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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Fim da linha

Bynum tenta abraçar Barea para dar parabéns pela vitória

Eu sei que o último post foi sobre o Lakers e que algumas pessoas vão se irritar que falamos sobre eles de novo. Mas podem ter certeza que dessa vez é a última pra valer. O atual campeão está eliminado, varrido pelo Dallas Mavericks e só joga na temporada que vem, que nem sabemos quando começa. Mas é que a repercussão da derrota categórica do Lakers na série, 4 a 0, e no jogo 4, 122 a 86, está rendendo mais comentários do que qualquer outra nos últimos anos. São todos os tipo de espécimes achados na fauna torcedorística: os indignados, os que colocam a culpa em tudo, os conselheiros da ONU que só querem saber da paz entre os atletas, os piadistas, os torcedores adversários, os Kobe-haters, os Kobe-lovers, os que sempre vão achar que o Lakers perde só para si mesmo, as viúvas de Phil Jackson, os que querem explodir tudo e começar do zero, os que culpam a arbitragem e por aí vai. Sério, ficar bem do lado de fora e só ver o circo pegar fogo pode ser uma experiência interessante sobre o comportamento humano diante de eventos que não podem controlar.

Vamos ter outras chances de comentar o Dallas Mavericks, no mínimo mais uma série, mas antes de falar do Lakers temos que lembrar que eles jogaram contra outra equipe de basquete e ela jogou bem demais. Eu sempre digo que vitórias muito expressivas em um jogo não são só mérito de um time e nem demérito de outro, diferenças de quase 40 pontos são uma soma das duas coisas, o mesmo vale para varridas em séries inteiras. Se só o Dallas fosse melhor a série poderia ter sido 4 a 2, se só o Lakers tivesse mal e o Dallas não espetacular poderia ter sido 4 a 1, sei lá, mas quando as duas coisas acontecem ao mesmo tempo dá no que deu. O Lakers foi superior mesmo nos três primeiros quartos do jogo 1 e durante pelo menos metade do jogo 3, só.

O interessante é que é muito normal um time começar uma série mais forte e o outro mudar algumas coisas, deixar mais difícil e aí o outro time responde e essas pequenas mudanças táticas ou de atitude que deixam uma série divertida. É o Zach Randolph e o resto do garrafão do Grizzlies dominando o jogo 1, sendo anulado no 2 e vencendo o 3 na série contra o Thunder. Ou o Celtics tomando pau em dois jogos para, em casa, vencer com um armador de um braço só. E isso é que decepcionou nessa série entre Lakers e Mavs, a série começou com uma estratégia tática do Dallas, o Lakers não conseguiu responder e a série acabou. Histórico para a NBA, sensacional para os torcedores do Mavs, mas uma série bem desinteressante de assistir.

A análise tática pode ser vista um pouco no nosso último post e nesse excelente texto do Fábio Balassiano em seu blog. A defesa do Mavs forçou os arremessos de longe, impediu a entrada da bola no garrafão (Kobe só fez uma bandeja e nenhuma enterrada em toda série!!!) e forçou o Lakers a arremessar, mas as bolas nunca caíram e a série acabou. Funhé. Fim de papo. Mas aí começa a parte difícil de aguentar e de responder: De quem foi a culpa e o que mudar para o ano que vem.

Culpa, antes de mais nada, do Rick Carlisle que reconheceu uma deficiência no jogo do Lakers e a explorou. Culpa também de enfrentar um garrafão que tinha defensores bons o bastante para segurar Gasol e Bynum, coisa que boas duplas como Perkins e Garnett, Boozer e Millsap ou K-Mart e Nenê não conseguiram no passado. Mas ok, ok, tem gente aí querendo tacar pedras, então vamos lá.

O Pau Gasol não jogou nada e ele admitiu isso, ao final da série disse: "aprendi a não deixar problemas de fora da quadra interferirem no meu jogo". Não sabemos exatamente do que ele está falando, mas as Sônia Abrão e os Nelson Rubens dos EUA afirmam que a história é a seguinte: Pau Gasol queria que sua namorada fizesse mais amigos em Los Angeles, ela então começou a sair com Vanessa Bryant, mulher de Kobe. A senhorita Bryant, porém, teria dito coisas sobre os bastidores do Lakers que teriam feito a namorada de Gasol dar um pé na bunda dele. Gasol então culpou Kobe por falar demais para a sua mulher e o clima teria ficado péssimo. Não sabemos se isso é verdade, de confirmado só a frase do Gasol dizendo que algo na vida pessoal dele tirou o foco do basquete. Só que eu preciso realmente me dar ao trabalho de responder todos os torcedores que estão xingando ele? Sério? Como disse um cara gringo no Twitter, "Quem reclamar do Gasol e exigir trocas merece ter Kwame Brown e Smush Parker de volta". Se o Lakers é um time de elite hoje é porque o espanhol chegou por lá.

O próximo alvo é Kobe Bryant, claro. E aqui mais do mesmo: "Ele deveria ter carregado o time nas costas", "ele não envolveu os companheiros", "ele não é capaz de carregar o time nas costas" e todo aquele papo que eu escuto desde que ouvi o nome de Bryant pela primeira na vez na vida. Sinceramente, Kobe teve nessa série os mesmos defeitos e qualidades que teve durante toda a temporada e durante boa parte da carreira, nada de novo. O que acontece é algo que pode surpreender muita gente: não se ganha ou perde jogos sozinho. Mas ei, shhh, não conta esse segredo pra ninguém, poucos sabem. Outro segredo de bônus para os assinantes VIP: Kobe Bryant não é o centro do universo, coisas podem acontecer sem que ele esteja diretamente envolvido.

Próximo tópico: O Lakers não sabe perder. Primeiro foi a falta dura de Ron Artest sobre o JJ Barea no jogo 2 e ontem duas expulsões, Lamar Odom e Andrew Bynum. Ambos, com o jogo já perdido faz tempo, fizeram faltas covardes sabendo que seriam mandados para fora do jogo. Coisa de gente nervosa, frustrada, que não sabe perder e que certamente merece e terá punição. Mas que note-se a diferença: Ron Artest ficou claramente arrependido e decepcionado no mesmo segundo que fez a falta, Odom e Bynum saíram com ares triunfantes de "foda-se o mundo, eu bato mesmo". Então por favor, xinguem o Artest por jogar mal, por não conseguir ser nessa série o bom defensor que geralmente é, o critiquem por não saber arremessar mesmo depois de uma década como profissional, mas não venham com o papo de que ele nunca mudou e pra sempre será um bad boy. E outra coisa, Kobe e outros jogadores do Lakers foram, depois do jogo, atrás de Barea para pedir desculpas por Bynum e perguntar se ele estava bem. A atitude idiota de uns não quer dizer que o time inteiro não sabe perder.

Alguns estão colocando a culpa dessas agressões no Phil Jackson, já que o comportamento dos jogadores em quadra deveria ser controlado pelo técnico. E isso vale principalmente para o Bynum, já que o Odom tinha sido expulso antes e dado uma razão para Phil chamar todo mundo de canto e dizer para eles se acalmarem. Mas quem diz isso nunca viu o Zen Master em uma partida de basquete. O Phil Jackson é o oposto daquela sua ex-namorada controladora e acha que os jogadores são homens adultos com capacidade de aprender sozinhos, se for pra chutar eu diria que Phil acha que o Bynum aprendeu e amadureceu mais sendo o vilão idiota e imaturo da noite do que se tivesse tomado só um puxão de orelha no banco de reservas. É como quando ele vê o seu time errando sem parar e não pede tempo para que eles aprendam a se virar sozinhos. Para um torcedor em desespero essa atitude pode parecer suicida, mas a longo prazo sempre vemos os times dele como um dos mais autoconfiantes da NBA. Autoconfiança que facilmente vira frustração se os resultados não confirmam sua expectativa, diga-se de passagem.

Se o Phil Jackson errou nessa série foi ao não conseguir mudar o time taticamente para conseguir furar a defesa do Dallas Mavericks, mas quando a coisa chega ao ponto que seus jogadores não acertam um arremesso sem marcação, a coisa complica pra qualquer técnico. Não diria nem que Phil Jackson errou, mas que ele só não conseguiu ser fora de série como sua fama e história sugerem. História essa que acabou na humilhante derrota de ontem, como prometido antes da temporada ele é agora um senhor aposentado. Até cheguei a pensar que talvez Phil Jackson ficasse envergonhado em sair de cena desse jeito e pensasse em continuar, mas logo mudei de idéia. Lembrei de Michael Jordan e Yao Ming: Jordan teve o final de carreira mais cinematográfico que alguém poderia imaginar, um arremesso vencedor depois de um drible desconcertante em um jogo de final da NBA, e mesmo assim não ligou de voltar, velho e sem metade do físico anterior, para jogar em um time horrível e passar dois anos sem ver a cara dos playoffs. Era a vida dele, a vontade dele e o cara foi lá e fez. Se alguém está preocupado com legado, imagem e em endeusar alguém somos nós, não eles. Mesma coisa com o Yao Ming respondendo aos tristes com sua centésima contusão que ele está bem, vivo e feliz. Imagino o Phil pensando da mesma forma, ele queria se despedir com um título (quem não quer?), mas não deu, paciência, hora de ir pra casa, descansar, fazer sexo e fumar charuto.

Ou seja, tentamos dar muita importância para essa derrota do Lakers mas os motivos são meio tolos. São muitos torcedores a favor, muita gente contra, muita expectativa sobre nomes como Kobe Bryant, Pau Gasol e Phil Jackson e aí tudo o que acontece fica muito grande. Mas o Kobe perde como outros jogadores perdem, o Lakers perde por motivos que outros times perdem. E esse pensamento é importante na hora de pensar o futuro da equipe, se fosse outra equipe, com menos pressão e atenção em cima, alguém pensaria que é hora de destruir tudo e começar do zero?

Eu acho que não. O Andrew Bynum e o Pau Gasol tiveram momentos ótimos na temporada e são claramente talentosos, com saúde física para um e mental para o outro podem ser a melhor dupla ofensiva da NBA. Kobe Bryant aos poucos vai perder mais e mais sua potência física, mas ainda faz muito estrago. Lamar Odom foi o melhor reserva da temporada com méritos. Ron Artest não jogou bem na maior parte do ano, mas em determinados momentos também foi ótimo, talvez seja o caso de procurar um titular para que ele fique no banco, mas trocá-lo seria não só tolo como inviável. Quem jogou mal durante quase o ano todo e precisa de mudanças é o banco de reservas, o Steve Blake foi a maior decepção do mundo pra mim, o Matt Barnes não fez grande coisa e chegamos a um ponto triste da nossa vida como torcedor quando ficamos sonhando em ter Vlad Radmanovic ou Sasha Vucjacic no banco só para acertar pelo menos uma bolinha de três num jogo. Só não me venham com esse papinho de torcedor megalomaníaco do Lakers de "Por que não trazemos Deron Williams e Dwight Howard?". Se fosse tão fácil eles não estariam esperando perder para o Mavs para contratar os caras, acreditem.

