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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Spurs retocado

Splitter não se assusta com as enormes narinas de JJ Hickson

Podemos ficar oficialmente com medo do San Antonio Spurs? Desde sempre eles são aquele time que você pensa mil vezes antes de deixar fora da briga pelo título, e quando você toma coragem e afirma "é um bando de velho" eles aparecem lá para encher o saco. Ano passado o time surpreendeu acabando a temporada regular em 1º lugar no Oeste, mas caíram logo de cara nos playoffs. O que esperar da versão 2012 do Spurs que atualmente está em 2º na conferência, vêm de 9 vitórias seguidas e perdeu apenas 1 jogo em casa?

No ano passado os números de ataque eram absurdos, o segundo mais eficiente de toda a NBA. Mas ver o time correndo tanto e mandando bolas de 3 na cabeça de todo mundo era não só esquisito demais como também falhou na hora H, nos playoffs. Nessa temporada algumas coisas parecem diferentes, estão com um jogo mais consistente e vencendo com coisas mais confiáveis e resistentes que bolas de 3 de Matt Bonner. Ao invés disso eles tem Tim Duncan em boa forma, Tony Parker imparável nas infiltrações e, isso é bem importante, Tiago Splitter envolvido no ataque.

Quem nos lê há algum tempo sabe que não somos nem um pouco patriotas. Tipo, nem um pouco mesmo. Não gosto mais ou menos do Leandrinho do que gosto do Anthony Morrow, por exemplo. Por isso nada de patriotada em reconhecer a importância de Tiago Splitter nesse time do Spurs. Há anos que eles estão a procura de um parceiro de garrafão para Tim Duncan, e não só não encontram como veem Duncan envelhecendo e piorando cada vez mais. O Duncan de hoje em dia não tem metade dos recursos ofensivos que tinha até 2005, por exemplo. Até um tempo atrás a vontade era ter um jogador de garrafão que pudesse liberar Duncan para jogar na posição 4, de ala de força, mas hoje isso nem importa tanto. Duncan até rende melhor de pivô mesmo e apenas precisa de outro jogador que pegue rebotes e que o deixe descansar. Com menos minutos em quadra ele tem parecido menos cansado, mais veloz e, portanto, mais decisivo. Splitter tem tido valor duplo: Joga ao lado de Duncan ou na posição dele.

A presença de Splitter também é importante porque, nas palavras de Gregg Popovich, ele tem "uma inteligência para o basquete fora do comum". Ao saber se posicionar no pick-and-roll ele tem feito a vida de Tony Parker bem mais fácil nas infiltrações. Não que o francês não infiltre mesmo no meio de um corredor polonês, mas qualquer ajuda é bem vinda. E se aos poucos Splitter vai pegando pontinhos no ataque, na defesa ele também tem ajudado. Ele é um dos vários responsáveis pelo Spurs tomar 3 pontos a menos, em média, dentro do garrafão em comparação a temporada passada. Parece pouco, mas na média faz bastante diferença e a evolução de Splitter faz diferença nessa conta.

Contando os pontos marcados e feitos a cada 100 posses de bola, resultados parecidos em relação ao ano passado. O ataque marca 4 pontos a menos, a defesa sofre 4 pontos a menos. Como esses números se repetem em muitos times e até nas estatísticas gerais da liga, acho que podemos colocar isso na equação locaute + calendário + falta de training camp. Mas mais importante que os números totais é como o Spurs consegue ou evita esses pontos. Como citei acima, a defesa pode ter eficiência parecida no geral, mas melhorou no garrafão, justamente onde perdeu a série para o Memphis Grizzlies nos playoffs do ano passado.

No ataque alguns números ainda são bem parecidos. O time ainda marca 23% de seus pontos em bolas de 3 pontos, marca altíssima, a 5ª da liga, atrás apenas de atiradores pirados como Magic, Warriors, Nets e Clippers. Os pontos no garrafão ainda são os mesmos 42 por jogo, maior parte deles cortesia de Tony Parker, não tanto dos pivôs. Onde finalmente vemos um número que chama atenção pela mudança é nos pontos de contra-ataque. Ao invés de 15 por jogo como no ano passado, agora são só 11. O time não tem menos jogadores capazes de jogar assim, pelo contrário, mas simplesmente escolheu correr menos e tomar mais conta da bola. Não à toa o time subiu de 8º para 2º no ranking de turnovers por posse de bola, só o Sixers erra menos.

Com tantos chutadores de 3 pontos, como Gary Neal, Danny Green e mesmo Manu Ginóbili, o Popovich não tem muita opção senão usar o que tem e esperar que as bolas caiam. Mas por experiência em vencer o Suns ele sabe que somar bolas de 3 e correria já é suicídio demais, então baixou um pouco o ritmo da equipe e cortou erros. Ele Spurizou um pouco seu Spurs, pra não perder a identidade, acho. Outra coisa que mudou em relação ao ano passado é a distribuição de minutos. Na temporada passada 3 jogadores (Parker, Jefferson e Ginóbili) tinham mais de 30 minutos por jogo, com outros 5 tendo mais de 20. Nesse ano apenas Parker passa dos 30 e são 10 jogadores no total jogando pelo menos 20 minutos por jogo.

Com o time confiando em mais gente e poupando melhor seus jogadores, ao mesmo tempo que joga num ritmo menos alucinado, podemos esperar o Spurs pelo menos mais inteiro e com pernas nos playoffs, algo que pareceu faltar no ano passado. Mas a conclusão que podemos ter mesmo é que no fundo esse é o mesmo time de 2011, com alguns pequenos e pontuais ajustes. Embora isso possa soar desanimador, não é. O Spurs do ano passado teve muito azar. Pegou na pós-temporada um time que sempre o deu problemas, que estava em ótima fase e mesmo assim a série foi disputada. Todos os times venceram seus jogos em casa com exceção do Jogo 1, que o Spurs jogou sem Manu Ginóbili.

Se você pensar bem e com calma, lembrará que aquele time era sim muito bom. Apenas teve azar e alguns defeitos expostos naquela série. Mas ao invés do time entrar no desespero e querer tacar tudo para o alto, atacaram na medida do possível esses problemas. O ritmo é mais lento, o time erra menos, chuta duas bolas de 3 a menos por jogo (embora a porcentagem de pontos vindos desse tipo de chute seja a mesma, como vimos) e Tiago Splitter tem sido trabalhado para melhorar a defesa de garrafão. Somente na hora do vamos ver, de novo, saberemos se foi o bastante. Mas fizeram o possível e são o time em melhor forma na NBA no momento. Quer dizer, não que isso importe para eles, segundo o Richard Jefferson: "Em San Antonio sequências de vitórias não significam nada. Popovich ainda quer que a gente melhore e vai estar muito bravo a cada pedido de tempo".

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Na cagada

Jamal Crawford: cagado


Muita gente apontou entusiasmada, tanto aqui no blog quanto no Twitter, que acertamos em cheio com nossa leitura da série entre Grizzlies e Thunder. Esperávamos que o Grizzlies não usasse nenhuma marcação especial para Durant e Westbrook, neutralizando os passes para o garrafão e o perímetro, e forçando os desperdícios de bola de Westbrook com forte defesa e incentivando um ritmo acelerado de jogo. Para minha surpresa o Grizzlies mudou sim um pouco a defesa contra o Durant, dobrando com Randolph em algumas oportunidades, e usando uma tática defensiva que eu chamo de "enlouqueça o Dirk Nowitzki", que é marcar o Durant no perímetro o mais perto possível, umbigo com umbigo, forçando o jogador a ter que colocar a bola no chão para cortar o defensor. No mais, o Thunder realmente tropeçou na própria velocidade, os turnovers viraram pontos fáceis para o Grizzlies, e a alta pontuação de Westbrook e Durant não foram o bastante. Até os números que indicamos se mantiveram: depois de cometer quase 17 turnovers por jogo contra o Grizzlies na temporada regular, o Thunder cometeu ontem 18 (sendo 7 deles apenas do Westbrook). No duelo de duas fantásticas defesas, o ataque atrapalhado do Grizzlies não é tanto um problema - especialmente porque Randolph continua achando pontos fáceis e o Grizzlies garantiu que ele não será incomodado pelo Perkins no garrafão, colocando nosso gordinho contra o Ibaka ou nos arremessos de média distancia (que o Marc Gasol também acertou, bem longe do titio Perk). Então eu desconfiava que, se a defesa do Grizzlies funcionasse do mesmo modo que conseguiu contra o Spurs, engoliria o Thunder. E tá lá, engoliu.

Essa leitura acertada da série não esconde, no entanto, o fato de que errei miseravelmente na série entre Magic e Hawks - e nem impede legiões de leitores frustrados de me cobrar diariamente uma retratação lá no nosso formspring. Que o Magic iria perder a série quase ninguém imaginava, erro normal, mas eu não tive receio de dizer que a série seria uma vergonha, uma lavada histórica do Magic, e que ninguém deveria sequer se dar ao trabalho de assistir a um jogo dessa palhaçada. Funhé. Disse a mesma coisa nos playoffs passados, quando o Magic eliminou o Hawks pela maior margem média de pontos da história da NBA, mas dessa vez as coisas simplesmente não funcionaram como o esperado. No primeiro jogo, o Magic claramente perdeu por ter acionado demais Dwight Howard, algo que gera turnovers demais e tira completamente os arremessadores do jogo, porque o pivô não consegue passar a bola para o perímetro. O Magic arrumou isso, isolou menos o Dwight nos outros jogos, passou até a fazer mais pick-and-rolls, que estavam faltando, entre Dwight e Jameer Nelson. E, mesmo assim, foi eliminado em 6 jogos. Era de se imaginar então que o Hawks tivesse tido atuações espetaculares, um plano tático fantástico, tivesse tirado o Magic de sua zona de conforto e vencido a série na raça, na unha. Mas não. O Hawks continua uma merda.

A defesa de perímetro da equipe de Atlanta é boa, sem dúvida, mas a rotação defensiva é uma vergonha. Isso quer dizer que eles defendem mal o pick-and-roll e não conseguem parar os arremessos de equipes que giram bem a bola, algo que sempre foi característica dos arremessadores do Magic. O Hawks fez um bom trabalho defensivo, Josh Smith se sacrificou na série saindo do garrafão e marcando arremessadores (o que é certamente seu ponto fraco defensivamente), e mesmo assim o Magic conseguiu um trilhão de arremessos simples de três pontos de jogadores que saíam do corta-luz completamente livres - só que ninguém converteu. É verdade que o Magic insistiu demais em jogadores isolados criando arremessos no perímetro e não rodou a bola como estava acostumado, mas ainda assim é seguro dizer que o Magic não forçou muitos arremessos idiotas. Tentou na maior parte bons arremessos, com distância dos marcadores, de jogadores recebendo livres. Só que nada caiu.

Os números são completamente assustadores: o Magic, como time, acertou apenas 26% dos seus arremessos de 3 pontos. JJ Redick, o especialista da equipe e que em geral só arremessa em jogadas desenhadas para que ele saia livre, acertou 1 dos 15 arremessos de três pontos que tentou. Turkoglu, o jogador que mais arremessou de 3 pelo Magic na série, acertou 7 de suas 30 tentativas. Jameer Nelson acertou 6 em 26 arremessos. Jason Richardson, o jogador que mais converteu bolas de 3 pontos na última temporada, acertou 8 em 25 arremessos (além de estar mal na série, conseguiu a proeza de pisar em vidro em casa e jogar a última partida com trocentos pontos no pé). Sempre dissemos que o Magic vivia e morria nas bolas de 3 pontos, podia abrir uma vantagem repentina de 40 pontos de uma hora para a outra, e perder a mesma vantagem numa fase ruim durante o mesmo período. É um time com muitos altos e baixos, típico de quem aposta nas bolas de fora, mas quando chegaram numa final da NBA ninguém mais questionava a tática. Ficou bem claro que os momentos bons compensavam os ruins e que numa série de 7 jogos é difícil manter a seca nos arremessos por muito tempo. Mas foi o que aconteceu com o Magic, e eu sequer posso dar o mérito para o Hawks por isso. As bolas não caíram mesmo quando eram arremessos simples, bem desenhados. Se existem culpados, além do azar a que times construídos assim se sujeitam a enfrentar, é o psicológico da equipe completamente abalado depois das trocas quando nenhum jogador sabia exatamente qual era seu papel, quando devia arremessar ou passar para o lado, quando dar o passe a mais ou quando forçar o arremesso e assumir a responsabilidade. Ninguém soube definir as funções desse elenco e isso teve os piores resultados possíveis durante essa série.

