terça-feira, 29 de novembro de 2011

Nos vemos em 2017, locaute

 Billy Hunter e David Stern em 1999. Ou será 2011? Talvez 1995...

Em 22 de junho os jogadores da NBA e os donos de equipes sentaram em uma sala para uma reunião que iria discutir o futuro CBA, o acordo que une as duas partes e deixa a NBA funcionar. Mas depois de apenas 30 minutos os jogadores deixaram a reunião e disseram que se recusariam a escutar qualquer proposta que envolvesse o termo "hard cap", o teto salarial fixo e sem restrições sonhado pelos donos. Em 1º de julho os donos impuseram um locaute já que os jogadores se recusaram a votar em uma nova proposta de CBA. Em 12 de setembro os jogadores se reuniram para votar a decertificação do seu sindicato. Em 4 de dezembro os jogadores e os donos fizeram mais uma longa reunião e ao fim dela o comissário da NBA David Stern disse que provavelmente a próxima temporada seria cancelada.

Você deve estar achando que eu estou louco, desatentou ou confuso. E deve ter percebido que algumas informações não batem com as datas ou umas com as outras. Eu explico: elas são de anos diferentes e nenhuma é de 2011. A reunião de 30 minutos aconteceu em junho de 1998. O locaute de 1º de julho após a recusa dos votos dos jogadores aconteceu em 1995, mesmo ano que, meses depois os jogadores votaram e preferiram assinar um novo CBA ao invés de acabar com o sindicato, ao contrário do que aconteceu algumas semanas atrás. A reunião desastrosa de 4 de dezembro foi um dos pontos mais baixos e desesperadores do locaute da temporada 1998-99. O que vimos nos últimes meses foi um saco, um porre, uma confusão desnecessária com muitos prejuízos, tudo isso, mas não foi nada de novo.

Confesso que se eu tivesse acompanhado de perto todas as batalhas trabalhistas já travadas entre donos e jogadores eu não teria dado tanta importância para esse locaute. Claro que foi apenas a segunda vez que chegamos ao ponto de termos jogos cancelados, mas é que são sempre as mesmas discussões, os mesmos temas e tudo não passa de desculpa esfarrapada para conseguir a maior fatia de bolo.

Em 1994 os jogadores toparam disputar a temporada 94-95 dentro de um "acordo de não-greve". Ao invés de entrar em uma briga que parecia sangrenta, decidiram manter o mesmo CBA por um ano extra e discutir só ao fim daquele campeonato. Até chegaram a acertar um acordo antes que o contrato em vigor expirasse em 1º de julho, mas ele veio abaixo com a recusa dos jogadores em votar e aí começou um locaute. A discussão era, surpresa!, sobre a divisão do BRI e também sobre punições a times que ultrapassassem o luxury tax, ponto em que os times precisam pagar multas à liga por estarem gastando demais. Em setembro daquele ano os jogadores resolveram aceitar a proposta de BRI em 51% a seu favor, não decertificar do sindicato e então acabar com o locaute antes que jogos fossem perdidos.

Um ano depois, em 1996, aconteceu um episódio esquisitíssimo. Em 1º de julho os donos declararam moratória aos jogadores até que detalhes do acordo do ano anterior fossem resolvidos. O impasse durou até o dia 10 de julho, quando surgiu a discussão sobre 50 milhões de dólares oriundos de um contrato com a TV. Sem saber como dividir essa grana foi declarado um locaute que durou, acreditem, duas horas.

A coisa pegou pra valer na temporada 1998-99. Sério, se você achou que esse locaute foi brabo é porque não vivenciou aquele. Começou com os donos votando para reabrir as negociações sobre o CBA, eles não estavam satisfeitos com o vigente e não queriam nem chegar perto de uma renovação. Afinal, não tinha crise econômica nos EUA, não tinha terrorismo, as crianças ainda brincavam de pião na rua mas os donos estão sempre perdendo dinheiro e assumindo todos os riscos. Está sempre ruim. A liga dizia que naquele ano quase todos os times tiveram prejuízo, números que foram contestados pelos jogadores. Já viram isso em algum lugar? Depois da citada reunião de 30 minutos, o locaute então começou para valer em julho de 1998.

O sindicato dos jogadores respondeu entrando na Justiça para que os times continuassem pagando os atletas mesmo durante a paralisação da liga. Depois disso passou-se mais de um mês sem qualquer tipo de reunião ou movimentação, só no meio de agosto aconteceu um encontro em que os donos ouviram uma proposta do sindicato e foram embora depois de recusá-la. Poucas reuniões aconteceram até outubro, sempre sem nenhum resultado (nem o otimismo do "pequenos progressos" tinha naquela época), a coisa só começou a andar um pouco depois, quando ficou oficialmente decidido, em 20 de outubro de 1998, que os donos não eram obrigados a pagar os salários dos jogadores durante o locaute.

As notícias do que aconteceu depois disso são hilárias de tão iguais às de hoje. "Reunião de 11 horas de duração não dá resultado e locaute continua", "Após 4 horas e meia de reunião jogadores não aceitam proposta", "Depois de 13 horas de conversa os dois lados dizem ter feitos avanços significativos" e por aí vai a bobagem. A pauta das discussões daquela época envolvia o salário máximo permitido para os jogadores, a permanência ou não da "Larry Bird Exception" e a criação de salários fixos para novatos (o hoje consolidado Rookie Scale).

Uma grande diferença em relação ao locaute 2011 foi que nunca antes a NBA havia perdido jogos. Ela era, aliás, a única liga profissional dos EUA a não ter tido jogos cancelados por questões trabalhistas até então. E hoje, no fim de novembro, já temos uma solução para o problema, em 1998 isso não aconteceu e em dezembro ameaçava-se cancelar toda a temporada. Isso, lembremos, logo depois do Michael Jordan ter anunciado sua aposentadoria, que naturalmente já daria uma baixada de bola na popularidade da liga ao redor do mundo. A situação era caótica e preocupante.

Outra grande diferença foram algumas polêmicas que hoje, mesmo na era-Twitter, foram de certa forma evitadas. Em determinado momento, como já comentamos aqui, o Jordan, ainda envolvido nas negociações, disse para o dono do Wizards Abe Pollin que "se você não consegue ter lucros deveria vender seu time". Conselho que Jordan não seguiu anos depois. Outro momento horrível foi uma conversa entre os jogadores Kenny Anderson e o Patrick Ewing, então presidente do Sindicato dos jogadores. Anderson disse "Acho que vou ter que vender um dos meus carros, acho que não preciso de todos eles. Vou vender a Mercedes", e Ewing respondeu "Nós ganhamos muito dinheiro, mas gastamos muito também". Isso culiminou em um jogo realizado por 16 jogadores, todos All-Stars, feito para arrecadar dinheiro para os jogadores. Após a polêmica formada com a opinião pública, eles resolveram pegar a grana e doar para a caridade.

Até o final daquele locaute foi de certa forma parecido com esse, de surpresa e sem alarde antecipado. O David Stern deu um ultimato (7 de janeiro) e poucos dias antes os dois lados se reuniram de maneira secreta resolvendo tudo em cima da hora. O acordo foi anunciado no dia 6, poucas horas antes do momento em que Stern tinha dito que era o momento limite antes da temporada ser cancelada. Os donos ganharam os salários menores dos novatos, os jogadores continuaram com o benefício de poder extrapolar o salary cap se fosse para se manterem nos times em que já estavam.

Contei essa história toda para mostrar que vivemos um momento de alívio, mas que é temporário. Em 2017 o cenário econômico mundial será outro, a realidade da NBA será diferente, teremos outros ídolos e possivelemente outras maneiras da liga ganhar dinheiro. Mas não mudará o fato dos jogadores se acharem donos do espetáculo e dos donos sempre pensarem que podem ganhar mais gastando menos. Eles podem dar as desculpas e argumentos que quiserem, mas no fim a disputa sempre ocorrerá e nunca os dois lados estão satisfeitos. E como até os personagens já se repetiram (Jordan, Ewing, Stern e Hunter e um mediador federal aparecem quase todas as vezes), não dá pra ser tão otimista a ponto de acreditar que irão aprender com o último locaute e fazer diferente.

Novas brigas virão, talvez mais chatas do que essas de 2011, então vamos aproveitar a curta temporada que temos a nossa frente.

Essa curta temporada, aliás, poderia ser menor ainda. Mas a NBA decidiu que não quer perder ainda mais dinheiro e escolheu por fazer um calendário com 66 jogosMatt Winick, o homem-calendário que teve seu trabalho explicado aqui no Bola Presa há um ano, vai ralar. Para acomodar tudo isso já se garantiu que muitos times terão vários dos temidos 4-in-5, com 4 jogos em 5 noites, e também uma novidade, os back-to-back-to-back, 3 jogos em 3 dias seguidos! Um doce para quem adivinhar a última vez que isso aconteceu. Sim, 1999.

domingo, 27 de novembro de 2011

Teremos temporada

É com enorme prazer e um tantinho de lágrimas nos olhos que recebemos a notícia de que a temporada da NBA está salva. Por tanto tempo vimos gente dizendo que tinham certeza (e fontes confiáveis) de que a temporada não aconteceria, depois encontramos gente com certeza de que aconteceria, depois de que não aconteceria de novo, depois que aconteceria outra vez, até que finalmente temos uma notícia oficial: donos e jogadores chegaram a um acordo, embora nem todos os detalhes tenham sido revelados. Tudo leva a crer que os jogadores podem ser contratados ou trocados novamente a partir do dia 6 de dezembro, e que a temporada de 66 jogos começa pra valer no dia de Natal. Se eles não são burros, vão manter o calendário antigo ao menos para o Natal, de modo que a temporada comece em grande estilo com Mavs e Heat reproduzindo a última Final.

A alegria de ter finalmente uma temporada de NBA é tão grande que não resisti e resolvi imortalizar esse momento num infográfico - como sempre, usando a única ferramente artística imortal da humanidade, o Paint. O infográfico explica toda a história do locaute da NBA em 5 pequenos passos para todo mundo poder acompanhar, e ainda traz aquele prazer de descobrir que teremos basquete de novo para você recuperar sempre que sua vida estiver uma merda.

Clique na imagem para ampliar

Para comemorar a volta da NBA, o Bola Presa volta com tudo: mais posts do que você será capaz de ler, cobrindo todas as trocas e contratações antes do início da temporada, análise de todos os times conforme as contratações forem saindo, podcasts e até mesmo visual novo e novo formato para o blog - é o mesmo Bola Presa de sempre, mas com mudanças que o tornarão melhor do que nunca. Aguardem!

Enquanto isso, a tradicional lista com todos os infográficos que fizemos até hoje: um gostinho de história para atiçar o paladar para uma nova temporada de NBA - e para um novo Bola Presa!

- Nowitzki é campeão com o Dallas Mavericks
Como o Celtics poderia evitar a derrota para o Heat na semi-final de Conferência
Como acompanhar a série entre Hawks e Magic
Kevin Love bate o recorde moderno de double-doubles seguidos
Ray Allen bate o recorde de bolas de 3 pontos

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Draft de 2001 - Segunda rodada (fim!)

