Mostrando postagens com marcador David Stern. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador David Stern. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tocos de David Stern

-Vou dormir na sua casa hoje se Mamma Stern deixar


Quem estava fora da Twittosfera ontem perdeu uma das noites mais malucas que eu já acompanhei na NBA. De tarde surgiu mais um dos mil boatos diários que levam super estrelas ao Los Angeles Lakers. No meio de notícias de que o Los Angeles Clippers e o Golden State Warriors haviam feito boas propostas pelo armador do New Orleans Hornets, apareceu essa história de uma troca envolvendo também o Houston Rockets e que tiraria Lamar Odom e Pau Gasol do Lakers. Ignorei, provavelmente outra bobagem querendo levar estrelas para o Lakers como as que nos últimos anos prometeram Shaq, LeBron, Bosh, Yao, Dwight e tantos outros.

Então, tranquilo, preparei um texto explicando a regra da anistia e assim que entrei no Twitter para divulgar o texto, dei com a confirmação. Era verdade e Lakers, Hornets e Rockets haviam acertado uma troca que levaria Chris Paul para o Lakers, Luis Scola, Goran Dragic, Lamar Odom e Kevin Martin para o Hornets e Pau Gasol para o Rockets. Meu post ficou secundário e o Twitter virou um alvoroço de análises, discussões, xingamentos e troca de impressões.

Eu, como torcedor do Lakers, tinha odiado a troca. Claro que Chris Paul e Kobe Bryant iriam dar um jeito de se entender, os dois são gênios. Mas isso não quer dizer que seus estilos combinem, assim como não batem o jogo de LeBron James e Dwyane Wade e mesmo assim eles dão um jeito de ir para a final da NBA. Mas será que valia perder um dos melhores pivôs da NBA e mais o melhor reserva da última temporada por um armador em último ano de contrato que já disse publicamente que quer ir para o Knicks jogar com seu amigo Carmelo Anthony? Confiar só no Andrew Bynum no garrafão era arriscado e confiar que o Bynum seria moeda de troca para o Dwight Howard, mais ainda. O Lakers teve seis bolas no saco para ter a coragem de fazer algo desse tipo, mas coragem não quer dizer que foi algo inteligente.

Para o Hornets não parecia um negócio horrível, mas certamente tinha seus defeitos. O Kevin Martin era o menino da troca, com quase 29 anos de idade. Scola e Odom já passaram dos 30. Jogadores nessa idade não costumam ter saco e motivação para entrar em um time em reconstrução, o Odom em especial tem sérios problemas para colocar sua cabeça no lugar e ontem até ameaçou não aparecer nos treinos do Lakers porque havia sido envolvido em discussões de troca. Vocês imaginam a Khloe Kardashian trocando Hollywood por New Orleans? Até o casamento do cara ia pro saco.

E, pensando bem, mesmo que eles se motivassem, esse não é elenco para ir muito longe. Vão para os playoffs esse ano, talvez no ano que vem e aí Scola e Odom já estão arranhando os 35 anos de idade. Talvez tivessem outras trocas engatilhadas envolvendo esses veteranos, não sei, mas ela parecia incompleta.

Por fim o Rockets era um time que perderia muito, que assumiria riscos, mas que poderia se sair muito bem. Abriria mão de seus dois melhores jogadores, mas manteria o espetacular Kyle Lowry para ajudar um dos melhores pivôs de toda a liga, que ainda poderia receber a ajuda do brazuca Nenê. O time do manager Daryl Morey não só já tem bastante espaço na folha salarial como ainda abriria mais 3,5 milhões de doletas com essa troca. Daria para oferecer um contrato tão gordo para o Nenê (cerca de 12 milhões por ano) que seria difícil dele recusar. Role players não faltam no time (Courtney Lee, Chase Budinger, possível renovação de Chuck Hayes) e eles estariam prontos para impressionar.

O que você tira dessa troca depois dessa análise? Eu tiro que os times se arriscaram, que todos abriram mão de muitos talentos para receber outros em troca. Ao contrário da troca do Kwame Brown por Pau Gasol, o Lakers dessa vez abriu mão de muita coisa para receber um All-Star, assim como fizeram Hornets e Rockets. Ou seja, uma troca grande, de destaque, mas normal.

Mas o resto da NBA não pensou assim. Em um acesso de fúria muitos donos de times chegaram até a NBA e pediram para que a troca fosse vetada. E ela foi. A liga geralmente não tem poder para vetar trocas e contratações, senão certamente outros times teriam interferido no Big 3 de Miami, mas dessa vez havia uma diferença: O Hornets é propriedade da NBA, na prática os donos dos outros 29 times é que são donos da franquia de New Orleans. Explicamos nesse post do ano passado a confusão que foi esse lance do Hornets, e na época fomos ingênuos de dizer que a NBA por lá não causaria tantos danos. Geralmente donos não interferem tanto nos negócios dos General Managers, apenas dão sinal verde ou não para ultrapassar o teto salarial ou não, permissão para ultrapassar o luxury tax ou não, essas coisas. Então sabíamos que a NBA apenas não deixaria a gastança rolar solta, mas haviam prometido não interferir nas decisões tomadas pelo Manager Dell Demps.

Porém não foi a primeira vez que deu briga. No ano passado o Hornets mandou Marcus Thornton para o Kings em troca de Carl Landry, no negócio o Hornets teve que mandar dinheiro para o Kings para compensar a diferença de salários, o que provocou a fúria do Mark Cuban, dono do Mavs. "Poucos times na NBA podem se dar ao luxo de fazer negócios assim e deixamos que a franquia de quem a NBA é dona faça isso?";  Também no ano passado uma troca que envolvia Indiana Pacers, Memphis Grizzlies e New Orleans Hornets, envolvendo o OJ Mayo como peça principal, foi estranhamente cancelada no último dia possível de trocas. A coisa ficou mal explicada na época, mas depois de ontem parece que entendemos a razão, o resto da liga não curtiu.

Vazou ontem para o Yahoo!Sports uma carta que o Dan Gilbert, dono do Cleveland Cavaliers, enviou ao David Stern. Ninguém negou que a carta fosse verdadeira e confio no repórter que a publicou. Na carta, Gilbert (em Arial, não em Comic Sans) pede que a troca entre em votação pelos outros 29 times, donos do Hornets. Ele também diz que o Lakers, com esse negócio, economizaria cerca de 20 milhões de dólares em multas e que era inaceitável que um time saísse da troca com o melhor jogador e ainda economizando dinheiro ao mesmo tempo. Gilbert assume assim que Paul é muito melhor que Gasol (e somado ao Odom). E se preocupa com o seu bolso já que o dinheiro das multas pagas pelos times acima do limite são divididos entre aqueles abaixo do teto salarial. Para terminar com um toque dramático e brega típico dele, diz "quando vamos simplesmente mudar o nome das outras 25 franquias da NBA para Washington Generals", em referência ao time que sempre joga e sempre perde para os Harlem Globetrotters.

O Dan Gilbert certamente não foi o único a enviar uma mensagem desse tipo e como a troca foi mesmo cancelada, dá pra imaginar o tipo de pressão que o David Stern recebeu. Na cabeça dos donos essa troca iria contra tudo o que foi discutido durante o locaute, em que os times de mercado pequeno estavam sempre perdendo para os de mercado grande, o que, para eles, é inaceitável. Aliás, isso é uma falácia que vai ganhar mais um post, tem muita gente acreditando nessa bobagem de que só os times ricos ganham.

Uma troca desse tipo logo no primeiro dia de Free Agency seria uma ofensa, segundo eles. O que os donos, aparentemente ignorantes em basquete, deixam passar é que o Lakers abriu mão de dois dos seus três melhores jogadores para conseguir um outro grande jogador. Não foi simplesmente um roubo das mãos do pobre Hornets. E como eles tinham tanta certeza assim que o Lakers seria um time melhor? Deveriam eles é estar preocupados em contratar um bom ala de força para chutar a bunda do garrafão ridículo do novo time do Kobe.

Mas o que pegou mesmo para mim na noite de ontem foi a questão ética. O Hornets está sendo claramente prejudicado se ele tem os outros 29 times decidindo o que eles fazem com o Chris Paul. O New York Knicks e outros times com espaço salarial vão sempre votar para que o Hornets mantenha o jogador e o perca por nada ao fim da temporada, claro. Os times que são candidatos ao título vão votar contra outros candidatos se eles derem um jeito de receber o armador, assim o Hornets, desesperado por uma reconstrução, não pode simplesmente aceitar a proposta que julga melhor, mas deve se adaptar ao que seus adversários, os times que querem derrotá-lo, decidem. E se é injusto com o Hornets, não deixa de ser contra o Lakers também. Eles tem as peças para a troca e não podem fazê-la por complô dos adversários. Pior que, apesar de antiético, é possível e válido e dentro das regras já que a NBA é dona do Hornets.

Recebi a seguinte pergunta no nosso formspring em relação à decisão da NBA em vetar a troca. Vejam:

"Calma, a gente está falando de uma associação privada, com 29 sócios, todos com o mesmo peso de voto. Portanto, não pode ser considerado justo ou não a troca, pois, no final,o time pertence a esses 29 donos e eles que decidem o que é melhor pra esse time.. O Hornets é como se fosse uma extensão do time deles. Eles possuem, cada um, 3,45% das ações dessa equipe, então se mais de 50% acharem que a troca não deve ser feita pois isso iria prejudicar os negócios deles, ela não será feita,fim de papo. O dinheiro é deles.


Mesmo sendo um lugar onde existe paixão e, como vocês já discutiram durante o locaute, ninguém pode falar o que eles devem fazer com o dinheiro deles, afinal, eles não falam o que vocês devem fazer com o seu. Eles são, acima de tudo, investidores, não apaixonados pelo basquete. Eles querem o melhor para o bolso deles e se 51% acha que o CP3 em LA iria atrapalhar nos negócios deles, então não se pode fazer nada. E outra, não é antiético eles comprarem o Hornets. É como se o Pão de Açúcar estivesse sendo vendido e outros 29 grandes supermercados comprassem ele, todos com a mesma fatia acionária. O problema de todos os fãs da NBA é que vemos ela mais com o coração do que com a cabeça. Lá é o mundo dos negócios, como tudo no mundo"

Eu entendo os argumentos do nosso leitor, mas os questiono. O Pão de Açúcar e os outros supermercados não estão disputando uma competição com um campeão. Todos querem ter lucro e competem entre si, claro, mas não é um esporte em que eles se enfrentam diretamente na briga por um campeonato. Simplesmente não faz sentido ter um time controlando o seu adversário em uma competição esportiva, é como se a NBA tivesse um time a menos na disputa, com os outros brigando para manipular o 30º de um jeito que os agrade mais. Se no mundo empresarial isso funciona, tudo bem, mas apesar de ser um negócio, a NBA é um campeonato de basquete, um esporte.

Ainda acho que os outros times terem controle de um adversário não é ético, e só concordava com a NBA ser dona do Hornets por ser algo temporário e pela promessa, claramente não cumprida, de deixar o GM Dell Demps trabalhar sem interferência externa. Os próprios donos pediram uma maior igualdade de condições para as equipes e onde está a igualdade ao impedir um time de realizar o negócio que ela julga melhor para si? Estão obrigando o Hornets a fazer um outro negócio qualquer, ou até a perder seu melhor jogador por nada, só pelo medo do Lakers ficar forte. Um adversário ser dono do outro é claramente conflito de interesses e a promessa de não interferência só durou até a água bater na bunda.

