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domingo, 19 de dezembro de 2010

Bagos gigantes

Sam Cassell mostra o tamanho das bolas do Magic, 
que trocou dois de seus jogadores titulares

O Magic sempre mostrou que é um time disposto a arriscar. Quando o elenco parecia ter futuro e os comentários eram de que, com um grande arremessador de três pontos, eles seriam capazes de lutar pelo título, juntaram todas as moedinhas e ofereceram tudo que tinham disponível para o Rashard Lewis - na época um dos arremessadores mais badalados da NBA. O contrato foi ridículo, somando 124 milhões de dólares em 6 anos, e dá pra ter ideia do absurdo fazendo uma visita a esse site aqui, que calcula em tempo real quanto o Rashard Lewis ganhou no mundo real a partir do momento em que você entrou na página (adianto, é mais de 1 dólar por segundo). O jogador não vale tudo isso, nunca fez grandes coisas pela equipe, mas quanto você estaria disposto a pagar por um jogador que pode ser a última peça para vencer um anel? Na temporada seguinte à sua contratação, o Magic se tornou campeão do Leste e perdeu na Final da NBA para o Lakers. Não dá pra criticar a decisão.

Com a derrota, vieram novos papos. Supostamente o que faltava para ganhar o título era, então, alguém capaz de criar o próprio arremesso, decidir os jogos no final, encontrar uma bola de segurança que não fosse um arremesso de três forçado. Fizeram uma troca para conseguir Vince Carter, jogador longe de seu auge e com fama de fominha. Foi arriscado, mas o Magic preferiu apostar na imagem que o Carter construíra no ano anterior como tutor da pirralhada do New Jersey Nets. O sucesso do Carter foi moderado, por vezes parecia estragar o ritmo da equipe, por outras salvava o jogo, mas o Magic com ele chegou novamente à final do Leste - desse vez perdendo para o Celtics.

Não é estranho, portanto, que um time que chegou a duas finais de Conferência em anos consecutivos esteja sempre envolvido em tantos boatos de troca. Estão sempre dispostos a arriscar, a acrescentar uma peça final, a mudar o elenco vencedor para conseguir dar um passo a mais. É por isso que a resposta a uma fase de derrotas nessa temporada foi trocar vários jogadores - aquisições, como as de Carter e Lewis, arriscadas mas inteligentes. O Magic não tem aquela postura bizarra do Cavs da era LeBron, que trocava apenas por trocar e formou um circo de horrores, em Orlando as trocas tem uma visão de conjunto, um plano definido de qual é a identidade do time. Só trocam por quem se encaixa na brincadeira.

O primeiro passo do Magic nessa maratona de trocas anunciadas hoje foi se livrar do Rashard Lewis. Não que ele feda, como muita gente anda sugerindo recentemente. Longe disso, ele é um bom jogador, mas seu contrato vai até 2013 lhe pagando mais de 20 milhões por temporada bem quando o Magic não precisa mais de arremessadores. Todo mundo no elenco, até o garoto da água e a mãe do Dwight Howard, arremessam de três mesmo durante o sono. O processo de montar um elenco eficiente no perímetro que teria o Rashard Lewis como peça final deu tão certo, mas tão certo, que agora o Lewis é descartável. Já não fará nenhuma falta.

Em seu lugar, o Wizards manda nosso canalha favorito, Gilbert Arenas. Nos últimos anos Arenas sofreu com uma lesão, depois com a lesão resultante dele tentar voltar cedo demais para as quadras, depois com a lesão resultante dele treinar demais para se reabilitar mais rápido, e depois com a punição por ter feito uma piada com armas de fogo no vestiário (que ele ainda não engoliu muito bem e diz ter sido julgado injustamente). Faz tanto tempo que ele não pisa numa quadra de basquete que até dá pra esquecer que, uns anos atrás, ele era um dos jogadores mais fodões da NBA, cotado para ser MVP, marcando 60 pontos nos times com os quais tinha birra, e dando mais de 10 assistências por jogo em sua volta às quadras só pra provar que, se quisesse, teria fácil média de double-double como armador. Arenas era tão bom que recebeu um contrato de 111 milhões e um elenco de apoio de respeito para tentar um título do Leste, mas todo mundo do elenco se lesionou numa hora ou em outra (e quando estavam saudáveis perdiam pro Cavs de LeBron nos playoffs) e agora já era, desistiram do projeto, desmontaram o time, e já é tarde demais para o Arenas voltar e tentar fazer valer o contrato gigantesco Ele merecia esse contrato quando o Wizards queria ganhar naquela hora e acreditava em títulos, agora estão reconstruindo em volta do John Wall e o Arenas não apenas ganha dinheiro demais e é bom demais, mas também rouba minutos do novato John Wall porque jogam basicamente na mesma posição. Para o Wizards é melhor se livrar do Arenas por qualquer outro jogador que seja de outra posição e dê ideia de recomeço, de que o John Wall é a estrela, e se tiver um contrato mais curto é brinde. O Rashard Lewis tem um contrato um ano mais curto, não é metido a estrela (nem nunca foi, tem "jogador secundário" escrito na testa), e não vai roubar minutos do John Wall, pronto, tá ótimo. Enquanto isso o Arenas está jogando cada vez melhor, recuperando a forma, e pode criar o próprio arremesso como se esperava que o Carter fizesse na temporada passada. Fora que, como já provou que sabe passar a bola como armador principal, pode substituir Jameer Nelson numa das trocentas contusões anuais do garoto.

É claro que o Arenas pode pregar uma peça e envenenar a água de Orlando, exagerar e querer dar todos os arremessos finais do meio da quadra enquanto grita algo absurdo como "Colher!", e segurar demais a bola, mas é mais um risco para o Magic que simplesmente vale a pena. O Arenas tenta começar de novo e deixar as polêmicas para trás, vai querer ser bom moço na nova equipe, está cada vez em melhores condições de jogo e tem potencial para voltar a ser jogador digno de papo sobre MVP. Se fizer merda e forçar muito o jogo, não vai ser nada que o Carter já não tenha feito tantas vezes no último ano, com a vantagem de que o Arenas é mais versátil e pode jogar nas duas posições de armação.

Essa troca, além disso, permitiu que o Orlando fosse ainda mais além com seus bagos gigantes. Com a chegada do Arenas, ficaram livres para enviar o Carter para o Suns. Aproveitaram para enviar dois jogadores de valor mas que, assim como Rashard Lewis, eram cada vez mais inúteis na equipe: Mickael Pietrus e Marcin Gortat. O Pietrus era importante na equipe graças à sua defesa e às bolas de três, mas desde que o JJ Redick passou a defender o bastante para conseguir ficar em quadra e teve atuações memoráveis nos playoffs, tem tido prioridade. Já o Gortat nunca foi muito usado mesmo, mas ele teve alguns momentos brilhantes em quadra, mesmo que raros, e o Magic resolveu lhe dar um salário gordinho só para impedir que os outros times interessados contratassem o rapaz (sabe como é, pivô é raro hoje em dia). No Magic faltam oportunidades porque o Dwight Howard é o dono absoluto do garrafão e o Brandon Bass joga cada vez melhor, em especial porque ele tem um arremesso de média distância consistente e aí não bate cabeça com o Dwight. No fim, valeu a pena investir no Gortat porque ele agora virou moeda de troca, só isso. Nenhum desses jogadores, no momento, fará falta para o Magic. O risco está mesmo é no que eles recebem em troca.

Em troca de Gortat, Pietrus, Carter e uma escolha de primeiro round no draft, o Suns mandou Jason Richardson e Hedo Turkoglu, além do Earl Clark (que só vai junto porque deve ter entrado no avião sem querer). Pra mim, Jason Richardson é o jogador perfeito para o Magic atual. Sua temporada pelo Suns tem sido fantástica, seus arremessos andam precisos, seu basquete anda eficiente como nunca, ele cria o próprio arremesso, e tudo isso sem exigir a bola nas mãos. Até chega a forçar o jogo, especialmente no primeiro período (dizem que se ele domina o primeiro quarto, é certeza de que terá um jogo fodão), mas nunca segurando demais o jogor. J-Rich joga bem sem a bola em mãos, se posiciona bem no perímetro e está sempre cortando para a cesta. É o jogador ideal para continuar a tradição de arremessos de três do Magic, um especialista no quesito que já liderou a NBA mais de uma vez em bolas de 3 convertidas, mas capaz de se virar quando o perímetro não estiver funcionando - e tudo isso sem comprometer a rotação de bola e o ritmo da equipe. Com o Hedo Turkoglu o negócio é diferente, ele também arremessa bem de três mas segura muito mais a bola, gosta de jogar como armador, e agora o Magic parece ter excesso de gente assim. Mas mesmo que o turco tenha minutos limitados, já deve valer a pena. Postei no começo da temporada sobre como o estilo do Turkoglu não se encaixava com o Suns de modo algum, que ele não tinha como render lá, e que sofrera com a mesma questão em Toronto. No estilo do Magic, pelo contrário, o Turkoglu parece um bom jogador, usa suas principais qualidades. Então mesmo que seus minutos fiquem restritos pela presença de Brandon Bass, Jameer Nelson, Jason Richardson e Gilbert Arenas, será no mínimo um jogador que pode render um pouco ao invés daquela lástima que ele era no Suns, em que não rendia nada. O jogador foi salvo e o Magic ganha de volta um reforço que deve estar muito grato e já conhece todo o andamento da equipe. É arriscado porque o contrato do turco é enorme e ele pode bater cabeça com outros jogadores, mas é tentador conseguir por um preço baixo um jogador que você sabe que vai render muito mais justamente no estilo de jogo da sua equipe - e que não rende nada em nenhum outro lugar.

Pro Suns, é um alívio se livrar do Turkoglu e receber o Marcin Gortat é um motivo para ver alegria na vida outra vez. Hakim Warrick quebra um belo galho no garrafão ofensivo mas falta alguém que possa sequer se fingir de pivô desde que o Robin Lopes se contundiu. Se o Gortat for mesmo aquilo que se supunha e puder dominar na defesa enquanto contribui no ataque com enterradas e jogo físico, o Suns nem fica com tanta saudade do Amar'e e para de tomar um pau de qualquer jogador com mais de um metro e meio de altura. E se o Gortat for um jogador limitado e souber apenas levantar os braços, o garrafão do Suns também já fica imediatamente melhor - estavam numa situação tão ruim que se um torcedor sorteado fosse jogar de pivô, seria lucro. Para isso perdem J-Rich numa temporada magistral, o que é uma pena, mas o Carter tem ao menos em teoria a possibilidade de tapar o buraco. Precisa de entrosamento com o Nash, soltar a bola, correr um bocado, mas o Carter já começa se encaixando no time em um aspecto básico: ele nunca defendeu bulhufas mesmo.

O Wizards deu o último passo necessário em sua reconstrução - que pra mim foi, até agora, impecável e relâmpago - se livrando de seu melhor jogador e dando espaço para John Wall, e o Suns ainda se debate para conseguir um garrafão pós-Amar'e e vai tentar tapar o buraco do J-Rich enquanto tenta descobrir se pode sonhar com alguma coisa enquanto ainda possuem o Nash. São todas mudanças significativas, mas quem mais tinha a perder com tudo isso era o Magic, porque o Suns e o Wizards fediam enquanto o Magic é um timaço que vem de duas finais de Conferência. A equipe de Orlando tem testículos de jumentinho para arriscar a esse ponto, e pra mim só apostou em coisas que valem a pena - mesmo se derem errado.

