estratégia de marcação!


Começa hoje a segunda rodada dos playoffs. Embora ainda falte uma série na primeira rodada, a série entre Hawks e Bucks, a outra série do Leste já começa, com uma revanche da semi-final do Leste de 2008 entre Cleveland Cavaliers e Boston Celtics.

O histórico indica que a série vai ser disputada, mas não necessariamente com jogos disputados. Nos últimos 19 encontros entre as duas equipes, em 17 vezes o time da casa venceu! As duas exceções, no entanto, foram nessa temporada, quando os dois times empataram a série da temporada regular em 2 a 2, com cada um vencendo um jogo em casa e um fora.

O primeiro jogo foi logo o primeiro da temporada, o Celtics venceu em Cleveland. Mas vale lembrar que essa foi a estréia do Shaq, que demorou algumas boas semanas para começar a render, aliás todo o time do Cavs demorou um pouco até embalar na temporada. A segunda partida foi a derrota do Celtcis em Boston, o time vencia no primeiro tempo mas tomou uma surra de 60 a 32 no segundo, foi um típico jogo do Celtics nessa temporada: um primeiro tempo bom, envolvente e com defesa boa, e um segundo tempo com defesa preguiçosa, nenhum rebote e o que o técnico Doc Rivers chama de "one-pass offense", um ataque em que o time dá um passe e já tenta decidir logo com um arremesso forçado.

As duas últimas partidas foram até que disputadas mas vencidas pelo time da casa e, importante, foram jogos em que o Antawn Jamison já estava no Cavs, depois da troca com o Wizards, mas também jogos em que o Shaq estava machucado e o JJ Hickson é que entrou como pivô titular. E o JJ jogou bem nessas duas partidas, será que ele vai ter chance na série? Contra o Bulls ele quase não participou dos jogos.

O que o Cavs precisa para vencer:
Antes de mais nada, continuar defendendo bem o seu mando de quadra. Foram 14 vitórias nas últimas 16 partidas de playoffs que o time jogou em Cleveland e eles tem o mando de quadra na série. Se continuarem com dificuldade de vencer em Boston, garantir vitórias tranquilas em Cleveland pode ser o diferencial da série.

Em termos de estratégia de jogo acho que é importante que os arremessadores do Cavs estejam inspirados nas bolas de longa distância. A estratégia do Celtics contra o LeBron sempre foi obrigá-lo a arremessar de longe ao invés de infiltrar, e para isso eles fecham o garrafão e descem a mão no LeBron quando ele ousa entrar lá. Para tirar os marcadores do garrafão você precisa ter gente acertando arremessos, aí que entram Mo Williams, Anthony Parker e principalmente Antawn Jamison. Se ele começar a acertar bolas importantes de longe, o Kevin Garnett vai ser obrigado a dar mais atenção pra ele e o caminho para o LeBron infiltrar fica aberto.

Outra batalha interessante vai ser no garrafão, entre Kendrick Perkins e Shaquille O'Neal. Nem um e nem o outro são caras simpáticos, legais, que tratam bem as pessoas, os dois jogam fisicamente, brigam, empurram e fazem faltas duras, vai sair sangue nessa disputa. Mas assim como o Perk é ótimo marcando o Dwight Howard, pode incomodar muito o Shaq. Se isso acontecer vai ser legal ver o que o técnico Mike Brown fará a respeito. O Varejão de pivô deixa o time mais forte na defesa, o Ilgauskas é mais uma opção para abrir o garrafão e o JJ Hickson é o tipo de pivô que mais incomoda o Perkins, é o pivô mais baixo, veloz e agressivo.

Também será legal ver quem ficará marcando o Rajon Rondo nos momentos decisivos da partida, já que o Mo Williams teve dificuldade nesse confronto durante a temporada. Podem colocar o Mo correndo atrás do Ray Allen e o Delonte West ou o Anthony Parker no Rondo. Ou até o LeBron no Rondo, como fizeram com o Bron marcando o Derrick Rose na série contra o Bulls.

Em resumo, o Cavs tem um elenco muito completo e diversas opções, jogadores de estilos diferentes não faltam pra eles, assim como não falta talento. A grande questão dessa série será analisar bem os jogos e fazer os ajustes necessários a cada jogo. O Mavs nos mostrou bem que não adianta ter um elenco bom se quando chega uma situação nova e diferente você não sabe o que fazer com ele e começa a usar formações estranhas que quase nunca foram usadas antes. O Cavs leva a série se souber ler o jogo.


O que o Celtics deve fazer para vencer:
Não sou daqueles que ainda acham que o LeBron não sabe arremessar, ele sabe, mas é bem claro que ele machuca bem menos o adversário em arremessos do que em infiltrações. Quando ataca a cesta ele faz a defesa se mexer, acha jogadores embaixo da cesta e consegue situações de rebote ofensivo (porque o pivô adversário deixa de marcar o rebote para atacar no toco), enquanto quando ele arremessa ou ele acerta ou o ataque já era. Por isso a estratégia de obrigar ele a arremessar deve continuar sendo usada. Tá bom que não deu muito certo na temporada regular, quando o LeBron teve média de 36 pontos por jogo na série, mas o problema não é com a estratégia, o problema é que o LeBron é bom demais!

Essa estratégia, como disse antes ao falar do Cavs, deixa os jogadores de longe com mais liberdade para arremessar, mas é um risco que eles devem correr. Melhor ter o jogo decidido por arremessos do Anthony Parker do que por bandejas do LeBron. Mas isso não significa que a defesa deve deixar os caras arremessar, o Celtics é bom o bastante na defesa para ter sempre alguém na ajuda correndo para pelo menos colocar a mão na cara do arremessador.

A defesa é a parte mais importante do jogo do Boston porque é defendendo que eles atacam melhor, não tem bola mais imarcável do que aquela bola de 3 do Ray Allen em contra-ataque. O Ray Ray aparece do nada, sozinho e com a defesa desesperada voltando do ataque, é mortal. Também é na velocidade do contra-ataque que o Garnett é ótimo em se posicionar mais perto da cesta que seu marcador e que o Rondo destrói defesas com suas infiltrações.

Além de defesa, o Celtics precisa de rebote para impulsionar esses ataques velozes e rebotes tem sido o maior problema do time na temporada inteira. Como já disse aqui tantas vezes, o Celtics está entre os cinco piores times da NBA em quase todas as estatísticas referentes a rebotes nessa temporada. Ou eles pegam mais rebotes ou o Varejão vai fazer a rapa no garrafão ofensivo e garantir muito mais posses de bola para o Cavs.

...

