terça-feira, 30 de setembro de 2008

Aposentados

Faça uma cara de velho aposentado


Durante nossa semana dos técnicos foram anunciadas duas aposentadorias. As duas passaram despercebidas por muita gente, refletindo a situação que cada um dos jogadores vivia, longe do auge. Mas o Bola Presa tem memória e presta uma singela, humilde, pacata (e outros adjetivos que significam que é o trabalho foi mal feito) homenagem a esses dois jogadores que fizeram parte da NBA e nos divertiram na última década.


Shareef Abdur-Rahim

Eu era uma daquelas pessoas esquisitas que ao invés de ter um Playstation tinha um Dreamcast. Tudo culpa do Danilo que me mostrou aquele maldito e bendito videogame. Lá gastei horas preciosas da minha vida jogando NBA 2k2, que cumpria seu papel de compensar a falta de jogos da NBA na TV, já que naquela época era difícil assistir jogos pela internet.

Uma das coisas mais legais do jogo era que os narradores tinham falas específicas para certos jogadores. Alguns óbvios, como o Iverson ("Allen Iverson is sweet, 6 foot, 160 pounds and the league-leading scorer? Simply unbelievable!") e outros nem tão óbvios, como o Voshon Lenard. Mas o que mais me chamou a atenção foi quando eu joguei com o Atlanta (vício, eu sei) e ouvi que o Shareef Abdur-Rahim tinha uma fala só pra ele, que dizia que ele era o melhor jogador da NBA a não estar no All-Star Game e que já merecia.

Sério mesmo? Os números eram bons, mas o Hawks não ganhava nem de time feminino. Precisava que a ESPN transmitisse algum jogo do Hawks pra saber se o jogo tava mentindo pra mim. Eu levo narração de pixels muito a sério.

Graças ao Nenê, eles passaram. O Brasil queria ver o primeiro brasileiro decente em ação na liga e arranjaram de colocar um jogo do Nuggets no ar que originalmente eles não iriam passar. Por obra do destino, o jogo era contra o Hawks. O jogo me marcou porque foi o pior jogo de NBA que eu já vi, aquele Nuggets não ganhava nem o campeonato de Tocantins e o Hawks era um time ruim com jogadores bons. Um caso que volta e meia aparece na NBA.

Shareef Abdur-Rahim era um desses jogadores bons, logo fiquei impressionado com ele. Fui correr atrás e os números eram ainda melhores do que eu sabia. Shareef foi a terceira escolha do forte draft de 1996, para azar dele foi parar no Vancouver Grizzlies, time horripilante que tinha nascido um ano antes e que na sua história na NBA só se destacou porque foi a primeira equipe a ter uma página na internet, em 95.

Logo Shareef tomou conta do time e liderava a equipe em todas as estatísticas possíveis. Tirando seu ano de novato, quando teve média de 18 pontos, ele teve média superior a 20 em todas as temporadas que passou no Canadá, além de médias que variavam de 7 a 9 rebotes. Seguindo a sugestão do jogo do Dreamcast, em 2002 ele realmente foi para o seu único All-Star Game, mas aí ele já tinha saído do Vancouver Grizzlies e estava no seu primeiro ano no Atlanta Hawks.

No time da Georgia ele continuou jogando demais. Desfilando seu lindo arremesso de meia-distância e lindas fintas no garrafão, ele se tornou o líder do time que tinha o trio que mais fazia pontos na NBA, junto com o Glenn "Big Dog" Robinson e o Jason Terry. Mas como o Hawks é mais zicado que o Botafogo, o trio não deu em nada.

Então Shareef foi trocado para o Portland na troca que levou o Rasheed Wallace a jogar um jogo pelo Hawks antes de ir para o Pistons. No Portland, Shareef jogou mais como sexto homem do que como titular, mesmo assim manteve boas médias de pontos, com 16 por jogo. Falando em pontos, um recorde que passa despercebido é que Shareef é o 7° jogador mais jovem a alcançar 10.000 pontos na carreira. Mais rápido que ele só chegaram lá LeBron James, Kobe Bryant, Shaq, Kareem Abdul-Jabbar e Bob McAdoo.

Depois de dois anos no Blazers, ele tentou ir para o Nets, mas lá não foi aceito. Apesar de quase nunca ter perdido jogos na carreira por contusão, o Nets disse que o joelho dele estava zoado demais para eles assinarem um contrato com ele. O Kings não pensou duas vezes e fisgou o cara, que jogou normalmente na temporada seguinte e, acreditem, pela primeira vez, jogou uma série de playoff na vida! Mas aí no ano passado ele não conseguiu jogar por causa daquele joelho e na semana passada anunciou que se aposenta justamente porque o seu joelho não aguenta mais. O Nets acertou o diagnóstico um ano antes! Nem o Drauzio Varela pode pôr defeito nessa!

Então, adeus Shareef Abdur-Rahim, o talento mais desperdiçado da NBA: 13 temporadas, 1 All-Star Game, 1 série de playoff e talento pra dar e vender. E o Scalabrine acabou de ganhar um título, não foi?






Jason Williams

Em comum com o Shareef Abdur-Rahim, apenas o fato de terem ambos jogado pelo Sacramento Kings. De resto, nada.

Enquanto o Shareef era pura finesse, no maior estilo sommelier francês conversando com o príncipe de Mônaco sobre o último torneio de críquete, o Jason Williams era um moleque correndo pela escola, batendo nos nerds, levantando a saia das meninas e fazendo cuecão nos amigos. Uma vez perguntaram para o J-Will do que ele mais gostava em seus tempos de faculdade, ele respondeu "De ser expulso da escola".

A carreira do Jason Williams na NBA se divide em três partes. A de resultado, a de aprendizado e a que ele foi moleque, mo-le-que.

A parte de resultado foi a sua última, em Miami, quando foi um armador com bom arremesso de três, ainda rápido mas por muitas vezes burocrático, e lá foi essencial no título de 2006 como armador titular.

Mas para virar esse cara quase calmo, tranquilo, que sabe organizar um jogo e não só correr como um doido, ele precisou passar por um período de transição, que aconteceu no Memphis Grizzlies sob a tutela do técnico Hubie Brown. O velhinho mostrou o caminho das pedras pro Jason Williams e lá ele se tornou, pela primeira vez na carreira, um armador não só talentoso, mas eficiente. Esse processo não foi nada fácil, mas foi decisivo para o J-Will ganhar seu título com o Heat.

Quando ele chegou em Memphis, foi perguntado sobre a qualidade do time e a resposta dele foi um simples "We suck". Algo que poderia ser traduzido como "Somos horríveis" ou na língua do Bola Presa, "A gente fede". Depois ele completou "Aceite os fatos, nós não somos bons. Pra mim somos o pior time da NBA hoje."

E era verdade, ele era polêmico mas nunca dizia coisas só para ser polêmico. Depois, quando o time começou a melhorar (chegaram a ir para os playoffs com o 5° melhor recorde do Oeste), ele disse que não se arrependia de ter dito aquilo porque eles realmente eram horríveis quando ele tinha dado aquela entrevista, mas que depois tinha melhorado. Essa espontaneidade também foi marcada na sua aposentadoria. Mesmo já tendo assinado com o Clippers, ele de repente ligou para o time na semana passada e disse "Não sinto que estou com vontade de ir aí e jogar, acho que vou mandar os documentos para a aposentadoria". Simples assim.

Mas nesse momento de lembrar a carreira de Jason Williams, o que mais marca não é sua fase de campeão no Heat e nem a de aprendizado no Grizzlies, o que ele deixa para a história é sua fase no seu primeiro time, o Kings. Lá que ele encantou o mundo e se transformou em ícone da NBA por anos.

Seus dribles eram geniais, ele era mais veloz do que qualquer Monta Ellis é hoje em dia e seus passes são capazes de gerar gargalhadas de tão inimagináveis. Mas muitas vezes resultavam em erros que faziam os técnicos e torcedores cortarem os pulsos, porque ele não se importava se era o primeiro ou o quarto período, ele tentava o que queria e às vezes errava na hora que não podia e entregava o jogo pro adversário. Mas quando dava certo era certeza de que iria ficar passando na TV por dias e dias e todo mundo ia querer imitar no parque no fim de semana.

Se o Jason Williams vivesse na era YouTube, pode ter certeza de que ele seria uma mega celebridade até entre quem não acompanha o basquete de perto. Coisa de artista.

Mas dane-se o que eu falo sobre ele porque arte não é pra ser discutida em blog de basquete, arte é para ser vista:


Reportagem com jogadores da NBA sobre Jason Williams




As 10 melhores jogadas de Jason Williams




5 minutos de jogadas do White Chocolate




Quem vê esses vídeos e não fica com uma vontade incontrolável de jogar basquete, não gosta do esporte.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Análise dos técnicos - Divisão Noroeste

Acabaram as análises e o Isiah não apareceu. Que pena...


