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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tocos de David Stern

-Vou dormir na sua casa hoje se Mamma Stern deixar


Quem estava fora da Twittosfera ontem perdeu uma das noites mais malucas que eu já acompanhei na NBA. De tarde surgiu mais um dos mil boatos diários que levam super estrelas ao Los Angeles Lakers. No meio de notícias de que o Los Angeles Clippers e o Golden State Warriors haviam feito boas propostas pelo armador do New Orleans Hornets, apareceu essa história de uma troca envolvendo também o Houston Rockets e que tiraria Lamar Odom e Pau Gasol do Lakers. Ignorei, provavelmente outra bobagem querendo levar estrelas para o Lakers como as que nos últimos anos prometeram Shaq, LeBron, Bosh, Yao, Dwight e tantos outros.

Então, tranquilo, preparei um texto explicando a regra da anistia e assim que entrei no Twitter para divulgar o texto, dei com a confirmação. Era verdade e Lakers, Hornets e Rockets haviam acertado uma troca que levaria Chris Paul para o Lakers, Luis Scola, Goran Dragic, Lamar Odom e Kevin Martin para o Hornets e Pau Gasol para o Rockets. Meu post ficou secundário e o Twitter virou um alvoroço de análises, discussões, xingamentos e troca de impressões.

Eu, como torcedor do Lakers, tinha odiado a troca. Claro que Chris Paul e Kobe Bryant iriam dar um jeito de se entender, os dois são gênios. Mas isso não quer dizer que seus estilos combinem, assim como não batem o jogo de LeBron James e Dwyane Wade e mesmo assim eles dão um jeito de ir para a final da NBA. Mas será que valia perder um dos melhores pivôs da NBA e mais o melhor reserva da última temporada por um armador em último ano de contrato que já disse publicamente que quer ir para o Knicks jogar com seu amigo Carmelo Anthony? Confiar só no Andrew Bynum no garrafão era arriscado e confiar que o Bynum seria moeda de troca para o Dwight Howard, mais ainda. O Lakers teve seis bolas no saco para ter a coragem de fazer algo desse tipo, mas coragem não quer dizer que foi algo inteligente.

Para o Hornets não parecia um negócio horrível, mas certamente tinha seus defeitos. O Kevin Martin era o menino da troca, com quase 29 anos de idade. Scola e Odom já passaram dos 30. Jogadores nessa idade não costumam ter saco e motivação para entrar em um time em reconstrução, o Odom em especial tem sérios problemas para colocar sua cabeça no lugar e ontem até ameaçou não aparecer nos treinos do Lakers porque havia sido envolvido em discussões de troca. Vocês imaginam a Khloe Kardashian trocando Hollywood por New Orleans? Até o casamento do cara ia pro saco.

E, pensando bem, mesmo que eles se motivassem, esse não é elenco para ir muito longe. Vão para os playoffs esse ano, talvez no ano que vem e aí Scola e Odom já estão arranhando os 35 anos de idade. Talvez tivessem outras trocas engatilhadas envolvendo esses veteranos, não sei, mas ela parecia incompleta.

Por fim o Rockets era um time que perderia muito, que assumiria riscos, mas que poderia se sair muito bem. Abriria mão de seus dois melhores jogadores, mas manteria o espetacular Kyle Lowry para ajudar um dos melhores pivôs de toda a liga, que ainda poderia receber a ajuda do brazuca Nenê. O time do manager Daryl Morey não só já tem bastante espaço na folha salarial como ainda abriria mais 3,5 milhões de doletas com essa troca. Daria para oferecer um contrato tão gordo para o Nenê (cerca de 12 milhões por ano) que seria difícil dele recusar. Role players não faltam no time (Courtney Lee, Chase Budinger, possível renovação de Chuck Hayes) e eles estariam prontos para impressionar.

O que você tira dessa troca depois dessa análise? Eu tiro que os times se arriscaram, que todos abriram mão de muitos talentos para receber outros em troca. Ao contrário da troca do Kwame Brown por Pau Gasol, o Lakers dessa vez abriu mão de muita coisa para receber um All-Star, assim como fizeram Hornets e Rockets. Ou seja, uma troca grande, de destaque, mas normal.

Mas o resto da NBA não pensou assim. Em um acesso de fúria muitos donos de times chegaram até a NBA e pediram para que a troca fosse vetada. E ela foi. A liga geralmente não tem poder para vetar trocas e contratações, senão certamente outros times teriam interferido no Big 3 de Miami, mas dessa vez havia uma diferença: O Hornets é propriedade da NBA, na prática os donos dos outros 29 times é que são donos da franquia de New Orleans. Explicamos nesse post do ano passado a confusão que foi esse lance do Hornets, e na época fomos ingênuos de dizer que a NBA por lá não causaria tantos danos. Geralmente donos não interferem tanto nos negócios dos General Managers, apenas dão sinal verde ou não para ultrapassar o teto salarial ou não, permissão para ultrapassar o luxury tax ou não, essas coisas. Então sabíamos que a NBA apenas não deixaria a gastança rolar solta, mas haviam prometido não interferir nas decisões tomadas pelo Manager Dell Demps.

Porém não foi a primeira vez que deu briga. No ano passado o Hornets mandou Marcus Thornton para o Kings em troca de Carl Landry, no negócio o Hornets teve que mandar dinheiro para o Kings para compensar a diferença de salários, o que provocou a fúria do Mark Cuban, dono do Mavs. "Poucos times na NBA podem se dar ao luxo de fazer negócios assim e deixamos que a franquia de quem a NBA é dona faça isso?";  Também no ano passado uma troca que envolvia Indiana Pacers, Memphis Grizzlies e New Orleans Hornets, envolvendo o OJ Mayo como peça principal, foi estranhamente cancelada no último dia possível de trocas. A coisa ficou mal explicada na época, mas depois de ontem parece que entendemos a razão, o resto da liga não curtiu.

Vazou ontem para o Yahoo!Sports uma carta que o Dan Gilbert, dono do Cleveland Cavaliers, enviou ao David Stern. Ninguém negou que a carta fosse verdadeira e confio no repórter que a publicou. Na carta, Gilbert (em Arial, não em Comic Sans) pede que a troca entre em votação pelos outros 29 times, donos do Hornets. Ele também diz que o Lakers, com esse negócio, economizaria cerca de 20 milhões de dólares em multas e que era inaceitável que um time saísse da troca com o melhor jogador e ainda economizando dinheiro ao mesmo tempo. Gilbert assume assim que Paul é muito melhor que Gasol (e somado ao Odom). E se preocupa com o seu bolso já que o dinheiro das multas pagas pelos times acima do limite são divididos entre aqueles abaixo do teto salarial. Para terminar com um toque dramático e brega típico dele, diz "quando vamos simplesmente mudar o nome das outras 25 franquias da NBA para Washington Generals", em referência ao time que sempre joga e sempre perde para os Harlem Globetrotters.

O Dan Gilbert certamente não foi o único a enviar uma mensagem desse tipo e como a troca foi mesmo cancelada, dá pra imaginar o tipo de pressão que o David Stern recebeu. Na cabeça dos donos essa troca iria contra tudo o que foi discutido durante o locaute, em que os times de mercado pequeno estavam sempre perdendo para os de mercado grande, o que, para eles, é inaceitável. Aliás, isso é uma falácia que vai ganhar mais um post, tem muita gente acreditando nessa bobagem de que só os times ricos ganham.

Uma troca desse tipo logo no primeiro dia de Free Agency seria uma ofensa, segundo eles. O que os donos, aparentemente ignorantes em basquete, deixam passar é que o Lakers abriu mão de dois dos seus três melhores jogadores para conseguir um outro grande jogador. Não foi simplesmente um roubo das mãos do pobre Hornets. E como eles tinham tanta certeza assim que o Lakers seria um time melhor? Deveriam eles é estar preocupados em contratar um bom ala de força para chutar a bunda do garrafão ridículo do novo time do Kobe.

Mas o que pegou mesmo para mim na noite de ontem foi a questão ética. O Hornets está sendo claramente prejudicado se ele tem os outros 29 times decidindo o que eles fazem com o Chris Paul. O New York Knicks e outros times com espaço salarial vão sempre votar para que o Hornets mantenha o jogador e o perca por nada ao fim da temporada, claro. Os times que são candidatos ao título vão votar contra outros candidatos se eles derem um jeito de receber o armador, assim o Hornets, desesperado por uma reconstrução, não pode simplesmente aceitar a proposta que julga melhor, mas deve se adaptar ao que seus adversários, os times que querem derrotá-lo, decidem. E se é injusto com o Hornets, não deixa de ser contra o Lakers também. Eles tem as peças para a troca e não podem fazê-la por complô dos adversários. Pior que, apesar de antiético, é possível e válido e dentro das regras já que a NBA é dona do Hornets.

Recebi a seguinte pergunta no nosso formspring em relação à decisão da NBA em vetar a troca. Vejam:

"Calma, a gente está falando de uma associação privada, com 29 sócios, todos com o mesmo peso de voto. Portanto, não pode ser considerado justo ou não a troca, pois, no final,o time pertence a esses 29 donos e eles que decidem o que é melhor pra esse time.. O Hornets é como se fosse uma extensão do time deles. Eles possuem, cada um, 3,45% das ações dessa equipe, então se mais de 50% acharem que a troca não deve ser feita pois isso iria prejudicar os negócios deles, ela não será feita,fim de papo. O dinheiro é deles.


Mesmo sendo um lugar onde existe paixão e, como vocês já discutiram durante o locaute, ninguém pode falar o que eles devem fazer com o dinheiro deles, afinal, eles não falam o que vocês devem fazer com o seu. Eles são, acima de tudo, investidores, não apaixonados pelo basquete. Eles querem o melhor para o bolso deles e se 51% acha que o CP3 em LA iria atrapalhar nos negócios deles, então não se pode fazer nada. E outra, não é antiético eles comprarem o Hornets. É como se o Pão de Açúcar estivesse sendo vendido e outros 29 grandes supermercados comprassem ele, todos com a mesma fatia acionária. O problema de todos os fãs da NBA é que vemos ela mais com o coração do que com a cabeça. Lá é o mundo dos negócios, como tudo no mundo"

Eu entendo os argumentos do nosso leitor, mas os questiono. O Pão de Açúcar e os outros supermercados não estão disputando uma competição com um campeão. Todos querem ter lucro e competem entre si, claro, mas não é um esporte em que eles se enfrentam diretamente na briga por um campeonato. Simplesmente não faz sentido ter um time controlando o seu adversário em uma competição esportiva, é como se a NBA tivesse um time a menos na disputa, com os outros brigando para manipular o 30º de um jeito que os agrade mais. Se no mundo empresarial isso funciona, tudo bem, mas apesar de ser um negócio, a NBA é um campeonato de basquete, um esporte.