Palpite: Cavs 4 x 3 Celtics. A série contra o Heat me animou em relação ao Celtics, defenderam bem, atacaram com mais calma. Também me animei com o Celtics ao ver que eles tiveram bem menos turnovers que o comum nas partidas contra o Cavs, eles sabem enfrentar o Cavs. Mas o time do LeBron é mais completo, tem mais banco de reserva, tem o mando de quadra e tem o LeBron James. Isso tudo é o bastante para garantir um jogo 7 em casa e a vaga na final de conferência.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Filtro Bola Presa - um resumo semanal

Não tente explicar, Varejão, só vai ficar pior


Outro dia eu descobri que tinha gente que não sabe o que (e não quem!) era Tessália. Na época isso correspondia a não assistir a Globo, não ter Twitter e não abrir nenhum dos grandes portais da internet brasileira! Considerando que existe gente assim tão mal informada, não custa explicar mais uma vez o que é o Filtro Bola Presa.

No Filtro, publicado toda segunda-feira, pegamos assuntos, vídeos, notícias, fotos ou qualquer outra coisa relacionada a NBA que foi assunto nos últimos 7 dias (ou, no caso, 14, já que segunda passada não teve Filtro por causa do resumão do All-Star Game) na NBA e acabou não sendo citado aqui no blog. São muitos assuntos, apenas um blog e apenas dois blogueiros, muitas coisas interessantes ficam de fora e essa coluna está aqui para reparar um pouco esse problema.

Vamos ao trabalho:

- Alguma dúvida de que o Shaq deveria estar em todos os All-Star Games até o fim de sua vida, nem que fosse só como convidado?


- Em algum lugar do nosso polvo internético (aqui, twitter, tumblr, Both Teams Played Hard) vi que o Greg Oden tinha pedido desculpas públicas aos torcedores do Blazers depois que vazaram algumas fotos suas pelado na internet. Não me dei ao trabalho de pesquisar para ver o teor das fotos, mas pelo jeito ele não é a Paris Hilton e ao invés de ganhar fama, pediu perdão. Achei bizarro mas deixei quieto, afinal o Greg Oden não joga basquete nunca, o tédio nos faz fazer umas idiotices.

Mas eis que semana passada aparece um outro pedido de desculpas. Dessa vez o George Hill se disse envergonhado por ter fotos suas pelado distribuídas na internet! Qual o problema com esses caras? Já é idiota para uma pessoa comum tirar fotos suas pelado na era da internet, para uma pessoa famosa é pior ainda. E se fez isso por diversão, pra que pedir desculpas depois? É só um pinto. Como bons negros eles deveriam se gabar e me humilhar, um pobre branquelo na média nacional.

- Algumas notícias conseguem ser importantes e inúteis ao mesmo tempo. Um exemplo? O anúncio da USA Basketball dos jogadores candidatos a disputarem o mundial da Turquia nesse ano. É importante porque é o elenco do melhor time do mundo, é inútil porque são 27 malditos nomes!!! Como vão tirar só 12 dessa lista, continuamos praticamente na mesma incógnita de antes do aviso.

O que será mais interessante nessa convocação será acompanhar o mercado dos Free Agents. Provavelmente caras como Amar'e, LeBron, Wade, Bosh, Boozer e David Lee só darão certeza se estarão na Turquia se já tiverem contrato assinado na NBA. No fim das contas até a seleção americana, além de uma outra dezena de times, depende desses benditos Free Agents para saber do seu futuro.

- Falando em Free Agents, achei muito legal a manobra do Toronto para manter o Bosh por lá. Eles tentaram, sem sucesso, porém, uma troca pensando em trazer para o time não um grande jogador, mas um amigão do Chris Bosh, o Josh Powell. Eles ofereceram Marcus Banks e o lixo do Patrick O'Bryant em troca de Powell e Sasha "The Machine" Vujacic.

Powell é brother camarada do Bosh e seria mais um artifício da equipe para criar o ambiente ideal para o ala em Toronto. Mesmo sem a troca ter sido fechada (por mais que o Lakers queira se livrar do Sasha, o Patrick O'Bryant vale o mesmo que um o.b. usado), o Bosh tem ficado mais convencido. Outro dia disse que se acha bom o bastante para atrair outro jogador para o seu time ao invés de precisar sair atrás de um novo.

- Viram o jogo do Nuggets contra o Cavs na última quinta-feira? Provavelmente o melhor jogo da temporada regular até agora. Carmelo Anthony fez uma partidaça e acertou o arremesso da vitória na cara do LeBron.

Aliás, o LeBron foi ridículo nesse jogo, quase patético. Tomou um monte de arremesso na cara, perdeu um jogo em casa e fez esses números: 43 pontos, 13 rebotes, 15 assistências, 2 roubos e 4 tocos. É muito óbvio que ele é só um produto da mídia, um queridinho dos juízes que só faz pontos por causa do seu físico.

Espero que entendam o sarcasmo, mas os odiadores do LeBron podem usar outro número a seu favor: LeBron errou seus últimos 4 arremessos nesse jogo decisivo e o Carmelo acertou 7 dos últimos 8.

- Nós fizemos um post uma vez com os melhores comerciais envolvendo jogadores da NBA. Uma pena que a lista foi feita meses antes do melhor comercial da história, estrelando Lamar Odom. E esse comercial me lembra de dar a dica para todo mundo assistir ao filme "Rebobine por favor" (Be kind rewind).



- O Danilo postou aqui sobre a insatisfação aparente do elenco do Cavs com a troca do amigão parceiraço Ilgauskas pelo rival Jamison. Acho que LeBron e companhia deveriam parar de reclamar e ouvir um pouco o Deron Williams, que parece muito, muito bravo com a decisão da equipe de trocar o Ronnie Brewer para o Memphis por dois panetones e um freio ABS.

Não dá pra culpar ele, o Jazz venceu 17 dos últimos 19 jogos, assumiu a terceira posição do Oeste, tem sido o melhor time de toda a NBA nas últimas semanas (eu achava que eles estavam acabados!) e agora perdeu uma peça importante por questões puramente financeiras. E a coisa fica pior, que motivação terá o Boozer para ficar em um time que troca um titular por nada só para economizar uns trocados?

- Ontem o Stephen Curry, novato do Warriors, deu mais um show em uma vitória de virada sobre o Hawks. Ele dominou o jogo com 32 pontos, roubos de bola e algumas assistências lindas (uma foi num contra-ataque, na corrida, com a mão esquerda. Mais Steve Nash, impossível). Só que em um determinado momento do jogo, o finalzinho pra ser mais exato, ele deu um passe ridículo na mão do Jamal Crawford, um erro infantil que poderia ter custado o jogo.

E é a única diferença entre o Curry (que já passou o Jennings na corrida de melhor novato do ano) e o Tyreke Evans: o novato do Kings não comete erros de novato.

Dêem uma olhada nesse drible do Tyreke sobre o Jared Jeffries na vitória do Kings sobre o Knicks. Tem coisa mais de veterano que isso?


