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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O campeão dançou


O Tyson Chandler tem uma mão esquerda que flutua sozinha

Assim que o Tyson Chandler foi para o Knicks por um contrato de 14 milhões por ano, coisa de estrela, comparei seu caso com o de Kendrick Perkins no Celtics: o valor pago não é tanto para aquilo que o jogador pode fazer de verdade, mas por aquilo que ele representa, para a importância que pode ter na transformação de uma equipe. A saída de Perkins de Boston simbolizou o fim de uma família, de uma mentalidade, e a equipe perdeu uma âncora defensiva que antes de sua saída nem sequer tínhamos certeza de que existia. A chegada de Perkins no Thunder (e do Tony Allen no Grizzlies) foi como a chegada simbólica de uma nova atitude. Ambos instituíram em suas equipes um regime de reuniões de vestiário, de implicação de responsabilidades, e de ajuda mútua constante. Quando o Knicks suou as pitangas para conseguir Chandler, era isso que julgava estar adquirindo.

O lado do Knicks foi amplamente analisado por aqui. Eu só não imaginava que, assim como o Celtics sentiu a saída do Perkins, o Mavs sentiria a saída do Chandler. Então é hora de analisar o lado dos atuais campeões, até agora incapazes de conseguir uma vitória na temporada sem o seu antigo pivô no elenco.

Antes de mais nada, é importante lembrar que o Mavs não foi uma dessas super-equipes montadas de repente para disputar o título e que se sagrou campeã só porque conseguiu gastar mais grana do que as outras. A grana a ser gasta sempre esteve aí, desde que o bilionário nerd Mark Cuban assumiu a franquia, mas o elenco tem sido montado há uma década com resultados diversos. Às vezes, o excesso de grana até atrapalha um pouco: houveram tempos em que qualquer jogador bom dando sopa recebia um contrato do Mavs, que acabava adicionando peças bastante aleatórias e tinha que se virar para dar minutos para todo mundo. Adições de uma temporada para a outra nunca faltaram, aparecem às dúzias, mas não é sempre que elas aparecem com algum critério, tentando assumidamente arrumar algum buraco da equipe. Antes da temporada passada começar o Mavs tinha a consciência de que precisava de um pivô defensivo para segurar as pontas, e aí - porque o dinheiro não falta - acabou adicionando tanto o Brandon Haywood quanto o Tyson Chandler. O Haywood se mostrou um quebra-galho, mas o Chandler acabou por tornar real algo que a franquia sabia possível mas não sabia como executar: uma defesa matadora.

O DNA do Mavs está ligado ao pai bizarro Don Nelson, então é uma equipe em que o primeiro instinto é de jogar na  velocidade, no contra-ataque e abusar dos arremessos do perímetro. Só com a defesa instituída pelo técnico Avery Johnson, no entanto, o jogo ofensivo de velocidade adquiriu consistência. Times como os do Don Nelson ou do Mike D'Antoni abusam da velocidade em todas as situações, repondo a bola o mais rápido possível, correndo para o ataque e tentando pegar os adversários com a defesa desprevenida ou desorganizada. É comum que, impondo esse ritmo de jogo, eventualmente um armador esteja sendo marcado por um pivô, e com decisões rápidas no ataque é possível se aproveitar desses deslizes. O problema é que trabalhar em tanta velocidade aumenta o número de erros, de desperdícios de bola, de arremessos forçados, e ainda cansa os jogadores fisicamente. É complicado manter esse ritmo no ataque e ainda ter disposição física para defender, e quando forçados a jogar em meia-quadra por equipes que conseguem diminuir a velocidade do jogo, essas equipes não sabem como pontuar e acabam se baseando apenas em jogadas forçadas do perímetro. Os times do Don Nelson sempre foram pragueados por decisões ruins tomadas especialmente nos momentos cruciais das partidas, quando é importante saber diminuir o ritmo e ter uma bola de segurança. Já as equipes do Mike D'Antoni, que tomavam boas decisões porque contavam com o Steve Nash, sempre tiveram problemas contra as equipes como o Spurs, que impõe um ritmo mais lento de jogo e forçam os adversários a ter que trabalhar uma jogada.

O Mavs, então, nunca foi um desses times que rouba a bola na defesa e se aproveita do contra-ataque. A correria independia da defesa, era constante, e no caso do Mavs sempre terminou em bolas rápidas de 3 pontos. Quando Avery Johnson melhorou a defesa da equipe, começou uma tímida cultura de contra-ataques, mas ainda assim sempre houve muita dificuldade em jogar sem ser na velocidade. Em geral, quando forçado a jogar na meia-quadra, o Mavs sempre usou jogadas simples de isolação, quase sempre com o Nowitzki. É por isso que o Jason Kidd teve tanta dificuldade em se encaixar no Mavs: sem uma defesa capaz de gerar contra-ataques constantes, como aqueles em que estava acostumado nos tempos de Nets, grande parte da sua função era apenas passar a bola para o lado até que alguém fosse isolado. Definitivamente não era a melhor maneira de usar suas habilidades.

Nowitzki é o jogador perfeito para um basquete lento, cadenciado, mas incapaz de defender de maneira sólida; Jason Kidd  é perfeito para um basquete de velocidade, focado nos contra-ataques, e que depende de uma defesa feroz que cause erros do adversário. O Mavs nunca foi um time que se encaixa muito bem, como podemos ver, as peças sempre chegaram aleatoriamente e o Kidd não foi exceção, mas jogadores talentosos sempre dão um jeito de funcionar juntos.

Tyson Chandler foi mais uma peça aleatória, mas sua capacidade atlética no garrafão e sua mentalidade defensiva permitiu que o Mavs se concentrasse na defesa do perímetro, afunilando os adversários para o miolo do garrafão, onde o Chandler cuidava do resto. De repente o Mavs tinha um plano defensivo eficiente contra todas as equipes, os jogadores adversários passaram a ter medo de infiltrar no garrafão, e até o Kobe fez xixi nas calças e passou uma série inteira dos playoffs arremessando do meio da quadra pra não ter que se aproximar do aro. O Mavs se tornou um time orgulhoso defensivamente, solícito, forte, e que viu seu ataque em velocidade ser finalmente eficiente de verdade. Com mais rebotes, mais tocos, mais erros forçados, o Mavs conseguia impor mais correria, encaixar mais bolas de 3 pontos e não ter que depender tanto das jogadas de isolação. Aquilo que a equipe procurou desde o primeiro segundo em que o Don Nelson foi mandado embora só se consolidou com a chegada do Chandler, e aí o time foi campeão. Grana pra burro, dá pra contratar todo mundo do planeta, mas a coisa só funciona de verdade quando um plano de quase uma década ganha de repente as peças certas, e quando aquela semente do Don Nelson pode ser usada em toda sua potência com uma defesa que a permitiu florescer.

É uma história linda, pode virar filme com o Selton Mello ou novela do SBT, mas pelo jeito o Mark Cuban não entendeu muito bem a situação. Parece ter considerado que suas adições aleatórias à equipe podem continuar, que quem for embora pode ser substituído por outros jogadores aleatórios que estiverem disponíveis. Não percebe como a caminhada do Mavs ao título não foi por causa da grana, mas sim um longo processo até que os jogadores certos tornassem possível o plano tático certo. Deixando Tyson Chandler sair e trazendo outros caras nada a ver, como o Vince Carter, todo aquele longo processo foi para o saco.

Eu nem tenho nada contra o Vince Carter, pelo contrário. Acho o Carter um exemplo de jogador que foi capaz de se reinventar quando tantos outros, supostamente mais talentosos, não conseguiram. Todo mundo deve se lembrar daquela anedota do Carter nos tempos de Raptors, enfrentando o Celtics. Puto da vida querendo ser trocado, insatisfeito com seu time, Carter perdia o jogo por apenas um ponto com um par de segundos sobrando no cronômetro e pediu um tempo técnico para que sua equipe montasse uma jogada. Ao voltar do tempo técnico, o Carter passou na frente do banco do Celtics e falou algumas palavras. Diz a lenda que aquelas palavras eram exatamente qual jogada o Raptors iria fazer naquele arremesso final, o Celtics então defendeu aquela jogada como se soubesse o que iria acontecer e o Raptors perdeu o jogo. A anedota queimou o Carter feio, ficou conhecido como jogador vendido, marrento, estrelinha e causador da fome na África. Quando foi para o Nets jogar com Jason Kidd, deu uma caralhada de arremessos imbecis no final dos jogos, querendo ganhar tudo sozinho. Mas os poucos foi se acalmando, entendendo seu papel na equipe, e quando o Nets resolveu mandar todo mundo embora para se reconstruir, o Carter acabou sobrando por lá. Nem por um segundo reclamou de nada, não pediu para ser liberado ou trocado, não reclamou de passar longos períodos no banco de reservas para que os novatos da equipe jogassem, e o mais importante: não dedou mais nenhuma jogada nos segundos finais. Pelo contrário, todas as notícias vindas de New Jersey dizem que Carter tornou-se um líder no vestiário, ajudava os novatos, passou a obedecer o polêmico esquema tático (que era medonho, admito) e liderava pelo exemplo. Vince Carter ainda está na NBA, mesmo velho e muito longe do potencial que um dia teve, quando era uma das grandes estrelas da liga. Enquanto isso, companheiros da sua época como Marbury, Steve Francis e Allen Iverson, todos tão bons ou melhores do que ele, viraram farofa porque foram incapazes de mudar suas imagens perante a liga. O Carter é bom moço, maduro, focado e tem um emprego. Como isso aconteceu eu não sei, mas é mérito total dele numa época que expurgou como câncer todos os jogadores que ousavam querer brilhar mais do que os outros.

Mas esse Carter, por mais bacana que tenha se tornado, não traz nada de que o Mavs precise. No máximo o Mark Cuban deveria sair com o Carter para tomar um suco e comer um sanduíche, não precisa contratar o sujeito. Muitos dizem que o Carter é tão amaldiçoado quanto o Clippers, e que nenhum time em que ele pise jamais conseguirá ser campeão. Mesmo se não for o caso e o Carter não tiver sido amaldiçoado pelo Valdemort, ainda assim não é uma aquisição que supra os buracos que o Mavs enfrenta. Falta à equipe um pivô à altura do Chandler, capaz de intimidar a infiltração dos adversários, e falta também um jogador capaz de segurar a bola e costurar a defesa agora que JJ Barea escafedeu-se. O JJ Barea não é nenhum gênio, aliás sempre desconfiei que ele jogava melhor justamente nas vezes em que esquecia o cérebro na geladeira de casa, então é fácil substituí-lo - o próprio Roddy Beaubois, que volta de lesão, tem tudo para cumprir bem esse papel descerebrado. Mas sabe quem não tem condições de ficar costurando defesas e atacando a cesta? Vince Carter e seus joelhos de farinha. No máximo será um arremessador de luxo na equipe, algo que o Mavs já tem aos montes.

Mesmo a aquisição do Lamar Odom, que foi praticamente de graça depois que a troca do Lakers com o Hornets foi anulada, simplesmente não funciona - e por vários motivos. Primeiro, o Lamar Odom tem sérias dificuldades em se focar em quadra. Quando está concentrado e motivado, ele é um dos jogadores mais completos da NBA e um perigo constante no ataque porque seu tamanho e sua velocidade não casam com nenhum marcador adversário - ou os jogadores são muito menores do que ele, ou são lentos demais para acompanhar suas infiltrações rumo à cesta. O problema é que os torcedores do Lakers sabem muito bem quão difícil é o Odom estar com a cabeça no jogo, ele facilmente parece desinteressado, toma decisões estúpidas e se torna quase invisível em quadra. Trocado da equipe em que passou os últimos anos, sentindo-se indesejado, mandado para a equipe rival, e além de tudo para longe da cidade em que vive sua nova esposa, a Khloe Kardashian. Como diabos alguém esperava comprometimento do Odom frente a tudo isso? Não é de se espantar que ele tenha chegado tão fora de forma que foi obrigado pelo Mavs a treinar por duas horas, sozinho, no único dia que o time teve de descanso desde que a temporada começou. E não foi só isso: também foi obrigado a chegar algumas horas antes de seus companheiros no jogo contra o Thunder para continuar seus treinamentos físicos. O Odom está uma bolinha desmotivada, não serve pra nada.