Finalmente chegamos ao fim da nossa semana especial de técnicos. É a vez da divisão Noroeste do estreante (e ridículo) Thunder. Aproveitem essa última parte e parem de nos cobrar posts sobre os técnicos!


George Karl, Denver Nuggets

Parece minha sina: O George Karl também treinou o Bucks. Será que é pré-requisito treinar os veadinhos antes de ir para o Oeste? Bom, mas antes do Denver e do Bucks, o Karl já treinava fazia um tempo, desde a temporada 84-85, quando treinou o Cavs, depois o Warriors e o Sonics, onde realmente ganhou mais fama.

O engraçado desse time do Sonics que o George Karl fez era que ele não tem nada a ver com o atual Nuggets. Era um time equilibrado! Tinha o sétimo melhor ataque da NBA e a segunda melhor defesa! É sério, George Karl e melhor defesa juntos.

Acho que podemos dar um mérito também para os jogadores naquele Sonics, o Gary Payton era o armador principal e antes de ficar velho (para quem só lembra dele no Lakers e Heat) foi um dos melhores defensores de todos os tempos, merecendo até o apelido de "The Glove", ou "A Luva", tal era a forma que ele marcava seus adversários. Mas se aquele time tinha o Payton, o Nuggets tem o Camby, que foi eleito melhor jogador de defesa por duas vezes e nem assim o Denver chegou a ter uma defesa próxima do razoável.

O lado negativo da passagem do Karl pelo Sonics foi em 1994, quando levou o Sonics a 63 vitórias na temporada regular mas foi o primeiro time cabeça-de-chave número 1 a perder para o número 8, quando perderam para o Denver de Dikembe Mutombo.

O que dizem é que os jogadores do Nuggets não respeitam mais o George Karl e ele mesmo parece já ter desistido. Esses rumores ficaram ainda mais fortes nos playoffs da temporada passada quando o Lakers destruiu e humilhou o Nuggets. Dizem que caras como o Kenyon Martin, o Carmelo, (principalmente o) JR Smith e até o Iverson não davam ouvidos a ele, que com o tempo parou de se importar, o que não me deixa entender porque ele ainda trabalha lá.

Não duvido do talento do George Karl porque ele treinou um timaço no Bucks, aquele com o trio Cassell, Ray Allen e Glenn Robinson, que era um time com uma defesa fraca mas com o melhor ataque da NBA e que mesmo assim ficou a uma vitória da final da NBA. Todos os times de Karl eram bons no ataque, mas só o que era bom na defesa chegou na final. Aposto que ele sabe disso, mas ele precisa enfiar isso na cabeça de seus jogadores, para que comecem a jogar decentemente na defesa e com um pouco menos de improviso no ataque.

E não é que eu tenha algo contra o improviso no jogo, acho lindo, mas quando feito por quem sabe. O Nash sabe improvisar, o Kidd sabe, o JR Smith não sabe, o Carmelo acha que improviso é arremessar de onde ele recebe a bola. O George Karl não tem o menor controle desse time e a melhor coisa pra ele era simplesmente dar o fora!

Ah, ele tem o site DemitaGeorgeKarl.com! Parabéns pra ele!


Randy Wittman, Minnesota Timberwolves

Em seus 4 anos como técnico, Wittman perdeu 2 jogos em cada 3 que disputou na carreira, um lixo. Mas não foi só culpa dele.

Seu primeiro time foi o Cavs do final do século passado, aquele time que tinha Shawn Kemp e Danny Ferry em fim de carreira e Andre Miller em começo (ruim) de carreira. Era um elenco péssimo e a 3° pior defesa de toda a liga. Mesmo assim ele continuou no time no ano seguinte, que tinha o Andre Miller jogando bem mais e já tinha o Zydrunas Ilgauskas no elenco, mas Kemp, o cestinha, tinha ido embora e o recorde do time piorou de 32 para 30 vitórias. Wittman foi mandado embora.

Então ele voltou para o Wolves. Sim, voltou. Wittman foi assistente técnico do Wolves em três ocasiões diferentes, somando 10 temporadas pela equipe. Depois de tanto tempo por lá, até foi natural colocar ele para treinar o time.

Randy Wittman é considerado um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do Garnett na NBA, ele chegou lá como um adolescente magrelo e com a ajuda de Wittman, entre outros, claro, chegou a ser quem é hoje. Talvez até pensando nesse relacionamento entre os dois é que tenham colocado ele como técnico, mas a relação só durou uma fracassada temporada, depois Garnett foi para o Boston.

Não foi tão ruim para o Celtics, afinal eles receberam outro pivete vindo do colegial em troca, Al Jefferson, e o Wittman tem a experiência necessária pra fazer ele virar uma potência na NBA, só vai faltar mais quatro jogadores e banco de reservas.

Fucei por uns fóruns do Wolves na internet e quase todos os fãs sempre reagem a um pedido de demissão do técnico com a resposta "Mas não é culpa dele, esse time é muito ruim!", ou "Não é culpa dele, não foi ele que mandou o Garnett por nada!" ou ainda "Ninguém faria melhor que ele, olha quanto cara ruim!".

Então o Wittman deve ficar por lá mais um tempo, já que todo mundo sabe que não é culpa dele. O seu emprego só corre risco porque se o bicho pegar, o verdadeiro culpado, o manager Kevin McHale, irá demitir o técnico antes de admitir que só fez merda e dar o fora. Só para ilustrar o que o McHale fez, antes do draft de 2006 ele recusou uma oferta que seria a 4° escolha daquele draft mais Tyson Chandler e Luol Deng pelo Kevin Garnett. Se você lembrar que o Wolves tinha a 6° escolha naquele ano e a usou para pegar e logo depois mandar embora o Brandon Roy, o McHale teve a chance de montar um Wolves com:

Brandon Roy
Corey Brewer (escolhido no ano seguinte)
Luol Deng
LaMarcus Aldridge (aquela 4° escolha!)
Tyson Chandler

Que tal? Daria até pra colocar a culpa no técnico em caso de fracasso.


Nate McMillan, Portland Trail Blazers

Lembra que eu falei do Sonics do George Karl no começo do texto? Um dos pilares daquela defesa, além do Payton, era o Mr.Sonic, como era conhecido Nate McMillan.

McMillan foi draftado pelo Seattle Sonics em 1986 e ficou lá por toda sua carreira. Depois, em 1998, virou assistente técnico do time e em 2000 virou técnico. É uma história única. Ele foi jogador, assistente e depois técnico do mesmo time, sem nenhum ano de intervalo. O Avery Johnson fez quase isso no Dallas, mas ele não tinha passado a carreira toda no Mavs.

Depois de anos discretos treinando o Sonics, vendo acabar a era Payton e o início da era Ray Allen, mas sempre sem resultados expressivos, com apenas uma visita à primeira rodada dos playoffs. Mas então, finalmente, no seu quinto ano como técnico, ele comandou o time mais surpreendente que eu já vi jogar.

A equipe tinha Ray Allen e Rashard Lewis, grandes jogadores, mas completavam a equipe Luke Ridnour, Reggie Evans e Jerome James. Uau! Claro que ainda tinham as valiosas ajudas de Vlad Radmanovic, Antonio Daniels e Flip Murray, mas mesmo assim é absurdo. Eles conseguiram 52 vitórias, foram para a segunda rodada dos playoffs e deram uma canseira no Spurs, que venceu em 6 jogos. Eu nunca entendi esse time, não sei porque fez sucesso e admiro eles demais, principalmente o Nate McMillan, que ganhou muita moral comigo desde então.

Mas todo mundo resolveu sair por cima e não mostrar que eram uma farsa. Jerome James assinou um contrato milionário com o Knicks, Evans foi para o Nuggets, Daniels foi para o Wizards e para acabar com tudo, o próprio McMillan, pela primeira vez na carreira, iria sair do Sonics.

Para desespero geral do povo de Seattle, ele decidiu ir para o Blazers, o mais fervoroso rival de divisão do Sonics. Isso deu muita discussão na época, era impensável o "Mr.Sonic" virar um Blazer, mas ele foi, talvez já sentindo que as coisas em Seattle não iam pra frente.

No Blazers ele tem tido uma melhora a cada temporada. Foram 21 vitórias no primeiro ano, depois 32 e no ano passado impressionantes 41, além de uma sequência de 13 vitórias seguidas e outras tantas boas atuações. O Blazers dessa última temporada não foi um time muito estável mas fez partidas espetaculares, chegou a ganhar de times muito fortes com atuações convincentes. Agora é esperar a consagração, se com Reggie Evans e Jerome James no elenco o McMillan foi longe, com Aldridge e Oden o céu é o limite.


PJ Carlesimo, Oklahoma City Thunder

O Carlesimo tem quatro momentos em sua carreira como técnico. Um bom, um médio, um ruim e o outro surreal.