O mérito do Hawks foi conseguir construir uma boa defesa de garrafão para incomodar o Dwight Howard. Jason Collins mostrou que tem físico e posicionamento para atrapalhar o jogo atlético do pivô, a defesa soube apertar o garrafão para roubar bolas do Dwight constantemente, e souberam jogar com força e intensidade inclusive na hora de cometer faltas e deixar o Howard cobrando lances livres a noite toda (e cortando o ritmo do resto da equipe do Magic). Mas assim que perceberam que o Dwight não iria ganhar sozinho, que o Magic era pior acionando demais o pivô, e que o perímetro do Magic estava catastrófico, o técnico Larry Drew tirou Jason Collins e nada de ruim aconteceu. Não foi punido por isso. Conseguiu usar formações mais baixas, dando mais minutos para Jamal Crawford, Kirk Hinrich e Marvin Williams sem sofrer o peso de não ter um pivô de verdade para defender Dwight. Ou seja, a única cartada do Hawks sequer precisou ser utilizada, porque o Magic não confia no seu pivô, não sabe procurá-lo quando ele conquista posicionamento, e não acertou bulhufas no perímetro. Foi um total e completo desastre. O próprio Dwight deu os parabéns para o Hawks por não ter se desmontado apenas para ir atrás de um pivô para pará-lo, como fez o Cavs (ou o Suns para tentar vencer o Spurs). Mas esses parabéns significam simplesmente que o Hawks não precisa se preocupar com o Dwight se o resto do Magic não fizer o que deveria, o time não fez, e o Hawks vai para a semi-final de conferência. Mesmo sendo o time mais fraco. Mesmo não tendo vencido a série taticamente. Mesmo sendo uma porcaria.

A defesa do Hawks é o ponto positivo, eles conseguem vencer alguns jogos bem feios, mas o ataque se baseia em jogadas de isolação e arremessos forçados. Não há uma presença física no garrafão que atraia a marcação, o Al Horford se sente mais confortável arremessando da cabeça do garrafão. O Jamal Crawford acertou 17 bolas de 3 pontos (quase metade do que o Magic acertou coletivamente) e não consigo lembrar de uma única bola dessas que tenha sido pensada, construída, conquistada. Mesmo o arremesso do Crawford que venceu o jogo 3 foi forçada, ridícula, improvável e bateu na tabela antes de entrar. Enquanto isso, o Magic podia levar o jogo 6 para a prorrogação com um arremesso bem construído de JJ Redick, deixado livre na jogada, mas que não entrou - lembremos de novo, ele só acertou um dos 15 que tentou! Jamal Crawford foi demais para a defesa do Magic, foi a única força no perímetro da equipe e manteve o ataque do Hawks funcionando apesar de não haver nada trabalhado ali. O Hawks é um time muito, muito, muito ruim quando está atrás no placar, algo típico de equipes que não conseguem pontos fáceis, que não possuem um jogador capaz de decidir com facilidade ou uma jogada de segurança. O Magic e suas bolas de 3 pontos aleatórias costumam criar vantagens do nada, e bastaria isso acontecer uma única vez para o Hawks desmontar e não conseguir recuperar o placar. Mas as bolas do Magic nunca caíram, e o Jamal Crawford e suas bolas improváveis mantiveram o Hawks ofensivamente no jogo evitando que ficassem atrás no marcador.

Por mais defeitos que eu encontre nesse Bulls, e por mais problemas que Derrick Rose tenha tipo ao enfrentar um bom defensor como Paul George na série contra o Pacers, creio que o Bulls ainda tem tudo para deixar bem explícito como o Hawks está nas semi-finais por cagada. O Hawks tem problemas em parar armadores rápidos, é o ponto mais fraco da defesa, e a defesa do Kirk Hinrich (que foi tão importante contra Jameer Nelson) não estará presente, porque o Capitão Kirk lesionou a coxa e pode ficar fora a série inteira contra o Bulls. Derrick Rose será contestado apenas no aro, onde poderá acionar seus companheiros e quebrar a defesa do Hawks. O grande jogador de garrafão do Atlanta gosta de ficar nos arremessos de média-distância como o Boozer, então até ele se sentirá mais à vontade na defesa quando voltar de sua lesão num dedo do pé. Jamal Crawford e suas bolas aleatórias agora serão contestadas por uma das melhores defesas de perímetro da NBA, com um jogador designado apenas para ficar no seu cangote. Eu sei que eu já disse isso da série contra o Magic, sei que eu já disse isso ano passado, nos playoffs passados, mas isso aqui vai ser um massacre. Daqueles de desistir da NBA e levar a namorada no cinema. Eu sei, o Crawford pode acertar bolas espíritas, as jogadas individuais do Hawks podem estar num bom dia, Al Horford pode encontrar espaço se o Boozer feder e o Noah não sair de perto do aro, e o Derrick Rose pode comprometer a equipe se forçar demais o ritmo de jogo e cometer muitos turnovers (algo pelo que o Hawks reza, já que eles não sabem pontuar de outro jeito). Mas nada disso deve acontecer se as leis da física estiverem em vigor. Minhas reclamações do Bulls são porque eu sou chato e detalhista, contra o Hawks o Bulls é um time perfeito, uma Alinne Moraes para o Hawks versão Playboy-da-Mara-Maravilha.

Por isso mesmo, o jogo que importa hoje é Lakers e Mavs. Esse sim será disputado - aliás, mais disputado do que muita gente está achando por aí. Fisher está aliviado porque só terá que marcar Jason Kidd, o grande ponto fraco da defesa do Lakers não será explorado, mas o armador vovô do Mavs está com a mão calibrada nos arremessos e isso pode complicar bastante a defesa do Lakers. Aliás, como o Lakers lidará com a marcação do Nowitzki será algo para estudo: ele se incomodaria muito com o Artest marcando colado, mas alguém do garrafão vai ter que sair para contestar os arremessos. Por alguém, quero dizer provavelmente o Gasol, que anda mal defensivamente - e isso tem tudo para abrir espaço para rebotes ofensivos caso os grandões do Mavs, como Tyson Chandler e Brendan Haywood joguem o que sabem. O Lakers mostrou na série contra o Hornets que é muito melhor quando coloca a bola no garrafão, então Chandler e Haywood vão ser os responsáveis por manter a série competitiva. O Mark Cuban não tevo medo de gastar toda sua grana pra trazer alguns pivôs capazes de incomodar o Lakers - sabe, aquilo que o Dwight criticou que algumas equipes fazem e se lascam. Se der certo, teremos uma série bacana. Esqueçam Hawks e Bulls, troço chato, o negócio é ficar de olho nos pivôs do Mavs e o que eles representam: uma possível série competitiva contra os atuais campeões.

domingo, 1 de maio de 2011

Defesa contra defesa

Zach Randolph não consegue sair do chão, mas manda lembranças


Apenas duas vezes na história, em séries de melhor de 7 jogos, um time classificado em oitavo lugar para os playoffs venceu o primeiro colocado de sua conferência, as duas vezes no Oeste: em 2007 o Warriors derrotou o Mavs, ampliando a fama de amarelão de Nowitzki e seus amigos, e agora em 2011 o Grizzlies eliminou o Spurs. O Grizzlies. Eliminou. O Spurs.

O Suns já teve sua vingança fora de época quando eliminou o Spurs dos playoffs passados depois de uma vida inteira tomando na cabeça, mas aquele Spurs era um time questionado, cheio de problemas, pela primeira vez em uma década inseguro e sem uma identidade própria. O Spurs que acabou de ser eliminado pelo Grizzlies, pelo contrário, parecia ter encontrado uma nova identidade, mais rápida e ofensiva, abraçado de vez a ajuda de jogadores jovens, e havia conquistado a melhor campanha do Oeste com sobra considerável. Ninguém achava estranho que Gary Neal tivesse papel fundamental nas bolas de três, que Matt Bonner fosse arma ofensiva no perímetro, que Richard Jefferson tivesse aceitado ganhar menos dinheiro e treinado à parte como um maluco na offseason para se encaixar no esquema da equipe, e que o Duncan tivesse papel cada vez mais secundário no ataque. O técnico Popovich achava tudo isso muito estranho, é verdade, mas contra a melhor campanha não se questiona. Aceitamos a mudança de identidade do Spurs, vibramos com o novo estilo de jogo, chutamos que eles estariam sem dúvida na final do Oeste. E se questionamos qualquer coisa sobre essa equipe agora - se passamos a perceber as lesões de Duncan e Ginóbili, a fragilidade defensiva, a falta de tamanho, o ritmo exageradamente acelerado -  é única e exclusivamente por culpa do Memphis Grizzlies. Sim, o Spurs tem problemas sérios, uma crise esquizofrênica de identidade, e vai ter que resolver isso para a próxima temporada. Mas nada, absolutamente nada, pode tirar o mérito do Grizzlies por ter derrotado a melhor campanha do Oeste. Sem as atuações monstruosas do Grizzlies, ainda estaríamos achando que estava tudo bem o Spurs correr como um time biruta e o Matt Bonner ter que defender o garrafão.

Comentei bastante por aqui sobre a mudança de postura no Grizzlies e como ela está relacionada com a chegada de Tony Allen, mas é a tática defensiva da equipe que me mais me fascinou durante a série. Foi fundamental que eles se jogassem no chão em todas as jogadas, lutassem por todas as posses de bola, e que acreditassem verdadeiramente que podiam vencer o jogo mesmo quando estavam atrás no placar no final de um jogo decisivo. Mas a obediência tática na defesa é que tornou a vida do Spurs um inferno a ponto de que a equipe mais gelada da NBA, aquela que boceja frente ao fim do mundo e que tem na cara-de-nada do Duncan sua maior representação, não conseguisse encontrar uma jogada segura para definir os jogos nas horas mais importantes. Lembra quantas vezes o Ginóbili simplesmente foi isolado na cabeça do garrafão contra o Suns para matar bolas importantes e vencer partida atrás de partida? Contra o Grizzlies, Ginóbili não podia ser isolado com segurança, nenhum passe era seguro, o Spurs quase chegou ao ponto de chutar a bola pra fora da quadra e correr para as colinas. E tudo por uma simples razão: o Grizzlies não marcou um jogador específico, mas sim um estilo de jogo inteiro.

Ao invés de dobrar a marcação em Duncan (como o Suns já tentou) ou mobilizar três defensores para afunilar Ginóbili e obrigá-lo a passar a bola no garrafão (como o Celtics faz com LeBron), o que o Grizzlies fez foi defender o estilo de jogo do Spurs, fosse quem fosse em quadra, estivesse a bola nas mãos de quem estivesse. A defesa de perímetro se focou inteiramente em atrapalhar o melhor time em bolas de 3 pontos da NBA, a zona morta foi neutralizada, e a ajuda defensiva foi trabalhada à exaustão para aniquilar os passes para fora do garrafão que são a alma do que o Spurs faz em quadra. Quanto mais rápido o Grizzlies jogava, quanto mais eles aceleravam o ritmo em quadra, mais o Spurs caía nessa armadilha de correr pro ataque e, encontrando um forte garrafão defensivo, ter que passar a bola para fora - rumo a uma interceptação. Aliás, nem precisa ser uma interceptação, porque o Grizzlies aprendeu a nobre arte do "deflection", uma estatística que misteriosamente não aparece nas planilhas: é a bola desviada, cutucada, que pode gerar um roubo de bola ou não. Se todo passe do Spurs recebe um "deflection", e o Grizzlies é o melhor time da NBA em forçar turnovers do seus adversários, não dá pra fazer nada com tranquilidade, sem fazer xixi na calça. No fundo, o que o Grizzlies fez foi incomodar ao máximo, mas deixar o Parker ser o Parker, o Ginóbili fazer suas ginobilísses, e o Duncan tentar se impor no garrafão. O que eles marcaram foi a nova identidade do Spurs, e não seus membros individuais.