Eu sei que tem gente que vai discordar, que vai dizer que os adversários já sabem os defeitos do Lakers e que o time está velho. Para esses eu digo, de novo, olhem para o outro lado da quadra, o Lakers não joga sozinho. Para quem eles perderam? Para um time velho, que perdeu anos seguidos na primeira rodada e que toda temporada decide adicionar peças ao seu bom grupo ao invés de se desesperar e explodir tudo. Me parece um bom exemplo a ser seguido.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Lakers na beira do abismo

Uma imagem diz mais que um post inteiro do Bola Presa


Torcedor do Lakers é como nós, paulistas: Se acham o centro do mundo. Mas com uma diferença, os torcedores do Lakers não tem razão. Sempre depois de uma derrota, duas derrotas ou algumas partidas mal jogadas eles aparecem malucos, enfurecidos e perdidos exigindo uma explicação, como o Lakers pode estar perdendo? O que estamos fazendo de errado? Afinal o Lakers é o melhor time do planeta e ninguém pode nos vencer a não ser que a gente deixe.

Eu sou torcedor do Lakers, eu sou paulista, eu entendo como é isso. Mas simplesmente não é assim que funciona. Se vocês caçarem o histórico do blog, que acompanhou os três títulos seguidos do Oeste que Kobe e seus fiéis escudeiros venceram, irão encontrar uma enxurrada de críticas à equipe. Já que eu torço pra eles gosto de assistir aos caras jogarem e quanto mais você assiste, mais fácil é achar defeitos e qualidades. Escrevi muito sobre os defeitos deles. Em 2008 era a defesa que não acompanhava a boa produção ofensiva, em 2009 o time que tinha apagões constantes, em 2010 a ineficiência de furar defesas por zona. Nos três anos as inúmeras surras sofridas contra armadores velozes, os dias em que não tínhamos um arremessador confiável de três pontos e a eterna mulher de TPM que é o banco de reservas angelino. Isso sem contar as acusações de time soft, do Kobe forçar demais o jogo, das contusões do Andrew Bynum, da velhice do Derek Fisher, etc, etc, etc.

Não quero dizer que o Lakers é um time ruim, muito longe disso, posso mostrar uns vídeos do Minnesota Timberwolves se vocês querem ver um time ruim de verdade, mas não é porque eles ganharam títulos que isso apaga os erros. Aliás, só deixa o feito mais impressionante, já vimos times muito mais perfeitinhos como o San Antonio Spurs de 2005 ou 2007, o Boston Celtics de 2008 ou o Detroit Pistons de 2004 não conseguir sequer fazer duas finais seguidas, que dirá três e com dois títulos. Esse sucesso do Lakers se dá a uma qualidade essencial: Eles tem altos e baixos, mas jogam o seu melhor quando precisam. Foi assim quando viraram aquele jogo 1 quase perdido para o Spurs na final do Oeste de 2008, quando estavam tomando um pau do Phoenix Suns na final do Oeste do ano passado ou naquela série contra o Denver Nuggets em que parecia que Kenyon Martin, Nenê e Chris Andersen iriam cortar o garrafão do Lakers em pedacinhos e comer com azeite de oliva e pedacinhos de queijo. Foi contra a parede que eles acharam uma maneira de se safar e sair com a vitória. Vencer quatro vezes em sequência uma conferência, como o Lakers está tentando agora, é tão difícil que a última vez que um time fez isso a maioria dos nossos leitores nem tinha nascido! Foi o Celtics que venceu o Leste em 84, 85, 86 e 87.

Portanto, antes de mais nada, se o Lakers realmente perder para o Dallas esse é um dos motivos: É muito difícil para qualquer time manter o alto nível por tantos anos, sem encontrar pelo caminho nenhuma contusão, má fase, azar ou simplesmente um adversário que tenha assistido tanto ao Lakers vencer que tenha sacado uma nova estratégia para vencê-lo. No caso dessa série, eu apostaria muito nesse último caso.

O Dallas Mavericks tem um técnico da linha nerd-bitolado que tem dominado a NBA ultimamente. Rick Carlisle é conhecido por ter um livro do tamanho da envergadura do Lamar Odom de diferentes jogadas, ele estuda basquete e aos poucos transformou esse Dallas Mavericks de um time de jogadas de isolação (mais ou menos como é o Hawks hoje) em uma equipe cheia de variações que pode se adaptar a qualquer adversário. E que, isso é assustador de pensar, está sem Caron Butler, um cara que sabia atacar muito bem a cesta e dava ainda mais opções ofensivas para o time.

Mas sabe que apesar do massacre que o JJ Barea causou na defesa do Lakers no quarto período do último jogo (lembram do problema em marcar armadores velozes?), não é ali que a derrota está acontecendo. Tá, nem Pau Gasol e nem Lamar Odom são Gamarras defendendo o Dirk Nowitzki, o alemão acertou 9-16 arremessos contra Gasol e 8-16 contra Odom, mas é só ele que está deitando e rolando. Nenhum outro jogador tem média superior a 12 pontos por jogo nas duas primeiras partidas e a média de aproveitamento dos arremessos do Dallas está em 45%, não longe dos 44% a que o Lakers manteve seus adversários para ter a 5ª melhor marca da temporada regular.

É no ataque que o Lakers tem se complicado. E o motivo, por mais impressionante que isso pareça, é que o Mark Cuban, dono do Mavs, é um bilionário que não liga de gastar dezenas de milhares de dólares com pivôs. Na última offseason ele ofereceu uma extensão de contrato enorme para o Brendan Haywood, mas quando viu o Bobcats trocando o Tyson Chandler foi lá e conseguiu o cara quase de graça. Não importa que ele deixasse o milionário Haywood no banco e jogando só uns minutinhos por jogo. Agora são Chandler e Haywood que revezam minutos junto com Dirk Nowitzki para segurar Lamar Odom, Pau Gasol e Andrew Bynum. O Lakers quase sempre joga com uma escalação mais alta que a do adversário e toma vantagem disso, mas nessa série não é sempre que isso é possível. Quando Odom e Gasol formam o garrafão angelino contra o Nowitzki e Haywood, por exemplo, são mais baixos. Nos minutos em que o Lakers não é o time mais alto em quadra eles tomaram 43 pontos e marcaram 25 nesses primeiros jogos.

A combinação alta e de talento defensivo do Mavs tem feito o Lakers penar para marcar pontos dentro do garrafão. Kobe Bryant, por exemplo, tentou em média 7 arremessos perto do aro contra o New Orleans Hornets, contra o Mavs tem sido metade disso. E pior, de 58% de aproveitamento caiu para 28% nessas ocasiões. Outro número que mostra como o Mavs tem defendido bem o Lakers é o que mostra o número de vezes que o Andrew Bynum participou do jogo; ele esteve em quadra durante 78 posses de bola e apenas recebeu a bola em 15! Arremessou em 11 delas e acertou 8, um ótimo aproveitamento. Pau Gasol recebeu mais a bola, mas onde não devia. Nas posses de bola em que Pau Gasol recebeu a bola fora do garrafão, o Lakers como um todo acertou 6 de 16 arremessos, quando recebeu dentro da área pintada o aproveitamento foi de 7 em 10.

Para compensar a falta de jogo dentro garrafão, o Lakers tentou arremessar de longe e aí o bicho pegou. Tentaram 20 bolas de três pontos e acertaram duas, ambas quando o jogo já estava perdido nos minutos finais. O aproveitamento de 10% é o pior da história dos playoffs entre os times que tentaram pelo menos 20 bolas de três em um jogo. É pouca zoeira? Com dificuldades em marcar pontos perto e longe da cesta é de se surpreender que o Lakers não tenha tomado uma surra maior ainda.

Para a próxima partida, hoje, o Dallas tem uma estratégia simples: Mais do mesmo. Congestionar o garrafão, marcar por zona de vez em quando e continuar vendo por quanto tempo eles conseguem assistir ao Lakers errar arremessos de longe. Mas isso não impede o Rick Carlisle de dar um puxão de orelha em alguns jogadores, o Jason Terry precisa acordar. Contar que o JJ Barea vai fazer uma boa série em geral tudo bem, mas ele não é cara para decidir no quarto período sempre.

Já o Lakers precisa de uma pequena revolução. Primeiro de confiança e motivação, na última partida dava pra sentir no ar o desespero de não saber o que fazer, eles precisam da frieza que tiveram nos jogos importantes dos últimos anos. Só com essa frieza é que eles vão poder executar o seu ataque com a precisão necessária para chegar mais perto da cesta e conseguir vencer o duelo contra Haywood e Chandler. E se tiver dando errado não podem se contentar com arremessinhos forçados de meia distância, tem que forçar, tentar de novo, de outro jeito. É perto da cesta, com enterradas, bandejas e rebotes ofensivos que o Lakers ganha seus jogos. Admitir a derrota nesse duelo e tentar mudar o estilo de jogo é admitir a derrota em toda a série. Também é importante que Kobe pense assim, todos sabemos que ele pode acertar arremessos de qualquer lugar da quadra, o que não quer dizer que ele deve tentar arremessos impossíveis o tempo inteiro. O jeito mais fácil de abrir espaços no garrafão adversário é ter um jogador driblador que costure a defesa, Kobe precisa ser esse cara. Temos que ver se ele vai ser o Kobe frio que vai fazer tudo certo ou se vai ser o cara com cara de maluco que quer arremessar todas as bolas como se ele fosse o herói do universo.

Uma última notícia muito interessante que acabei de ler é que o Phil Jackson resolveu substituir o Ron Artest, que foi suspenso por essa falta no JJ Barea, pelo Lamar Odom no time titular! É muito, mas muito raro o Lakers jogar com Odom, Gasol e Bynum ao mesmo tempo. Phil Jackson percebeu que precisa do time mais alto e provavelmente vai usar os três para atacar a cesta e tentar pegar todos os rebotes ofensivos do mundo. Mas como fica a rotação? Odom joga mais minutos que o normal? E o entrosamento? Faz tempo que o Lamar Odom não joga na posição três. Medidas extremas para situações extremas, vai ser divertido de assistir.

E sobre o Artest: Foi uma falta dura, desnecessária e a punição até que é compreensível. Mas pegar todo o passado distante do cara e jogar na cara dele dizendo que "ele nunca mudou" é uma injustiça enorme. Faz anos que ele só aparta briga e não se envolve em nenhuma contusão, dessa vez fez uma falta dura e obviamente se arrependeu no mesmo segundo, dá pra ver na cara de bunda dele. Está suspenso, beleza, mas não cometeu nenhum crime e não merece a hostilidade que tem recebido da maioria dos torcedores e da imprensa.

domingo, 3 de abril de 2011

O melhor é ficar parado

Ron Artest, modelo e atriz

Fiz dois posts falando sobre o que aconteceu um mês depois daquela fase cheia de trocas na NBA. Mas a grande mudança aconteceu mesmo com o time que, graças a Deus (leia-se Alinne Moraes), não fez troca nenhuma. Desde o All-Star Game o Los Angeles Lakers só perdeu um jogo, para o Miami Heat, e venceu os outros 15. Nesse período o time melhorou em todas suas estatísticas: defensivas, ofensivas, rebotes, assistências, tamanho do pênis, level do Farmville, qualquer coisa que possa ser medida.

