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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

De volta pra casa

O Turkoglu é o da esquerda

A situação do Turkoglu no Suns era a maior furada. Tudo que ele sabia fazer era redundante na equipe, e tudo aquilo de que a equipe precisava era justamente o que o turco não podia fazer. O Turkoglu não é nenhum gênio, mas ele é um baita de um jogador se você colocar a bola em suas mãos e deixar que ele arme o jogo, distribua a bola quando quiser, infiltre para criar o próprio arremesso e fuja do garrafão para arremessar de três. No Suns, apenas a parte dos arremessos de três poderia ser utilizada, porque o responsável por segurar a bola e armar o jogo é o soberano Nash, e o time precisava desesperadamente de uma presença no garrafão - nem que fosse apenas na defesa, vai. O turco simplesmente não se encaixava no Suns, assim como não tinha se encaixado no Raptors. Quando postei sobre o jogador um tempo atrás, disse que ele não tinha esperanças de encontrar um lar já que parecia combinar apenas com o estilo de jogo do seu ex-time, o Magic, de onde havia saído para entupir as orelhas de dinheiro.

Mas como diz o filósofo Badauí, "o mundo dá voltas" e eis que o Turkoglu voltou para o Magic em uma troca gigante, que comentamos bastante aqui. Apesar da bagunça, de tanta gente nova, de perder dois titulares e de não conseguir treinar com o novo elenco, o Magic ganhou 11 de suas últimas 16 partidas desde a troca. Todo mundo esperava que os novos jogadores batessem cabeça, que o Arenas apontasse uma arma para alguém ou trocasse a água de todo mundo por xixi, que demorasse para o técnico Stan Van Gundy encontrar um novo padrão de jogo e uma rotação definida. Mas foi tudo mais simples do que parecia, em parte porque o técnico com cara de pizzaiolo foi bastante conservador e tentou manter tudo o mais próximo possível de como era, mas também em parte porque o Turkoglu se sentiu novamente em casa.

As médias do turco não lembram as dos seus antigos momentos no Magic, agora o time é forrado de pontuadores e Turkoglu não tem mais que segurar o ataque nas costas com 20 pontos por jogo, mas só de ter a bola nas mãos e voltar a armar já podemos ver seus olhinhos brilhando. E a melhora da equipe ao colocar a armação nas mãos do turco é gigante simplesmente por um motivo: ele consegue acionar o Dwight Howard embaixo da cesta. Quando a armação cabe ao Jameer Nelson, por exemplo, a impressão é sempre de que a prioridade é o arremesso. De fato, sobra espaço para arremessar (especialmente após algum corta-luz do Dwight) e, quando a marcação aperta no armador, em geral isso significa que outro arremessador está livre para receber a bola. Quando a equipe precisa de agressividade, o que se cobra é que Jameer Nelson ataque mais a cesta, segurando mais a bola e assumindo a responsabilidade. Dwight Howard só é acionado então no início das jogadas quase como um plano secundário, em geral com apenas um pé dentro do garrafão, de costas para a cesta. Quando o jogo se aproxima do final, sequer é acionado porque - como eu insisto em dizer, enchendo o saco do pivô - não consegue converter lances livres, sofre faltas constantemente, e tende a perder a bola tentando infiltrar no garrafão. Não tenho nenhuma dúvida de que, no final dos jogos, o Magic é um time melhor sem Dwight em quadra. Mas o Turkoglu mudou tudo isso com sua capacidade de colocar a bola nas mãos do Dwight embaixo da cesta (ou em cima dela, numa quantidade enorme de pontes-aéreas). Num elenco de arremessadores e pontuadores que não confiam em seu pivô para definir jogos, o Turkoglu surpreende com passes longos, altos, que colocam Dwight de frente para a cesta sempre em possibilidade de finalização. Não é à toa que o Turkoglu tem agora a melhor média de assistências da carreira, e que a média de pontos do Dwight tem subido cada vez mais (é de quase 30 pontos nós últimos 5 jogos).

O problema não é bem o tipo de jogador que o Dwight Howard é, mas que tipo de jogador ele e seus companheiros pensam que ele é. Se continuarem achando que ele pode jogar de costas para a cesta fora do garrafão, acertando arremessos longos usando a tabela e ganchos em movimento, batendo bola para cima da marcação, teremos apenas a constatação de suas dificuldades, da falta de evolução em seu jogo e de como ele compromete uma equipe no ataque nos momentos importantes de um jogo apertado. Admitir os problemas do jogo do Dwight é o primeiro passo para explorar suas qualidades e saber usá-lo de forma correta, algo que o Turkoglu parece perceber agora. O Dwight tem que receber mais a bola, mas no alto, dentro do garrafão, nas costas dos defensores - e não fora do garrafão pra tentar imitar o Duncan.

Esse Magic que aciona o Dwight Howard em melhores situações de arremesso é muito mais eficiente. Quanto mais a defesa adversária se preocupa com o miolo do garrafão, mais difícil é dobrar a marcação no pivô com eficiência e mais espaço sobra para os arremessadores. Jameer Nelson agora tem carta branca para arremessar o quanto quiser, especialmente quando o Turkoglu assume a armação, e Jason Richardson já nasceu arremessando a placenta na lata de lixo, para ele o esquema tático do Magic é muito natural. A única coisa mais diferente nesse grupo é a entrada do Brandon Bass como titular no garrafão, algo de que eu gosto bastante mas que muda o desenho do Magic em quadra mais do que o Van Gundy acha saudável. Seu forte é o jogo de meia distância, algo que falta no Magic e que o técnico abomina, mas que funciona muito bem especialmente com o turco cuidando da armação. Mas o time sempre pode voltar para o esquema tático antigo simplesmente colocando o Ryan Anderson em quadra, que sempre foi um clone do Rashard Lewis e agora com mais minutos conseguiu provar que pode manter os mesmos números do seu sósia mais famoso (e mais caro). O Ryan Anderson também é um especialista em três pontos que alarga a marcação e abre mais espaço para o Dwight, não demanda a bola e quebra um galho na defesa. Com a falta de treinos e as mudanças tantas no elenco, toda vez que o Stan Van Gundy quer voltar a um ar retrô, à segurança dos bons e velhos tempos, coloca o Ryan Anderson na quadra. É uma espécie de estabilidade nostálgica que tem funcionado bem e ainda joga na cara do Rashard Lewis o quanto ele era desnecessário pra esse Magic que pode colocar qualquer outro arremessador de três mais altinho para ocupar seu lugar.

Quem ainda não se encaixou no grupo foi o Arenas, mas o Van Gundy também não está muito disposto a arriscar a estabilidade do elenco para dar mais minutos ao armador. A prioridade é não colocar Jameer Nelson e Arenas juntos em quadra, para assim garantir a armação do Turkoglu que vem dando resultado e os minutos do JJ Redick, que finalmente ganhou a confiança do técnico nos arremessos e na defesa. Uma escalação mais baixa, que colocaria Arenas em quadra junto com os outros tantos armadores, é cada vez mais deixada de lado para que o Ryan Anderson possa jogar mais e mais minutos e manter o padrão tático do Magic de uns tempos atrás. Resta ao Arenas, então, aproveitar os minutos limitados e decidir se ele será armador ou arremessador, porque a dúvida tem tornado seu jogo bastante inseguro e inconsistente. Com mais tempo de time tudo deve ficar mais confortável para ele, mas nunca chegará ao nível de conforto que o Turkoglu experimenta ao estar em um esquema tático que se aproveita de todas as suas qualidades e camufla todas as suas dificuldades. Esse é o tipo de coisa que faz a carreira de um jogador, que lhe garante contratos milionários, que faz a gente achar o jogador espetacular, até que de repente mude de time para uma situação diferente e todos os seus defeitos sejam expostos e nos deixem com cara de otário. Toda essa bobagem de "que jogador é melhor, Deron Williams ou Chris Paul" nunca leva em conta que os esquemas táticos são, em geral, os grandes responsáveis pelo rendimento de um jogador. Coloque o Deron no Hornets e o Chris Paul no Jazz e subitamente teremos dois jogadores muito piores do que estamos acostumados a ver.

Um exemplo ótimo para isso é o Tracy McGrady. Já foi um dos melhores jogadores do planeta nos seus tempos de Magic e de Houston, até que durante uma de suas trilhões de lesões o Houston se tornou um time veloz, de contra-ataques, de jogo coletivo, sem ninguém segurando a bola, e aí a simples ideia de que o T-Mac pudesse voltar às quadras dava calafrios na espinha do técnico Rick Adelman. Nas poucas vezes em que pisou na quadra após a lesão, T-Mac ainda parecia um bom jogador, mas lento, sem explosão, com a bola nas mãos - incapaz de acompanhar o ritmo da equipe ou de manter o jogo fluindo. Parecia um velhinho caquético tomando purê de maçã na veia. Quando foi mandado para o Knicks, parecia ainda mais lento no esquema do Mike D'Antoni, e a tendência da equipe em arremessar de três apenas expôs seus problemas com o arremesso de média distância. Era um jogador acabado. Mas floresceu meio sem querer no esquema tático como um excelente passador.

É praticamente impossível julgar tudo aquilo que um jogador sabe e não sabe fazer fora de um esquema tático que não favoreça cada coisa em especial. Um jogador pode parecer um bom arremessador de três, mas num esquema que foque nisso podemos descobrir que ele estava limitado a um tipo específico de arremesso, apenas em contra-ataques, por exemplo. Agora está na moda dizer que o Carmelo Anthony é "unidimensional", ou seja, que só sabe fazer uma única coisa: pontuar. Como saber que ele não seria diferente em um esquema que lhe pedisse para passar a bola ou jogar mais dentro do garrafão? Tracy McGrady já foi chamado constantemente de "fominha" e agora vê a carreira dando novamente sinais de vida justamente porque está jogando como armador no Pistons. T-Mac está mais lento, não tem mais a impulsão que tinha nos arremessos e nem a potência para invadir o garrafão e cravar na cabeça de todo mundo, mas ele é um jogador inteligente e sabe colocar a bola onde quer. Em qualquer equipe ele seria usado como um pontuador e então sua lentidão seria exposta, tornando-o imprestável. No Pistons, em que nenhum dos armadores tem como foco passar a bola (Rodney Stuckey e Will Bynum atacam a cesta, Ben Gordon arremessa até a mãe), Tracy McGrady é o mais perto que se pode conseguir de um armador puro, e aí não precisa de velocidade ou de potência - o Nash não nos ensinou que dá pra ser o melhor armador da NBA sem sequer sair do chão? O que vemos no McGrady agora é sua inteligência, sua visão de jogo, seus macetes de jogador velho que sabe como encontrar espaços, forçar contato, cavar faltas. Sua carreira só não foi para a privada porque o Pistons não faz sentido e é um time em reconstrução disposto a dar 30 minutos por noite para um jogador lesionado de mais de 30 anos, e numa posição em que ele ainda pode brilhar apenas porque o elenco inteiro não tem um único armador capaz de armar o jogo.