Hoje, às 14h, o Grizzlies enfrenta o Thunder pela semi-final da NBA e eu estou morrendo de curiosidade: será que a defesa será mantida? Porque a tentação, claro, é criar uma defesa especial para o Durant que o obrigue a sair de sua zona de conforto. Mas se a tática usada contra o Spurs for colocada em prática, Durant será apenas incomodado com uma marcação simples e tudo que sair do normal é que será colocado em risco: toda bola passada para fora, todo passe que buscar o garrafão, as infiltrações na linha de fundo. A ideia é que nenhuma decisão ofensiva será segura e Durant será forçado a ser o Durant em cima de uma boa defesa individual, nada mais. Foi isso que alucinou o Spurs, saber que a bola não pode ser trabalhada, que não dá pra jogar na correria, na improvisação, e que a ajuda defensiva do lado fraco da bola é sufocante. Será que isso funcionaria com o Thunder?

O Grizzlies e o Thunder são equipes muitíssimo parecidas, gostam de jogar na velocidade, forçam um aumento no ritmo de jogo, marcam bem o garrafão e suas defesas fantásticas forçam erros do adversário que geram pontos fáceis. A principal diferença é como os pontos saem quando não são fáceis. O Grizzlies joga quase o tempo todo de costas para a cesta com Randolph e Gasol, passando para jogadores que cortam para a cesta no resto do tempo. O Thunder, pelo contrário, quase não tem jogo de garrafão e faz a imensa maioria dos seus pontos em jogadas de isolação com Durant e Russell Westbrook.

Por um lado, marcar as jogadas de isolação não é o ponto forte do Grizzlies. Com Tony Allen e Shane Battier, estão munidos de bons defensores individuais, mas a força mesmo dessa defesa está na ajuda defensiva e na interceptação dos passes para o perímetro. É bem óbvio que, pelo seu estilo de jogo, o Spurs sofreu muito mais com essa defesa do que o Thunder jamais sofrerá. Mas por outro lado, o Westbrook é um daqueles armadores que deixa o cérebro de molho em casa antes de ir para a quadra, exagerando nas corridas de contra-ataque, forçando o jogo e tentando improvisar passes para os seus companheiros. Contra o Grizzlies, isso é uma cilada, Bino! O time dos ursos tem a melhor defesa de transição da NBA, vai fechar os arremessos fáceis, e vai fazer com que o Westbrook se atrapalhe todo no ataque e gere um bilhão de turnovers sem parar.

Mas o Grizzlies também não vai ter facilidade no ataque porque o Thunder tem uma das melhores defesas de garrafão da liga e a melhor marcando jogadas de isolação, ou seja, não sobra nada para fazerem com tranquilidade na quadra ofensiva. Com Perkins e Ibaka na cobertura, o garrafão ofensivo do Grizzlies vai finalmente ter um desafio de verdade simplesmente porque nenhum deles é o Matt Bonner. E se o Tony Allen já é uma das coisas mais horríveis desde a Playboy da Mara Maravilha quanto tenta bater sozinho rumo à cesta, imagina o desastre que vai ser quando ele fizer isso contra o Thunder.

Nem de longe vou apostar num resultado para a série, acho que futurologia só deveria ser permitida se você tem cabelo loiro de laquê e chama Walter Mercado. Mas aposto em algumas coisas que vão decidir a série. Durant será marcado por jogadores menores como Tony Allen e Shane Battier, e vai destruir. É normal, ele vai destruir sempre não importa o que aconteça. Mas Russell Westbrook vai cometer muitos erros, perder muito a bola, e todo o resto do Thunder vai acabar ficando completamente fora da partida. Como o ataque do Grizzlies vai sofrer um absurdo, a série vai ser decidida não por quantos pontos o Durant vai fazer, mas por quantas cagadas o Westbrook vai cometer gerando pontos fáceis pro Grizz. Grande parte do ritmo ofensivo do Thunder está nos lances livres, o time inteiro é agressivo ao atacar a cesta e sempre que as coisas estão dando errado, lá vão eles para a linha de lances livres. Essa tática pode destruir o Grizzlies se tirar Marc Gasol do jogo. Mas quanto mais agressivo o Thunder for, mais cagadas vai cometer, mais turnovers vão ser forçados.

O confronto das duas equipes na temporada regular (que o Grizzlies venceu por 3 a 1) não tem muito valor porque o Perkins não esteve em todos os jogos e ele é a alma da defesa de garrafão - lugar em que o Grizzlies marca a maior parte dos seus pontos. Mas na temporada regular, o Thunder cometeu quase 17 turnovers por jogo contra o Grizzlies, números surreais e que tornam a vida dos ursinhos tão, tão mais fácil. Aí está a chave da série, que será bem diferente do que os dois times enfrentaram até agora. O Nuggets era um time nervoso, incapaz de definir no final dos jogos, enquanto o Grizzlies é gelado e acredita realmente que pode vencer a bagaça. E o Spurs era um time cansado, com menos intensidade, força e tamanho, enquanto o Thunder é um time dez vezes maior do que o Grizzlies e tem tudo para vencer na base da força. O Thunder não pode se dar ao luxo de cozinhar o jogo devagar e virar o placar no final, porque não vão existir pontos fáceis e o Grizzlies sabe manter a compostura. Mas o Grizzlies não vai poder vencer no braço, e vai ter seu jogo de garrafão marcado por uma das melhores defesas possíveis debaixo do aro.

A série vai ser tão empolgante que eu deixo Celtics e Heat, às 16h30, como simples nota de rodapé. Essa é outra série que a temporada regular não vale pra muita coisa, porque o Celtics é um time diferente agora - muito pior sem Perkins - enquanto o Heat demorou demais para virar um time de verdade, mas engrenou. Nessa série as questões são ainda mais indefinidas e exigem a análise do que acontecerá no primeiro jogo: o Heat não tem um time definido para colocar em quadra, não sabe quem armará o jogo e nem qual é sua rotação no garrafão; o Celtics não sabe quem estará saudável, se Shaquille O'Neal se recuperará a tempo ou não. São duas das melhores defesas da NBA se enfrentando, mas o Celtics cada vez mais abandona os rebotes em nome de manter sua defesa intacta, o que pode dar uma vantagem justamente para o garrafão do Heat, que é a parte mais frágil da equipe e onde todo mundo aponta que estará a derrota da equipe. O que pode desequilibrar a série mesmo é o banco de reservas do Celtics, especialmente se os jogadores de garrafão estiverem saudáveis, porque uma hora o Heat vai ter que sentir falta de ter seres humanos na reserva, né?

Assim que essas questões estiverem respondidas, voltamos pra cá com uma análise bacanuda. Mas antes disso, ainda hoje, tem uma análise do que aconteceu com o Orlando Magic - e uma rápida passada pelas séries que começam na segunda, Hawks contra Bulls e Lakers contra Mavs. Até lá!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O Spurs sempre será o Spurs

O Denis analisou o jogo 5 entre Spurs e Grizzlies, comentando sobre as mudanças táticas no Spurs nessa temporada, a defesa do Grizzlies e o arremesso final de Gary Neal que levou o jogo à prorrogação - e então à vitória do Spurs. Mas o site NBA Playbook fez um trabalho tão genial analisando as últimas posses de bola da equipe de San Antonio que é impossível não compartilhar aqui algumas conclusões que essa análise nos traz num mini-post de sobremesa para quem leu o post anterior, prato principal.

1) O Spurs sempre causa medo com as bolas na zona morta

A análise da jogada no NBA Playbook está aqui. Com 14 segundos no cronômetro, o Spurs optou por não tentar uma bola de 3 pontos. Ao invés disso, Duncan recebe a bola no perímetro e dá um passe certeiro para o Ginóbili finalizar com uma bandeja simples. Tony Allen estava marcando o Ginóbili e ele opta por proteger uma possível bola de 3 do argentino, liberando o jogador do Spurs para uma corrida rumo à cesta. Mas porque a ajuda defensiva não bloqueia o caminho do Ginóbili? Porque o Shane Battier, responsável por essa ajuda, está se borrando de medo de deixar alguém (no caso Gary Neal) livre na zona morta. É justo, o banco do Spurs é o banco que mais converte bolas de 3 na NBA, e a zona morta sempre foi uma das principais armas da equipe na época de Bruce Bowen. Quantos jogos o Suns não perdeu por culpa de uma maldita bola de 3 pontos na zona morta? Mas, como o Denis indicou, o Spurs está tentando apenas metade dos arremessos na zona morta que tentou na temporada regular, estão bem marcados e nenhum jogador mais é especialista na área. Mas é isso, os arremessos daquele região vencendo jogos para o Spurs fazem parte do nosso imaginário, e então o Shane Battier preferiu permitir a bandeja do que desgrudar do Gary Neal.

2) O Duncan sempre causa medo mesmo sendo velho e tendo cara de bobo

A análise da jogada no NBA Playbook está aqui. Com menos de 2 segundos no cronômetro e precisando de uma bola de 3 pontos, o Spurs faz uma série de corta-luzes na cabeça do garrafão para liberar alguém pra receber a bola e o Grizzlies faz a escolha correta: ao invés de lutar contra cada corta-luz, os marcadores fazem a troca, ou seja, quem parar no corta-luz passa a marcar o adversário que fez o corta, e quem estava marcando esse jogador passa para o próximo adversário em movimento, evitando assim o corta-luz. Tudo lindo e maravilhoso, até que Shane Battier - de novo - decide que não vai fazer a troca de marcação. Porque para isso ele teria que sair do Tim Duncan, ali paradinho na linha de lance livre, e todos nós sabemos do que o Duncan pode ser capaz quando está livre nos segundos finais de um jogo, né? Mas por ter ficado no Duncan, Shane Battier deixa Gary Neal livre, e graças às trocas seria ele o responsável por fechar no armador do Spurs. Neal arremessa uma bola de 3 com bastante espaço, converte e leva o jogo para a prorrogação, enquanto o Duncan (que só poderia fazer uma bola inútil de dois pontos) estava muito bem marcado. Pois é, na hora final dá cagaço de deixar o Duncan livre, mas era a única coisa inteligente a se fazer.

3) O Spurs sempre recebe ajuda de algum jogador aleatório

O Battier errou nas duas marcações e ele é simplesmente um dos melhores defensores da NBA. Ele tem responsabilidade pelo erro, claro, mas o peso do Spurs, a fama do Spurs, acaba tendo um papel fundamental em como os jogadores reagem ao time na hora de defender uma posse de bola fundamental. Mas no fim das contas, erro de marcação ou não, quem acertou a bola final foi Gary Neal - mais um para a imensa lista de jogadores eleatórios que já salvaram o Spurs em jogos decisivos de playoffs. Mas quão aleatório é o Gary Neal, afinal? Basta dar uma lida nessa história que o Denis publicou um mês atrás no seu filtro semanal:

Vocês sabiam que o Gary Neal, o novato-sensação (como diria a RedeTV!) do Spurs, teve um caminho complicado pra diacho pra chegar na NBA? Eu não sabia. No seu segundo ano de faculdade foi acusado de estupro e perdeu sua vaga no time. No fim ele foi inocentado, pelo jeito foi um caso de sexo entre bêbados em uma festa, mas mesmo com a inocência oficial não foi recebido de volta e teve que caçar outro lugar pra jogar.

Ele acabou indo para uma faculdade bem pequena e sem renome, Towson, onde passou por zilhares de entrevistas para ser aceito. Depois dessa história é claro que passou em branco pelo Draft da NBA e aí foi para Turquia, Espanha e depois Itália, onde milagrosamente recebeu uma chance do Spurs. Aliás, milagrosamente não, por méritos dele e dos melhores olheiros do planeta. Neal é uma das razões para o Spurs ser um dos melhores time da NBA em bolas de 3 pontos nessa temporada. A história dele tem mais detalhes nesse link do Spurs Nation.