O segundo motivo pro Odom não dar certo nesse Mavs é que não existe posição em que ele possa jogar. Em sua posição natural joga o Nowitzki, que deve sentar o mínimo possível. Como reserva do Nowitzki, o Odom teria como função ser isolado e arremessar, justamente o ponto fraco do seu jogo. Caso jogue como ala de força e o Nowitzki seja rebaixado para pivô, o Mavs passa a ser uma equipe ainda mais medonha em parar e intimidar infiltrações adversárias, comprometendo na defesa. Se jogar apenas como ala, Odom terá que defender grande parte das estrelas da NBA, algo que não conseguiria fazer e que atualmente é função de Shawn Marion. Vindo do banco, o papel de pontuador e de armador vai para o Jason Terry, e o Odom seria apenas um reserva secundário. Cabe a ele, então, uma função ainda menor do que tinha no Lakers ou então uma função enorme que vai comprometer o garrafão e o funcionamento da equipe que foi campeã da temporada passada.

O Lamar Odom veio de graça e é um belo jogador, Playboy dada não se olha os dentes, mas às vezes você dá de frente com a Playboy da Mara Maravilha e percebe que é melhor ter cautela se não quiser ter sua infância traumatizada por toda a vida (experiência própria). Odom só terá espaço nesse Mavs se houver um chato trabalho de reconstrução do funcionamento tático, algo que não aconteceu sequer quando o Jason Kidd chegou. Será que Odom é talentoso e focado o bastante para se adequar à equipe, ao que precisam que ele faça, e conquistar seus minutos? A resposta veio rápido: em seu primeiro jogo com o Mavs, completamente fora de forma, Odom reclamou do juíz e foi expulso rapidinho. No segundo jogo, errou as 5 bolas de três pontos que tentou (acertando só um de dez arremessos de quadra). No terceiro jogo, errou as 4 bolas de três que tentou (acertando 2 dos seus 11 arremessos de quadra). Temos então um Odom fora de forma que só arremessa uns tijolos do perímetro sem parar.

Mas também não é como se o resto da equipe estivesse fazendo muito diferente. Com uma defesa que não força erros, não tapa o aro e não consegue rebotes, o Mavs acaba dependendo de novo de jogadas de isolação e de arremessos de três pontos forçados. Contra o Heat, o Mavs tomou 44 pontos no garrafão, pegou 20 rebotes a menos do que o adversário, e tentou 28 bolas de três pontos (acertando 9). No segundo jogo, pequena melhora: foram "apenas" 40 pontos tomados no garrafão contra o Nuggets, acertando 8 das 27 bolas de três pontos que tentou.

O terceiro jogo, comentado pelo Denis no resumo da rodada de ontem, foi mais promissor: o Mavs conseguiu apertar mais a defesa e forçou muitos erros do Thunder. O problema é que o Thunder já mostrou que basta forçar o Westbrook a jogar em velocidade para que ele cometa 8 bilhões de erros por jogo, colocando tudo a perder, então há pouco mérito do Mavs. No resto, tudo igual: levou 36 pontos no garrafão e acertou 9 das 26 bolas de três pontos que tentou.

O ataque tenta se arrumar como pode, Delonte West entrou bem no time titular e foi capaz de girar mais a bola e criar algum espaço para os arremessos. Nowitzki continua sendo isolado, criando seus pontos, e encontrando companheiros livres no perímetro. Mas não se fala em outra coisa nos vestiários a não ser na defesa do Mavs que foi embora: teve o Nowitzki recentemente dizendo que é difícil jogar em velocidade quando não se consegue rebotes ou erros adversários, teve o técnico Rick Carlisle dizendo que terá que ensinar defesa tudo de novo para sua equipe, melhorar seu próprio trabalho, começar de novo.

Um time campeão capaz de começar a temporada com 3 derrotas seguidas, parecendo perdido em quadra e regredindo quase uma década em seu estilo de jogo? É pra já. Ficamos então com uma lição valiosa: Tyson Chandler não é gênio, não vai descobrir a cura da AIDS, não é o melhor defensor da NBA; mas se você finalmente monta um elenco capaz de colocar em prática um estilo de jogo que foi campeão da NBA, agarre esse elenco com unhas e dentes e dinheiros. Porque acreditar que dinheiro é capaz de trazer outras peças, reposições quaisquer, e que ninguém vai sentir falta dos jogadores que forem embora, isso é furada. Vimos com o Clippers que dá pra formar um bom time mesmo sem depender da grana. Agora vimos com o Mavs como dá pra jogar um time no lixo apesar de ter grana saindo pelas orelhas. Se não houver um reforço nesse garrafão, se o Mavs não encontrar um modo de retomar a defesa que lhe levou ao título, essa será uma temporada perdida para Nowitzki e seus amigos.

sábado, 2 de julho de 2011

Bravos com quem?

Queima de estoque

Terminada a Final da NBA, com Dallas Mavericks campeão, demos uma respirada por aqui. Não, o blog não acabou, não entramos em greve, não fomos raptados por alienígenas e nem passamos a fazer parte de uma gangue de anões que assaltam bancos, apesar dos boatos. Mas acompanhamos os últimos jogos da Final já meio aos trancos e barrancos, tentando assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, então o final da temporada da NBA veio como um descanso necessário.

Agora, quase três semanas depois do título da Dallas, é oficial: temos greve na NBA. Jogadores e donos de equipes não entraram em acordo então todas as atividades relacionados à liga estão paralisadas - mais do que isso, estão proibidas, e por tempo indeterminado. Nada de trocas, contratos novos, treino, summer league, amistosos, viagens para a Europa para fazer propaganda da liga ou multas pro Gilbert Arenas no Twitter. Isso quer dizer que a NBA está congelada em carbonite, como o Han Solo no "O Império Contra-Ataca", então teremos bastante tempo para postar por aqui longamente sobre cada um dos escolhidos no draft, as trocas que aconteceram até agora, e principalmente a greve - vamos analisar não apenas as regras, mas também a situação econômica, o capitalismo, a rotação da Terra, essas coisas, e até analisar algumas alternativas para o sistema salarial da NBA.

Podemos tratar dessas coisas com tanta calma, já que sabe-se lá quando a NBA vai voltar de novo, que vou até aproveitar para tratar um pouco da Final da NBA, agora longe do calor do momento. Até porque no calor do momento o que predominou foi só bordoada para todos os lados - contra o Heat, que amarelou; e contra o Mavs, que só ganhou "porque o Heat amarelou". Foi melhor mesmo deixar as cabeças esfriarem no mundo ao invés de sair como um maluco lutando contra toda a internet, bloqueando oito manés no nosso Twitter por segundo, ou questionando cada um dos comentários infelizes nos sites por aí. Teria sido uma baita bobagem. Já escrevemos para o Bola Presa a tempo suficiente para entender que basquete não é tão sério assim e que perder minhas noites de sono discutindo contra odiadores na internet seria a segunda coisa mais inútil do mundo - só perdendo para aqueles botões idiotas que você precisa apertar para entrar em bancos agora; será que eles têm medo de ser assaltados por algum terrível ladrão sem dedos?

Confesso, no entanto, que mesmo sem ter tempo para postar acabei gastando mais tempo do que devia silenciosamente assistindo às reações diversas ao título do Mavs e a derrota do Heat. Blogs, comentários, Twitter, fóruns nacionais e gringos - aquele tradicional regime de masoquismo, em que se lê uma opinião mais estúpida do que a outra em sequência, sem parada, e que eu costumo chamar de "conhece a teu inimigo". Dado o tempo necessário tanto para esfriarem as críticas quanto a minha recepção delas, talvez seja hora de voltar ao assunto. Simplesmente porque elas são muito surpreendentes e, como sempre, dedam um bocado nossa cultura e nossos tempos - algo que acreditamos firmemente aqui no Bola Presa.

Eu já estava preparado para um jorro de ódio concentrado em cima de quem perdesse quando escrevi sobre nossa cultura do ódio, sobre como achamos o ato de torcer algo natural que na verdade é construído, apenas um filtro para delimitar o que olhar, um filtro para encaixar o indivíduo em um grupo ou em uma identidade, e que esse filtro ignora as perguntas profundas e realmente importantes para se contentar com o que é mais superficial - "ele é melhor", "ele é amarelão", "ele é o inimigo". Mas eu não estava nem um pouco preparado para que esse ódio recaísse tanto em cima dos perdedores quanto dos vencedores. A quantidade de horrores ditos ao Mavs - como se desse para ser campeão da NBA por acaso, "ops, escorreguei numa casca de banana e ganhei um título, hi-hi-hi, que divertido!" - me pegou completamente de surpresa e provou que o buraco é mais embaixo. Ninguém está a salvo.

Mesmo em meio à sua viagem interplanetária, o Denis fez questão de ressaltar os méritos do Mavs que levaram a equipe a ganhar um título. Às vezes parece que a vontade de desmerecer o Heat é tão grande que, para dizer que a equipe é uma merda e mesmo assim chegou a uma Final de NBA, é preciso desmerecer todo o resto - todas as outras equipes que perderam, todas as equipes fantásticas eliminadas, e até mesmo o Dallas Mavericks que, diabos, é "apenas" o campeão da budega inteira. É um dos claros exemplos de quando a vontade de rebaixar o adversário ofusca todo o resto e até o vencedor acaba indo pra casa melancólico, como se tivesse ganhado só porque todos os outros times eram uma porcaria. Por sorte, o Mavs foi lá e, com todo o dinheiro nerd do Mark Cuban (que pagou a festa em Dallas ao invés de deixar que a cidade tradicionalmente arque com os custos), fez uma festa monstruosa digna de um time fantástico que conseguiu superar uma NBA inteira - uma NBA forte, competitiva, de alto nível.

Eu entendo perfeitamente a vontade de torcer contra esse Miami Heat, do mesmo modo que se torceu tanto contra o Lakers com Malone, Shaq, Kobe e Payton, e até mesmo contra o Celtics que acabara de reunir Garnett, Pierce e Ray Allen. É a vontade de torcer contra o mais forte, contra o grande favorito, manter a esperança de que o fraco - como a maioria de nós, fracassados - ainda tem chances de superar o forte. Minha única ressalva é com o modo que essa torcida contra é feita, a ponto de acabar sobrando para o Mavs, diminuído como nenhum outro campeão da NBA na história recente. Isso porque se o Heat era tão ruim assim, tão amarelão, ou simplesmente "perdeu para si mesmo", não há mérito que pertença ao Mavs - e aí lhes arrancamos aquilo que é mais precioso em uma vitória esportiva, que é não a conquista a qualquer custo, mas a conquista merecida, conquistada. Talvez por isso haja tanta torcida contra esse Heat, porque sentimos que uma vitória deles não seria conquistada, que o time era "uma trapaça". Mas a derrota deles, ainda que na Final, prova que as coisas não são tão simples assim - não é trapaça justamente porque não adianta só juntar uns carinhas bons por aí.

Quando o Celtics foi campeão da NBA em 2008, Garnett, Allen e Pierce venceram o jogo coletivo do Pistons na Final do Leste. Muita gente torcia contra a apelação do trio. Mas bastou que eles vencessem o Lakers de Kobe na Final para se tornarem "a família que venceu o fominha solitário". A mentalidade de analistas, técnicos e torcedores passou a indicar que o melhor modo para vencer seria juntar três estrelas e forrá-las com jogadores velhinhos disponíveis, aproveitando o fato de que todo mundo topa ganhar pouco para poder jogar com essas estrelas e ter chance de título. Nos dois anos seguintes, o "fominha" Kobe foi campeão da NBA ao lado de Pau Gasol, finalmente reconhecido como estrela depois de tantas críticas de amarelão. Novamente, era óbvio que para ser campeão era preciso ter mais de uma estrela no seu time e cercá-lo de jogadores secundários sólidos. LeBron, Wade e Bosh foram jogar juntos seguindo a nova lógica predominante na NBA, nada absurdo, mas repentinamente se tornaram "as estrelas fominhas" jogando contra o jogo coletivo "benéfico" dos adversários. É mais do que memória curta, é negar completamente qualquer senso histórico.