A posse temporária do Hornets pela NBA foi curta e já desastrosa. Durante o locaute David Stern disse que havia pelo menos 5 pessoas ou grupos interessados em comprar o Hornets, era hora da franquia ser vendida logo de uma vez para que tomasse suas próprias decisões e deixasse de ser fantoche dos seus adversários.

A melhor definição sobre o que aconteceu ontem foi dada no Twitter e eu perdi o autor no meio de tantas mensagens. Algum sábio disse que "a NBA tentou escapar de um iceberg e bateu em outro maior". Eles quiseram fugir da polêmica da estrela indo para um time grande de novo e no fim o veto provocou revolta maior ainda, dessa vez de jornalistas, público, agentes e principalmente de outros jogadores. O Adrian Wojnarowski, jornalista do Yahoo! que deu todas as notícias de ontem em primeira mão, chegou até a dizer que esse veto de ontem poderia mudar muita coisa dentro da NBA. Ah, e enquanto eu escrevo esse post, dizem que o Brandon Roy vai se aposentar por razões médicas. Sim, o mesmo Roy que o técnico Nate McMillan afirmou que seria titular há dois dias. Essa liga pirou, pessoal.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A história do outro lado

São tantas piadas a serem feitas com essa foto que minha cabeça já pifou


Como disse rapidamente no post de ontem, a NBA tem sido lenta em negociar com a Associação dos Jogadores. Até agora os jogos mentais, provocações e declarações à imprensa tem dominado o cenário sobre a greve/locaute da liga. Mas muito do que a gente sabia havia sido dito pelos jogadores e por jornalistas e suas fontes sempre anônimas. Porém, na última semana o David Stern deu uma entrevista de mais de uma hora ao Bill Simmons, da ESPN, só sobre o assunto, e esclareceu muitas coisas sobre a opinião do outro lado da mesa de negociações.

O David Stern, além de comissário da NBA, é quem está representando os donos de times nessas negociações. Ele estar à frente é algo que eu entendo, mas discordo. Assim como os jogadores se uniram e escolheram representantes, Derek Fisher sendo o principal deles junto do advogado e ex-jogador da NFL Billy Hunter, os donos deveriam entrar em um consenso e escolher alguém para representá-los. O Stern, como representante da liga, seria o mediador. Afinal, a NBA é feita pelos times e pelos jogadores que os representam, as duas partes precisam de um acordo e do jeito que está agora parece que a NBA faz de tudo para agradar os donos e os jogadores são uns intrusos. Cada lado quer uma coisa e Stern, ao invés de tomar partido, deveria tomar cuidado para alcançar um bom meio termo para que todos os lados saiam satisfeitos. Hoje, em teoria, ele tenta a mesma coisa, mas como está representando os donos, os jogadores não botam tanta confiança no que ele diz.

Para entender o que o Stern fala é bom estar um pouco inteirado do que está acontecendo. Comecei a tentar explicar tudo com um post que concluía que o grande ponto de discussão entre as duas partes eram a divisão dos lucros em primeiro lugar e, só depois, a questão do teto salarial "duro" (o tal "Hard Cap") e o atual modelo de "Soft Cap", em que os times podem extrapolar o limite devido a algumas exceções na regra. Os que defendem o Hard Cap dizem que isso ajudaria os times de mercado menor e aumentaria a competitividade da NBA, mas esse será o assunto de um futuro post. Hoje cuidamos de detalhar o que os donos querem de verdade, o que David Stern tem a dizer sobre esse período de locaute e as dificuldades de comunicação encontradas até agora.

Como a questão é sobre dinheiro, gostaria de ter mais números para discutir o assunto, mas não é fácil. A NBA não divulga todos os seus dados, apenas solta, de vez em quando, alguns releases com números que não sabemos a procedência. Isso rendeu uma pesquisa independente da revista Forbes, que concluiu que a liga teve lucro de 183 milhões de dólares na temporada 2009-10. A NBA, em resposta, disse que na verdade o que houve foi um prejuízo de 340 milhões. Palavra de um contra a palavra do outro, acreditar em quem? David Stern afirmou a Bill Simmons que os jogadores tem acesso aos números que eles produziram e que não questionam mais, como fizeram no começo, a validade deles. A Associação dos Jogadores contratou seus economistas e parecem estar de acordo com o dito oficialmente pela NBA. Mas acusações de manipulação de estatísticas ainda rondam a área.

Segundo a Forbes, a NBA é "um negócio saudável e lucrativo", a NBA diz que "a liga perdeu dinheiro em todos os anos do atual contrato da CBA e nunca operou no azul". A diferença, para a revista, seria que a NBA estaria usando alguns truques na hora de contabilizar os números, para fazer com que alguns ganhos não sejam contados e assim a liga pareça menos lucrativa. A motivação para isso seria um pedido e pressão dos donos de times que, como divulgado em uma matéria de David Aldridge, teriam dito, sobre os jogadores, que estão "cansados de fazer esses caras ricos". Eles dizem que se não fosse pela infraestrutura que a liga oferece, os atletas nunca teriam tanto dinheiro e por isso até uma porcentagem do dinheiro ganho em propagandas e contratos com empresas de material esportivo deveriam entrar no BRI, o PIB da NBA que é distribuído entre jogadores e equipes.

A acusação de que a liga está sim ganhando dinheiro, mas fazendo parecer que não, é pesada, mas faz algum sentido. Primeiro porque a maioria dos donos de equipes não são como Mark Cuban, um fã de basquete disposto a gastar dinheiro pra seu time ir bem nos playoffs. São na verdade homens de negócio que pulam fora e vendem a franquia quando acham que não dá pra faturar mais. Ou seja, são pessoas que seguem os princípios de mercado de que se não for para dar o máximo de lucro possível, não vale a pena.

E também faz sentido porque alguns números indicados pela própria NBA, aos poucos e ao longo dos anos, dão a entender que eles estão ganhando uma boa bolada. Os contratos de TV assinados há pouco tempo são os mais lucrativos da história, a NBATV hoje existe na maioria dos pacotes a cabo dos EUA, o League Pass é mais vendido do que nunca e agora atinge todo o mercado mundial junto com outros produtos relacionados à marca. Só a China, por exemplo, rende 50 milhões por ano à liga. A venda de ingressos só cresceu nos últimos 10 anos, 12% segundo números oficiais, 22% segundo a Forbes. E o BRI do último ano, segundo a própria NBA, foi de 3.8 milhões de doletas, é dinheiro demais. Como se gasta tantos bilhões de dólares assim? Com o quê? A NBA nunca divulgou como gasta seu dinheiro, apenas coloca a culpa nos salários enormes dos jogadores, que levam 57% do BRI.

Poderia ser a NBA, portanto, apenas um negócio mal administrado? Só os donos, com votos unânimes, podem tirar David Stern do poder, por que então eles se juntam a ele se o cara não consegue fazer uma liga que rende tanto dinheiro dar lucros? O fato é que até os próprios jogadores, com a exceção de Spencer Hawes até agora, também evitam falar mal do todo-poderoso comissioner. Nunca se sabe o dia de amanhã e muitos querem trabalhar dentro da liga (como comentaristas, assistentes, técnicos) quando se aposentarem e ter uma briga com o chefe tão bem relacionado não é um bom começo. E mesmo assim Stern disse que se acha mais atacado do que nunca, comentando inclusive aquela notícia de que ganha 23 milhões de dólares por ano. Na entrevista ele diz que o número mais real seria 1/3 disso, e que já cortou seu próprio salário em tempos de vacas magras.

Sobre as acusações do negócio ser mal administrado, Stern se foca no dinheiro que os jogadores ganham. Ao ser questionado se ele não deveria ter mais soluções criativas para ganhar mais dinheiro (o mais próximo de ser acusado de ser um mal administrador, Simmons sugere patrocinadores nos uniformes), Stern responde que tem sido criativo desde que entrou na NBA: O primeiro teto salarial era de 3 milhões de dólares por time, hoje beira os 60. A liga chegou até esse número porque cresceu, passou a render mais, foi inovador em contratos de TV, internet, em atingir o público global mas, nas palavras de Stern, "A cada dólar que faturamos, 57 centavos vão para os jogadores. Gastamos 50 centavos para render 1 dólar e 57 centavos vão embora logo depois, não dá para ter lucro assim". 

A ideia que o líder da NBA tenta passar em toda a entrevista é que eles já fizeram de tudo para ter lucros, e que eles acreditam que estão fazendo o negócio acontecer do melhor jeito possível, mas que tudo o que chegam perto de faturar, acaba nas mãos dos jogadores. O salário médio de um atleta da NBA no último ano foi de 5.5 milhões de dólares, o que Stern disse ser "ridículo, é a união de trabalhadores com o salário médio mais alto no mundo". E diz que os jogadores esquecem dos outros 5 mil funcionários, da liga e das equipes, que também ralam para a NBA acontecer e que também querem sua parte do bolo. Alguns desses, aliás, tem sido mandados embora mesmo com a promessa da liga de que não haveriam cortes de pessoal.

O David Stern deixou claro até demais (eu esperava mais mistério) a proposta deles para os jogadores e os motivos:

Divisão da receita da liga: Atualmente o sistema é 57% para os jogadores, 43% para a NBA. Stern quer deixar a divisão em 50-50, o que significaria para os jogadores abrir mão de 200 milhões de dólares por temporada nos atuais números. Segundo Stern é o único jeito da NBA ser um negócio lucrativo.

Diminuição dos anos de contrato: Os jogadores sempre dizem querer fazer um contrato para a carreira. Um com muito dinheiro e longa duração, imune à queda de produção e principalmente a contusões, o contrato que vai garantir a vida até depois da aposentadoria. Stern comenta de times que gastam demais com jogadores que não produzem nada, a ideia é que o máximo permitido para um contrato seja de 4 anos e não 6 como é hoje.

Quando comenta sobre isso Stern até fala de uma idéia que eu achei bem divertida. Dar a chance dos times quebrarem o contrato de um jogador em mais anos e assim abrir espaço na folha salarial. Ao invés de pagar 20 milhões para o Rashard Lewis esse ano, o Wizards poderia pagar 5 milhões por ano pelos próximos 4 anos. Eles ficam mais tempo com o jogador, pagam o que prometeram, mas abrem 15 milhões de espaço salarial para contratar alguém que possa jogar melhor. Só não vejo os jogadores aceitando isso, claro.

Pagar de acordo com a performance: Ele não dá detalhe de como seria esse sistema, mas seria algo que premiaria quem está jogando bem e daria menos dinheiro para quem está jogando mal. Uma reação clara aos donos de time cansados de ver o seu jogador mais bem pago não ser nem o terceiro melhor do time (ARENAS, Gilbert).

Hard Cap: Isso já estava claro desde muito antes da greve. Os times querem ter mais controle dos seus gastos e não querem enfrentar times que podem gastar mais do que eles. Mas, pra mim, os donos lutando pelo Hard Cap para gastar menos parece quando alguém está de regime e esconde os doces para não poder achar depois. É uma luta dos donos para se prevenir da própria incompetência.

Embora o David Stern tente fazer parecer que só aceitando tudo isso é que a NBA tem alguma chance de ser um bom negócio, é óbvio que vão ter que abrir mão de algumas coisas. Assim como os jogadores não podem abusar e ainda pedir aumento do salário médio, como o Stern disse que aconteceu. Já existem muitos empecilhos entre as duas partes e cabeça dura não deveria ser mais um.