Ainda acho que os outros times terem controle de um adversário não é ético, e só concordava com a NBA ser dona do Hornets por ser algo temporário e pela promessa, claramente não cumprida, de deixar o GM Dell Demps trabalhar sem interferência externa. Os próprios donos pediram uma maior igualdade de condições para as equipes e onde está a igualdade ao impedir um time de realizar o negócio que ela julga melhor para si? Estão obrigando o Hornets a fazer um outro negócio qualquer, ou até a perder seu melhor jogador por nada, só pelo medo do Lakers ficar forte. Um adversário ser dono do outro é claramente conflito de interesses e a promessa de não interferência só durou até a água bater na bunda.

A posse temporária do Hornets pela NBA foi curta e já desastrosa. Durante o locaute David Stern disse que havia pelo menos 5 pessoas ou grupos interessados em comprar o Hornets, era hora da franquia ser vendida logo de uma vez para que tomasse suas próprias decisões e deixasse de ser fantoche dos seus adversários.

A melhor definição sobre o que aconteceu ontem foi dada no Twitter e eu perdi o autor no meio de tantas mensagens. Algum sábio disse que "a NBA tentou escapar de um iceberg e bateu em outro maior". Eles quiseram fugir da polêmica da estrela indo para um time grande de novo e no fim o veto provocou revolta maior ainda, dessa vez de jornalistas, público, agentes e principalmente de outros jogadores. O Adrian Wojnarowski, jornalista do Yahoo! que deu todas as notícias de ontem em primeira mão, chegou até a dizer que esse veto de ontem poderia mudar muita coisa dentro da NBA. Ah, e enquanto eu escrevo esse post, dizem que o Brandon Roy vai se aposentar por razões médicas. Sim, o mesmo Roy que o técnico Nate McMillan afirmou que seria titular há dois dias. Essa liga pirou, pessoal.

sábado, 25 de junho de 2011

A vitória dos derrotados

Como o Danilo disse no último post, eu estou viajando pela Via Láctea e por isso sem muito tempo para postar. Mas achei um dia livre (o último nesse mês) e resolvi aparecer para dar um pouco de atenção para o nosso filho semi-abandonado. O difícil era decidir o assunto! Falar do Mavs campeão, do LeBron James ainda com o mesmo número de anéis que o Cavs, da aposentadoria do Shaq, da contratação do Mike Brown (e do Ettore Messina) pelo Lakers ou, claro, o Draft e todas as trocas que aconteceram junto com a seleção da nova classe de pirralhos? Isso sem contar a discussão sobre a negociação do novo acordo financeiro entre jogadores e os donos de equipes, que devem render mesmo em uma greve. Ou seja, assunto demais para tempo de menos!

Decidi então tratar primeiro do resultado da Final, para encerrar de vez o assunto. Esse post é para comentar sobre a última vitória do Mavs, o que esse título representa para eles e para todos os envolvidos na conquista. Os outros temas podem ou precisam esperar. Falar do Shaq ou do Mike Brown é tão relevante agora como no meio de agosto quando não tivermos assunto e o Draft, assunto do momento, requer muito mais tempo do que eu tenho agora, então fica para Julho, quando eu estiver de volta na terra da coxinha, do feijão e do catupiry.


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Brian Cardinal campeão e de óculos escuros: deal with it


O Mavs foi campeão vencendo onde mais venceu em toda a temporada, fora de casa. A habilidade deles em jogar longe do seu ginásio foi essencial para garantir o terceiro lugar no Oeste durante a temporada regular e acabou sendo decisivo nos playoffs. O óbvio é justificar essas boas atuações enaltecendo a experiência do time, mas não é todo time de veteranos que brilha assim fora de casa, só lembrar do veterano Celtics de 2008 que foi campeão vencendo só dois jogos fora de Boston! Eu acho que tem mais a ver com a capacidade do time de se adaptar, de mudar de estratégia, quintetos e sistemas defensivos no meio de uma partida. O normal é um time jogar um jogo mais covarde quando está longe de seus domínios, apelando para jogadas de segurança e sobrecarregando as suas estrelas. Mas ao invés de mandar a bola no Dirk Nowitzki e esperar milagres (que ele era bem capaz de fazer!), eles conseguiam ler o jogo, ir mudando e achar uma solução, sem desespero, antes da partida acabar. Não é à toa que estiveram no lado certo de tantas reviravoltas e viradas nesses playoffs.

Os méritos para essa vitória tem de ser divididos entre muita gente e cada uma delas tem histórias legais para serem contadas, separamos alguns personagens para serem comentados.

Rick Carlisle

A NBA vive hoje o início de uma era onde os técnicos veteranos estão dando adeus: Pat Riley e Phil Jackson dizem que não voltam, Larry Brown quer voltar ao basquete universitário, Gregg Popovich anunciou que se aposenta junto com o Tim Duncan. Para substituí-los existe uma geração que chama a atenção por ser envolvida com o basquete de um jeito diferente, com menos ex-jogadores e mais estudiosos do basquete, caras viciados em táticas e estatísticas. O Carlisle está na liga faz um tempo, mas pode ser considerado do segundo grupo, é sem dúvida um dos que abriu as portas aos nerds brancos bitolados. Ele se destacou no Detroit Pistons no início dos anos 2000, mas saiu (para dar lugar ao calejado Larry Brown) logo antes deles conseguirem Rasheed Wallace e partirem rumo ao título. De lá ele foi para o Indiana Pacers, onde também se destacou (chegou a ter a melhor campanha da temporada regular) mas esbarrou no seu antigo time duas vezes: primeiro nos playoffs de 2004 e depois no "Malice at the Palace", a antológica briga entre os jogadores de Pacers e Pistons que culminou em multas e suspensões que destruiu aquela ótima geração do time de Indiana.

A imagem que o Carlisle deixou depois disso tudo foi que ele manja muito de basquete, sabe de todas as estratégias, táticas e lê o jogo como poucos, mas que na hora de lidar com as pessoas, com os egos e com a motivação ele não sabia o que fazer. Seria como mandar o PVC treinar a seleção brasileira: ele saberia todos os detalhes do adversário e faria a leitura do jogo em dois minutos, mas o que vale isso se ele não souber como conversar com Neymar ou como motivar o Alexandre Pato? Ser técnico envolve muitos talentos e o Carlisle parecia não ter todos.

Eu acho que essa imagem do Carilsle, se não 100% correta, é pelo menos 70% e dá pra passar de ano. É raro vermos ele dando discurso emocional como aqueles do Doc Rivers, gritando até ser obedecido como o Stan Van Gundy ou mesmo fazendo aqueles joguinhos para mexer com o brio dos jogadores que o Phil Jackson se especializou em fazer. Mas aí é que o elenco experiente fez a diferença, o Nowitzki não precisa assistir "Gladiador" antes de começar os jogos pra se motivar, o Jason Kidd já entendeu faz tempo que ele não é a estrela e não fica pedindo atenção ou criando briguinha, o Tyson Chandler não é mais o pivete descontrolado dos tempos de Chicago Bulls. É uma equipe de jogadores controlados, que sabem seu papel e que só precisavam de alguém que entendesse de basquete para dar as ordens. O técnico deu as ordens, treinou, inovou (como a defesa por zona, usada à exaustão na temporada regular) e os jogadores aprenderam rápido, sabiam como se adaptar no meio do jogo e confiaram na nerdice do seu treinador. Combinação perfeita. Repito o que sempre disse nas discussões sobre Deron Williams x Chris Paul: a questão não é quem melhor, mas qual dos dois, com seus estilos distintos, é ideal para cada time, técnico e esquema tático. Então não é que um treinador que motiva é coisa do passado e os bitolados táticos os do futuro, para o Celtics funciona o Doc Rivers, para o Mavs funciona o Rick Carlisle.

Mark Cuban

Muita (MUITA, em Caps Lock mesmo) gente odeia o Mark Cuban, mas eu não sou uma delas. Aliás, muito pelo contrário, eu acho ele o dono de time mais legal da NBA. Poderia gastar um post (ou um livro) só de entrevistas polêmicas, desastradas ou de declarações e provocações idiotas (e dispensáveis, fato) dele, mas não sou inocente a ponto de achar que vivemos em um mundo onde as pessoas não falam asneiras. Eu falo, você fala e o Mark Cuban fala. Aliás, fica uma lição para a vida: Nada é imperdoável, todo mundo fala e faz bobagens trocentas vezes na vida e na grande maioria das vezes é sem perceber. Somos todos imbecis e por isso odiar alguém por ser imbecil é, surpresa, uma imbecilidade.

Atrás de todas as atitudes questionáveis do Mark Cuban está um cara que ficou bilionário no mundo da informática e resolveu investir parte dessa grana para comprar o seu próprio time de basquete. Ao contrário de muitos donos por aí, ele não fez isso porque parecia um bom negócio ou para levar os clientes dele para reuniões na sala VIP do ginásio, mas porque ele é perdidamente apaixonado por basquete. Todas as bobagens que ele fala são completamente perdoáveis quando o vemos vestindo uma camiseta do Nowitzki e pulando atrás do banco, o Mark Cuban é só mais um fã de basquete como nós mas que calhou de ter alguns bilhões de dólares sobrando na carteira, e que fã não sai xingando juízes sem motivo depois de uma derrota? Tá, ele também gosta de aparecer e ser o centro das atenções, mas se formos começar a criticar pessoas com a mesma característica nesse mundo do esporte a gente vai acabar gostando só do John Stockton e mais ninguém.

O Mark Cuban tem tanto dinheiro e gosta tanto do seu time que é um dos poucos donos de time que nunca teve medo de gastar. O Mavs tinha acabado de investir uma grana preta na renovação de contrato do Brendan Haywood antes da temporada começar quando surgiu a oportunidade de conseguir o Tyson Chandler sem precisar mandar ninguém relevante em troca. A folha de salário ficaria inchada e isso significaria que o dinheiro investido no Haywood seria para ele esquentar banco, mas Cuban não ligou, como sempre, em pagar multas e mandou fechar o negócio. O sonho do Cuban era ser campeão e ele gastou demais para isso sempre, nunca aceitando ter um time fraco em mãos. Muito dono de time por aí começaria a cortar gastos depois do primeiro conto do vigário (ver DAMPIER, Erick) contratado a peso de ouro para não fazer nada. Cuban, teimoso/persistente, dá uma nova cartada por temporada e dessa vez deu certo.

Mas o mais legal dessa insistência e paixão do Mark Cuban é que ela foi recompensada bem na temporada onde ele admitiu os seus erros. O Dirk Nowitzki deu uma entrevista dizendo que preferia que o seu chefe não desse nenhuma declaração polêmica (o jeito educado de dizer "estúpida") durante os playoffs e foi plenamente atendido; Cuban permaneceu toda a pós-temporada calado e ganhou de brinde o título que tanto sonhou. O cara pode ser mala, mas eu gosto de ver o título indo para um cara que realmente se importa e se diverte com o time que tem.

Dirk Nowitzki

Na minha cabeça o Dirk já estava naquela lista de jogadores que eu teria que defender e justificar a carreira sem títulos até o fim da vida. Em 2047 quando fossem fazer uma lista dos melhores jogadores nos 100 anos de história da NBA eu estaria lá, velho gagá, para defender a inclusão do alemão mesmo que ele tenha passado a carreira em branco. Isso, claro, depois de dar um piti contra a existência de mais uma chata lista de quem é melhor.