O momento médio foi quando treinou o Portland Trail Blazers. Foram três anos comandando um time mediano, que chegou nos playoffs em todas as temporadas mas sempre perdeu na primeira rodada. O típico caso do time que não é nem bom e nem ruim, não ganha título e não tem escolha boa no draft. Um tédio.

O momento bom foi entre 2002 e 2007, quando foi o principal assistente técnico do Gregg Popovich no Spurs. Ele esteve presente nos títulos de 2003, 05 e 07.

O momento ruim foi no ano passado. Apesar do elenco fraco, o Carlesimo passou vergonha com o Sonics: foram apenas 20 vitórias e uma quantidade infinita de partidas humilhantes. Eles chegaram a tomar 168 pontos do Denver em uma partida sem prorrogação! Por mais jovem e incompetente que seja um time, não pode tomar 168 pontos! Aliás, nos 4 jogos contra o Denver na temporada passada o Sonics tomou uma média de 143 pontos por jogo. Meu time do ginásio não tomava tanto ponto.

O momento bizarro da carreira do Carlesimo foi no Golden State Warriors. Lá ele já tinha fama de não saber lidar com jogadores jovens (o que torna a contratação dele para comandar Durant e cia. uma atitude digna de nota!), de ser grosseiro e de não saber tirar o melhor da equipe. O mal-estar chegou ao limite no dia 1 de dezembro de 1997, quando ele criticou o Latrell Spreewell, então estrela do time, por causa de um passe no treino.

Spree não pensou duas vezes, partiu para cima de Carlesimo e começou a enforcá-lo. Foram 15 segundos de ataque, que só parou quando os jogadores conseguiram afastar o companheiro. Um tempo depois o Sprewell comentou o assunto dizendo que ele estava tão descontrolado naquele momento que se não o separassem ele teria enforcado o técnico até a morte. Sério, nem o Djalminha foi tão longe.

Depois de ver no ano passado o Carlesimo deixar o novato Jeff Green tomar 48 pontos do Kobe na cabeça sem ser substituido pelo Carlesimo, acho que ele está mais próximo de ser enforcado por um jogador do Thunder do que de ganhar títulos como na sua época de assistente técnico do Spurs. O PJ Carlesimo tinha que ter ficado no Spurs e ter sido o Murtosa do Popovich.


Jerry Sloan, Utah Jazz

Dois times marcam a carreira de Jerry Sloan. O primeiro, claro, é o Jazz. Ele é técnico do Jazz desde a temporada 88-89, ou seja, completará 20 anos como técnico do mesmo time e foram 20 anos brilhantes. Desde 89 até 2003, Sloan não deixou nem por um ano de ir para os playoffs, chegando em 5 finais de conferência e duas finais da NBA.

O time, como todos sabem, era liderado pela dupla John Stockton e Karl Malone, dois dos melhores jogadores de basquete em todos os tempos. O esquema tático do Sloan era conhecido e usava e abusava do talento dos dois craques. O principal artifício era o "pick and roll", jogada que se utilizava do entrosamento dos dois, da visão de jogo do Stockton e da combinação de bom arremesso de meia distância e de infiltração do Malone.

Então soma-se a isso bons arremessadores e jogadores sempre usando a força para cortar em direção à cesta para receber os passes de Stockton e você tem um time eternamente competitivo. Todos os anos o Jazz estava lá incomodando todo mundo, não tinha erro, podiam entrar e sair jogadores mas se tinha Malone, Stockton e Jerry Sloan, o Jazz estava na briga. O título só não veio por causa do outro time na vida de Jerry Sloan.

Por dois anos seguidos, o Jazz perdeu a final da NBA para o Chicago Bulls de Michael Jordan. O mesmo Chicago que tem a camiseta número 4 aposentada por causa de Sloan.

Sloan nasceu no estado de Illinois, onde fica Chicago, e jogou apenas uma temporada no Baltimore Bullets antes de se transferir para o Chicago Bulls no ano em que o time nasceu, até por isso o seu apelido era "O Bull original". Lá ele fez fama defendendo como um doido, indo para dois All-Star Games, levando o time para os playoffs e como líder do único título de divisão do Bulls fora da era Jordan.

Em uma história parecida com a do Nate McMillan, Sloan logo que se aposentou (por causa de contusões no joelho) virou olheiro do time e logo depois técnico, treinou por 2 temporadas e meia, depois foi mandado embora.

No Jazz, depois de perder os títulos para o Bulls, não conseguiu mais repetir o sucesso de antes e mesmo sem Jordan na liga, o Jazz já não conseguia mais passar pelas novas potências do Oeste, como Spurs e Lakers. Aí foi a hora de Stockton se aposentar e do Malone levar seu pé frio para Los Angeles.

Todo mundo pensava que era a desculpa certa para o Sloan pedir as contas e ir embora, mas não, ele permaneceu fiel ao time e comandando um elenco ridículo não foi para os playoffs pela primeira vez em 2004. Não foi de novo em 2005 e 2006, mas nesse tempo ele não abandonou aquele mesmo velho esquema tático que deu certo durante mais de uma década e aos poucos foi montando o time com as peças necessárias para o esquema dar certo de novo. Veio o armador com visão de jogo (Deron Williams), o ala de força com potência e arremesso (Boozer), os arremessadores (Okur e Korver) e os jogadores de força que estão sempre cortando em direção à cesta (Brewer, Kirilenko, Harpring).

Se fosse pra definir Sloan com uma palavra, seria "estabilidade". Sempre o mesmo esquema, a mesma calma, a mesma cobrança por defesa e jogo físico. O título pode não vir nunca, mas enquanto ele tiver jogadores nas mãos vamos ver ele e seu Jazz nos playoffs. E acho que ele só pára quando morrer.

domingo, 28 de setembro de 2008

Análise dos Técnicos - Divisão Central

"Vamos lá, primeiro a gente mata o Scott Skiles, depois eu vou para
o garrafão, você passa a bola pra mim, e aí..."



Apesar do pequeno atraso no cronograma (sabe como é, minha mãe comeu minha lição de casa, passei num buraco e furei os quatro pneus, essas coisas) estamos de volta com nossa Semana dos Técnicos. Dessa vez vamos dar uma olhada na Conferência Leste, mais especificamente na Divisão Central. São alguns dos técnicos mais jovens de toda a NBA, incluindo dois treinadores novatos e, para finalizar, o cara mais insuportável desse hemisfério, tentando sua sorte com um time novo. Vamos lá!


Vinny Del Negro, Chicago Bulls

Lembra quando o Bulls impressionou todo mundo ganhando 49 partidas na temporada regular com um elenco jovem composto por Deng, Ben Gordon e Hinrich? E quando o time fedeu perdendo 49 partidas na temporada passada e dando um jeito de se livrar de Ben Wallace, contratado como a peça que faltava para chegar a um título? Bem, o fracasso foi demais para a diretoria do Bulls, mandaram o técnico e pé-no-saco Scott Skiles embora e foram atrás de dois possíveis substitutos: Mike D'Antoni, que prefiriu ir comandar o Knicks, e Doug Collins, que preferiu continuar comentando jogos na televisão. Sem os dois favoritos para o cargo, o Bulls resolveu apelar para um treinador novato, o ex-jogador Vinny Del Negro.

Gostaria de ser capaz de explicar o motivo dessa escolha, mas não consigo pensar em nada que não seja sua força nominal. Del Negro não tem qualquer experiência como técnico ou auxiliar técnico, apenas foi comentarista, trabalhou na parte administrativa do Suns e tem um nome bacana capaz de vender vários CDs de música pop para garotas.

Os responsáveis pelo Chicago Bulls afirmaram que Vinny foi o que se saiu melhor nas entrevistas para o emprego, cheio de novas idéais e uma vontade enorme de aprender. Mas não é o que todo mundo diz em entrevistas de emprego? "Sim, senhor, tenho muita vontade de aprender, sim. Defeito? Ah, eu sou perfeccionista, sabe? Gosto de tudo feito direitinho, faço até hora extra se for necessário." O pessoal no Bulls não tem experiência em mentiras de escritório.

Ao menos o discurso do Vinny ao assumir o time foi sensato. Alegou estar ansioso para dar mais e mais minutos para Thabo Sefolosha, Tyrus Thomas e Joaquim Noah, ou seja, colocar pra jogar o núcleo jovem do time que passou muito tempo no banco na época do Skiles. Além disso, contratou como assistentes técnicos dois veteraníssimos: Del Harris, de 71 anos, e Bernie Bickerstaff, de 63. Os dois foram técnicos de moderado sucesso e afirmaram que Vinny, de apenas 41 anos, absorve cada palavra deles com o respeito e o afinco de um pirralho nerd que senta na primeira fileira da sala de aula (mas não usaram essas palavras, claro). O resultado disso a gente vai ver em breve, mas deve levar algum tempo para que o treinador consiga uma voz própria e dê uma identidade ao time. Como o elenco é jovem, parece que o clima é oficialmente de apagar qualquer rastro de pressa em Chicago. Hora de pensar no futuro.