Chegamos, finalmente, ao fim desse longo especial sobre o Draft de 2001.
Hoje veremos os principais nomes da 2ª rodada daquele Draft e, para celebrar e criar polêmica (um jeito apelativo de ganhar comentários durante o locaute), terminamos com o Draft Revisado. Afinal, como seria o Draft de 2001 se os times soubessem no que cada jogador iria se transformar 10 anos depois?

Aqui as outras partes do Especial Draft 2001:

O Top 3
O Top 10
Escolhas 11-20
Escolhas 21-28

....
29- Trenton Hassell (Chicago Bulls, SG)




Para os novatos em Bola Presa pode soar estranho, mas quem é old school lembra: nós já fizemos um especial sobre a carreira do Trenton Hassell! No nosso primeiro ano de blog tínhamos uma seção chamada "Desconhecido do Mês" onde pegávamos um jogador que ninguém conhecia e contávamos sua história ao mesmo tempo que acompanhávamos o seu desempenho jogo-a-jogo durante aquele mês. O Hassell estava no Wolves e durante seu mês de Desconhecido foi para o Nets, rendeu dois posts: Parte 1 e Parte 2.

Se realmente estiver interessado na carreira dele (tem louco pra tudo lendo isso) é só ver esses posts.


30- Gilbert Arenas (Golden State Warriors, PG)



Passei horas matutando o que escrever sobre Gilbert Arenas. Afinal, dá pra escrever um livro sobre a carreira desse cara. Nesses 10 anos ele teve passagens épicas, deploráveis, situações absurdas, já jogou bem a ponto de ser MVP e mal a ponto de ter o pior contrato da liga. Já foi o cara decisivo que nem precisava olhar para saber que fez o arremesso da vitória e já perdeu série de playoff por amarelar nos lances livres. Também já teve o blog mais famoso da NBA e, como Trenton Hassell, foi assunto de posts aqui no Bola Presa. Se vocês digitarem "Arenas" na nossa busca aqui na barra lateral irão encontrar uma porrada de textos sobre ele.

Resolvi separar três pontos que ao todo conseguem mostrar um lado importante, embora pequeno, de sua incrível personalidade e movimentada carreira.

Revanche: Gilbert Arenas guarda mágoas. Ele escolheu usar o número 0 porque dizia que era o número de minutos que as pessoas achavam que ele teria na NBA. Queria usar o número para nunca esquecer que não acreditavam nele, Arenas queria dar uma resposta. Ele tem até um comercial da adidas sobre isso!

Anos depois, em 2006, já consagrado como um grande jogador, ele foi escolhido para participar dos treinos com a seleção norte-americana que se preparava para o Mundial daquele ano. Mas na hora dos cortes, Arenas ficou de fora. Ele não perdoou e jurou vingança a Mike D'Antoni e Nate McMillan, assistentes da seleção e então técnicos de Phoenix Suns e Portland Trail Blazers. Ele disse que faria mais de 50 pontos contra as duas equipes. Deu certo contra o Suns de D'Antoni, quando ele fez 54 pontos e venceu o jogo, mas marcou apenas 9 e saiu derrotado da partida contra o Blazers. Arenas ainda lamentou publicamente o fato de não ter chances de jogar contra a Universidade de Duke, do técnico da seleção Mike Kryzewski.

Bolas decisivas: Gilbert Arenas tem algumas bolas decisivas históricas em sua carreira. Foi um arremesso seu no último segundo que parou uma reação devastadora do Chicago Bulls e garantiu a vitória no jogo 5 de uma série complicada de playoff em 2005. A primeira vencida pelo Wizards em mais de 10 anos!

Em sua temporada mágica, a de 2006-07, chegou a ter uma marca insana de 100% de aproveitamento em bolas em final de quartos ou jogos. E não era só acertar, era com estilo: Contra o Bucks foi de muito longe, contra o Sonics ele fez questão de deixar a camiseta no centro da quadra após a partida (segundo ele, sonhava que a torcida fosse invadir a quadra para levar o souvenir. Não aconteceu). E, por fim, a minha favorita, quando contra o Utah Jazz até se virou de costas antes mesmo da bola cair. Uma das cenas mais legais que eu já vi na minha vida de NBA e que é a primeira do vídeo abaixo:



Mas nem tudo são flores. No jogo 6 da série de playoff contra o Cleveland Cavaliers em 2006, Gilbert Arenas teve dois lances livres para abrir 3 pontos de vantagem a 15 segundos do final e assim ficar perto de garantir uma vitória que levaria a série a um jogo 7. Mas LeBron James chegou na sua orelha e disse "se você errar o jogo é nosso". Arenas errou os dois lances, na última posse de bola Damon Jones acertou uma bola de 3 pontos e o Cavs ganhou a série. Mas vale a pena lembrar de uma coisa: Isso tudo aconteceu na prorrogação, que por sua vez só aconteceu porque a 2 segundos do fim o Arenas acertou uma bola de 3 quase do meio da quadra.

Inconsequente: Gilbert Arenas não pensa duas vezes antes de falar ou agir. Foi legal quando largou sua camiseta no meio da quadra do Sonics, muito mais legal ainda quando resolvia contar causos da sua vida no seu blog. Lembram quando ele contou da primeira vez em que foi titular de um jogo? Ele começou a partida sendo marcado por um dos melhores defensores da sua posição na história, Gary Payton, e depois de perder a bola algumas vezes e suar para passar do meio da quadra, disse que estava rezando para ser substituído. Quantas vezes um atleta profissional já confessou isso sem a menor vergonha?

Por outro lado ele também não pensou duas vezes na hora de provocar seu companheiro de Wizards Javaris Critentton em um jogo de cartas. Também não pensou duas vezes na hora de se ameaçarem (na brincadeira, diz ele) com armas de fogo dentro dos vestiários. E nem passou pela cabeça dele contar a verdade para os policiais que investigavam o caso, falou que só ele tinha armas e quis poupar o garoto. Intensão boa, até, mas resultado desastroso que resultou em suspensão de Arenas pelo restante da temporada. O caso das armas em 2009 foi o símbolo da decadência de Arenas. Jovem promissor de 2001 até 2005, depois um dos melhores jogadores da NBA (e certamente o mais divertido) para, após uma série de contusões no joelho e declarações desastradas, um jogador polêmico, caro e pouco eficiente.


34- Brian Scalabrine (New Jersey Nets, PF)


Aposto que 99% de quem já viu o Brian Scalabrine jogando pensou "Eu poderia estar lá no lugar dele". Afinal o cara é um branquelo desengonçado com aparência meio fora de forma e que não parece saber fazer nada direito. Outra coisa que todos já pensaram é "Como diabos esse cara chegou na NBA?".

A resposta é perturbadora, mas bem simples: Jogando muito bem. Quando jovem, Scalabrine sonhava em ser técnico de basquete, mas logo percebeu que era grande e poderia sim jogar. Fez uma boa carreira no colegial e acabou indo para um Community College sem tradição alguma com basquete, mas onde ele poderia jogar. Ao vencer títulos menores com essa faculdade, chamou a atenção da USC, essa sim uma faculdade tradicional que já revelou jogadores como DeMar DeRozan, OJ Mayo, Cliff Robinson, Paul Westphal e até o lendário Harold "Baby Jordan" Miner. Lá, com todas as bolas de três que você pode imaginar (muitas em jogos e momentos importantes), se tornou ídolo local e o 6º maior cestinha da história da Universidade.

Apesar de não parecer um jogador de basquete na aparência e estilo, nada mais normal do que arriscar um bom arremessador na segunda rodada dos playoffs, certo? O Nets tentou e o Scalabrine, apesar de ter perdido quase toda sua primeira temporada com o pé machucado, foi ficando com resultados satisfatórios. Bons arremessos, salário baixo, todos o adoram no vestiário, é ídolo cult da torcida. Por que não, né? Deu certo com o Celtics, que apostou nele anos depois e foi campeão com o Scalabrine no elenco. Ele até deu entrevista coletiva cheio de marra após a conquista. E ainda puderam se divertir vendo ele fazer algumas das piores jogadas da história da NBA:




37- Mehmet Okur (Detroit Pistons, C)



Lembra que em um dos primeiros posts dessa série eu disse que no começo dos anos 2000 todos os jogadores europeus eram vistos só como arremessadores? Não erraram tanto ao ver isso no Mehmet Okur, apenas menosprezaram muito sua capacidade de fazer algumas coisas além disso e ao pensar que não se adaptaria tão rápido ao basquete norte-americano. O Pistons, sem muito a perder na 37ª escolha, arriscou pegar o Okur e esperar um ano até que ele terminasse seu contrato na Turquia para que ele fosse para a NBA.

No seu primeiro ano, em 2002-03, Okur chamou a atenção mas jogou pouco. Participou mais no seu segundo ano, a temporada 03-04, quando foi peça chave nos playoffs, inclusive na final contra o Lakers. Okur era usado como pivô e fazia a festa da linha dos 3 pontos porque Shaquille O'Neal se recusava a sair do garrafão para defendê-lo.

O problema do sucesso de Okur em rede nacional foi que, por ser um jogador de segunda rodada, seu contrato era curto e logo após ser campeão o pivô se tornou um dos Free Agents mais procurados da NBA. Sem espaço salarial, o Pistons não teve condição de igualar a oferta de 50 milhões por 6 anos feita pelo Utah Jazz. No glorioso estado dos mórmons e dos fãs mais divertidos da NBA, Okur teve carreira sólida, fez boa parceria de garrafão com Carlos Boozer e em 2007 até arranjou um lugarzinho no All-Star Game, foi, aliás, o primeiro jogador do seu país a participar do jogo das estrelas. Hoje, por causa do locaute, Okur está de volta à Turquia no Türk Telekom.


41- Bobby Simmons (Washington Wizards, SF)


Conhecem aquilo que na música é chamado de "one hit wonder"? É quando uma banda fica muito famosa por causa de uma música e depois disso some do mapa. Simmons é uma espécie de one hit wonder da NBA.

Ele chegou na liga de maneira discreta. Foi razoável pela Universidade de DePaul, entrou quase no fim da segunda rodada, foi trocado no dia do Draft do Sonics para o Wizards e pouco jogou (apenas 30 jogos) em seu primeiro ano. No ano seguinte ele esteve envolvido na troca que levou o Richard Hamilton para o Pistons e o Jerry Stackhouse para o Wizards. Simmons foi envolvido como peso morto, para compensar salários, e logo em seguida foi dispensado pelo time de Detroit.

Foi então que de forma mágica o decadente Los Angeles Clippers resolveu apostar no jogador. Sei lá porque, mas deram um contrato de 2 anos para o rapaz! Inexplicavelmente deu certo. No primeiro ano em
LA ele foi um bom reserva, no segundo atuou 38 minutos por jogo, teve média de 17 pontos por partida, 6 rebotes e 43% de aproveitamento nas bolas de 3 pontos. Foi aclamado com toda a razão como o jogador que mais evoluiu na temporada 04-05. Como o Clippers é o Clippers, o contrato do cara acabou e ele foi embora, assinou com o Milwaukee Bucks por uma bolada de 29 milhões por 3 anos, uma loucura, ainda mais quando lemos isso em tempo de locaute.

