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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Insistência premiada

Afflalo melhorou até na arte de sair em fotos estranhas


Pessoal, como disse essa semana, a coisa anda corrida no fim do semestre e os posts vão ser mais escassos nessa semana, mas aos poucos vão saindo. Até o fim de semana tem Filtro e uma promoção de Natal da adidas. E agradecemos a todos que comentaram sobre as camisetas, vamos pensar em alguns modelos e postar aqui no blog para vocês escolherem as que a gente vai colocar pra vender. Quer dizer, se a gente conseguir botar pra vender, é melhor não prometer nada antes de saber os preços. Vai que o Cavs é campeão antes da gente vender camisetas. Nunca brinque com a maldição de Dan Gilbert!

O post de hoje é uma continuação desse aqui. Antes tinha falado dos jogadores que tinham melhorado em relação à temporada passada depois de mudar de time (aliás, perdão por ter esquecido do metamorfoseado Marco Belinelli!), agora vou falar dos que melhoraram ficando no mesmo lugar, venceram pela insistência (a palavra bonita usada para designar a teimosia).

Talvez a história mais impressionante e interessante sobre os que ficaram no mesmo lugar já tenha sido contada aqui, é a do Richard Jefferson. Ele recebeu um ultimato do técnico Gregg Popovich, ou treinava como um desgraçado e melhorava o seu jogo ou já poderia começar a pensar em mudar de time. Resolveu treinar, hoje tem um arremesso de três maravilhoso e está ajudando o Spurs a ser o melhor time desse primeiro quarto de temporada. Para ler a história inteira sobre a mudança do Richard Jefferson, clique aqui.

Mas é interessante notar algo que não falei naquele post, que é como o Spurs está jogando diferente dos últimos anos. Dos últimos muitos anos. Explico, o Spurs é o terceiro melhor ataque da temporada até agora e a oitava melhor defesa. É a primeira vez desde que Tim Duncan chegou ao time, em 1997, que o Spurs é melhor ranqueado no ataque do que na defesa. Pra quem acompanha a NBA há pouco tempo pode parecer normal, mas quem viu o Spurs desses últimos quase 15 anos acha isso uma aberração. O Spurs atacando mais do que defendendo é insano como ver o Barcelona retranqueiro, no mínimo. E tem o ritmo de jogo, eles são hoje o 10º time mais veloz da NBA, nas outras temporadas da "Era Duncan" (adoro chamar períodos esportivos de "Era", me sinto falando de algo importante. Meu Corinthians só perdeu o Brasileirão por causa da "Era Adílson Batista") o Spurs ficou duas vezes com o 19º ataque mais veloz e depois disso sempre depois da casa dos 20, algumas vezes beirando as últimas posições.

A mudança de um jogo lento e defensivo para um mais focado na velocidade e no ataque devem ser levados em consideração também na hora de explicar porque o Richard Jefferson melhorou tanto em comparação à temporada anterior.

Outro que tem melhorado também é o Elton Brand. Nos números a mudança é discreta: Passou de 13 para 15 pontos de média, melhorou em dois rebotes e em 3% no aproveitamento dos arremessos. Mas na prática ele tem jogado muito melhor, o novo Sixers do técnico Doug Collins está deixando a bola menos tempo na mão do Andre Iguodala (o que não ajuda meu sofrido time de fantasy) e tentando envolver mais o Elton Brand. Depois de dois anos patéticos (e muito bem pagos) o ala está finalmente parecendo mais confortável em quadra, tem feito ótimas partidas em que participa do jogo e até tem jogadas desenhadas pra ele. É finalmente a opção que o time buscava no jogo de meia quadra, já que passaram os últimos anos vivendo só dos contra-ataques.

O problema é só que isso não é o bastante. Embora a defesa do Sixers seja aceitável, o ataque ainda é um dos piores da NBA. Sim, o Jrue Holiday melhorou, o Elton Brand melhorou e mesmo assim eles são bem ruins, é esse o tamanho do buraco em que está o Sixers. O problema parece ser mesmo as peças que não se encaixam e a solução acaba sendo fazer coisas idiotas como deixar o Thaddeus Young no banco para colocar o Jason Kapono só pela necessidade de ter pelo menos um arremessador em quadra, é perda absurda de talento para cobrir alguns buracos. E pior, Brand está jogando bem, mas não o bastante para que algum outro time se sinta tentado a pegar o seu contrato que ainda tem esse e mais dois anos de duração e quase 18 milhões por temporada. Elton Brand parecia destinado a não funcionar no Sixers, mas melhorou, uma pena que ainda não justifica um décimo do que recebe.

Merece atenção pela evolução também o Nate Robinson. Critiquei a troca do Eddie House por ele no ano passado porque não via o que o Nate poderia acrescentar que o House não fazia. Os dois são jogadores que sempre entram e, no linguajar americano esportivo, em referência ao beisebol, vão para o home run. Eles não tentam rebatidas simples e seguras para fazer o time andar, querem o mais difícil e valioso. Quando dá certo são os heróis do jogo, quando dá errado, é patético. A diferença está no estilo, Eddie House faz isso com bolas de três, Nate Robinson faz engolindo a bola só pra ele.

No entanto, ele mudou nessa temporada. Não é o Jason Kidd que parece dar um sorriso de Mona Lisa toda vez que descobre um jeito de finalizar uma jogada sem precisar arremessar, mas o Nate está passando a bola, entendendo o ataque do Celtics e servindo mesmo como um bom reserva para o Rajon Rondo. Parece ser o típico caso do jogador que chegou no meio da temporada e não entendia nada, mas que agora, depois de um training camp e tempo de estudo, conseguiu sacar o que estava fazendo em quadra. E nunca pensei que ia dizer que o Nate Robinson sabe o que faz em quadra, ele é o cara que arremessou contra a própria cesta só por diversão!



Mas acho que o meu favorito nessa brincadeira de pokémon de quem mais evoluiu é o Arron Afflalo. Ele precisa agradecer ao papai do céu (ou ao Joe Dumars) todos os dias por ter sido mandado do Pistons para o Nuggets em troca de fraldas usadas e um vale CD (também conhecido como uma escolha de 2º round de 2011).

No Pistons ele estaria brigando por posição com o Richard Hamilton e o Ben Gordon em um time que está completamente perdido e historicamente investe em jogadores velhos ao invés de apostar na pirralhada. E ao invés disso está em um time que precisava de um jogador com a suas características para o time titular e está no playoff todo ano. Quando ele chegou em Denver só pediram que ele defendesse bem o ala-armador adversário e, eventualmente, acertasse uns arremessos de três quando ficasse livre. No ano passado, seu primeiro ano no Nuggets, ele subiu de 16 para 27 minutos por jogo e dobrou sua média de pontos de 4 para 8. Foi um ótimo defensor e teve um aproveitamento de 43% nas bolas de 3 pontos, número de especialista.

Se ele só continuasse assim já seria muito bom e ele teria meu voto no inexistente prêmio Gilberto Silva de Role Player do ano. Mas não, ele melhorou ainda mais. Aos poucos o Chauncey Billups está piorando com a idade, o Carmelo Anthony, dependendo do seu humor, pode ser só mais um cara na quadra ou a melhor máquina ofensiva da NBA, e entre esses altos e baixos o Afflalo viu uma chance para chamar o jogo e ser mais que um simples arremessador. Ainda acerta suas bolas de longe, são 42% de aproveitamento nesse começo de temporada, mas aumentou o número de arremessos próximos à cesta (de 0,3 para 1,2 por jogo) e no aro (de 1,8 para 2,2), melhorando significativamente o aproveitamento nessas posições. Com isso sua média de pontos subiu de novo, de 8.8 para 12.8 por jogo. Ele também melhorou nos rebotes e dobrou sua média de tocos, de 0,4 para 0,8 por jogo. Parece pouco, mas para alguém de 1,96m e segundo armador, beirar a média de 1 toco por jogo é algo especial. Entre os jogadores da sua posição ele só fica atrás de Dwyane Wade (1,05) e Chicão Garcia (0,9).

Ou seja, o Afflalo invadiu partes do jogo que não eram lugar dele até o ano passado e tem surpreendido todo mundo por estar fazendo isso de maneira tão confiante e eficiente. Outro dia vi ele fazer várias infiltrações e puxando contra-ataques como quem sempre tivesse feito isso. É tão bizarro como ficar vendo o Kevin Love meter uma bola de três atrás da outra. Uma coisa é saber fazer, outra é fazer bocejando. Se o Melo sair mesmo do Denver em um futuro próximo eu espero que o Afflalo ganhe ainda mais espaço e melhore ainda mais seu jogo e estatísticas.

Alguns outros jogadores melhoraram sem mudar de time, mas ao contrário dos citados aqui, eles não estão exatamente na mesma situação de antes. Mesmo ficando na mesma franquia, estão em outras realidades. No Toronto Raptors, por exemplo, a evolução nítida de Sonny Weems, Reggie Evans e Andrea Bargnani se dá em muito porque agora eles tem mais tempo de quadra e mais responsabilidades nas mãos. Mesma coisa com Andray Blatche e JaValle McGee no Wizards, desde o fim da temporada passada eles receberam as duas vagas no garrafão do time e é natural que estejam melhorando. São novos, tem talento e pouco a pouco vão melhorando, embora ainda não o bastante para fazer o Wizards botar medo em alguém.

Mas dentre todos os que melhoram e os que foram citados nesse texto, só um tem uma chance clara e real de mostrar seu basquete melhorado no All-Star Game, o destruidor de brasileiros Luis Scola. E o engraçado é que eu acho que ele não mudou em nada o seu jogo dele em relação aos últimos anos, é o mesmo Scola de sempre. As mesmas qualidades e defeitos estão lá, mas agora o time finalmente se tocou do quão bom esse safado é. E ele também ganhou mais confiança e tem atacado mais o adversário. O resultado são os mesmos minutos de antes, o mesmo aproveitamento, mas os arremessos tentados aumentaram, os lances livres dobraram e sua média de pontos subiu de 16 para 21 por partida! O talento para ser um All-Star na NBA não é novidade pra quem já viu o Scola jogar na Europa e pela seleção argentina, mas só agora virou realidade nos EUA e ainda com um fator importante na América, apoio estatístico: 21 pontos e 9 rebotes por jogo é número de respeito. Entre os alas de força só Dirk Nowitzki e Amar'e Stoudemire pontuam melhor que Scola. Falta só o time ganhar um pouquinho mais dos seus jogos.

O assunto é bem grande e daria pra achar mais jogadores que estão melhorando, mas teremos mais chance para isso ao longo da temporada. Falaremos da evolução do Shannon Brown quando comentarmos do Lakers e da melhora do Joakim Noah (já posso dizer que ele é um dos melhores passadores entre os pivôs sem assustar ninguém?) quando falarmos do novo Bulls com Carlos Boozer.

O próximo post é para comentar o oposto, quem piorou. Mas preciso de mais tempo para meditar e entender porque Tyreke Evans, Darren Collison, Jason Thompson e Robin Lopez me fizeram ir no Google descobrir se a palavra "involuir" existe nos dicionários.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Não é mais um preview

A beleza da NBA está de volta


Como o Rodrigo Alves disse no seu texto no Rebote, a noite de abertura da NBA foi divertida desde o Twitter até as quadras. No Twitter, geralmente um lugar desagradável onde tem mais gente tentando pagar de inteligente e/ou engraçado para as outras, o clima foi divertido, com comentários inteligentes, piadas, apostas e um monte de gente aprendendo a mexer no League Pass. Faremos uma análise do LP ainda essa semana, mas já avisamos aqui que durante essa semana ele está disponível de graça. É só entrar no site deles, se cadastrar e escolher o jogo que quer ver.