- Aqui não falamos de NBB, Euroliga e basquete universitário porque é um blog sobre NBA. Mas não deu pra ignorar esse lance livre do Brady Morningstar (o nome mais gay da história da Terra) da universidade de Kansas.


- Enquanto o Jay-Z estava no All-Star Weekend, a sua digníssima senhora estava no Rio de Janeiro sendo gostosa. Mas ele conseguiu matar a saudade quando o Benny The Bull, o mascote do Chicago Bulls, dançou "Single Ladies" para ele no meio da quadra. A cara do Jay-Z após a dança diz mais do que eu poderia dizer aqui.


Atualização de fim da tarde
8 ou 80 - O cantinho atrasado das estatísticas

- Antawn Jamison teve A pior estréia de todos os tempos na NBA. Com nenhum acerto em 12 tentativas de arremesso ele superou o antigo recorde de Corie Blount pelo Warriors em 2001 e Kevin McKenna em 1983, os dois erraram todos os arremessos em 10 tentativas.

- A atuação do LeBron que eu citei acima foi algo único na história da NBA. Nunca um mesmo jogador tinha conseguido tantos pontos, rebotes, assistências, roubos e tocos no mesmo jogo. E ignorando os roubos e tocos foi a primeira vez desde 1962 que um jogador conseguiu pelo menos 43 pontos, 15 assistências e 13 rebotes num mesmo jogo, naquele tempo o feito foi do Oscar Robertson.

- Outra curiosidade numérica sobre o Cavs: Com 28,4 pontos eles são os líderes da NBA em pontos no primeiro período. Porém são apenas o 11º em pontos no segundo período, 22º em pontos no terceiro período e 22º no último período. Quem tiver uma explicação plausível pode mandar.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Síndrome de Clark Kent

É um pássaro, é um avião? Não, é apenas um pivô meia-boca


Muita gente diz que draft é loteria, tipo pênalti, e que não dá para prever absolutamente nada. Pessoalmente, acho draft mais parecido com Big Brother: não dá pra prever quem vai ser gostosa, bonitinha, baranguinha, mas dá pra pelo menos ter certeza de que algumas vão ser capa da Sexy e pelo menos uma vai ser capa da Playboy. Peguemos como exemplo o draft de 2004, por exemplo: não tinha como saber quem o Orlando deveria escolher com a primeira escolha, naquela eterna dúvida entre Dwight Howard e Emeka Okafor, mas era fácil saber que daquele draft algum pivô daria muito certo. O Okafor acabou tendo problemas físicos, passou por um punhado de lesões, mas mostrou ser uma presença defensiva sólida, embora não seja grandes merdas. Ou seja, capa da Sexy pra ele. Isso quer dizer que o Dwight é quem deu certo e virou capa de Playboy? Nada disso. Cada vez mais vou me convencendo de que o auto-intitulado "Super-Homem" é bem capenga e vou começando a achar que a capa da Playboy, eventualmente, vai acabar ficando para algum outro mané daquele draft - talvez até o Anderson Varejão e a população de anões que vive no cabelo dele.

Com a falta brutal de pivôs que presenciamos nos últimos anos, especialmente quando o Shaq começou a definhar, recebemos com muito entusiasmo o jogo de Dwight Howard. O melhor pivô restante na NBA era o Yao Ming, que não é muito fã de ficar embaixo da cesta, então a chegada de alguém na posição capaz de enterrar e dominar fisicamente levou um sorriso ao rosto de todos os saudosistas. Acontece que, embora tenha um físico tão absurdo que contém até alguns músculos nunca antes registrados pela ciência humana, o Dwight Howard chegou tão cru na NBA que não era capaz de usar sua força para dominar o garrafão. Como grande parte dos pivôs badalados de draft, a graça estava toda no potencial, e o simples fato de que ele fosse capaz de produzir um pouquinho na vida real já era um baita bônus. Todos nós esperamos o garoto evoluir, melhorar seu jogo, e aos poucos fomos vendo sua personalidade desabrochando. Lembro de ler em pânico reportagens sobre o Dwight, antes do draft, descrevendo o garoto como ultra-religioso, sério, sem emoções dentro de quadra, porque eu já tinha pesadelos com a ideia de ter que assistir outro Duncan na NBA. Mas Dwight foi se mostrando cada vez mais descontraído, divertido, carismático, um cara que salva gatinhos de cima das árvores, tomaria chá com biscoito com a sua vó, e que nenhum ser vivo nesse planeta ousaria falar mal. Treinado por Patrick Ewing, seu jogo foi aparecendo também, com um arsenal de ganchos e giros que pegou todo mundo de surpresa no começo da temporada passada.


Parecia pronto para dominar os garrafões, fazer todo mundo rir e virar uma estrela indiscutível, aos trancos e barrancos chegou a uma final de NBA e ganhou grandes reforços em seu time para essa temporada. História bonita. O único problema em seu plano de se tornar o melhor jogador de garrafão da NBA é que, bem, ele fede um bocado.

Os ganchinhos que ele aprendeu com Patrick Ewing eram legais quando surgiram, ele até chegou a tentar uns arremessos de meia-distância, mas rapidinho a execução risível tornou as jogadas batidas e as defesas aprenderam a lidar com ele ofensivamente. O arremesso ele abandonou logo, o gancho não é lá muito confiável, e não há muito que se possa fazer fisicamente para desequilibrar um jogo quando existem problemas graves para receber a bola no garrafão, segurar a bola com as duas mãos e encontrar companheiros livres quando a marcação dobrar. Aos poucos, as falhas técnicas do Dwight e sua dificuldade em evoluir seu jogo foram deixando o pivô meio inútil lá debaixo da cesta.

