domingo, 30 de maio de 2010

O fator X

No mundo do Kobe o Jared Dudley está dando muito espaço na marcação


O blog da revista Dime disse exatamente o que eu pensei ontem depois do jogo 6 entre Lakers e Suns. Vou traduzir aqui: "Todas as mudanças de estratégia jogo após jogo, a defesa por zona e todos os jogadores que foram heróis durante a série não pareceram importar quando a série acabou. Quando o Lakers oficialmente mandou o Suns para casa no jogo 6 da final do Oeste pareceu que o resultado era simplesmente porque o Lakers tinha Kobe Bryant e o Phoenix Suns não."

A sensação foi exatamente essa. O Suns fez tudo o que podia, o Lakers fez tudo o que era capaz e no fim das contas o Kobe foi o Kobe e resolveu a parada. Na crítica esportiva americana eles usam muito a expressão "X-Factor", o "Fator X", que designa aquele jogador ou característica do jogo que pode fazer a diferença no jogo. É aquilo que se funcionar garante a vitória para um time. No Lakers o X-Factor costuma ser o Lamar Odom, que quando joga bem deixa o Lakers imparável, e no Suns pode ser as bolas de 3 pontos. Mas pensando um pouco melhor no termo, o Fator X dessa série foi mesmo o Kobe Bryant. Embora atuações espetaculares dele sejam esperadas e até bem comuns, foi a mais impressionante delas que resolveu uma série que foi muito parelha, onde não dava pra dizer com certeza qual era o melhor time. Com equipes diferentes, mas equivalentes, venceu a que teve Kobe Bryant sendo magnífico na hora certa.

A hora certa foi o fim do terceiro período e todo o quarto quarto, momentos em que o Lakers primeiro abriu sua maior vantagem na partida (17 pontos) e quando sofreu uma tentativa de virada avassaladora do Suns, liderada mais uma vez pelo banco de reservas do time. Digo como torcedor do Lakers que ontem só fiquei mais tranquilo e aliviado quando os titulares do Suns voltaram para quadra, porque aqueles reservas me assustam. A combinação de Goran Dragic, Leandrinho, Jared Dudley e Channing Frye é melhor que muito time titular por aí, por muitas vezes melhor que o time titular do próprio Suns.

A começar pela defesa. Embora talvez só o Dudley seja um excelente marcador individual nesse grupo, o resto compensa pela vontade e pela velocidade. Eles estão sempre marcando por pressão, sempre se arriscando para interceptar passes e continuamente forçam erros do adversário. Erros que, na mão do Dragic e do Leandrinho, viram contra-ataques muito velozes. A combinação de forçar erros, marcação por pressão, velocidade e arremessos de três (os 4 jogadores são excelentes arremessadores) é uma fórmula mágica para cortar grandes diferenças em pouco tempo.

Foi o que aconteceu no começo do quarto período, especialmente depois da posse de bola de 6 pontos do Suns. Um arremesso do Dragic, uma falta flagrante no Sasha Vujacic e uma bandeja do mesmo Dragic. A falta flagrante veio quando o armador do Suns acertou o arremesso, falou alguma bobagem em esloveno na orelha do Sasha, que respondeu dando uma cotovelada na cara do compatriota. Isso colocou o Suns no jogo pelos 6 pontos seguidos e pela empolgação que a confusão trouxe para o time e especialmente para a torcida. Por não manter a calma o The Machine quase colocou uma das melhores partidas do Lakers nos playoffs a perder. Perguntado sobre o que ia fazer com o Sasha depois do jogo, Kobe foi bem claro e sucinto, "Eu vou matar ele".



A jogada inteira é muito engraçada por diversos motivos: trash talk sempre é legal, em esloveno só fica melhor. Depois o Vujacic acha que engana alguém com aquele papinho de "só levantei o braço, nem vi que o rosto dele estava perto do meu cotovelo"? Ridículo. E finalmente o Dragic coroa a fama de grandes atores da Eslovênia com aquele tombo com a mão no rosto que arrancou uma lágrima de orgulho do Rivaldo. Uma jogada imbecil, patética, mas que mudou a cara do jogo.

Antes disso o Lakers estava jogando demais. O Suns dava espaço para Kobe chutar de meia distância e de longe e ele acertava. Dava espaço para o Artest chutar e ele meteu 4 bolas de 3 pontos. Até o Jordan Farmar estava acertando tudo. Mas o mais interessante desse primeiro tempo e da série no geral foi que o Suns conseguiu forçar o Lakers a fazer o que não queria e o time de Los Angeles conseguiu vencer sendo bom no que não costuma ser. Vitória tática do Suns, vitória técnica do Lakers.

A estratégia do Suns pedia os arremessos longos de dois pontos, principalmente do Kobe. A bola longa de 2 é considerada a de menos eficiência na NBA, ela não tem o mesmo nível de aproveitamento da bandeja ou do arremesso próximo e é menos eficiente que a de 3 pontos porque, além de valer menos, costuma ser mais difícil de se acertar pelo posicionamento do jogador. O atacante costuma estar postado para chutar de 3, não de 2, as bolas longas que valem menos costumam vir de dribles, o que deixa seu aproveitamento mais difícil.

Segundo dados do HoopData e do blog ThePaintedArea, a média de aproveitamento nos arremessos de 2 longos entre todos os times da NBA foi de 39%. Nessa série o Lakers acertou 53%! Durante a temporada o Lakers havia tido uma média semelhante a do resto da liga. O Kobe em especial tinha média de 35% de aproveitamento nas bolas de 2 longas, mas nessa série acertou 58%. O Fisher melhorou seu aproveitamento de 41% para impressionantes 63%.

Sem esses números o Lakers dificilmente teria vencido os jogos 5 e 6, já que no resto da temporada o time se comportou como nos jogos 1 e 2, atacando a cesta e tendo sucesso somente quando conseguia fazer suas cestas lá perto. Em todos os jogos que o Lakers ganhou por mais de 10 pontos nessa pós-temporada, fez a maioria de seus arremessos em lances-livres, bandejas ou enterradas. E a minoria em bolas de 3 e bolas de 2 longas. Nos 7 jogos em que o Lakers ou perdeu ou ganhou por diferença menor de 5 pontos o time chutou mais bolas de 3 do que teve bandejas ou enterradas.

Outro número que mostra a superioridade tática do Suns? Durante a temporada regular o Lakers tinha 31% de suas jogadas feitas de "Spot-ups" (aqueles chutes onde o cara está parado e preparado para arremessar) ou jogadas de isolação 1-contra-1. E 20% de "post-ups", que é quando o jogador recebe a bola de costas pra cesta no garrafão.

Na série contra o Suns o número de Spot-ups e isolações cresceu para assustadores 43%, enquanto o de post-ups no garrafão caiu para 10%. O Suns queria o Lakers longe da cesta, sem a bola na mão de Gasol e Bynum e executou isso a perfeição. Eles apostaram que Artest não acertaria seus arremessos como fez no primeiro tempo do jogo 6, que o Fisher não passaria dos 20 pontos como passou no jogo 5 e que o Kobe não fosse capaz de acertar arremessos absurdos quando bem marcado por Jared Dudley ou Grant Hill. Era a melhor aposta que eles poderiam fazer e não podem se culpar por isso, o Lakers que deve se orgulhar por seus jogadores terem se superado para reverter o jogo.

No fim das contas é o que eu disse antes. O Suns tinha a tática, a defesa, Steve Nash jogando um bolão e um banco de reservas fulminante. O Lakers tinha as peças para igualar tudo isso e mais Kobe Bryant para fazer a balança pesar a seu favor no fim da série, simples assim. Ter uma super estrela desse nível não te leva a final da NBA, mas ao lado de um bom time acaba sendo o tal Fator X em séries tão disputadas.

Abaixo alguns dos arremessos impossíveis que o Black Mamba fez para garantir o terceiro título seguido da conferência Oeste para o Lakers (primeiro tri-campeonato de conferência na NBA desde que o mesmo Lakers venceu o Oeste em 2000, 01 e 02)


Alguém também achou o máximo o espírito esportivo do técnico Alvin Gentry ao tentar atrapalhar o Kobe no último arremesso dele e aceitando o tapinha na bunda que tomou com uma risada?

sábado, 29 de maio de 2010

A vitória de Nate Robinson


Em 2003 o San Antonio Spurs estava em uma das partes mais difíceis de seu caminho para o título quando enfrentava o Dallas Mavericks de Steve Nash, Michael Finley e Dirk Nowitzki na final da conferência Oeste. Era o jogo 6 e eles podiam fechar a série em Dallas ou ter um perigoso jogo 7 em casa. O jogo estava disputado, com os dois times jogando em alto nível e o Spurs tinha dificuldade na armação de jogadas já que Tony Parker só tinha jogado 13 minutos de jogo e não conseguia voltar para a quadra por estar com dor de barriga. Seu substituto Speedy Claxton não estava numa noite inspirada e restou à Manu Ginobili virar o armador da equipe. Mas com ele na armação, faltava quem arremessasse e colocasse a bola na cesta, acertasse umas bolas de 3 e abrisse a quadra.


Foi então que o técnico Gregg Popovich resolveu tirar do banco o veteraníssimo Steve Kerr. Loirinho branquelo que tanto ajudou Michael Jordan em seus títulos e que jogava sua última temporada na NBA. Em quadra pela primeira vez desde o início dos playoffs, Kerr entrou e jogandoa apenas o último quarto acertou 4 bolas de 3 em 4 bolas tentadas e garantiu o título do Oeste para o Spurs.


Foi nessa história que eu pensei ontem quando o Nate Robinson entrou em quadra. Ele havia jogado apenas 44 minutos somados em todos os 15 jogos que o Celtics disputou nesses playoffs e só entrava em quadra como última opção dos armadores, depois de Rajon Rondo, Marquis Daniels e Tony Allen. Mas com Daniels fora, machucado e Rajon Rondo, que estava arrasando no jogo, fora depois de um tombo feio no começo do 2º quarto, Doc Rivers não tinha outra opção senão colocar o KryptoNate em quadra.

E parece que o Nate Robinson é um personagem de video game, que quanto mais tempo você deixa descansando mais ele carrega suas energias e se você guarda ele por um tempão ele fica super poderoso. Depois de tanto tempo guardado no banco ele entrou em quadra e parecendo uma criança hiper-ativa, não parou um segundo de se mexer, de pular, de marcar e de acertar arremessos. Nos seus poucos minutos de ação ele anulou o Jameer Nelson, acertou arremessos em sequência e marcou 13 pontos em cerca de 8 minutos. Segundo o técnico do Orlando Magic Stan Van Gundy, foi o momento crucial da partida.

O Doc Rivers deve ter aprendido com o Mike D'Antoni. No Knicks, o Nate Robinson ficou mais de um mês sem pisar na quadra depois de brigar com o técnico e quando finalmente voltou marcou 41 pontos contra o Atlanta Hawks, estão lembrados?