Ah, e também sei que não acabamos os previews antes do primeiro jogo! Faltaram Nuggets, Thunder e Knicks. Tudo culpa do Danilo, claro, nunca minha. Mas ele já cuidou disso e os links para todos os previews estão agora em um só post, esse aqui.

Eu não lembro de outra noite de abertura tão aguardada como a de ontem. Geralmente a NBA (ou mais especificamente esse cara) escolhe jogos que o pessoal está afim de ver, mas nunca tinha conseguido montar logo de cara um jogo com tamanha expectativa. Nada como a estréia do trio LeBron-Wade-Bosh contra o atual campeão do Leste que tem o seu próprio trio de ferro e mais Shaquille O'Neal, Rajon Rondo e Jermaine O'Neal. É muita gente boa ao mesmo tempo e um público na seca por basquete. Perfeito!

A partida começou com 8 jogadores na quadra que já foram All-Stars, os cinco do Boston e o trio do Miami. Apenas Carlos Arroyo e Joel Anthony destoavam. Pelo menos o porto-riquenho pode dizer que era uma estrela no basquete FIBA. No banco ainda tinham outros ex-all-stars, Jerry Stackhouse (recém-contratado pelo Heat), Jamal Magloire e Jermaine O'Neal. Em 2010 esse é um jogão em outubro, 10 anos atrás seria um jogão em fevereiro, no All-Star Weekend.

O Boston Celtics começou tentando explorar o pivô não-galático do Miami, jogando bastante a bola no estreante Shaq, que nas primeiras bolas errou arremessos ridículos embaixo da cesta, mas logo deu umas enterradas alucinantes, se pendurou no aro, pingou suor como um porco e até acertou lances livres, que foram motivo de vibração incontrolável da torcida.

Embalados por Shaq, por passes perfeitos do Rajon Rondo (17 assistências e nenhuma faixa na cabeça) e bolas de três do Ray Allen, o Celtics abriu quase vinte pontos de diferença já no primeiro tempo. Com uma defesa bem forte eles forçaram o Heat a apenas 9 pontos no primeiro período e 30 no primeiro tempo como um todo, marca pior do que o menor número de pontos marcados no primeiro tempo pelo Heat do ano passado. Sim, aquele time com Michael Beasley, Daequan Cook e Dorrell Wright. 

Muitas coisas explicam esse primeiro jogo, em especial o primeiro tempo, horripilante do Heat. Primeiro a falta total de entrosamento, o trio que controla a bola por 90% do tempo jogou junto só por 3 minutos durante a pré-temporada. Wade, machucado, mal treinou. E não é um time que tinha uma base e treinou pouco nos últimos meses, é um time que começou do zero. Também não é um time tradicional, com jogadores que se completam naturalmente, eles tem características conflitantes (tanto Bosh quanto Wade e LeBron gostam de segurar a bola e não são bons arremessadores, por exemplo) o que não significa que vão fracassar, mas que precisam de treino mais do que um time normal. Se você juntar um trio como Chris Paul, Kevin Durant e Dwight Howard, por exemploa coisa fluiria mais naturalmente.

Outra razão pode ter sido o nervosismo, afinal todos esperam o melhor time da história e eles tem uma reputação a zelar, deve bater um medo de fracassar. Alguns passes que eles deram para o meio da arquibancada e outras infiltrações precipitadas não foram só falta de entrosamento, foram desespero mesmo. Também não ajudou o fato deles terem o primeiro jogo fora de casa contra uma das melhores defesas da NBA nos últimos três anos! Se cometerem todos os mesmos erros de novo contra o Sixers aí sim o buraco é mais embaixo. O Celtics soube perfeitamente explorar as fraquezas que o Heat ainda tem: a falta de um pontuador dentro do garrafão (até LeBron tentou se arriscar lá dentro pra compensar, sem sucesso), a falta de arremessadores de longe (e meia distância) e assim deixou o garrafão congestionado para evitar as infiltrações.

No fim das contas, segundo o site HoopData, o Heat tentou 22 infiltrações, conseguindo finalizar 12 com sucesso, um número respeitável. Mas em todos os outros pontos da quadra eles acertaram 15 arremessos em 52 tentativas! O Celtics estava deixando o Heat arremessar porque estava um desastre. Era como se o outro lado tivesse 5 Rondos.

As coisas começaram a mudar quando o Celtics primeiro relaxou, fugindo do que estava dando certo e mostrando que eles também estão em ritmo de começo de temporada, depois mudou por completo, com o Heat chegando a diminuir a diferença para 3 pontos quando o Heat começou a jogar como, quem diria, o Cavs. Ironias da vida. Com Wade e Bosh no banco e jogando ao lado de Zydrunas Ilgauskas, Eddie House e James Jones o LeBron James fez o que fazia em Cleveland. Pegava a bola, recebia um corta-luz na linha dos três e atacava a cesta, aí era ou cesta, ou falta ou um passe para alguém na linha dos três. Básico, simples, Cavs.

Foi o bastante para colocar o Heat de volta no jogo, mas logo a defesa apertou e ficou aquele joguinho de LeBron tentando vencer sozinho de um lado e o Ray Allen matando o jogo com bolas de três do outro. Por um lado foi péssimo para o técnico Erick Spoelstra ver que vai ter muito trabalho pela frente e que durante esse trabalho vão ouvir piadas, críticas, vaias e gritos de "overrated" como da torcida de Boston, ontem. Por outro lado foi bom ver que depois de um jogo em que o time jogou de maneira mais desorganizada que a 25 de março em semana de Natal, perdeu só por 8 pontos, esteve perto da virada e mostrou alguns bons momentos na defesa.

Como tudo o que vamos falar em todos os posts nas próximas semanas, esses comentários sempre vêm com um "apesar de ser só o começo da temporada" embutido. Não dá pra querer achar que vai ser ruim assim pra sempre, mas também não dá pra ignorar que foi um fiasco.




O segundo jogo da noite foi Blazers e Suns em Portland. O time da casa começou bem, com Brandon Roy e Andre Miller mostrando algum entrosamento e sabendo dividir a responsabilidade da armação, mas o time não embalou porque LaMarcus Aldridge foi incapaz de tirar vantagem da sua estatura contra o Hedo Turkoglu. O Suns, mesmo sem convencer, jogou bem. Só foi estranho ver o Nash arremessando mais do que passando e triste ver o Turkoglu ajudando tão pouco, mas deu certo e no terceiro período eles estavam voando.

Porém, no último quarto um dos maiores candidatos a jogador que mais evoluiu na temporada, Nicolas Batum, fez 11 dos últimos 18 pontos do Blazers, que venceu o período final por 20 pontos de vantagem e levou a vitória pra casa. O Batum já era bom antes, ótimo defensor, bom arremessador e sabe bater pra dentro. Nesse ano como titular absoluto ele tem tudo pra ter grande destaque. Olho nele e peguem o rapaz na sua liga de fantasy.

Antes do jogo de ontem o próprio Nash disse que se estivesse vendo tudo de longe não apostaria no Suns como um time para ir para os playoffs. Bem racional da parte dele, mas o time já superou outras limitações de elenco antes e nem tudo está perdido, só vai ser bem difícil. Um bom começo seria o Nash confiar mais no Robin Lopez que, coitado, tentou brincar de Amar'e Stoudemire ontem e não recebeu um passe do Nash depois dos bloqueios que fazia, só ficava com a mão esperando a bola e nada aparecia.

No último jogo da noite tivemos o já famoso Bola Presa Classic. Meu Lakers contra o Rockets do Danilo. Finalmente a NBA nos ouviu e colocou esse jogo numa data importante. Antes da partida, claro, a entrega dos anéis de campeão para o Lakers. Em uma cerimônia fresca e ensaiada: o anel era dado para um jogador que pegava o microfone e chamava o coleguinha de classe. Para provar que era tudo ensaiado até elogiaram o Sasha Sharapova ao chamá-lo ao centro da quadra. O anel que eles ganharam era todo rico e brega, como sempre. Tem 16 diamantes, para simbolizar os 16 títulos do Lakers, pedaços de couro arrancados da bola usada no jogo 7 da final e a cara de cada jogador nos anéis. Doideira! Olha as fotos aí embaixo. Certo o Ron Artest que vai leiloar o dele.





O jogo de verdade começou com Aaron Brooks e Kevin Martin me dando a certeza absoluta de que vão ser a dupla de armação com mais bolas de três feitas na história da NBA. Aposto um chocolate nisso. E chocolate só não é a melhor coisa do mundo porque existe sexo, então a aposta é séria! O Rockets jogou muito bem durante toda a noite e até merecia a vitória, que só não veio porque o Shannon Brown resolveu achar que é o Anthony Morrow e acertou 4 bolas de três, quase todas no último período . E depois, quando o Houston vencia por um ponto a 18 segundos do fim, o estreante Steve Blake meteu uma bola de três para ganhar o jogo. Quem é Jordan Farmar mesmo? Não lembro. É muito difícil bater o Lakers quando Pau Gasol está bem (98% dos jogos) e as bolas de longe estão caindo.

O Lakers jogou o seu basquete preguiçoso de temporada regular. Muito bem durante uns momentos, relaxado em outros e bem sério quando a água bate na bunda nos minutos finais. Deu certo, mas o time ainda parece fora de ritmo, especialmente Kobe, que está bem lento na defesa. O Rockets pareceu mais entrosado, mais interessado e parece que vai dar trabalho pra valer. O Yao Ming jogou e até que tá bem para alguém todo quebrado, que não joga há um ano e que se move como se estivesse embaixo d'água. Mas o que me deixou mais surpreso foi ver como o Luis Scola pareceu mais à vontade no ataque no fim do jogo, chamando a responsa ao invés de aceitar ser coadjuvante. Ele é bom o bastante pra isso e sempre foi, mas no ano passado era mais comum a gente ver o Aaron Brooks querer bancar o herói.

Foi um bom primeiro dia, mas só o primeiro. Hoje tem mais 13 partidas, com quase todos os outros times fazendo seu primeiro jogo e aí vem a primeira grande dúvida da temporada: O que assistir no League Pass? Tem Miami tentando a sua primeira vitória contra o Sixers, a estréia do lixo do Cavs ou um potencial  jogão entre Bulls e Thunder. E mais tarda a estréia do Warriors sem Don Nelson e o primeiro jogo oficial do Blake Griffin, isso sem contar a estréia do Amar'e como um Knick e um empolgante Nuggets-Jazz. Por enquanto só sei que não vou ver Hawks contra o Grizzlies. Como eu vivi todos esses meses sem NBA todo dia?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Por pouco de novo

Scola quer seu abraço, vai lá, campeão!