Não adianta dizer que o esquema tático do Stan Van Gundy não ajuda muito o pivô. O Magic joga com quatro jogadores abertos, todos capazes de arremessar de trás da linha de três pontos, e para o esquema seria sensacional se o Dwight criasse pânico suficiente atacando a cesta para que os arremessadores pudessem ficar livres. Mas, quanto mais a bola fica nas mãos do pivô, menos ela gira em direção aos armadores, mais desperdícios de bola acontecem e mais truncado o jogo fica. Dwight não é um bom passador, não encontra os arremessadores livres, não consegue jogar direito de costas para a cesta, tem problemas em se posicionar para receber a bola, e quando recebe tem uma grande tendência a perdê-la ou sofrer a falta. Como seu aproveitamento de lances livres é tão plagiado do Shaquille O'Neal que deveria até rolar um processo por direitos autorais, os arremessadores do Magic ficam apenas olhando as bolas desperdiçadas enquanto se mantém a uma distância segura do aro, o que não dá certo. O Dwight Howard pediu mais arremessos, chorou que participava pouco do ataque, e o esquema tático já mudou, tentando incluir o pivô descontente. O resultado foi uma droga e a tática da bola nas mãos dos arremessadores já voltou ao normal. O Magic é muito mais eficiente quando Dwight apenas chama atenção sendo grande e forte no garrafão, lutando por rebotes ofensivos e enterrando bolas fáceis. Não é um trabalho muito glorioso nem muito nobre, não torna ninguém uma grande estrela e não garante vaga no Hall da Fama do basquete, mas é o que melhor cabe ao Howard e a um monte de outros jogadores secundários de garrafão por aí. É que o pivô do Magic calhou de ser maior e mais forte, mas seu papel não pode ser muito diferente dos outros carregadores de piano que a NBA tem a granel. Não adianta achar que ele vai desequilibrar todos os jogos, ganhar sozinho, botar anel de campeão no dedo e chamar a responsabilidade. Quer dizer, chamar a responsabilidade ele até vai, mas para fazer caca - então, o melhor é que não chame.

Recentemente, o Orlando Magic passou por uma sequência de 4 derrotas seguidas que mostraram muito bem como o Dwight influencia seu time, como seu jogo é limitado, e como seu papel deveria ser cada vez mais e mais secundário. A primeira derrota veio contra o Bulls, um time notoriamente limitado em seu garrafão - problema mais velho nesse time do que ficha de fliperama. Dwight Howard acertou apenas 3 de seus 7 arremessos, além de 3 de 8 lances livres. Com um aproveitamento tão fraco, o Magic chutou 37 bolas de três pontos (provavelmente mais do que o Bobcats arremessa de qualquer lugar da quadra num jogo inteiro), acertando 14 arremessos. Enquanto isso, o Bulls arremessou apenas 5 bolas de três pontos no jogo inteiro. Cadê a presença defensiva do Dwight que deveria amedrontar os adversários? Defensor fraco no mano a mano, assistiu o Bulls atacar a cesta o jogo inteiro e saiu de quadra com a derrota.

Contra o Pacers o negócio foi mais feio porque seu adversário direto foi Roy Hibbert, pivô que está apenas em seu segundo ano de NBA. O Hibbert está tendo uma bela temporada, mas contra o Dwight ele teve a melhor partida da carreira, chutando o traseiro ultra-musculoso do Howard. Foram 26 pontos numa infinidade de giros e arremessos de média e longa distância, um monte deles sem que o Dwight Howard sequer conseguisse levantar os braços. A técnica do pirralho do Pacers deixou Dwight com excesso de faltas o jogo inteiro e eliminou o coitado com 6 faltas no quarto período. O resumo do jogo fica nesse toco do Hibbert em cima do Dwight: enquanto o segundo-anista abusa nos ganchos, giros e arremessos de longe, o Howard não consegue sequer dar um gancho sem entregar a bola pro defensor, é patético e dá até vontade de colocar no colo e amamentar, de tão coitado. Ao todo, acertou apenas 2 dos 6 arremessos que tentou.


Contra o Raptors, que no fundo joga num esquema bem parecido com o Magic (quatro abertos, mas sem um pivô de verdade porque o Bosh prefere ficar nos arremessos), o Dwight Howard conseguiu ser mais ativo no ataque, recebendo bem mais a bola para abusar da falta de altura do time do Canadá. Foram 20 pontos, mas aí podemos perceber bem o que acontece quando o Dwight é bastante acionado pelo ataque: perdeu 9 bolas, cometeu 4 faltas só no 3o período (a maioria de ataque), e impediu que a bola ficasse nas mãos do Vince Carter. É incrível como eles se anulam, porque o Carter precisa muito ter a bola com ele para ser minimamente efetivo. Ele segura demais a bola às vezes, mas compensa com criatividade e liderança, coisas que faltavam ao Magic da temporada passada. Mas sem a bola, frio, dando apenas 7 arremessos na partida (e acertando só dois), não havia ninguém na equipe para decidir o jogo no quarto final. Esse é um problema sério do time que só bota medo mesmo nos playoffs, quando decidir os jogos é realmente crucial.

Contra o Wizards, que também tem problemas de tamanho, o Dwight teve mais uma boa partida, acertando 9 dos seus 13 arremessos. O problema é que, além de não ter defendido o Haywood como deveria, a bola presa no garrafão interfere o jogo de perímetro do Magic: foram 7 arremessos certos em 27 tentados. Quando isso acontece, pode ter certeza de que o jogo virou farofa. O legal desse Magic é que, com as aquisições de Gortat, Brandon Bass e Ryan Anderson, o time podia usar vários modos diferentes de jogo. Dava para ter um jogo focado no garrafão, com defesa forte e rebotes ofensivos, dava para jogar com 4 abertos, e dava para jogar sem ninguém embaixo da cesta. Mas mesmo com o Rashard Lewis suspenso naquele caso de doping, o técnico Van Gundy manteve a mesma formação tática, pouco usou o Bass (que, vale lembrar, não saiu a preço de banana), e insiste em bater sempre na mesma tecla. É como se usar o Dwight no ataque não funcionasse e ele então jogasse qualquer outra ideia no lixo. Ele e o técnico Mike Brown, do Cavs, podiam dar as mãos e pular no abismo - mas como seus times vão para as finais do Leste pela próxima década, o emprego desses babacas está garantido enquanto eu conto moeda pra pegar o busão.

Para azar do Dwight, a sequência de 4 derrotas seguidas só foi quebrada contra o Hawks num jogo completamente coletivo da equipe - e focado no perímetro. Dwight converteu só 4 arremessos, mas o Van Gundy disse ter distribuído mais a chamada de jogadas para todos os jogadores (leia: todos os jogadores que não pisam dentro do garrafão) e o resultado foram outros 6 jogadores, fora o Dwight, com mais de 10 pontos e todos eles com pelo menos uma bola de três pontos convertida. Não é um esquema tático que obriga os jogadores a se encaixarem, mas um time limitado que funciona assim, abraça isso como identidade, escolhe um modo de jogo e o leva à perfeição, e enquanto isso tem que encarar um pivô superestimado chorando que não participa do ataque mesmo que seu jogo não tenha qualquer traço de evolução desde o começo da temporada passada. É claro que esse Magic poderia fazer bem mais do que arremessar de três se quisesse, dadas as armas disponíveis no banco, mas o Dwight não está nesse plano. Seu papel é secundário e seu espaço nos holofotes, como estrela, se deve mais aos músculos alienígenas e ao humor politicamente correto (ele faz piada sem puxar armas contra ninguém, o que é um baita lucro). Ainda torço por um Dwight que domine os garrafões da NBA de verdade, mas ando perdendo minhas esperanças - enquanto Anderson Varejão evolui seu jogo mais e mais, ampliando seu arsenal ofensivo. Nesse ritmo, em 2026 terá passado o Dwight Howard em pontos por jogo. Em 2246, Varejão provavelmente já será melhor do que o Shaq.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Preparados para tudo

Josh Smith prefere nem olhar


O Cavs surpreendeu todo mundo com a facilidade com que venceu o Lakers na noite de Natal. Todo mundo sabia que o time era bom e que eles poderiam vencer, mas não com tamanha facilidade um time com o garrafão tão forte. Será que o estilo de jogo do Cavs que é o certo para bater o Lakers? Será que contra outros times eles teriam o mesmo sucesso? Bom, que tal analisar a sequência de vitórias do Cavs desde aquela derrota para o Dallas Mavericks sem Dirk Nowitzki? Desde então são 6 vitórias em sequência para o Cleveland Crabs.