O que não faltou nos últimos tempos foi gente metendo o pau no Turkoglu, dizendo que ele fedia. Não é o caso. Seus únicos grandes momentos no Raptors foram quando deixaram que ele jogasse como jogava no Magic, e aí vimos que ele pode render um bocado. Para o Raptors não valia a pena desmontar o esquema tático por um único jogador, e fazer o mesmo no Suns seria podar o jogo do Nash, que é a grande estrela. Se o carinha chegou na NBA, se assinou um contrato milionário, é porque é capaz de render em alto nível em alguma situação, em algum esquema tático. Cabe às equipes ter a noção de que o cara não vai ser bom em qualquer time, é preciso saber ler exatamente quais são as qualidades maximizadas pelo esquema. Se isso não for feito, vai ter ainda muito time contratando o Turkoglu e descobrindo, de um dia para o outro, que ele é apenas um turco que se movimenta em câmera lenta. Do mesmo jeito que vai ter gente insistindo que o Dwight tem que aprender a arremessar de fora, usando a tabela.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Primeiras confusões

UConn + Pistons = Foto brega


A temporada mal tem duas semanas de vida e já temos confusões entre técnico e jogadores e times em crise. Se fosse o Brasileirão já tinha técnico no olho da rua. Felizmente não temos demissões de treinadores após cada rodada na liga como no futebol brazuca, imagina 82 técnicos demitidos por temporada! Daria para um mesmo técnico passar por todos os times mais de uma vez. Só não damos a idéia para os donos de time, porque é bem capaz deles acharem que é uma solução moderna e inovadora. Times estão em crise e perdendo dinheiro, uns podem culpar a economia, outros eles mesmos.

Mas uma coisa o basquete e nosso futebol sagrado de cada dia tem em comum, crises estão sempre relacionadas a derrotas. Só ver o Detroit Pistons, que junto com o Houston Rockets são os únicos times que ainda não venceram na temporada. O Pistons não tem jogado muito mal, mas tem perdido. A dupla de armadores com Rodney Stuckey e Ben Gordon pareceu, durante uns dois ou três jogos, a mais empolgante da NBA. Não a melhor, claro, mas divertia pelos dois serem agressivos e por se completarem com infiltrações e arremessos. Dava pra ver essa dupla ganhando vários jogos por conta própria. Só que não ganharam.

Das cinco derrotas que eles tem na temporada a primeira foi por 3 pontinhos e a segunda por um mísero ponto. A terceira foi por 10, para o Bulls, mas durante 3 períodos eles foram o melhor time disparado e chegaram a liderar por 15. E, por fim, perderam para o poderoso Celtics e para o Hawks, que é o melhor time do Leste nesses primeiros 5 jogos. São derrotas compreensíveis e no meio do caminho o time teve momentos ótimos, mas ainda assim são derrotas e elas irritam a torcida, técnico e jogadores. Como em quase tudo atualmente, não importa se o processo está indo bem se o resultado não é positivo.

Depois da derrota para o Bulls, a da virada, uma série de três declarações mostrou como o clima não foi nada bom no vestiário. Primeiro Ben Gordon, que disse que "Não fizemos os ajustes certos como time (...), precisávamos ter feito algo diferente". Depois o técnico John Kuester, "Precisamos achar uma outra voz de liderança no time além da minha" e, pra fechar com fatality, Tayshaun Prince, "Isso vale para os dois lados. Ele diz que precisamos de mais voz dentro do time e ele precisa fazer algumas coisas melhor também, se não ganhamos até agora não é culpa só do time".

Não dá pra achar que um jogador dizendo em público que o técnico precisa fazer um trabalho melhor é boa coisa. No fundo todos tem razão: o time não se ajustou bem ao segundo tempo forte do Bulls, faltou liderança dentro da quadra para acalmar o time e o técnico é parte do grupo de quem errou. O problema está no fato de que nenhum deles disse exatamente o que deveriam ter feito para mudar, ficaram jogando a culpa uns nos outros e ainda o fizeram em público. É a velha história de que não é o que você fala, mas como você fala.

Os problemas do Pistons são vários e todos juntos os levaram a essa situação de já ter discussão digna de Big Brother na segunda semana da temporada. O primeiro é que o time não ganha nada desde que eles trocaram o Chauncey Billups para o Nuggets em 2008. De lá pra cá o time que tinha ido para a final do Leste em todos os anos desde 2003 virou saco de pancadas. E uma coisa é você jogar no Wolves e achar que perder é normal, outra é disputar playoffs todo ano e de repente tomar de 20 de time mediano. Não ajuda que o técnico não tem muita moral, se fosse com alguém com a fama de Larry Brown ou Phil Jackson nunca que o Tayshaun Prince iria se atrever a dizer algo assim, mas com Kuester, que está no seu primeiro trabalho como treinador principal, é mais fácil.

Além disso ainda tem um fator que é muito comum ao do Rockets, o outro time que perdeu todas, excesso de jogadores. O Rockets tem excesso de bons jogadores em todas as posições e parecem estar tendo dificuldades em achar a rotação certa com espaço pra todo mundo jogar bem, no fim das contas tentam dividir muito os minutos e ninguém pega o embalo durante o jogo. O Pistons não está com tanto luxo assim, mas tem excesso em algumas posições. Tentar dividir os minutos nas posições de armação entre Rodney Stuckey, Ben Gordon, Richard Hamilton, Will Bynum e Tracy McGrady não tem sido fácil. Imagina como ficou a cabeça de todos esses quando Gordon se perdeu na conta e nem arremessou a última bola no jogo que perderam por um ponto para o Thunder.

E como desgraça pouco é bobagem, ontem teve mais problema. No meio do terceiro quarto do jogo contra o Hawks, quando o placar estava bem apertado, o jogo estava parado (por causa de algum lance livre ou algo assim) e Kuester chamou Stuckey para dar instruções, mas o jogador não atendeu. O técnico insistiu, o chamou de novo e nada do armador ir até lá. Imediatamente Kuester chamou DaJuan Summers no banco, fez a alteração e Stuckey, o Nezinho de Auburn Hills, não entrou mais em quadra. Questionado sobre o caso depois do jogo ele só disse que "É o que é". Esclarecedor, Stuckey.

Pelo o que comentam em Detroit, o comportamento do armador tem a ver com o fato de que ele estava negociando uma extensão de contrato e não conseguiu nada, saiu de mãos vazias. Agora, como não obedecer o técnico ajuda ele a conseguir fazer dar certo é um mistério.

O John Kuester, para quem não lembra, foi a única pessoa que conseguiu fazer o Cavs da era LeBron James ter um ataque realmente bom e eficiente. Ele era assistente de Mike Brown e foi o responsável por fazer o time ser mais veloz, aproveitar o Mo Williams no que ele é bom e fazer o time ser mais completo. Claro que quando a água batia na bunda o Mike Brown corria para mandar eles só isolarem o LeBron, mas tudo bem, não era culpa do assistente.

Em Detroit, porém, nada feito. No ano passado eles foram o penúltimo time em pontos por jogo e o 21º em pontos a cada 100 posses de bola. Eles não tem nenhum jogador que seja uma ameaça no garrafão, Richard Hamilton não é sombra do que já foi um dia e até o Ben Gordon, que foi colocado no mundo para fazer pontos, só teve média de 13 no ano passado.

Quer mais desgraça? Então vamos lá. Um repórter de Detroit disse que o clima entre os jogadores também não é dos melhores, que o grupo de jogadores mais velhos como Ben Wallace, Richard Hamilton e Tayshaun Prince não se bica com os mais jovens como Charlie Villanueva e Ben Gordon. O Pistons deu sinais de que poderia não ser o pior time do Leste, mas durou só dois e meio jogos. Com tanta crise já no começo do ano é de se esperar que em breve eles já estejam em busca de algumas trocas. Que o General Manager Joe Dumars tenha mais cabeça do que teve quando trocou Billups e do que quando pagou uma nota preta para Gordon e Villanueva.

Um outro time parecia que iria ter problemas, mas as coisas até que deram certo. E por incrível que pareça esse time é o Clippers! Lembra que no preview deles eu disse que eles dependiam do Baron Davis para ser um time de verdade? Pois o cara nem se esforçou. Apareceu gordo na pré-temporada, jogou partidas ridículas com mais turnovers que assistências e aí o técnico Vinny Del Negro disse que estava decepcionado com o seu jogador fora de forma. Por incrível que pareça, Baron Davis disse que ele tinha toda razão.

Segundo o armador ele nunca fez exercícios nas férias durante toda sua carreira. A temporada acabava, ele esquecia de tudo e só ia se exercitar de novo em agosto. Acontece que agora ele está velho e isso não funciona mais. O Baron Davis pelo menos admitiu e disse que irá fazer diferente daqui pra frente, só não sabemos se em Los Angeles. No jogo de ontem o novato Eric Bledsoe foi titular e jogou muito, botou um ritmo veloz no jogo, se entendeu perfeitamente com o Eric Gordon e eles venceram o Thunder. Menos de um segundo depois do jogo já pipocavam os primeiros rumores de troca do Baron Davis. Tudo boato, claro, mas garanto que lá dentro do Clippers já cogitam a mesma coisa.

Entrando no desnecessário mundo da especulação daria pra pensar em incluir o Chris Kaman com o Baron Davis para fazer um pacote mais atraente ao redor da liga, afinal pivôs são raros. E ele nem faria muita falta ao Clippers, o garrafão com Blake Griffin e Chris Kaman consegue ser um dos melhores da liga no ataque e o mais frágil na defesa. O problema dessa idéia é que os dois juntos recebem 24 milhões de dólares nessa temporada, quem pode arcar com isso? Talvez o próprio Pistons mandando Hamilton e Prince? Joe Dumars foi questionado há alguns parágrafos. Ok, ok, já parei. Muita coisa para pouca temporada.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Detroit Pistons

- Como é que tá aí, Villanueva?
- Tá ruim!