Aqui a gente não tem lá um histórico muito bom com palpites. Somos bons analisando o que já aconteceu, tentamos ser profundos e sérios na hora de achar a causa das coisas, mas não temos o mesmo talento com futurologia. Por isso mesmo a gente tem que se gabar quando algo finalmente dá certo: Eu tinha dito que o Lakers tinha um elenco certinho, que poderia render muito e que não era hora de fazer mudanças drásticas. O tempo passou e tudo foi voltando ao normal, o time desinteressado e previsível do começo da temporada começou a se motivar e a duas semanas do fim da temporada regular estão a apenas um jogo e meio atrás do San Antonio Spurs (que perdeu 6 seguidas pela primeira vez desde 1997!) pela primeira posição no Oeste. Alguns fatos explicam bem o desinteresse do Lakers no começo do ano: um deles é a série de entrevistas de vários membros de times campeões dizendo que é realmente difícil encontrar motivação para um joguinho sem graça no meio de dezembro sabendo que o que fica para a história é o que acontece a partir de abril. O outro é do Ron Artest, que disse que era muito chato jogar umas partidas contra times fracos que eles sabiam que iam vencer a qualquer hora. Típico do Artest dizer coisas polêmicas e verdadeiras que a maioria dos jogadores compartilha nas idéias mas não na imprensa.

Na NBA a parada do All-Star Game é bem simbólica. Não é exatamente no meio da temporada, é um pouquinho depois, mas para os jogadores e times é o sinal da segunda metade do ano, o momento de dar aquela embalada rumo aos playoffs. Porém, será que essa arrancada continua na pós-temporada? Não é lá que ouvimos todo ano o clichezão de que nos playoffs tudo é diferente? Bom, a NBA.com fez uma rápida pesquisa nos dois últimos anos e achou uma resposta bem aceitável. No ano retrasado a maioria dos times que teve melhor campanha depois da parada do All-Star venceu as suas séries de playoff, mesmo os times que no geral tinham menos vitórias na temporada. No ano passado o número não foi tão significativo, mas as vitórias foram dos times mais experientes: Celtics, Lakers e Spurs. O Boston do ano passado, aliás, é a maior prova da armadilha que é acreditar cegamente no que essa parte da temporada pode indicar. No final da temporada passada eles estavam se arrastando pela quadra, perdendo jogos idiotas em casa e conseguiram ficar atrás do Atlanta Hawks na classificação geral. Em quarto, eram a grande aposta de todo mundo como derrotado para o Miami Heat, quinto, na primeira rodada. O Heat tinha a melhor defesa da segunda metade do campeonato e tinha subido de nono para quinto no Leste nesse período de menos de dois meses. Como vocês bem lembram, em junho era o Celtics, não o Heat, disputando a final da NBA.

A conclusão deles é que times que tem jogadores mais rodados e/ou que jogam juntos há muito tempo tem mais essa capacidade de apertar um botão e começar a jogar com todas suas forças. Times em formação ou mais jovens simplesmente dão o máximo que podem e às vezes podem mais, às vezes menos. Seguindo essa linha de pensamento dá pra pensar que essa queda de produção do Spurs não é motivo para começar a apostar em uma derrota na primeira rodada ou que o Celtics está fadado ao fracasso pós-Perkins (ou pós-Kendrick Abdul-OlajuEwing, como o chamam aqueles que acham que se está dando muita bola para o pivô).

Podemos perceber também que o Lakers, por precaução, exigência do Phil Jackson ou qualquer que seja a inspiração, apertou o botão nessa mudança simbólica do calendário da liga. Passou o All-Star Break, enrolamos muito bem até aqui e é hora de jogar pra valer. Nesse período o Derek Fisher jogou mesmo sentindo contusões, o Kobe Bryant também (embora ele faça isso há uns 5 anos, no mínimo), o Artest começou a se envolver mais nas partidas, o Gasol voltou a render como no começo da temporada e o Andrew Bynum está jogando o melhor basquete da sua vida. Não dá pra achar um jogador que não tenha elevado o nível do seu jogo, parece mágica.

O Artest é o exemplo mais óbvio. Cansei de ver jogos nessa temporada onde a maior contribuição dele era ficar na zona morta esperando a bola para dar um air ball daqueles de pelada. Agora ele corre atrás do cara que deve defender, rouba muitas bolas e no ataque resolveu atacar a cesta. É engraçado demais ver como ele é desengonçado correndo, mas é rápido e de uns tempos pra cá resolveu que está jovem de novo e pode falar gírias iradas (uh tererê!) e enterrar. No jogo contra o Clippers acertou uma à la Shannon Brown na cabeça do Chris Kaman (saiu dando pulinhos depois) e aí se empolgou a ponto de tentar mais duas e errar bisonhamente ambas. Ele faz bobagens, isso está no pacote Artest (e não estou falando de bobagens de comportamento!), mas quando está interessado joga demais. Os números podem dizer que o Tony Allen é o melhor ladrão de bolas dessa temporada, mas ver o Artest em ação é uma coisa de doido, ainda me pergunto como ele pode tocar a bola tantas vezes e incomodar tanto sem fazer falta. Tem mãos fortes e um tempo de bola preciso, dentre esses defensores mais físicos e agressivos é o mais eficiente que eu já vi.

Aqui o vídeo com um resumão do jogo contra o Clippers. Vale ver tudo, tem umas enterradas mais ou menos do Blake Griffin, aquele overrated, as três que eu citei do Artest e mais uma do Shannon Brown que é de ficar tentando na cestinha do quintal depois.



O Andrew Bynum também aparece no vídeo fazendo o que sabe, ser enorme. O Yao Ming pode ser 10 centímetros mais alto, mas não parece tão grande quanto o Bynum. Ele é alto, forte, largo e tem braços de Tayshaun Prince. O time funciona bem com Odom e Gasol no garrafão, mas a defesa fica muito mais forte com Bynum impedindo cestas lá perto. Ele é o grande responsável por uma estatística bem impressionante divulgada pela NBA essa semana. O Lakers é o time que causa o segundo pior aproveitamento dos jogadores de garrafão adversários se contarmos apenas os alas de força e pivôs mais bem ranqueados ofensivamente na NBA. Contra LaMarcus Aldridge, Chris Bosh, Carlos Boozer, Tim Duncan, Blake Griffin, Dwight Howard, Al Jefferson, Brook Lopez, Kevin Love, Zach Randolph, Amare Stoudemire e David West, o Lakers permite que eles acertem apenas 44% de seus arremessos, só o Magic de Dwight Howard é melhor.

Também é bom lembrar que do jeito que ele domina o Tyson Chandler sempre que pega o Dallas Mavericks, e como a maioria dos outros concorrentes ao título não aposta em pivôs fortes, ele pode ser o grande trunfo do Lakers na pós-temporada. Talvez Kendrick Abdul atrapalhe os planos, mas só ele. O Bynum nem precisa marcar 25 pontos para causar impacto no jogo, o negócio dele é ser a bola de confiança no começo do jogo, manter o Lakers na frente, ser a referência quando os reservas entram para jogar, impedir cestas bobas na defesa e sempre deixar os pivôs preocupados e sem ir ajudar na defesa quando Odom, Gasol e Kobe estão fazendo seu trabalho ofensivo.

Embora não sejam sempre perfeitos, Gasol e Kobe levaram o time nas costas com regularidade em boa parte dos jogos e continuam jogando bem. Surpreendentemente Lamar Odom foi regular também nessa temporada, ele que sempre foi o mais de lua do elenco, mas agora estão todos esses jogando bem e mais os dois que citei. É sempre raro e especial quando todos os jogadores de um bom time estão em um momento bom técnica e fisicamente. O Lakers é o melhor time dessa segunda metade da temporada, melhor que o Nuggets até, embora isso seja tarefa para poucos atualmente; se mantiver o ritmo, entra nos playoffs com a etiqueta de grande favorito, posição que tinha antes da temporada começar e que perdeu aos poucos naquela fase em que uma renca de gente implorou para que mandassem Bynum por Carmelo Anthony. Acho que essa boa fase é um sinal que mesmo se algo impedir um título, não havia motivo forte o bastante para motivar um desmanche.

E não dá pra deixar isso de fora de um post do Lakers:

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Los Angeles Lakers


Adeus número 37. Artest agora usará o número 15, o primeiro que usou na NBA



Objetivo máximo: Terceiro título seguido
Não seria estranho: Perder na final do Oeste
Desastre: Cair antes da final de conferência

Forças: Time experiente, talentos em todas as posições, um dos melhores técnicos da história e Kobe Bryant
Fraquezas: Às vezes é um time relaxado e dependendo da formação que usa tem dificuldades nas bolas de três.

Elenco:

Los Angeles Lakers
Titulares
Reservas
Resto
PG
Derek Fisher
Steve Blake
Shannon Brown
SG
Kobe Bryant
Sasha Vujacic
Devin Ebanks*
SF
Ron Artest
Matt Barnes
Luke Walton
PF
Pau Gasol
Lamar Odom
Derrick Caracter*
C
Andrew Bynum
Theo Ratliff

...
Técnico: Phil Jackson

Quando o cara tem mais anéis de campeão do que dedos na mão (e não é o Lula), o negócio é sério, ele é bom mesmo. Os malas sempre vão falar que ele teve sorte por sempre ter à mão elencos ótimos, sendo campeão com Jordan, Pippen, Shaq, Kobe e Gasol. Bom, Jordan não foi campeão nos anos que passou sem Phil Jackson no Bulls. Shaq ganhou 3 títulos em 5 anos com Jackson e só um nos outros 13 anos de carreira, e a única vez que Kobe não foi para os playoffs foi no ano que o técnico tirou de férias. Phil Jackson é como o arremesso feio do Leandrinho, você acha que é sorte na primeira vez que acerta, na segunda também, mas na décima primeira você se convence que ele sabe o que está fazendo.

Phil Jackson, junto com Greg Popovich, são os treinadores que melhor sabem combinar tudo o que um treinador precisa ter para ser bem-sucedido. Ambos tem um sistema tático definido há muito tempo e sabem ensinar isso para os novos jogadores, os dois são bons em motivar e tirar o melhor do elenco que tem e também sabem fazer os pequenos ajustes dentro de um jogo quando as coisas não andam bem. Não dá pra pedir mais nada de um técnico.

A tática de Phil Jackson é o internacionalmente conhecido sistema de triângulos. A criação não é de Phil Jackson, ele aprendeu com seu assistente Tex Winter, que por sua vez aprendeu o sistema com seu antigo técnico Sam Barry. Mas foi com Jackson que ela foi consagrada, sendo usada em todos os 11 títulos vencidos pelo treinador.

O sistema é bem simples no fim das contas, é uma movimentação ofensiva em que os jogadores se adaptam ao que a defesa oferece, respondendo com os passes rápidos e cortes para os espaços vazios, sempre se movimentando em busca da formação de um triângulo que tenha um jogador no pivô e duas opções de passe para ele. Do outro lado da quadra os dois jogadores que sobram fazem o chamado “jogo de dupla”. Essa movimentação tem como objetivo abrir espaços na defesa adversária e o ataque responde sempre da maneira mais eficaz de acordo com o que lhe é oferecido. Por isso que sempre dizemos que jogador burro não funciona nesse sistema, precisa entender de basquete. Quem quiser mais detalhes do sistema de triângulos pode ver esse site que usa umas animações em flash.