Mas a relação de ódio com o Miami Heat é - assim como acontece com o ódio por Kobe - diferente. As críticas direcionadas a eles não são de que não jogam bem, de que o plano tático está errado, de que os estilos de jogo não funcionam. As críticas são morais. Kobe e LeBron são egocêntricos, apaixonados por suas imagens, pedantes, desrespeitosos, farsantes, que absurdo dizerem por aí que são como Michael Jordan, merecem perder. As críticas nao são preferências pessoais dos torcedores, questões táticas, estilos de jogo - as pessoas estão verdadeiramente bravas. Elas acusam, ofendem, denigrem, diminuem. Muito, muito bravas. Mas com quem, afinal de contas?

Basicamente, são se suporta a ideia de que esses jogadores sejam tão anunciados e vendidos como algo que parecem não comprovar ser em quadra. É muito falatório, muita imagem, muitas comparações com Jordan, programinha pra mostrar onde o cara vai jogar, filme pra mostrar o cara treinando. É terrível, é uma overdose, é um exagero, e esses jogadores parecem acreditar em tudo que se diz deles - se acham os melhores jogadores do planeta, agem como se fossem os melhores do planeta, e quando perdem a torcida tem aquele gostinho saboroso de ver uma mentira sendo desfeita bem diante dos nossos olhos. "Eu sabia que ele não era tudo isso". E a gente torce pra ele não ser tudo isso mesmo.

Estamos bravos com o marketing. Com a mídia. Com as campanhas publicitárias. Com imagens sendo vendida todos os dias. Estamos bravos, muito bravos, com uma cultura que cria imagens comercializáveis, que cria lendas, heróis, vilões, que trás de volta em versões em alta-definição todos os jogadores que já deram certo no passado. Bravos com essa realidade, na mídia, que tenta ser mais real do que o real.

Ninguém em sã consciência acha que LeBron não treinou o bastante, que ele e Wade se juntaram achando que iam ganhar sem ter que se esforçar. Todo mundo sabe que eles treinaram como malucos ao fim da última temporada, que o jogo dos dois ganha novas facetas a cada dia, que um dia o LeBron não teve mão esquerda, que o Wade não arremessava nenhuma bola de três pontos. Quando alguém diz que é bem feito que tenham perdido por acharem que podiam ganhar sem nenhum esforço ou treino, com certeza não acha de verdade que não houve esforço ou treino - isso seria ridículo, débil-mental. O que essa pessoa está dizendo, na verdade, é que está puto com a festa que o Heat fez ao contratar LeBron, Wade e Bosh, uma festa com fogos, música épica, luzes psicodélicas, e os jogadores prometendo oito mil títulos num discurso escrito horas antes por algum marqueteiro. Shaquille O'Neal prometeu títulos em todos os times em que jogou e só cumpriu no Heat, mas ninguém liga. Com ele não teve fogos, tecno, luzes piscantes e todos os jornais do mundo tagarelando sobre a mesma coisa. A dificuldade que o torcedor comum tem em engolir as besteiradas que os jogadores do Heat falam é como essas bobagens repercutem na mídia - como são criadas para e por ela, e tentam ser maiores do que qualquer realidade que o time tenha chances de apresentar em quadra. Nenhuma partida do Heat pode ser tão fantástica quanto o que aparece no comercial de TV e na campanha de internet. Não dá para comparar.

LeBron já mostrou que é decisivo nos playoffs. Fez um dos jogos mais espetaculares de todos os tempos, aquele em que marcou 29 dos últimos 30 pontos da equipe e levou o Cavs à vitória contra o Pistons fodão num Jogo 5. Mas isso nunca será o bastante se ele foi anunciado como o maior jogador de todos os tempos desde que tinha 16 anos de idade, se sua imagem é vendida todos os dias como sendo o melhor jogador do planeta, e se a mídia insiste em compará-lo com Michael Jordan. É por isso que eu digo, constantemente, que LeBron e Kobe não podem vencer: tudo que fizerem não será suficiente, e tudo que fizerem será criticado por gente que está de saco cheio do culto às suas imagens na era do 3D. É fato, essas imagens cultuadas são difíceis de engolir e só costumam descer pela goela dos próprios LeBron e Kobe - e mesmo assim só às vezes. O ponto é que se te dizem que você é um gênio desde os 16 anos de idade, se te dizem que você não precisa mais ser pobre, que sua mãe solteira não vai precisar mudar de emprego toda semana, e tudo porque você é fantástico e tem o poder não apenas para salvar a si mesmo, mas também sua mãe, seus amigos, sua comunidade, sua cidade, Cleveland inteiro... você acredita. É claro que acredita.

Crescemos com essa vontade enraizada de nos descobrirmos especiais. "Harry Potter" não é sucesso só porque a Emma Watson é a maior gracinha, todo mundo quer ser arrancado de sua família idiota e de sua escola imbecil e descobrir que é na verdade alguém fodão, essencial para a história da humanidade, alguém de que as profecias avisavam. Muitas das nossas lendas estão focadas na ideia do herói anunciado, e a cultura do capitalismo depende muito dessa ideia de que você pode se tornar herói do dia para a noite, basta se esforçar muito e ter um pouco de sorte. Então não adianta vir com falsa modéstia e dizer que qualquer um resistiria à chance de ser "O Escolhido" (como LeBron tatuou nas costas), o cara fodão que vai fazer história e salvar o seu povo. O capitalismo vive de vender essa imagem ("você também pode ser rico, se chegar até aqui"), as marcas vivem de vender o herói utilizando seus produtos (promessas de felicidade, de ser um pouco herói como eles se você usar um tênis novo), a mídia vive de vender esses heróis e o interesse por eles ("assista ao jogo, vai ser o melhor da história!") , e é claro que esses supostos heróis acreditam em si mesmos - se não acreditarem não serão heróis ou, pior, serão criticados por serem "amarelões", como assim o LeBron não quer decidir o jogo final? Não há a possibilidade do cara não comprar a imagem que tentam vender dele, dele não querer ser Michael Jordan. Estamos tão bravos com a imagem que é vendida que se o cara não for tão grande quanto a imagem que eu comprei, ele é uma farsa idiota. Mesmo que ele não tenha nada a ver, diretamente, com a imagem criada.

Há uma quantidade surreal de xingamentos direcionados, especialmente, a Kobe e LeBron em tudo quanto é site por aí, e nos comentários aqui no blog, no nosso Twitter e no nosso formspring. Nenhuma das ofensas ou acusações pessoais faz qualquer sentido porque não fazemos ideia de como essas pessoas são em suas vidas, ou de como seriam sem tamanho assédio, oportunidades, pressões, dinheiro, poder, idolatria, críticas, ofensas. É por isso que essas ofensas não são reais, são apenas uma raiva mal direcionada. A fúria é com a cultura que cria essas imagens enormes que não condizem - nem nunca poderiam condizer - com a realidade.

Nowitzki foi campeão e nunca haviam criado uma imagem dele. Não uma imagem positiva, pelo menos, só tacavam merda no alemão. Então ele vence, ganha um anel, e é o cara mais modesto do mundo, claro. Para os jogadores que, desde que nasceram, imagens foram criadas e talhadas a alturas impossíveis, nenhuma vitória poderá ser taxada de humilde, e nem mesmo de satisfatória. Todo erro, todo deslize será punido como um horror, uma discrepância inaceitável com a imagem que eu comprei e a realidade. Mesmo que LeBron e Wade estejam agindo como qualquer jovem da idade deles agiria na vida real. Mas eles não podem ser reais. Em nossa cultura, nunca ganharão essa chance.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Senso histórico

Nowitzki em foto tão velha que o Sonics ainda exista


Qualquer um pode chegar agora, sem conhecer nada de NBA, e se apaixonar pelo que está acontecendo. São duas grandes equipes se enfrentando, alguns dos melhores jogadores do planeta, um time que juntou três estrelas e foi crucificado, outro que tenta voltar à Final há anos e nunca foi levado a sério. É uma história bacana para acompanhar em qualquer situação e com qualquer idade. Mas alguns fatores, me parece, só surgem frente ao senso histórico. A importância dessa Final é completamente diferente se você acompanhou o Mavs durante a última década - se vibrou com o estilo ofensivo porra-louca de Don Nelson e Steve Nash, se assistiu ao time aprendendo a defender sob a tutela do Avery Johnson, se viu a derrota na Final para Wade e Shaq em 2006, se acompanhou a melhor campanha na temporada regular cair para o Warriors em 2007. É quase como acompanhar um filho que apanhou na escola, que foi taxado de nerd, que já esteve por cima, que perdeu a namorada, e agora tem barba na cara. O Mavericks vai ser um time bacana de acompanhar para qualquer um que chegar agora à NBA. Mas para quem viu a trajetória, é difícil conter uma lágrima emo no cantinho do olho que a gente só deixa escapar ao som de NX Zero. Há quase 5 anos critico o estilo de jogo do Dallas Mavericks e aí estão eles de volta à grande Final, com mais chances de ser campeão do que nunca tiveram. É lindo. É como ver um filho mesmo, aquele filho que você avisou que seria um fracasso e agora vai conseguir um diploma de mestrado.

Esse Mavs já tentou ser só ataque, já tentou se focar só na defesa, já tentou correr, já tentou jogar na meia-quadra, mas se tem uma coisa que continua sempre igual e que desenha uma identidade nesse time são as jogadas no perímetro e o excesso de isolações. Até mesmo as jogadas mais elaboradas da equipe são iniciadas com alguém sendo deixado sozinho contra a defesa, e eu sempre achei isso um desperdício. Funcionava no Cavs de LeBron, funcionou no Celtics de Pierce, Allen e Garnett, mas o Mavs sempre teve muito mais potencial do que isso. Meu desgosto com a equipe nunca foi por eles serem ruins, mas sim por serem bons pra burro e jogarem fora a chance de serem ainda melhores. Jason Kidd sempre foi mal aproveitado na equipe, as jogadas de transição sempre acabam no perímetro e ele passou várias temporadas só passando para o lado, isolando companheiros para que jogassem no mano-a-mano. É uma pena, se é pra fazer isso me contrata, eu sei passar para o lado e ainda conto piadas no vestiário, não precisa ter um dos melhores armadores da história do esporte no seu time. Mas não dá para discutir com os resultados. Aos poucos o ataque foi ficando mais maleável, rodando mais a bola. O Rick Carlisle foi colocando em prática um ataque mais coletivo e o mais importante: uma defesa por zona.

Em dezembro do ano passado falei com detalhes sobre a mítica defesa por zona do Dallas, como ela funciona, e fiz até uma retrospectiva da equipe até chegar a essa defesa. Vale a pena dar uma lida para se preparar para a série que começa às 22h de hoje, o link para o post é esse aqui. O importante desse texto é que essa defesa não apenas mascara as limitações defensivas individuais dos jogadores, ela também permite que Tyson Chandler e Brendan Haywood usem o melhor de suas habilidades, que é a mobilidade lateral e a capacidade de defender os dois lados do aro contestando todas as infiltrações que conseguem furar a zona. Não é acaso que o Kobe praticamente não tenha finalizado próximo ao aro e que eventualmente o Westbrook ficou confinado aos arremessos de meia distância quando enfrentou o Mavs. Mas a defesa por zona também garante que o Mavericks sabe jogar bem contra esse tipo de marcação e portanto roda mais a bola do que antigamente. Ver aquele Mavs de antigamente e depois ver esse, botando em prática a melhor defesa por zona da NBA, é para fazer qualquer coitado que acordar de um coma de 6 anos ter um aneurisma. Mesmo mantendo alguns padrões questionáveis, aquilo que mudou dentro da tática do time transformou a equipe finalmente em uma máquina assustadoramente eficiente. Não há nada na defesa e no ataque que, ainda que questionáveis, não sejam executadas à perfeição.