Objetivo máximo: Disputar até o final a oitava vaga para os playoffs
Não seria estranho: Ficar entre os piores do Leste
Desastre: Não trocar nenhum jogador e achar que vai acontecer algum milagre

Forças: Jogadores experientes que sabem o que é preciso para ser campeão da NBA
Fraquezas: Não ter nada do que é preciso para ser campeão da NBA



Elenco:
















.....
Técnico: John Kuester


Quando Michael Curry assumiu o Pistons que precisava de alguma mudança para injetar ânimo nos jogadores e tentar vencer outro anel de campeão, Billups foi trocado para o Nuggets e tudo desandou. Não foi culpa no Curry, coitado, ele era um sujeito bacana que todos os jogadores respeitavam muito, mas tacaram o cara numa situação terrível: se ele colocava o Iverson em quadra, o resto do elenco ficava frustrado e quase boicotava o jogo, e se ele colocava o Iverson no banco então não estava utilizando a esperança de mudança no time e aí a troca do Billups seria em vão. No fundo o Curry não fez nem uma coisa nem outra, foi pro olho da rua, o Iverson deu o fora e o John Kuester assumiu uma equipe oficialmente em processo relâmpago de reconstrução. 


A experiência do Kuester antes do Pistons foi treinando times universitários e 19 anos como assistente técnico ao redor da NBA. Já havia passado pelo Pistons campeão em 2004 com o Larry Brown, como coordenador ofensivo, e também foi o responsável pelo ataque do Cavs de 2009, que era uma merda mas não era tão ruim quanto antes, pelo menos existiam algumas jogadas planejadas nas saídas de bola e o ataque funcionou assustadoramente bem quando LeBron perdeu um par de jogos lesionado. A melhora pequena no ataque do Cavs deu ao time o posto de melhor da NBA na temporada regular e ao técnico Mike Brown, que é um dos piores técnicos que eu já vi na vida, o prêmio de Técnico do Ano (tipo o Doc Rivers, que também fede e ganhou o prêmio graças ao então assistente Tom Thibodeau, atual técnico do Bulls).


O John Kuester volta ao Pistons com um sentimento de nostalgia, aquela saudade do time campeão de 2004, com a esperança de que ele, conhecendo alguns dos jogadores, possa unir um elenco ao redor deles, arrumar o ataque e retomar a defesa da época do Larry Brown que, supostamente, Kuester conhecia tão bem. A situação é terrível para o Kuester porque o elenco é muito diferente agora. Na temporada passada ele teve problemas de relacionamento com o Charlie Villanueva (que ele diz já estarem resolvidos e é todo elogios ao garoto-Espiridão Amim), não conseguiu criar uma rotação na equipe, e sofreu terrivelmente com contusões em todo o elenco. O que se espera do Kuester é que ele possa trabalhar pela primeira vez com esse elenco completo, e é esse justamente o meu medo: assim que não houver a desculpa das lesões, o John Kuester vai rapidamente acabar indo para o olho da rua.


...
O Pistons ainda não decidiu se está em reconstrução ou não. Quando trocou Billups, achava que apenas uma mudança simples poderia levar o time mais longe. Como o Iverson não funcionou, o dinheiro que ele liberou ao ir embora deu início ao que Joe Dumars descreveu como "uma rápida reconstrução": contratou dois jogadores (Ben Gordon e Charlie Villanueva), assinou uns novatos, e esperava que em um ou dois anos o time voltasse ao topo. Mas o que vemos é um elenco de veteranos ex-campeões que não estão mais em seus auges e nem interessados nesse time decadente, como Richard Hamilton, Ben Wallace e Tayshaun Prince, e uma série de contratações estabanadas como Villanueva e Chris Wilcox que nada acrescentaram à equipe. Em meio a esses jogadores velhinhos e cansados, há um núcleo jovem bastante interessante formando por Rodney Stuckey, Will Bynum, Austin Daye, Jonas Jerebko e Greg Monroe, mas seus minutos são limitados pela presença dos jogadores mais velhos. Seriam os novos jogadores apenas reservas para um time com chances de título, ou seriam eles o futuro da franquia que precisa, então, se livrar da velharia para dar minutos à molecada? Essa dúvida eternamente evitada por esse Pistons ficou ainda mais clara com a contratação de Tracy McGrady, como comentei no post a respeito:


"(...) Não faz sentido o Pistons - que é um time que deveria estar em reconstrução mas não está - achar que tem algo a ganhar com o McGrady em quadra. Provavelmente ele tem mais habilidade na armação do que jogadores mais pontuadores como Rodney Stuckey e Will Bynum, mas colocar um armador veterano num elenco que já tem armadores e veteranos demais não tem qualquer propósito. Se é para tirar minutos da pirralhada, algum engravatado do Pistons deve realmente acreditar que falta apenas o T-Mac para que eles tenham chances de playoff, o que é ridículo. Ou é ilusão de grandeza ou então é simples desespero, necessidade de vender camisetas, ingressos, aparecer na TV se aproveitando da antiga popularidade do McGrady. Mas sua popularidade foi pelo ralo junto com a fama do Iverson nessa NBA subitamente apaixonada pelo jogo coletivo e pela estrela capaz de fazer de tudo, não apenas pontuar. Não vale mais nada ganhar sozinho. E é assim que toda a mentalidade da liga fecha as portas para Iverson e abre as portas devagarinho para LeBron, Wade e Bosh. Aos poucos eles param de receber ovos na cabeça enquanto assistem ao Iverson e ao T-Mac virarem peças de museu."




O T-Mac é uma peça de museu, infelizmente, e está naquele momento de sua carreira em que deveria jogar para times que estão atrás de um título e precisam apenas de um jogador na reserva para fortalecer o elenco. É o caso de Shaq no Celtics e, recentemente, de Stackhouse no Heat. São jogadores que não vão evoluir, não podem render em alto nível, mas ajudam bastante qualquer time prestes a ser campeão e que precise apenas de um pouquinho mais. Colocar qualquer um deles num time que está nas últimas posições do Leste é loucura, porque rouba minutos da pirralhada e não gera nada com isso. Tracy McGrady já está machucado de novo, deve passar mais um mês fora das quadras, mas quando voltar vai roubar minutos de Stuckey, Bynum e de DaJuan Summers, que deveriam ser o pilar de um time em reconstrução. E quem me disser que o Pistons não está em reconstrução pirou, ou alguém acha que esse time consegue se classificar para os playoffs e vencer séries por lá? 


Estou particularmente curioso para ver como Greg Monroe vai se sair na NBA, gosto do rapaz e acho ele um excelente passador, num ataque veloz com Stuckey pode fazer um belo de um estrago, mas nenhum deles está pronto para vencer agora e o Pistons precisa parar de insistir imediatamente na ideia de ir para os playoffs. Jonas Jerebko rompeu um tendão e deverá ficar fora por toda a temporada, é hora de dar minutos para a pirralhada e conseguir uma boa escolha de draft no ano que vem. Se continuarem insistindo, infelizmente vai sobrar para o técnico John Kuester, que vai ser criticado por não ter tornado esse elenco aleatório num time vencedor. Sinal de que os engravatados do Pistons estão com medo de olhar para os reais culpados.

sábado, 18 de setembro de 2010

Peças de museu

"Não tô chorando, é que entrou um cisco aqui..."

Quando falta um tempinho para a pré-temporada (que começa dia 3 de outubro) e as coisas andam devagar na NBA, começam a surgir questões em nossa mente que aos poucos vão comendo nosso cérebro, especialmente naquelas horas em que você precisa passar muito tempo no banheiro. No meu caso, fico tentando encontrar respostas mágicas, místicas, sociológicas, marxistas, estatísticas ou astrológicas para entender o motivo do Allen Iverson ainda não ter um contrato com um time da NBA - e, pelo jeito, a temporada começará e ele continuará desempregado. O que mais me intriga é que o jogador em quem eu apostava para estar desempregado, Tracy McGrady, ganhou uma chance de um time que não tem qualquer motivo para contratá-lo. Qual o critério?

Desde que o McGrady foi parar no meu Houston Rockets, acompanhei sua carreira bem de pertinho. Antes disso, ele era o cestinha da NBA, um dos melhores jogadores da liga, mas não conseguia vencer com o elenco terrível que era aquele Magic. No Houston ele supostamente teria a ajuda que queria, mas nunca teve sucesso. Costumo colocar a culpa no elenco, que era meio esburacado, nas constantes contusões de Yao Ming e do próprio T-Mac, que são de vidro, e no estilo de jogo das duas estrelas, que nunca se complementaram. Mas a verdade é que, apesar de ter sempre inocentado o McGrady dos fracassos da minha equipe, nunca me senti tranquilo quando ele estava em quadra.

A capacidade de ser cestinha da NBA está lá, McGrady é um pontuador nato, mas sua seleção de arremessos nunca foi muito inteligente. Ofensivamente, sempre esteve tão acostumado a forçar o jogo que parece que ele não acha divertido arremessar livre, prefere enfrentar toda a defesa adversária e mais a torcida do Corinthians. Sua mecânica de arremesso também não é das mais confiáveis, então todo arremesso importante seu é motivo para um ataque cardíaco da torcida, especialmente quando ele dá o arremesso marcado por cinco carinhas em seu cangote. O mais triste é que ele quer envolver os companheiros, sabe passar a bola, mas perde muito de sua efetividade quando faz isso. McGrady só funciona quando tem a bola nas mãos, não se sente confortável armando as jogadas, e tende a desaparecer do jogo quando não está inteiramente envolvido no ataque. É daquelas coisas impossíveis de solucionar: o que o cara faz de melhor é bater para a cesta e forçar arremessos, mas com isso não envolve seus companheiros e ai não dá pra ganhar; quando resolve passar a bola e trabalhar na armação de jogadas, aí deixa de lado o que faz de melhor e torna-se apenas um jogador comum.

Assim como Kobe e LeBron, que já passaram jogos inteiros dos playoffs passando a bola pro lado e se negando a arremessar, T-Mac entrou em quadra em jogos decisivos disposto a apostar nos companheiros, provar que o basquete é um esporte coletivo. Os resultados - assim como para Kobe e LeBron - foram desastrosos, com gente chamando o McGrady de amarelão, clamando que ele precisava ser o homem encarregado de decidir o jogo. Aí ele entra em quadra, faz miséria, pontua como um maluco, o resto do time não faz nada porque está apenas sentado assistindo, e a equipe é derrotada nos playoffs. Quando sentou e chorou numa coletiva de imprensa após a eliminação, T-Mac havia prometido que ganharia o jogo com seu próprio esforço, teve uma partida histórica e perdeu mesmo assim. Que mais poderia ter feito? Passado a bola e visto um Houston apavorado querendo que sua estrela decidisse?