Jameer Nelson já está confirmado como titular (enquanto não se contundir, ele nunca joga mais de 70 partidas numa temporada), Arenas já avisou que está sussa de vir do banco, então o resto do quinteto inicial deve ter Jason Richardson (no papel de Vince Carter) e Turkoglu (no papel de Rashard Lewis), com o garrafão reforçado por Brandon Bass. Subitamente o time mantém as características usuais, sua identidade como um time de arremessadores, mas todo mundo sabe criar o próprio arremesso e o garrafão fica mais forte. Gilbert Arenas pode vir do banco armando o jogo e, claro, criando as próprias situações de cesta, ao lado de JJ Redick, e nos momentos cruciais de jogo o quinteto pode ter Jameer Nelson, Arenas, J-Rich, Turkoglu de ala (como teve que jogar no Suns) e Dwight no garrafão. Lembra quando ninguém no Magic queria decidir? E a bola parecia batata quente? O Turkoglu passou a criar cestas mesmo que a contragosto, o Jameer Nelson aprendeu a bater para dentro e forçar pontos, Arenas tem história como um dos jogadores mais decisivos de sua geração, e o Jason Richardson sabe muito bem criar espaço para si mesmo. É um Magic irreconhecivel.

Passei muito tempo não levando esse Magic a sério, meio como se eles fossem um Mavericks do Leste, sabendo que eles poderiam chegar a uma Final de NBA e esfregar minha cara no troféu e mesmo assim eu sempre iria achar que tudo ia dar merda. É que acho difícil ter medo de times que se baseiam nos arremessos de três porque eles são inconstantes e é preciso ter uma bola de segurança pra quando tudo o mais falha, pra quando a água bate na bunda. Pois agora eles tem, ao menos no papel, tudo o que é necessário. Devem chegar a mais uma final de Conferência, mesmo com os inevitáveis problemas de entrosamento que surgirão nos próximos meses. E, mesmo se der tudo errado, aplaudo os bagos dos engravatados de Orlando. Essa equipe que arrisca e inova já tem, pra mim, muito mais valor do que qualquer equipe de sucesso que bate na trave e não tem coragem de mudar os rumos. Quero ser igual ao Magic quando eu crescer.

Outras equipes, como Lakers, Nets e Rockets, fizeram trocas recentemente e vamos comentar delas nos próximos dias (sei que estamos meio devagar, prometo que a gente engrena ainda esse ano). Mas pegar um time vencedor, com chances de título, e mandar embora peças tão importantes para trazer jogadores polêmicos é coisa para poucos. Só por isso, já merecia que desse certo. Bem que o Arenas poderia tentar não andar nos vestiários armado dessa vez só pra ajudar um pouco.

domingo, 10 de outubro de 2010

Preview – 2010-11 / Washington Wizards

Se o Arenas foi punido por essa piada, imagina se 
ele tirasse uma foto com um fuzil tipo o Adriano


Objetivo máximo: Voltar aos Playoffs
Não seria estranho: Ficar fora da pós-temporada por pouco
Desastre: Continuar sendo um dos piores times da NBA

Forças: Muitos jogadores jovens e talentosos e a volta de Gilbert Arenas
Fraquezas: O time é inexperiente, nunca jogou junto e a volta de Gilbert Arenas

Elenco: Veja aqui (somos incompetentes a ponto de lutar por horas com o Blogger sem conseguir colar aqui uma simples tabela que, misteriosamente, conseguimos colar normalmente nos outros Previews, mas assim que entendermos o que aconteceu voltaremos ao normal).

Técnico: Flip Saunders

O Flip Saunders é uma espécie de Rubinho Barrichello dos técnicos da NBA. Ele é muito melhor que a média geral e ganhou destaque por isso, mas nunca conseguiu ultrapassar a linha que separa os bons dos que fazem história. Ele começou sua carreira como técnico em nível universitário, mas brilhou mesmo na CBA, uma liga menor americana. Lá ele ganhou dois títulos, conseguiu promover 23 jogadores para a NBA. Em 1995 foi trabalhar nos bastidores do Minnesota Timberwolves e um ano depois assumiu o cargo de técnico do time.

Lá foi um dos responsáveis por transformar o Kevin Garnett, um pirralho magricelo recém-chegado do colegial, num dos melhores alas de força de todos os tempos. Ao lado de KG, conseguiu levar o sempre fracassado Wolves aos playoffs. Mas aí entra a parte Rubinho: foram sete anos seguidos perdendo na primeira rodada! Não era culpa de Saunders, o time sempre foi limitado, e quando ganhou os reforços de Sam Cassell e Latrell Sprewell conseguiu ir para a final do Oeste, em que perdeu para o Lakers de Kobe, Shaq, Malone e Payton.

No ano seguinte o Wolves, que fez um trabalho ridículo ao tentar renovar os contratos de Cassell e Spree, caiu de produção e Saunders foi demitido. Se mudou então para o Detroit Pistons, que vinha de duas finais de NBA consecutivas. Lá chegou a três finais do Leste, mas perdeu as três. Uma para o Heat, outra para o Cavs e a última para o Boston Celtics. A derrota para o Cavs foi bem traumática, mas nenhum resultado foi completamente absurdo. Mas mesmo assim ficou aquela sensação de Sauders falhar na hora H. Ele, sempre conhecido por seus eficientes sistemas ofensivos, foi acusado de ter feito o Pistons, especialista em defesa, piorar muito nesse quesito. De fato o Pistons não era o mesmo do tempo de Larry Brown, mas não sei quantos times na história conseguiriam manter aquele padrão quase perfeito de defesa do time de 2004 e 2005 por muito tempo.

Depois de tantas derrotas em estágios avançados ele foi demitido, o GM Joe Dumars disse que o time precisava “de uma nova voz” e o dispensou. No ano passado ele foi para o Wizards, onde não teve muita chance de mostrar seu trabalho. As contusões, a confusão e suspensão do Arenas e as trocas de Antawn Jamison e Caron Butler limitaram seu trabalho, que será realmente testado nesse ano. Na pré-temporada já está mostrando suas inovações ofensivas ao escalar nos primeiros jogos três armadores ao mesmo tempo: John Wall, Gilbert Arenas e Kirk Hinrich. Ainda não tenho opinião formada sobre o assunto porque foram só dois jogos de pré-temporada, mas o Bulls arriscou umas coisas assim ano passado com o próprio Hinrich e não deu certo por muito mais do que alguns minutos por jogo.

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Há uns três anos a gente fala que a próxima temporada é a da volta do Gilbert Arenas. Por duas vezes erramos por conta de contusões sucessivas dele e no ano passado erramos porque ele resolveu brincar com armas de fogo. Pois é, acontece de tudo nesse mundinho da NBA. Se você não lembra, pode ler sobre o acontecido nesse nosso post da época.

Nesse ano, porém, o foco não esta no novo camisa 9 do Wizards. Ele mesmo está querendo tirar de si toda a atenção, dizendo (mas nem sempre convencendo) que o time é do John Wall, que o novato é um grande talento e que ele não precisa ser mais o nome do time. Em uma ocasião o Arenas disse que queria ser um mentor para o novato e depois disse que “Ele é o Batman, eu sou o Robin”.

Por outro lado, essas declarações do Arenas e sua insistência em não parecer mais tão alegre e receptivo com a imprensa também têm chamado a atenção, criando o oposto do que ele queria e chamando mais a atenção. Acredito, no entanto, que se ele conseguir se concentrar por mais um tempo em só jogar, dar declarações vazias e deixar o jogo do John Wall chamar a atenção, ele irá conseguir o sossego que deseja. Eu não sei se isso é bom para os torcedores, que perderiam um dos caras mais divertidos e que dá algumas das declarações que mais fogem do lugar-comum, mas talvez fosse bom para o próprio jogador. Difícil é saber se ele vai conseguir se segurar.

Uma grande vantagem do Wizards sobre outros times nessa temporada é que eles não estão sentindo tanta pressão. O time é jovem e os anos anteriores foram tão desastrosos que basta um sinal de melhora que tudo está ótimo, não há pressão para playoffs, passar da primeira rodada ou algo do tipo, como existia com o trio Arenas-Butler-Jamison. Essa pressão menor também ajudará o técnico Flip Saunders a resolver algumas questões difíceis na montagem do time titular.

O armador titular é claro que é John Wall, disso não há dúvida. Também parece óbvio que Gilbert Arenas será o segundo armador. Não só ele já jogou nessa posição e tem tudo para se adaptar com sucesso como colocá-lo no banco poderia trazer uma dor de cabeça desnecessária nesse começo de temporada, talvez mais pra frente. Mas depois disso começam as dúvidas. Kirk Hinrich joga nessas duas posições já ocupadas, mas tem talento para ser titular em qualquer time da liga, talvez por isso está sendo bem improvisado de ala nesse começo de pré-temporada. Uma estratégia meio Don Nelson que exige adaptação do adversário mas que tem uma série de falhas. Além dele, podem jogar na posição Josh Howard, que pode ser muito bom quando está focado, e Al Thornton, que apareceu bem no Wizards depois de vir do Clippers no meio da última temporada. Nenhum dos dois, porém, jogou bem a ponto de convencer como titular absoluto.

Na posição de ala de força a situação é parecida. Yi Jianlian e Andray Blatche já tiveram momentos muito bons e outros péssimos em suas jovens carreiras, os dois precisam de tempo e regularidade para mostrarem o que sabem mas só um pode ser titular. Até já improvisaram o Blatche de pivô algumas vezes, mas tudo o que ele não precisa é ficar quebrando galho nesse ponto de sua carreira. Pelo ótimo fim de temporada passada acho que Blatche ganha a vaga de titular, mas a briga está aberta, o Wizards até já se mostrou disposto a oferecer uma extensão de contrato para o chinês.

A posição de pivô, que era a que mais teve brigas nos últimos antes, principalmente entre Etan Thomas e Brendan Haywood, agora tem dono: JaValle McGee. Além de ser All-Star na categoria força nominal, é um jogador bom e promissor. Com tempo de quadra para pegar o ritmo deve refinar um pouco mais o seu jogo e poderá se tornar uma espécie de Tyson Chandler: bem atlético, especialista em tocos, mas no ataque ajudando só nas pontes-aéreas. Não é nada fantástico, mas o bastante se o resto do time for bom. No fim da temporada passada ele já teve uns jogos muito bons, será legal ver ele se desenvolver nessa temporada.

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Na temporada passada nós fizemos aqui um perfil de Abe Polin, antigo dono do Wizards que morreu no ano passado. Depois de sua morte o time ficou nas mãos da mulher de Polin, e então foi vendido à empresa de Ted Leonsis, que já havia sido dono de uma parte do Wizards um tempo atrás (ele foi o cara que vendeu sua parte para Michael Jordan em 2000).