Foi ladeira abaixo a partir daí. No Bucks ele nunca deu certo, não se firmou e todos os seus números foram despencando ano após ano. Os 17 pontos caíram para 13, 7 e depois 5. Ele ficou fora de forma e não conseguiu espaço nem no Nets quando eles tinham um dos piores elencos da liga. No ano passado até se arriscou na D-League. Muitos chamam o Bobby Simmons de jogador de ano de contrato, um daqueles caras estilo Erick Dampier que só jogam quando estão prestes a assinar um contrato novo. A crítica faz sentido, é claro, mas não sei se é bem assim. Se fosse só questão de vontade ele teria jogado melhor no Wizards antes de ser dispensado e no seu tempo de Nets quando precisava de um time novo.

Sei lá quais foram as razões, mas Simmons deve ser o jogador com carreira menos relevante a já ter ganho um troféu individual na NBA.

........
É isso, pessoal. Teria como falar de mais gente que teve carreira na NBA, mas aí ficaria ainda maior. Na posição 39 teve o Earl Watson, em 52º o irmão gêmeo do Jason Collins, Jarron. Teve também gente que só brilhou na Europa: Jeff Trepagnier, Robertas Javotkas, Omar Cook e o grego Antonio Fotsis foram todos escolhidos na 2ª rodada. Já na nossa Força Nominal, ninguém levaria o prêmio das mãos do pivô camaronês Ruben Boumtje-Boumtje.

Agora o momento mais esperado. O Draft de 2001 revisitado!
Cornetem minhas decisões nos comentários, mas é assim que eu acho que deveria ter sido o Draft 2001 se os times soubessem o que iria acontecer no futuro.

1- Washigton Wizards - Pau Gasol
Um bom pivô para jogar com o Jordan? Poderia ter dado playoff ao mesmo tempo que era investimento no futuro.

2- Chicago Bulls - Joe Johnson
Iria demorar um pouquinho pra vingar, mas quando desse certo o Bulls teria seu All-Star sem precisar esperar quase uma década pelo Derrick Rose. 

3- Vancouver Grizzlies - Tony Parker
Será que ele renderia tanto sem o Popovich? Aqui eu aposto que sim.

4- Chicago Bulls - Gilbert Arenas
Imagina ele do lado do JJ, que dupla legal demais de armação? Duas personalidades opostas e um poder ofensivo de dar medo em qualquer adversário. Melhor esse Baby Bulls do que o com Chandler e Curry.

5- Golden State Warriors - Jason Richardson
Deu certo, não teria porque mexer.

6- Vancouver/Memphis Grizzlies - Gerald Wallace
Para jogar na correria com o Tony Parker e o cara provou que rende em franquias recém-chegadas à NBA.

7- Houston Rockets - Mehmet Okur
Escolha perfeita. Poderia ser o pivô titular por todos os momentos de adaptação do Yao Ming, que chegaria no ano seguinte, além de jogar em todos os jogos que o chinês iria perder machucado. Os dois até poderiam jogar juntos, com Okur de ala de força.

8- Cleveland Cavaliers - Tyson Chandler
A bola de cristal iria dizer que um pivô forte ajudaria muito o ainda colegial LeBron James.

9- Detroit Pistons - Zach Randolph
A mesma bola de cristal diria que o investimento só daria resultado muitos anos depois. Mas seria quando o time campeão tivesse se desmontado, valeria a paciência e o prejuízo no refeitório.

10- Boston Celtics - Richard Jefferson
Coloque Paul Pierce na posição dois e finalmente alguém para marcar pontos naquele time além do próprio Pierce e do pouco confiável Antoine Walker.

11- Boston Celtics - Troy Murphy
Eles usavam o Walter McCarty e o Antoine Walker na posição 4. Que pelo menos tivessem um que, além de arremessar de 3, conseguisse pegar rebotes.

12- Seattle Supersonics - Shane Battier
Imagina que pesadelo defensivo ter Gary Payton e Shane Battier no mesmo time! E a combinação continuaria dando certo depois com a chegada de Ray Allen. Aliás, onde Battier não daria certo?

13- New Jersey Nets - Eddie Griffin
Ele iria jogar com o Jason Kidd, ir para a final da NBA e se consagrar ao lado do melhor armador daquela época. Menos chances de ficar deprê e afundar a própria carreira.

14- Golden State Warriors - Jamaal Tinsley
Ele não é rápido, mas fazia os outros correrem e adora um improviso. Seria no mínimo divertido para um time que já flertava com o esquema de Don Nelson antes mesmo dele chegar.

15- Orlando Magic - Trenton Hassell
Com a ausência do eterno machucado Grant Hill aquele Magic tinha dificuldades para parar os adversários, um especialista em defesa poderia ajudar.

16- Charlotte Hornets - Eddy Curry
Ah, vai que dá certo, né? O seu parceiro Tyson Chandler só começou a jogar bem quando foi para o Hornets.

17- Toronto Raptors - Kwame Brown
Um jovem pivô defensivo para aprender com o Antonio Davis. E em uma franquia que não tem pressão de torcida e escolhido numa posição que a imprensa não fica em cima pressionando. Dentro de suas limitações teria muito mais chance de ter dado certo.

18- New Jersey Nets - Jason Collins
O cara foi para a final com o Nets, pra que mudar?

19- Portland Trail Blazers - Brendan Haywood
O visionário que fez o Draft iria saber que o Blazers teria todos os seus 700 pivôs machucados nos anos seguintes e iriam precisar de mais reservas para a posição.

20- Cleveland Cavaliers - Vladmir Radmanovic
Bons arremessadores nunca são demais, poderia prevenir o Cavs de anos depois gastar dinheiro com o Donnyell Marshall.

21- Boston Celtics - Raul Lopez
22- Orlando Magic - Samuel Dalembert
23- New Jersey Nets - Rodney White
24- Utah Jazz - Brian Scalabrine
25- Sacramento Kings - Bobby Simmons
26- Philadelphia 76ers - Jeff Trepagnier
27- Vancouver/Memphis Grizzlies - Omar Cook
28- San Antonio Spurs - Earl Watson 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Como a temporada 11/12 está indo pelo ralo

"Nos reunimos e decidimos por meio deste atirar o excremento naquele grande ventilador"


A tentação é começar a tacar merda em todos os responsáveis por essa temporada prestes a ser perdida da NBA, mas antes disso precisamos explicar o que realmente está acontecendo, como chegamos até aqui e o que deverá acontecer a seguir. Essa última parte posso adiantar um pouco: provavelmente não teremos basquete.

Ontem aconteceu a esperada reunião da NBAPA, o sindicato dos jogadores que está lidando com as negociações desde sempre. Nesse encontro eles iriam discutir e votar a proposta feita pelos donos na última sexta-feira. Segundo David Stern, era a última oferta feita com uma divisão do BRI (soma de tudo ganho pela liga) em 50% pra cada lado. Em caso de recusa, a próxima já começaria com 47% para os jogadores, 53% para os donos. Estavam presentes na reunião os representantes dos 30 times da NBA e mais alguns jogadores que foram acompanhar as conversas, dessa vez, finalmente, gente de mais nome como Kobe Bryant, Elton Brand, Russel Westbrook, Paul Pierce e Tyson Chandler. 

Após uma reunião não muito longa, a desastrosa entrevista coletiva. Lá anunciaram que os jogadores haviam votado não só por recusar a proposta, mas também por rebaixar a NBAPA de um sindicato para uma "trade association", ou seja, uma entidade não mais capaz de representar os atletas nas mesas de negociação com os donos. O próximo passo, disse o presidente Derek Fisher ao lado do representante da NBAPA Billy Hunter, seria processar a NBA dentro da lei anti-truste. Lembrando que, como explicado nesse post, a NBAPA não poderia entrar na justiça se continuasse como sindicato. No mesmo post chamamos essa atitude de "a opção nuclear".

Quer dizer, a chamada opção nuclear era a decertificação, e no fim das contas eles deram uma volta legal para cair num lugar parecido, mas de uma maneira mais rápida e contornável. A decertificação do sindicato precisaria de mais votos (que, dizem, eles tem) e o caminho legal seria mais demorado e certamente irreversível: tudo iria para a Justiça. Com o rebaixamento para trade association os jogadores ainda podem receber propostas dos donos antes de entrar na Justiça, com a diferença que não será mais Derek Fisher e David Stern lá na frente, mas advogados falando com advogados. A NBAPA afirmou que os processos contra a NBA devem ser enviados nos próximos dois dias e a partir daí é difícil prever o que ou quando as coisas vão começar a acontecer. Alguma liminar pode, por exemplo, liberar os jogadores de negociarem com times ou de voltarem a treinar nas dependências das esquipes. Outros estão dizendo que o foco dos processos serão os novatos, que não estão oficialmente na NBAPA e estão sendo impedidos de jogar pela NBA.

Esse rebaixamento foi a estratégia que a NFLPA, o sindicato dos jogadores da NFL, liga de futebol americano, fez durante o seu locaute, que foi resolvido antes da temporada começar. A singela diferença é que essa atitude foi tomada em março, antes mesmo do contrato entre jogadores e liga expirar. A NBAPA está tomando a atitude 5 meses depois do começo do locaute, quando a temporada já deveria estar rolando. Seria esperança de que nas negociações normais os donos teriam o bom senso de oferecer uma oferta decente? Ingenuidade ou excesso de confiança nos talentos de negociação de Billy Hunter e do advogado Jeffrey Kessler? Não sei, mas deu errado.

É bem fácil culpar os donos por forçar a barra nessas negociações, mas todos tem parcelas de culpa e saem como perdedores caso a temporada seja cancelada, o que é muito provável. Vamos por partes:


Jogadores


Os atletas já estão perdendo salários hoje, com o fim da temporada correm o risco de passar um ano inteiro sem receber um tostão. Muitos devem correr para a Europa e China (não vejo ninguém além de Varejão ou Splitter com alma de caridade vindo ao Brasil) atrás de dinheiro, mas provavelmente a maioria irá receber bem menos do que na NBA. Sem contar que muitos nem tem o desejo de sair dos EUA e deixar a família para trás, ou seja, mesmo com o lado financeiro recebendo uma compensação, não estão onde querem e nem disputando o campeonato que desejam.

E pior, não é nem que seja um passo para trás para dar dois para frente. No meio da década passada a NHL, liga de hóquei, passou por situação semelhante, perdendo uma temporada inteira, e nunca se recuperou direito. O acordo seguinte conseguido pelos jogadores foi horrível, eles passaram a ganhar muito menos e a popularidade do esporte despencou, com os rendimentos junto, claro. Ou seja, toda essa batalha, mesmo que eles vençam na Justiça, pode render um acordo pior do que eles recusaram ontem.


Donos

Muitos donos devem estar felizes. Caras como Michael Jordan (Bobcats) e Mikhail Prokhorov (Nets) já deixaram bem claro que preferem perder uma temporada com um acordo que não os agrada do que aceitar o atual. A situação ruim é para caras como Micky Arison (Heat, foto) que queria ver seu time sendo campeão na próxima temporada e não assistir ao seu Dwyane Wade arrasando com tudo na China.