Eu gostaria muito de ter escrito aqui antes do jogo entre Brasil e Argentina a conversa que tive com o Felipe, nosso webdesigner. Saímos para bater um basquete na segunda-feira e conversando sobre o jogo da seleção eu disse: "Acho que o Brasil ganha. Mas pra isso a gente tem que abrir uma vantagem e administrar ela no final. Se chegar no fim do jogo empatado, o Scola vai acertar tudo pra Argentina e o Leandrinho vai errar pro Brasil".

Juro por Lady Gaga que eu disse isso. Deveria ter postado aqui para pagar de adivinho, porque foi isso o que aconteceu. O jogo foi disputadíssimo desde o primeiro segundo até o último, mas quando era para decidir, o Scola simplesmente não errou. Seja bem marcado, mal marcado, contestado, no arremesso, na bandeja e por fim, pra fechar o caixão, até quando tentou errar um lance livre.

Sobre a Argentina, não achei que fizeram nada de novo, fizeram o que a gente disse desde o começo. Todo o time é inteligente, todo mundo sabe o que fazer em quadra, cometem poucas bobagens e compensam a falta de pontuadores com o Luis Scola. Eventualmente o Carlos Delfino tem boas noites de pontuação e para o azar dos brazucas, o jogo de ontem foi uma delas. Outra zica brasileira foi ter a volta do Fabricio Oberto, que apesar de bem mais lento e velho do que em seu auge, quebra um galho enorme para o Scola com seu bom passe e aproveitamento embaixo da cesta.

O Ruben Magnano tentou parar o Scola usando o Tiago Splitter, o Anderson Varejão, o Guilherme e até o Marquinhos. Tentou trocar a marcação no pick-and-pop, tentou não trocar, tentou macumba e só não apelou para as armas de fogo porque é um gentleman. Tem dias em que não dá certo mesmo. Em algumas jogadas a gente vacilou, é verdade, mas no geral não perdemos o jogo porque marcamos mal o Scola.

Aliás, perder esse jogo não foi nenhuma desgraça. Foi um jogo disputado em que a grande estrela da partida, o melhor jogador em quadra, resolveu a parada nos minutos decisivos, nada mais natural no basquete. Sem contar que nos classificamos em terceiro no nosso grupo e eles em segundo, apesar dos times em nível técnico parecido, não foi absurdo perder o jogo, na teoria eles eram mesmo os favoritos. Mas no que devemos pensar não é só nesse jogo, mas no total do torneio. O Brasil venceu 3 jogos e perdeu outros 3. Os três vencidos foram lavadas, abrimos diferença e matamos o jogo. As três derrotas foram resultados apertados, jogos decididos no último minuto. Quando acontece três vezes em uma semana não é coincidência. O que faltou para o Brasil nesse mundial foi saber decidir jogos. Só.

A defesa do Brasil não é perfeita, mas não consigo imaginar nada melhor desse elenco. Até jogadores que sempre foram criticados (por nós também) por serem defensores fracos tiveram momentos ótimos, como Marcelinho Huertas, o Machado e o Leandrinho. Reafirmo aqui que nunca vi (e provavelmente nunca vou ver) o Barbosa marcando tão bem quanto naquele jogo contra os EUA. O ataque também esteve do jeito que sempre sonhamos. Não temos o nosso Scola/Nowitzki/Durant para colocar a bola na mão e esperar os dois pontos acontecerem de alguma forma, mas o lado bom é que dessa vez sabíamos disso. Em campanhas passadas ficávamos esperando milagres ofensivos de Leandrinho, Marcelinho e Tiago Splitter e eles não apareciam. Dessa vez colocamos a mão da nossa grande estrela no torneio, Huertas, e executamos um ataque coletivo e bem pensado. Quase chorei hoje quando vi que em todo o primeiro tempo a seleção havia cometido apenas 3 erros no ataque. Antigamente eram 3 erros a cada 5 minutos de jogo, geralmente tentando forçar alguma jogada individual idiota.

Temos um bom elenco que demonstrou muita vontade, raça e disciplina. Um técnico que entende de basquete, tem comando sobre o grupo e que melhorou o ataque e a defesa do time. Parece piada dizer isso, mas é verdade: o time melhorou em tudo, agora só falta ganhar.

Saber ganhar jogos apertados é difícil. Até porque muitas vezes é uma questão individual, não de treino coletivo, instrução do técnico. Claro que ter um mongolóide no banco não vai ajudar, mas é o momento do jogo com a defesa mais apertada, jogadores mais tensos e juízes dispostos a deixar o jogo rolar. Não é à toa que os jogos costumam ser decididos em jogadas simples, como uma isolação, um pick-and-roll ou um bloqueio para arremesso. A Argentina usou muitas jogadas durante o jogo inteiro, tanto que no último quarto vimos até Oberto e Jasen aparecerem no ataque, mas quando o bicho pegou foi só pick-and-pop com o Scola ou a isolação dele contra algum marcador brasileiro. Já o Brasil parecia não saber o que decidir, e errou dando a bola na mão de Leandrinho, que tem muitos talentos, mas definitivamente decidir que jogada fazer não é um deles. Quanto menos ele tem a bola na mão, melhor.

Outro que não pode decidir jogos é o Tiago Splitter, e o Brasil também tentou ele na hora H. Geralmente jogadores de garrafão só conseguem decidir jogos em equipes que tem arremessadores muito bons em volta deles. Pensa bem, o Splitter está empurrando o Oberto para perto da cesta e você está marcando o Marquinhos ou o Alex, o que você faz? Corre para forçar um erro do Splitter ou deixa ele marcar a cesta só para não deixar os dois livres? Deixa livre, claro! Se o Splitter conseguir dar o passe, dane-se, qual a chance do Alex acertar uma bola de três? E pior, qual a chance dele acertar com a pressão do fim do jogo? Quase zero. Quem acompanha NBA pode ver isso muito bem. Às vezes o pivô do time é a estrela, mas quem decide é o cara do perímetro. Até porque em fim de jogos os juízes costumam deixar a pancadaria rolar um pouco mais e isso só dificulta o trabalho dos pivôs, que também têm aproveitamento pior nos lances livres. No Lakers o Shaq recebia pouco a bola no fim dos jogos porque ele sofria faltas de propósito, já que fede na linha de lance livre.

Claro que existem exceções, mas todas tem explicação. O Scola e o Nowitzki são jogadores completos. Eles podem receber e bola em fim de jogo porque se precisar eles nem entram no garrafão e resolvem a parada com um arremesso de longe, além de serem bons no lance livre. Outros como o Duncan e o Garnett são passadores acima da média e costumam ter bons arremessadores no time. É só buscar vídeos de qualquer título do Spurs e ver os jogos, quando se arriscavam a dobrar a marcação no Duncan no fim dos jogos ele entregava a bola para Steve Kerr, Stephen Jackson, Manu Ginobili, Bruce Bowen ou qualquer outro grande arremessador que o acompanhou na carreira. O Brasil não tem esses arremessadores, Splitter não é um grande passador e ele não é efetivo quando recebe a bola longe da cesta.

Para a partida de hoje em especial, acho que a melhor decisão teria sido deixar o Marcelinho Huertas trabalhando com vários bloqueios para achar espaço no garrafão. Ele estava com a mão calibrada, confiante e claramente muito motivado. Fez a partida da sua vida e eu esperava ver a paz no Oriente Médio antes de ver ele fazer 32 pontos num jogo, mas foi o que aconteceu. De qualquer forma, seria uma solução para hoje, isso não vai acontecer sempre.

Falando em momentos decisivos, lembrei de um caso interessante na NBA, o Los Angeles Clippers. Infelizmente não tenho mais os números, mas vale pelo caso. Na temporada 2004-05, o Clippers liderou a liga em jogos perdidos por 5 pontos ou menos (ou eram 3 pontos? Jogos apertados, enfim). Era um número assustador de derrotas no fim do jogo. Aquele time tinha o Marko Jaric (o puto que é CASADO com essa deusa) na sua melhor temporada na NBA, Bobby Simmons no único ano em que foi decente, Corey Maggette, Chris Kaman bem pivete e Elton Brand na época em que ainda fazia 20 pontos e 10 rebotes todo jogo. Parecia bom, mas não vencia no final.

No ano seguinte conseguiram a pechicha de trocar Jaric-Lima pelo muso Sam Cassell. Aproveitaram e conseguiram uma troca por Cuttino Mobley, o experiente arremessador que fez história como parceiro e amigo de Steve Francis no Houston Rockets. Com a dupla experiente o Clippers passou a ser um dos times que mais venceu jogos apertados na NBA. E assim chegou aos playoffs, à semi-final do Oeste, e só foi eliminado no jogo 7 pelo Phoenix Suns. Era dito por todos os jogadores e era óbvio para quem via os jogos que a razão da mudança era a presença de dois jogadores experientes e bons na decisão. Quando precisava armar, Cassell armava, no fim do jogo, quando precisavam de pontos, ele ia lá e fazia seu arremesso tradicional, o step back, e matava a parada.



Falta para o Brasil ter esse Sam Cassell para matar as partidas decisivas. Ele poderia ter vencido Argentina, a Eslovênia e os EUA. E ele não é Leandrinho, Huertas, Marquinhos ou qualquer um que estava no elenco desse Mundial. Acho que o Brasil tem seu melhor time em muito tempo, talvez o melhor dos últimos 15 anos, mas com esse pequeno e muito decisivo defeito.

Citando o gênio Dunga, qual o legado dessa seleção? Podemos ver por dois lados, o do time, pensando em resultados; e o social. Para o lado do time não tem legado, foi só o primeiro campeonato importante e serviu para mostrar na prática nossos defeitos e qualidades. Deu pra ver que sonhar com medalha é demais mas com Olimpíada é bem real.

Pelo lado social foi mais importante, mas ainda pequeno. Aquela quase-vitória sobre os EUA deve ter feito muita gente que ignorava o basquete desde o Oscar falar sobre o esporte, e motivado algumas pessoas até a bater uma bolinha. Isso é uma grande coisa. Lembro que comecei a querer jogar tênis quando as TVs começaram a passar jogos do Guga. Não precisei de muito tempo para começar a gostar mais do esporte do que do Guga, aliás torcia até mais para o Patrick Rafter, por ser fã de um bom saque-e-voleio. Mas foi com um brasileiro na mídia que eu tive o primeiro contato com o esporte.

Acredito que a seleção ter bons resultados seja importante para isso. Não torço para o Brasil vencer por amor à nossa pátria, sei que incomoda muita gente mas não dou a mínima pra isso, torço pelo efeito que esses bons resultados podem trazer para o esporte. Gostaria, por exemplo, de descobrir na próxima temporada da NBA um leitor do blog que está começando a acompanhar a liga americana depois de ter se encantando com o Scola na partida de ontem. A presença da seleção nacional chama a atenção e depois o basquete bem jogado por alguém (seja lá em que território esse cara nasceu) conquista o torcedor. É uma fórmula simples e que parece bem encaminhada. Sem contusões e pensando em uma solução para não perder todos os jogos apertados, o Brasil deve estar na briga com os grandes em todas as próximas grandes competições.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Por um basquete divertido

Um tem cabeça quadrada, o outro tem mullets, mas no fundo são todos irmãos

A gente está andando devagar nessa semana de feriado, afinal todo mundo merece botar a cabeça pra fora de casa de vez em quando - especialmente depois de passar tanto tempo sentado na privada, já que um carinha leitor do Bola Presa que reclamou da minha ausência perguntando se eu estava com caganeira acertou em cheio. Mas a verdade é que o Mundial de basquete também caminha devagar, sem surpresas, cheio de lavadas, e o negócio só esquenta hoje às 15h, quando o Brasil enfrenta a Argentina  por uma chance de ir às quartas-de-final. Com uma vitória, dá até pra sonhar com uma semi-final - e nada mais - e voltar pra casa com gostinho de sucesso. Especialmente porque, em pleno feriado em que as pessoas estão caçando, esperançosas, fotos da Sandy pelada para se entreter, assistir a uma partida de qualquer esporte entre Brasil e Argentina soa muito tentador. Podia ser até partida de bocha, desde que a galera pudesse torcer contra a Argentina e alimentar o ódio idiota. Os caras moram aqui do lado, falam uma língua parecida (espanhol é português com sotaque), têm uma cultura muito próxima, jogam basquete pra caralho, e a gente insiste em torcer para que eles morram. Vai entender.