Desastre anunciado

Pois é, foi daí que o Manu acertou o arremesso dele


Foi por pouco, por muito pouco. O Memphis Grizzlies estava a 1.7 segundo de eliminar o San Antonio Spurs, vencer sua primeira série de playoff na história, causar uma zebra do tamanho de um elefante (só pra ficar no mundo animal) e tudo isso, é sempre bom lembrar, sem o Rudy Gay! Ficou no quase porque o técnico Gregg Popovich resolveu colocar o trabalho de um ano inteiro nas mãos de um novato. Ele desenhou uma jogada para Gary Neal, que meteu a bola de três pontos que levou o jogo para a prorrogação e salvou o Spurs das férias indesejadas. Não que vocês não saibam disso tudo, devem ter visto o jogo ou visto o resumo hoje cedo, mas estou colocando tudo isso no papel (ou na tela) para ver se acredito. Alguém alguns meses atrás imaginaria que esse parágrafo pudesse ser escrito de maneira séria?

São muitas coisas estranhas acontecendo e a primeira a gente já alertou durante a temporada regular. Nesse post sobre o Spurs eu disse que eles estavam se parecendo mais com os times que estavam acostumados a vencer, ofensivos, velozes, baseados nas bolas de 3, do que com o "clássico" Spurs defensivo, pragmático e entediante. Acabaram o ano com o segundo melhor ataque da NBA e 11ª melhor defesa, números parecidos com o Phoenix Suns de alguns anos atrás que eles enjoaram de vencer. A fragilidade defensiva era ainda maior quando o Popovich, por falta de opção provavelmente, usava formações que favoreciam as bolas de três pontos ao invés do poder defensivo, foi o aproveitamento insano nas bolas de longe que fizeram o Matt Bonner ser mais usado que o Tiago Splitter durante todo o ano, por exemplo.

O discurso do Popovich e dos jogadores nunca mudou, eles sempre disseram que queriam voltar a ser um time defensivo, mas na prática não mudaram muita coisa, preferiram seguir com esse plano estranho que estava garantindo uma vitória atrás da outra na temporada regular. Eles falharam em perceber alguns sinais importantes, porém, como alguns jogos contra o Lakers e o próprio Grizzlies em que foram engolidos vivos pelos fortes garrafões das duas equipes. Claro que venceram jogos contra eles também, mas ficou bem claro que quando eles enfrentavam um garrafão alto e em boa forma, não sabiam como responder defensivamente e precisavam de dias inspirados nas bolas de três para vencer. E, como todo mundo no mundo do basquete sabe, nada é tão perigoso quanto depender dessas bolas de longa distância, é a bola mais irregular e imprevisível do basquete, uma temporada pode ir para o ralo em um dia ruim.

O Grizzlies provavelmente sabia disso. Perdeu alguns jogos bobos no final da temporada regular quando poderia avançar até a 6ª posição no Oeste e deu a impressão (que eles negam) de que estavam escolhendo enfrentar o Spurs. Verdade ou não a gente nunca vai saber, mas se foi intencional, foi inteligente. Na temporada regular eles fizeram jogo duro para o Spurs e têm as qualidades que mais os incomodam, a começar pela dupla de garrafão mais entrosada da NBA com Zach Randolph e Marc Gasol. Sim, o outro Gasol e o Andrew Bynum são do caralho e Serge Ibaka e Kendrick Perkins são a perfeita combinação na defesa, mas atualmente ninguém é páreo para o entrosamento da dupla do Memphis. Eles executam muitas jogadas um com o outro, ambos passam bem a bola e ainda são potências nos rebotes de ataque.

Como o Spurs usa muito o Tim Duncan no ataque, principalmente fazendo a maioria dos bloqueios e corta-luzes dos pick-and-rolls, que são responsáveis por 27% das ações ofensivas do Spurs (disparado a jogada mais usada por eles), eles liberaram o TD do fardo físico e perigoso, pelas faltas, que é marcar o Zach Randolph. Isso resultou num banho do Z-Bo para cima do Antonio McDyess e, principalmente, do Matt Bonner. Aliás, parece uma ordem bem clara do técnico Lionel Hollins para os seus jogadores: se Bonner está em quadra a jogada é simplesmente acionar quem está sendo marcado por ele, sucesso garantido.

Isso obriga Popovich a usar menos o Bonner e no lugar dele não pode colocar uma escalação mais baixa, que também seria explorada do mesmo jeito pelo garrafão forte do Grizzlies, então tem que colocar o McDyess e, nos últimos jogos, Tiago Splitter. O DeJuan Blair, titular durante muito tempo, é solenemente ignorado e não me pergunte o motivo. Todas essas opções, mesmo quando McDyess e Splitter jogam decentemente, não são o bastante para vencer a disputa no garrafão e ainda tiram as bolas de três do Spurs. O Spurs não tem opção, é na defesa que o Grizzlies está vencendo essa série.

O ótimo site NBA Playbook fez um post só para explicar como o Grizzlies está parando o ataque do time de Popovich. A principal estratégia está em limitar as bolas de três pontos ao mesmo tempo que não abrem um corredor para infiltrações. Na jogada que ele dá de exemplo abaixo, a ajuda fecha a infiltração de Parker mas sem que ele tenha espaço para tocar para Bonner nos três pontos, resta um arremesso longo de dois para Tim Duncan. E nem é da posição onde ele pode usar a tabelinha.



Vale reforçar também o empenho com que todo mundo no Grizzlies está correndo em toda santa posse de bola para cobrir as opções mais óbvias de passe depois de cada corta que o Spurs faz. É um trabalho digno de defesa do Celtics. Em muitas vezes eles sabem onde dobrar, onde ajudar e o cara que fica livre é sempre o mais distante da bola, obrigando o Spurs a passes complicados, longos ou infiltrações em um garrafão congestionado. Outra decisão importante está em tirar o arremesso da zona morta; se deixam alguém livre de três, não é lá. É o arremesso favorito do Spurs, tentavam 8 desses por jogo na temporada regular, e agora estão tentando só metade e sempre marcados. A bola na zona morta era a válvula de escape deles e não está funcionando. Para compensar o Spurs precisa  passar mais a bola no perímetro e forçar jogadas individuais, deixando aparecer ainda mais as qualidades defensivas de Shane Battier, Tony Allen e as mãos rápidas do Mike Conley para interceptar passes. É simplesmente um massacre! Pode-se dizer que o Lionel Hollins era um stalker do Spurs e sabe todas as qualidades, defeitos, desejos, medos e comida favorita do seu adversário.

Se essa série já não está morta e enterrada é porque o Spurs tem a mão certeira de Gary Neal e o Grizzlies também tem os seus defeitos. Quando Zach Randolph está no banco eles não tem alguém que pode criar o seu próprio arremesso do nada diante de uma defesa mais forte, Tony Allen é um dos piores arremessadores da NBA e OJ Mayo compromete na defesa. E embora o Randolph esteja dando conta do recado na hora de arremessar bolas decisivas, às vezes é difícil passar a bola lá pra dentro do garrafão, nessas horas faz falta o Rudy Gay para receber a bola mais longe da cesta e criar alguma jogada.

Mas defeitos a parte, o Grizzlies é o melhor time da série e quem dominou todos os jogos. Se tiverem a cabeça no lugar e não ficarem lamentando a classificação que escorregou por entre os dedos devem fechar a série já na próxima partida. Não dá pra cravar isso porque séries longas de playoff são interessantes pelos ajustes que cada técnico faz para resolver os problemas, mas o negócio é que tenho a pequena impressão de que o Popovich não sabe mais o que tentar para sair das armadilhas do Grizzlies.

Abaixo, o arremesso insano em uma jogada desastrada do Manu Ginobili, que cortou a diferença para um ponto, e depois a bola de três salvadora do Gary Neal. E vale uma nota para algo impressionante: Foi dito pelo próprio elenco do Spurs depois do jogo que a jogada final foi mesmo desenhada para o Neal, não era segunda ou terceira opção. O novato disse que a sensação foi ótima de ouvir as instruções e ver que ninguém nem por um segundo questionou a decisão do treinador de colocar toda a temporada nas mãos de um novato que nem foi draftado. Sangue frio e obediência ao treinador, talvez o Spurs ainda tenha um pouco do velho Spurs escondido lá no fundo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Spurs enganado

O arremesso é feio, mas os cabelos...


Em 2009 a grande brincadeira era que o San Antonio Spurs voltaria para ser campeão de novo. Afinal eles foram o time mais estável dos últimos 10 anos mas nunca conseguiram vencer dois títulos em sequência, insistiam em vencer só em benditos anos ímpares: 1999, 2003, 2005 e 2007. Mas a volta por cima não foi o que aconteceu, o Spurs tomou de 4 a 1 do quase sempre freguês Dallas Mavericks e começamos a achar que a era de ouro de Tim Duncan e Gregg Popovich começava a virar passado.

Sentindo a mesma coisa, Popovich e o General Manager RC Buford mudaram uma de suas regras básicas nesses anos de sucesso e decidiram abusar no dinheiro e trocar por Richard Jefferson. Ultrapassariam o limite do salary cap, pagariam multas e tudo isso que eles sempre abominaram, mas parecia o jogador que faltava para dar um empurrão no envelhecido time. Não foi o que aconteceu, Jefferson teve uma temporada bem abaixo da média no ano passado e a única ajuda além do trio Duncan, Ginobili e Parker veio de contribuições esporádicas dos jovens George Hill e DeJuan Blair. Pouco para compensar as várias contusões e maus momentos de vários jogadores do elenco.

Para essa temporada a grande esperança estava na adição do brazuca Tiago Splitter, que se consagrou na última temporada espanhola e teria tudo para ser um novato diferente, já mais velho e experiente que o resto da pivetada que acabou de sair do Draft. Mas Splitter perdeu boa parte da pré-temporada machucado, pegou o bonde andando e ainda está com dificuldades, ganhando poucas oportunidades para jogar. Ele faz bons jogos volta e meia, em outros não faz nada de errado sem se destacar e em outros fica apagado por não entrar ou só fazer faltas. Se a grande mudança no elenco não está nem jogando às vezes, como o Spurs tem a melhor campanha da liga depois de um terço da temporada?

Essa é uma pergunta que eu demorei muito para poder esboçar uma resposta. Assisti a mais jogos do Spurs nesse ano do que nas últimas duas temporadas juntas e percebi uma coisa logo de cara, estava mais divertido do que costumava ser. Placares altos, infiltrações de Parker e Ginobili, rebotes ofensivos do Blair e um show de três pontos do trio Gary Neal, Richard Jefferson e Matt Bonner. Sim, o Spurs era uma potência ofensiva até nos dias em que o Tim Duncan mal tocava na bola. O Spurs, conhecido por jogar sempre do mesmo jeito até quando mudava de jogadores, revolucionou a sua maneira de jogar. Comecei a explicar isso em outro post semanas atrás:

"Dos últimos muitos anos. Explico, o Spurs é o terceiro melhor ataque da temporada até agora e a oitava melhor defesa. É a primeira vez desde que Tim Duncan chegou ao time, em 1997, que o Spurs é melhor ranqueado no ataque do que na defesa. Pra quem acompanha a NBA há pouco tempo pode parecer normal, mas quem viu o Spurs desses últimos quase 15 anos acha isso uma aberração. O Spurs atacando mais do que defendendo é insano como ver o Barcelona retranqueiro, no mínimo. E tem o ritmo de jogo, eles são hoje o 10º time mais veloz da NBA, nas outras temporadas da "Era Duncan"o Spurs ficou duas vezes com o 19º ataque mais veloz e depois disso sempre depois da casa dos 20, algumas vezes beirando as últimas posições."

Desde que escrevi isso poucas coisas mudaram. Hoje o Spurs é o ataque mais eficiente da NBA (112 pontos a cada 100 posses de bola), marcando 105.3 pontos por jogo (4º melhor) e é o 11º time mais veloz, com 93 posses de bola por jogo. Outros números mostram a mudança: hoje o Spurs é o quarto time que mais faz pontos em contra-ataque, 16.2 por jogo, 4 a mais que no ano passado e à frente de time conhecidos por seus contra-ataques como OKC Thunder e Phoenix Suns. No ano passado o Spurs era o 8º pior no mesmo quesito.

Nesse texto eu já disse muitas das razões do Richard Jefferson ter subido de produção da temporada passada para essa, mas é também bem claro que ele se beneficiou dessa maior velocidade do time. Desde os tempos do Nets que ele gosta e sabe sair no contra-ataque e finalizar perto da cesta. Essa maior liberdade ofensiva do time favoreceu também o Manu Ginobili, que é o cara mais criativo do mundo desde Leonardo Da Vinci e ainda passa a bola melhor que o faz-tudo italiano. Além do Tony Parker, que finalmente pode gastar à vontade e sem restrições toda a velocidade que tem. Desses, o Ginobili merece o maior destaque, ele está jogando mais tempo com os titulares do que o normal e ganhou mais responsabilidades de armação  do que no passado recente, resultado não só da mudança de estilo do time como também da recuperação física do argentino, que parecia meio baleado nas duas últimas temporadas. E sejamos honestos, é assim há um bom tempo: se Ginóbili joga bem, o Spurs joga bem. Nessa temporada até em alguns jogos em que o time não esteve no seus melhores dias ele estava lá pra fazer tudo certo no final. Foi assim contra o Pacers nessa semana e contra o Bucks no começo da temporada, e tantas vezes entre esses dois jogos.

Uma das qualidades do Ginobili está em saber quando tomar conta do jogo e quando envolver todo mundo. E geralmente ele não precisa ser o herói, porque caras imprevisíveis como o novato Gary Neal e Matt Bonner estão jogando melhor do que qualquer cara mais otimista no melhor do seus dias e depois de uma boa noite de sexo poderia prever, é por causa deles que hoje o Spurs é o 2º melhor da NBA em aproveitamento de 3 pontos, 39% por jogo, atrás apenas do Warriors. É compartilhando a bola que o Spurs consegue ser um dos melhores ataques mesmo com Duncan em seu pior ano ofensivo na carreira e nenhuma aberração tipo Kevin Durant no elenco, hoje o time do Popovich é o 5º com mais assistências na liga. Para finalizar as qualidades, impressiona como eles conseguem correr bastante e ser o 8º time que menos comete turnovers.

Eu estou impressionado com a capacidade do time de se reinventar de uma hora para a outra e mais ainda em ver como isso deu resultados tão positivos rapidamente. Muitas vezes times tentam mudar de atitude de uma hora para a outra mas não sabem como, mas como esse texto do blog Spurístico "48 minutes of Hell" confirma, o Spurs sabe contratar. E contrataram bem para cobrir os defeitos ofensivos do time desde a temporada passada e estão colhendo os frutos. Mas apesar de tudo isso, esse post não é uma babação de ovo no melhor time da temporada.

Numa ironia das mais profundas dos últimos milênios, o Spurs pode estar caindo no conto do vigário que ele mesmo ajudou a expor tantas e tantas vezes nos últimos 10 anos. Lembram do espetacular Dallas Mavericks de Steve Nash, Dirk Nowitzki, Michael Finley e Don Nelson? Ou do encantador Phoenix Suns do mesmo Nash e Amar'e Stoudemire? Foram duas das equipes que mais encantaram e divertiram a liga americana em uma época dominada por Spurs e Lakers. Eles faziam tudo isso que o Spurs faz nessa temporada, eram rápidos, criativos, com jogadores talentosos, coadjuvantes que metem bolas de longe com altíssimo aproveitamento e estavam sempre entre os melhores ataques da NBA. Porém, quando chegavam os playoffs esses times tomavam na cabeça. Na hora de passar pela defesa forte e ataque disciplinado do Spurs eles eram desmascarados e caíam quando estavam chegando perto do título.

Foi esse estilo de jogo defensivo e equilibrado (que outros times praticam mas que sempre foi a marca do Spurs) que fez o Mavs largar mão da super velocidade e o Suns ir até atrás do Shaq pra mudar de estilo de jogo (sem sucesso, como lembramos). De repente, em uma das muitas voltas que o mundo dá, o Spurs é o time que ataca, ataca, encanta e defende mal. Tá bom que não é tãaao mal assim, ainda estão com a 11ª melhor marca da NBA, mas volta e meia eles enfrentam times que mostram todos os vários defeitos do sistema defensivo da equipe. Atualmente eles são apenas o 18º no ranking de times que menos cedem pontos no garrafão, o 9º time que mais sofre arremessos de quadra por partida e no aproveitamento de 3 dos adversários é o 3º pior time, só (argh!) Cavs e Clippers são piores. E as bolas de três são porque protegem o garrafão? Necas, são só o 18º também em proteger a área pintada.

Como nem tudo pode mudar tão drásticamente, a Terra ainda é redonda, comer carne humana não é bem aceito socialmente e o Popovich está insatisfeito. Olha o que ele disse sobre essa questão ataque/defesa do Spurs: "Isso não é a gente, nós não jogamos assim. Eu não tenho idéia de como estamos marcando tantos pontos. Eu não estou comprando essa idéia". Quer dizer que o Spurs revolucionou o seu estilo de jogo e nem era isso que eles queriam? Não faz sentido. Mas pelo menos é uma pequena mostra de que não estão satisfeitos com sua defesa.

Se você pegar os jogos que eles fizeram contra o Mavs (aquele sem o Nowitzki) e o contra o Lakers, verá que esse time é capaz de executar uma defesa bem forte, mas até agora esses jogos foram exceção, não regra. Contra o time de LA a dupla Manu Ginobili e George Hill deu uma aula de como defender Kobe Bryant e a pressão nos passadores no perímetro fez com que eles pouco utilizassem Pau Gasol. Mas em compensação, o que foi aquela derrota para a o Knicks essa semana ? Foi a primeira vez em toda a carreira do Duncan no Spurs que eles tomaram 128 pontos em um jogo sem prorrogação. Aliás, a última vez que o Spurs tinha tomado mais que 128 pontos em um tempo normal havia sido em 1993, quando os hoje técnicos Vinny Del Negro e Avery Johnson ainda jogavam na equipe.

E no dia seguinte outra derrota, dessa vez para o Boston Celtics. Perder para o Celtics em Boston não é nenhum desastre, mas foi mais um exemplo de como o Spurs é um Phoenix Suns de 2011. O jogo foi pau a pau, talvez o melhor da temporada até agora, mas tomaram 105 pontos, deixaram o Boston chutar acima dos 60% nos arremessos de quadra e tomaram 34 pontos no garrafão, incluindo algumas bandejas bem fáceis nos minutos finais de jogo.

O Spurs é mesmo o melhor time desse começo de temporada, talvez por pouco sobre Boston Celtics e Dallas Mavericks e levando em conta que o Miami Heat demorou pra engrenar. Mas reconhecer isso não é dizer que eles tem um futuro fácil pela frente, eles precisam se manter saudáveis (o que foi impossível para eles nos últimos anos) e arrumar um jeito de acertar essa defesa se querem ser realmente levados a sério na disputa pelo título. O Popovich já disse que quer isso e o Duncan afirmou que "nós queremos ser é um clube defensivo", então a vontade está aí, é transformar em realidade para não ser mais um dos times velozes, ofensivos e perdedores que o próprio Spurs ajudou a destruir na última década.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / San Antonio Spurs

 Ele é como qualquer um de nós


Objetivo máximo: Mais um título. O ano é ímpar, afinal.
Não seria estranho: Chegar longe mas perder para Lakers ou Mavs
Desastre: Cair na primeira rodada e ver os cabelos brancos nascerem na cabeça do Duncan

Forças: Time entrosado, técnico espetacular, defesa bem montada e Tim Duncan
Fraquezas: Parte do time está ficando velha demais e a outra parte ainda parece muito inexperiente

Elenco:








.....
Técnico: Gregg Popovich


Eu sempre entro na nossa página da semana dos técnicos para ver o que podemos aproveitar de novo aqui. E o texto do Popovich feito pelo Danilo está perfeito! Como a gente tinha bem menos leitores naquela época e já faz dois anos, acho que vale a pena a reciclagem completa:


"O técnico que todos amam odiar, o técnico que não cansa de ganhar, que faz os nerds das pranchetas terem orgasmos múltiplos e coloca para dormir todo o resto da civilização ocidental contemporânea. Tudo porque Popovich foca seus esforços na defesa enquanto tem fama de ser um dos técnicos mais severos e controladores no ataque (ele é tipo mulher ciumenta). Tente dar um arremesso que Popovich não planejou com antecedência de 48 horas e você será colocado no banco. Para conseguir arremessar uma simples bola, Tony Parker precisa preencher um formulário e autenticar em três vias - seja lá o que isso significar. Mas a verdade é que os jogadores no Spurs apenas obedecem o que está instituído, colocando em prática um ataque maquinal e absurdamente funcional. Duncan estará sempre em posição para seu clássico arremesso usando a tabela, Tony Parker sempre poderá infiltrar e passar a bola para a zona morta e Bruce Bowen sempre estará livre por aquelas bandas, pronto para arremessar de três e ser um bundão. Apenas Ginóbili é inesperado porque ele faz as mesmas coisas de modos extraordinários, com aquelas passadas malucas e destrambelhadas que, segundo o próprio Popovich, matam ele do coração.

Quando falo do Popovich, sempre uso como exemplo sua relação com Tony Parker. O francês tinha uma cota máxima de arremessos que podia dar de trás da linha de 3 pontos (sem brincadeiras!) e, quando começou sua sua carreira no Spurs, era obrigado a passar a bola para fora do garrafão ao invés de fazer as bandejas que hoje lhe são marca registrada. Com o tempo, foi ganhando mais liberdade com o técnico - o que equivaleria a uma mãe dizer que a filha não pode ir para a balada, mas que agora pode passar maquiagem dentro de casa. Para nós, fracassados que perdemos para o Spurs a torto e a direito, sua relação ditatorial com o time, respostas mal humoradas e cara de quem está com uma eterna apendicite nos fazem odiar Gregg Popovich como poucos no mundo. Mas tem mais: "Pop" (como alguém tão mal encarado pode ter um apelido tão fofucho?) era dirigente do Spurs, demitiu injustamente o técnico do time e se auto-proclamou o novo treinador, cargo que exerce desde então. Se ele não fosse um branquelo em um time texano, provavelmente o presidente Bush iria colocar o exército para intervir na questão. E o mais engraçado é que Popovich disse que deve se aposentar assim que acabar o contrato de Tim Duncan, ou seja, provavelmente não quer testar como seriam seus resultados sem um dos melhores jogadores de todos os tempos ao seu lado. Bem, se pudesse escolher, eu também não testaria.

E não adianta me dizer que estou com dor de cotovelo porque sim, estou com dor de cotovelo. O Gregg Popovich ganhou demais na vida, deixa pelo menos um blog na internet dar a entender que o cara é fracassado, tá legal?"


O que eu posso acrescentar é que nos últimos dois anos anos o Popovich ganhou um desafio novo. Ele teve que lidar com jogadores muito jovens que, por serem jovens, oras, não tinham a disciplina e inteligência tática que todos os comandados do Spurs nos últimos 10 anos tiveram. Ele precisou de paciência extra e voltou aos seus tempos de professor para conseguir lidar com DeJuan Blair, George Hill e Roger Mason, que de uma hora para outra viraram peças fundamentais em um time sem a profundidade que já tivera no passado. Mas ele fez um bom trabalho e a pivetada está dando resultado, é de se esperar que ele também tenha paciência e sucesso com o Tiago Splitter, que não é pirralho mas precisa de tempo para se adaptar ao jogo americano.

......
O sucesso na evolução dos pivetes que eu citei acima e o fato do Splitter ser um jogador já bem rodado são os motivos que me fazem pensar que essa temporada é a que o Spurs tem mais chance de voltar ao título desde que disputaram a final do Oeste contra o Lakers em 2008. As últimas duas temporadas serviram apenas para o Duncan parecer mais velho, para o Ginobili e o Parker se machucarem várias vezes e para a pivetada errar bastante e deixar o Pop louco da vida vendo o Roger Mason forçar bolas de três.

Mas depois de dois anos parece que está tudo certo. O Tony Parker chegou a ser envolvido em boatos de troca e falaram por aí que ele estava interessado em ir para o Knicks, mas ele sempre foi bem fiel ao Spurs e acredito que não tenha nenhum problema em ficar lá. Sem contar que pode ir para o Knicks quando for Free Agent e quando o time de NY estiver um pouco melhor, melhor jogar ao lado de Duncan e Manu enquanto ainda pode. O argentino já havia melhorado muito na segunda metade da temporada passada e depois de descansar durante toda a offseason ele deve estar inteiro fisicamente, é o que basta pra ele ser o homem do quarto período no time.

Já Duncan recebeu muitos elogios de Gregg Popovich. "Ele está mais magro e mais bem condicionado. Mais magro do que estava no meio da temporada passada". E completou com as razões para esse esforço extra, "Ele está levando tudo isso muito a sério. Ele quer voltar a vencer". Por mais cara de bundão que o Duncan tenha, ele não é bundão. Ele até foi legal e sincero o bastante para dizer que essa nova regra sobre as faltas técnicas é um exagero e um erro da NBA. A derrota para o Suns no ano passado marcou apenas a segunda vez na carreira que Duncan passou três temporadas em sequência sem título! E caras acostumados a ganhar não encaram muito bem derrotas, muito menos depois de tomar uma varrida de um time que até pouco tempo atrás era seu maior freguês. Vamos ver o Duncan a fim de jogar como há tempos não vemos.

Com o trio em forma e motivado o Spurs vai longe, não há dúvida em relação a isso. Mas até aí nada de mais, o Lakers tem seu trio, o Mavs tem elenco forte, assim como Blazers, Nuggets (pelo menos até o Carmelo parar de dar piti) e pelo menos três ou quatro times do Leste. A diferença vai ser nos detalhes: entrosamento, preparo físico e principalmente o elenco de apoio.

Eu fiquei bem encafifado quando o Spurs pagou uma boa grana para reassinar o Richard Jefferson mesmo depois dele milagrosamente ter optado por sair do seu contrato milionário. Talvez tenha sido um pensamento de "ruim com ele, pior sem ele" ou talvez um voto (caro) de confiança. Quando o Richard Jefferson jogou bem no ano passado o Spurs era um time difícil de parar, como foi na série contra o Mavs, mas muitas vezes ele era um Bruce Bowen que não defendia e nem acertava bolas de três, ou seja, um pedaço de carne que se movia. Qual será o que vai entrar em quadra nesse ano? Não sei, mas na pré-temporada ele tem jogado muito bem, inclusive acertando 50% das suas bolas de 3! Se ele for um arremessador de três confiável o Spurs já pode comemorar por ter feito a decisão certa em mantê-lo. Outro que pode ajudar nesse quesito que fez falta no ano passado é o novato James Anderson, embora também não seja nenhum especialista.

No garrafão o Duncan vai contar com a ajuda de Tiago Splitter e DeJuan Blair. O brazuca, em teoria, deixaria o TD jogar mais fora do garrafão, onde eu acho que ele é melhor e daria mais altura para o time, valorizando o lado defensivo. Já o DeJuan Blair deixa o time mais veloz, muito mais forte no rebote ofensivo (o cara nasceu pra fazer isso), mas obriga o Duncan a jogar na posição 5 e às vezes compromete na defesa. Na pré-temporada o Splitter não jogou e o Blair empolgou com médias de 13 pontos e quase 9 rebotes em míseros 25 minutos por jogo. Por isso acho que o brasileiro começa a temporada no banco, mas isso vai ser irrelevante ao longo da temporada, os dois devem revezar nas duas posições do garrafão junto com Duncan e Antonio McDyess e eventualmente até jogar juntos. Tudo depende de treino, de entrosamento e do adversário que vão enfrentar.

Richard Jefferson e James Anderson podem ser a resposta para os problemas de arremesso de três da equipe, Blair e Splitter para o garrafão, mas o Spurs não arranjou ninguém para atuar como defensor de perímetro. Alguns especialista em basquete universitário até apontaram o James Anderson como alguém que pode virar um grande defensor em nível profissional, é esperar para ver. No ano passado eles às vezes colocavam o baixo George Hill para marcar jogadores da posição 2 e 3 só porque ele é o melhor defensor de perímetro do elenco. Era melhor que nada, mas não é solução de problema. Se cruzarem nos playoffs com pontuadores mais altos como Kobe Bryant e Kevin Durant, a coisa pode engrossar pra eles.

No ano passado o Spurs pagou toda aquela grana para o Richard Jefferson e passaram pela primeira vez em muito tempo do limite salarial. Como justificativa disseram que queriam usar os últimos anos de carreira do Duncan e do Ginobili para ir com força total atrás de outro título. Estão certos. Com os dois em forma e com a ajuda do resto do time, que tem chance de ser o melhor elenco de apoio nas últimas 3 temporadas, as chances de voltarem a ser o time chato, pentelho, sonolento e vencedor que a gente conhece são bem grandes. Como disse nessa análise bem mais detalhada sobre o Spurs há uns dois meses, o Spurs ainda não voltou, mas pode voltar.

E pra quem acha que o Spurs não é empolgante, saca só que show é o Duncan!!! Showtime, baby!

domingo, 22 de agosto de 2010

Uma zona

O Nash dá conselhos para o Leandrinho: "no Canadá tem 
muito urso, mas é melhor que apodrecer no banco"


Volta e meia, sempre tem um carinha perdido por aí dizendo que na NBA não é permitida a tal "defesa por zona", tão usada no basquete da FIBA que se joga no resto do planeta. Assim, quando a seleção dos Estados Unidos enfrenta outras seleções em torneios mundiais, em que valem as regras da FIBA, haveria uma suposta dificuldade em se acostumar, em aprender tudo correndo e em cima da hora. Balela. A partir da temporada 2001-02 a marcação por zona, tão implementada no basquete universitário e portanto conhecida pela imensa maioria dos jogadores, passou a valer sem frescura. Antes, um monte de regras chatinhas dificultava as marcações duplas e a defesa sem a bola, mas já faz quase 10 anos que isso mudou. Todo time decente da NBA eventualmente marca por zona, e a gente viu como o Thunder conseguiu usar essa defesa para dar uma canseira no Lakers nos playoffs passados.

O que não pode é um defensor ficar dentro do garrafão por mais de 3 segundos sem estar acompanhado por outro macho do time adversário. Isso não impossibilita as defesas por zona de forma nenhuma, apenas impede que um gigante chinês fique embaixo do aro o tempo inteiro, obrigando que ele esteja sempre próximo a algum jogador adversário que ocupe aquela área. Se não tiver nenhum adversário no garrafão, o gigante chinês precisa sair do garrafão também. Além disso, aquele desenho de um semi-círculo no chão também impede os defensores de ficarem ali "guardando cachão", como se diz em linguagem de esconde-esconde. Dentro daquele semi-círculo, não importa se o defensor está parado lendo um livro, filosofando, trocando figurinhas ou contando anedotas: se tocar num jogador que esteja atacando a cesta, vai ser falta do defensor, e toca ter sua retina derretida pelas imagens do Ginóbili ou do Dwyane Wade cobrando lances livres.

Ou seja, a marcação por zona existe e está lá, em todas as partidas da NBA (menos as do Warriors, eles nem fingem que defendem). Mas a regra dos três segundos de defesa e o semi-círculo garantem que exista um caminho mais aberto para a cesta, favorecem o time que ataca, e facilitam a vida do jogador que ataca o aro lhe presenteando com muitas faltas e lances livres. O resultado disso é que, na NBA, os placares são mais altos e há um foco maior no jogo de garrafão - não necessariamente dos pivôs, mas de todos os jogadores, incentivados a infiltrar mais. Há mais de um ano atrás, o Rodrigo Alves do Rebote fez um levantamento estatístico fenomenal para descobrir quantos arremessos de três pontos tenta-se por jogo em diversos países, com a finalidade de tentar entender o motivo dos jogadores brasileiros arremessarem tanto de fora. Mesmo eu tendo desenterrado isso de um armário mofado virtual, todo mundo deveria dar uma olhada nesse artigo e nos dados levantados. É fácil perceber que, mesmo jogando partidas mais longas, o pessoal da NBA arremessa muito menos da linha de três do que o resto do planeta. E olha que o Orlando Magic sozinho deve ter inflado essa estatística um bocado.

Sem dúvida nenhuma isso faz parte da cultura de cada país, que pratica o esporte com seu temperinho próprio. No Brasil, por exemplo, a gente arremessa de três como se todo mundo fosse o JR Smith e a marcação por zona é associada a "covardia", coisa de quem "não sabe jogar". Isso fica bem claro no desabafo idiota do Nezinho ao ser campeão do NBB:



Mas há também um grande fator para os jogadores da NBA arremessarem bem menos de três pontos: as regras. Como vimos antes, as infiltrações valem a pena. Nas regras da FIBA, todo time marca por zona o tempo todo, o garrafão fica uma bagunça, infiltrar é quase impossível, e os jogos viram um festival de arremessos de três pontos. As grandes equipes do mundo sabem jogar de várias maneiras, mas se consagram com grandes arremessadores no elenco. Pior do que a seleção brasileira de basquete arremessar demais de três pontos é como os arremessos saem, se jogadas foram planejadas para que saiam livres, se os jogadores são bons arremessadores, se há técnica e velocidade no arremesso. Pelas estatísticas coletadas pelo Rebote, os brasileiros não arremessam tãaaao mais do que o resto do mundo, o que assusta é mesmo o aproveitamento, que fede muito.

Entendo perfeitamente a euforia da torcida brasileira com a presença de um garrafão realmente forte no Mundial de Basquete, formado por Varejão, Nenê e Tiago Splitter, galerinha toda da NBA reunida. Entendo também o receio com a seleção americana, que está mandando para o Mundial um time de reservas dos reservas dos reservas, formado por uns carinhas aí que toparam não tirar férias, e não tem absolutamente ninguém relevante para jogar dentro do garrafão. Mas a verdade é que, contra as melhores defesas do mundo dentro das regras da FIBA, o garrafão acaba sendo muitíssimo secundário. Os Estados Unidos podem colocar 5 jogadores em quadra capazes de arremessar de todo lugar, defender forte pra burro, e aí infiltrar no garrafão nos únicos momentos em que isso é possível: nos contra-ataques. O Brasil, mesmo que ainda tivesse Nenê, que volta para casa agora por estar contundido, teria dificuldades em impor um jogo de garrafão e não tem arremessadores técnicos e inteligentes o bastante para derrotar defesas por zona.

A seleção dos Estados Unidos demorou, mas eles finalmente aprenderam um troço importante: o problema não é levar para o Mundial uma seleção de restos, sem as maiores estrelas da NBA. O problema é levar os jogadores errados para as regras que irão enfrentar. Já vi seleção americana sem um único arremessador, e aí eles levam cacetada na orelha mesmo, não tem jeito. Isso também tem a ver com cultura e com as regras: como na NBA os jogadores que infiltram são beneficiados, é normal que haja uma maior admiração por eles do que pelos simples arremessadores. O Ray Allen nunca vai ter tantos fãs quanto o Dwyane Wade, é simples assim. Então muitas vezes leva-se aquela estrela fodona que não sabe arremessar de três e a equipe não funciona, quando um monte de jogadores secundárias teriam rendido muito mais. Claro que na NBA existem muitos jogadores que podem fazer de tudo ao mesmo tempo, mas levar gente focada nos arremessos é sempre o passo mais fácil para vencer no âmbito internacional. Não é mero acaso que o Carmelo Anthony, apaixonado pelo próprio arremesso, sempre acaba sendo cestinha da seleção americana, e que LeBron e Wade voltaram das Olimpíadas com arremessos de três pontos bem mais calibrados depois de tanto treino. Some a isso o fato de que a linha de três pontos na FIBA é cerca de um metro mais perto do aro do que a da NBA e teremos arremessadores muito eficazes e felizes. Não precisa levar LeBron, Carmelo, Wade e Dwight Howard, tá tudo bem colocar uns pirralhos para arremessar, como Eric Gordon, Stephen Curry, Danny Granger, Kevin Durant, e deixar qualquer manezinho dentro do garrafão mesmo. No basquete internacional, isso é o mais importante para vencer.

A FIBA parece estar ciente disso e colocou em prática algumas mudanças de regras. Pra começar, a linha de três pontos ficará mais longe uns 50 centímetros, o garrafão terá o mesmo formato retangular que o da NBA e o semi-círculo embaixo do aro será adotado. O formato atual do garrafão faz com que os jogadores tenham mais dificuldade de se aproximar da aro com um jogo de costas para a cesta, porque os 3 segundos máximos que um jogador ofensivo pode ficar no garrafão começam a contar mais cedo. Isso também leva vários pivôs europeus a arremessarem de três pontos, pra fugir do jogo lento e truncado do garrafão. Agora a vida de quem joga de costas para a cesta ficará mais tranquila, os arremessos de três ficarão mais dificultados pela distância e o semi-círculo vai recompensar um pouco os jogadores que decidirem infiltrar mais. Não sei exatamente quando as regras passam a valer oficialmente (ouvi dizer que é apenas em 2012, alguém me tira a dúvida?), mas vários torneios do mundo já estão implementando as mudanças, inclusive o NBB. Será uma ducha de água fria na nossa cultura apaixonada pelo arremesso e talvez, aos poucos, mude mesmo o nosso modo de jogar. Não ficaria nada surpreso se daqui a alguns anos a FIBA também colocasse em vigor a regra dos três segundos de defesa, de modo a abrir ainda mais o caminho para a cesta. Embora as diferenças sejam culturais e tem muita gente que gosta bem mais do basquete internacional do que do estilo de jogo da NBA, não dá pra negar que o modelo da NBA é mais dinâmico, privilegia o ataque e é muito mais popular. Se o objetivo é colocar doce na boca da criançada, o caminho é mesmo inibir a bagunça que é o garrafão do basquete internacional.

Mas, por enquanto, em que as regras da FIBA são o paraíso dos arremessadores, o basquete brasileiro ainda sofre mesmo é com a falta de arremessadores competentes e inteligentes. É curioso como nosso trabalho de base, que é limitado por verbas escassas e dificuldades culturais, parece gerar em maior quantidade jogadores enormes de garrafão e forma arremessadores sem critério ou sem a técnica de arremesso adequada. Nos arremessos, Leandrinho sempre deixou muito a desejar (antes mesmo de entrar no draft os relatos de sua mecânica esquisita já espantavam algumas equipes), e sua capacidade de infiltração é muito limitada fora da NBA, em que o garrafão é mais fechado. Seu estilo de jogo simplesmente não casa com o basquete internacional, assim como sua personalidade não casa com ser líder uma equipe como esperam que ele seja na seleção brasileira.

Engraçado é que descobri recentemente, numa entrevista da revista Dime, que o Leandrinho é quem pediu para ser trocado. Depois de tantos anos em que sair de Phoenix era o grande pavor de sua vida (lembro de um causo em que ligaram para o quarto de hotel do Leandrinho avisando que ele tinha sido trocado só de brincadeira e ele saiu chorando na frente dos colegas de equipe), parece que agora ele quer um papel maior, mais oportunidade de jogo, novas chances de ganhar minutos em quadra. Pediu para ir para o Raptors porque é amigo do engravatado Bryan Colangelo e acha que lá terá oportunidades para ser titular. Bacana. Mas mesmo essa maturidade e vontade de jogar não conseguem camuflar o fato de que Leandrinho não quer liderar uma equipe e tem uma enorme dificuldade em organizar as jogadas ofensivas de qualquer time (papel que Goran Dragic faz muito melhor e tornou o Barbosa desnecessário no Suns). Seu jogo depende da velocidade, não dos arremessos, e de receber a bola em contra-ataques, não de chamar jogadas. Seria muito tolo imaginar que ele pode chegar chutando traseiros na seleção brasileira quando tudo que acontece por ali vai contra seu estilo de jogo.

Do mesmo modo, Varejão e Splitter devem render muito bem na NBA na próxima temporada, mas serão limitados pelas possibilidades do basquete internacional. Varejão deve render muito, apesar da forma física meio baleada, quando se trata de defesa. Mas as principais armas ofensivas adversárias estarão no perímetro e, ofensivamente, Varejão não conseguirá segurar as pontas. Splitter é um jogador refinadissimo embaixo da cesta, do tipo que arrota em francês, mas a defesa por zona torna suas atuações muito mais complicadas - dificilmente conseguirá dominar uma partida por completo. Curiosamente os melhores momentos da seleção brasileira surgem quando Marcelinho "irch" Machado acerta a mira, então não dá pra esperar milagre nem do Splitter, nem da seleção - a gente já sabe que o Marcelinho vai ganhar um jogo e perder outros dois se receber sinal verde para arremessar.

Não acredito que o Splitter vai chegar na NBA chutando traseiros e dominando o garrafão do Spurs, falta físico e levará um tempo para que ele se acostume com mais contato e mais espaço para se mover perto do aro. Mas arrisco dizer, sem muito medo, que ele será eventualmente melhor na NBA do que foi na Europa, tudo graças às regras diferentes. Dar espaço para o Splitter atuar é pedir para ele te fazer de bobo, assim como o Duncan faz tão bem até hoje e terá o maior prazer (embora a cara não vá mostrar) de ensinar para o Splitter como lidar com os brutamontes que estarão lá para marcá-lo.

As notícias são boas para os brasileiros na NBA, mas no Mundial não consigo ver qualquer traço de esperança. Como expliquei em outro post, não vemos muito motivo em ficar torcendo para a seleção só porque compartilhamos as mesmas linhas imaginárias, idioma e piadinhas com a Preta Gil - mas dessa vez o sucesso da seleção apontava para uma atenção que o esporte não recebe há décadas no país e que traria recursos, incentivo e apoio para a base. Infelizmente não será dessa vez. Com ou sem Nenê, iriamos enfrentar defesas por zona incríveis durante todo o Mundial e o jogo de garrafão estaria imediatamente limitado, exigindo um preparamento ofensivo que - focado na defesa - o técnico Magnano não conseguiu colocar em prática. Sem Nenê, então, pior: perdemos defesa no garrafão e voltamos a olhar apenas para o perímetro, onde Leandrinho estará pensando em como será legal jogar na terra de seu colega Steve Nash, o Canadá, onde não terá que liderar uma equipe e nem ficar arremessando o tempo inteiro.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Spurs em busca do equilíbrio

Splitter já sorriu mais que o Duncan em sua carreira pelo Spurs


O Spurs já foi o time mais odiado de muita gente. Eu, por exemplo, já torci mais contra o time do Texas do que a favor de outros durante anos. Os motivos eram, basicamente, três:

1- Eles ganhavam demais. A gente sempre quer ver o time mais forte perder para algum que seja mais fraco e simpático.
2- Na época que eles eram o grande time da NBA eu não era lá muito fã de times muito defensivos, fui começar a ver graça nisso um tempo depois.
3- O Tim Duncan, a estrela do time e um dos melhores jogadores da história do basquete, não é lá o cara mais carismático e que dá espetáculo. Preferia ver meus outros ídolos ganhando campeonatos.

Com o tempo isso foi caindo por tabela. Apesar do Duncan ainda não ser tão carismático, ele passou a ter mais graça dentro dessa nova geração de jogadores que gostam tanto de tatuar os próprios nomes nas costas e usar correntes com cifrão pendurados no pescoço. Ele é tão diferente do padrão da liga que passou a ser mais legal. Também passei a gostar muito mais dele quando foi um dos poucos jogadores a se revoltar contra a decisão do David Stern, em 2005, de criar um código de vestimenta na NBA, obrigando todos os jogadores a abandonarem as roupas que costumavam usar (incluindo aí até as correntes com cifrão que o Duncan nem usava) para se apresentarem sempre com roupas sociais. Paul Pierce, Allen Iverson e Stephen Jackson também se manifestaram contra, mas deles eu esperava a revolta, do Duncan não. Ele mostrou, finalmente, a pessoa que existe por trás da poker face.

Hoje também não dá pra odiar eles por vencerem demais. Não ganham um título desde 2007 e nos últimos três campeonatos só chegaram uma vez perto, indo para as finais do Oeste em 2008. Estão sempre entre os melhores, mas não ganham, aí viraram o Dallas e ninguém odeia o Dallas, seria como odiar a Portuguesa.

Por fim, tem a questão da defesa. No seu auge o Spurs era um time defensivo que servia apenas para arruinar com nossos sonhos de ver times lindos como o Suns vencer um título, era o bastante para nos irritar. Hoje acho até bem legal ver como um time monta sua defesa e não me incomodo com times focados nesse lado da quadra. E mesmo se ainda me incomodasse, o Spurs não é mais aquele ferrolho. Nos últimos três anos, na média de pontos a cada 100 posses de bola, eles caíram do terceiro lugar para o quinto, e ano passado foram oitavos. Nesse tempo Bruce Bowen se aposentou, o Duncan não consegue ser mais efetivo como antes e eles até usaram o Matt Bonner como titular.

Em plena decadência, com muitos jogadores acima de 30 anos e com outros se aposentando, o Spurs chegou à hora de tomar uma decisão difícil. Sai trocando todo mundo e monta um time jovem ou tenta juntar mais gente velha em torno dos antigos jogadores para montar um time que se perder vai ser chamado de velho e se ganhar, de experiente?

Não dá pra dizer qual das duas formas é certa e qual é errada, as duas já deram todo tipo de resultado. Depende de quem são os veteranos, quem são os pivetes por onde passa a renovação, se os treinadores sabem lidar com esse tipo de time e muitas outras coisas. Não existe roteiro para a vitória.

O Spurs tentou primeiro a opção dos veteranos. Na temporada 2008-09 tinha Kurt Thomas, Fabricio Oberto, Michael Finley e Bruce Bowen no elenco. Não deu certo. No ano passado ainda insistiu nos mais velhos, afinal usava Antonio McDyess sempre que podia ao lado de Tim Duncan, mas o time só melhorava quando tinha bons momentos dos novinhos George Hill e DeJuan Blair.

Quando para muitos essa era a mensagem de que o time deveria ir pelo caminho da renovação, o Spurs entendeu que a mensagem era de que era hora de misturar. Afinal George Hill estava jogando bem, mas manteria o mesmo nível sem Ginobili e Duncan do seu lado? Os mais novos não são tão bons para bancar uma renovação (como seria o Rondo para o Celtics, se eles quisessem) e os mais velhos não dão conta do recado sozinhos. Era hora de misturar.

Mesmo antes do fim da temporada passada o time já fez um novo contrato com o Manu Ginobili, que quando esteve saudável na temporada passada mostrou que ainda pode alcançar o sétimo sentido durante alguns minutos de jogo e se tornar o melhor jogador da galáxia. Acontece com menos frequência do que antes, mas quando ele está pegando fogo não existe arma de fogo que possa pará-lo.

Depois disso veio o presente dos deuses. No ano passado o Spurs aceitou pela primeira vez em anos ultrapassar o limite salarial e pagar multas por excesso de salário. A extravagança foi para contar com Richard Jefferson, o ala que parecia ser o que faltava para o time. Parecia, acabou tendo a pior temporada da carreira, foi um zero à esquerda em muitos jogos e ainda tinha mais um ano de contrato ganhando 15 milhões de dólares. E não é que ele desistiu do contrato? Por motivos bem explicados pelo Danilo nesse post, preferiu sair dos 15 milhões para conseguir um contrato mais longo, e conseguiu: 38 milhões de dólares por 4 anos com o próprio Spurs.

Apesar do Jefferson não ser uma maravilha, eles não tinham conseguido ninguém para a posição dele entre os Free Agents. Então até que acabou sendo bom negócio manter o mesmo jogador mas pagando 8 milhões ao invés de 15.

Depois de manter o quarteto de Tony Parker, Manu Ginobili, Richard Jefferson e Tim Duncan, estava na hora da renovação. Ainda tem George Hill e DeJuan Blair, um ano mais experientes, e buscaram no draft o promissor James Anderson. Depois da Summer League, assinaram com o bom arremessador Gary Neal. A cereja do bolo foi trazer, finalmente, o brasileiro Tiago Splitter.

Muita gente fazia piada nos Estados Unidos dizendo que o Splitter não existia. Falam dele ir pra NBA desde que ele tem uns 18 anos e ele só foi agora, com 25! Uma vez ele desistiu de ir pro draft, depois adiou, depois foi escolhido mas decidiu ficar na Europa, foi uma novela gigantesca, mas podemos afirmar hoje que valeu a pena. O brasileiro ficou mais forte fisicamente, aprimorou sua técnica e até a liderança (era capitão no Caja Laboral) e ganhou mais nome ao sair da Espanha como MVP do campeonato nacional e campeão. Ele é a síntese do que o Spurs quer ser na próxima temporada: é novo, afinal é até um novato na NBA, mas tem mais bagagem e talento que muito veterano da liga.

E como diria o Polishop, não é só isso. Splitter também é o primeiro jogador em sei-lá-quantos anos a deixar o Tim Duncan voltar para a posição 4. É um bocado ridículo ter o melhor ala de força de todos os tempos no elenco e usá-lo fora de posição! Agora vão poder deixar o Splitter na posição cinco e o Duncan poderá sair mais do garrafão, onde poderá usar seu arremesso de meia distância usando a tabela (marca registrada) e onde tem mais opção, liberdade e espaço para usar seu arsenal infinito de jogadas ofensivas.

Dá pra dizer dessa vez com certeza que o Spurs voltou como dissemos no ano passado com o Richard Jefferson? Não, mas dá vontade.

Se eu fosse listar 5 coisas que o Spurs precisava melhorar do ano passado para esse, seriam defesa de perímetro, arremessos de 3, pivô, tocos e movimentação ofensiva.

A defesa de perímetro não melhora nada até o James Anderson provar o que alguns analistas dizem, que ele pode vir a ser um especialista na área. Mas se isso não acontecer nesse ano, não vai ser com Richard Jefferson ou Manu Ginobili que eles vão parar grandes jogadores de ataque. O arremesso de três deve melhorar com o próprio Anderson e o Gary Neal. Os dois são novatos, mas eu confio mais nos olheiros do Spurs do que na minha mãe. Sério, os caras não erram nunca. São muito bem pagos, viajam o mundo inteiro atrás de grandes talentos e não à toa o Spurs sempre acha alguém escondido no fim do draft, já foi assim com Tony Parker, Manu Ginobili, Luis Scola, Goran Dragic, Leandrinho, Tiago Splitter, DeJuan Blair, Beno Udrih, John Salmons, todos escolhidos depois da posição 20 em drafts recentes.

A parte do pivô é resolvida com o Tiago Splitter, que dá segurança para a posição, deixa o Duncan sair do garrafão e é um bom defensor, também dando uma ajuda nos tocos. O Spurs era um garrafão muito vulnerável quando tinha McDyess ou Matt Bonner em quadra.

A movimentação ofensiva ainda é um mistério. Deve melhorar com Duncan participando mais do jogo e Richard Jefferson deu sinais nos playoffs, em alguns jogos, de que pode ser muito útil quando se mexe ao invés de ficar parado para ser o arremessador que não sabe ser, mas vai entender a cabeça do Tartaruga Ninja.

O Spurs poderia ter tentado uma troca por um dos alas que estavam dando sopa e não saíram caro, como Ronnie Brewer, Josh Howard ou Matt Barnes, todos seriam mais úteis que o Richard Jefferson, então não dá pra dizer que a offseason foi perfeita. Também dava pra ter cogitado e feito propostas envolvendo o Tony Parker, que já deu sinais de que não ficaria nada ofendido com uma troca. Não foi perfeito, mas com bons nomes muito jovens para dar um gás nos veteranos, tem tudo para ser um time melhor que o do ano passado. O Spurs não voltou, mas pode voltar.

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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Vitória sem vingança

Nash imita o Cristo Redentor


Para quem não é fã do Spurs, os últimos 10 anos não foram tempos muito divertidos. Desde 2003, parece que o Spurs não fez outra coisa além de chutar o traseiro do Phoenix Suns. Quanto mais a NBA ficava defensiva, quanto mais os times se transformavam em enormes retrancas, quanto mais os times pareciam todos iguais tentando arranjar peças similares umas às outras, mais o Suns se levantava como uma alternativa viável, um basquete diferente, uma mentalidade quase insana, mas que também era capaz de dar resultado. Com apenas um único problema: não era capaz de dar resultado coisa nenhuma. Porque o Spurs não deixava.

Como acontece com todo projeto político, para provar que seu plano dava resultado, o Suns teve que - funhé! - abandonar seu plano. Primeiro foi a contratação de Shaquille O'Neal, dando ao Suns um jogo de meia quadra e um cara para trombar com Tim Duncan, depois foi a mudança de técnico para tentar se focar na defesa. Não deu certo.

Os erros foram se acumulando, o tempo foi passando, e a gente desistiu de um monte de coisas: a Alinne Moraes não vai ficar pelada, eu não vou ganhar na loteria, e o Suns não vai ganhar do Spurs. Como surpresas, no máximo esperamos um pneu furado pela manhã que nos poupe de chegar no trabalho, ou um incêndio que acabe com o escritório, talvez um Jogo 7 nos playoffs entre o Spurs e o Suns e olhe lá. Mas não conseguimos acreditar na vitória mesmo quando ela era mais provável.

Levou anos para o Spurs finalmente não ter as peças necessárias para colocar em vigor o esquema tático absurdamente rígido do técnico Gregg Popovich. Faltava um defensor no perímetro, um arremessador de três da zona morta, arremessadores experientes que gostem de arremessar com os pés parados, um biruta de posto no garrafão pra fazer faltas duras no lugar do Duncan. Levou anos para o Spurs sem as engrenagens certas ainda contar com lesões de Ginóbili e Tony Parker, tirando da equipe qualquer esperança de ritmo de jogo, algo tão essencial para um time regular como esse. Durante as últimas semanas recuperaram todos os jogadores de contusão, conquistaram algum ritmo, conseguiram descobrir em George Hill alguém para defender e arremessar da zona morta. Mas ainda ficaram claros os buracos no elenco que Popovich não podia tapar sem jogar seu plano de jogo pela privada.

Levou anos para o Spurs ser um time de defesa mais capenga e que, portanto, depende mais do ataque e joga melhor em velocidade. Levou anos para o Suns ser um time com melhores reboteiros, que joga melhor num ataque de meia quadra, defende melhor e corre menos. Com o Spurs correndo mais, querendo usar um time mais rápido e mais baixo (Parker, Ginóbili e George Hill) e o Suns correndo menos, tendo mais opções no jogo individual (Jason Richardson, Grant Hill), não dava nem pra saber qual dos dois times jogava mais na correria do que o outro. E mesmo assim a gente achava que o Suns iria ganhar sem sequer confiar nas nossas próprias palavras. No fundo aquela certeza de que o Spurs ia dar um jeito, como sempre deu. O Ginóbili iria arrumar um modo de ganhar os jogos no final se tacando no chão argentinamente.

Os quatro jogos da série viram Grant Hill sair contundido para voltar minutos depois como se nada tivesse acontecido, e Steve Nash sair sangrando de quadra para voltar minutos depois - com 6 pontos tomados na cabeça e um olho a menos na cara - como se nada tivesse acontecido. Ué, os dois não deveriam ter morrido misteriosamente enquanto alguém aleatório do Spurs (eu chutava o Matt Bonner) marcaria 50 pontos inesperados? O Nash não deveria morrer em quadra vítima do ataque de um navio bucaneiro por estar jogando caolho, fantasiado de pirata?

Tudo deu certo para o Suns e bizarramente errado para o Spurs. Foi um encontro muito diferente daquele que ficamos acostumados, com um Spurs diferente e baleado que se encaixou muito pior em um Suns diferente e reforçado em aspectos mais diversos do que só o campo ofensivo. É até difícil acreditar que, mais do que vencer o Spurs, o Suns varreu a equipe de San Antonio com um estrondoso 4 a 0 na série. Fico feliz de não ter sido com Shaquille O'Neal, às custas do projeto de um Suns ofensivo, se vendendo apenas para se livrar do rival. Mas não há como não ficar com um pingo de tristeza ao ver as consessões que o Suns fez para sair vitorioso dessa série, jogando com um pivô, segurando a bola, pegando rebotes ofensivos. Há muito do Suns de resistência, do Suns rebelde e subversivo que aprendemos a amar, como um Nash vovô jogando muito, Amar'e pontuando mas incapaz de defender, um pivô chamado Channing Frye que só arremessa de três pontos, um banco de reservas que corre como louco (até mais do que o time titular). Mas essa vitória não muda nem compensa as derrotas anteriores - agora é tarde.

Assisti emocionado ao Duncan se aproximar de Nash, após o fim da partida, e pedir desculpas pelo talho que abriu na cabeça do canadense. Duncan estava sorridente, sinal claro do apocalipse. Depois, Duncan foi dar tapinhas no ombro do Amar'e e dizer que agora é a hora do garoto. Parker abraçou o Nash com nobre admiração, depois de ter dito um dia antes que é um grande fã do armador canadense e que aprendeu muito assistindo a ele jogar durante os últimos anos. Até o Ginóbili conseguiu abraçar Grant Hill sem se jogar no chão e pedir uma falta. Esse time do Spurs é grandioso, saiu de quadra com um sorriso no rosto, consciente de que perde apenas porque a máquina não tem mais as mesmas peças. Simplesmente chegou a hora do Suns de ir em frente. É claro que a equipe de Phoenix respira aliviada e se sente parcialmente vingada, mas pegou um adversário combalido e o enfrentou depois de anos adulterando seu elenco. Legal, estou feliz pra burro e torço para o Suns coroar essa vitória com um anel de campeão depois. Mas ficamos longe de ter aquela vingança, aquela vontade de sangue que as séries passadas tiveram. Não apenas estamos fadados a nunca ver um Jogo 7 entre Suns e Spurs, como também só vimos o Suns vencer frente a esse Spurs sem muitas chances, quase desistente, dócil, cheio de abracinhos no final. Bowen e Horry não abraçariam ninguém, a não ser para bater carteiras - mas felizmente o basquete os engoliu faz um tempo.

O San Antonio Spurs é como chocolate amargo, parece horrível perto do docinho gostoso que estamos acostumados desde bebês tomando Ovomaltine. Mas aos poucos vamos acostumando e tomando gosto pela coisa. Com os anos aprendi a apreciar mais e mais o basquete do Spurs, admirar Tim Duncan e bater palmas para o jogo subversivo de Tony Parker e Ginóbili que, muito aos poucos, foram dobrando o esquema tático de Popovich. Mas esse não é o mesmo Spurs que chegou numa semi-final de conferência passando bolas decisivas para o Richard Jefferson errar seus arremessos livres. Dá pra imaginar o Suns não tendo que marcar um dos arremessadores do Spurs? Culpa do Spurs que apostou as fichas no cara errado, mérito do Suns que fez as trocas certas e soube reforçar fraquezas do time sem colecionar grandes defensores.

Nem acredito que vi o Suns passar do Spurs, resolvi até postar rápido antes que a NBA resolva cancelar o resultado por doping ou alguma loucura do tipo, haverá tempo de se falar melhor dessa partida mais pra frente, enquanto esperamos o vencedor de Lakers e Jazz. Mas uma parte de mim percebe claramente que não há uma vingança acontecendo aqui: um Suns diferente venceu um Spurs mais diferente ainda. Em quatro partidas fáceis, quase sem graça. Todo aquele desgosto de ver o Suns experimento de cientista maluco ser eliminado por um Spurs brutal e violento continuará para sempre entalado na garganta. O Nash sangrou por uma cotovelada sem querer de um Duncan que até pediu desculpas constrangido, é uma outra realidade. A vitória dessa noite vem com alegria para o Suns e com aceitação para o Spurs, que sabe de sua necessidade de, agora, reconstruir. Mas não há espaço para alivio na equipe de Phoenix. Os tempos são outros e o Spurs era uma equipe babinha: pela frente, deve vir Lakers. Não vai adiantar nada se livrar de uma zica que durou uma década para ser eliminado de novo. Se não for campeão, esse Suns vai desmontar e se vender de novo, cada vez mais longe do projeto inicial. Quem será que contratarão, na temporada que vem, pensando apenas em parar Kobe e Gasol?