Mas não é que no fim tudo deu certo e ele venceu? A ficha ainda não caiu pra mim. Eu sempre torço para os meus jogadores favoritos vencerem, mas torço em dobro quando eles tem uma reputação manchada pelos motivos errados. Se alguém não gosta do Ron Artest pelo seu comportamento, beleza, eu não acho que seja motivo para odiar mas realmente ele já fez coisas condenáveis. Agora, o Dirk tinha fama de amarelão! Isso era injustiça demais contra um dos jogadores mais legais (e decisivos!) que eu já vi jogar. E não é que ele foi campeão em um time fora de série que venceu todo mundo por 20 pontos de vantagem, foi em um time que tinha limitações no ataque e que realizou viradas heróicas no quarto período sempre lideradas por ele.

Continuo achando que grandes jogadores continuam sendo grandes jogadores mesmo quando não ganham títulos (é preciso ter sorte de estar no lugar certo e na hora certa no fim das contas), mas é bem legal quando esses caras conseguem o que tanto buscam.

Isso vale também para outros grandes jogadores que volta e meia recebiam a patética crítica do "foram bons mas nunca ganharam nada" como Jason Kidd, Shawn Marion e Peja Stojakovic. Mas vamos ser sinceros, se é pra medir qualidade individual por resultado de equipe o que vale mais para medir o talento do Kidd, ser campeão com esse Dallas ou levar um time que tinha Kerry Kittles, Keith Van Horn e Jason Collins de titulares (!!!) à final da NBA? Aquilo já deixava o nome dele na história, mas é bom que ele tenha ganhado um anel para os perturbados que pensam que vão-se os dedos e ficam os anéis. A atuação do Shawn Marion marcando Kobe Bryant, Kevin Durant e LeBron James em sequência também faz jus ao seu talento defensivo sempre esquecido e desvalorizado nos tempos de Phoenix Suns.

A franquia

Perceberam um padrão nessas histórias? O Carlisle era o técnico que nunca ia vencer porque não sabia lidar com os jogadores, o Dirk era amarelão, Kidd, Marion e outros tinham passado do seu auge, Mark Cuban estragava tudo com sua boca maior que o Shawn Bradley. Era um bando de derrotados jogando por uma franquia que parecia destinada a ficar sempre no quase. Quando me perguntaram no começo da temporada se o Dallas tinha chance de ser campeão eu disse o que digo todo ano: Elenco para isso eles tem, mas é assim nos últimos 10 anos e nunca deu em nada. Era chato responder o que faltava para o Mavs ser campeão porque eles tinham tudo, o que faltava era simplesmente ir lá e vencer. Soa idiota mas era justamente isso. Meio como um São Caetano da vida, parecia que a NBA tinha uma (argh!) mística que não permitia que fosse só qualquer time investir, contratar e vencer; tinha que ter camisa, tradição e o Mavs não tinha isso.

Esse título, portanto, coloca o Mavs na lista de times respeitados na liga. Quer dizer, respeitado pelos mesmos que não valorizavam o Dirk Nowitzki até um mês atrás, os que não são obcecados por títulos já percebiam a força da franquia quando eles completaram 10 temporadas seguidas com 50 vitórias ou mais. A maioria dos recordes dos últimos 10 anos é do Lakers, Spurs e Mavs e finalmente agora todos eles tem títulos.

O que é curioso é que esse título não veio no ano em que o time mais empolgou. Eles davam mais esperança quando eram o melhor ataque da liga, quando ainda tinham Steve Nash e Michael Finley, quando foram para a final em 2006 ou quando venceram 67 jogos em 2007. Nesse ano foi bem diferente, tiveram uma temporada boa-mas-não-espetacular e ainda causaram muitas dúvidas quando perderam o Caron Butler no meio da temporada por contusão e não fizeram nada para repor a perda. O Butler era o desafogo do Dirk no ataque do Mavs e eu realmente achei que eles não tinham chances nos playoffs sem alguém para o seu lugar, imaginei que fosse acontecer com eles o que aconteceu com o Bulls. O time de Chicago só tinha o Derrick Rose no ataque e quando ele foi anulado pelo LeBron James o ataque morreu, minha teoria era que em algum momento dos playoffs o Nowitzki fosse ser bem marcado e o Mavs não conseguiria mais pontuar, eu não contava com tanta evolução nas trocas de passes, os arremessos cada vez mais precisos do Kidd e muito menos o Shawn Marion criando o próprio arremesso e o JJ Barea costurando algumas das melhores defesas da NBA. Não houve um problema nessa temporada para o qual o Mavs não soube se mexer e se adaptar.

Legado?

Em um dia otimista daria para dizer que esse time deixaria um legado. Que ensinou, como disse o dono do Cavs Dan Gilbert após o jogo final, que "não existem atalhos para a vitória", que ela aparece na persistência. Ou poderia ter ensinado o valor do trabalho em equipe em contraste com o jogo individualista e baseado em estrelas do Miami Heat, seu adversário na final. Mas não é bem assim. Primeiro porque essa história do Heat ser vilão e não jogar como equipe é meio balela que não faz mais sentido desde janeiro, depois porque nenhum time deixa legado, a gente tem memória curta quando o assunto é esporte. Em 2004, que nem tá tão longe assim, o Lakers montou não um Big 3, mas um Fab Four, com Kobe Bryant, Shaquille O'Neal, Karl Malone e Gary Payton. E o que aconteceu? Eles não dominaram a temporada regular como previsto, mas brilharam nos playoffs até chegar na final, onde perderam para um time que os venceu em um jogo eficiente e coletivo. Roteiro mais repetido só se o Dirk usasse o afro do Ben Wallace e a história passasse na Sessão da Tarde.

E mesmo com essa história recente ainda teve gente com certeza de que o Heat ia brilhar desde o começo, citando o exemplo do Celtics de 2008 ao invés do Lakers de 2004, e outros pensando que a vitória do Mavs vai fazer os times da NBA focarem mais na criação de boas equipes do que em colecionar estrelas. O negócio é simples, quem tem chance de ter LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh ou equivalentes no mesmo time não vai perder a oportunidade de juntar todos. E quem não tem não vai admitir derrota e vai buscar uma solução com outros jogadores. Algumas vezes um lado ganha, outras vezes o outro lado ganha. Para surpresa geral de todos não existe só uma fórmula para se ganhar um título, não tem só um jeito de jogar basquete, não tem mais bobo no futebol e o céu é azul.

Esse título do Mavs deu uma confirmação histórica a muita gente que já fazia por merecer, fez muita gente feliz por ver o Miami Heat perdendo, mas não vai mudar os rumos do basquete e não há uma franquia sequer que não sonhe em ter um Big 3 para chamar de seu.

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Pelo o que eu sei o Danilo está com um projeto de post sobre o lado dos perdedores, divagando sobre o Heat e o que essa derrota significa para LeBron James e cia. E quando eu voltar para o Brasil começo a trabalhar em tudo o que comentei no começo do texto, certo? Até lá aproveitem o Bola Presa como se ele tivesse sido feito no Geocities nos anos 90. Coisa das boas.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

As trocas discretas

A arte de achar os jogadores trocados na mesma foto


Eu sei que vocês estão esperando a análise da troca do Kendrick Perkins pelo lado do Thunder, mas deixei esse prazer para o Danilo, que está fora no fim de semana. Amanhã esse é o assunto então, certo? Hoje vou falar de duas trocas um pouco menores, que não chamaram a atenção no dia mais movimentado da temporada regular até agora. Mas nem por isso não são assuntos interessantes, muito pelo contrário.

Para ver todas as trocas que ocorreram na data-limite de negociações, clique aqui.

A primeira envolve o Atlanta Hawks e o Wahsington Wizards. Nela o Hawks mandou o Mike Bibby, uma escolha de Draft e os reservas Jordan Crawford e Maurice Evans em troca de Kirk Hinrich e Hilton Armstrong. Essa troca do Hawks foi muito, digamos, Hawks. Desde que contrataram o Joe Johnson em 2005 eles nunca foram um time de fazer loucuras para mudar o elenco, a maior, se vocês pensarem bem, foi gastar uma nota preta na renovação do mesmo JJ justamente com o intuito de não mudar o time. Depois de fracassar por tanto tempo nos anos 90 e no começo dos anos 2000 eles sossegaram agora que estão satisfeitos com a posição que estão: Não são bons o bastante para brigar com Miami Heat, Chicago Bulls, Boston Celtics e Orlando Magic pelo topo, mas ainda estão bem à frente de quem corre atrás como New York Knicks, Indiana Pacers, Milwaukee Bucks e etc.

A ambição para ser melhor até existe, mas eles não estão prontos para implodir o time atrás disso, então vão comendo pelas beiradas, pouco a pouco, quando a oportunidade aparece. Foi assim em 2008 quando aproveitaram um momento de reconstrução do Sacramento Kings para trocar por Mike Bibby, o tipo de armador que eles procuravam faz tempo. A chegada dele melhorou o time, mas não durou muito tempo, desde o  fim da temporada passada o jogador tem mostrado sinais de envelhecimento: está lento, defendendo mal e, como eu até mostrei no gráfico do Buraco Negro, hoje até atua mais sem a bola, como um arremessador. Com isso, para a armação o Hawks tinha três shooting guards, Bibby, Joe Johnson e Jamal Crawford. Não é o ideal.

A solução foi negociar com um time que tinha armador sobrando, precisava de arremessadores e queria economizar um pouco. A economia foi pouca para os padrões da NBA, mas é alguma coisa. O Hawks pega o contrato do Hinrich, que ganha 9 milhões nesse ano e 8 milhões na próxima temporada, junto com Hilton Armstrong que ganha menos de 1 milhão esse ano, o último de seu contrato. O Wizards pega o Bibby, que tem contrato ainda por essa e mais uma temporada, ganha 5 milhões nessa e 6 na próxima. Os 2,5 milhões do Maurice Evans fizeram a troca viável, mas o contrato é expirante, acaba ao fim dessa temporada. O Wizards salva uma graninha ano que vem, nada mal.

Com poucos riscos para os dois lados é de se surpreender que tenham deixado a troca pra última hora. O Wizards é um dos piores times em bolas de três pontos mesmo tendo trocado pelo Rashard Lewis há algum tempo, ter o Bibby para atuar alguns minutos ao lado do John Wall é um bom jeito de abrir espaço para infiltrações, além de manter a mesma estratégia de deixar um armador experiente treinando e jogando do lado do garoto. É pouco, claro, mas Kirk Hinrich não estava fazendo muito diferente e na troca eles ainda receberam duas coisas para investir: Uma escolha de Draft, que sempre pode virar alguma coisa, e Jordan Crawford. O cara ficou famoso no mundo todo por ter enterrado na cabeça do LeBron James no infame caso do vídeo confiscado, mas depois disso ainda fez carreira como impressionante pontuador no basquete universitário. Pode acabar virando um bom reserva para o Nick Young, nunca se sabe.