Primeiro eles pegaram o Phoenix Suns. O Suns é um time veloz mas não tão veloz quanto antigamente. É "apenas" o quarto da liga em posses de bola por jogo e o 9º em pontos de contra-ataque. Mas ainda são velozes e se caracterizam pelas decisões rápidas no ataque e por espalhar os jogadores pela quadra. O espaçamento que os arremessadores de três trazem e a velocidade do Nash nos passes são os segredos do Suns.

A quadra do Suns até parece um campo de futebol às vezes de tão grande. É o Leandrinho num canto, Jason Richardson no outro, Nash correndo pra todo lado e os dois caras de garrafão mais estranhos da NBA. O Amar'e Stoudemire, que deve ter comissão por corta-luz feito, e o Channing Frye, que tem desconto no salário se passar da linha dos três, "tem lava lá dentro", disse ele sobre o garrafão outro dia. Para lidar com esse time no mínimo esquisito (embora bem eficiente, bateu Lakers e Celtics nessa semana), o Cavs botou seu time pequeno em quadra: Mo Williams, Delonte West, Anthony Parker, LeBron e Varejão. Assim, venceu por quase 20 pontos de diferença jogando no estilo imposto pelo Suns.

Logo depois veio o jogo contra o Sacramento. O Kings pressiona na defesa, dobra o tempo inteiro e usa muito mais o ataque de meia-quadra, com infiltrações e gente (Donte Greene e Omri Casspi principalmente) cortando pra cesta. Nesse jogo o garrafão veloz de Jason Thompson e Spencer Hawes estava abusando do Shaq, que só queria pegar seu tricô e ir dormir porque já tinha acabado a novela.

O Cavs então respondeu com sua combinação de garrafão com Ilgauskas e Varejão e uma defesa avassaladora. Nos últimos minutos de jogo ninguém infiltrou no garrafão do Cavs e o jogo foi para a prorrogação, em que o Kings não marcou nenhum ponto e o Ilgauskas acertou 3 bolas de três quando a marcação dobrou no LeBron. 13 a 0 no tempo extra e mais uma vitória.

Depois veio o Lakers no jogo que o Danilo comentou com mais detalhes. Garrafão alto com Shaq e Ilgauskas ao mesmo tempo durante boa parte do segundo tempo, linhas de passe para o garrafão cortadas e muito contra-ataque para não precisar enfrentar Artest, Kobe e Bynum o tempo inteiro. Lavada histórica.

Depois veio o Houston Rockets. Enquanto o Lakers tem dois pivôs de 2,13m, o Rockets tem um pivô de 2,06m. Joga de um jeito completamente diferente e destrói o adversário nos rebotes ofensivos. O Cavs resolveu usar sua formação mais alta, deixou o Shaq mais tempo em quadra e assim bateu o Rockets na sua própria área, com um 15 a 5 nos rebotes ofensivos. Venceu por mais de 20 pontos mesmo cobrando apenas 16 lances livres contra 34 do Rockets.

Para terminar a sequência de vitórias veio uma mini-série contra o Hawks. Um jogo em Atlanta na terça e outro ontem em Cleveland, no aniversário do LeBron James. O Hawks é um adversário difícil porque é um time que tem um plano de jogo e o aplica não importa o que está acontecendo, é um time correto e frio (por isso que os chamo de "Novo Spurs" mesmo não os vendo com 4 anéis nos próximos 10 anos).

O primeiro jogo em Atlanta estava do jeito que o Hawks queria. Bom aproveitamento dos seus jogadores, todo mundo envolvido e defesa pressionada no LeBron, que acabou acertando apenas 6 de 20 arremessos na partida. O ataque do Cavs não estava funcionando nem com macumba.
Mas como o saudoso Detroit Pistons nos ensinou, se você só consegue marcar 60 pontos em um jogo, faça o outro time marcar apenas 59.

O Hawks fez uma cesta faltando 32 segundos para o fim do terceiro quarto com o Zaza Pachulia, depois disso foi marcar outro ponto apenas quando faltavam 3 minutos para o fim do QUARTO período numa cesta do Josh Smith. Sim, um time frio, calmo, correto e que tem Jamal Crawford e Joe Johnson no elenco ficou todo esse tempo sem marcar uma cesta sequer! Defesa melhor só se tivesse o Gamarra no lugar do Mo Williams. O pior é que o ataque do Cavs estava tão ruim que mesmo assim o jogo ficou disputado até o final, a vitória só foi garantida como foi naquele jogo contra o Kings, com uma bola de três do Big Z, o Channing Frye lituano.

Ontem era a revanche do Hawks. O time estava mordido e foi pra vencer. Fez um jogo impecável, com uma partidaça do Mike Bibby, que tinha fedido no dia anterior. A cada cesta do Cavs a torcida ia ao delírio, o time vibrava e o Hawks respondia com um arremesso sem graça de meia distância pra cortar a diferença. Estilão Spurs mesmo! Teve uma hora que o Cavs cortou a diferença de 10 para 1 e o ginásio veio abaixo, uma barulheira só. O técnico Mike Woodson pediu tempo, o time voltou, fez 9 pontos seguidos e o silêncio voltou.

Parecia uma vitória merecida para esse timaço do Hawks que é uma das grandes surpresas da temporada (não surpresa por ser bom, mas por estar pau a pau com o Top 3 do Leste), mas o Cavs está preparado pra tudo. Se usar garrafão alto, baixo, com arremessadores ou o time de defesa não funcionou, que seja então a técnica Fresh Prince of Bel-Air que comandou o time nos últimos anos. O quarto período foi só com a bola na mão do LeBron e o time abrindo pra ele. Deu no que deu, 48 pontos para o King James e o jogo empatado em 101 a menos de um minuto do fim.