Querendo renovar completamente a equipe, Leonsis fez uma lista de 101 coisas que devem mudar na equipe a partir dessa temporada. E o mais legal é que você pode ver a lista completa no site dele! É só clicar aqui. A lista envolve tudo, desde coisas como “draftar e desenvolver jogadores internacionais” e “manter a relação do time com a família Polin e suas obras de caridade” até “pizzas mais quentes” e “pipocas sempre frescas”. Os banheiros agora estão reformados, eles servem comida vegetariana no ginásio e até está na lista a idéia do time voltar a se chamar Washington Bullets. De John Wall a comida vegetariana é quase tudo novo em Washington.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pisou na merda, abre os dedos

Jamison deixava jogadores do Cavs sangrando no
chão, agora tem que ser miguxo do LeBron


Primeiro o Arenas foi suspenso pela piadinha com armas de fogo. Depois, Caron Butler (junto com o Haywood) foi trocado para o Mavs e agora, para finalizar, Antawn Jamison foi trocado para o Cavs. Não sobrou nenhum dos três ex-jogadores de All-Star para contar história num time que, ao menos no papel, era colocado por todo mundo como um dos favoritos para brigar pelo título do Leste. Enquanto quase todos os times da NBA ficariam batendo a cabeça na parede, insistindo num erro por medo de se queimar com os torcedores, o Wizards resolveu desmontar a equipe inteira assim que percebeu que o trio não iria adiantar para levar o time ao topo. Uma decisão segura seria dizer que, novamente, o trio não passou tempo o bastante jogando junto, colocar a culpa na mudança de técnico, esperar Arenas voltar temporada que vem e tentar de novo, de novo e de novo. Mas o Wizards não quis ser novamente um time mediano, compreendeu as limitações que os três All-Star juntos enfrentavam em quadra, e teve a coragem de começar de novo. Essa coragem falta para muitos times que acabam ficando para sempre naquele limbo do meio da tabela, lutando pelos playoffs ou conseguindo as últimas vagas, sem nunca ter chance de vencer de verdade. O único modo de transformar essa situação é reconstruir o time, feder por uns tempos, conseguir escolhas de draft, dar minutos para os pirralhos. Mas como explicar para o torcedor apaixonado que o time bom pra burro, mas não bom o bastante, vai ser jogado no lixo e o time vai feder por uns anos? Como explicar caso uma equipe que já chegou a competir por títulos comece a namorar com a pior campanha de todos os tempos? O Nets poderia muito bem ter mantido vários de seus jogadores e ficado no mais-ou-menos pra não passar vergonha, mas essa campanha horrorosa uma hora vai dar frutos.

O Pistons teve esse medo de feder para os torcedores, o Joe Dumars quis concertar tudo muito rápido para que não houvesse um período de reconstrução, e o resultado foi um time que não consegue se livrar de Richard Hamilton, contratou lixos como Ben Gordon e Villanueva, e não tem identidade. Pra quê tanto medo de feder? O passo do Wizards rumo à lama é a coisa mais inteligente e corajosa que a equipe poderia ter feito. Eles já estavam na merda mesmo, o melhor é abrir os dedos, garantir uma boa escolha de draft, construir um time inteiro do nada de acordo com as preferências do novo técnico (ao invés de ter que fazer o técnico suar para colocar um padrão numa equipe aleatória já montada) e dar minutos para a pirralhada jogar.

Como o Wizards não tem dado certo nos últimos anos, o time arrumou um bom número de fedelhos com potencial. O Arenas dizia que o Nick Young lembrava o Kobe quando entrou na NBA e seria uma estrela, Andray Blatche é um ala cheio de potencial que domina ligas de verão e há anos todo mundo espera ver ele estourar, e JaVale McGee é um pivô enorme, magrelo e completamente cru com capacidade para dominar na defesa. Nenhum deles tinha muitas oportunidades de jogo estando atrás de Butler, Jamison e Haywood, respectivamente, e apesar dos três terem se saído bem nas constantes contusões da equipe, nunca tiveram minutos suficientes para conseguir alguma consistência. Agora isso mudou: Blatche e McGee formam o garrafão titular da equipe, enquanto Nick Young ganha sua chance ao lado do Josh Howard, que chegou na troca do Butler desacreditado por não ter se tornado aquilo que se esperava dele - embora o potencial ainda esteja lá. Mesma coisa com o Al Thornton, que parecia um dos jogadores mais promissores do Clippers até que a comissão técnica foi ficando mais e mais descontente com seu jogo e ele foi mofar no banco.

São todos jogadores com potencial, terrivelmente inconstantes, tendo a oportunidade de suas vidas. Precisam mostrar que têm valor, precisam mostrar que conseguem aprender jogo após jogo, e que rendem quando recebem minutos. Enquanto eles se desenvolvem, a temporada vai pro saco e o próximo draft rende algum outro jogador de potencial para ajudar a equipe. Quando o técnico tiver decidido quem tem chances de permanecer na equipe e decidir por uma cara para o time, basta ir atrás de talentos veteranos, com a grana economizada, que se encaixem na nova formação tática. Sem pressa, com coragem de botar os fedelhos no fogo e dinheiro para gastar apenas quando o time já tiver alguma identidade, o processo de reconstrução do Wizards vai acabar sendo rápido e indolor. Prova disso é ver todos os jogadores cheirando a fralda do time jogando como se suas vidas dependessem disso, se atirando em todas as bolas, bebendo sangue nos intervalos de jogo. Foram duas vítórias nas últimas duas partidas, com atuações impressionantes de Blatche (33 pontos e 13 rebotes contra o Wolves, 18 pontos e 11 rebotes contra o Nuggets) e de McGee (14 pontos, 11 rebotes, 5 tocos contra o Wolves, 9 pontos, 7 rebotes e 3 tocos contra o Nuggets). Enquanto Butler e Jamison, estrelas consagradas, jogavam com aquela tristeza de quem perdeu a temporada e não tem motivo para se esforçar, o sangue jovem do Wizards joga pelo seu futuro e engoliu o Nuggets ontem na raça, mesmo quase tacando o jogo fora no final.

Para o Jamison, por mais que ele se dissesse feliz com o Wizards, com os companheiros, a cidade e os dirigentes, a temporada já não valia mais nada. Era só uma perda de tempo até que o Arenas voltasse temporada que vem, uma torcida para que o resto do time não desmontasse com contusões. No Cavs, agora ele volta a jogar como se pudesse ganhar um campeonato, como se seus resultados realmente importassem. O problema é que ele está tentando mostrar serviço num time que aprendeu, nos últimos anos, a odiá-lo loucamente.

A NBA anda meio morna com rivalidades ultimamente (a mais recente é Hawks e Celtics), e as brigas nas partidas entre Wizards e Cavs eram a coisa mais animada que existia nesse sentido nos últimos anos. É uma rivalidade meio fajuta porque o Cavs sempre ganha, mas o Wizards joga sério, dá porrada, xinga, enlouquece, e depois perde. Dizem que a rivalidade foi o principal motivo do Wizards ter tentado evitar a troca, e agora é o Jamison quem está sentido o peso dela. Não é como se ele fosse chegar em Cleveland e de reBoldpente ser amiguinho de todo mundo, como se não tivessem se odiado tanto há anos. Mo Williams, Shaq e LeBron ignoraram Jamison várias vezes quando ele estava sozinho para o arremesso, o Jamison foi ajudar o LeBron a se levantar e a estrela do Cavs fingiu que não notou, e o Delonte West deu a maior fria no Jamison depois de lhe mandar um passe horrível, impossível de pegar. O clima não é dos melhores, é bem óbvio que todo mundo na equipe ainda se lembra das tretas com o Wizards, o LeBron estava torcendo para conseguir o Amar'e, e o Jamison arremessar 12 bolas para tentar ser querido (e errar todas elas) não ajudou muita coisa. Pior ainda foi o Cavs ter saído de quadra com a derrota e o Jamison ter falhado tão miseravelmente na defesa em momentos importantes do jogo.

Vai levar um tempo para o Cavs se acostumar com o Jamison, perceber que ele é valioso para a equipe e, principalmente, que ele foi uma escolha melhor do que o Amar'e seria. Talvez surjam muitas derrotas até o Jamison se encaixar bem no estilo de jogo do Cavs, aprender a defender em conjunto, ser mais discreto em quadra, mas eventualmente vai dar muito certo e o LeBron vai ter percebido que os engravatados do time não poupam dinheiro para ficar acima do teto salarial e conseguir quem for para melhorar suas chances de título. Será que ofereceriam tanta grana para ser paga em multas em qualquer outro time da NBA, tipo o Knicks, que anda recheado de dívidas?

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Agora ou nunca

Jamison é um prato cheio pra quem gosta de fazer montagens pornográficas

Na terça-feira falamos sobre a troca que o Wizards fez mandando o Caron Butler para Dallas, ontem falamos do Clippers mandando o Marcus Camby para Portland e ontem à noite foi a vez dos dois times, contando com a ajuda do Cavs, terminarem o desmonte de suas equipes pensando no mercado de Free Agents do ano que vem.

No começo da noite passada Danny Ferry, general manager do Cleveland Cavaliers, ligou uma última vez para Steve Kerr, manager do Phoenix Suns, para saber como estava a situação de Amar'e Stoudemire. Ao saber que de lá não ia sair mais nada, decidiu partir para a segunda opção e fechou uma troca com o Washington Wizards e o Los Angeles Clippers. No saldo final da troca o Wizards perdeu Antawn Jamison e em troca recebeu Zydrunas Ilgauskas, Al Thornton e uma escolha de draft do Cavs, que por sua vez perdeu Ilgauskas e levou pra Cleveland Antawn Jamison e o armador Sebastian Telfair. O Clippers perdeu Thornton e recebeu em troca o Drew Gooden, que, trocado mais uma vez, pelo segundo dia seguido, é o novo Quentin Richardson da NBA.

Vamos analisar essa troca por partes:

Cleveland Cavaliers
Apesar da melhor campanha da NBA, o Cleveland sentia que precisava mudar alguma coisa para chegar ao título, um aprendizado da temporada passada quando terminaram a temporada regular com o maior número de vitórias e depois caíram diante do Orlando Magic porque não tinham ninguém para marcar o Rashard Lewis na defesa e ninguém com bolas no saco para chamar o jogo no ataque além do LeBron James.

Com essa troca o Cavs consegue um cara muito parecido com o Rashard Lewis, que não só poderá marcá-lo como poderá fazer o mesmo estrago no ataque. Jamison é um dos poucos alas de força que tem um arremesso preciso de longa distância sem perder o poder ofensivo dentro do garrafão. Lá perto da cesta ele não é um cara de força, mas com sua finesse consegue os pontos que quer. Imagino que no Cavs ele possa ser útil dos dois jeitos, pode ficar longe da cesta abrindo espaço para as infiltrações do LeBron e para o trabalho do Shaq, enquanto pode ir lá dentro quando estiver sendo marcado por alguém mais baixo.

Essa estratégia de deixar um arremessador do lado do Shaq para se aproveitar da atenção que o pivô chama lá perto da cesta já estava sendo usada quando o técnico Mike Brown colocava Shaq e Ilgauskas ao mesmo tempo em quadra. Até dava certo, mas o time ficava muito lento e apanhava de garrafões mais jovens e atléticos. Com Jamison, muito mais veloz que o Big Z, esse problema fica amenizado.

Apesar de consagrado como ala de força, o Jamison é ágil e rápido o bastante para jogar na posição 3, isso daria ainda mais opções para o Cavs enfrentar qualquer outro tipo de oponente. Podem montar um time alto e rápido com Mo Williams, LeBron, Jamison, Hickson e Varejão, ou um time baixo e cheio de arremessadores e um pivozão no meio com Mo, Delonte West, LeBron, Jamison e Shaq. Ou seja, Jamison é um cara talentoso, experiente e versátil que chega em um time que já tinha jogadores o bastante para montar várias formações diferentes capazes de se adaptar a qualquer time da NBA.

Se no ano passado faltava alguém para lidar com Rashard Lewis e os matchups estranhos do Magic, agora não tem mais essa desculpa. Se na última derrota faltou gente experiente para chamar o jogo além do LeBron, agora eles tem toneladas de experiência com Jamison e Shaq. Podem dizer que o Jamison era a segunda opção, mas acho que era melhor do que a primeira. Se o Cavs pegasse o Amar'e eles reuniriam a dupla Stoudemire e Shaq no garrafão, uma dupla que já não deu certo no ano passado em Phoenix, não existia razão para dar certo dessa vez. Além disso teriam que mandar o promissor JJ Hickson para o Suns, uma das condições primordiais da troca, e nessa com o Wizards eles só perderam o Ilgauskas, que ainda poderá ser dispensado do Washington e voltar para Cleveland daqui 30 dias.