Mas o mais estranho dessa história foi ter acompanhado o pré-jogo da ESPN norte-americana. Durante a discussão sobre o que cada time deveria fazer para vencer o jogo, todos os comentaristas falavam as coisas mais óbvias, quando de repente o Magic Johnson disse que achava que quem deveria aparecer mais no jogo era o Nate Robinson! Sério, da onde o Magic tirou essa? O cara nem tava entrando em quadra e provavelmente jogaria pouquíssimos minutos se o Rondo não tivesse se machucado, por que sequer citar o cara? Mas ele citou, disse que sua energia, seus arremessos e sua capacidade de infiltração poderiam e deveriam fazer a diferença. O cara já foi um dos melhores jogadores de todos os tempos e ainda palpita melhor que todo mundo? Apelação.

Outro que acertou na previsão foi o técnico Doc Rivers. Que certa vez questionado por não usar muito o Nate Robinson disse "Ele ainda vai ganhar um jogo pra gente nesses playoffs". E ganhou um dos mais importantes! Mas o Doc está bem certo, o Nate Robinson não é bom ou regular o bastante para ser titular na NBA, ele é impulsivo demais e não sabe jogar em equipe. Se você coloca ele em quadra por 40 minutos todo jogo ele vai te ganhar 3 jogos e perder 10, não vale a pena. Mas sabendo controlar seu tempo em quadra e lendo as situações de jogo dá pra usar ele só nas situações onde ele ganha jogos e todo time que quer ser campeão precisa ter no banco um desses caras que te arranjam uma vitória do nada.

O Magic não tem do reclamar do jogo de ontem, eles perderam essa série quando perderam os dois primeiros jogos em casa. A partida de ontem foi um típico jogo em Boston, com a defesa do Celtics mordendo forte e Paul Pierce acertando seus arremessos sempre que o Magic ameaçava uma reação. Eles tentaram, se esforçaram, mas é difícil vencer 4 jogos seguidos contra uma forte defesa. Basta um dia as bolas de longe não caírem (e eles criaram boas situações para esses arremessos!) e já era. Se tivessem vencido um daqueles dois jogos em Orlando poderiam estar se preparando para um jogo 7 agora, mas já foi, o negócio é pensar no futuro.

Vale a pena pagar quase 40 milhões de dólares por ano pela dupla Rashard Lewis e Vince Carter depois que os dois oscilaram tanto nos playoffs? E, mais, dá pra trocar um dos dois? Vão manter Brandon Bass e Marcin Gortat, que querem ser trocados? Que trocas fazer para conseguir manter o Free Agent JJ Reddick? Pronto, vários problemas futuros para o Magic esquecer os do passado recente.

Para o Celtics o momento é de ligar para o David Stern e agradecer quem fez o calendário das finais. O primeiro jogo (que será em Los Angeles ou Phoenix, já que ambos tem campanha melhor que a do Celtics) será só na próxima quinta-feira, no dia 3 de junho. Quase uma semana de folga para o Celtics descansar o seu time que foi se desmontando em dores e contusões nessa série. Na partida de ontem o Marquis Daniels não entrou, o Rasheed Wallace não jogou o fim da partida com fortíssimas dores nas costas e o Rondo teve o seu homérico tombo de costas no chão. Imagina se eles chegam assim sem banco de reservas para enfrentar aquela correria do banco do Suns? Seria caótico, será um descanso essencial para o Celtics lutar pelo título.

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Kevin Durant x Hasheem Thabeet
Achei essa história muito engraçada e tive que postar aqui mesmo não tendo nada a ver com os playoffs. O Bill Simmon, colunista da ESPN, postou na sua última coluna uma mensagem que foi enviada pra ele por email por um fã, que traduzo aqui embaixo:

"Bill, achei que você ia gostar dessas mensagens enviadas em sequência no Twitter:

15:50, Hasheem Thabeet - Almoço tarde antes de tirar uma soneca! Mhmmm yummy!
16:00, Kevin Durant - Acabei um ótimo treinamento. Trabalhei o controle de bola, finalização com contato, arremessos, pick and rolls e arremessos com marcação.

Agora você consegue dizer qual dos dois jogadores que foram escolhidos como número 2 no draft passou um tempo na D-League?
Brian Seboly, Memphis, Tenn"

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O pássaro do Leandrinho
Outra história para postar aqui e encerrar o texto é sobre o sinal que o Leandrinho tem feito com a mão depois de acertar seus arremessos. Eu achei estranho, me lembrou a campanha "Sou da Paz" e fiquei perdido. Aí, talvez com medo de multas, já que alguns jogadores já foram suspensos por terem feitos "sinais de gangue", ele resolveu explicar logo o que era isso aqui:


"É um pássaro, um pássaro branco. Significa que minha mãe ainda está por perto, estou fazendo para ela. Eu sonhei com isso por algum motivo e então comecei a fazer". Para quem não lembra, a mãe do Leandrinho morreu em novembro de 2008.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Feio, emocionante e divertido

O amor move montanhas e ganha jogos

Eu disse que o Lakers precisava melhorar o ataque. O Kobe Bryant disse que o Lakers precisava melhorar a defesa. Adivinha quem o Phil Jackson escutou? Pois é, não dá pra culpá-lo, acho que o Kobe entende um pouco mais de basquete que eu. Mas só porque ele é mais velho, claro.

O ajuste defensivo do Lakers deu certo durante quase todo o jogo. A estratégia era trocar o marcador sempre que houvesse um corta-luz. Ou seja, se o Amar'e, marcado pelo Gasol, faz um bloqueio para o Nash, o Gasol marca o Nash e o Fisher tenta impedir o passe para a continuação da jogada. Essa estratégia faz com que o Nash fosse obrigado a passar mais tempo com a bola na mão e que ele fosse obrigado a arremessar mais e passar menos. O Steve Nash fez uma partida espetacular dentro dessa situação que o colocaram, com 29 pontos, a maioria arremessando sobre Gasol, Bynum, Odom ou qualquer gigante que fizesse a troca em cima dele.

Mas aqui vale a mesma observação que fizemos ontem sobre o Dwight Howard. Assim como o Magic joga melhor quando o Dwight toca menos na bola no ataque, o Suns joga melhor quando todo mundo participa, não quando o Nash faz tudo. Só com o Nash, o ataque fica mais previsível e todo mundo se movimenta pouco, deixando tudo mais fácil para o Lakers. Mas não foi só isso, o time de LA também jogou com mais inteligência, fechando o garrafão nas tentativas de infiltração do Suns, causando faltas de ataque e bem menos lances-livres.

Foi com essa defesa forte que o Lakers chegou a abrir 17 pontos no primeiro tempo. Mas não foi só assim, o ataque melhorou demais em relação aos últimos dois jogos. Para enfrentar a zona o Lakers resolveu, finalmente, atacar a cesta. O Odom fez a festa saindo do perímetro ou de trás de seu marcador para se posicionar no ponto fraco da defesa zona 2-3, entre as duas linhas de defesa, e então fazendo bandejas. Outra coisa que mudou foi o posicionamento dos pivôs, especialmente de Pau Gasol, que conseguiu ficar mais perto da cesta, aí era só receber a bola e finalizar rápido, antes que aquela marcação dupla ou tripla fizesse ele jogar a bola para fora do garrafão de novo.

Outro mérito enorme no ataque do Lakers vai para o Derek Fisher. Passamos a temporada inteira comentando como ele está velho, como não consegue mais marcar ninguém e repetimos tudo isso aqui mesmo nos playoffs, quando ele foi esmagado pelo Russell Westbrook na primeira rodada. Mas depois disso o Fisher se revolucionou. Na segunda rodada fez um ótimo trabalho marcando o Deron Williams e nessa série está marcando muito bem o Nash, em especial nos jogos 1 e 2. Ontem foi a hora de contribuir no ataque e toda vez que o Lakers se perdia naqueles passes sem objetividade ele aparecia para resolver acertando um arremesso longe. Foram 22 pontos e sempre nos momentos mais importantes e tensos do jogo.

Não faltaram momentos importantes nessa partida. Mesmo depois de abrir 17 pontos no primeiro tempo, o Lakers não conseguiu manter a diferença e o Suns respondeu diminuindo para 7. Depois, no segundo tempo, o Lakers abriu ainda mais, 18, mas de novo o Suns voltou. As corridas do Suns de volta no placar sempre aconteceram quando o centro do jogo não foi o Nash, que mantinha o time no jogo mas não era capaz de virar o placar só com seus arremessos de meia distância. Eles tiraram a vantagem quando conseguiam parar o ataque do Lakers e atacar na velocidade, na transição. Foram em jogadas assim que sairam os arremessos de 3 do Channing Frye, o arremesso de 3 com falta para o Jared Dudley e a bandeja com falta do Jason Richardson. Como disse o comentarista (e recém-contratado para a vaga de técnico do Philadelphia 76ers) Doug Collins, "Times que arremessam tão bem de 3 nunca estão completamente fora do jogo".

A reação do Suns nasceu na defesa, virou ataque e em poucos minutos os 18 pontos de diferença viraram 3 e o relógio marcava um minuto para o fim da partida. Então o Ron Artest deu um arremesso, errou e o Gasol pegou o rebote. O Lakers poderia matar 24 segundos do relógio e manter a diferença em 3 pontos, mas ao invés disso o Artest resolveu que era a hora de um segundo arremesso seguido e, tendo gastado só 2 segundos de posse de bola, chutou de 3, errando feio.

Esse erro do Artest poderia ser fatal, mas Channing Frye respondeu errando outra bola de três. Foi a vez do Lakers ir para o ataque e errar de novo, dessa vez Pau Gasol tentou enterrar na cara de Amar'e Stoudemire e acertou o aro. Para a sua última posse de bola no jogo o Suns foi de novo para a bola de três, aí Nash errou uma bola de 3, o Suns pegou o rebote, Jason Richardson errou outra bola de 3 e quando parecia que esse seria o minuto final mais desastroso dos playoffs, a bola caiu de novo para Jason Richardson, que acertou um arremesso de três usando a tabela (quem joga basquete sabe que isso não deveria valer!) e empatou o jogo.

Se já deixavam os outros arremessarem para marcar o Kobe antes, imagina o que o Suns ia fazer no último arremesso do jogo? Pois é, mandaram um monte de gente pra tentar parar o Kobe e conseguiram pará-lo. Saiu uma air ball feia da mão dele, mas assim como um erro do Kobe rendeu a cesta da vitória de Pau Gasol no jogo 6 contra o Thunder, ontem foi a vez do rebote ofensivo ser de Ron Artest, que fez a cesta no estouro do cronômetro. Nunca um minuto final com tantos erros foi tão emocionante e divertido!

Sério, as únicas duas cestas desse período foram um rebote de air ball e uma bola de três rabuda usando a tabela. Mas era exatamente esse tipo de emoção que a gente estava pedindo na pós-temporada. Mesmo com erros no final, o jogo foi bem jogado, Nash e Kobe jogaram muito e o jogo foi decidido no último segundo possível, os fãs não tem do que reclamar.