Mike Brown, Cleveland Cavaliers

Se montar um esquema de ataque no basquete fosse um teste de QI, o resultado do Mike Brown diria que "sua inteligência é equivalente a um mico de circo". Uma criança de 2 anos ou a Luciana Gimenez - que são inteligências equivalentes - seriam capazes de montar uma tática mais complexa do que "passem a bola para LeBron e saiam do caminho".

Embora o Cavs seja seu primeiro time de verdade, Mike Brown foi assistente técnico de Gregg Popovich, naquele Spurs campeão da NBA em 2003, além de assistente técnico do Rick Carlisle no Pacers que foi para a Final do Leste em 2004. Ou seja, o sujeito sabe o que são times vencedores, tem experiência nos playoffs e é famoso por ser um grande especialista em defesas. Comandando o Cavs, colocou sua equipe sempre entre as melhores defesas e entre os líderes em rebotes defensivos e ofensivos. Foi campeão do Leste e sempre faz estrago nos playoffs, então como pode ser tão criticado e chamado de burro por aí? Basta assistir um punhado de jogos do Cavs e dar uma olhada em como o ataque funciona, na bagunça, na falta de movimentação, na falta de jogadas planejadas. A não ser, é claro, que ele tenha planejado e treinado deixar quatro jogadores parados olhando para o teto enquanto o LeBron faz chover e anda sobre as águas para fazer qualquer coisa acontecer.

Se sou um defensor do LeBron James, isso deve-se em grande parte à existência do técnico Mike Brown. Eu vejo LeBron querendo envolver seus companheiros, querendo passar a bola, tendo físico para jogar de costas para a cesta, dentro do garrafão, versatilidade para jogar em várias posições, armar o jogo volta e meia. Mas também vejo o técnico mais bocó da atualidade usando o LeBron sempre da mesma forma, mesmo quando ele recebe marcação dupla ou até mesmo tripla. Kobe e Jordan foram treinados pelo Mestre Zen, Phil Jackson. O que teria sido deles se fossem treinados pelo mosca-morta do Mike Brown? É insuportável ver um dos melhores jogadores da NBA, um dos maiores talentos físicos a jogar essa budega, ser tão pessimamente utilizado por seu técnico. Se LeBron sair de Cleveland como dizem todos os boatos, não será apenas porque a diretoria não consegue colocar à sua volta um elenco decente. Será também porque seu técnico não presta, mesmo montando defesas poderosas e tendo vencido o Leste. Tá certo, ele é o técnico mais novo da NBA com apenas 38 anos (só alguns meses mais novo que o Lawrence Frank), mas não parece mostrar nenhum sinal de que está disposto a aprender e mudar seu modo de lidar com o jogo.


Michael Curry, Detroit Pistons

Ex-jogador do Pistons e assistente técnico da equipe nos últimos anos, Michael Curry acabou ganhando pontos de experiência o bastante para evoluir para o posto de técnico depois que o Flip Saunders rodou. O Saunders era um bom técnico, especialista na parte ofensiva, com uma defesa questionável, que levou o Wolves e o Pistons para os playoffs quinhentas vezes mas seus times sempre amarelam na hora mais importante. Coisas como motivação e confiança do elenco passaram a se tornar um assunto comum e o Pistons decidiu tomar uma providência.

Michael Curry não tem experiência alguma como treinador mas foi escolhido simplesmente porque o elenco confia nele. Como assistente técnico, era muito respeitado por todos os jogadores como sendo um cara durão e exigente. É esse tipo de exigência, motivação e confiança que, espera-se, seja o que leve o Pistons a não ser um time que joga no piloto automático muitas vezes e perde justamente quando não pode.

O Michael Curry já vinha sendo cotado para ser técnico faz um tempo. Quando o Suns mandou o D'Antoni empilhar coquinho na descida, tentou entrar em contato com o Curry mas o Pistons não deixou. Eram dois os assistentes técnicos em Detroit, Michael Curry e Terry Porter, e apenas o segundo teve permissão para falar com o Suns. Acabou sendo contratado e, pouco tempo depois, o Curry assumiu o Pistons. O mercado está em alta para assistentes técnicos de Detroit.

Nas declarações que deu até agora, Michael Curry reclamou da preparação física do Pistons e já avisou que vai exigir muito mais. O que ele quer é o físico de seus jogadores aguentando os playoffs numa boa, então todo mundo tem que se apresentar antes da temporada começar com o condicionamento em dia. Além disso, já avisou que Rasheed Wallace, em especial, terá que estar melhor fisicamente justamente porque jogará muito mais no garrafão durante essa temporada. Ou seja, o cara chegou chamando todo mundo de gordo, colocando todo mundo para correr e fazer abdominais, e obrigando o Sheed a ficar lá embaixo do garrafão, algo que mataria ele de tédio? Quanto tempo vai levar para os jogadores do Pistons se encherem dessa mané e tacarem ele pela janela?


Jim O'Brien, Indiana Pacers

Lembrar de Jim O'Brien é lembrar daqueles bons tempos em que o Celtics desafiava as leis da lógica e do bom senso e vencia jogos, mas sem ter um elenco que parece um All-Star Game e ganha anéis mesmo com o babaca do Doc Rivers. Naquela época, o Celtics era formado por Paul Pierce e Antoine Walker, quebrava todos os recordes em bolas de 3 pontos arremessadas e era muito divertido de assistir. Me sinto velho lembrando de um Antoine Walker retardado porém sensacional, que levava seu time às vitórias. Naquela época a gente podia atravessar a rua sem olhar para os lados e continuar se perguntando quando é que o Papa João Paulo II ia finalmente morrer.

Jim O'Brien era responsável por um ataque veloz, de contra-ataques, baseado no jogo de perímetro, arremessando muito de fora do garrafão. Seu assistente técnico, Dick Harter, era uma das maiores mentes defensivas do mundo desde os bons tempos do goleiro Zetti, do São Paulo. Juntos, levaram o elenco limitado do Celtics até a final do Leste em 2002, mas foi aí que o maluco do Danny Ainge começou a lascar com tudo. Trocou o Walker sem motivo nenhum, passou a obrigar a utilização de novatos sem talento e afundou o time de vez com trocas absurdas que sonhavam apenas com o futuro. Jim O'Brien, então, falou que estava saindo para comprar cigarros e nunca mais voltou.

Foi para o Sixers e levou o time para os playoffs imediatamente, com um ataque que deixou Iverson feliz da vida. Mas como a diretoria do time queria contratar Mo Cheeks (vá entender o porquê), mandou o pobre Jim embora. Passou um tempo como comentarista e então assumiu o Pacers na temporada passada, o pior Pacers para se ter nas mãos nos últimos tempos. Além de Jermaine O'Neal contundido, o time de Indiana é uma tentativa do dirigente Larry Bird de construir um colégio católico para moços politicamente corretos. Todo mundo que arruma encrenca ou tem uma vida fora das quadras conturbada foi, aos poucos, sendo trocado ou afastado. O resultado final é um time que perdeu talentos como Stephen Jackson e Ron Artest e tenta vencer com o branquelo do Troy Murphy, que já tem no nome a certeza de que tudo vai dar errado. Jamaal Tinsley, um jogador que tinha tudo para se dar bem no esquema ofensivo do técnico O'Brien, foi cada vez mais punido por sua conduta e pelas contusões, até chegar ao ponto atual: ele não tem sequer um armário no vestiário, mesmo ainda não tendo sido trocado ou mandado embora. Estão apenas fechando os olhos e fazendo pensamento positivo para que ele desapareça, no melhor esquema "O Segredo".

A dupla Jim O'Brien e seu assistente defensivo Dick Harter têm uma árdua tarefa nas mãos. O elenco do Pacers está em total reconstrução, tendo se livrado inclusive do Jermaine O'Neal, e agora só tem uma pivetada para cheirar a talco e participar da brincadeira. Mas Jim O'Brien é um ótimo professor de novatos e ensina um ataque espontâneo e livre em quadra. Com ele, o eterno fracasso Mike Dunleavy e a futura estrela Danny Granger (também conhecido no mundo do tracadilho como Granny Danger) tiveram o melhor ano de suas carreiras. O Pacers acabou muito bem a temporada, chegou a tentar pegar a oitava vaga no Leste apesar das contusões e da bagunça que estava acontecendo no time, e era um dos times mais divertidos de se assistir jogar. Eu gosto do O'Brien e coloco uma fé em seu ataque veloz e talento com a pirralhada.


Scott Skiles, Milwaukee Bucks

O Skiles é a esposa que ninguém quer ter: faz uma comida deliciosa mas critica o marido o tempo todo e em todo lugar, na cozinha, na cama, no banheiro e na frente dos amigos. Grita o tempo todo, cola na geladeira a lista de regras da casa (se não levantar a tampa da privada antes de mijar, tem que pagar 50 flexões) e nunca dá o braço a torcer. Ou seja, Scott Skiles é um divórcio sempre esperando para acontecer.