Parece que, aos poucos, esses jogadores foram ganhando papéis cada vez mais secundários, ou então sumindo do mapa, sendo tacados para debaixo do tapete. Se o cara só consegue render quando ganha o jogo sozinho, ele não é mais bem visto pela liga. Talvez a resposta mágica para o contrato oferecido ao Tracy McGrady seja justamente algo que quase acabou com sua carreira: suas contusões. Depois de sofrer tanto com seus joelhos e costas, T-Mac teve que aprender a comer pelas beiradas, jogar um basquete diferente. Nas poucas vezes em que entrou em quadra pelo Houston Rockets na temporada passada, não tinha nem sinal da explosão que lhe era característica, tinha nítida dificuldade de bater para dentro do garrafão e pouca elevação em seu arremesso. Acabou se focando em passar a bola, acertar arremessos livres, jogar basquete como um jogador comum, talentoso mas que não resolverá nenhuma partida. Curiosamente o Houston havia montado um elenco apenas de coadjuvantes, então o T-Mac não era necessário - fora que o medo de que seus companheiros olhassem para ele como se fosse alguma estrela capaz de fazer milagres poderia destruir o trabalho coletivo montado pelo técnico Rick Adelman. Conforme sua carreira foi avançando, ele não conseguia passar da primeira fase dos playoffs e as contusões iam piorando, McGrady foi ficando mais à vontade com a ideia de ter um papel mais coadjuvante, mas aquilo que as pessoas esperavam dele destruía essa possibilidade. Todo mundo queria ver o T-Mac monopolizando o jogo e fazendo 30 pontos para só aí não chamá-lo de amarelão. É tipo com o LeBron, cujo estilo está mais focado nas assistências (tipo Magic Johnson) do que nos pontos (tipo o Jordan), mas que ninguém permite a omissão no setor ofensivo, não é aceitável. Apenas graças às lesões do T-Mac esse papel secundário foi sendo aceito. Quando foi trocado para o Knicks, ninguém ficava secretamente esperando que alguma hora ele pirasse e tentasse ganhar um jogo sozinho, arremessando do meio da quadra, porque sabiam que seu físico não ia aguentar. Sua estadia em New York foi comportada e deu até que bastante certo principalmente porque T-Mac armou o jogo num time em que ninguém sabia cumprir essa função. Além de, claro, ele ser péssimo na defesa mas isso no Knicks não significar nada, porque ninguém defende mesmo.

O discurso do McGrady agora é de que ele está em forma, que não é mais capaz de enterrar na cabeça de ninguém mas que ainda pode pontuar muito de outras maneiras. Mas a simples constatação de que nem ele, nem seus companheiros, acreditam que ele possa ganhar um jogo sozinho garante que não haverá monopólio da bola nem ataque-de-um-homem-só. É aí que provavelmente deve morar o medo com relação ao Allen Iverson: supostamente ele ainda acredita ser um dos melhores jogadores da NBA, ainda acha que pode ser cestinha da temporada, e quem quer arriscar destruir todo o trabalho coletivo de sua equipe colocando um jogador que vai tentar ganhar sozinho apenas para provar que "o mundo estava errado"? Mesmo os piores times da liga não acreditam mais nesse lance de ter uma estrela e deixar que ela faça tudo por si mesma, porque a experiência provou que não dá certo. Se o time for uma merda (como era o Magic com McGrady), o jogador-estrela atrapalha o desenvolvimento da pirralhada, que precisa aprender tudo na prática, com minutos de jogo e a bola nas mãos (deu certo no Thunder com o Durant, não deu?). Se o time for bom (como era o Houston com McGrady) não dá pra vencer se todo o elenco acreditar que a vitória em um jogo decisivo depende de apenas um homem. Nem o Bulls do Jordan ficava parado assistindo as coisas acontecerem, e o Lakers de Kobe só deu resultado com um elenco sólido recheado de jogadores capazes de vencer jogos. O que o Iverson precisa, então, é transformar a sua fama, mostrar para as pessoas que ele não quer mais - ou não pode mais - vencer sozinho. Um jeito, adotado pelo Vince Carter, é jogar de boa num time ruim, aceitar vir do banco, não reclamar de nada, achar tudo divertido e ajudar a molecada. Bastou isso para que o Carter fosse de fominha maluco para "líder dentro e fora de quadra" no Nets e ganhasse uma chance no Magic. O outro jeito é a tática T-Mac, que consiste em se contundir o bastante para que ninguém acredite que você pode carregar um time nas costas. Ou seja, a melhor coisa que pode acontecer para o Iverson agora é quebrar o pé. E feio.

Mas ainda assim não faz sentido o Pistons - que é um time que deveria estar em reconstrução mas não está - achar que tem algo a ganhar com o McGrady em quadra. Provavelmente ele tem mais habilidade na armação do que jogadores mais pontuadores como Rodney Stuckey e Will Bynum, mas colocar um armador veterano num elenco que já tem armadores e veteranos demais não tem qualquer propósito. Se é para tirar minutos da pirralhada, algum engravatado do Pistons deve realmente acreditar que falta apenas o T-Mac para que eles tenham chances de playoff, o que é ridículo. Ou é ilusão de grandeza ou então é simples desespero, necessidade de vender camisetas, ingressos, aparecer na TV se aproveitando da antiga popularidade do McGrady. Mas sua popularidade foi pelo ralo junto com a fama do Iverson nessa NBA subitamente apaixonada pelo jogo coletivo e pela estrela capaz de fazer de tudo, não apenas pontuar. Não vale mais nada ganhar sozinho. E é assim que toda a mentalidade da liga fecha as portas para Iverson e abre as portas devagarinho para LeBron, Wade e Bosh. Aos poucos eles param de receber ovos na cabeça enquanto assistem ao Iverson e ao T-Mac virarem peças de museu.

domingo, 21 de março de 2010

Punidos

O Rose só está sorrindo porque ainda não olhou pra trás


Com a data limite para trocas se aproximando, o Chicago Bulls foi um dos times que se mexeu para conseguir dinheiro e tentar contratar uma estrela na temporada que vem. São tantas estrelas terminando contratos ao fim dessa temporada que até minha mãe está juntando uns trocados pra ver se consegue trazer alguma delas para ajudar na cozinha. O plano, no entanto, é bastante complicado. Já escrevi aqui sobre como o Knicks, que está apostando todas as suas fichas nas próximas contratações, tem grandes chances de ficar chupando o dedo (e chance nenhuma de contratar o LeBron, por exemplo). Não é das melhores ideias confiar tanto numa grande contratação, especialmente quando você tem algo a perder. Se for o Nets, aí tudo bem, deixa eles até demolirem o ginásio pra tentar contratar alguém que saiba jogar basquete. Mas quando você se livra de um jogador bom, que ajuda o seu time, apenas para ganhar umas verdinhas e investir temporada que vem, colocando em risco essa temporada que acontece agora, aí o deus do basquete pune.

O Jazz, por exemplo, se livrou do ótimo novato Eric Maynor e do então titular Ronnie Brewer só para salvar umas moedas no porquinho. Eles vão para os playoffs, é bem possível que até tenham mando de quadra, mas esse lance de se livrar de jogadores a troco de nada não vai sair barato. Se não rolar uma eliminação na primeira rodada dos playoffs, pode apostar que o Boozer vai embora na temporada que vem e o Jazz não vai conseguir contratar ninguém com o dinheiro, pra aprenderem a não ser idiotas (e a não ter torcedores tão chatos, mas isso não vem ao caso). Já o Bulls está sendo punido pelo deus do basquete de maneira mais imediata: sequer vai aos playoffs esse ano.

Primeiro foi a troca do Tyrus Thomas, que mesmo tendo enfrentado várias contusões ao longo da temporada, pelo menos era um corpo atlético no garrafão do Bulls distribuindo tocos e enterradas a torto e a direito. No seu lugar, vieram dois armadores (Flip Murray e Acie Law) que não seriam nem figurantes na "Turma do Didi". Depois veio a troca que merecia mais punição: John Salmons foi para o Bucks enquanto o Bulls recebeu os contratos expirantes de Hakim Warrick e Joe Alexander. O Warrick é até bom, não me entendam mal, mas ele é um tanto baixo e não defende bulhufas, enquanto o Joe Alexander sequer jogou na temporada graças a uma série de contusões. O coitado do John Salmons não merecia ser mandado embora só pra economizar 5 milhões, dinheiro que hoje em dia não compra nem um Big Mac com batatas grandes e um suco de frutas vermelhas (o McDonald's fica cada vez mais caro, é ridículo, e só paro de difamá-los quando resolverem mandar dinheiro para minha conta - é tipo quando a máfia cobra por proteção, só que na área da propaganda).

O John Salmons já pode fazer parte oficialmente do "Clube Drew Gooden" para bons jogadores que, apesar de serem valiosos para qualquer time, são mandados de time para time como se fossem uma gonorreia que ninguém quer pegar. O Salmons tinha chutado traseiros no Kings com a contusão do Kevin Martin na temporada passada, mas assim que o Martin voltou lá foi o Salmons de volta para o banco, quase nem entrando mais em quadra. Lembro de ler uma reclamação do Salmons na imprensa, ele não pedia mais minutos, exigia simplesmente "respeito". Bonito. Loguinho foi mandado para o Bulls com uma cartinha de "era um ótimo jogador mas nossos planos são outros". Porque, claro, os planos do Kings são perder.

No Bulls o Salmons foi a garantia de que o time poderia manter o poder ofensivo mesmo com a saída da porcaria do Ben Gordon, que agora foi feder em outro lugar, e ainda tinha o bônus do Salmons saber defender, pegar rebotes e passar a bola (ou seja, ele é um mamífero bípede que joga basquete, não um anão com compulsão por arremessos). Não é espetacular em nada, mas é um bom pontuador e tem atuações sólidas, constantes. Nem que fosse pra ter no banco, era uma peça valiosa para o elenco muitas vezes inconstante e cheirando a bunda de bebê do Bulls. Mas não, apesar de jogar bem durante toda a temporada, foi mandado para o Bucks que precisava de alguém para substituir o Redd, contundido.

Desde que o Salmons chegou no Bucks, o time ganhou 14 partidas e perdeu apenas duas, disparando com certa folga para o quinto lugar do Leste. O Denis escreveu sobre como o Bucks é uma das maiores surpresas do ano e um dos times mais embalados dessa fase final de temporada (o que contrasta com a gente, que nesse final de temporada fica desinteressado, esperando os playoffs, e o Bola Presa ganha algumas teias de aranha porque a vida aperta - somos como formigas fazendo as coisas correndo antes do inverno dos playoffs chegar, com a diferença que ao invés de trabalhar juntando comida, em geral vamos dormir. Talvez a melhor comparação fosse com ursos hibernando, mas enfim, deixa pra lá).