Quem tem é o Suns, que perdeu um jogo que tinha boas chances de ganhar e o fez tomando uma cesta do pior jogador ofensivo do Lakers. Muita gente tem falado que o Suns deve estar se matando porque perdeu um jogo simplesmente por não ter colocado um corpo na frente do Ron Artest, o famoso "box out". Essa crítica valia para o Thunder no jogo 6, na cesta do Gasol que eu citei, mas ontem nem tanto. Todo mundo que está no rebote sempre espera a bola bater no aro, pegar o rebote de um arremesso que passa reto é bem mais complicado, dá pra entender a falha.

Espero mais uma partidaça no jogo 6. O Lakers melhorou, se ajustou ao Suns, que vinha sendo o melhor time nos últimos jogos, e mesmo assim o jogo foi disputadíssimo. Não dá pra esperar que seja diferente no próximo, só esperaremos um final de acertos, não de erros.

Abaixo o vídeo da cesta do Ron Artest:



E tem outro vídeo, o do técnico Alvin Gentry, que não aguentou ver tantos erros do seu time.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Dia de Clippers

A cara do Ray Allen explica a situação

Como conclusão ao jogo de ontem entre Magic e Celtics eu disse no Twitter que o Celtics estava vivendo o seu dia de Clippers, o time mais amaldiçoado da NBA em termos de azar, derrotas humilhantes e contusões. É estranho para o time mais vencedor a história da liga ter um dia desses, mas acontece nas melhores famílias.

O jogo começou com a série em 3 a 1 para o Celtics, que precisava de mais uma vitória fora de casa para se classificar para a final. Uma missão possível para um time que havia vencido seus últimos 4 jogos fora de Boston (2 contra o Cavs, 2 contra o Magic) e que claramente estava no domínio da série. Mesmo no jogo 4 em que o Magic venceu, não dá pra dizer que o time azul foi dominante. O jogo foi apertado, feio e decidido por alguns flashes de estrelismo de Dwight Howard e Jameer Nelson. O resto do Magic tinha jogado mal como em todos os outros jogos.

Mas dessa vez o Orlando começou diferente. Ou melhor, começou ruim igual aos outros, com três turnovers em menos de 2 minutos de jogo, mas passada essa marca, começaram a jogar bem demais. Vince Carter, Jameer Nelson e Rashard Lewis meteram bolas de 3 logo no começo do jogo e impulsionaram o resto do time a acertar suas bolas de longa distância. Foram 13 acertos em 25 tentativas. O Celtics ameaçou uma reação ainda no primeiro quarto, mas sempre a resposta vinha com bolas de três ou na defesa, com tocos espetaculares do Dwight Howard, que fez seu melhor jogo defensivo na série.

No ataque o Dwight estava bem, mas sendo bem menos envolvido do que nos jogos anteriores. Curiosamente é assim que o Magic joga melhor, quanto mais o Dwight pega na bola, menos o resto do time participa do jogo, menos a bola roda, mais o time é previsível e piores são os resultados. E chance para usar bastante o Dwight Howard não faltaram, já que a zica do Celtics começou quando o Kendrick Perkins, o único que consegue segurar o Dwight no 1-contra-1, foi expulso do jogo por duas faltas técnicas. Abaixo o vídeo das duas faltas com narração em chinês da saudosa Star Sports, nossa companheira dos tempos em que só dava pra ver NBA na internet com links bizarros da China.


A primeira falta técnica parece ter sido por causa de uma cotovelada depois que o seu braço escorregou e a segunda depois de uma reclamação exaltada. Duas faltas técnicas bem ridículas, mas justificadas em parte pelo histórico do Perk, líder em faltas técnicas nos playoffs e segundo colocado na mesma categoria na temporada regular. A segunda falta técnica causou a expulsão dele do jogo de ontem e teria causado também a suspensão dele para o próximo jogo, por ser a 7ª falta desse tipo na pós-temporada, mas hoje a NBA disse que ela foi retirada, garantindo o Celtics com seu quinteto titular completo para o jogo 6.

Dá pra analisar essa segunda técnica em cima do Perkins sob duas óticas: a primeira dizendo que ele foi injustiçado, já que além de ter razão em reclamar da marcação da falta, foi uma reação bem comum em um jogo da NBA. Por outro lado, porém, podemos dizer que não deveria ser uma reação normal em um jogo da NBA. Os juízes, cedo ou tarde, devem começar a ser mais duros com tantas reclamações e xingamentos que são obrigados a ouvir mesmo quando acertam as marcações. O ponto é que Perkins foi mais um chato reclamão ontem, grosseiro como é sempre, mas Dwight Howard, Vince Carter, Paul Pierce e o Rasheed Wallace também foram e não receberam falta técnica. Como diria o Arnaldo, "Faltou critério".

Mas a noite do Celtics estava longe de acabar, esse foi só o primeiro problema. Se não bastasse o jogo mais apagado de Rajon Rondo em muito tempo, que estava sendo engolido pelo Jameer Nelson, Paul Pierce não acertava um arremesso e ainda quase se machucou feio em mais uma falta dura de Dwight Howard nessa série:


Depois dele foi a vez do Glen Davis ser mais uma vítima de Dwight Howard. Sem querer, o pivô do Magic atingiu o rosto do Big Baby com seu fraco e delicado cotovelo. O resultado foi um nocaute digno dos melhores dias de Mike Tyson.


Mas não é só isso! Na compra de uma expulsão e uma concussão você leva uma segunda pancada na cabeça totalmente de graça! Dessa vez foi Marquis Daniels, que foi pro jogo e meteu a cabeça no peito do Marcin Gortat, o homem com o peito mais duro do mundo.


O engraçado é que a jogada não parece tão forte assim, mas o coitado não conseguiu voltar para o jogo e dizem que é dúvida para o jogo 6 em Boston. Outra dúvida? Rasheed Wallace. O único homem capaz de ter mais faltas técnicas que Perkins na temporada regular saiu do jogo com 6 faltas mas também com fortes dores nas costas. Imagina se a NBA tivesse mantido a suspensão no Perkins e eles fossem para o decisivo jogo 6 sem Rasheed, Glen Davis e Perkins? Seriam obrigados a usar Shelden Williams, o homem com o formato de cabeça mais estranho da NBA, e Brian Scalabrine para parar Dwight Howard! Para sorte deles a suspensão é que foi suspensa e os dois machucados garantiram que estarão em quadra. Vamos esperar e ver.

Apesar do cenário Clipperiano, o Celtics ainda chegou no último período com uma diferença pequena atrás do Magic, que acabou aumentando drasticamente quando Jameer Nelson e depois Rashard Lewis entraram em ação. O armador já tinha sido o herói da vitória na prorrogação do jogo 4, mas o que foi horrível para o Celtics foi ver o Rashard finalmente se sentindo à vontade no jogo. Como disse antes, o jogo 4 não havia sido trágico para os verdinhos porque eles ainda pareciam no controle, mas aquela derrota acabou acordando muitos jogadores do Magic que estavam apagados. Rashard Lewis foi o destaque do último período e antes dele Matt Barnes e Jason Williams também tiveram boas atuações. Se você colocar na conta que o JJ Redick é um dos poucos bons jogadores desde o jogo 1, vai perceber que só falta o Vince Carter parar de parecer o Adam Morrison em quadra para o Magic voltar a ter força total.

O dia de Clippers acontece com todo mundo, provavelmente o Celtics não vai ter tanto azar e tantas coisas contra eles no mesmo jogo de novo, mas bastou acontecer uma vez para deixar o Orlando Magic (e meio mundo!) acreditando que pode ser o primeiro time da história da NBA a virar uma série de 0-3 para 4-3.

Razões para isso eles tem. Agora falta apenas uma vitória fora de casa para igualar a série e levar a decisão para casa, com o Celtics contra a parede com medo de entrar para a história pelo pior dos motivos. E para acreditar que dava pra vencer esse jogo 6 o Magic precisava ver o que viu ontem à noite: Rashard Lewis em forma, Jameer Nelson enfrentando de igual pra igual o espetacular Rajon Rondo, a movimentação de bola funcionando e o Celtics finalmente não parecendo um time perfeito e invencível. Tá bom, ainda falta o Vince Carter começar a jogar, mas alguém ainda acha mesmo que o Magic precisa desesperadamente dele? Eu acho que não, se ele jogar bem, ótimo, eles ficam ainda melhores, mas se ele continuar apagado basta que o trio Nelson-Lewis-Dwight jogue bem para que o time ainda fique em altíssimo nível e com chances de bater o Celtics.

Para o jogo 6 eu não aposto no Celtics abalado, acho que eles são experientes o bastante para lidar com essa situação e esse é um grupo que costuma atuar bem sob pressão. A grande diferença mesmo é que essa será a primeira vez desde o jogo 1 que o Magic não entra em quadra sem confiança, finalmente eles tem um jogo bom para se espelhar. Embalados, tem tudo para jogar seu melhor basquete. Não vou tentar prever resultados porque seria impossível e ridículo, mas essa combinação de Celtics sob pressão, Magic confiante e jogo decisivo para os dois lados tem tudo para render uma das melhores partidas dessa pós-temporada. Nada mal para uma série que parecia acabada há alguns dias, não?

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A prancheta do Phoenix Suns

Atacar a defesa do Lakers faz parte da tática do Suns. Fazer careta, não.

Como prometido mais cedo, estou aqui para falar do jogo de ontem entre Suns e Lakers, em que o time de Phoenix conseguiu vencer mais uma em casa e igualar a série em 2 a 2. O que eu achei mais legal desses dois jogos em Phoenix foi ver como eles não tiveram nada a ver com os dois jogos de Los Angeles. Os playoffs estavam chatos até agora porque a maioria das séries começava de um jeito e acabava do mesmo jeito, o time que parecia melhor nos primeiros jogos mantinha a hegemonia até o final, e mesmo nos jogos em que perdia não parecia que corria risco de perder a série. E o legal de uma série de sete jogos em relação ao mata-mata em um jogo só (como ocorre no Final Four da Euroliga ou na NCAA) é justamente ver os ajustes que um time faz contra o outro no decorrer dessas longas séries.

O Suns tomou duas surras devastadoras em LA, sofrendo mais de 50 pontos por jogo dentro do garrafão e sem conseguir utilizar direito Amar'e Stoudemire, a maior potência ofensiva do time. Nos jogos 3 e 4 o Lakers ganhou, nos números, a disputa de pontos no garrafão, mas de maneira enganosa e dessa vez sem chegar aos 50 pontos. Digo de maneira enganosa porque o Suns só não fez mais pontos dentro do garrafão porque quando tentava, o Lakers descia o sarrafo e mandava os jogadores do Suns para a linha do lance livre. Foram 42 lances livres tentados no jogo 3 (contra só 20 do Lakers) e 32 no jogo 4 (contra 13 do Lakers). Então nos números brutos o Lakers fez uns 10 pontos a mais no garrafão, na prática foi o Suns que comandou a área pintada. Outro número que indica isso são os rebotes ofensivos, que nos primeiros jogos tinham sido uma das principais armas do Lakers. No jogo 3 o Suns venceu a batalha de rebotes de ataque por 10 a 9 e no jogo 4 por 18 a 13.