Uma vitória do Brasil vai fazer um monte de tiozinho gordo de bigode fedendo a churrasco prestar mais atenção no basquete apenas porque fizemos alguns argentinos perderem, mas acho que o esporte nem precisa de muitos tiozinhos gordos de bigode, é melhor mesmo que eles continuem só torcendo para o Flamengo. O que importa mesmo é que um monte de pirralinho que torce contra a Argentina no futebol pode se empolgar com a partida de basquete, parar de procurar as fotos da Sandy e resolver dar uma chance pro esporte, num efeito dominó que vai levar algum gordo de bigode a colocar mais investimento nas categorias de base. Ridículo que isso tenha que vir às custas de um ódio por gente que fale enrolado, assiste Chaves e usa mullets, mas nosso esporte precisa muito desse aumento na auto-estima - e aumentar a auto-estima quase sempre implica em diminuir, xingar e descer o cacete em outra pessoa. Aliás, nossa noção de esporte implica bastante em odiar outra pessoa, e muita gente só torce para poder odiar os rivais. Gosto de imaginar que os leitores do Bola Presa são diferentes, que estão mais abertos a pensar o esporte de outras maneiras, que acham uma besteira esse lance pseudo-patriota e se preocupam com o esporte em si, sem fronteiras, mas além da terrível verdade inegável - existem torcedores do Jazz que nos leem - também há o fato de que todo mundo tem um tio gordo que vai xingar os argentinos amanhã e talvez se empolgue de verdade com a partida. Minha torcida, portanto, mais do que por uma vitória brasileira, fica para que seja um jogo espetacular, daqueles com 80 prorrogações, pra deixar todo mundo impressionado e com vontade de lotar os ginásios no Brasil e assistir NBA em outubro. Mas torço um pouquinho, confesso, para uma derrota argentina em parte só para o Luis Scola parar de jogar esse Mundial idiota e ir descansar um pouco para a temporada que vem no meu querido Houston.

Meu time sempre sofreu demais com os torneios internacionais simplesmente porque o Yao Ming era obrigado a jogar pela seleção chinesa durante suas férias da NBA. Quando uma cúpula de dirigentes chineses e americanos se uniram para acertar os detalhes de seu ingresso na liga, assim que ele havia sido draftado, ficou estabelecido que a seleção da China seria sua prioridade. Nem por um segundo, após descobrir uma fratura no pé de Yao que poderia ter sido escondida até o fim dos playoffs, o Houston cogitou a possibilidade de comprometer a presença do pivô nas Olimpíadas. Yao foi retirado das quadras e começou um processo de reabilitação focado única e exclusivamente nas Olimpíadas da China, e é claro que ao voltar para o Houston não estava em plenas condições físicas e acabou se lesionando de novo - e de novo, e de novo, como bom produto "made in Taiwan".

Recentemente o Yao Ming afirmou que cogitava a aposentadoria caso sua lesão não melhorasse, afirmando que a seleção chinesa teria que se virar sem ele, e eu afirmei que esse discurso era apenas uma desculpa para que ele não tivesse que jogar nunca mais pela China sem soar um traidor. Dia desses, veio a confirmação: Yao admitiu estar em plena forma física, voltou a treinar com bola sem limitações em Houston, e afirmou que sua entrevista havia sido mal entendida por aquelas bandas, que ele apenas estava se afastando da seleção chinesa finalmente. Seus minutos serão limitados nos primeiros meses de temporada, mas Yao está pronto para voltar a ser titular do Rockets - e passar longe da seleção pelo resto da carreira.

Enquanto isso, seu parceiro argentino de garrafão não dá sinais de que um dia abandonará a seleção. Dá pra imaginar fácil o Luis Scola entrando em quadra de cadeira de rodas, vão ter que amarrar o pé dele na mesa da cozinha para evitar que ele tente entrar em quadra pela Argentina aos 60 anos de idade. Mas, ao contrário do peso patriótico que Yao carregava injustamente nas costas, Scola afirma que só quer jogar porque "acha divertido". Admite que gosta de competir, seja qual torneio for, e que se diverte sendo a estrela, a peça mais importante da equipe - coisa que não acontece no Houston Rockets, em que ele tem papel secundário. Para Luis Scola, jogar pela seleção é uma chance de ser a maior arma no ataque, ganhar jogos sozinho, assumir responsabilidades. E faz tudo isso com tanta facilidade que chega a afirmar que os jogos pela Argentina são, pra ele, preparação para a temporada da NBA.

Cada vez mais essas partidas internacionais perdem a importância, e não é apenas no basquete: todos os outros esportes, até mesmo o futebol, sentem o fenômeno. Os melhores jogadores do mundo participam de ligas de alto nível - seja a NBA, seja o basquete europeu - em que podem enfrentar os outros melhores jogadores do mundo. A nacionalidade vira um troço um tanto secundário quando um russo defende uma equipe grega, jogando ao lado de um americano, ou quando um espanhol é campeão da NBA ao lado de um esloveno e um belga. É claro que tem o lado financeiro, são os times que pagam os salários dos jogadores e eles muitas vezes exigem dedicação exclusiva, mas tem também um outro fato mais simples: não dá pra se ter tudo, abraçar o mundo. O corpo humano não aguenta. Se o jogador fica exausto jogando pelo seu time e ainda vai jogar pela seleção nas férias, vai ter um rendimento ruim nas duas competições. Quando se dá ao corpo o devido descanso, na maior parte das vezes é preciso escolher - e aí a escolha é óbvia, opta-se pela melhor liga, pela de mais evidência, pela de mais estrelas, pela de maior salário, e com isso o basquete de seleções fica em segundo plano. Num mundo em que as ligas são tão internacionalizadas, a simples ideia de um torneio entre seleções faz cada vez menos sentido e ele vai sendo deixado de lado. Não é babação de ovo em cima da NBA, como dizem que a gente faz, que "eles são soberanos", porque o mesmo se aplica a qualquer campeonato europeu por aí. O nivel é alto, tem gente do mundo inteiro, e jogar por uma seleção só acaba tendo valor em casos muito específicos - tipo o Brasil, que precisa chamar atenção para o seu basquete, ou o Scola, que está se divertindo.

A Argentina de Scola, campeã olímpica, teve um valor muito maior do que forçar os americanos a levarem seus principais jogadores para retomar o posto de vencedores (até porque eles já mostram que não precisam dos melhores jogadores num troço bobo como o Mundial). Scola e seus amigos provaram que os melhores jogadores de basquete do planeta podem estar em qualquer lugar, até mesmo num país cheio de mullets e tango na América o Sul. Pode até ser na China, em que os habitantes deveriam ser supostamente pequenos e frágeis, ou na Grécia, ou na Espanha, ou na Turquia. Todo mundo agora joga basquete de alto nível, esse posto de "país número um do basquete" é terra de ninguém, e ele sequer faz mais sentido e nem é mais necessário. Juntem gregos, turcos, espanhóis e argentinos e misturem tudo, em quantas ligas pudermos, as mais divertidas possíveis. É só isso, sem ter que pisar em ninguém, nem afirmar a nação de ninguém. Para quê tocar hino antes do jogo? O basquete é de todo mundo.

É por isso que o Luis Scola é um monstro absurdo: além de jogar na NBA e na seleção sem se contundir ou se cansar, além de ter mostrado que é um dos melhores do planeta mesmo sendo argentino e sendo incapaz de pular a altura de uma gilette, ele joga para se divertir, para aceitar papéis diferentes, para variar. Não perde um jogo pela seleção da Argentina, mas sabe que sua prioridade é o Houston, em que ele divide o garrafão com um chinês e enfrenta tantos estrangeiros quanto é possível.

Para a partida de hoje entre Brasil e Argentina, então, basta que ela seja divertida, muito divertida. A pataquada de seleção vai ficar de lado se todo mundo que acompanhar o jogo se maravilhar com a beleza do espetáculo, e resolver acompanhar os trocentos torneios sem fronteiras - não apenas a NBA, repito - a que temos acesso hoje em dia e que não estavam ao alcance de qualquer um alguns anos atrás. A internet faz mágica, manda as fronteiras pela privada porque podemos acompanhar a tudo, e ao vivo. Então, mesmo em caso de derrota do Brasil, esteja pronto para distribuir links, blogs, canais de televisão e informações úteis para o seu tio gordo de bigode. Se ele se divertir, vai querer mais - e todo o resto é desimportante. Se for bacana, a seleção vai ter desempenhado mais do que bem o seu papel. Agora, por outro lado, se der pancadaria com a Argentina... aí fizemos papelão, pega a participação do Brasil e joga no lixo. Precisamos de basquete bonito e bem jogado, então minha principal preocupação é justamente essa: que não haja pontapés.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Yao e a seleção brasileira

Yao e Nenê têm tanto em comum que até andam de braços dados


Dia desses, Yao Ming afirmou em entrevista que se aposentará caso sua lesão no pé não evolua como esperado, que seu físico precisa ser poupado e que deixará de defender a seleção chinesa. Não se trata de um aviso de aposentadoria e nem é razão de pânico em Houston. Ao contrário do que se imaginava, sua lesão teve recuperação acima da esperada e Yao está em excelente forma física, pronto para atuar no primeiro jogo do Rockets na temporada. A afirmação de Yao Ming foi dirigida, implicitamente, ao seu país natal. Depois de anos sacrificando seu corpo pela seleção chinesa, Yao tentou se livrar desse fardo sem soar um desertor ou traidor.

Num dos posts mais sérios do Bola Presa, comentei sobre o papel que o chinês teve em aproximar duas culturas tão distintas. A China deixou para trás velhos esteriótipos e valores e rendeu-se a um modo americano ao mesmo tempo em que Yao mudava seu modo de agir e jogar dentro das quadras. Foi um projeto longo com seu ápice nas Olimpíadas, quando a China provou ao mundo que não era um país bizarro em que se come baratas, é apenas outro país com shoppings, grifes, marcas, muito dinheiro, e força para vencer no quadro de medalhas. Yao não apenas foi o pilar da campanha digna da seleção chinesa de basquete nas Olimpíadas, foi também responsável por uma missão diplomática: aos americanos, apresentou uma China simples e digna de respeito nas quadras e fora delas; aos chineses, apresentou os Estados Unidos como algo que pode ser tocado, compreendido, imitado. Quanto mais americano o Yao se tornava, melhor ele unia as duas culturas rumo às Olimpíadas. Lá, todo mundo se deu as mãos e agora ninguém tem medo da China ser "comunista" e nem acha que os chineses são fracotes, desnutridos, pobres ou que ficam citando pérolas de sabedoria. O projeto está terminado, a China cresce vertiginosamente, Yao é um ídolo que ficará para a história, e os Estados Unidos acham tudo isso bonitinho, são parceiros. Pronto. Agora, finalmente, o pobre pivô pode escapar de jogar por aquela seleção capenga.