Já o Bulls sem Salmons e Tyrus Thomas tomou em cheio uma punição divina: Luol Deng (que poderia ser substituído pelo Salmons) se contundiu e deve ficar fora o resto da temporada; Joaquim Noah, último pivô da equipe, após a saída do Tyrus Thomas, com menos de 400 anos de idade (Brad Miller, estou olhando pra você) passou 9 jogos contundido; e como cereja do bolo de merda o Derrick Rose ainda passou 4 jogos fora.

O Bulls perdeu todos os 4 jogos sem o Derrick Rose e todos os 9 jogos sem o Noah. Ao todo, foram 10 derrotas seguidas, algo que não acontecia desde 2001, quando o Eddy Curry ainda era novinho e não tinha engolido as Torres Gêmeas do World Trade Center (ele engoliria no final daquele ano, os aviões foram só computação gráfica). O recorde total sem o John Salmons é de 5 vitórias e 11 derrotas, o bastante para que eles sejam chutados para fora da zona de playoff sem muitas chances de retorno - principalmente porque o Salmons está num concorrente direto ganhando partida atrás de partida.

Alguém precisa me explicar porque jogadores tão valiosos, que cumprem bem suas funções, são tão menosprezados e mandados embora de seus times o tempo inteiro. Parece que a NBA se tornou um pouco obcecada demais com estrelas. Mais do que montar bons times e ganhar dinheiro indo para os playoffs, lotando ginásios com times vencedores, a NBA agora prefere investir em grandes estrelas que rendam camisetas, outdoors, lotem ginásios - e percam mesmo assim. Até mesmo do ponto de vista empresarial, pensem em quanta grana o Bulls não vai perder ao deixar de ir para os playoffs. Seriam várias transmissões de TV, ginásios lotados, torcedores empolgados comprando produtos e enfiando cachorro-quente nas orelhas (costuma acontecer depois da terceira cerveja). O Bobcats pode ser o time mais sem graça do mundo, mas eles provavelmente estarão nos playoffs e sua maior estrela é o dono, na arquibancada, balançando a cabeça em desaprovação com as cagadas da equipe (vi o Jordan no ginásio, indignado, nas últimas duas partidas da equipe - duas derrotas). O Houston sem estrelas estaria nos playoffs se estivesse no Leste, mas aí é só dor de cotovelo mesmo, que meu time não vai conseguir alcançar o Blazers no Oeste nem fodendo. Mas o ponto aqui é que nesse desespero por tornar as equipes da NBA rentáveis em período de crise, talvez fosse mais prudente montar times sólidos com bons carregadores de piano e um bom técnico do que ficar economizando grana para dar um contrato biliardário para alguém na temporada que vem e torcer para ganhar dinheiro com propaganda de suco com bolhas dentro. Isso, claro, se as estrelas que querem contratos biliardários toparem ir jogar por lá. Se fosse pra escolher um time, eu iria preferir o Bucks (com um jovem núcleo e experiência nos playoffs) do que o Bulls, capengando pela tabela. O mesmo vale para o Knicks, claro, por que uma estrela se sujeitaria a um time tão pelado, sem jogador nenhum em nenhuma área? A essas equipes, resta apostar no poder da cidade, do mercado, do jogador querer ganhar uma grana com propagandas, lotar ginásios mesmo com um time que fede. Essa seria a única chance do Knicks, afinal, como mostra esse vídeo aqui, Cleveland é uma cidade tão porcaria que virou até piada. Mas, como diz o vídeo, ao menos eles não são Detroit. O mesmo vale na NBA: pior do que ter dinheiro guardado e rezar para uma estrela ir jogar pra você, é ter gastado todo o dinheiro num par de jogadores mequetrefes. Pois é, Bulls e Knicks: pelo menos vocês não são o Detroit.

terça-feira, 16 de março de 2010

Decisivos

- Não acredito, eles me pagam mais de 10 milhões e eu fedo!
- Não esquenta, pelo menos você tem cabelo!


Nos playoffs passados, Ben Gordon fez a humanidade valer a pena. Erros grotescos como a Playboy da Mara Maravilha ou a invenção da uva passa foram perdoados pela possibilidade de assistir à série entre Bulls e Celtics ir até o decisivo Jogo 7, ter quatro partidas com prorrogações e um total de sete prorrogações ao longo da série, tudo recorde absoluto. O Ben Gordon foi um dos grandes responsáveis por fazer o Bulls segurar tão firme nas pequenas chances de eliminar o Boston Celtics, e simplesmente colocou alguns dos jogos da série no bolso sozinho, acertando um punhado de arremessos sem sentido. Na primeira partida que ele comandou, já avisei que o rapaz estava garantindo um salário gordo na temporada que vem de algum time tolo o bastante para morder a isca. Depois, ainda teve o arremesso mais fantástico de sua carreira. Mas no jogo decisivo, o sétimo, nada deu certo, os arremessos não caíram e o Celtics venceu uma partida fácil, fácil.

Assim que reclamei do contrato obeso mórbido que o Ben Gordon assinou com o Pistons, muita gente não entendia o motivo para eu odiar tanto assim o talentoso armador. Do mesmo modo, tem gente que até hoje quer saber o porquê do meu ódio pelo Rafer Alston, mesmo ele estando há tanto tempo longe do meu Houston Rockets e minha frequência cardíaca tendo diminuído bastante por causa disso. A resposta é bastante simples: no basquete, as vitórias e as derrotas são causadas por uma infinidade de fatores. Às vezes, perde-se por culpa de um trabalho ruim nos rebotes, de uma marcação fraca, da falta de movimentação de bola. São todos motivos aceitáveis e que podem ser arrumados de um jogo para o outro, ou até mesmo no decorrer das partidas. Um fator que você não quer ter para uma derrota, no entanto, é o jogo de um dos seus jogadores secundários.

Quando Kobe Bryant joga bem, por exemplo, as chances do Lakers vencer sobem muito. Quando ele joga mal, no entanto, não existe uma derrota praticamente certa. O jogo do Lakers é bastante equilibrado, depende da atuação de vários jogadores e todos eles contribuem para a vitória. Isso retira um pouco da responsabilidade de um jogador único - mesmo que ele seja, como no caso do Kobe, o jogador mais importante da equipe. Imaginem então o caso do Houston, em que há uma tentativa de espalhar por todo o elenco as responsabilidades ao longo das partidas. Se um jogador não está bem, todos os outros seguram as pontas, fazem o seu trabalho, seguem com o plano de jogo. As vitórias e as derrotas ficam nas costas de todos os jogadores.

Ben Gordon e Rafer Alston são jogadores decisivos. Ao tê-los na equipe, na maioria das vezes são eles que decidirão se seu time vencerá ou perderá. Acabam acertando arremessos absurdos, bolas de três pontos, salvando jogos no final e vencem partidas sozinhos. Mas também erram todos os arremessos, forçam no ataque, exageram no ritmo de jogo, e perdem jogos sozinhos. Quando o Rafer Alston começava a arremessar, não importava quão equilibrado fosse o ataque do Houston, toda a responsabilidade ficava nas mãos do armador. Isso porque o excesso de arremessos quebrava o ritmo da equipe, todo mundo era obrigado a ficar assistindo, o esquema de jogo ia pela janela e o Rafer Alston tirava do bolso a possibilidade de acertar 8 bolas de três seguidas e ser o herói do jogo. Ou errar todas as 8 bolas e fazer o time perder de vez. Qual das duas opções vocês acham que acontecia com mais frequência?

Algumas estrelas são jogadores decisivos nesse sentido, ou seja, que acabam decidindo se o time vencerá ou perderá. O exemplo mais claro era o Kevin Durant nas temporadas passadas. Mas que outra escolha o Thunder tinha, afinal? O time era jovem demais, fedia demais, e sua futura estrela precisava de experiência. Além do mais, é melhor colocar a responsabilidade nas mãos do jogador mais talentoso do que nas mãos de todo um elenco que, cheirando a bumbum de nenê, vai desapontar constantemente. Mas não dá para ter um jogador decisivo desses que seja seu segundo, terceiro ou até quarto melhor jogador. Você tem outros dois ou três caras melhores do que ele, e no fundo quem decide o andamento do jogo é o maluco que arremessa mais? Não me parece uma decisão muito inteligente.

Já vi o Ben Gordon ganhar muitas partidas, levar jogos para a prorrogação, acertar arremessos finais. Mas também já vi o Gordon perder jogos sozinho porque ele não tem seleção de arremessos, critério ou inteligência: apenas arremessa, às vezes cai, às vezes não cai, não há muito mais em seu jogo que ele possa fazer. Peguemos um fominha clássico, como o Gilbert Arenas, e fica fácil de ver como dificilmente as derrotas acabam sendo por sua culpa. Já vi ele estragar tudo, mas em geral sabe parar quando a merda está muito grande e dar responsabilidades para outros jogadores, envolver o time, passar a bola. Ben Gordon não pode fazer isso por uma limitação de talento, ele não sabe armar, não sabe defender, é limitado em seu jogo. Já no caso do Rafer Alston, é apenas uma limitação de cérebro: ele não tem nenhum.

Esses jogadores decisivos para o bem e para o mal acabam só se dando bem quando dois fatores muito importantes aparecem juntos: vir do banco de reservas, e estar num time muito forte, com tanto talento que seja mais difícil interferir no resultado de um jogo negativamente. Só consigo imaginar um jogador desse tipo que esteja nesse contexto: JR Smith. Levou muito, muito, muito tempo para o técnico George Karl aprender a usá-lo. A princípio o técnico apenas brigava com o JR, afundava ele no banco, dava multas, puxava a orelha. Depois entendeu que basta limitar os minutos para que, assim, limite-se sua influência na partida. A matemática é bem fácil: se o jogador arremessa todas as malditas bolas que chegam à sua mão, então basta limitar seus minutos em quadra para que ele arremesse menos bolas. O JR fica nas rédeas apenas no que se refere ao seu tempo de jogo, não adianta tentar domá-lo para arremessar menos ou ter cérebro, ele sempre enterrará como um maluco mesmo sem perceber que o jogo não está valendo ou arremessará de três mesmo sem perceber que está tentando na cesta errada. Gênio.

O momento correto de usar o JR, que o George Karl levou tempo para aprender, também deve muito ao elenco forte do Nuggets. É que esses jogadores decisivos acabam sendo muito mais efetivos quando seus times já estão na frente do placar. Não importa quão absurdo seja o Ben Gordon em finais de jogos disputados ou prorrogações. Se o Bulls tivesse elenco para abrir uma pequena vantagem no terceiro período e o Ben Gordon acertasse os arremessos retardados que às vezes caem, a diferença ficaria gigante e não seriam mais necessários arremessos impossíveis nos segundos finais. O Ben Gordon poderia voltar para o banco, com sua missão terminada, e a vitória estaria garantida. Caso seus arremessos idiotas não caíssem, o time não se afundaria num buraco sem saída porque antes estava na liderança e, no máximo, teria perdido os pontos de vantagem. Bastaria colocar o Gordon de volta no banco e começar de novo a tentar galgar outra vantagem, sem precisar de uma recuperação impossível.

