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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Desastre anunciado

Pois é, foi daí que o Manu acertou o arremesso dele


Foi por pouco, por muito pouco. O Memphis Grizzlies estava a 1.7 segundo de eliminar o San Antonio Spurs, vencer sua primeira série de playoff na história, causar uma zebra do tamanho de um elefante (só pra ficar no mundo animal) e tudo isso, é sempre bom lembrar, sem o Rudy Gay! Ficou no quase porque o técnico Gregg Popovich resolveu colocar o trabalho de um ano inteiro nas mãos de um novato. Ele desenhou uma jogada para Gary Neal, que meteu a bola de três pontos que levou o jogo para a prorrogação e salvou o Spurs das férias indesejadas. Não que vocês não saibam disso tudo, devem ter visto o jogo ou visto o resumo hoje cedo, mas estou colocando tudo isso no papel (ou na tela) para ver se acredito. Alguém alguns meses atrás imaginaria que esse parágrafo pudesse ser escrito de maneira séria?

São muitas coisas estranhas acontecendo e a primeira a gente já alertou durante a temporada regular. Nesse post sobre o Spurs eu disse que eles estavam se parecendo mais com os times que estavam acostumados a vencer, ofensivos, velozes, baseados nas bolas de 3, do que com o "clássico" Spurs defensivo, pragmático e entediante. Acabaram o ano com o segundo melhor ataque da NBA e 11ª melhor defesa, números parecidos com o Phoenix Suns de alguns anos atrás que eles enjoaram de vencer. A fragilidade defensiva era ainda maior quando o Popovich, por falta de opção provavelmente, usava formações que favoreciam as bolas de três pontos ao invés do poder defensivo, foi o aproveitamento insano nas bolas de longe que fizeram o Matt Bonner ser mais usado que o Tiago Splitter durante todo o ano, por exemplo.

O discurso do Popovich e dos jogadores nunca mudou, eles sempre disseram que queriam voltar a ser um time defensivo, mas na prática não mudaram muita coisa, preferiram seguir com esse plano estranho que estava garantindo uma vitória atrás da outra na temporada regular. Eles falharam em perceber alguns sinais importantes, porém, como alguns jogos contra o Lakers e o próprio Grizzlies em que foram engolidos vivos pelos fortes garrafões das duas equipes. Claro que venceram jogos contra eles também, mas ficou bem claro que quando eles enfrentavam um garrafão alto e em boa forma, não sabiam como responder defensivamente e precisavam de dias inspirados nas bolas de três para vencer. E, como todo mundo no mundo do basquete sabe, nada é tão perigoso quanto depender dessas bolas de longa distância, é a bola mais irregular e imprevisível do basquete, uma temporada pode ir para o ralo em um dia ruim.

O Grizzlies provavelmente sabia disso. Perdeu alguns jogos bobos no final da temporada regular quando poderia avançar até a 6ª posição no Oeste e deu a impressão (que eles negam) de que estavam escolhendo enfrentar o Spurs. Verdade ou não a gente nunca vai saber, mas se foi intencional, foi inteligente. Na temporada regular eles fizeram jogo duro para o Spurs e têm as qualidades que mais os incomodam, a começar pela dupla de garrafão mais entrosada da NBA com Zach Randolph e Marc Gasol. Sim, o outro Gasol e o Andrew Bynum são do caralho e Serge Ibaka e Kendrick Perkins são a perfeita combinação na defesa, mas atualmente ninguém é páreo para o entrosamento da dupla do Memphis. Eles executam muitas jogadas um com o outro, ambos passam bem a bola e ainda são potências nos rebotes de ataque.

Como o Spurs usa muito o Tim Duncan no ataque, principalmente fazendo a maioria dos bloqueios e corta-luzes dos pick-and-rolls, que são responsáveis por 27% das ações ofensivas do Spurs (disparado a jogada mais usada por eles), eles liberaram o TD do fardo físico e perigoso, pelas faltas, que é marcar o Zach Randolph. Isso resultou num banho do Z-Bo para cima do Antonio McDyess e, principalmente, do Matt Bonner. Aliás, parece uma ordem bem clara do técnico Lionel Hollins para os seus jogadores: se Bonner está em quadra a jogada é simplesmente acionar quem está sendo marcado por ele, sucesso garantido.

Isso obriga Popovich a usar menos o Bonner e no lugar dele não pode colocar uma escalação mais baixa, que também seria explorada do mesmo jeito pelo garrafão forte do Grizzlies, então tem que colocar o McDyess e, nos últimos jogos, Tiago Splitter. O DeJuan Blair, titular durante muito tempo, é solenemente ignorado e não me pergunte o motivo. Todas essas opções, mesmo quando McDyess e Splitter jogam decentemente, não são o bastante para vencer a disputa no garrafão e ainda tiram as bolas de três do Spurs. O Spurs não tem opção, é na defesa que o Grizzlies está vencendo essa série.

O ótimo site NBA Playbook fez um post só para explicar como o Grizzlies está parando o ataque do time de Popovich. A principal estratégia está em limitar as bolas de três pontos ao mesmo tempo que não abrem um corredor para infiltrações. Na jogada que ele dá de exemplo abaixo, a ajuda fecha a infiltração de Parker mas sem que ele tenha espaço para tocar para Bonner nos três pontos, resta um arremesso longo de dois para Tim Duncan. E nem é da posição onde ele pode usar a tabelinha.



Vale reforçar também o empenho com que todo mundo no Grizzlies está correndo em toda santa posse de bola para cobrir as opções mais óbvias de passe depois de cada corta que o Spurs faz. É um trabalho digno de defesa do Celtics. Em muitas vezes eles sabem onde dobrar, onde ajudar e o cara que fica livre é sempre o mais distante da bola, obrigando o Spurs a passes complicados, longos ou infiltrações em um garrafão congestionado. Outra decisão importante está em tirar o arremesso da zona morta; se deixam alguém livre de três, não é lá. É o arremesso favorito do Spurs, tentavam 8 desses por jogo na temporada regular, e agora estão tentando só metade e sempre marcados. A bola na zona morta era a válvula de escape deles e não está funcionando. Para compensar o Spurs precisa  passar mais a bola no perímetro e forçar jogadas individuais, deixando aparecer ainda mais as qualidades defensivas de Shane Battier, Tony Allen e as mãos rápidas do Mike Conley para interceptar passes. É simplesmente um massacre! Pode-se dizer que o Lionel Hollins era um stalker do Spurs e sabe todas as qualidades, defeitos, desejos, medos e comida favorita do seu adversário.