Poucos técnicos são tão bons estrategistas quanto ele, é verdade. Se eu tivesse que escolher alguém para desenhar a jogada final de uma partida que levasse à cesta da vitória, escolheria o Skiles. Mas vá ser pentelho assim no inferno! A palavra principal com ele é "disciplina". O que ele exige do time não é talento, mas obediência irrestrita. Grita com os jogadores de forma exigente, o que pode ser até motivador a princípio, mas quando ele grita por qualquer coisa, critica os jogadores o tempo inteiro e não tem vergonha de esculachar seus jogadores quando está falando com a imprensa, está criando um clima insuportável em seu elenco.

Sua especialidade é a defesa e é exatamente isso que ele cobra de seus jogadores sem parar, integralmente. Quem não defende não tem vez, vai parar no banco, assim como quem não obedece. Na ditadura de Scott Skiles, o Bulls viu Eddy Curry e Tyson Chandler indo parar na reserva e sendo trocados por ordens suas. Curry é um gordo que ainda é um talento ofensivo, mas Tyson Chandler é um dos melhores pivôs da NBA e não pára de evoluir um ano sequer - a troca foi uma cagada. Às vezes, a visão rígida de Skiles acaba prendendo ele próprio, evitando que use seus melhores jogadores e entregue o melhor resultado em quadra. Não faz sentido a sua visão de disciplina ser mais importante do que as vitórias dentro das partidas. Por exemplo, Ben Gordon não defende e então é punido com o banco de reservas, com minutos limitados, com castigos físicos. E assim o time perde, todo mundo fica descontente e não vê a hora de dar o fora. Quando o Luol Deng e o próprio Ben Gordon pedem quatrocentos bilhões de dólares por ano para jogar no Bulls, acho até justo: é um valor mínimo para encarar o Scott Skiles diariamente durante uma temporada.

Diz a lenda que, desde seus tempos de Phoenix Suns, o Skiles não grita mais. Mas isso não quer dizer que ele não reclame o tempo todo, não cobre o impossível e não castigue seus jogadores fisicamente. No Bulls, sob seu regime, quem não atinge o padrão "paga 100", e uma visão comum por lá é um bando de jogadores crescidos correndo ao redor da quadra porque erraram uma bandeja. Eu sei, tem gente que adora esse tipo de coisa, que acha que basquete se aprende na porrada, que criança se educa no chicote. Mas a fama do Skiles no Bulls é o bastante para fazer jogadores free agents evitarem jogar pra ele. Ninguém quer ficar sofrendo só de alegre, a não ser masoquista, mas é melhor nem entrar nesse assunto.

Quando o Ben Wallace chegou ao Chicago Bulls como a grande esperança de tornar o time um real candidato ao título, acabou trombando de frente com Skiles. Logo de cara, o Skiles obrigou os jogadores a enfaixarem seus tornozelos antes de treinos e partidas, algo que o Big Ben nunca tinha feito e assumidamente achou uma merda ter que botar em prática. Além disso, estava em voga no elenco uma lei idiota que proibia o uso de faixas na cabeça. Quando o Big Ben entrou em quadra com uma, o Skiles colocou ele no banco assim que percebeu. Todos os assistentes técnicos foram falar com o Wallace, pedir para ele tirar, mas ele não obedeceu. Só tirou a faixa no fim do primeiro quarto e, segundos depois, sem falar nada, Skiles colocou ele de volta em quadra. No segundo tempo, Ben Wallace voltou com a faixa do vestiário e nem foi colocado em quadra. Assim que tirou para coçar a cabeça, foi colocado em quadra. Tudo um jogo de crianças, uma brincadeira de mentes entediadas, uma vontade grande demais de ter poder. Por que alguém se importaria com faixas de cabeça? Que vontade é essa de ser obedecido que faz ele só colocar o Ben Wallace nos segundos em que ele tira a maldita faixa da cabeça? Freud explica, algo a ver com falos e mães.

O clima com o Ben Wallace ficou insuportável e ele teve que ser trocado. Mas quando o clima com o resto do time ficou insuportável, não dava pra trocar o time inteiro, a não ser que mandessem eles para Seattle. O jeito foi mandar o Skiles pro olho da rua e aguardar alguém apaixonado por seu estilo "obedece essa merda e defende direito" dar uma chance para o rapaz. Rapidinho ele se tornou o novo técnico do Bucks. A troca do fominha maluco Mo Williams deve ter tudo a ver com a chegada de Skiles, ele não duraria nem 5 segundos nesse esquema, e agora é o elenco de Milwaukee que deve sofrer. Se a disciplina vai dar algum resultado nesse elenco cheio de modificações e mais atlético, só saberemos na próxima temporada. Mas eu sempre acho que esse tipo de coisa dá errado a longo prazo, você pode até se esforçar mais no começo, mas ninguém fica sofrendo em silêncio por anos a fio. A não ser masoquistas, mas, bem, deixa pra lá.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Análise dos Técnicos - Divisão do Pacífico

"Então é só ir lá e marcar 81 pontos?"


O Danilo ficou com a parte boa ontem. Ele falou dos técnicos da divisão atlântica e pode falar mal das pessoas, o que é sempre mais legal do que falar bem. Mas tudo bem, tudo bem, eu vou para o outro lado dos Estados Unidos falar da divisão da Califórnia, ou melhor, do Pacífico, que tem 4 times da Califórnia e o intrometido do Suns.


Reggie Theus, Sacramento Kings

Reggie Theus foi um ótimo jogador na NBA. Chegou a ter médias superiores a 20 pontos e 9 assistências e acabou a carreira com médias de 18 e 6. Nada mal. Mas mesmo assim ninguém lembra dele.

Mas o Reggie Theus fez de tudo para não ser esquecido. Depois de se aposentar como jogador da NBA, ele começou uma carreira de ator. Sim, no maior estilo Shaquille O'Neal. Pelo jeito os jogadores antigos queriam ser atores, não são como os de hoje que querem ser rappers. Ele participou de filmes como o "Like Mike", que no Brasil se chama "Pequenos Grandes Astros" e tem participações de jogadores da NBA como Vince Carter, Steve Nash, Jason Kidd e Dirk Nowitzki. Theus fez o papel de um comentarista.

Ele também participou de uma série da NBC chamada "Hang Time", em que tinha um papel importantíssimo, era o técnico de basquete do time da escola. A patética e vergonhosa abertura do programa pode ser vista no vídeo abaixo. Mas assistam até o fim, senão vocês perdem a participação especial do Alonzo Mourning no episódio!



O cara queria porque queria aparecer e se você resgatar do armário o seu NBA Live 2000 ouvirá a voz do técnico do Kings fazendo os comentários, mas chegou uma hora em que ele decidiu usar seu conhecimento sobre basquete para fazer algo mais importante do que comentar a atuação de pixels em uma tela.

Em 2005 ele foi contratado pelos Aggies da Universidade do Novo México e começou sua carreira como técnico. Lá ele começou com um time horrível e uma campanha de apenas 6 vitórias, no ano seguinte foram 16 e depois 25, levando os Aggies para o torneio da NCAA. Lá ele era considerado um ótimo professor, alguém que pegava os jogadores que vinham crus do colegial e os fazia entender melhor o jogo e a melhorar seus fundamentos. Esses técnicos-professores são os que fazem sucesso no basquete universitário, porque lá você não lida com a nata do talento mundial, como na NBA, lá você tem que lidar com branquelos baixinhos que só têm o esforço pra oferecer, não é fácil.

Mas eis que então Theus surpreende todo mundo e vai para a NBA. Na temporada 2007-08 ele começou como técnico do time que defendeu por anos, o Kings. Nesse seu único ano o saldo foi até que positivo, no disputado Oeste acabaram em 11°, mas com um número de vitórias que os colocariam nos playoffs se Sacramento ficasse no Leste americano.

Mas apesar dos números discretos, acho que o Theus fez um bom trabalho. Ele pegou um time que não tinha armadores e fez o Beno Udrih jogar ainda mais do que jogava quando entrava nos jogos já ganhos do Spurs. Também fez o Brad Miller voltar a jogar como não jogava há anos, conseguiu fazer o Mikki Moore jogar bem mesmo sem os passes do Jason Kidd e, na minha opinião, sabe como usar todo o potencial do Kevin Martin. O K-Mart 2 não é um cara que faz tudo sozinho mas ele sabe fazer os seus pontos e o time joga em função disso.

Em todos os jogos que vi do Kings, vi um time organizado e que sabia o que estava fazendo, não é à toa que engrossou para muito time bom, faltava mesmo um pouco de defesa. O Kings foi o oitavo melhor ataque da liga mas também foi a sétima pior defesa.

