terça-feira, 29 de março de 2011

Um mês depois - parte 2

 Aviso para o Celtics: se você quebra o coração 
do Perkins, ele quebra a sua cara na porrada

O Danilo comentou aqui quando o Thunder fez a troca pelo Kendrick Perkins dizendo que era exatamente o que eles precisavam e que tinha tudo para dar certo. O começo, com Perkins chegando em Oklahoma machucado, não foi dos mais fáceis, mas cerca de um mês depois dá pra dizer com bastante certeza que o experimento é mais que um sucesso.

Primeiro que o risco de ter trocado o Jeff Green por nada acabou logo, depois de recusar propostas de 22 milhões de dólares por 4 anos do Celtics, Perkins rapidamente aceitou uma proposta mais generosa do Thunder, 34 milhões pelo mesmo período de tempo. Não tinha porque negar: mais dinheiro, compatível com os absurdos que pagam hoje em dia para pivôs mais ou menos (alô, Nazr Mohammed, Brendan Haywood), e numa situação perfeita, em um time jovem, talentoso e que não é só promissor para o futuro como é também uma realidade já hoje. Tomar o pé na bunda da namorada Celtics foi doloroso, mas ele foi acolhido por uma bela super modelo russa, loira, rica e ninfomaníaca.

Nos primeiros jogos após a saída de Jeff Green, o Thunder pareceu mais frágil no ataque e não muito melhor na defesa. O lado defensivo era pela ausência da sua principal contratação, Perkins estava machucado, e o ataque simplesmente parecia menos perigoso e mais previsível (ainda mais isolações para Westbrook e Durant) sem Jeff Green para tirar o peso das costas das estrelas. Mas jogo após jogo, com paciência para implantar algumas mudanças importantes, o time começou a engrenar. O boost ofensivo veio de James Harden, ele continua vindo do banco e seus minutos por jogo nem mudaram muito, assim como sua função. Mas ele mesmo disse que viu a troca como um chamado para elevar o nível do seu jogo e está dando certo, começou a pontuar melhor e está jogando com a confiança que sua barba sempre pareceu lhe dar. O Harden não é espetacular em nada, não é o melhor arremessador, driblador ou nada do tipo no seu time, mas sabe fazer pontos e nesse momento é tudo de que precisam.

Mas o que faltava mesmo para o ataque melhorar, por mais bizarro que pareça, foi a volta do Perkins. Isso liberou o Serge Ibaka para ser menos pivô e mais ala de força, e mesmo com aquele tamanho todo e as enterradas, o Ibaka machuca as defesas adversárias quando fica longe da cesta e acerta aqueles improváveis arremessos de meia distância. Não parece que todos vão cair longe da cesta? Não sei se é a mecânica de arremsso, o tamanho dele ou só má fé minha, mas sempre acho que vai amassar o aro e quem erra sou eu. Ibaka não é, ainda, Jeff Green no ataque, mas seus arremessos longos às vezes tem o mesmo efeito de obrigar a defesa a abrir e se distanciar do garrafão. Pode-se fazer uma comparação desse Thunder com a troca do Orlando Magic de Rashard Lewis por Brandon Bass. Eles ganham em tamanho, defesa, e perdem um potencial arremessador de longe, mas nos dois casos os substitutos são bons arremessadores de meia distância, o que de certa forma é um bom tapa buraco para a estratégia não mudar tanto assim. Nos dois casos deu certo.

O que tem dado mais certo para o Thunder que para o Magic é que o Serge Ibaka é muito mais defensor que o Bass. Desde que virou titular Ibaka tem médias de 9.6 pontos, 9.8 rebotes e 3.1 tocos. É um absurdo de tanto toco! E sabe o que é mais insano ainda? Que ele está com média de 4 tocos desde que o Perkins voltou para ser seu parceiro de garrafão. Ao lado do Perk ele tem ainda 10.2 pontos e 9.8 rebotes também. Em outras palavras, com o crescimento de Ibaka e Harden, o Thunder conseguiu dar conta da ausência de Jeff Green e ainda por cima melhoraram muito na defesa.

Se o Perkins é o monstro defensivo que é hoje, muito deve-se ao Kevin Garnett, um dos melhores defensores da NBA quando o assunto é só basquete e um dos melhores defensores da humanidade quando o assunto é vontade, raça e em meter medo nos outros. Em uma catástrofe nuclear em que tivessemos pouquíssimos alimentos sobrando eu deixaria o Kevin Garnett defendendo o meu pratinho de sopa dos outros esfomeados. Essa mentalidade de que defender a cesta é mais importante que defender a vida das criancinhas (delas, aliás, Garnett bebe o sangue todas as manhãs) o KG passou para o Perkins, que em poucos anos se tornou um dos defensores mais temidos da NBA, certamente o pivô que menos tem medo de usar seu tamanho e força para descer a paulada. E agora ele está passando o seu conhecimento para o Ibaka, seu pupilo em Oklahoma.

O Kevin Durant afirmou que os dois treinam juntos, que o Perk está sempre no pé do Ibaka e que durante os jogos dá pra ouvir o pivô gritando coisas como "Serge, pega esse" e o Ibaka então salta para conseguir mais um de seus zilhares de tocos. Em um jogo contra o Wizards, ao ver o Ibaka deixando uma bandeja acontecer livremente, o Perkins simplesmente correu até lá e fez uma falta dura no coitado do atacante, encarando Ibaka depois. Em outro jogo, contra o Bobcats, Perkins deu um tapinha de "bom garoto" nas costas do seu pupilo depois que o Ibaka mandou um coitado para o chão sem que ele fizesse os pontos fáceis. O Thunder, que no ano passado foi eliminado pelo Lakers porque não conseguiu conter por muito tempo o seu adversário mais alto (foi eliminado com um rebote ofensivo do Gasol no último segundo do jogo 6) e que no começo desse ano sofria para conter os pontos perto da cesta, agora tem um ala de força que dá 4 tocos por jogo e um pivô que intimidaria o Chuck Norris se ele subisse para uma bandeja. Sente o drama de pegar os dois no fim de um jogo apertado:



E sabe o mais legal? O Serge Ibaka é um pirralho que está melhorando a cada mês desde que chegou na NBA, vai saber qual é o limite dele! E o Perkins nem está completamente em forma depois de 9 meses parado pela cirurgia no joelho. Os dois já estão arrasando com tudo e podem estar só no começo. E essa babação de de ovo toda na defesa é só pra não citar que eles tem Kevin Durant e Russell Westbrook metendo 30 pontos na cabeça de todo mundo quase toda noite. Eles também não sofrem com contusões nunca e todo mundo ainda é dente-de-leite! Sério, a única coisa errada nesse time é não estar em Seattle.

Para os que odeiam modinha e sempre torcem para os times que a imprensa não abraça, uma final entre Thunder e Bulls ao invés de Lakers e Heat seria a glória. Pois pelo que estamos vendo nas últimas semanas, além de gloriosa também não seria nada absurda. Mais fácil apostar nessa final para o ano que vem ou para daqui uns dois anos, é verdade, mas é uma possibilidade perturbadoramente real para daqui apenas alguns meses.

Vencendo sem querer

Leandro e Leonardo


Depois de muito tempo, finalmente o Leste é capaz de nos dar água na boca. Alguns dos melhores times da NBA estão lá, muitas estrelas foram trocadas para equipes do Leste, três equipes da conferência possuem mais de 50 vitórias e é completamente plausível (pra não dizer provável) que uma delas leve o título da NBA esse ano. Os playoffs no Leste serão incríveis, como será que o Celtics se sairá sem Perkins, como o trio do Heat reagirá à pressão, será que o Derrick Rose segura a onda, ainda dá tempo do Magic se acostumar com a mudança do elenco? Mas não podemos esquecer que essa empolgação com o Leste esconde uma verdade terrível: a conferência ainda fede.

Knicks e Indiana, atualmente donos das últimas duas vagas para os playoffs, possuem mais derrotas do que vitórias. O Sixers provavelmente manterá a sexta vaga apenas igualando o número de vitórias e derrotas. O Bobcats, que é um time que simplesmente desistiu da vida e quer se reconstruir (assumidamente nos moldes do Thunder), periga conseguir uma vaga nos playoffs mesmo tendo 10 derrotas a mais do que vitórias, chegou ao ponto deles pensarem em colocar o Stephen Jackson de molho no banco pro resto da temporada porque senão vão se classificar sem querer e ficar em pior situação ainda no draft. Isso significa que a elite do Leste (Bulls, Heat e Celtics) enfrentará um trio de cachorros semi-mortos em lavadas relativamente fáceis. Eu sei que ontem mesmo o Pacers ganhou do Celtics, e que o Sixers venceu o Bulls, e que eu não me arrisco a tentar entender o Sixers porque o time não faz sentido, mas eu duvido que numa série de playoff essas zebras se mantenham. Acho que o único confronto minimamente interessante deverá ser entre Hawks e Magic. Mas mesmo o Hawks, com 10 vitórias a mais do que derrotas,  é um time implodindo diante dos nossos olhos e vai tomar uma surra. Vão dizer: "ah, o Hawks é bom, o elenco é sólido, não venceram mais de 40 jogos a troco de nada". Pois é, foi o que todo mundo me respondeu quando eu avisei que o único jeito do Hawks vencer o Magic nos playoffs passados era o Dwight Howard comer veneno de rato ou tomar banho de banheira ao lado de uma torradeira elétrica. Como esperado, foi uma das maiores surras da história e vamos ter algo mais ou menos parecido outra vez. Então o Leste é legal, pode aparecer uma zebra ou outra por aí, mas a elite está muito acima dos reles mortais que se classificam com mais derrotas do que vitórias. A conferência ficou mais forte, é verdade, mas foi para alguns poucos. No fundo, acabou ficando ainda mais desequilibrada.

Enquanto isso, na conferência Oeste (que é tãaaaaao ano passado, querida!), três equipes podem terminar a temporada com mais vitórias do que derrotas e mesmo assim estarão fora dos playoffs. As três últimas vagas (atualmente de Blazers, Hornets e Grizzlies) serão disputadas por 6 times (com Rockets, Suns e Jazz com chances de classificação). É um absurdo! E prova de que equipes desacreditadas, em reconstrução, mais perdidas do que cego em tiroteio, conseguiram campanhas fenomenais - e históricas, até - enquanto ninguém estava olhando. Com mais ou menos uns 10 jogos sobrando para cada equipe até o fim da temporada, apenas dois jogos separam o sexto colocado Blazers do oitavo colocado Grizzlies, e mais dois jogos separam o Grizzlies do Houston, também separado por dois jogos do Suns. Ou seja, vamos dar uma olhada nas chances de classificação do Houston e do Suns e aproveitar para ver como suas campanhas deram milagrosamente certo num momento em que os dois times já pensavam em desistir e começar de novo.


Houston Rockets

O Houston começou a temporada acreditando que iria contar com Yao Ming, apostando na armação do Aaron Brooks e seu recém-ganho prêmio de Jogador que Mais Evoluiu, e com Shane Battier defendendo o perímetro. Terminou com um pivô de 1,98m chamado Chuck Hayes fazendo triple-double, a armação entregue ao eterno reserva Kyle Lowry (também fazendo triple-double), e a defesa de perímetro nas mãos do segundo-anista e ex-jogador de vôlei Chase Budinger, ou seja, foda-se a defesa de perímetro. O que diabos aconteceu? É tipo ir dormir com a Mari BBB e acordar com a Mari Alexandre: tá tudo bem, ninguém vai reclamar de nada, mas não era exatamente o que estava nos planos.