Só fico um pouco triste porque essa melhora do Mavs acaba escondendo uma das melhoras mais impressionantes que já tive o prazer de acompanhar: o jogo de Dirk Nowitzki. Como eu disse, ter senso histórico muda o sabor de algumas coisas, muitas vezes para melhor. O Nowitzki que eu vi chegar à NBA era um ala mirrado, arremessando de longe, com pavor de contato físico. Chegava à NBA para ser simplesmente um arremessador. Não conseguia defender bulhufas, nem ponto de vista. Foi aos poucos se aproximando do aro. Passou a pegar rebotes, se posicionar bem quando perto da cesta. Bem marcado, foi encontrando novas maneiras de fazer seu arremesso encobrir as defesas. Os giros nos arremessos foram ficando impecáveis. Os arremessos de média distância, mais confiáveis, foram prevalecendo e deixando as bolas de três pontos cada vez mais secundárias. Era uma pena, apenas, que ele fosse tão tristemente anulado quando marcado de maneira física. Bastava grudar o corpo nele, peito-no-peito, e o Nowitzki era obrigado a colocar a bola no chão (ou seja, sair quicando a bola), e isso era uma merda porque sua infiltração sempre foi desengonçada, estabanada, um alemão tentando sambar depois de três cervejinhas. Lembram como Udonis Haslem, menor mas mais físico, tornou a vida do alemão um inferno em 2006? Mas Nowitzki passou a infiltrar mais, ganhou um passo rápido para a direita, um giro para a esquerda, passou a proteger bem a bola e a cavar faltas. Criou um jogo de costas para a cesta que pode forçar faltas, girar rumo à linha de fundo para uma enterrada, ou arremessar por cima do seu marcador. Se tornou um bom defensor, sólido, que não comete erros táticos mesmo que não possa se apoiar numa defesa atlética ou veloz. Nessa temporada, passou a encontrar Chandler e Haywood livres embaixo da cesta em suas cada vez mais frequentes infiltrações. As bolas de três pontos ainda estão lá, mas são uma parte minúscula do seu jogo. A evolução nas habilidades de Nowitzki é um troço lendário, nível Goku mesmo. Para quem chegou agora, talvez não pareça. "É só um cara arremessando sempre do mesmo lugar", você pode pensar. Mas quando a marcação aperta e ele gira para o fundo, finalizando com força com as duas mãos acima do aro, você nunca vai entender porque nós mais velhinhos estamos emocionados e incrédulos. O Nowitzki era eficiente, um dos melhores arremessadores que o jogo já viu, mas ele não aceitou limitar o seu jogo. Isso é lindo. Isso é mágico. Isso é muito, muito raro (né, Dwight?).

Eu entendo quem diz que o Nowitzki não é um jogador completo. É verdade, ele não faz todas as coisas que jogadores mais versáteis como Kobe ou LeBron podem fazer. Mas o Nowitzki é o mais completo que é possível ser quando se tem 2,13m de altura e não se possui físico privilegiado ou condição atlética de super-herói. Nowitzki faz um absurdo com o que lhe foi dado, e o mais importante: ele impôs seu estilo ao jogo, e não o contrário. Só porque um cara tem 2,13m ele precisa jogar debaixo do aro? Ele é mais eficiente longe da cesta, ele cria novas possibilidades para sua altura, ele quebrou paradigmas e mostrou que é possível dominar um jogo sem ser físico. Nowitzki passa a bola quando atacado por uma marcação dupla, ele pode ter acertado todos os arremessos que deu em um jogo e mesmo assim não tentar de novo, não forçar nenhuma bola, porque quer obedecer ao plano de jogo e envolver os companheiros. E, é claro, ele não ganha nenhuma admiração por isso. A gente quer o cara que assume o jogo sozinho e ganha no muque, como Jordan fazia. O Dirk passa a bola então ele é um banana. Repito: o alemão pegou os paradigmas e jogou no lixo. Só é uma pena que, se não ganhar um título, nunca terá isso reconhecido. Mesma coisa com LeBron James, infelizmente.

Aquele mesmo senso histórico que pode tornar as coisas mais legais pode também tornar as coisas muito mais chatas. Ao invés de ver o tempo como uma trajetória capaz de explicar e iluminar o presente, é possível tentar comparar o passado com o presente, mesmo que todas as circunstâncias (regras, jogadores, cultura, mentalidade, tipos de treinos) impossibilitem esse tipo de análise. E quando isso acontece tem sempre gente comparando Jordan com o Kobe, sem entender que a mudança na realidade histórica muda também as possibilidades de um jogador em quadra, e dizendo que o Dirk deveria ser de um jeito ou de outro, "porque assim são os grandes, assim são os melhores". Notícia chocante: Nowitzki é um dos melhores jogadores de seu tempo e assim entrará para a história, como sempre aconteceu antes dele, mesmo que o Dirk passe a bola sem forçar um único arremesso e prefira que o Mavs gire a bola no perímetro a tentar vencer sozinho uma marcação dupla.

Ontem falamos do Heat, de como o ataque pode parecer mas não se permite ser estagnado, mas como esse ataque reagirá à defesa por zona do Mavs? Como Udonis Haslem, LeBron e Bosh - que devem ser todos responsáveis pela marcação de Nowitzki - vão reagir ao seu agora vasto arsenal ofensivo e ao fato de que ele não terá receio de acionar seus companheiros no perímetro? Erik Spoelstra já avisou que LeBron deve marcar o JJ Barea, simplesmente porque, como mostrei nesse post aqui, o caminho do armador fica livre quando a defesa se foca no Nowitzki. É isso que o Mavs quer, impor um jogo coletivo quando os olhos estiverem no alemão. E o alemão topa, o alemão permite, o alemão é um jogador único, completo dentro de suas possibilidades.

Vamos ignorar esse pessoal que uso o tempo e a história para estragar tudo aquilo que se apresenta diante dos seus olhos, vamos aproveitar essa Final espetacular, e agora só nos vemos aqui no blog quando a Final já tiver começado: história sendo feita.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Pós-view da Final do Oeste - Mavs X Thunder

Mesmo marcado por alguém que não sai do chão, o Nowitzki pula pra trás como bailarina


Deu tudo errado nos nossos planos e não conseguimos postar nosso já tradicional preview antes de começar cada nova série dos playoffs. Mesmo que muitas vezes ele vá ao ar em cima da hora, minutinhos antes do jogo, dessa vez nem isso conseguimos fazer. Thunder e Mavs ficou sem uma apresentação, sem uma introdução. Mas já que nos acostumamos a moldar o espaço-tempo com o League Pass (que permite que você assista ao jogo já começado ou terminado quando quiser, voltar a jogada, pausar, cortar os intervalos), vamos fazer uma viagem temporal: retornaremos ao passado, faremos as perguntas que eram fundamentais para entender a série, e então viajaremos de volta para o futuro (!) para mostrar como essas questões foram respondidas no jogo de ontem à noite.

- Como o Thunder fará para marcar Nowitzki? Quem receberá essa função? Usarão marcação dupla?

Essa eu nunca teria adivinhado. O Thunder usou nada mais, nada menos do que 6 marcadores no Nowitzki: foram Serge Ibaka (na maior parte do tempo), Nick Collison, Kendrick Perkins, Kevin Durant, Thabo Sefolosha e James Harden. O Westbrook também acabou marcando o alemão, mas foi numa troca de marcação desastrada. O Ibaka já tinha mostrado contra o Grizzlies todas as suas especialidades e todas as suas dificuldades, e eu esperava que o Nowitzki fosse mesmo uma dor de cabeça ainda maior. O Ibaka deu muito espaço para o Zach Randolph arremessar e, quando tentou jogar de forma física, cometeu muitas faltas ou foi batido em giros rumo à cesta. Seu grande trunfo é a velocidade, então ele é excelente na ajuda defensiva, cobrindo seus companheiros, ou fechando o pick-and-roll. Contra o Nowitzki, dar espaço para o arremesso é loucura, e o alemão tem muitos recursos girando em direção à cesta. Jogando menos na força bruta, que era o caso do Randolph gordinho, imaginei que o Ibaka teria mais problemas para contê-lo, mas que ele estaria ao menos constantemente na frente do Nowitzki para atrapalhar. O que aconteceu foi que assim que recebeu espaço para arremessar no começo do jogo, Nowitzki converteu seus arremessos e entrou num ritmo. Percebendo que precisaria pular mais para contestar os arremessos bizarros do alemão, que pula para trás como se fosse uma mola, Ibaka começou a sair do chão na defesa - cometendo assim muitas faltas e ficando vulnerável para o Nowitzki bater pra dentro. Quando começou o terceiro período, Ibaka já tinha 4 faltas e foi pro banco. Não deu certo. O Perkins se saiu ainda pior, porque para contestar os arremessos tem que mover toda sua massa corporal feita de concreto e o Nowitzki apenas fingia os arremessos para cortar livremente rumo à cesta. Cagada. Então o Thunder tentou o Durant, que é mais rápido e tem braços mais compridos estilo Dhalsim, mas como ele não tem físico para segurar o jogo de costas para a cesta do alemão, acabou cometendo faltas e teve que abandonar a função. Thabo Sefolosha tentou colocar em prática a defesa ideal contra o Nowitzki, que é estabelecer uma posição sólida bem perto do corpo do alemão e obrigá-lo a colocar a bola no chão. Mas o Nowitzki arremessou facilmente por cima do Sefolosha, que é muitíssimo mais baixo do que todos os outros marcadores, e ainda cavou faltas fazendo algo inédito para ele: combatendo a defesa estabelecida do seu marcador com força, usando as costas sem medo do jogo físico. James Harden tentou a mesma tática e se saiu um pouco melhor, mostrou um físico que eu não imaginava que ele tivesse, mas Nowitzki continuou arremessando por cima de todos esses nanicos. Foi um massacre. Quem se saiu melhor foi o Nick Collison, o homem que lascou com a vida do Zach Randolph no jogo final entre as equipes, mas também cometeu muitas faltas tentando evitar os arremessos de arco gigante do alemão. Ao todo, o Nowitzki cobrou 24 lances livres e converteu todos, recorde da história dos playoffs.

É claro que o Thunder tentou dobrar a marcação assim que o Nowitzki começou a acertar arremessos, mandando o Wetbrook para a dobra. É sempre uma boa sacada para pará-lo, porque ele passa a bola toda vez que a dobra chega (a não ser que a dobra venha muito tarde, quando ele já se dirigia para a cesta, como aconteceu algumas vezes). Mas existe uma coisa bizarra a respeito do Mavs: eles são um time com pouca variação ofensiva, que não gira a bola, e que se baseia muito em jogadas de isolação - a não ser que a bola saia de dentro do garrafão. Quando o Nowitzki recebe marcação dupla, ele invariavelmente passa a bola para o perímetro e lá a bola gira com maestria para encontrar um arremessador livre. Por que eles não giram a bola constantemente eu nunca saberei, mas bastou o Thunder dobrar para que o Mavs convertesse uma bola de três pontos. Foram cestas de Jason Kidd, de DeShawn Stevenson, de Peja Stojakovic (a década passada manda lembranças), e principalmente do Jason Terry (que inclusive fez a cesta de três que garantiu a vitória, numa dobra no Nowitzki, quando o Thunder apertava no minuto final). Bastaram alguns desses arremessos convertidos para que o Thunder parasse de dobrar, voltando apenas no quarto período quando a água estava batendo na bunda. E a verdade é que muitos arremessos de três pontos nessas circunstâncias não caíram, mas os que caíram decidiram o jogo.

Voltamos então a uma questão que monopolizava os debates táticos na época em que o Duncan dominava o jogo: deve-se dobrar ou não a marcação num ala de força que sabe passar a bola para um time que é bom arremessador de três? Sempre achei que a marcação deveria dobrar no Duncan e forçar os outros jogadores a decidir no perímetro, mas o Suns perdeu muitos jogos para o Spurs porque estava dobrando - e muitos outros por não estar dobrando, também. O Thunder vai passar por essa questão filosófica durante a série, "dobrar ou não dobrar, eis a questão", e essa pode ser a escolha mais decisiva do confronto.

Vale ressaltar também a paciência absurda do Nowitzki quando sofre a marcação dupla. Ele respira, segura a bola mais um pouco, e aí passa para o perímetro. Apenas uma vez, no jogo inteirinho, recebeu a bola de volta para atacar de novo o garrafão, lá no fim do terceiro quarto. Ele passa para fora mesmo sabendo que a bola não voltará, confia inteiramente no time e o Mavs é feito para isso. Mesmo nos contra-ataques, o que o Mavs quer é arremessar do perímetro, e funciona.

