Mostrando postagens com marcador roy. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador roy. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tocos de David Stern

-Vou dormir na sua casa hoje se Mamma Stern deixar


Quem estava fora da Twittosfera ontem perdeu uma das noites mais malucas que eu já acompanhei na NBA. De tarde surgiu mais um dos mil boatos diários que levam super estrelas ao Los Angeles Lakers. No meio de notícias de que o Los Angeles Clippers e o Golden State Warriors haviam feito boas propostas pelo armador do New Orleans Hornets, apareceu essa história de uma troca envolvendo também o Houston Rockets e que tiraria Lamar Odom e Pau Gasol do Lakers. Ignorei, provavelmente outra bobagem querendo levar estrelas para o Lakers como as que nos últimos anos prometeram Shaq, LeBron, Bosh, Yao, Dwight e tantos outros.

Então, tranquilo, preparei um texto explicando a regra da anistia e assim que entrei no Twitter para divulgar o texto, dei com a confirmação. Era verdade e Lakers, Hornets e Rockets haviam acertado uma troca que levaria Chris Paul para o Lakers, Luis Scola, Goran Dragic, Lamar Odom e Kevin Martin para o Hornets e Pau Gasol para o Rockets. Meu post ficou secundário e o Twitter virou um alvoroço de análises, discussões, xingamentos e troca de impressões.

Eu, como torcedor do Lakers, tinha odiado a troca. Claro que Chris Paul e Kobe Bryant iriam dar um jeito de se entender, os dois são gênios. Mas isso não quer dizer que seus estilos combinem, assim como não batem o jogo de LeBron James e Dwyane Wade e mesmo assim eles dão um jeito de ir para a final da NBA. Mas será que valia perder um dos melhores pivôs da NBA e mais o melhor reserva da última temporada por um armador em último ano de contrato que já disse publicamente que quer ir para o Knicks jogar com seu amigo Carmelo Anthony? Confiar só no Andrew Bynum no garrafão era arriscado e confiar que o Bynum seria moeda de troca para o Dwight Howard, mais ainda. O Lakers teve seis bolas no saco para ter a coragem de fazer algo desse tipo, mas coragem não quer dizer que foi algo inteligente.

Para o Hornets não parecia um negócio horrível, mas certamente tinha seus defeitos. O Kevin Martin era o menino da troca, com quase 29 anos de idade. Scola e Odom já passaram dos 30. Jogadores nessa idade não costumam ter saco e motivação para entrar em um time em reconstrução, o Odom em especial tem sérios problemas para colocar sua cabeça no lugar e ontem até ameaçou não aparecer nos treinos do Lakers porque havia sido envolvido em discussões de troca. Vocês imaginam a Khloe Kardashian trocando Hollywood por New Orleans? Até o casamento do cara ia pro saco.

E, pensando bem, mesmo que eles se motivassem, esse não é elenco para ir muito longe. Vão para os playoffs esse ano, talvez no ano que vem e aí Scola e Odom já estão arranhando os 35 anos de idade. Talvez tivessem outras trocas engatilhadas envolvendo esses veteranos, não sei, mas ela parecia incompleta.

Por fim o Rockets era um time que perderia muito, que assumiria riscos, mas que poderia se sair muito bem. Abriria mão de seus dois melhores jogadores, mas manteria o espetacular Kyle Lowry para ajudar um dos melhores pivôs de toda a liga, que ainda poderia receber a ajuda do brazuca Nenê. O time do manager Daryl Morey não só já tem bastante espaço na folha salarial como ainda abriria mais 3,5 milhões de doletas com essa troca. Daria para oferecer um contrato tão gordo para o Nenê (cerca de 12 milhões por ano) que seria difícil dele recusar. Role players não faltam no time (Courtney Lee, Chase Budinger, possível renovação de Chuck Hayes) e eles estariam prontos para impressionar.

O que você tira dessa troca depois dessa análise? Eu tiro que os times se arriscaram, que todos abriram mão de muitos talentos para receber outros em troca. Ao contrário da troca do Kwame Brown por Pau Gasol, o Lakers dessa vez abriu mão de muita coisa para receber um All-Star, assim como fizeram Hornets e Rockets. Ou seja, uma troca grande, de destaque, mas normal.

Mas o resto da NBA não pensou assim. Em um acesso de fúria muitos donos de times chegaram até a NBA e pediram para que a troca fosse vetada. E ela foi. A liga geralmente não tem poder para vetar trocas e contratações, senão certamente outros times teriam interferido no Big 3 de Miami, mas dessa vez havia uma diferença: O Hornets é propriedade da NBA, na prática os donos dos outros 29 times é que são donos da franquia de New Orleans. Explicamos nesse post do ano passado a confusão que foi esse lance do Hornets, e na época fomos ingênuos de dizer que a NBA por lá não causaria tantos danos. Geralmente donos não interferem tanto nos negócios dos General Managers, apenas dão sinal verde ou não para ultrapassar o teto salarial ou não, permissão para ultrapassar o luxury tax ou não, essas coisas. Então sabíamos que a NBA apenas não deixaria a gastança rolar solta, mas haviam prometido não interferir nas decisões tomadas pelo Manager Dell Demps.

Porém não foi a primeira vez que deu briga. No ano passado o Hornets mandou Marcus Thornton para o Kings em troca de Carl Landry, no negócio o Hornets teve que mandar dinheiro para o Kings para compensar a diferença de salários, o que provocou a fúria do Mark Cuban, dono do Mavs. "Poucos times na NBA podem se dar ao luxo de fazer negócios assim e deixamos que a franquia de quem a NBA é dona faça isso?";  Também no ano passado uma troca que envolvia Indiana Pacers, Memphis Grizzlies e New Orleans Hornets, envolvendo o OJ Mayo como peça principal, foi estranhamente cancelada no último dia possível de trocas. A coisa ficou mal explicada na época, mas depois de ontem parece que entendemos a razão, o resto da liga não curtiu.

Vazou ontem para o Yahoo!Sports uma carta que o Dan Gilbert, dono do Cleveland Cavaliers, enviou ao David Stern. Ninguém negou que a carta fosse verdadeira e confio no repórter que a publicou. Na carta, Gilbert (em Arial, não em Comic Sans) pede que a troca entre em votação pelos outros 29 times, donos do Hornets. Ele também diz que o Lakers, com esse negócio, economizaria cerca de 20 milhões de dólares em multas e que era inaceitável que um time saísse da troca com o melhor jogador e ainda economizando dinheiro ao mesmo tempo. Gilbert assume assim que Paul é muito melhor que Gasol (e somado ao Odom). E se preocupa com o seu bolso já que o dinheiro das multas pagas pelos times acima do limite são divididos entre aqueles abaixo do teto salarial. Para terminar com um toque dramático e brega típico dele, diz "quando vamos simplesmente mudar o nome das outras 25 franquias da NBA para Washington Generals", em referência ao time que sempre joga e sempre perde para os Harlem Globetrotters.

O Dan Gilbert certamente não foi o único a enviar uma mensagem desse tipo e como a troca foi mesmo cancelada, dá pra imaginar o tipo de pressão que o David Stern recebeu. Na cabeça dos donos essa troca iria contra tudo o que foi discutido durante o locaute, em que os times de mercado pequeno estavam sempre perdendo para os de mercado grande, o que, para eles, é inaceitável. Aliás, isso é uma falácia que vai ganhar mais um post, tem muita gente acreditando nessa bobagem de que só os times ricos ganham.

Uma troca desse tipo logo no primeiro dia de Free Agency seria uma ofensa, segundo eles. O que os donos, aparentemente ignorantes em basquete, deixam passar é que o Lakers abriu mão de dois dos seus três melhores jogadores para conseguir um outro grande jogador. Não foi simplesmente um roubo das mãos do pobre Hornets. E como eles tinham tanta certeza assim que o Lakers seria um time melhor? Deveriam eles é estar preocupados em contratar um bom ala de força para chutar a bunda do garrafão ridículo do novo time do Kobe.

Mas o que pegou mesmo para mim na noite de ontem foi a questão ética. O Hornets está sendo claramente prejudicado se ele tem os outros 29 times decidindo o que eles fazem com o Chris Paul. O New York Knicks e outros times com espaço salarial vão sempre votar para que o Hornets mantenha o jogador e o perca por nada ao fim da temporada, claro. Os times que são candidatos ao título vão votar contra outros candidatos se eles derem um jeito de receber o armador, assim o Hornets, desesperado por uma reconstrução, não pode simplesmente aceitar a proposta que julga melhor, mas deve se adaptar ao que seus adversários, os times que querem derrotá-lo, decidem. E se é injusto com o Hornets, não deixa de ser contra o Lakers também. Eles tem as peças para a troca e não podem fazê-la por complô dos adversários. Pior que, apesar de antiético, é possível e válido e dentro das regras já que a NBA é dona do Hornets.

Recebi a seguinte pergunta no nosso formspring em relação à decisão da NBA em vetar a troca. Vejam:

"Calma, a gente está falando de uma associação privada, com 29 sócios, todos com o mesmo peso de voto. Portanto, não pode ser considerado justo ou não a troca, pois, no final,o time pertence a esses 29 donos e eles que decidem o que é melhor pra esse time.. O Hornets é como se fosse uma extensão do time deles. Eles possuem, cada um, 3,45% das ações dessa equipe, então se mais de 50% acharem que a troca não deve ser feita pois isso iria prejudicar os negócios deles, ela não será feita,fim de papo. O dinheiro é deles.


Mesmo sendo um lugar onde existe paixão e, como vocês já discutiram durante o locaute, ninguém pode falar o que eles devem fazer com o dinheiro deles, afinal, eles não falam o que vocês devem fazer com o seu. Eles são, acima de tudo, investidores, não apaixonados pelo basquete. Eles querem o melhor para o bolso deles e se 51% acha que o CP3 em LA iria atrapalhar nos negócios deles, então não se pode fazer nada. E outra, não é antiético eles comprarem o Hornets. É como se o Pão de Açúcar estivesse sendo vendido e outros 29 grandes supermercados comprassem ele, todos com a mesma fatia acionária. O problema de todos os fãs da NBA é que vemos ela mais com o coração do que com a cabeça. Lá é o mundo dos negócios, como tudo no mundo"

Eu entendo os argumentos do nosso leitor, mas os questiono. O Pão de Açúcar e os outros supermercados não estão disputando uma competição com um campeão. Todos querem ter lucro e competem entre si, claro, mas não é um esporte em que eles se enfrentam diretamente na briga por um campeonato. Simplesmente não faz sentido ter um time controlando o seu adversário em uma competição esportiva, é como se a NBA tivesse um time a menos na disputa, com os outros brigando para manipular o 30º de um jeito que os agrade mais. Se no mundo empresarial isso funciona, tudo bem, mas apesar de ser um negócio, a NBA é um campeonato de basquete, um esporte.