Por outro lado, mesmo os donos que queriam ver o circo pegar fogo podem acabar perdendo mais do que imaginam. Tudo bem que eles podem conseguir mais de 50% do BRI no ano que vem, mas qual será o valor do BRI depois de um ano de recesso? O desinteresse dos fãs vai acontecer, os contratos de TV vão diminuir, a publicidade vai cair, a venda do League Pass no exterior deve virar uma piada. Estamos trabalhando com especulações, claro, mas será que 50% do BRI atual não é mais do que 53% do BRI de uma NBA sem credibilidade e atenção daqui um ano? Não seria a hora de, pela primeira vez desde que as negociações começaram, ceder pelo menos um pouco?


David Stern


Já que no basquete americano se fala tanto em legado, qual vai ser o que David Stern deixará ao final de sua carreira como comissário da NBA? Certamente ele não quer ficar para a história somente como o cara responsável por dois locautes. Também não quer que a liga que ele trabalha deixe de existir, então por que não se esforçou mais para impedir tudo isso? Bom, ele é funcionário dos donos, pago por eles, que são os únicos que, unidos, podem tirá-lo do cargo. Mas obedeceu tanto, fez tanto a vontade dos donos mais extremistas que pode acabar desagradando a todos. A imagem manchada do egocêntrico Stern entre os donos, fãs e jogadores pode acabar custando o seu emprego. Improvável, mas possível.

Curioso que David Stern também pode deixar um legado como o cara que fez da NBA uma liga global, a melhor e mais importante do mundo, que atraiu bilhões de dólares e fãs de todos os cantos e transformou uma liga que lutava por atenção em um grande espetáculo admirado em todo o planeta. E depois acabou com tudo isso. Do jeito que a coisa vai, acho que David Stern afunda com uma fama de Roberto Baggio: Carregou o time nas costas com maestria até a final, aí perdeu o pênalti decisivo.

Ah, outra coisa. Muita gente por aí diz, com bons argumentos, que David Stern não deve apoiar o que esses donos mais casca grossa pensam. Mas é o próprio Stern quem aprova a compra e venda dos times, ele não é obrigado a dar uma franquia para quem oferece a grana. Deveria saber onde estava se metendo ao deixar Dan Gilbert, Robert Sarver, Mikhail Prokhorov, Michael Jordan e cia. entrarem no seu negócio. Agora eles que mandam.

Torcedores

Tem alguma categoria da NBA que se sentiu mais imbecil durante esse locaute do que os torcedores? Alguns, mais casuais, podem não ter ligado tanto, mas a NBA tem uma base de fãs muito hardcore que está arrasada. Somos nós, que gastamos dinheiro com League Pass, produtos, escrevemos blogs sobre a liga (de graça!) por 5 anos, passamos madrugadas acordados, fazemos provas sem ter dormido só porque estávamos assistindo Blazers x Warriors até às 5 da manhã.

E aí quando chega essa hora a gente nem sabe direito o que está acontecendo. Os dois lados, donos e atletas, usam a mídia para passar a sua mensagem deturpada, para manipular a opinião pública, e nós ficamos aqui desinformados apenas cruzando os dedos para que não tirem nosso vício. Uma prova do tratamento horrível aos fãs foi a chamada Twittrevista realizada pela NBA no fim de semana. Eles toparam receber perguntas na conta oficial deles, a @NBA, onde David Stern e Adam Silver estariam para responder. Não só ignoraram todas as perguntas relevantes como só deram respostas copiadas de algum release de imprensa bem xoxo. Foi uma afronta à inteligência a ao bom senso de qualquer torcedor que revoltou a todos os presentes. Um desastre de relações públicas, no mínimo.

É uma situação patética. Dois lados discutindo quem fica com os 4 bilhões que os fãs pagam e estes não tem representante e nem informação, que seria o mínimo. Ficamos apenas assistindo de longe, analisando informações conflitantes para tentar deduzir o que pode estar acontecendo. Torcendo (somos torcedores, afinal) para que os dois lados deixem de babaquice e fechem um negócio. Mas no fim os babacas somos nós. A gente que fica de fora batendo palma, vaiando, criticando e assim que tudo se acertar entre quatro paredes e o Blake Griffin começar a enterrar, a gente vai aplaudir e esquecer tudo. O que a gente mais quer é esquecer tudo, não é?


Trabalhadores da NBA

Aqui no Brasil temos um pequeno grupo de blogueiros que trabalham de graça, mas nos EUA a NBA movimenta um mercado paralelo de trabalhadores: gente que fatura dinheiro nos ginásios, funcionários das franquias (muitos já foram mandados embora há meses, inclusive) e uma caralhada de blogueiros profissionais, revistas e sites especializados em cobrir só a NBA. E como dá pra ver por aqui, é difícil falar de basquete se não tem basquete rolando.

E não é que eles vão à falência sem a NBA, mas muitos canais de televisão e jornais contavam com a NBA (especialmente na época dos playoffs) para vender anúncios e ganhar um bom dinheiro. É muita gente se ferrando por fora nessa história e que a liga terá que reconquistar quando tudo voltar ao normal (se voltar ao normal).

...
E sabe o que é mais triste disso tudo? O negócio estava realmente próximo de ser fechado. Depois de meses de negociações e provocações, os donos e jogadores concordaram em dividir o BRI em 50%. Claro que ninguém estava radiante com a decisão, mas o momento em que os dois lados não estão satisfeitos mas também não estão reclamando é quando você percebe que chegou no meio termo. Era a hora de fechar o acordo.

Com o BRI resolvido, ficou tudo entre as questões menores de sistema. Os donos queriam diminuir em muito o valor do mid-level exception, ou simplesmente não permitir que times acima do luxury-tax os usassem. Também havia conflitos em relação ao sign-and-trade envolvendo times acima do limite salarial. Os jogadores tentaram convencer os donos a mudar, para compensar as perdas dos atletas no BRI. Os donos não aceitaram e, ao invés de mandar mais uma contra-proposta, os jogadores resolveram apertar o botão do apocalipse.

Não foi uma atitude inteligente na minha opinião, mas também não foi aleatória. Foi sim inspirada por atitudes de David Stern e dos donos, que ao invés de simplesmente negociar, passaram a dar ultimatos ("essa é a última proposta, vocês tem até quarta-feira para aceitar") e ameaças ("se negarem, a próxima será mais baixa"). Não precisa de muito para perceber que isso mexeu com o ego dos jogadores, com seu orgulho, e que eles passaram a ver os donos não como o outro lado do negócio, mas como inimigos. Preferiram ver o apocalipse, o medo nos olhos dos inimigos, a tomar a atitude mais razoável.

E embora seja bem fácil odiar os donos nessa brincadeira, afinal são os mais ricos, os mais poderosos e os que querem criar regras para impedir os prejuízos causados pela própria incompetência, não dá pra deixar os jogadores fora dessa. Eles perderam a chance de usar a estratégia da decertificação (ou do rebaixamento) antes de novembro e, pior, a maioria dos jogadores nem estava tão envolvida assim.

Cada equipe vota em um representante, este participa das reuniões da NBAPA e, eventualmente, como foi o caso de ontem, tem poder de voto em nome dos jogadores do seu time. Porém, o que se diz na NBA é que ninguém quer ser o representante do time. Isso é muitas vezes resultado de punição, tiração de sarro, perda de aposta ou coisas do tipo. Ninguém quer estar ocupado nas horas vagas para ficar lidando com os advogados, por isso tantos jogadores sem expressão são escolhidos para esse cargo. Ser capitão para ir lá no centro da quadra conversar com o juiz antes do jogo é legal, votar em questões burocráticas não é legal.

A falta de jogadores expressivos na mesa de negociação facilitou muito o trabalho de Billy Hunter, que não teve que lidar com ninguém questionando suas atitudes (como fez, por exemplo, Shane Battier durante o começo do locaute, antes de sumir do mapa das negociações). Também, sem dúvida, foi mais fácil de manipular a decisão de ontem. Afinal a NBAPA poderia ter aberto a proposta dos donos para a votação dos 450 jogadores-membros do sindicato, mas preferiu ficar só com os 30 votos dos representantes. Não podemos esquecer que a decertificação acabaria com a NBAPA e, logo, com o emprego de Billy Hunter e seu salário de alguns milhões de dólares. O rebaixamento para uma trade association mantém Hunter no cargo, mesmo que agora ele tenha menos relevância.

A ausência de estrelas é prejudicial também porque, por mais injusto que isso pareça ou seja, o que LeBron James diz tem mais impacto para os fãs, imprensa e donos do que as declarações de Maurice Evans ou Etan Thomas, por mais ilustrados que sejam.  A única coisa que uniu os jogadores foram as ameaças dos donos, ou seja, se uniram na irracionalidade do ódio e o resultado foi o que vimos ontem. Como disse um agente que não quis se identificar, "só a raiva para juntar esses caras que normalmente se odeiam mais do que Israel e Palestina".

Depois do anúncio do rebaixamento da NBAPA e do possível processo, o pivô Andrew Bogut do Bucks chamou a atitude dos jogadores de "apenas um blefe". Já David Stern, visivelmente irritado em uma entrevista à ESPN em que não assumiu nenhuma culpa e jogou tudo nas costas de Billy Hunter, chamou a atitude de uma "tática de negociação". Seja o que for, ainda não é definitivo e, acreditem, até temporada ainda podemos ter. Um professor especialista em legislação esportiva, Gabe Feldman, disse ao Orlando Sentinel que ainda há uma chance da temporada acontecer:

"Acho que uma temporada bem menor que a prevista é inevitável, mas ela ainda pode acontecer. Se o processo começar rapidamente os donos e jogadores podem perceber logo o quanto tem de chances de vencer e a questão não precisaria ser julgada até o fim. Um acordo poderia ser feito antes. As preliminares podem começar a acontecer em semanas e tudo pode ser resolvido em tempo de termos uma parte da temporada regular".

Pois é. Esse foi a fala mais otimista escutada desde ontem à tarde. Quando isso é o mais positivo dá pra imaginar o inferno que um simples realista pode prever. Os nossos leitores advogados já podem começar a estudar o caso para nos ajudar com os próximos posts, a coisa tem tudo pra ficar mais feia e mais chata nas próximas semanas.

Um último dado para a gente ter vontade de pular do abismo: Apenas 9 jogadores assinaram contratos usando o valor total do mid-level exception nos últimos 6 anos. A média de sign-and-trades envolvendo times que pagam multas não deve ser de mais de um ou dois por temporada. E foram os dois grandes impasses que os donos se recusaram a liberar e os jogadores a engolir na etapa final de negociação. Vocês podem ficar do lado que quiserem, mas foram os dois juntos que jogaram essa temporada no lixo.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Draftados em 2001 - O fim da 1ª rodada

A série de Draftados em 2001 ficou parada por causa de uns textos sobre o locaute que parecia perto do fim. Mas essas negociações em velocidade de sexo tântrico não estão indo pra frente, então vamos voltar e terminar o especial sobre os jogadores que entraram na NBA há uma década.