É cada vez mais normal, tanto no basquete quanto no futebol, jogadores priorizarem suas equipes ao invés de se dedicarem às suas seleções. Na NBA, cada vez mais as grandes estrelas pedem dispensa de suas seleções para poder descansar, treinar, se concentrar em seus times. Isso faz muito sentido em nossos tempos. Vivemos na geração da internet, em que as fronteiras físicas são cada vez mais arcaicas e desnecessárias. Estamos ligados às pessoas por interesses em comum, não importando em que país vivam, e não estamos presos a um modo de pensar ou de agir exclusivo dos nossos vizinhos. Não existem mais limitações geográficas, tenho mais a dizer a um sueco fã do Houston Rockets do que teria a um brasileiro torcedor do Ipatinga - e agora eu posso dizê-lo. Antes, jogar por uma seleção era amor à pátria e a única chance de que algumas estrelas pudessem jogar em seus países, na frente de seus amigos, parentes e compatriotas. Agora, pátria é um conceito que definha até à morte, podemos acompanhar as nossas estrelas - e as estrelas de qualquer país - através da televisão e da internet, podemos eleger nossas estrelas e nossos times graças a afinidades de estilo ou ideologia, e não por terem nascido dentro da mesma linha imaginária em que nascemos. Recentemente, sem televisão, assisti à final do Campeonato Paulista numa transmissão pela internet de um canal polonês. Eles podem torcer para o Santos ao invés de para um time mequetrefe da Polônia. Bobagem essa história de "amor à pátria" quando sequer compreendemos mais o conceito de pátria. Podemos ver o Barcelona e assistir ao campeonato de handball polonês, para que servem as fronteiras? Frente a um basquete nacional de péssima qualidade, podemos assistir à NBA e escolher nossas estrelas entre as que mais se encaixam em nossas crenças pessoais.

Não faz mais sentido o Yao se sacrificar para jogar por uma seleção. Mesmo ele, que carregava todo um projeto cultural nas costas, pode se ver agora livre dessa bobagem. Yao chegou à NBA com a temporada já começada, quando novato, porque estava treinando com seu país. Abandonou o Houston com uma fratura por stress porque precisava se poupar para as Olimpíadas. Adquiriu a tal fratura por ter jogado durante as férias por sua seleção. Desde que entrou na NBA, Yao nunca teve férias graças à seleção chinesa. Suas lesões, cansaço, fraturas, tudo resultado de uma temporada cruel de 82 jogos e de uma seleção cruel que tinha algo a provar para o mundo. Até que uma lesão muito séria lhe tirou de quadra no meio de uma série de playoffs, não foi capaz de jogar durante toda a temporada passada, e agora volta debilitado ao time. Apenas se tiver seus minutos limitados em quadra e férias ao fim de cada temporada, Yao poderá render alguns anos ainda. Para garantir isso, o Houston trouxe de volta Luis Scola, que chuta traseiros no garrafão mesmo sem conseguir pular um centímetro sequer, e adicionou Brad Miller, um dos melhores pivôs de todos os tempos quando se trata de arremessar e passar a bola. O Houston disse que pagaria o preço que fosse para manter o Scola, ele segurou as pontas de um time sem garrafão, é muito consistente, ganhou alguns jogos sozinho, tem cérebro pra jogar com o Rick Adelman e quebra até um galho de pivô sempre que precisa. O Brad Miller já foi mais na cagada, ele foi disputado por muitos times mas topou ir para Houston apenas pelo carinho que tem pelo Rick Adelman, já que jogou pelo técnico em seus tempos de Kings. Assim como Yao prefere jogar arremessando e dando passes na cabeça do garrafão, Brad Miller passou a vida fazendo justamente isso. Na verdade, o papel que Yao exerce no time é apenas uma imitação do que o Brad fazia no Kings antigamente. Nada melhor, então, do que trazer o original (mesmo que velho e empoeirado) para dar descanso ao Yao. A situação não poderia ser melhor para o chinês, que terá dois grandes jogadores de garrafão pela primeira vez na vida, poderá descansar vários minutos por jogo, e conseguirá pela primeira vez dedicar-se exclusivamente à NBA. Para o Houston, o que parecia um projeto de reconstrução virou de repente um time promissor e imediato: McGrady deu o fora e cedeu lugar para Kevin Martin, um dos melhores pontuadores da NBA, e até o armador reserva Kyle Lowry, que é bizarramente essencial para o time, foi recontratado. Reconstrução mesmo precisa rolar na seleção chinesa, mas isso é outra história.

Curiosamente, apesar de minha felicidade com a fuga de Yao da seleção e nossa atitude contra o conceito tolo de "patriotismo", estou torcendo muito é pela seleção brasileira que disputará o mundial de basquete agora no fim de agosto. Em geral, não vemos porque dar cobertura especial para Leandrinho, Nenê ou Varejão apenas por eles terem nascido na mesma linha imaginária em que nascemos, mas dessa vez o caso é especial. Como sempre, faremos uma cobertura do Mundial de Basquete assim como fizemos das Olimpíadas, com foco nos jogadores da NBA, mas comentaremos bastante da seleção brasileira simplesmente porque nela reside as chances do crescimento do esporte em nosso país. Todos nós sabemos do apuro que é acompanhar ou praticar basquete no Brasil, de como falta apoio, incentivo, verba e até credibilidade. Nosso basquete esteve afundado durante décadas em corrupção, amadorismo, mal gerenciamento, foi ignorado pela mídia e pelas torcidas. Nós aqui do Bola Presa já tentamos, muitos anos atrás, levar a prática do basquete a sério, e recebemos muitos e-mails de gente que tenta seguir carreira na área, e portanto estamos cientes das dificuldades. O basquete precisa ser levado a sério no Brasil para que surjam reais oportunidades de praticar, acompanhar, torcer e escrever sobre o esporte que amamos.

Nossa postura por aqui sempre foi a de acompanhar o melhor basquete do mundo, afinal basquete é basquete, não importa o país, e a atenção do público brasileiro cresce cada vez mais com relação à NBA nos últimos anos. O público do Bola Presa aumenta mês a mês, sem parar, e tratamos isso como um interesse legítimo em basquete, puro e simples. Nosso formspring fica cada vez mais abarrotado de perguntas de iniciantes, gente querendo saber quais são as regras do esporte, onde se assiste, quem são as estrelas. E é tudo molecada, gente que está chegando agora e que não está sofrendo com a saída do Jordan, está é se divertindo com a última temporada do Kobe. Isso é ótimo, faz o esporte crescer, e o Bola Presa sempre teve a intenção de tornar a NBA mais fácil, gostosa e divertida de acompanhar num país com tão pouca cobertura de qualidade a respeito.

No entanto, para que as mídias convencionais levem basquete a sério, para que exista verba para as categorias de base, para que possamos assistir basquete ao vivo de qualidade, não adianta só a NBA. Precisa haver sucesso na seleção. A gente percebe bem rápido que brasileiro gosta mesmo é de torcer pela seleção brasileira. O patriotismo cada vez mais vira farofa, todo mundo tem camiseta do Barcelona e tem carinha aí querendo arrancar cabeças rivais porque torce para o Utah Jazz mesmo tendo nascido no Acre, mas mesmo assim fica todo mundo louco para acompanhar a seleção brasileira. Confesso que não entendo muito bem, assim como não entendi o motivo de tanta gente que achava a seleção do Dunga repulsiva ter torcido mesmo assim ao invés de torcer por outras seleções mais legais, mas o fenômeno é óbvio e precisamos aceitá-lo. Para o esporte ser levado a sério aqui por essas bandas, a seleção brasileira precisa ter sucesso nesse Mundial de Basquete.

Enquanto Yao tira férias de uma camiseta vermelha para se focar em outra, a do meu amado Houston Rockets, os jogadores brasileiros da NBA precisam se concentrar na seleção brasileira acima de tudo. Num momento em que seleções de países fazem cada vez menos sentido, a China dependeu da sua para mudar toda uma cultura, e agora dependemos da nossa para que o esporte que amamos receba o apoio que merece. Não faz sentido o basquete ser deixado de canto por aqui e a garotada ter tanta dificuldade em conseguir jogar seriamente. A solução, bizarramente, está nas mãos de Nenê, Varejão, Splitter e Leandrinho. Depois de tanta incompetência e falhas de tantos dirigentes por anos e mais anos, o peso acaba caindo nos jogadores que deveriam estar se esforçando é por suas equipes, que sempre lhes deram plenas condições de atuar em alto nível. Mas, assim como ocorreu com Yao, às vezes os jogadores precisam assumir pesos que não são seus. Desempenhar funções maiores do que eles mesmos.

quarta-feira, 10 de março de 2010

A máquina sem peças

"Por favor, não tire o Kidd do meu lado ou perceberão que eu fedo, amém."


Como acabei não postando ontem por pura e indesculpável preguiça, resolvi que hoje vou me punir e, por isso, vou falar do San Antonio Spurs. Toda hora tem alguém me perguntando no "Both Teams Played Hard" o que diabos aconteceu com o time nessa temporada, e o desespero dos fãs é compreensível: o time sempre foi chato, mas pelo menos ganhava jogos. Agora que não ganha mais, os torcedores ficaram com uma bomba nas mãos.

A primeira dificuldade do Spurs nessa temporada tem sido a falta que faz Bruce Bowen. Sua saída da NBA tornou o mundo um lugar melhor, os pássaros cantam, as borboletas voam e as pessoas mandam dinheiro para o Haiti, mas sua defesa forte, suja e eficaz era essencial para o esquema tático da equipe. O Spurs tem uma impecável rotação defensiva e sabe colocar em prática muito bem uma série de defesas por zona, desde que a estrela adversária esteja sendo defendida no mano-a-mano pelo Bowen. A maioria das pessoas não imagina o impacto que sua aposentadoria causou na estrutura defensiva da equipe, e essa dificuldade já vem desde a temporada passada, quando ele não tinha mais físico para segurar os armadores adversários e começou a passar mais tempo no banco de reservas. Havia por baixo dos panos, em San Antonio, o sensacional "projeto Ime Udoka" que pretendia substituir Bowen por um jogador com as mesmas características. Udoka foi roubado do Blazers e cultivado com carinho por ser um excelente defensor capaz de marcar jogadores de todas as posições e ainda por cima acertar arremessos de três da zona morta - marca registrada de Bowen. Ainda não sei bem o que aconteceu, se o Udoka é pior do que parece, se ele não entendeu o esquema do Spurs ou se ele cutuca o nariz, o técnico Popovich é muito chato e acaba afundando uns jogadores sem que nunca saibamos o que está acontecendo. Mas o projeto obviamente foi abortado, o Udoka foi pra rua e o Spurs ainda não sabe como marcar Kobes, LeBrons, Nashs e Carmelos - o que explicita ainda mais as deficiências defensivas de Tony Parker e Ginóbili, que ficavam camufladas num sistema em que precisavam fazer menos e se posicionar mais.