Ainda acho que os outros times terem controle de um adversário não é ético, e só concordava com a NBA ser dona do Hornets por ser algo temporário e pela promessa, claramente não cumprida, de deixar o GM Dell Demps trabalhar sem interferência externa. Os próprios donos pediram uma maior igualdade de condições para as equipes e onde está a igualdade ao impedir um time de realizar o negócio que ela julga melhor para si? Estão obrigando o Hornets a fazer um outro negócio qualquer, ou até a perder seu melhor jogador por nada, só pelo medo do Lakers ficar forte. Um adversário ser dono do outro é claramente conflito de interesses e a promessa de não interferência só durou até a água bater na bunda.

A posse temporária do Hornets pela NBA foi curta e já desastrosa. Durante o locaute David Stern disse que havia pelo menos 5 pessoas ou grupos interessados em comprar o Hornets, era hora da franquia ser vendida logo de uma vez para que tomasse suas próprias decisões e deixasse de ser fantoche dos seus adversários.

A melhor definição sobre o que aconteceu ontem foi dada no Twitter e eu perdi o autor no meio de tantas mensagens. Algum sábio disse que "a NBA tentou escapar de um iceberg e bateu em outro maior". Eles quiseram fugir da polêmica da estrela indo para um time grande de novo e no fim o veto provocou revolta maior ainda, dessa vez de jornalistas, público, agentes e principalmente de outros jogadores. O Adrian Wojnarowski, jornalista do Yahoo! que deu todas as notícias de ontem em primeira mão, chegou até a dizer que esse veto de ontem poderia mudar muita coisa dentro da NBA. Ah, e enquanto eu escrevo esse post, dizem que o Brandon Roy vai se aposentar por razões médicas. Sim, o mesmo Roy que o técnico Nate McMillan afirmou que seria titular há dois dias. Essa liga pirou, pessoal.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Anistia Já!

-Querem que eu fique? Mesmo?


O novo CBA ainda não foi oficialmente assinado, donos e jogadores ainda estão votando no que eles chamam de B-List, uma lista de pequenas coisas que não são importantes o bastante para quebrar o acordo, mas que precisam ser feitas para que tudo dê certo. Coisas como doping, por exemplo. Pois é, em um locaute regido pelo dinheiro, doping é questão secundária. De qualquer forma, a votação pode acabar já amanhã.

Mas algumas coisas, relacionadas à grana, claro, já foram decididas. Uma delas é a tal cláusula de anistia, muito comentada nos últimos dias. É essa regra que vem ditando quais times podem ou não entrar em disputa por Free Agents, logo é importantíssima nesse período frenético de contratações. Vamos explicar aqui alguns detalhes dela, começando por citar um post nosso que fala da última vez que essa regra foi válida, em 05-06.

"A regra foi adotada logo antes da temporada 2005-06 e permitia que os times dispensassem alguns jogadores e assim tirassem os seus salários da contagem das multas. O time continuaria pagando o jogador normalmente (mesmo ele sendo dispensado e atuando em outro time) mas esse salário não contaria no teto salarial.

Por exemplo, o Dallas Mavericks dispensou o Michael Finley, que na época ganhava por volta de 17 milhões por temporada. Continou pagando os 17 milhões para o Finley mas não pagava os outros 17 milhões que pagava de multa por esse salário ultrapassar o limite aceito pela liga. Foi uma baita economia mas que lhes fez perder o Finley para o Spurs. Em San Antonio ele ganhava os seus milhões do Mavs e mais um salário mínimo do Spurs.

A regra ganhou o nome de Allan Houston porque diziam que ela havia sido criada para beneficiar o Knicks, que na época pagava um dos maiores salários da NBA, cerca de 20 milhões de dólares por ano, para o armador que estava sempre machucado. Os gastos com multas eram enormes no Knicks, que na época tinha a maior folha salarial da NBA, beirando os 100 milhões de dólares. Porém, quando chegou a data de anúncio dos jogadores dispensados sob essa regra, o Knicks decidiu manter o Allan Houston e dispensar o Jerome Williams. Mesmo assim o nome pegou e podemos dizer que o Allan Houston não usou da regra Allan Houston."

A aprovação dessa regra pelos donos é uma grande prova de que eles não estão tão preocupados assim com os salários altos dos jogadores. Queriam mesmo era recuperar a porcentagem do BRI e o resto era menor. Afinal, dá para pensar numa regra que incentive mais a gastança? Você continua pagando um jogador caro, mas não usa mais ele e abre espaço para pagar mais por outro. Tá bom que em casos extremos, como era o do Mavs no exemplo do Michael Finley, você acaba gastando a mesma coisa, apenas com jogadores ao invés de multas. Mas não é o mesmo para os times abaixo do tal luxury tax, o limite das multas.

A regra da anistia já foi notícia essa semana porque o Portland Trail Blazers disse que já se decidiu e vai dar mais uma chance ao Brandon Roy. Ao invés de dispensar seu jogador de maior salário e segundo pior joelho, atrás apenas de Greg Oden, decidiram esperar pelo menos um ano para ver se ele consegue render pelo menos um pouco. O uso ou não da anistia era essencial para saber se eles teriam espaço salarial para assinar o Nenê, por exemplo.

Já o New York Knicks está com a mão coçando para usar a anistia no Chauncey Billups e abrir dinheiro para contratar alguém, possivelmente Tyson Chandler. O Washington Wizards, contra todos os prognósticos e reeditando o caso do Allan Houston, disse que não deve usar no Rashard Lewis. Já o antigo time do ala, o Orlando Magic, pode decidir usar ou não em Gilbert Arenas dependendo no que isso beneficia eles na busca por segurar Dwight Howard na franquia. No Cavs, Baron Davis é forte candidato a ser anistiado, assim como Travis Outlaw no Nets.

O uso dessas regras é importante também porque favorece muito os times que estão no topo da NBA, o que contraria o tal desejo dos times de uma liga mais igualitária, outra bobagem propagada nos tempos de locaute. Isso porque a anistia atinge jogadores de salário alto, que geralmente são veteranos, jogadores que passaram da fase de ter nome, ganhar dinheiro e que agora só querem estar em um time competitivo. Então se todos esses jogadores forem anistiados podemos ver eles topando salários ridículos, mínimos de veterano, para ir para o Miami Heat, Dallas Mavericks ou Los Angeles Lakers. Já estão ganhando seu salário gigante do ex-time mesmo, dá pra fazer um sacrifício de faturar só 1 milhão de dólares extra para ganhar um título.

É importante também conhecer algumas especifidades da regra da anistia antes de cobrar coisas do seu time:

1. A anistia não ficará disponível durante toda a temporada. Os times terão um período de sete dias, antes da temporada começar, para decidir se usam ou não. Depois disso acabou. Ainda é possível que ela seja aberta anualmente durante a offseason, mas isso ainda não ficou claro. Em 2005-06 ela foi usada apenas uma vez, sem repetição até essa de agora.

2. A regra da anistia só pode ser usada em contratos que o time já possui. Não adianta um time topar uma troca pelo Gilbert Arenas ou Hedo Turkoglu com o Orlando Magic pensando em usar a anistia em um desses jogadores, só o Magic pode fazê-lo.

3. O salário do jogador cortado não contará mais para o teto salarial, mas conta para o piso. Ou seja, o Washington Wizards, que tem uma folha salarial baixa, pode dispensar o Rashard Lewis sem se preocupar em ficar abaixo do piso salarial exigido pela NBA. E para os que não sabiam: Sim, a NBA tem um piso salarial (49 milhões de dólares) para que não exista um time que junte apenas uns 12 jogadores com salários mínimos.

4. O time que contratar jogadores anistiados terão que oferecer um contrato da mesma duração do que o jogador já tinha antes. Ou seja, se o Wizards dispensar o Lewis, quem o pegar terá que oferecer um contrato (de qualquer valor) de pelo menos 2 anos. Se pegarem o Roy, de 4 anos, porque é o que resta do seu contrato atual.

Acho que agora tudo ficou mais claro sobre essa regra. Talvez já na semana que vem os times possam começar a anunciar oficialmente quem eles vão dispensar e isso vai agitar o mercado de Free Agents. Estaremos aqui para analisar todas as mudanças.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Reconstrução ideal

O Perkins gosta de dançar valsa

Em novembro do ano passado, num post sobre o Thunder, o Denis escreveu o seguinte:

"Para o Oklahoma City Thunder se tornar a potência do Oeste que a gente sonhava antes da temporada começar, algumas coisas tem que mudar. A primeira é a defesa, que não pode ser tão fraca, isso é o ponto central. E a segunda é o próprio elenco. O Jeff Green é um jogador versátil e muito bom, mas completamente dispensável nesse time. Ele é bom demais para ser um reserva com poucos minutos, sua presença como ala de força só atrai mais ataque ao garrafão e mina os minutos do promissor Ibaka. Na posição três já tem Durant. Deveriam aproveitar que o Green é muito bom e simplesmente trocá-lo. Eles podem muito bem usar esse ótimo talento como isca para buscar mais arremessadores de três e uma presença defensiva no garrafão, talvez até um cara com mais experiência."

Pois bem, foi exatamente o que o Thunder fez. Com a evolução do Ibaka, Jeff Green se tornou dispensável. A forte defesa que vimos o Thunder empregar contra o Lakers nos playoffs passados, baseada no jogo coletivo e na defesa por zona, simplesmente desapareceu agora que o time se leva a sério e não é mais uma zebra em quadra jogando pela sua vida. Cole Aldrich, pivô defensivo draftado pela equipe, chegou tão cru que foi mandado para a D-League. Então o Thunder foi atrás de uma presença defensiva para o garrafão, um cara com mais experiência, usando o Jeff Green como moeda de troca - exatamente como o Denis sugeriu.