Já na parte da motivação o Phil Jackson é gênio. Não é amigão e incentivador como Doc Rivers, mas mais um provocador. Sabe quando elogiar e quando criticar um jogador publicamente, sabe quando dar tapinha nas costas e quando dar um esporro. Ele também ficou famoso por distribuir livros para seus jogadores. Anualmente, geralmente antes de uma longa viagem para jogos fora de casa, ele compra livros e dá de presente para os jogadores. É um jeito sutil e inteligente de conhecer melhor os jogadores, passar uma mensagem para eles que não seja através de um discurso e também para se aproximar deles, afinal, é um presente.

No ano passado ele comprou “Montana 1948”, sobre uma família de classe média abalada por um escândalo nos anos 40 para Kobe Bryant, “2666”, um livro de quase 1.000 páginas sobre assassinatos não resolvidos no México para Pau Gasol e “Sacred Hoops”, um livro escrito pelo próprio Phil Jackson sobre o que ele acredita e prega dentro do basquete para Ron Artest.

O próprio Phil Jackson diz ter sido muito influenciado na sua vida por um livro, que, aliás, foi o que lhe rendeu o apelido de “Zen Master”. O livro tem o hilário título “Zen and the art of Motorcycle Maintenence” ou “Zen e a arte da manutenção de motocicletas”. Logo no começo do livro o autor explica que o título é uma brincadeira com o livro “Zen in the art of Archery” (Zen na arte do tiro com arco) e que na verdade não tem nem a ver com o Zen Budismo e nem com manutenção de motos. Na verdade conta a história do autor e da viagem que fez de moto de Minnesota até a California com o seu filho e as conversas entre os dois sobre, segundo a Wikipedia, epistemologia, filosofia da ciência e emotivismo ético, seja lá o que isso queira dizer.

O técnico também tem ficado conhecido nos últimos anos por seus problemas de saúde. Ele tem uma cadeira especial que leva a cada jogo fora de casa para suas dores nas costas e não assina mais contratos longos. Ao fim de cada temporada diz que precisa consultar seus médicos antes de se comprometer com um novo contrato. Por isso e por ser um chato com a imprensa já disse umas mil vezes que “essa é minha última temporada como técnico”. Se vencer mais um título nesse ano irá conseguir o seu quarto “three-peat”, o tri-campeonato consecutivo, sendo o primeiro e provavelmente o único em muito tempo a ter alcançado esse feito.

....

O Lakers não começou bem sua pré-temporada, perdendo para o Wolves e ontem para o Barcelona. Contra o Barça eles até tentaram ganhar no final, colocando os titulares em quadra, mas não foi o bastante e o JC Navarro é bom demais. Gasol não voltou bem do banco depois de muito tempo sentado e Kobe, ainda se recuperando de uma cirurgia no joelho, jogou mal e foi muito bem marcado por Pete Mickael. Achei legal um jogo entre o campeão da NBA e o da Euroliga, mas o jogo significou muito pouco e não foi disputado em alto nível por nenhuma das duas equipes.

O que podemos esperar do Lakers nessa temporada é mais do que vimos nos últimos dois anos, em especial na última temporada: Um time com algumas dificuldades nas bolas de três, com eventuais apagões mas que, sem ser perfeita, é a melhor equipe da NBA. Além disso tem um garrafão que, nesse ano, só pode ser superado pelo do Boston Celtics. Sempre ganhando nos rebotes, em especial nos ofensivos e com um ataque que flui bem, o Lakers é novamente o favorito.

O que será mais interessante de acompanhar na temporada regular são as novas contratações e os novatos. O Lakers contratou bem demais para um time que acabou de ser campeão. Já declarei nesse post o meu amor ao Steve Blake e acho que ele vai se adaptar muito bem ao Lakers. Não há necessidade de colocá-lo de titular já que o Derek Fisher ainda sabe jogar e é um líder, mas até para poupar o vovô para os playoffs (quando ele melhor joga, sempre) é importante ter Blake adaptado e jogando muitos minutos. O armador chegou nos ginásios do time algumas semanas antes dos demais para receber treinamento especial sobre o sistema ofensivo e quando o training camp começou de fato todos rasgaram elogios ao Blake, dizendo que ele aprendeu muito rápido e já está adaptado ao estilo de jogo antes mesmo da temporada começar.

Quando Kobe estava elogiando Steve Blake ele também fez menção ao Matt Barnes, dizendo que era um jogador esperto e que estava treinando bem também. A posição de Barnes é mais fácil de aprender que a do Blake e, pra falar a verdade, ele nem precisaria ser um gênio tático para se adaptar. Barnes foi contratado para defender e acertar bolas de três, se fizer isso está ótimo. Nessa semana foi divulgado pela NBA o "GM Survey", uma pesquisa anual feita entre os General Managers de cada equipe, e nela Kobe e Artest foram eleitos os melhores defensores de perímetro da liga. Barnes, portanto, nem era tão necessário, mas deixa o time ainda mais forte, com mais opções e oferece as bolas de três.

Como se não fosse o bastante, o Lakers ainda tem um promissor defensor no novato Devin Ebanks, que, já aviso, posso eventualmente chamar de Trevor Ariza. Eles tem as mesmas características de jogo, o mesmo tamanho, o mesmo físico, o mesmo arremesso feio. É um clone! Bom ir treinando o garoto para quando o Artest se aposentar. Nessa semana Ron Ron afirmou que esse atual contrato é o seu último na NBA. Quando ele acabar irá tentar uma carreira no futebol americano e depois no boxe. Na mesma entrevista disse que "O único jeito de parar Kevin Durant é sendo Ron Artest. Se você não for Artest, não tem chance".

No garrafão o Lakers conseguiu um senhor de idade e um pirralho gordo, mas, apesar do que parece, é uma coisa boa. O senhor é Theo Ratliff, que já teve seus bons tempos na liga há muito tempo, uns 10 anos atrás, quando tinha média de 4 tocos por jogo, mas ainda pode fazer um ou outro estrago defensivo jogando 5, 10 minutos por jogo. É uma versão menos desastrada e com menos força nominal do DJ Mbenga, digamos. O pirralho é Derrick Caracter, novato que se mostrou um ótimo reboteiro nas summer leagues, mas recebeu a exigência de perder peso para ganhar um contrato. Ele pode ser um Josh Powell que pode jogar de pivô, nada mal, vamos ver no que dá.

Essa ajuda, mesmo que discreta, é bem vinda porque Andrew Bynum está sempre machucado. Ele demorou para fazer sua cirurgia ao fim da temporada porque queria ter tempo de viajar para a África do Sul para assistir a Copa do Mundo. Nem ele e nem o Lakers imaginavam que no fim das contas a reabilitação demoraria tanto e ele correria o risco de voltar só no final de novembro ou no meio de dezembro. Mas apesar disso Phil Jackson não ficou bravo, disse que a viagem para ver a Copa era importante para o Bynum se recuperar de uma temporada estressante e que não se incomoda de ficar sem o pivô no começo da temporada, que o que importa é o que acontece em maio e junho. Ele tem razão, o Lakers sempre soube se virar sem Bynum na temporada regular, ele é importante contra outros garrafões fortes na pós-temporada. Pensando nisso até estão considerando usar o Bynum apenas por cerca de 24 minutos por jogo na temporada regular, como o Rockets pretende fazer com o Yao Ming.

Times campeões costumam relaxar, bi-campeões mais ainda, mas acho que o jogo 7 da final contra o Boston mostrou como é bom sempre decidir em casa. Espero um Lakers competitivo e interessado na maioria dos jogos da temporada regular.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Os caras maus

"E eu vou pra galera!"

Era 2004 e a temporada da NBA havia acabado de começar. Um dos times favoritos para ganhar o Leste era o Indiana Pacers, com jogadores como Reggie Miller, Jermaine O'Neal, Stephen Jackson, Ron Artest e Jamal Tinlsey. Era um time de defesa forte, dequeles dispostos a ganhar os jogos por um a zero com gol cagado no final. A rivalidade com o Pistons, de quem haviam perdido na Final do Leste da temporada anterior, era enorme. Aí o Ben Wallace sofreu uma falta e quis encher o Artest de porrada, o Ron Ron deitou debochadamente na mesa dos juízes, tacaram um copo de cerveja em sua cabeça, ele socou o torcedor errado, os jogadores entraram numa briga generalizada e tivemos a confusão mais famosa da história da NBA. Ron Artest pegou a maior suspensão de todos os tempos (tirando aquelas dadas por uso de substâncias ilegais) com 73 jogos de molho na temporada regular e mais 13 jogos nos playoffs, até maior do que a suspensão do Gilbert Arenas e seu famigerado caso da arma de fogo. Além dele, outros jogadores também foram suspensos pelo Pacers naquela briga: Jermaine O'Neal pegou 25 jogos de gancho, Stephen Jackson pegou 30, e Anthony Johnson ficou em casa por 5 partidas.

O mais engraçado é que o Pacers ainda foi para os playoffs naquela temporada, perdendo para o Pistons outra vez, mas nas semi-finais. Se não fossem pelas suspensões, aquele time teria feito ainda mais estrago nos playoffs e, apesar da aposentadoria de Reggie Miller, tinha tudo para ganhar um título nos anos seguintes. Mas a briga épica causou traumas profundos: enquanto Ron Artest se sentia culpado por ter destruído a maior chance de seu time até então e pedia para ser trocado afirmando que o Pacers estaria melhor sem ele, os engravatados do Pacers, liderados por Larry Bird, queriam reconstruir completamente a imagem do time e apagar do mapa os acontecimentos de 2004. De quebra, apagaram também do mapa qualquer possibilidade de ganhar um título pelas próximas décadas. Jamal Tinsley, famoso por se envolver em tiroteios em sua cidade natal e alegar que "acontece com todo mundo", tomou um gelo da franquia, perdeu o armário do vestiário, e está mofando em Indiana até que seu contrato termine. Stephen Jackson, que deu uns tiros pra cima depois de uma discussão na saída de um bar de strip-tease, foi trocado. Al Harrington, que depois de quase ser o melhor reserva do ano exigi virar titular, também foi trocado. Jermaine, envolvido na briga com o Pistons, foi o último a ser trocado para finalmente apagar os traços daquele grupo. Aos poucos o Pacers virou um time representado por Troy Murphy e Mike Dunleavy, dois sujeitos brancos, bonzinhos, dóceis e chatos. Nem preciso dizer que, desde então, a equipe de Indiana nunca mais ganhou sequer par-ou-ímpar.