As bolas de três pontos da zona morta também fazem uma falta brutal para o Spurs. Por muitos anos, foram um dos aspectos mais fundamentais da movimentação ofensiva da equipe. É impossível marcar o Duncan no garrafão, um armador penetrando, e conseguir cobrir as zonas mortas da quadra ao mesmo tempo. Não dá pra contar quantas vezes alguns times marcaram o Spurs perfeitamente, para então serem mortos pelos arremessos de três do Bowen, o cara de quem ninguém se lembrava (até ele quebrar seu pé). Quem assumiu essas bolas com sua aposentadoria, em geral, foi Roger Mason. Ele quebra um galho, mas além de sua inconsistência e tendência a fazer merda no final dos jogos, ainda há sua dificuldade com a zona morta. Mason é um bom arremessador de três pontos, mas prefere outras regiões da quadra para arremessar.

Esse simples fato explica o maior mérito e a maior dificuldade do Spurs: o técnico Gregg Popovich. Sem dúvida nenhuma ele desenhou um esquema maravilhoso, impecável, campeão, chato pra burro, que ganhou vários anéis de campeão. Mas o esquema não é maleável, não depende de que jogadores estão no time ou em quadra. O esquema é aquilo que ele é, cabe aos jogadores se encaixarem a ele. Quando o Tony Parker chegou na NBA, confessou que se focava nos contra-ataques porque era o único jeito de pontuar sem que o Popovich percebesse e ficasse bravo com ele. Quando penetrava no garrafão, as ordens eram para passar a bola para os lados - alimentando os jogadores de garrafão ou a zona morta - e não tentar uma bandeja. Quando arremessava de três, o Popovich surtava no banco de reservas, chegando ao ponto de limitar seus arremessos de fora para apenas um ou dois por jogo - se arremessasse mais do que isso, ele seria punido. Parker, então, comia pelas beiradas. Usava sua velocidade apenas nos contra-ataques, guardava aquilo que fazia de melhor porque não se encaixava na tática do time, e foi aos pouquinhos se soltando em quadra. Depois de um tempo, Popovich foi permitindo ao Parker finalizar mais, pontuar mais, mas nunca soltou as rédeas. O mesmo aconteceu com o Manu Ginóbili, mas como o argentino fazia suas maluquices para salvar o Spurs de situações terríveis, o Popovich foi aos poucos confiando nele - ainda que eu tenha visto ele ir parar no banco por algum drible mais plástico ou a insistência de tentar driblar a dupla-marcação. Lembro também de uma entrevista do técnico do Spurs afirmando que seu coração morria um pouquinho toda vez que o Ginóbili pegava na bola, mas que não tinha outro jeito. Aos poucos, foi dando certo.

Mas o resto do elenco, sem tanta moral, jogo de cintura ou personalidade, vai se anulando para encaixar no esquema do Popovich. O esquema é sempre o mesmo, o Spurs não era o time mais regular da década passada à toa. Todo jogo era perfeitamente idêntico ao anterior, o que garante ao time uma tranquilidade e segurança que permite estar perdendo por 20 pontos no último período e ainda saber que vai dar tudo certo. O Duncan não teria aquela cara de "vou tirar um cochilo no meu travesseirinho" se ficasse nervoso no final das partidas. Mas e quando o time não tem as peças para rodar o esquema? E quando é preciso mudar o jogo, quebrar um galho, lidar com as lesões? É aí que o Popovich se afunda e o Spurs despenca pelas tabelas.

Richard Jefferson foi trocado por dois contratos expirantes e todo mundo babou dizendo que o Spurs agora era forte candidato ao título. O problema é que Jefferson jogava bem no Nets no contra-ataque, usando sua velocidade, ao lado de Jason Kidd. Ainda assim, faltava agressividade e recursos para ser a primeira opção ofensiva, ele sempre se contentou em ser a segunda ou terceira. Nos seus melhores dias, era comum o pessoal debater se o Richard Jefferson conseguiria segurar um time sozinho (assim como se fala bastante do Tayshaun Prince) assim que passasse a ser a principal arma no ataque. No Bucks, sem Kidd e num jogo mais lento, não funcionou. Jefferson é limitado, seu arremesso é inconsistente, e sua defesa é apenas razoável - e isso quando ele está interessado em jogar na defesa. No Spurs, sua defesa deveria substituir Bruce Bowen, seus arremessos de três deveriam vir da zona morta. É claro que isso não funcionou, ele só serve se for a terceira opção de um time que corra muito e use sua capacidade atlética. Restringido pelo chato e briguento do Popovich, Jefferson foi apagando e passando a bola de lado ao ponto de terem que pedir por favor para ele ser mais agressivo. Quando passou a ser, o esquema tático do Spurs ficou todo bagunçado e o time piorou drasticamente. O mais incrível com o Jefferson é que, por causa disso, ele vem piorando seus números e suas atuações mês a mês, desde o começo da temporada. Esse é o problema desses esquemas que não se adaptam aos jogadores e exigem peças específicas: o Richard Jefferson não encaixou, então não há salvação. Pode dar a descarga.

Tá bom que ele veio pro Spurs quase de graça, o time não perdeu nada, mas os contratos expirantes mandados para o Bucks permitiriam à equipe de San Antonio brincar de contratar alguém da imensa lista de jogadores talentosos que terminam contrato nessa temporada. Nos últimos anos, essa tem sido a tônica do Spurs ao contratar jogadores: eles não perdem nada, mas deixam de ganhar muito. Richard Jefferson não funcionou e tirou deles a chance de conseguir algo melhor ao fim da temporada; Luis Scola era apenas uma escolha de segunda rodada que eles mandaram para o Rockets em troca de um jogador que preferiu voltar para a Europa; e a equipe deixou de draftar Josh Howard ou Leandrinho porque preferiu mandar a escolha pro Suns para não se comprometer financeiramente e ter grana para tentar contratar o Kidd (que no fim das contas preferiu ficar em New Jersey). Ou seja, o Spurs não perdeu nenhum grande jogador do seu elenco numa troca idiota, mas deixou de ter Leandrinho, Scola, e alguma estrela pro ano que vem.

Aliás, esse lance do Kidd não ter topado ir para San Antonio é sintomático: não apenas a cidade é famosa por ser meio chata (a cara do time!), mas o Popovich é famoso por ser um pentelho. Muitos jogadores sabem das restrições do sistema tático e além do medo de acabar não se encaixando, ainda tem a óbvia queda na produção e nos números do jogador, que dificultam um contrato depois. Quando o Kidd foi trocado para o Mavs e teve que se encaixar num esquema tático que lhe fazia tocar a bola de lado, ficou bem claro como grandes estrelas podem sofrer quando são mal utilizadas. Não acho que teria sido muito diferente no Spurs, o Kidd não teria nunca rendido como poderia em outros formatos, e nem acho que ele teria algo a acrescentar à equipe nesses moldes.

Essa busca constante do Spurs por regularidade, jogadores encaixados e constantes, tem sofrido ainda mais por culpa das contusões. Tony Parker já passou um tempão fora da temporada com uma torção no tornozelo, lesão grave no quadril, gripe e até uma intoxicação alimentar. Agora, como se não bastasse, acabou de quebrar a mão e deve passar até 6 semanas parado. O Ginóbili também se machucou e ficou doente, mas pelo menos agora está jogando em alto nível, assim como aconteceu com o Duncan. O tempo em que o time passa sem qualquer um dos três é desastroso, e só não foi pior porque o Spurs conseguiu bons imitadores para substituí-los. George Hill é um armador pirralho que lembra muito o Parker, mas é mais físico, mais forte e melhor defensor - e o mais importante, é obediente e o Popovich se apaixonou. O novato DaJuan Blair, que deveria ter ganho o prêmio de MVP no jogo dos novatos do All-Star, é um monstro no garrafão e segurou as pontas da equipe toda vez que o Duncan não jogou ou teve minutos limitados. Os dois são o futuro do Spurs e serão grandes jogadores, se encaixam no esquema tático e se sentirão em casa pela próxima década. Mas não há substituto para o Bowen, não há substituto para o Ginóbili porque faltam outros pontuadores na equipe. Richard Jefferson não serve em nenhum dos papéis, ele depende imensamente de um armador que corra e distribua a bola, coisa que o Parker nunca vai fazer e sequer faria sentido no modo com que joga o Spurs.

Uns anos atrás, eu sabia que o Spurs ganharia sempre do mesmo jeito, com as mesmas jogadas e a mesma defesa. Agora, cada jogo é uma surpresa, um tropeço diferente, uma lesão nova, um reserva com mais minutos, uma total falta de ritmo ou regularidade. Para um time que se acostumou a ser constante e sereno como a cara de bunda do Duncan, esses tempos de novidade são terríveis. A equipe precisa compreender que, pela idade avançada de seus jogadores, jamais terá de volta aquela constância se mantiver o mesmo elenco - sempre alguém estará contundido. Por outro lado, mudar o elenco é a parte mais arriscada de um esquema tático tão fixo. O Spurs parece preso num paradoxo terrível que me permite dormir tranquilo sabendo que eles não vão ganhar nada nos próximos anos. O único problema é que sem esse time chato para torcer contra, os playoffs vão ficar muito mais chatos! Não contem pra ninguém que eu disse isso, mas torço para que o Spurs se recupere logo. A primeira chance para isso acontecerá ao fim da temporada, quando o contrato do Ginóbili termina e a equipe terá que decidir se assina novamente o argentino ou traz outro jogador disponível. A questão é complicada, mas sabemos que desse jeito o Spurs vai mal das pernas. Manu pode até ter umas partidas sensacionais daqui pra frente e salvar a equipe, mas nos playoffs não há chances sem aquela consistência que fez história, sem a defesa que parou tantas vezes o Nash na base da porrada. O Spurs precisa de culhões para tomar decisões importantes, algo terrível de se fazer quando os torcedores são tão mal acostumados. Quem aí, torcedor do Spurs, está disposto a ver o time fazer mudanças drásticas e feder por uns tempos, e ainda seria capaz de acompanhar os jogos sem dormir ou tentar a forca?

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Quem não tem cão

Sozinho e abandonado no garrafão, talvez
Mensah-Bonsu até pegue um rebote



Não faz muito tempo, escrevi um post mais sério sobre a contusão de Yao Ming, que pode deixá-lo fora das quadras definitivamente. Desde então, o chinês passou pela faca numa cirurgia que foi considerada um sucesso. Foi o mesmo procedimento pelo qual o Ilgauskas passou anos atrás, então podemos concluir que Yao Ming deve ser capaz de jogar por mais alguns anos, mas com a velocidade de alguém que se movimenta debaixo d'água. No entanto, a situação de Yao não se modifica: sua missão cultural está encerrada e seu valor para a China e para o Houston Rockets começa a esvair-se. O pivô retornará às quadras com minutos limitados, importância diminuída, e é apenas questão de tempo para que o Houston tenha que começar do zero, montando um novo garrafão para compor um novo elenco. Será, então, um processo de transição em que Yao Ming vai segurando as pontas enquanto arruma-se alguém para ficar com o garrafão da equipe pelos anos seguintes.