Até agora já analisamos o Top 3 estrelado por Kwame Brown, Tyson Chandler e Pau Gasol, depois vimos o resto do Top 10 com o falecido Eddie Griffin e o espaçoso Eddy Curry. No último post vimos o miolo da primeira rodada, com estrelas do nível de Vladmir Radmanovic e nosso muso Zach Randolph.

Hoje vamos ver o final da primeira rodada. Mas não, não é da escolha 21 até a 30. Primeiro porque ainda não existia o Charlotte Bobcats, então a liga só tinha 29 times. Depois porque o Minnesota Timberwolves não teve direito a sua escolha de primeira rodada por ter quebrado regras do salary cap. Para quem não lembra, eles ofereceram um contrato pequeno de 3.5 milhões de dólares por 1 ano para o Joe Smith com a promessa de um contrato maior no futuro, já que depois de alguns anos no time (a história dos Bird Rights, lembram?) poderia haver a renovação estourando o teto salarial. Essas negociações adiantadas eram proibidas e o Wolves acabou pagando uma multa e perdendo 3 escolhas de primeira rodada como punição.

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21- Joseph Forte (Boston Celtics, SG)


Já começamos com um bom exemplar de força nominal. Dá pra imaginar o número de piadinhas sem graça e trocadilhos se existisse Twitter acompanhando o Draft de 2001? Seria de "O Boston sai FORTE do Draft" pra baixo. Pior que isso só a carreira do coitado.

Forte se destacou na Universidade de North Carolina. Lá jogava na posição 2, apesar de apenas 1,90m de altura, mas na NBA tentaram adaptar ele, por causa do tamanho, a ser um armador principal. Não deu nem um pouco certo. Ele simplesmente se recusou a tentar jogar na posição, bateu o pé e disse "não" ao técnico. Dá pra entender por que quase não jogou? Ele também chegou a brigar trocentas vezes nos treinos e as pessoas nem entendiam a razão, parecia aleatório. "Uma mulher sociopata esquizofrênica na menopausa" foi como o blog I Heart Celtics descreveu a condição psicológica do rapaz.

É difícil escolher sua história mais legal nos treinos do Celtics. Foi quando simplesmente foi embora no meio do treino ao enfrentar uma defesa por zona ou quando chegou no ginásio usando uma camiseta do Lakers?
Para os torcedores do Celtics ele é conhecido até hoje como "O cara que usou uma camiseta do Scooby-Doo durante um jogo dos playoffs". Fácil entender porque o Celtics o trocou ao fim dessa primeira temporada. No Seattle Supersonics foi dispensado depois de problemas legais envolvendo drogas e posse ilegal de arma. Nunca mais pisou numa quadra da NBA.

Tentou a vida na D-League em 2005, depois jogou basquete de rua e então partiu para a Europa. Lá viveu opostos ao ser campeão italiano em 2007 pelo Montepaschi Siena e ser dispensado do Snaidero Udine em 2009 por problemas de comportamento. Hoje joga na segunda divisão da Itália. Para quem entende italiano, tem um vídeo com toda a história dele contada por um comentarista da TV de lá.


22- Jeryl Sasser (Orlando Magic, SG)


Confesso que nos meus bons tempos de jogar NBA 2K2 no Dreamcast eu jogava bastante com o Jeryl Sasser. Não que eu quisesse ou fosse um fã, mas é que eventualmente o Tracy McGrady tinha que descansar ou passar a bola, acontece.

Na sombra de McGrady, Sasser teve pouco tempo de quadra no Orlando Magic. Jogou apenas 7 jogos em sua primeira temporada e só na segunda apareceu mais, com média de quase 14 minutos por jogo. O que chamou a atenção no seu jogo no basquete universitário era o alto número de rebotes para a sua posição e a capacidade de organizar o jogo. No Magic não foi usado para organizar nada, apenas para arremessar e atacar a cesta, o que ele não sabia. Oposto de Forte, era um armador em corpo de ala.

Logo após isso foi dispensado e partiu para a carreira internacional. E nisso ele ganha de todo mundo em termos de bizarrice! Vemos gente indo pra China, Itália, Espanha, Grécia e achamos estranho quando o cara vai para o Leste Europeu. Que tal o Sasser que depois de passar por Israel e França foi parar no Kuwait! Jogou lá de 2007 a 2009, sendo campeão nacional uma vez pelo Al Arabi.


23- Brandon Armstrong (New Jersey Nets, SG)



Completamos com Brandon Armstrong o possível pior trio da mesma posição já escolhido na história da NBA. Tivemos uma sequência péssima de pivôs no meio da primeira rodada, mas a sequência Forte, Sasser e Armstrong é patética. Os três novatos juntos marcaram 80 pontos em 50 jogos disputados na temporada 2001-02 da NBA. Aproveitamento? Vamos lá: Forte teve 8% (1-12), Armstrong 31% (27-85) e Sasser 21% (3-14). Armstrong pode até se gabar de dar goleada nos outros.

A fama do Draft 2001 é explicada por esses jogadores. Não é que não tiveram jogadores bons, os 7 All-Stars são um bom número, mas é que quando o pessoal era ruim, era de dar pena. E não é como se a concorrência fosse pesada. Apesar desse Nets ter ido para a final, foi tudo porque o Jason Kidd fazia HiPhone parecer iPad. A disputa de Armstrong por minutos era com o limitado Kerry Kittles e com Lucious Harris. Isso diz tudo.

Após 3 anos de Nets ele saiu da NBA. Tentou voltar em 2004 mas foi dispensado pelo Warriors antes da temporada começar. Saiu então do país e jogou um ano na Itália, no BT Roseto. Voltou, atuou na D-League e partiu então para atuar na poderosíssima (só que ao contrário) liga polonesa.


24- Raül López (Utah Jazz, PG)


Sabiam que a grafia do nome do "Spanish Fly" é com trema no u? Eu não sabia. Coisas da estranha língua catalã, imagino. Mas não só o nome de Raül López era pouco entendido no começo de sua carreira. Por algum motivo chamavam ele de "John Stockton Espanhol" no começo de sua carreira, o que ia muito de encontro com as suas características de jogo muito veloz, agressivo e muitas vezes pontuador que ele exercia. Será que o pessoal do Jazz foi mais pelo apelido do que pelo olho na hora de escolher o rapaz?

De qualquer forma, acho que a falta de sorte foi essencial para a falta de sucesso do espanhol na liga americana. Dizem ele deveria ter esperado mais para ir para os Estados Unidos, era bem jovem quando foi para lá e talvez pudesse ter se saído melhor se tivesse esperado. Mas isso é pura especulação que sempre se escuta quando o cara dá errado, quando vai tarde e não dá certo deveria ter ido antes para ter mais tempo de adaptação. Comentário de resultado.

Eu acho que o real motivo de não ter dado certo foi uma boa dose de azar. Ele não foi para a NBA logo depois de ter sido draftado, foi um ano depois, quando machucou o joelho e perdeu uma temporada inteira. Foi jogar mesmo na temporada 2003-04, uma época em que o Jazz estava desesperado atrás de um armador para cobrir em parte o espaço deixado por John Stockton. Com Lopéz de novato a vaga ficou com Carlos Arroyo, que estava na melhor fase da carreira na NBA. Sem contar que naquele ano até o Raja Bell estava jogando muito bem como armador do time. Sei que soa uma aberração, mas juro que ele era usado nessa posição e se saia consideravelmente bem.

No segundo ano de López ele se machucou e perdeu mais da metade da temporada. E foi bem no ano em que o Arroyo jogou poucos jogos e o espanhol, em teoria, teria mais espaço para mostrar o seu jogo. Tanto que o fraco Howard Eisley e Raja Bell, de novo, compartilharam as funções de armar o time.

Ele se recuperou ao fim da temporada, mas aí veio o Draft de 2005 e o Utah Jazz conseguiu achar no Draft um tal de Deron Williams. Sem a necessidade de um armador, trocou López na maior troca da história da NBA até então, uma envolvendo 13 jogadores e 5 times. Foi aquela troca que levou Jason Williams, James Posey e Antoine Walker para o Heat, montando o time do título de 2006. López acabou caindo no Grizzlies, time que já tinha vários armadores (Chucky Atkins, Bobby Jackson e até Mike Miller jogava bastante na posição) e o recém-chegado acabou sendo dispensado. Voltou para a Espanha para jogar pelo Girona e depois Real Madrid, hoje está no Khimki Moscow da Rússia.


25- Gerald Wallace (Sacramento Kings, SF)

Meu deus! O que é isso?! Um jogador bom no meio desse Draft? Bizarro! Como eu disse antes, quando é pra ser o bom os caras de 2001 detonam, quando são ruins... Gerald Wallace é do primeiro time, um jogador que todo o técnico pediu a deus.

Gerald Wallace começou na NBA em um dos melhores times da liga, o Sacramento Kings, que na época era a única real ameaça ao Los Angeles Lakers. O mega time formado por Mike Bibby, Peja Stojakovic, Hedo Turkoglu, Chris Webber e Vlad Divac era tão bom, mas tão bom que o pobre novato mal conseguia entrar em quadra. Nos seus três anos de Kings nunca teve média maior do que 12 minutos por jogo, e mesmo assim nunca foram minutos importantes. Nos playoffs a média nunca passou de 7 minutos em quadra por partida!

Todos reconheciam o seu talento, e valorizavam ainda mais a vontade absurda com que ele entrava no jogo. Se jogava em todas as bolas, marcava como se a vida de sua mãe dependesse disso e não tinha limites para o seu esforço físico. Seu estilo de jogo ultra agressivo causou, além de muitas contusões em tentativas bizarras de rebotes, tocos e roubos, o apelido de "Crash". Mas não rendeu tempo de jogo.

A reviravolta na carreira de Wallace aconteceu na temporada 2004-05, quando o Charlotte Bobcats passou a integrar a NBA. Para alimentar o novo time com jogadores, a nova franquia ganhou a 4ª escolha do Draft (que eles trocaram com o Clippers para virar a 2ª, Emeka Okafor) e o chamado "Expansion Draft". Nele todos os outros 29 times protegiam 8 jogadores de seu time e o resto estava livre para o Bobcats roubar para si. O Kings, com um elenco cheio de jogadores importantes, decidiu deixar o promissor ala de fora e ele foi sabiamente escolhido pelo Bobcats ao lado de jogadores menos expressivos como Sasha Pavlovic, Zaza Pachulia, Lonny Baxter, Jason Kapono, Loren Woods e Jeff Trepagnier. Desses, aliás, muitos foram já trocados ou dispensados antes da temporada começar. Wallace foi um dos poucos que sobreviveu até o começo daquela terrível primeira temporada dos Cats na NBA.

Por pura falta de opção, Gerald Wallace foi titular e líder daquele time desde o princípio. Sofreu muito com o fato de estar num time tão ruim, mas aproveitou a oportunidade para se desenvolver absurdamente como jogador. Melhorou sua condição física, a defesa, os rebotes e passou até a ser mais efetivo no ataque, antigamente sua parte mais fraca. Em 2006 se tornou o 3º jogador na história da NBA (Hakeem Olajuwon e David Robinson foram os outros) a ter média de mais de 2 roubos e 2 tocos na mesma temporada.