Na semana passada haveria uma reunião entre as duas partes. Horas antes do seu início os jogadores mandaram dizer que só iriam comparecer se os donos aparecessem com uma proposta diferente da apresentada antes, a resposta foi de que eles tinham a mesma, mas que queriam conversar mesmo assim, argumentar sobre aquilo. Os jogadores se recusaram a ir e a reunião não aconteceu. O comissário insistiu que os jogadores não fizeram nada de errado, "estão em seu direito", mas disse uma coisa que realmente é incontestável, "nunca se sabe que rumos tomarão uma conversa". Nem que tivesse sido para falar "não" 100 vezes seguidas durante uma hora, os jogadores deveriam ter ido. Eles estão tão preocupados em se mostrar um grupo forte e unido que às vezes podem parecer só tolos.

Achei legal a entrevista do Stern, mas é muito difícil ficar do lado dos donos nessa questão. Quem faz a NBA ser interessante e um negócio atraente são os jogadores, por que eles não podem ficar com a maior fatia dos lucros? É uma discussão que me lembra aquela de com quanto os artistas deveriam ficar pela venda de cada disco e quanto ficaria com a gravadora. Por mais importância que a última tenha na divulgação, queremos que quem seja recompensado seja o artista, o talento. Será mesmo que só tirando essa "vantagem" dos jogadores é que a NBA, a melhor liga de basquete do planeta, disparado, teria alguma chance de ser lucrativa? Sério?

Isso me fez pensar bastante. Se a NBA que é a NBA, sem concorrentes no mercado de ligas de basquete, não consegue ter lucro, quem pode ter? Será que esse tipo de esporte pode ser rentável ou é um negócio fadado ao fracasso, a sobreviver com números ridículos? Pensar isso nos EUA deve ser uma loucura, mas existe um outro esporte famosos no resto do mundo que sobrevive há mais de um século sendo o que algumas pessoas chamam de "o pior negócio do mundo", o futebol. O próximo post será uma comparação do mercado financeiro do futebol com o da NBA, tentaremos descobrir o que os dois mundos tem em comum e o que podem aprender um com o outro.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A greve que não é greve

Derek Fisher fala após a primeira reunião com a NBA. Atrás dele John Salmons usa um chapéu


Hoje é dia 1º de agosto, aniversário oficial de um mês da tão comentada e temida greve da NBA. O período que passou foi certamente um dos mais entediantes da história recente do basquete norte-americano, incluindo aí algumas partidas do San Antonio Spurs. De notícia mesmo só o Deron Williams postando no próprio Twitter que já tinha um contrato para jogar no Besiktas da Turquia, acordo que ainda está pendente devido a problemas do clube. Ou seja, quase nada de concreto e muita falta de assunto. Porém, hoje houve finalmente uma reunião entre as duas partes envolvidas nas negociações: a Associação dos Jogadores e os donos de equipes da NBA começaram a discutir como encerrar essa situação. Ou seja, a partir de agora poderemos, talvez, ter algo de mais concreto para discutir.

Mas antes disso precisamos entender muitos termos e conceitos essenciais na conversa, começando pela própria palavra "greve". Muita gente aqui no Brasil, nós do Bola Presa entre eles, está chamando essa paralisação de greve, mas não sei se é o mais adequado para a situação. A definição da palavra de origem francesa é uma "interrupção no trabalho a fim de obter algo, uma paralisação de funcionários com o intuito de protestar ou lutar por aumento de salários ou condições de trabalho". Porém, não é esse o caso que estamos vendo no basquete dos EUA.

A NBA é uma liga com trinta franquias, os times, que negociam a divisão dos lucros gerados pela NBA com os jogadores, representados por sua Associação, a NBAPA. Essa divisão de lucros, assim como as regras de duração de contratos, salário de novatos, nível do teto salarial e etc, acontece a cada seis anos. O nome do contrato assinado por ambas as partes é o Collective Bargaining Agreement, ou simplesmente CBA. Geralmente o contrato é renovado, com suas devidas alterações, antes de ser expirado, fazendo a liga continuar normalmente. Dessa vez, porém, o CBA venceu no dia 1º de julho e um novo não foi assinado. Claramente a situação é a seguinte, existem duas partes com interesses diferentes e que não chegaram a um acordo sobre alguns pontos, logo não é uma greve, é uma negociação empacada. Os jogadores não são funcionários da liga que estão se recusando a jogar em nome de melhores salários, eles são uma associação separada da NBA que não concordou com os termos de um novo acordo.

Nos acostumamos a ver os jogadores de cabeça baixa aceitando tudo o que o comissário David Stern dita. Ele regula as multas por palavrões, gestos, agressões ou faltas duras e até instituiu as regras de vestimentas dos jogadores fora de quadra. A maioria ouve quieta e pouco reclama, mas eles são submissos devido ao contrato que assinam. Quando fazem os acordos da CBA os jogadores aí sim se declaram funcionários da NBA e aceitam suas regras e seu líder, mas assim que o contrato vence, estão livres. Então repito, não é que eles estão cruzando os braços e se recusando a jogar, não há um contrato quebrado porque não existe contrato algum valendo nesse momento. O site da NBA e dos times da liga nem podem ter referências e fotos dos jogadores porque não há nada de oficial entre uma parte e a outra valendo nesse momento.

A palavra que os americanos usam para se referir ao que está acontecendo é "lockout". A palavra não tem tradução direta para o português e até por isso ela foi aportuguesada para "locaute". Esta, segundo um dos poucos dicionários que registram a palavra, é uma "coligação de patrões que, em resposta à ameaça de greve de seus operários, fecham as oficinas ou empresas e não admitem nenhum trabalhador enquanto não chegam à solução da questão em debate". Ou seja, é uma greve às avessas, uma greve no mundo bizarro. Mas também não é o caso que vemos na NBA, os donos das equipes não estão respondendo à greve ou uma ameaça dela, estão apenas negociando um novo contrato. Mas no caso da negociação desse ano, estamos mesmo mais perto de um locaute do que de uma greve, porque os jogadores estavam mais dispostos a manter as regras do jeito que elas estavam, são os donos os motores por trás da vontade de mudanças mais drásticas. De qualquer forma, não é locaute e nem greve propriamente ditos, mas entendemos o recado quando qualquer uma das palavras é usada.

Não quero dar a entender com isso que a situação é menos conflituosa do que parece. É sim uma briga das boas entre as duas partes, mas acho importante deixar claro que ninguém está pulando fora de algo combinado para fazer birra e, mais importante, ninguém está se sentindo injustiçado e lutando contra um vilão. Não há ninguém bonzinho ou do mal aqui, mais do que patrões e empregados são duas empresas gigantescas negociando uma maneira das duas conseguirem seguir ganhando uma tonelada de dinheiro. Como já disseram algumas pessoas mais nervosas com a situação, "é uma briga só sobre dinheiro entre donos bilionários e jogadores milionários".

A afirmação tenta minimizar e ridicularizar a discussão, mas não está tão errada assim. Os jogadores são milionários, os donos são, em sua maioria, realmente bilionários, e o impasse entre eles é puramente econômico. Antigamente já houve discussões sobre as regras do Draft, idade mínima para se jogar na NBA, adição ou não de novas equipes e poderiam existir até discussões novas sobre questões de doping, duração da temporada, código de vestimenta e maneiras de punição por indisciplina, mas não, nada disso está em pauta dessa vez. Não há filhos no meio do casamento, aqui a discussão é só sobre como dividir os bens.

Para entender o antigo CBA eu recomendo esse post que eu fiz há algum tempo, é o "Como entender o Salaray Cap". Lá eu explico boa parte das regras que valiam até o fim da temporada passada e que os jogadores querem manter valendo. Uma delas é o "soft cap", um teto salarial maleável e que pode ser ultrapassado desde que o time esteja disposto. Para quem está com preguiça de ler o post antigo inteiro, colo aqui a parte que explica o que é o "soft cap" e a diferença dele para o "hard cap", que é a vontade dos donos.
...
"Uma característica importante do salary cap da NBA é que ele é um "soft cap", ao contrário das ligas de hockey e de futebol americano que são "hard cap". Isso quer dizer que o teto dessas outras ligas são duros como pedra, não há como escapar dele, o da NBA tem um teto solar pra dar uma escapadinha. As ligas com "soft cap" têm algumas exceções que fazem com que o limite possa ser ultrapassado em alguns casos. E a verdade é que quase sempre os times da NBA estão acima desse limite. Apenas 5 equipes, Grizzlies, Thunder, Clippers, Blazers e Nets, jogaram a temporada 2009-10 dentro do limite do teto salarial.

Se dá pra escapar, por que ter um limite salarial, afinal? A sacada do "soft cap" é que você pode escapar do limite mas paga por isso, ou seja, você pode escapar mas não tanto, com o risco de ter enormes prejuízos. (...) A primeira mamata na hora de ultrapassar o teto salarial da NBA está no chamado "tax level", que é uma quantidade determinada pela NBA que os times podem ultrapassar o teto salarial sem serem punidos por isso. Na temporada 09-10 o valor foi de 69,9 milhões de dólares. Ou seja, embora apenas 5 times estejam dentro do limite salarial, não são todas as outras 25 equipes que pagarão multas, serão na verdade apenas 12. Porém, as 5 antes citadas dentro do teto terão benefícios que outras não terão.

Essas 12 equipes que passaram desses 69,9 milhões de dólares terão que pagar 1 dólar de multa para cada dólar excedido. Ou seja, se o Lakers paga 91 milhões de dólares em salário, terá que pagar 21,1 milhões de dólares em multas para a NBA. De todo o dinheiro arrecadado, cada time dentro do salary cap (aqueles cinco já mencionados) recebem 1/30 dessa grana cada um, o resto do dinheiro fica para a NBA gastar com ações da própria NBA"
....

Os jogadores gostam da regra dessa maneira porque assim sempre existem times contratando. Equipes acima do teto salarial não podem contratar quem bem entender, tem seus limites de gastos (explicados na parte 2 daquela série de posts), mas nunca estão sem chance de contratar alguém. Em uma liga com o hard cap, quando se chega ao limite não há o que fazer a não ser tentar trocar por um jogador que ganha menos.

Os donos acham que da maneira atual eles gastam em excesso, que um time acaba forçando o outro a gastar mais com contratações e todos saem perdendo economicamente, que a melhor solução seria todos respeitarem o mesmo teto e assim os gastos ficariam sob controle, nenhum dono zilionário ou General Manager maluco poderia gastar mais do que o resto. Os jogadores pensam que isso quer dizer que menos jogadores terão chances de atuar na liga e os que ficarem terão que aceitar cortes de salário. Se o teto salarial não pode ser ultrapassado de maneira alguma, será pouco provável que um jogador ganhe contratos com mais de 15 ou 20 milhões por temporada como vemos agora.

Para muitos a questão do hard cap contra o atual soft é a pedra fundamental das discussões, mas para mim é só uma pequena, embora bem importante, parte da discussão. Após a reunião de três horas que aconteceu hoje, o Derek Fisher, presidente da NBAPA (associação de jogadores da NBA), disse que as discussões começaram sobre assuntos não relacionados a dinheiro mas em pouco tempo caíram para a área financeira e não saíram mais de lá. Não tem jeito, no resto todo mundo está satisfeito agora, falta acertar a parte de dinheiro. E embora a questão do formato do teto salarial seja fundamental, nada supera as discussões em torno da divisão dos lucros.