- O banco do Dallas Mavericks prometeu desequilibrar a série. Jason Terry chegou a dizer que queria marcar sozinho mais pontos do que todo o banco do Thunder. Como o banco do Thunder vai responder a isso, e como Jason Terry se sairá?

Pois é, o Jason Terry quase fez o que prometeu. Sozinho marcou 24 pontos, com 4 bolas de três pontos, enquanto o banco inteirinho do Thunder somou os mesmos 24 pontos. Jason Terry se aproveitou um absurdo da dobra de marcação no Nowitzki, e soube também usar isso para fingir arremessos contra a defesa do Thunder afoita por cobrir os buracos, batendo para dentro do garrafão com o caminho livre. O Nowitzki teve uma partida absurda, mas a calma do alemão só foi possível porque ele não teve que forçar arremessos, podia colocar a bola no perímetro para o Jason Terry se aproveitar. De certo modo, foi ele quem decidiu o jogo e permitiu a partida do Nowitzki.

Mas o banco do Dallas teve também os 21 pontos do JJ Barea, que também quase fez tantos pontos quanto o banco do Thunder inteiro. E o JJ Barea nem precisou ficar arremessando, ele atacou a cesta numa boa se aproveitando dos espaços criados pelo Nowitzki. Foi quase uma imitação do que o Devin Harris fazia por lá uns anos atrás. Vamos dar uma olhada em uma imagem do jogo, tirada diretamente de um print screen do meu League Pass.


Reparem primeiro na qualidade da imagem, que parece um quadro pintado pelo Monet (é o espírito do pintor, que às vezes invade meu League Pass). Mas depois, vamos dar uma olhada naquele bolo de jogadores na cabeça do garrafão. Parece uma suruba, mas na verdade é o Brandan Haywood ameaçando fazer um corta-luz para o Nowitzki. Só essa ideia já deixa a defesa do Thunder louca, então tanto o marcador do Nowitzki (o Ibaka) quanto o marcador do Haywood (que é o Perkins) precisam impedir a jogada. Mas vejam, é uma defesa inteira comprometida com isso sendo que a bola sequer está naquela parte da quadra. Enquanto isso, o Nate Robinson está marcando o homem com a bola mas defende seu lado direito, que é onde está o Nowitzki, para tentar impedir um passe para o alemão. O JJ Barea, que tem a bola, pode então caminhar de costas em direção à cesta se quiser, porque ninguém está lhe dando bola. O único homem por perto é o James Harden que, como vimos analisando taticamente as jogadas do Grizzlies, nunca - NUNCA - abandona seu homem na zona morta. E foi assim que o JJ Barea marcou 21 pontos sem nunca ser marcado por ninguém. O Nowitzki muda o jogo mesmo quando está só parado, lendo um gibi.

O banco de reservas também se segura sem o alemão, mesmo que seja capengando. As jogadas que o Mavs chama continuam idênticas (em geral é o Shawn Marion que é isolado de costas para a cesta), o que me enlouquece, é muita burrice e tem resultados mequetrefes. Mas os jogadores são bons o bastante para ao menos segurar as pontas. Com 3 minutos para acabar o primeiro quarto, Nowitzki já estava descansando no banco numa boa com a garantia de que o time não iria se demolir.

O banco do Thunder, por sua vez, não tem esse poder ofensivo. Ontem até o Nate Robinson, que mora de castigo no banco, entrou em quadra para correr atrás do Barea e dar uma força no ataque. O único reserva que ajudou pra valer foi o James Harden, que cada vez se mostra um jogador mais completo. Contra o Grizzlies, mostrou que consegue armar o jogo e passar a bola nas infiltrações, o que lascou muitas vezes o plano defensivo da equipe dos ursinhos. Contra o Mavs, ele foi o único jogador capaz de costurar a defesa por zona da equipe de Dallas e finalizar na bandeja ou então acionar os jogadores do Thunder embaixo da cesta. Se o Westbrook conseguisse ter essa frieza do Harden, seria um gênio.

- O Mavericks vai usar sua famosa defesa por zona? Se usar, o Durant não vai matá-los no perímetro? Como diabos vão marcar o Durant?

Essa pra mim foi a maior surpresa do jogo. Não teria adivinhado nunca, teria mesmo que viajar de volta para o futuro. O Mavericks usou bastante sua defesa por zona e com isso deu um espaço considerável para o Durant arremessar toda vez que recebia a bola vindo de um corta-luz. Mas essa defesa por zona tornou impossível para o Westbrook usar sua velocidade e colocar a bola no chão na cabeça do garrafão! A defesa por zona do Mavs exige um post à parte, que teremos muito tempo para fazer nesses playoffs, o que importa por enquanto é que o Westbrook foi obrigado a acalmar o ritmo, costurar a defesa, lidar com mais de um marcador, e ele é um desastre nessas coisas. Quando finalmente encontrava o caminho livre para o aro (em geral no contra-ataque, porque a defesa de transição do Mavs fede), tomava sopapo dos trogloditas do garrafão: Tyson Chandler e Haywood. O Mavs que fez Kobe Bryant não finalizar praticamente nenhuma vez perto do aro apareceu ontem, mandando Durant e Westbrook pro chão, pra linha de lances livres, e forçando erros com vários defensores em cima da bola ao mesmo tempo. Durant cobrou 19 lances livres, Westbrook cobrou 18. Parece algo desastroso para o Mavs, não? Além disso, Durant marcou 40 pontos, acertando arremessos fáceis. Parece uma merda, não? Aí está a genialidade do Mavs, o sinal de que eles assistiram a todos os jogos da série entre Thunder e Grizzlies e fizeram a lição de casa. A defesa por zona foi colocada em prática para deixar o Durant jogar, mas aloprar com o Westbrook. Quem foi o gênio maligno que pensou nisso? Além disso, é melhor deixar os dois na linha de lances livres do que fazendo bandejas. Como o Lakers mostrou, uma hora o time cansa de apanhar, cansa de ter todas as bandejas contestadas, e passa a arremessar só de longe. O Thunder é pior quando fica nos arremessos (venceu o Grizzlies fácil com o Durant cortando mais em direção à cesta) e depende muito do Westbrook não cometer cagadas e controlar o ritmo de jogo (quando ele armou o jogo com calma, passou a bola e não forçou arremessos, o Grizzlies virou farofa no Jogo 7). Com uma defesa para forçar o Westbrook a não poder bater para a cesta, o Mavs só teve que se preocupar em cometer faltas nas penetrações que passavam e ver os arremessos de fora choverem. O Thunder só encontrou uma bola de segurança nas infiltrações ou espaços dentro da zona que procuravam então passar a bola para alguém embaixo da cesta, como Ibaka ou Perkins. Quem mais fez isso foi o Harden, porque o Westbrook não consegue.

Essas questões foram então bem respondidas, e está dada a tônica da série. Mas e quando os arremessos de fora do Thunder caírem? E quando o Durant marcar 60 pontos porque tem espaço para jogar? Será que o Westbrook consegue vencer a defesa por zona, acalmar o jogo, levantar a cabeça, e acionar o garrafão? E quem diabos, mantemos a pergunta, vai marcar o Nowitzki pra valer? Haverá dobra ou não? São novas questões que resolveremos no próximo jogo, quinta-feira. E você acompanha a análise aqui, num horário aleatório mas no mesmo bat-canal.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Lakers na beira do abismo

Uma imagem diz mais que um post inteiro do Bola Presa


Torcedor do Lakers é como nós, paulistas: Se acham o centro do mundo. Mas com uma diferença, os torcedores do Lakers não tem razão. Sempre depois de uma derrota, duas derrotas ou algumas partidas mal jogadas eles aparecem malucos, enfurecidos e perdidos exigindo uma explicação, como o Lakers pode estar perdendo? O que estamos fazendo de errado? Afinal o Lakers é o melhor time do planeta e ninguém pode nos vencer a não ser que a gente deixe.

Eu sou torcedor do Lakers, eu sou paulista, eu entendo como é isso. Mas simplesmente não é assim que funciona. Se vocês caçarem o histórico do blog, que acompanhou os três títulos seguidos do Oeste que Kobe e seus fiéis escudeiros venceram, irão encontrar uma enxurrada de críticas à equipe. Já que eu torço pra eles gosto de assistir aos caras jogarem e quanto mais você assiste, mais fácil é achar defeitos e qualidades. Escrevi muito sobre os defeitos deles. Em 2008 era a defesa que não acompanhava a boa produção ofensiva, em 2009 o time que tinha apagões constantes, em 2010 a ineficiência de furar defesas por zona. Nos três anos as inúmeras surras sofridas contra armadores velozes, os dias em que não tínhamos um arremessador confiável de três pontos e a eterna mulher de TPM que é o banco de reservas angelino. Isso sem contar as acusações de time soft, do Kobe forçar demais o jogo, das contusões do Andrew Bynum, da velhice do Derek Fisher, etc, etc, etc.

Não quero dizer que o Lakers é um time ruim, muito longe disso, posso mostrar uns vídeos do Minnesota Timberwolves se vocês querem ver um time ruim de verdade, mas não é porque eles ganharam títulos que isso apaga os erros. Aliás, só deixa o feito mais impressionante, já vimos times muito mais perfeitinhos como o San Antonio Spurs de 2005 ou 2007, o Boston Celtics de 2008 ou o Detroit Pistons de 2004 não conseguir sequer fazer duas finais seguidas, que dirá três e com dois títulos. Esse sucesso do Lakers se dá a uma qualidade essencial: Eles tem altos e baixos, mas jogam o seu melhor quando precisam. Foi assim quando viraram aquele jogo 1 quase perdido para o Spurs na final do Oeste de 2008, quando estavam tomando um pau do Phoenix Suns na final do Oeste do ano passado ou naquela série contra o Denver Nuggets em que parecia que Kenyon Martin, Nenê e Chris Andersen iriam cortar o garrafão do Lakers em pedacinhos e comer com azeite de oliva e pedacinhos de queijo. Foi contra a parede que eles acharam uma maneira de se safar e sair com a vitória. Vencer quatro vezes em sequência uma conferência, como o Lakers está tentando agora, é tão difícil que a última vez que um time fez isso a maioria dos nossos leitores nem tinha nascido! Foi o Celtics que venceu o Leste em 84, 85, 86 e 87.

Portanto, antes de mais nada, se o Lakers realmente perder para o Dallas esse é um dos motivos: É muito difícil para qualquer time manter o alto nível por tantos anos, sem encontrar pelo caminho nenhuma contusão, má fase, azar ou simplesmente um adversário que tenha assistido tanto ao Lakers vencer que tenha sacado uma nova estratégia para vencê-lo. No caso dessa série, eu apostaria muito nesse último caso.

O Dallas Mavericks tem um técnico da linha nerd-bitolado que tem dominado a NBA ultimamente. Rick Carlisle é conhecido por ter um livro do tamanho da envergadura do Lamar Odom de diferentes jogadas, ele estuda basquete e aos poucos transformou esse Dallas Mavericks de um time de jogadas de isolação (mais ou menos como é o Hawks hoje) em uma equipe cheia de variações que pode se adaptar a qualquer adversário. E que, isso é assustador de pensar, está sem Caron Butler, um cara que sabia atacar muito bem a cesta e dava ainda mais opções ofensivas para o time.

Mas sabe que apesar do massacre que o JJ Barea causou na defesa do Lakers no quarto período do último jogo (lembram do problema em marcar armadores velozes?), não é ali que a derrota está acontecendo. Tá, nem Pau Gasol e nem Lamar Odom são Gamarras defendendo o Dirk Nowitzki, o alemão acertou 9-16 arremessos contra Gasol e 8-16 contra Odom, mas é só ele que está deitando e rolando. Nenhum outro jogador tem média superior a 12 pontos por jogo nas duas primeiras partidas e a média de aproveitamento dos arremessos do Dallas está em 45%, não longe dos 44% a que o Lakers manteve seus adversários para ter a 5ª melhor marca da temporada regular.