Acontece que, para a temporada que vem, não tem transição, não tem ninguém pra ir segurando as pontas e empurrando com a barriga. O Houston precisa de pivôs imediatamente para tapar o buraco vazio e talvez ter esperança (ou fingir ter esperança, ao menos) de que um deles seja o pivô do futuro para a equipe. E tudo isso sem nenhum jogador relevante para ser trocado e nenhum espaço no orçamento para contratar um jogador de uma posição que já é mais escassa na NBA do que risadas no Zorra Total.

Levando isso em conta, devo admitir que o Houston Rockets fez um excelente trabalho. Conseguiu, sem nenhum esforço e a preço de banana, dois pivôs para tapar buraco. Os dois meio zé-ninguém, mequetrefes, mas cheios de potencial e pelo menos capazes de não passar (muita) vergonha. Pra quem achava que o pivô teria que ser o Olajuwon numa cadeira de rodas, estou quase soltando fogos.

A primeira aquisição foi o David Andersen. Ele é um pivô australiano de 2,13m que já jogou no CSKA na Rússia, foi campeão italiano trocentas vezes e acabou de ser campeão espanhol com o Barcelona. É um daqueles caras que nunca vão pra NBA, preferem ficar passeando pelo mundo, jogando pouquíssimos minutos e nunca dá pra saber se são capazes de fazer aquilo que seu potencial parece indicar. Nem na seleção australiana ele teve muitas oportunidades, o que é sempre um péssimo sinal. A NBA costuma ter um pé atrás com jogadores assim, deixando para escolher o Scola e o Ginóbili bem tarde no draft, no receio de que eles não funcionem num basquete mais físico ou, pior, nunca resolvam ir jogar nos Estados Unidos (basta pensar no Splitter, por exemplo, que parece que vai passar as próximas décadas na Europa e o Spurs daqui a pouco até esquece que ele existe). Scola e Ginóbili, no entanto, eram estrelas consagradas no basquete europeu, enquanto o David Andersen ainda é só uma aposta. Foi escolhido no draft pelo Hawks, na segunda rodada, em 2002. Sem contrato garantido, sem segurança, ganhando tufos de dinheiro na Europa, ele nunca viria brincar em Atlanta. Mas o Rockets mandou uma futura escolha de segunda rodada, uma grana, recebeu os direitos ao David Andersen e então foi negociar. Ajudou a pagar a recisão de contrato, garantiu o australiano na equipe por pelo menos dois anos (o terceiro é opcional) e colocou mais de 2 milhões nos bolsos dele por temporada. Pronto, agora o rapaz vai ser bonzinho e vir jogar na NBA.

Se a experiência der certo, Andersen foi uma grande sacada. Pelo seu tamanho, ainda permite que a defesa do Rockets afunile os jogadores adversários em sua direção. No ataque, Andersen gosta de jogar longe da cesta, arremessando de longe (e acertando cerca de 40% dos seus arremessos de três pontos!) e, portanto, não é tão diferente taticamente do que o Yao Ming gosta de fazer. Se ele for uma porcaria, também não ganha tanto dinheiro assim e depois de duas temporadas volta pra Europa continuar com a vida. Posso viver com isso.

A outra aquisição da equipe foi o Pops Mensah-Bonsu. E se você acha que esse é o nome de maior força nominal da última década, é porque não viu seu nome inteiro: Nana Papa Yaw Dwene Mensah-Bonsu. Minha nossa, é o nome mais bacanudo desde Dikembe Mutombo Mpolondo Mukamba Jean-Jacques Wamutombo! Só isso já justificaria sua contratação sem dúvida alguma, vou comprar uma camiseta agora mesmo - especialmente se eles conseguirem enfiar o nome inteiro nela, mesmo que tenha que ser frente e verso.

O Pops (eu prefiro chamar de "Nana Papa", que parece nome de banda ruim) teve uma carreira interessante no basquete universitário, atlético pra burro, cravando na cabeça de todo mundo e fazendo a festa no mundo do YouTube. Acontece que ele se machucou feio e passou um tempão fora das quadras, voltou meia-boca e acabou sequer sendo draftado na NBA (o que é meio bizarro, porque nas últimas escolhas da segunda rodada a força nominal conta muito!). Acabou tendo que se virar na Liga de Desenvolvimento da NBA, onde chutou traseiros, e também na Europa. Ganhou oportunidades com o Mavs e o Spurs, mas sempre jogando mais na D-League do que qualquer outra coisa, onde ele é atlético demais para o resto da criançada. Mas foi o Raptors quem decidiu dar para o Nana Papa uma chance de verdade, com minutos em quadra e um papel na equipe: vir do banco de reservas e trazer energia, enterradas e - por que não? - cabeçadas. Rapidinho virou um dos favoritos da torcida e o Houston percebeu que, em terra de cego, quem tem um olho é caolho. Ou seja, para um time sem pivôs, um cara que vem do banco para incendiar o jogo e dar um par de cravadas já é um baita avanço.

No fundo, o Pops é a reencarnação do Stromile Swift, embora o Swift ainda não tenha morrido (taí um caso para intrigar a mente dos budistas!). Cheio de potencial, vive em Top 10 de melhores enterradas, abarrotado de energia, mas deve morrer aos 80 anos sem ter feito muita coisa, sem evoluir seu jogo e ainda ouvindo papos, no leito de morte, de que tem muito potencial e deveria receber uma chance de algum time da NBA. O engraçado é que o Rockets já foi um dos 482 times do globo a apostarem no Swift e desistirem bem rápido. Se o Pops for minimamente superior, se ele for capaz de trazer qualquer outra faceta ao seu jogo (defesa, visão de jogo, cozinhar mariscos, costurar meias furadas), então a aposta terá dado resultado.

Com tantos times incapazes de acrescentar qualquer jogador (Heat, estou olhando pra você), é surpreendente que o Houston tenha arrumado duas apostas sei lá de onde. Pra mim está ótimo, o time vai feder uns tempos mas pelo menos tenho um par de jogadores para acompanhar de perto (e xingar pra burro, se for o caso) durante minha maratona assistindo aos jogos do Rockets na temporada (o League Pass vem aí, moçada!). Vou deixar todos vocês bem informados com o desempenho da dupla, e podem apostar em pelo menos alguns vídeos de enterradas do Pops aqui e no nosso Tumblr. Aliás, por falar em vídeos do sujeito, a Dime postou há um tempo atrás algo que me deixou um tanto sorridente (a não ser pela música, mas deixa pra lá):



Dá pra se entreter e salivar um pouco antes da Copa América, não dá?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Transtorno bipolar

"Dê um cacete no Lakers", já diria a tradução livre


Foram 6 jogos na série entre Lakers e Rockets e, ainda, não fazemos a menor idéia de como cada time entrará em quadra. Já vimos os dois times sendo humilhados, os dois times tendo vitórias fáceis, os dois times empolgados e os dois times sentados miseravelmente na guia da calçada esperando que o mundo acabe logo e de uma vez. Essa série deveria ser passada nos cursos de Psicologia como exemplo de "transtorno bipolar", é simplesmente patológico.

Na tentativa de compreender o comportamento desses dois times, como se fossemos um documentário de animais do Discovery, vamos dar uma olhada em 5 razões para o Houston ter saído de quadra ontem com a vitória.


1. A Argentina

Ao fim da partida, Aaron Brooks foi entrevistado ainda em quadra, e a primeira pergunta foi o que havia acontecido para que o Houston Rockets tivesse conseguido uma vitória tão impressionante. A resposta foi simples:

"Luis Scola!"

Foi ele quem aconteceu. Sem Yao Ming, o Houston não tem uma presença ofensiva no garrafão. Um anão tirando um cochilo de biquini seria uma ameaça ofensiva no garrafão maior do que Chuck Hayes, que está substituindo o chinês no elenco titular. Quando Yao recebia marcações duplas, tanto contra o Blazers quanto contra o Lakers, era Luis Scola o homem livre que deveria punir os adversários por ignorá-lo. Com Chuck Hayes em quadra, Scola nunca está livre mas tem uma pressão ainda maior de estabelecer um jogo no garrafão.

O Houston perdeu o jogo 5 por uns 40 pontos, tão humilhante quanto pagar peitinho no Big Brother. Um dos maiores motivos foi que, sem Yao, o time só tinha como recurso arremessar bolas de três pontos. No jogo anterior elas haviam caído, mas quando não caíram o resultado foi brutal. Dessa vez, com Scola assumindo a responsabilidade de pontuar debaixo do aro logo no começo, o time não se permitiu ficar apenas arremessando de fora, o que mudou completamente a história da série e pegou o Phil Jackson de calças curtas.

O Luis Scola fede mas simplesmente chuta traseiros, e ontem isso ficou mais óbvio do que nunca. Seu arremesso é feio e inconsistente, seus ganchos são desengonçados, ele não sai do chão e não tem a força física para se impor nem no ataque e nem na defesa. Justamente por isso, Scola comanda: joga para a equipe, faz tudo aquilo que for necessário (de cavar faltas de ataque a fazer café), escolhe as jogadas mais simples e contribui nas pequenas coisas. Não vai impedir uma cesta mas vai tomar uma trombada, não vai enterrar no Gasol mas vai girar com facilidade usando seu inteligente jogo de pernas. Scola é o exemplo perfeito do jogador que é bom porque é ruim, em que a inteligência e a consciência das próprias limitações levam o jogador à excelência.

No próximo jogo, Scola pode não ser tão efetivo, pode ser melhor marcado (no segundo tempo, sofreu marcação dupla em todas as bolas e caiu muito de rendimento), mas fará sua parte do modo que ele inventar na hora. Nem que seja lavando a louça, secando a quadra, vendendo pipoca.


2. O Phil Jackson é um cara legal

O Houston Rockets tem falhas óbvias, e o Phil Jackson é um dos melhores técnicos a já ter respirado na atmosfera terrestre. A única razão plausível para o técnico zen não explorá-las é porque ele é um sujeito bacana e quer manter a série equilibrada mesmo com o Houston sendo, obviamente, o time mais fraco. O exemplo mais importante é Chuck Hayes. Acho que todo mundo já viu como o sujeito cobra lances livres, parece que ele está em trabalho de parto ou tendo convulsões (talvez esteja). Na tempora regular, acertou 36% dos seus lances livres, algo que o Shaq conseguiria se arremessasse de costas. Para a sorte do Houston, Hayes não passa muitos minutos em quadra e, nunca, absolutamente nunca, está em quadra nos minutos decisivos.

Só que o Yao Ming é "made in Taiwan", como todos nós sabemos, e está com defeito de fabricação. Chuck Hayes, então, é titular e está o tempo todo em quadra. Se quisesse, Phil Jackson poderia ter usado a técnica do "hack-a-Shaq" (ou "faça uma falta intencional no Hayes para levá-lo para a linha de lances livres, mas tente ser mais explícito do que o Antoine Wright, por favor!") e o Houston seria obrigado a tirar de quadra esse epiléptico descoordenado.