Se essa série já não está morta e enterrada é porque o Spurs tem a mão certeira de Gary Neal e o Grizzlies também tem os seus defeitos. Quando Zach Randolph está no banco eles não tem alguém que pode criar o seu próprio arremesso do nada diante de uma defesa mais forte, Tony Allen é um dos piores arremessadores da NBA e OJ Mayo compromete na defesa. E embora o Randolph esteja dando conta do recado na hora de arremessar bolas decisivas, às vezes é difícil passar a bola lá pra dentro do garrafão, nessas horas faz falta o Rudy Gay para receber a bola mais longe da cesta e criar alguma jogada.

Mas defeitos a parte, o Grizzlies é o melhor time da série e quem dominou todos os jogos. Se tiverem a cabeça no lugar e não ficarem lamentando a classificação que escorregou por entre os dedos devem fechar a série já na próxima partida. Não dá pra cravar isso porque séries longas de playoff são interessantes pelos ajustes que cada técnico faz para resolver os problemas, mas o negócio é que tenho a pequena impressão de que o Popovich não sabe mais o que tentar para sair das armadilhas do Grizzlies.

Abaixo, o arremesso insano em uma jogada desastrada do Manu Ginobili, que cortou a diferença para um ponto, e depois a bola de três salvadora do Gary Neal. E vale uma nota para algo impressionante: Foi dito pelo próprio elenco do Spurs depois do jogo que a jogada final foi mesmo desenhada para o Neal, não era segunda ou terceira opção. O novato disse que a sensação foi ótima de ouvir as instruções e ver que ninguém nem por um segundo questionou a decisão do treinador de colocar toda a temporada nas mãos de um novato que nem foi draftado. Sangue frio e obediência ao treinador, talvez o Spurs ainda tenha um pouco do velho Spurs escondido lá no fundo.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Fuçando no lixão

Esse gesto, na língua para surdos, significa "Eu fedo"


Tentando salvar umas verdinhas, essa é a época do ano em que os times mandam um punhado de jogadores para o olho da rua. Equipes em busca das últimas peças para compor seus elencos para os playoffs costumam, então, dar uma olhada no que foi jogado fora, no que não deu para aproveitar, e ver se há algum resto ali que dê para usar de alguma forma. Em geral é um trabalho degradante de revirar o lixo, melecar as mãos, deparar-se com um ou outro Kwame Brown no meio da sujeira e ficar enojado, mas volta e meia tem alguma coisa que vale a pena. Vamos, então, dar uma olhada no lixão e ver o que alguns times optaram recentemente por levar para casa!


Sem Amar'e Stoudemire, que cedo ou tarde ainda vai ter que usar um olho de vidro, o Suns definitivamente sente falta de uma presença física no garrafão e é obrigado a colocar, ao lado de Shaq, jogadores mais mirrados como Grant Hill ou Matt Barnes. No meio de um monte de papel higiênico usado, então, o Suns encontrou um pouco de estrume descartado pelo Nets: trata-se de Stromile Swift.

Não dá pra acreditar que mais alguém tenha coragem de oferecer um contrato para ele, é assustador. Assim como tem gente que passa a vida inteira ainda acreditando no Kwame Brown, no Isiah Thomas e no Gustavo Nery, parece que nunca se esgota a esperança de que o Swift torne-se finalmente um bom jogador. É sempre aquele velho caso do apreço pelo potencial, e basta dar uma olhada no Stromile para perceber que todas as ferramentes físicas estão lá, de verdade. Toda temporada parecia que ele finalmente deslancharia, e as enterradas violentas e pontes-aéreas sensacionais pareciam apenas uma prévia de algo que se tornaria a norma, não a exceção. Foram anos e anos fedendo no Grizzlies, sempre com enterradas incríveis e partidas medíocres, mas uma hora ele iria jogar pra valer, afinal é muito novo, muito inexperiente. Até que o Grizzlies aparentemente se encheu e o contrato acabou.

Meu Houston Rockets, então, precisava desesperadamente de uma presença física para jogar ao lado de Yao Ming, e adivinha quem estava dando sopa? Confesso que entrei na empolgação, eu era jovem, ingênuo e ainda achava que a Sandy era virgem, então vibrei com a contratação do Stromile Swift na certeza de que ele tinha muito potencial e seria a peça que complementaria perfeitamente o jogo mais técnico e comedido do pivô chinês.

Bem, com o Swift na equipe o Houston começou a aparecer em vários Top 10 de jogadas semanais, com enterradas monstruosas seguidas sempre daquele sinal de "sou da paz" que ficou característico. Quem acompanha pelo YouTube, então, acha que está tudo ótimo, mas quem acompanha de perto nunca viu um jogador tão inútil em quadra. Ele é a versão jogador de basquete da Angela Bismarck cantando, e sempre com esse papo de que "está se aperfeiçoando", de que "está aprendendo". Coisa nenhuma, em matéria de técnica ele é o mesmo jogador desde seu primeiro minuto na NBA.

Meu Rockets se livrou rapidinho dele, junto do novato Rudy Gay, em troca do defensor e pau-pra-toda-obra Shane Battier, e embora eu não queira falar sobre essa troca (imagina só ter o Rudy Gay nesse time ao invés do T-Mac zumbi!) fiquei bem feliz na época por ter me livrado do Swift. Na verdade, ainda fico feliz hoje, talvez até tenha valido a pena. O engraçado é que a troca mandou o coitado justamente de volta para o Grizzlies, o que é engraçado porque supostamente eles deveriam saber a merda que estavam recebendo. Quando a palavra "potencial" está em jogo, parece que os times têm memória curta, mas é claro que não deu certo.

Talvez no Nets, então, com Jason Kidd, ele pudesse se tornar o novo Kenyon Martin, aquele cara que fede mas tem os dotes físicos para pegar ponte-aérea atrás de ponte-aérea e até parecer bom. Até o Mikki Moore fez a carreira dele assim, eu também poderia, mas o Stro não conseguiu. Afundou no banco e deixou até de ser estrela de YouTube (embora seu currículo por lá seja extenso, vale muito a pena conferir). Já faz mais de 8 anos que ele é "jovem e cheio de potencial", acho que chega uma hora em que você olha para a cara do sujeito e percebe que ele tem rugas e uns cabelos brancos, fica meio ridículo. Ainda assim, o Suns deve achar que ainda vale uma tentativa.

Ironicamente, se eu tivesse que imaginar ele dando certo num lugar, seria no Suns. O que não quer dizer nada, claro, porque se eu tivesse que imaginando ele dando certo com algum jogador seria com o Kidd, e nós sabemos que não funcionou. Até poderia dizer que o "Stro Show" (apelido cheio de força nominal, aliás) vai ajudar de leve o Suns, enterrar aqui e ali e tapar uns buracos. Mas eu é que não cometo o mesmo erro duas vezes, vai ser um fracasso retumbante assim como o Kwame Brown foi (ou está sendo?) em sua nova chance com o Pistons. Quem fede, fede.