Existe uma enorme preocupação em não colocar "maus exemplos" em grandes equipes da NBA, jogadores que podem arrumar encrenca, destruir a química do time, serem suspensos. De repente virou moda se livrar de qualquer cara que possa gerar dor de cabeça, que tenha problemas fora das quadras, que não seja bom menino. Quando menos percebemos, o Allen Iverson acordou desempregado enquanto jogadores bonzinhos mas sem nenhum talento são disputados a tapa por toda a liga. No momento em que o Kwame Brown ganhou um time e o Iverson começou a cogitar ter que ir jogar na China, deu pra ver que essa moda está indo longe demais. Por mais que o Kwame seja um cara legal, que dá vontade de passar a mão na cabeça, ele não vai tornar o Bobcats um time campeão. O Iverson, sim, já carregou times inteiros nas costas até uma final da NBA. O Artest, tão temido quando chegou ao Lakers porque "poderia pirar a qualquer momento e colocar tudo a perder", acabou de ganhar um título. Os bons jogadores às vezes são problemáticos e quem não quer lidar com isso vai ficar assinando Mike Dunleavys e Brian Cardinals (né, Mavs?) a vida inteira e montar uns troços insossos e fracassados como o Indiana Pacers dos últimos anos. Esse lance de "politicamente correto" vai transformar o planeta inteiro em mingau: docinho, inofensivo, sem gosto nem substância, fácil de engolir porque não tem nem que mastigar.

Curiosamente, um dos poucos passos contrários dos últimos tempos veio justamente do Pacers, que resolveu draftar o armador Lance Stephenson. O sujeito poderia ter sido facilmente draftado nas primeiras 10 escolhas, é um monstro no ataque, tem um jogo completo, e às vezes é fenomenal defensivamente. Mas acabou sendo escolhido na posição 40 simplesmente porque existem dúvidas sobre seu caráter dentro e fora das quadras. Teve passagem pela polícia ainda no colegial e, durante os jogos, tende a gritar com árbitros e companheiros, se empolga com o jogo, tenta sempre o lance mais espetacular ao invés do mais fácil. O medo de seu comportamento lembrou o pânico que cercava a contratação do Artest pelo Lakers, mesmo sabendo que um jogador tão espetacular estava saindo tão barato. Na posição 40, Lance Stephenson é uma baita pechincha - mesmo tendo, no mês passado, empurrado sua ex-namorada de um lance de escadas. Desde então, Stephenson não tem permissão para treinar com o resto dos seus companheiros, ficando confinado a treinos particulares até que o Pacers decida o que fazer. Mas gosto de pensar que os engravatados de Indiana não são completos débeis-mentais e que, portanto, sabiam dos riscos envolvidos no draft do Lance Stephenson. Treinos separados ou não, imagino que as temporadas de fracasso tenham forçado uma mudança de atitude simbolizada pelo draft de Lance. Se mandarem o garoto embora, como se cogita por aí, será a prova de que não aprenderam nada com os erros - e de que não leram o perfi dos jogadores que draftaram. Prefiro achar que estão dando uma atenção especial para o pirralho durante um momento difícil, dando conselhos e oferecendo estrutura e que, em breve, reintegrarão o armador à equipe.

Outro time que conseguiu uma pechincha dando uma olhada na baciada de "jogadores problemáticos" foi o Celtics. Com a nítida sensação de que essa será a última chance do elenco de ser campeão, e tendo que enfrentar o trio-fraldinha do Heat, o Celtics tá apelando pra qualquer coisa: mandinga, jogador velho, jogador novo, homem, mulher, e quantos jogadores-problema aparecerem. É por isso que Jermaine O'Neal, que o Pacers jogou fora, vai se unir ao Delonte West, que o Cavs mandou embora por culpa de um incidente em que ele foi preso andando de moto com mais armamentos do que o Rambo. Fiquei muito feliz com o despero do Celtics porque já estava crente de que o Delonte nunca mais ia conseguir um emprego nem no Mc Donald's apesar de ser um jogador excelente. Depois de anos abandonando jogos e treinos graças à sua depressão crônica e andando armado e paranóico pelas ruas de sua cidade natal, seria difícil achar um time que quisesse apostar no armador. Mas aí, pra piorar, o David Stern fez aquela merda que ele sempre faz, que é punir dentro da NBA por causa de uma punição fora dela, então o Delonte West tomou uma suspensão de 10 jogos depois de já ter sido punido pela justiça pelo seu porte de armas. Então qualquer time que aceite o armador tem que saber que, por 10 jogos, ele não poderá entrar em quadra. Convidativo, não?

Mesmo assim, o Celtics só tem a ganhar botando suas fichas no Delonte West. O jogador é inteligente em quadra, é bom arremessador, tem culhão para decidir e joga nas duas posições de armação. Torna o banco do Celtics imediatamente muito melhor, fazendo ainda melhor um papel que já foi de Eddie House, não importa quanto tempo fique suspenso e quantas motocicletas ele dirija por aí carregando lança-mísseis nas costas. Sua importância só será mesmo sentida nos playoffs, então a suspensão não vai ser grandes coisas. Do mesmo modo, Jermaine O'Neal torna o garrafão do Celtics bom o suficiente para que seja possível sonhar em enfrentar o garrafão do Lakers, mesmo que eventualmente ele acabe enchendo o Andrew Bynum de porrada ou se contundindo mais uma vez. Lance Stephenson tem tudo para tornar o Pacers, dono de um dos piores ataques da NBA, um time mais perigoso e talentoso, mesmo que empurre mulheres pelas escadas. É claro que ninguém gosta de gente escrota que anda por aí segurando metralhadoras e socando gurias, mas esses jogadores já foram presos, julgados e condenados, já fizeram serviço comunitário, já sofreram as consequências em suas vidas pessoais. Carregar isso para a NBA não apenas não faz um puto de um sentido, mas também torna os times piores, a liga pior, porque tira dele o mais importante: talento.

O Delonte West foi fundamental para o Cavs nas últimas temporadas, e em jogos decisivos apenas ele (e o Varejão, que não vale porque não tem cérebro) ousavam arremessar quando o LeBron ficava passando a bola. Tudo porque o Cavs topou lidar com os problemas do Delonte, lhe ofereceu tratamento psicológico e psiquiátrico, soube fazer concessões quando ele não queria (ou não conseguia) comparecer aos treinamentos, tentou ajudar o jogador ao invés de puní-lo. Sem LeBron na equipe, sabendo que eles precisam reconstruir, acho que não tiveram a paciência de manter o jogador e seus problemas, mas o Wolves poderia ter recebido o Delonte e tentado ajudá-lo, aproveitando-se de seu talento, ao invés de preferir despedir o jogador e sua imagem problemática. Azar. O apoio psicológico e psiquiátrico mudou a vida de Artest e permitiu que tanto ele quanto o Lakers saíssem vencedores com a parceria. Os times que não querem lidar com problemas e não estão dispostos a oferecer ajuda vão acabar draftando freiras ou comprando canários. E, certamente, vão feder muito, e por muito tempo. Se o Celtics tiver sucesso nessa derradeira temporada, ficará a lição: bons jogadores descobrem um jeito de funcionar juntos se tiverem o apoio necessário, e cabe às equipes da NBA fornecer essa estrutura. Se o Larry Bird não descobrir isso logo, o Pacers vai continuar com a cara sem sal do Mike Dunleavy, sem entender porque não conseguem ganhar bulhufas. Enquanto Allen Iverson continua lá fora, disposto a ganhar pouco, jogar em qualquer função, e ser o jogador sensacional que ele sempre soube ser. A China, que já recebeu o Marbury depois que ele foi bizarramente boicotado pela NBA, deve receber o Iverson logo. Torçamos para que não seja o mesmo destino de Lance Stephenson e Delonte West.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O post do título


"I got Wheaties!"


O jogo 7 entre Lakers e Celtics parecia embaçado, difícil de ver, de tão pesado que era o clima dentro de quadra. Nervosismo e tensão não são coisas físicas, mas pareciam ter criado corpo durante o jogo de ontem. Nunca foi tão óbvio ver as emoções dos jogadores. Foi completamente diferente do último jogo 7 que a NBA tinha presenciado, a disputa entre San Antonio Spurs e Detroit Pistons em 2005. A atmosfera do jogo estava tão diferente que até a torcida do Lakers, geralmente blasé, com mais celebridades e ricos do que torcedores e que só pega no tranco, esteve ativa, barulhenta e vibrante desde o primeiro momento do primeiro quarto até o fim do jogo, quando explodiu com a conquista do 16º título da história da franquia.

Esse jogo embaçado, difícil de assistir, fez ele ser percebido de quatro maneiras diferentes:
1- Um jogo histórico e um dos mais tensos da história para os torcedores do Lakers
2- Um jogo histórico e traumático para os torcedores do Celtics
3- Um jogo roubado para os torcedores idiotas que não sabem perder do Celtics
4- Um jogo feio e com muitos erros para quem só estava lá pra ver um jogo de basquete

Eu, torcedor assumido do Lakers, me encaixo no primeiro grupo, mas entendo quase todos os outros. Derrotas assim são traumáticas e o jogo foi cheio de erros, não foi um espetáculo do basquete. Só não aceito dizer que foi roubado. Apesar de alguns erros (para os dois lados, diga-se de passagem), foi a melhor arbitragem desses 7 jogos da final.

A grande polêmica da arbitragem foi que o Lakers bateu 20 lances livres no último período, mas não é que o Lakers ganhava os arremessos toda vez que tentava infiltrar, mal se conseguia penetrar com duas defesas tão apertadas, mas é que o Celtics fez muitas faltas idiotas e já nos primeiros minutos do último período tinha ultrapassado o limite de faltas no período.

Assim até faltas tolas em rebotes viraram lances livres para o Lakers, simples assim. Posso listar várias faltas imbecis que custaram o jogo ao Celtics: o Kobe pegou um rebote de defesa e na queda o Rondo tentou roubar a bola dele, cometendo uma falta completamente imbecil. Em outro lance o Gasol tinha 1 segundo para fazer um arremesso difícil quando o Garnett pulou para o toco e caiu inteiro em cima do espanhol, falta clara que nem o próprio KG reclamou. Em outro momento a defesa inteira do Boston estava no lado esquerdo do Ray Allen, que marcava o Kobe individualmente, então ele dá o lado aberto para o Kobe, que infiltra e sofre uma falta clara do Paul Pierce para evitar a cesta. Após fazer uma boa marcação pressionada o Boston obriga o Gasol a sair driblando do campo de defesa, então Paul Pierce acha que é uma hora de cavar falta de ataque e se joga na frente do espanhol. Sem sucesso. Ele se moveu quando viu que o Gasol passava por ele e o Lakers ganhou mais dois lances livres.


Só nessa sucessão de lances que eu descrevi (e ainda tiveram outros tão idiotas quanto, muitos em rebotes) o Lakers ganhou 8 lances livres. Se o Celtics não tivesse ultrapassado o limite de faltas, teriam sido somente 2. Considerando os 32% de aproveitamento do Lakers nos arremessos, duvido que as jogadas que tiveram falta teriam acabado em cesta.