Para o ano que vem, o Kings perdeu o Artest (que muitas vezes ignorava o Theus e queria fazer tudo sozinho no ataque) e ganhou o promissor pivete Donte Greene. Com isso o Kings tem um elenco bem novo, com Udrih, Kevin Martin, Donte Greene e os homens de garrafão Jason Thompson, Spencer Hawes e Shelden Williams. Para um monte de pivete, nada melhor do que um professor como Theus. Depois dessa temporada, assistindo a evolução do Kings, será mais fácil de julgá-lo.


Terry Porter, Phoenix Suns

O começo da carreira do Terry Porter como técnico foi promissor. O antigo armador do Blazers e do Spurs (campeão com o Duncan e cia em 99) começou como técnico do Bucks na temporada 2003-04, lá ele pegou um time que tinha o recém-promovido a estrela Michael Redd e um bando de talento bem mediano, como o Tintim Van Horn, o Joe Smith, a eterna promessa Desmond Mason e o novato e ainda cru armador TJ Ford.

O time acabou a temporada com 41 vitórias, 41 derrotas e se classificou em sexto para os playoffs. Um feito espetacular! Pensa bem, você coloca toda a responsa do time nas mãos do TJ Ford, um recém-draftado, ele só joga 55 dos 82 jogos e no resto a armação é feita pela farsa do Damon Jones. Esse armador está preparando jogadas para caras como o Tim Thomas e o Desmond Mason e mesmo assim você vai em sexto para os playoffs com um técnico novato! E no Bucks! As coisas não costumam dar certo por lá.

O segredo foi um ataque fulminante. Ford e Damon Jones botavam a meninada pra correr e aproveitavam a velocidade do Desmond Mason e as bolas de três do Tim Thomas e do Redd para ter o quarto melhor ataque da NBA naquela temporada.

Mas no ano seguinte o TJ Ford não jogou porque estava com seus problemas nas costas e a armação ficou na mão de Mike James e Mo Williams (pausa para gargalhada). Você consegue imaginar uma dupla de armadores mais fominha e que mais estraga os companheiros de time? Imagina a situação do Porter ao ver o Mike James fazendo tudo errado no ataque e tendo só o Mo Williams como opção de troca. Não foi à toa que o time virou apenas o 15° melhor ataque da NBA, não foi para os playoffs e Porter foi mandado embora.

Nos dois anos o Bucks ficou entre as 10 piores defesas da NBA.

Resumo da matéria: Porter montou um time veloz, bom ofensivamente, que dependia de armadores rápidos e não conseguiu montar uma defesa boa.

Ele é a cara do Suns, o time ainda vai ser bonito de ver e os torcedores do time de Phoenix podem esperar mais do mesmo. Talvez um pouco mais de jogo de meia quadra, umas jogadas diferentes, mas no geral vai ser o mesmo show de antes com a mesma merda de resultado de antes. Só precisamos ver como ele lida com as potências de Shaq e Amaré no garrafão, porque no Bucks ele treinou um time que tinha Marcus Fizer e Zaza Pachulia. Eca.


Mike Dunleavy, Los Angeles Clippers

O Junior está jogando no Pacers, o papai é técnico do Clippers. Vitórias e sucesso não devem ser assunto na mesa no dia de ação de graças.

Mas Mike Dunleavy é um cara bacana, em sua carreira ele conseguiu bons resultados. No time bom de Los Angeles, o Lakers, ele começou sua jornada como técnico e logo no primeiro ano foi para a final da NBA, quando perdeu para o Bulls do Jordan.

Depois do Lakers ele foi para o Bucks, onde não conseguiu nada, afinal era o Bucks. De lá foi para o Portland, onde comandou um timaço. Lembram de Damon Stoudamire, Derek Anderson, Steve Smith, Scottie Pippen, Rasheed Wallace e Arvydas Sabonis? Eram comandados por Dunleavy. O time jogava muito bem mas amarelava, foi bi-vice do Oeste, perdendo para o Spurs em 99 e para o Lakers em 2000, naquele jogo 7 inacreditável em que eles estavam ganhando por uns 20 pontos de vantagem no terceiro período, quando começaram a mijar nas calças.

Depois de perder um jogo daquele, o Dunleavy saiu do Portland, era melhor perder o emprego do que ser assassinado pelo Rasheed Wallace.

Em 2003 ele chegou no Clippers e das 5 temporadas que fez com o time, 4 foram um fracasso, mas uma foi espetacular. Ele comandou o Clippers a seu primeiro playoff desde 97 e ganhou (em cima do Nuggets amarelão do Carmelo, por 4 a 1) a sua primeira série de playoff desde 1977! Dá pra imaginar um time mais derrotado do que o Clippers? Na semi-final do Oeste levaram o Suns a 7 jogos em uma série espetacular.

Foi o ápice do Clippers na NBA. Mas não sei o quanto disso era mérito de Dunleavy. No ano anterior o Clippers já era um time bom, mas perdia sempre no final dos jogos, não tinha calma pra decidir, um número que eu não consigo mais achar mostrava como o Clippers era um dos times que mais perdia jogos por diferença menor de 5 pontos. Então eles conseguiram os experientes Cassell e Mobley e com eles ficou tudo mais fácil. Será que não é papel do técnico fazer os jogadores terem tranquilidade para fechar os jogos? Ou ele desenhava as jogadas certas e os caras que não colocavam a bola dentro da cesta?

Não sei, teria que acompanhar o time mais de perto para julgar essas coisas. E acompanhei o Clippers bem de perto apenas nos playoffs daquele ano e Dunleavy foi perfeito na série contra o Suns. O time de Phoenix estava sem o Amaré e usando o Boris Diaw de pivô, pensando nisso o Dunleavy fez de tudo para usar o Elton Brand e o Chris Kaman até não poder mais, abusando do coitado do francês, que não tinha o que fazer. Dado curioso é que o Boris Diaw liderou a NBA em cometer faltas seguidas de cesta naquele ano, coitado, vendo ele tentando de tudo pra parar o Kaman deu pra entender o motivo.

Depois desse ano tudo voltou ao normal e nada funciona no Clippers. Falar se o Dunleavy é bom ou não vendo ele no Clippers não é justo, é como tentar dizer se um piloto de Fórmula 1 é bom colocando o cara para pilotar um Fusca. Um fusca amaldiçoado, porque essa zica do Clippers é maldição.


Don Nelson, Golden State Warriors

Vou ter o bom senso de não falar muito da carreira do Don Nelson, daria pra fazer um livro pra falar de seus 2234 jogos como técnico em 29 temporadas. Engraçado que os primeiros anos dele foram no Bucks! Dos 5 técnicos que estão na Divisão do Pacífico, 3 já treinaram o Bucks. Coincidência?

Então ao invés de falar de números e conquistas, vou falar de todas as inovações que o Don Nelson, o primeiro e único técnico-arte, levou para a NBA.

Point-Forward: É algo como um armador-ala. É um jogador alto, ala por natureza, mas que faz todas as funções de um armador principal, algo que o Lamar Odom fez muitas vezes no Heat e volta e meia faz no Lakers, como o Kirilenko fez naquele famoso jogo do Jazz em que o Fisher chegou atrasado contra o Warriors e o Jazz não tinha armador.

Don Nelson criou esse conceito nos anos 80 quando treinava o Bucks. Ele mandava o ala Paul Pressey, de 2,02 metros de altura, para armar o time, enquanto os armadores Sidney Moncrief e Ricky Pierce podiam ficar livres da obrigação e só marcarem seus pontos. Lembro vagamente dele tentar a mesma coisa com o Antoine Walker no Mavs durante alguns momentos de alguns jogos.

Run-and-gun: A técnica de correria que o Suns deixou famosa pra quem acompanha a NBA hoje em dia foi criada pela mente doentia do Don Nelson quando ele treinava o Warriors nos anos 90. Era o chamado Run TMC, uma brincadeira com o nome do grupo de rap Run DMC mas usando as iniciais dos três caras principais do esquema, o Tim Hardaway, Mitch Hitchmond e o Chris Mullin.

Small Ball: É o termo usado quando falamos de times que usam equipes baixas. Às vezes usamos esse termo quando um técnico coloca um ala de força, da posição 4, como pivô. Mas o Don Nelson levava esse conceito ao extremo. Esse Warriors dos anos 90 tinha tinha três armadores e dois alas apenas, sendo que o Rod Higgins, de 2,03, era o chamado pivô. Hoje ele faz algo parecido quando o Al Harrington joga na posição 5. Mas às vezes ele colocava 5 armadores ao mesmo tempo. No Dallas de 2002, ele costumava usar um quinteto com Nash, Van Exel, Finley, Tim Hardaway e Nowitzki. Com o alemão fora do garrafão, claro.