Outro jogador em quem eu botei fé no Rockets foi o Luther Head. Apesar da inconsistência, dá para ver nele o potencial para se tornar um pontuador respeitado e um bom atirador da linha de três pontos. Por alguns minutos, eu até conseguia imaginar meu Houston reconstruindo o elenco em cima dele e do Yao, o que hoje mataria qualquer um de dar risada. Baixo demais, péssimo defensor, incapaz de armar o jogo, não existe posição em que Luther Head se encaixe. Pior ainda é sua mecânica pouco ortodoxa de arremesso, em que ele se taca para frente na hora de arremessar mesmo quando está livre (uma versão inversa do Ben Wallace, que sempre se taca para trás mesmo quando não faz sentido) e parece lhe exigir muito fisicamente. Depois de um punhado de arremessos ele está exausto e pequenas variações na mecânica já causam erros grosseiros. Definitivamente, nem um pouco confiável para alguém que só faria carreira se marcasse uns 20 pontos por jogo. Considere ele uma versão do Ben Gordon mas com as pilhas terminando antes do quarto período. Bem inútil, não é mesmo? Por isso, o Rockets mandou o sujeito embora, economizou uma grana, e agora o Miami Heat acaba de assiná-lo. Os arremessos de três pontos são uma clara deficiência da equipe, que acaba dependendo demais do Daequan Cook, e o Luther Head pode ajudar um pouco. Com o Wade armando o jogo, o Head pode jogar na posição 1 e não comprometer a equipe na armação, o que parece uma boa idéia. No meio do lixo, até que o Heat saiu no lucro. O único problema é que o empresário do Luther Head recusou outras propostas porque procurava garantias de que seu cliente iria ter minutos consideráveis em quadra, o que sempre é uma dor de cabeça: se ele sentar nos playoffs (diabos, o Heat vai pros playoffs!), será que vai arrumar encrenca com a comissão técnica?


Melhor ainda se saiu o Cavs, que recuperou o Joe Smith, mandado embora pelo time-outrora-conhecido-como-Sonics. Há pouco tempo atrás, ainda no Bulls, por diversas vezes ele era o melhor jogador em quadra com seu arremesso de meia distância consistente e bastante técnica no garrafão. Quando foi trocado para Cleveland, trouxe poder ofensivo para o banco de reservas e ganhou seu espaço. Ele é praticamente a antítese do Ben Wallace ou do Anderson Varejão, por ser meio mole mas versátil na parte ofensiva. Sem Ben Wallace e desesperado por alguém de mais de 20 centímetros no garrafão capaz de levantar os braços, o Joe Smith caiu dos céus. Além do mais, já tendo passado um bom tempo com o time, não terá que aprender os esquemas táticos (até porque eles não existem mesmo) e já tem certa química com o resto do elenco, tanto dentro quanto fora das quadras. Parece uma adição pequena, mas o Cavs precisava da possibilidade de ter um reserva capaz de assumir a carga ofensiva do Ilgauskas quando ele vai pro banco, já que Varejão e o novato JJ Hickson acham que "arremesso" é coisa de baseball. O banco passa a ser mais versátil, completo, e o Ben Wallace nem faz tanta falta assim, pra ser bem sincero. Não há nada que ele acrescente à equipe que não esteja lá em outras formas, e por isso acho que o Joe Smith será muito mais importante - e eficiente.


Outro jogador que o Cavs tentou contratar foi o Drew Gooden. Ele também já passou um bom tempo no Cavs e se encaixaria muito bem naquilo de que o time precisa: rebotes e arremessos de meia distância. Não conte com o Gooden para trabalhar ofensivamente dentro do garrafão, mas para efetuar o papel do Ilgauskas, ou seja, corta-luz na cabeça do garrafão, uma ameaça constante nos arremessos se deixado livre e rebotes ofensivos, o ala seria perfeito. Aliás, ele é inclusive bom demais para estar aí no meio de tanto lixo, sem emprego, bebendo nos bares e dizendo pra mulher que estava procurando trabalho. Acontece que o Kings, como deu a entender nas últimas trocas, parece cada vez mais interessado em deixar a pirralhada, especialmente o surpreendente Jason Thompson e o pivô-que-chuta-de-três Spencer Hawes, suar as pitangas. Seria bastante razoável deixar o Gooden no time até o final da temporada e tentar assiná-lo por menos grana então, quando o contrato acabar, mas acho que o Kings pensou duas coisas: primeiro, que o Gooden iria querer dar o fora dali bem rapidinho; segundo, que o Gooden tem mais de 12 anos. É uma abordagem audaciosa mas respeitável: "já que a gente está fedendo, então vamos feder de verdade e ter só meninada por aqui". Admiro o núcleo jovem do Kings, a limpeza que eles estão fazendo nas finanças é incrível, e agora um time que parecia fadado a ser mediano pela próxima década tem espaço para nascer de novo. É triste ver o Kings, que foi um dos times mais legais dos últimos tempos, lascado e nas últimas colocações? É claro que é, mas dá para ver alguma esperança. Assim, lá se foi o Gooden para a sarjeta.

Acontece que o Drew Gooden, por ser bom demais para o resto do estrume, está sendo abordado por muitas e muitas equipes. Além do Cavs, estão na briga o Mavs (que precisa de toda ajuda que puder arrumar para se fincar à oitava vaga para os playoffs) e o Spurs, que parece ser o favorito. Vários lugares, inclusive, dão como certa a ida de Gooden para San Antonio, e faz bastante sentido. O Spurs sempre faz estragos com uma dupla de garrafão composta por Duncan e mais algum bípede, basta haver algum pouco talento. Nessa temporada, com a contusão do Frabricio Oberto, o outro bípede ao lado de Duncan é o Matt Bonner, obviamente a maior mudança no Spurs desde que o Tim Duncan esboçou um sorriso uns 4 anos atrás. Em geral, o complemento no garrafão deles é sempre alguém para pegar rebotes, marcar duro e abusar no corta-luz, coisas em que Matt Bonner deixa muito a desejar. Ao invés disso, cria um perigo na linha de três pontos, alarga a defesa retirando marcadores do garrafão e converte seus arremessos quando livre. Parece ótimo, tem funcionado bem, mas é obviamente um desvio perigoso da tática que o Spurs emprega de modo tão eficaz na última década. Seria legal ter o Matt Bonner no banco para utilizar essa formação nos jogos em que for necessária, mas é preciso alguém capaz de dar umas cotoveladas e pegar uns rebotes embaixo da cesta. O Drew Gooden parece se encaixar muito bem dentro dessa necessidade e, quando fecho meus olhos, consigo vê-lo nitidamente acostumado com a parte tática da equipe e recebendo um anel de campeão no uniforme do Spurs. Também consigo ver a Mara Maravilha pelada puxando meu pé de noite, e não consigo saber o que me assusta mais; provavelmente o Gooden campeão. Malditos anos ímpares em que o Spurs sempre ganha tudo!