Apesar das milhares de contusões em todas as partes do corpo que vocês podem imaginar, Wallace jogou sempre que pode e sempre foi bem pelo Bobcats. Foi a cara da franquia até o ano passado, quando, depois de discretamente se mostrar insatisfeito com a fase ruim do time depois da demissão de Larry Brown. Então ganhou como prêmio uma troca para o Blazers. Finalmente está em um time decente.

Abaixo um vídeo com enterradas e tocos do Gerald Wallace. Digam se não são os tocos mais legais de toda a liga!





26- Samuel Dalembert (Phiadelphia 76ers, C)


Depois de comentar tanta gente ruim nesse Draft até fico meio mal de criticar o Sam Dalembert, que foi uma super estrela em comparação a outros pivôs que passaram por aqui. Mas a verdade é que o pivô de cidadania canadense e nascido no Haiti teve uma carreira broxante.

Ele chegou na NBA recebendo críticas como essa do NBADraft.net: "É um ótimo bloqueador. Pode, com seus tocos, alterar todo o ataque adversário. O potencial é imenso, mas o jogo ofensivo precisa de melhora". E então, 10 anos depois o que podemos dizer sobre Dalembert? Bom, ele realmente sabe dar tocos, mas o jogo ofensivo precisa começar do zero para pensar em ser relevante. Ele também não é tão bom defensor no 1-contra-1 e tem uma das piores marcas em assistências que um jogador com sua média de minutos já teve. Mas já disse que ele sabe dar tocos?

Na temporada 2008-09, Dalembert acabou a temporada inteira com 18 assistências! Sim, 18 passes que viraram cestas em 82 jogos disputados. Por mais que não seja a função dele, é só passar para um cara que acerte um arremesso que na NBA isso já é assistência. Não é tão difícil, ele mesmo já fez mais que o triplo disso em outros anos. Quer fazer um jogo legal? Entre no Basketball-Reference e tente descobrir se na história algum outro jogador já conseguiu o feito de ter dado menos de 20 assistências em uma temporada inteira tendo mais de 24 minutos por jogo de média e tendo jogado pelo menos 50 partidas na temporada. O resultado indica somente Dalembert e... Eddy Curry. Caso encerrado. Draft de 2001 vence de novo! Curiosidade: Dalembert deu suas 18 assistências em 82 jogos, Curry deu 19 em 72.

De legal mesmo só a relação que o pivô construiu com o seu país natal, o Haiti, depois do terremoto que destruiu o país em 2010. Viajou várias vezes para lá, bancou muita coisa para eles e da última vez que li sobre o assunto, estava planejando um enorme complexo esportivo para a capital Porto Príncipe. Um ótimo jeito de gastar a enorme quantia que, inexplicavelmente, o Sixers pagou para ele em todos esses anos antes de finalmente mandá-lo embora em uma troca com o Sacramento Kings.


27- Jamaal Tinsley (Indiana Pacers, PG)


Já fui muito fã do Jamaal Tinsley. Nos meus tempos de escola via ele jogando e podia sonhar em um dia ser um jogador profissional. Afinal Tinsley não é alto, não é atlético, não é rápido ou forte e até é meio gordinho. Mas bastava ver o cara jogar, perceber sua visão de jogo e habilidade com a bola para ver que o cara tem que ser muito bom para chegar na NBA mesmo sem todos esses atributos físicos.

A vida de Tinsley é roteiro desses filmes que nos dão lição de moral mostrando a vida nos guetos norte-americanos. Ele teve problemas familiares, uma renca de amigos envolvidos com o crime e ficou sempre entre o basquete (de rua, ficou famoso no lendário Rucker Park em Nova York) e uma vida fora da lei, com confusões de diversos tipos. Já foi detido por furto e posse de drogas antes de entrar na NBA.

O basquete acabou triunfando e ele conseguiu se formar no colegial e ir para uma faculdade, Mt.San Jacinto Community College, universidade nada tradicional em basquete, mas que o deixou famoso o bastante para chamar a atenção de Iowa State, onde jogou os dois últimos anos de basquete universitário. De lá foi escolhido pelo Indiana Pacers do então técnico Isiah Thomas. O aposentado armador resolveu apostar no novato e surpreendentemente lhe deu a condição de titular desde o início da temporada, o pimpolho respondeu jogando como veterano e liderando o time com 8.1 assistências por jogo.

Sua carreira, que parecia promissora, começou a desmanchar quando Rick Carlisle assumiu o Pacers duas temporadas depois. Ele rebaixou Tinsley a terceiro armador, atrás de Kenny Anderson e Anthony Johnson. Por conta de contusões, Tinsley até conseguiu voltar a ser titular e jogar bastante nos playoffs, quando o Pacers foi até a final de conferência e perdeu para o Detroit Pistons. Mas claramente Tinsley não era o armador dos sonhos de Carlisle. O técnico é um cara dominador, gosta de ter controle do que os jogadores fazem no jogo, sempre chama jogadas na beira da quadra. Já Tinsley, mais ao gosto de Isiah Thomas, é cheio de improvisos, de jogadas de basquete de rua (adorava passar a bola por entre as pernas de pivôs enormes) e jogava arriscando, tentando passes difíceis.

Como se não bastasse as questões dentro de quadra, o Pacers passava também por uma limpeza de imagem. Depois que Ron Artest subiu nas arquibancadas do Palace of Auburn Hills para distribuir porrada nos torcedores do Pistons, o Pacers, pouco a pouco, quis se livrar da imagem de time de bad boys. Foi assim que se livraram de Artest e Stephen Jackson, por exemplo. Com Tinsley, porém, estava mais difícil, nenhum outro time o queria. Ele continuou jogando e teve bons momentos, mas ao fim da temporada 2007-08 o Pacers resolveu romper com o jogador mesmo com ele ainda estando sob contrato. Lhe proibiram de ir até o clube treinar, disseram que ele estava fora dos planos e que iriam tentar trocá-lo o quanto antes. Não conseguiram.

O armador perdeu um ano da carreira nesse limbo. Tentou voltar em 2009-10 no Memphis Grizzlies que na época recrutava jogadores excluídos de outros times. Deu certo com Zach Randolph, mas não com Allen Iverson ou Jamaal Tinsley. Ele durou 35 jogos por lá e deu o fora.

Quando todos pensavam que ele não pertencia mais à NBA, uma surpresa. Na semana passada aconteceu o Draft anual da D-League, e o Tinsley foi a primeira escolha geral! Irá jogar pelo Los Angeles D-Fenders e, quem sabe, poderá voltar para a NBA em breve. Não se envolvendo mais com apreensões de maconha e tiroteios em casas noturnas (quase morreu em um!) como no passado, pode dar certo.




28- Tony Parker (San Antonio Spurs, PG)


William Anthony Parker tem nome inglês, é francês, tem pai americano, mãe holandesa e nasceu na Bélgica. Também foi a última escolha da primeira rodada do Draft de 2001 e um dos mais impressionantes achados do San Antonio Spurs no exterior.

A história de como o Spurs decidiu escolher o Parker é curiosa. Eles já conheciam o armador francês de olheiros e depois que o jogador foi espetacular em um jogo contra o time americano no Nike Hoop Summit dois anos antes. O chamaram então para treinos em San Antonio e foi um desastre: o colocaram para jogar 1-contra-1 contra Lance Blanks, olheiro do Spurs e ex-jogador da NBA. A defesa física e agressiva acabou com Parker. Segundo o técnico Gregg Popovich, a vontade era a de dispensar Tony Parker depois de 10 minutos. Mas depois, assistindo a um vídeo de melhores momentos de Parker, o técnico do Spurs resolvou dar uma segunda chance ao rapaz. Ele tinha que ser melhor que aquilo! E foi. Impressionou todo mundo e quando sobrou na 28ª posição (o que não foi difícil, já que os outros times mal o conheciam) o Spurs o levou.

Até poderia rolar um "foram felizes para sempre" se pensarmos que Parker foi titular nos títulos de 2003, 2005 e 2007, mas o caminho até lá foi penoso. A relação de Popovich com Duncan é de admiração e confiança, com Ginóbili é um misto de um ataque do coração prestes a acontecer com um "deixa o cara ser doido que sempre funciona". Já com Parker a relação é a de um pai exigente e um filho que não para de tentar agradar o velho.

Desde seu primeiro ano quando só tomava bronca até em 2007, quando o armador tinha um número máximo de bolas de 3 para chutar em um jogo, Popovich tenta controlar Tony Parker. No início era a velocidade que ele impunha ao time, depois a necessidade de distribuir mais a bola ao invés de bater para dentro, depois controlar os arremessos de longe. Não é à toa que Parker flertou com a ideia de jogar no New York Knicks, um pouco de liberdade é sempre tentador. Quem assistia às primeiras temporadas de Parker se impressionava com a facilidade com que ele cortava todo mundo, logo depois se irritava com o fato dele, mesmo sob a cesta, tocar para alguém na zona morta arremessar. Ordens de cima.

Popovich já reconheceu que já pegou mais pesado com Parker do que com os demais, principalmente no começo da carreira, mas segundo ele era para o jogador amadurecer rápido e se tornar mais forte mentalmente. Não sei se foi só isso, mas deu certo. Tony Parker hoje é um armador mais maduro, sabe quando passar e quando infiltrar e é o único representante desse Draft a ter um troféu de MVP: Foi eleito o melhor jogador das finais de 2007 contra o Cleveland Cavaliers.

Nota muito importante: Em uma era de Maria Sharapova e Kardashians, Parker tem que ser lembrado como o primeiro da sua geração a relembrar os bons tempos de Dennis Rodman e Carmen Electra ao se casar com a atriz Eva Longoria. Obrigado por enfeitar as transmissões do Spurs com sua ex-mulher por tantos anos!


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Na próxima e última parte teremos as boas escolhas da segunda rodada e uma lista de como seria o Draft 2001 se todos os times tivessem conseguido prever o futuro.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Salário por mérito

Alerta: para o David Stern, esse post tem cunho comunista

Em plena bagunça das negociações entre jogadores e donos de equipes para tentar acabar com o locaute, que periga cada vez mais levar a temporada inteira para o ralo, resolvi escrever um post cuja intenção não é comentar os atuais termos da negociação. Ao invés disso, comentarei os termos que a negociação poderia ter. Os jogadores estão cada vez mais acuados, com a sensação de que precisam aceitar um sistema que os desfavorece (milhões ou não, o que eles estão perdendo são "direitos trabalhistas"), simplesmente porque não encontraram um outro sistema que funcione igualmente para jogadores e donos e teriam que entrar na justiça para continuar a negociação. Nessas horas torna-se essencial encontrar modelos totalmente funcionais, ainda que utópicos, para que possa se criar um horizonte, opções de saída, ou apenas para que nenhuma das partes abaixe a cabeça com a ideia de que "não tinha outro jeito". Existem outros modos e mesmo que ninguém tenha coragem de colocá-los em prática, a existência deles já cria novos parâmetros, novas possibilidades mesmo para as negociações mais comedidas.