Em seu texto sobre novas estatísticas (aquele que deu polêmica porque questionou-se a fama do Kobe na hora de fechar jogos), o Denis constatou que a fama do Kendrick Perkins de ótimo defensor é justificada no aproveitamento dos adversários perto do aro, mas não no aproveitamento dos pivôs que jogam mais longe da cesta. Não é acaso, então, que o Celtics é o time que menos toma pontos no garrafão nessa temporada - e o Thunder é, justamente, o terceiro que mais toma pontos no garrafão! Se o Celtics procura, sei lá porquê, alguém para defender os pivôs que tem fobia de garrafão, tipo o Chris Bosh, vão encontrar alguma ajuda no Jeff Green. Mas para o Thunder, nada poderia casar tão bem com suas necessidades como Kendrick Perkins: ele é experiente, bem rodado nos playoffs, sua maior qualidade é justamente a defesa próxima ao aro, e ele não exigirá a bola no ataque, permitindo que Durant e Westbrook continuem monopolizando o sistema ofensivo. O casamento do time com o jogador é tão perfeito que basta algum sucesso nos playoffs para que Perkins passe a considerar com carinho uma extensão de contrato no Thunder, que pode oferecer bem mais grana do que o Celtics jamais poderia. O Nate Robinson complica um pouco mais as finanças (são mais de 4 milhões por ano), mas deve ajudar o ataque do time em minutos limitados e não compromete um futuro contrato para o Perkins. Seja lá qual for a água que o Danny Ainge bebeu e quais os medos que ele tivesse à noite do Celtics tomando um pau do Chris Bosh, a troca foi um sonho de debutante para o Thunder e torna a equipe imediatamente uma potência do Oeste. Pode não ser campeã agora, mas não tem problema. A única coisa que importa é convencer o Perkins a continuar no time e esperar alguns poucos anos até que equipes com artrite como Spurs e Celtics - e até o Lakers - não possam mais competir em alto nível. O Thunder é agora uma equipe para dominar a NBA por uma década, e que pode se dar ao luxo de esperar alguns anos antes de chegar ao topo. Até lá, deve manter todo mundo motivado com os estragos que farão nos playoffs, e com essa possibilidade constante e real de vencerem agora mesmo a qualquer momento, bastando um deslize adversário. O Thunder é montado para vencer agora mas pode esperar se necessário. É o plano perfeito, e o Perkins parece perceber. Já deu todas as indicações de que sua prioridade é assinar uma extensão com o Thunder, jogou no lixo seus tênis verdes a pedido dos companheiros de equipe, e se negou a usar uma bola verde no seu treino de fisioterapia, dizendo que não quer mais pensar no Celtics, que isso é passado (parece inclusive estar meio puto com a troca, mas disposto a abraçar seus novos companheiros). Ele deve ficar fora mais umas duas ou três semanas em reabilitação, mas o Thunder não tem pressa - ao mesmo tempo em que faz de tudo para manter o time competitivo e funcionando.

Isso fica ainda mais claro com a outra troca da equipe na data limite. Como o Thunder mandou o Nenad Krstic (além do Jeff Green e de uma escolha de primeira rodada) na troca pelo Perkins, foram atrás de outro pivô para tapar o buraco imediatamente. Poderiam improvisar o Nick Collison, poderiam esperar o Cole Aldrich amadurecer, mas o Thunder quer estar constantemente pronto para ganhar um título desde já - sem no entanto comprometer as chances de futuro colocando todas as fichas no agora. Por isso mandaram o contrato expirante do Morris Peterson e o pirralho DJ White em troca do pivô Nazr Mohammed. Eu sei que é bizarro, mas eu sou muito fã do Mohammed. Ele fazia estrago no Knicks de muitos anos atrás, foi campeão com o Spurs, é obediente taticamente, bom nos rebotes e pode fazer muito estrago se o ataque passar por ele graças aos seus movimentos embaixo do aro. Nunca foi muito aproveitado desde os tempos de Knicks, mas sempre rende quando recebe minutos. No Thunder ele ajudará imediatamente nos rebotes defensivos e poderá render no ataque quando a equipe quiser se impor no garrafão. Mas como seu contrato é expirante, o Thunder deixa seu garrafão mais forte sem ter que se comprometer financeiramente, podendo reassinar com o Mohammed por pouca grana depois ou apenas usar o dinheiro em outros jogadores ou renovar com a pirralhada. Time pronto pra vencer agora, mas sem estragar as finaças futuras.

Essa troca deixa o Thunder ainda mais forte e ela só é possível por um motivo muito estranho: o Bobcats desistiu. Vida de time que nasceu em expansão é uma droga, o time começa só com os jogadores que os outros não querem, não consegue convencer ninguém a ir jogar lá, e fica dependendo só de escolhas de draft. O Bobcats capengou especialmente no draft, escolhendo jogadores que nunca renderam aquilo que se esperava, mas há anos sempre flertam com uma vaga nos playoffs. A crença de que o time uma hora iria ficar maduro e chegar nos playoffs com tudo levou a trocas por jogadores veteranos como Stephen Jackson e Boris Diaw, e os pirralhos foram ficando de lado em nome da perseguição de uma vaga na pós-temporada. Talvez o que faltasse fosse um bom técnico como Larry Brown, pensava-se, mas as limitações do elenco ficaram ainda mais evidentes com o esquema rígido e defensivo do técnico vovô. O flerte com uma vaga pros playoffs continua, mas para quê? A equipe fede, o time não tem estrelas, os novatos não dão certo, então de que adianta conseguir uma oitava vaga nos playoffs do Leste pra tomar um cacete, não conseguir uma boa escolha de draft e ficar nesse limbo eterno? Depois de uma série de cagadas em anos de draft e contratações, o Jordan resolveu fazer o que está tão na moda com equipes que não fedem e nem cheiram e não dão lucro por causa disso: apertar o botão do apocalipse. Começou se livrando do Mohammed, que nem tinha tantos minutos assim, para conseguir um pirralho cheio de potencial, o DJ White, que o Thunder nunca teve espaço para usar.

E o plano de apocalipse do Bobcats deu seu passo mais decisivo quando mandou Gerald Wallace, provavelmente o melhor jogador da equipe, para o Blazers em troca do pirralho Dante Cunningham, o contrato expirante de Sean Marks e Przybilla e duas escolhas de draft (a do Hornets em 2011 e a do Blazers em 2013), além de grana. O plano é conseguir jogadores novos, escolhas de draft e contratos expirantes, pra não ter que pagar o salário do Gerald Wallace em um time em reconstrução. É claro que o Wallace vale mais do que isso, mas várias propostas foram feitas e nenhum time quis pagar pelo salário de um jogador que está numa temporada pior do que as últimas e que vive se machucando. Outros jogadores como Stephen Jackson e Boris Diaw também não encontraram recebedores por enquanto, mas devem ser trocados o mais rápido possível. São tempos de economizar e se focar na pirralhada e no draft. A crise econômica e os times fortes demais no topo das Conferências tornaram essa postura comum demais na NBA, mas não dá pra criticar. Depois de fazer muita merda, finalmente Michael Jordan tem um pouco de bom senso e tira o pé do acelerador em Charlotte.

Quem se deu bem com isso foi o Blazers, que já estava ameaçando ver seu plano de reconstrução virar farofa. Eu tinha um post preparado sobre isso, sobre o Blazers, mas acho que algumas das informações contidas nele são essenciais para entender a importância dessa troca para eles.

Não faz muito tempo, o Blazers fascinou todo mundo na NBA com um plano de reconstrução corajoso, fantástico e eficiente. O primeiro passo foi se livrar de seu melhor e mais caro jogador, Zach Randolph, em troca de quase nada. A equipe tinha chances de playoffs, e mesmo assim o Randolph foi simplesmente mandado embora. Os minutos começaram a ir para a pirralhada, o jogo deixou de ser centralizado nas mãos de um jogador só, a defesa virou foco principal sem o Randolph que não defendia nem ponto de vista, e o Blazers começou a se dedicar ao draft. Além das próprias escolhas e das escolhas recebidas em trocas, passou a comprar com dindim escolhas de primeira rodada de times que lutavam por um título e não tinham espaço para novos jogadores.

A tática para o draft também foi constante: escolher os melhores jogadores disponíveis, não importando os receios com lesões ou posição em quadra. O resultado foi incrível: o Blazers de repente era uma equipe com trocentos jogadores talentosos em tudo quanto é posição e ganhando experiência rápido. Chegou ao absurdo de ter tanto jogador novo e bom que não havia mais espaço para todos, começaram a surgir os descontentes com os minutos ou o número de arremessos por partida. Isso criou fortes moedas de troca, espaço salarial e - vejam que legal - um time forte nos playoffs.

Quando Travis Outlaw reclamava que queria arremessar mais e Steve Blake era apenas um de uma série de oitocentos armadores jovens na equipe, o Blazers mandou seus contratos expirantes em troca do Marcus Camby, substituto para o Greg Oden em caso de lesões. Agora, fizeram a mesma coisa: usaram o contrato expirante do Joel Przybilla (que foi conseguido às pressas com a lesão do Camby) e umas escolhas futuras de draft para trazer Gerald Wallace. O plano de reconstrução do Blazers, focado em se livrar dos melhores jogadores e dar espaço para a pirralhada, permitiu que o time tivesse as possibilidades e as ferramentas para trazer veteranos como Camby, Andre Miller e agora Gerald Wallace. Trazendo veteranos e se livrando de escolhas de draft, podemos entender finalmente o processo de reconstrução do Blazers como terminado. Agora eles se focam nas chances de ganhar já, não mais no futuro distante.

O problema é que esse processo de reconstrução tão eficiente que nos deixou tão apaixonados (e que gerou tantos clones por aí, tipo o Bobcats de agora) chegou a um ponto estranho em que me sinto seguro de dizer que ele está à beira de fracassar. Eu sei que os engravatados encerraram a reconstrução e agora estão se focando em vitórias, mas pra mim esse processo não levou a um plano de vitórias, levou a desespero e, agora, improviso.