Como também expliquei naquele post antigo, um número importantíssimo para a NBA é o BRI, Basketball Related Income, é uma espécie de PIB da liga. Tudo o que a liga fatura, desde aparição de mascotes em eventos até os ingressos e direitos de TV vendidos, passando por propagandas nos ginásio ao redor dos EUA, tudo conta para a definição do BRI. E é esse número que decidia qual seria o tamanho do teto salarial da NBA, baseado na divisão de lucros entre as partes. Até um mês atrás os jogadores ficavam com 57% de tudo o que a liga faturava e os times com os 43% restantes, o número foi decidido no último CBA e na época considerado uma grande vitória dos donos. Hoje eles querem diminuir ainda mais a porcentagem recebida pelos atletas.

Vocês podem estranhar, afinal os jogadores parecem ter salários fixos, aqueles que sempre divulgamos quando assinam um novo contrato, então como eles podem variar de acordo com o BRI? Aquele número divulgado no contrato é o oficial, é o que conta para o cálculo do salary cap, mas não necessariamente o número exato recebido pelo atleta. De acordo com o dinheiro faturado na NBA os jogadores podem dividir entre eles uma graninha extra ou não ganhar tudo o que lhe parecia prometido. É assim: 8% do salário de cada jogador fica retido com a NBA e só ao fim da temporada ele é dado de vez para o jogador ou fica com os times de acordo com essa conta dos 57% dos lucros.

Na última temporada, por exemplo, a liga faturou 4.8% a mais do que no ano anterior, fazendo o BRI subir de 3.64 bilhões de dólares para 3.81 bilhões. O número foi tão bom que os jogadores não só receberam os seus 8% de volta como ainda um dinheiro extra para conseguir alcançar o número de 57%. No fim das contas, o salário médio de um jogador da NBA no ano passado foi de 5.15 milhões de doletas.

O curioso e ainda muito mal explicado é que tudo aqui funciona na base da porcentagem, ou seja, todas as vezes que os jogadores ganham mais do que em relação ao ano anterior, o mesmo está acontecendo com as equipes. E se o salário dos jogadores aumentou 16% nos últimos cinco anos, isso deveria querer dizer que os rendimentos da liga aumentaram a mesma coisa também. A NBA e os times reclamam que estão perdendo dinheiro, mas a verdade é que no atual formato da CBA o BRI só sofreu uma queda no ano da crise econômica em 2008-09. No formato anterior, não muito diferente do de hoje e que entrou em vigor na temporada 1998-99, também só uma queda, em 2002-03, em todo o período de seis anos do acordo. Para piorar, os números de perda de dinheiro divulgados pela NBA e os times estão sendo bastante contestados pela Forbes, a gigantesca revista de economia que tem divulgado números bem diferentes (e otimistas) dos oficiais. Os jogadores terão que saber em que números confiar para saber se abrem mão dos seus 57%.

Após a reunião de hoje à tarde, Derek Fisher disse à imprensa que nenhum avanço foi feito em relação às conversas anteriores. Já David Stern, comissário da NBA e que representa os times nas reuniões, não foi tão seco como Fisher, apenas mais grosseiro. Perguntado por um jornalista se os jogadores estariam negociando com boa fé, disse "Acredito que não". A reação veio imediatamente via internet, pelo Twitter Spencer Hawes, pivô do Philadelphia 76ers, disse: "23 milhões por ano, hein, Stern? Estranho que nada seja dito para cortar o seu salário enquanto vocês pedem para que todos os jogadores façam o mesmo".

A verdade é que quase ninguém sabe ao certo quanto o David Stern ganha. Esse número de 23 milhões é uma suposição. O repórter Adrian Wojnarowski do Yahoo! tentou descobrir essa informação e ficou sabendo que nenhum jogador sabe do número e que mesmo entre os donos talvez apenas dois ou três tenham o número correto, o chute de 20 a 23 milhões foi jogado por uma fonte mas sem certeza alguma, pode até ser bem mais do que isso. O salário dele nem é relevante para as discussões, mas o assunto ter sido trazido à tona por um dos atletas já mostra que o clima pode esquentar e que a falta de transparência econômica pode ter um peso decisivo na duração e resultado das negociações.

Mais reuniões, dessa vez mais longas e em dias consecutivos, estão sendo marcadas para esse mês. Até lá analisaremos mais a fundo as causas dessa paralisação, possíveis soluções e tentaremos esclarecer algumas dúvidas suas. Quem tiver pergunta é só mandar nos comentários que tentaremos responder nos próximos posts.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Um time à venda

Chris Paul faz greve até ter um elenco melhor

O atual dono do Hornets, George Shinn, tem uma daquelas lindas histórias que nos fazem acreditar no "Sonho Americano". Ele era o pior aluno da sala, trabalhou em fabriquinhas de pano, lavou carros, foi servente de escola, aí conseguiu ser formar numa faculdade Unigrunge da vida, juntou dinheiro, comprou a faculdade, criou um conglomerado monstruoso de escolas e cursos universitários, vendeu tudo, comprou o Hornets, e aí foi acusado de estupro. Ou seja, tudo aquilo que a gente espera que o capitalismo nos proporcione: a chance de crescer na vida e de ir parar num julgamento em rede nacional.

George Shinn disse que iria apresentar uma mulher que conheceu ao seu advogado, para lidar com questões de custódia, mas a mulher diz que Shinn levou ela para outro lugar e tentou dar uns amassos. Foi acusado de sequestro e estupro num julgamento realmente transmitido ao vivo pela televisão. O júri declarou o milionário inocente, mas sua imagem ficou tão manchada (ele teve que admitir durante o julgamento que havia traído sua esposa diversas vezes) que ele resolveu dar o fora do lugar em que morava - e assim como uma criança leva sua bola quando vai embora, o milionário levou o Hornets com ele no bolso. Foi assim que o Hornets saiu de Charlotte e foi parar em New Orleans, já que seu amigo Gary Chouest, dono de uma parte das ações do time, era do estado de Louisiana.

Mas os negócios em New Orleans nunca deram muito certo para o Hornets. A cidade é grande e gosta de basquete, mas a economia é debilitada e a população local tem dificuldades em lotar o ginásio (até porque prefere gastar o dinheiro com futebol americano). Depois do furacão Katrina, as coisas ficaram ainda piores. Estima-se que 44% da população de New Orleans tenha ido embora após o incidente, ou seja, é como uma cidade ter metade das pessoas de um dia para o outro (nível "invasão-zumbi" de catástrofe!). Enquanto a cidade tentava se reconstruir, o Hornets passou a jogar em Oklahoma City, onde os ginásios sempre lotavam. A excelente recepção por lá fez com que os compradores do Sonics tivessem mais vontade ainda de levar a equipe para Oklahoma City, rebatizando-a de Thunder. Já o Hornets teve que voltar para New Orleans assim que a crise melhorou, mas o ginásio está mais vazio do que nunca.

Depois que o George Shinn descobriu que estava com câncer e passou por um processo de recuperação, resolveu ouvir o CD do Padre Marcelo Rossi, ergueu as mãos pra dar glória a Deus, e resolveu que não quer mais se focar nessa besteira de basquete. Gary Chouest iria comprar suas ações do time e virar dono da brincadeira toda, mas o processo de compra levou meses e meses, e agora Chouest diz que a crise econômica complicou sua conta bancária e que ele talvez tenha que se dedicar integralmente a outras atividades. Ou seja, o troço todo miou. "Vendam para outro mané", você pensa, "deve ter um bilhão de milionários querendo comprar uma equipe de NBA para dar de presente para o filhinho mais novo". O problema é que os compradores vão obviamente querer tirar a equipe de New Orleans, o que seria péssimo para a cidade e continuaria a tornar a NBA uma bagunça, com equipes mudando de cidade a torto e a direito - e a NBA não quer ficar parecida com nosso NBB, não é mesmo? Normalmente, arrancar uma equipe de sua cidade não é a coisa mais fácil do mundo, envolve uma boa dose de burocracia e de migué, mas no caso do Hornets basta ler as letras miúdas na parte inferior do contrato: se durante 13 partidas, entre 1o de dezembro e 17 de janeiro, o Hornets não tiver mais de 14.213 torcedores no ginásio, o time tem o direito de deixar a cidade. Como até agora o máximo de torcedores que o time recebeu na temporada foram 14.020 (e isso porque o time está indo bem!), vai ser bem fácil para o próximo comprador arrancar a equipe de lá.

Foi então que o David Stern resolveu intervir. Se a NBA, como entidade, tem uma grana preta sobrando, que tal comprar o Hornets das mãos do George Shinn, e aí vender num futuro próximo apenas para alguém disposto a manter o time em New Orleans? Na prática, não deve mudar nada: o time continua com os mesmos jogadores, mesmo técnico, mesmo General Manager, mas a franquia passa a pertencer - temporariamente - à NBA. Não tem essa de "a NBA vai favorecer a equipe" ou "vão rolar umas trocas absurdas", só muda quem é dono das ações, não há influência direta. Quer dizer, mais ou menos.

Os donos influenciam suas equipes de uma única maneira: assinando cheques. Quando o Mark Cuban assina um cheque e diz que está disposto a pagar todas as multas do planeta para que o Mavs tenha o melhor elenco possível, ele está agindo diretamente sobre seu elenco. Times em economias piores, com donos que não podem torrar dinheiro desse jeito, são obrigados a não assinar novos jogadores, se livrar de pirralhos para não pagar seus salários e não se comprometer com contratos muito longos - tipo o Jazz, que volta e meia se livra de alguém só pra economizar uns trocados.

Bem, o Hornets está numa situação bastante complicada: o time começou muito bem a temporada e Chris Paul é um dos melhores armadores do planeta, mas seu contrato acabará ao fim da próxima temporada e ele certamente pedirá antes para sair em busca de um time que lhe ofereça mais condições de ganhar um título. Cabe ao Hornets, então, duas escolhas: trocar o Chris Paul e começar tudo de novo, perdendo ainda mais fãs no ginásio e jogando fora as chances de lucrar nos playoffs; ou então manter o Chris Paul nessa temporada e investir pesado no time para que ele tenha chances nesses playoffs a ponto de convencer o armador a ficar na temporada que vem.

Muita gente elogiou a troca de Peja Stojakovic (que foi para o Raptors em troca de Jarret Jack e mais uns carinhas aí) do ponto de vista econômico, já que o Hornets se livrou do contrato monstruoso de 15 milhões do Peja, mas é justamente o contrário. O Hornets pagará alguns milhões a menos nessa temporada graças à troca, mas pagará mais de 5 milhões a mais pelo contrato do Jack na temporada que vem - temporada em que precisariam do dinheiro para contratar estrelas, enquanto o gasto nessa temporada não faria mais diferença. Foi um investimento para convencer Chris Paul a ficar, não para economizar verdinhas. E, para que o armador realmente continue no Hornets, outros investimentos desse tipo precisam acontecer.

O Hornets é, outra vez, um time ruim que joga muito bem - e isso é perigoso. Dá pra ganhar muitos jogos apenas com o entrosamento, a defesa, a movimentação, não desperdiçando a bola, mas muitos jogos serão perdidos simplesmente porque a equipe não tem talento o bastante. O Hornets, que há pouco tempo atrás era líder da NBA, já caiu para a sexta posição do Oeste. Provavelmente irão para os playoffs, podem causar estrago por lá, e o técnico Monty Williams se dá cada vez melhor com Chris Paul, os dois já são grandes amigos. Mas é impossível que o Chris Paul não perceba que ele está tirando água de pedra. Sempre fico imaginando o Chris Paul entrando no vestiário e vendo o DJ Mbenga tomando uma enterrada na cabeça de um anão, o Aaron Gray não alcançando algo em cima do armário porque não consegue pular, o Pops Mensah-Bonsu não conseguindo amarrar o próprio cadarço e o Belinelli e o Willie Green arremessando as próprias mães numa cesta de lixo. É um vestiário de chorar.