Washington Wizards
Um fato curioso dessa troca é que a discussão está na mesa há semanas e o Wizards estava muito relutante em fazê-la. Não porque não queriam perder o Jamison, mas porque não queriam ajudar tanto o Cavs a serem campeões devido à rivalidade entre as duas equipes que se criou nos últimos anos. Não deve ser legal ajudar um rival mesmo, mas o Wizards deve ter pensado que a rivalidade já é coisa do passado já que eles nem conseguem mais ir para os playoffs perder do Cavs.

Falou mais alto a vontade de limpar o máximo de espaço salarial para a temporada que vem. Já que ninguém quer o Gilbert Arenas, que troquem todo o resto que ainda tem valor de mercado e comecem do zero.

Quem ficou bastante magoado com tudo isso foi o próprio Antawn Jamison. Ele tinha uma relação bastante profunda com a franquia, desde os donos, torcedores, cidade, até com o resto dos jogadores e funcionários. Era o capitão da equipe, o mais experiente e foi a voz dos jogadores e elo entre eles e a torcida e direção da equipe durante todo o escândalo do Arenas com o Javaris Critentton e suas armas. Ontem, ao saber da troca, perguntaram pra ele se tinha alguma mensagem para os fãs, ele respondeu apenas "Eu amo mais eles do que eles me amam".

É interessante essa reação do Jamison um dia depois do Camby também ter ficado triste de ter saído do Clippers. Nos dois casos são jogadores muito bons que estavam afundando com equipes terríveis e foram trocados para potências de suas conferências. Mesmo assim os dois não esconderam a tristeza de deixar um time e uma cidade com quem tinham profunda relação. Claro que não vão reclamar de finalmente voltar a vencer alguns joguinhos (e talvez um campeonato), mas é legal ver a relação que alguns jogadores criam com seus times.

Em termos de basquete o Wizards é hoje um time pior do que era antes da troca, claro, mas é uma chance da pivetada ter minutos de sobra pra mostrar quem deve ou não continuar no time. Ontem o pivô JaValle McGee, que herdou a titularidade do Brendan Haywood, e o Andray Blatche, que é o novo titular no lugar do Jamison, fizeram grandes partidas. Randy Foye e Nick Young tem a chance de suas carreiras agora também.

A troca foi feita por questões de dinheiro e a partir de agora a equipe tem para o ano que vem apenas 7 contratos garantidos: Gilbert Arenas, Randy Foye, Andray Blatche, Nick Young, JaValle McGee, Quinton Ross e o outro cara que chegou na troca, Al Thornton, que, assim como os outro jovens da equipe, terá meia temporada para se firmar na equipe depois de ficar encostado no Clippers.

Isso significa que eles tem um contrato monstro com o Arenas, um bando de pivete barato e um bom espaço para contratar pelo menos um cara espetacular. Se é que algum cara espetacular quer se arriscar nesse time que deu errado até com 3 All-Stars jogando ao mesmo tempo.

Los Angeles Clippers
A troca do Al Thornton é um grande mistério. Ele jogou muito no seu primeiro ano como novato, jogou melhor ainda no ano passado e nesse ano ficou completamente de lado no Clippers. Perdeu a vaga de titular, seus minutos e números despencaram e, de repente, o manager Mike Dunleavy disse que eles estavam fazendo de tudo para trocá-lo afim de liberar espaço salarial.

Conseguiram fazer isso ontem e ao mesmo tempo se livraram do contrato do Sebastian Telfair. Os dois juntos somavam pouco mais de 5 milhões de dólares em salário, são jovens e bons, não é como se os dois carregassem contratos imbecis como o do Jared Jeffries ou do Eddy Curry, juro que não entendo o desespero de se livrar tão rapidamente de um jogador que até outro dia era uma peça tão valiosa em troca de nada além de espaço salarial.

Em dois dias o Clippers perdeu Marcus Camby e Al Thornton e em troca só ganhou a chance de poder oferecer contratos enormes na próxima offseason. Mas e daí? Quantos Free Agents bons você já viu com vontade de ir para o Clippers? No passado recente eu só lembro do Baron Davis, e dizem que foi só porque ele queria ficar perto do estúdio de cinema que ele comprou em Los Angeles. Assim como dissemos ontem em relação à troca do Camby, o Clippers perdeu com o Thornton uma boa chance de receber em troca escolhas de draft ou jogadores novos para reconstruir o time.

O resumo dessa troca é que dois times fizeram mudanças para desmontar o resto de seus times ruins e se preparar para a próxima offseason, o outro já tinha a melhor campanha da liga e conseguiu adicionar um All-Star em troca de um pivô reserva, um fatality. Se o Cavs for campeão, que mande pelo menos uma réplica do anel para Wizards e Clippers, se não for campeão, aí adeus LeBron. Se nem com um elenco monstruoso ele consegue alguma coisa por lá, é bem provável que vá embora.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Botão do apocalipse

Caron Butler chora uma lágrima de sangue pelos seus companheiros do Wizards


Durante o fim de semana do All-Star, o Wizards resolveu apertar o botão do apocalipse. Com 17 vitórias e 33 derrotas, o time tem a segunda pior campanha do Leste e a quarta pior de toda a NBA. A equipe aturou o Gilbert Arenas contundido por muito tempo com a esperança de que, com ele de volta, pudesse competir pelo título do Leste. Afinal, Arenas, Jamison e Caron Butler são todos All-Stars e não é qualquer time que consegue ter tantas estrelas juntas ao mesmo tempo. Mas nessa temporada o Wizards aprendeu duas coisas: a primeira é que contar com o Arenas é impossível, porque ou ele vai estar contundido ou vai ter caído numa piscina de xarope, bebido água da privada ou colocado pó-de-mico na cueca de algum companheiro de equipe. A segunda coisa é que nas raras vezes em que Arenas, Butler e Jamison estão juntos em quadra, eles simplesmente não são muito bons. Falta de química, entrosamento, esforço, defesa, não faltam razões para o fracasso de um trio que parece nunca ter entendido o papel de cada um em quadra e que nunca se levou muito a sério. Vendo que não adiantava esperar pela volta do Arenas, então, o Wizards criou um par de bagos, esgotou a paciência, apertou o botão do apocalipse e resolveu se livrar dos jogadores. Como o Arenas ganha 16 milhões e o Jamison ganha 11 milhões (e vai ganhar 15 num contrato que dura ainda mais duas temporadas, fora essa) só sobrou o Caron Butler para interessar algum time na NBA.

Com o Butler no mercado, o Mavs ficou com água na boca. Adicionar o Gooden e o Shawn Marion não adiantou bulhufas particularmente porque o resto do time não defende grandes coisas e porque o Josh Howard cai de produção mais e mais a cada ano. Não faz muito tempo ele era um pontuador excelente com momentos geniais na defesa, com roubos e tocos decisivos e potencial ilimitado. Mas depois de sua polêmica afirmação de que fumava maconha nas férias, problemas com a torcida do Mavs e uma complicada cirurgia no tornozelo durante as férias, ele nunca mais foi o mesmo, joga sem vontade e parece um jogador comum com um salário muito gordo. Trocá-lo por um ladrão de bolas (talvez o melhor de toda a NBA) com mais talento ofensivo que o Josh Howard não foi uma decisão difícil, até o Isiah Thomas conseguiria acertar nessa.

De brinde, o Wizards ainda mandou DeShawn Stevenson, que está velho, se acha a última bolacha do pacote, mas ainda é um defensor razoável, e o Brandon Haywood, que é um ótimo defensor no garrafão e tem tudo para acompanhar melhor o ritmo do Mavs no jogo de transição. O atual pivô do time, Erick Dampier, tem cada vez mais problemas nos joelhos e precisa ser poupado em jogos seguidos, então a chegada do Haywood é essencial para o garrafão do Mavs. O Dampier até que quebra um belo de um galho, especialmente com a ajuda de Jason Kidd (que faz qualquer um render melhor no ataque), e bem provavelmente vai continuar sendo o titular da equipe. Mas o Haywood vai acabar tendo mais minutos do que ele, porque embora nunca tenha sido um gênio nos rebotes, sempre teve um bom tempo de bola e pés bem rápidos na defesa. O pessoal em Dallas já fala de planos de usar os dois ao mesmo tempo contra garrafões mais fortes, o que torna a equipe muito mais versátil.

Para isso, o Mavs teve que perder também o Drew Gooden, mas ele não faz falta para a equipe. O Gooden é muito bom, mas o coitado sempre teve que jogar improvisado a vida inteira. No Grizzlies, equipe que o draftou, tinha que jogar de ala-armador porque não tinha outro mané para ocupar a vaga (o coitado teve que aprender a arremessar de três, sem sucesso), no Cavs e no Mavs tinha que quase sempre jogar de pivô para tapar buraco. Seu jogo sofre muito embaixo da cesta, ele prefere ficar nos arremessos de média distância, mas no Mavs seu talento nos arremessos era meio inútil frente à quantidade de arremessadores na equipe, especialmente o Nowitzki que também joga fora do garrafão sempre que pode. O resultado era o Gooden sendo pago para brigar por rebotes e defender o aro, coisa que ele não faz muito bem e que Haywood vai executar com muito mais facilidade. O Mavs manda também o Quinton Ross, bom defensor de perímetro, e o James Singleton, um ala brigador para dar pancada quando tiver briga com a torcida ou quando alguém não pagar uma dívida.

Pro Wizards, a troca é para começar de novo. Os contratos de Ross e Singleton são praticamente simbólicos e, assim como os contratos de Drew Gooden e Josh Howard, terminam nessa temporada. De repente, com apenas uma troca, o time entra na brincadeira para contratar alguém na imensidão de estrelas que estarão desempregadas ao fim dessa temporada. É um excelente ano para reconstruir, tendo em vista a quantidade de talento disponível, e o Wizards vai ter uma graninha para tentar a sorte. E, por enquanto, só pra não perder demais, fica torcendo para o Josh Howard mostrar que todo o potencial que se via nele não foi ilusão de óptica.

Na tentativa de reconstruir a equipe antes que se diga parangaricutirimirruaru, o Jamison também está disponível para ser trocado e, se conseguirem mandá-lo por mais contratos expirantes, o Wizards vai poder construir um time inteirinho novo com a grana. Mas vai ter que ser em volta do Arenas, porque dele não vai dar pra se livrar. Já cogitam que o Jamison vá para o Cavs ou para o Celtics, por exemplo.

Essa é uma daquelas trocas que pode parecer um assalto, mas que deixa os dois lados felizes. O Mavs se transformou num time muito mais forte. Agora Shawn Marion, Butler e Haywood podem tornar o Mavs uma equipe mais defensiva, Butler vai render tudo aquilo que se esperava de Josh Howard no ataque para desafogar Nowitzki (que não é das estrelas mais constantes em pontos), e o garrafão fica mais versátil porque terá dois jogadores capazes de brigar lá dentro, ao invés de ter um ala improvisado. Ainda acho que não é o bastante para que o Mavs pense em título, mas a aquisição de Haywood é essencial para um eventual confronto com Lakers e Nuggets, donos de um garrafão que faz todo o resto do Oeste fazer xixi na cama. O Mavs tem agora um elenco muito mais forte do que tinha na temporada passada, prova de que seu dono Mark Cuban não poupa verdinhas em busca de um título. O teto salarial dessa temporada é de 57 milhões, e o Mavs passa a pagar 90 milhões! São mais de 30 milhões acima do limite, o que resulta em 30 milhões a mais gastos só com multas (daria pra estacionar uma caralhada de carros fora da vaga). Com o esquema tático favorecendo um pouco mais Jason Kidd e um elenco cada vez mais grandioso ao seu lado, esse Mavs deve ser levado a sério, ao contrário de ser um time invisível que todo mundo sabe que não dá em nada como era até pouco tempo atrás. Ainda não acredito, sou um incrédulo infiel sujo, mas quero mais é que essa equipe prove que estou enganado. Agora, ao menos levo o time a sério. Vai demorar um pouco para todas as peças encaixarem, Haywood e Butler não conseguiram treinar com a equipe ainda, e nesse Oeste mais disputado do que mulher sem gonorreia no carnaval é bem capaz que percam várias posições na tabela, mas para os playoffs estarão firmes e fortes. Enquanto o Wizards assiste tudo em casa, tentando garantir que o Arenas não apronte nenhuma e convencendo alguma outra estrela para jogar com o armador. Vai ser difícil, mas pelo menos foi corajoso - melhor do que o Pistons que não decide se renova ou não renova, manteve o Hamilton e torrou a grana antes de poder brincar na temporada que vem. Funhé.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Jogadores debaixo do tapete

"Não penso, logo não existo?"