Brandon Roy é uma estrela inegável. Chutou traseiros nos playoffs, foi All-Star em seu segundo ano, e levou o Blazers à relevância de novo. Sua altura permite que ele possa jogar tanto de ala quanto de armador, mas ele rende melhor quando joga de PG, de armador principal. No final de todos os jogos é ele quem chama as jogadas, executa e distribui a bola, e o Blazers é muito mais eficiente quando isso ocorre. Assim que o Andre Miller chegou, um armador cerebral e que mantém a bola nas mãos, ele e Brandon Roy já começaram a bater cabeça. O descontentamento dos dois gerou brigas nos vestiários e boatos sobre trocas. Tudo enquanto Rudy Fernandez, com minutos limitados graças ao elenco jovem e profundo da equipe, pedia incansavelmente para ser libertado e poder voltar pra casa. São questões que desapareceriam em um time com chances de título, mas essas chances viraram farofa com as lesões de Greg Oden, que ainda não conseguiu uma temporada sem ter os joelhos desmontados como Lego.

A reconstrução do Blazers trouxe jogadores demais que começaram a bater cabeça quanto ao seu espaço na equipe. A chegada dos veteranos, essenciais para consolidar as chances nos playoffs, complicaram o andamento da equipe. E os bagos do Blazers para draftar ou contratar jogadores com riscos de lesão viraram cagada quando Przybilla, Camby, Jeff Pendergraph, Greg Oden e Brandon Roy estavam todos juntos no hospital jogando dominó. Gerald Wallace, que nunca teve uma temporada sem lesões sérias, chega à equipe para reforçar a jogatina de dominó, provavelmente.

Greg Oden nunca esteve saudável, jogou uma temporada inteira na faculdade com apenas uma das mãos antes de ser draftado pelo Blazers. Mas o caso do Brandon Roy parece ainda pior. O jogador foi draftado pelo Wolves, que tentou trocá-lo imediatamente minutos depois após alertas dos médicos da equipe. O Blazers topou na hora e se deu muito bem, mandaram o Randy Foye e receberam um futuro All-Star. Mas agora Brandon Roy já passou por três cirurgias nos joelhos desde que entrou na NBA. Nos playoffs passados ele passou por uma cirurgia nos dois joelhos dias antes do início da primeira rodada contra o Suns, e voltou a tempo de entrar no Jogo 4 - nitidamente lento e com dores. Na época, ele já tinha sido avisado que não tinha mais qualquer traço de menisco nos joelhos, era apenas osso com osso. Não conseguiu render nada nessa temporada, constantemente com dores, e então resolveu passar por nova cirurgia nos dois joelhos. Menos de um mês depois, já voltou às quadras.

É claro que o Roy quer voltar logo a jogar, ele é altamente competitivo e quer levar o Blazers aos playoffs, mas inúmeras entrevistas com seus médicos apontam que ele não tem mais condições de jogar em alto nível em tempo integral. O recomendado é que ele atue por no máximo 70 partidas por temporada, e isso com minutos bastante limitados. E o pior: ainda assim, os médicos alertam que ele não será mais capaz de jogar basquete dentro de 2 anos.

A notícia é terrível para o Brandon Roy, um dos jogadores mais fantásticos dessa geração. Seus joelhos já eram motivo de preocupação, passaram por várias lesões e cirurgias, e o retorno às quadras sempre foi o mais rápido possível para ajudar o time. O Blazers sabia que o jogador não tinha mais meniscos, que não duraria muitos anos em quadra, e mesmo assim lhe colocou pra jogar uma série de playoff praticamente perdida - e lhe ofereceu um contrato máximo de 83 milhões de dólares por 5 anos.

O que sobrou para o Blazers ainda é um time incrivel, com chances de incomodar os grandes e fazer estrago nos playoffs. LaMarcus Aldridge passou a pegar rebotes e deixou de jogar tão longe da cesta, com médias de mais de 25 pontos e mais de 10 rebotes por jogo sem Brandon Roy na equipe. Andre Miller e Marcus Camby são veteranos que ainda jogam em alto nível, Wesley Matthews é um excelente jogador que substitui Roy em muitas coisas dentro da quadra (e que o Blazers conseguiu roubar do Jazz porque a equipe de Utah é pobre, tadinha) e Nicolas Batum é um excelente defensor que faz todas as pequenas coisas para uma equipe vencer. Gerald Wallace ajudará nos rebotes defensivos e na defesa, pode marcar múltiplas posições, jogava constantemente como ala de força no Bobcats e só passou a jogar mais no perímetro nessa temporada, arremessando cada vez mais, porque cansou de se contundir tanto dentro do garrafão. É um time forte, cheio de especialistas e com veteranos capazes de segurar as pontas nos playoffs.

Mas Brandon Roy ocupa a maior parte do espaço salarial da equipe e não deve durar mais de um par de anos. Quando estiver em quadra, baterá cabeça com Andre Miller. Greg Oden está fora de toda essa temporada novamente graças aos joelhos, mesma coisa com o pirralho Pendergraph. Marcus Camby acaba de voltar de uma cirurgia no joelho também, tentando ganhar ritmo. É um time com chances muito pequenas de título e que depende de uma série de jogadores que estão constantemente lesionados dando como finalizado um processo de reconstrução. Será que estava nos planos trazer Gerald Wallace? Marcus Camby? O Blazers deixou de construir uma equipe coesa porque se apaixonou por si mesma como nós nos apaixonamos quando eles chegaram aos playoffs. Devem ter pensado "é isso, dá pra ser campeão agora", enquanto todo mundo quebrava o joelho nos bastidores, jogadores pediam pra sair, contratos exigiam extensão e a grana acabava. Aí o plano foi pro saco porque querem ganhar agora, estão arriscando uma reconstrução inteira trazendo veteranos caros como o Gerald Wallace para tentar vencer os playoffs. Vencer Lakers, Thunder, Celtics? Sério?

O Thunder está pronto para vencer e não comprometeu seu futuro. O Bobcats desistiu das chances de playoffs e vai começar de novo. E o Blazers, esse time legal que vimos ser montado do zero, começa a arriscar para vencer imediatamente - mesmo dependendo de jogadores que não conseguem ficar saudáveis e de bagunça nos vestiários. Wesley Matthews e LaMarcus Aldridge chutam traseiros e vão receber atenção especial em outro post, mas o time precisa ser repensado em volta deles, sem contratações no improviso. O Thunder, que soube esperar e não se desesperou atrás de um pivô - lembra que eles chegaram a trocar pelo Tyson Chandler e devolveram porque os médicos avisaram que havia risco sério de lesão? - conseguiu o pivô perfeito, o Perkins, graças à flexibilidade financeira da equipe. Já pensou que legal se esse Blazers tivesse se negado a contratar jogadores com risco de lesão e tivesse usado o espaço salarial aguardando os jogadores certos? Por mais carinho pelo Blazers e por mais que eu adore ver o time jogando, o Thunder assumiu o posto de projeto de reconstrução ideal, algo que o Bobcats precisa olhar, espiar e aprender.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Não é mais um preview

A beleza da NBA está de volta


Como o Rodrigo Alves disse no seu texto no Rebote, a noite de abertura da NBA foi divertida desde o Twitter até as quadras. No Twitter, geralmente um lugar desagradável onde tem mais gente tentando pagar de inteligente e/ou engraçado para as outras, o clima foi divertido, com comentários inteligentes, piadas, apostas e um monte de gente aprendendo a mexer no League Pass. Faremos uma análise do LP ainda essa semana, mas já avisamos aqui que durante essa semana ele está disponível de graça. É só entrar no site deles, se cadastrar e escolher o jogo que quer ver.

Ah, e também sei que não acabamos os previews antes do primeiro jogo! Faltaram Nuggets, Thunder e Knicks. Tudo culpa do Danilo, claro, nunca minha. Mas ele já cuidou disso e os links para todos os previews estão agora em um só post, esse aqui.

Eu não lembro de outra noite de abertura tão aguardada como a de ontem. Geralmente a NBA (ou mais especificamente esse cara) escolhe jogos que o pessoal está afim de ver, mas nunca tinha conseguido montar logo de cara um jogo com tamanha expectativa. Nada como a estréia do trio LeBron-Wade-Bosh contra o atual campeão do Leste que tem o seu próprio trio de ferro e mais Shaquille O'Neal, Rajon Rondo e Jermaine O'Neal. É muita gente boa ao mesmo tempo e um público na seca por basquete. Perfeito!

A partida começou com 8 jogadores na quadra que já foram All-Stars, os cinco do Boston e o trio do Miami. Apenas Carlos Arroyo e Joel Anthony destoavam. Pelo menos o porto-riquenho pode dizer que era uma estrela no basquete FIBA. No banco ainda tinham outros ex-all-stars, Jerry Stackhouse (recém-contratado pelo Heat), Jamal Magloire e Jermaine O'Neal. Em 2010 esse é um jogão em outubro, 10 anos atrás seria um jogão em fevereiro, no All-Star Weekend.

O Boston Celtics começou tentando explorar o pivô não-galático do Miami, jogando bastante a bola no estreante Shaq, que nas primeiras bolas errou arremessos ridículos embaixo da cesta, mas logo deu umas enterradas alucinantes, se pendurou no aro, pingou suor como um porco e até acertou lances livres, que foram motivo de vibração incontrolável da torcida.

Embalados por Shaq, por passes perfeitos do Rajon Rondo (17 assistências e nenhuma faixa na cabeça) e bolas de três do Ray Allen, o Celtics abriu quase vinte pontos de diferença já no primeiro tempo. Com uma defesa bem forte eles forçaram o Heat a apenas 9 pontos no primeiro período e 30 no primeiro tempo como um todo, marca pior do que o menor número de pontos marcados no primeiro tempo pelo Heat do ano passado. Sim, aquele time com Michael Beasley, Daequan Cook e Dorrell Wright. 

Muitas coisas explicam esse primeiro jogo, em especial o primeiro tempo, horripilante do Heat. Primeiro a falta total de entrosamento, o trio que controla a bola por 90% do tempo jogou junto só por 3 minutos durante a pré-temporada. Wade, machucado, mal treinou. E não é um time que tinha uma base e treinou pouco nos últimos meses, é um time que começou do zero. Também não é um time tradicional, com jogadores que se completam naturalmente, eles tem características conflitantes (tanto Bosh quanto Wade e LeBron gostam de segurar a bola e não são bons arremessadores, por exemplo) o que não significa que vão fracassar, mas que precisam de treino mais do que um time normal. Se você juntar um trio como Chris Paul, Kevin Durant e Dwight Howard, por exemploa coisa fluiria mais naturalmente.