Hack-a-Shaq: Fazer faltas propositais no Shaq para ele errar os lances livres. Aqui está sua obra-prima. Como todo artista, ele é um incompreendido. Ninguém viu a beleza da sua criação. Ele quebrou todas as regras ao encontrar a única brecha nas regras e no talento do Shaq para pará-lo! Lindo! Depois ele ainda evoluiu a técnica para o Hack-a-Bowen nas séries entre Dallas e Spurs. Espírito esportivo pode faltar, mas criatividade é o que não falta para Don Nelson.

Engraçado que o Don Nelson na verdade gosta muito do Shaq. Na meia temporada que ele passou no Knicks, fez de tudo para que o time de Nova York trocasse o Patrick Ewing para abrir lugar para o Shaq, que estaria livre no ano seguinte. Isso causou tantas brigas que ele deu o fora de lá.


Phil Jackson, Los Angeles Lakers

O sistema de triângulos, que deixou o Phil Jackson tão famoso, não é criação dele. É de um antigo técnico da USC e que depois foi aperfeiçoado pelo assistente do Phil Jackson, o Tex Winter.

Mas mesmo assim, é o sistema que mostra tudo no que o Phil Jackson acredita e o que o fez ser talvez o melhor técnico da história da NBA.

O sistema de triângulos não é fácil de entender, ele é complexo, para isso o time precisa de jogadores inteligentes. Não espere ver o Lakers mandando o Lamar Odom pelo Kenyon Martin num futuro próximo, entender o jogo é parte fundamental do jogo e o Phil Jackson não só preza isso como também ensina aos jogadores. Ele entende os triângulos e faz os jogadores entenderem também (tá, o Kwame Brown e o Gary Payton não contam!).

O sistema de triângulos não funciona se não for em equipe. Todos tem que estar se entendendo e têm que jogar juntos, como vimos na era Kobe-Shaq, os caras não precisam se amar, mas tem que saber jogar como equipe e nisso o Phil Jackson pega no pé mesmo, nada o deixa mais irritado do que jogadas individuais preciptadas, é só ver ele espumando no banco quando o Kobe quer inventar muito.

O Phil Jackson não tem o apelido de "Zen Master" à toa, o trabalho psicológico dele com os jogadores é pesado. Passam por entrevistas públicas criticando ou elogiando o jogador, longas conversas, sessões de meditação e até recomendação de livros. O Phil (não o Big Phil, esse está no Chelsea) recomenda um livro diferente para cada um, de acordo com o que ele acha que cada um deve aprender naquele momento.

O sistema de triângulos tem poucas jogadas desenhadas, não é um sistema de jogo fechado, é uma variação de movimentos onde o ataque reage às decisões da defesa, então o time tem que estar mentalmente preparado para qualquer coisa que aconteça na quadra. O técnico tem que confiar no seu time. Podem reparar, o Phil Jackson é o único técnico que não pede tempo naquelas situações óbvias. O Lakers toma bola de três, enterrada e faz turnover e lá está o Zen sendo Zen e só olhando o jogo. Nas palavras do Steve Kerr, que jogou para o Phil Jackson no Bulls:

"Ele é um dos poucos técnicos que não pede tempo quando o time adversário está numa sequência de pontos. Ele diz que o time tem que achar uma maneira de resolver seus problemas sozinhos, que eles não podem depender dele o tempo todo."

E muitas vezes os times saem desses buracos sozinhos, e não dá pra medir o tamanho do crescimento da confiança e da maturidade dos jogadores depois de uma situação dessa. Acompanhando o meu Lakers de perto dá pra ver como essa pivetada de Farmar, Vujacic, Walton e Bynum cresceu nesses últimos anos com o Phil Jackson. Esse time não seria nada sem ele e talvez levar o Lakers ao título seja o que falta para a consagração final do Zen Master, afinal falta apenas mais um anel de campeão para ele se tornar o técnico com mais títulos na história da NBA.

E ele sabe ser engraçado também:

Análise dos técnicos - Divisão Atlântica

É uma boa idéia esconder o rosto ao pedir a demissão de alguém: Doc Rivers e Danny Ainge agora são "gênios" após levar o Celtics ao título


Estamos de volta com mais um punhado de técnicos em nossa semana especial para eles, e muito provavelmente trazemos a leva mais polêmica (para não dizer "incompetente") de toda a série. Nos técnicos da vez, todos foram taxados de gênios e então considerados completos imbecis, ou então foram chamados de imbecis e depois sagrados gênios. Se existe uma prova de que a vida é efêmera, que a torcida é volúvel e que nada dura para sempre, essa prova são os técnicos da Divisão Atlântica. Então, vamos a eles!


Doc Rivers, Boston Celtics

Atual campeão da NBA comandando o Boston Celtics, Rivers é a maior prova de que técnicos acabam sendo julgados pelo talento de seus elencos. Quando o Celtics fedia, com jogadores jovens, semi-amadores e só meia dúzia de vitórias, Doc Rivers era um dos piores técnicos a ter habitado esse planeta. Quando o Celtics ganhou a torto e a direito com Pierce, Ray Allen e Garnett, cotaram o Doc Rivers para o prêmio de melhor técnico do ano. Só pode ser brincadeira.

Quando assumiu seu primeiro time, o Magic, o esperado era que as derrotas fossem o padrão, porque o time fedia. Mas a volta de jogadores contundidos e as novas aquisições levaram o time a surpreender, ficar a apenas uma vitória de alcançar os playoffs e Doc Rivers levou para casa o prêmio de técnico do ano. Culpa clara de um elenco que era melhor do que se esperava e que acabou surpreendendo. Não que o Rivers não tenha sua parcela de culpa, ele é um motivador nato capaz de acabar com a postura derrotista de qualquer equipe, está sempre gritando e incentivando. Durante um pedido de tempo, uma ação clássica do Doc Rivers seria gritar a plenos pulmões: "Gente, o negócio é defender, vamos então impedir eles de fazer pontos, só assim vamos vencer. Ouviram? Vamos defender! É isso aí." Obrigado, senhor técnico genial, se você não tivesse dito isso eu teria continuado achando que ganha quem permite que o adversário marque mais pontos. Dã!

Ao ser perguntado sobre as diferenças entre treinar o Celtics que fedia e o Celtics com três futuros membros do Hall da Fama, Doc Rivers afirmou que era exatamente a mesma coisa. E ele tem razão, é exatamente a mesma coisa se tudo que você sabe fazer é gritar coisas abstratas como "defendam!" ou "vamos lá, vamos fazer essa cesta!". Taticamente, o Rivers é tipo a Vovó Mafalda: uma farsa, até uma criança pode ver aquelas pernas peludas e perceber que a Vovó é homem. Como é que alguém cai na farsa do Doc Rivers a ponto de acreditar que ele faz algo mais em quadra além de berrar e bater palmas?


Lawrence Frank, New Jersey Nets

Depois de utilizar com sucesso a tal da "Princeton offense" no Nets, Byron Scott acabou indo para o olho da rua. Quem assumiu o cargo temporariamente foi seu assistente técnico Lawrence Frank, um nanino, branquelo e nerd estudante de basquete. Provavelmente alérgico a laticínios e incapaz de vestir as meias sem ajuda da mãe mas um gênio quando o assunto é tática e prancheta.

Sua primeira ação no comando do Nets foi modificar a "Princeton offense", adicionando a ela mais recursos e, consequentemente, tornando-a mais complexa. Sem resultado, voltou atrás, retornando o ataque ao modelo original, depois resolveu mudá-lo novamente dando ênfase aos jogadores que estivessem melhor durante a partida, aí depois mudou de idéia outra vez. Com uma personalidade apagada, cara de coitado e histórico de nerd, Lawrence Frank não tem confiança no que está fazendo. Sempre volta atrás, está o tempo inteiro fazendo experimentos malucos e não encontra sua voz, seu modelo de trabalho.

Essa sua falta de padrão vai além da tática, afetando a rotação. Ninguém sabe entender o motivo do então novato Sean Williams ter jogos tão produtivos e de repente ir parar no banco, deixando de ser usado por inúmeras partidas em sequência. Josh Boone praticamente não tinha minutos e de uma hora para outra virou titular, depois voltou pro banco, depois foi titular outra vez. A vida do Nets é como sexo com a Elke Maravilha: você nunca sabe como vai ser, mas tem certeza de que será uma merda.


Não é à toa que seja tão odiado, tendo inclusive um site apenas pedindo sua demissão, algo como DemitaFrank.com. Quando era assistente técnico, achavam ele um gênio. Agora, técnico em tempo integral, trata-se apenas de um estrategista nerd e confuso que, no fim das contas, acaba só colocando a bola nas mãos de Vince Carter, isolando ele num canto e obrigando o coitado a forçar arremessos. Ainda assim, recebeu recentemente uma extensão de contrato para ficar mais alguns anos em New Jersey, deixando muitos torcedores tão felizes quanto ao ter uma apendicite. O pretexto é que Frank é um excelente professor, ideal para instruir os fundamentos do jogo ao jovem elenco do Nets. Só não entendi o que ele ensinou pro Sean Williams trancando o coitado no banco depois de atuações tão promissoras.