Um dos principais fatores que levou a essa superioridade do Suns no garrafão foi a volta efetiva do Robin Lopez, que havia jogado poucos minutos nos primeiros jogos. Apenas sua presença na quadra já faz diferença para igualar o tamanho dos jogadores de garrafão das duas equipes e com ele jogando bem dos dois lados da quadra (até arremesso de meia distância está acertando) o trabalho do Suns ficou bem mais fácil.

O seu companheiro de garrafão Amar'e Stoudemire também foi peça importante nessa reviravolta e é falando nele que vamos abordar como o Suns mudou seu esquema ofensivo para os jogos 3 e 4. Nos primeiros jogos o time tentou jogar aberto demais, usando muito o Channing Frye e isolando o Amar'e no meio do garrafão. Quando ele recebia a bola estava longe da cesta e cercado por Gasol, Odom e/ou Bynum. Foi inútil. Ao mesmo tempo os arremessadores de fora estavam pouco inspirados, deixando tudo mais complicado. Nos jogos em Phoenix o Suns começou a usar mais Robin Lopez e com dois jogadores de garrafão saindo para o pick-and-roll ao invés de um, a defesa do Lakers entrou em colapso.

Vou tentar ser mais claro usando nomes. Vamos supor que Steve Nash tenha a bola em mãos e chame Amar'e Stoudemire para um pick-and-roll, jogada clássica do Suns. Depois do corta-luz, o Nash geralmente ataca a cesta e espera o momento exato para o passe para o Amar'e. Para evitar essa situação o Lakers chama um terceiro marcador para fechar essa linha de passe e cobrir um dos jogadores que ficou para trás. Nos primeiros jogos essa estratégia deu certo porque os jogadores do Suns estavam distantes e errando seus arremessos, mas nos últimos jogos havia um jogador mais perto da cesta, uma dupla de garrafão, não um pivô isolado. Então após o corta sempre havia mais e melhores opções de passe. E tanto Amar'e como Lopez estavam acertando seus arremessos de meia distância, deixando a defesa do Lakers sem saber que lugar da quadra deixar livre para eles atuarem.

A preocupação com essa jogada fez com que o Lakers avançasse mais a sua defesa, deixando o garrafão mais exposto e tentando fazer o Nash soltar a bola mais longe da cesta. Deu certo em alguns momentos, mas às vezes os arremessos de longe caíam e, quando não caíam, o Suns pegava os rebotes ofensivos. Com a defesa do Lakers mais avançada ficava mais fácil para eles pegarem o lado de dentro da cesta para se posicionar para o rebote.

Tudo isso é tática, mas só dá certo com boa execução e talento. E depois que começa a dar certo tem o fator emocional, a confiança e aí até as jogadas que não são tão bem pensadas começam a funcionar. Ontem até arremessos forçados no 1-contra-1 do Jason Richardson e do Grant Hill estavam caindo.

Para terminar a parte do ataque, devemos dar crédito às instruções do técnico Alvin Gentry para que seus jogadores atacassem mais a cesta. Apesar de ser um time de bons arremessadores, o Suns atacou muito o garrafão do Lakers, principalmente Stoudemire, que sempre que se via isolado com Pau Gasol ou Andrew Bynum partia para o drible e a finalização forte na cesta. Em 90% desses ataques Amar'e saía com uma cesta ou uma falta. Alguns torcedores do Lakers podem até questionar algumas delas, mas a maioria das marcações foram corretas e deve-se aceitar que existem mesmo mais marcações de falta quando não se consegue impedir o adversário de chegar muito próximo da cesta. Lá qualquer contato vira falta.

Melhor posicionamento no ataque, garrafão mais cheio de gente, melhor movimentação após e durante o pick-and-roll e, principalmente, atacar a cesta. Tudo isso fez do Suns um time mais perigoso no ataque. Mas o que fez eles empatarem a série foi a defesa.

O que eles fizeram desde o jogo 3 é uma defesa zona 2-3. Que consiste em deixar dois jogadores marcando o perímetro e três mais perto da cesta, um lá embaixo dentro do garrafão e dois mais aberto nas alas. Eles se movimentam de acordo com a movimentação de bola do outro time e não se fixam em marcar um ou outro jogador. Achei um vídeo que deixa bem claro como se comporta uma defesa assim, mas o curioso é que o vídeo nem é sério, é um comercial da NCAA que mostra o time de Syracuse jogando sem adversário e sem bola para promover a compra de um pacote de jogos do March Madness.


Sem nada (literalmente) para distrair, fica fácil de entender a movimentação dessa defesa. A defesa 2-3 tem dois benefícios claros: ela cria a ajuda defensiva, já que todos se movimentam junto com a bola, fechando um dos lados da quadra, e também minimiza os defeitos de jogadores que não são bons marcadores individuais. Com essa cobertura causada pela movimentação dos defensores, caras que marcam mal como Steve Nash, Amar'e Stoudemire ou Channing Frye nunca ficam sozinhos contra atacantes melhores, eles sempre têm alguém na sobra ou alguém vindo do perímetro para dobrar a marcação. Os desenhos abaixo mostram bem como a defesa se movimenta.



Procurando fotos para colocar no nosso Tumblr, vi uma que exemplifica perfeitamente o que aconteceu com o Pau Gasol toda vez que ele tentou se posicionar contra o Amar'e Stoudemire no ataque.


A cara de perdido do espanhol já diz tudo, mas mais importante que isso são os três jogadores em volta dele deixando sua vida um inferno. Nessa situação o Gasol só tem duas opções, ou ele força um arremesso ou procura quem está livre para passar a bola. Ele fez as duas coisas ontem, forçou bastante (acertou 6-14 arremessos) mas também passou muito, geralmente para o Ron Artest, o cara que o Suns elegeu para ficar livre sempre que houvesse uma dobra de marcação. Nos desenhos acima o Ron Artest é a bolinha azul que fica sozinha do outro lado da quadra.

Segundo a teoria de quem estuda basquete, o passe direto de um lado para o outro procurando quem ficou livre é uma ótima maneira de furar essa zona, mas para o Lakers ela não funciona quando Artest está na quadra, já que o ala não tem acertado seus arremessos de longa distância.

Para saber outras maneiras de furar essa defesa, eu procurei um vídeo do Coach K, o técnico da Universidade de Duke e da seleção americana, em que ele ensina como lidar com uma defesa Zona 2-3.



Nesse vídeo o Coach K dá 5 dicas de como furar a zona. Será que o Lakers tem feito alguma coisa disso tudo?

1. Uso inteligente do drible
Usar o drible para atacar o buraco que fica entre os dois defensores da frente, fazendo-os fechar no mesmo homem e assim deixar um dos jogadores livres. O Lakers não tem feito nada disso, ao contrário, tem tentado furar a zona apenas com passes, nunca com o drible.

2. Mudar o lado da bola
Isso o Lakers tem feito e é isso o que o Suns quer que o Lakers faça. Ao invés de atacar a cesta, ficar mudando a bola de lado. Mas o Suns tem tido a preocupação de deixar livre Lamar Odom ou Ron Artest, raramente Fisher ou Kobe. Uma solução para o Lakers pode ser usar outros jogadores no lugar desses dois durante alguns momentos do jogo. Duas ou três bolas de três do Sasha Vujacic, por exemplo, poderiam fazer a diferença.

3. Usar o meio da zona
Se essa zona 2-3 tem um ponto fraco ela é o ponto do meio entre as duas linhas de defesa. Alguns técnico até dizem que isso é tão básico que se aprende na sétima série. O Lakers, no entanto, tem feito isso muito pouco, mas quando o faz, dá certo. Por exemplo, em uma jogada do último jogo em que o Kobe atrai a marcação dupla e solta a bola para o Lamar Odom, que corre para o meio da zona e faz a cesta.

O passe para o meio não precisa resultar sempre numa bandeja, pode ser também um arremesso curto ou até outro passe, mas é importante colocar um jogador depois da linha dos dois marcadores e sem um marcador próximo. E quando os defensores se preocupam demais em fechar o meio, algum outro ponto da quadra acaba ficando livre.

4. Manter os pivôs atrás da zona
Esse é o ponto chave que o Lakers não tem feito e é o que falta para superar essa zona. Pau Gasol e Andrew Bynum estão tentando ficar na frente da defesa para conseguir receber a bola no meio daquela procissão de passes que o LA tem dado, quando na verdade eles devem ficar atrás da linha de três defensores.

Como o Coach K mostra muito bem no vídeo, quando se fica atrás da zona o atacante tem melhor posição do que o defensor para o rebote ofensivo em caso de um arremesso errado. E com a vantagem de altura que o Lakers tem sobre o Suns em vários momentos do jogo, isso pode ser decisivo. A outra vantagem é não ter o defensor sempre controlando você, ao ficar atrás do pivô pode-se cortar para a frente a qualquer momento sem ser visto e fazer um movimento de ataque rápido, antes que a marcação dobre. Pode-se dizer que o defensor pode ir mais para trás na linha de fundo para tentar ficar atrás do atacante, mas isso seria marcação individual, o garrafão ficaria aberto para infiltrações e o princípio da zona seria quebrado.

5. Uso do corta-luz
Aqui os pivôs usam o corta-luz para deixar um dos jogadores do perímetro livres. O corta faz com que a movimentação da zona seja interrompida e o ataque tenha algum espaço. O Lakers fez uma jogada perfeita nesse sentido no segundo tempo do jogo 4, quando o Amar'e Stoudemire até acabou fazendo falta no Gasol ao tentar passar pelo bloqueio, mas foi pouco repetida ao longo da partida. Bynum, que tem tido dificuldade no ataque, poderia ser mais útil fazendo bloqueio e criando espaços para o Lakers atacar a cesta.

Após o jogo o Kobe deu uma entrevista dizendo que a maior preocupação dele está no que eu disse na primeira parte desse texto, o ataque do Suns contra a defesa do Lakers. Ele disse que é na defesa que se ganha títulos e que lá está o problema do time. Ele tem seu argumento sustentado quando se vê que o Lakers, apesar de estar visivelmente sofrendo contra a Zona 2-3, marcou 109 e 106 pontos nos dois jogos em Phoenix. Uma defesa que segurasse o Suns a 100 pontos já teria garantido a varrida.

Eu não tenho moral pra discordar do Kobe, mas não gosto de ver os jogos com tanta diferença entre as duas partes da quadra. O Lakers precisa de ajustes da defesa e talvez (só talvez) isso seja o bastante para voltar a vencer, mas basta ver os jogos pra perceber que o ataque está sofrendo e algo precisa ser feito para mudar a situação.

Para o Suns resta manter o que está dando certo, mas também não custa pensar num plano B caso o Lakers descubra como voltar a render mais no ataque e na defesa. O técnico que escreve no site Bballbreakdown, por exemplo, sugere que o Suns mude sua defesa para um Box and one. Nessa defesa quatro jogadores mantém a zona como ela já está sendo feita enquanto outro jogador fica na marcação individual, para esse técnico o Grant Hill deveria ficar marcando Kobe no mano a mano enquanto o resto marca em zona.