O começo capenga e a milionésima lesão do Yao Ming levaram a equipe a uma renovação de elenco, apostando em jogadores jovens e bastante flexibilidade salarial. Novamente, o que acaba brilhando é o esquema tático do Rick Adelman com seus passes constantes, armadores que não seguram a bola e cortam constantemente para a cesta, passes para jogadores desmarcados na linha de fundo e ninguém parado assistindo o jogo acontecer. O técnico já colocou em prática esse esquema com uma equipe sem nenhuma estrela antes, já teve muito mais sucesso do que se esperava, mas não conseguiu levar o time aos playoffs sem uma estrela para segurar as pontas. O elenco de agora não deveria ser uma nova tentativa de bater a cabeça contra a parede, já que todo mundo sabe que o Kevin Martin não vai carregar o time nas costas, era pra ser uma reconstrução sem pretensões imediatas, mas é que alguns jogadores acabaram se saindo bem demais no esquema e o que deveria ser uma renovação acabou se tornando uma equipe com chances de pós-temporada. A defesa do Houston, que desmontou completamente sem Yao Ming (e que tem um pivô anão debaixo do aro!), recebeu o apoio de Kyle Lowry e de Courtney Lee pra ficar menos vergonhosa. O Kyle Lowry aprendeu a arremessar de três pontos, qualidade essencial para os armadores do Adelman, e dominou por completo o esquema tático sem forçar as bolas idiotas que o Aaron Brooks forçava todo jogo. O Chuck Hayes, que é um pivô pintor de rodapés, está dominando as jogadas - que o Adelman tanto adora - em que a bola fica nas mãos dos pivôs na cabeça do garrafão. Então a defesa melhorou, Lowry e Hayes garantem que as jogadas fluam como o técnico deseja, as bolas de três estão caindo e é uma coisa linda de ver esse time funcionando ofensivamente. Até que os reservas entrem em quadra e só façam merda, e que a defesa se mostre uma peneira completa e não dê pra se manter no jogo, claro. As poucas jogadas individuais do Houston aparecem com o Kevin Martin (que às vezes força um bocado e enlouquece todo mundo, mas em geral é comportado) e com o Luis Scola, que sempre dá um jeito de pontuar no garrafão - e sempre dá um jeito de que pontuem em cima dele também Mas o banco de reservas, ao contrário, é cheio de jogadas individuais, não consegue segurar o ritmo ofensivo e manter o esquema sonhado pelo técnico. Normal, o banco só tem fraldinha. O ideal seria dar minutos para a pirralhada, ver quem vai continuar na equipe, encerrar o contrato do Yao temporada que vem e reforçar a equipe. Mas as chances de playoff ferraram tudo. O Hasheem Thabeet, que precisa de minutos urgentemente para não morrer de tédio, sequer entra em quadra pra não comprometer as chances de pós-temporada. Ou seja, o time ficou melhor do que deveria e com isso o Thabeet continua servindo só pra pegar lata no alto do armário.

Ninguém apostava nesse Houston sem Yao, sem T-Mac, com um pivô anão e uma estrelinha como o Kevin Martin, e é por isso que ninguém percebe quão genial é o Rick Adelman. A defesa desmontou, quebrou de vez, três anéis vermelhos da morte pra ela, mas o ataque é tão fantástico que colocou esse time desistente na luta por uma vaga e vai vencer mais de 40 jogos na temporada. Quão absurdo é isso? Vale dar o prêmio de técnico do ano para uma equipe que não venceu mais de 50 jogos? Por isso é que vale assistir aos jogos finais do Houston não para ver quão bom é o Kyle Lowry ou o Chuck Hayes, porque diabos, eles simplesmente não são. Vale é para ver a mão do Adelman tornando tudo simples, bonito e orgânico - e um ou outro reserva batendo cabeça, caindo de bunda e a defesa tomando trilhões de pontos. 

O Houston tem ainda 9 partidas: enfrenta Nets fora, Sixers fora, tem uma sequência em casa em que pega Spurs, Hawks, Kings, Hornets, Clippers e Mavs, e fecha a temporada com Wolves fora.


Phoenix Suns

O Suns já era uma equipe reconstruída quando venceu o Spurs nos playoffs com Nash, Jason Richardson e Amar'e Stoudemire. Mas perder o Amar'e foi duro demais para as chances de playoff da equipe, então resolveram jogar tudo fora e finalmente começar de novo. Quer dizer, mais ou menos. Porque tem alguma coisa lá na água de Phoenix que cura qualquer lesão e renova o sangue de qualquer ancião. É lá que o Shaq se recuperou da lesão que o tirou do Heat, que o Jason Richardson se manteve saudável, que o Grant Hill ficou sólido como rocha depois de uma carreira inteira destruída por lesões constantes. Então enquanto o Suns ia pela privada para começar de novo, o Nash estava lá outra vez com suas 11 assistências e 15 pontos por jogo, acertando quase 50% dos seus arremessos, e o Grant Hill estava lá provando que é um dos melhores - se não for o melhor da atualidade - defensores de perímetro da NBA. Nessa altura, os dois deveriam estar cansados fazendo cruzadinha na lareira de casa e tomando Ovomaltine, e não tornando o Suns um time competitivo. No dia final para trocas nessa temporada, o cu piscou e aí os engravatados de Phoenix não conseguiram trocar nenhum dos dois. Trouxeram mais molecada, conseguiram o Vince Carter para liberar 17 milhões de espaço salarial na temporada que vem, mas não conseguiram se desfazer dos dois vovôs que insistem em jogar muito.

Marcin Gortat e Channing Frye estão jogando bem, o Frye também se renovou no Suns e ganhou uns jogos sozinho com suas bolas de três, mas nenhum deles renderia o que está rendendo sem o Nash por lá. Então o time manteve os moleques junto com o armador canadense para que rendam alguma coisa, faz sentido. Mas e aí? Vão manter o Nash por lá pra sempre, mesmo que não tenham chances de título? Ele vai ficar refém de um projeto de reconstrução que nunca acontece simplesmente porque o Nash é bom demais? O contrato do Grant Hill termina nessa temporada, então o Suns tem que decidir isso também: renova com o Grant Hill e seus quase 40 anos? Porque renovar é aceitar que dá pra vencer agora, já, e que os dois veteranos vão receber ajuda. Mas precisa ser ajuda à altura, nos moldes do Amar'e, não dá pra trazer o Aaron Brooks e achar que vai mudar alguma coisa.

O Suns deveria estar se lascando, tropeçando e conseguindo uma baita escolha legal de draft pra reformar a equipe, mas não conseguiu feder porque o Nash e o Grant Hill são simplesmente bons demais. Conseguir uma oitava vaga seria o maior prêmio do planeta para eles, vovôs que não deveriam mais ter que aguentar essa pirralhada tirando meleca do nariz e o Vince Carter dando migué em quadra como se fosse criança mimada. O Carter vai para o banco pelo resto da temporada, de castigo, com Jared Dudley de titular e com a oitava vaga ainda na mira. É difícil, impensável, deveriam ter desistido muito antes, mas é possível e seria muito legal se acontecesse. 

O Suns ainda tem 10 partidas: enfrenta o Kings fora, o Thunder e o Clippers em casa, e aí passeia pelo país: pega Spurs, Bulls, Wolves, Hornets e Mavs fora de casa. Depois ainda enfrenta de novo Wolves e Spurs, mas em casa.

O engraçado é que o Suns e o Rockets enfrentam vários adversários iguais: Kings, Hornets, Mavs, Wolves, Spurs e Clippers, com o Suns enfrentando Spurs e Wolves duas vezes cada. Os adversários diferentes são Nets, Sixers e Hawks para o Rockets (um saco de pancada e dois classificados no Leste) e Thunder e Bulls para o Suns (duas equipes de elite).

Para comparar, o Grizzlies enfrenta Warriors, Hornets fora, Wolves, Clippers, Kings, Hornets, Blazers fora e Clippers fora. Ou seja, assim como o Rockets e o Suns, o Grizzlies também vai enfrentar Hornets, Kings, Wolves e Clippers. Tirando o Hornets, que também luta por posição, são apenas equipes fracassadas e quem  não conseguir vencê-las vai ficar muito atrás na briga pelas vagas. Novamente, são os times pequenos decidindo o futuro de seus irmãos maiores.

Rockets e Suns saíram melhor do que a encomenda, venceram meio sem querer, no meio de um projeto de reconstrução que não esperava exatamente ir parar nos playoffs. É capaz que as duas equipes nem consigam a oitava vaga, é verdade, mas Rick Adelman, Steve Nash e Grant Hill mereciam esse presente - muito mais do que o Grizzlies sem Rudy Gay, que poderá tentar novamente mais tarde, ou até o Blazers assolado por lesões e seu projeto de reconstrução pela metade. Essa reta final da temporada costuma ser a parte mais chata, a gente nem fica com grande peso na consciência quando temos que deixar o blog de lado um pouquinho para cuidar das nossas coisas, mas vale a pena acompanhar como essas equipes continuam tendo chances quando ninguém mais acreditava. E se forem para os playoffs, aí sim todo mundo verá o absurdo de suas campanhas - e dessa vez com muita cobertura do Bola Presa, que aquece os motores pra te matar de tanta leitura assim que a temporada regular terminar.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Um mês depois

JR Smith não entende esse troço de "coletividade" que comentam agora no vestiário


Muita atenção está sendo dada para o fato do Denver Nuggets estar com uma campanha muito melhor do que a do New York Knicks depois da troca do Carmelo Anthony. Mas eu só não sei se as pessoas estão dizendo isso para zoar com o Knicks, já que todo mundo ultimamente parece ter criado um gostinho especial em odiar equipes que fazem tudo por superestrelas, ou se é porque realmente achavam que o Knicks seria melhor que o Nuggets. Eles não eram antes, não são agora e não dá pra saber se serão no futuro.

O Knicks deixou bem claro nessa troca que o que eles queriam era juntar Carmelo Anthony com Amar'e Stoudemire, o resto do time eles dariam um jeito de conseguir depois. O único jogador além de Amar'e que eles não estavam dispostos a mandar era o Landry Fields, de resto topariam mandar tudo e foi o que fizeram. Danilo Gallinari, Wilson Chandler, Raymond Felton e Timofey Mozgov todos foram titulares no time durante toda ou algum período da temporada em Nova York, não dá pra perder todo um time assim de uma vez no meio do campeonato e esperar que tudo vai ficar bem. O plano deles era para o futuro e só no futuro vamos poder julgar com mais convicção se a decisão foi boa ou ruim, tudo vai depender de novas contratações no próximo ano e de treino, muito treino.

Um dos problemas do Knicks nos últimos jogos tem sido o desempenho no quarto período, e não é por acaso e nem porque seus jogadores são amarelões, muito pelo contrário; Chauncey Billups, Carmelo e Amar'e tem milhares de cestas importantes e decisivas nas suas carreiras para provar que sabem resolver no final. O que acontece é que com poucos treinos nesse primeiro mês de parceria eles só tem as jogadas individuais para apelar e assim fica mais fácil do adversário defender. Temos que lembrar que é no último período em que as defesas costumam ser mais fortes e é quando os times usam as suas jogadas de segurança. Que jogada de segurança tem um time que pouco treinou? Sem contar que existe o problema bem comum de equipes que tem muitos jogadores bons, todos acham que podem resolver no 1-contra-1 e se restringem a isso. Jogadores mais ou menos podem não ter treinado junto com ninguém, mas não acham que vão vencer jogos sozinhos como pensam Billups, Carmelo e Amar'e no Knicks ou LeBron e Wade no Heat, por exemplo.