Isso acontece com uma frequência absurda no Nuggets. Quando o time está na frente no segundo tempo, o JR Smith entra em quadra e começa seu festival de arremessos que fariam um orangotango corar com tamanha falta de bom senso. Se esses arremessos caem (e muitas vezes caem, ele é bom e tem uma mecânica de arremesso linda), a vantagem vai para a estratosfera e o Nuggets pode ir descansar. Se os arremessos não caem, o JR Smith respira no banco e o resto do elenco tenta segurar um pouco a vantagem. Depois, se houver tempo hábil, repete-se o experimento. Esse é um dos grandes motivos do Nuggets ser um time tão forte, com tantos recursos, e que de repente, sem aviso, abre enormes diferenças no placar. Cansei de ver times que, perdendo por 10, começam a esboçar uma reação - para então tomarem quatro bolas de 3 pontos do JR Smith e passarem a perder por 20 num intervalo muito pequeno de tempo. É um meio de arrancar o coração de times tentando se recuperar, fritá-lo na manteiga e comer com alecrim.

Esse é também um dos motivos para o Ben Gordon ter dado tão, tão errado no Pistons. Lá, que o elenco fede, as atuações do Gordon são ainda mais decisivas do que eram no Bulls, então seus jogos ruins viram estragos que não podem ser desfeitos. Como ele não defende necas, quando seus pontos não estão lá para compensar, a sua presença em quadra nem vale a pena. Para impedir o desastre, os minutos do Ben Gordon vão sendo mais e mais limitados, com jogadores menos decisivos como Hamilton e Will Bynum ganhando prioridade. O pior disso tudo foi uma entrevista recente do Gordon sobre essa que é a pior temporada da sua carreira, com apenas 13 pontos por jogo, menos de 2 rebotes e aproveitamento de 30% nas bolas de três, todas piores marcas desde que entrou na NBA. O armador colocou um pouco da culpa de suas atuações fracas nas contusões, mas admitiu que está com dores assim como muitos outros jogadores de muitos outros times nessa temporada imbecil de 82 jogos. O motivo real para seu desempenho seria então, para ele, a rotação do time, que não o favorece. Reclamou de minutos, de vir do banco, de ter poucas oportunidades. Ou seja, reclamou de não poder decidir os jogos - mesmo que, num time como o Pistons, não dê pra se dar ao luxo de deixar o terceiro melhor jogador do time (talvez quarto) decidir as partidas para o bem ou para o mal. Não era o Pistons que se gabava de ter um jogo totalmente coletivo?

Está aí justamente o que separa Rafer Alston e Ben Gordon do único que deu certo, JR Smith. O Gordon passou a carreira reclamando de começar os jogos no banco de reservas, exigia mais minutos e mais arremessos. Rafer Alston não se conformava de não ser titular, foi trocado trocentas vezes, e ao invés de perceber que seus serviços não eram muito bem aceitos, resolveu dar uma de estrelinha e ir pra casa quando o técnico do Heat, Erik Spoelstra, colocou ele no banco em uma partida e lhe tirou a vaga de titular na outra. Existem uns malucos que só arremessam, isso não é problema. Existem também uns malucos que só defendem, uns que só pegam rebote, uns que só passam a bola, uns que só enterram. O importante é entender as próprias limitações, saber até onde é possível ir, e encontrar uma situação adequada com um técnico que possa utilizá-lo bem. O JR Smith está na situação perfeita, mas o mais importante é que ele não acha que deve ser titular, jogar todos os minutos. Faz a única coisa que sabe quando decidem que ele pode fazê-lo. E é por isso que esse Nuggets, atualmente, parece ser o único capaz de retirar o Lakers de um possível título no Oeste. Muitas armas, forte garrafão, e alguém que vem do banco não para para salvar jogos, mas para esticar vantagens.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pisou na merda, abre os dedos

Jamison deixava jogadores do Cavs sangrando no
chão, agora tem que ser miguxo do LeBron


Primeiro o Arenas foi suspenso pela piadinha com armas de fogo. Depois, Caron Butler (junto com o Haywood) foi trocado para o Mavs e agora, para finalizar, Antawn Jamison foi trocado para o Cavs. Não sobrou nenhum dos três ex-jogadores de All-Star para contar história num time que, ao menos no papel, era colocado por todo mundo como um dos favoritos para brigar pelo título do Leste. Enquanto quase todos os times da NBA ficariam batendo a cabeça na parede, insistindo num erro por medo de se queimar com os torcedores, o Wizards resolveu desmontar a equipe inteira assim que percebeu que o trio não iria adiantar para levar o time ao topo. Uma decisão segura seria dizer que, novamente, o trio não passou tempo o bastante jogando junto, colocar a culpa na mudança de técnico, esperar Arenas voltar temporada que vem e tentar de novo, de novo e de novo. Mas o Wizards não quis ser novamente um time mediano, compreendeu as limitações que os três All-Star juntos enfrentavam em quadra, e teve a coragem de começar de novo. Essa coragem falta para muitos times que acabam ficando para sempre naquele limbo do meio da tabela, lutando pelos playoffs ou conseguindo as últimas vagas, sem nunca ter chance de vencer de verdade. O único modo de transformar essa situação é reconstruir o time, feder por uns tempos, conseguir escolhas de draft, dar minutos para os pirralhos. Mas como explicar para o torcedor apaixonado que o time bom pra burro, mas não bom o bastante, vai ser jogado no lixo e o time vai feder por uns anos? Como explicar caso uma equipe que já chegou a competir por títulos comece a namorar com a pior campanha de todos os tempos? O Nets poderia muito bem ter mantido vários de seus jogadores e ficado no mais-ou-menos pra não passar vergonha, mas essa campanha horrorosa uma hora vai dar frutos.

O Pistons teve esse medo de feder para os torcedores, o Joe Dumars quis concertar tudo muito rápido para que não houvesse um período de reconstrução, e o resultado foi um time que não consegue se livrar de Richard Hamilton, contratou lixos como Ben Gordon e Villanueva, e não tem identidade. Pra quê tanto medo de feder? O passo do Wizards rumo à lama é a coisa mais inteligente e corajosa que a equipe poderia ter feito. Eles já estavam na merda mesmo, o melhor é abrir os dedos, garantir uma boa escolha de draft, construir um time inteiro do nada de acordo com as preferências do novo técnico (ao invés de ter que fazer o técnico suar para colocar um padrão numa equipe aleatória já montada) e dar minutos para a pirralhada jogar.

Como o Wizards não tem dado certo nos últimos anos, o time arrumou um bom número de fedelhos com potencial. O Arenas dizia que o Nick Young lembrava o Kobe quando entrou na NBA e seria uma estrela, Andray Blatche é um ala cheio de potencial que domina ligas de verão e há anos todo mundo espera ver ele estourar, e JaVale McGee é um pivô enorme, magrelo e completamente cru com capacidade para dominar na defesa. Nenhum deles tinha muitas oportunidades de jogo estando atrás de Butler, Jamison e Haywood, respectivamente, e apesar dos três terem se saído bem nas constantes contusões da equipe, nunca tiveram minutos suficientes para conseguir alguma consistência. Agora isso mudou: Blatche e McGee formam o garrafão titular da equipe, enquanto Nick Young ganha sua chance ao lado do Josh Howard, que chegou na troca do Butler desacreditado por não ter se tornado aquilo que se esperava dele - embora o potencial ainda esteja lá. Mesma coisa com o Al Thornton, que parecia um dos jogadores mais promissores do Clippers até que a comissão técnica foi ficando mais e mais descontente com seu jogo e ele foi mofar no banco.

São todos jogadores com potencial, terrivelmente inconstantes, tendo a oportunidade de suas vidas. Precisam mostrar que têm valor, precisam mostrar que conseguem aprender jogo após jogo, e que rendem quando recebem minutos. Enquanto eles se desenvolvem, a temporada vai pro saco e o próximo draft rende algum outro jogador de potencial para ajudar a equipe. Quando o técnico tiver decidido quem tem chances de permanecer na equipe e decidir por uma cara para o time, basta ir atrás de talentos veteranos, com a grana economizada, que se encaixem na nova formação tática. Sem pressa, com coragem de botar os fedelhos no fogo e dinheiro para gastar apenas quando o time já tiver alguma identidade, o processo de reconstrução do Wizards vai acabar sendo rápido e indolor. Prova disso é ver todos os jogadores cheirando a fralda do time jogando como se suas vidas dependessem disso, se atirando em todas as bolas, bebendo sangue nos intervalos de jogo. Foram duas vítórias nas últimas duas partidas, com atuações impressionantes de Blatche (33 pontos e 13 rebotes contra o Wolves, 18 pontos e 11 rebotes contra o Nuggets) e de McGee (14 pontos, 11 rebotes, 5 tocos contra o Wolves, 9 pontos, 7 rebotes e 3 tocos contra o Nuggets). Enquanto Butler e Jamison, estrelas consagradas, jogavam com aquela tristeza de quem perdeu a temporada e não tem motivo para se esforçar, o sangue jovem do Wizards joga pelo seu futuro e engoliu o Nuggets ontem na raça, mesmo quase tacando o jogo fora no final.

Para o Jamison, por mais que ele se dissesse feliz com o Wizards, com os companheiros, a cidade e os dirigentes, a temporada já não valia mais nada. Era só uma perda de tempo até que o Arenas voltasse temporada que vem, uma torcida para que o resto do time não desmontasse com contusões. No Cavs, agora ele volta a jogar como se pudesse ganhar um campeonato, como se seus resultados realmente importassem. O problema é que ele está tentando mostrar serviço num time que aprendeu, nos últimos anos, a odiá-lo loucamente.

A NBA anda meio morna com rivalidades ultimamente (a mais recente é Hawks e Celtics), e as brigas nas partidas entre Wizards e Cavs eram a coisa mais animada que existia nesse sentido nos últimos anos. É uma rivalidade meio fajuta porque o Cavs sempre ganha, mas o Wizards joga sério, dá porrada, xinga, enlouquece, e depois perde. Dizem que a rivalidade foi o principal motivo do Wizards ter tentado evitar a troca, e agora é o Jamison quem está sentido o peso dela. Não é como se ele fosse chegar em Cleveland e de reBoldpente ser amiguinho de todo mundo, como se não tivessem se odiado tanto há anos. Mo Williams, Shaq e LeBron ignoraram Jamison várias vezes quando ele estava sozinho para o arremesso, o Jamison foi ajudar o LeBron a se levantar e a estrela do Cavs fingiu que não notou, e o Delonte West deu a maior fria no Jamison depois de lhe mandar um passe horrível, impossível de pegar. O clima não é dos melhores, é bem óbvio que todo mundo na equipe ainda se lembra das tretas com o Wizards, o LeBron estava torcendo para conseguir o Amar'e, e o Jamison arremessar 12 bolas para tentar ser querido (e errar todas elas) não ajudou muita coisa. Pior ainda foi o Cavs ter saído de quadra com a derrota e o Jamison ter falhado tão miseravelmente na defesa em momentos importantes do jogo.