Vale a pena ver o vídeo em que ele conta tudo isso, lá ele selecionou várias jogadas do jogo 4 em que mostra como o Lakers lida com a zona. Destaque para as duas cestas do Odom que aparecem na compilação. Em uma ele se movimenta atrás da zona e na outra correndo para o meio da zona (a jogada que citei alguns parágrafos acima), tudo do jeitinho que o Coach K ensinou. Também é legal (ou um saco, se você torce para o Lakers como eu) ver como o Lakers insiste em passar a bola sem parar ao invés de atacar a zona.



Para os que pediram, espero que a defesa por zona 2-3 tenha ficado mais bem explicada.

Passatempo até o próximo post

Amar'e Stoudemire tem uma espinha na testa bem no dia da formatura!


Pessoal, hoje estou bem atarefado e a análise do jogo entre Lakers e Suns vai vir só de noite. Mas acho que a espera vai valer a pena, achei um material legal para explicar como funciona uma defesa zona 2-3, a defesa que o Suns usou para mudar absurdamente a cara dessa série e também algumas formas que existem para furar essa defesa. Vamos analisar o que deve ser feito e se o Lakers tem time para realizar essas mudanças.

Mas também falaremos do outro lado da quadra que está fazendo muita diferença e recebendo menos atenção: como o Suns conseguiu mudar seu esquema ofensivo e por que o Lakers está cometendo tantas faltas (não, os juízes não estão roubando!).

Até o post ficar pronto vocês podem fazer duas coisas: A primeira é responder a esse questionário sobre consumo de produtos de basquete no Brasil. Um colega nosso está fazendo uma tese sobre o assunto na sua pós-graduação e precisa que basqueteiros respondam sobre o consumo de produtos do esporte. Que marca você mais gosta, qual mais tem a ver com basquete, que tipos de produto compra, o que valoriza e coisas assim. Depois até vou ver com ele se consigo alguns dados para publicar aqui quando a tese estiver pronta! Clique aqui e ajude um dos raros trabalhos acadêmicos sobre nosso esporte!

A segunda coisa que você pode fazer para esperar é assistir vídeos:

Que tal essa bandeja insana do Goran Dragic? "Dwyane Wade da Eslovênia" é um apelido muito brega ou será que pega?



E se Dragic é Wade, o que é Robin Lopez? É o cabelo do Varejão, com a animação do Ronny Turiaf e as drogas do Chris Andersen.



Por fim, achei essa coletânea com as 40 melhores enterradas da temporada regular. Também acharam que os efeitos de vídeo fizeram parecer que o vídeo está acontecendo no diário de bordo do Lucas Silva e Silva? Mas beleza, a lista é boa.

terça-feira, 25 de maio de 2010

De castigo

"JJ é Redickulo"..."samente gay". Tá certo, quem
faz trocadilho merece mesmo cadeira elétrica


Depois de ganhar trocentos prêmios de "melhor jogador do ano" no basquete universitário, JJ Redick foi escolhido pelo Magic com a décima primeira escolha do draft. O contrato tinha duração de dois anos, com o Magic escolhendo se manteria o pivete por um terceiro ou até um quarto ano. Na sua temporada de novato, até que ele entrou bastante em quadra, mas ficou bem claro que era incapaz de defender, fraco demais fisicamente para fazer qualquer coisa além de arremessar, e os seus arremessos sequer entravam. No segundo ano quase não entrou em quadra, ficou apodrecendo no banco, e quando entrou passou pouquíssimo tempo. Estava bem claro que o Magic não se interessava pelo garoto, não iria optar por mantê-lo por mais dois anos, e o JJ Redick estaria livre para procurar outro time, jogar na Europa ou vender pipoca com provolone. E foi aí que o Magic extendeu o contrato do JJ Redick, que ficou com cara de bunda. Rá, pegadinha do Mallandro! Glu, glu, glu!

E não é como se tivessem mantido o JJ Redick para finalmente colocar o cara pra jogar. Não entrou em várias partidas, tinha minutos limitados, papel limitadíssimo, e começou a pedir uma troca. Lembro perfeitamente bem de ler os comentários dos engravatados do Magic afirmando categoricamente que uma troca não iria acontecer: o Redick iria continuar no time a todo custo. O próprio técnico, Stan Van Gundy, disse que era difícil manter um jogador bom no banco o tempo todo, mas que ele ainda não estava pronto para jogar e que o time estava dando certo sem ele. Para a gente entender o que aconteceu, o Magic é uma guria e o JJ Redick é um sapato: pode ser que ela nunca vá usar esse modelo, mas como não está quebrado é melhor manter no armário, mesmo que tenha custado 2 milhões de dólares. A mesma coisa aconteceu com o Marcin Gortat: o Magic sabia que ele não teria muitos minutos com o Dwight e o Brandon Bass no time, o Mavs ofereceu uma fortuna pra ele, mas mesmo assim o time de Orlando fez questão de cobrir a proposta e manter o sapato no armário. Com a diferença de que ele custa 7 milhões de verdinhas. O Magic não sabe usar direito o cartão de crédito do pai: todos nós sabemos o que eles também aprontaram com o Rashard Lewis e seu monstruoso contrato de 118 milhões, só porque era a blusinha que faltava naquele "look matador" - que no fim não fez tanto sucesso assim na baladinha.

Por isso está todo mundo tão confuso de ver o JJ Redick saindo de seu castigo que durou anos para liderar o ataque do Magic em momentos cruciais desses playoffs. Na partida de ontem, primeira vitória do Magic em cima do Celtics nessa série, o JJ Redick não apenas ficou em quadra como acabou tomando o lugar de Vince Carter, que foi pro castigo em seu lugar: colocou o bumbum no cantinho da disciplina (a "Super Nanny" pediria um minuto de castigo por ano de idade, mas o Carter deve ter ficado um minuto por arremesso errado, porque pareceu uma eternidade). Ver o Redick tanto tempo em quadra não é assim tão bizarro, porque desde que sua defesa melhorou um pouquinho (agora ele pelo menos finge que defende, e a farsa é sempre um bom começo) tem ganhado mais minutos nessa temporada. Com mais minutos e mais jogos (pela primeira vez entrou em todas as partidas do Magic na temporada), voltou a ganhar ritmo nos arremessos e se tornou ao menos um arremessador confiável. Mas liderar o ataque do Magic é um tanto demais mesmo.

Esse tipo de aberração às vezes acontece: já vimos jogadores aleatórios levando o Spurs a ganhar um anel com atuações-surpresa que nunca mais se repetiriam em suas carreiras. No caso do Redick, no entanto, vem acontecendo em toda a série e as atuações do rapaz sequer são impressionantes, não passam de uns arremessos certos aqui ou ali - é o time que está se focando nele porque não sabe mais pra onde olhar. Sempre batemos nessa tecla aqui no Bola Presa: mudar drasticamente seu estilo de jogo nos playoffs é sinal de burrice ou de desespero. Tem gente que acha que "playoff é diferente" e que por isso precisa mudar a rotação dos jogadores ou o esquema tático, o que é burrice. Mas tem vezes em que nada mais dá certo e você precisa tentar um troço completamente diferente, um jogador completamente esquecido, e aí é desespero. Acho que podemos considerar o Magic oficialmente desesperado.

As bolas de três pontos são parte essencial da tática da equipe, mas o Rashard Lewis é uma versão anêmica do Dirk Nowitzki de uns anos atrás: basta ser marcado de perto, com contato físico, e ele não consegue um arremesso sequer. Matt Barnes não é um gênio nos arremessos, mas tem que ficar em quadra o máximo possível para marcar Paul Pierce. E Mickael Pietrus está tendo uma série horrível no ataque a ponto de não valer a pena colocá-lo só pra defender. Na noite de ontem, errou dois arremessos seguidos, o Van Gundy quase teve um derrame cerebral, e lá foi apodrecer no banco. Nessas horas em que os arremessos não caem, em que as armas estão anuladas, deveria ser a hora do Vince Carter. Pena que ele fede.

Vale aqui uma pequena recapitulação: o Carter é aquele sujeito que dedou a jogada final do próprio time, quando estava no Raptors, para que a equipe perdesse e ele fosse trocado. É o cara fominha que não leva o time à vitória mas abandona o barco se não estiver dando certo. Até que o Nets trocou todo mundo, menos ele, e vimos um novo Vince Carter. Aquele Nets fedia mais do que fede hoje, era terrível, mas o Carter segurou as pontas, não reclamou, não pediu para ser trocado, virou líder da pirralhada, figura mais importante dos vestiários da equipe, passou a treinar os novatos e a tentar salvar os jogos no final depois de envolver o resto dos companheiros. Foi esse Carter, maduro e líder em quadra, que o Magic contratou. Sua temporada no Nets salvou sua carreira de um modo que o Iverson precisava desesperadamente mas não conseguiu aceitar. Não tenho medo de dizer: o Magic é um time melhor com Carter do que era com Turkoglu. Sei que Carter prejudicou o Magic muitas vezes na temporada por segurar demais a bola e por não querer decidir alguns jogos, mas ele é uma presença inestimável no vestiário e traz uma confiança em jogos decisivos que o Turkoglu nunca traria (vai, nem a mãe do turco acreditava que o rapaz decidiria alguma coisa, mesmo que ele sempre acertasse). Só que os jogos decisivos estão aí, e o Carter fede. Não é do meu feitio ficar dando desculpa para salvar um jogador, mas o caso do Vince Carter é quase todo mérito da defesa do Celtics, aquela que anulou LeBron James. E o Carter, crianças, não é nenhum LeBron James. Frustrado e sem saber como atacar a cesta, depois de ter perdido dois lances livres cruciais que poderiam ter tornado a série competitiva, parece que ele não acredita mais na vitória e não vê motivo em ficar dando cabeçada na parede. A partida de ontem foi terrível para ele, e aí o Magic tem que olhar para quem está interessado em ganhar, para quem quer arremessar. Sobra apenas um arremessador ultra-confiante, mas nem tão eficiente: JJ Redick. Se ele quer arremessar e o Carter não quer, então o Carter vai pro banco e o Redick fica em quadra. O time fica completamente diferente, é mais fraco, mais previsível, mas no desespero a gente fica com aquilo que tem. Parece que a estadia em New Jersey não deixou apenas Carter mais maduro, também o tornou mais incrédulo, como se a vitória pouco importasse, como se não fosse responsabilidade dele. De fato, não é. Carter não quer mais esse posto de líder da equipe no ataque, e ninguém pode impor esse papel a ele. O problema é que o Magic pagou a massagem completa sem saber que não rolava sexo no final.