Por outro lado, o Nuggets tinha tudo para melhorar. Perdeu dois jogadores bons mas ganhou outros quatro bons para as mesmas posições, sem contar que deu mais espaço para outros que já estavam lá só esperando atenção. O Ty Lawson agora pode brilhar com mais minutos e as loucuras individualistas do JR Smith parecem machucar menos o time quando ele é o único maluco individualista no elenco. Na parte tática o técnico George Karl disse que a adaptação dos novos jogadores foi fácil porque eles já conheciam muitas das jogadas e porque ele manda todo mundo sempre correr muito e jogar fácil no contra-ataque, ou seja, sem bíblias de jogadas complexas para eles aprenderem, a transição de equipe é mais tranquila. Alguém poderia argumentar que o Nuggets também deveria ter problema nos finais de partida por ter treinado pouco, mas duas coisas explicam porque isso acontece com o Knicks e não com eles:

1- O Nuggets está vencendo fácil, com diferenças gigantescas de pontos. Alguns quartos períodos eles só tiveram que administrar uma boa vantagem. Poucas vezes tiveram que lidar com jogos duros de meia quadra com adversários fortes.

2- Quando tiveram, como ontem contra o Spurs, realmente tiveram dificuldade no ataque e acabaram chutando bolas forçadas de longe. Mas compensaram defendendo muito bem! Nesse último mês o Nuggets tem números defensivos, como o de pontos sofridos a cada 100 posses de bola, muito parecidos com o Chicago Bulls, que é o Once Caldas da NBA. O Knicks, em compensação, tem uma defesa pior desde que Melo e Billups chegaram.

Números e tática à parte (só por um parágrafo), o fator psicológico tem sido importante nessa embalada que o time de Denver deu. Enquanto muita gente esperava um desmanche, ocorreu o oposto. Nenê afirmou que quer fazer carreira em Denver e negocia uma extensão de contrato, eles não trocaram imediatamente Gallinari e Chandler como especulado na época e disseram aos dois que fazem parte do futuro da equipe, mesma coisa que aconteceu com JR Smith. A saída do Carmelo criou uma sensação de alívio e união. A perda de uma estrela por várias vezes já uniu equipes, isso acontece o tempo todo. Aconteceu ano passado com a contusão do Andrew Bogut no Bucks, acontece agora com o Grizzlies sem Rudy Gay até o fim da temporada, aconteceu quase 10 anos atrás quando Antonio Davis liderou uma sequência impressionante de vitórias que levou o Raptors sem Vince Carter aos playoffs. E, por que não, foi esse sentimento que fez o Cavs sem LeBron James começar a temporada jogando tão bem. Se o elenco não fosse tão ruim e minado por contusões e se aquele jogo contra o Heat tivesse tido um resultado diferente, certamente não seriam a piada que são hoje. Em esportes competitivos e com tantos times com jogadores bons, coisas como motivação podem fazer toda a diferença.

O Dean Oliver, autor do livro Basketball on Paper, importantíssimo para o mundo das estatísticas de basquete, trabalhava com o Denver Nuggets no começo da temporada até sair do emprego semanas antes da troca do Melo para trabalhar na ESPN. Ele lembra em um artigo para o TrueHoop de uma declaração do dono do Nets, Mikhail Prokhorov, dizendo que só tentar trocar pelo Melo já havia custado muitas derrotas a seu time. A insegurança causada por ver tantos nomes diferentes envolvidos em trocas fazia o time não se concentrar e não render. Assim o Nets venceu apenas 10 jogos nas primeiras 12 semanas de temporada, então o russo disse que iria desistir de Carmelo e o time respondeu vencendo 7 das próximas 13 partidas, isso antes de conseguir o Deron Williams.

Já o Nuggets, na análise de Oliver, rendeu bem até o dia 15 de dezembro, como se nada tivesse acontecido. Essa data marcava o dia em que muitos Free Agents do último verão americano, como Raymond Felton, poderiam ser envolvidos em trocas. O Nuggets venceu 15 de 24 jogos até então. Aí os rumores começaram a ficar mais reais e o bicho pegou. Como funcionário do time, Oliver viu tudo de perto e disse que o clima no vestiário era diferente depois que os rumores ficavam mais reais e principalmente quando passaram a envolver o Chauncey Billups, herói da torcida. Nesse período o Nuggets teve 12 vitórias e 10 derrotas, com números defensivos que beiravam os piores da liga. Como já mostramos ontem, eles embalaram de novo depois da troca com 11 vitórias e 4 derrotas desde que Melo saiu.

Sem Carmelo Anthony para controlar a bola, a mídia, as atenções e os holofotes, os outros jogadores viram isso como a chance deles de brilhar e montar um time vencedor e coletivo. George Karl passou a fazer discursos enfatizando o jogo em equipe e a dedicação que cada um dava dentro de quadra, e o resultado é um time mais focado na defesa, mais esforçado, que batalha mais em quadra e que joga mais do que assiste. Voltando aos números, com Carmelo o Nuggets tinha 54% de suas cestas vindas de assistências, agora esse número subiu para 63%. É mais gente passando a bola e menos gente resolvendo por conta própria.

Também não podemos esquecer da profundidade que esse elenco tem agora. Se pensarmos no que já vimos de todos no elenco do Nuggets nos últimos anos, é bem fácil admitir que Lawson, Afflalo, Gallinari, Kenyon Martin, Nenê, Felton, JR Smith, Al Harrington e Wilson Chandler podem ter, facilmente, pelo menos uns 12 pontos por jogo. Isso dá 108 pontos por partida sem ninguém precisar acordar muito inspirado. Claro que não dá pra dividir assim tão racionalmente, mas o que eu quero dizer é que com esse elenco eles sempre vão ter opções de ataque e podem se adaptar a qualquer estilo de defesa ou sobreviver a alguém em um dia ruim. Eles perderam um cara que resolvia bem no fim dos jogos, mas ganharam muita gente que resolve em muitas outras situações. A teoria de que não dá pra ser campeão sem uma estrela pode ir contra o que eu vou dizer, mas o Nuggets é um time melhor hoje e os jogadores que recebeu foram tão bons que era uma troca que faria sentido mesmo se o risco de perder o Carmelo ao fim da temporada não existisse.

O George Karl já deu muitas entrevistas nos últimos anos e até nas últimas semanas dando a entender que não gostava do desinteresse que o Carmelo mostrava em algumas partidas, principalmente na defesa, e nem de como ele muitas vezes jogava as táticas no lixo para resolver sozinho. Isso influenciava o time de uma maneira negativa. Agora Karl vê ele mesmo como o líder da equipe e as suas atitudes cobrando defesa e coletividade têm dado resultado em quadra.

No fim das contas dá pra dizer que a troca só teve vencedores, quer dizer, pelo menos todo mundo conseguiu o que queria: O Carmelo ir para Nova York, o Knicks uma estrela de nome e o Nuggets um time de basquete melhor.

terça-feira, 22 de março de 2011

Equilibrados e prontos

Não parece aquela vez em que o Ronaldo mijou no meio do campo?


Quando o Boston Celtics trocou o Kendrick Perkins e todo o resto do seu banco de reservas, eu já na hora disse, "Pronto, agora o Chicago Bulls é mesmo o melhor time do Leste". Não seria doido de já sair cravando que eles vão estar nas Finais da NBA, afinal o Boston ainda tem um timaço e mais de um mês para entrosar toda a nova gangue e seu novo estilo de jogo mais leve e baixo. E o Miami Heat em um dia bom pode vencer qualquer time do mundo por 20 pontos de vantagem só usando a mão esquerda, é saber quando vão conseguir ser mais regulares. Mas enquanto os dois adversários tem lição de casa para o fim da temporada regular, o Bulls já está em ponto de bala e prontinho para os playoffs.

Isso é impressionante, pra não dizer assustador e inexplicável, porque o Bulls era, antes da temporada, uma clara aposta para "time do ano que vem". Primeiro pelos adversários, Celtics e Magic já pareciam prontos e o Heat parecia simplesmente bom demais, estavam bem a frente do Bulls, que tinha começado quase do zero. Boa parte do elenco, assim como o técnico, chegou apenas nesse ano. Com Tom Thibodeau vieram Carlos Boozer, Kyle Korver, Ronnie Brewer, CJ Watson, Omer Asik e Brian Scalabrine. E sem contar que eles queriam muito um armador da posição dois e não conseguiram os mais desejados, ficando com Korver, Bogans e Brewer, todos os três contratados para serem reservas. Na teoria era time pra fazer bonito nesse ano mas brilhar só no futuro.

O que a gente não contava era que o Tom Thibodeau se destacaria como um dos principais técnicos da temporada e colocaria o seu estilo de jogo logo nas primeiras semanas. O responsável pela espetacular defesa do Celtics nos últimos anos montou mais uma muralha: O Bulls é o time que menos toma pontos por posse de bola (0.99 por posse), a segunda em total de pontos por jogo (atrás do Celtics), a terceira que menos permite pontos no garrafão, a que menos permite bolas de três pontos e por aí vai em qualquer quesito que você imaginar! Nos últimos 12 jogos eles tomaram apenas 980 pontos, o menor número em qualquer sequência de 12 jogos na bem rica história da franquia. Thibodeau com seus 73% de aproveitamento tem o segundo melhor número em técnicos estreantes na história da NBA e o Bulls com 23% de melhora em relação ao ano passado é o time que mais evoluiu na temporada. Poderia passar o dia coletando números que mostram como esse time tem sido espetacular.

Boa parte do crédito para essa melhora é do treinador, que aproveitou a chance de ser o primeiro técnico do Bulls em 10 anos a ter um ala de força de verdade e além de montar a defesa forte fez um ataque simples e eficiente, ele é certamente um dos líderes para ganhar o prêmio de técnico do ano. Mas outra parte enorme pode ser dada para o Derrick Rose, que concorre a outro prêmio, o de MVP. Aqui já pegamos muito no pé do Rose, principalmente o Danilo, para fúria dos torcedores do Bulls, mas tudo o que você acha de defeito no moleque ele arruma em algumas semanas e você fica com a cara no chão. Agora que ele é um melhor arremessador e passador, o que podemos falar de mal dele? Da defesa? Talvez ele não seja um Rajon Rondo da vida, mas dificilmente você vê ele fazendo bobagens épicas e ele sabe o seu papel na defesa coletiva do Bulls. A minha crítica maior no começo da temporada era que ele segurava muito a bola, mas desde aquela época já admitia que também era por falta de opção. Todos os outros jogadores do time são mais finalizadores do que caras que podem tirar um pouco do peso das costas do armador, com exceção, por incrível que pareça, do Joakim Noah, que é excelente passador.

Por isso a maior crítica para o Rose não é exatamente para ele, mas para o time. O armador, aliás, só acaba parecendo ainda melhor por render tão bem nessas circunstâncias. Ele tem o segundo maior "usage rate" da liga, essa estatística é uma estimativa para saber em quantas posses de bola os times usam certo jogador, só o Kobe está à frente de Rose em toda a NBA. E sendo o jogador mais usado do time e um dos mais usados na NBA ele responde fazendo 42% dos pontos do Bulls, nenhum outro jogador na NBA domina tanto a pontuação de sua equipe. Ou seja, se o time precisa dele e quer que ele faça tudo, ele vai lá e faz. Precisa de bolas de três, infiltrações, lances livres, o moleque faz tudo! Só de pensar que ele já evoluiu tantos aspectos do seu jogo e ainda tem 22 anos é de dar arrepios, o time está pronto pra vencer agora, mas tem tanto futuro pela frente que nem tem porque esquentar com uma eventual derrota.

Nessa temporada quase perfeita do Bulls apenas duas coisas preocupam. Uma delas é essa falta de um jogador para dividir responsabilidades com o Rose na hora de segurar a bola, distribuir o jogo e criar o próprio arremesso, não é porque ele dá conta que o time não deveria procurar ajuda. Todo mundo estava esperando mudanças no movimentado último dia de trocas e o Bulls preferiu não fazer nada, não arriscar, mesmo com propostas por Omer Asik aparecendo aqui e ali. Será que valia a pena ter arriscado para tentar um título imediatamente ou se está dando certo do jeito que está não tem porque se livrar de bons jogadores e tentar de novo ano que vem? A explicação mais provável está nessa matéria do Henry Abbott no TrueHoop. Nela ele comenta como esse elenco do Chicago Bulls tem um senso de união difícil de encontrar na NBA.