O Hinrich não ajudava muito o Wizards porque para quê serve um cara que defende bem no 1-contra-1 se na cobertura dele está o Rashard Lewis que não se dá ao trabalho de se mexer, o Andray Blatche que está ocupado demais comendo seu Danoninho Ice e o JaValle McGee, que é capaz de cometer 18 erros de rotação seguidos só para conseguir um grande toco que apareça no Top 10 do dia? Era desnecessário ele por lá. E convenhamos, o rapaz merece a chance de jogar em um time melhor. Captain Kirk foi o rosto que simbolizou o Bulls dos últimos 10 anos: Bom, mas longe de ser espetacular. Ele ficou em Chicago por muito tempo sendo o melhor jogador ou pelo menos o líder de equipes que deveriam ser melhores do que foram. Quando eles finalmente conseguem um técnico espetacular, um jogador de garrafão que sabe pontuar (meu deus, depois de uma década pedindo!) o pobre do Kirk é trocado para, lembrem-se, abrir espaço para contratar LeBron James e/ou Dwyane Wade. Se o Bulls hoje é o 6º time que menos gasta com salários, um dos motivos foi por ter se livrado dele.

Por ter sofrido tanto em times ruins ele merece a chance de jogar em uma equipe que tem chance de brigar (o que não quer dizer vencer) com equipes do alto escalão da liga. O técnico Larry Drew desde o começo da temporada tenta implantar um novo sistema ofensivo em que os jogadores se movimentam mais e eles usam menos isolações do Joe Johnson. No começo da temporada eles estavam voando e todos os jogadores elogiando a mudança, mas alguns meses depois e eles, que eram o segundo ataque mais eficiente da temporada passada, são hoje só o 15º. Muito da dificuldade está na criação das jogadas, sem um armador nato eles acabam tendo um ataque estagnado e mesmo tendo dois bons jogadores no garrafão, Josh Smith e Al Horford, marcam mais pontos longe do que perto da cesta. É um time que por mais que tente mudar ainda vive de pontos oriundos de jogadas individuais, ter o Hinrich comandando os pick-and-rolls pode mudar um pouco isso.

Por outro lado creio que a maior mudança será mesmo no outro lado da quadra, se a defesa deles não é espetacular um dos motivos é que todo armador um pouquinho mais rápido voava pelo Mike Bibby. O Hinrich em compensação é um ótimo marcador e pode dar conta do recado por lá. Eu acho que para ir além da posição que está agora o Hawks deveria trocar Josh Smith e/ou Marvin Williams por um grande pivô, alguém que possa parar o Dwight Howard (provável adversário de primeira rodada e que tem o hábito de almoçar o Hawks com molho da própria carne e purê de maçã) e que deixasse o Al Horford usar seu talento e força para torturar outros alas de força ao redor da liga. Mas acho que isso seria um risco muito grande para o conservador Hawks, talvez na próxima temporada.
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Mark Cuban faz o que melhor sabe: reclamar


A outra troca é praticamente insignificante para o resto da NBA. O New Orleans Hornets mandou o Marcus Thornton em troca do Carl Landry, que estava no Sacramento Kings. A troca é engraçada por um lado porque ela até poderia ter sido relevante se tivesse sido realizada há, sei lá, 10 meses. Nessa época o Landry havia sido trocado do Rockets para o Kings e era um dos líderes da NBA (é sério!) em pontos no quarto período, a sua força e seus insanos rebotes ofensivos era o que muito time por aí queria. Já o Marcus Thornton era, junto com Darren Collison, os pontos positivos de uma temporada desastrosa do Hornets. Ele tinha um arremesso de três preciso e liderou o time em pontos muitas vezes.

Alguns meses depois e o Kings afundou Landry no banco atrás de Jason Thompson, DeMarcus Cousins e até Donte Greene algumas vezes. Uma das peças de troca mais importantes deles foi sabotado pela própria equipe. Coisa parecida aconteceu no Hornets: enquanto trocaram Collison a peso de ouro, Thornton foi para o banco, perdeu espaço para Marco Belinelli e Trevor Ariza e aos poucos foi morrendo na rotação do novo técnico Monty Williams. Com os dois valendo metade do que valiam há pouco tempo, foram trocados um pelo outro.

O Hornets está satisfeito com sua rotação de armadores com Chris Paul, Jarret Jack, Marco Belinelli e Willie Green, fazia sentido trocar por um jogador de garrafão melhor que o Jason Smith para dar uma força vindo do banco. Em compensação o Kings era o oposto, com tanta gente no garrafão era desnecessário ter um cara como o Landry e eles estavam rezando para ter um shooting guard melhor que o Luther Head pra usar quando o Tyreke Evans se machuca, o que tem sido constante nessa temporada. Uma troca que teria sido útil e discreta se não fosse por uma pessoa, Mark Cuban.

O Mark Cuban é dono do Dallas Mavericks, mas também se considera um pouco dono do New Orleans Hornets. E não sozinho, mas junto com os outros 28 donos de times na liga. Como explicamos nesse post, o Hornets foi vendido e agora é gerido pela própria NBA, ou seja, todos os outros times da liga, por fazer parte da Associação, são um pouco responsáveis pelo Hornets até arranjem um novo dono. Cuban se mostrou insatisfeito com a troca porque ela não foi financeiramente boa para o Hornets, que teoricamente está nessa situação por falta de dinheiro. Eles mandaram o contrato de menos de 1 milhão de dólares de Thornton e pegaram o de 3 milhões do Landry em troca, fazendo o negócio funcionar apenas por usar uma daquelas "trade exceptions" que explicamos no post do Carmelo Anthony.

As trade exceptions fazem a troca funcionar, mas não mudam a questão financeira. A folha salarial e os gastos do Hornets aumentam. Nas palavras do Mark Cuban:

"Se o New Orleans está pagando 2 milhões a mais, o time está perdendo dinheiro e eu sou dono de 1/29 da equipe, vou contra a maré e digo que isso está errado. Eles estavam dispensando jogadores por causa de salário antes de serem vendidos para a gente e agora querem pegar jogadores mais caros. Está errado em todos os sentidos. A NBA deveria criar um orçamento para o time e nunca me ocorreu que esse orçamento diria para eles gastarem ainda mais para trazer novos jogadores."

O Mark Cuban ainda afirma que outros times tinham interesse no Carl Landry, mas que não o pegaram por causa do salário e que agora esses times, de certa forma, estão pagando para ele jogar em outra equipe. As críticas dele fazem todo o sentido do mundo e começam a mostrar a dor de cabeça que é a NBA ser dona de uma de suas franquias. É torcer para aparecer algum milionário logo para encerrar essa situação que era uma polêmica esperando para acontecer. Quem está certo ou errado nem tem muita importância nessa caso, aposto que a NBA não jogaria dinheiro no lixo, mas o problema é existir essa situação que inevitavelmente vai criar questões difíceis de serem respondidas.

É torcer para acabar logo ou para o Hornets pegar o Dallas na primeira rodada dos playoffs e o Carl Landry fazer uma cesta no último segundo. Só pra ver a entrevista do Cuban depois.

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Aos poucos estou atualizando a nossa planilha de Elencos da temporada com todas essas trocas. Consultem sempre, fica na nossa barra lateral.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Hora de se mexer

Caron Butler e a alegria contagiante de B.Haywood e D.Stevenson


O Danilo fez um texto muito legal há pouco tempo sobre a nova defesa por zona que o Rick Carlisle implementou no Dallas Mavericks. É com essa defesa que o Dallas tem incomodado muito os ataques adversários, principalmente forçando eles a arremessos de média e longa distância. O Mavs é o oitavo time que menos permite tentativas de arremesso perto da cesta, está no meio da tabela em permitir tentativas de três pontos e é o quarto que menos sofre tentativas de lances livres, ou seja, obriga os adversários a chutarem muito de meia distância, que é o tipo de arremesso de menor aproveitamento na NBA atualmente. Em outras palavras, a defesa do Dallas é o que os colocou como um dos melhores times do primeiro terço de temporada.

Porém, no basquete não dá pra abrir um a zero, colocar mais um volante e ficar fazendo falta pra segurar o jogo. Você é obrigado a ir ao campo de ataque e fazer alguma coisa e para isso o Mavs estava contando com uma temporada fora de série de Dirk Nowitzki. O alemão mantém os 24 pontos de média que são o seu padrão nos últimos tempos, mas ao invés de fazer isso com 48% de aproveitamento, está com assustadores 54%! E vocês conhecem o Dirk, sabem os arremessos desequilibrados e doidos que ele tenta, acertar 54% é um absurdo de bom. A sua média de arremessos tentados é 16 por jogo, número baixo para um jogador do seu nível, mas que tem a ver com um Dallas que tem passado mais a bola do que de costume já desde a temporada passada. Eles eram um time focado em jogadas individuais por muitos anos, mas desde o ano passado estão no Top 5 de time que mais distribuem assistências.

Com o time entrosado, passando bem a bola e liderados pelo Dirk, o ataque do Mavs também estava fluindo com qualidade. Até que o alemão se machucou. Sem seu cestinha eles conseguiram vencer o Thunder fora de casa com uma atuação monstruosa do Jason Terry no quarto período, mas o sucesso foi breve. Logo perderam do Spurs e até do horrível Toronto Raptors, que na ocasião estava sem meio time. A defesa ainda estava lá (foi o que manteve eles na briga com o Spurs), mas no ataque ficaram estagnados. Apesar dos poucos chutes do Nowitzki por jogo, ele é importante para começar as jogadas. É com a dupla marcação que ele sofre que o time começa a rodar a bola até achar o cara livre, sem essa ameaça o time tem que penar muito mais em movimentações e jogadas individuais para achar alguém em posição para finalizar.

No último Filtro Bola Presa eu mostrei números que mostravam essa dependência do Dirk, posto aqui de novo:

Diferença de pontos por 48 minutos
Com: + 13.3  / Sem: -13.7
Pontos por 48 minutos
Com: 104.7  / Sem: 83.9
Pontos sofridos por 48 minutos
Com: 91.4   / Sem: 97.6
Aproveitamento de arremessos
Com: 49,9% / Sem: 42%
Aproveitamento de bolas de 3 pontos
Com: 38,5%  / Sem: 29%

Nunca é bom depender tanto de um cara, mas acontece e não seria o fim do mundo porque o alemão deve voltar em breve. O problema maior foi que durante esse período o cestinha do time foi Caron Butler, e agora ele está machucado também, e não é por uma ou duas semaninhas, as notícias mais recentes afirmam que será por toda a temporada.

O Dallas tem bons chutadores como Jason Terry, JJ Barea e até Jason Kidd, sem contar Dirk, claro. Tem Shawn Marion e Tyson Chandler que se movimentam bem sem a bola para finalizar no garrafão, mas só tinha um jogador que tinha como característica botar a bola no chão, driblar e atacar a cesta, era Butler. Ele nem atacava tanto a cesta como deveria, às vezes confiava demais no seu step-back jumper, aquele arremesso com um passo pra trás que era sua marca registrada, mas mesmo fazendo menos do que devia era o líder do time nisso. Equipes que vivem de arremessadores como o Mavs sempre têm períodos dentro de um jogo em que a bola cisma em não cair, é nesses momentos que falta alguém que jogue mais perto da cesta. O Mavs perdeu esse jogador para toda a temporada.