Para o Magic, então, vai o que tem. Assim, Rashard Lewis não acertando nada por causa do jogo físico e o Dwight Howard incapaz de jogar de costas para a cesta abriram espaço para Brandon Bass e Marcin Gortat. Os dois conseguem jogar melhor nessas circunstâncias? Então coloca os dois em quadra. O Magic é um time irreconhecível, muito diferente, bizarro. Mas é melhor ser irreconhecível e ganhar uma partida do que insistir nos mesmos defeitos e ser varrido dos playoffs. O Magic desesperado, como vimos ontem, é um time muito melhor do que o time calmo, confiante e preso ao plano de jogo que enfrentou o Celtics nos primeiros jogos. O desespero ensinou coisas muito bacanas para a equipe de Orlando: o Dwight não pode receber a bola de costas pra cesta, tem que recebê-la no ar para enterrar, ou em movimento depois de um corta-luz. O Jameer Nelson tem que atacar a cesta em toda bola, passando a bola para o Dwight por cima dos defensores, cavando faltas e pontuando em bandejas. E o time precisa correr como louco para nunca, jamais, em hipótese alguma, enfrentar a defesa de meia quadra do Celtics montadinha e preparada. O resultado foram 30 pontos do Dwight, uma ótima partida de Jameer Nelson, e várias posses de bola em que Perkins acabou marcando o Rashard Lewis e o Garnett acabou marcando o Dwight, por causa da correria. Em todas, o Celtics foi punido.

Correria, menos bolas de 3, infiltrações, acionando menos o Dwight fora do garrafão, jogo baseado em pick-and-rolls, e JJ Redick na quadra. É um Magic do mundo bizarro, mas a vitória veio. E veio mais fácil do que parece, a prorrogação só aconteceu porque esse Magic tem memória curta. De vez em quando o Howard foi acionado de costas pra cesta, e claro que errou tudo. Nos minutos finais, o Jameer Nelson parou de correr como um retardado e passou a enfrentar a defesa do Celtics arrumada. E o armador do Magic resolveu também, no final, só arremessar de três ao invés de cavar mais faltas e atacar o aro como vinha fazendo. Esses momentos em que o Magic é o velho time de sempre foram um fracasso. Os momentos de desespero absoluto e histérico, digno de mulher vendo barata, com Carter no banco e outro estilo de jogo foram um sucesso.

Esperava, claro, um 4 a 0 para o Celtics nessa série. Mas tudo porque não tinha como imaginar um Magic desesperado, fazendo qualquer coisa que venha a dar certo e deixando em quadra quem quer arremessar, não quem ganha o maior salário ou foi contratado para decidir. Baita coragem do Van Gundy de deixar Pietrus e Carter no banco por tanto tempo, baita sacada de tirar JJ Redick e Brandon Bass do castigo. Só falta agora tirar o Rashard Lewis da quadra e colocar o Ryan Anderson. Vamos combinar que depois do Carter, o Rashard também tá merecendo um castigo lá no cantinho da disciplina.

Não sei mais o que pensar dessa série. No desespero, é bem provável que o Magic prolongue esse embate muito mais do que poderíamos sonhar. O jogo de ontem foi um dos mais físicos, brigados e divertidos jogos desses playoffs, e a primeira prorrogação até agora. Ou seja, vamos torcer para que o Van Gundy - famoso por ser "o técnico do desespero", no sentido de que na hora que importa não sabe o que fazer - continue apostando apenas naquilo que der certo. Seja o que for. Colocar o Dwight na armação e o Jameer Nelson de pivô? Por que não? O legal de ver nesse Magic é que, perdendo por 3-1, eles não tem muito a perder.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A batalha no garrafão

Quando Robin Lopez está indo pro banco, seu cabelo
impede toda a torcida de enxergar o jogo


Todo mundo sabe que a série entre Celtics e Magic desceu privada abaixo. O tal "melhor time dos playoffs" deve perder novamente essa noite e ir embora com um 4 a 0 enfiado na orelha nessa pós-temporada que será conhecida pela História como "os playoffs das varridas" (ou como "os playoffs mais 'bleh' de todos os tempos"). Por sorte, a série entre Lakers e Suns ao menos não vai ser outra varrida, o que deve diminuir um pouco a taxa de suicídios nos próximos dias (se bem que o fim de "Lost" deve ajudar a alavancar a taxa, muita gente estava só esperando a série terminar).

Mas antes de falar sobre a série que ainda resiste e nos dá alguma esperança na humanidade, vou praticar um pouco do meu esporte favorito: falar mal do Dwight Howard. Já comentei em um post detalhado sobre como recebemos o Dwight com alegria na NBA pela falta de pivôs que assolava a liga, sobre ele ser carismático, dominante na defesa, forte pra burro, aberração da natureza, mas que seu time joga pior quando se foca nele no ataque. Só que nessa série contra o Celtics, isso tem ficado mais óbvio do que nunca e gera um paradoxo terrível: o Magic só vai vencer o Celtics se tiver um jogo de garrafão, mas o time é tremendamente pior quando o jogo é focado no Dwight embaixo da cesta. Ou seja, funhé!

O engraçado é que o mesmo problema que assola Dwight Howard nessa série assolou também Shaquille O'Neal quando o Cavs enfrentou o Celtics pouco tempo atrás. No caso do Cavs, o Celtics se saiu bem melhor em quadra nas partidas em que Shaq foi deixado livre para receber a bola no garrafão. Isso tirava a bola das mãos de LeBron, limitava o jogo de perímetro do Cavs (que é um dos pontos fortes da equipe), permitia que a defesa amontoasse embaixo do aro, se aproveitava da força bruta de Kendrick Perkins e, principalmente, diminuía o ritmo do jogo. O Shaq ficava de costas para a cesta, batendo bola, tentando achar um espaço, interrompendo a movimentação ofensiva do resto da equipe, e aí sofria uma falta. O jogo fica paralizado, Shaq erra a maioria dos lances livres, o Cavs não deslancha no placar, mas na posse de bola seguinte lá está o Shaq acessível de novo e aí tentam acioná-lo. Mesmo que o pivô acerte algumas cestas, o Celtics sempre saiu no lucro tornando o jogo ofensivo do Cavs lento e estagnado, sem dar ritmo a nenhum dos pontuadores que poderiam fazer a diferença na série. Foi-se o tempo em que, se Shaq recebesse todas as bolas do jogo, pontuaria em todas as ocasiões e ainda tiraria todo o garrafão adversário com excesso de faltas. Agora cada posse de bola dele no ataque é um esforço, uma incógnita, algo que ao invés de ser uma bola de segurança passa a ser uma jogada arriscada.

Em parte, isso é culpa das novas regras da NBA. Faltas de ataque são marcadas com maior frequência, o contato no garrafão é cada vez mais restrito e as jogadas se iniciam mais longe do aro. Mas o maior mérito é da defesa do Celtics e de Perkins, que sabe complicar as coisas no garrafão e se beneficiar desse jogo lento e indeciso do adversário. O Dwight Howard passa pelo mesmo sufoco. Já vimos que o rapaz tem bons movimentos no garrafão, repertório de ganchos e até arremessos usando a tabela, mas nenhum deles é confiável e dá pra ver na cara do Dwight que ele odeia ter que usá-los. O pivô simplesmente não se sente à vontade, seu jogo não é esse. Se dominasse ofensivamente e atacasse Perkins com naturalidade, o Magic já teria destruído o Celtics. Mas, ao contrário, quando recebe a bola um pouco longe do garrafão (coisa que o Perkins e Glen Davis sempre garantem que aconteça), Dwight tem receio de atacar a cesta, seus movimentos ofensivos costumam ser na direção contrária ao aro, fugindo do contato. Às vezes os arremessos caem, mas como no caso do Shaq, vale a aposta para o Celtics: o ritmo de jogo cai, o Magic deixa de jogar em velocidade no contra-ataque, os arremessadores de três deixam de ser acionados, e quando é preciso cometer faltas o Dwight não converte os lances livres. Num mundo ideal para o Celtics, a bola até mesmo ficaria nas mãos do Dwight em todas as posses de bola.

Se vocês já viram um jogador de garrafão dominante ser marcado (Yao Ming, Brook Lopez), já viram a tática "sanduíche" de defesa: um jogador marca o pivô pelas costas, impedindo que se aproxime da cesta, e outro marca o pivô pela frente, tentando evitar passes para esse jogador. Sempre que essa tática é utilizada, o pivô marcado é anulado, mas o resto do time tem mutíssimo espaço para jogar. No caso do Magic, é justamente o contrário: Dwight recebe a marcação mais comum possível porque para o Celtics é melhor que ele receba a bola ao invés de ser anulado. Um pivô que passa bem a bola cria comoção no garrafão e então manda a bola para o perímetro, onde encontra um arremessador livre. Mas o Dwight não passa bem a bola, perde o controle dela muito mais do que completa um passe, então só abre espaço para os arremessos de fora quando domina o jogo no ataque. Contra o Perkins, tentando ganchos longe da cesta, ele nunca conseguirá fazer isso. E os arremessadores do Magic, desesperados com a marcação de perímetro do Celtics, acionam Howard em vão - até ver que só dá merda e pararem de colocar a bola em suas mãos. Por mais bizarro que possa parecer, Cavs teria se saído melhor sem Shaq e Magic se sairia melhor sem Dwight. Um simples jogador de garrafão que ataque a cesta faria mais estrago nessa defesa do Celtics. Tirando aquilo que o Dwight traz na quadra defensiva, Gortat é mais útil para o time.

O que nos leva à série minimamente interessante das Finais: Lakers e Suns. Depois de tomar duas surras, o Suns conseguiu resolver seus problemas de garrafão. No ataque, a solução foi justamente o que Shaq e Dwight não conseguem fazer: atacar o aro. Não adianta colocar a bola nas mãos do Amar'e Stoudemire já dentro do garrafão, embaixo da cesta, pra ele subir e converter. É burrada. O garrafão do Lakers é grande demais, Amar'e é muito menor, e o Suns fica tentando arremessar de fora. O truque foi deixar Amar'e receber a bola fora do garrafão, ou então em movimento em direção ao garrafão, e atacar a cesta. Ele é bom nisso, em jogar em movimento, sofrer o contato e tentar converter a cesta. Com 5 minutos de jogo e esse plano acontecendo, Amar'e já havia sofrido duas faltas de Bynum (que foi para o banco), uma de Gasol e uma de Odom. Ainda no primeiro quarto, tirou Odom com duas faltas. No resto da partida, continuou limitando os minutos do garrafão do Lakers ao cavar faltas a ponto do Bynum praticamente não ter participado do jogo.

Fora uns dois ou três leitores birutas do Bola Presa reclamando no nosso Twitter, não encontrei uma única alma viva capaz de reclamar da arbitragem no jogo de ontem. Tem que ser muito fanático pelo Lakers ou ter comido muito cocô pra achar que houve algo de bizarro com os juízes. O que aconteceu foi que o Suns entrou em quadra com um plano muito específico de atacar a cesta ao invés de estabelecer um jogo já dentro do garrafão. Até mesmo o Robin Lopez, que era ponto crucial para essa série do Suns na defesa, recebeu passes em movimento para terminar com ganchos na corrida ou com arremessos de meia distância. Em nenhum momento recebeu a bola para jogar de costas pra cesta, e é aí que o Suns resolveu o jogo.