Ele começa o texto citando o MIT Sloan Sports Analytics Conference, o encontro mais nerd de basquete que eu expliquei no fim desse post. Abbott diz que no meio de tanta análise estatística pesada, psicologia e comportamento, todo mundo concordou que não dá pra fazer nada disso sem gostar de basquete. Para chegar nesse nível e ter motivação de lutar tanto, se dedicar e se ferrar tanto, tem que amar esse negócio de colocar uma bola laranja em um cesto furado. E essa equipe do Bulls parece que é assim bem apaixonada, por basquete e uns pelos outros. "Você não acreditaria em quanto a gente manda mensagens de textos uns para os outros", conta Taj Gibson. E a combinação que eles conseguiram é uma das mais difíceis de se encontrar: tem jogadores que gostam um do outro, que não saem se estranhando por aí e que se incentivam o tempo todo, mas ao mesmo tempo eles não são só festa e brincadeira, o técnico Thibodeau é conhecido pela postura quase militar que cobra disciplina, atenção, dedicação e até chama de surpresa alguns jogadores para treinar em dias de folga. Mas os mesmos admitem que ao mesmo tempo a relação é boa e de carinho. É quase um comercial de margarina mas com negões gigantes no lugar das criancinhas. O Joakim Noah, bem famoso por ser emotivo e meio maluco, deu uma declaração bem legal que diz bastante sobre como ele e o time estão encarando a temporada:

"Eu estou fazendo algo que sempre sonhei desde criança, estou jogando no Chicago Bulls. Jogando para um time que todos dizem que está na briga pelo título. Tenho um técnico que é apaixonado pelo que faz, um ótimo professor, e um MVP atuando no meu time. E eu valorizo isso, não estou preocupado com o futuro e nem com o que aconteceu no passado. Sou muito sortudo e abençoado, apenas aproveitando o basquete, o momento e focado em jogar basquete".

Mas eu tinha falado de duas coisas que preocupavam, uma era essa falta de mudança, a segunda são as contusões. Todo mundo sabe que o garrafão titular do Bulls é Carlos Boozer e Joakim Noah, não há uma real disputa de posição, se ambos estão saudáveis a vaga é deles. E mesmo assim Taj Gibson tem 19 partidas como titular na temporada e Kurt Thomas tem 34. Significa. No começo da temporada foi Boozer machucado, depois Noah e recentemente até os dois ao mesmo tempo.

Ver como o Bulls consegue manter o alto nível mesmo com os dois de fora é pra meter medo nos adversários, mas não dá pra realmente acreditar que dê para ir muito longe nos playoffs sem ele. É como o Spurs agora que o Tim Duncan torceu bem feio o pé. Dá pra levar bem a temporada regular até o fim numa boa, mas é impensável ir longe nos playoffs sem ele. Todo time campeão precisa saber lidar com contusões durante a temporada regular, mas não lembro de nenhum que tenha conseguido seu anel sem um ou dois jogadores essenciais durante toda a pós-temporada. Sem Boozer, Noah ou sem os dois o Chicago vai meter medo, vai ver o Derrick Rose ganhar uns jogos sozinho, mas não dá pra imaginar eles batendo o Heat, Celtics ou até o Magic.

O equilíbrio é a definição do Bulls dessa temporada. O ataque é limitado e depende muito do Rose, mas a defesa é arrasadora. Eles tem disciplina rígida, mas em um ambiente leve de amizade. Tem as contusões, mas um bom banco de reserva e uma tática rígida que mantém o padrão da equipe. E tudo isso acontece com regularidade, sem os altos e baixos do Miami Heat e sem a mudança brusca de elenco de Magic e Celtics no meio da temporada. O time está tinindo, mais do que o MVP mais novo da história ou um técnico do ano estreante, estamos prestes a ver o Chicago Bulls indo longe nos playoffs pela primeira vez em mais de uma década.

Ah, não encontrei um lugar no post para colocar isso, mas desde quando um blog de basquete precisa de gancho pra postar vídeo de enterrada, né?

sábado, 19 de março de 2011

Filtro Bola Presa - Um resumo semestral

Tenho certeza que eles tem uma boa explicação para isso


Fala galerinha irada, tudo nos esquema? Antes de mais nada, queria explicar minha ausência. Sumi do blog por um tempo, mas por bons motivos. O Felipe, webdesigner dessa budega, se deu ao trabalho de vir até o Chipre me visitar e aproveitamos que estamos do lado e fomos conhecer Istambul, a mais bonita cidade caótica que eu já vi. Então passei uns dias longe, me segurei para não gastar meus últimos trocados numa camiseta do Allen Iverson no Beşiktaş e me diverti bastante. Na volta, uma semana de provas para as quais não tinha me preparado (estudo tanto quanto o Eddy Curry faz trabalho físico) e agora finalmente estou livre para dar atenção para o meu bloguinho lindo.

Para compensar o tempo perdido nada melhor que um bom Filtro para comentar coisas pequenas e simplórias que aconteceram nesse tempão. Fofoca velha ainda é fofoca!

....

- Começo recomendando um Tumblr bem legal chamado "Homens Brancos Não Sabem Blogar". Quando eu tive a idéia de fazer uma página no Tumblr para o Bola Presa a minha idéia era fazer o que eles fazem lá hoje: postar algumas coisas por dia, sempre pequenas, rápidas ou só fotos engraçadas mesmo. Mas faltou vontade, dedicação e o nosso Tumblr foi dessa pra melhor. Por sorte apareceu gente para fazer a coisa bem feita. Vale a visita. E volta e meia linkam umas coisas nossas, puxando o saco a gente gama.

Outra coisa: Lá eles tem uma seção em que photoshopam umas imagens de jogadores nas profissões que seguiriam caso trabalhassem no que se formaram na faculdade. Então fica a dica, na próxima podem colocar o Troy Murphy como um daqueles carinhas que tacam spray bronzeador nas pessoas. Sério, ele fez curso!


- "Você está em uma sala gelada, comendo uma comida que não consegue reconhecer. Tem um cheiro forte de álcool no ar, provavelmente vindo do hálito de uma das outras 12 pessoas que estão com você nessa sala. Ninguém vê problema nisso, afinal é uma celebração. Você tira seus fones de ouvido só para pegar o final de uma história:


"... e aí ele começou a jogar notas de 50 para garotas aleatórias falando 'vagabundas, eu tenho dinheiro'"


Uau! Deve ter sido uma boa história. Você passa por algumas pessoas com câmeras e cabos para voltar para ir até o fundo da sala onde seus tênis o esperam. Então você se senta e abre um sorriso. Quem é você? Você sou eu no campeonato de enterradas da Liga Coreana de Basquete."

Esse é só o começo de um ótimo e divertido relato de Rod Benson, que joga basquete na Coréia do Sul e escreve para o HoopsHype. Leiam, vale só pela parte sobre os coreanos na sauna querendo conferir o tamanho do pinto do nêgo.


- Esse era pra gente ter postado faz tempo, mas acho que ainda tem graça. O Basketbawful, o blog mais engraçado da história da gringolândia, organiza todo ano o Null-Star Game. É a versão do mundo bizarro do All-Star Game, ao invés de Kobe, LeBron, Durant e esses caras overrateds, o show é dado por todos os caras mais undergrounds da NBA.

O time titular do Leste, por exemplo, tinha Von Wafer, Quinton Ross, Jason Kapono, Brian Scalabrine e Joel Anthony. E pegou o Oeste que tinha Ronnie Price, Quincy Pondexter, Luke Jackson, Darnell "Lacktion" Jackson e Hasheem Thabeet. No banco, estrelas como Sherron Collins, Johan Petro e Brian Cardinal.

O jogo foi rodado no NBA 2k11 e você pode ver inteiro aqui. Abaixo só o 4º período com resumão no final:



O placar foi um humilhante 51 a 15 para o Leste. O Oeste acertou 2 de 45 arremessos tentados, basicamente o mesmo aproveitamento que você teria atirando vendado uma melancia do meio da quadra.


- Falando em Basketbawful, foi lá que saiu o melhor comentário do mundo sobre o Triple-Double do JaValle McGee. Pra quem não sabe, o pivô do Wizards conseguiu um impressionante jogo com 11 pontos, 12 rebotes e 12 tocos. Mas não foi fácil, porque no fim do jogo ele tinha 9 pontos e precisava desesperadamente acertar mais um arremesso para alcançar a sonhada marca. Com o jogo resolvido (o Wizards tomava uma surra de pau mole do Bulls) ele entrou no modo Mamba Negra de atacar a cesta...



O comentário do Basketbawful? "Eu já vi viciados em Warcraft menos desesperados em perder a virgindade".




- Só para fechar com a sessão "Eu pago um pau absurdo para o Basketbawful" da semana, um vídeo genial que eles fizeram sobre a troca do Kendrick Perkins. Depois do Doc Rivers ter dito que eles perderam um membro da família, o Basketbawful pensou "e se realmente trocássemos um membro da família?".

Então ele mandou um filho engraçado para outra família por outro que é melhor em matemática, afinal já tinham muitos piadistas em casa e a outra família precisava de alguém que animasse o ambiente. Nunca é fácil trocar um filho, mas foi uma situação onde todos os lados saíram vencendo, certo?




- Tá velho, mas tem mané que não viu e precisa ver esse vídeo. Bom ou ruim, do bem ou do mal, perdendo ou ganhando por 30 pontos contra o Spurs, se você assistir o Miami Heat jogar existe uma boa chance de ver algo desse nível:



- Outro vídeo legal é esse lançado pela NBA.com na longínqua semana do All-Star Game com todas as enterradas do Blake Griffin até então. É tudo na velô da luz e pode te dar ataque epiléptico tipo Pokémon, mas, assim como as aventuras de Ash, vale a pena.

- Nessa semana a internet está bombando para celebrar a genialidade de Rebecca Black e seu já clássico "Friday". Na profunda letra ela diz que se hoje é sexta, amanhã é sábado e depois é domingo. Supere essa, Chico Buarque! Mas pelo menos melhor que aquela música da Sandy em que ela erra a ordem das estações do ano.

De qualquer forma, a Rebecca Black da semana passada era o Charlie Sheen. O ator é tipo a Grazi Massafera americana, só fazendo na TV papéis que são ele mesmo na vida real, mas ao contrário da musa que beija a boca que já beijou a Alinne Moraes, Sheen realmente faz muito sucesso. Era o astro da série Two and a Half Men, uma das séries de mais sucesso nos EUA. Mas o pessoal se encheu de ter que lidar com o Charlie da vida real que faltava no serviço e estava sempre bêbado, drogado e/ou com prostitutas e o mandou para o olho da rua. Como resposta ele deu uma entrevista que virou hit na internet. Entre um zilhão de bobagens hilárias ele citou "o grande Allen Iverson".



Eu respeitaria qualquer um que cita o Iverson no meio de uma conversa. É como eu espero ser respeitado quando cito trechos de músicas do Racionais em momentos da vida cotidiana.


- Essa a gente postou no Twitter, mas vai que alguém não viu: Chris Bosh graduado com louvor na Escola Manu Ginóbili de Flop Avançado.


Foto da Semana


Kris Humphries achou que estava em um episódio do Scooby Doo e tentou arrancar a máscara que o Omer Asik estaria usando para cometer o terrível crime de assustar pessoas.