O Hawks decidiu dobrar a marcação no LeBron se ele movesse um músculo e fez uma ótima cobertura quando ele tocou a bola. As trocas de passe e de marcação resultaram numa situação ideal para o Hawks: bola na mão do Anderson Varejão na linha dos três com o cronômetro de 24 segundos estourando. E não é que ele acertou sua primeira cesta de três em sua carreira na NBA? Pela milésima vez a torcida foi à loucura e o Hawks teve 17 segundos para tentar uma bola de 3 pontos. O Bibby arriscou mas, bem marcado, errou. O Hawks merecia a vitória, jogou melhor e perdeu.

Essa sequência de vitórias não definiu o campeonato, é óbvio, mas impressionou. Dos 6 jogos, apenas dois (Hawks e Rockets) foram em casa e nenhum foi contra um time ruim, todos contra boas equipes e, mais importante, equipes com características completamente diferentes. E sempre o Cavs teve uma resposta para cada uma delas, sempre explorando a versatilidade dos seus jogadores.

Desde um time bem baixo com o LeBron na posição 4, passando por uma formação com dois jogadores de pelo menos 2,16m no garrafão ao mesmo tempo até apelar para o talento puro do LeBron James, tudo deu certo. Com essas vitórias e as três derrotas seguidas do Celtics, o Cavs está de novo em primeiro do Leste e parece que não vai largar essa vaga tão cedo.

...
Abaixo duas jogadas que chamaram a atenção nesses jogos contra o Hawks. Primeiro a enterrada MONSTRUOSA do Delonte West pra cima do Josh Smith e depois a histórica bola de 3 do Varejão. É engraçado perceber como o Jamal Crawford passa reto pelo Varejão, sem preocupação alguma com ele que está com a bola, só para não deixar o Boobie Gibson livre para o arremesso.





segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Secundário

Mo Williams todo feliz de ganhar uma massagem carinhosa do Varejão


Na NBA, jogadores secundários costumam ter certa dificuldade em serem notados. Marcar 50 pontos numa partida pode garantir uma entrada fácil no mundo da fama, dinheiro e mulheres, mas jogadores especialistas em outras áreas do jogo podem ter atuações fantásticas completamente invisíveis dos olhos do cidadão comum. Um bom defensor, por exemplo, precisa estar num time em que seu trabalho seja necessário, precisa torcer para a equipe ter um ataque competente de modo que ele possa se focar mais na defesa, e acima de tudo precisa estar num time vencedor. São muitas condições ao mesmo tempo, enquanto um bom jogador ofensivo se destaca muito mais até por quem apenas passeia os olhos pelas estatísticas. Mesmo gordo, fora de forma, preguiçoso, todo mundo sabia quem era Zach Randolph porque ele pontuava aos montes, ainda que se isso significasse a derrota de sua equipe. Agora as coisas com nosso gordinho favorito estão diferentes, ele está jogando como nunca, mas pense como excelentes defensores foram completamente esquecidos enquanto lembramos de Randolph pela eternidade.

Apenas faça um teste mental e tente lembrar de onde estão jogando Trenton Hassel ou Yakhouba Diawara, por exemplo, dois excelentes defensores (não vale colar no Google). O pior é que ambos sofrem em busca de minutos porque seus times precisam de outras coisas que os dois não podem oferecer, ou seja, caíram no lugar errado na hora errada. Uma caralhada de jogadores acaba desaparecendo nesse tipo de situação, até mesmo um punhado de pontuadores mais-ou-menos que seriam ídolos em times vencedores. Com o tempo, a ideia de que um jogador precisa estar na situação certa para ser notado começa a ficar mais clara e percebemos que, no fundo, vale mais a pena ser um jogador completamente secundário num time campeão do que ter um baita papel num time fracassado. Ninguém jamais lembraria do Bruce Bowen se ele defendesse num time fracassado, não importa quantas voadoras ele desse na cabeça de seus adversários. Ninguém jamais se lembraria do Mo Williams se ele fosse o arremessador fominha do Bucks. Mas quando o time vence, quando briga por títulos, esses jogadores secundários tornam-se divindades, seus talentos únicos são consagrados, carneiros são sacrificados em seus nomes.

Alguns jogadores percebem isso. Não estou falando dos mercenários estilo Malone, "sou bom pra caralho mas se eu não ganhar um anel de campeão não vão gostar de mim então vou estragar a brincadeira, desequilibrar a NBA e tentar entrar pra história." Me refiro, sim, aos jogadores bons que percebem que podem ser beneficiados por jogar com jogadores ainda melhores. São jogadores que conseguem colocar seus egos de lado, deixam de canto a vontade de mostrar tudo aquilo que podem fazer, e compreendem que ajudando grandes estrelas ou grandes sistemas acabarão constribuindo para seu próprio rendimento. Um exemplo claro é um dos nossos favoritos aqui no Bola Presa, Ron Artest. No Kings, provou que poderia liderar um time meia-boca, pontuar bastante, jogar de costas para cesta, arremessar do perímetro e defender como ninguém. Sempre forçou arremessos, nunca teve bom senso na hora de arremessar, então seu arsenal ofensivo sempre pareceu bobagem perto de sua defesa espetacular. Nos últimos anos, no entanto, pouco se falou sobre seu talento defensivo, até que ele percebeu que ajudar Kobe Bryant é o melhor modo de ajudar a si mesmo. Alguns jogadores poderiam reclamar de um papel mais limitado, de não poder mostrar todo o poder ofensivo, de abaixar a cabeça e beijar o bumbum de Kobe, dos minutos em quadra, da falta da bola em suas mãos, mas Artest entende a glória que o espera no futuro, quase como a centena de virgens que esperam um terrorista suicida muçulmano. Quietinho, na dele, sem arrumar problemas, sem pedir mais a bola, sem pedir mais espaço na equipe, Artest pode se dedicar à defesa e agora, porque está à vista de todo mundo e tem tudo para ganhar um anel de campeão, seu talento é amplamente reconhecido. Suas chances de levar o prêmio de melhor defensor da temporada nunca foram tão grandes, e olha que com a idade ele nem de longe anda defendendo como nos seus tempos áureos. Mas os torcedores do Lakers vão chupar o dedo mindinho do pé do Artest para sempre caso venha um campeonato, suas técnicas defensivas serão lendárias e um templo será erguido em sua honra. Enquanto isso, aos pouquinhos, mais e mais responsabilidade vai caindo em seu colo. Phil Jackson andou pedindo que Artest seja mais agressivo no ataque, pedindo mais a bola e arremessando mais. Dá pra imaginar que realidade alternativa é essa em que é preciso pedir para o Artest arremessar mais? O que acontece é que fazendo sua função direito, mais e mais espaço vai surgindo para o jogador secundário conforme for surgindo a oportunidade. Pode ser apenas um jogo em que o Kobe está mal e isso já é o bastante para a crítica e o público babarem em cima de uma excelente atuação salvadora de Artest, muito mais fácil do que ter que ficar chutando traseiro todos os jogos para ser percebido em algum time mequetrefe por aí.