Meu modelo funcional favorito foi criado por Elrod Enchilada e pode ser lido na íntegra, em inglês, aqui. Trata-se de um modelo que paga os jogadores por mérito e garante que não possa haver prejuízo para os donos. A base desse sistema de salários foi proposto para a NFL por Ed Garvey, então jogador da liga, há mais de 30 anos atrás. Na época ele queria que os salários dos jogadores fossem todos iguais, bastava pegar toda a grana que entrava e dividir igualmente para os jogadores. Foi chamado de "comunista" e a ideia virou farofa.

O que Elrod Enchilada propõe é um pouco diferente. Ao invés de dividir a grana igualmente, criam-se critérios para mandar mais dinheiro para quem "merece" mais. O único problema é que essa ideia de "merecer mais" é subjetiva e controversa, como saber se um jogador ofensivo é mais importante e mais merecedor do que aquele outro jogador que está lá pra dar trombada e bater cabeça? A solução é mais simples do que parece: basta pagar salários equivalentes aos minutos jogados.

O sistema funciona assim: divide-se todo o dinheiro que entra para a NBA entre donos e jogadores. A porcentagem de divisão é a parte mais polêmica da atual negociação, mas mesmo se ficasse como era antes (57% para os jogadores, 43% para os donos) todo mundo ia ficar feliz, sério. Os donos usariam esse dinheiro para pagar seus custos, de preferência através de um diretório central independente dos times que receberia a grana e repassaria depois. Esse diretório cuidaria dos ginásios, transportes, funcionários fora da quadra, mas nunca jogadores, nem um centavo sequer. Com isso os times garantiriam não apenas que nunca perderiam dinheiro, mas também um lucro considerável e igual a todas as equipes. Time nenhum jamais teria que pagar seus jogadores ou se preocupar com salários ou teto salarial.

A porcentagem da grana que fosse para os jogadores seria dividida entre eles. Levando em conta que são 30 times com 15 jogadores em cada um, e tomando como base a grana que entrou na NBA na temporada passada, cada jogador poderia receber 4,5 milhões e pronto. Se fossem apenas 12 jogadores por equipe, como era antes, seriam quase 6 milhões por jogador. Parece ótimo, mas como eu não quero ficar respondendo críticas de que a ideia é comunista, vinda de gente que não faz sequer ideia do que a palavra significa, e os próprios jogadores não querem abrir mão dos salários gigantescos que podem ganhar, essa divisão segue alguns critérios de mérito.

Então, 70% do dinheiro que entra para os jogadores é distribuído com base nos minutos jogados. Levando em conta a quantia de dinheiro que entrou na NBA em 2010, os 90 jogadores com mais minutos levam 6.5 milhões, os 90 jogadores seguintes levam 5 milhões, e assim vai indo até os 90 jogadores que mal entram em quadra levarem meio milhão cada um. Então pense num time qualquer: não importa quantas estrelas um time tenha, elas receberão o equivalente a quanto ficarem em quadra. E não faz sentido para um técnico colocar uma estrela no banco sem jogar para "economizar", primeiro porque não são os times que pagam o salário, segundo que se o dinheiro não vai pra estrela vai acabar indo para o outro jogador que entrar em quadra em seu lugar, e terceiro que os times ganham mais grana de acordo com seu desempenho, então todas as equipes tem incentivo para colocar seus melhores em ação. Aliás, mesmo o jogador que entra pouco em quadra e ganha pouco tem incentivo para dar o seu melhor, porque além da chance de que passe mais tempo em quadra e ganhe mais com isso, também o simples fato de ajudar seu time a vencer garante chance de bônus no final da temporada de acordo com a classificação das equipes. Mas explicaremos isso depois.

Outros 20% da grana que entra para os jogadores seriam distribuídas para os "melhores". Uma comissão de especialistas votaria no MVP da temporada e os 5 primeiros colocados levariam 5 milhões extras, os 5 seguintes levariam 4.5 milhões extras, e assim por diante, até um total de 25 contemplados. Além disso, essa comissão escolheria o All-NBA Team, os 5 melhores jogadores (cada um de uma posição), mas seriam escolhidas 10 dessas equipes para cada Conferência. Ou seja, são mais 100 jogadores contemplados, com prêmios que começam em 4.8 milhões e vão até 1.2 milhões para os últimos mencionados.

Por último, 10% da grana total destinada aos jogadores premia as equipes melhores classificadas na temporada. Todos os membros dos 4 melhores times ganham 2 milhões adicionais cada, os 4 times seguintes levam 1 milhão pra cada jogador, e os 4 restantes levam meio milhão. As 16 melhores equipes premiam todos os seus jogadores então - e tudo, lembrem-se, sem que os donos tenham que tirar nada dos seus bolsos.

E se um jogador não puder entrar em quadra porque está machucado, como fica? Para isso, 3.5% da grana total para os jogadores vai para um fundo destinado a eles. Se o cara se machuca e perde mais do que 50 jogos, pode receber o mesmo salário que recebeu na temporada anterior. Se ele perde 35 jogos, pode receber 90% do salário da temporada anterior. Se ninguém se machucar o dinheiro fica lá, acumulando para caso um jogador que jogou muitos minutos numa temporada se machuque na outra.

Como fica esse sistema em quadra, que para nós fãs é o que importa? Não existe contrato entre os jogadores e os times, então o jogador vai jogar onde quiser. O que interessa pra ele é que consiga estar num time vencedor, para ganhar os bônus, e que possa lhe dar muitos minutos de jogo. O que impede as superestrelas de jogarem todas juntas é que não há minutos para todas na mesma equipe, então quem está preocupado com salário vai querer jogar em outro lugar. Todos os jogadores vão ter incentivo para dar o máximo em quadra, porque não dá pra assinar um contrato enorme e parar de jogar, ficar gordo ou levar arma pro vestiário. Jogadores que passam a jogar muito de uma hora para a outra serão recompensados como merecem, e novatos que chegam destruindo e viram titulares ganharão o dinheiro devido ao invés daqueles salários mínimos que os novatos recebem hoje em dia.

Não precisa existir teto salarial, os donos não precisam pagar salários, a liga fica competitiva. Segundo os donos, contratos imbecis dados para sujeitos como Eddy Curry, Jerome James e Rashard Lewis é que levam as finanças da NBA para o buraco, e com esse novo sistema esses contratos nunca existiriam. Por outro lado os jogadores não estariam abandonados, os salários seriam iguais ou maiores do que são hoje em dia, e haveria até mesmo cobertura em caso de contusões.

Para ter uma ideia mais adequada de como seria na prática, coloco aqui os salários que seriam pagos segundo o Elrod Enchilada dentro desse sistema. As superestrelas, no topo da liga e em times vencedores, ganhariam entre 16 e 18 milhões de dólares por ano (LeBron, Kobe, Dwight Howard, Kevin Durant, etc). Outras estrelas menores, entre os 25 melhores da NBA, ganhariam entre 13 e 15 milhões. Os outros jogadores titulares bons, mas não espetaculares, entre os 100 melhores da NBA, ganhariam entre 8 e 10 milhões. Os titulares menos importantes e os reservas mais importantes ganhariam entre 5 e 7 milhões. Os jogadores do fim de banco, mas que entram em quadra, ganhariam cerca de 2.5 milhões. Lembrando sempre que esses valores podem ser ainda maiores de acordo com a classificação de cada time na temporada.

Do ponto de vista financeiro, a proposta é praticamente impecável. Restam apenas algumas questões, como quantos anos cada jogador ficaria em suas equipes. Enchilada sugere que ao aceitar ir para uma equipe, o jogador deve ficar lá por 5 anos - a menos que seja trocado antes disso. As trocas, aliás, seriam totalmente livres porque não haveria teto salarial nem contratos de pagamento fixo, basta trocar um jogador por outro e fim de papo. Se um jogador acabar caindo numa equipe que lhe dê menos minutos, resta esperar o fim do vínculo de 5 anos com a equipe anterior e aí escolher sua próxima equipe.

Os problemas com essa proposta são basicamente ideológicos, porque ela joga pela privada a ideia de oferta e de procura e, principalmente, a dependência entre jogadores e donos. O Enchilada sequer toca nesse ponto, mas tomo a liberdade de enfrentá-lo: nesse sistema, os jogadores poderiam até mandar os donos ir plantar coquinho se quisessem. Digamos que a divisão fosse 57% para os jogadores e 43% para os donos. Oras, bastaria que os jogadores pegassem esses 43% e dessem para uma diretoria deles, contratada por eles, para cuidar de coisas como transporte, ginásio, centros de treinamento, funcionários, etc. O dinheiro para essa parte prática seria admnistrado por funcionários contratados, colocando finalmente o poder nas mãos de quem mais interessa na NBA: os jogadores. Estamos bastante acostumados com a ideia de "donos" na NBA e no esporte em geral, mas outros modelos como o proposto por Echilada acabam mostrando, meio sem querer, que outros modos são possíveis. Os jogadores continuariam com seus salários bem parecidos com como são hoje, mas com critérios definidos que evitariam a necessidade de um dono para "oferecer" a grana e assinar contrato, e esses jogadores seriam donos eles próprios daquilo que produzem: as partidas de basquete.

Mas aí é comunista, né?, muitos dirão, com sangue nos olhos e baba a escorrer pelos cantos da boca. Então tudo bem, mantém dono, mantém as mesmas equipes e marcas, mantém os jogadores sob contrato, mas pensemos ao menos que existem outros meios, outros modelos. Que tal manter apenas o fundo para jogadores contundidos? Manter uma equipe admnistrativa para arcar com a repassem de dinheiro e os custos da liga que não dependa dos donos, diminuindo o prejuízo deles? Um comissário, como o David Stern, mas contratado pelos jogadores e portanto passível de ser demitido se sair loucamente dando multas pra todo mundo? São apenas ideias rápidas e simples que surgem de um sistema mais complexo, possível, plausível e viável. Mas ideologicamente proibido.

Se alguém ainda tiver alguma dúvida a respeito do sistema de Elrod Enchilada ou não puder ler o original em inglês, pode ficar livre para fazer suas perguntas na caixa de comentários abaixo. Prometo responder todas, seja na própria caixa de comentários, seja num post à parte se as questões forem muitas.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Locaute versão Taiwan

Eu poderia comentar mais sobre o locaute. Poderia dizer que os jogadores se reuniram hoje e decidiram recusar a proposta de divisão do BRI em 50% enquanto os donos não mudarem algumas questões do sistema de funcionamento da liga. Poderia, como geralmente faço, escrever parágrafos e mais parágrafos dizendo como somente os jogadores estão fazendo concessões nessa negociação. Mas por que fazer tudo isso se um vídeo de Taiwan é muito melhor em explicar o que está acontecendo na NBA?



Falando um pouco mais sério: David Stern afirma que os jogadores tem até amanhã à tarde para aceitar a proposta feita por eles no último sábado. A proposta divide a receita da liga em 50% para cada lado. Os jogadores falaram que consideram aceitar os 50% caso algumas coisas mudem (valor do mid-level exception, maior liberdade para trocar de times). Mas os donos parecem irredutíveis. Stern ameaça diminuir a oferta para 47% caso os jogadores não aceitem. Tá tudo indo pro brejo, galera.

sábado, 5 de novembro de 2011

Lados mais divididos

Jordan parceiraço dos jogadores

Na semana passada vivemos um momento de otimismo enorme quando até David Stern e Billy Hunter pareciam felizes e próximos de um acordo. Aí veio o baque: fim de reunião e todo mundo de cara fechada, dizendo que todos os avanços foram por água abaixo. Segundo Derek Fisher, presidente da NBAPA, a Associação dos Jogadores, "os donos viram que fizemos algumas concessões e seus olhos brilharam querendo mais e mais".