Num incrível passe de mágica, Gilbert Arenas está desaparecendo. Após ter (se os relatos estão corretos) levado armas sem munição para o vestiário do Wizards, oferecido uma a seu colega Javaris Crittenton como piada, e depois tirado sarro de toda a situação apontando os dedos como se fossem armas para sua equipe numa apresentação do time, qualquer coisa que lembre o Gilbert Arenas está desaparecendo na miúda. Suas fotos sumiram dos produtos do Wizards, um banner com seu rosto desapareceu da entrada do ginásio, sua camiseta não é mais vendida nas lojas e imagens de suas jogadas foram retiradas do vídeo de introdução da equipe. Arenas não teria sido tão eficiente em sumir do mapa nem se tivesse forjado a própria morte (o Elvis está aí pra provar, já que até hoje a gente sabe muito bem que ele não morreu coisa nenhuma e está aproveitando férias no Havaí com o Tupac). Era de se supor que, após a suspensão "por tempo indeterminado" ditada por David Stern, o Wizards brigasse para ter sua estrela de volta às quadras. Pelo contrário, a equipe está feliz da vida de se livrar do armador. Feliz o bastante para apagar quaisquer vestígios de que Gilbert Arenas um dia tenha chegado a acontecer.

O Denis já debateu bem o caso e, realmente, armas são feitas para matar gente e é um tanto imbecil levá-las para o vestiário do seu trabalho, ainda que sob pretexto de tirá-las de casa e de perto dos seu filhos (que tal dar a arma pra polícia e pronto, não ter mais que lidar com isso?). No entanto, é estranho como o caso provocou tanto horror e uma suspensão brutal justamente numa cultura obcecada por armas, em que você pode comprar munição no mercado ali do lado do leite , com grupos de adoradores de armamentos e uma série de leis que favorecem o porte. Armas estão de tal modo dentro da cultura americana que uma longa lista de jogadores estão ou estiveram envolvidos em casos de porte ou utilização de armas de fogo, sem que ninguém sofresse punições muito severas. Escrevi um longo post sobre o Delonte West, que foi parado pela polícia e calhou de estar com duas pistolas no corpo e uma shotgun escondida numa mala para guitarras, não exatamente o tipo de coisa que você leva para tocar no aniversário da sua sobrinha. Não houve qualquer grande medida por parte da NBA, mesmo estando todas as armas repletas de munição, enquanto o Stephen Jackson foi suspenso por 7 jogos depois de ter dado vários disparos depois de uma briga numa boate. O Jamaal Tinlsey também já se meteu em mais tiroteios do que o Charles Bronson, tendo sido suspenso um par de vezes (e dando uns depoimentos engraçados, porque ele realmente acha que é normal pra qualquer cidadão se meter em conflitos armados de duas a três vezes por semana), mas nunca nada grave.

A atitude do Arenas foi uma merda, armas não são bolacha Passatempo ou revistas de mulher pelada pra ficarem no armário do trabalho, e piadas com troços letais sempre dão algum tipo de merda. Mas a mensagem que eu estou recebendo aqui é que você não pode ser burro e fazer uma piada imbecil, sob pena de ser banido da NBA, enquanto está tudo bem dar uns balaços para o alto ou em outras pessoas em confrontos quaisquer mundo afora. David Stern ainda não decidiu nada sobre Javaris Crittenton, que pelo jeito respondeu à piada do Arenas sacando sua própria arma e dando um tiro para cima no ginásio, alegando que aguardará o término das investigações. Mas o Arenas foi suspenso sem espaço para reclamações, simplesmente porque tirou sarro da situação. O Jamaal Tinsley nunca tiraria sarro de um tiroteio, o negócio pra ele é real, sua cabeça parece estar sempre a prêmio e ele vive essa realidade tão barra-pesada e distante que o David Stern quer fingir que não existe. Mas o Arenas não, é apenas um garoto entediado, fazendo piadas no seu blog e no Twitter, tão distante desse lance de armas e balas na periferia que não pode deixar de tirar sarro dessa imagem de bandido maluco favelado que tentaram colocar nele. Se o esteriótipo já é uma besteira para qualquer um, deve ser ainda mais ridículo para um garoto mimado que não fez outra coisa além de jogar videogame enquanto esperava seu joelho se recuperar. A brincadeira com as armas foi idiota, a piada com a imagem que a mídia lhe criou foi ingênua (todo mundo sabia que o também entediado mas poderoso David Stern ia ficar bravinho), mas a punição foi totalmente descabida. Jogadores que usaram suas armas de fogo contra outras pessoas estão jogando por aí. Jogadores acusados e condenados por correr demais, acidentes de carro, dirigir alcoolizado. Li recentemente que, pego em excesso de velocidade, LeBron James disse rindo que estava apenas com sono e queria ir pra casa dormir. É claro que ele nunca seria suspenso, o David Stern é burro mas não é bobo.

Uma cagada não anula a outra. O que o Arenas fez foi uma besteira, mas isso não quer dizer que qualquer ação por parte do David Stern é justificável, a besteira do nosso engravatado favorito não pode passar despercebida apenas porque todo mundo quer tacar cocô no Arenas. Aliás, qualquer medida da sua parte seria uma besteira descabida, o que a NBA tem a ver com a parte legal e judicial de seus jogadores? Deixem Arenas ser acusado, sentenciado e preso por transporte e porte de armas de fogo em Washington como está prestes a acontecer, pronto. Deixe JR Smith passar 60 dias na cadeia por causar, em alta velocidade, o acidente de carro que matou seu melhor amigo. Por que a NBA insiste em se meter nesse tipo de questão? Qual a relação entre basquetebol e o babaca ter dirigido bêbado na noite de ontem? Outros âmbitos são responsáveis por isso, é preciso haver uma separação urgente, antes que David Stern comece a pedir currículos para decidir se um jogador pode participar do draft: só poderão ser escolhidos aqueles que forem brancos, protestantes, não fumarem, não beberem e não saírem de casa depois das 21h (os chineses também podem, eles dão dinheiro).

Voltando ao mundo do basquete, o mais curioso nesse lance do Arenas é o Wizards estar desaparecendo com o seu jogador. Pelo jeito, estão apenas aguardando, com água na boca, o David Stern deixar que eles invalidem o contrato do armador. O motivo é simples: ao pagar 111 milhões num contrato de 6 anos, a franquia esperava não apenas um jogador que levasse o Wizards ao topo do Leste, mas também o jogador mais carismático e vendável da NBA. O que acontece é que esse pirralho bocudo perde o amigo mas não perde a piada, o que não é lá muito vendável. Quanto mais declarações bem-humoradas, mais gente passava a ficar ofendida com alguma coisa (a gente aqui no Bola Presa descobriu, desde muito cedo, que o humor sempre está ofendendo alguém que você nem imagina, basta tirar sarro de andorinhas e o Sindicato dos Adoradores de Andorinha entra em contato por e-mail) e aos poucos o Arenas foi deixando de ser unanimidade. Muita gente meteu o pau no Arenas até por falar demais - como se a gente não falasse demais em todos os veículos que nos dão voz, até no "Fala que eu escuto" às 3h na Record - porque seu papel na vida é jogar. Só que jogar com o joelho transformado em poeira fica difícil, então os 111 milhões não serviam nem para ter um garoto-propaganda bacana nem pra ter um jogador em quadra. Talvez quando ele ficar saudável tudo valha a pena, quem sabe? Aí então ele finalmente ficou saudável depois do time feder tanto sem ele e, surpresa: o time continua fedendo. Dar um salário desses para alguém que, mesmo quando joga, não consegue salvar o time lá das piores colocações do Leste? É por isso que o Wizards quer tanto terminar o contrato e se livrar desse fardo, até porque fazer uma troca nesse valor seria quase impossível.

A mesma coisa anda acontecendo em Milwaukee. O Michael Redd vai ganhar 18 milhões na temporada que vem, e para quê? Passou a última temporada inteira contundido, jogou minutos limitados nessa e já foi anunciado que estará fora pelo resto da temporada graças a uma nova cirurgia. Mesmo quando jogava, no entanto, Redd nunca pareceu o tipo de jogador capaz de carregar sozinho uma franquia. Ele teve a chance de assinar um contrato mais modesto com o Cavs e, ao lado de LeBron, já teria atualmente 14 anéis de campeão. Mas não, preferiu ser a estrela de um time, encher as orelhas de dinheiro, e agora dá discursos dizendo que só quer vencer, só quer estar num time com chances de vencer. Burro foi o Bucks, de pagar tanto por um arremessador. Agora, a postura por lá é fingir que nada aconteceu, dar espaço para o Brandon Jennings e torcer para o Redd ir embora. Aliás, torcer para a lesão durar bastante porque aí a NBA devolve uma parte do salário. Mesma coisa com o Tracy McGrady: atualmente tem o maior salário da temporada (são mais de 23 milhões!), não jogou bulhufas contundido nos últimos anos, e o time acabou dando espaço para outros jogadores e outras formas de jogo. O que o técnico queria é que ele desaparecesse, mas se ele não jogar pelo menos uma parte do salário volta. Com certeza se Michael Redd e Tracy McGrady estivessem envolvidos num escândalo com armas, seus times aproveitariam para sumir com as fotos, banners, camisetas e vídeos. É uma chance de desfazer a burrada de dar um salário tão grande para um jogador que só se contunde, e tudo isso às custas do jogador - que não tem culpa nem de ter recebido a oferta contratual dos times, nem de estar contundido o tempo inteiro (aliás, tanto T-Mac quanto Arenas sempre quiserem jogar, mesmo com lesões).

O Arenas está sendo varrido pra baixo do tapete com tanta intensidade que agora quando você vai no site da NBA.com e tenta fazer uma camiseta personalizada com o número "0" e o nome "Arenas" (já que sua camiseta oficial não está mais à venda), o site diz não permitir camisetas com nome ou conteúdo ofensivo. Ou seja, tentar criar uma camiseta com "Caralho, "Puta merda" ou "Arenas" dá na mesma, ele virou um palavrão. Tracy McGrady ainda pode ter suas camisetas compradas, mas está sendo completamente ignorado pelo Houston até que seu contrato termine e ele desapareça. Michael Redd, provavelmente, seguirá o mesmo caminho. Mesmo antes de sua contusão recente, havia um sério questionamento sobre sua liderança na equipe e a comissão técnica decidiu que ele não era mais o jogador principal, cargo dado a Jennings e Bogut.