É preocupante porque no fim das contas, como pontuadores confiáveis eles tinham só Nowitzki, Butler e Terry. O resto raramente passa dos 15 pontos em uma partida. E o Terry é o pontuador menos confiável que você pode ter, ele é capaz de qualquer dia fazer como nos jogos contra Thunder e Heat: feder por três quartos sem parar e aí marcar 90% dos pontos da equipe no último período e vencer o jogo. Mas quem é que mantém o time sequer perto do placar quando o Terry não está com a mão pegando fogo? Em um jogo que acaba 100 a 98 o Terry é o cara que faz os dois pontos de diferença, mas não o que marca os outros 98 que deixaram a partida empatada.

O Mavs nunca está para brincadeira em uma temporada. O Mark Cuban, dono do time, é um zilionário entediado que quer ter o seu time de basquete e quer vê-lo disputando títulos para se divertir. Tá bom que ele nunca ganha, mas pelo menos estão sempre nos playoffs enfrentando as grandes equipes de igual pra igual, é o que vale. Pela falta que fará o Butler e pelo histórico ativo em trocas do Mavs do Cuban, acho difícil que eles fiquem de braços cruzados com um jogador tão importante fora do resto da temporada.

Se tem uma coisa boa nessa contusão do Caron Butler foi o seu timing, pouco antes de um mês antes da data-limite para trocas no meio da temporada. Até agora só o Magic fez trocas bombásticas e muitos dos jogadores que especula-se que serão trocados ainda estão em seus times, então dá tempo para o Mavs meter o bedelho e ver o que consegue. O alvo principal deve ser Carmelo Anthony. Há algum tempo, mesmo com Bulter saudável, comenta-se isso na imprensa americana e embora uma declaração oficial tenha dito que não há interesse do Mavs, eu não acredito. Por que diabos um time como o Dallas não gostaria de ter o Melo? Por que não há garantia de extensão de contrato? Oras, o Butler também é Free Agent ano que vem e não tem, qual seria a diferença?

Os problemas para essa troca estão no outro lado. Geralmente quando um time troca um jogador do nível do Carmelo Anthony tenta-se mandar o cara para a outra conferência. Não é bom ajudar seus rivais locais a montar supertimes e o Denver não vai ajudar o Mavs a ter um time tão bom, já basta ter Lakers e Spurs para enfrentar nos playoffs. Além disso, os contratos expirantes de Butler e DeShawn Stevenson seriam só para virar farofa no ano que vem, então eles poderiam muito bem receber o Eddy Curry do Knicks ou o Troy Murphy do Nets, o que não falta é time com salários grandes e prontos para acabar. Vamos então ao ponto que é o que vão mandar junto do salário expirante. O Knicks não quer mandar Landry Fields e tem suas dúvidas em mandar Gallinari ou Wilson Chandler, o Nets parece que toparia mandar o Derrick Favors e mais qualquer um que não seja o Brook Lopez. Já o Mavs teria para oferecer só o Rodrigue Beubois, que dependendo do seu otimismo pode ser uma estrela daqui uns anos ou só um bom reserva.

Por essas razões eu acho que o Melo em Dallas é possível, mas muito improvável. É certeza que eles vão chamar o Nuggets para conversar, mas não vejo nada saindo dali. Então podemos pensar, quem mais o Mavs poderia tentar? O Bobcats está em modo de demolição depois da saída do Larry Brown e doido para fazer trocas, o veterano Stephen Jackson não é intocável e poderia dar certo no Dallas embora seja mais arremessador do que qualquer outra coisa. No mesmo Bobcats tem o Gerald Wallace, que não é pontuador nato mas quebraria mais que um ótimo galho. Outros nomes como Corey Maggette e Rip Hamilton fariam bastante sentido, mas acho que de todas as opções nenhuma se encaixa melhor do que Andre Iguodala.

O ala do Sixers vive um momento estranho na sua carreira. Ele é disparado o melhor jogador do elenco do seu time, sem discussão, mas a melhora deles na tabela (atualmente 9º no Leste depois de um começo de temporada patético) se deu justamente quando tiraram responsabilidades das mãos de A.I. Ao invés dele comandar o ataque como um point-forward, Jrue Holiday tem mais tempo com a bola. Eles também usam mais o Elton Brand dentro do garrafão e de lá criam jogadas para os arremessadores Jodie Meeks e Andres Nocioni. Até quando joga junto dos reservas o time está dando mais espaço para o novato-decepção Evan Turner, que volta e meia mostra um relance de bom basquete, mas logo esquece. Sobra para o Iggy alguns momentos de glória nos últimos períodos quando deixam ele infiltrar em jogadas de isolação ou quando o time volta às suas origens de contra-ataque, em que ele é mestre. Mas é só isso, ele não é mais essencial como já foi, embora ganhe um salário de quem deveria ser armador, ala, pivô, técnico e deus dentro do time.

Temos então o Sixers que paga demais por um jogador que não é  mais tão necessário e que ao mesmo tempo está doido para cortar custos e do outro lado o Mavs, com contratos expirantes para oferecer e que adoraria um jogador com as qualidades do Iguodala: bom passador, ótimo nas infiltrações e que pode arremessar de longe (embora não se deva contar com isso). Sem contar que Iguodala é um excelente defensor, tanto no homem a homem como interceptando linhas de passe, ele seria mais do que útil em uma série de playoff marcando Kobe, Durant ou Ginóbili. Sim, ele é caro e o contrato tem mais 4 anos de duração, mas não é o Mark Cuban o cara que não liga para as multas que vai ter que pagar?

O propósito do post é dizer que o Mavs tem que se mexer e que oportunidades não faltam. Não gosto de ficar comentando trocas que não aconteceram, mas essa do Iguodala é, pra mim, muito óbvia para não acontecer! Mais óbvia que isso só o fato da TV dos anos 90 ser melhor do que hoje. Em termos de salários a simples troca DeShawn Stevenson e Caron Butler por Andre Iguodala já daria certo, mas imagino que o Sixers deveria pedir algo mais como escolhas de draft ou até o mesmo Beubois, o que poderia complicar o negócio. Talvez mandar o francês seja demais, mas algumas escolhas de draft o Mavs não teria porque negar. É sentar numa mesa (ou numa churrascaria se você for o Ronaldinho) e botar para funcionar. A excelente temporada do Mavs depende de uma mudança para continuar dando certo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Um time à venda

Chris Paul faz greve até ter um elenco melhor

O atual dono do Hornets, George Shinn, tem uma daquelas lindas histórias que nos fazem acreditar no "Sonho Americano". Ele era o pior aluno da sala, trabalhou em fabriquinhas de pano, lavou carros, foi servente de escola, aí conseguiu ser formar numa faculdade Unigrunge da vida, juntou dinheiro, comprou a faculdade, criou um conglomerado monstruoso de escolas e cursos universitários, vendeu tudo, comprou o Hornets, e aí foi acusado de estupro. Ou seja, tudo aquilo que a gente espera que o capitalismo nos proporcione: a chance de crescer na vida e de ir parar num julgamento em rede nacional.

George Shinn disse que iria apresentar uma mulher que conheceu ao seu advogado, para lidar com questões de custódia, mas a mulher diz que Shinn levou ela para outro lugar e tentou dar uns amassos. Foi acusado de sequestro e estupro num julgamento realmente transmitido ao vivo pela televisão. O júri declarou o milionário inocente, mas sua imagem ficou tão manchada (ele teve que admitir durante o julgamento que havia traído sua esposa diversas vezes) que ele resolveu dar o fora do lugar em que morava - e assim como uma criança leva sua bola quando vai embora, o milionário levou o Hornets com ele no bolso. Foi assim que o Hornets saiu de Charlotte e foi parar em New Orleans, já que seu amigo Gary Chouest, dono de uma parte das ações do time, era do estado de Louisiana.

Mas os negócios em New Orleans nunca deram muito certo para o Hornets. A cidade é grande e gosta de basquete, mas a economia é debilitada e a população local tem dificuldades em lotar o ginásio (até porque prefere gastar o dinheiro com futebol americano). Depois do furacão Katrina, as coisas ficaram ainda piores. Estima-se que 44% da população de New Orleans tenha ido embora após o incidente, ou seja, é como uma cidade ter metade das pessoas de um dia para o outro (nível "invasão-zumbi" de catástrofe!). Enquanto a cidade tentava se reconstruir, o Hornets passou a jogar em Oklahoma City, onde os ginásios sempre lotavam. A excelente recepção por lá fez com que os compradores do Sonics tivessem mais vontade ainda de levar a equipe para Oklahoma City, rebatizando-a de Thunder. Já o Hornets teve que voltar para New Orleans assim que a crise melhorou, mas o ginásio está mais vazio do que nunca.

Depois que o George Shinn descobriu que estava com câncer e passou por um processo de recuperação, resolveu ouvir o CD do Padre Marcelo Rossi, ergueu as mãos pra dar glória a Deus, e resolveu que não quer mais se focar nessa besteira de basquete. Gary Chouest iria comprar suas ações do time e virar dono da brincadeira toda, mas o processo de compra levou meses e meses, e agora Chouest diz que a crise econômica complicou sua conta bancária e que ele talvez tenha que se dedicar integralmente a outras atividades. Ou seja, o troço todo miou. "Vendam para outro mané", você pensa, "deve ter um bilhão de milionários querendo comprar uma equipe de NBA para dar de presente para o filhinho mais novo". O problema é que os compradores vão obviamente querer tirar a equipe de New Orleans, o que seria péssimo para a cidade e continuaria a tornar a NBA uma bagunça, com equipes mudando de cidade a torto e a direito - e a NBA não quer ficar parecida com nosso NBB, não é mesmo? Normalmente, arrancar uma equipe de sua cidade não é a coisa mais fácil do mundo, envolve uma boa dose de burocracia e de migué, mas no caso do Hornets basta ler as letras miúdas na parte inferior do contrato: se durante 13 partidas, entre 1o de dezembro e 17 de janeiro, o Hornets não tiver mais de 14.213 torcedores no ginásio, o time tem o direito de deixar a cidade. Como até agora o máximo de torcedores que o time recebeu na temporada foram 14.020 (e isso porque o time está indo bem!), vai ser bem fácil para o próximo comprador arrancar a equipe de lá.

Foi então que o David Stern resolveu intervir. Se a NBA, como entidade, tem uma grana preta sobrando, que tal comprar o Hornets das mãos do George Shinn, e aí vender num futuro próximo apenas para alguém disposto a manter o time em New Orleans? Na prática, não deve mudar nada: o time continua com os mesmos jogadores, mesmo técnico, mesmo General Manager, mas a franquia passa a pertencer - temporariamente - à NBA. Não tem essa de "a NBA vai favorecer a equipe" ou "vão rolar umas trocas absurdas", só muda quem é dono das ações, não há influência direta. Quer dizer, mais ou menos.