Faz sentido para ambas as partes e é bem possível que o Gooden, se ganhar um anel e tiver minutos consideráveis, continue sua carreira no Spurs pelas próximas temporadas. Pior do que ver o San Antonio ainda mais forte, no entanto, seria a situação ainda mais complicada para o nosso Tiago Splitter conseguir um espaço na NBA. É culpa do Kings, custava segurar o Gooden um pouco mais? Por que todo mundo demite jogadores-lixo mas deixa os melhores, de graça, para o Spurs e para o Celtics? É nessa hora em que aparecem os times grandes de verdade, em que todos os jogadores querem estar, e os times mequetrefes, dos quais todos os jogadores querem fugir. O Clippers, por exemplo, deve acorrentar seus jogadores nas camas para que não escapem durante a noite, enquanto o Spurs sempre consegue melhorar o elenco enquanto boceja, sem que nenhuma gota de suor tenha que cair para isso. Mundo injusto.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Desconhecido do Mês - Final

Aprenda a passar a bola, coma pizza e não leve seu IPod


Aqui está o aguardado último post sobre o Matt Bonner, nosso desconhecido de março. Como já virou tradição, terminamos um desconhecido no mês seguinte. E eu faço isso porque é tradição, não porque sempre prefiro falar de outras coisas antes e vou deixando pra depois.

Como prometido, vou começar com o melhor vídeo de todos, o vídeo do Matt Bonner dando um crossover doentio em cima de outro gigante do basquete mundial, Mark Madsen.

Red Rocket contra o Mad Dog, os dois são tão fodas que até apelidos legais eles tem.



O vídeo fala por si e expressa todo o talento do ruivo do Spurs, mas a história mais legal ainda está por vir: o dia em que esse talento levou um outro jogador à loucura.

Foi num jogo contra o Indiana Pacers no começo do mês passado. O Spurs ganhou, claro, mas durante o jogo o David Harrison teve um ataque de nervos. Depois de ser marcada uma falta de ataque dele em cima do Bonner, o cara ficou doido, começou a reclamar, e o técnico Jim O"Brien teve que tirá-lo da quadra e ele foi levado à força para os vestiários, onde foi medicado. Aqui tem uma matéria falando mais disso:

"Harrison perdeu o controle de suas emoções no vestiário após ser escoltado por seguranças da equipe nos segundos finais do jogo da última quinta. Ele teve que tomar alguns pequenos pontos por um corte na cabeça. Harrison disse via mensagem de texto que não sabe o que fez dentro do vestiário que fez com que ele cortasse a cabeça. Um dirigente do Spurs disse que não houve estragos dentro do vestiário, já dirigentes do Pacers falaram que se houvesse qualquer coisa lá, era David Harrison quem iria pagar. "Eu concordo com a suspensão (1 jogo)", disse Harrison. "Eu perdi o controle e precisava aprender a ter mais controle sobre mim mesmo para ser um jogador de sucesso dentro dessa liga. E eu até procurei ajuda profissional para me ajudar no processo. Eu sinto muito."

O que a matéria não fala é que enquanto não conseguiam levar o David Harrison para o vestiário, ele ficava olhando e apontando para o Bonner em quadra ameaçando o ruivo de morte. Sobre isso, mais tarde Matt Bonner respondeu:
"E você apenas recebe uma falta técnica por isso? O Will Ferrell foi expulso por isso no filme Semi-Pro".

Genial, Matt Bonner, genial.

Então se você gostou do Matt Bonner, que além de bonito e engraçado, joga muito, você pode aprender a ser como ele. Você pode evoluir seu jogo e se tornar o próximo Matt Bonner, afinal não é isso que toda criança sonha? Para isso você precisa participar do próximo "Matt Bonner Basketball Camp", pelo singelo valor de 195 dólares. Serão quatro dias de atividades, veja o que eles dizem:

"O Matt Bonner Basketball Camp se compromete a desenvolver os fundamentos do basquete. Os participantes aprendem a dominar a bola, driblar, movimentos de garrafão, rebotes, ocupar espaços na quadra, passar, defender, atacar e defender em equipe. Tudo ensinado por Matt Bonner e sua bem treinada equipe.

e mais


- Horário das 9 da manhã às 3 da tarde.

- Pizzas e lanches estarão à venda no almoço.
- A camiseta do Matt Bonner estará à venda no local.
- Traga sua própria bola.

- O Camp era para ensinar. Não fazemos tarefas de babá, não tem filmes e nem jogos de quadra inteira"


É revoltante! O Matt Bonner ganha milhões de dólares por ano e não pode comprar bolas para o seu próprio centro de treinamento? As crianças pagam 195 dólares e ainda têm que levar seu lanche ou comprar no local e levar a bola? Que mancada, Bonner!
E ele ainda diz pra você não levar relógios, IPods ou qualquer coisa de valor porque o Matt Bonner Basketball Camp não se responsabiliza por nada perdido no local. Mas a segurança das crianças, ufa, está garantida. Elas só saem do ginásio acompanhadas. Um alívio.

Mês que vem, ou seja, esse mesmo, tem o último desconhecido. Um post único, antes dos playoffs, sobre um técnico pouco conhecido. Aguardem.

sábado, 22 de março de 2008

Desconhecido do mês

Bonner, na frente dos trens de Toronto em que andava nos tempos de Raptor


O desconhecido desse mês já marcou 25 pontos e pegou 17 rebotes em um jogo. Já meteu 5 bolas de 3 em um jogo. Já foi o jogador favorito de uma cidade inteira. Já irritou um adversário ao ponto do cara sair do sério e o ameaçar de morte, já brigou com Kevin Garnett, já derrubou um adversário no chão com um drible e ainda é formado em administração. Sabe quem é capaz disso tudo?

Matt Bonner.

Falamos que nesse mês não teríamos nenhum especialista em defesa na lista de desconhecidos, então pegamos um cara que é simplesmente fantástico no ataque. O quê? Não acredita? Estamos falando de um cara que tem média, na carreira, de 40% de aproveitamento de 3 pontos, e seu aproveitamento geral de arremessos já foi, em um ano, de 53%, um dos mais altos de toda a NBA.

Esse primeiro ano foi no Toronto Raptors. O Bulls o selecionou no draft de 2003 e logo depois o trocou para o Toronto. O time do Canadá fez um acordo verbal com o Bonner e ele então foi passar um ano na Europa com a promessa de ter uma chance real no time na temporada seguinte. Bonner então foi para o Sicilia Messina da Itália passar um ano. Mas não foi nada fácil. No meio da temporada ele ficou muito doente, chegou a ficar com 40 graus de febre (igual à música do Twister) e passou muito, muito mal. Quem teve que tratá-lo foi o dentista do time, já que não tinha um médico disponível, e depois foi descoberto que a causa tinha sido salmonella e que a origem poderia ter sido a falta de água quente em seu apartamento.