Frente a tudo isso, dou dois conselhos: o primeiro é que se você encontrar uma camiseta do Arenas em alguma loja da adidas pelo Brasil, compre imediatamente porque ela vai ser raridade (e palavrão). O segundo conselho é que você tente salvar Tracy McGrady de desaparecer por completo no Houston: participe agora mesmo da nossa promoção, monte uma troca para libertar T-Mac e concorra a 5 bonés do Houston Rockets!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Dono da Bola - Washington Wizards


Já tinha prometido esse perfil quando o Abe Pollin, dono do Washington Wizards, morreu logo no começo da temporada. Achei que era a hora de terminar o serviço depois que citei ele no post de ontem sobre o Arenas, dizendo que foi ele quem decidiu mudar o nome do time de Bullets (balas) para Wizards (magos) porque não gostava da conotação violenta do nome.


Abe Pollin
Temporadas no comando: 46
Playoffs: 25
Títulos de divisão: 7
Títulos de conferência: 3
Títulos da NBA: 1

Riqueza estimada: 180 milhões de dólares
Comprou o time por: 1 milhão de dólares (1964)
Valor atual da equipe: 313 milhões de dólares
Maior contrato oferecido: Gilbert Arenas (US$111 milhões, 2008)
Técnicos contratados: 18 (Buddy Jeannette, Paul Seymour, Mike Farmer, Gene Shue, KC Jones, Dick Motta, Kevin Loughery, Wes Unseld, Jim Lynam, Bernie Bieckerstaff, Jim Brovelli, Darrell Walker, Gar Heard, Leonard Hamilton, Doug Collins, Eddie Jordan, Ed Tapscott e Flip Saunders)

Oficialmente Abe Pollin não é mais o dono do Wizards e isso acontece por um motivo bem simples: ele morreu. Mas como foi dono da franquia por 46 anos, a coluna Dono da Bola é sobre ele. Sua morte aconteceu no dia 24 de novembro do ano passado, logo antes de um jogo contra o Philadelphia 76ers, time da cidade onde Pollin nasceu, mas de onde se mudou aos 8 anos de idade para ir morar na cidade onde viveu até sua morte, Washington.

Sua família era dona de uma grande empresa de construção civil da capital americana e em 1964 eles conseguiram juntar dois bons negócios em um só: construir uma grande arena esportiva e comprar uma franquia de basquete, o então Baltimore Bullets. A primeira aquisição foi o time, que ficou em Baltimore até 1973, quando eles finalmente conseguiram construir o ginásio Capital Centre em Washington.

Essa história de um grupo de empresários de uma cidade comprar um time de outra cidade e depois mudar para sua cidade natal foi justamente o que aconteceu com o Sonics, que vendeu a franquia para um grande empresário de Oklahoma City. Mas no caso de Pollin não consegui descobrir se ele, como fez o dono do Thunder, prometeu que o time não mudaria de cidade. Também não sei qual foi a reação da população de Baltimore em relação a isso, talvez não tenha sido tão impactante para eles porque o time não tinha tanta história e porque Washington é uma cidade bastante próxima.

A construção do Capital Centre e depois do Verizon Center mudou a cara de Washington. O Capital era a casa do Bullets, virou a casa do time de hockey Washington Capitals até ser demolido em 2002. Hoje os dois times dividem o Verizon. Como todo bom empresário americano, Pollin não fez o ginásio sozinho e no entorno nasceram diversos outros empreendimentos de entretenimento, lojas, restaurantes, que transformaram a região em um ponto de encontro da cidade. O lado ruim dessa valorização do bairro é que antes da construção do ginásio o local era basicamente de imigrantes chineses, muitos deles tiveram que fechar seus pequenos negócios devido à valorização dos terrenos.

Embora os imigrantes chineses e alguns moradores de Baltimore pudessem não ser muito fãs de Pollin, o resto da cidade era. O dia 3 de dezembro é o "Pollin Day" em Washington e o antigo dono virou o nome da rua do ginásio. Em Washington valorizam muito o fato de Abe Pollin ter arriscado bastante ao gastar boa parte de sua fortuna investindo em equipes que viraram a paixão da cidade, ele poderia muito bem ter investido em qualquer outra coisa e feito muito mais dinheiro arriscando menos.

Para a NBA ele também foi importante, afinal é o cara que mais passou tempo sendo dono de alguma franquia. Ele participou de todas as mudanças e revoluções vividas pela liga desde os anos 60. Foi Pollin, inclusive, quem deu o primeiro passo no que se tornou a grande revolução da última década na liga, o seu crescimento ao redor do mundo.Em 1979, um ano em que os governos de EUA e China ameaçavam uma aproximação, o time da capital foi para o outro lado do mundo disputar uma partida contra a seleção chinesa de basquete. Logo depois, no começo dos anos 80, a China começou a transmitir ao vivo as partidas da liga americana.

Abaixo tem uma pequena matéria da NBA TV com algumas imagens dessa viagem.


A viagem aconteceu em 79, em 78 o Bullets havia conseguido seu maior feito: em 46 anos de comando de Abe Pollin e pela única vez na história da franquia, o time da capital havia sido campeão da NBA. Comentei antes do caso do Sonics e é engraçado que o título do Wizards aparece com destaque no documentário Sonicsgate, que eu comentei meses atrás e que fala sobre a mudança do Sonics de Seattle. Afinal, o título do Bullets veio em um jogo 7 em Seattle. Comentam no filme como um dos momentos mais tristes da história da cidade.

O Sonics, porém, teve sua revanche no ano seguinte quando pegou o mesmo Bullets na final e dessa vez venceu por 4 a 1. Sem dúvida foi o melhor time de Washington em toda a história. Contava com grandes jogadores como Elvin Hayes, o atual General Manager do Lakers Mitch Kupchak, Bob Dandridge e o Hall da Fama Wes Unseld, que era grande amigo de Abe Pollin (os dois, um empresário e um pivô, disputavam torneios de três pontos) e até se tornou técnico da equipe anos depois.

Os jogadores do seus times diziam que Pollin era do estilo paizão, que ia dar conselhos, puxões de orelha e parabéns após as partidas. Logo após o jogo do dia de sua morte, contra o Sixers, o ala Antawn Jamison disse, com lágrimas nos olhos, "Depois das vitórias, saber que você não vai ouvir aquela voz dizendo 'bom trabalho' ou 'acredito em você' será difícil". Etan Thomas, outro jogador que passou anos no Wizards, fez um texto bem legal sobre seu antigo patrão.

Lá ele conta uma história de quando fez um discurso em uma passeata anti-guerra em Washington e logo depois foi chamado pelo Sr. Pollin para uma conversa. Etan Thomas é conhecido por ser o jogador mais, digamos, intelectual da NBA. Ele tem um livro de poesia chamado "Mais que um atleta" e é presença constante em discussões sobre política na capital. Esse discurso havia sido logo após a invasão do Iraque, Etan Thomas confessou que pensou "ah não, esse republicano ficou ofendido com o que eu disse e não quer mais que eu trabalhe no time dele".

Nas palavras do Etan Thomas, esse foi o encontro dos dois:

"Entrei no seu escritório, e ele estava lá sentado com um sorriso enorme no rosto e apertou minha mão. Começou a falar que seu filho estava naquela passeata e estava radiante com o meu discurso. Ele disse que depois leu o que eu disse e que estava bastante impressionado. Começamos então uma longa conversa sobre política. Falamos do Iraque, da administração Bush, Vietnã, educação em cidades pequenas do interior... até falamos sobre a gentrificação que tem acontecido na nossa cidade. Ele me contou de sua dedicação em construir casas para pessoas de diferentes rendas e que ele não se focava apenas nas construções para os mais ricos, o que é bem comum em Washington. (...) Quando fomos ver já tinhámos conversado por mais de uma hora e meia. Ele pediu desculpas por tomar tanto tempo meu e disse para eu continuar sustentando o que eu acreditava mesmo que ouvisse muitas críticas."

Depois Thomas conta outra história sobre quando ele fez uma cirurgia no coração. Muitos duvidavam que ele teria condições físicas de voltar a jogar e Abe Pollin fez seu papel de paizão ao dizer o contrário. Ligou para Thomas no hospital, contou histórias de suas próprias operações e disse para ele esquecer a imprensa porque tudo iria acabar bem e ele iria jogar de novo. E, nas palavras de Etan Thomas: "Ele estava mais preocupado com a minha saúde do que em me ver o mais depressa possível na quadra. Isso definitivamente não é o padrão nesse meio. Aquelas conversas significavam muito pra mim".

Outra história pouco comentada sobre Pollin é a sua relação com Michael Jordan. Depois de aposentado pela segunda vez, Jordan resolveu comprar uma pequena parcela do Wizards. Não comprou uma parcela de Pollin e sim de seu sócio, Ted Leonosis, e se tornou o cara que mandava no basquete. Como não aguentou, foi jogar e para isso vendeu a sua parte como dono do time, esperando comprá-las de volta quando se aposentasse em definitivo.

Mas Abe Pollin não gostou do que viu. Presenciou um jogador grande demais para a organização, alguém que tomou conta de todo o ambiente, com uma personalidade forte demais que queria tudo do seu jeito. Depois que Jordan se aposentou e quis voltar à direção do time, Pollin cortou qualquer esperança de MJ com uma reunião curta de 20 minutos. "A atmosfera ficava no limite, não era um ambiente saudável para produzir um time feliz e vencedor. Eu sabia que iam falar um monte de mim depois disso mas tomei minha decisão e não a mudei".

Histórias sobre Pollin não faltam, são 46 anos rodando pela NBA. Anos de sobra pra ele fazer coisas legais, ruins, ter boas idéias, péssimas idéias. Ler sobre ele depois de sua morte é achar um monte de puxação de saco, claro, todo mundo vira santo depois que morre, mas de fato ele teve muitas boas contribuições pra NBA e era muito querido pela maioria, principalmente pelos jogadores que atuaram em suas equipes.

O Wizards atua nessa temporada com o nome de Abe no uniforme.

...
Outros textos da coleção "Dono da Bola" sobre donos de equipes:
Philadelphia 76ers - Ed Snider
Boston Celtics - Wyc Grousbeck

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Arenasgate

(não esquecer da piada com 'run and gun')


Eu não estava muito afim de falar desse caso do Gilbert Arenas até hoje. Eram dois motivos principais: o primeiro é que ele tem pouco a ver com basquete e é de basquete que eu gosto, depois porque eram tantas versões da mesma história que eu não sabia no que acreditar. Só que a história diz respeito ao Gilbert Arenas, um dos jogadores que a gente mais comentou nesses 2 anos e meio de Bola Presa e agora tem um fato bem concreto pra comentar: ele foi suspenso por tempo indeterminado pelo David Stern.

Para quem está bem por fora, o que aconteceu foi que saiu uma notícia dizendo que o Gilbert Arenas teria quatro armas de fogo guardadas em seu armário no Verizon Center, o ginásio do Wizards. Como a lei de posse de arma de fogo é bem dura em Washington, o caso começou a ser investigado pela polícia e pipocaram informações de que seria proibido ter armas de fogo em locais com a chancela da NBA. O Arenas respondeu que tinha as armas em casa, mas que, com medo de tê-las perto dos filhos pequenos, levou-as para o ginásio.

O caso foi sendo investigado quando surgiu uma outra história, de que o Arenas teria apontado a arma, descarregada, para o companheiro de time Javaris Critentton, aquele armador reserva que era do Lakers, foi para o Grizzlies na troca do Gasol e depois para o Wizards. E foi depois disso que as mais diferentes histórias começaram a aparecer.

Uma das histórias diz que o Arenas apontou a arma para o Critentton, que teria ficado assustado. Outra diz que o Arenas e o Critentton certa vez brigaram por causa de uma aposta em jogos de carta e como resposta (de brincadeira) o Arenas teria deixado três armas no armário do seu colega com um bilhete pedindo para que ele escolhesse uma delas. Também existem versões da história onde o Critentton teria sua própria arma de fogo no vestiário, essa carregada, e teria apontado ela para o joelho recém-operado do Arenas no meio dessa discussão/brincadeira/provocação sobre as apostas em jogos de carta.