Os donos influenciam suas equipes de uma única maneira: assinando cheques. Quando o Mark Cuban assina um cheque e diz que está disposto a pagar todas as multas do planeta para que o Mavs tenha o melhor elenco possível, ele está agindo diretamente sobre seu elenco. Times em economias piores, com donos que não podem torrar dinheiro desse jeito, são obrigados a não assinar novos jogadores, se livrar de pirralhos para não pagar seus salários e não se comprometer com contratos muito longos - tipo o Jazz, que volta e meia se livra de alguém só pra economizar uns trocados.

Bem, o Hornets está numa situação bastante complicada: o time começou muito bem a temporada e Chris Paul é um dos melhores armadores do planeta, mas seu contrato acabará ao fim da próxima temporada e ele certamente pedirá antes para sair em busca de um time que lhe ofereça mais condições de ganhar um título. Cabe ao Hornets, então, duas escolhas: trocar o Chris Paul e começar tudo de novo, perdendo ainda mais fãs no ginásio e jogando fora as chances de lucrar nos playoffs; ou então manter o Chris Paul nessa temporada e investir pesado no time para que ele tenha chances nesses playoffs a ponto de convencer o armador a ficar na temporada que vem.

Muita gente elogiou a troca de Peja Stojakovic (que foi para o Raptors em troca de Jarret Jack e mais uns carinhas aí) do ponto de vista econômico, já que o Hornets se livrou do contrato monstruoso de 15 milhões do Peja, mas é justamente o contrário. O Hornets pagará alguns milhões a menos nessa temporada graças à troca, mas pagará mais de 5 milhões a mais pelo contrato do Jack na temporada que vem - temporada em que precisariam do dinheiro para contratar estrelas, enquanto o gasto nessa temporada não faria mais diferença. Foi um investimento para convencer Chris Paul a ficar, não para economizar verdinhas. E, para que o armador realmente continue no Hornets, outros investimentos desse tipo precisam acontecer.

O Hornets é, outra vez, um time ruim que joga muito bem - e isso é perigoso. Dá pra ganhar muitos jogos apenas com o entrosamento, a defesa, a movimentação, não desperdiçando a bola, mas muitos jogos serão perdidos simplesmente porque a equipe não tem talento o bastante. O Hornets, que há pouco tempo atrás era líder da NBA, já caiu para a sexta posição do Oeste. Provavelmente irão para os playoffs, podem causar estrago por lá, e o técnico Monty Williams se dá cada vez melhor com Chris Paul, os dois já são grandes amigos. Mas é impossível que o Chris Paul não perceba que ele está tirando água de pedra. Sempre fico imaginando o Chris Paul entrando no vestiário e vendo o DJ Mbenga tomando uma enterrada na cabeça de um anão, o Aaron Gray não alcançando algo em cima do armário porque não consegue pular, o Pops Mensah-Bonsu não conseguindo amarrar o próprio cadarço e o Belinelli e o Willie Green arremessando as próprias mães numa cesta de lixo. É um vestiário de chorar.

Para salvar a franquia de uma reconstrução total e de ter ainda mais prejuízos, é preciso que o dono da equipe resolva assinar cheques desesperadamente - e a NBA, que agora comprou o time, não fará isso. Manterá as finanças como estão, apenas esperando vender o time sem que ele se desvalorize muito, e para isso não podem sair acumulando dívidas. Supostamente não deveria fazer nenhuma diferença quem é o dono do Hornets, mas nesse momento em especial, em que o futuro do Chris Paul depende única e exclusivamente de resultados imediatos, é preciso um dono disposto a investir - sob risco de perder tudo. A cidade de New Orleans sai ganhando e mantém sua equipe, claro, mas o Hornets e seu elenco saem perdendo. Apenas um milagre - com o Chris Paul tirando muita água de pedra - lhe deixará convencido de que é possível ganhar um título com esse elenco atual, e a NBA não deve melhorar o elenco do modo necessário.

Aproveito a oportunidade, no entanto, para vislumbrar a possibilidade de que um dia os donos não pudessem mais intervir na NBA. Esse lance de poder arcar com multas de acordo com o naipe do dono e a economia local tornam a liga mais desequilibrada do que deveria ser. Foi então que eu lembrei de um artigo simplesmente espetacular do Elrod Enchilada, do site RealGM.com, em que ele propõe um novo sistema financeiro para a NBA - um sistema meio socialista.

Funciona mais ou menos assim: soma-se o teto salarial de todos os times da NBA, cerca de 2 bilhões de dólares que deveriam ser gastos com todos os jogadores da liga, e colocamos toda essa grana num pote. Ao invés de distribuir esse dinheiro igualmente a todos os jogadores (que ganhariam cerca de 4.5 milhões cada), cria-se um sistema de méritos para que nenhuma estrela choramingue por perder seu salário monstruoso. O sistema é o seguinte:

- 3.5% da grana total, antes de ir pro pote, vai para um banco para "jogadores contundidos", que permite que esses jogadores possam ganhar o mesmo salário que ganharam no ano anterior caso percam mais de 50 jogos, ou uma porcentagem disso de bônus caso percam menos jogos
- 70% da grana do pote vai para os jogadores de acordo com a performance, ou seja, de acordo com os minutos jogados. Os 90 jogadores que estiverem em quadra por mais minutos receberiam 6.5 milhões, os 90 jogadores seguintes 5 milhões, até que os jogadores que menos jogassem recebessem 1 milhão (o mínimo atual).
- 20% do pote de grana iria para jogadores "votados". Os 25 primeiros colocados na votação para MVP receberiam incentivos que vão de 5 milhões (para os 5 primeiros) até 3 milhões (os 5 últimos). Além disso, seriam eleitos por votação times All-NBA (com os melhores jogadores de cada posição, como acontece hoje em dia), mas seriam 10 times com os melhores do Oeste e 10 com os melhores do Leste, de modo que os que estiverem no primeiro time recebam 4.8 milhões e os que estiverem no décimo time recebam 1.2 milhões. São 100 jogadores premiados desse modo, ou seja, dois terços de todos os jogadores titulares da NBA.
- 10% do pote de grana vai para todos os jogadores dos 16 melhores times, em ordem de classificação para os playoffs.

Com isso, os jogadores fodões (que jogam bastante, são eleitos entre os melhores e estão em times vencedores) ganhariam entre 16 e 18 milhões, um All-Star que não está num time de elite ganharia de 13 a 15 milhões, outros titulares comuns ganhariam entre 8 e 10 milhões, e os reservas que mais jogam ganhariam entre 5 e 7 milhões. Ou seja, são salários compatíveis com aqueles que existem hoje em dia, mas a NBA mudaria drasticamente. Um jogador que de um dia para o outro começa a jogar muito bem seria imediatamente recompensando, ao invés de passar anos num contrato vagabundo até poder assinar um novo. Jogadores não poderiam parar de treinar depois de assinar contratos grandes (como aconteceu com Jerome James, Eddy Curry...). Não teríamos jogadores se esforçando apenas em "anos de contrato" (é como se todo ano fosse ano de contrato!). Jogadores que ficam muito tempo na quadra porque são bons defensores, por exemplo, ganhariam tão bem quanto os melhores pontuadores, que em geral tendem a receber mais. Todo jogador vai se esforçar para estar em quadra e ajudar o time, e terá benefícios por ajudar seu time a vencer e subir na tabela. E as finanças dos times ficariam sempre iguais, sem intervenção dos donos, e sem que contratos "burros" destruam toda a economia da liga. Os jogadores iriam para os times em que podem jogar mais e que possam vencer ao mesmo tempo, não para os times que paguem mais. Isso evitaria "panelinhas" em que jogadores precisem dividir minutos, ou grandes jogadores que se acomodam em times ruins.

Várias questões surgem com esse sistema, como o tempo que os jogadores permaneceriam nos times, trocas, etc. Elrod Enchilada responde tudo com maestria, sempre dando um jeito de fazer o sistema funcionar (um dia faço um post maior explicando todas as ideias do Elrod). Sua sugestão é para que não seja necessária uma greve dos jogadores por razões salariais e interromper o prejuizo dos times, mas trago a ideia de volta para que não aconteçam novamente coisas como esse Hornets, que precisa de alguém disposto a pagar taxas e não terá - enquanto Mavs e Lakers se esbaldam em elencos caríssimos. É uma pena que caras como o Chris Paul tenham que buscar sempre os "melhores mercados", e o Hornets tenha que ficar com o "resto".

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Botão do apocalipse

Caron Butler chora uma lágrima de sangue pelos seus companheiros do Wizards


Durante o fim de semana do All-Star, o Wizards resolveu apertar o botão do apocalipse. Com 17 vitórias e 33 derrotas, o time tem a segunda pior campanha do Leste e a quarta pior de toda a NBA. A equipe aturou o Gilbert Arenas contundido por muito tempo com a esperança de que, com ele de volta, pudesse competir pelo título do Leste. Afinal, Arenas, Jamison e Caron Butler são todos All-Stars e não é qualquer time que consegue ter tantas estrelas juntas ao mesmo tempo. Mas nessa temporada o Wizards aprendeu duas coisas: a primeira é que contar com o Arenas é impossível, porque ou ele vai estar contundido ou vai ter caído numa piscina de xarope, bebido água da privada ou colocado pó-de-mico na cueca de algum companheiro de equipe. A segunda coisa é que nas raras vezes em que Arenas, Butler e Jamison estão juntos em quadra, eles simplesmente não são muito bons. Falta de química, entrosamento, esforço, defesa, não faltam razões para o fracasso de um trio que parece nunca ter entendido o papel de cada um em quadra e que nunca se levou muito a sério. Vendo que não adiantava esperar pela volta do Arenas, então, o Wizards criou um par de bagos, esgotou a paciência, apertou o botão do apocalipse e resolveu se livrar dos jogadores. Como o Arenas ganha 16 milhões e o Jamison ganha 11 milhões (e vai ganhar 15 num contrato que dura ainda mais duas temporadas, fora essa) só sobrou o Caron Butler para interessar algum time na NBA.

Com o Butler no mercado, o Mavs ficou com água na boca. Adicionar o Gooden e o Shawn Marion não adiantou bulhufas particularmente porque o resto do time não defende grandes coisas e porque o Josh Howard cai de produção mais e mais a cada ano. Não faz muito tempo ele era um pontuador excelente com momentos geniais na defesa, com roubos e tocos decisivos e potencial ilimitado. Mas depois de sua polêmica afirmação de que fumava maconha nas férias, problemas com a torcida do Mavs e uma complicada cirurgia no tornozelo durante as férias, ele nunca mais foi o mesmo, joga sem vontade e parece um jogador comum com um salário muito gordo. Trocá-lo por um ladrão de bolas (talvez o melhor de toda a NBA) com mais talento ofensivo que o Josh Howard não foi uma decisão difícil, até o Isiah Thomas conseguiria acertar nessa.