Aliás, o Robin Lopez foi escolhido com a 15a escolha do draft pelo Suns, enquanto seu irmão gêmeo Brook Lopez foi a 10a escolha pelo Nets. Na época comentou-se que, pelas limitações ofensivas do Robin (nome de jogador secundário), ele havia sido escolhido cedo demais. No entanto, o Nets comentou pouco tempo depois que, em caso do Brook Lopez ter sido escolhido antes da décima escolha, a equipe teria draftado seu irmão Robin sem pensar duas vezes. E com razão: ainda na temporada regular deu pra perceber como seu jogo ofensivo pode não ter um arsenal enorme, mas é simples, eficiente e refinado. Eu sei que ensinaram 40 movimentos diferentes para o Dwight nos últimos anos, já vi ele usar vários, mas de que adianta se nenhum deles é natural para o pivô? Se houvesse apenas um único movimento em que ele tivesse segurança, seu jogo seria revolucionado.

Voltando ao Suns e Lakers, a batalha do garrafão foi vencida pelo time de Phoenix também na defesa, no que podemos chamar de "a versão reumatismo da defesa do Thunder". Já comentamos como o Thunder deu uma aula sobre como defender o Lakers mesmo tendo um garrafão baixo, basicamente dobrando em todos os jogadores de garrafão, fechando o caminho para o aro, e marcando o perímetro apenas na correria, deixando a equipe de Los Angeles arremessar. Mas como repetir a fórmula num time velho demais pra ficar correndo para o perímetro ou pra ficar dobrando a marcação? A resposta favorita da terceira idade é a defesa por zona.

O que o Suns fez foi uma defesa 2-3, com dois jogadores marcando o perímetro e três jogadores marcando uma linha no garrafão. Como o Lakers joga em geral com três jogadores no perímetro (Fisher, Kobe e Artest, por exemplo) fica sempre alguém livre para arremessar. A defesa então fica girando, forçando a bola a ter que ser mandada para o lado oposto da quadra para o arremesso livre, enquanto o garrafão vai fazendo a cobertura. Essa defesa interrompe as linhas de passe para o garrafão, faz com que os pivôs sejam pouco acionados, mas é completamente destruída por bons arremessadores e por alguém que ataque o aro vindo do perímetro. O mais engraçado foi ver a defesa do Suns (que se confundiu trocentas vezes com essa marcação por zona na hora de defender a linha de três pontos) uma hora simplesmente parar de rodar para deixar o Artest continuamente livre. Se estamos confusos e somos uma merda nisso, então vamos simplificar e deixar o Artest arremessar da zona morta, tá, pessoal? Nem preciso dizer que funcionou perfeitamente.

Dentro do garrafão não deu sempre certo, o Amar'e é muito ruim defendendo e o Channing Frye é uma aberração da natureza, parece que ele até ajuda quem está atacando, só falta fazer pézinho para alguém enterrar. Mas a zona inibe os passes para dentro e comete pouquíssimas faltas perto do aro (motivo pelo qual o Lakers quase não cobrou lances livres, não uma conspiração bizarra dos juízes da NBA). Em geral, marcar zona 2-3 significa que o teu perímetro tem que correr bastante e acaba cometendo mais faltas, enquanto o garrafão praticamente não tem contato físico. Mas como o perímetro do Suns não sabe defender nada (Nash, Leandrinho, J-Rich), ninguém cometeu falta nenhuma e o Lakers não soube como lidar com isso. O Kobe atacou a zona de forma muito agressiva e inteligente (ele tem um cérebro!), mas quando passou pro lado viu merda acontecendo. A versão "tricô e bingo" da defesa do Thunder foi espetacular, e um time que havia sido engolido no garrafão nos jogos anteriores deu o troco. Ah, finalmente, uma série em que os times aprendem e se modificam ao longo dos jogos ao invés de uma varrida ridícula.

O único problema é que o Lakers vai ter tempo de estudar a partida e desenhar na prancheta como se livrar da zona. Os arremessos de fora precisam cair e Artest tem que voltar a treinar os arremessos, como fez contra o Jazz e acabou decidindo a série. O Fisher teve uma ótima partida ofensiva, especialmente nos arremessos, e tem que repetir a dose. Só que alguém tem que pegar o Nash, não dá pro Fisher ficar fazendo os dois trabalhos. Por enquanto o Fisher tá fazendo um trabalho impecável em cima do canadense, cheio de contatos físicos, tapinhas e muito estudo dos vídeos do Bowen marcando o armador do Suns. Ontem, teve até uma cabeçada do Fisher quando o jogo já estava decidido que acabou quebrando o nariz do armador. A cabeçada foi muito sem querer, mas vale a pena dar uma olhada no vídeo só pela cara do Grant Hill quando olhou o nariz torto do Nash, e depois tem o canadense arrumando o nariz com a mão a sangue frio, parecia aquela cena do "Máquina Mortífera" em que o maluco coloca o ombro de volta pro lugar batendo com ele numa parede.


Aí quando eu digo que num jogo já decidido ninguém tem que ficar cometendo falta, descendo o cacete ou dando cabeçada, que basta derrubar o rei tipo no xadrez, pessoal me acha emo. Seja como for, o Nash é o maior ímã de porrada do mundo. Será que odeiam tanto o coitado assim ou ele só é muito azarado? Mal sarou de um olho roxo no maior estilo "Rocky, o lutador" e agora tem um nariz arrebentado. O Nash precisa de uma carreira mais segura, como boxeador ou caçador de jacarés. Se a gente lembrar que o Leandrinho abriu a cabeça e sangrou pra burro um jogo atrás, e que o Amar'e joga com óculos depois de descolar a retina tomando dedadas no olho em dois jogos consecutivos e depois num treino do Suns, podemos sentir que o Universo pune muito quem não joga na defesa. Quem sabe essa marcação por zona migué que o Suns faz (a zona é boa, a defesa do Suns nunca é) deixa o Universo mais contente e pelo menos permite que essa série chegue a um Jogo 7. Quando, então, Nash terá um derrame cerebral depois de ser atingido por um meteoro.

sábado, 22 de maio de 2010

LeBron e o capital

LeBron pode vencer a mentalidade corporativa
se decidir não enfiar dinheiro na orelha


Quem acompanha o Bola Presa sabe que temos horror ao debate "quem é melhor" e todas as inimizades que ele levanta. Se já não bastasse esse tipo de questionamento ser completamente impossível de ser feito adequadamente por ter que levar em conta aspectos demais (elenco, técnico, momento histórico, adversários, situação econômica global, programação da Record), ainda temos o ódio de quem defende um lado por quem defende o outro, impedindo que ambos os jogadores sejam apreciados como merecem. Como ficou claro numa questão do "Both Teams Played Hard" dia desses, um defensor do Kobe acaba tendo que odiar LeBron apenas para proteger seu ídolo das comparações desnecessárias. Aquele que cresceu com Michael Jordan construindo seu imaginário e associando-o às deliciosas memórias de infância é, agora, obrigado a odiar LeBron para defender seu ídolo máximo das comparações com alguém que, novo demais, não as merece. Protegendo a própria infância, as memórias felizes de madrugadas vendo o Jordan jogar numa transmissão mequetrefe da Bandeirantes, muitos fãs criam um culto de ódio irracional contra os melhores jogadores do planeta. Isso não deveria ter que acontecer: admirar alguém jogar não deveria ter nada a ver com as lembranças ou com a apreciação de outros jogadores. Mas acontece, e por isso a eliminação de LeBron dos playoffs foi um gozo coletivo similar a um lançamento de uma Playboy da Sandy.

As críticas e o descontentamento com a última atuação de LeBron chegaram a um ponto em que torcedores dizem que o time estaria melhor sem ele, ou que algumas equipes que guardaram tanta grana para contratar uma estrela ao fim dessa temporada deveriam gastar com outro jogador que não ele. Prefiro imaginar que as pessoas que dizem isso confundiram o LeBron James com o JJ Hickson, que são mais ou menos parecidos se a tua televisão for muito ruim. Se alguém soltar um "o LeBron não fez nada no jogo, mas tinha um outro cara no Cavs que fez um triple-double", aí já sabemos que a confusão aconteceu.

LeBron é provavelmente o jogador mais odiado da NBA no momento e ele bem sabe que não adianta se defender. Seu técnico é patético, o time não tem jogadas ofensivas, e o elenco de talento não fez nada, o que na prática é a mesma coisa que não tê-lo, mas não há desculpa. O Celtics foi muito superior, a reação do Cavs durou pouco, todos estavam exaustos e o time humildemente aceitou a derrota no minuto final. O que para mim foi um gesto de respeito, similar ao jogador de xadrez que derruba o próprio rei quando a derrota é iminente (é falta de respeito prolongar a partida desnecessariamente até tomar um xeque-mate) e me tirou sorrisos quando aconteceu, foi para o resto do mundo uma desistência imperdoável de um jogador covarde. Não há defesa, o único modo de escapar a esse criticismo seria sair de quadra com a vitória.

O LeBron James não é burro. Na entrevista coletiva após a partida, repetiu um par de vezes que "só lhe interessa a vitória", que ele "só quer vencer". Seu modo de jogo, suas decisões, sua personalidade e sua história de vida serão julgadas em relação às suas vitórias e derrotas, e ele sabe disso. Seu fardo é um mundo sem desculpas: se o ginásio desabar, ele que segure o teto, leve os fãs para uma área segura, lhes fornece comida e água, salve as duas tabelas da quadra e então acerte o arremesso da vitória. É o que o Jordan faria. LeBron rapidamente entendeu que precisa vencer jogos para ter alguma chance, mas eventualmente precisará entender que não se pode competir com as memórias. Sabe aquela coisa de que, na sua memória, teve uma chuva de meteoros épica quando você tomou aquele fora da guria gostosinha e nada vai te convencer do contrário 10 anos depois? O reconhecimento para LeBron virá apenas quando for tarde demais e ele tiver reumatismo. Até lá, precisa dar um jeito de segurar as pontas.

O plano de LeBron, então, é simples: vencer imediatamente, e muito. Por diversas vezes indiquei no Bola Presa que LeBron provavelmente não sairia do Cavs e que não iria nem fodendo para o Knicks. Agora abaixo a cabeça, escondendo o rosto pra ver se ninguém me reconhece na rua, e mudo de ideia. Se o LeBron tiver um pouco de cérebro e quiser mesmo vencer, vai dar o fora de Cleveland rapidinho.

Minhas defesas ao Cavs sempre foram de que o time, ainda que pobre financeiramente, meio Chavinho do Oito, nunca poupou esforços para dar ao LeBron o melhor elenco disponível. O elenco que recebeu LeBron à NBA era horrendo, nível Preta Gil, e todo o possível foi feito para transformá-lo em algo pelo menos do nível "comia, mas não contava". Por vezes as contratações e as trocas pareciam até aleatórias, como se o Cavs não soubesse bem que tipo de time estava montando mas quizesse mostrar serviço, pelo menos dar uma mudada no elenco. Tipo um estagiário fazendo qualquer coisa, estabanado, pro patrão ficar contente. Perto de outros estagiários, que observam a empresa morrendo e cospem em cima (tipo eu, ou tipo e o Warriors) até que o Cavs se saiu muitíssimo bem. O Mo Williams, que me parecia a peça mais idiota na época da contratação (achei que ele fosse levar o LeBron à loucura sendo um fominha biruta) conseguiu até enganar todo mundo e virar All-Star. Então por que o LeBron sairia dessa organização comprometida em mudar de novo, outra vez, quantas forem necessárias, mesmo se afundando em dívidas, até que sua estrela ganhe um anel de campeão?