Seu apartamento não tinha água quente porque a situação lá era tão bisonha que o time foi à falência no meio da temporada e parou de pagar os jogadores. Bonner teve seu aquecimento e eletricidade cortados e recebeu duas ordens de despejo. Como um bom profissional, ele continuou jogando e finalizou a temporada com uma ótima média de 19,2 pontos e 9,3 rebotes.

Pelo menos essa situação demorou apenas um ano e na temporada seguinte o Raptors cumpriu sua parte no acordo e chamou Bonner para testes em que ele se deu bem e ganhou a vaga na equipe. O time do Raptors na época não era lá grande coisa mas também não era um lixo, então ter uma vaga naquele time não era tão fácil assim, não era como ter uma vaga naquele time do Nuggets do ano de novato do Nenê quando o Rodney White era o melhor da equipe.

O seu primeiro ano foi o melhor da carreira de Bonner na coisa em que ele mais se destaca até hoje, ou seja, sua pontaria. Ele é ainda um ótimo arremessador de média e longa distância e, pela falta de marcação, costuma marcar seus pontinhos em arremessos livres. Na sua primeira temporada ele teve um aproveitamento de 53% e garantiu vaga na rotação do time, até sendo um dos jogadores favoritos dos torcedores canadenses.

Mas como ele virou o favorito é o que é engraçado. Primeiro veio o apelido, Red Rocket. O apelido nasceu porque sempre viam ele nos trens públicos de Toronto, cujo slogan é "ride the rocket" e como o cabelo do Bonner é ruivo, ele virou o "Red Rocket". Se você estava em Toronto em 2003 e viu um ruivo de 2,10m no trem, sim, era o Matt Bonner. E além dele ser visto pela cidade no transporte público e não em um mega carro de luxo, em um jogo contra o Timberwolves ele fez uma falta flagrante em cima do Kevin Garnett, que levantou com tudo querendo ir pra briga! Depois de uma boa confusão e discussão, a torcida foi ao delírio gritando "Bonner, Bonner, Bonner" e como fãs de hóquei, sabemos que os canadenses adoram uma boa briga dentro de uma quadra. E foi assim que ele virou herói em Toronto.

O vídeo da briga é esse aqui:



Mas não só herói, como rambém estrela de TV, ele virou. Ele fez uma ponta na série "Instant Star", no episódio "The Jean Genie".

Mas a alegria de ser o herói canadense não durou muito. Em 2006 ele foi trocado para o San Antonio Spurs junto com Eric Williams pelo Nesterovic. Para os fãs do Toronto, uma pena; para o Bonner, a melhor chance da vida dele de ser campeão, o que acabou acontencendo no ano passado. Sim, Bonner tem um anel de campeão e o Karl Malone não tem. Que ala de força você queria no seu time?

Imagino que no começo não tenha sido fácil para Bonner, mudar de cidade nunca é fácil, você tem que se adaptar ao clima, aos hábitos, tem que fazer amigos. E é por isso que ele tem uma página no MySpace! Dizendo que quer conhecer pessoas de San Antonio, ele fez sua página pessoal e você pode ir lá ser amigo dele e dar apoio para o cara quando o Spurs, se deus quiser, for eliminado dos playoffs! O link é esse aqui.

No Spurs, além de um anel de campeão, ele aprendeu muitas outras coisas. Como por exemplo a não ficar três segundos parado no garrafão sem estar marcando ninguém. Lição do Gregg Popovich:



Sobre a vida em San Antonio, o melhor ruivo da NBA (desculpe, Robert Swift) respondeu uma série de e-mails. Aqui estão algumas respostas:

"Já que sou só um role player na NBA, o meu sucesso pessoal depende do sucesso do time, então ser campeão é o auge pra mim. Mas eu não costumo usar meu anel de campeão não, tenho medo de que ele caia do meu dedo. Talvez quando eu me aposente e vá a algum banquete eu use."

"Quando eu era mais novo não costumavam me zoar porque eu era ruivo como costumam fazer com outras crianças como eu. Mas é que eu sempre fui o mais alto da turma, aí ninguém mexia comigo."

Mas uma coisa que não tem em San Antonio e que tinha em Toronto é o trem. Sem seu transporte público, como Bonner iria andar pela cidade? Foi obrigado a comprar um carro. Comprou um Pontiac Grand Prix porque, segundo ele, tem espaço para as pernas e ao mesmo tempo gasta pouca gasolina, é econômico. E ele falou que não é pelo dinheiro, ele sabe que não ganha mais o salário mínimo dos novatos, mas ele gosta de carros econômicos porque pensa no meio-ambiente. É isso aí, Bonner, o Capitão Planeta da NBA. Vai Planeta!

No próximo texto falaremos do dia em que Bonner deu um drible que fez um adversário quase cair no chão e do dia em que ele fez um jogador o ameaçar de morte. Imperdível.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Draftados em 2003 - parte 4

Lampe teve que abaixar o braço logo para ninguém perceber que ele fedia


Finalmente chegamos à última parte de nossa série de artigos sobre os draftados em 2003. Até agora, acompanhamos uma a uma as escolhas da primeira rodada, analisando o passado e o futuro de cada jogador. Alguns compõe o seleto grupo dos melhores da Liga, outros fazem parte do enorme grupo de jogadores que desapareceram sem deixar rastros.

Na primeira parte, analisamos as primeiras escolhas, que incluiam aquele tal de LeBron James, que dizem que é bom. Depois, na segunda parte, David West salvou o grupo do ostracismo total. Na terceira parte, Leandrinho e Josh Howard, as duas últimas escolhas da primeira rodada, fizeram os outros times se arrependerem mais do que a mãe do Gilberto Barros.

Na ansiosamente aguardada (por mim, pelo menos) última parte do artigo, veremos algumas escolhas selecionadas do segundo round. E, para finalizar, farei um exercício de imaginação: como seria o draft se acontecesse nos dias de hoje?


30 - Maciej Lampe (New York Knicks)

O Lampe era um dos jogadores europeus mais promissores de todo o draft. Se falava absurdos dele e seu potencial deixava todo mundo boquiaberto. Começou sendo cotado como uma das primeiras 5 escolhas, depois como uma das primeiras 10 e enfim estacionou como uma das primeiras 15 escolhas. O que o fazia cada vez mais despencar nos "mock drafts" (ou seja, nos drafts de mentirinha em que os especialistas chutam, e chutam mal) era o valor da recisão de seu contrato com seu clube europeu, o Real Madrid. Ainda assim, Lampe aparecia em todas as fotos conjuntas das "estrelas do draft" e era um consenso o fato de que já teria sido escolhido antes da 16a escolha.