De brinde, o Wizards ainda mandou DeShawn Stevenson, que está velho, se acha a última bolacha do pacote, mas ainda é um defensor razoável, e o Brandon Haywood, que é um ótimo defensor no garrafão e tem tudo para acompanhar melhor o ritmo do Mavs no jogo de transição. O atual pivô do time, Erick Dampier, tem cada vez mais problemas nos joelhos e precisa ser poupado em jogos seguidos, então a chegada do Haywood é essencial para o garrafão do Mavs. O Dampier até que quebra um belo de um galho, especialmente com a ajuda de Jason Kidd (que faz qualquer um render melhor no ataque), e bem provavelmente vai continuar sendo o titular da equipe. Mas o Haywood vai acabar tendo mais minutos do que ele, porque embora nunca tenha sido um gênio nos rebotes, sempre teve um bom tempo de bola e pés bem rápidos na defesa. O pessoal em Dallas já fala de planos de usar os dois ao mesmo tempo contra garrafões mais fortes, o que torna a equipe muito mais versátil.

Para isso, o Mavs teve que perder também o Drew Gooden, mas ele não faz falta para a equipe. O Gooden é muito bom, mas o coitado sempre teve que jogar improvisado a vida inteira. No Grizzlies, equipe que o draftou, tinha que jogar de ala-armador porque não tinha outro mané para ocupar a vaga (o coitado teve que aprender a arremessar de três, sem sucesso), no Cavs e no Mavs tinha que quase sempre jogar de pivô para tapar buraco. Seu jogo sofre muito embaixo da cesta, ele prefere ficar nos arremessos de média distância, mas no Mavs seu talento nos arremessos era meio inútil frente à quantidade de arremessadores na equipe, especialmente o Nowitzki que também joga fora do garrafão sempre que pode. O resultado era o Gooden sendo pago para brigar por rebotes e defender o aro, coisa que ele não faz muito bem e que Haywood vai executar com muito mais facilidade. O Mavs manda também o Quinton Ross, bom defensor de perímetro, e o James Singleton, um ala brigador para dar pancada quando tiver briga com a torcida ou quando alguém não pagar uma dívida.

Pro Wizards, a troca é para começar de novo. Os contratos de Ross e Singleton são praticamente simbólicos e, assim como os contratos de Drew Gooden e Josh Howard, terminam nessa temporada. De repente, com apenas uma troca, o time entra na brincadeira para contratar alguém na imensidão de estrelas que estarão desempregadas ao fim dessa temporada. É um excelente ano para reconstruir, tendo em vista a quantidade de talento disponível, e o Wizards vai ter uma graninha para tentar a sorte. E, por enquanto, só pra não perder demais, fica torcendo para o Josh Howard mostrar que todo o potencial que se via nele não foi ilusão de óptica.

Na tentativa de reconstruir a equipe antes que se diga parangaricutirimirruaru, o Jamison também está disponível para ser trocado e, se conseguirem mandá-lo por mais contratos expirantes, o Wizards vai poder construir um time inteirinho novo com a grana. Mas vai ter que ser em volta do Arenas, porque dele não vai dar pra se livrar. Já cogitam que o Jamison vá para o Cavs ou para o Celtics, por exemplo.

Essa é uma daquelas trocas que pode parecer um assalto, mas que deixa os dois lados felizes. O Mavs se transformou num time muito mais forte. Agora Shawn Marion, Butler e Haywood podem tornar o Mavs uma equipe mais defensiva, Butler vai render tudo aquilo que se esperava de Josh Howard no ataque para desafogar Nowitzki (que não é das estrelas mais constantes em pontos), e o garrafão fica mais versátil porque terá dois jogadores capazes de brigar lá dentro, ao invés de ter um ala improvisado. Ainda acho que não é o bastante para que o Mavs pense em título, mas a aquisição de Haywood é essencial para um eventual confronto com Lakers e Nuggets, donos de um garrafão que faz todo o resto do Oeste fazer xixi na cama. O Mavs tem agora um elenco muito mais forte do que tinha na temporada passada, prova de que seu dono Mark Cuban não poupa verdinhas em busca de um título. O teto salarial dessa temporada é de 57 milhões, e o Mavs passa a pagar 90 milhões! São mais de 30 milhões acima do limite, o que resulta em 30 milhões a mais gastos só com multas (daria pra estacionar uma caralhada de carros fora da vaga). Com o esquema tático favorecendo um pouco mais Jason Kidd e um elenco cada vez mais grandioso ao seu lado, esse Mavs deve ser levado a sério, ao contrário de ser um time invisível que todo mundo sabe que não dá em nada como era até pouco tempo atrás. Ainda não acredito, sou um incrédulo infiel sujo, mas quero mais é que essa equipe prove que estou enganado. Agora, ao menos levo o time a sério. Vai demorar um pouco para todas as peças encaixarem, Haywood e Butler não conseguiram treinar com a equipe ainda, e nesse Oeste mais disputado do que mulher sem gonorreia no carnaval é bem capaz que percam várias posições na tabela, mas para os playoffs estarão firmes e fortes. Enquanto o Wizards assiste tudo em casa, tentando garantir que o Arenas não apronte nenhuma e convencendo alguma outra estrela para jogar com o armador. Vai ser difícil, mas pelo menos foi corajoso - melhor do que o Pistons que não decide se renova ou não renova, manteve o Hamilton e torrou a grana antes de poder brincar na temporada que vem. Funhé.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Todo mundo feliz

Mecânica de arremesso: troço superestimado


Algumas trocas na NBA parecem aqueles desafios que aparecem no meio das cruzadinhas: "a Julinha foi ao cinema com o Paulinho, que conhece a Marcinha, que nunca viu o Joãozinho, que é vizinho da Lucinha. Qual o nome do tio da Julinha?" Dá até preguiça de tentar entender o que aconteceu, o que motivou cada um dos times, e imaginar como os engravatados sequer pensaram nisso já dá vontade de ir tirar um cochilo. Mas lá em Dallas e em Toronto, fazer as coisas funcionarem passou a ser uma questão de desespero, a um ponto que até as trocas mais complexas valem a pena.

Bryan Colangelo é a mente responsável por aquele Suns que quase deu certo, mas imagino que ele não tenha escrito esse "quase" em seu currículo. Provavelmente deve ter colocado que tornou o Suns uma grande potência no Oeste se livrando do Marbury, algo que já o coloca entre as mentes mais brilhantes do século. Foi ele mesmo quem escolheu ir para Toronto, começar outro time do nada, e trocar a versão que o Raptors tinha do Marbury, o então aclamado TJ Ford. Aos poucos, Colangelo montou um time de respeito tentando seguir o estilo que tornara o Suns famoso, mas a temporada passada foi uma tremenda decepção, tudo deu errado, e a linha de chegada se aproxima: ao término da próxima temporada encerra-se o contrato de Chris Bosh, e aí o Raptors precisa dar um jeito de convencer sua estrela a ficar na equipe ou, ainda mais difícil, convencer um dos grandes nomes que estarão disponíveis de que vale a pena cruzar a fronteira.

Situação parecida vive Donnie Nelson, o filhote do Don Nelson, que é o responsável pela parte burocrática do Mavs (sabe, aquele time em que o dono e pentelho oficial é o Mark Cuban). Ter um nerd que passou a vida inteira atrás de um computador te enchendo o saco e dando palpite deve ser um porre, mas suponho que deve ser mais tranquilo do que ficar em casa com o pai maluco, que a cada dia deve chamá-lo por um nome diferente e mandar ele dormir num cômodo novo. Donnie também montou um Mavericks que passeou pela elite do Oeste mas que acaba de ter uma temporada horrível, frustrante e com cheiro de fim de novela da Record. Do mesmo modo que ocorre com o Raptors, ao fim da próxima temporada o contrato de Dirk Nowitzki se encerrará e então será necessário convencer o alemão de que esse Mavs ainda tem qualquer chance de ser relevante numa NBA em que os melhores times não param de adicionar novos jogadores de peso.

Fala-se muito sobre os Free Agents que estarão disponíveis ao fim da próxima temporada, em 2010, e a lista é mesmo fantástica: LeBron James, Wade, Bosh, Amar'e, Joe Johnson, Ginóbili, Paul Pierce, Nowitzki, Yao, T-Mac. Isso sem falar nos restritos, como Brandon Roy, Rudy Gay, Aldridge, Rondo, e nos que podem optar por tentar o mercado, como Michael Redd, Nash e Josh Howard. Para o Raptors, essa lista aponta para um problema: a maioria desses nomes continuará em seus times e o restante será abocanhado por equipes que estão se preparando com muita antecedência ou que têm claras chances de título, o que torna difíceis as chances da equipe de Toronto. Para o Mavs, a lista assusta porque seus dois melhores jogadores podem simplesmente dar o fora, já que Nowitzki e Josh Howard não hesitarão em sair de um time que não estiver competitivo. Com tanta gente dizendo que o Raptors é um fracasso e que o Mavs acabou de vez e está reconstruindo, cabe a eles perder suas estrelas e se lascar em 2010?

É por isso que movimentações audaciosas eram essenciais para Colangelo e Donnie Nelson, os dois com a corda no pescoço, a água batendo na bunda. Eles têm apenas uma temporada para montar um elenco atraente e competitivo, capaz de convencer suas estrelas a ficar ou, ao menos, convencer outras a ocupar o lugar. Com isso em mente, foram atrás de alguns amiguinhos que topassem a brincadeira pra festa ficar bacana.

Quando o Colangelo se livrou do TJ Ford algum tempo atrás, recebeu Jermaine O'Neal em seu lugar, uma aposta para formar um garrafão de elite com Bosh. Acontece que, como até mesmo o Jose Calderon afirmou esses dias, os dois pivôs têm estilos muito parecidos, jogam afastados da cesta, e acabaram anulando um ao outro em quadra. Aproveitando o desespero de um Heat sem garrafão, Colangelo conseguiu Shawn Marion em troca do Jermaine, um jogador que casou muito mais com o estilo do time e sempre disposto a correr bastante (algo também conhecido como a síndrome do "Só sei jogar no Suns"). Como seu contrato encerrou ao fim da temporada, o Raptors estava prestes a perdê-lo sem ganhar nada em troca. Foi aí que surgiu a necessidade de uma troca imediata, pra tentar levar qualquer coisa, nem que fosse um canário.

O Dallas expressou interesse no Marion já há bastante tempo, mas o time está bastante acima do teto salarial. A grana que eles tinham foi para os contratos oferecidos para o Marcin Gortat (que, depois de atuações discretas mas confiáveis na temporada e nos playoffs, pode chegar para ser titular) e pro Quinton Ross, para defender e compor elenco. O Magic ainda pode cobrir a oferta de 33 milhões por 5 anos para o Gortat (eles prometeram que cobririam qualquer coisa que não fosse um número muito absurdo, embora 33 milhões pareça absurdo o bastante para mim), mas até mesmo esse dinheiro não chega perto dos 10 milhões por ano que o Shawn Marion alegadamente queria. Acontece que, com o passar do tempo, ficou bem claro que os únicos times com dinheiro o suficiente para dar essa grana para o Marion não estão nem um pouco interessados nele. A solução apareceu da necessidade dos três: o Raptors re-assinou o Marion por 40 milhões durante 5 anos (8 milhões por ano, foi quase lá, garotão!) e mandou para o Mavs, que queria tanto. Em troca, a equipe de Dallas teve que suar a camisa pra ter o que mandar.

O Mavs recebeu também o pivô Kris Humphries, pra mim imortalizado por ser o cara que foi trocado pelo Baby e que, apesar de ser ruim pra burro, deu muito mais certo em Toronto do que o Baby jamais poderia dar. Em troca, o Mavs mandou dois contratos pequenos que acabarão na próxima temporada e que, até lá, irão ajudar o Raptors em posições que eles sequer tinham reservas: Devean George e o nosso ex-desconhecido do mês Antoine Wright. O George vai curtir os ursos do Canadá e depois se aposenta e mora por lá, o Wright vai poder ensinar para os canadenses que também existe defesa fora do hockey.

Mas a troca não é o bastante, porque os contratos têm que ser ao menos parecidos e o do Marion é muito maior. Mandar dinheiro vivo só pode ser feito até no máximo 3 milhões de verdinhas, e o Raptors não estava nem um pouco interessado em aceitar qualquer outro jogador para ocupar espaço e teto salarial. É nessas horas que você puxa um cara qualquer na rua e tenta passar um lero no coitado. O escolhido foi o Grizzlies, o time que a gente nem lembra que está na NBA. Ao mandar o Jerry Stackhouse para Memphis, seu contrato só fica garantido em 2 milhões de dólares, dinheiro que o Mavs mandou do próprio bolso para que o Grizzlies possa pagar inteiro o salário e mandar o Stack embora (o Mark Cuban acaba de ficar 2 milhões mais pobre e aposto que nem percebeu, ocupado que está jogando Ragnarok). Em troca, o Grizzlies se livra do contrato porcaria do Greg Buckner, que nem a mãe quer ver na frente, mandando ele pra Dallas. Como o contrato dos dois não bate direito, o Dallas ganha de brinde um daqueles "trade exceptions", uma espécie de vale-compras que só pode ser usado em trocas. É tipo um vale-CD, mas que você fica feliz de ganhar. Por ajudar na troca, o Grizzlies ainda ganha o Quincy Douby do Raptors (ele é o armador que nem o Kings, quando não tinha ninguém na armação, quis) e ele provavelmente vem junto com um bolo gostoso, flores e umas paçocas.

Então o Raptors manda Marion, Humphries e Douby e recebe Wright, George e uma "trade exception", de modo que a troca possa acontecer. O Grizzlies se livrou de um contrato ruim e ganhou uns trocados, o Dallas conseguiu o Shawn Marion que tanto queria e o Raptors conseguiu uns reservas. Mas é só agora que começa a verdadeira genialidade do Bryan Colangelo. Perdendo o contrato do Marion, que iria embora antes de ser re-assinado, o time ficaria abaixo do limite salarial da NBA e, com isso, perderia os 5 milhões a mais para gastar em jogadores que a liga permite aos times que já não tem mais onde cair duros. Ficar abaixo do teto para poder assinar o Turkoglu acabaria com os 5 milhões, então o Raptors re-assina o Shawn Marion e - surpresa! - o Magic re-assina o Turkoglu. O Marion vai para o Mavs na troca e o Turkoglu vai para Toronto em troca de "trade exceptions" (os vale-CDs que o Mavs arrumou com o Grizzlies). Tecnicamente, então, o Raptors nunca ficou abaixo do teto salarial, ganhou uns reservas e 5 milhões extras, o Magic tem uns cupons pra gastar em trocas futuras, e todo mundo está feliz e radiante de mãos dadas cantando uma daquelas músicas sobre caridade do Michael Jackson.

Em breve a gente olha mais de perto para o Mavs, que re-assinou Jason Kidd, conseguiu Shawn Marion por um preço muito do justo, e ainda deve levar pra casa o Marcin "The Polish Hammer" Gortat. Mas por enquanto, a real surpresa dessa troca é o Raptors de Bryan Colangelo. Deixou todo mundo feliz e, no desespero, conseguiu transformar uma perda que já era esperada e praticamente inevitável em uma melhora considerável na profundidade do seu elenco, dinheiro e esperança para 2010. Ainda acho que o Turkoglu não vai revolucionar o time, mas ao menos Colangelo conseguiu alterar sua equipe enquanto colocou um sorriso no rosto de outros três times da NBA. Vamos lá, não é bem mais legal do que aquelas trocas roubadas tipo Pau Gasol para o Lakers? E essa aqui ainda tem o charme de que, provavelmente, a gente nem entendeu direito, tamanha a bagunça. Aliás, se enfiarem outro jogador nessa troca de última hora, eu edito mas não refaço esse post - refazer essa bagunça vai ser pior do que ir jogar no Grizzlies...

sábado, 16 de maio de 2009

Milagreiro Billups

O melhor camisa 7 desde Marcelinho Carioca

Aproveitando que não teve nenhum jogo ontem na NBA para comentar, uso o post de hoje para comentar a vitória do Denver Nuggets contra o Dallas Mavericks, que por problemas de tempo não conseguimos comentar no dia seguinte ao jogo.

Esse jogo 5, que finalizou a série, mostrou bem o que ela foi. O Denver é um time fantástico e o Dallas um time bom, que lutou bastante, mas que nunca seria capaz de vencer uma melhor de 7 contra o Nuggets. O Dallas fez o que dava com o time que tem e agora pensa se desmonta o time e recomeça do zero ou se dá mais uma chance à equipe que tem, dilema de pelo menos metade dos eliminados nessas fases mais avançadas dos playoffs.

Mas falemos do Denver Nuggets. Como vocês já devem ter lido por aí, é a primeira vez que o time do Colorado chega a uma final de conferência desde 1985, época da União Soviética, Zico, Jordan em temporada de novato e de um monte dessas coisas que estão voltando à moda por causa dessa mania idiota de revival da década mais trash do século passado.

Como isso faz muito tempo, dá pra entender a festa que estava no ginásio do Denver na última quarta-feira, foi um espetáculo. Mas pensando menos na franquia e mais em quem fez parte dessa campanha, a história fica até mais bonita.

Há um ano atrás o Denver era um grupo de jogadores bons que tinha dado errado. Que estava na situação do Mavs de agora, de ter um bom elenco e não saber se era hora de reconstruir em volta de sua estrela ou de insistir no grupo como um todo.

Eles decidiram continuar, dar mais uma chance ao time que tinha sido humilhado pelo Los Angeles Lakers na primeira rodada dos playoffs, estágio que era o cemitério do time há tantos anos. A única diferença no elenco que começou a temporada era que eles tinham perdido o Marcus Camby e em troca tinham recebido apenas um cartão de Natal e um pacote de bolacha de maizena.

De repente tudo mudou quando, algumas semanas depois de começada a temporada, apareceu a troca de Allen Iverson por Chauncey Billups. Testemunhas dizem ter ouvido um "oooooh" seguido de um arco-íris e anjos na primeira vez que Billups entrou em quadra com seu novo time.

Sabe aquelas pessoas que têm a vida mudada por completo por causa de igreja, mulher ou por que ganhou na loteria? Isso foi a chegada do Billups. Completamente tudo mudou, até coisas que não tem nada a ver com ele, como a saúde de alguns jogadores e a consciência de outros. Olhemos de perto.

JR Smith: O jogador com menor consciência basquetebolística da história do esporte parecia fadado ao rótulo de jogador talentoso que só atrapalha. Nesse ano virou um dos melhores reservas da NBA, um dos melhores arremessadores de 3 da liga e peça essencial em várias vitórias do time. Até o técnico George Karl já disse que não se importa mais com alguns arremessos idiotas do JR Smith porque "sabe que ele precisa desses arremessos pra pegar ritmo". Onde já se viu um técnico dizer isso?

Kenyon Martin: Pra mim ele ia ficar pra sempre como mais uma viúva do Jason Kidd. Um daqueles jogadores limitados mas que até garantiu um All-Star Game porque jogava do lado de um dos maiores armadores da história nos seus melhores anos. Mas nessa temporada o Denver virou um time completo e ele, mesmo limitado, era útil porque só precisava fazer o que sabe: defender, pegar rebotes e finalizar pontes-aéreas.

Nenê: O brazuca já tinha conseguido a fama de um bom jogador que foi sortudo na hora de ganhar um gordo contrato mas azarado porque não conseguia jogar. Depois de machucar o joelho, que já é um fantasma na vida de qualquer atleta, a última coisa que ele precisava era de um câncer. Mas jogou essa temporada como se nunca tivesse tido problema de saúde algum e se tornou o complemento ofensivo de K-Mart no garrafão do time.
Os dois, que até já brigaram em treino, hoje formam uma das duplas de garrafão mais completas da NBA.

Carmelo Anthony: Estava começando a virar um Tracy McGrady depois de tantos anos sem passar da primeira rodada dos playoffs. Além disso, era indisciplinado dentro de quadra, onde não obedecia o técnico e não exercia a liderança que se exigia dele. Nesse ano virou outra pessoa. George Karl certa vez disse que não sabia se tinha sido pela experiência com a seleção americana ou pela influência do Billups, mas que hoje o Carmelo era outra pessoa e um jogador mais completo (ele até passa a bola!).

Chris Andersen: O Birdman para muitos (eu!) tinha encerrado sua carreira após ter sido suspenso da liga por uso de drogas. Geralmente caras secundários que perdem lugar na NBA não costumam conseguir voltar, mas o Denver apostou nele e deu certo. Hoje ele está lá pra pegar os rebotes e os tocos que o Camby dava, mas com muito mais estilo e gel no cabelo.

George Karl: Pessoas que acompanhavam o Denver Nuggets de perto diziam que ninguém respeitava o técnico George Karl dentro do time há um ano. Não obedeciam suas decisões táticas e suas jogadas. Simplesmente ignoravam ele e jogavam naquela correria mal organizada e sem defesa que todos devem lembrar. Um ano depois o Denver tem uma das defesas mais agressivas da NBA e funciona com perfeição no ataque liderado por um armador que é só elogios a seu líder.

Chauncey Billups: Por fim, temos o próprio Mr.Big Shot. Sua chegada no time da sua cidade natal acabou sendo uma mudança para ele mesmo. Depois de tantas derrotas em finais de conferência Leste, parecia que ele e o resto do Pistons estava sem fôlego, ficando sem combustível. Parecia que a carreira do Billups, embora continuasse jogando bem, começaria a entrar em declínio.
A mudança de ares e de companheiros de time rendeu ao Billups possivelmente a melhor temporada da sua carreira e uma vaga no terceiro time da NBA.


Que fique claro que esse não é um texto pra dizer "Que gracinha que vocês chegaram até aqui, mas já tá bom". Se tem um time que jogou bem o bastante nesses playoffs para parecer que tem jogo pra bater o Cavs numa final é o Nuggets, que pra mim entra na final do Oeste como favorito independente de quem enfrentar lá.

E fica a lição para os times que pensam em remontar seus elencos depois de um fracasso. Às vezes basta chegar uma peça certa que arruma todo o time que parecia um desastre do começo ao fim. Boa sorte tentando achar qual diabos é essa peça, Mark Cuban.