GIF da semana

Como postado pelo JE Skeets do Basketball Jones, "A alma de Jeff Van Gundy"


Na verdade é o "GIF da semana entre aqueles relacionados de alguma forma ao basquetebol", porque o de verdade todo mundo sabe que é esse. Se bem que poderia ser sobre de basquete também, um exemplo do jogo de pernas do JaValle McGee ou do Robin Lopez talvez.


- Eu sempre digo que quando você viaja precisa abraçar a cultura do lugar para se sentir um local. Então na Espanha você deve dormir depois do almoço, no Chipre você não pode ser pontual, no Japão você gosta de pornografia bizarra e nos Estados Unidos precisa fazer o sacrifício de comer fast food todo dia. O Timofey Mozgov quis ser mais americano ainda e levou sua namorada para se casar em Las Vegas! Pra quem quiser ler o original russo tem esse link, se você é analfabeto no alfabeto cirílico como eu vale pelo menos para as fotos da situação e da sua loirinha firmeza.


- A gente passou muito tempo analisando as trocas ocorridas no famoso "Trade Deadline", a data limite para trocas. Mas como foi nos bastidores? Esse é o palpite do Garbage Time All-Stars:



- O senso comum diz que a melhor coisa para um cara que enterra muito bem é ter um grande passador no mesmo time. Juntar Jason Kidd com Vince Carter no Nets anos atrás, por exemplo, foi visto como um sonho. Mas querem saber a minha opinião? As melhores enterradas vêm dos piores passes.




- Vocês sabiam que o Gary Neal, o novato-sensação (como diria a RedeTV!) do Spurs, teve um caminho complicado pra diacho pra chegar na NBA? Eu não sabia. No seu segundo ano de faculdade foi acusado de estupro e perdeu sua vaga no time. No fim ele foi inocentado, pelo jeito foi um caso de sexo entre bêbados em uma festa, mas mesmo com a inocência oficial não foi recebido de volta e teve que caçar outro lugar pra jogar.

Ele acabou indo para uma faculdade bem pequena e sem renome, Towson, onde passou por zilhares de entrevistas para ser aceito. Depois dessa história é claro que passou em branco pelo Draft da NBA e aí foi para Turquia, Espanha e depois Itália, onde milagrosamente recebeu uma chance do Spurs. Aliás, milagrosamente não, por méritos dele e dos melhores olheiros do planeta. Neal é uma das razões para o Spurs ser um dos melhores time da NBA em bolas de 3 pontos nessa temporada. A história dele tem mais detalhes nesse link do Spurs Nation.

- Já nos mandaram muitas mensagens pedindo opinião sobre filmes e documentários sobre basquete. Não é uma área onde eu me sinto muito à vontade comentando, mas vou tentar num futuro próximo. Enquanto vou correndo atrás de todos os torrents (ainda não vi o novo sobre o "Fab Five" de Michigan, por exemplo) vocês podem ler a opinião do blog BallinEurope, que todo ano entrega seus Oscars. Mas, como bom basqueteiro, o prêmio dele chama "Oscar (Robertson)". Para ele o vencedor de 2010 foi o "Once Brothers" sobre Vlade Divac e Drazen Petrovic. Para ler todo o texto e os outros candidatos, clique aqui.


Frase da Semana
"Essa bolsa não é minha, é do Nocioni. Só um europeu teria algo assim" - O novato Evan Turner é também novato em geografia


- Um dos melhores textos que eu li nessa temporada sobre o cada vez mais esquecido Gilbert Arenas: "Ele parece um pai de quase 40 anos que foi arrastado pelos filhos para a Disney. Tem algo no seu olhar que diz 'por que não posso estar em casa tomando cerveja e vendo TV?'". Leiam, é bom demais.

- Quer dizer que a adidas fez primeiro campanha com Star Wars e agora com a Katy Perry? Próxima promoção do blog vai dar o direito de uma luta de sabre luz contra a maior delicinha da música pop (embora não seja melhor que a Gaga, claro!)

- Todo mundo, sem exceção, em algum momento da temporada fez piada com o Carlos Arroyo. Por ele ser ruim, errar arremessos, ser careca ou falar com um sotaque engraçado. Mas agora temos que respeitar o cara que depois de ser dispensado pelo Heat foi contratado pelo Celtics. No último jogo contra o Clippers (uma derrota, funhé) ele fez sua estréia e surpreendeu a todos ao armar o jogo chamando jogadas do livro de jogadas do Celtics e que ninguém tinha ensinado pra ele! O porto-riquenho simplesmente tinha estudado o seu novo time e sabia que jogadas eles tinham, sendo capaz de liderar o time como se estivesse lá há decadas. Um bom sinal para uma equipe que nesse mesmo jogo tinha um banco de reservas com Arroyo, Sasha Pavlovic, Jeff Green, Troy Murphy e Nenad Krstic, cinco jogadores que semanas atrás estavam em outros times.

- Todo jogador que sonha em jogar na NBA se imagina entrando em quadra com o seu uniforme novinho, com o número favorito bordado e o sobrenome da família ostentado nas costas. Marcus Cousin não teve o mesmo glamour.


8 ou 80 - O cantinho das estatísticas desnecessárias
As estatísticas são colhidas em todo canto da Internet. Algumas em blogs, outras em sites, algumas na marra por conta própria. Mas a grande parte é coletada nas divulgações do Elias Sports Bureau e Basketball-Reference.com


- Ontem o Jameer Nelson fez uma cesta de último segundo para dar a vitória para o Orlando Magic sobre o Denver Nuggets. Foi o 15º arremesso vitorioso no estouro do cronômetro da temporada, um a menos do que o total do ano passado.

- Nos últimos 4 jogos Rajon Rondo tem a excitante marca de 4 arremessos certos em 29 tentados. Eu, você e todo mundo canta junto e ganha dele em um 21 parado.

- Na última semana Kevin Durant conseguiu sua primeira vitória jogando contra LeBron James, e fez em grande estilo. Marcou 29 pontos no jogo e foi marcado pelo King James na maior parte da partida. Em 51 posses de bola onde o confronto aconteceu Durant tentou 15 arremessos, acertou 10 e fez 21 pontos.

- Em vitória contra o Raptors, o novato Greg Monroe foi o primeiro pivô do Pistons a fazer pelo menos 20 pontos, 10 rebotes e 5 assistência em um jogo desde que Bill Laimbeer o fez no longínquo ano de 1988.

- LeBron James é (bocejo) o jogador mais novo a alcançar a marca de 17.000 pontos na carreira. Em outras notícias chocantes, chocolate é gostoso e chuva molha.

- Tyler Hansbrough realmente odiava o ex-técnico Jim O'Brien. Com os 29 pontos que fez ontem contra o Bulls ele tem mais de 20 pontos em 6 de seus últimos 7 jogos. Antes disso tinha feito mais de 20 pontos em apenas 5 oportunidades nos primeiros 79 jogos da carreira.

- Trevor Booker, Jordan Crawford e John Wall marcaram mais de 20 pontos na derrota do Wizards para o Raptors na sexta-feira. Foi a primeira fez desde 1963 que três novatos do mesmo time passaram de 20 pontos no mesmo jogo.

- Kevin Love parou sua sequência de double-doubles com 53, Blake Griffin chegou aos 37 e Dwight Howard está com 27 seguidos. É a primeira vez de a temporada 1971-72 que três jogadores diferentes tem sequências de 25 double-doubles ou mais no mesmo ano. Naquela ocasião os recordistas foram Kareem Abdul-Jabbar (com uma sequência de 39 e outra de 29), Dave Cowens (37) e Spencer Haywood (37)

- O Nenê já foi o cestinha do Nuggets sete vezes nessa temporada, nesses jogos eles tem 6 vitórias e 1 derrota (para o Clippers, o time do avesso)

- Só na velha guarda: Grant Hill, Steve Nash, Jason Kidd e Ray Allen estão na lista de jogadores mais eficientes aos 35 anos de idade ou mais na história da NBA.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Reconstrução relâmpago

Deron Williams tenta se defender no boxe dos avanços eróticos de Sasha Vujacic

Alguém ainda se lembra do Nets da temporada passada? Aquele que bateu o recorde de pior começo de temporada (com 18 derrotas e nenhuma vitória) e perigou ter a pior campanha da história antes de todo mundo acordar e começar a ganhar uns jogos? Vamos entrar no DeLorean, então, e dar uma olhadinha naquele elenco:

Rafer Alston
Tonny Battie
Keyon Dooling
Chris Douglas-Roberts
Josh Boone
Devin Harris
Trenton Hassell
Jarvis Hayes
Kris Hmphries
Brook Lopez
Yi Jianlian
Courtney Lee
Eduardo Najera
Chris Quinn
Bobby Simmons
Sean Williams
Terrence Williams

Desta lista inteira, apenas dois jogadores continuam na equipe hoje: Kris Humphries e Brook Lopez. Todo o resto virou farofa. A maioria terminou seus contratos e foi jogar em outro time, outros não conseguiram mais emprego e se aposentaram, e outros foram jogar em outros países porque não encontraram espaço na NBA: Sean Williams foi pra Porto Rico depois de fumar muita maconha e ser suspenso sem parar, meu amado Rafer Alston foi para a China comer cachorro, Jarvis Hayes está na Turquia. Os que restaram da lista foram trocados: Terrance Williams e Courtney Lee, que eram supostamente o futuro da equipe na armação, foram pro Houston; Yi Jianlian foi para o Wizards; Devin Harris foi para o Jazz; e Chris Douglas-Roberts foi para o Bucks. A maioria das trocas foi praticamente de graça, por contratos expirantes ou escolhas de segunda rodada no draft. Já disse aqui várias vezes na temporada passada, depois de acompanhar com cuidado a campanha patética do Nets, que o time não era tão ruim quanto o número de derrotas apontava. A equipe sofreu com muitas lesões, incompetência técnica e falta de confiança. Quando mudaram de técnico e começaram a respirar um pouco, afastaram as chances de um recorde negativo ao fim da temporada e eu esperava que apostassem novamente na pirralhada para a temporada seguinte.

Eis que estamos na temporada seguinte e o Nets diz querer brigar pela oitava vaga nos playoffs, algo viável após as cinco vitórias seguidas da equipe - última delas contra o Celtics. O que raios a equipe fez para escapar do fim da tabela? Provavelmente a reconstrução de time ruim mais rápida da história da NBA. Foram várias trocas menores, aparentemente desnecessárias, em que o Nets parecia se livrar de jogadores bons ou então aceitar contratos idiotas como o do Sasha Vujacic ou do Troy Murphy. De repente, todos os contratos vão acabar ao mesmo tempo e o Nets conseguiu nessas brincadeiras 5 escolhas de primeira rodada de draft nos próximos dois anos. Duas delas foram embora na troca do Deron Williams, e eis aí a grande sacada.

O Heat também conseguiu se planejar para desmontar o time inteiro de uma temporada para a outra. Todos os contratos terminaram, quem iria continuar foi trocado por bolachas, e não sobrou ninguém na equipe para que assim o Heat pudesse assinar novos jogadores com salários gigantescos. O Heat tinha como atrativos um Dwyane Wade querendo ficar por lá, um clima bacana com sol e mulheres peitudas correndo pelas praias, e uma estrutura que já havia tornado a equipe campeão alguns anos atrás mesmo não sendo favorita. O Heat era bom, se reconstruiu em uma temporada e assinou LeBron, Wade e Bosh. Legal, a água é molhada, já sabemos a história de cor. Mas o Nets nunca poderia fazer algo semelhante. Quem vai querer jogar em New Jersey? Mesmo que a equipe esteja de mudança para o Brooklyn, o Knicks ofusca tudo na região, não há estrutura formada, não há anel de campeão, não há estrela para atrair ninguém. Por isso as trocas aparentemente desimportantes do Nets foram uma sacada de mestre: liberaram espaço salarial ao mesmo tempo em que juntaram as peças necessárias para trocar por uma estrela. A ideia era o Carmelo, a realidade foi o Deron Williams, e poderia ter sido o Vince Carter, então eles saíram no lucro. O time agora tem grana pra burro, mantém 3 escolhas de primeira rodada nos próximos 2 anos, apenas 7 contratos estão garantidos para a temporada que vem, o Deron Williams está lá para atrair gente bacana, e o mais legal: a equipe consegue vencer. E vencer é a maior propaganda possível para uma equipe em reconstrução. Se com esse elenco fedido eles podem sonhar com os playoffs, qualquer jogador decente pode sonhar em ir para o Nets e jogar a pós-temporada.