Para salvar a franquia de uma reconstrução total e de ter ainda mais prejuízos, é preciso que o dono da equipe resolva assinar cheques desesperadamente - e a NBA, que agora comprou o time, não fará isso. Manterá as finanças como estão, apenas esperando vender o time sem que ele se desvalorize muito, e para isso não podem sair acumulando dívidas. Supostamente não deveria fazer nenhuma diferença quem é o dono do Hornets, mas nesse momento em especial, em que o futuro do Chris Paul depende única e exclusivamente de resultados imediatos, é preciso um dono disposto a investir - sob risco de perder tudo. A cidade de New Orleans sai ganhando e mantém sua equipe, claro, mas o Hornets e seu elenco saem perdendo. Apenas um milagre - com o Chris Paul tirando muita água de pedra - lhe deixará convencido de que é possível ganhar um título com esse elenco atual, e a NBA não deve melhorar o elenco do modo necessário.

Aproveito a oportunidade, no entanto, para vislumbrar a possibilidade de que um dia os donos não pudessem mais intervir na NBA. Esse lance de poder arcar com multas de acordo com o naipe do dono e a economia local tornam a liga mais desequilibrada do que deveria ser. Foi então que eu lembrei de um artigo simplesmente espetacular do Elrod Enchilada, do site RealGM.com, em que ele propõe um novo sistema financeiro para a NBA - um sistema meio socialista.

Funciona mais ou menos assim: soma-se o teto salarial de todos os times da NBA, cerca de 2 bilhões de dólares que deveriam ser gastos com todos os jogadores da liga, e colocamos toda essa grana num pote. Ao invés de distribuir esse dinheiro igualmente a todos os jogadores (que ganhariam cerca de 4.5 milhões cada), cria-se um sistema de méritos para que nenhuma estrela choramingue por perder seu salário monstruoso. O sistema é o seguinte:

- 3.5% da grana total, antes de ir pro pote, vai para um banco para "jogadores contundidos", que permite que esses jogadores possam ganhar o mesmo salário que ganharam no ano anterior caso percam mais de 50 jogos, ou uma porcentagem disso de bônus caso percam menos jogos
- 70% da grana do pote vai para os jogadores de acordo com a performance, ou seja, de acordo com os minutos jogados. Os 90 jogadores que estiverem em quadra por mais minutos receberiam 6.5 milhões, os 90 jogadores seguintes 5 milhões, até que os jogadores que menos jogassem recebessem 1 milhão (o mínimo atual).
- 20% do pote de grana iria para jogadores "votados". Os 25 primeiros colocados na votação para MVP receberiam incentivos que vão de 5 milhões (para os 5 primeiros) até 3 milhões (os 5 últimos). Além disso, seriam eleitos por votação times All-NBA (com os melhores jogadores de cada posição, como acontece hoje em dia), mas seriam 10 times com os melhores do Oeste e 10 com os melhores do Leste, de modo que os que estiverem no primeiro time recebam 4.8 milhões e os que estiverem no décimo time recebam 1.2 milhões. São 100 jogadores premiados desse modo, ou seja, dois terços de todos os jogadores titulares da NBA.
- 10% do pote de grana vai para todos os jogadores dos 16 melhores times, em ordem de classificação para os playoffs.

Com isso, os jogadores fodões (que jogam bastante, são eleitos entre os melhores e estão em times vencedores) ganhariam entre 16 e 18 milhões, um All-Star que não está num time de elite ganharia de 13 a 15 milhões, outros titulares comuns ganhariam entre 8 e 10 milhões, e os reservas que mais jogam ganhariam entre 5 e 7 milhões. Ou seja, são salários compatíveis com aqueles que existem hoje em dia, mas a NBA mudaria drasticamente. Um jogador que de um dia para o outro começa a jogar muito bem seria imediatamente recompensando, ao invés de passar anos num contrato vagabundo até poder assinar um novo. Jogadores não poderiam parar de treinar depois de assinar contratos grandes (como aconteceu com Jerome James, Eddy Curry...). Não teríamos jogadores se esforçando apenas em "anos de contrato" (é como se todo ano fosse ano de contrato!). Jogadores que ficam muito tempo na quadra porque são bons defensores, por exemplo, ganhariam tão bem quanto os melhores pontuadores, que em geral tendem a receber mais. Todo jogador vai se esforçar para estar em quadra e ajudar o time, e terá benefícios por ajudar seu time a vencer e subir na tabela. E as finanças dos times ficariam sempre iguais, sem intervenção dos donos, e sem que contratos "burros" destruam toda a economia da liga. Os jogadores iriam para os times em que podem jogar mais e que possam vencer ao mesmo tempo, não para os times que paguem mais. Isso evitaria "panelinhas" em que jogadores precisem dividir minutos, ou grandes jogadores que se acomodam em times ruins.

Várias questões surgem com esse sistema, como o tempo que os jogadores permaneceriam nos times, trocas, etc. Elrod Enchilada responde tudo com maestria, sempre dando um jeito de fazer o sistema funcionar (um dia faço um post maior explicando todas as ideias do Elrod). Sua sugestão é para que não seja necessária uma greve dos jogadores por razões salariais e interromper o prejuizo dos times, mas trago a ideia de volta para que não aconteçam novamente coisas como esse Hornets, que precisa de alguém disposto a pagar taxas e não terá - enquanto Mavs e Lakers se esbaldam em elencos caríssimos. É uma pena que caras como o Chris Paul tenham que buscar sempre os "melhores mercados", e o Hornets tenha que ficar com o "resto".

quarta-feira, 21 de julho de 2010

NBA Cares no Brasil




O NBA Cares é um programa criado pela NBA que visa a cuidar de questões sociais usando o basquete e a imagem da liga e de seus jogadores. O programa foi criado em 2005 e, segundo o site do programa, desde então já foram doados pela liga e pelos jogadores mais de 140 milhões de dólares (cerca de um Joe Johnson + um Darko Milicic) e 1.1 milhões de horas de trabalho comunitário.

Claro que o David Stern criou esse programa não só para ajudar quem precisa, mas para também melhorar a imagem da NBA ao redor do mundo. Não creio que seja coincidência que o NBA Cares tenha nascido uma temporada depois da desastrosa briga entre jogadores e torcedores do Pacers e do Pistons no Palace of Auburn Hills em 2004. Mas beleza, o Stern e a NBA não precisam ser santos, desviando um pouco dos seus zilhões de dólares para a caridade já tá bom.

Estou falando desse programa porque depois de rodar os EUA, de ir para a África e para a Ásia, ele chega pela primeira vez ao Brasil nesse fim de semana. O evento irá acontecer nesse sábado, dia 24/07, na Vila Olímpica da Mangueira no Rio de Janeiro. Será uma clínica ministrada pelo Nenê e pelo Anderson Varejão para 80 crianças da comunidade e aberto para o público assistir (e mendigar umas fotos e autógrafos depois, claro!).

Eu e o Danilo, como bons paulistanos sem verba, não vamos poder ir, mas o Bruno, nosso contato na Adidas, vai estar lá para tirar umas fotos, fazer uns vídeos e iremos postar aqui depois. Quem for carioca da gema e quiser ir lá e nos mandar fotos depois, postaremos com prazer.

Essa, que eu saiba, é a primeira ação oficial da NBA no Brasil. E pelo que nos contaram, é a primeira de várias. A liga está planejando outras ações por aqui (um jogo de pré-temporada seria o ápice, mas ainda meio distante) e assim que soubermos delas avisaremos aqui no blog.

Tem uns vídeos do NBA Cares no YouTube. O primeiro é uma compilação de momentos meigos com música tocante de fundo, vale pra sacar o espírito das ações do programa.


O segundo é sobre o evento anual que o Charlotte Bobcats organiza com deficientes físicos e mentais. Para quem não lembra, cobrimos as Paraolimpíadas de 2008  por sermos fãs do basquete sobre rodas.


Mas o meu favorito é a clínica de Yoga organizada pelo LeBron James! YOGA. LeBron James! E não é que o puto ainda parece manjar da coisa? Odeio quem é melhor que eu em tudo. Esse vídeo não pode ser postado no blog, mas dá pra ver aqui.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Chamado para a realidade


Assim como o Richard Jefferson, eu também abriria mão de 15 milhões pra não ter 
que ver a Eva Longoria nos treinos do Spurs sabendo que ela não vai dar pra mim


Já comentamos aqui: ninguém deveria ganhar 100 milhões de dólares. Principalmente se for num período tão curto quanto quatro ou cinco anos. É simplesmente errado, não importa qual seja sua profissão: médico, político, bombeiro, salvador de pandas, jogador de basquete. A quantia é completamente fora da realidade, não há nada que um ser humano possa fazer com 100 que ele não possa fazer com apenas 1. O valor é tão exorbitante que acaba gerando aquelas maluquices de sempre: uma dezenas de mansões com milhares de cômodos, e aí a grana absurda para manter cada um desses cômodos limpos; uma coleção de carros milionários, e a grana para mantê-los funcionando mesmo que eles não sejam feitos para enfrentar o trânsito do dia-a-dia e fiquem mofando na garagem. Como diria a Luciana Gimenes, "te dou um dado?": uma grande parte dos jogadores da NBA vai à falência poucos anos após se aposentar, frente à impossibilidade de manter esses padrões de vida tão elevados (Antoine Walker, estou olhando pra você).

Existe também o óbvio absurdo que é um sujeito ter tantos milhões que dá até pra enfiar uma parte na orelha, e outro não ter nem o que comer ou o dinheiro do busão. É vergonhoso e um tanto sujo. Mas a NBA é um negócio milionário em que cada equipe fatura muitas centenas de milhões de dólares por ano com bilheteria, transmissão dos jogos para todo o planeta, propagandas, venda de uniformes, patrocínio nos ginásios, cachorro-quente, cards, figurinhas, videogames. Para onde deve ir todo esse dinheiro? Os engravatados são responsáveis pelas contratações, pela administração, pelas finanças, mas as pessoas consomem a marca NBA para ver os jogadores, um bando de gigantes suados correndo de um lado para o outro tentando encaixar uma esfera laranja num lugar exageradamente alto. É justo, portanto, que ao invés de um bando de gordinhos de terno enchendo ainda mais seus cofres, o dinheiro vá para as mãos dos jogadores, que fazem a parte mais importante do espetáculo.

Mas os tempos são outros. Segundo David Stern, menos da metade dos times da NBA teve, nos últimos anos, qualquer traço de lucro. Estão afundadas em problemas financeiros, contratos absurdos, enchendo os bolsos do Eddy Curry com 11 milhões de verdinhas por ano e perdendo audiência num mercado mundial em crise. Por que louvar tanto Kobe Bryant e LeBron James, alguns perguntam? Porque a NBA perdeu muito público depois da aposentadoria de Michael Jordan, com esses fãs insuportáveis que curtem uma necrofilia e diminuem os jogadores atuais apenas porque supostamente "não podem alcançar o grande mestre". Louvar os melhores da atualidade não é apenas reconhecê-los e lhes dar o lugar que merecem, é também salvar a NBA de uma nostalgia doentia que pode matá-la. Nossa liga favorita, assim como boa parte do mundo capitalista, está em crise. David Stern alega que a NBA, como um todo, terá um prejuízo de 400 milhões de dólares apenas nessa temporada (embora eu chute que 2/3 disso seja culpa do Clippers e o resto seja o contrato do Curry).