É no ataque que o Lakers tem se complicado. E o motivo, por mais impressionante que isso pareça, é que o Mark Cuban, dono do Mavs, é um bilionário que não liga de gastar dezenas de milhares de dólares com pivôs. Na última offseason ele ofereceu uma extensão de contrato enorme para o Brendan Haywood, mas quando viu o Bobcats trocando o Tyson Chandler foi lá e conseguiu o cara quase de graça. Não importa que ele deixasse o milionário Haywood no banco e jogando só uns minutinhos por jogo. Agora são Chandler e Haywood que revezam minutos junto com Dirk Nowitzki para segurar Lamar Odom, Pau Gasol e Andrew Bynum. O Lakers quase sempre joga com uma escalação mais alta que a do adversário e toma vantagem disso, mas nessa série não é sempre que isso é possível. Quando Odom e Gasol formam o garrafão angelino contra o Nowitzki e Haywood, por exemplo, são mais baixos. Nos minutos em que o Lakers não é o time mais alto em quadra eles tomaram 43 pontos e marcaram 25 nesses primeiros jogos.

A combinação alta e de talento defensivo do Mavs tem feito o Lakers penar para marcar pontos dentro do garrafão. Kobe Bryant, por exemplo, tentou em média 7 arremessos perto do aro contra o New Orleans Hornets, contra o Mavs tem sido metade disso. E pior, de 58% de aproveitamento caiu para 28% nessas ocasiões. Outro número que mostra como o Mavs tem defendido bem o Lakers é o que mostra o número de vezes que o Andrew Bynum participou do jogo; ele esteve em quadra durante 78 posses de bola e apenas recebeu a bola em 15! Arremessou em 11 delas e acertou 8, um ótimo aproveitamento. Pau Gasol recebeu mais a bola, mas onde não devia. Nas posses de bola em que Pau Gasol recebeu a bola fora do garrafão, o Lakers como um todo acertou 6 de 16 arremessos, quando recebeu dentro da área pintada o aproveitamento foi de 7 em 10.

Para compensar a falta de jogo dentro garrafão, o Lakers tentou arremessar de longe e aí o bicho pegou. Tentaram 20 bolas de três pontos e acertaram duas, ambas quando o jogo já estava perdido nos minutos finais. O aproveitamento de 10% é o pior da história dos playoffs entre os times que tentaram pelo menos 20 bolas de três em um jogo. É pouca zoeira? Com dificuldades em marcar pontos perto e longe da cesta é de se surpreender que o Lakers não tenha tomado uma surra maior ainda.

Para a próxima partida, hoje, o Dallas tem uma estratégia simples: Mais do mesmo. Congestionar o garrafão, marcar por zona de vez em quando e continuar vendo por quanto tempo eles conseguem assistir ao Lakers errar arremessos de longe. Mas isso não impede o Rick Carlisle de dar um puxão de orelha em alguns jogadores, o Jason Terry precisa acordar. Contar que o JJ Barea vai fazer uma boa série em geral tudo bem, mas ele não é cara para decidir no quarto período sempre.

Já o Lakers precisa de uma pequena revolução. Primeiro de confiança e motivação, na última partida dava pra sentir no ar o desespero de não saber o que fazer, eles precisam da frieza que tiveram nos jogos importantes dos últimos anos. Só com essa frieza é que eles vão poder executar o seu ataque com a precisão necessária para chegar mais perto da cesta e conseguir vencer o duelo contra Haywood e Chandler. E se tiver dando errado não podem se contentar com arremessinhos forçados de meia distância, tem que forçar, tentar de novo, de outro jeito. É perto da cesta, com enterradas, bandejas e rebotes ofensivos que o Lakers ganha seus jogos. Admitir a derrota nesse duelo e tentar mudar o estilo de jogo é admitir a derrota em toda a série. Também é importante que Kobe pense assim, todos sabemos que ele pode acertar arremessos de qualquer lugar da quadra, o que não quer dizer que ele deve tentar arremessos impossíveis o tempo inteiro. O jeito mais fácil de abrir espaços no garrafão adversário é ter um jogador driblador que costure a defesa, Kobe precisa ser esse cara. Temos que ver se ele vai ser o Kobe frio que vai fazer tudo certo ou se vai ser o cara com cara de maluco que quer arremessar todas as bolas como se ele fosse o herói do universo.

Uma última notícia muito interessante que acabei de ler é que o Phil Jackson resolveu substituir o Ron Artest, que foi suspenso por essa falta no JJ Barea, pelo Lamar Odom no time titular! É muito, mas muito raro o Lakers jogar com Odom, Gasol e Bynum ao mesmo tempo. Phil Jackson percebeu que precisa do time mais alto e provavelmente vai usar os três para atacar a cesta e tentar pegar todos os rebotes ofensivos do mundo. Mas como fica a rotação? Odom joga mais minutos que o normal? E o entrosamento? Faz tempo que o Lamar Odom não joga na posição três. Medidas extremas para situações extremas, vai ser divertido de assistir.

E sobre o Artest: Foi uma falta dura, desnecessária e a punição até que é compreensível. Mas pegar todo o passado distante do cara e jogar na cara dele dizendo que "ele nunca mudou" é uma injustiça enorme. Faz anos que ele só aparta briga e não se envolve em nenhuma contusão, dessa vez fez uma falta dura e obviamente se arrependeu no mesmo segundo, dá pra ver na cara de bunda dele. Está suspenso, beleza, mas não cometeu nenhum crime e não merece a hostilidade que tem recebido da maioria dos torcedores e da imprensa.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Mavericks e a zona

 Nowitzki conta para o árbitro que está chovendo


No sábado, o Dallas Mavericks teve o melhor primeiro quarto que eu já vi na vida - chegando a vencer por 29 a 4 em cima do coitadinho do Utah Jazz. O primeiro quarto espetacular não mostra apenas quão bom esse Mavs realmente é, ele nos mostra também - assim como nos mostra a reação do Jazz no mesmo jogo - a importância das defesas por zona na NBA.

Para quem não viu, os melhores momentos da partida estão aí abaixo:



Confesso que, já faz muito tempo, não sou um fã das movimentações ofensivas do Mavs. Nunca entendi times que preferem terminar contra-ataques com arremessos de três, e o ataque sempre se baseou muito na isolação de jogadores mesmo com um armador épico como o Jason Kidd em quadra. Eu reclamava bastante por aqui no blog de como o Kidd era mal utilizado, que ele ficava entediado num canto sendo obrigado a passar para o lado, e que o técnico Rick Carlisle, mesmo sendo um baita nerd de basquete, não tinha conseguido se utilizar da inteligência do armador. Mas as coisas no Mavs mudaram bastante no ataque graças a uma única mudança drástica - que foi do outro lado da quadra, na defesa.

Escrevi uns meses atrás sobre como tem gente por aí achando que a NBA não usa defesa por zona - o que é um engano enorme - mas que as regras da NBA incentivam os jogadores a infiltrarem, ao contrário do que acontece na FIBA, em que as bolas de três (e as defesas por zona) são regra absoluta. A NBA é a liga de basquete em que menos se arremessa de três no mundo, as regras privilegiam o jogador que ataca a cesta e procura o contato, as jogadas acabam tentando isolar jogadores para que infiltrem, e a defesa por zona tende a ser menos usada. Ainda assim, todos os times usam em vários momentos de todas as partidas com sucessos variados. Mas nenhum time usa a defesa por zona de modo integral, durante todos os minutos de todas as partidas, como o Dallas Mavericks tem feito nessa temporada.

Foi-se o tempo em que o Dallas, por não ter defesa ("D", como é carinhosamente chamada em inglês), era chamado de "Allas Mavericks". Assim que o Don Nelson deu o fora e o Avery Johnson assumiu a equipe, o Mavs deixou de ser uma peneira para se tornar uma defesa bastante respeitável. É claro que as deficiências individuais sempre comprometeram a defesa da equipe como um todo (faltava um pivô, Nowitzki tem problemas para defender o garrafão, Jason Kidd hoje em dia só defende as linhas de passe), mas nada que impedisse a defesa de ser sólida e muito distante daquele projeto-de-Warriors que era o Mavs da era Don Nelson.

Aquela mentalidade defensiva instaurada por Avery Johnson (que é muito melhor técnico do que lhe dão crédito) é o que tornou possível a defesa por zona em tempo integral de Rick Carlisle, um projeto ousado para a NBA atual. O Mavs inteiro se mostra comprometido com a defesa a um ponto tal que as deficiências individuais simplesmente desaparecem. Na prática, funciona assim: Jason Kidd marca individualmente o jogador que arma o jogo e que, portando, detém a bola. Mas dois jogadores marcam as laterais do jogador que arma o jogo, dois passos para trás do perímetro. As infiltrações ficam muito complicadas porque o jogador passa a enfrentar três marcadores, e os arremessos do perímetro são inibidos pela marcação homem-a-homem do armador do Mavs. O que sobra, claro, é um corredor paralelo à linha de fundo embaixo da cesta, em que os jogadores adversários podem transitar livremente e receber a bola sem dificuldade. Quando o Celtics usou essa mesma defesa nos playoffs passados para parar LeBron James, a solução para esse "corredor" era descer a porrada em quem recebesse a bola lá embaixo, forçando o Shaq a cobrar trocentos lances livres (já que ele fede no quesito). No caso do Mavs, a solução é, quem diria, Tyson Chandler. Todo mundo adora dizer que ele não sabe bem amarrar os próprios cadarços, mas a verdade é que ele nasceu para defesas por zona. Sua velocidade lateral garante a proteção dos dois lados do garrafão e torna o Mavericks um pesadelo de se enfrentar perto do aro. A solução contra a zona do Mavericks é amontoar o garrafão e ter que arremessar de fora, no espaço entre dois defensores - o que também significa, na prática, que existem dois defensores bem próximos tentando cheirar o seu pescoço. Contra o Jazz, a defesa por zona do Mavs anulou a movimentação ofensiva da equipe e pavimentou o caminho para o 29 a 4 inicial.

Mas o mais curioso, para mim, é como essa paixão pela defesa por zona no Mavs teve resultados positivos no ataque. O Mavs sempre gostou do jogo de perímetro, mas agora eles jogam em todas as partidas como se estivessem sempre enfrentando defesas por zona, procurando arremessar ao máximo. Isso porque usar a zona de modo tão eficiente também lhe ensina como vencê-la. O Mavs agora dá passes muito rápidos, gira a bola no perímetro, encontra os jogadores livres, e isola o mínimo possível. Dirk Nowitzki, contra o Jazz, acertou 10 de seus 12 arremessos, poderia ter arremessado mais umas 20 vezes, mas prefere não interromper a rotação da bola e premiar os companheiros de equipe livres. Quer aprender a vencer a defesa por zona do Mavs? Veja o Mavs jogar. Não dá pra um jogador sequer forçar arremessos, não dá pra centralizar o jogo, tem que colocar a bola nas mãos de todo mundo, passar o mais rápido possível, e sempre premiar com um arremesso o jogador que ficar sozinho contra a zona. Mesmo que ele seja ruim. Lembra de como a defesa por zona do Thunder deixava sempre o Artest livre na zona morta porque o arremesso dele fedia? Funcionou um jogo, funcionou dois, mas uma hora o Artest treinou e os arremessos caíram e o Lakers venceu a série. Simples assim.

Vale ressaltar, no entanto, que o Jazz conseguiu empatar o jogo com o Mavs no quarto período justamente porque passou a usar uma defesa por zona também. Foi antes de acabar o primeiro período ainda, uma defesa 3-2 focada no perímetro, e o Mavs teve problemas em estabelecer o ritmo que colocou no começo do jogo. Falta ainda para o Mavs um jogo forte de garrafão, uma jogada de segurança perto da cesta, e eu costumo insistir que é difícil levar a equipe a sério - especialmente nos playoffs - se a jogada de segurança, no final dos jogos, for um arremesso de longe, contestado, ou uma isolação para arremesso da cabeça do garrafão. É o mesmo motivo pelo qual não levo o Orlando Magic a sério (já que no final dos jogos não dá pra passar a bola para o Dwight Howard, que sofre a falta e não converte os lances livres). A dificuldade de jogar próximo à cesta ainda está lá no Mavs, mas a evolução do Nowitzki até mesmo nesse sentido é bem clara. O alemão não é apenas um dos melhores jogadores da NBA na atualidade, ele é um dos melhores de todos os tempos e ainda não atingiu seu ápice. Sua defesa melhora a cada dia, sua inteligência em defesas por zona só agora vem à tona, e seu ataque fica cada vez mais diversificado e agressivo próximo à cesta. Ele corre como se tivesse duas pernas esquerdas, mas e daí, seu jogo é eficiente e meu filho vai ter a mesma mecânica de arremesso que ele (vou fazer maratona de vídeos do Nowitzki e dar surra de chibata se ele arremessar como o Leandrinho, que parece um garçom segurando uma bandeja). Cada vez mais o Dirk sabe aproximar a bola do aro nas jogadas importantes e sua habilidade nos lances livres coloca medo nas defesas de descer o sarrafo. Mas ainda falta um bocado para que isso seja uma tendência na equipe e o Mavs consiga efetuar essas jogadas com naturalidade.