Não foi o que aconteceu. O Lampe ficou lá, sentadinho na sala, vendo um a um os jogadores sendo chamados para apertar a mão sebosa do David Stern. Ver Cabarkapa, Pavlovic e Planinic sendo escolhidos antes dele deve ter lhe causado uma síncope e ele nunca mais seria o mesmo. Quando o primeiro round (e a chance de um contrato garantido) acabou, Maciej Lampe ainda não havia sido escolhido. Seu nome só foi anunciado para iniciar o segundo round, e a torcida de New York foi ao delírio. Era um jogador que poderia ter sido uma das dez primeiras escolhas e havia escorregado até a trigésima, direto para as mãos do Knicks. Lampe foi aplaudido, ovacionado, adorado, amado e até gritaram "gostoso!". Na platéia, um rapaz levantou uma placa com os dizeres "Light the Lampe", um trocadilho até que muito bom, levando em conta que todos os trocadilhos fedem.

Na entrevista logo após ter sido escolhido, Lampe tinha sangue nos olhos e parecia que sua cabeça estava preparando chá. Suas palavras foram furiosas e diretas: iria fazer cada um dos times da NBA se arrepender profundamente por ter deixado ele passar no primeiro round. Era uma jornada pessoal, uma busca por vingança, um jogador telentoso querendo acabar com a raça daqueles times muquiranas.

O Knicks pagou a multa, o Lampe foi imediatamente para a NBA, mas obviamente havia algo errado: como assim Isiah Thomas havia draftado alguém de que a torcida gostava? Como assim os fãs estavam feliz com a escolha? Era preciso fazer alguma coisa. Lampe foi trocado, junto com McDyess e duas escolhas de draft, pelo Marbury e o Hardaway, que aliás se saiu muito bem em mamar nas tetas do Knicks sem jogar.

No Suns, Lampe foi pouco utilizado mas dava seus primeiros sinais de feder. Foi então trocado para o Hornets, onde até teve mais chances mas fedeu do mesmo jeito, e aí foi para o Houston, onde marcou um total de 4 pontos em 4 partidas e desapareceu para nunca mais voltar. Vingança frustrada, moral destruída. E a multa de seu contrato salvou um punhado de times de cometer o maior engano de suas vidas.

31 - Jason Kapono (Cleveland Cavaliers)

Nada mal para uma escolha de segundo round. Trata-se de um jogador especialista que, aliás, tem a melhor média de aproveitamento em arremessos de 3 pontos de todos os tempos. Ele não chuta em grandes quantidades mas acerta o bastante para ser útil em qualquer equipe. O Bobcats arriscou, pegou o garoto no draft de expansão, e então o trocou para o Heat onde foi parte fundamental da equipe que foi campeã da NBA. O Pat Riley tentou de tudo para mantê-lo no time para essa temporada mas o Raptors desembolsou mais verdinhas e o Kapono resolveu ir para lá ser um homem rico no banco de reservas. Se bem que é melhor ser reserva no Raptors do que qualquer coisa no Heat, convenhamos. O Kapono foi perdendo seus minutos principalmente com a ascenção maluca do Jamario Moon, mas ele sempre vai ter seu espaço, sua função, e o Raptors tem potencial para acabar com o Leste assim que o Ray Allen estiver de cadeira de rodas e o Garnett só puder tomar purê de maçã no asilo.

32 - Luke Walton (Los Angeles Lakers)

Eu amo essa escolha. Vamos fazer uma pequena retrospectiva: Mike Sweetney foi a nona escolha, Reece Gaines a décima quinta, Troy Bell a décima sexta. O Lakers mesmo escolheu o Brian Cook na vigésima quarta posição. Quanto dinheiro indo pelo ralo, quantas escolhas desperdiçadas, quantos torcedores tendo que tomar anti-depressivos. E aí no segundo round, com a trigésima segunda escolha, o Lakers consegue draftar um jogador inteligente o bastante para ajudar qualquer equipe da NBA. Ele toma decisões espertas o tempo inteiro, passa a bola surrealmente bem, sempre sabe o que fazer e ainda pode cuidar das finanças da equipe sem nem usar uma calculadora. O cara é um gênio do ponto de vista do basquete cerebral. Se não tem a mão tão calibrada, se o físico é o de uma menina de pré-escola, isso nem vem ao caso. Sua mente, suas decisões, melhoram times inteiros.

Shaquille O'Neal ficou intrigado nos playoffs da temporada 2003-04 quando percebeu, e disse isso para a imprensa, que Luke Walton conseguia passar a bola para suas mãos como nenhum outro jogador jamais havia conseguido. Taí algo que eu colocaria no meu currículo. E já seria motivo o bastante para o Heat tentar uma troca, hoje em dia.

38 - Steve Blake (Washington Wizards)

Outro com um cérebro feito para o basquete. No Wizards, nunca teve muitas chances, mas assim que seu contrato acabou, foi para o Blazers jogar com seu amigo (de faculdade e também do Wizards) Juan Dixon. Lá começou a mostrar seu potencial como um armador cheio de fundamentos, habilidade em passar a bola e visão de jogo. Quando o Blazers o trocou por Jamaal Magloire, o Blake ficou revoltado. Por que diabos os times da NBA insistem em acreditar que o Magloire vai fazer alguma coisa em quadra? Blake então foi trocado para o Nuggets e fez miséria, mostrando-se ser a peça que faltava para o Nuggets de Iverson e Carmelo. Ele era o elo de ligação entre as estrelas, o general da equipe, e o time de Denver fez o possível para mantê-lo. Acontece que o Blake nunca queria ter saído de Portland, gostava da equipe, da cidade, dos amigos. Voltou para lá mesmo ganhando menos, mostrando-se um homem de princípios e também de visão: de alguma maneira estranha, sabia que a administração do Blazers estava ajeitando as coisas e que a equipe tinha futuro e poderia chegar aos playoffs ainda nessa temporada. Agora, o céu é o limite tanto para o Blake quanto para o Blazers. O que os outros times estavam pensando quando deixaram ele escorregar quase para a quadragésima escolha?

Aqui, acho que é hora de abrir um parênteses. Nosso amigo-leitor Sbubs escreveu em seu blog um post muito divertido sobre a "força nominal". Com ele em mente, fica bem claro que os times que não fazem a menor idéia de quem draftar apelam para a força do nome dos novatos. No segundo round, isso é ainda mais óbvio. São nomes demais, jogadores internacionais aos montes, então na dúvida o nome é que faz a diferença. O Steve Blake, um armador talentosíssimo, por exemplo, foi escolhido atrás de nomes como Sofoklis Schortsanitis (o tal do Baby Shaq que nunca sequer chegou a jogar na NBA) e Szymon Szewczyk (que eu adoraria saber pronunciar). Força nominal? Com certeza.