Outra razão pode ter sido o nervosismo, afinal todos esperam o melhor time da história e eles tem uma reputação a zelar, deve bater um medo de fracassar. Alguns passes que eles deram para o meio da arquibancada e outras infiltrações precipitadas não foram só falta de entrosamento, foram desespero mesmo. Também não ajudou o fato deles terem o primeiro jogo fora de casa contra uma das melhores defesas da NBA nos últimos três anos! Se cometerem todos os mesmos erros de novo contra o Sixers aí sim o buraco é mais embaixo. O Celtics soube perfeitamente explorar as fraquezas que o Heat ainda tem: a falta de um pontuador dentro do garrafão (até LeBron tentou se arriscar lá dentro pra compensar, sem sucesso), a falta de arremessadores de longe (e meia distância) e assim deixou o garrafão congestionado para evitar as infiltrações.

No fim das contas, segundo o site HoopData, o Heat tentou 22 infiltrações, conseguindo finalizar 12 com sucesso, um número respeitável. Mas em todos os outros pontos da quadra eles acertaram 15 arremessos em 52 tentativas! O Celtics estava deixando o Heat arremessar porque estava um desastre. Era como se o outro lado tivesse 5 Rondos.

As coisas começaram a mudar quando o Celtics primeiro relaxou, fugindo do que estava dando certo e mostrando que eles também estão em ritmo de começo de temporada, depois mudou por completo, com o Heat chegando a diminuir a diferença para 3 pontos quando o Heat começou a jogar como, quem diria, o Cavs. Ironias da vida. Com Wade e Bosh no banco e jogando ao lado de Zydrunas Ilgauskas, Eddie House e James Jones o LeBron James fez o que fazia em Cleveland. Pegava a bola, recebia um corta-luz na linha dos três e atacava a cesta, aí era ou cesta, ou falta ou um passe para alguém na linha dos três. Básico, simples, Cavs.

Foi o bastante para colocar o Heat de volta no jogo, mas logo a defesa apertou e ficou aquele joguinho de LeBron tentando vencer sozinho de um lado e o Ray Allen matando o jogo com bolas de três do outro. Por um lado foi péssimo para o técnico Erick Spoelstra ver que vai ter muito trabalho pela frente e que durante esse trabalho vão ouvir piadas, críticas, vaias e gritos de "overrated" como da torcida de Boston, ontem. Por outro lado foi bom ver que depois de um jogo em que o time jogou de maneira mais desorganizada que a 25 de março em semana de Natal, perdeu só por 8 pontos, esteve perto da virada e mostrou alguns bons momentos na defesa.

Como tudo o que vamos falar em todos os posts nas próximas semanas, esses comentários sempre vêm com um "apesar de ser só o começo da temporada" embutido. Não dá pra querer achar que vai ser ruim assim pra sempre, mas também não dá pra ignorar que foi um fiasco.




O segundo jogo da noite foi Blazers e Suns em Portland. O time da casa começou bem, com Brandon Roy e Andre Miller mostrando algum entrosamento e sabendo dividir a responsabilidade da armação, mas o time não embalou porque LaMarcus Aldridge foi incapaz de tirar vantagem da sua estatura contra o Hedo Turkoglu. O Suns, mesmo sem convencer, jogou bem. Só foi estranho ver o Nash arremessando mais do que passando e triste ver o Turkoglu ajudando tão pouco, mas deu certo e no terceiro período eles estavam voando.

Porém, no último quarto um dos maiores candidatos a jogador que mais evoluiu na temporada, Nicolas Batum, fez 11 dos últimos 18 pontos do Blazers, que venceu o período final por 20 pontos de vantagem e levou a vitória pra casa. O Batum já era bom antes, ótimo defensor, bom arremessador e sabe bater pra dentro. Nesse ano como titular absoluto ele tem tudo pra ter grande destaque. Olho nele e peguem o rapaz na sua liga de fantasy.

Antes do jogo de ontem o próprio Nash disse que se estivesse vendo tudo de longe não apostaria no Suns como um time para ir para os playoffs. Bem racional da parte dele, mas o time já superou outras limitações de elenco antes e nem tudo está perdido, só vai ser bem difícil. Um bom começo seria o Nash confiar mais no Robin Lopez que, coitado, tentou brincar de Amar'e Stoudemire ontem e não recebeu um passe do Nash depois dos bloqueios que fazia, só ficava com a mão esperando a bola e nada aparecia.

No último jogo da noite tivemos o já famoso Bola Presa Classic. Meu Lakers contra o Rockets do Danilo. Finalmente a NBA nos ouviu e colocou esse jogo numa data importante. Antes da partida, claro, a entrega dos anéis de campeão para o Lakers. Em uma cerimônia fresca e ensaiada: o anel era dado para um jogador que pegava o microfone e chamava o coleguinha de classe. Para provar que era tudo ensaiado até elogiaram o Sasha Sharapova ao chamá-lo ao centro da quadra. O anel que eles ganharam era todo rico e brega, como sempre. Tem 16 diamantes, para simbolizar os 16 títulos do Lakers, pedaços de couro arrancados da bola usada no jogo 7 da final e a cara de cada jogador nos anéis. Doideira! Olha as fotos aí embaixo. Certo o Ron Artest que vai leiloar o dele.





O jogo de verdade começou com Aaron Brooks e Kevin Martin me dando a certeza absoluta de que vão ser a dupla de armação com mais bolas de três feitas na história da NBA. Aposto um chocolate nisso. E chocolate só não é a melhor coisa do mundo porque existe sexo, então a aposta é séria! O Rockets jogou muito bem durante toda a noite e até merecia a vitória, que só não veio porque o Shannon Brown resolveu achar que é o Anthony Morrow e acertou 4 bolas de três, quase todas no último período . E depois, quando o Houston vencia por um ponto a 18 segundos do fim, o estreante Steve Blake meteu uma bola de três para ganhar o jogo. Quem é Jordan Farmar mesmo? Não lembro. É muito difícil bater o Lakers quando Pau Gasol está bem (98% dos jogos) e as bolas de longe estão caindo.

O Lakers jogou o seu basquete preguiçoso de temporada regular. Muito bem durante uns momentos, relaxado em outros e bem sério quando a água bate na bunda nos minutos finais. Deu certo, mas o time ainda parece fora de ritmo, especialmente Kobe, que está bem lento na defesa. O Rockets pareceu mais entrosado, mais interessado e parece que vai dar trabalho pra valer. O Yao Ming jogou e até que tá bem para alguém todo quebrado, que não joga há um ano e que se move como se estivesse embaixo d'água. Mas o que me deixou mais surpreso foi ver como o Luis Scola pareceu mais à vontade no ataque no fim do jogo, chamando a responsa ao invés de aceitar ser coadjuvante. Ele é bom o bastante pra isso e sempre foi, mas no ano passado era mais comum a gente ver o Aaron Brooks querer bancar o herói.

Foi um bom primeiro dia, mas só o primeiro. Hoje tem mais 13 partidas, com quase todos os outros times fazendo seu primeiro jogo e aí vem a primeira grande dúvida da temporada: O que assistir no League Pass? Tem Miami tentando a sua primeira vitória contra o Sixers, a estréia do lixo do Cavs ou um potencial  jogão entre Bulls e Thunder. E mais tarda a estréia do Warriors sem Don Nelson e o primeiro jogo oficial do Blake Griffin, isso sem contar a estréia do Amar'e como um Knick e um empolgante Nuggets-Jazz. Por enquanto só sei que não vou ver Hawks contra o Grizzlies. Como eu vivi todos esses meses sem NBA todo dia?

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Preview – 2010-11 / Portland Trail Blazers


Brandon Roy entrega seu filho para adoção


Objetivo máximo: Final de conferência
Não seria estranho: Perder na primeira rodada de novo
Desastre: Ficar fora dos playoffs

Forças: Jogadores bons em todas as posições e forte banco de reservas
Fraqueza: Inúmeras contusões. Há anos não jogam com o time completo.

Elenco:

Portland Trail Blazers
Titulares
Reservas
Resto
PG
Andre Miller
Jerry Bayless
Patrick Mills
SG
Brandon Roy
Wes Matthews
Rudy Fernandez
SF
Nicolas Batum
Luke Babbitt*
Dante Cunningham
PF
LaMarcus Aldridge
Jeff Pendegraph
C
Greg Oden
Marcus Camby
Joel Pryzbilla

...
Técnico: Nate McMillan

Como descobrimos no último post, a maior parte dos nossos leitores tem entre 20 e 24 anos. Foi no mesmo ano que os mais velhos desse grupo nasceram que Nate McMillan foi draftado pelo falecido Seattle Supersonics. Sua carreira não foi espetacular, mas marcou os torcedores locais, que chamavam de Big Mac o trio que ele fazia com Xavier McDaniel e Derrick McKey. Logo depois da sua aposentadoria, 12 anos depois do draft, já virou assistente técnico e, em 2001-02, técnico principal até 2005. Seus 19 anos de serviços ao time renderam o apelido que ainda persiste de Mr. Sonic.

Foi como técnico em Seattle que ele conseguiu o maior feito de sua carreira. Em 2005 comandou o elenco mais limitado que já vi chegar em uma semi-final de conferência. Perderam em 6 jogos (e o jogo 6 foi decidido no último segundo) para o futuro campeão San Antonio Spurs. O forte do time estava nas posições 2 e 3 com Ray Allen e Rashard Lewis, máquinas de três pontos, mas tinha como armador principal Luke Ridnour, o homem que não defende, e o garrafão era uma piada: o agarrador de bolas Reggie Evans e o cara que é mais gordo que Eddy Curry e Zach Randolph juntos depois da feijoada, Jerome James. Os dois estavam em ano de contrato e jogaram uma defesa forte e suja que era a marca do time.

Aproveitando o embalo, McMillan surpreendeu a todos e pela primeira vez na carreira serviu a outro time na NBA, justamente o rival local do Sonics, o Blazers. Após disso o Sonics desabou de qualidade e seus jogadores aos poucos foram saindo (Jerome James ganhou na loteria ao ir para o Knicks por uma fortuna, Evans foi para o Nuggets e Rashard Lewis virou o Bill Gates da NBA com seu contrato com o Magic) Alguns torcedores do Sonics se sentiram traídos e a saída foi um pouco polêmica, mas ele foi bem recebido em Portland, onde era visto como o cara que levaria o jovem time a algum lugar depois dos anos do Jail Blazers. Nos últimos anos tem feito um bom trabalho, o time melhorou um pouco a cada ano e só no ano passado caiu de nível, mas mais pelas contusões do que por qualquer outra coisa. O próprio McMillan se machucou quando corria em um treino no começo da temporada passada!