Vai levar um tempo para o Cavs se acostumar com o Jamison, perceber que ele é valioso para a equipe e, principalmente, que ele foi uma escolha melhor do que o Amar'e seria. Talvez surjam muitas derrotas até o Jamison se encaixar bem no estilo de jogo do Cavs, aprender a defender em conjunto, ser mais discreto em quadra, mas eventualmente vai dar muito certo e o LeBron vai ter percebido que os engravatados do time não poupam dinheiro para ficar acima do teto salarial e conseguir quem for para melhorar suas chances de título. Será que ofereceriam tanta grana para ser paga em multas em qualquer outro time da NBA, tipo o Knicks, que anda recheado de dívidas?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O apressado come cru

Fãs do Pistons, não temam: com Kwame
Brown, como algo pode dar errado?


Às vezes é legal apertar aquele "botão do apocalipse", vermelho e brilhante, e começar um time do zero. Times bons pra burro acabam percebendo, uma hora, que não vão conseguir ser campeões e não vale a pena ficar dando com a cabeça na parede, eternamente se contentando em ser bom-mas-nem-tanto. É preciso coragem para o botão do apocalipse, mas é uma atitude necessária e saudável na vida de qualquer time da NBA. O que se faz depois do apocalipse, no entanto, é o que separa os grandes times dos times meia-boca. Aquele Nets que foi campeão do Leste com Jason Kidd não tinha qualquer chance de derrotar as potências do Oeste, então desmontar e começar de novo era uma boa ideia. Montar o pior time da temporada e flertar com o pior recorde da história da NBA não é uma ideia tão boa, entretanto. Mesma coisa com o Pistons: se livrar do Billups é algo bem idiota, mas pelo menos permitia reconstruir a equipe com a grana que o fim do contrato do Iverson liberaria. Gastar essa grana num par de jogadores aleatórios que não tinham nada a ver com a equipe não é reconstruir, é terminar de se afundar na lama.

Quando o Pistons contratou Ben Gordon e Charlie Villanueva, avisei que a equipe caia no mesmo erro que tinha cometido tentando colocar Iverson no elenco. Vários fãs do Pistons me puxaram a orelha avisando que eu não entendia o que o Joe Dumars, um dos engravatados mais idolatrados-salve-salve da NBA, estava fazendo. Disseram que com sua incrível visão de mercado ele reconstruiria o time em apenas uma temporada, antes da badalada offseason de 2010, e que várias trocas surgiriam se livrando dos velhinhos da equipe. Pelo contrário, os velhinhos ainda estão lá - e ainda receberam Ben Wallace de volta com uma rodada de bingo e um chá de erva cidreira pra comemorar. Ao fim dessa temporada, uma tonelada de grandes estrelas verão o fim de seus contratos e todo time mequetrefe da NBA daria um dedo mindinho por dinheiro o bastante para competir por um desses grandes talentos. Com medo de que a competição ficasse muito acirrada e os salários muito inflados, Joe Dumars preferiu dar 50 milhões de doletas para Ben Gordon, o arremessador maluco, e 35 milhões para o Villanueva, que não consegue se destacar nem quando o time inteiro joga para ele na seleção da República Dominicana.

O que o Pistons tem em mãos é uma série de jogadores que se anulam e não fazem um puto de um sentido juntos. Enquanto Gordon precisa da bola nas mãos o tempo todo para arremessar como louco, Stuckey precisa da bola nas mãos o tempo todo para penetrar no garrafão. Richard Hamilton precisa de um esquema de jogo feito para ele, que consista de passes e corta-luzes, não de gente segurando a bola. Will Bynum é figurinha repetida, faz aquilo que Stuckey já faz, enquanto faltam jogadores com outras funções específicas. Enquanto a identidade do time já foi a defesa, e Ben Wallace e Tayshaun Prince ainda tentam segurar essa imagem, outros jogadores - em especial as novas aquisições como Gordon e Villanueva - não defendem nem filhotes de gatinhos sendo chutados na rua. Ainda tenho uma teoria de que o Jerebko, o Daye e o Prince são a mesma pessoa, mas com maquiagens diferentes, o que só dá ao time mais do mesmo. Há uma necessidade brutal de identidade para a equipe, uma rotação específica, um modo de jogo, algo que una esses jogadores. Vamos focar na defesa? Vamos só arremessar de três? Vamos jogar na correria, na porra-louquice? Vamos jogar de quatro, tentando fazer cestas com o nariz como o "Bud, o cão amigo"? Qualquer coisa serve, desde que esse monte de gente se transforme em algo que lembre, mesmo que de longe no escuro e na neblina, um time.

Para piorar as coisas, não deu nem pra brincar de pensar numa rotação para essa equipe porque todo mundo vive contundido. Villanueva quebrou o nariz, pegou uma gripe violenta e agora tem uma lesão terrível no pé, Will Bynum torceu o pé, Rodney Stuckey torceu o tornozelo (incluindo duas torções, uma em cada pé, num mesmo jogo contra o Bulls), Hamilton tem uma lesão grave no pulso, Ben Gordon lesionou o tornozelo e Prince tem uma lesão preocupante nas costas. Ou seja, só sobraram os novatos, o que é bacana porque times em reconstrução tem mais é que dar minutos para a pirralhada mesmo. Austin Daye e Jonas Jerebko são bons o bastante para dar uma alegria aos fãs do Pistons, o único problema é que eles precisam do espaço que supostamente pertence ao Prince. As lesões complicam qualquer equipe, não importa quão forte e profundo seja o elenco, mas a verdade é que no Pistons as lesões apenas camuflaram o problema maior: o que diabos fazer quando todo mundo estiver saudável? Não há espaço para Prince e Hamilton se o foco da equipe por reconstruir e dar minutos para os novatos, mas haverá coragem de colocar os dois no banco de um time perdedor e ter paciência para ver os frutos surgirem daqui a dois, três anos? Acreditem ou não, as lesões tornaram a vida do técnico John Kuester mais fácil, porque ele não teve ainda que fazer nenhuma decisão mais polêmica ou complicada. Além disso, dá pra colocar a culpa pela segunda pior campanha do Leste nas contusões, sem ter que encarar o fato de que esse time, do jeito que está, sequer é melhor do que o Nets e sua famigerada briga pela pior campanha de todos os tempos. Sério, alguém já viu o garrafão do Pistons? É facilmente o pior de toda a NBA: Ben Wallace aposentado, Kwame Brown e suas mãos minúsculas (sem falar no cérebro de ostra), Chris Wilcox e sua força bruta sem tutano, e por fim Jason Maxiell, excelente para vir do banco mas misteriosamente colocado de castigo pelo técnico (provavelmente um daqueles casos de jogadores que só funcionam ajudando um time bom, como carregadores de piano, e que não seguram a responsabilidade de lidar com um garrafão sozinhos). Quando seu garrafão tem Ben Wallace e Kwame Brown, é seguro dizer que seus pontos só virão de trás da linha de três...

O medo de feder fez Joe Dumars optar por uma reconstrução rápida e indolor. Com sorte ninguém perceberia, o time conseguiria uma oitava vaga para os playoffs, e na temporada que vem tudo voltaria ao normal. A pressa, no entanto, resultou em contratações equivocadas, falta de identidade para o time, dúvidas sobre colocar a pirralhada para jogar ou não (o Wolves pediu um técnico que colocasse os novos talentos para jogar mesmo que isso custasse vitórias, e o Pistons, tem essa abordagem?), e o pior: derrotas a dar com pau. Com a derrota para o Bulls na noite de ontem, são agora 13 derrotas seguidas. Mais do que um número simbólico de azar, perder para o Bulls mostrou a cagada de contratar o Ben Gordon: o Bulls teve uma excelente partida de John Salmons, que substituiu Gordon no elenco e é um arremessador capaz de pegar rebotes e defender, e o Pistons não tinha como usar o Gordon para defender nem Derrick Rose e nem o Kirk Hinrich, que foram titulares juntos e engoliram a equipe de Detroit viva. O resultado foi o Ben Gordon mofando no banco, ao ponto do Kuester achar melhor descansar a lesão do rapaz do que colocar seu cestinha em quadra. Gastar 50 milhões por um arremessador que só faz uma coisa? Numa liga tão repleta de gente capaz de oferecer coisas parecidas? Talvez o Joe Dumars erre às vezes, criançada. Talvez ele tente correr demais volta e meia, com medo de admitir uma reconstrução, de carregar nas costas o peso de ter desmontado uma das equipes mais bacanudas e vitoriosas dos últimos anos. Mas agora vai ter que arcar com a responsabilidade de uma das piores campanhas da temporada, uma das piores sequências de derrotas, e um time sem perspectiva de melhora. Quando as lesões acabarem, o time pode até melhorar em campanha, mas é aí que os problemas vão começar de verdade: o que diabos o Pistons quer fazer da vida? Será hora de decidir. O problema vai ser perceber que Hamilton e Prince precisam sair, porque não é fácil imaginar um time que aceite os dois, tão dependentes de esquemas táticos específicos. Provavelmente alguém deveria ter pensado nisso antes...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Apagão

O Kevin Martin cobra tanto lance livre que sofre
falta até de seus companheiros de equipe



Com o apagão da terça-feira, não só tive problemas para encontrar a maldita fechadura da minha casa como também não pude acompanhar a rodada da NBA. Todos nós ficamos privados de acompanhar os jogos pela internet, e então não pudemos ver o Wizards desfacelado perder para o Heat (a lista de contundidos tem Jamison, Mike Miller e agora Randy Foye), não pudemos ver o arremesso de último segundo do Brad Miller ser anulado e o Bulls inteiro passar vergonha de ter comemorado, e não pudemos ver o Kings ganhar sua terceira partida seguida sem Kevin Martin. E por mais bizarro que possa parecer, minha real tristeza com o apagão foi realmente ter perdido a partida do Kings.