Por isso, o sindicato dos jogadores e os engravatados da NBA se unem sempre que um acordo entre eles acaba, geralmente a cada 5 ou 6 anos, para redigir um novo acordo trabalhista. É ele quem estipula o tamanho e a duração dos contratos possíveis, como os contratos funcionam, a porcentagem da grana que pode ser repassada para os jogadores, a progressão do teto salarial de cada equipe, a grana garantida dos novatos. Quando David Stern e os representantes dos jogadores não chegam a um acordo, além de se xingarem de "bobo" e pararem de se mandar cartões de Natal, surge a possibilidade de uma greve. Foi o que aconteceu na temporada de 1998-1999, que teve apenas 50 jogos (um alívio enorme, poderia ter greve todo ano!), já que um acordo entre as partes não foi alcançado.

O atual acordo trabalhista após a greve terá validade até 30 de junho de 2011, ou seja, deixará de funcionar exatamente quando os times poderão assinar Free Agents na temporada que vem. Para garantir que esses jogadores possam ser contratados, um novo acordo deve ser alcançado até lá - ou então nos aproximaremos novamente de uma greve dos jogadores. Durante o último All-Star Game, que é quanto todo mundo está contente demais para perceber que tem algo importante acontecendo nos bastidores, David Stern fez uma proposta para o acordo trabalhista. Detalhes não foram divulgados, mas sabemos que os jogadores e as equipes ficaram ultrajados, putos da vida, negaram qualquer possibilidade de aceitar a oferta, mandaram o David Stern ir empilhar coquinho na descida, e ficaram de devolver uma contra-proposta (algo que aconteceu apenas agora, dia 2 de julho, e da qual não temos quaisquer informações).

Mas o importante para a gente são os boatos sobre a tal oferta ultrajante do David Stern. Aparentemente o teto salarial da NBA, além de diminuir um bocado (algo que quase aconteceu já para essa temporada), ficaria "duro", ou seja, sem as trocentas bilhões de regras e exceções que o Denis explicou tão bem no Bola Presa e que permitem contratações mesmo aos times endividados. Além disso, os jogadores receberiam uma parte menor da grana gerada na NBA, que atualmente é de 57%, garantindo que as equipes tenham dinheiro para tentar driblar a crise. O período máximo dos contratos também seria menor (variando entre 3 e 4 anos, ao invés de ir até 6) e o valor máximo dos salários seria drasticamente diminuído. Esses contratos, aliás, não seriam mais inteiramente garantidos, dando às equipes mais oportunidades para se livrar de jogadores e desfazer cagadas (Eddy Curry!) sem pagar nenhuma multa.

A NBA se tornaria menos bacanuda para os jogadores e é claro que ninguém vai aceitar ganhar menos dinheiro, em contratos menores e mais curtos com menos garantias, sem espernear um pouco contra isso. Mas a situação aconômica legitima a maior parte dessas mudanças, não dá para carinha ficar ganhando 100 milhões numa NBA que só tem prejuizo, e nem para jogador ficar enchendo os bolsos com milhões enquanto está fora de forma, gordo, rolando escada abaixo, comendo frango assado com a mão enquanto senta na privada, suspenso por portar armas, essas coisas. O acordo trabalhista final não deve ser tão radical quanto o proposto por David Stern, mas ele realmente está tentando salvar as franquias delas mesmas, da burrice de seus engravatados, de seus contratos ridículos e da falta de vínculo com a realidade. Cedo ou tarde algumas dessas medidas terão que ser aceitas, e aí os jogadores assinarão novos contratos na temporada que vem em condições muito mais desfavoráveis do que podem assinar agora.

Aí está a razão de alguns jogadores estarem escolhendo encerrar seus contratos monstruosos nessa temporada. Vale mais a pena assinar um contrato novo agora, mesmo que ganhando bem menos, do que ter que assinar um contrato na temporada que vem, em que eles devem ser menores e com menos garantias. Richard Jefferson ganharia 15 milhões de dólares na próxima temporada, um valor surreal que ele não vale nem a pau, mas assim que entrasse em vigor o novo acordo trabalhista, assinaria um contrato menor, mais curto, com as equipes contratando menos gente graças a um teto salarial menor, e talvez seu contrato nem fosse garantido, com ele podendo ser demitido a qualquer momento (algo que teria facilmente acontecido durante sua passagem desastrosa pelo Spurs).

Ao abrir mão de 15 milhões, Richard Jefferson assina um contrato bem longo segundo as regras antigas, garantido, que vai lhe manter por muitos anos a mais, e ainda se aproveita de um mercado inflacionado em que jogadores medianos devem sair bem caros. Afinal, várias equipes estão com espaço salarial para contratar estrelas que eventualmente assinarão com outras equipes, tendo que assinar uns caras mais-ou-menos para não ficar com as mãos abanando. Além disso, sabendo que várias equipes podem contratar estrelas (desesperadas pelos maiores contratos possíveis antes que as novas regras entrem em vigor), os times estão sendo obrigados a renovar o contrato de seus jogadores por preços abusivos e inflacionados para não perdê-los, como foi o caso do Hawks com o Joe Johnson e do Grizzlies com o Rudy Gay.

Esse é o momento perfeito, portanto, para todo e qualquer jogador abrir mão de seu contrato - por mais milionário que seja - e assinar um novinho em folha o mais comprido possível, para garantir o leitinho das crianças (em mamadeiras de diamante, claro). Desse ponto de vista, não é nada estranho ver Richard Jefferson, Paul Pierce e Dirk Nowitzki abrindo mão de seus contratos. Estranho é que o Kobe Bryant tenha extendido o seu na temporada passada ao invés de encerrá-lo e assinar outro com o Lakers, ainda maior e mais longo. Mas com essa extensão acaba com ele ganhando 30 milhões, talvez o Kobe nem se arrependa.

Há uma chance de que o Richard Jefferson consiga um contrato de mais de 10 milhões com algum time desesperado por qualquer jogador para melhorar o elenco, mas mesmo que ele não consiga estará no lucro. É apenas uma questão de pensar a longo prazo, garantindo agora um dinheiro que entre pelos próximos 5 anos ao invés de 15 milhões agora e um futuro completamente incerto. Não é preciso um contrato muito gordo para que ele some mais de 15 milhões nos próximos 5 anos, enquanto nas novas regras que entrarão em vigor seria bem possível que ele perdesse o emprego e não arrumasse um contrato a não ser pelos valores mínimos. Quando se trata de lidar com o próprio contrato, não existem muitos jogadores burros na NBA - e nem jogadores bonzinhos.

Tem muita gente falando da incrível bondade samaritana de Pierce e Nowitzki, que aceitaram contratos um pouco menores do que podiam, supostamente para permitir que mais jogadores sejam adicionados aos seus elencos. Em parte, os dois realmente precisavam perceber que seus contratos são fora da realidade e que não vão vencer sem um banco de reservas mais profundo. Mas o principal é que os dois estão cientes das mudanças que ocorrerão ao teto salarial, de como será mais difícil adicionar estrelas a partir da temporada que vem, e de como terão mais dificuldades em conseguir contratos longos. É melhor topar um dinheirinho a menos agora e garantir um contrato longo. E se querem continuar competitivos, buscando títulos, faz sentido entender que vai ser mais difícil conseguir jogadores de peso daqui pra frente, já que terão que topar menos grana em tetos salariais mais baixos e os jogadores de mais peso já estarão em contratos longos conseguidos às pressas antes das novas regras entrarem em vigor. Ninguém é burro e ninguém é santinho, os jogadores podem chorar que serão prejudicados no novo acordo trabalhista, mas a verdade é que sabem perfeitamente bem a situação econômica em que suas franquias se encontram. Os que se importam em vencer sabem que terão que ser mais flexíveis e topar menores contratos para manter os times competitivos, e os que querem encher o cofre do banco sabem que precisam aceitar os maiores valores possíveis agora, enquanto há tempo.

Nowitzki e Paul Pierce são espertos e realistas. Encerraram seus contratos não para testar o mercado, receber ofertas e flertar com outras equipes, mas sim para assinar contratos longos, estáveis e mais dentro da realidade para garantir seus times no topo. Richard Jefferson não é maluco, não preferiu perder 15 milhões apenas para não ter que lidar com o porre do Greg Popovich (que é chato mas nem tanto assim), ele apenas quer um contrato mais longo que no final das contas vai ser ainda mais lucrativo.

Outros casos iguais devem acontecer, e vamos comentando cada um deles conforme forem surgindo. Também vão pintar trocentos contratos inflados, com os times aproveitando a última temporada com esse alto teto salarial e os jogadores querendo garantir os maiores contratos possíveis, como foi o caso do contrato de Amir Johnson com o Raptors, por exemplo. Como sempre, o Bola Presa fará a análise completa de cada troca ou contratação, mesmo que a gente demore um pouco para poder ir ao banheiro de vez em quando. Mas o importante é lembrar que esse oba-oba de contratações desenfreadas tem data para acabar e por isso todo mundo está correndo para garantir sua fatia do bolo. Se o David Stern estiver certo e algumas de suas propostas forem aceitas, teremos equipes mais comedidas, contratos menores, menos gente apostando em Eddy Currys ou Jerome James. Ou seja, uma NBA mais legal e mais dentro da realidade. Em que o Knicks estará lascado.

quinta-feira, 4 de março de 2010

É marmelada

Já vi o LeBron cobrar tantos lances livres que o meu cérebro até derreteu


Volta e meia, lá na nova casa do "Both Teams Played Hard" (onde respondemos mais de 1.150 perguntas em menos de um mês), aparece alguém reclamando que basta assoprar o LeBron, ou o Kobe, para que seja marcada uma falta. Parece ser uma boa hora, portanto, para comentar a arbitragem da NBA e dar uma olhada nas acusações que um ex-árbitro, o Tim Donaghy, andou tacando em cima da liga.

Para quem não lembra, Donaghy deixou de ser juiz da NBA em 2007 para ir ver o sol nascer quadrado. Foi preso após confirmações de que havia influenciado os resultados de alguns jogos para favorecer apostas e ganhar uma baita grana. Depois de sair do xilindró, tentou lançar um livro sobre os bastidores da arbitragem na NBA, mas o livro sofreu processos, foi cancelado muitas vezes e só recentemente encontrou uma editora disposta a publicá-lo. O livro se chama "Personal Foul", dá pra comprar pela internet, mas foi bastante ignorado pela mídia esportiva. Parece que todo mundo resolveu ignorar qualquer coisa que o Donaghy diz porque ele é um safado e pode estar mentindo apenas para sujar a imagem da NBA assim como acabou sujando a sua própria. Do tipo "vou pra merda mas te puxo junto".

Muitas coisas que ele afirma em seu livro podem ser exageradas ou simplesmente mentirosas, mas algumas não apenas são interessantes como também mostram-se essenciais para compreender como árbitros são seres humanos dotados de emoções e opiniões. Mais do que tornar óbvio uma trapaça por parte da arbitragem, vejo algumas acusações do Donaghy como simples constatações de que juízes são mamíferos bípedes dotados de polegar opositor, com vidas que vão além das quadras e que, portanto, podem errar simplesmente porque dois seres humanos não podem, jamais, olhar para um mesmo evento e ver nele as mesmas coisas. Separei então alguns trechos do livro e traduzi livremente para podermos comentar a respeito:

"Allen Iverson nos dá um bom exemplo de um jogador que gera fortes reações, tanto positivas quanto negativas, dentro do grupo de árbitros da NBA. Por exemplo, o juiz veterano Steve Javie odiava Allen Iverson e detestava lhe marcar algo favorável. Se Javie estivesse na quadra quando Iverson estivesse jogando, eu iria sempre apostar no outro time para vencer ou ao menos ter uma chance disso. No importava quantas vezes Iverson fosse parar no chão, ele raramente veria a linha de lances livres. Por outro lado, o árbitro Joe Crawford tinha um neto que idolatrava Iverson. Uma vez vi Crawford trazer o garoto da arquibancada para dentro da quadra durante o aquecimento para conhecer a grande estrela. Iverson e o neto do Crawford estavam lá, se cumprimentando, sorrindo, falando sobre todos os tipos de coisas. Se Joe Crawford estivesse na quadra, eu tinha certeza de que o time de Iverson ganharia ou teria ao menos uma chance disso."