Me dou ao direito de ficar sempre com um pé atrás com o Mavericks enquanto o foco for exageradamente no perímetro, mas também me deu ao direito de babar no basquete que eles estão jogando agora. E babar muito, nível Alinne Moraes de babação. É a melhor defesa de se assistir em toda a NBA, e o ataque é muito mais inteligente do que foi nas últimas temporadas - o Jason Kidd até parece ser bem utilizado, o que é um milagre que já vale nossa admiração. Não fico mais tendo um aneurisma cerebram de ver o Kidd tendo que isolar o Shaw Marion de costas para a cesta ou o Caron Butler atrás da linha de três. Vencer 12 partidas seguidas não é acaso, nunca, e a contagem positiva só tende a continuar. Dia 20 de dezembro enfrentam o Heat, que vem de 8 vitórias seguidas, e vai ser legal ver como o ataque fraco de perímetro da equipe de Miami vai enfrentar a defesa por zona do Mavericks. Jogão, e o Mavs agora entra sempre como favorito. Não dá nunca pra respirar aliviado contra equipes com defesas fortes, e a fama do Mavs como melhor defesa por zona da NBA já está bem difundida. As equipes precisam se preparar para enfrentar a zona e acabam dando menos atenção para outros aspectos do jogo. O Mavs agora, finalmente, bota medo nos adversários - coisa que em geral nunca acontece em times sem jogadores físicos e que atacam pouco a cesta.

Mas voltando ao empate do Jazz contra o Mavs no finalzinho do jogo, vale também ressaltar que não foi apenas a defesa por zona que o Jazz colocou em prática a responsável por igualar o jogo. Grande parte da responsabilidade foi de Deron Williams colocando a bola debaixo do braço e resolvendo decidir sozinho. Parece que em todo começo de jogo do Jazz, o time acha que ainda tem o Carlos Boozer e começa com o jogo de corta-luz e arremessos de média distância com os jogadores de garrafão. As bolas não caem, a tática não funciona, e aí o Deron Williams começa a resolver sozinho. Infiltrando mais (já que é atualmente o armador mais forte da liga) cria espaços para os jogadores de garrafão; arremessando mais, a defesa vai para o perímetro e os jogadores de garrafão têm mais espaço para atuar. Paul Millsap e Al Jefferson possuem arremessos razoáveis, mas não são o Carlos Boozer, não molham as calças de alegria com um arremesso livre da cabeça do garrafão. Quanto mais ativo o Deron Williams é em quadra, mais Millsap e Al Jefferson podem ser ativos embaixo da cesta, onde realmente se destacam. Todas as reações históricas que o Jazz andou fazendo nessa temporada concordam nisso: o Jazz engrena quando o Deron Williams resolve ser o dono da budega.

Nesse ponto, aquela velha comparação do Deron Williams com o Chris Paul é praticamente impossível. Dia desses nos perguntaram no formspring o motivo do Chris Paul ser "passivo", não decidir os jogos sozinho como faz o Deron Williams. Pra começar, eles são jogadores muito diferentes. O Deron gosta mais de arremessar, é mais físico, procura o contato. O Chris Paul prefere a velocidade, os contra-ataques, é mais distribuidor. Mas, como sempre insistimos, a diferença sempre está ligada também aos companheiros de equipe, ao resto do elenco - nenhum jogador entra em quadra sozinho. Contra o Sixers, ontem, Chris Paul atacou a cesta (acertou 8 dos 12 arremessos, todas as duas bolas de 3 e os 7 lances livres que tentou) e passou mais tempo com a bola nas mãos - e a derrota foi vergonhosa. Na temporada passada, antes da contusão, o Chris Paul já estava pontuando como um maluco (chegou a ter mais de 30 pontos por jogo) na tentativa de evitar as derrotas constantes, e isso simplesmente não funciona. Parece absurdo, mas o elenco do Hornets é tão limitado que o único jeito de fazer com que saia de quadra com a vitória é minimizar as limitações e se aproveitar de suas qualidades. O Jazz é um timaço, o garrafão é forte, eles podem comer pelas beiradas, receber poucas bolas, viver de rebotes de ataque. O Hornets fede, se você não garantir que o Belinelli vai ter a bola naquele canto exato da quadra, ele não vai te render nada, bulhufas, não vai nem te pagar um refrigerante. O que o Chris Paul precisa fazer é garantir que todo mundo vai render ao máximo, porque ninguém ali naquele elenco é capaz de render sozinho, todo mundo é só carregador de piano. Eu avisei, quando o Trevor Ariza chegou em New Orleans, que ele não iria fazer nada sozinho, seria apenas mais um coadjuvante na equipe - isso porque eu o vi no meu Houston Rockets recebendo a responsa de criar o próprio arremesso e simplesmente sentando na calçada para chorar. Chris Paul tem que fazer todo o trabalho pesado para que os outros brilhem. Não vai dar certo sempre, mas é melhor do que o Chris Paul botar a bola debaixo do braço e assistir aos seus companheiros definhando até a morte, à espera da derrota certa.

Justamente por isso a defesa por zona também tem sido tão importante para o Hornets. O elenco limitado, quando se compromete com algo e joga em conjunto, consegue ser mais forte defensivamente. A defesa por zona exige trabalho coletivo, e maximiza a capacidade de Chris Paul de interceptar as linhas de passe e puxar contra-ataques. O problema é que a defesa por zona do Hornets é vulnerável no perímetro e, talvez por isso, só vem sendo usada nos minutos finais dos quartos (em geral nos 5 minutos finais do quarto perído), que é quando os times têm mais medo de arremessar (e motivo pelo qual o Mavericks precisa de jogadas embaixo da cesta para fechar os jogos, e o Magic depende tanto das infiltrações do Jameer Nelson). O que falta para o Hornets, claro, é encontrar uma consistência no ataque que permita ao time chegar aos minutos finais do quarto período com chances de vitória, algo que dificilmente acontecerá com o Chris Paul se focando apenas em pontuar.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Dallas Mavericks

Bolas Presas


Objetivo máximo: Título, sempre.
Não seria estranho: Jogar bem e cair no meio do caminho pela trocentésima vez seguida.
Desastre: Perder na primeira rodada dos playoffs.

Forças: Um dos elencos mais profundos da NBA.
Fraquezas: Sempre um dos times mais fortes da NBA, nunca o mais forte. Sempre perdem nos detalhes.


Elenco:








.....
Técnico: Rick Carlisle



Como jogador o Rick Carlisle foi o oposto do que é como técnico. Nas quadras não era grande coisa, mas venceu um título. Foi escolhido em 1984 pelo Boston Celtics na terceira rodada do Draft daquele ano (sim, ia bem além de duas rodadas) e acabou conseguindo uma vaga no time. Lá jogou pouquíssimos minutos por jogo, teve média de 2 pontos por jogo e tem seu anel de campeão pela conquista verde de 1986. Depois foi para o Nets onde durou 5 jogos e se aposentou por incompetência.

Aí começou sua carreira no banco, que é cheia de vitórias, times bem fodas e nenhum título. Em dois anos com o Pistons, 2001 e 2002, levou o time a 50 vitórias em cada temporada e longe nos playoffs, em 2002 foi eleito o técnico do ano. Curiosamente foi mandado embora para que o Pistons contratasse Larry Brown, que havia acabado de ter sido eliminado com o seu 76ers pelo Pistons de Carlisle. Brigas com a direção da franquia foram o motivo alegado.

Ele continuou sua carreira no Pacers e conseguiu lá a melhor campanha da temporada regular na liga, mas perdeu para seu ex-time, o Pistons de Larry Brown, nos playoffs. Antes disso já havia trabalhado na franquia como assistente de Larry Bird na campanha do Pacers até a final da NBA em 2000. Aliás, Bird queria ter colocado Carlisle no banco do Pacers logo no ano seguinte, quando saiu do cargo, mas na época ele não tinha o poder para isso e a vaga acabou com o saudoso Isiah Thomas. Assim que Bird assumiu a cadeira de operações de basquete no Pacers tratou de demitir Isiah e chamar Carlisle.

O Pacers do técnico era muito bom, um primor defensivo, mas o time se dissolveu depois de contusões de Jamaal Tinsley, Jermaine O'Neal e da suspensão de Ron Artest depois da briga de Palace of Auburn Hills. Depois daquela temporada ele foi demitido e assumiu o Dallas Mavericks, onde, de novo, montou um timaço, fez o Jason Kidd não só voltar a jogar muito como a defender muito bem, mas, claro, não ganhou nada.

O treinador é uma espécie de enciclopédia do basquete, um cara que manja tudo de tática, que enxerga o jogo como poucos e que pode citar exemplos táticos de vinte anos atrás. É o PVC do basquete. O problema é que para ser técnico não basta só entender do jogo, precisa saber ensinar tudo isso para os jogadores, lidar com o ego inflado deles, saber trabalhar os pivetes recém-milionários e nisso tudo o Rick Carlisle é um bosta.  Lembrando o que escrevemos sobre ele na Semana dos Técnicos em 2008:

"Dá pra imaginar o cara falando por uns 15 minutos, citando nomes de jogadas, números, dados, traçando linhas e mais linhas na prancheta com trezentas variações de ataque e infinitas movimentações ofensivas para, ao terminar, ouvir alguém como o Ben Wallace perguntar: "Peraí, professor, o que você quer é que a gente coloque a bola na cesta, é isso?""

Além disso tudo o Rick Carlisle agora é careca, viciado em tênis de mesa e irmão gêmeo do Jim Carrey.

.....
O Dallas Mavericks tem tudo para ser campeão, tudo. Quer um armador experiente e completo? Jason Kidd. Um dos melhores alas de força dos últimos 15 anos? Dirk Nowitzki. Especialista em defesa? Tyson Chandler, Brendan Haywood e Shawn Marion. Alguém para marcar pontos e tirar a pressão do Dirk? Caron Butler. Força no banco de reservas? JJ Barea e Jason Terry. Jogadores ruins para esquentar o banco? Alex Ajinca e Ian Mahinmi. Eles tem simplesmente tudo e um técnico inteligente e competente para treiná-los.

O problema é que essa deve ser a décima temporada seguida que eles tem todas as peças para serem campeões e não foram até agora. Já foram treinados pelo louco do Don Nelson, pelo ótimo Avery Johnson, há 2 anos pelo Carlisle e nada. Já tiveram Josh Howard, Michael Finley, Steve Nash, Antawn Jamison, Keith Van Horn, Nick Van Exel e nada adiantou. Todos jogaram bem, mas simplesmente não era o bastante. Quase sempre pararam no Spurs e nas poucas vezes que passaram pelo Tim Duncan deram um jeito de não aproveitar a chance.

Para esse ano podemos esperar mais do mesmo. A dupla Haywood e Chandler deve ser boa o bastante para o Dallas não ser dominado no ataque e nos rebotes por times como Lakers e Spurs, a defesa de Butler e Marion deve ser boa o bastante para eles não apanharem dos alas e armadores fortes do Oeste como Kobe Bryant, Carmelo Anthony, Tyreke Evans, dentre outros. E Dirk e Kidd vão comandar o ataque de olhos fechados como fazem faz tempo. É um time equilibrado (10º melhor ataque e 12ª melhor defesa no ano passado), que melhorou o elenco em relação ao ano passado (chegaram Chandler e o bom novato Dominique Jones) e deve ser um time que vai brigar forte por uma das três primeiras posições do Oeste e pela vantagem de decidir em casa nos playoffs.