É por isso que eu acho que o Nets deu muita, muita sorte em não ter conseguido trocar pelo Carmelo. E não venham tacar cocô na minha cabeça ou colocar bombas no carro da minha esposa, eu sou aquele maluco que acha o Carmelo o melhor jogador ofensivo da NBA e o melhor em momentos decisivos. Sua presença em New Jersey causaria barulho, holofotes, mídia, jogos em rede nacional, uma mudança bombástica para o Brooklyn e muita venda de camisas, eventualmente atraindo bons jogadores. Mas o Deron Williams é diferente: ele simplesmente faz os outros jogadores ao seu redor melhores. Para se ter uma noção, mais de 60% dos arremessos convertidos pelo Nets quando Deron Williams está em quadra são fruto de suas assistências. Essa equipe cheia de gente meia-boca, a maioria presente no elenco apenas como tapa-buraco ou como contrato absorvido para ganhar escolhas de draft, consegue render ofensivamente porque Deron Williams abre espaço no garrafão com seus arremessos e coloca a bola nas mãos dos companheiros em condições fantásticas para finalizar. Com isso, não só o Nets vence mais partidas a curto prazo mas o elenco também parece muito mais eficiente do que de fato é. O Nets de Carmelo seria famoso e atrairia gente no futuro, mas o Nets de Deron Williams engana muito melhor no presente, vencerá mais no presente, e vai acabar atraindo gente muito mais rápido - especialmente se, por milagre, a equipe roubar mesmo uma oitava vaga nos playoffs. É preciso lembrar que esse plano funciona muito bem apenas porque estamos falando de um time do Leste. Deron Williams só tem que fazer seu Nets superar na tabela atrocidades como o Pistons e o pior projeto de reconstrução da história da humanidade, o Bucks e sua incapacidade de marcar pontos, o Bobcats que acabou de trocar o Gerald Wallace para desistir da temporada e se reconstruir nos moldes do Thunder, e o Pacers que está se reconstruindo faz um tempão e que o time com mais chances de ficar com a vaga.

Como falamos bastante por aqui, esses tempos de crise levaram muitos times de mercados menores a começar a pensar em uma reconstrução, e atualmente o modelo mais em moda é o do Thunder: aposte nos pirralhos, tenha muitas escolhas de draft, espere que fiquem bons e traga veteranos para ajudar. Mas o Nets está ousadamene tentando o modelo de reconstrução do Heat: desmonte o time, consiga uma estrela, deixe pedaços de carne disforme e imprestável ao redor dela para fazer número, e atraia outras estrelas. Se houver alguém capaz de mostrar que não é imprestável é lucro. Se o time vencer, é lucro em dobro. E o Nets, por não ter conseguido o Carmelo, conseguiu as duas coisas: Kris Humphries e Brook Lopez são muito úteis quando comandados pelo Deron Williams, e o time está vencendo mesmo quando deveria perder feio. E o mais estranho: mesmo sem o Deron Williams! O Nets venceu os dois jogos em que o Deron não jogou porque acabou de ter um filho, e tudo porque o resto do elenco está confiante e disposto a mostrar serviço, querendo fazer parte do futuro da equipe. Jordan Farmar usou bem sua oportunidade um dia, Vujacic usou no outro, Kris Humphries está jogando consistentemente bem, e as vitórias aparecem.

Eu ainda não entendo o Brook Lopez, que é genial no ataque com movimentos embaixo do aro com duas mãos e tem um arremesso fantástico, e que mesmo assim insiste em bater bola e infiltrar no garrafão como se fosse um ala qualquer. Fora que, na defesa, ele erra as rotações e sempre vai marcar o arremessador na zona morta ou então marca os alas que arremessam fora do garrafão, tornando seu tamanho inútil e complicando os rebotes da equipe. Mas mesmo assim ele é novo, absurdamente talentoso, alto pra burro, consegue dominar alguns jogos no ataque, e se entende cada vez melhor com o Humphries - que prefere jogar com os pés no garrafão, não coloca a bola no chão, faz o mais simples e limpa os rebotes. Lembram quando o Humphries foi trocado pelo Baby no que foi talvez a mais desimportante troca da raça humana? Os dois não jogavam nada em seus times, e a troca foi basicamente pra ver se alguém engrenava. O Baby acabou perdendo o emprego, o Humphries ficou na NBA porque sabia das suas limitações e fazia o simples, o trabalho sujo no Raptors de um Bosh que jogava longe do aro. Mas no Nets ele finalmente encontrou um esquema de jogo em que se encaixa bem e Deron Williams tornou o jogador muito eficiente no ataque. Ou seja, nenhum dos dois é genial, o Brook Lopez não faz sentido, mas juntos formam um garrafão muitíssimo melhor do que a média da NBA e um ponto de partida perfeito pro Deron se sentir em casa e fazer com que a equipe vença jogos.

O Deron Williams parece estar adorando as liberdades de jogar sem o Jerry Sloan, está forçando arremessos idiotas que ele não podia antes, exagerando nas bolas de três, seu aproveitamento está caindo e ele está menos eficiente no ataque. Mas o fato de que o Nets é ruim e as defesas estarem se preocupando demais com os arremessos do Deron lhe abre espaço para as assistências que ele sabe dar tão bem. São mais de 14 por jogo desde a chegada em New Jersey, ou seja, o Deron forçar arremessos tolos é mais benéfico para o time do que seria o Carmelo forçando os arremessos como está acostumado a fazer. Repito, o Nets deu muita sorte. Deron está feliz, forçando suas bolas, vai liderar a NBA em assistências, tornando bom um time que é mequetrefe, e tudo não passa de uma propaganda. Estrela? Ok. Jogadores secundários que rendem no esquema tático? Ok. Garrafão forte? Ok. Playoffs porque o Leste fede? Ok. Dono milionário disposto a gastar a grana que for em novos contratos? Ok. Quando esse time for para o Brooklyn, provavelmente estará até em melhores condições que o Knicks. Aí está um verdadeiro projeto de reconstrução fodástico, que envolve não ter medo de perder feio por umas temporadas, não ter medo de quebrar o recorde de pior começo ou o de derrotas, e desmontar tudo de uma vez, o mais rápido possível, juntando peças para uma troca capaz de começar o time do zero. Mas esse projeto só é tão bom agora porque deu sorte: com o Carmelo, esse Nets jamais estaria se gabando de ter 5 vitórias seguidas...

sábado, 12 de março de 2011

O caso Chris Bosh

Garrafa invisível

No Toronto Raptors, Bosh sempre teve que jogar como pivô - e sempre deixou bem claro como isso lhe incomodava. Magro, leve, rápido, com bom quique de bola e arremesso de média distância consistente, queria receber a bola fora do garrafão e enfrentar seu marcador de frente para a cesta. O Raptors tentou de tudo para usar o Bosh como ala, chegou até a torrar uma escolha de draft com o Baby, baita cagada. Mas nunca foi o bastante para que o Bosh pudesse passar um jogo inteiro sem ter que jogar embaixo do aro. As lesões no seu pé ficavam cada vez mais graves, o Bosh reclamava cada vez mais do improviso, e assim que ele foi pro Heat chegaram as informações de que havia um comprometimento do time de usá-lo como ala. Genial, se ele fazia tanto estrago sendo improvisado numa posição em que não se sentia confortável, imagina o que faria na sua posição natural! Muita gente, incluindo o Bola Presa, apostou que o Bosh ganharia alguns jogos para o Heat sozinho e que poderia brilhar muito sem a atenção que seria dedicada a LeBron e Wade. Funhé.

Eis que o Bosh anda tendo dificuldades enormes no Heat, sua produção anda baixíssima, seu jogo baseia-se em arremessar de fora do garrafão e agora ele está reclamando que não recebe a bola perto o bastante do aro, que quer jogar de costas para a cesta. Ou seja, até ele percebeu que fede como ala e já tem torcedor do Heat falando em trocar o Bosh por uma Playboy da Mara Maravilha e ainda voltar o troco.

Quando o trio fodão formou-se no Heat, eu tinha certeza de que o Bosh era o que se daria melhor na situação. Não tinha aquele papo de "quem vai armar o jogo", ele era a única força no garrafão da equipe e iria ficar numa boa caso nunca recebesse a bola decisiva dos jogos ou não fosse tão assediado pela mídia. Esperava que o Bosh ficasse tranquilo, por baixo dos panos, vencendo jogos sem que a gente percebesse enquanto LeBron e Wade bateriam mais cabeça um com o outro. O que aconteceu foi justamente o contrário e mostra como as concepções que a maioria das pessoas tinham e ainda têm do Heat estão furadas. Uma série de preconceitos com a equipe evita que possamos ver os reais problemas acontecendo no time, então vamos analisar alguns deles e ver como se relacionam sempre com Chris Bosh:

1) O Heat não tem jogadas no ataque

O técnico Erik Spoelstra deu um jeito de deixar suas estrelas fazerem o que bem entenderem e não ter que decidir quem leva a bola, quem finaliza, quem chama a jogada: cada vez que o Heat tem sucesso na defesa e consegue um rebote ou intercepta uma bola, pode fazer o que quiser. Supostamente isso incentiva a defesa, o contra-ataque, evita duelo de egos e deixa o ataque mais espontâneo e orgânico. Como sabemos, isso também transforma o Heat numa máquina de fazer porra-louquice em que LeBron e Wade fazem o que bem entendem. Mas nas ocasiões em que a defesa toma uma cesta ou comete uma falta, o Heat precisa seguir as jogadas desenhadas pelo técnico. Por isso, o Heat está entre as 10 equipes com ritmo mais lento da NBA - algo muito diferente do que uma correria anarquista nos levaria a acreditar.

O time tem uma série de jogadas para liberar Wade e LeBron no perímetro, pick-and-rolls para infiltrações, pick-and-pops com Ilgauskas e Bosh, triângulos ofensivos iniciados de costas para a cesta. O arsenal é muito maior do que era no Cavs de LeBron e é uma preocupação constante do Spoelstra, que não quer de jeito nenhum que os pontos venham sempre da mesma maneira, os pick-and-rolls, porque assim apenas um jogador da dupla LeBron e Wade estaria envolvida de cada vez e o time estaria desperdiçando a capacidade de um deles.

Esse é o grande problema, muito mais difícil de resolver do que os odiadores do Heat parecem entender: como aproveitar as capacidades de LeBron e de Wade ao mesmo tempo? Fazer com que joguem em turnos, "agora vou eu, agora vai você", é jogar no lixo o talento de alguém por uma posse de bola. Toda vez que Wade ou LeBron são isolados em um canto da quadra, o outro fica parado assistindo. Spoelstra não quer aceitar isso, não quer abusar do pick-and-roll. De uns jogos pra cá, o número de jogadas diferentes chamadas no Heat subiu muito, inclusive com algumas jogadas vindas do Hawks junto com o Mike Bibby, e quem está chamando cada uma dessas jogadas não é LeBron ou Wade, mas Spoelstra em pessoa. Lá está ele, no banco, gritando jogada por jogada da equipe. O Heat não está à solta, é um time treinado e controlado. Só que quanto mais LeBron e Wade se entendem, quanto mais dizem na mídia que já sabem como cada um pensa e que estão honrados de jogar juntos, quanto mais fazem jogadas juntos (quando um faz corta-luz para o outro, por exemplo, o resultado é sempre fantástico), mais o Bosh está fora disso.