São dois pontos cruciais. O primeiro que vamos abordar é o técnico. As vitórias que LeBron e o resto do elenco conseguem camuflam a falta de capacidade da comissão técnica. Recentemente o Denis colocou aqui no blog um vídeo com os pontos que LeBron marcou em seu primeiro jogo na NBA, e eu fiquei monstruosamente chocado:





Por favor, pra quem não viu no post original, assistam a esse vídeo, é assustador. Nele, é possível ver LeBron participando de jogadas DESENHADAS para que ele receba a bola. Sério, jogadas de verdade. Juro que o vídeo não é montagem, não tem Photoshop. Quando chegou no Cavs como novato, o técnico era Paul Silas e, olha só que bizarro, ele DESENHAVA jogadas ofensivas! Não é estranho? Porque depois de ver o Mike Brown como treinador, dá a impressão de que ser técnico de basquete é apenas sentar no banco, ser um cara legal e tomar umas faltas técnicas de vez em quando pra lembrarem de que você existe.

No vídeo acima dá pra ver um LeBron cru, com movimentos que abandonou conforme foi amadurecendo, mas que é bastante eficiente ao participar de um esquema tático. O mais estranho é que LeBron era o armador daquele time na maior parte dos jogos, e mesmo assim existem jogadas planejadas para que ele finalize. Isso nunca mais aconteceu no Cavs e LeBron não pode passar a carreira inteira sofrendo por causa disso. Kobe e Jordan tiveram Phil Jackson, por que o coitado do LeBron tem que ter o Mike Brown? Parece que ele gastou todos os pontos de experiência em "força física de um cavalo" e esqueceu de comprar um técnico decente achando que não ia mudar nada na ficha de personagem.

É hora, então, do LeBron ir atrás de um técnico. Para o Cavs, é muito difícil demitir Mike Brown. É uma questão de ética, de boa educação, tipo não colocar os cotovelos na mesa: como você demite um técnico que ganha mais de 60 partidas com um time em todas as temporadas? Não rola. Mike Brown está comodamente escondido atrás da aura de LeBron James. E como o Cavs não vai mandar o cara vender pipoca, o LeBron vai ter que arrumar um técnico em outro lugar. A escolha óbvia, aqui, é Mike D'Antoni, técnico do Knicks. Os dois já jogaram juntos na seleção americana e o LeBron ficou fascinado com as movimentações ofensivas (deve ser como crianças se sentem ao ver o mar pela primeira vez), mas existe o erro do excesso. Criança que é obrigada a só comer brócolis, quando ganha liberdade, tende a só comer chocolate, e ninguém sobrevive comendo só chocolate por muito tempo. Depois de tanto tempo num time que só defende, o LeBron pode correr pro colo do D'Antoni só para desforrar e jogar num time que só ataca. Mas assim com o Cavs não ganhava só na defesa, o D'Antoni nunca ganhou nada só no ataque. Dá pra entender se o LeBron infantilmente quiser fugir para o outro extremo, mas desconfio que não deve dar muito certo.

Outros times com técnicos razoáveis são também uma opção, mas nesse caso em especial eu prefiro uma escolha hipotética, saída diretamente do inútil mundo da boataria. As ofertas para que o técnico Mike Krzyzewski, lenda universitária, vá para a NBA nunca param, mas podem ficar muito tentadoras quando envolverem treinar LeBron James. Fala-se muito sobre um possível projeto de reconstrução do Nets que envolveria um novo dono, uma mudança de cidade, o Coach K e a primeira escolha do draft para convencer LeBron a jogar por lá. Faz bastante sentido, porque o elenco do Nets é muitíssimo melhor do que parece, e pegaria muito bem para o LeBron chegar nos playoffs com um time que quase bateu o recorde de pior campanha da NBA - se beneficiando secretamente de bons jogadores que ninguém sabe que são bons de verdade e, talvez, de um técnico genial. A equipe vai se mudar para o Brooklyn em breve e aí o LeBron estaria em New York como quer tanto o pessoal que vive de propaganda. O primeiro golpe nesse projeto do Nets foi que eles são tão azarados, mas tão azarados, que acabaram com a terceira escolha ao invés da primeira, então não vai ter a tentadora presença de John Wall por lá (deve ir para o Wizards tirar duelo de pistola com a Arenas, mais disso a gente fala depois). Funhé. Ainda assim, é uma possibildade.

Mas existe outro ponto crucial, além do treinador, para que LeBron saia do Cavs: mercado. Cleveland é um lugar famoso por ser uma joça, por estar falido e por "pelo menos não ser Detroit". Em New York, LeBron poderia se tornar um bilionário apenas com vendas de camisetas. Na verdade, se apenas os turistas que visitam o Madison Square Garden tivessem o acesso para comprar as camisetas, as vendas já seriam centenas de vezes superiores ao que são agora, com LeBron em Cleveland.

Essa possibilidade financeira abre um caminho único para LeBron James. Como vimos acima, o que importa na carreira de um jogador são as vitórias. O esporte ficou assim, dependente das vitórias, quando tornou-se uma fonte tão gigantesca de renda para os que trabalham com ele. O esporte é uma empresa, os funcionários precisam gerar lucro. Quando você vê algum vovôzinho falar sobre o esporte poético, sobre o futebol-arte ou alguma coisa emo desse tipo, é porque está falando do esporte amador, ou quase-amador, em que a pessoa pratica aquilo por amor, e a vitória é apenas secundária. Agora, o esportista deve fazer tudo para alcançar a vitória assim como um empresário engravatado, os escrúpulos existem apenas se eles pegarem bem com os clientes e gerarem, por isso, mais lucros. Os ursos só param de ser chacinados pelas empresas alimentícias porque hoje em dia dizer que você é "ecologicamente correto" lhe dá um aumento percentual nas vendas. Do mesmo modo, o Bruce Bowen pararia de torcer tornozelos apenas se isso deixasse a torcida mais feliz, satisfeita e comprando mais camisetas e burritos - mas não é o caso, o que importa é a vitória (como os torcedores do Spurs sabem tão bem). O esporte, como insisto em dizer, é a continuação do mundo, não um universo à parte. Então como fazemos parte de uma cultura obcecada pelo sucesso e pela vitória, esperamos sucesso e vitória dos esportistas pelos quais torcemos, custe o que custar. De novo, o esporte é apenas uma janela, um recorte, pela qual podemos ver melhor o mundo: na quadra fica mais claro como as pessoas só se importam em vencer, fazem o que for necessário, enquanto nas ruas e no escritório ocorre o mesmo mas de forma mais velada. O pessoal se sacaneia para conseguir uma promoção, mas não fala disso no seu Twitter.

LeBron precisa vencer, é para isso que ele está na NBA. Foi isso que ele repetiu diversas vezes na coletiva de imprensa, que é apenas com isso que ele se importa. Mas é claro que não é verdade: ele, assim como todos os outros jogadores e a esmagadora maioria das pessoas do planeta, se importa também com ganhar dinheiro. Todo mundo na NBA procura o maior salário que puder agarrar, o Zach Randolph reclama de ganhar salários menores do que jogadores que ele acha serem inferiores (agora deu pra dizer que quer o mesmo salário que o Pau Gasol, por ser tão bom quanto ou até melhor), e muitas das estrelas que assinarão contratos na temporada que vem procuram "salários máximos", o valor máximo estipulado pelas regras da NBA. Alguns não conseguirão, mas Dwyane Wade e LeBron James, por exemplo, devem alcançar tal marca. É assim que funciona, os melhores vão receber a remuneração devida pelas regras do jogo.

O Knicks tem grana o bastante para assinar duas estrelas de salário máximo, por exemplo. Acaba funcionando como um jogo de videogame em que cada membro da equipe tem um valor em pontos e, pra não ficar apelão, existe um máximo de pontos que cada time pode ter. Mas é aqui que LeBron James pode subverter essa relação universal com o capital. Como um dos melhores e mais famosos jogadores dos nossos tempos, LeBron tem uma oportunidade única na história: ele pode mandar o salário às favas.

Funciona assim: se for para New York (ou para o Brooklyn), por exemplo, LeBron pode re-assinar um contrato milionário com a Nike e outras diversas empresas, ganhando mais do que nunca por estar num mercado de enorme exposição, público e poder de compra inigualável. Um grupo de investidores pode se unir e financiar, em troca de propagandas, um salário de 10 milhões anuais para LeBron, ou até mais. Seria o bastante para que ele ficasse rico, garantisse o resto de sua vida, mantivesse o mesmo padrão biliardário que conquistou. E pudesse assinar um contrato com o Knicks ou o Nets de "apenas" 2 milhões por temporada, ou quanto for o mínimo permitido para veteranos segundo as normas da temporada que vem. Sem mudar um centavo em sua vida, e se realmente "vencer" é aquilo que mais lhe importa, LeBron pode mandar as regras para a privada e competir num Knicks com outras duas estrelas de salário máximo, como Wade e Bosh, por exemplo. Que tal?

Financeiramente falando, LeBron nem precisaria do apoio de investidores ou de assinar contratos publicitários gigantescos, bastaria assinar o contrato de 2 milhões e qualquer um já pode levar uma vida fantástica, nada modesta, para sempre (é só não comprar casa pra todo mundo que cruza o seu caminho e nem apostar 10 milhões num cassino toda semana, né, Antonie Walker?). Diabos, o LeBron pode até assinar um contrato de 5 ou 6 milhões e viver numa casa de ouro com piscina de champagne ainda assim sem quebrar o cofre do Knicks.

O esporte foi completamente tomado pela mentalidade corporativa, onde só importa a vitória, cumprir as metas, e ganhar salários maiores do que se pode engolir ou enfiar na orelha. Quando fazem algo a respeito, é apenas um Karl Malone velho abrindo mão da grana para ganhar um anel desesperado em seu último ano de NBA para não voltar para casa e ser chamado de perdedor por uma legião de fãs que só se importam com a vitória. E se uma grande estrela em seu auge, que ainda não está desesperada, fizesse isso? E se LeBron tivesse coragem para tornar isso uma tendência? Ganharia certamente todos os anéis de campeão possíveis durante a extensão do seu contrato (como perder com Wade, Bosh e D'Antonni), e na hora de assinar novos contratos outros iriam querer (ou teriam que) fazer também. Vale mais a pena jogar com um técnico de verdade, com Wade, com Bosh, sair vencedor de quadra, ou ganhar um salário de 20 milhões anuais? Hein?

O discurso do LeBron só fala em vencer, vencer, vencer. É o único jeito dele se safar dessa legião burra que não lhe para de tacar cocô. Mas até onde ele está disposto a levar esse discurso, ou é apenas um barulhinho que ele faz com a boca para se safar de que pensem que "ele não se importa"? Dificilmente o veremos assinar um contratinho mixuruca, mas da próxima vez ouvirei seu discurso sobre vitórias de um modo diferente, porque ele vai ter escolhido aquilo que lhe cair sobre a cabeça. O único modo de escapar do mundo burro é fazer diferente. Será que ele é capaz?