Já do outro lado o Lakers não deu pontos de graça para o Celtics, fez o time verde merecer cada cesta. Mas aí valeu uma das melhores performances defensivas da história recente do Lakers. Todos os jogadores marcaram muito bem e mesmo trocando a marcação a cada pick-and-roll, os grandalhões seguraram os armadores do Celtics. Nunca havia visto tanta dedicação defensiva do Lakers num jogo, em especial no último período. Também pesou o fato do Celtics ter tomado algumas decisões bastante questionáveis ofensivamente, nem sempre escolhendo o melhor arremesso. E às vezes custou para eles confiar muito nos arremessos e não tentar as infiltrações, partindo para dentro talvez desse para pelo menos arrancar uns lances livres.

Há alguns dias comentei das estatísticas de rebotes e afirmei que venceria os últimos dois jogos o time que vencesse a batalha dos rebotes, era o que essa série estava indicando. E foi assim, o Lakers ganhou com sobra os rebotes nos últimos dois jogos e levou o caneco. Mas no mesmo post eu tinha postado uma outra estatística interessante sobre a defesa do Celtics: Em 20 ocasiões durante a temporada e pós-temporada o Celtics havia segurado seu oponente a um aproveitamento abaixo dos 40% e em todos (TODOS!) os jogos os verdes ganharam. A exceção foi ontem, quando o Lakers venceu apesar de acertar apenas 32% de seus arremessos.


E o Lakers não compensou o aproveitamento baixo com muitas bolas de 3, acertou apenas ridículas 4 de 20 tentativas. Também não foi nenhum espetáculo na linha de lance livre, acertando só 67% das tentativas. Então como conseguiram o milagre de superar uma desvantagem que chegou a 13 pontos na metade do terceiro período? Além da defesa fora de série, foram 37 cobranças de arremessos livres. Mesmo com aproveitamento baixo, foram 25 pontos só nesse quesito. Em um jogo com placar tão baixo (83-79) faz toda a diferença. O Celtics cobrou apenas 17 lances livres (acertou 15) e teve 40% de aproveitamento dos arremessos.

Pode-se dizer, portanto, que no jogo mais nervoso da temporada o Lakers foi nervoso e precipitado no ataque durante boa parte do jogo, mas melhorando aos poucos e nunca nervoso demais na defesa. Já o Celtics foi nervoso e precipitado dos dois lados da quadra. Apenas no começo do terceiro quarto é que atacou com mais calma e paciência, explorando os bons jogos de Garnett e Rasheed Wallace no ataque. Nunca a batida frase "Ganhou quem errou menos" fez tanto sentido num jogo, e olha que eu queria morrer antes de usar essa frase aqui no Bola Presa.


Agora que falamos do jogo, que tal falar de atuações individuais? Há muito a se falar de muita gente nesse jogo 7. Vamos lá:

Kobe Bryant: Como torcedor do Lakers eu já enjoei de ver o Kobe jogar e sempre tenho mais medo do que confiança nele em jogos muito importantes. Não que ele seja ruim em momentos decisivos, longe disso, está mais perto de ser o melhor, mas é que sua cabeça pira antes desses jogos muito esperados. Ele é mortal quando começa os jogos caminhando, tranquilo e vai ficando com cara de assassino durante o decorrer da partida. Quando ele sabe da importância do jogo, tem o hábito de já começar o primeiro minuto de jogo hiper-ativo, assim se cansa mais rápido e, nervoso, toma más decisões durante a partida.

Claro que ele não é um dos melhores jogadores da história à toa, também deu pra enjoar de ver ele começar o jogo como um doido e depois conseguir colocar a cabeça no lugar e voltar a ser o jogador frio e matador que nos acostumamos a ver. Mas de qualquer jeito eu sempre fico com um pé atrás nesses jogos que ele quer vencer tanto, mas tanto, que acaba atrapalhando a si mesmo.

Ontem foi um caso desse e nas entrevistas pós-jogo ele mesmo admitiu que queria tanto vencer o jogo que isso acabou indo contra ele. Não foram poucas as vezes em que ele nem tentou executar uma jogada, apenas driblou em excesso até forçar um arremesso sem direção. Até o seu arremesso estava saindo mais reto e forte que o normal, ao contrário do mais arqueado e suave que ele costuma soltar.

Durante o jogo ele conseguiu colocar um pouco da cabeça no lugar, fez um segundo tempo um milhão de vezes melhor que o primeiro e mesmo fazendo uma das piores partidas de playoff que eu já vi ele fazer, foi decisivo. Quando ele viu que mesmo mais calmo os seus arremessos não estavam caindo, tratou de confiar mais em seus companheiros, passou um pouco mais a bola de lado e ficou buscando situações de infiltração para conseguir faltas. Além disso foi espetacular na defesa marcando Rondo, às vezes correndo atrás de Ray Allen e principalmente ganhando todos os rebotes. Foram 15 rebotes, 11 defensivos e 4 de ataque. Quando alguém ia imaginar 15 rebotes e um aproveitamento de só 6-24 arremessos do Kobe em um jogo assim? É como se o deus do basquete olhasse e pensasse "E se o Lakers tivesse o Ben Wallace ao invés do Kobe, será que eles ganhariam?". Ganharam

Tirando todas as tiradas já antológicas do Artest, o Kobe disse a melhor frase das entrevistas de ontem. Um repórter perguntou qual era o significado pessoal daquele título, ignorando a importância dele para o time. Kobe respondeu sem pensar por mais de um segundo: "Agora eu tenho um a mais que o Shaq". Clássico.

Ray Allen: O Ray Ray é Free Agent ao fim dessa temporada e existe uma grande discussão em Boston sobre se vale a pena ou não manter o veterano. E, se for manter, por qual salário? Ele não deve sair barato. Ao fim do primeiro tempo do jogo 2 da final, quando Ray já tinha 7 bolas de 3 convertidas no jogo, o comentarista e ex-técnico Jeff Van Gundy disse "Se eu fosse do Boston Celtics assinava um contrato novo com ele agora no vestiário". Será? No resto da série ele não conseguiu acertar mais a pontaria e ontem não foi exceção: acertou 3 de 14 arremessos. Se serve de prêmio de consolação, fez um bom trabalho defensivo em cima de Kobe Bryant em todos os jogos.

Pau Gasol: Não foi bem nos lances livres, teve aproveitamento baixo dos arremessos e não fez sua melhor partida na série. Mas quem ousa usar "Gasol" e "soft" na mesma frase de novo? Quando Kobe estava mal o ataque o Lakers confiou nele e ele respondeu sendo a principal arma ofensiva do Lakers no quarto período. E com 9 rebotes ofensivos (mais do que o Celtics inteiro) foi quem deu a maioria das segundas chances do Lakers pontuar. Kobe, ao receber o troféu de MVP das finais (merecido pelo conjunto da obra, não pelo jogo 7, claro) fez questão de agradecer ao espanhol por toda a ajuda.

Rasheed Wallace: Poderia ter sido o herói da noite de ontem. Entrou como titular no lugar de Kendrick Perkins e fez todo mundo voltar a se perguntar pela milésima vez: Rasheed, por que você tem fobia de garrafão quando é tão bom lá? Nunca saberemos. Pecou ao cometer muitas faltas bobas no último quarto, mas fez um bom jogo. Depois do jogo o Doc Rivers disse que acha que esse pode ter sido o último jogo da carreira do grande Sheed.

Lamar Odom: Não jogou bem durante quase toda a série, mas se redimiu com bons jogos 6 e 7. No jogo de ontem foi ele quem me deu esperança de que o Lakers poderia virar mesmo com o Kobe jogando mal. Ele ameaçou tocar para o Kobe numa jogada em que ele sempre passa para o Kobe, aí no meio do caminho desistiu, partiu para cima de Garnett e fez uma bandeja bem difícil. Foi a prova de que o Lakers estava afim de ganhar e não afim de esperar o Kobe ganhar pra eles.

Paul Pierce e Rajon Rondo: Mesmos comentários para os dois. Até que foram mais frios que o resto dos jogadores em quadra ontem, mas os dois também entraram na onda das faltas bobas no meio do quarto período quando era hora de tomar cuidado e não mandar o Lakers para a linha de lance livre. Os dois também tinham que ter liderado o ataque do time quando este estagnou em pontos. Foram bem, mas não o bastante.

E finalmente... Ron Artest: Contei essa história um tempo atrás e bastante gente lembrou dela ontem no Twitter. Em 2008, logo após o jogo 6 da final quando o Lakers perdeu para o Celtics, o Ron Artest, ainda jogador do Sacramento Kings, invadiu o vestiário do Lakers, foi até o Kobe e disse "Eu ainda vou te ajudar a ganhar um título". No ano seguinte ele acabou trocado para o Rockets, mas depois, finalmente, foi para o Lakers e cá está ele, campeão ao lado de Kobe e justamente contra o mesmo Celtics.

A atuação do Artest durante a série e durante todos os playoffs (para não dizer a temporada toda) foi bem irregular. Mas nos momentos decisivos ele estava sempre lá fazendo a coisa certa. Quando o Thunder complicou com o Lakers na primeira rodada ele estava lá para anular Kevin Durant, quando o Suns ameaçou na final do Oeste ele apareceu com a cesta decisiva no jogo 5 e trocentas bolas de 3 no jogo 6.

Na final foi a vez de marcar Paul Pierce como eu nunca tinha visto alguém defender. Foi bem durante toda a série, mas nesse jogo 7 foi especial, não desgrudou do ala do Celtics por um segundo e não deixou que ele desse um único arremesso fácil. Os pontos que ele fez foi por mais puro merecimento, porque o Artest estava lá com a mão na cara, roubando bolas, atrapalhando, sendo um pentelho. Posso dizer com certeza e sem nenhum exagero por torcer para o Lakers que foi uma das mais brilhantes atuações individuais na defesa que eu já vi na minha vida.

Só por isso ele já teria sido o melhor jogador em quadra. Mas calhou dele marcar 11 pontos só no segundo período, quando mais ninguém conseguia um pontinho sequer no Lakers. Depois ainda fez mais no terceiro quarto quando o Lakers começou a reação para cortar os 13 pontos de diferença e, para terminar, fez uma bola de 3 surreal (com direito a beijinhos para a torcida depois do acerto) como resposta a uma outra bola de 3 dificílima que o Rasheed Wallace tinha acabado de acerta no minuto final de jogo.

E como se não bastasse ser o melhor em quadra, foi o melhor fora dela também. Logo depois do jogo ele foi entrevistado pela repórter Doris Burke da ESPN e ao invés de responder às perguntas delas, abraçou-a e começou a agradecer pra todo mundo. A mulher, os filhos, a família, aos camaradas da quebrada e, a jóia da coroa, a sua psiquiatra! Que outro jogador da história da NBA seria capaz de agradecer à psiquiatra depois do título que não fosse o Ron Artest? Depois ainda anunciou que sua carreira de rapper continua, agora vai lançar uma música escrita há um ano chamada "Champion".


Mas era só o começo! Depois teve a entrevista coletiva, que começou com ele gritando e vibrando "Eu tenho Wheaties!", fazendo referência à caixa de cereais que estava sobre a bancada da entrevista. O Wheaties é um cereal matinal conhecido por ser "o café da manhã dos campeões" e por estampar sempre grandes atletas nas suas caixas.

Depois ele ameaçou ir embora porque as pessoas que estavam lá não pareciam animadas como ele. Aí chamou a família inteira para acompanhá-lo e apresentou todo mundo um por um, dedando, no caminho, os familiares que estavam felizes por ter acabado de conhecer o Kobe. Então ouviu a primeira pergunta, falou sem parar e disse "esqueci completamente qual era sua pergunta". E prosseguiu falando sobre qualquer coisa que viesse à sua cabeça.

Em um dos trechos mais legais da entrevista ele faz uma declaração de amor ao Jeff Foster! Sim, aquele pivô branquelo que pega muito rebote ofensivo no Pacers. Ele disse que aquele cara faz qualquer coisa pelo time. O Artest chegou no assunto quando disse que tinha sido muito egoísta e infantil no começo da sua carreira e tinha perdido uma grande oportunidade de ser campeão naquele time que tinha Jamaal Tinsley, Stephen Jackson, Jermaine O'Neal, Jeff Foster e o próprio Artest. Contou que se sente mal até hoje quando encontra os ex-companheiros porque acha que ele mesmo estragou a chance dos outros de ganhar um anel de campeão. Por isso não acreditava que teria outra chance e que não poderia desperdiçar a chance quando teve.

Assistam a uma das entrevistas mais fantásticas que você vai ver depois de um título. E, sem dúvida alguma, a mais maluca.


Qual foi a sua cena favorita? A minha foi no final quando ele comenta sua bola de três no final do jogo dizendo "O Kobe me passou a bola! Ele nunca me passa a bola. Uhu! Kobe me passou a bola". E completa com "Eu podia ouvir o Phil Jackson dizendo para eu não chutar. Ele é o Zen Master, ele fala no seu ouvido de longe, eu podia ouvir ele dizendo 'Ron, não chute, não chute'. Mas eu disse, tanto faz, arremessei e acertei".

Sasha Vujacic: Jogou 4 minutos e acertou dois lances livres decisivos. Você está na história, The Machine!

O resultado da promoção das Finais sai amanhã, sábado!

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Para quem vier

Miguxos

Deu Lakers num jogo mamata que foi dominado desde o primeiro segundo. Dica: ganhou o time que pegou mais rebotes (algo me diz que o Denis já desconfiava que isso fosse acontecer). Depois de tanta gente ter certeza absoluta de que o Celtics ia ganhar fácil a série, depois gente com certeza de que o Lakers ia ganhar fácil a série, depois com certeza de que o Celtics ia levar no Jogo 6, vou me dar o maravilhoso direito de ignorar qualquer mané que alegue certeza de que Lakers ou Celtics vão vencer essa Final. Certeza mesmo, a gente só tinha que Kendrick Perkins e Rasheed Wallace seriam eventualmente suspensos por estourar o limite de faltas técnicas. Era inevitável, bastava tomar uma e o Perkins, líder em faltas técnicas da NBA, estaria fora, e eram 6 jogos para isso acontecer. Doc Rivers disse que não tinha como escapar, que em algum momento da série iria acontecer e ele teria que lidar com isso. Não aconteceu.

Também me dou o direito, depois de ver tantos fãs dos dois times afirmando indignados que foram roubados pela arbitragem - às vezes no mesmo jogo um fã de cada lado era capaz de se dizer assaltado - de mandar todo mundo ir catar coquinho. Defesa, má pontaria e rebotes, rebotes, principalmente os rebotes, influenciaram muito mais do que qualquer carinha sendo ruim com um apito na boca. Agora é aquele momento em que você simplesmente senta, assiste e admira - aconteça o que acontecer. De preferência, nem torça. Seria como torcer diante do Grand Canyon, de um quadro de Picasso ou da Alinne Moraes. Depois de uma temporada imensa (que, como sempre repetimos, é longa demais, precisava ser menor), uma dura pós-temporada e uma série final com 6 jogos, o que sobra é o espetáculo. A gente resmungou da falta de qualidade de algumas séries, da disparidade técnica de alguns times (Hawks, cof, cof), mas agora fomos presenteados com o melhor jogo que poderia acontecer na temporada. Mesmo se for um lixo, tá valendo: pelo menos ele aconteceu.

Kevin Garnett, Ray Allen e Paul Pierce merecem esse título. Será, provavelmente, a última chance de cada um dos três conseguir mais um anel (o Rondo vai ter a vida inteira para colecioná-los). Ser campeão duas vezes, com um intervalo de apenas uma temporada entre elas - onde haverá para sempre um asterisco dizendo "Garnett se contundiu" - colocará os três devidamente na história, e dará especialmente ao Garnett a munição necessária para enfrentar as próximas 4 décadas de comparações com o Tim Duncan. Talvez, com sua carreira consagrada por dois campeonatos em Boston, a história resolva se lembrar melhor de seus tempos espetaculares no Wolves, bater as palmas merecidas e salvar uns vídeos de YouTube para os nossos filhos. Ele aguentou tanta merda, caladinho, sem jamais pedir para ser trocado, que apenas um título parece prêmio de consolação, não o sucesso que merece. Mesma coisa com Paul Pierce, que será lembrado pelos torcedores do Celtics principalmente pelos times horríveis que ele conseguiu classificar para os playoffs quando estava no seu auge, tão desperdiçado com um elenco que não decidia se reconstruia ou se continuava. Outro anel em Ray Allen, por sua vez, lhe permitiria figurar também fora dos livros de recordes, onde temo que ele fique esquecido para sempre na pagininha das bolas de trêss.

Kobe, Gasol e Artest merecem esse título. Terão outras chances de ganhar um anel, é verdade, mas a imagem dos três sofrerá muito com a derrota. Gasol foi o líder de um Grizzlies que classificava para os playoffs mas que nunca ganhou um jogo sequer na pós-temporada, dando-lhe a fama de "soft", fracote, amarelão. Já perdeu um campeonato para o Celtics e seu jogo físico, e uma derrota agora pode causar uma terrível amnésia na população da Terra, de modo que esquecerão como o Gasol não tem mais medo do contato e é o melhor jogador de garrafão da atualidade. Artest fez de tudo nessa temporada para deixar para trás a fama de presepeiro, e todos nós sabemos que sua fama (e os times sem resultado em que jogou) nunca permitram que fosse aplaudido como o incrível jogador que é, perdendo espaço para defensores piores só que mais bem comportados. Kobe, por sua vez, precisa desse anel para diminuir o ódio de tantos torcedores indignados com as comparações entre ele e os melhores de todos os tempos. Ninguém entende que ele pode ser, que talvez seja, e que deveríamos estar aproveitando essa oportunidade. Já vejo na minha frente a quantidade de textos e comentários sobre o Kobe feder por não conseguir decidir um Jogo 7 como "você sabe quem" faria.

Às vezes acontece de um time estar enfrentando outro menos qualificado, ou que não precisa tanto do título, que é meio cagado, só tem uma estrela, venceu por contusão do adversário. Não é o caso aqui. Por isso, se o seu time vencer essa série, resista à tentação pós-esporro de diminuir o adversário, chamar o Garnett de amarelão, o Gasol de "soft", o Kobe de "falta-arroz-e-feijão". Todas essas estrelas, mais do que merecerem o título, precisam dele. Vai ser triste o bastante ver que alguém não vai levá-lo pra casa.

Pra quem acompanhou toda a temporada aqui no Bola Presa, com tantos posts enormes, piadinhas infames, análises, números e uma dedicação desgraçada, esse Jogo 7 vai ser um prêmio para todos nós: os leitores, que acompanharam com afinco esperando apenas esse momento; e a gente, que escreveu como uns condenados esperando aquele delicioso momento final do último post da temporada.

Para comemorar e esperar a final, que começa amanhã às 22h, não se esqueça de participar da promoção Bola Presa/adidas. São 7 prêmios diferentes: 3 camisetas do Lakers, 3 camisetas do Celtics e 1 camiseta especial das Finais. Veremos quantos ganhadores teremos dependendo de quantos participantes teremos na promoção. Lembrem-se que para participar você deve mandar uma foto relacionada com NBA ou as finais, então pegue sua câmera, seu celular, sua tia gorda que comprou aquela puta câmera digital só pra se exibir, ou então pegue uma foto pronta na internet e edite no Paint, não importa, apenas participe. Vocês tem até o final do Jogo 7 para participar! Em breve, teremos os vencedores. E também, o que é mais importante, finalmente um campeão dessa temporada da NBA. Já estou triste pelos perdedores, mas eufórico pela chance de ver esse espetáculo. Obrigado, deus do basquete que nos assustou com uns joguinhos bem fajutos: temos um Jogo 7. É como diria o menininho-ex-fã-de-Restart: "Sério!".

domingo, 13 de junho de 2010

Emoção demais, emoção de menos


Artest e Rasheed saem na unha pelo posto de mascote do Bola Presa

Quem acompanha o Bola Presa desde o comecinho sabe quais são os jogadores que mais nos rendem posts exclusivos: Yao Ming, no meu Houston, pelo seu fardo de carregar a cultura chinesa; e Kobe Bryant, no Lakers do Denis, pela sua paixão pelo basquete que chega ao ponto da nerdisse. Fica parecendo que escrevemos mais sobre os jogadores dos nossos times, mas no fundo é só acaso. Curiosamente, quem lidera nossa lista de posts individuais é, na verdade, Ron Artest - que jogava no Kings quando começamos a maratona de posts a seu respeito e que, ironia do destino, foi depois jogar no Houston e agora no Lakers. Damos sorte com nossos jogadores favoritos.

Ron Artest sempre foi, ao lado de Rasheed Wallace, um dos mascotes do Bola Presa. O Sheed estampou nosso primeiro template do blog e dá as caras na camiseta que fizemos do Bola Presa - que em breve devemos disponibilizar por aqui. Sua lendária coletiva de imprensa, em que respondeu a todas as perguntas com a frase "os dois times jogaram duro" porque estava sem saco, deu nome à nossa coluna com respostas para as perguntas dos leitores, entitulada "Both Teams Played Hard". Uma foto do Sheed ilustrava cada coluna, e ele continua estampado no nosso formspring, que segue respondendo às questões dos leitores e virou um sucesso absoluto (são mais de 3000 perguntas recebidas nesses 4 meses de existência). Além disso, o Sheed foi o tema de uma das pouquíssimas matérias gringas que traduzimos, um texto sobre sua inteligência trabalhar contra ele dentro de quadra - aliás, vale a leitura, são linhas espetaculares.

Ron Artest não ilustra templates ou camisetas por aqui, mas ganhou uma série de posts: primeiro quando mandou beijinhos para a torcida ao enfrentar o Pistons pela primeira vez desde que fora suspenso contra a equipe, depois quando passou um jogo inteiro se pegando com o Matt Harpring. Escrevemos quando ele bateu boca com o Kobe Bryant um jogo inteiro, colocando também uma entrevista em que Artest mostra todo o carinho e admiração que tem por Kobe. Listamos uma série de histórias sobre ele, da ligação para o torcedor que lhe tacou uma cerveja na cabeça à sua promessa ao Kobe, depois de invadir seu vestiário, de que um dia jogaria no Lakers para lhe ajudar a ganhar um título. Temos também dois posts curtos, um com o vídeo do Artest arremessando o tênis do Ariza e outro com sua aparição, de cuecas, num programa de televisão - admitindo ser formado em Matemática.