Eu acho que o Mark Cuban tem todos os argumentos lógicos para dizer, como disse pouco tempo atrás, que o Mavs tem o melhor elenco do Oeste e é o time que mais ameaça o Lakers na conferência. Mas, apesar desse time ter todas as peças para ser campeão, você apostaria neles? Eu acho que é mais fácil que o universo em três dimensões onde vivemos seja apenas um holograma.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Em busca do pivô perfeito


Consegue apoiar uma bola no pescoço? Então está contratado pelo Mark Cuban

O Mark Cuban, dono bilionário do Dallas Mavericks, conseguiu um milagre desde que chegou no time há mais de 10 anos. Transformou uma franquia que era uma das maiores piadas da NBA em um time respeitado, vencedor e o único a conseguir furar o domínio de Spurs e Lakers no Oeste desde 1999. Muitos vão questionar a falta de um título e algumas derrotas traumáticas nos playoffs, é verdade, mas analisando um pouco mais de longe, não deixam de ser vitórias. Era impossível ver o Mavs dos anos 90 e pensar que 10 anos depois eles estariam quebrando recordes de temporadas seguidas com mais de 50 vitórias, é como pensar hoje em ver o Pacers ou o Wolves dominando a próxima geração da NBA.

Porém, se ele teve sucesso em mudar o time, falhou em um dos seus grandes sonhos: ter um grande pivô. Nos últimos 10 anos o Mavs teve um dos melhores alas de força da história, Dirk Nowitzki, os dois melhores armadores da década, Jason Kidd e Steve Nash, além de outros grandes jogadores como Nick Van Exel, Antawn Jamison, Michael Finley e Josh Howard. Mas pivô ele nunca conseguiu, e não foi por falta de tentativa!

Eu sempre digo que foi o Mark Cuban que tentou e não nenhum dos General Managers que passaram pelo time nesses anos todos porque o Cuban é o dono que mais interfere nos negócios do time em toda a NBA, de longe. Ele nunca contrataria um cara que quer independência para resolver tudo sem consultá-lo. Como Mark Cuban usa de sua fortuna pessoal para bancar muita coisa lá dentro, ele quer ter o direito de dar palpites. Uma atitude questionável, mas se em quase todo lugar quem tem dinheiro manda, nos EUA isso não é só verdade como também é bem aceito.

Cuban foi o primeiro a caçar na China um de seus pivôs gigantes. Antes de aparecer Yao Ming, a estrela era Wang Zhizhi, que apesar de não ser tão ruim, era fraco demais para a NBA. Ainda no exterior o Mavs foi atrás de Obinna (melhor que Eto'o e Shaq) Ekenzie, Mamadou N'diaye e outras aberrações. A de história mais curiosa é o russo Pavel Podkolzin. Ele apareceu do nada para a imprensa americana e no dia em que foi descoberto foi para a primeira (PRIMEIRA!) posição naquele site NBADraft.net, que faz uma aposta de como serão os drafts dos anos seguintes. Os depoimentos sobre um pivô de 2,26m que sabia bater bola, driblar, chutar de 3 pontos e jogar de costas para a cesta encantaram a todos. Alguns vídeos e treinos depois e perceberam que não era tudo isso, mesmo assim ele foi a escolha 21 do Draft de 2004 (antes de caras como Kevin Martin, Beno Udrih e Anderson Varejão). Ao mostrar que era ridículo nos treinos, participou de apenas 6 jogos em dois anos na NBA, marcou 4 pontos e decidiu voltar para a Rússia.

Depois disso ainda passaram por lá aqueles típicos jogadores que só servem para fechar elenco e aumentar a média de altura: DJ Mbenga, Evan Eschmeyer, Scott Williams, Ryan Hollins e um dos jogadores mais feios da história da NBA, Calvin Booth. Além, claro, do antológico Shawn Bradley, que deixou esse legado em Dallas:


Entre os de mais destaque, o Mavs apostou no Raef LaFrentz, um pivô bem ágil e com bom arremesso, que parecia ser a solução para o time não ficar baixo demais e ao mesmo tempo continuar a correria imposta pelo então técnico Don Nelson. Não é que deu errado, mas não solucionou o problema principal, ano após ano o Mavs enfrentava Tim Duncan, Shaquille O'Neal, Kevin Garnett, David Robinson, Brad Miller, Vlad Divac, Yao Ming e não havia uma alma capaz de detê-los. Tanto que no meio do caminho até apelaram para especialistas defensivos que não sabiam nem segurar a bola no ataque, como DeSagana Diop. Confesso que durante alguns jogos achei que ninguém marcou tão bem o Duncan quanto o Diop, mas o cara era uma parede com pernas, não um jogador de basquete.

Uma das grandes derrotas do Mark Cuban foi o verão de 2004, quando o Shaquille O'Neal tinha decidido junto ao Lakers que não continuaria em Los Angeles, buscando times para troca. O Mavs logo se apresentou: ofereceu qualquer pacote com qualquer jogador no elenco, apenas Dirk Nowitzki não poderia ser incluído. De resto o Lakers poderia pedir o time inteiro! Não querendo enfrentar o Shaq sempre nos playoffs e na temporada regular, o Lakers preferiu mandar o Shaq para a outra conferência, disse que só toparia uma troca com o Mavs se envolvesse Nowitzki.

Foi então que em 2005 o Mark Cuban decidiu que não iria gastar os seus milhões para manter o Free Agent Steve Nash, ao invés disso investiu grana parecida para tirar do Warriors o Erick Dampier. Desesperado por um pivô e sem ter conseguido Shaq, que revolucionou o Miami Heat naquele ano, foi atrás do Damp, que tinha feito uma boa temporada no Warriors. Mas mal ele sabia que o Dampier é o típico homem de contrato, que só joga bem no último ano de seus acordos para se valorizar para o ano seguinte. Essa armadilha também pode responder pelo nome de Bobby Simmons, Larry Hughes, Sasha Vujacic...

O Dampier não foi horrível na sua passagem pelo Mavs, mas não foi bom como o esperado e nem tão bom quanto o que sua folha salarial poderia sugerir. É um cara que faz poucas bobagens, pega seus rebotes, mas não faz questão nenhuma de chamar o jogo e pode passar despercebido por jogos inteiros. Não é facilmente batido na defesa, mas também nem nos melhores dias pode parar um grande jogador adversário. Ou seja, o Mavs dava um de seus maiores salários para um cara que tinha tudo pra ser um reservão. Típico da tara histórica de Mark Cuban por pivôs, que sempre achou que eles mereciam receber mais por serem mais raros e a chave para os títulos.

Na temporada passada o Mavs fez sua melhor manobra para ganhar um pivô. Mandaram um monte de porcaria para o Wizards para ter em troca Caron Butler e Brendan Haywood. Não precisou passar um mês da troca para ser óbvio como o Haywood, apenas por ser bem ativo nos rebotes e na defesa, era o melhor pivô do time em 10 anos. Ele também pareceu funcionar bem com o Jason Kidd e Caron Butler em suas infiltrações, era capaz de se posicionar para receber passes embaixo da cesta e marcar seus pontos sem precisar pensar, que não é o forte dele.

E o que aconteceu quando o Mavs finalmente achou um grande pivô? Enfrentaram o Spurs nos playoffs, que tantas vezes haviam lhes eliminado usando Tim Duncan e antes David Robinson, mas que dessa vez lhes bateu usando a tática do Mavs, o small ball. Ao invés de usar os pivôs (que nem tinha, pra falar a verdade), o técnico Popovich entupiu o Spurs com jogadores rápidos e baixos, como George Hill e Tony Parker e assim bateu o Dallas, que até afundou o Haywood no banco para tentar igualar a velocidade do Spurs sem sucesso.

Mais um fracasso não parou o Mark Cuban, que satisfeito com o Haywood, resolveu torná-lo mais um dos vários pivôs que vão pagar a faculdade dos bisnetos com o dinheiro do bilionário. Haywood assinou um contrato de 55 milhões de dólares por 6 temporadas!

Eu achei um bom negócio manter o Haywood, que é o melhor pivô que eles já tiveram, mas mesmo sendo o melhor, não é um cara completo. Se com ele o Mavs tem a defesa que sempre sonhou, ainda não tem presença de garrafão, já que Nowitzki trabalha bem apenas da meia distância pra trás. E ainda gastou uma nota preta, provavelmente porque o agente do Haywood sabe que do Mark Cuban dá pra arrancar muito dinheiro.

Talvez pensando nessa questão ofensiva, o Mavs não deu por encerrada a busca por mais um pivô. Por um lado é legal ver que o time é incansável na hora de tentar melhorar, mas foi esquisito vê-los correndo atrás de Shaquille O'Neal e Al Jefferson dias depois de pagar aquele caminhão de dinheiro para o Haywood. São 55 milhões para deixá-lo no banco, é isso? Faz algum sentido? Porque titular na frente desses dois ele não seria nem se a mãe do Haywood fosse a treinadora.

As negociações com Shaq, porém, não caminharam bem e o foco do time se tornou Al Jefferson. Mesmo ele não sendo um pivô nato, Big Al atuou com sucesso nessa posição pelo Wolves e se destaca justamente por ser um dos jogadores mais completos quando o assunto é atacar. Ele sabe se posicionar embaixo da cesta, tem bom movimento de pés e um dos fakes mais traiçoeiros da NBA. Seria o parceiro ideal para Nowitzki, que com ele do lado até teria mais espaço para atacar a cesta, coisa que ele tem tentado mais nos últimos anos.

As negociações estavam bastante avançadas porque o Dallas começou essa offseason com uma das moedas de troca mais valiosas do mercado, Erick Dampier. Não que ele seja bom, mas é que o seu contrato de 13 milhões (deus salve as criancinhas com fome!) não é garantido para a próxima temporada! Ou seja, um time poderia despachar para o Dallas alguém de salário enorme, receber em troca o Dampier e simplesmente dispensá-lo antes da temporada começar, sem precisar pagar toda essa bagatela. Muitos times estavam babando para se livrar de contratos ruins com uma troca pelo Dampier e o Wolves era um deles.

Mas como vocês sabem e já foi comentado aqui, o Al Jefferson foi trocado para o Utah Jazz, não para o Dallas Mavericks, e vocês sabem o motivo? Simples, o Dallas queria aproveitar a troca para se livrar também do contrato de quase 5 milhões de dólares do DeShawn Stevenson, que nem está sendo usado. O Wolves não aceitou, a troca empacou, ninguém cedeu e o Jazz aproveitou para entrar em ação.

Preciso comentar o nível de burrice dessa decisão? Eles estiveram a um "sim" de ter o pivô que o Mark Cuban sonha há 10 anos, um cara que mesmo jogando improvisado é melhor que Dampier, Haywood, LaFrentz e toda aquela renca junta! Mas não fizeram isso porque queriam se livrar do contrato do Stevenson? Por dinheiro? Depois de pagar tão caro por tantos pivôs eles não quiseram pagar um pouquinho a mais pelo DeShawn por um ano para ter o Al Jefferson? Porra, Mark Cuban, merece sofrer sem pivô por mais 10 anos!

No fim das contas o contrato não-garantido do Erick Dampier acabou sendo enviado para o Charlotte Bobcats em troca de não um, mas dois pivôs! Tyson Chandler e Alex Ajinca. O Ajinca é um desastre total! Falei mal do Johan Petro aqui outro dia mas acho que em um duelo 1-contra-1 o Petro vai parecer o Kevin McHale perto do Ajinca. Já o Tyson Chandler não é ruim, é muito bom quando não está machucado (o que tem sido raro), mas seus talentos são na defesa: toco, rebote e, no máximo, rebotes ofensivos e pontes-aéreas. Não é exatamente o que o Haywood faz? Gastaram o valioso contrato do Dampier para ter mais do mesmo.

Ah, e para não perder o hábito, o Mavs fecha suas ações de Off-Season contratando o glorioso Ian Mahinmi. Brendan Haywood, Tyson Chandler, Alex Ajinca e Ian Mahinmi, está satisfeito ou a busca continua, Mark Cuban?