Como eu já disse milhares de vezes, talvez a gente nunca descubra o que de verdade acontece nessas salas de reunião, afinal o que cada lado diz depois é sempre contraditório e tanto os donos como os jogadores querem manipular as informações de alguma forma que a imprensa e o público fiquem do seu lado. Como resposta a essa afirmação, por exemplo, David Stern disse que os donos ainda queriam negociar, mas que não puderam porque Billy Hunter se levantou e foi embora. 

Para se ter uma ideia de como as informações são desencontradas, em um espaço de poucos dias ouvimos gente dizer que 95% do acordo está certo, que só falta a definição final de valores do BRI: donos querem divisão de 50/50, jogadores de 52/48. Mas que o sistema está todo acertado. Ao mesmo tempo saiu outra notícia de "uma fonte interna" dizendo que esses relatos que a definição está dependendo só desses 5% é bobagem, que tem muito mais coisa a ser discutida e decidida. E aí? Fonte anônima por fonte anônima vocês acreditam em quem? A decisão mais racional é ler tudo e não acreditar em nada ou não ler nada e esperar fatos concretos.

Se eu fosse um simples torcedor, estaria ignorando solenemente essa palhaçada toda, mas bitolado que sou e com um blog sobre o assunto, fico lendo e relendo coisas que poucos dias depois serão confirmadas e negadas dezenas de vezes. Aqui tento passar para vocês as coisas que eu acho que parecem mais realistas, e tento deixar claro como muito disso pode ser ficção.

Depois do colapso das negociações na semana passada, o principal assunto da greve/locaute passou a ser divisão. Não mais a divisão dos recursos gerados pela liga, o tal BRI, mas sim as duas facções briguentas é que estariam criando rixas dentro delas. Por um lado um grupo de jogadores estaria disposto a acabar com a NBAPA e ficar seu uma união os representando, de outro uma parte dos donos estariam apressados querendo começar logo a temporada com a divisão de 50%, enquanto outros estão bravos com o David Stern pedindo que ele corte ainda mais a fatia dada para os atletas. 

Comecemos pelos jogadores. Nessa semana aconteceu uma teleconferência envolvendo pelo menos 50 jogadores, muitos dos principais agentes da liga e um advogado com especialidade em casos de processos antitruste, todos discutindo a possibilidade de acabar com a NBAPA. O movimento teve participação de caras com influência e nome como Paul Pierce, Dwyane Wade (os cabeças do grupo), Blake Griffin, Ray Allen, Jason Kidd, DeAndre Jordan, Al Horford, Dwight Howard, Tyson Chandler e outros. A ideia é a seguinte: enquanto existir uma união de jogadores da NBA, a liga não pode ser indiciada por atividade de truste, que é quando uma única organização domina toda a oferta de produtos ou serviços de uma área, ou quando uma única organização tem poder demasiado de pressão sobre essa área. A NBA, é claro, domina o mercado e a área de atuação dos jogadores de basquete nos EUA, mas como existe uma Associação dos Jogadores da NBA, a NBAPA, ela está protegida contra isso. A chamada "decertificação" da Associação permitirua que a NBA fosse indiciada por truste e aí as negociações pulariam das mesas de David Stern e Billy Hunter para a Justiça. 

Segundo a análise de David Scupp, um especialista em processos antitruste, os jogadores até teriam muitas chances de ganhar esse processo contra a NBA se um dia ele chegar na Justiça. Teriam que ser abordados muitos temas, e a coisa seria complicada, mas no fim a vitória dos jogadores poderia ser significativa, diz ele. Mas isso não quer dizer que é a melhor opção. Segundo o mesmo Scupp, um processo desse tamanho demoraria anos e anos para ser resolvido, o que significaria que a NBA perderia mais de uma temporada, muito de sua força, fama e os jogadores ficariam sem anos de salários. Fazer isso seria aceitar, ao que parece, ganhar bem menos em times ao redor do mundo ao invés de dar o prazer da vitória nas negociações para os donos. Não à toa o blog Eye-on-Basketball, que entrevistou Scupp, chama a decertificação da Associação de "A Opção Nuclear". 

Isso ainda não está próximo de acontecer. A teleconferência foi para se discutir a possibilidade e não se sabe as conclusões que eles chegaram durante a conversa, sem contar que para que a Associação seja dissolvida eles precisam de mais jogadores aderindo ao movimento. Muitos acreditam também que tudo isso não passa de um blefe, um jeito de dizer para os donos "aceitem os 52% que oferecemos ou a coisa vai ficar preta". Até porque, convenhamos, mesmo que o acordo fique com essa quantia para os jogadores, os donos já venceram essas negociações e recuperaram boa parte da porcentagem que queriam.

Pior que acredito que muitos donos pensam como eu, as informações vagas que eu comentei tem vários indícios de que tem donos de saco cheio desse locaute e querendo que a temporada comece logo. É a divisão do outro lado da mesa. Como cada um pensa no seu umbigo, não é difícil adivinhar quem são eles: Jerry Buss (Lakers), James Dolan (Knicks), Micky Arison (Heat) e Mark Cuban (Mavs) são os que tem a voz mais ativa nessa campanha. O Lakers quer aproveitar, economicamente e dentro de quadra, os poucos anos que restam na carreira de Kobe Bryant. O Mavs quer aproveitar o embalo do título, a temporada lotando ginásios como o "atual campeão" e, claro, os últimos momentos dos já experientes Dirk Nowtizki e Jason Kidd. O Heat não montou o time dos sonhos para ficar assistindo reunião de engravatados e o Knicks tem jogadores relevantes pela primeira vez em uma década, não tem problemas de prejuízo nem nos tempos de vacas magras e, claro, quer aproveitar o momento.

Mas existe um grupo de cerca de 12 times, a maioria de centros econômicos menores, que estão forçando a barra nas negociações. Dizem até que eles só aceitam finalizar o acordo quando eles própiros tiverem mais de 50% do BRI, nem uma divisão igual, o mínimo do mínimo que os jogadores cogitam (talvez, em último caso) aceitar, os agrada. O líder desse movimento dos pequenos é ninguém menos do que Michael Jordan, o dono do Charlotte Bobcats. Para alguns esse é o grito de desespero dos times de mercado pequeno querendo sobreviver, para outros é o jeito dos donos responderem à ameaça de decertificação dizendo "aceitem o acordo de 50% antes que esse pessoal faça vocês perderem ainda mais". 

Mas por mais que seja uma estratégia, como tudo parece nessas horas, não tem como não se surpreender com a imagem de Michael Jordan sendo associada à liderança desse movimento. É o jogador mais conhecido de todos os tempos, o melhor da história para 99% dos fãs do basquete e sem dúvida o ídolo e modelo de todos os atletas contra quem hoje ele está se opondo radicalmente em nome de seus colegas cartolas. E não é só isso, Jordan, quando era jogador, já participou de suas próprias negociações com a liga, como bem lembra o SBNation:

Em 1999, logo depois de se aposentar, mas ainda participando ativamente das discussões que acabaram com o locaute daquele ano e uma temporada de 50 jogos, Jordan foi cara a cara com o dono do Wizards, Abe Pollin, e disse "Se você não consegue fazer isso funcionar direito, venda o time, não desconte nos jogadores". E antes disso, em 1995, Jordan, junto de Patrick Ewing e Reggie Miller, liderou um movimento pedindo que os jogadores acabassem com a Associação dos Jogadores e processassem a NBA baseado em leis antitruste. Sim, exatamente a estratégia de hoje em dia. Na opinião dele, o então presidente Buck Williams havia negociado dois contratos horríveis que incluíam enormes perdas para os jogadores, coisas como o luxury tax (a multa que os times pagam por ultrapassar o limite salarial) e o rookie scale (salários fixos para novatos). Hoje, do outro lado, Jordan quer aumento do luxury tax e diminuição dos salários dos jogadores em até 7%. 

E ainda tem a cereja no bolo. Também em 1995 ele comentou a atuação de David Stern como representante dos donos dos times da NBA: "Tudo o que o Stern precisa fazer é analisar a proposta pelos olhos dos jogadores. Ele não iria recomendar isso, ele não aceitaria isso, então por que nos faz essa proposta?". Pois é, Jordan, seu filme já está queimado ou você quer mais uma? OK, mais uma: "Eu vejo Clyde Drexler, David Robinson ou Charles Barkley dizendo que conseguimos um bom negócio para nós, as super estrelas. Mas e os outros jogadores que vão chegar e vão fazer essa liga funcionar e manter o basquete popular como é hoje? Não é um bom negócio para eles, é por isso que estamos lutando". Precisa comentar o quanto uma pessoa pode mudar em 16 anos?

Amanhã, sábado, acontece mais uma reunião entre donos e jogadores. E sabe quem estará de volta? George Cohen, você leu sobre ele na semana passada. E não, ninguém sabe se isso é bom ou mal sinal, saberemos só amanhã mesmo. O que é fato é que foi ele mesmo quem ligou para os dois lados e pediu para estar lá, um doido varrido. Claro que sempre que há uma reunião o negócio pode ser fechado, mas o otimismo está distante em relação à semana passada, o que esperamos agora é que todos saiam um pouco mais otimistas, alinhados e que esses papos de 47% e decertificação não passem de provocações. Porque já que cada um pensa no seu, temos que pensar no nosso lado de fãs da NBA. Nenhuma dessas coisas seria boa para a nossa perspectiva de ver um joguinho de basquete no nosso League Pass ainda nesse ano.


Atualização 6/11
A reunião acabou e se o resultado não foi lá muito bom, pelo menos dá uma perspectiva de conclusão do locaute. Ou do apocalipse. Pela primeira vez os jogadores trabalham com um deadline, com um dia para aceitar ou não uma proposta.

Aconteceu assim, o mediador George Cohen se encontrou com os dois lados em separado e depois, quando todos estavam juntos, fez diversas propostas. Os donos escolheram uma em que os jogadores ficariam com 51% do BRI (todo o dinheiro gerado pela NBA) e os donos ficariam com 49%, além disso os times que estivessem acima do limite do salary cap teriam mais restrições a participar da Free Agency e um mid-level exception (proposta que hoje é de 5mi por temporada, feita por times acima do salary cap) de apenas 2.5 milhões.

David Stern jogou a proposta na mão dos jogadores e disse que eles tinham até quarta-feira para decidir aceitar ou não, e deixou muito claro o seu ultimato: Se a proposta for negada os donos de times pequenos, liderados por Jordan, só vão fazer propostas que começam com os jogadores levando 47% do BRI e com um sistema mais parecido com um Hard Cap.

Se os jogadores aceitarem, fim de locaute. Se recusarem, as negociações vão para um buraco de onde vai ser difícil sair tão cedo. 

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Nada a ver com o post, mas só pra gente não esquecer porque aguentamos essa palhaçada toda: