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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

8 ou 80: Eficiência e tipos de arremesso - Parte 2

Nowitzki deveria ser o único jogador do mundo a poder arremessar dessa posição


Essa é a segunda parte de um especial de estatísticas sobre diferentes tipos de arremesso e quem são os jogadores mais eficientes em cada um deles. Na parte 1 analisamos os arremessos próximos ao aro e os dividimos em enterradas, bandejas, tapinhas e ganchos. E agora na parte 2 vamos falar de arremessos de média distância e chutes de 3 pontos.

Como informado na primeira parte, todos os dados foram computados pelo pessoal do Golden State of Mind, blog gringo sobre o Golden State Warriors. Ele usou dados do HoopData e dos play-by-play das partidas da última temporada para elaborar a lista.

Comecemos com as bolas de 3 pontos. A conta usada pelo pessoal para elaborar a lista é confusa, mas com um bom propósito. Leva-se em conta quatro coisas: (1) o número de arremessos de 3 pontos tentados pelo jogador,  (2) o número de arremessos tentados por jogadores da mesma posição, (3) a comparação de aproveitamento do jogador em relação a outros da mesma posição, e (4) a média do jogador em comparação ao resto da liga em aproveitamento geral de arremessos, o eFG%.

Finalizando a parte chata de entender, o eFG% é o "Effective Field Goal Porcentage", um número que tenta nivelar o nível de aproveitamento de arremessos entre os jogadores que arremessam mais de 3 pontos e os que chutam mais de 2. Explico: Um jogador finaliza um jogo com 4/10 arremessos sendo dois deles de 3 pontos, outro jogador acaba com 5/10 só em dois pontos, ambos fizeram 10 pontos em 10 arremessos e assim acabam com um eFG% de 50%. O importante é tentar entender que é uma lista que se esforçou para igualar as situações diferentes e as posições distintas que cada jogador atua e ver quem, no fim das contas, consegue ser mais eficiente nos arremessos de longe.

A primeira lista é a dos titulares, logo em seguida a dos melhores reservas. E não esqueçam, "PSAMS" é o número que define a lista, é o resultado da conta comentada acima.



Interessante ver que o Mike Bibby contando apenas os seus números no Atlanta Hawks acabou em 1º lugar, mas sabia que se contasse os números no tempo de Heat (não teve jogos o bastante para entrar na lista) ele também seria o líder? Isso faz a gente duvidar um pouco da conta, porque vimos que o Bibby jogou mal, mas na frieza dos números ele teve o melhor aproveitamento de três pontos na carreira na última temporada! 44% no geral, 45% só no tempo de Heat. Pode ter jogado mal em todas as outras áreas, errado os arremessos mais importantes, mas no geral fez o que foi pedido: acertou bolas de longa distância melhor do que ninguém.

O resto da lista surpreende pouco, Ray Allen e Chauncey Billups estão entre os melhores arremessadores da NBA faz tempo, não importa que conta tentem fazer para medir. Outros jogadores são reflexos e ao mesmo tempo responsáveis por equipes que na última temporada fizeram a festa da linha dos 3 pontos, como Spurs (com Richard Jefferson, Matt Bonner e Gary Neal) e Warriors (com Reggie Williams, Vlad Radmanovic e Steph Curry). Surpresa mesmo foi o Charlie Villanueva estar aí! Vai ver que de 3 ele acerta, erra quando tenta arremessos longos de 2 pontos com marcação dupla e ainda 20 segundos de posse de bola, sua marca registrada.

Quer saber quem são os piores de 3 pontos entre os titulares? Aí vai a surpresa:


Não surpreende ver vários caras que acertam menos bolas de 3 pontos do que você acerta papelzinho no lixo do escritório, caras como Gerald Henderson, Eric Bledsoe, Sonny Weems e o Tony Allen nem deveriam tentar esses arremessos. Mas que tal o arremessador menos eficiente ser o Joe Johnson? Por essa eu não esperava mesmo sabendo que ele vinha da pior porcentagem de acerto da sua carreira (27%), o que pegou pra ele foi acertar bem menos que o normal e continuar tentando como nos bons tempos em que acertava quase 40%. Aliás, ele teve um ano no Phoenix Suns em que fez 47% de suas tentativas!

Assim como JJ, outros nomes na lista estão aí porque esbanjam de prestígio em seus times. Os técnicos dão toda a liberdade do mundo para que Kobe Bryant, Dwyane Wade, Baron Davis e Tyreke Evans arremessem quando dá na telha. Não deveria ser assim, é verdade, mas também temos que lembrar que esses são os jogadores responsáveis por carregar o time nas costas nos jogos e momentos mais difíceis, algumas dessas bolas de 3 são no desespero, quando mais ninguém no time consegue chutar.

Os dois que não se encaixam nessa desculpa esfarrapada das estrelas é Travis Outlaw e Trevor Ariza, eles são coadjuvantes. O negócio é que o Ariza defende bem, sabe infiltrar, rouba bolas, puxa contra-ataque, pode ser eficiente mesmo (ou principalmente) sem as bolas de longe. Agora o que o Outlaw vai fazer da vida se decidir arremessar menos? Malabares na rua? De todos da lista de menos eficientes é o que menos pode ajudar em outras áreas. Veremos agora aos piores entre os reservas:


Existem nessa lista alguns bons arremessadores que pecam pelo exagero. É só ver a quantidade de arremessos a cada 100 posses de bola de Rudy Fernandez, CJ Miles e Leandrinho. A cada 10 posses de bola disputadas pelo espanhol ele chuta uma de três pontos! Se o Ray Allen não faz isso deveria ser proibido para outro jogador chegar a esse número.

Um dado curioso na divisão por posições. Entre os pivôs apenas Andrea Bargnani e Spencer Hawes tentam mais de 1 arremesso de 3 pontos a cada 100 posses de bola. O italiano lidera a lista de aproveitamento e o americano é o último. Para ver mais detalhes por posição e as listas completas dos 3 pontos é só clicar nesse link.

Passemos agora para os arremessos de meia distância, um arremesso que não deveria existir no seu time a não ser que você tenha Dirk Nowitzki no elenco. Ok, posso estar forçando a barra, mas veja que números impressionantes: A média de eFG% (expliquei acima!) da NBA é de 49,8%, é portanto a média de arremessos certos em geral (todos, desde bandejas até chutes com uma mão no meio da quadra) da liga como um todo. Mas de todos os 150 jogadores analisados pela pesquisa (atletas com mais de 40 jogos na temporada e mais de 25 minutos por jogo), apenas Dirk tem média superior a esses 50% nos arremessos de meia distância! O arremesso de meia distância é, no fim das contas, o pior tipo de arremesso da NBA.

Esse número assustador criou um impasse na hora de fazer a conta que define o ranking. Os jogadores que arremessam menos que a média de sua posição deveriam, portanto, serem beneficiados por isso? Afinal estão privando o time de um arremesso ruim. A solução encontrada pelo pessoal do Golden State of Mind foi fazer duas contas. Uma penaliza jogadores que tentam arremesso de meia distância, já que tirou a chance de um companheiro de time dar um chute melhor, a outra ignora esse fato e apenas compara o número do atleta com a média geral de acerto de arremessos de meia distância, 39%.

As listas abaixo são resultados de uma média entre os dois resultados. A primeira é com os melhores arremessadores de meia distância da NBA:


O Dirk Nowitzki não é só muito bom, ele está anos-luz à frente do segundo colocado, Al Horford. O alemão começou na NBA como um arremessador de três pontos, mas foi no arremesso de meia distância que ele achou o seu nicho. É praticamente o único especialista de verdade nesse tipo de arremesso e vimos nos últimos playoffs como é difícil defender o cara. O Elton Brand aparece em 3º e acredito que se fizessem essa lista uns 10 anos atrás ele poderia muito bem estar em primeiro, no seu auge ele tinha um arremesso quase germânico dessa distância.

Não surpreende ver na lista alas de força especialistas no pick-and-pop: David West, Kevin Garnett, Luis Scola e Brandon Bass, por exemplo. É uma jogada muito eficiente e que os times desses jogadores costumam usar em momentos decisivos das partidas, o aproveitamento deles mostra a razão. Temos também alguns especialistas em três pontos entre os melhores, como Steve Nash, Steph Curry, Ray Allen e Sasha Vujacic. Cada um tem seu motivo, mas o mais interessante parece ser o Ray Allen, que por causa da sua idade parece querer correr menos e fazer jogadas parecidas com a que sempre faz, usando os bloqueios dos companheiros, mas agora em um espaço reduzido. Corre menos, se desgasta menos e continua com alto aproveitamento.

Abaixo os piores em arremessos de meia distância:


Eu nunca vou ficar surpreso em uma lista que tem o Andray Blatche como o pior, seja ela qual for. O cara conseguiu uns números de destaque no ano passado, mas não passa em nenhuma prova de um número "avançado". Faz pontos porque força demais a barra, mas não sabe usar sua habilidade direito: não tem inteligência, físico e muito menos arremesso de meia distância. Investir nesse cara é o pior negócio que o Wizards pode fazer. Melhor é continuar insistindo no John Wall que, infelizmente, também está entre os piores. Quando a fase é ruim...

Outro que aparece na lista é o DeMarcus Cousins, que no ano passado chamamos a atenção aqui no blog por estar arremessando demais de meia distância depois de se destacar no basquete universitário como jogador puro de garrafão, que conquistava os seus pontos na força, embaixo da cesta. Precisa não ter medo dos pivôs da NBA e buscar seus pontos lá dentro. Mesma coisa vale para jogadores bons de infiltração como Tyreke Evans e Trevor Ariza, eles não são pivôs mas conseguem seus pontos em infiltrações, têm arremessos muito pouco confiáveis de qualquer canto da quadra.

Talvez surpreenda na lista a presença do Russell Westbrook, que conquistou um bom arremesso de meia distância depois do seu tempo de seleção americana. Mas ele tenta tanto esse chute, em situações tão imbecis, que não surpreende que essa estatística o tenha punido. Ao contrário do resto da lista, Westbrook tem bom chute, só precisa forçar menos e arremessar em melhores situações.

Para mais detalhes das listas e o ranking por posições, acesse esse link. Que tal o LeBron James ter o melhor número entre os jogadores da posição 3? Se até em arremesso de meia distância ele consegue ficar na frente de Kevin Durant, Paul Pierce, Luol Deng, Carmelo Anthony e Rudy Gay, como o pessoal ainda vai ter coragem de dizer que ele nem é tão bom assim? Vamos torcer contra, mas admitindo que ele é fora de série. Há alguns anos esse era o defeito dele, hoje ele não só melhorou como está entre os principais da liga.

Na parte final da série, mais curta, analisaremos os melhores nos lances livres e comentaremos a lista que soma todos os tipos de arremessos para saber quem, no geral, foram os pontuadores mais eficientes e completos da NBA na última temporada.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O recorde de Ray Allen

Na noite de ontem, Ray Allen quebrou o recorde de bolas de 3 pontos totais convertidas na história da NBA. Foi um grande momento, então se você não conseguiu assistir ao vivo, o Bola Presa traz para você um infográfico exclusivo que imortalizará para sempre essa cesta histórica. Preocupados com a necessidade de registrar esse momento para as futuras gerações, escolhemos o único instrumento que nunca envelheceu nem envelhecerá: o Paint.



Clique na imagem para ampliar e apreciar em alta definição

Com o arremesso e as reações devidamente analisadas, podemos voltar nossa atenção para o fato de que o Celtics perdeu esse jogo para o Lakers, e que aproximadamente 12 milhões de pessoas que dedicam suas vidas a dizer que o Lakers está em crise se suicidaram nessa madrugada porque não tinham mais nada para fazer. Com essas mortes, chegam relatos de que a internet é agora um lugar mais tranquilo e que a pornografia pode ser baixada um pouquinho mais rápido. Em breve, voltamos com nossa programação normal.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Quando é a hora de mudar?

Por que separar um casal tão lindo? S2


Podemos até ser piegas e falar sobre a vida como um todo: afinal, quando é hora de mudar? Quando é hora de mudar de casa, emprego, namorada, faculdade ou corte de cabelo? Em todos os esportes, na NBA também, a pergunta sempre vem: quando é hora de mudar? Quando é hora de mandar tudo às favas e recomeçar, ou só trocar de técnico ou mudar metade do time? Para todas essas questões, porém, temo que resposta definitiva só temos depois de tentar. Somos uma sociedade que julga pelos resultados, principalmente quando se trata de esportes.

Faltam 17 dias para o último momento em que os times podem realizar trocas nessa temporada e o assunto das mudanças está bombando. Carmelo Anthony à parte, são inúmeros times pensando se devem ou não dar uma chacoalhada no elenco. O time mais comentado é o Lakers, não só porque o Lakers sempre é um dos times mais comentados não importa o que aconteça no mundo, mas porque o General Manager do time Mitch Kupchak disse com todas as letras que pensa em uma troca para mudar a equipe e ver se eles acordam a tempo de defender o título. Seguido dessa declaração veio a do Ron Artest dizendo, insatisfeito, que queria ser trocado, declaração essa que depois foi negada pelo jogador. Ou seja, disse-me-disse que a imprensa brasileira esportiva chamaria de "crise".

Não é tudo isso, claro, tem muito exagero, mas o que vale é a questão se o Lakers deveria mesmo mudar o time. Para responder isso eu prefiro lembrar de algumas histórias, semelhantes ou não, antes.

Começo com o Indiana Pacers. Eles começaram a temporada arrasando, vencendo Heat e Lakers fora de casa e com a marca de 11 vitórias e 10 derrotas em seus primeiros 21 jogos. O problema é que depois disso eles venceram apenas 7 jogos nos 28 seguintes, perdendo algumas partidas bem humilhantes e, pior, com um aproveitamento ofensivo (pontos a cada 100 posses de bola) pior que o do Cleveland Cavaliers. Sim, Cavs, aquele time que ganha menos que o Vasco e o Corinthians juntos. Escrevemos um post sobre o time nessa época, tentando explicar porque o Roy Hibbert, por exemplo, que começou a temporada como forte candidato a jogador que mais evoluiu, estava virando o vencedor do prêmio TPM de jogador mais inconstante da temporada.

A resposta que o time arranjou para essa queda de produção foi demitir o técnico Jim O'Brien, que também atende pelo nome de Don Nelson II. Suas 11 escalações diferentes nos primeiros 40 jogos sem nenhuma grande contusão para justificar começaram a irritar muito os jogadores, que não entendiam porque jogavam 40 minutos em um dia e 3 no outro. Os mais prejudicados eram Darren Collison, Paul George e Tyler Hasnbrough. O último chegou a se declarar finalmente livre depois da demissão do antigo chefe, e disse que "agora finalmente vai ser mais divertido". Não que ele seja titular agora, o assistente técnico e novo treinador Frank Vogel optou por deixar Josh McRoberts como o ala de força titular e Hansbrough como primeira opção do banco. Simplesmente saber com quem joga, quantos minutos e sua função muda tudo para os jogadores.

Mas mesmo com esses acessos de doideira, O'Brien foi o técnico que fez o Pacers um bom e veloz ataque mesmo com poucos bons jogadores nos últimos anos e uma das melhores defesas da liga nesse ano (8º lugar) mesmo sem o melhor elenco do mundo para essas funções. Para a diretoria então chegou a hora de pesar o que o técnico ofereceu nos últimos anos e como seu comportamento estava incomodando os jogadores, decidiram mandá-lo embora. Essa não foi difícil, O'Brien não é ruim como muita gente acredita mas não é indispensável. A mudança tem dado resultado, apesar de poucos jogos para medir tudo, é consenso geral na imprensa americana que os jogadores parecem felizes e motivados de novo, além do clima bem mais leve no vestiário segundo quem esteve lá. Era hora de mudar mesmo.

Uma história bem parecida aconteceu algum tempo antes ainda nessa temporada quando o Charlotte Bobcats mandou o Larry Brown embora. O cara é um gênio, um dos que melhor armou defesas na história da NBA e até hoje o único treinador a ter levado o Bobcats aos playoffs. Mas também é um mala sem alça que não dá a menor liberdade para os seus jogadores dentro de quadra, cobra sem parar, é ranzinza e usava esse tipo de roupa quando era técnico nos anos 70. Isso sempre provoca um ciclo em que os jogadores começam respeitando o Larry Brown, o amam quando o time começa a vencer, e depois o odeiam quando a rotina infernal se torna maior do que as vitórias. Foi assim em várias de suas equipes, até no vencedor Detroit Pistons de 5, 6 anos atrás. Sem contar o sentimento de que "a gente é bom e pode vencer sem ele" que cresce depois de um tempo.  Foi o que aconteceu no Bobcats e um dia depois de uma declarações pública bem agressiva do Stephen Jackson, o técnico foi demitido. Captain Jack disse que "Como um time estamos jogando muito mal. E no fim das contas é o trabalho do técnico nos preparar para o nosso trabalho que é entrar em quadra e jogar."

Esse caso não é tão óbvio como o do Pacers. Larry Brown faz bem mais diferença que o Jim O'Brien em um time, mas com todo mundo resmungando, o que era mais fácil, trocar Gerald Wallace e Stephen Jackson por pirralhos ou trazer um técnico mais gente fina e sorridente? Diz a lenda que eles até tentaram trocar o Wallace, mas sempre pediram coisas demais em troca e as negociações morriam rápido. Sem conseguir o que queriam para a troca, deram um pé na bunda do Brown e trouxeram Paul Silas, primeiro técnico do LeBron na NBA e que é conhecido por ter bom diálogo com os jogadores e ser bem liberal. O resultado foi um Bobcats mais motivado, com liberdade criativa no ataque e que pelo menos ainda não piorou tanto assim na defesa. Numericamente o time faz um pouco mais de pontos e toma um pouco mais, não é tanta diferença assim, mas ninguém mais reclama e o time voltou a vencer. Dá pra considerar a troca um sucesso, embora o time esteja condenado a não ir para lugar algum com esse elenco limitado.

Esses foram dois casos em que a mudança veio pelo elo mais fraco, o treinador, e que deu resultado mais porque os jogadores voltaram a jogar com vontade do que por questões técnicas e táticas. Vamos lembrar de outro time que mudou, mas que o fez radicalmente e via trocas. O Orlando Magic trocou peças importantes do time, incluindo titulares e os melhores reservas para refazer meio time. Em pouco tempo a defesa se manteve no (bom) mesmo nível e o ataque floresceu de maneira impressionante. Como citamos no último Filtro, todos os principais jogadores (tirando Arenas) tem aproveitamento de arremessos muito acima da média da NBA. O número de vitórias também cresceu e o risco gigantesco de trocar tanta gente no meio da temporada pode ser considerado um sucesso. Mas como nada é perfeito, com a contusão do Brandon Bass e sem Marcin Gortat no banco eles sentem falta de mais alguém forte no garrafão para ajudar Dwight Howard. E sem o carrapato do Mickael Pietrus para marcar o LeBron, King James meteu 51 pontos na fuça do Orlando. Sempre precisamos de tempo para ver todos os lados de mudanças tão drásticas.

Quem tentou mudar nessa temporada, portanto, vem tendo sucesso. Mas isso não quer dizer que o Lakers deve fazer o mesmo. O time não tem jogado tão mal quanto as pessoas tentam empurrar, o problema é quando tem jogado mal, o Lakers perdeu jogos importantes contra Celtics, Heat, Bulls e Spurs, por exemplo. Mas até contra o Heat e Celtics eles não jogaram mal durante toda a partida e na última contra o Spurs jogaram até muito bem, perdendo apenas por um pequeno vacilo ao deixar o Antonio McDyess dar um tapinha no rebote ofensivo no segundo final do jogo. O time não é perfeito, tem defeitos, mas teve também nos últimos três anos e venceu o Oeste mesmo assim. Além disso, se for trocar, vai trocar quem? Odom, Gasol e Bynum não estão jogando mal e Artest ninguém vai querer. Mandar o Phil Jackson embora acho que nem o torcedor mais louco cogita!

Com um elenco tão bom e que ganhou tantas coisas nos últimos anos eu acho muito precipitado tentar qualquer mudança abrupta no elenco, a não ser que alguém proponha uma troca do tipo Derek Fisher e uma foto autografada da Juju Panicat pelo Deron Williams e um abraço apertado. E depois da troca do Pau Gasol ninguém está muito a fim de dar coisas de graça para o Lakers. Se o time precisa jogar melhor contra os seus principais adversários, e precisa mesmo, os ajustes devem ser mínimos, táticos, não extraordinários. Para isso o Gasol precisa descansar mais, o Joe Smith precisa de mais minutos em quadra para os jogadores de garrafão terem um descanso, o Andrew Bynum precisa ser mais acionado no ataque e deixar de ser às vezes a quarta opção ofensiva e até algumas mudanças na rotação do time devam ser consideradas. Sabia que entre todos os quintetos usados pelo Lakers na temporada, os que envolvem o Luke Walton sempre tem bom aproveitamento ofensivo? Ele poderia ganhar mais tempo de quadra. O Matt Barnes também tem bons números, está fazendo falta e deve ser considerado já um bom reforço para os playoffs.

Eu vejo a maioria dos jogos do Lakers por ser torcedor e já vi muitos jogos horríveis deles nessa temporada, mas se tivesse que achar um meio termo entre todos esses jogos irregulares da equipe eu diria que se o banco de reservas jogar bem como jogou no primeiro mês da temporada o time está muito bem na fita. E quando o banco toma muitos pontos e o Lakers fica atrás no placar os titulares mudam o jeito de jogar e tudo vai por água abaixo. Quando o time está ganhando o Kobe está frio, calmo e joga o seu estilo de costurar a defesa, achar oponentes bem posicionados, envolver todo mundo e de repente o Lakers parece imparável. Mas se o Gasol está em um de seus dias de Cisne Negro (como diz o True Hoop) e nada cai pra ele, Kobe para de passar a bola, aí Artest erra meia dúzia de arremessos e o Kobe sente que ninguém está em um dia bom e ele que deve vencer sozinho. É a pior coisa para a equipe, não que ele não consiga marcar os seus pontos assim, ele marca e é lindo de assistir, mas não é coincidência que nessa temporada ele passou dos 35 pontos em 4 ocasiões e o time perdeu 3 desses jogos. E nos jogos em que tentou mais de 25 arremessos o Lakers perdeu 6 e venceu 4 (duas das vitórias sobre o poderoso Wolves).

Por favor não comecem com mais um ataque de loucura achando que a gente odeia o Kobe e quer menosprezá-lo. Busquem por tudo o que já falamos dele nesses três anos e vejam o quanto admiramos o seu talento e como sabemos que ele é espetacular e fora de série. Mas nesse caso, nessa temporada e nessas situações, ele não tem feito bem para o time. Simples assim. E vocês até podem interpretar isso de um jeito bonito, mostrando como ele é competitivo e tem vontade de vencer a qualquer custo (se é que isso é mesmo bonito).

E o problema do Kobe diz tudo sobre os problemas do Lakers. Não é porque existem defeitos a serem corrigidos que uma troca é a solução. O Kobe precisa mudar sua atitude em alguns jogos ou momentos de jogos, mas de jeito nenhum que vão trocar o homem. O mesmo serve para Pau Gasol, Lamar Odom e até o Ron Artest, quem viu o jogo ontem contra o Hornets percebeu como o Ron Ron ainda é um defensor fora de série. Para mim essa não é a hora de Mitch Kupchak tentar mostrar que é um grande General Manager e mudar tudo, mas é a hora do Phil Jackson se mexer e mostrar os talentos que já mostrou tantas vezes para motivar seus atletas e buscar alternativas táticas.

E só para não dizer que só demos exemplos de times que melhoraram mudando, como citei aqui Pacers, Magic e Bobcats, posso lembrar também do Boston Celtics, que decidiu não mudar. No ano passado o time parecia velho, cansado e penou para se classificar em quarto lugar no Leste, a mesma história do Lakers desse ano. Mas aí nos playoffs eles jogaram demais e só por uma inspiração divina do Ron Artest não ganharam o título. Eles poderiam ter trocado o contrato expirante do Ray Allen no meio da temporada passada ou até mesmo não ter renovado depois que ele esteve gelado como uma atuação da Vera Fisher nos últimos jogos das finais. Mas não, decidiram não só manter a base que tinha sucesso como também adicionaram, sem perder nada além de Tony Allen, e o time velho, com mais um ano nas costas e mais os quase 40 do Shaq, é ainda melhor do que antes.

Como eu disse no começo do texto, só dá pra saber o resultado da mudança quando se tenta ela. E é o tipo de coisa que temos a tendência de julgar pelo resultado porque o outro lado da história a gente só pode imaginar, mas mesmo assim considero esse caso do Lakers mais fácil que os outros. Pacers e Bobcats praticamente não tem nada a perder, o Magic era um time que precisava de mudança porque o time vencedor de 2009 já havia sofrido uma grande transformação (saída de Turkoglu por Vince Carter) e uma queda de produção nos playoffs do ano passado. O Lakers, ao contrário, vem de um título! O quanto seria precipitado (e inédito) um time bi-campeão ser desmontado ou remodelado só porque perdeu meia dúzia de jogos simbólicos na temporada regular? Sossega, Kupchak.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Não é mais um preview

A beleza da NBA está de volta


Como o Rodrigo Alves disse no seu texto no Rebote, a noite de abertura da NBA foi divertida desde o Twitter até as quadras. No Twitter, geralmente um lugar desagradável onde tem mais gente tentando pagar de inteligente e/ou engraçado para as outras, o clima foi divertido, com comentários inteligentes, piadas, apostas e um monte de gente aprendendo a mexer no League Pass. Faremos uma análise do LP ainda essa semana, mas já avisamos aqui que durante essa semana ele está disponível de graça. É só entrar no site deles, se cadastrar e escolher o jogo que quer ver.

Ah, e também sei que não acabamos os previews antes do primeiro jogo! Faltaram Nuggets, Thunder e Knicks. Tudo culpa do Danilo, claro, nunca minha. Mas ele já cuidou disso e os links para todos os previews estão agora em um só post, esse aqui.

Eu não lembro de outra noite de abertura tão aguardada como a de ontem. Geralmente a NBA (ou mais especificamente esse cara) escolhe jogos que o pessoal está afim de ver, mas nunca tinha conseguido montar logo de cara um jogo com tamanha expectativa. Nada como a estréia do trio LeBron-Wade-Bosh contra o atual campeão do Leste que tem o seu próprio trio de ferro e mais Shaquille O'Neal, Rajon Rondo e Jermaine O'Neal. É muita gente boa ao mesmo tempo e um público na seca por basquete. Perfeito!

A partida começou com 8 jogadores na quadra que já foram All-Stars, os cinco do Boston e o trio do Miami. Apenas Carlos Arroyo e Joel Anthony destoavam. Pelo menos o porto-riquenho pode dizer que era uma estrela no basquete FIBA. No banco ainda tinham outros ex-all-stars, Jerry Stackhouse (recém-contratado pelo Heat), Jamal Magloire e Jermaine O'Neal. Em 2010 esse é um jogão em outubro, 10 anos atrás seria um jogão em fevereiro, no All-Star Weekend.

O Boston Celtics começou tentando explorar o pivô não-galático do Miami, jogando bastante a bola no estreante Shaq, que nas primeiras bolas errou arremessos ridículos embaixo da cesta, mas logo deu umas enterradas alucinantes, se pendurou no aro, pingou suor como um porco e até acertou lances livres, que foram motivo de vibração incontrolável da torcida.

Embalados por Shaq, por passes perfeitos do Rajon Rondo (17 assistências e nenhuma faixa na cabeça) e bolas de três do Ray Allen, o Celtics abriu quase vinte pontos de diferença já no primeiro tempo. Com uma defesa bem forte eles forçaram o Heat a apenas 9 pontos no primeiro período e 30 no primeiro tempo como um todo, marca pior do que o menor número de pontos marcados no primeiro tempo pelo Heat do ano passado. Sim, aquele time com Michael Beasley, Daequan Cook e Dorrell Wright. 

Muitas coisas explicam esse primeiro jogo, em especial o primeiro tempo, horripilante do Heat. Primeiro a falta total de entrosamento, o trio que controla a bola por 90% do tempo jogou junto só por 3 minutos durante a pré-temporada. Wade, machucado, mal treinou. E não é um time que tinha uma base e treinou pouco nos últimos meses, é um time que começou do zero. Também não é um time tradicional, com jogadores que se completam naturalmente, eles tem características conflitantes (tanto Bosh quanto Wade e LeBron gostam de segurar a bola e não são bons arremessadores, por exemplo) o que não significa que vão fracassar, mas que precisam de treino mais do que um time normal. Se você juntar um trio como Chris Paul, Kevin Durant e Dwight Howard, por exemploa coisa fluiria mais naturalmente.

Outra razão pode ter sido o nervosismo, afinal todos esperam o melhor time da história e eles tem uma reputação a zelar, deve bater um medo de fracassar. Alguns passes que eles deram para o meio da arquibancada e outras infiltrações precipitadas não foram só falta de entrosamento, foram desespero mesmo. Também não ajudou o fato deles terem o primeiro jogo fora de casa contra uma das melhores defesas da NBA nos últimos três anos! Se cometerem todos os mesmos erros de novo contra o Sixers aí sim o buraco é mais embaixo. O Celtics soube perfeitamente explorar as fraquezas que o Heat ainda tem: a falta de um pontuador dentro do garrafão (até LeBron tentou se arriscar lá dentro pra compensar, sem sucesso), a falta de arremessadores de longe (e meia distância) e assim deixou o garrafão congestionado para evitar as infiltrações.

No fim das contas, segundo o site HoopData, o Heat tentou 22 infiltrações, conseguindo finalizar 12 com sucesso, um número respeitável. Mas em todos os outros pontos da quadra eles acertaram 15 arremessos em 52 tentativas! O Celtics estava deixando o Heat arremessar porque estava um desastre. Era como se o outro lado tivesse 5 Rondos.

As coisas começaram a mudar quando o Celtics primeiro relaxou, fugindo do que estava dando certo e mostrando que eles também estão em ritmo de começo de temporada, depois mudou por completo, com o Heat chegando a diminuir a diferença para 3 pontos quando o Heat começou a jogar como, quem diria, o Cavs. Ironias da vida. Com Wade e Bosh no banco e jogando ao lado de Zydrunas Ilgauskas, Eddie House e James Jones o LeBron James fez o que fazia em Cleveland. Pegava a bola, recebia um corta-luz na linha dos três e atacava a cesta, aí era ou cesta, ou falta ou um passe para alguém na linha dos três. Básico, simples, Cavs.

Foi o bastante para colocar o Heat de volta no jogo, mas logo a defesa apertou e ficou aquele joguinho de LeBron tentando vencer sozinho de um lado e o Ray Allen matando o jogo com bolas de três do outro. Por um lado foi péssimo para o técnico Erick Spoelstra ver que vai ter muito trabalho pela frente e que durante esse trabalho vão ouvir piadas, críticas, vaias e gritos de "overrated" como da torcida de Boston, ontem. Por outro lado foi bom ver que depois de um jogo em que o time jogou de maneira mais desorganizada que a 25 de março em semana de Natal, perdeu só por 8 pontos, esteve perto da virada e mostrou alguns bons momentos na defesa.

Como tudo o que vamos falar em todos os posts nas próximas semanas, esses comentários sempre vêm com um "apesar de ser só o começo da temporada" embutido. Não dá pra querer achar que vai ser ruim assim pra sempre, mas também não dá pra ignorar que foi um fiasco.




O segundo jogo da noite foi Blazers e Suns em Portland. O time da casa começou bem, com Brandon Roy e Andre Miller mostrando algum entrosamento e sabendo dividir a responsabilidade da armação, mas o time não embalou porque LaMarcus Aldridge foi incapaz de tirar vantagem da sua estatura contra o Hedo Turkoglu. O Suns, mesmo sem convencer, jogou bem. Só foi estranho ver o Nash arremessando mais do que passando e triste ver o Turkoglu ajudando tão pouco, mas deu certo e no terceiro período eles estavam voando.

Porém, no último quarto um dos maiores candidatos a jogador que mais evoluiu na temporada, Nicolas Batum, fez 11 dos últimos 18 pontos do Blazers, que venceu o período final por 20 pontos de vantagem e levou a vitória pra casa. O Batum já era bom antes, ótimo defensor, bom arremessador e sabe bater pra dentro. Nesse ano como titular absoluto ele tem tudo pra ter grande destaque. Olho nele e peguem o rapaz na sua liga de fantasy.

Antes do jogo de ontem o próprio Nash disse que se estivesse vendo tudo de longe não apostaria no Suns como um time para ir para os playoffs. Bem racional da parte dele, mas o time já superou outras limitações de elenco antes e nem tudo está perdido, só vai ser bem difícil. Um bom começo seria o Nash confiar mais no Robin Lopez que, coitado, tentou brincar de Amar'e Stoudemire ontem e não recebeu um passe do Nash depois dos bloqueios que fazia, só ficava com a mão esperando a bola e nada aparecia.

No último jogo da noite tivemos o já famoso Bola Presa Classic. Meu Lakers contra o Rockets do Danilo. Finalmente a NBA nos ouviu e colocou esse jogo numa data importante. Antes da partida, claro, a entrega dos anéis de campeão para o Lakers. Em uma cerimônia fresca e ensaiada: o anel era dado para um jogador que pegava o microfone e chamava o coleguinha de classe. Para provar que era tudo ensaiado até elogiaram o Sasha Sharapova ao chamá-lo ao centro da quadra. O anel que eles ganharam era todo rico e brega, como sempre. Tem 16 diamantes, para simbolizar os 16 títulos do Lakers, pedaços de couro arrancados da bola usada no jogo 7 da final e a cara de cada jogador nos anéis. Doideira! Olha as fotos aí embaixo. Certo o Ron Artest que vai leiloar o dele.





O jogo de verdade começou com Aaron Brooks e Kevin Martin me dando a certeza absoluta de que vão ser a dupla de armação com mais bolas de três feitas na história da NBA. Aposto um chocolate nisso. E chocolate só não é a melhor coisa do mundo porque existe sexo, então a aposta é séria! O Rockets jogou muito bem durante toda a noite e até merecia a vitória, que só não veio porque o Shannon Brown resolveu achar que é o Anthony Morrow e acertou 4 bolas de três, quase todas no último período . E depois, quando o Houston vencia por um ponto a 18 segundos do fim, o estreante Steve Blake meteu uma bola de três para ganhar o jogo. Quem é Jordan Farmar mesmo? Não lembro. É muito difícil bater o Lakers quando Pau Gasol está bem (98% dos jogos) e as bolas de longe estão caindo.

O Lakers jogou o seu basquete preguiçoso de temporada regular. Muito bem durante uns momentos, relaxado em outros e bem sério quando a água bate na bunda nos minutos finais. Deu certo, mas o time ainda parece fora de ritmo, especialmente Kobe, que está bem lento na defesa. O Rockets pareceu mais entrosado, mais interessado e parece que vai dar trabalho pra valer. O Yao Ming jogou e até que tá bem para alguém todo quebrado, que não joga há um ano e que se move como se estivesse embaixo d'água. Mas o que me deixou mais surpreso foi ver como o Luis Scola pareceu mais à vontade no ataque no fim do jogo, chamando a responsa ao invés de aceitar ser coadjuvante. Ele é bom o bastante pra isso e sempre foi, mas no ano passado era mais comum a gente ver o Aaron Brooks querer bancar o herói.

Foi um bom primeiro dia, mas só o primeiro. Hoje tem mais 13 partidas, com quase todos os outros times fazendo seu primeiro jogo e aí vem a primeira grande dúvida da temporada: O que assistir no League Pass? Tem Miami tentando a sua primeira vitória contra o Sixers, a estréia do lixo do Cavs ou um potencial  jogão entre Bulls e Thunder. E mais tarda a estréia do Warriors sem Don Nelson e o primeiro jogo oficial do Blake Griffin, isso sem contar a estréia do Amar'e como um Knick e um empolgante Nuggets-Jazz. Por enquanto só sei que não vou ver Hawks contra o Grizzlies. Como eu vivi todos esses meses sem NBA todo dia?

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Os velhinhos

Glen Davis e Jermaine O'Neal não resistem a um beijinho


Torcedor tem memória curta, todo mundo sabe disso. Fica claro até aqui no Bola Presa, em que mantemos uma sólida média de 6 posts por semana durante toda a temporada e na offseason, que deveria ser o mais perto que conseguimos de "férias", tem gente reclamando quando passamos alguns dias (em pleno fim de semana!) sem postar. No Celtics, a amnésia foi ainda maior. Depois de uma temporada aos trancos e barrancos, perdendo jogos fáceis e despencando pela tabela, ninguém mais acreditava que eles pudessem ser reais candidatos ao título do Leste, muito menos então de toda a NBA. O time foi criticado por ser velho demais, cansado, sofrer com lesões, não ter um técnico decente, não ter adicionado jogadores bons o bastante para o banco, ter se acomodado e comer meleca de nariz. Foi aos poucos vencendo um jogo nos playoffs, dois, três, ganhou o Leste e deu sufoco para o Lakers na grande Final. Aí ninguém lembrava que eles tinham fedido na temporada regular, era claro que eles eram favoritos, como alguém pode duvidar de um time com Garnett, Pierce e Allen?

O Celtics fez tudo direitinho para enganar a memória da torcida. Se tivessem chutado traseiros na temporada regular e acabado no topo do Leste, mas aí fedido nos playoffs e sido eliminados logo de cara, todo mundo só se lembraria que o elenco está velho demais e que nem adianta tentar de novo. Como foi exatamente ao contrário, o que ficou na memória de todo mundo foi um time que sabe crescer na hora certa e vai com certeza dar sufoco no Lakers e no Heat na temporada que vem. Com essa certeza na cabeça, fez todo o sentido do mundo dar novos contratos para Paul Pierce e Ray Allen. O óbvio era manter o time e tentar mais uma vez logo depois de ter chegado até a Final e perdido com honra.

Ou seja, o Ray Allen é um baita de um cagado! Suas atuações nos playoffs, salvas raríssimas exceções, foram as que mais mostraram como o elenco do Celtics ficou mais velho do que a "Praça é Nossa". Após dominar um jogo, era possível ver como o time inteiro era incapaz de correr ou jogar fisicamente no próximo, exausto, com a língua de fora. Dependeram de jogadores novos mas limitados para segurar as pontas enquanto o Ray Allen ficava boiando no formol. Não dá pra negar que o trio do Celtics é espetacular, mas o corpo humano tem dessas coisas estranhas: a idade chega de repente, de um dia para o outro. O Garnett treinou excessivamente em suas férias, Ray Allen teve seu corpo muito exigido pela falta de um bom arremessador reserva, e o resultado foi que os dois desmoronaram repentinamente depois de um temporada inteira em que pareciam querer uma coisa e o corpo respondia outra, com atraso. Mais ou menos como o Yao Ming e o Ilgauskas devem se sentir dentro daqueles corpos enormes que parecem estar se locomovendo debaixo d'água.

Vibrei muito com o Celtics durante os playoffs inteiros e a sensação na Final contra o Lakers era de tristeza para mim: parecia nitidamente ser a última chance de Pierce, Garnett e Ray Allen ganharem mais um anel de campeões. Como os três, com suas limitações tão brutalmente expostas por times que jogaram de forma física e veloz, poderiam aguentar mais 82 jogos em uma temporada regular para então jogar os playoffs mais uma vez com a pirralhada adversária correndo e distribuindo trombadas de novo? A alegria por ver Artest ganhando um campeonato foi logo eclipsada pela angústia de ver um time que morria ali, ainda em quadra, enterro em pleno ginásio. Se tivessem fôlego de chegar no banheiro já seria muito. O Glen Davis ainda tinha a vantagem de que, gordo, poderia ir rolando.

Muito se falou sobre o Celtics ser desmontado, começar uma reconstrução, trazer reforços de peso, se livrar do contrato do Ray Allen e suas atuações risíveis nos playoffs. Mas todo mundo se esqueceu do ar cansado e do cheiro de asilo da equipe porque misteriosamente eles seguiram vencendo time após time até a Final. O Ray Allen seria um desses jogadores vovôs que de uma temporada para a outra só recebe ofertas pequenas e em geral para ser reserva (tipo o Shaq), mas o sucesso do Celtics na pós-temporada, bem a hora em que importava, escondeu sua decadência. Ray Allen poderia ajudar qualquer equipe da NBA por um salário módico, mas no Celtics lhe ofereceram um contrato de 20 milhões de dólares por duas temporadas. Menos do que ele ganhava antes, mas muito mais do que ele merece ganhar hoje em dia. Deu sorte.

Paul Pierce também topou um contrato novo menor do que ganhava antes. Ao invés de algo em torno de 20 milhões por temporada, ganhará 15 milhões, mas como expliquei antes foi apenas para garantir um contrato longo baseado nas antigas regras salariais, ou seja, garantir o leitinho e os diamantes das crianças. É uma boa pagar menos por um jogador de elite como Pierce, mas por outro lado insisto que em muitas ocasiões seu estilo de jogo é prejudicial ao Celtics - e especialmente ao Rajon Rondo, que se torna cada vez mais a grande estrela da equipe.

O Ray Allen é um jogador inteligente pra burro e que coloca medo nas defesas adversárias mesmo quando está fedendo. Sabe se posicionar para forçar a defesa para fora do garrafão, infiltra com bastante habilidade e é um defensor acima da média. Kevin Garnett sabe organizar o posicionamento defensivo da equipe, motivar os novatos, ameaçar de morte quem fizer cagada, beber o sangue dos bebês recém-nascidos dos adversários, e não compromete negativamente seu time mesmo em seus piores momentos, simplesmente por saber fazer coisas demais em quadra. Paul Pierce pode ser meio fominha, esquece o cérebro na gaveta às vezes, mas ainda é um dos melhores pontuadores da NBA e certamente é o jogador mais forte fisicamente em sua posição, algo que sempre ajuda quando ele não está andando de cadeira de rodas. Então seria um absurdo dizer que o Celtics já era e que renovar seus contratos foi uma cagada. Digamos apenas que pode não ter sido uma atitude muito realista - e certamente foi uma atitude pouquíssimo corajosa. A culpa nem é dos coitados, que envelhecem como todo ser humano e se dedicam vinte vezes mais do que qualquer um para estar em plena forma física, mas a temporada da NBA é ridiculamente longa. De um jeito retardado. Quando carinha quizer reclamar que passamos uns dias sem postar, pensa no tamanho da maldita temporada regular da NBA que acompanhamos de perto todos os dias e de como todo mundo precisa de férias, vamos ler um livro, bater um gaminho, dar uma namorada! O trio do Celtics não tem como estar fisicamente preparado para esse grau de desgaste físico principalmente após uma temporada em que todo mundo aprendeu que basta dar umas cabeçadas para os vovôs desmancharem. Negar que esse time não tem como se manter ileso fisicamente é negar uma realidade gritante. Manter esse time pode ser sensato, mas é covarde assim que admitirmos que eles não tem pernas para serem campeões da NBA.

No garrafão, vai faltar ainda mais perna com a saída de Kendrick Perkins. Apesar de ser feito de tijolos, o pivô contundiu o joelho na série contra o Lakers e só deve voltar às quadras, se tudo der certo, lá pelo meio de fevereiro do ano que vem (se aprendemos algo sobre a memória dos fãs, ele só vai voltar quando ninguém mais lembrar dele). Rasheed Wallace também não estará na temporada que vem porque se aposentou acertadamente. Percebeu não apenas que a idade chegou e seu físico está lhe deixando na mão com dores terríveis nas costas (coisa de velho no bingo, ou do Tracy McGrady), mas também que ele não estava motivado, não tinha saco pra aturar uma temporada inteira com o Garnett queirando cortar seu pescoço. Jogava por seus amigos no Pistons, mas não fez amizades em Boston. Foi realista e percebeu que não dá pra enfrentar o tempo ou o tesão que temos ou não temos pelas coisas. Que descanse em paz.

Pro garrafão do Celtics não virar geleia, o grande reforço foi a contratação de Jermaine O'Neal. Quem chega agora nem imagina que o cara já foi uma das maiores promessas da NBA, chutando traseiros diariamente e ganhando um salário exorbitante porque parecia que podia render ainda muito mais.



Só que uma lesão no joelho nunca mais lhe permitiu jogar com a mesma intensidade, sua evolução foi interrompida e tornou-se um jogador completamente diferente. Ficou velho, lento, jogando cada vez mais longe do garrafão, e tudo isso é muito engraçado porque ele sempre - sempre! - teve cara de bebê de comercial da Pampers, parecia que nunca ia envelhecer. Sua passagem pelo Raptors e pelo Heat foram até que animadoras, porque ele provou que não é o Saci Pererê, tem duas pernas, consegue andar de um lado para o outro e tem capacidade de ser um excelente reserva em algumas equipes por aí. Não vai revolucionar o Celtics mas vai dar uma força enquanto todo mundo espera o Kendrick Perkins. Até que se machuque, claro, porque o Jermaine é como se fosse o Clippers de um homem só, sempre alguma coisa em seu corpo tem que dar errado.

Entendo que a solução mais fácil, após o retorno súbito da esperança dos torcedores do Celtics (que estavam quase se conformando com o fim do time ao término da última temporada), era manter o mesmo elenco. O buraco no garrafão tinha que ser tapado e o Jermaine O'Neal estava lá dando sopa e topou uma graninha singela, de 12 milhões por 2 temporadas. Entendo também que são jogadores motivados, inteligentes, capazes de causar suadouro e botar medinho em qualquer time da NBA. Mas parece que eles estão apenas colecionando vovôs numa tentativa desesperada de me fazer sentir velho! Eu vi o Garnett em seu auge no Wolves, sendo fácil um dos melhores alas de força de todos os tempos; eu vi o Jermaine O'Neal no Pacers dominando jogos e sendo o mais valioso ala de sua geração, eu vi Ray Allen no Sonics levando um time nas costas sendo o melhor arremessador de três da história. E agora, diabos, o Sonics nem existe mais, o Jermaine precisa de bengala, o Garnett parece que vai desmontar às vezes como se fosse feito de Lego.

Torço por todos eles, acho nobre e justo que tentem de novo por uma última vez, e acho hilário que tenham adicionado ao elenco justamente outro jogador na mesma condição, em fim de carreira com um corpo que desiste do basquete antes que o cérebro aceite a derrota. Quero demais que se despeçam em grande estilo, com um anel de campeão. Mas a verdade é que ganharam todos contratos grandes demais, o time perdeu a chance de adicionar novas peças, e a reconstrução que estará nas costas de Rajon Rondo foi adiada e por isso será mais difícil de ser efetuada. Esse time não vencerá o Lakers estando um ano mais velho, com um Perkins voltando de contusão e uma chance gigantesca de que algum jogador fundamental do elenco esteja na enfermaria. Ou dois, ou três. Já mencionei que eles contrataram o Jermaine O'Neal? É possível que uma meia dúzia de jogadores morra de gripe ou osteoporose.

Coloquem o Celtics na lista de favoritos, não percam de jeito nenhum seus confrontos com o Lakers e muito menos com o Heat, em que o trio de velhinhos tentará ensinar alguma coisa para o trio de pirralhos. Mas não exagerem na hora de levar esse time a sério. Quando estiverem perdendo tudo na temporada regular vale lembrar que isso não significa nada, são apenas jogadores cansados, com um dos piores técnicos da NBA, que acabaram de perder o grande estrategista responsável pelo seu fantástico esquema defensivo (Tom Thibodeau foi ser técnico do Bulls) e que estão se poupando. Quando estiveram ganhando tudo na pós-temporada, vale lembrar também que não aguentarão tantos jogos, que o corpo vai desistir cedo ou tarde, que eles já foram espetaculares e agora nos emocionam apenas com um esforço desmedido e monstruoso que tenta nos provar que nada é impossível - enquanto, infelizmente, não conseguem vencer a natureza. A velha geração passou grande parte do tempo apanhando sozinha, solitária, sem chances reais de ganhar um título, e só foram se juntar quando já era tarde demais e o físico não funciona mais. A nova geração aprendeu mais cedo. Talvez não funcione, talvez os velhinhos ainda possam nos surpreender. Mas cada vez mais, o Celtics é uma corrida contra o tempo. E, para mim, esse tempo já terminou.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O post do título


"I got Wheaties!"


O jogo 7 entre Lakers e Celtics parecia embaçado, difícil de ver, de tão pesado que era o clima dentro de quadra. Nervosismo e tensão não são coisas físicas, mas pareciam ter criado corpo durante o jogo de ontem. Nunca foi tão óbvio ver as emoções dos jogadores. Foi completamente diferente do último jogo 7 que a NBA tinha presenciado, a disputa entre San Antonio Spurs e Detroit Pistons em 2005. A atmosfera do jogo estava tão diferente que até a torcida do Lakers, geralmente blasé, com mais celebridades e ricos do que torcedores e que só pega no tranco, esteve ativa, barulhenta e vibrante desde o primeiro momento do primeiro quarto até o fim do jogo, quando explodiu com a conquista do 16º título da história da franquia.

Esse jogo embaçado, difícil de assistir, fez ele ser percebido de quatro maneiras diferentes:
1- Um jogo histórico e um dos mais tensos da história para os torcedores do Lakers
2- Um jogo histórico e traumático para os torcedores do Celtics
3- Um jogo roubado para os torcedores idiotas que não sabem perder do Celtics
4- Um jogo feio e com muitos erros para quem só estava lá pra ver um jogo de basquete

Eu, torcedor assumido do Lakers, me encaixo no primeiro grupo, mas entendo quase todos os outros. Derrotas assim são traumáticas e o jogo foi cheio de erros, não foi um espetáculo do basquete. Só não aceito dizer que foi roubado. Apesar de alguns erros (para os dois lados, diga-se de passagem), foi a melhor arbitragem desses 7 jogos da final.

A grande polêmica da arbitragem foi que o Lakers bateu 20 lances livres no último período, mas não é que o Lakers ganhava os arremessos toda vez que tentava infiltrar, mal se conseguia penetrar com duas defesas tão apertadas, mas é que o Celtics fez muitas faltas idiotas e já nos primeiros minutos do último período tinha ultrapassado o limite de faltas no período.

Assim até faltas tolas em rebotes viraram lances livres para o Lakers, simples assim. Posso listar várias faltas imbecis que custaram o jogo ao Celtics: o Kobe pegou um rebote de defesa e na queda o Rondo tentou roubar a bola dele, cometendo uma falta completamente imbecil. Em outro lance o Gasol tinha 1 segundo para fazer um arremesso difícil quando o Garnett pulou para o toco e caiu inteiro em cima do espanhol, falta clara que nem o próprio KG reclamou. Em outro momento a defesa inteira do Boston estava no lado esquerdo do Ray Allen, que marcava o Kobe individualmente, então ele dá o lado aberto para o Kobe, que infiltra e sofre uma falta clara do Paul Pierce para evitar a cesta. Após fazer uma boa marcação pressionada o Boston obriga o Gasol a sair driblando do campo de defesa, então Paul Pierce acha que é uma hora de cavar falta de ataque e se joga na frente do espanhol. Sem sucesso. Ele se moveu quando viu que o Gasol passava por ele e o Lakers ganhou mais dois lances livres.


Só nessa sucessão de lances que eu descrevi (e ainda tiveram outros tão idiotas quanto, muitos em rebotes) o Lakers ganhou 8 lances livres. Se o Celtics não tivesse ultrapassado o limite de faltas, teriam sido somente 2. Considerando os 32% de aproveitamento do Lakers nos arremessos, duvido que as jogadas que tiveram falta teriam acabado em cesta.

Já do outro lado o Lakers não deu pontos de graça para o Celtics, fez o time verde merecer cada cesta. Mas aí valeu uma das melhores performances defensivas da história recente do Lakers. Todos os jogadores marcaram muito bem e mesmo trocando a marcação a cada pick-and-roll, os grandalhões seguraram os armadores do Celtics. Nunca havia visto tanta dedicação defensiva do Lakers num jogo, em especial no último período. Também pesou o fato do Celtics ter tomado algumas decisões bastante questionáveis ofensivamente, nem sempre escolhendo o melhor arremesso. E às vezes custou para eles confiar muito nos arremessos e não tentar as infiltrações, partindo para dentro talvez desse para pelo menos arrancar uns lances livres.

Há alguns dias comentei das estatísticas de rebotes e afirmei que venceria os últimos dois jogos o time que vencesse a batalha dos rebotes, era o que essa série estava indicando. E foi assim, o Lakers ganhou com sobra os rebotes nos últimos dois jogos e levou o caneco. Mas no mesmo post eu tinha postado uma outra estatística interessante sobre a defesa do Celtics: Em 20 ocasiões durante a temporada e pós-temporada o Celtics havia segurado seu oponente a um aproveitamento abaixo dos 40% e em todos (TODOS!) os jogos os verdes ganharam. A exceção foi ontem, quando o Lakers venceu apesar de acertar apenas 32% de seus arremessos.


E o Lakers não compensou o aproveitamento baixo com muitas bolas de 3, acertou apenas ridículas 4 de 20 tentativas. Também não foi nenhum espetáculo na linha de lance livre, acertando só 67% das tentativas. Então como conseguiram o milagre de superar uma desvantagem que chegou a 13 pontos na metade do terceiro período? Além da defesa fora de série, foram 37 cobranças de arremessos livres. Mesmo com aproveitamento baixo, foram 25 pontos só nesse quesito. Em um jogo com placar tão baixo (83-79) faz toda a diferença. O Celtics cobrou apenas 17 lances livres (acertou 15) e teve 40% de aproveitamento dos arremessos.

Pode-se dizer, portanto, que no jogo mais nervoso da temporada o Lakers foi nervoso e precipitado no ataque durante boa parte do jogo, mas melhorando aos poucos e nunca nervoso demais na defesa. Já o Celtics foi nervoso e precipitado dos dois lados da quadra. Apenas no começo do terceiro quarto é que atacou com mais calma e paciência, explorando os bons jogos de Garnett e Rasheed Wallace no ataque. Nunca a batida frase "Ganhou quem errou menos" fez tanto sentido num jogo, e olha que eu queria morrer antes de usar essa frase aqui no Bola Presa.


Agora que falamos do jogo, que tal falar de atuações individuais? Há muito a se falar de muita gente nesse jogo 7. Vamos lá:

Kobe Bryant: Como torcedor do Lakers eu já enjoei de ver o Kobe jogar e sempre tenho mais medo do que confiança nele em jogos muito importantes. Não que ele seja ruim em momentos decisivos, longe disso, está mais perto de ser o melhor, mas é que sua cabeça pira antes desses jogos muito esperados. Ele é mortal quando começa os jogos caminhando, tranquilo e vai ficando com cara de assassino durante o decorrer da partida. Quando ele sabe da importância do jogo, tem o hábito de já começar o primeiro minuto de jogo hiper-ativo, assim se cansa mais rápido e, nervoso, toma más decisões durante a partida.

Claro que ele não é um dos melhores jogadores da história à toa, também deu pra enjoar de ver ele começar o jogo como um doido e depois conseguir colocar a cabeça no lugar e voltar a ser o jogador frio e matador que nos acostumamos a ver. Mas de qualquer jeito eu sempre fico com um pé atrás nesses jogos que ele quer vencer tanto, mas tanto, que acaba atrapalhando a si mesmo.

Ontem foi um caso desse e nas entrevistas pós-jogo ele mesmo admitiu que queria tanto vencer o jogo que isso acabou indo contra ele. Não foram poucas as vezes em que ele nem tentou executar uma jogada, apenas driblou em excesso até forçar um arremesso sem direção. Até o seu arremesso estava saindo mais reto e forte que o normal, ao contrário do mais arqueado e suave que ele costuma soltar.

Durante o jogo ele conseguiu colocar um pouco da cabeça no lugar, fez um segundo tempo um milhão de vezes melhor que o primeiro e mesmo fazendo uma das piores partidas de playoff que eu já vi ele fazer, foi decisivo. Quando ele viu que mesmo mais calmo os seus arremessos não estavam caindo, tratou de confiar mais em seus companheiros, passou um pouco mais a bola de lado e ficou buscando situações de infiltração para conseguir faltas. Além disso foi espetacular na defesa marcando Rondo, às vezes correndo atrás de Ray Allen e principalmente ganhando todos os rebotes. Foram 15 rebotes, 11 defensivos e 4 de ataque. Quando alguém ia imaginar 15 rebotes e um aproveitamento de só 6-24 arremessos do Kobe em um jogo assim? É como se o deus do basquete olhasse e pensasse "E se o Lakers tivesse o Ben Wallace ao invés do Kobe, será que eles ganhariam?". Ganharam

Tirando todas as tiradas já antológicas do Artest, o Kobe disse a melhor frase das entrevistas de ontem. Um repórter perguntou qual era o significado pessoal daquele título, ignorando a importância dele para o time. Kobe respondeu sem pensar por mais de um segundo: "Agora eu tenho um a mais que o Shaq". Clássico.

Ray Allen: O Ray Ray é Free Agent ao fim dessa temporada e existe uma grande discussão em Boston sobre se vale a pena ou não manter o veterano. E, se for manter, por qual salário? Ele não deve sair barato. Ao fim do primeiro tempo do jogo 2 da final, quando Ray já tinha 7 bolas de 3 convertidas no jogo, o comentarista e ex-técnico Jeff Van Gundy disse "Se eu fosse do Boston Celtics assinava um contrato novo com ele agora no vestiário". Será? No resto da série ele não conseguiu acertar mais a pontaria e ontem não foi exceção: acertou 3 de 14 arremessos. Se serve de prêmio de consolação, fez um bom trabalho defensivo em cima de Kobe Bryant em todos os jogos.

Pau Gasol: Não foi bem nos lances livres, teve aproveitamento baixo dos arremessos e não fez sua melhor partida na série. Mas quem ousa usar "Gasol" e "soft" na mesma frase de novo? Quando Kobe estava mal o ataque o Lakers confiou nele e ele respondeu sendo a principal arma ofensiva do Lakers no quarto período. E com 9 rebotes ofensivos (mais do que o Celtics inteiro) foi quem deu a maioria das segundas chances do Lakers pontuar. Kobe, ao receber o troféu de MVP das finais (merecido pelo conjunto da obra, não pelo jogo 7, claro) fez questão de agradecer ao espanhol por toda a ajuda.

Rasheed Wallace: Poderia ter sido o herói da noite de ontem. Entrou como titular no lugar de Kendrick Perkins e fez todo mundo voltar a se perguntar pela milésima vez: Rasheed, por que você tem fobia de garrafão quando é tão bom lá? Nunca saberemos. Pecou ao cometer muitas faltas bobas no último quarto, mas fez um bom jogo. Depois do jogo o Doc Rivers disse que acha que esse pode ter sido o último jogo da carreira do grande Sheed.

Lamar Odom: Não jogou bem durante quase toda a série, mas se redimiu com bons jogos 6 e 7. No jogo de ontem foi ele quem me deu esperança de que o Lakers poderia virar mesmo com o Kobe jogando mal. Ele ameaçou tocar para o Kobe numa jogada em que ele sempre passa para o Kobe, aí no meio do caminho desistiu, partiu para cima de Garnett e fez uma bandeja bem difícil. Foi a prova de que o Lakers estava afim de ganhar e não afim de esperar o Kobe ganhar pra eles.

Paul Pierce e Rajon Rondo: Mesmos comentários para os dois. Até que foram mais frios que o resto dos jogadores em quadra ontem, mas os dois também entraram na onda das faltas bobas no meio do quarto período quando era hora de tomar cuidado e não mandar o Lakers para a linha de lance livre. Os dois também tinham que ter liderado o ataque do time quando este estagnou em pontos. Foram bem, mas não o bastante.

E finalmente... Ron Artest: Contei essa história um tempo atrás e bastante gente lembrou dela ontem no Twitter. Em 2008, logo após o jogo 6 da final quando o Lakers perdeu para o Celtics, o Ron Artest, ainda jogador do Sacramento Kings, invadiu o vestiário do Lakers, foi até o Kobe e disse "Eu ainda vou te ajudar a ganhar um título". No ano seguinte ele acabou trocado para o Rockets, mas depois, finalmente, foi para o Lakers e cá está ele, campeão ao lado de Kobe e justamente contra o mesmo Celtics.

A atuação do Artest durante a série e durante todos os playoffs (para não dizer a temporada toda) foi bem irregular. Mas nos momentos decisivos ele estava sempre lá fazendo a coisa certa. Quando o Thunder complicou com o Lakers na primeira rodada ele estava lá para anular Kevin Durant, quando o Suns ameaçou na final do Oeste ele apareceu com a cesta decisiva no jogo 5 e trocentas bolas de 3 no jogo 6.

Na final foi a vez de marcar Paul Pierce como eu nunca tinha visto alguém defender. Foi bem durante toda a série, mas nesse jogo 7 foi especial, não desgrudou do ala do Celtics por um segundo e não deixou que ele desse um único arremesso fácil. Os pontos que ele fez foi por mais puro merecimento, porque o Artest estava lá com a mão na cara, roubando bolas, atrapalhando, sendo um pentelho. Posso dizer com certeza e sem nenhum exagero por torcer para o Lakers que foi uma das mais brilhantes atuações individuais na defesa que eu já vi na minha vida.

Só por isso ele já teria sido o melhor jogador em quadra. Mas calhou dele marcar 11 pontos só no segundo período, quando mais ninguém conseguia um pontinho sequer no Lakers. Depois ainda fez mais no terceiro quarto quando o Lakers começou a reação para cortar os 13 pontos de diferença e, para terminar, fez uma bola de 3 surreal (com direito a beijinhos para a torcida depois do acerto) como resposta a uma outra bola de 3 dificílima que o Rasheed Wallace tinha acabado de acerta no minuto final de jogo.

E como se não bastasse ser o melhor em quadra, foi o melhor fora dela também. Logo depois do jogo ele foi entrevistado pela repórter Doris Burke da ESPN e ao invés de responder às perguntas delas, abraçou-a e começou a agradecer pra todo mundo. A mulher, os filhos, a família, aos camaradas da quebrada e, a jóia da coroa, a sua psiquiatra! Que outro jogador da história da NBA seria capaz de agradecer à psiquiatra depois do título que não fosse o Ron Artest? Depois ainda anunciou que sua carreira de rapper continua, agora vai lançar uma música escrita há um ano chamada "Champion".


Mas era só o começo! Depois teve a entrevista coletiva, que começou com ele gritando e vibrando "Eu tenho Wheaties!", fazendo referência à caixa de cereais que estava sobre a bancada da entrevista. O Wheaties é um cereal matinal conhecido por ser "o café da manhã dos campeões" e por estampar sempre grandes atletas nas suas caixas.

Depois ele ameaçou ir embora porque as pessoas que estavam lá não pareciam animadas como ele. Aí chamou a família inteira para acompanhá-lo e apresentou todo mundo um por um, dedando, no caminho, os familiares que estavam felizes por ter acabado de conhecer o Kobe. Então ouviu a primeira pergunta, falou sem parar e disse "esqueci completamente qual era sua pergunta". E prosseguiu falando sobre qualquer coisa que viesse à sua cabeça.

Em um dos trechos mais legais da entrevista ele faz uma declaração de amor ao Jeff Foster! Sim, aquele pivô branquelo que pega muito rebote ofensivo no Pacers. Ele disse que aquele cara faz qualquer coisa pelo time. O Artest chegou no assunto quando disse que tinha sido muito egoísta e infantil no começo da sua carreira e tinha perdido uma grande oportunidade de ser campeão naquele time que tinha Jamaal Tinsley, Stephen Jackson, Jermaine O'Neal, Jeff Foster e o próprio Artest. Contou que se sente mal até hoje quando encontra os ex-companheiros porque acha que ele mesmo estragou a chance dos outros de ganhar um anel de campeão. Por isso não acreditava que teria outra chance e que não poderia desperdiçar a chance quando teve.

Assistam a uma das entrevistas mais fantásticas que você vai ver depois de um título. E, sem dúvida alguma, a mais maluca.


Qual foi a sua cena favorita? A minha foi no final quando ele comenta sua bola de três no final do jogo dizendo "O Kobe me passou a bola! Ele nunca me passa a bola. Uhu! Kobe me passou a bola". E completa com "Eu podia ouvir o Phil Jackson dizendo para eu não chutar. Ele é o Zen Master, ele fala no seu ouvido de longe, eu podia ouvir ele dizendo 'Ron, não chute, não chute'. Mas eu disse, tanto faz, arremessei e acertei".

Sasha Vujacic: Jogou 4 minutos e acertou dois lances livres decisivos. Você está na história, The Machine!

O resultado da promoção das Finais sai amanhã, sábado!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Os últimos pitacos


Perkins vai mostrar sua elegância de terno no jogo 7 da final


Faltam poucas horas para o decisivo jogo 7 entre Lakers e Celtics e decidi vir aqui só para postar duas coisas: Um dado estatístico fantástico que encontrei e para comentar como será para o Celtics disputar a partida decisiva do campeonato sem o seu pivô titular, já que Kendrick Perkins machucou o joelho no jogo 6 e não poderá entrar em quadra.

Começo pela estatística. Ela foi publicada pelo David Biederman no site do Wall Street Journal e fala das reclamações de falta na série final. Não, não fala das marcações de faltas ou do número de lances livres cobrados, mas de números que medem quanto cada jogador reclama a cada falta que comete. O que não dá pra medir é quanto essa estatística é genial. O pessoal do Wall Street Journal assistiu a todos os cinco primeiros jogos da série (o texto foi publicado antes do jogo 6) e analisou falta a falta a reação dos jogadores de cada equipe.

Ao fim da análise eles chegaram à conclusão de que o Boston Celtics gritou, reclamou ou saiu correndo em desespero com as mãos na cabeça (no caso do Rasheed Wallace) em 48% das faltas marcadas contra eles. Já o Lakers foi bem mais bonzinho e reclamou apenas de 36% das faltas marcadas contra o time. Essa "vitória" dos verdes não é surpresa, ou vocês esperavam algo diferente do time que tem os dois líderes em faltas técnicas na temporada, Perkins e Rasheed, e mais o Garnett, o jogador com maior média de palavrões por jogo na história da NBA? Mas o que surpreende é que eles também fizeram o cálculo individual para saber que jogador mais reclamou, e sabe quem ganhou? Ray Allen.

O cara é um dos jogadores mais calmos e educados da liga mas bateu todo mundo na hora de reclamar, marcar o Kobe Bryant durante 5 jogos tem dessas coisas. O Ray Ray reclamou de 73% das faltas marcadas nele. Não dá pra levar a sério quem reclama tanto. No Lakers os maiores reclamões foram Kobe e Gasol, empatados com 50% de chiadeira. Mas não tenho dúvida de que o Kobe seria o líder, com 100%, se os números fossem por reclamações para pedir faltas. Alguém já viu ele acertar um arremesso e não olhar para os juízes com uma cara de homicida para dizer que sofreu uma falta durante o arremesso? Esses jogadores ficam tão previsíveis depois de quase 100 jogos na temporada.

Entre os titulares o santinho foi Andrew Bynum, que reclamou de apenas 15% das faltas marcadas sobre ele. Não sei se porque ele é bonzinho, se tinha medo de faltas técnicas ou se era porque o Kobe já começava a resmungar antes mesmo do Bynum ter a chance de começar. Abaixo estão os números completos:

LA Lakers _36%
Kobe Bryant 50%
Pau Gasol 50%
Derek Fisher 38%
Lamar Odom 27%
Ron Artest 23%
Andrew Bynum 15%

Boston Celtics_48%
Ray Allen 73%
Kendrick Perkins 68%
Rasheed Wallace 65%
Rajon Rondo 50%
Paul Pierce 36%
Kevin Garnett 32%

...
O outro assunto que eu quero tratar é essa contusão bem séria do Kendrick Perkins. Pelo que os últimos exames indicam, a contusão dele é tão grave que ele teria sido declarado fora de toda a temporada mesmo se tivesse acontecido em dezembro do ano passado! Imagina a dois dias do próximo jogo como está o estado do joelho do coitado! Assim que ele caiu e fez careta deu pra saber que era sério, se tem um cara que não faz careta e não reclama de dor ou faz charme é o Perkins, ele é de pedra.

Essa contusão é triste não só pelo jogador, mas pela série também. Se o Celtics acabar perdendo esse jogo, não vai faltar torcedor do Celtics dizendo "Se a gente tivesse o Perkins..." assim como em 2008 não faltou torcedor do Lakers dizendo "Se o Bynum não estivesse machucado...".