Pode parecer horrível, mas é completamente natural. Se eu fosse apitar um jogo, por mais imparcial que eu tentasse ser, seria incapaz de não marcar quinhentas faltas no Bruce Bowen imediatamente, porque sei que o cara é sujo. Seres humanos não são imparciais, suas opiniões, gostos, visões de mundo, sentimentos e interesses guiam aquilo que é visto e aquilo que passa despercebido. Enquanto um sujeito olha a Alinne Moraes e vê apenas um par de seios, o outro pode olhar e notar apenas os brincos, depende da preferência sexual de cada um. Uma falta nunca é óbvia, ela depende de interpretação e, portanto, depende de como um juiz se sente naquele momento. Donaghy descreve como alguns juízes gostam de alguns técnicos e odeiam outros, assim como qualquer um de nós gosta de alguns colegas de trabalho e odeia o gordo de bigode que fica fazendo trocadilhos quando você tenta se concentrar procurando pornografia no escritório. Por mais que tentemos tratar todas as pessoas da mesma maneira, é impossível não deixar que nosso afeto guie, mesmo que inconscientemente, o modo com que lidamos com o mundo.

O papel da NBA é guiar um pouco o olhar dos árbitros para aquilo que julgam ser o mais importante, o mais necessário, mas não podem formar o olhar por completo, do zero, porque o ser humano que apita o jogo já está lá antes da NBA chegar. No entanto, é o modo que a NBA guia o olhar da arbitragem que merece atenção:

"Raja Bell, antes parte do Phoenix Suns e agora membro do Charlotte Bobcats (...) foi um especialista em defesa durante toda sua carreira (...), tendo uma reputação de ser um "defensor de estrelas". (...) Kobe Bryant muitas vezes se viu frustrado pela tenacidade de Bell na defesa. Você deve pensar que a NBA amaria um cara que defende tão bem assim, mas pense de novo! Defensores de estrelas estragam a exibição dos jogadores importantes. Fãs não pagam ingressos caros para ver jogadores como Raja Bell - eles pagam para ver superestrelas como Kobe Bryant marcar 40 pontos.

Se um jogador de peso como Kobe colide com alguém como Raja Bell, o apito vai quase sempre soar a favor de Kobe e contra Bell. Como parte de nosso treinamento constante e da preparação para os jogos, árbitros da NBA regularmente recebem vídeos com trechos de jogos enviados pelo escritório da liga. Durante anos, revi muitas horas de vídeos envolvendo Raja Bell. As gravações que analisei geralmente mostravam faltas sendo marcadas contra Bell, raramente a favor dele. A mensagem era sutil mas clara - apite faltas contra o defensor de estrelas porque ele está prejudicando o jogo."

É bem óbvio que a NBA quer que as grandes estrelas sejam um sucesso absoluto entre os fãs. As estratégias do David Stern com relação à arbitragem para aumentar o placar dos jogos e favorecer as estrelas são conhecidas: com o passar dos anos, mais faltas são marcadas, menos contato com as mãos é permitido e mais lances livres são cobrados. Mas o que não sabemos é que, sutilmente, a NBA está mesmo treinando árbitros para que os jogadores de ataque - especialmente as grandes estrelas - passem mais tempo na linha de lances livres. Não se trata de algo específico para o Kobe, ou para o LeBron, mas sim algo geral em toda a liga para proteger as estrelas. Kevin Martin cobra milhares de lances livres e é tão famoso quanto o padeiro aqui do lado de casa, o que importa é que ele é um jogador puramente ofensivo e por muito tempo representou todo o ataque do Kings. A NBA guia o olhar dos árbitros a defender as estrelas, privilegiar o ataque e marcar muitas faltas, mas os juízes são humanos e acabam seguindo essa instrução dentro de seus próprios critérios e opiniões. Com alguns, Kobe cobrará mais lances livres do que com outros.

Donaghy também aponta, horrorizado, como juízes inventam marcações para compensar cagadas. Todos nós sabemos que os árbitros estão sujeitos a cometer erros e que deve ser uma merda colocar a cabeça no travesseiro depois pensando que você prejudicou a temporada de alguém com um erro seu - isso em qualquer esporte, emprego ou vida familiar. Nada me parece mais óbvio do que juízes tentando arrumar as besteiras que acabaram de apitar, ou se borrando de medo de apitar alguma coisa muito errada na frente de uma torcida furiosa ou de um técnico babando sangue. Temos que lembrar que árbitros trabalham na frente de todo mundo e suas marcações são avaliadas o tempo inteiro por trocentas câmeras - tente fazer isso no seu trabalho e com certeza não teremos cutucadas de nariz, Orkut sendo usado no escritório, cochilos tirados na privada do banheiro, e certamente sobrará apenas um pânico enorme de fazer alguma burrice.


"Se o Kobe Bryant tem duas faltas no primeiro ou segundo quarto e vai pro banco, um árbitro vai dizer para o outro: Kobe tem duas faltas. Vamos ter certeza de que, se marcarmos uma falta dele, seja uma falta bem óbvia, porque senão ele vai voltar para o banco. Se ele estiver em uma jogada em que marcarmos uma falta, dê a folta para outro jogador".

Mandar um mané para o banco talvez ninguém perceba, se for alguém como o Darko nem a mãe dele vai notar que ele não está na quadra. Mas mandar o Kobe pro banco será algo recebido com críticas, reclamações, vaias, punições, a não ser que sejam faltas incontestáveis. É por isso que um juiz vai preferir mandar o Darko para o banco do que o Kobe, simplesmente porque o Kobe interfere mais no andamento da partida e, portanto, uma cagada com relação a ele tem mais repercussão. Some a isso o fato de que a NBA privilegia os jogadores de ataque quando ocorre contatos e colisões e temos a junção perfeita: um ser humano com medo de errar, opiniões próprias sobre os jogadores e um olhar conduzido a proteger a estrela no ataque. Essa é a receita para que LeBron, Wade e Kobe tenham cobrado lances livres suficientes para queimar suas imagens em nossas córneas.

"As Finais da Conferência Oeste de 2002 entre o Los Angeles Lakers e o Sacramento Kings mostram um terrível exemplo de manipulação de jogos e séries do modo mais feio possível. Enquanto os times se preparavam para o Jogo 6 no Staples Center, Sacramento liderava a série em 3-2. Os árbitros designados para apitar o Jogo 6 eram Dick Bavetta, Bob Denelay e Ted Bernhardt (...).

Na reunião antes do Jogo 6, o escritório da liga nos avisou que algumas marcações - que teriam beneficiado o Lakers - não estavam sendo apitadas pelos árbitros. (...) Depois de receber a mensagem, Bavetta falou abertamente sobre o fato de que a liga queria um Jogo 7. "Se dermos preferência nas marcações para o time que está perdendo a série, ninguém vai reclamar. A série vai estar empatada em três jogos para cada, e o melhor time poderá ganhar o Jogo 7", Bavetta afirmou. Como a história nos mostra, Sacramento perdeu o Jogo 6 numa virada eletrizante que viu o Lakers repetidamente ser mandado para a linha de lances livres pelos árbitros. Para os outros árbitros da NBA assistindo ao jogo na televisão, foi uma performance vergonhosa do Bavetta e seu grupo, um dos jogos mais mal apitados de todos os tempos."

Onde Donaghy vê uma conspiração da NBA para favorecer o time com mais torcida e ganhar mais dinheiro com um jogo 7, só consigo ver a NBA cometendo um erro para tentar concertar outro. O Lakers havia sido levemente prejudicado e os engravatados tentaram compensar isso mudando a arbitragem da partida seguinte para que os fãs não pudessem reclamar. Mas é claro que com a pressão por parte da NBA, tanta gente assistindo e o medo de errar, as recomendações simples acabaram virando um festival de péssimas marcações. Só no quarto período, o Lakers cobrou 18 lances livres a mais do que o Sacramento Kings.

Há muito de "teoria da conspiração" no livro de Donaghy, mas aquilo que podemos apreender com segurança é que os árbitros erram o tempo inteiro e tentam concertar imediatamente, nem que para isso tenham que inventar faltas. Mas por medo de interferir ainda mais no jogo, não inventarão faltas em cima das grandes estrelas. Enquanto isso, são instruídos para permitir que os ataques da NBA fluam e as estrelas pontuem, sem que um ou outro time seja especificamente favorecido. Então, da próxima vez que o LeBron ou o Kobe cobrar quarenta lances livres e alguém te disser que estão roubando, que o Spurs é sempre favorecido, que o Lakers é sempre prejudicado ou alguma outra besteira desse tipo, apenas lembre que seres humanos se borrando de medo estão apitando esses jogos - com a NBA cochichando em seus ouvidos para que os placares possam continuar inflados para que os fãs não acabem pegando no sono em casa.

A possibilidade de rever jogadas nos minutos decisivos por várias câmeras foi um passo importante para tentar diminuir o medo de marcações que influenciem todo o andamento de uma partida, ou de uma série de playoff, ou de uma temporada. Mas o tipo de olhar que se coloca na NBA não vai ser alterado pelas câmeras: hoje em dia, busca-se o espetáculo dos pontos, os ataques bonitos, e é com esse olhar que os torcedores vibram, os engravatados instruem e os árbitros apitam. Não há certo ou errado nas marcações, é apenas o filtro pelos quais os olhares da nossa época passam antes de chegar no objeto. Antigamente, o olhar era voltado para o combate dentro do garrafão, o jogo físico, a pancadaria. Cada época exige sua abordagem, tem um público diferente e pede um novo modo de arbitragem. Tem muita gente por aí que gosta de ver é defesa, e o Spurs provou que pode construir uma dinastia defendendo bem pra burro, mas isso não traz novos fãs para o esporte e nem vira vídeo popular no YouTube. Pode ser um saco ver o LeBron cobrar 40 lances livres, mas isso não é ladroagem, não é um horror deturpado para os amantes dos tempos áures do passado da NBA, é apenas diferente. Um olhar diferente sobre o esporte, algo que sempre continuará acontecendo, de tempos em tempos, enquanto os humanos continuarem torcendo, jogando e apitando partidas.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

As enterradas invisíveis

O ponto alto da noite foi a Alyssa Milano


Provavelmente fora a Alyssa Milano, o ponto alto dos eventos do All-Star no sábado foi Steve Nash. Depois de comparecer à abertura das Olimpíadas de Inverno, aquele troço estranho que acontece entre seres humanos cujos cérebros foram atrofiados pelo frio, apareceu todo bem humorado para a competição de habilidades. Pareceu realmente interessado em vencer (dando arrancadas e até suando duas gotas de suor quando ficava preocupado com o tempo a ser batido), aloprou a própria idade dizendo que ele está velho e merecia começar já em vantagem, flexionou os músculos quando foi apresentado e fingiu que o troféu pesava uma tonelada ao vencer a disputa. O Shaquille O'Neal e suas palhaçadas não devem voltar ao All-Star, o Dwight deu no saco se achando com aquele papo de "Super-homem", o Arenas teve suas piadas suspensas da NBA, então só sobrou o Nash como jogador capaz de nos fazer rir - e o melhor, ele é o único dessa lista que sabe tirar sarro de si mesmo. Além da fantástica campanha dele para ser selecionado para o All-Star ("vote em mim porque eu sou incrível") e dos vídeos que quase sempre contam com Leandrinho como estrela principal, o Nash não para de fazer propagandas hilariantes. A última é uma brincadeira com a campanha "o homem mais interessante do mundo", de uma marca de cervejas. Trata-se da campanha "o homem mais ridículo do mundo", e o Nash topa qualquer brincadeira:


Além do Nash se divertindo e tirando um sarro, teve o Paul Pierce (que não deveria estar no campeonato de três pontos porque tem gente que merecia mais) reclamando que as pessoas disseram que ele não deveria estar no campeonato de três pontos porque tem gente que merecia mais. Ou seja, foi tipo um dedo na minha cara. Mas ele ganhou a bagaça e aí deixou a modéstia comandar: "Eu acho que sou um dos melhores arremessadores da história da NBA." Como será que o ego de Pierce e Garnett conseguem entrar juntos num mesmo avião e não derrubá-lo com o seu peso? O Garnett costumava jogar no Wolves falando o tempo inteiro com ele mesmo, repetindo que ele era o melhor jogador do planeta. Mas frente aos problemas no vestiário do Celtics, o Pierce vencer o campeonato de três pontos com o Garnett vibrando na lateral da quadra foi um bom sinal de que eles ainda se empolgam e estão na mesma página. Por outro lado, o Garnett não estourou nenhuma veia da cabeça comemorando, então é bem claro que as coisas andam mais frias - tanto no All-Star quando no Boston Celtics.