Até um jogador pelo qual tenho tanta birra, o Mo Williams, se encaixa nessa história. No Bucks ele era um fominha maluco desesperado por atenção, ignorando ordens técnicas, se recusando a passar a bola para o Michael Redd (então estrela de seu time), arremessando sem critério nenhum. Quando foi para o Cavs, fiquei desesperado com a ideia de um fominha tirando a bola das mãos do LeBron James, mas a verdade é que Mo Williams percebeu rápido que sua vida é muito mais fácil em Cleveland. Se ele obedece direitinho e deixa o LeBron armar as jogadas quando quer, se ele só força arremessos quando o LeBron está no banco ou tendo um dia ruim, ele passa a ser o herói que salvou o dia - sem ter que salvar o time todos os dias. Basta um par de atuações boas quando LeBron está mal, basta se focar nos seus arremessos de fora, basta entender que sua grande chance de figurar entre os grandes está em ser menor do que ele queria ser em Milwaukee.

Curiosamente, Artest e Mo Williams se enfrentaram na rodada de Natal. A gente acabou engasgando de tanto chester (a famosa ave mutante) e passamos uns dias longe do blog, sem comentar a rodada natalina, mas para quem não viu é importante saber que o Cavs chutou o traseiro gordo do Lakers. Artest fez sua parte defensivamente, ao menos aquilo que um mamífero bípede pode fazer quando não está munido de armas de fogo, mas quem realmente deixou sua marca na partida foi o Mo Williams. Acertou suas bolas quando todo mundo esquece que ele está em quadra, não forçou nada e fez muitos pontos fáceis graças à defesa fortíssima do Cavs que voltou a se encontrar. Aliás, muita gente comentou que o Cavs estava fedendo no começo da temporada porque não sabia como encaixar o Shaq direito no ataque. A desculpa foi dada por vários jogadores, incluindo o LeBron, mas é uma baita de uma besteira porque o Shaq mal participa do ataque e a movimentação ofensiva continua aquela merda de sempre. O que o Cavs demorou pra se acostumar foi com o Shaq na defesa, sua presença no garrafão e como isso altera as ajudas defensivas da equipe. O ataque do Cavs é uma vergonha, mas funciona justamente porque todo mundo lá sabe que é secundário, todo mundo sabe seu papel, sabe que está na história por jogar com LeBron James, então ninguém tenta fazer o que não consegue (só o Varejão, mas o bizarro é que ele agora anda conseguindo, está jogando demais no ataque, vai saber de quem ele roubou o talento). A defesa, sim, é que o ganha os jogos para eles e agora que tudo está encaixado novamente, o Cavs volta a figurar entre os favoritos ao título. O Shaq é fundamental nisso porque compreendeu que está velho, quebrado, desdentado e no momento de sua carreira de ajudar outros jogadores mais novos. Ele acha divertido jogar com LeBron, toma umas caipirinhas com o Varejão, não reclama de jogar poucos minutos e nem de ser contratado só pra parar defensivamente outros jogadores específicos (no Suns ele chegou apenas com a função de marcar Duncan, no Cavs sua presença é só para marcar Dwight Howard).

O Lakers não soube lidar com uma defesa tão forte, com um Mo Williams secundário e orgulhoso disso, com uma arbitragem que não estava muito afim de marcar faltas no Kobe a cada entrada no garrafão, e com um Shaq que marcou direitinho o pirralho do Bynum. O Lakers continua sendo o grande favorito para o título e o Cavs volta a ser considerado, mas no grande jogo do Natal em que deveríamos ver o confronto dos melhores do planeta em Kobe e LeBron, quem roubou minha atenção foram os jogadores secundários que escolheram ser secundários e, por isso, brilham muito mais. Nada do Artest fedendo em Sacramento tendo que forçar arremessos ou do Mo Williams sendo um fominha no Bucks, os dois agora sabem que são apenas pequenas peças perto de grandes estrelas - e que serão lembradas pela história graças a isso. Quando o Jarryd Bayless diz que quer ser o Mo Williams para o Brandon Roy interpretando o LeBron, então, ele tem muita razão: aceitar ser um jogador secundário costuma ser mais recompensador do que tentar ser uma estrela solitária, e não faltam oportunidades de brilhar. Quando o Brandon Roy marcou 41 pontos contra o Nuggets na noite de Natal para ganhar o jogo numa boa, o Bayless não precisou fazer bulhufas, mas quando o Roy sentou no jogo anterior com dores no ombro, Bayless enfiou 31 pontos na vitória contra o Spurs. É possível ser inconstante, é possível ser mais-ou-menos, basta estar do lado das pessoas certas e aceitar isso. Aceitar, no universo de ego da NBA, é a parte mais difícil, claro. Tracy McGrady, por exemplo, não muito depois da minha análise sobre a oportunidade de ouro que estava recebendo com pouquinhos minutos em Houston, resolveu ir embora pra casa descontente com seu papel na equipe. Dizem que ele usava uma máscara de Allen Iverson enquanto fazia isso, mas não posso confirmar. Só posso afirmar que é preciso cabeça para aceitar um papel secundário, e que é bom ver o sucesso daqueles que topam. Mas sobre o T-Mac e seu futuro, a gente conversa depois. Será que algum time se interessa pela ex-estrela? Será que ele entende, como Shaq, que já é hora de ajudar os jogadores mais novos a terem espaço em quadra? Para seu bem, esperamos que sim.

domingo, 4 de outubro de 2009

Regras

"Abaixa o cabeção aí, rapá!"


Esse tempo sem basquete na NBA não foi entediante apenas para nós, não. Pelo jeito, foi um bocado entediante também para os engravatados que mandam na liga. O David Stern, que é o dono da bola (se ele não brinca então ninguém brinca), já é um entediado clássico que volta e meia inventa alguma regra ou alteração maluca apenas pra ter o que fazer. O tempo inteiro está multando alguém por causa de alguma declaração idiota, o que significa que o Stern definitivamente não tem nada melhor na vida do que ficar se importando com besteiras e arrancando dinheiro de todo mundo. Deveria comprar um canário.

Enquanto a gente boceja e muda o visual do Bola Presa nesse tédio sem NBA, o David Stern tem mais poder e então consegue mudar muito mais para matar o tempo. Primeiramente, proibiu todos os jogadores, técnicos e outros membros das equipes de usar celular ou sites de relacionamento na internet, como o Twitter e o Facebook, durante as partidas. Na verdade, a proibição começa 45 minutos antes de cada partida e se extende até o final das entrevistas coletivas que acontecem após os jogos.