E na discussão sobre quanto falta fará Perkins nesse jogo, a resposta passa justamente pelo contundido de 2008, o Bynum. Todo mundo sabe que o joelho do pivô do Lakers não está grande coisa, ele está jogando com dores desde a série contra o Thunder e no jogo 6 nem atuou no segundo tempo por causa das dores, a situação dele é bem complicada também.

Provavelmente o Doc Rivers vai colocar o Rasheed Wallace no time titular e o revezar com o Glen Davis durante todo o jogo, com os dois revezando com o Kevin Garnett para formar a dupla de garrafão do Celtics. Shelden Williams só deve entrar em quadra se alguém tiver problemas de falta, mas mesmo assim será por poucos minutos. E o maior problema do Celtics é que nem Garnett, nem Rasheed e nem Glen Davis tem tamanho para marcar o Andrew Bynum. O pivô do Lakers mostrou isso em todos os jogos da série em que não se incomodou com o seu joelho. O único que conseguia pará-lo com consistência e o que o impedia de ser uma força nos rebotes ofensivos era o Perkins.

Portanto, se o Bynum superar as dores e jogar uma excelente partida, eu duvido que o Celtics consiga vencer a disputa no garrafão, a batalha dos rebotes e, logo, o jogo. Mas ainda há esperanças para o Boston, a julgar pelos últimos jogos e pelas dores do Bynum, a chance disso acontecer é bem pequena. O que é mais provável é que o Lamar Odom passe muito mais tempo em quadra fazendo dupla com o Pau Gasol, e aí pode estar o trunfo do Doc Rivers.

Durante essa série o Garnett começou bem mal mas depois melhorou bastante, só que mesmo com essa melhora eu ainda acho que o melhor jogador a marcar o Gasol durante toda a série foi o Rasheed Wallace. Ele foi perfeito tanto nos tocos como na hora de forçar o espanhol a não conseguir segurar o passe ao receber de costas para cesta. E esse matchup ainda deixaria o Garnett marcando o Odom, o KG é um dos poucos jogadores na NBA que consegue ser páreo para o Odom na combinação tamanho-velocidade-rebotes. Lembram de uma jogada no jogo 5 quando o Odom foi para o drible pra cima do KG, que quase ajoelhou no chão, bateu palmas e o marcou como se fosse o armador mais veloz do mundo? E ainda foi no mesmo jogo em que o Glen Davis, a outra opção do banco, dominou o Odom tanto no ataque quanto na defesa e nos rebotes.

Então defensivamente o Celtics pode não sentir tanta falta assim do Perk se o Lakers passar muito tempo usando o Odom, se o Bynum jogar bem é outra história. Mas e no ataque? O Perkins fazia muita diferença com bloqueios precisos e muitos rebotes ofensivos, o Rasheed nunca vai pegar um rebote de ataque porque se posiciona muito longe da cesta. Não ter esses rebotes pode ser desastroso para o Celtics, principalmente em momentos decisivos do jogo, mas nada que algumas bolas de 3 não compensem. Rasheed Wallace precisa estar com a mira precisa para não ser só um pedaço de carne ambulante no ataque. Se ele acertar serão pontos importantes e alguém do garrafão do Lakers sempre abrindo espaço para infiltrações para ficar de olho no Rasheed no perímetro.

Mesma coisa com o Glen Davis, já vimos nessa série como ele é capaz de mudar a cara de um jogo e logo depois zerar em pontos, vai depender de qual Big Baby vamos ver em quadra pra saber se o Celtics sente falta ou não do Perkins.

Para resumir, o Boston ainda tem muitas chances de vencer hoje. Muitas. Apesar da derrota destruidora no jogo anterior, o time não deve se abalar, afinal sofreu outras derrotas tão ou mais humilhantes nas séries contra Cavs e Magic e nas duas vezes ganhou a série. Mas é claro que a saída do Perkins deixa algumas perguntas em aberto, dúvidas que nenhum time gostaria de ter antes do jogo que vai decidir a temporada.

Em mais de um momento desses playoffs as transmissões da TV mostraram o Doc Rivers tentanto incentivar o seu time dizendo o seguinte: "Nós nunca perdemos uma série de playoff com esse quinteto inicial", querendo lembrar que venceram tudo em 2008 e quando perderam em 2009 não tinham Garnett. Não que o Doc Rivers quisesse que fosse desse jeito, mas o quinteto vai continuar invicto.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Para quem vier

Miguxos

Deu Lakers num jogo mamata que foi dominado desde o primeiro segundo. Dica: ganhou o time que pegou mais rebotes (algo me diz que o Denis já desconfiava que isso fosse acontecer). Depois de tanta gente ter certeza absoluta de que o Celtics ia ganhar fácil a série, depois gente com certeza de que o Lakers ia ganhar fácil a série, depois com certeza de que o Celtics ia levar no Jogo 6, vou me dar o maravilhoso direito de ignorar qualquer mané que alegue certeza de que Lakers ou Celtics vão vencer essa Final. Certeza mesmo, a gente só tinha que Kendrick Perkins e Rasheed Wallace seriam eventualmente suspensos por estourar o limite de faltas técnicas. Era inevitável, bastava tomar uma e o Perkins, líder em faltas técnicas da NBA, estaria fora, e eram 6 jogos para isso acontecer. Doc Rivers disse que não tinha como escapar, que em algum momento da série iria acontecer e ele teria que lidar com isso. Não aconteceu.

Também me dou o direito, depois de ver tantos fãs dos dois times afirmando indignados que foram roubados pela arbitragem - às vezes no mesmo jogo um fã de cada lado era capaz de se dizer assaltado - de mandar todo mundo ir catar coquinho. Defesa, má pontaria e rebotes, rebotes, principalmente os rebotes, influenciaram muito mais do que qualquer carinha sendo ruim com um apito na boca. Agora é aquele momento em que você simplesmente senta, assiste e admira - aconteça o que acontecer. De preferência, nem torça. Seria como torcer diante do Grand Canyon, de um quadro de Picasso ou da Alinne Moraes. Depois de uma temporada imensa (que, como sempre repetimos, é longa demais, precisava ser menor), uma dura pós-temporada e uma série final com 6 jogos, o que sobra é o espetáculo. A gente resmungou da falta de qualidade de algumas séries, da disparidade técnica de alguns times (Hawks, cof, cof), mas agora fomos presenteados com o melhor jogo que poderia acontecer na temporada. Mesmo se for um lixo, tá valendo: pelo menos ele aconteceu.

Kevin Garnett, Ray Allen e Paul Pierce merecem esse título. Será, provavelmente, a última chance de cada um dos três conseguir mais um anel (o Rondo vai ter a vida inteira para colecioná-los). Ser campeão duas vezes, com um intervalo de apenas uma temporada entre elas - onde haverá para sempre um asterisco dizendo "Garnett se contundiu" - colocará os três devidamente na história, e dará especialmente ao Garnett a munição necessária para enfrentar as próximas 4 décadas de comparações com o Tim Duncan. Talvez, com sua carreira consagrada por dois campeonatos em Boston, a história resolva se lembrar melhor de seus tempos espetaculares no Wolves, bater as palmas merecidas e salvar uns vídeos de YouTube para os nossos filhos. Ele aguentou tanta merda, caladinho, sem jamais pedir para ser trocado, que apenas um título parece prêmio de consolação, não o sucesso que merece. Mesma coisa com Paul Pierce, que será lembrado pelos torcedores do Celtics principalmente pelos times horríveis que ele conseguiu classificar para os playoffs quando estava no seu auge, tão desperdiçado com um elenco que não decidia se reconstruia ou se continuava. Outro anel em Ray Allen, por sua vez, lhe permitiria figurar também fora dos livros de recordes, onde temo que ele fique esquecido para sempre na pagininha das bolas de trêss.

Kobe, Gasol e Artest merecem esse título. Terão outras chances de ganhar um anel, é verdade, mas a imagem dos três sofrerá muito com a derrota. Gasol foi o líder de um Grizzlies que classificava para os playoffs mas que nunca ganhou um jogo sequer na pós-temporada, dando-lhe a fama de "soft", fracote, amarelão. Já perdeu um campeonato para o Celtics e seu jogo físico, e uma derrota agora pode causar uma terrível amnésia na população da Terra, de modo que esquecerão como o Gasol não tem mais medo do contato e é o melhor jogador de garrafão da atualidade. Artest fez de tudo nessa temporada para deixar para trás a fama de presepeiro, e todos nós sabemos que sua fama (e os times sem resultado em que jogou) nunca permitram que fosse aplaudido como o incrível jogador que é, perdendo espaço para defensores piores só que mais bem comportados. Kobe, por sua vez, precisa desse anel para diminuir o ódio de tantos torcedores indignados com as comparações entre ele e os melhores de todos os tempos. Ninguém entende que ele pode ser, que talvez seja, e que deveríamos estar aproveitando essa oportunidade. Já vejo na minha frente a quantidade de textos e comentários sobre o Kobe feder por não conseguir decidir um Jogo 7 como "você sabe quem" faria.

Às vezes acontece de um time estar enfrentando outro menos qualificado, ou que não precisa tanto do título, que é meio cagado, só tem uma estrela, venceu por contusão do adversário. Não é o caso aqui. Por isso, se o seu time vencer essa série, resista à tentação pós-esporro de diminuir o adversário, chamar o Garnett de amarelão, o Gasol de "soft", o Kobe de "falta-arroz-e-feijão". Todas essas estrelas, mais do que merecerem o título, precisam dele. Vai ser triste o bastante ver que alguém não vai levá-lo pra casa.

Pra quem acompanhou toda a temporada aqui no Bola Presa, com tantos posts enormes, piadinhas infames, análises, números e uma dedicação desgraçada, esse Jogo 7 vai ser um prêmio para todos nós: os leitores, que acompanharam com afinco esperando apenas esse momento; e a gente, que escreveu como uns condenados esperando aquele delicioso momento final do último post da temporada.

Para comemorar e esperar a final, que começa amanhã às 22h, não se esqueça de participar da promoção Bola Presa/adidas. São 7 prêmios diferentes: 3 camisetas do Lakers, 3 camisetas do Celtics e 1 camiseta especial das Finais. Veremos quantos ganhadores teremos dependendo de quantos participantes teremos na promoção. Lembrem-se que para participar você deve mandar uma foto relacionada com NBA ou as finais, então pegue sua câmera, seu celular, sua tia gorda que comprou aquela puta câmera digital só pra se exibir, ou então pegue uma foto pronta na internet e edite no Paint, não importa, apenas participe. Vocês tem até o final do Jogo 7 para participar! Em breve, teremos os vencedores. E também, o que é mais importante, finalmente um campeão dessa temporada da NBA. Já estou triste pelos perdedores, mas eufórico pela chance de ver esse espetáculo. Obrigado, deus do basquete que nos assustou com uns joguinhos bem fajutos: temos um Jogo 7. É como diria o menininho-ex-fã-de-Restart: "Sério!".

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Um gordo e um anão

Rasheed Wallace não acredita: o Glen Davis ganhou um jogo


O Lakers tem um fetiche bizarro: perder para equipes reservas. Contra o Suns, o Lakers conseguia se virar bem contra a equipe titular e apanhava mesmo era do banco, com Dragic e Leandrinho. Contra o Celtics, parece que o fetiche é ainda pior. No Jogo 4, Kobe segurou muito bem as pontas contra a equipe titular do Boston, mas quando os reservas mais-ou-menos entraram em quadra, o jogo mudou. O tempo foi passando e nada dos titulares voltarem, a vantagem do Celtics foi aumentando, e quando os titulares voltaram para a quadra (que, aparentemente, é contra quem o Lakers mais tem chances de vitória), já não dava mais tempo de virar o jogo.