Ele na verdade deve receber créditos por fazer o time funcionar mesmo com Jeff Pendegraph e Juwan Howard no time titular. McMillan é bom em tirar o melhor de seus jogadores: sabia usar bem a dupla Sergio Rodriguez e Rudy Fernandez quando os dois estavam por lá, sempre viu o potencial da defesa de Nicolas Batum e conseguiu achar um jeito de introduzir o fominha Jerryd Bayless na rotação sem estragar o conjunto da equipe. Não é um estrategista ou um gênio da motivação, mas é um dos bons técnicos da NBA. Não custa lembrar que ele também fazia parte da comissão técnica campeã olímpica em 2008 com Mike Kryzewski e Mike D’Antoni.

.....

Há anos que a gente sempre baba ovo nas offseasons do Blazers. Eles sempre pareciam não perder nada de mais e ganhar jogadores espetaculares. Mas em compensação durante a temporada tinham resultados abaixo do esperado. Não é que jogavam mal, longe disso, mas é que a expectativa era sempre a de um time forte que pudesse ir longe nos playoffs, não um time remendado que perde na primeira rodada.

O motivo desse desempenho bom mas abaixo do esperado pra mim é um só: contusões. E não estou pensando só no Greg Oden que perde a temporada inteira, mas das pequenas contusões que tiram LaMarcus Aldridge por uma semana, Brandon Roy por um mês, Rudy Fernandez por 10 dias, etc, etc, etc. Com esses problemas o McMillan está sempre improvisando. Lembram no ano passado dele usando o Juwan Howard de pivô ou o Jerryd Bayless de armador principal titular? Coisas que ele nunca faria numa situação normal. Aposto que o McMillan preferiria usar o Luke Ridnour com uma mão amarrada nas costas como armador ao invés do Bayless. Por isso ao invés de achar que o Blazers jogou abaixo do esperado nas últimas duas temporadas eu prefiro dizer que nunca vimos de verdade o que aquele time poderia ter feito.

Para essa temporada, algumas mudanças importantes. Primeiro no comando do time, o General Manager Kevin Pritchard, o responsável pela criação de todo esse elenco, foi demitido uma hora antes do Draft 2010 começar e fez nesse dia suas últimas movimentações. Pois é, vai entender essa cartolagem da NBA! Há anos ele é considerado o melhor e mais criativo GM da liga e aí chutam o cara no dia em que ele tem mais trabalho no ano.

Depois, no elenco, perderam Martell Webster numa troca com o Wolves e Rudy Fernandez ainda continua dando piti e dizendo que ou é trocado para um time que o use como titular ou volta para a Europa. Frescura e bichisse de moleque mimado. Nunca jogou com regularidade o bastante para ser titular e não é com showzinhos como esse que outros times irão fazer loucuras para tê-lo no time. Várias equipes se mostraram interessadas, como Knicks, Celtics e Bulls, mas ninguém quis correr o risco de dar uma de Spurs com o grego Vassilis Spanoulis. Há alguns anos o Spurs mandou os direitos de Luis Scola para o Houston para ter o insatisfeito Spanoulis, o grego decidiu que voltaria para a Europa mesmo assim e o Spurs ficou de mãos abanando, enfrentando o Scola quatro vezes por temporada enquanto usavam o Antonio McDyess no time titular.

A perda de Webster eu não acho que será tão sentida. O Luke Babbitt tem tudo para ser o melhor ou um dos melhores arremessadores de três dessa classe de novatos e só precisa acertar as bolas de longe para fazer qualquer torcedor achar que Webster é só mais um dicionário.

Já com o espanhol a sua ausência vai ser sentida só por aqueles torcedores que não entendem muito de basquete e querem ver enterradas, dribles e contra-ataque fulminantes, as especialidades de Rudy. Para o seu lugar, na reserva de Brandon Roy, foi contratado a peso de ouro (ou de uns 900kg de ouro) Wesley Matthews. Na temporada passada ele surpreendeu todo mundo ao ser um jogador que passou em branco pelo draft, ganhou um contrato mínimo de um ano e poucos meses depois era titular do Utah Jazz. Um ano depois é o jogador mais bem pago da classe de novatos do ano passado, com seu novo contrato está fazendo mais grana que Tyreke Evans, Blake Griffin ou Brandon Jennings. Matthews é ótimo defensor, tem um arremesso confiável de três pontos (38% na temporada passada) e logo no seu primeiro treino com o novo time recebeu trocentos elogios pela sua inteligência dentro de quadra. E acredite, se você é inteligente, sabe se movimentar e está no mesmo time que Andre Miller, vai se dar muito bem.

Como o time dessa temporada está montado e nenhuma troca é necessária até o próximo ano, não vai ser agora que eles vão sentir falta de Pritchard. Com Matthews e Babbitt também acho bem possível que Rudy e Webster não sejam lembrados. Nicolas Batum como titular também não deve fazer feio, muito pelo contrário, acho mais provável vê-lo recebendo votos de jogador que mais evoluiu na temporada. Portanto, eles simplesmente voltam à posição do ano passado: com um ótimo elenco e bom técnico, será que conseguem ficar inteiros?

Eu já não espero mais que Greg Oden seja o melhor pivô defensivo da NBA e justifique ter sido escolhido antes do Kevin Durant, nem penso mais nisso. Sinceramente só espero que ele vire um jogador de basquete. Quero ver ele jogar mais de 70 jogos em uma temporada e está ótimo. Se jogar mal, paciência, vira reserva do Marcus Camby, mas que jogue, esse time não suporta mais tanta gente com pequenas, médias ou grandes contusões. É ridículo, um ano depois da polêmica contratação, não poder ter uma opinião totalmente formada sobre se a combinação Andre Miller e Brandon Roy funciona bem. Tudo porque Roy perdeu muitos jogos e jogou outros tantos baleado no último ano. Se Oden jogar o tempo inteiro e as pequenas contusões não assombrarem o time de novo, poderemos, finalmente, ser capazes de ver não só as reais chances do Blazers, mas também seus reais problemas.

domingo, 18 de abril de 2010

Preview dos playoffs - Parte 4

Chegamos ao fim do nosso preview da primeira rodada com as séries entre Mavs/Spurs e Suns/Blazers. Os outros previews estão nos posts abaixo, que você pode acessar também por esses links:




Dallas Mavericks x San Antonio Spurs


O que o Mavs precisa fazer para vencer:
Todo mundo fala que o Spurs é perigoso nos playoffs, que nessa hora é diferente, mas esquecem que o Dallas sabe muito bem disso e não se assusta mais. Desde a temporada 2000-01 apenas dois times foram capazes de eliminar o Spurs nos playoffs, o Lakers (2001, 02, 04 e 08) e o Mavs (06 e 09), em 03, 05 e 07 eles não perderam pra ninguém e foram campeões.Então sim, é verdade, o Spurs sabe jogar playoffs, mas não é como se o Mavs fosse um freguês, eles já passaram pelo Spurs antes e dessa vez ainda tem a vantagem do mando de quadra.

Tirando esse mito de cima do Spurs, vamos ao jogo de verdade. O Dallas para vencer precisa antes de tudo explorar o Dirk Nowitzki. Em anos anteriores o alemão sofria quando era marcado pelo Bruce Bowen, que mesmo sendo bem mais baixo, sabia como incomodá-lo, mas agora o Spurs não tem mais ninguém para pará-lo. Se colocarem o Duncan em cima do Dirk ele sai do garrafão e joga no perímetro, onde ele até prefere e incomoda mais o Duncan, sobram para o trabalho caras como McDyess, Richard Jefferson, DeJuan Blair e até o Keith Bogans, nenhum com as características ideais para marcar o Nowitzki, não é à toa que ele tem média de quase 30 pontos por jogo na temporada contra o Spurs.

Esse matchup do Nowitzki é a chave, mas não é tudo, o Dallas precisa saber atacar a cesta e não ficar só no velho vício que às vezes reaparece de só dar arremessos de longa distância. Apenas com as infiltrações do Caron Butler e os rebotes ofensivos do Haywood e do Dampier é que o Dallas irá abusar da falta de um pivô natural que o Spurs tem. Por fim está a marcação sobre Manu Ginobili, se o Spurs foi um dos bons times do fim de temporada foi porque o Manu jogou como uma super estrela, então é bom que o Caron Butler consiga segurar o argentino pelo menos um pouco, ou que o Dallas consiga chegar no fim dos jogos vencendo, porque com o placar empatado a vantagem é do Spurs, poucos caras na NBA sabem fechar jogos como o Ginobili.

O que o Spurs precisa fazer para vencer:
O domínio do Nowitzki na série desse ano foi muito óbvio, eles vão ter que achar um jeito de pará-lo. Na falta de um marcador ideal talvez a melhor coisa seja a variação. Começa-se o jogo com o pesado McDyess, depois coloca-se o baixinho do Bogans e minutos depois já tenta-se o DeJuan Blair, depois podem começar a dobrar a marcação sempre que ele pegar na bola, depois xingar a irmã dele e depois colocar o Duncan vestido de palhaço com uma arma na mão.
Falando sério, eles não tem um marcador nato pra ele, só variando muito e fazendo o Dirk não saber o que esperar a cada posse de bola é que vão ter alguma chance de deixar o alemão desconfortável.

No setor ofensivo eles precisam de alguém além de Duncan e Ginobili. O primeiro já não domina jogos como antigamente, vai fazer seus 20 e poucos pontos e só, o segundo vai chamar o jogo quando a partida estiver para ser decidida, mas até lá alguém tem que ajudar a manter o Spurs no jogo. Ninguém precisa virar gênio de uma hora pra outra, mas só o Richard Jefferson conseguir fazer sua primeira cesta antes do terceiro quarto (estou assistindo ao jogo enquanto escrevo!) ou o Roger Mason acertar pelo menos um arremesso de três já será uma grande ajuda.

O diferencial que ninguém espera pode ser a volta do Tony Parker. Ele está começando os jogos do Spurs no banco e o motivo é bem claro, ele não está em condições de jogo, está lento, não ataca a cesta, parece um Jordan Farmar francês. Se, de algum jeito, ele conseguir voltar à velha forma, pode maltratar o Jason Kidd com sua velocidade e causar muitos problemas, como fez o Chris Paul quando destruiu o mesmo Kidd nos playoffs de 2008.