Nosso carinho pelos dois tem razões óbvias: além de serem jogadores engraçados e bem-humorados, coisa fundamental para os palhacinhos aqui do Bola Presa, também são jogadores humanos, emotivos, reais, dispostos a se expressar abertamente dentro de uma NBA que cada vez mais tenta sumir com as emoções e as opiniões através de multas, punições e suspensões (e que nessas finais apita falta até em que coça o nariz). Rasheed Wallace ainda lidera a NBA em faltas técnicas, mesmo com os minutos tão reduzidos, e Artest ainda arremessa bolas que não fazem nenhum sentido, deixando Kobe maluco, apenas para provar alguma coisa que está ali na cabeça dele.

O principal medo dos torcedores do Lakers quando Artest chegou à equipe era ele acabar com a química do time, dar uma de maluco, começar alguma pancadaria, arriar as calça do Paul Pierce. Medo real, mas desnecessário. Artest entendeu desde o primeiro segundo que o time não era dele, que sua função era defensiva, e que o Kobe estava de olho em tudo que ele fazia. A graça, no entanto, está no fato de que o Artest é de verdade e se diverte em quadra. Adora jogar fisicamente e quando topam a brincadeira, quando ele pode trombar no garrafão, se engalfinhar com alguém, roubar uma bola na raça ou dar um toco na base da força, seus pulos de alegria e socos no ar são um raro toque de energia em um elenco famoso por ser técnico demais, o magrelo nerd da classe. O que não falta para o Lakers são jogadores inteligentes, táticos, com habilidade apurada. Gasol é sem dúvidas o homem de garrafão mais técnico da NBA no momento, e Kobe é provavelmente o jogador mais técnico que esse planeta esférico já presenciou. Não que o Kobe não goste de jogar na força bruta (recentemente o Jeff Van Gundy estava comentando que o Lakers tem três dos jogadores que mais gostam de jogar fisicamente: Artest, Fisher e Kobe), mas é que Kobe é concentrado demais para permitir os jorros de euforismo que o Artest coloca pra fora como se fosse ganhador de Big Brother.

Assim como o Ben Wallace dizia que o Pistons às vezes não entrava no jogo até o Rasheed Wallace tomar uma falta técnica, tem vezes em que o Lakers não começa a defender com vontade até o Artest dar alguma trombada e começar a distribuir socos no ar de felicidade (estilo Raí). Sua importância vai muito além das funções defensivas e atinge justamente a maior deficiência do Lakers que perdeu para o Celtics na final de 2008: o Artest traz coração, jogo físico, socos no próprio peito, orgulho, empolgação, cara feia. Coisas que, dois anos atrás, eram marcas registradas do time de Boston.

O Celtics, por sua vez, tem tanto coração, orgulho e socos no peito, que o Rasheed Wallace acaba sendo quase desnecessário. Grande parte do elenco é absurdamente emotivo. Garnett, por exemplo, grita, berra, bebe o sangue de criancinhas e dá pancadas surreais de UFC em quem está lhe enchendo o saco.


O Glen Davis grita com ele mesmo, literalmente chora quando toma bronca (as lágrimas escorrem do rosto de nosso querido Ursinho Carinhoso) e está sempre pronto para sair na porrada com alguém. Kendrick Perkins reclama de todas as faltas da equipe, está sempre com cara de quem vai chorar ou ter um aneurisma cerebral, e é o segundo colocado em faltas técnicas na NBA (baita pentelho).

Rasheed Wallace está acostumado a ser o coração de suas equipes. Jogou a carreira inteira ao redor de cordeiros, então está sempre gritando, provocando, atiçando, tentando proteger os seus companheiros que trata como irmãozinhos menores débeis mentais. Sempre existiu nele um tanto de desinteresse pelo jogo, é comum dizerem que Rasheed poderia ter sido um dos melhores de todos os tempos mas ele não quer treinar, fazer sempre a mesma coisa em quadra ou obedecer os desenhos táticos. Mas o Celtics precisava disso, de uma força defensiva no garrafão, de um arremessador de 3 pontos, de um jogador inteligente para dar os passes certos, não de mais um para esquentar a cabeça e sair do jogo. Enquanto o Lakers era um tanto sem vida e desgostoso de confronto e jogo físico, o Celtics agora é um time emotivo demais, com gente falando demais e - principalmente - cometendo faltas técnicas demais.

O Rasheed Wallace chegou no Celtics anunciado como "mais um enorme talento para levar esse time a outro título", mas assim que pisou em quadra fora de forma, sem muita vontade de treinar e desinteressado - como sempre fica - por não se sentir parte de uma "família" (ele precisa ouvir Restart), tomou fria do resto da equipe. A frustração do Garnett com o Sheed era visível em sua cara de canibal faminto, e acho que a situação toda foi uma das maiores responsáveis pela queda de produção do Celtics durante a temporada regular. O Rasheed precisou entender, com muito custo, que fazia parte de algo, de uma última corrida desesperada a um anel com uma equipe disposta a sangrar por Garnett, Pierce e Allen, para então começar a render um pouco mais em quadra. Mas, infelizmente, o casamento não parece dar muito certo.

Toda a empolgação de Artest, que torna o Lakers um time mais humano, agressivo e eficiente, tem um preço. Primeiro, as limitações de arremesso do Artest foram exploradas constantemente nos playoffs, primeiro pela defesa perfeita do Thunder, depois pelo Jazz, e por fim pelo Suns e sua defesa por zona 2-3. Todas essas equipes deixaram Artest livre para o arremesso de 3 pontos, e ele insistiu em arremessar mesmo assim. Na série contra o Jazz, se enfiou num regime de treinamento de arremessos e acabou decidindo a série, é verdade, mas contra o Suns essa confiança no treinamento levou a momentos bizarros. No Jogo 5, Artest errou um arremesso de 3 pontos livre, recebeu o rebote ofensivo e, ao invés de esperar o cronômetro correr para garantir a vitória, resolveu arremessar de novo - e errar de novo, tipo a segunda convocação do Dunga. A humanidade do Artest lhe faz dar arremessos desnecessários apenas para provar que ele consegue, que ele andou treinando, ou então puxar contra-ataques estabanados só porque ele está empolgado com a trombada que recebeu na quadra de defesa. Esse preço, no entanto, é pequeno perto do equilíbrio que Artest traz à equipe. O Lakers é definitivamente, com ele, um time melhor.

Com o Sheed, o preço de tê-lo em quadra costuma ser alto demais. Suas falhas defensivas constantes são exploradas pelo ataque do Lakers e frustram um Celtics que se orgulha justamente de se focar na defesa. Seus arremessos de três pontos deixam o garrafão vazio, justamente quando a batalha dos rebotes é tão essencial para seu time. Seus arremessos caem um pouco, volta e meia dá um belo toco, sua defesa é cheia de truques de velhos experientes, mas o Celtics nunca é um time melhor por lhe ter em quadra. E a enorme qualidade emocional que Sheed traz às suas equipes, quando joga, é desnecessária no Celtics, é exagero. Quando ele recebe uma falta técnica, não é um motivo para o time se animar e entrar no jogo, é apenas desesperador porque é a milésima falta técnica que o Celtics recebeu no jogo. O Perkins já tomou uma, o Pierce já tomou outra, o Glen Davis vai tomar uma próxima, e a suposta animação do Sheed é apenas mais um cara reclamando demais e castigando o time com faltas técnicas e pontos fáceis para o adversário. No Jogo 4, lá estava o Ray Allen revirando os olhos tendo que impedir o Sheed de ser expulso de quadra. A fama do Wallace, por vezes merecida, faz com que as reações sejam punidas mais rápido e lhe deixa até mesmo mais propenso a ter faltas marcadas contra ele, especialmente numa série em que os árbitros querem coibir qualquer contato. Sobra pro Ray Allen ser babá de uma máquina de fazer faltas técnicas.

Do problema do Celtics com as faltas técnicas, falaremos mais tarde. Por enquanto, o que tentamos mostrar é que somos grandes fãs do Rasheed Wallace e do Artest, mas que eles se encaixam de maneira completamente oposta em suas equipes. Se ainda acho o Celtics favorito nessa série justamente por causa do coração, do desespero de ter que ganhar mais um título, do sacrifício que o time inteiro é capaz de fazer em nome disso (a ponto de um banco ruim ganhar um jogo na raça), o Rasheed não é necessário para essa empolgação. E, do outro lado, se alguém pode levar o Lakers a superar os corações do Celtics, esse alguém é justamente Ron Artest. Quando ele está empolgado e seu time entra na mesma "vibe" (só de usar essa palavra, uma espinha nasceu na minha testa), o Lakers tem grandes chances de vencer a batalha psicológica. No primeiro jogo da série, vimos um Artest que distribuía socos no ar, se pegando com o Paul Pierce nos primeiros segundos de jogo (os dois tomaram falta técnica), dando trombadas no Glen Davis, enquanto o Garnett parecia assustado e nervoso errando bolas embaixo da cesta, passando a bola ao invés de dar arremessos fáceis e faltando braço na hora de colocar a bola para dentro.

A série entre Magic e Celtics nos ensinou uma coisa: quando o time adversário consegue jogar com raça, de forma física, brigada e elétrica, o Celtics passa a ser aquilo que é por trás da máscara: um time de velhinhos. É importante para o Lakers ter um Gasol agressivo no garrafão e um Bynum que esteja ao menos em quadra e não com um joelho boiando num pote de formal, sem dúvidas, mas a agressividade fisica geral do time está nas mãos do Artest. Do outro lado, o melhor que o Rasheed pode fazer parece ser não tomar mais faltas técnicas. Pessoalmente, torço para que ele se erga e dê ao Celtics aquilo de que o time precisa, reforçando ainda mais um banco de reservas que pode mudar a cara da série, mas por enquanto ele está encostado: é apenas mais do mesmo. No Lakers, Artest é justamente a diferença. A derrota no Jogo 4 está sendo creditada à auxência de Bynum, mas que tal lembrar da partida ruim que fez Artest na defesa, tanto defendendo Pierce quanto no ataque e em empolgação? Vimos como Glen Davis humilhou Lamar Odom, seu defensor na maior parte do jogo, o tempo inteiro. Mas o que teria acontecido se um Artest empolgado tivesse ido marcar o "Big Baby" no garrafão? Artest pode defender quatro posições em quadra e, apesar da diferença física, pode dar muito trabalho para qualquer um, até mesmo a almôndega ambulante que é o Glen Davis. Bynum deve jogar o Jogo 5 hoje à noite, mas eu coloco a responsabilidade em outras mãos: nas de Rasheed, para o banco do Celtics continuar fazendo estrago e Bynum ser bem defendido; e nas de Artest, porque o Lakers precisa de emoção em quadra. E, como insiste cada vez mais Kobe e Phil Jackson, o Lakers só vai ganhar essa série se for na defesa. Caso um gordinho continue acabando com eles no garrafão, as chances de anel de campeão desaparecem.