No geral, a partida do Celtics foi bem o que esperávamos, com o time tomando várias medidas que eu havia sugerido aqui no Bola Presa: forçando ao máximo o ritmo de jogo, colocando mais a bola nas mãos do Rondo, pegando o garrafão do Lakers desprevenido na correria, e deixando o Paul Pierce menos com a bola. Curiosamente, isso não significou necessariamente usar menos o Pierce no ataque, como eu imaginava ser necessário. O ala do Celtics rendeu muito bem recebendo a bola em movimento, sendo acionado para receber pick-and-rolls na cabeça do garrafão, e carregou o ataque do time por um bom tempo sem no entanto ficar segurando a bola ou criando jogadas individuais. Quando ele começou a forçar mais o jogo, o resto do elenco entrou num entrosamento deles lá e o Pierce ficou de fora, tipo o gordinho nerd que senta na primeira carteira da classe. O primeiro arremesso do ala no segundo tempo veio com o quarto período bastante rodado, depois de um quarto inteiro sendo ignorado em seus insistentes pedidos pela bola.

Às vezes é triste não contar com um baita pontuador como é o caso do Paul Pierce, mas o Celtics conseguiu outra coisa muito mais valiosa no lugar: jogadas ofensivas. Ray Allen estava em mais um dia ruim (conforme ele vai ficando velhinho, os dias bons são a exceção, não a regra), Garnett recebeu mais atenção na defesa, Rondo foi bem marcado no garrafão e forçado a arremessar muito (coisa que ele dificilmente acerta, como sabemos), e o negócio estava feio. Justamente por isso, o Celtics foi obrigado a envolver todo mundo, aceitar contribuições de todos os lados e tomar mais conta da posse de bola, com carinho. Apesar das limitações técnicas, os reservas entraram num ritmo, como se fossem um time de verdade com um técnico de verdade (coisa que eles não são e nem tem), e aí o Paul Pierce ficou de lado, foi sentar, e coube aos titulares ficar na linha lateral torcendo com a toalhinha na cabeça.

Quer dizer, menos ao Ray Allen, que recebeu o cargo de babá do grupo e ficou em quadra. Por quase todo o quarto período, o Celtics manteve jogando uma série de jogadores mequetrefes e não muito inteligentes: Nate Robinson na armação, Tony Allen na ala, Glen Davis e Rasheed Wallace no garrafão. O coitado do Ray Allen é quem teve que acalmar os ânimos, impedir mais faltas técnicas, dar instruções de defesa e, como toda babá cuidando de crianças, enxugar baba. Pra quem não viu, abaixo tem o vídeo do Glen "Big Baby" Davis se babando inteiro:


O bebezão (que é tão criança, mas tão criança, que até pediu pra mudar de apelido, coisa que só pirralho faz e que é a mesma coisa do que pedir para o apelido pegar para sempre) não é um grande atleta, é lento, baixo, gordo, chato, mas compensa de muitas maneiras essa sua derrota na loteria genética, como dá pra ver no vídeo acima. Seu trabalho de pernas é incrível, seus pés se movimentam bem e com isso ele consegue sempre estar na frente do adversário, marcando com eficiência. Sua vontade é digna de um gordo atrás de pudim, se jogando em todas as bolas, trombando com todo mundo e sempre prestes a dar uma dentada em quem aparecer. E como ele é baixo demais para a posição e nunca vai conseguir alcançar o aro, seus pontos vem num excelente arremesso de meia distância e em uma série de movimentos refinadíssimos, super classudos, debaixo da cesta. É incrível como ele consegue passar alguns segundos no ar (a incríveis 5 centímetros de distância do chão) e mudar a bola de mãos, passá-la por debaixo do aro, finalizar com elegância. Tudo enquanto tromba, se arremessa, chora e belisca um sanduíche.

Quando entrou na NBA, fiquei fã do Glen Davis. É sempre legal ver um jogador gordo que consegue se sair tão bem, com movimentos tão refinados no garrafão. Mas agora odeio esse balofo porque ele se acha a última bolacha no pacote (e, portanto, está louco para se comer). Entendendo suas limitações e se aproveitando dos pontos fortes, ele poderia ser um excelente jogador, uma versão habilidosa e pontuadora do Chuck Hayes. Mas não, ele fica nessas de achar que seu jogo é espetacular, que ele é um gênio, que sua raça em quadra é épica e vai mudar a rotação da Terra. Talvez até mude mesmo, se ele continuar comendo.

Por mais birra que eu tenha com o "Big Baby", no entanto, sou obrigado a admitir que seu jogo foi exatamente do que o Celtics precisava. O joelho do Bynum, que está quase chegando no "nível Greg Oden de qualidade", está do tamanho de uma bola de tênis e tem que ser drenado constantemente. Quando ele está em quadra, o Lakers tem mais chances de vencer a luta pelos rebotes (que, até agora, sempre foi vencida pelo time que no fim sai com a vitória), pontuar no garrafão e vencer o jogo na defesa, como querem Kobe e Phil Jackson. Sem ele em quadra, por causa do joelho zoado, o Glen Davis resolveu jantar o garrafão do Lakers e conseguiu. No peso, no tranco e na vontade. Pau Gasol é outro homem, agora ele apanha e está feliz, ataca a cesta, defende de forma agressiva e deu canceira para o Garnett, mas sofreu demais ficando sozinho no garrafão como pivô. Quem passou a maior parte do tempo marcando o Glen Davis foi o Lamar Odom, que perto do "Big Baby" não passa de um palito de dentes. Vencendo a luta no garrafão, colocando a bola lá dentro e armando jogadas para serem finalizadas debaixo do aro, o Celtics parou de dar arremessos idiotas numa partida em que nenhuma das duas equipes conseguia pontuar com consistência - a não ser o Kobe, que roubou o talento do Ray Allen e deu pra meter uma bola de três atrás da outra.

Mas o banco do Celtics não é feito apenas pelo Glen Davis, embora ele pese mais do que o resto do banco inteiro. Tony Allen, por exemplo, marcou muito bem Kobe e dessa vez não passou nenhum segundo como armador na partida, o que é a melhor coisa que pode acontecer para o bom andamento do Universo. Nate Robinson, por sua vez, foi o responsável por armar o jogo na auxência de Rondo, que acabou ficando mais tempo no banco do que o normal. A intenção foi de correr com a bola desde o princípio, então o Rondo cansou logo e o Nate entra em quadra para fazer a mesma coisa, no velho pernas-para-que-te-quero.

O problema é que todos nós sabemos que o Nate Robinson não tem muito cérebro. Lembro de uma jogada na primeira vez em que ele entrou em quadra para o Celtics em que pegou a bola, ficou driblando de um lado para o outro, passou por trás da cesta, olhou para o aro e arremessou uma bola de três pontos terrível no estouro do cronômetro. Não deu nem aro e o Garnett prometeu usar seu sangue para temperar a salada do dia seguinte. No Jogo 4, o Nate manteve o plano de jogo de correr como um louco para repor a bola, mas por inúmeras vezes chegou na quadra de ataque e, com seu cérebro de ostra, não soube o que fazer com a bola. Aí parava a corrida, segurava a laranjinha e passava pro lado. De que adianta correr então?!

Mas, justiça seja feita, o Celtics fez muito bem para o Nate "The Great". Ver o Garnett no banco segura um pouco suas rédeas, a pressão de estar num time que precisa ganhar desesperadamente não lhe permite aquela vida impune do Knicks, em que ele podia fazer qualquer merda em quadra e achar engraçado. No Celtics ele precisa temer os mais velhos, que enchem muito o saco, precisa ganhar minutos porque o Doc Rivers nunca fez questão de lhe colocar em quadra (mesmo sem ninguém para ser reserva do Rondo), e está sendo assistido por todo mundo num time vencedor que quer vencer ainda mais. A "Família Celtics" (não confundir com a "Família Restart", que não desiste nunca) colocou responsabilidade na cabeça do Nate Robinson. Então ele é burro, não sabe o que fazer com a bola depois de correr tanto, mas joga com menos afobação, sabe passar a bola para dentro do garrafão, obedecer as ordens táticas e ataca a cesta quando necessário, além de ser um bom arremessador (se não deixarem ele arremessar sempre!).

O Rasheed Wallace, último homem do banco a compor o time que venceu a partida, não fez muita coisa, mas defendeu razoavelmente bem. Gritou, xingou, tomou falta técnica, ficou tão inconformado com uma marcação que até rendeu a cara mais engraçada do ano (a foto que ilustra o post foi tirada por mim mesmo no meio da transmissão, print screen legítimo, enquanto eu morria de rir da reação do Sheed). Com Garnett no banco, o Sheed acabou sendo o coração da equipe na defesa, embora eu ache o Rasheed desnecessário nesse time porque todo mundo já é muito emotivo. O Ray Allen teve que ajudar o Nate Robinson a dar os passes certos nas horas de branco, teve que cobrar do Glen Davis as falhas defensivas, e teve que impedir o Rasheed de ser expulso de quadra por causa das reações exageradas. Mas o conjunto inteiro deu muito certo, uma bola de 3 pontos do Sheed nos minutos finais praticamente decidiu o jogo, e acabou ficando como a cereja do bolo de um banco de reservas que acabou com o Lakers.

Em entrevista coletiva, Glen Davis e Nate Robinson disseram que passaram todo o quarto período esperando o momento de sair, como eles estão acostumados a ver acontecendo. Os minutos foram passando, eles não saíam e começaram a estranhar, olhando toda hora para o relógio. O Garnett ia entrar em quadra o tempo todo, mas aí o Glen Davis fazia alguma grande jogada e o Doc Rivers segurava o Garnett mais um tempo na lateral. Mérito do gordo que rendeu nos minutos que teve em quadra, mas grande mérito do Doc Rivers de ter deixado em quadra o time que deu certo (sem a frescura de ter que manter os melhores jogando mesmo quando não funciona) e mérito também do Garnett, que ao invés de exigir entrar em quadra, ficou lá do lado vibrando pelo gordinho que estava chutando traseiros. A entrevista coletiva de Nate e Glen Davis, inclusive, merece ser vista inteira porque é muito engraçada: tem o Big Baby com ar de que é o melhor jogador do planeta e merece ganhar uvas na boquinha, tem ele pedindo desculpas por cuspir e perguntando se caiu na repórter, e tem o Nate Robinson comparando eles dois com o Shrek e o Burro - simplesmente a melhor comparação da história, "Separados no Nascimento" instantâneo!

Já tinha postado aqui que, para mim, o Celtics é favorito na série porque todo jogador, não importa quão ruim seja, entende que precisa vencer em nome de Garnett, Allen e Pierce, que estão lá cobrando. O time tem a responsabilidade, a vontade, a energia, a emoção necessárias para vencer mesmo quando tudo parece que está dando errado. Às vezes é em excesso, como no caso das milhões de faltas técnicas (devo postar sobre isso dia desses), das reações do Rasheed, das frustrações de Glen Davis e Garnett que às vezes não conseguem entrar no jogo, ou do Paul Pierce que na animação enfiou uma muqueta na cara do juíz:


Se essa emoção não for em excesso, e se eles não se focarem apenas em transformar isso num jogo exclusivamente físico justamente quando o Lakers está se saindo tão bem na defesa e nas pancadas (especialmente com Bynum em quadra), dá pra transformar um banco ruim em um banco que ganha jogos. E séries. E um anel.