A confusão já era grande mas a NBA não tinha tomado nenhuma providência. David Stern disse que estava acompanhando o caso de perto mas que ia esperar qualquer decisão da polícia, que ainda investiga o caso, para decidir se daria uma punição e qual seria ela. Tudo parecia se encaminhar para esse desfecho, o Arenas até soltou para a imprensa um pedido de desculpas muito bem escrito pelo seu advogado em que falava ter errado, exagerado na brincadeira e tudo isso que a gente conta pra diretora da escola.

Só que no dia seguinte apareceu o Arenas de sempre, o de verdade. Bocudo, incosequente e, por que não, um bocado burro. Ao invés de ficar quieto por um tempo e deixar o assunto esfriar, ele passou o dia comentando o caso no seu Twitter, criticando todo mundo da imprensa que tinha falado mal dele e insistindo que ele só tinha feito uma brincadeira. Para terminar, fez essa brincadeira antes do jogo do Wizards contra o Sixers.


Tá bom, eu ri um bocado quando vi ele fazendo a arma com a mão. Mas não é porque foi engraçado que não foi burro. Logo depois do jogo o David Stern soltou uma nota dizendo que o "Sr. Arenas" não estava em condição de participar de jogos da NBA e que por isso estava suspenso por tempo indeterminado. E ainda assustou com o trecho "está claro que as ações do Sr. Arenas vão resultar numa punição substancial ou, talvez, até algo pior". Já se diz em proibí-lo de continuar na NBA ou de cancelar seu contrato zilionário com o Wizards.

Digo que o Arenas foi burro porque todo mundo sabe que o David Stern é pirado quando o assunto é o comportamento dos jogadores. Ele já suspendeu jogadores por 10 jogos quando os problemas judiciais deles tinham acontecido na offseason e nada tinham a ver com basquete, foi o responsável pelo patético código de vestimenta que obriga todos os jogadores a aparecerem de roupa social quando não vão jogar. É o David Stern que insiste em mostrar os jogadores fazendo ações de caridade no intervalo de todos os jogos e foi ele quem pediu para a Getty Images tirar do ar, ontem, a foto que eu postei aí em cima com o Arenas apontando suas armas de dedo. Se ele pegou pesado com as roupas, imagina o que ele iria fazer quando o assunto é realmente sério? Essa punição estava muito óbvia e o Arenas continuou provocando.

Ainda acho que muita gente na imprensa americana pegou pesado demais com o Arenas. O caso nem estava bem explicado (quer dizer, ainda não está) e já estavam crucificando ele, tratando-o como o pior dos criminosos. Mas, apesar de não concordar com os exageros, dá pra entender como eles nasceram: por que um cara vai ter quatro objetos cuja função é tirar a vida de outros seres humanos guardados no seu local de trabalho? As armas já fazem parte da nossa cultura, tem gente que é apaixonada por arma como outras são por carros ou basquete, mas não podemos esquecer que, no fundo, a função da arma é matar. O exagero ainda é exagero, mas é explicável.

A notícia mais recente do caso é que o Arenas estava tentando limpar a barra do Javaris Critentton. A versão foi contada pelo New York Post e parece encaixar com as outras contadas antes. Segundo o Post, o Critentton perdeu uma aposta num jogo de cartas para o pivô JaValle McGee e ficou bravo por uma discussão sobre as regras do jogo, o Bourré (que além de cidade da França, dança e música do Jethro Tull, é um jogo de cartas típico dos EUA).

O Arenas então começou a tirar sarro do seu colega que tinha perdido o jogo, dizendo que se não pagasse a aposta iria ter seu carro explodido (uma boa piada, convenhamos, eu teria dito que iria entregar um peixe na casa dele). Aí, ainda no avião, o Javaris teria dito para o Arenas que iria atirar no joelho dele (isso já foi pegar no ponto fraco!). Dias depois, no vestiário, o Arenas deixou suas armas no armário do Critentton com um bilhete dizendo "escolha uma" e disse que só estava deixando o trabalho do seu colega mais fácil. O armador, porém, respondeu algo como "Não precisa, eu tenho a minha" e mostrou sua arma carregada.

Não se sabe se ele chegou a apontar para o Arenas, se todo mundo riu, se eles se abraçaram, sei lá, não contaram nada depois disso. Mas falaram que o Arenas disse para o seu companheiro de time que iria assumir a responsabilidade pelo fato, encerrar isso e deixar o Critentton, que não tem nome, mídia e nem a mesma grana, longe disso. Acontece que o caso ficou grande demais e a história real acabou saindo. Ou seja, além do problema da posse de arma, de tê-las dentro de um lugar da NBA e ter sido suspenso pelo David Stern, o Arenas terá que lidar com o fato de ter mentido para a polícia, o que nunca é bom negócio nas séries policiais que eu vejo na TV.

Nos EUA o caso tem sido tratado bastante pela sua veia racial. O Stephen A. Smith da ESPN fez um artigo grande, até comentado no Rebote, dizendo que "idiotas como Gilbert Arenas estão envenenando a cultura negra". Mas nesse caso eu concordo com outro americano, o (negro) Austin Burton, que disse: "Se fosse o Brad Miller apontando seu rifle de caça para o Aaron Gray em Chicago ele seria suspenso também". Esse caso de armas em um local de trabalho é sério e não tem nada a ver com cor da pele, acho que chama mais a atenção pelo Arenas ser um jogador conhecido e polêmico do que por ser negro. Mas só estando nos EUA para entender um pouco melhor como eles lidam com a questão racial por lá.

Esse caso acaba sendo o marco de uma temporada que vinha sendo um grande anti-clímax para o Wizards e para o Arenas. Ele finalmente voltou depois de dois anos e meio parado mas o time não consegue vencer de jeito nenhum. O Arenas está até com bons números (22 pontos e 7,5 assistências, máximo da carreira) mas que não estão fazendo diferença na hora de vencer jogos, ao contrário, ele se destacou mais na temporada pelas bolas perdidas e lances livres errados em momentos decisivos dos jogos.

Convenhamos que o Jazz precisou de bem menos pra começar a oferecer seus jogadores em trocas. Esse caso é mais do que simbólico para o Wizards começar uma reestruturação geral em seu time. Caron Butler e Antawn Jamison ainda tem muito valor de troca na liga, Andray Blatche e Brendan Haywood são talentos que podem interessar muita gente e se o contrato do Arenas for realmente encerrado pela NBA, o espaço que isso deixaria na folha salarial do Wizards os colocaria na briga por Free Agents no ano que vem.

Acredito até que o Wizards deve estar torcendo demais para isso acontecer. Com o desempenho do time nesse ano, os 111 milhões investidos no Gilbert Arenas parecem um belo dinheiro jogado no lixo e a família Pollin, que comanda a equipe desde que o patriarca Abe Pollin morreu no começo dessa temporada, está indignada com os fatos e com o comportamento do Arenas perante eles, parece que não ficariam nem um pouco tristes de ver o Arenas longe de Washington. Ironia cruel do destino que foi o velho Abe Pollin que, muitos anos atrás, devido à grande violência na cidade de Washington, resolveu trocar o nome do time de Bullets (balas) para Wizards (magos).

Se por acaso Arenas continuar, vai ser um clima esquisito. O ambiente ficaria pesado e eles não teriam muito o que fazer, como seriam capazes de trocar aquele salário monstruoso? Que equipe iria poder e querer bancar? O ano que era pra ser o da volta de Gilbert Arenas foi o da infame volta do Washington Bullets.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

8 ou 80 - Jogos apertados

Alguns jogos decisivos fazem a diferença


Há umas duas semanas o Washington Wizards passou por uma situação bizarra: perdeu 6 jogos seguidos por 4 pontos ou menos, nos dois jogos anteriores tinha vencido um por 4 pontos de diferença e o outro por 2.

Foram 8 jogos decididos nos detalhes, no último minuto do último período, 10% de uma temporada decidida em uma bola que roda no aro e não cai, em uma ou outra jogada de sorte. Esse caso do Wizards foi uma aberração, mas é estranho pensar que se o Wizards tivesse vencido todos esses jogos que teve chance de vencer estaria em 6º no Leste e não com a sexta pior campanha da NBA. Se tivesse dividido esses 6 jogos em 3 vitórias e 3 derrotas, algo já mais realista, estaria em 7º e indo para os playoffs.

O caso extremo do Wizards chama a atenção para a questão da importância de saber decidir esses jogos apertados. Afinal de contas, eles acontecem com frequência? Ter um jogador decisivo faz tanta diferença assim? Algum time teria algum recorde muito diferente se resolvesse melhor os jogos decididos por 3 pontos ou menos?

Começando pelo começo: até agora foram disputados 444 jogos na temporada regular da NBA. Destes, 69 (ou 15%) foram decididos por 3 pontos ou menos e 23 foram para a prorrogação. Em compensação, mais de 50% dos jogos da temporada, 256, foram decididos por 10 pontos ou mais.

Dá pra tirar como primeira conclusão que decidir jogos apertados não faz milagre. Ter um bom finalizador, um cara com sangue frio, não vai fazer o seu time pular de último para primeiro lugar. A maioria dos jogos são decididos por mais de 10 pontos e, assim, vencido por quem jogou melhor desde o primeiro minuto. Lógico, mas sempre bom ressaltar.

Como temos apenas os dois primeiros meses de temporada até agora, fui olhar para os números da temporada passada para ver se existe um padrão. No ano passado, nos 1.230 jogos da temporada regular, apenas 70 partidas (cerca de 5%) foram para a prorrogação, enquanto 171 (13%) foram decididas por 3 pontos ou menos de diferença.

Os números são parecidos com a temporada atual e parecem ser uma tendência na NBA. Porém, olhando os números da temporada passada vi um caso que mostra como essa pequena diferença causada pelos jogos decididos por pouco podem acabar fazendo alguma importante diferença.

Em quarto lugar, com mando de quadra, portanto, se classificou o Portland Trail Blazers, com 54 vitórias. Uma a mais do que o seu adversário sem mando de quadra, o Rockets, quatro vitórias na frente do Mavs, cinco na frente do Hornets e seis na frente do oitavo colocado, o Jazz. O Blazers teve 10 jogos decididos por 3 pontos ou menos e venceu 9 deles! Se tivesse tido 50% de aproveitamento, o que é bem comum na maioria dos times, teria quatro vitórias a menos e poderia até ter se classificado em 6º lugar, perdendo mando de quadra e pegando um adversário muito mais forte, o Spurs.

O pior time da temporada passada em decidir jogos foi o Kings. Dono também da pior campanha do ano passado, decidiu 16 jogos por 3 pontos ou menos e perdeu 14! Mas mesmo se tivesse vencido todos essas 14 partidas que perdeu por pouco teria acabado a temporada com 31 vitórias e ficado mais de 10 vitórias longe da zona de playoff. Por curiosidade, nesse ano, com Tyreke Evans comandando o time no fim dos jogos, o Kings decididu 5 jogos por pouco, venceu três e perdeu dois.

Juntando tudo isso acho que fica claro que saber decidir os jogos é aquela pitada final que um time bom precisa para virar ótimo. Um time ruim ainda é um time ruim mesmo se sabe jogar bem os últimos minutos, mas dentro da elite dos times bons, uma ou duas vitórias a mais fazem toda a diferença do mundo e para eles vale ter alguém que resolva a parada em jogos disputados.