Previsão de resultado: Mavericks 4 x 2 Spurs. O Spurs tem chance de vencer, tem elenco talentoso, grande técnico e tudo mais, mas as coisas que eles precisam fazer para bater o Mavs são bem menos prováveis de acontecer do que as que o time de Dallas precisa. Levando em consideração os últimos meses da temporada, o Mavs está bem mais próximo do ideal para vencer essa série.


Phoenix Suns x Portland Trail Blazers


O que o Suns precisa fazer para vencer a série:
Do jeito que eles acabaram a temporada, atropelando todo mundo, a única coisa que eles precisam fazer é jogar como se fosse mais um jogo de temporada regular. O ataque está funcionando à perfeição, o Steve Nash está entrosado com todo mundo e nem a perda do Robin Lopez, que tinha entrado muito bem no time titular, tem feito tanta falta.

O grande ajuste que o Suns deve fazer para essa série é em relação ao Andre Miller. Como o Blazers não vai ter o Brandon Roy, que operou o joelho, ele vai ser o foco do ataque, tudo irá começar das suas mãos o tempo inteiro. Como o Nash é terrível na defesa, talvez fosse melhor para o Suns arranjar alguém (Jared Dudley, talvez?) para ser o encarregado de marcar individualmente o armador do Blazers.

Executando o ataque como estão acostumados e não sendo machucados pelo Andre Miller, o Suns deve passear nessa série. O Blazers é um timaço mas é impensável vê-los vencendo uma série inteira de playoffs sem o Roy.

O que o Blazers precisa fazer para vencer a série:
Milagre. Durante 7 jogos eles precisam dar um jeito de segurar o melhor ataque do final da temporada regular, o Steve Nash inspiradíssimo e principalmente o Amar'e Stoudemire, que foi o melhor jogador de garrafão do final da temporada, com sobras. Ao mesmo tempo em que fazem isso precisam que caras como LaMarcus Aldridge, Martell Webster e Andre Miller chamem a responsabilidade ofensiva em todos os momentos do jogo, até no quarto período, quando era o Brandon Roy que mandava no time.

Em alguns jogos, principalmente em casa, vemos o LaMarcus Aldridge levando vantagem no garrafão ofensivo ou o Webster acertando trocentas bolas de 3 pontos, mas terão que fazer isso com consistência, não vai ter folga. Também precisarão contar com a ajuda dos jogadores do banco, como o Jerryd Bayless e Rudy Fernandez. Não tenho dúvida de que todos eles são bons, mas lembra nos playoffs do ano passado contra o Rockets como a maioria desses mesmos jogadores caiu demais de produção e ficou tudo nas costas do Roy? Não dá pra apostar que vão fazer muito diferente nessa temporada.

Previsão de resultado: Suns 4 x 1 Blazers. Pode ser 4 a 2 se os coadjuvantes do Blazers atuarem melhor do que no ano passado, porque vontade para vencer não falta pra eles mesmo com mil contusões. Mas não é o bastante contra o Suns que está na sua melhor fase dos últimos anos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Secundário

Mo Williams todo feliz de ganhar uma massagem carinhosa do Varejão


Na NBA, jogadores secundários costumam ter certa dificuldade em serem notados. Marcar 50 pontos numa partida pode garantir uma entrada fácil no mundo da fama, dinheiro e mulheres, mas jogadores especialistas em outras áreas do jogo podem ter atuações fantásticas completamente invisíveis dos olhos do cidadão comum. Um bom defensor, por exemplo, precisa estar num time em que seu trabalho seja necessário, precisa torcer para a equipe ter um ataque competente de modo que ele possa se focar mais na defesa, e acima de tudo precisa estar num time vencedor. São muitas condições ao mesmo tempo, enquanto um bom jogador ofensivo se destaca muito mais até por quem apenas passeia os olhos pelas estatísticas. Mesmo gordo, fora de forma, preguiçoso, todo mundo sabia quem era Zach Randolph porque ele pontuava aos montes, ainda que se isso significasse a derrota de sua equipe. Agora as coisas com nosso gordinho favorito estão diferentes, ele está jogando como nunca, mas pense como excelentes defensores foram completamente esquecidos enquanto lembramos de Randolph pela eternidade.

Apenas faça um teste mental e tente lembrar de onde estão jogando Trenton Hassel ou Yakhouba Diawara, por exemplo, dois excelentes defensores (não vale colar no Google). O pior é que ambos sofrem em busca de minutos porque seus times precisam de outras coisas que os dois não podem oferecer, ou seja, caíram no lugar errado na hora errada. Uma caralhada de jogadores acaba desaparecendo nesse tipo de situação, até mesmo um punhado de pontuadores mais-ou-menos que seriam ídolos em times vencedores. Com o tempo, a ideia de que um jogador precisa estar na situação certa para ser notado começa a ficar mais clara e percebemos que, no fundo, vale mais a pena ser um jogador completamente secundário num time campeão do que ter um baita papel num time fracassado. Ninguém jamais lembraria do Bruce Bowen se ele defendesse num time fracassado, não importa quantas voadoras ele desse na cabeça de seus adversários. Ninguém jamais se lembraria do Mo Williams se ele fosse o arremessador fominha do Bucks. Mas quando o time vence, quando briga por títulos, esses jogadores secundários tornam-se divindades, seus talentos únicos são consagrados, carneiros são sacrificados em seus nomes.

Alguns jogadores percebem isso. Não estou falando dos mercenários estilo Malone, "sou bom pra caralho mas se eu não ganhar um anel de campeão não vão gostar de mim então vou estragar a brincadeira, desequilibrar a NBA e tentar entrar pra história." Me refiro, sim, aos jogadores bons que percebem que podem ser beneficiados por jogar com jogadores ainda melhores. São jogadores que conseguem colocar seus egos de lado, deixam de canto a vontade de mostrar tudo aquilo que podem fazer, e compreendem que ajudando grandes estrelas ou grandes sistemas acabarão constribuindo para seu próprio rendimento. Um exemplo claro é um dos nossos favoritos aqui no Bola Presa, Ron Artest. No Kings, provou que poderia liderar um time meia-boca, pontuar bastante, jogar de costas para cesta, arremessar do perímetro e defender como ninguém. Sempre forçou arremessos, nunca teve bom senso na hora de arremessar, então seu arsenal ofensivo sempre pareceu bobagem perto de sua defesa espetacular. Nos últimos anos, no entanto, pouco se falou sobre seu talento defensivo, até que ele percebeu que ajudar Kobe Bryant é o melhor modo de ajudar a si mesmo. Alguns jogadores poderiam reclamar de um papel mais limitado, de não poder mostrar todo o poder ofensivo, de abaixar a cabeça e beijar o bumbum de Kobe, dos minutos em quadra, da falta da bola em suas mãos, mas Artest entende a glória que o espera no futuro, quase como a centena de virgens que esperam um terrorista suicida muçulmano. Quietinho, na dele, sem arrumar problemas, sem pedir mais a bola, sem pedir mais espaço na equipe, Artest pode se dedicar à defesa e agora, porque está à vista de todo mundo e tem tudo para ganhar um anel de campeão, seu talento é amplamente reconhecido. Suas chances de levar o prêmio de melhor defensor da temporada nunca foram tão grandes, e olha que com a idade ele nem de longe anda defendendo como nos seus tempos áureos. Mas os torcedores do Lakers vão chupar o dedo mindinho do pé do Artest para sempre caso venha um campeonato, suas técnicas defensivas serão lendárias e um templo será erguido em sua honra. Enquanto isso, aos pouquinhos, mais e mais responsabilidade vai caindo em seu colo. Phil Jackson andou pedindo que Artest seja mais agressivo no ataque, pedindo mais a bola e arremessando mais. Dá pra imaginar que realidade alternativa é essa em que é preciso pedir para o Artest arremessar mais? O que acontece é que fazendo sua função direito, mais e mais espaço vai surgindo para o jogador secundário conforme for surgindo a oportunidade. Pode ser apenas um jogo em que o Kobe está mal e isso já é o bastante para a crítica e o público babarem em cima de uma excelente atuação salvadora de Artest, muito mais fácil do que ter que ficar chutando traseiro todos os jogos para ser percebido em algum time mequetrefe por aí.

Até um jogador pelo qual tenho tanta birra, o Mo Williams, se encaixa nessa história. No Bucks ele era um fominha maluco desesperado por atenção, ignorando ordens técnicas, se recusando a passar a bola para o Michael Redd (então estrela de seu time), arremessando sem critério nenhum. Quando foi para o Cavs, fiquei desesperado com a ideia de um fominha tirando a bola das mãos do LeBron James, mas a verdade é que Mo Williams percebeu rápido que sua vida é muito mais fácil em Cleveland. Se ele obedece direitinho e deixa o LeBron armar as jogadas quando quer, se ele só força arremessos quando o LeBron está no banco ou tendo um dia ruim, ele passa a ser o herói que salvou o dia - sem ter que salvar o time todos os dias. Basta um par de atuações boas quando LeBron está mal, basta se focar nos seus arremessos de fora, basta entender que sua grande chance de figurar entre os grandes está em ser menor do que ele queria ser em Milwaukee.

Curiosamente, Artest e Mo Williams se enfrentaram na rodada de Natal. A gente acabou engasgando de tanto chester (a famosa ave mutante) e passamos uns dias longe do blog, sem comentar a rodada natalina, mas para quem não viu é importante saber que o Cavs chutou o traseiro gordo do Lakers. Artest fez sua parte defensivamente, ao menos aquilo que um mamífero bípede pode fazer quando não está munido de armas de fogo, mas quem realmente deixou sua marca na partida foi o Mo Williams. Acertou suas bolas quando todo mundo esquece que ele está em quadra, não forçou nada e fez muitos pontos fáceis graças à defesa fortíssima do Cavs que voltou a se encontrar. Aliás, muita gente comentou que o Cavs estava fedendo no começo da temporada porque não sabia como encaixar o Shaq direito no ataque. A desculpa foi dada por vários jogadores, incluindo o LeBron, mas é uma baita de uma besteira porque o Shaq mal participa do ataque e a movimentação ofensiva continua aquela merda de sempre. O que o Cavs demorou pra se acostumar foi com o Shaq na defesa, sua presença no garrafão e como isso altera as ajudas defensivas da equipe. O ataque do Cavs é uma vergonha, mas funciona justamente porque todo mundo lá sabe que é secundário, todo mundo sabe seu papel, sabe que está na história por jogar com LeBron James, então ninguém tenta fazer o que não consegue (só o Varejão, mas o bizarro é que ele agora anda conseguindo, está jogando demais no ataque, vai saber de quem ele roubou o talento). A defesa, sim, é que o ganha os jogos para eles e agora que tudo está encaixado novamente, o Cavs volta a figurar entre os favoritos ao título. O Shaq é fundamental nisso porque compreendeu que está velho, quebrado, desdentado e no momento de sua carreira de ajudar outros jogadores mais novos. Ele acha divertido jogar com LeBron, toma umas caipirinhas com o Varejão, não reclama de jogar poucos minutos e nem de ser contratado só pra parar defensivamente outros jogadores específicos (no Suns ele chegou apenas com a função de marcar Duncan, no Cavs sua presença é só para marcar Dwight Howard).

O Lakers não soube lidar com uma defesa tão forte, com um Mo Williams secundário e orgulhoso disso, com uma arbitragem que não estava muito afim de marcar faltas no Kobe a cada entrada no garrafão, e com um Shaq que marcou direitinho o pirralho do Bynum. O Lakers continua sendo o grande favorito para o título e o Cavs volta a ser considerado, mas no grande jogo do Natal em que deveríamos ver o confronto dos melhores do planeta em Kobe e LeBron, quem roubou minha atenção foram os jogadores secundários que escolheram ser secundários e, por isso, brilham muito mais. Nada do Artest fedendo em Sacramento tendo que forçar arremessos ou do Mo Williams sendo um fominha no Bucks, os dois agora sabem que são apenas pequenas peças perto de grandes estrelas - e que serão lembradas pela história graças a isso. Quando o Jarryd Bayless diz que quer ser o Mo Williams para o Brandon Roy interpretando o LeBron, então, ele tem muita razão: aceitar ser um jogador secundário costuma ser mais recompensador do que tentar ser uma estrela solitária, e não faltam oportunidades de brilhar. Quando o Brandon Roy marcou 41 pontos contra o Nuggets na noite de Natal para ganhar o jogo numa boa, o Bayless não precisou fazer bulhufas, mas quando o Roy sentou no jogo anterior com dores no ombro, Bayless enfiou 31 pontos na vitória contra o Spurs. É possível ser inconstante, é possível ser mais-ou-menos, basta estar do lado das pessoas certas e aceitar isso. Aceitar, no universo de ego da NBA, é a parte mais difícil, claro. Tracy McGrady, por exemplo, não muito depois da minha análise sobre a oportunidade de ouro que estava recebendo com pouquinhos minutos em Houston, resolveu ir embora pra casa descontente com seu papel na equipe. Dizem que ele usava uma máscara de Allen Iverson enquanto fazia isso, mas não posso confirmar. Só posso afirmar que é preciso cabeça para aceitar um papel secundário, e que é bom ver o sucesso daqueles que topam. Mas sobre o T-Mac e seu futuro, a gente conversa depois. Será que algum time se interessa pela ex-estrela? Será que ele entende, como Shaq, que já é hora de ajudar os jogadores mais novos a terem espaço em quadra? Para seu bem, esperamos que sim.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Profundidade a prova

Free Hugs

Contusões servem para muitas coisas na NBA. Uma delas é para estragar jogos que a televisão comprou meses antes. Quantas vezes na temporada passada não fomos obrigados a ver o Wizards passar vergonha em rede nacional só porque um tempão antes a ESPN tinha achado que era uma boa idéia passar um jogo do Gilbert Arenas? Tortura das mais cruéis aquela.

Mas em outros casos as contusões obrigam os times a se virar e eles se viram muito bem. Exemplo mais óbvio que o Houston Rockets, que insiste em parecer melhor quando não tem T-Mac e Yao Ming, não existe.

Então quando o Blazers começou a querer parecer o Clippers, fiquei na dúvida sobre o que esse time seria. Em questão de semanas eles perderam o Greg Oden, o Travis Outlaw, o Rudy Fernandez, o Nicolas Batum, os novatos Jeff Pendegraph e Patrick Mills e até o técnico Nate McMillan se machucou ao mostrar um movimento de defesa em um treino da equipe. Era a hora de mostrar se a tal profundidade exemplar do Blazers era mesmo de verdade.

Eles começaram capengando, em um mês de temporada foram 4 derrotas em casa, contra 7 em toda a temporada passada. Chegaram ao cúmulo de perder para o Grizzlies dentro do Rose Garden. Nos últimos jogos perderam para o Knicks, depois para o Bucks, Cavs, e venceram o Kings num jogo suado e vencido na marra. Mas ontem parece ter começado uma nova fase.

Não que vencer o Suns fora do Phoenix tenha sido uma missão lá tão difícil. Invicto em casa, o time do Nash tem só 50% de aproveitamento fora. Mas o jogo de ontem foi simbólico porque mostrou superação em um time que parecia cada vez mais apático e deu uma luz de que formação eles podem usar para voltar a vencer.

Depois de pagar uma nota preta pelo Andre Miller, o Blazers, claro, está usando ele como armador titular, mas não tem dado nem um pouco certo. Quando a troca foi feita eu achei que um armador não deveria ser a prioridade do Blazers (e não foi, é verdade, eles tentaram o Millsap antes) mas que mesmo assim tinha sido um acerto. Na minha cabeça, embora ele não fosse veloz e jogasse na correria, talvez justamente isso fizesse com o que o Blazers fosse um time mais completo. Não teria como ele atrapalhar. Um cara experiente, que sabe distribuir a bola, poderia muito bem dar certo em um time talentoso daquele. Mas sua lentidão, o quanto gosta de ficar com a bola na mão e o fato de não ter um bom arremesso de longe estão incomodando muito mais do que eu poderia imaginar.

É mais ou menos como o Elton Brand no Sixers. Antes a gente achava que só faltava um cara de garrafão pra eles, agora que tem ele parece atrapalhar até quando joga bem. Mesmo quando num bom dia, parece que está indo para o lugar oposto do resto do time, um incomodo. Melhor o Speights num dia mediano do que o Brand num dia bom e melhor um Steve Blake coadjuvante do que um Andre Miller protagonista.

Ontem o Andre Miller jogou por 17 minutos apenas e o time perdeu por 7 pontos nos minutos em que ele esteve em quadra. Com o Blake a coisa andou melhor e o auge do Blazers no jogo foi quando o Jerryd Bayless assumiu a armação da equipe. Sim, aquele Bayless que o Blazers pegou no draft do ano passado, que foi o melhor jogador das ligas de verão e que não tinha um minuto de quadra sequer no ano passado.

No ano passado o Bayless só entrava no garbage time para enfrentar os Scalabrines da NBA. Era o Steve Blake titular, o Sergio Rodriguez reserva e depois ele. Nesse ano saiu o Sergio e entrou o Andre Miller. Mas o que o Nate McMillan deve ter sacado agora, na marra, é que o Bayless não tem nada a ver com nenhum desses e que por isso mesmo pode ser o melhor parceiro para o Brandon Roy.

O Roy é daqueles shooting guards, os armadores da posição 2, que gostam de ter a bola na mão. Gosta de ditar o ritmo do jogo principalmente nos momentos decisivos. Caras assim pedem ajudantes que o complementam, como caras que arremessam de três ou cortam para a cesta atrás de um passe. O Andre Miller prefere comer repolho com mostarda a fazer qualquer uma dessas duas coisas. Não à toa, o Steve Blake, bom arremessador, era visto em quadra nos quartos períodos.

O Bayless é um mini Brandon Roy. É menor, mais elétrico, também gosta de bater pra dentro e tem um arremesso decente de longe. Ontem, com os dois em quadra, a bola podia ficar na mão de qualquer um deles e um podia fazer o papel do outro. Vimos o Bayless infiltrar pra fazer a cesta (ou tomar a falta, ele é a Rihanna num garrafão de Chris Browns) ou passando para o Roy, que infiltrava e passava para o Bayless, que ou chutava de três ou estava nas costas de um pivô recebendo a bola. O time ficou tão dinâmico com os dois dividindo os papéis dos dois armadores que o Suns não sabia mais o que fazer.

O Phoenix chegou a abrir uma grande diferença, mas liderados pelos 27 pontos do Roy e os 29 (em 29 minutos) do Bayless, a vitória de virada, empolgante, aconteceu. Engraçado que o grande jogo da carreira do Roy, que o levou ao status de estrela, foi também contra o Suns, quando marcou 52 na temporada passada. O Bayless não é do nível dele, mas parece saber disso. Contou em uma entrevista após o jogo que já conversou muito com o seu companheiro de time dizendo que os dois podem fazer em Portland o que Mo Williams e LeBron James fazem em Cleveland.

No Cavs o Mo Williams é meio armador, meio arremessador. Eventualmente o LeBron quer abraçar o mundo e vira armador, transformando o cabeça de azeitona em seu shooter particular. Essas ações divididas de jogar com ou sem a bola dão certo nos melhores dias do Cavs e acho que podem dar muito certo no Blazers também. Eu ainda começaria os jogos com o Steve Blake de armador principal, por eles ser mais tranquilo que o Bayless, que deve tomar a mesma água do Joakim Noah. E com certeza começaria a procurar pela NBA times interessados em levar o Andre Miller.

No fim das contas esse momento ruim do Blazers está servindo para muitos jogadores considerados bons terem espaço para mostrar que são mesmo. O Martell Webster, por exemplo, está conseguindo provar que é muito mais que um arremessador, que pode brigar por rebotes, infiltrar ou humilhar o Grant Hill. Já o Pryzbilla a gente já sabe que é um bom pivô e quebra um galhão na ausência do Oden.

Ou seja, o time é bom, o elenco ainda é profundo demais. Só que o elenco cortado pela metade exige que os jogadores lidem melhor com mais minutos em quadra, com o cansaço, tem menos gente para cobrir um jogador que está num dia ruim e alguns caras acostumados a jogar com os reservas precisam se adaptar aos titulares. Dificuldades que vão deixar o Blazers longe da briga pelo topo da divisão Noroeste mas mais do que preparados para brigar de igual pra igual com qualquer um nos playoffs. E Bayless, a gente entendeu o que você quis dizer, mas você nunca começa a carreira na NBA dizendo que quer ser o Mo Williams, nunca.