41 - Willie Green (Seattle Supersonics)

Imediatamente depois de draftado, foi trocado para o Sixers pelo outro novato Paccelis Morlende, outro caso de força nominal. Green não fez nada até agora mas o caso dele é engraçado. Nos raros momentos em que o Iverson se machucava, Willie Green entrava como titular e fazia trocentos trilhões de pontos. Quando o Iverson voltava e o Green ia para o banco, não conseguia fazer coisa alguma. Ele é um Ben Gordon do Mundo Bizarro, que só produz quando titular. Pode ter certeza que ele estava na mente dos responsáveis pelo Sixers quando a troca do Iverson precisava ser feita, e Louis Williams e Green podem ser a base do Sixers daqui uns anos. É claro que vai ser a pior base da NBA, mas pelo menos é alguma coisa. Pergunta qual é a base do Miami Heat, pergunta.

45 - Matt Bonner (Chicago Bulls)

Todo mundo quer o próximo branquelo gigante que arremesse de 3 pontos e muitos europeus vesgos e mancos já foram draftados sem nunca sequer jogar, tudo em busca dessa promessa. O Bonner, quem diria, é algo bem perto disso. Foi trocado para o Raptors que gostou de seu potencial mas o mandou para a Europa por um ano enquanto eles arrumavam espaço no time. Quando voltou, teve boas atuações. Seu jumper é bom, ele pode ser bem físico, mas é muito engraçado quando tenta bater bola.

Em todo caso, chamou a atenção do pessoal no Spurs, que definitivamente sabe reconhecer um talento quando vê um, e foi trocado pelo Nesterovic. Ganhar minutos no Spurs não é fácil mas o Bonner conquistou seu espaço, jogando muito bem quando o Duncan estava machucado e saindo do posto de jogador-de-final-de-partida-ganha para assumir o papel que o Horry, agora embebido em formol, executava. Bom para o Bonner que, depois de ser obrigado a passar um ano de cão na Itália, tem chances de ganhar um anel de campeão.

47 - Mo Williams (Utah Jazz)

Como o Zach Randolph seria se fosse um armador baixinho e magro? A resposta: Mo Williams. Ele faz seus pontos, dá suas assistências (tá bom, tá bom, o Randolph não daria assistências) e deixa sua marca no jogo e nos boxscores, mas o sujeito é completamente psicótico, perdido, um buraco negro. A bola chega em suas mãos e só sai se for terrivelmente necessário, ele acha que pode decidir todos os jogos e arremessa mesmo se tiver os melhores companheiros de time livres do seu lado. Perdi a conta do número de vezes em que ele tentou dar o último arremesso de jogos importantes com o Michael Redd livre do seu lado.

Tem gente que gosta dele, diz que ele joga demais, e não deixa de ser verdade, ele é bom pra burro. Mas é o cara que dá vontade de pedir uma medida judicial para prendê-lo caso chegue a menos de 500 metros do seu time. Mesmo sendo bom, deixo claro.

Vale mencionar que ele foi draftado depois de sujeitos como Sani Becirovic, Malick Badiane e Derrick Zimmerman, obviamente porque o nome "Mo Williams" não vale nem 10 centavos.

49 - James Jones (Indiana Pacers)

Coisa de louco, mas sempre gostei do James Jones e nem é por causa do nome visivelmente poderoso (e falso). No Pacers, mal jogou. No Suns, chegou a ter um papel bem definido como o cara biruta que vem do banco para chutar como um louco e às vezes se saia muito bem, mostrando potencial atlético, chutes calibrados e rebotes acima da média. No entanto, foi só no Blazers que ele conseguiu minutos de verdade, já que o Suns não gosta muito de reservas. Em Portland, seu papel de atirador vindo do banco é bem específico e James Jones brilha desempenhando a função, acertando mais da metade de seus arremessos de 3. Ele tem talento, é parte importante dessa equipe cheia de futuro e pode ter um anel mais participativo do que aquele que o Darko ganhou no Pistons.

51 - Kyle Korver (New Jersey Nets)

Se você precisa de um cara ultra-religioso que saiba arremessar de trás da linha de 3 pontos, esse é seu homem. Tanto pela pontaria de fora quanto pela religião, ele é perfeito para o Utah Jazz.

O segundo round costuma ter vários jogadores que são mais especialistas em alguma coisa ao invés de serem cheios de potencial e bons em tudo quanto é aspecto do jogo. Depois do Korver, os escolhidos foram Xue Yuyang, Rick Rickert e Andreas Glyniadakis, forças nominais sem nenhum talento. Então o Korver foi uma barganha porque tem talento, é muito competente naquilo que faz e, após a recente troca para o Jazz, até mostrou que sabe defender. O time de Utah precisa dele e Korver vai ter chances de se mostrar, adquirir a carga tática necessária para se jogar para o Jerry Sloan e pode florecer por lá tendo um papel importante para o resto do time, talvez até titular, quem sabe. O futuro, pelo menos, é melhor do que o passado.

...

Agora, a hora da verdade: minha lista com o draft refeito. Como os times teriam escolhido se pudessem olhar numa bola de cristal rumo ao futuro, sabendo como os jogadores se sairiam? Como o Isiah Thomas teria feito se soubesse o futuro e, além disso, tivesse um cérebro?

Caso você não concorde com minha lista, coloque a sua própria na caixa de comentários para todo mundo ver e opinar. Só não vale não colocar o LeBron em primeiro lugar, porque a polêmica resultante de tal ação iria sobrecarregar os servidores e tirar o blog do ar. Não queremos isso, queremos? Então lá vai minha lista:

1 - LeBron James (Cleveland Cavaliers)

2 - Carmelo Anthony (Detroit Pistons)

3 - Dwyane Wade (Denver Nuggets)

4 - Chris Bosh (Toronto Raptors)

5 - Chris Kaman (Miami Heat)

6 - Josh Howard (Los Angeles Clippers)

7 - David West (Chicago Bulls)

8 - Leandro Barbosa (Milwaukee Bucks)

9 - Nick Collison (New York Knicks)

10 - TJ Ford (Washington Wizards)

11 - Mo Williams (Golden State Warriors)

12 - Kirk Hinrich (Seattle Supersonics)

13 - Boris Diaw (Memphis Grizzlies)

14 - Luke Walton (Seattle Supersonics)

15 - Steve Blake (Orlando Magic)

16 - Jason Kapono (Boston Celtics)

17 - Darko Milicic (Phoenix Suns)

18 - Jarvis Hayes (New Orleans Hornets)

19 - Travis Outlaw (Utah Jazz)

20 - Luke Ridnour (Boston Celtics)

21 - Willie Green (Atlanta Hawks)

22 - Kendrick Perkins (New Jersey Nets)

23 - Mickael Pietrus (Portland Trail Blazers)

24 - James Jones (Los Angeles Lakers)

25 - Matt Bonner (Detroit Pistons)

26 - Carlos Delfino (Minessota Timberwolves)

27 - Kyle Korver (Memphis Grizzlies)

28 - Marcus Banks (San Antonio Spurs)

29 - Aleksandar Pavlovic (Dallas Mavericks)


Alguns times ficariam bastante interessantes. Que tal o Bulls, que tem até hoje problemas em fazer pontos no garrafão, com David West mostrando seu arsenal ofensivo? Que tal o Denver de Wade e Iverson, cobrando uns 3 milhões de lances livres por jogo? E o Boston Celtics com Ridnour como reserva do Rajon Rondo? Tudo isso sem falar, claro, no Pistons de Carmelo Anthony. Teria o experimento fracassado por duelo de egos ou seria o Pistons, agora, o time mais vencedor dos últimos anos?