Mike D'Antoni, New York Knicks

O bigodinho mais famoso da NBA tornou-se praticamente uma lenda com a filosofia de "7 segundos ou menos", ou seja, a idéia de que as melhores oportunidades para pontuar acontecem nos primeiros 7 segundos de posse de bola. Na prática, isso significa correr como um maluco e arremessar o mais depressa possível. Parece estranho mas é uma tática funcional e responsável por formar um dos times mais velozes e divertidos de se assistir nos últimos anos.

A tática de D'Antoni é especialmente efetiva contra times mais fracos, sem identidade, que acabam sendo pegos na correria e tentam devolver na mesma moeda. Marcando trocentos pontos num ataque balanceado, evita-se que times com menos talento consigam manter o mesmo ritmo, mesmo que não exista esforço na defesa. Com isso, o Suns de D'Antoni chutou centenas de traseiros na NBA, aniquilando com facilidade os adversários mais frágeis mas suando contra adversários de peso. Ao enfrentar equipes equilibradas que joguem de maneira lenta e cadenciada, protegendo a posse de bola, a técnica de correr e arremessar (run 'n gun) de D'Antoni encontra graves problemas para funcionar. A encarnação na Terra da entidade cósmica do basquete lento e cadenciado é o Spurs de Gregg Popovich, que aniquilou ano após ano os "7 segundos ou menos", até que o Suns resolveu seguir em outro caminho.

Ainda assim, gosto de ressaltar a habilidade de Mike D'Antoni em ajustar seu modo de jogo quando Shaquille O'Neal chegou em Phoenix. O bigodinho soube colocar Shaq na movimentação ofensiva, criou uma série de jogadas embaixo do aro e dentro do garrafão, ajustou o ritmo da equipe. Na prática, não deu certo, mas ao menos mostra que D'Antoni é maleável, capaz de adaptar seu estilo de jogo aos jogadores disponíveis. Na verdade, diz a lenda que os "7 segundos ou menos" surgiram porque D'Antoni achava o elenco do Suns muito limitado para outras táticas, tipo aquele troço esquisito que algumas culturas chamam de "defesa". Agora, no Knicks, terá que adaptar sua forma de treinar para encaixar dois jogadores lentos, pesados e que exigem a bola (e a comida) nas mãos o tempo todo: Eddy Curry e Zach Randolph.

É muito comum alegar que o estilo do D'Antoni necessita exclusivamente de Steve Nash e que, sem o armador canadense, acabará se tornando apenas um técnico comum, sem personalidade. O desafio de lidar com o Knicks seria, justamente, lidar com um time limitado, lento, e não poder colocar o time nas costas de Nash - coisa que D'Antoni sempre fez em excesso em Phoenix, minutos demais por partida, no que ocasionava uma exaustão padrão de Nash quando chegava a época dos playoffs.

Outro fato contra D'Antoni é seu foco (ou falta de foco, na verdade) na defesa. Uma coisa é priorizar o ataque, a velocidade, a correria controlada. Na verdade, como assistente técnico da seleção americana nas Olimpíadas, deixou estrelas como Kobe, Wade e Carmelo fascinadas com a carga tática presente na idéia de "7 segundos ou menos", levando-os a afirmar que seria uma delícia jogar para ele. Mas outra coisa é o Amaré dizer, como o fez recentemente, que nunca teve um único treino defensivo em Phoenix e que por isso não dá pra culpá-lo por não saber sequer levantar os braços. Imagina se o Mike D'Antoni nunca der um treino de defesa no Knicks, Curry e Randolph vão até sentar no chão quando o time adversário estiver atacando. Se foi chamado de gênio em sua época no Suns, tem tudo para ser chamado de nomes menos lisongeiros lá em New York, até porque a situação por aquelas bandas continua uma merda: ninguém decide se o Randolph vai ser trocado ou não, se o Marbury vai ser mandado embora ou não, ou se H2OH! é refrigerante ou não.


Mo Cheeks, Philadelphia 76ers

Um dos caras mais tranquilos do planeta na era pós-Gandhi, Mo Cheeks está sempre numa boa, sentadão no banco de reservas sem gritar com seus jogadores, sem se intrometer no que acontece em quadra e sem chamar as jogadas que acha que devem ser feitas. Jogar para o Cheeks é tipo ter um patrão que deixa você passar o dia inteiro fuçando no Orkut.

O único problema é que Cheeks é famoso por não entender muito da parte teórica do jogo. Ou seja, sua abordagem parece ser "vou ficar quietinho aqui no canto para não perceberem que não sei o que estou fazendo." Mas seus méritos estão no que acontece fora da quadra. Com seu jeitão camarada, Mo Cheeks costuma ser adorado pelos torcedores, pelos dirigentes e também pelos jogadores. Sabe lidar com cada membro de seus elencos individualmente, tentando deixar todo mundo contente e chamando para tomar uma cervejinha depois do expediente. No entanto, nem todo mundo consegue ficar feliz jogando para um cara sorridente que não faz nada no plano tático, principalmente as grandes estrelas. Por isso, tanto no Blazers quanto no Sixers, os jogadores mais importantes sempre estiveram descontentes, caso do Iverson, que achava merecer coisa melhor.

Quando Iverson foi trocado, o que restou para o Cheeks foi um elenco fraco, mediano no máximo, com jogadores pouco expressivos, um monte de "carregadores de piano", jogadores dispostos a ajudar mas não liderar a equipe. Os gritos de "demitam Mo Cheeks" eram diários, porque ninguém aguenta um cara simpático que não faz o trabalho que deveria enquanto embolsa milhões de dólares. Mas eis que esses jogadores medianos, felizes com seu técnico sorridente, chegaram longe e se enfiaram nos playoffs. E agora um dos técnicos mais famosamente incompetentes da NBA acabou de receber uma extensão de contrato. Verdade seja dita, talvez seu estilo de pouca interferência e amizade seja o ideal para um time jovem e sem duelo de egos como é o Sixers. Mas às vezes, é apenas questão de sorte.


Sam Mitchell, Toronto Raptors

É difícil entender como Sam Mitchell foi parar no cargo de técnico do Raptors sem ter praticamente nenhuma experiência prévia. Provavelmente, foi o único mamífero bípede que aceitou se mudar para o Canadá para trabalhar ao lado dos ursos e dos guardas florestais.

Pouco depois de assumir o cargo, foi eleito o pior técnico do ano em uma votação que incluiu jogadores de todos os times da NBA, comprovando o que era óbvio: Mitchell não sabe o que está fazendo, montou um esquema defensivo ridículo e as jogadas que ele planejava no ataque, principalmente as no finalzinho do cronômetro, eram piadas de mal gosto. Como se não bastasse, Sam Mitchell chegou arrumando encrenca com vários jogadores, provavelmente mal humorado por estar preso no Canadá. Rafer Alston, que sofreu tanto para conseguir um papel na NBA depois de anos e mais anos de basquete de rua e ligas menores, confessou que pensou em desistir do esporte no seu período com Mitchell. O técnico biruta ia de colocar um jogador como titular a deixá-lo no final do banco, sem jogar, na partida seguinte. Ao ser questionado, arrumava briga imediata, fosse com os jogadores, fosse com os jornalistas. O cara parece uma crise da Bolsa esperando para acontecer.

Diz a lenda que Sam Mitchell é talentoso para criar um conjunto, ter uma visão geral daquilo que ele deseja em quadra, mas que não sabe lidar individualmente com seus jogadores. Não sabe lhes transmitir o que quer, seus planos, seus motivos, e não sabe utilizar as habilidades de cada um. Foi Mitchell o responsável por afogar no banco o armador Rafer Alston, agora uma peça importante do Houston, além de Kapono, que era uma peça importante no Heat. O italiano Bargnani parece ter o mesmo destino. Todos são jogadores com suas capacidades e suas limitações, mas Mitchell não sabe lidar com as limitações, prefere trancafiar todo mundo no banco e pronto.

Em todo caso, não tem como negar que o sujeito melhorou muito nessa última temporada (mesmo que isso não queira dizer muita coisa), chamando jogadas mais eficientes e aprendendo a se relacionar com seus jogadores. Peças importantes continuaram não utilizadas, mofando no banco, e a bagunça de TJ Ford e Calderon revezando a vaga de titular é coisa de técnico sem critério, mas agora seus jogadores dizem ao menos confiar no que ele está fazendo, na visão geral. O responsável por montar o elenco, Bryan Colangelo, ex-dirigente responsável por montar o Suns, aposta todas as suas fichas em Sam Mitchell, alegando que ele aprendeu muito com a prática, com o estudo, e que até os jogadores percebem a diferença. Agora, só falta eu perceber a diferença. Por enquanto, continua sendo pra mim o pior técnico dessa budega - mais um que, após um par de idas para os playoffs, ameaça ser chamado de gênio.