Para quê fazer isso, você se pergunta? Afinal, Hayes é inútil no ataque e mantê-lo em quadra garante que o Houston jogue com apenas 4 jogadores no lado ofensivo. Acontece que Hayes é um excelente defensor no garrafão. Anão, nunca conseguiu sair do chão, mas marca de maneira física, incomoda e rouba muitas bolas, desviando passes. Ele nunca vai dar um toco, nunca vai contestar um arremesso, mas ele impede que Pau Gasol possa se aproximar da cesta e obriga o espanhol a arremessar por cima dele. Sua marcação ontem foi impecável e o Houston teria perdido muito de sua defesa sem ele em quadra.

Hayes também permite, simplesmente por existir, que o Lakers faça marcação dupla em outro jogador em todas as posses de bola do Rockets, porque é como se ele não tivesse braços. Apenas no segundo tempo isso aconteceu, e o Lakers chegou a cortar para 3 a vantagem monstruosa criada logo no primeiro quarto (o Houston começou o jogo com um sensacional 17-1). O Phil Jackson não gosta de dobrar, não gosta de faltas intencionais e não deve gostar muito de ganhar. Obrigado, tio Phil, nós vermelhinhos agradecemos.


3. A síndrome de Gilbert Arenas

Lembram-se quando o Arenas se machucou pela primeira vez (já não faz uns 15 anos que ele está sempre contundido?) e o Wizards, de repente, se tornou um time melhor? As explicações, dadas pelos próprios jogadores, eram duas. A primeira era que, sem sua maior arma ofensiva, o time precisava rodar mais a bola e todo mundo tinha que fazer sua parte. A segunda e mais bizarra era que, sem os pontos que Arenas sempre fazia, o time então tinha que se garantir na defesa e, portanto, apertou na marcação do perímetro. Por que eles não faziam isso ainda quando tinham o Arenas é uma pergunta sem resposta, mas acho que muitos times só fazem esse tipo de coisa quando a água bate na bunda.

A verdade é que sem Arenas o Wizards era um time mais frágil, menos confiante e muito limitado, o que a longo prazo ficou óbvio (eles fedem, afinal de contas). Mas a princípio sua saída foi benéfica em alguns aspectos. O mesmo acontece com esse Houston Rockets sem Yao Ming. Incapaz de fazer pontos no garrafão, o time agora roda a bola para conseguir encontrar espaço para arremessar de três pontos (com o chinês, isso era mais fácil porque sempre tinha um mané livre, malditas marcações duplas). Sem uma presença no garrafão, o time agora precisa se basear única e exclusivamente no pick-and-roll para conseguir se aproximar do aro. E, sem a defesa podendo afunilar o ataque adversário em direção do Yao (vai afunilar em direção do Hayes que tem 40 centímetros de altura?), a defesa do perímetro tem que apertar mais.

Arremessando mais de três pontos, aproveitando-se da defesa mais-ou-menos do Lakers, o Houston se coloca na posição de ter dias de mira calibrada e sair em vantagem. Usando o pick-and-roll sem parar, o Houston explora a maior (e mais famosa) deficiência defensiva do Lakers, incapaz de fazer coberturas (como tanto mostrou Chris Paul durante a temporada regular). E, por fim, apertando no perímetro, o Houston complica a vida de Kobe e permite que Gasol e Bynum tenham que decidir a partida lá dentro. Como pudemos ver ontem, "funhé!" para os dois homens de garrafão do Lakers.

A longo prazo, o Houston é pior, mais frágil e mais limitado. De fato, já o é, dependendo muito de bolas de três e de uma boa pitada de sorte. Mas é incrível como essas alterações que o Houston se viu obrigado a fazer casam perfeitamente com as fraquezas do Lakers. Não sei sei o técnico Rick Adelman teria mudado as coisas se Yao ainda estivesse podendo jogar, se foi puro acaso e obra da necessidade ou se foi uma série consecutiva de lances de gênio. Mas o Houston tem um transtorno bipolar positivo: aprendeu a jogar de quinhentas maneiras diferentes porque sempre tem alguma peça fundamental que pifou. Da maneira que está jogando agora, o Houston pode perder uma partida graças a um apagão do ataque no primeiro quarto, mas muitas coisas se encaixam e tornam uma vitória do Rockets nessa série uma real possibilidade. Talvez mais possível do que seria com Yao, ou do que seria para o Denver Nuggets. Será que o Nuggets pode colocar dois jogadores tão espetaculares em defesa no perímetro para encher o saquinho do Kobe Bryant, abusar dos pick-and-rolls, ter um jogador físico e nanico para obrigar o Gasol a arremessar? O Rockets deu sorte.


4. Os Zé-ninguém

Entrei em pânico, ao fim da temporada passada, com a possibilidade de que o Houston não renovasse o contrato de Carl Landry. Será que algum time lhe faria uma proposta muito alta? Fiquei rezando em silêncio para que nenhuma equipe da NBA tivesse percebido como ele é espetacular. O Bobcats percebeu e ofereceu 9 milhões de verdinhas por 3 anos. Acendi uma vela, pelamordedeus o Rockets precisa cobrir a proposta! Todo time precisa de um jogador produzido na máquina de fazer Jason Maxiells, que criou vários clones famosos como Paul Millsap, Leon Powe e Craig Smith. Só que o Landry, bizarramente, acerta arremessos da cabeça do garrafão.

O Houston cobriu a oferta, para minha felicidade, e aqui estão os resultados. Esse time já foi lento, pouco atlético e meio desanimado (provavelmente por causa daquele olho-meio-aberto do Tracy Mcgrady, meio "Amaral", que lhe dá aquela expressão de sono), mas com Scola, Battier e Landry, parece um bando de adolescentes naquele extinto programa que tinha a Tiazinha e a Feiticeira. Todo mundo corre, grita e se taca no chão como pino de boliche. Carl Landry enterra, pula pra burro, traz outra mentalidade pra equipe.

A mesma coisa acontece com Aaron Brooks. Rafer Alston era um armador burocrático, meio traumatizado com o estigma de ser "um armador da And1", só passava para o lado e tentava ser o herói dos jogos com arremessos inconsistentes de três pontos. Quando foi trocado por feijões mágicos, Aaron Brooks assumiu o barco assumidamente cercado por medo e receio. Seus arremessos também são inconsistentes e ele é um nanico, mas como aprendemos nas Ligas de Verão, Brooks é um pontuador nato. Rápido demais, bate para a cesta e ataca o aro. Com um pick-and-roll atrás do outro, invade o garrafão e dá pesadelos ao Lakers.

Com Yao em quadra, a bola vai para dentro do garrafão e depois para fora, obrigando Brooks a ser mais um arremessador. Sem Yao, Brooks não larga a bola e é obrigado a bater para dentro para evitar que a bola só fique no perímetro. Isso dá muito certo contra o Lakers, em especial. O armador lembra o Tony Parker em começo de carreira e não é sempre muito esperto, arremessa demais às vezes. Quando as coisas estão funcionando para ele, no entanto, o Houston é um time infinitamente melhor.


5. "Raça, manô!"

Culpa do Scola, culpa dos zé-ninguém, culpa da "síndrome de Gilbert Arenas", culpa do time ser tão bom jogando em casa, o Houston Rockets não sabe não estar empolgado numa partida. Jogam com uma energia inacreditável em cada posse de bola. Mais uma vez, isso se encaixa perfeitamente numa das fraquezas do Los Angeles Lakers: picados pela famosa mosca tsé-tsé, a mosca do sono, volta e meia a intensidade do Lakers simplesmente desaparece e eles cochilam em quadra.

Ontem, o Rockets ganhou na unha. Não foi na base da técnica do Scola ou dos arremessos certeiros do Aaron Brooks, foi na defesa mordida, nos pulos no chão para salvar bolas perdidas, no Artest atormentando o Kobe (que acabou, na frustração, empurrando o Artest que, por sua vez, saiu literalmente correndo da confusão, com medo de que ele espirrasse e fosse expulso - mas depois voltou para mostrar a língua quenem criança de 3 anos, "seu bobo, feioso!").




O Kobe estava puto, balançando a cabeça em reprovação, gritando com Pau Gasol no banco de reservas por tomar um pau do Scola, mas o resto do time estava querendo balançar numa rede e tomar uma caninha da boa.

Não acho que seja um problema de motivação, Phil Jackson sabe o que faz, creio apenas que seja como o time é, a junção coletiva de jogadores que não são tão intensos, que preferem a técnica, que desistem mais facilmente. Gasol, Odom, Bynum, Farmar, são todos jogadores sem muita confiança, um pouco temerosos, sem nunca saber exatamente se vão ser titulares ou não, se estão fazendo a coisa certa ou não. O espanhol, em particular, gosta do jogo técnico e não do jogo brigado. "Funhé!" pra ele, porque o Chuck Hayes nasceu para apenas três funções no mundo: abrir potes de picles, marcar o Nowitzki, e marcar o Pau Gasol.


É claro que, de certa forma, essa série chegar ao Jogo 7 é mérito do Houston Rockets, mas foi um pouco de sorte. Calhou do time ter aprendido, na raça, a jogar sem suas estrelas, de ter que modificar seu modo de jogar de uma partida para a outra. Calhou do Houston ter que explorar saídas que são, justamente (e talvez por puro acaso), pontos fracos do Lakers. E calhou, principalmente, do Lakers ser um time bipolar que não consegue manter a produção de um jogo para o outro, que sai mentalmente da partida facilmente, e que tem uma série enorme de fraquezas. Quantos séculos vão se passar até que esse time saiba defender um pick-and-roll? (se o Spurs tivesse o mesmo problema, teria sido destroçado pelo Suns ao invés de ter uma coleção de anéis em cada dedo).

comentamos aqui que essa temporada nos brindou com times favoritos muito, muito frágeis. Ninguém podia colocar o anel com antecedência simplesmente porque, quem acompanha o Lakers de perto, sabe que eles fedem um bocado às vezes, e quem acompanha o Cavs sabe como eles podem ser limitados no ataque quando são obrigados a jogar de forma mais lenta e cadenciada. Mérito do Houston por ter lutado bravamente e ter coroado esses playoffs com um Jogo 7 que, por si, já é uma vitória. Mas temos que ser realistas e apontar dedos: o Lakers é um time um tanto meia-boca para ser campeão. Pode vencer todo mundo, isso é verdade, mas pode tropeçar feio a qualquer segundo. O mesmo se aplica a todas as outras equipes que se mantém nos playoffs e não podemos apontar um favorito sequer, nem por um segundo. O Celtics está capenga, o Magic joga lideranças fora como se fosse o Silvio Santos tacando aviõezinhos no "Topa tudo por dinheiro".

Houston e Lakers se pegam no domingo, num imperdível Jogo 7. Abaixem as cabeças, crianças, porque será terra de ninguém. Qualquer um dos dois times pode ganhar por 40 pontos. Só que, se o Houston passar, não tem chances contra o Nuggets. Os cinco motivos acima não vão valer muito contra a equipe de Billups e Carmelo Anthony. Mas, desde já, sonho com mais um Jogo 7. Porque essa equipe me ensinou a fazer justamente isso, sonhar, acreditar, vibrar. Enquanto o Lakers, convenhamos, está ensinando outras coisas: ter medo, saber-se superior e mesmo assim fazer xixi na cama com o pavor de jogar tudo fora. Realidades muito diferentes que decidem tudo num jogo final. Preparem-se: vai ter chat do Bola Presa aqui, pra gente acompanhar ao vivo e se pegar no tapa. Não percam!