Nessa temporada o time que mais teve jogos decididos por 3 pontos ou menos foi o Milwuakee Bucks, com 10. Destes o time do Brandon Jennings venceu apenas dois, mas mesmo assim ainda está dentro da zona de playoff. Será o preço de ter um novato com a bola na mão na hora de decisão? Outro time que confia num novato pra isso está melhor, o Kings. Como dissemos antes, tiveram 2 vitórias e 14 derrotas em jogos apertados no ano passado e nesse ano estão com as mesmas 2 vitórias mas apenas 3 derrotas.

Dos times com menos jogos decididos por pouco, dois são dos que tomam lavadas e um é o que os aplica. O Atlanta Hawks, o time com a segunda maior margem de pontos de média nas vitórias (8,5), decidiu apenas dois jogos por pouco, venceu um e perdeu um, recorde igual ao do Toronto Raptors. Já o Golden State Warriors, que ganha de muito quando as bolas caem e perde de muito quando não caem, decidiu dois jogos por pouco e não venceu nenhum.

Entre os times com poucos jogos decididos por pouco está o Indiana Pacers, com apenas 4 (duas vitórias, duas derrotas), o que é bem diferente da temporada passada, quando foi o time que mais decidiu jogos por 3 pontos ou menos. Foram 9 vitórias e 12 derrotas, somando 21 jogos (25% dos seus jogos na temporada) em jogos apertadíssimos.

Em prorrogações o líder é o Dallas Mavericks, com 5, três vitórias e duas derrotas. Atrás estão Lakers e Bucks, cada um disputando 4 prorrogações até agora, incluindo uma entre as duas equipes. O Lakers venceu as quatro que disputou e o Bucks venceu apenas uma. Nuggets, Suns, Wolves, Magic, Heat e Nets ainda não jogaram nenhum tempo extra na temporada.

Abaixo a lista do desempenho de todos os times até agora em jogos decididos por 3 pontos ou menos. Os times estão listados na ordem de classificação e tem o número de vitórias, seguido pelo de derrotas.

Conferência Leste
Celtics 4-2
Cavs 1-2
Magic 1-2
Hawks 1-1
Heat 3-1
Raptors 1-1
Bucks 2-8
Bobcats 2-4
-------
Bulls 4-3
Pistons 2-1
Knicks 0-4
Wizards 2-6
Pacers 2-2
76ers 4-4
Nets 1-4

Conferência Oeste
Lakers 5-0
Mavericks 5-0
Nuggets 3-1
Blazers 2-1
Suns 3-2
Spurs 1-2
Rockets 2-3
Jazz 3-1
------------
Thunder 1-3
Hornets 3-1
Grizzlies 2-1
Kings 3-2
Clippers 4-1
Warriors 0-2
Wolves 2-4

É interessante perceber como quase todos os clichês tem algum fundamento. Os times mais experientes e com um bom finalizador, como Lakers, Celtics e Mavs, tem ótimos resultados em jogos disputados, ao contrário de times muito jovens como o Thunder, o Warriors e o Bucks.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Melhor sem estrelas

Danny Granger sofre os males de ser tão próximo de Murphy (e sua lei)


Na noite de sábado, mais um time ruim teve que tentar superar a má fase sem sua principal estrela. Nós sabemos que com o Nets não deu muito certo, já que sem o Devin Harris o time fede ainda mais e acabou batendo o recorde de pior começo de temporada em todos os tempos, com 18 derrotas seguidas. Mas para o Kings, sem Kevin Martin, tudo anda dando bastante certo. É aquela famosa "Síndrome de Gilbert Arenas", em que para compensar a falta de seu melhor jogador o time marca mais, distribui mais a bola e acaba se saindo melhor do que se estivesse completo. O Houston Rockets, sem Yao Ming e sem Tracy McGrady, está se dando muito bem, obrigado. Dizem que o T-Mac está em plenas condições físicas de voltar às quadras mas o time está dando uma de garota difícil e deixando ele de escanteio, com medo de que sua volta estrague tudo.

Mas o Indiana Pacers existe por cupa do Danny Granger, não dá pra imaginar esse time sem ele. Na temporada passada ele flertou com o posto de cestinha da temporada por uns tempos, nessa temporada está entre os 10 primeiros em pontos - e é disparado o jogador que mais arremessa de três na NBA. Todo o ataque do Pacers passa por ele, mas ele sequer seria reconhecido na rua porque ninguém poderia se importar menos com o time de Indiana desde que o Reggie Miller virou o pior comentarista esportivo do planeta e o Jermaine O'Neal levou seu joelho paraguaio para outro lugar. Além de ter um nome capaz de gerar um belo trocadilho ("Granny Danger", algo como a "Vovó Perigo"), o jogo do rapaz é espetacular. Tem um alcance e uma facilidade de arremesso que lembra o Kobe, uma explosão física que lembra LeBron, e um cérebro que lembra o Zach Randolph, o que gera um monstro bizarro que faria sucesso em muitos zoológicos mas não ganharia muitos campeonatos de xadrez por aí.

O Danny Granger pontua até de olhos fechados, mas na maior parte do tempo ele é obrigado a isso porque não resta muita gente na equipe capaz de atacar a cesta. A maior prova disso é que Dahntay Jones, que fez carreira como jogador defensivo desde que entrou na NBA e nunca teve mais do que 7 pontos por jogo de média, está marcando 15 pontos por jogo nesse Pacers. No Nuggets, o Dahntay Jones era aquele caso típico de jogador titular que entra só para defender a estrela adversária e sai rapidinho para deixar alguém que sabe jogar basquete entrar em quadra. Se ele pontua tanto no Pacers é porque não tem muita gente melhor pra fazer o trabalho, o que é desesperador. O ponto positivo é que ele já é um dos favoritos para o prêmio de jogador que mais evoluiu na temporada, o que pelo menos vai colocar alguém desse time no mapa (o próximo plano era convencer alguém do elenco a posar pelado para calendários de borracharia).

Depois de uma sequência de 9 derrotas seguidas, com o Danny Granger enfrentando dores nos joelhos e no calcanhar que estão torrando seu saco desde a pré-temporada, finalmente o corpo dele resolveu adotar a tática Chris Paul de "esse time fede então vou ver o filme do Pelé" e rompeu um tendão. Serão meses fora, deixando o Pacers - que já é um time semi-nu e numa sequência terrível de derrotas - completamente pelado. Mas o exemplo do Kings parece ficar cada vez mais e mais comum: sem o Granger, o time colocou mais responsa nas costas de Mike Dunleavy, que acaba de voltar de uma contusão que o tirou de todo o começo de temporada, e também do novato Tyler Hansbrough, que teve excelente pré-temporada, e o negócio deu certo. Primeiro chutaram cachorro morto, dando uma surrinha no Nets, algo que eu e o Denis faríamos acompanhados de outros três macacos adestrados de circo. Mas depois venceram o Wizards numa partida importantíssima: ou essa partida afirma que o Pacers tem chances de jogar em alto nível sem o Granger e continuar se segurando pelas beiradas sonhando com uma oitava vaga no Leste, ou então ela afirma que o Wizards não tem qualquer chance de porcaria nenhuma, fede pra burro, e deveria desmontar e começar de novo.

É que por tantos anos ouvimos sem parar que o Wizards só fede porque o trio principal da equipe nunca está saudável, nunca jogam juntos, ou nunca rendem juntos. No sábado, os três jogaram demais: Jamison praticamente não errou arremessos, inclusive várias bolas de três, e acabou com 31 pontos; Caron Butler defendeu muito bem e terminou com 23 pontos; e o Gilbert Arenas finalmente fez algo digno de nota desde que fechou seu blog, acabando o jogo com um triple-double de 22 pontos, 10 rebotes e 11 assistências. E se não fosse o bastante, o Boykins ainda jogou demais, principalmente no quarto período, e terminou o jogo com 14 pontos. Continua impressionante como sempre ver esse anão infiltrando no garrafão e jogando até de costas para cesta, empurrando seus marcadores para dentro e enfiando um par de arremessos giratórios em suas fuças. Só que mesmo com todas essas atuações de gala, o Wizards conseguiu perder uma partida ganha, graças ao Arenas errando seus dois lances livres com 6 segundos para o fim do jogo com seu time vencendo por 1 ponto, e depois com o Haywood cometendo uma falta no Dunleavy com 0.1 faltando no cronômetro. Ao contrário do Arenas, Dunleavy converteu os dois e aí está o Pacers sem Granger numa sequência de duas vitórias.

Que desculpas o Wizards pode dar agora? Talvez a pressão atmosférica, o alinhamento de Júpiter com Saturno, ou então a cotação do dólar. Jamison já disse que botar a culpa no esquema tático é besteira, que eles entenderam perfeitamente o sistema desde a pré-temporada e que o técnico Flip Saunders está fazendo um excelente trabalho. O técnico é bastante defensivo e o Wizards inteiro provou que sabe defender (ao menos quando está sem o Arenas) em várias ocasiões, então não tinha como ser falta de defesa. O que acontece com essa equipe é inexplicável, se não bastasse eles serem amaldiçoados com a cota de trocentas contusões anuais, ainda perdem jogos fáceis mesmo quando todo mundo faz sua parte.

Aliás, o Arenas precisa começar a reconsiderar sua fama de ser matador nos segundos finais dos jogos - ao menos na linha de lances livres. Todo mundo lembra que o Wizards perdeu aquela série de playoff para o Cavs quando o LeBron passou pelo Arenas, na linha de lance livre, e disse que se o Arenas errasse o jogo estaria perdido porque o LeBron acertaria uma cesta final. Dito e feito, o Arenas fedeu e o LeBron ganhou o jogo numa cesta alucinante. Agora, outro jogo vai pro ralo em situação semelhante, e isso porque o Arenas acerta 80% dos lances livres em sua carreira. Nervos de aço uma ova, ninguém nesse Wizards amaldiçoado tem cabeça para segurar a crise.

Enquanto isso, o Pacers ganhou algum ânimo passando justamente o Wizards na tabela. Estão encostadinhos na oitava vaga, e pegam o Magic na segunda-feira. Como acompanhar o Kings empolgado valeu tanto a pena, e como o meu Rockets sem estrelas é - juro - o time mais divertido de se ver jogar na temporada, prometo dar uma espiada no Pacers. O Mike Dunleavy, eterno "o próximo Larry Bird", finalmente mostrou que sabia jogar basquete na temporada passada, só não durou muito tempo saudável. Se ele está de volta agora, e vindo de sua melhor partida no ano, merece atenção. Já o Wizards perdeu as 4 últimas partidas e já está começando a passar vergonha - a sorte deles é que ainda existe o Sixers na Conferência Leste. Se não bastasse a equipe da Philadelphia estar com a pior sequência de derrotas atual, com 12, ainda estão passando uns vexames ridículos. O Iverson fez sua "via sacra" da vergonha, passando por todos os times que o acolheram em sequência (Nuggets e Pistons) e perdendo feio nas duas vezes. Aliás, perder feio é pouco, o que o Rodney Stuckey fez com ele foi pior do que isso:



Esse é um belo sinal de que o tempo passa, o tempo voa, e a Poupança Bamerindos vai à falência. O que o Iverson fez ao Jordan agora é feito com ele. E o que o Arenas tanto se orgulhou de fazer, ganhando jogos no finalzinho, agora é o que ele toma na cabeça. O Wizards não tem muitas chances apesar do elenco incrível, mas todas as noites eles podem colocar a cabeça no travesseiro e agradecer: "pelo menos não somos o Sixers. Pelo menos não somos o Sixers."

Se as coisas continuarem tão feias, talvez seja a hora de tentar uma tática ousada que parece estar dando certo por aí: ficar sem a estrela. Talvez se o Arenas se machucar de novo, ou se o Iguodala tirar umas férias, dê um pouco certo. Veremos, de perto, até quando o truque funciona pro Pacers.