O David Stern é todo moderninho, foi com ele que a NBA se globalizou, dominou o mercado chinês, transformou a China nuns Estados Unidos genéricos, colocou replays eletrônicos nas partidas e tabela luminosa para avisar estouro de cronômetro. Com certeza ele está antenado, deve ter tido um fotolog quando era moda tirar foto com a linguinha pra fora e deve jogar GTA no videogame da filha. A NBA tem um site de ponta e entrou na moda de conseguir postar mesmo sem ter nada pra falar com o Twitter, que por exigir apenas meia-dúzia de caracteres poderia ser usado por um gorila. A transmissão das partidas pela internet agora está à venda para o mundo inteiro, através do "League Pass International" (estamos já contando as moedinhas pra poder assinar e comentar aqui sobre a qualidade do serviço). Então o David Stern está de olho em tudo que é novo, moderno e possa gerar dinheiro. Mas ele não quer dor de cabeça, reclamação ou polêmica, quer que a NBA tenha imagem de ser respeitável com jogadores de bem, dando as mãos e cantando "we are the world".

As multas para quem reclama de arbitragem sempre foram severas e muitas vezes desnecessárias, porque árbitros erram (até a Alinne Moraes erra, tem hora que a franjinha não funciona). Agora tem multa para quem pede abertamente para ser trocado, de modo que o Stephen Jackson pediu pra sair (no melhor estilo "Tropa de Elite", porque o Warriors é mais maluco do que treinamento militar) e foi imediatamente punido em dinheiro. Tudo isso sem falar nas multas para quem não se veste conforme foi estabelecido, ou seja, para quem não parecer que na verdade vende Bíblia ao invés de jogar basquete. Agora, o Twitter virou alvo de punição. Tornou-se febre entre os jogadores de um jeito tal que vários anúncios de trocas e contratações acabaram saindo primeiro no Twitter, antes da própria imprensa, e com tanto jogador brincando de escrever em menos de 10 palavras porque não tem mesmo nada a dizer, acabou tendo muita gente soltando umas merdas. Teve postagem suicida e meio emocore do Michael Beasley, de dentro da clínica de reabilitação, jogador postando em intervalo de jogo, provocações, e um tanto de polêmica. Como o David Stern não quer lidar com isso, proibiu de uma vez e pronto, que é mais fácil. Engraçado é que o Gilbert Arenas nunca quis ter um Twitter, ele deve se sentir plagiado ao ver tanto jogador dando opiniões idiotas sobre tudo, mas ainda assim anunciou que não vai mais postar nada na internet. Em parte para se focar no basquete, mostrar que ele pode ser conhecido pelo seu jogo, mas em parte também porque se ele der bobeira acaba multado. O melhor jeito de não sofrer punição é ficar quieto, não dar opinião sobre nada, responder apenas o essencial e quando te perguntarem (não responder jornalistas também gera multa) e ainda por cima se vestir direitinho. Repito: o David Stern deveria ter comprado um canário.

Mas o tempo sem basquete foi bem grande, proibir Twitter não seria o suficiente para matar o tempo. O senhor Stern aprovou uma das regras mais bizarras e engraçadas de todos os tempos: os jogadores do banco de reservas não podem ficar de pé. Podem até se levantar para "reagir naturalmente" quando acontecer uma jogada bacana, mas devem sentar imediatamente depois. O motivo? Levantados, os jogadores dos bancos de reserva tapam a visão dos torcedores endinheirados que estão logo atrás.

Não tenho muitas dúvidas de que o Stern deve ter ido ao cinema, não assistiu nada por ficar atrás de algum chinês gigante (como no comercial em que o Yao tapa a visão do Jackie Chan, presente na série de vídeos comerciais que o Denis separou) e aí, pra se vingar de ter um cabeção atrapalhando o filme, aprovou essa nova lei na NBA. Troço mais inútil, mais idiota e mais desnecessário, será que alguém algum dia reclamou de não conseguir ver o jogo porque o Kobe tá bem na sua frente? É tipo reclamar que não dá pra assistir a novela porque a Alinne Moraes tá se esfregando na tua cara.

Com multas para quem atrapalhar a visão dos torcedores, o time mais prejudicado é imediatamente o Cavs. Não apenas eles tem o Anderson Varejão, que deve ser multado mesmo sentado no banco porque seu cabelo causa até eclipse solar, mas também são o banco mais empolgado, exagerado e engraçado da liga. Quando o LeBron dá uma daquelas enterradas características, o banco inteiro levanta, pula, se segura, ameaça um ataque cardíaco, se abana, interpreta uma peça de Sheakspeare, e depois volta ao normal. Vai ser uma merda se eles passarem a apenas aplaudir, como se todos os jogadores da NBA fossem clones do Tim Duncan. Às vezes parece que o David Stern quer transformar o basquete em tênis, em que todo mundo aplaude sentado, em silêncio, e mostrar emoção geral multa (não entendo o lance de recber punição por tacar a raquete no chão - diabos, a raquete é minha e eu faço com ela o que eu quiser!).

Mas se até tênis tem revisão por replay hoje em dia, a NBA tem a obrigação de ficar cada vez mais aberta à empreitada. Por enquanto, replays são permitidos para bolas no estouro do cronômetro de cada quarto. Agora, com o apoio de uma série de técnicos e dirigentes, os replays também valerão para os estouros do cronômetro de 24 segundos. Além disso, nos últimos dois minutos do jogo e das prorrogaçoes, o replay pode ser usado para descobrir quem foi o infeliz que tocou por último numa bola que saiu pela lateral. Basicamente, a intenção é poder usar o replay quando o jogo já estiver mesmo parado (nos estouros de cronômetro e saídas de bola, por exemplo), e tentar gerar menos polêmica nos momentos mais decisivos das partidas. Ou seja, o David Stern está sempre tentado evitar a polêmica, enquanto cria seus soldadinhos transgênicos jogadores de tênis.

Mas o uso de replay sempre acaba gerando, por si só, uma polêmica própria. Se o replay é usado no final dos jogos, por que não ser usado no jogo inteiro? Por que apenas para bolas tocadas para fora, não vale em faltas de ataque, quando não se sabe se foi falta do atacante ou do defensor? E que tal para certificar-se de que o defensor estava pisando no semi-círculo abaixo do aro em que qualquer contato é falta da defesa? Talvez seja questão do replay conquistar seu caminho aos poucos, mas qual é seu real valor em quadra? Adianta errar em todo o resto e acertar naquilo que o replay permite? O problema é que não há espaço na NBA para que os jogadores questionem esse tipo de coisa e opinem sobre o esporte que eles próprios constituem. As regras acumulam-se para deixá-los dóceis e comportados, quietinho na jaula. Mas pelo menos vamos ter vários replays pra ver todo mundo fazendo cara de Duncan.