No esquema tático do Heat, o Bosh é usado como o Ilgauskas era no Cavs. Até aí tudo bem, o pick-and-pop funciona bem, o Bosh tem (quase sempre) um bom aproveitamento nos arremessos de média distância e ele libera espaço no garrafão para as infiltrações de LeBron e Wade. Mas quanto mais longe da cesta o Bosh fica, pior o time é em rebotes ofensivos (estão entre os 5 piores da liga, só o Mike Miller salva) e mais dificil é a vida dos arremessadores de três da equipe. No final dos jogos, as equipes adversárias estão congestionando o garrafão do Heat e forçando LeBron e Wade a arremessarem, enquanto o Bosh não é acionado e não está embaixo do aro para cavar faltas ou tentar o arremesso de maior chance de aproveitamento. O Heat tem jogadas, chama essas jogadas constantemente, mas o Bosh não se encaixa nelas. Passa a maior parte do seu tempo fazendo corta-luz, longe da cesta, sem ser uma ameaça real. Esse é um trabalho que qualquer jogador mais ou menos poderia fazer - e que era feito tão bem pelo Udonis Haslem no Heat dos últimos dois anos. Mas o Bosh pode fazer mais do que isso, desde que jogue debaixo do aro dando cabeçada com os pivôs como fazia no Raptors. Ou seja, o Heat tem jogadas sim - só não tem para o Bosh.

2) O time precisa de um armador, o LeBron é um ala

postei aqui antes: assim como nos enganamos achando que o Bosh era ala improvisado de pivô, e na verdade só rende de verdade debaixo da cesta, o LeBron também é um armador que pensamos ser ala e prefere jogar na armação. Jogou como armador no Cavs a maior parte de sua carreira sem ninguém perceber direito, e quando faz isso no Heat acham que falta um armador para a equipe? O problema não é a armação do LeBron, mas o que ela significa. Quando outro armador está em quadra com ele, como Mario Chalmers, antigamente o Arroyo, ou agora o Mike Bibby, eles passam a ser basicamente arremessadores. Isso porque o Heat precisa de arremessadores desesperadamente, e grande parte das últimas derrotas aconteceram porque o elenco de apoio, apesar de receber arremessos de três bastante livres, não tem conseguido converter. Mas Bibby e Chalmers são essencialmente armadores, então deixá-los apenas para o arremesso é perder algo enorme que eles podem contribuir para a equipe. Diversas vezes durante o jogo os dois acabam trazendo a bola e iniciando algumas jogadas, mas o que poderia ser diversificação acaba sendo bagunça. Se o Bibby inicia as jogadas com o LeBron, Wade fica de fora e lhe sobra apenas os arremessos livres de três - que definitivamente não são seu ponto forte. Como Bibby e Chalmers são melhores arremessadores, a movimentação ofensiva fica invertida. O problema do Heat não é que o LeBron arme o jogo, pelo contrário: o problema é que tanta gente diferente arme o jogo o tempo inteiro, com Wade, Chalmers e Bibby iniciando as jogadas. Isso tira as chances de um padrão ofensivo, dos jogadores se acostumarem com os locais de arremesso, do armador saber exatamente qual jogador acionar, e do armador assumir a responsabilidade de escolha das jogadas. É por isso que o Spoelstra tem que ficar lá na lateral chamando as jogadas quenem um panaca. Enquanto isso, com tantos armadores passando a bola uns para os outros, o Bosh é constantemente ignorado. As jogadas evitam isolações, que só acontecem quando Wade e LeBron fazem o que querem após um sucesso defensivo (ou no final dos jogos, em que a insistência nas isolações me intriga um bocado), mas o Bosh tinha que ser isolado no garrafão constantemente para que esse time funcione. Menos armadores, mais bola nas mãos do LeBron, e jogadas de isolação pro Bosh para abrir espaço pra todo mundo. LeBron depende de Wade, Wade depende de LeBron, mas o resto do elenco precisa muito que o Bosh faça algo embaixo do aro.

3) O ego de Wade e LeBron vai implodir a equipe

Os dois estão apaixonados um pelo outro em todas as entrevistas, então quem reclamou dizendo que quer a bola embaixo da cesta foi o Bosh! Essa eu nunca iria adivinhar! Reclamou que não existem jogadas para acioná-lo perto do aro, e o Spoelstra respondeu que o time inteiro precisa atacar o aro, não tem que ter jogada para o Bosh fazer isso. De todo modo, LeBron e Wade estão jogando bem juntos, cada vez mais acostumados um com o outro, e mostraram contra o Lakers como sabem distribuir a bola entre os dois (de novo, menos no final dos jogos em que apenas escolhem quem é que vai jogar sozinho). Bizarramente a maior chance dessa brincadeira implodir está no tranquilo Bosh, insatisfeito e mal aproveitado - e recebendo críticas de todos os lados de gente que alega que ele tem fobia de garrafão. Pois bem, ele está querendo voltar atrás, fingir que não fez manha sua carreira toda, e deixar essa fobia de lado. Se não der certo, aí é hora de se preocupar com o trio.

4) O Erik Spoelstra é um bunda e o Pat Riley vai assumir a qualquer momento

O Spoelstra tomou muitas decisões polêmicas, mas todas elas caminham na direção de construir um ataque equilibrado e um elenco voltado para a defesa. Pode não funcionar sempre, pode ter um trilhão de arestas, mas Spoelstra é um nerd que sabe perfeitamente o que está acontecendo, exige variação ofensiva dos jogadores (enquanto a maioria dos técnicos só diria "faça um pick-and-roll", o Mike Brown não foi técnico do ano com isso?) e montou uma defesa sensacional muito antes de LeBron e Bosh chegarem em Miami. Seu maior problema é apenas em não saber lidar com o Bosh. Ele quer um time que ataque o aro mas com o Bosh fora do garrafão para abrir esse espaço, quer o Bosh participativo mas sem receber a bola a não ser para arremessos de média distância, quer o Bosh defendendo mas ele jogar como ala lhe afasta dos rebotes defensivos e impede que use sua velocidade para defender na cobertura e interceptar passes para os pivôs. Ele está usando o Bosh como usava o Udonis Haslem, e continua fã do Joel Anthony como pivô por ele ser silencioso, obediente e dedicado. Spoelstra está tão obsessivo em aproveitar bem suas duas estrelas que está esquecendo aquilo que todos sabiam desde o começo: a chave das vitórias nos playoffs estará na terceira estrela que agora, nas suas mãos, sequer é uma estrela mais. Tem gente querendo trocar o Bosh pelo Samardo Samuels... resumindo, o Spoelstra só é um bunda porque insiste em não estabelecer um ataque que comece no garrafão e aí vá para fora, usando o Bosh.

5) O Heat afoga gatinhos em piscinas

Foi apenas uma vez e ao contrário do que dizem os boatos, o gatinho não estava dormindo. Eles não são assim tão malvados.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O recorde de Kevin Love

Na noite de ontem, Kevin Love bateu o recorde da história da NBA de double-doubles seguidos. Para quem não sabe, um double-double (que só não chamamos de "duplo" pra não confundir com o lanche do McDonald's) é quando um jogador consegue dígitos duplos em dois quesitos do basquete: pontos, rebotes, assistências, tocos ou roubos. O recorde pertencia ao Moses Malone, o melhor em rebotes ofensivos da história da NBA (não confundir com o Karl Malone, o melhor em cotoveladas ofensivas da história da NBA), e foi quebrado quando Kevin Love conseguiu seu 52o jogo consecutivo com um double-double de pontos e rebotes. Com uma média de quase 21 pontos e 16 rebotes por jogo, não é de se espantar que os double-doubles venham a rodo. O que é espantoso é que o Kevin Love sequer precisa sair do chão para conseguir esses números constantes e consegue ser levado a sério mesmo tendo "amor" escrito na camiseta, coisa de filho de pais hippies. Mas é claro que esse recorde vai ter um asterisco tipo o "campeonato Mundial" do Corinthians porque tem gente que acha que nenhuma marca do planeta é relevante se o jogador está num time ruim. "Ah, descobriu a cura para o câncer? Grandes merdas, ele joga no Wolves, lá até eu conseguia". Vai nessa.

Para dar o valor merecido à marca do Señor Amor, resolvemos usar a única ferramenta que resiste ao teste do tempo - o Paint - e imortalizar o momento do recorde do mesmo modo que imortalizamos o recorde do Ray Allen. Mas dessa vez ninguém vai ficar bravinho porque finalmente essa piada não é relacionada ao Jazz, ao Celtics ou ao Kobe. Ah, está ouvindo esse barulho? É o som da tranquilidade.

Clique na imagem para explodir seus miolos com a alta definição

Depois de toda a emoção indescritível de um sujeito fazendo aquilo que ele sempre faz num time que todo mundo finge que não existe, vamos abaixar a adrenalina e em breve voltamos com nossa programação normal.

terça-feira, 8 de março de 2011

Fetiche por gigantes

Se o Brooks já era porra-louca, imagina quantas mães ele vai arremessar no Suns


Com a chegada da data limite para trocas na NBA, trocentos times resolveram fazer mudanças importantes. Alguns resolveram que era época de reconstruir, outros conseguiram peças importantes para tentar chegar ao título. Desde então sentamos e analisamos todas essas trocas, Jeff Green para o Celtics, Hinrich para o Hawks, Mo Williams para o Clippers, Deron Williams para o Nets, Carmelo para o Knicks e Gerald Wallace para o Blazers, além dos jogadores que foram dispensados e trocaram de time após as trocas, como o Mike Bibby indo para o Heat e o Troy Murphy indo para o Celtics. Só faltaram duas trocas, que são a parte que me cabe neste latifúndio. Como bom torcedor do Houston, é meu dever de cidadão analisar a troca que mandou Aaron Brooks para o Suns pelo Goran Dragic mais uma escolha de draft e a troca que mandou Shane Battier de volta para o Grizzlies pelo Thabeet e uma escolha de draft. Legal, vamos voltar do carnaval (em que você passou o dia inteiro atrás de atualizações do Bola Presa clicando com cara de fracasso vendo sua lista vazia no MSN, ou então estava bêbado demais para se importar com basquete) e nos deparar com mais um texto sobre o Houston escrito pelo lambedor de bolas oficial do Yao Ming. Ah, não é uma delícia fazer o que a gente bem entende?

No post sobre a troca do Blazers, lembramos do processo de reconstrução da equipe que começou mandando embora Zach Randolph, então melhor jogador da equipe. Mesmo sem outras trocas, escolhas de draft ou contratações, o Blazers já melhorou imediatamente só de não ter o Randolph em quadra. Em parte porque ele era um buraco negro (quando a bola chegava nele, nunca mais escapava), em parte porque ele produzia bons números mas não defendia bulhufas, mas o motivo principal da melhora da equipe foi que  a saída do Randolph abriu espaço para outros estilos de jogo e deu oportunidade para outros jogadores mais jovens. Cada caso é um caso, não é sempre que funciona, o Cavs sem seu melhor jogador virou um dos piores times da NBA, mas às vezes vale a pena perder uma peça que parece essencial e dar minutos ao resto do elenco. Curiosamente é o que está acontecendo com o Nuggets, por exemplo, que sem o Carmelo agora pode se dedicar a um sistema de jogo defensivo e dar minutos a um elenco bastante profundo. Com o Houston aconteceu algo parecido, mas em menor grau.