Na listinha dos meus jogadores favoritos, Kevin Martin tem um lugar especial. Não tenho fotos dele nas minhas paredes com coraçõezinhos desenhados nem nada, apenas acho o sujeito um dos jogadores mais bacanudos de se acompanhar. O problema de ser meio tiete do Kevin Martin é que, como o Kings fede muito e teve a pior campanha da temporada passada, é praticamente impossível encontrar algum jogo da equipe para assistir. Feliz com a aquisição do meu League Pass (prometo uma resenha do pacote em breve), prometi que assistiria vários jogos da porcaria do Kings para poder ver um dos meus jogadores preferidos em quadra. Mas aí ele quebrou o pulso e está fora por pelo menos 2 meses. Ou seja, parece que eu trago tanta sorte para o time que assisto quanto o Zach Randolph traz para seus companheiros de equipe (não deixe de assistir o vídeo dele quebrando a mandíbula do novato Thabeet sem querer).

Ainda assim, ao perceber que a partida entre Kings e Jazz estava disputada, resolvi dar uma espiada rápida para ver se algum mórmon já estava arrancando os cabelos. Porque perder para o Kings é uma vergonha, mas perder para o Kings sem Kevin Martin é tipo perder a batalha da audiência para o programa do Faustão sem o Faustão (exemplo ruim, talvez o programa ficasse melhor mesmo). O que encontrei, no entanto, foi um time completamente diferente, com outra postura em quadra, passes rápidos, armadores agressivos e uma vitória merecida. Tá bom que o Jazz está perdendo um punhado de partidas e ninguém sabe muito bem o porquê, mas o que me surpreendeu com o Kings sem Kevin Martin é que a equipe ficou misteriosamente divertida de se assistir. Acompanhei a partida seguinte contra o Warriors para me certificar do fenômeno, e a vitória esmagadora foi um dos jogos mais bacanas da temporada, recheado de lances plásticos e basquete bonito e bem jogado. A partida seguinte, dessa vez contra o surpreendente Thunder (também conhecido como "o time outrora conhecido como Sonics"), foi imediatamente parar no meu calendário. Eu precisava ver pela terceira vez para me certificar de que era real, mas o apagão não deixou. Enquanto eu acendia velas e tentava não queimar o meu carpete, o Kings venceu a partida e, aparentemente, deu mais um espetáculo empolgante de basquete.

O que temos aqui parece ser mais uma "síndrome de Gilbert Arenas", que conhecemos quando o Wizards melhorou um bocado assim que o Arenas se contundiu e virou farofa. A equipe passou a defender melhor, cuidar melhor da bola, vários jogadores subiram de nível e virou padrão dizer que o Arenas tornava o time pior. O ritmo não durou muito, o Wizards voltou a feder, e agora podemos ver muito bem que o time fede com o Arenas ou sem o Arenas, então dá um pouco na mesma (embora certamente qualquer time piore quando seu armador comete 12 desperdícios de bola num jogo, como aconteceu com o Arenas contra o Heat, pelo menos nisso agradecemos ao apagão por não termos visto essa atrocidade). Houve síndrome similar com o Houston, que ganhou 10 partidas seguidas na temporada retrasada quando o Yao Ming se contundiu (mas havia ganhado 12 seguidas com o Yao em quadra). Basta que uma estrela se esfarele e o time mantenha o nível ou melhore para que o universo passe a gritar que o sujeito piora a equipe. Em geral eu descarto essa ideia imediatamente, na maior parte dos casos o resto do elenco simplesmente se esforça mais para compensar a perda da estrela da equipe mas não consegue manter o nível por muito tempo. Mas com esse Kings, realmente tenho minhas dúvidas - a melhora foi mesmo muito, muito acentuada.

As três vitórias seguidas foram a primeira sequência de vitórias do Kings em um ano, e o começo de temporada com 4 vitórias e 4 derrotas é a primeira vez que o time tem aproveitamento de 50% desde 2006. Vários jogadores tiveram atuações espetaculares ao invés de ficarem relegados a segundo plano. O novato Tyreke Evans, que estava suando às bicas por não conseguir ser armador das jogadas nem a pau, simplesmente destruiu sem Kevin Martin no time. Foram 32 pontos contra o Jazz, 23 pontos e 8 rebotes contra o Warriors e 20 pontos, 8 rebotes e 8 assistências contra o Thunder. Em parte porque parece mais à vontade em quadra por poder atacar a cesta, mas principalmente porque o papel de armador ficou muito mais nas mãos de Beno Udrih, que está jogando como uma versão paraguaia do Steve Nash, abusando nos passes em ângulo e nas pontes-aéreas. Os dois juntos na armação se complementam muito bem e podem revezar suas funções sem comprometer em nenhum aspecto. Enquanto isso, Jason Thompson pegou pelo menos 10 rebotes nos três jogos, colecionando três double-doubles, e a troca do Artest começou a fazer efeito: Ron ia dar o fora da equipe de qualquer jeito, mas o Houston mandou por ele uma escolha de draft que tornou-se o Omri Casspi, israelense draftado na 23a escolha, e mais o Donte Greene, pirralho do Rockets que havia chutado traseiros nas Ligas de Verão. Casspi está se saindo muito bem na parte defensiva, puxando contra-ataques, e o Greene é um pontuador nato que sabe colocar a bola na cesta sempre que tem minutos.

Sem Kevin Martin, todo mundo começou a ter mais oportunidades, mais minutos, mais posses de bola, e a pirralhada começou a se destacar. O time ficou marcado na temporada passada como sendo fracote e assustado (para arrumar a falta de força física no garrafão, tinham draftado o excelente Spencer Hawes, que é um pivô que só arremessa da linha de três pontos), então dessa vez eles quiseram arrumar gente com vontade de dar umas trombadas, cabeçadas, pegar uns rebotes, beber uma cerveja, coçar o saco e cuspir no chão. A chegada do Nocioni foi perfeita nesse sentido, não posso imaginar alguém melhor para pular na frente de uma bala ou se jogar de um trem em movimento se isso for importante para um jogo. O sangue novo é cheio de vontade, físico e garra para defender.

O bizarro é que nada disso parece ter tido espaço para aparecer quando o Kevin Martin estava em quadra. A bola passa tanto tempo em suas mãos, ele passa tanto tempo cobrando lances livres, o ataque é tão focado nele, que é como se o resto do elenco ficasse mesmo desmotivado e desinteressado. Isso tem muito a ver com o fato de que, apesar de ser um jogador espetacular e um dos maiores pontuadores da NBA, o Kevin Martin não é um líder. Pelo contrário, ele age como se fosse um jogador qualquer, secundário, e é assim que a torcida e os noticiários tratam o rapaz. Ninguém nunca viu ele jogar, ninguém se importa que ele tem o menor salário dentre os cestinhas da NBA, que ele tem a melhor relação entre pontos e arremessos, que ele bateu um par de recordes na temporada passada. É bem diferente ficar de escanteio para deixar o Kobe jogar, ficar de lado para dar espaço para o Kevin Martin que não é tratado como estrela e nem age como tal deve ser bem decepcionante. A postura do time melhorou com um ataque mais equilibrado, distribuído, em que todo mundo tem motivo para levantar da cama toda manhã. As coisas parecem mais animadas para todo mundo.

Mas a principal mudança causada pela contusão do Kevin Martin parece ser mesmo a defesa. O novo técnico do Kings, Paul Westphaul, assumiu a equipe quando o Kurt Rumbis não topou o cargo (posteriormente ele foi levar o esquema de triângulos do Lakers para o Wolves, que continua fedendo com ele de treinador). Westphaul é famoso por criar times ofensivos que não correm muito, desenhando ataques eficientes que se seguram nos jogos e decidem as partidas no finalzinho. A defesa tem que ter um grande papel nisso, claro, mas o Kings foi o pior time defensivo da temporada passada. Por mais que eu ame o Kevin Martin e seus arremessos bizarros, seu jogo de quem parece que não sabe jogar basquete mas que acaba fazendo tudo direitinho, uma coisa que ele não faz ideia do que se trata é defesa. O time acaba sofrendo muito com isso, o Kevin Martin não apenas não sabe defender como também está sempre apanhando como a Rihanna toda vez que bate para dentro do garrafão, o que vai consumindo suas forças (e eventualmente deixa ele contundido pra valer).

Sem ele o time tem outra cara na defesa, outra intensidade nas disputas pela bola, e outro interesse nas jogadas ofensivas. O ataque passa a ser eficiente como manda os moldes do técnico Westphaul e a defesa mantém o time no jogo mesmo sem correria. É uma melhora brutal, e dessa vez não dá pra dizer que quando o Kevin Martin voltar o Kings vai ser ainda melhor. Houve uma polêmica muito grande quando o time de Sacramento resolveu construir ao redor do Kevin Martin, mas o rapaz tem um contrato bem barato para o que faz em quadra. Poucos podem pontuar como ele - e ninguém cobra mais lances livres do que o rapaz, nem o Wade com a arbitragem roubando nas Finais. Mas agora a dúvida sobre seu papel na equipe parece ficar evidente: se o Kings fede e teve a pior campanha da temporada passada com o Kevin Martin comandando o time, não seria realmente mais importante dar espaço e oportunidade para a pirralhada que a equipe tenta cultivar? Adiantaria alguma coisa continuar dando carta branca para Kevin Martin arremessar e rezando para ele ganhar jogos sozinho quando o foco precisa ser em reconstruir a equipe inteira?

Ao invés de uma "síndrome de Gilbert Arenas", em que o time melhora para compensar a estrela mas depois cansa e passa a feder, o Kings tem mesmo uma necessidade de que todo mundo tente compensar a perda do Kevin Martin mesmo que tudo feda, para que haja evolução, oportunidade, avanço. Não há qualquer ganho possível na volta de Kevin Martin às quadras, a não ser que seja num papel secundário, segurando menos a bola, pontuando menos, ficando menos em quadra. Não me entendam errado, o Kevin Martin é uma estrela e não deveria ser tão ignorado pelo resto da liga como é atualmente, mas ele está no lugar errado na horra errada. O Kings precisa que ele dê um passo para o lado, que se esconda um pouco nas sombras. Ainda que isso seja triste, porque o Kevin Martin chuta traseiros, merece ser reconhecido e eu tenho League Pass para ver o sujeito jogar, o avanço no Kings vai fazer isso valer a pena - e aí eu posso ver um basquete coletivo e divertidíssimo para curar minha ressaca. Times que fedem precisam aprender que não adianta achar que uma estrela vai salvar tudo, é preciso ter coragem de começar do zero e dar oportunidade para todo mundo, como o Wolves assumidamente está fazendo lá em Minessota. Vão perder? Vão, mas uma hora compensa. Medo de perder, medo de feder por uns tempos, acaba gerando times apressados e contratos idiotas, quem não acredita pode ir lá perguntar pro Pistons.