Sem bolas de cristal que funcionem, continuaremos vendo drafts com as escolhas mais estapafúrdias que sumirão em poucos minutos. Que outras escolhas será que assombram para sempre os drafts de outros anos? Nossa série continua num próximo post, analisando outra turma de novatos. Deixe aí, na caixa de comentários, qual ano do draft você gostaria que fosse o tema de nossa próxima série de textos. Enquanto isso, vou colocar o Carmelo no Pistons do meu videogame e dar uma olhada no tipo de estrago que dá pra fazer...

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Magic Killer

Ao contrário da foto, ontem foi Nelson que botou o Pargo pra correr no fim do jogo



Estava vendo ontem o jogo entre Magic e Hornets em que o Jannero Pargo foi o armador do time de New Orleans no lugar do Chris Paul, que está machucado. Logo no começo do jogo já estavam chamando o Pargo de "Magic Killer" e eu não conseguia entender o motivo, o jogo tinha acabado de começar, ninguém estava matando ninguém!

Com o tempo eles explicaram tudo. O fato é que o Pargo tem suas melhores médias na carreira contra o Orlando Magic. Seja quando ele estava no Lakers, no Bulls ou no Hornets e seja contra o Orlando que tinha Grant Hill, T-Mac ou Dwight Howard, não importa, Pargo sempre acabou com a raça do Magic. Eu sei, eu sei, não faz um puto de um sentido mas são o que os números dizem. Em todos esses anos de confronto, a média de Pargo contra o Magic é de 15 pontos por jogo contra sua média de 6,3 pontos que ele tem na carreira. E nos dois jogos que Hornets e Magic fizeram na temporada passada, a média de Pargo foi de 20 pontos por jogo! O que acontece com esse cara? Será que não deixaram ele ir pra Disney e ele foi se vingar do jeito mais bisonho?

Ontem a sua vingança contra o Mickey ficou pela metade. Ele jogou bem, liderou o time, fez 18 pontos, deu 7 assistências, mas na hora H foi ele quem falhou. O Jameer Nelson passeou pra cima dele e no último minuto em uma bola que poderia colocar o Hornets de volta no jogo ele tomou um toco do Centauro Dwight Howard. Fim de jogo.


Mas saibam que assim como o Pargo se inspira contra o Magic, vários outros jogadores se inspiram (ou simplesmente não conseguem jogar) contra certos times. O caso mais famoso deve ser o do Jordan que constantemente massacrava o Knicks, principalmente no Madison Square Garden, coisa que hoje em dia é função de outro cara de Chicago, Ben Gordon, ou melhor, Ben Jordon como alguns fãs o chamam por aí (se bem que pra mim ele lembra mais outro Michael, o Redd).

Um que não consegue jogar bem na cidade do Ben Jordon é Dwayne Wade. Ele é de Chicago (ou melhor, da região de Chicago, mais especificamente de Robbins, Illinois) e quando vai enfrentar o Bulls por lá o seu jogo não encaixa. Ano passado colocaram a culpa na marcação do Sefolosha nos playoffs, mas a má atuação de Wade em sua cidade natal vem desde seu ano de novato mesmo.

Você pode estar se perguntando aí que diabos é esse negócio do Wade, aquele cara que ganhou um título quase sozinho anos atrás, ser parado por um suiço de nome esquisito tipo esse Sefolosha. Mas o que acontece é que do mesmo modo que jogadores jogam bem ou mal contra alguns times, eles conseguem jogar bem ou mal contra certos jogadores.

Certa vez em uma transmissão de TV falando sobre esse mesmo assunto o Charles Barkley falou que no tempo dele quem mais o incomodava era o Popeye Jones! Sim, o orelhudo que parece o Sloth e que só a mãe dele e o cara do "My wife and kids" ("Eu a Patroa e as Crianças"no SBT) tem a camiseta. Acho que caso mais estranho que esse do orelhudo com o Sir Charles foi só nos playoffs de 2004 quando o Lakers botou o Mark Madsen pra marcar o Garnett e, mesmo ele não anulando o KG, foi de longe o marcador que mais incomodou. No ano seguinte o Wolves até tirou ele do Lakers e o levou pra treinar do lado do KG. E estamos falando do Mark Madsen, estamos falando de um cara que quase cai no chão tomando crossover do Matt Bonner!

Um caso famoso é o das finais de 2001 entre Lakers e Sixers em que o grande trunfo do Phil Jackson foi grudar o Tyronn Lue no Iverson pra parar o homem. Até que deu certo, embora o Iverson tenha acusado o Lue de pegar em algumas bolas que não eram laranjas durante o jogo para irritá-lo. Na mesma final, o Larry Brown, então técnico do Sixers, respondeu botando um cara novinho, um tal de Raja Bell para marcar o Kobe. Foi lá o início da rivalidade entre os dois. Pena que o Todd McCullogh e o Matt Geiger não foram a resposta certa para parar o Shaq e o título foi facinho pra mão do Lakers...

Apesar de todo mundo ver na prática que o Bruce Bowen e o citado Raja Bell são os melhores marcadores do Kobe na liga, não são eles que têm o apelido de Kobe-Stopper. Quem tem o apelido é o Ruben Patterson. Apelido dado por ele mesmo, claro. Pra quem duvida que o Kobe não costumava ter problemas ao passar por cima do Portland de Patterson, aqui está um vídeo em que o Kobe marcou 37 pontos incluindo dois arremessos de último segundo (um para empatar o jogo no tempo normal e outro pra ganhar o jogo na segunda prorrogação).

Vídeo AQUI

O vídeo é uma matéria da ESPN sobre o último jogo da temporada regular em que Lakers e Kings disputavam pra ver quem vencia a divisão do Pacífico. Aproveitem pra ver também os melhores momentos do jogo do Kings com o Mike "lex luthor" Bibby liderando aquele belíssimo time do Kings.

Lembra de mais algum caso? É só nos escrever nos comentários!