Desde que o Tracy McGrady foi boicotado e mandado embora, o time continua com sua política de manter um jogo coletivo e sem estrelas que consegue fazer estrago, mas que sem Yao Ming provou que não vai a lugar nenhum. Aaron Brooks foi um dos melhores jogadores da equipe nas duas últimas temporadas, foi líder da NBA em bolas de 3 pontos, deu sufoco para o Lakers nos playoffs e assumiu a responsabilidade nos momentos decisivos de inúmeras partidas - mas ele ainda era apenas mais um armador em uma equipe cheia até as orelhas de outros armadores. Rapidamente ele foi de jogador mais importante para jogador mais desnecessário - e a equipe melhorou muito sem ele.

Isso aconteceu porque a defesa do Houston desmontou inteira sem Yao Ming. Tendo que usar um garrafão muito baixo e com limitações defensivas graves (jeito simpático de dizer que todo mundo fede), a tática de afunilar a defesa para o centro do garrafão virou farofa. Os jogadores de perímetro passaram a ser responsáveis por impedir os adversários de infiltrar, e não de forçar a infiltração pelo meio como antigamente. O problema é que Kevin Martin e Aaron Brooks são simplesmente terríveis na defesa mano-a-mano, é de dar vergonha. Com os dois em quadra como titulares, a defesa da equipe virou uma peneira, mais aberta do que passista bêbada de escola de samba, e vários jogos foram perdidos por pouco no começo da temporada justamente porque o Houston não conseguia impedir pontos nos minutos mais importantes. A temporada foi pro saco bem no começo, com os jogos perdidos por pouco, e desde então o time não fez outra coisa além de correr atrás do prejuízo em busca de uma vaga nos playoffs.

Quando o Brooks se machucou e Kyle Lowry assumiu a armação da equipe, as coisas melhoraram muito. Lowry é um excelente defensor, um dos melhores na posição, e bastou que tivesse mais minutos (e se recuperasse da própria lesão que sofreu) para se acostumar com as funções do Brooks e começar a acertar os arremessos de três pontos que eram característica do antigo dono do cargo. A profundidade do elenco também apareceu com a contusão do Brooks: o Courtney Lee, também excelente defensor, joga muito bem quando tem minutos decentes. Chase Budinger se destaca nas bolas de três se o armador não arremessar tanto. Ish Smith, que teve minutos quando todos os outros armadores estavam lesionados, mostrou que consegue segurar as pontos. E Terrance Williams, que anda destruindo nos treinos da equipe, só não entra em quadra pra pontuar como um maluco porque ele é essencialmente igual ao Brooks no que tange à defesa.

Ou seja, não deu pra sentir falta do Brooks enquanto ele esteve contundido. Tem armador de baciada para entrar no seu lugar, incluindo um armador que sequer tem espaço para ser utilizado e que faz as mesmas coisas que ele. O time ainda tem suas dificuldades, continua perdendo, mas é melhor com Kyle Lowry armando e o resto dos armadores tendo oportunidade em quadra. O Brooks é bom, isso é inegável, mas Lowry é um armador mais experiente com uma carreira inteira em que foi reserva e merecia ser titular, é bonito ver ele finalmente morder a vaga e não largar mais.

Quando voltou de contusão, o Brooks foi pro banco de reservas. Sua vaga como titular estava tomada em definitivo, não adiantava chorar. Seu contrato acaba nessa temporada, então era bem óbvio que o Houston não iria reassinar o armador por uma bagatela e que o Brooks iria procurar outros ares. Seria normal perder o armador por nada e respirar aliviado com o espaço criado pela sua partida, coisa de elenco profundo e nenhuma chance de título, mas o Houston conseguiu trocá-lo numa jogada de mestre. Porque o Suns não sabe o que faz.

O Goran Dragic não estava jogando bem em Phoenix, é verdade, mas ele comandou o ataque do Suns nos playoffs passados com algumas partidas simplesmente espetaculares e é disparado o melhor defensor da equipe na posição (o que não quer dizer nada num time que tem o Nash, claro). Faz tempo que o armador esloveno está sendo cuidadosamente criado para assumir o time numa possível saída do Nash, mas parece que o Suns simplesmente encheu o saco. Mandaram o armador embora, junto com uma escolha de draft (do Suns, se eles não forem para os playoffs, ou do Magic, caso eles consigam ir) e pegaram o Brooks para assumir a reserva e o Ish Smith pra segurar as pontas quando Nash e Brooks jogarem ao mesmo tempo em quadra numa formação mais baixa. Caso a equipe tenha esperanças de se dar bem nos playoffs, o Brooks pode ser uma boa - ele fez chover contra o Lakers, é mais rápido que o Dragic, arremessa melhor e tem experiência levando um time nas costas na pós-temporada. Mas para assumir o lugar do Nash, a troca não faz sentido. O contrato do Brooks vai acabar nessa temporada e não há garantia de que ele vá reassinar com o Suns. A troca pareceu apenas um empréstimo para ver se a equipe consegue ir bem nos playoffs nessa temporada, o que é ridículo. Desde quando o Suns deveria se importar com essa temporada? Tudo bem que o time deveria feder mas nunca fede, que eles continuam ganhando mesmo quando a gente espera que eles desmontem, mas alguém realmente acredita que essa equipe que depende do Channing Frye e do Vince Carter vai a algum lugar? Quando finalmente achamos que o Suns vai se tocar, entrar em reconstrução e trocar o Nash, eles insistem em vencer uns jogos bizarros, continuam com chances de ir pros playoffs e fazem uma troca que não pensa em nada no futuro. Não entendo esse time nem lascando. Pra mim foi a troca mais desequilibrada da data limite, o Houston cometeu um assalto à mão armada e o Suns tá lá, feliz da vida, achando que dá pra vencer o Spurs nos playoffs e mandar o futuro às favas. Legal. Se eles forem campeões com esse time mequetrefe, sendo que não conseguiram com Amar'e e Jason Richardson, façam favor de jogar esse mundo fora porque não vou querer viver nele.

A outra troca do Houston tem muito em comum com a primeira. Os jogadores que ganharam espaço com a lesão do Aaron Brooks, como Courtney Lee e Chase Budinger, não apenas se mostraram competentes com os minutos como também são o futuro do Houston, que não tem motivo para pensar no agora. Shane Battier é um gênio, continua sendo um dos melhores defensores da NBA e é mais obediente do que cachorro de cego, respeita toda e qualquer instrução tática, lê bem o jogo e executa bem todas as pequenas coisas como se jogar no chão e dar cabeçadas em muros de concreto. Mas ele é o tipo de jogador essencial para equipes que querem ser campeãs, não para equipes que estão formando elencos profundos baseados em pirralhada. Ele era a peça final para levar Yao e Tracy McGrady ao titulo, o Houston até abriu mão do Rudy Gay novato porque não tinha paciência para esperar o pirralho amadurecer. Mas o título não veio, as lesões não deixaram, o Rudy Gay virou estrela no Grizzlies e o Battier agora não é mais necessário. Com o contrato expirante do Yao Ming, o Houston vai ter grana para decidir quais jogadores jovens manter e quem trazer para dar uma força, mas está longe de ter chances reais pelos próximos anos. O Battier estava sendo pouco aproveitado. Isso ficava óbvio quando o Houston vencia jogos graças às bolas de três pontos do Battier, não graças à sua defesa. Toda vez que ele entrava em quadra com a mira calibrada, as chances de vitória da equipe eram muito maiores. Pronto, agora o Houston pode usar o Chase Budinger de titular que é especialista nas tais bolas de três e o Courtney Lee pode brilhar na defesa arremessando muito melhor do que o Battier jamais arremessará. Ponto pra meninada.

No Grizzlies a situação é inversa. Agora o time se leva a sério, a reconstrução feita aos trancos e barrancos que começou com a troca do Pau Gasol deu resultado, e eles realmente acreditam que podem surpreender nos playoffs. O projeto do Grizzlies teve um monte de tropeços, o OJ Mayo deu dor de cabeça e foi deixando de ser usado, o Hasheem Thabeet veio com a segunda escolha do draft mas não está pronto para a NBA, o Rudy Gay se contundiu no meio dessa temporada (e só volta agora no final de março), e mesmo assim o Grizzlies continua impressionando todo mundo com uma defesa sufocante e vencendo jogos que não deveria vencer. É um time de verdade capaz de garantir uma vaga nos playoffs e surpreender qualquer adversário através da defesa. Quão bizarro é isso num time que tem Zach Randolph como titular? É maluco mas é real, e agora o Grizzlies precisa acreditar que pode vencer imediatamente, preparando terreno para a inevitável evolução da equipe. Tony Allen encontrou nova vida após o Celtics com a sua forte defesa individual, então Shane Battier com certeza vai se encaixar no esquema defensivo, quebrar um galho nos rebotes enquanto Rudy Gay está fora, e fazer as pequenas coisas que o time precisa nos playoffs. Ainda que o contrato do Battier também seja expirante como o do Brooks, tudo leva a crer que o Battier vai ter muitos movitos para continuar na equipe após essa temporada e terá um papel importante na campanha da equipe nos playoffs e no futuro.

Para conseguir Battier, o Grizzlies teve apenas que desistir de uma escolha de draft futura (provavelmente de 2013, quando eles esperam estar na elite da liga) e de uma cagada, o pivô Hasheem Thabeet. Todo mundo sabia que o pivô estava mais cru do que sashimi quando foi draftado, mas o Grizzlies insistiu em gastar uma segunda escolha com o rapaz. Agora que precisam vencer hoje mesmo, não dá pra esperar mais 10 anos até que o pivô aprenda a amarrar os próprios cadarços. O Houston pode ter essa paciência numa boa, e está tão desesperado por um pivô que vale até a pena arriscar um jogador que precisa de ajuda para se limpar quando vai ao banheiro. O lado positivo pro Houston é que o Thabeet não foi um fracasso completo como novato. Ele teve média de mais de um toco por jogo mesmo ficando em quadra por pouco mais de 10 minutos. Ele é um poste gigantesco com 2,21m de altura capaz de alterar muitos arremessos e bloquear outros tantos, mas com dificuldade para correr de um lado para o outro, técnica nenhuma no ataque e físico inferior ao do Justin Bieber. Se o Houston quer voltar a ter uma presença defensiva no garrafão para que a defesa do perímetro afunile em sua direção, como fazia com Yao e com o Mutombo, o Thabeet é uma esperança. O Grizzlies foi ficando bom e aí não fazia mais sentido dar minutos para o pirralho que só sabe dar tocos, o Houston pode esperar mas é bem capaz que também fique bom demais antes do pivô deslanchar, e aí não vai fazer sentido usá-lo. Por enquanto o Houston está sendo cauteloso, avaliando o Thabeet nos treinos, ainda vendo se a nova formação da equipe se encaixa e se tem chances de lutar por uma oitava vaga. Em breve ele vai ganhar mais chances e minutos, coisa de time com fetiche por pivôs com mais de 2,20m de altura. É legal ganhar um pivô com potencial em troca de um jogador que não era mais tão útil e cuja partida abrirá espaço para outros jovens promissores, mas convenhamos: ficar dependendo de pivôs gigantes mostra que o Houston definitivamente não aprendeu uma lição importante sobre a saúde desses jogadores-aberrações. Aposto que o Grizzlies agora respira aliviado por não ter que lidar com essa bomba, mesmo que no futuro o pivô venha a render alguma coisa. É melhor garantir umas vitórias agora do que ter que carregar o fardo de uma péssima escolha de draft pra vida toda. O fardo agora é do Houston, mas é mais leve porque é só uma pequena aposta que custou pouco - desde que a equipe não morra de amores pelo pivô e deposite todas as suas fichas nele. Mas como ele mal entrou em quadra desde que a troca aconteceu, não acho que seja o caso. Como torcedor, também não vou esperar grandes merdas, vou só ficar de olho porque, né, vai que dá certo?