O momento nostalgia da noite foi aquela competição "bleh" em que três jogadores (uma estrela da NBA, um aposentado, e um que mija sentado) se revezam em um circuito tentando acertar bolas de lugares definidos da quadra. A competição me lembra o velho programa "Passa ou Repassa", em que duas equipes se enfrentavam respondendo perguntas e não importava quem ia melhor, porque a prova final do programa valia 4 bilhões de pontos e sempre quem vencia essa prova ganhava a disputa. Nessa competição da NBA, não adianta fazer tudo rapidinho se demorar demais para acertar o arremesso do meio da quadra, que acaba sendo o que decide de fato. Mas o legal foi ver o Chris Webber participando, com seu arremesso "eu chuto a pessoa da minha frente quando saio do chão", e lembrar dos tempos em que ele gostava de basquete, lá no Kings (em seu tempo de Sixers ele provavelmente não via a hora de parar). Teve também o mais-velhinho Kenny Smith arremessando do meio da quadra só com a munheca, como se ele estivesse do lado da cesta. Pra alguns parece tão fácil...

Chegou então a hora do grande evento da noite, o campeonato de enterradas. Bem, não aconteceu nada. O Gerald Wallace já tinha passado vergonha participando do torneio uma vez, agora passou vergonha de novo com as enterradas mais comuns de todos os tempos. Shannon Brown mostrou que realmente consegue pular alto pra burro mas não sabe o que fazer lá em cima, acaba tirando um cochilo, lendo uma revisitinha da "Turma da Mônica", e aí cai no chão sem nada acontecer. O DeMar DeRozan não tinha arsenal suficiente para entreter ninguém e o Nate Robinson esgotou a cota de criatividade porque já vemos ele fazendo as mesmas coisas há 3 anos e ele erra quarenta vezes cada enterrada antes de conseguir executar quando já está cansado e com a língua pra fora. Ou seja, foi um campeonato tão esquecível, tão sem graça, tão invisível, que a NBA sumiu no YouTube até com as enterradas que prestaram!

A NBA tem uma relação problemática com o YouTube, primeiro proibindo qualquer vídeo sobre a liga no site, e agora permitindo apenas os vídeos "oficiais" na página da NBA no YouTube. Sem dúvida é coisa do Devid Stern, que é burro como uma porta. Tem coisa que promove mais a NBA do que vídeos das melhores jogadas, jogadores e partidas pra todo mundo ver e querer mais? Não é como se alguém fosse ver pelo YouTube e deixar de comprar o produto depois, como no caso de um CD, afinal o produto é a própria NBA e quanto mais assistimos, mais queremos camisetas, tênis, ingressos, e mais queremos assistir - de preferência ao vivo.

Como a quantidade de vídeos sobre NBA colocados no YouTube é grande demais, fica dificil existir um controle adequado e acaba tendo uma tonelada de vídeos pra assistir e colocar no blog todo dia. Mas como o concurso de enterradas é um evento "importante", todos os vídeos colocados no ar foram apagados. Talvez seja melhor assim, a NBA está tentando fazer com que todos nós esqueçamos do pior campeonato de enterradas de todos os tempos. Ou, pelo menos, do pior campeonato de enterradas que a gente já viu por aqui. No entanto, como pelo menos uma das enterradas foi bem legal, a segunda do DeMar DeRozan, o Bola Presa resolveu imortalizar o momento. Como não tem vídeo, resolvemos fazer um infográfico:

Campeonato de enterradas é como sexo: tem de todos os tipos e pra todos os gostos. Tem com fantasias como no ano passado, com agressividade, com leveza, tem vendado, tem com duas bolas, tem um pulando por cima do outro, tem com palhaçada, tem sério, tem plasticamente bonito, tem com dezenas de tentativas até dar certo. O que não pode é broxar, porque aí não tem sexo nenhum. O campeonato desse ano foi uma broxada monumental! Tem gente que criticou o campeonato do ano passado, que teve palhaçada e fantasia, mas é só porque não gostam desse estilo, tem gente que adora e é um modo válido. Só precisa ser alguma coisa, qualquer coisa!

A gente sabe que o LeBron disse que ia participar e depois deu pra trás, mas não precisa da boa vontade do LeBron pra essa merda funcionar. Como toda boa trepa, só precisa de gente com tesão, de gente que queira brincar. Gente disposta a fazer algo (forte, leve, engraçado, criativo, tanto faz), só não pode ser esse "nada" que foi esse ano. Acho que é a hora de mudar o formato, não deixar mais o público decidir o campeão, deixar todo mundo dar umas 4 enterradas sem existir primeiro e segundo round (pra não ter ninguém eliminado porque "guardou o melhor pro final", como parece ter sido o caso do Shannon Brown, que ia pular por cima do Mbenga), prêmio gordo para o vencedor, enterrada obrigatória com ajuda, enterrada obrigatória em cima de alguém, aí vamos tirando essas enterradas banais do caminho para que elas não sejam usadas como se fossem criativas. Poderiam ser umas 10 enterradas pra cada um, que mal faria aumentar as chances de alguma delas valer a pena? Alguém está com pressa, afinal? Fiquem livres para dar ideias, só precisamos palpitar para que no ano que vem o sexo funcione, não seja esse troço tão invisível e vergonhoso que a NBA até desapareceu com os vídeos. É claro que você pode ir na página oficial deles no YouTube pra ver, mas não se dê ao trabalho, não vale a pena. Tem as enterradas amadoras e da D-League no post abaixo, juro que compensa muito mais.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Arenasgate

(não esquecer da piada com 'run and gun')


Eu não estava muito afim de falar desse caso do Gilbert Arenas até hoje. Eram dois motivos principais: o primeiro é que ele tem pouco a ver com basquete e é de basquete que eu gosto, depois porque eram tantas versões da mesma história que eu não sabia no que acreditar. Só que a história diz respeito ao Gilbert Arenas, um dos jogadores que a gente mais comentou nesses 2 anos e meio de Bola Presa e agora tem um fato bem concreto pra comentar: ele foi suspenso por tempo indeterminado pelo David Stern.

Para quem está bem por fora, o que aconteceu foi que saiu uma notícia dizendo que o Gilbert Arenas teria quatro armas de fogo guardadas em seu armário no Verizon Center, o ginásio do Wizards. Como a lei de posse de arma de fogo é bem dura em Washington, o caso começou a ser investigado pela polícia e pipocaram informações de que seria proibido ter armas de fogo em locais com a chancela da NBA. O Arenas respondeu que tinha as armas em casa, mas que, com medo de tê-las perto dos filhos pequenos, levou-as para o ginásio.

O caso foi sendo investigado quando surgiu uma outra história, de que o Arenas teria apontado a arma, descarregada, para o companheiro de time Javaris Critentton, aquele armador reserva que era do Lakers, foi para o Grizzlies na troca do Gasol e depois para o Wizards. E foi depois disso que as mais diferentes histórias começaram a aparecer.

Uma das histórias diz que o Arenas apontou a arma para o Critentton, que teria ficado assustado. Outra diz que o Arenas e o Critentton certa vez brigaram por causa de uma aposta em jogos de carta e como resposta (de brincadeira) o Arenas teria deixado três armas no armário do seu colega com um bilhete pedindo para que ele escolhesse uma delas. Também existem versões da história onde o Critentton teria sua própria arma de fogo no vestiário, essa carregada, e teria apontado ela para o joelho recém-operado do Arenas no meio dessa discussão/brincadeira/provocação sobre as apostas em jogos de carta.

A confusão já era grande mas a NBA não tinha tomado nenhuma providência. David Stern disse que estava acompanhando o caso de perto mas que ia esperar qualquer decisão da polícia, que ainda investiga o caso, para decidir se daria uma punição e qual seria ela. Tudo parecia se encaminhar para esse desfecho, o Arenas até soltou para a imprensa um pedido de desculpas muito bem escrito pelo seu advogado em que falava ter errado, exagerado na brincadeira e tudo isso que a gente conta pra diretora da escola.

Só que no dia seguinte apareceu o Arenas de sempre, o de verdade. Bocudo, incosequente e, por que não, um bocado burro. Ao invés de ficar quieto por um tempo e deixar o assunto esfriar, ele passou o dia comentando o caso no seu Twitter, criticando todo mundo da imprensa que tinha falado mal dele e insistindo que ele só tinha feito uma brincadeira. Para terminar, fez essa brincadeira antes do jogo do Wizards contra o Sixers.


Tá bom, eu ri um bocado quando vi ele fazendo a arma com a mão. Mas não é porque foi engraçado que não foi burro. Logo depois do jogo o David Stern soltou uma nota dizendo que o "Sr. Arenas" não estava em condição de participar de jogos da NBA e que por isso estava suspenso por tempo indeterminado. E ainda assustou com o trecho "está claro que as ações do Sr. Arenas vão resultar numa punição substancial ou, talvez, até algo pior". Já se diz em proibí-lo de continuar na NBA ou de cancelar seu contrato zilionário com o Wizards.

Digo que o Arenas foi burro porque todo mundo sabe que o David Stern é pirado quando o assunto é o comportamento dos jogadores. Ele já suspendeu jogadores por 10 jogos quando os problemas judiciais deles tinham acontecido na offseason e nada tinham a ver com basquete, foi o responsável pelo patético código de vestimenta que obriga todos os jogadores a aparecerem de roupa social quando não vão jogar. É o David Stern que insiste em mostrar os jogadores fazendo ações de caridade no intervalo de todos os jogos e foi ele quem pediu para a Getty Images tirar do ar, ontem, a foto que eu postei aí em cima com o Arenas apontando suas armas de dedo. Se ele pegou pesado com as roupas, imagina o que ele iria fazer quando o assunto é realmente sério? Essa punição estava muito óbvia e o Arenas continuou provocando.

Ainda acho que muita gente na imprensa americana pegou pesado demais com o Arenas. O caso nem estava bem explicado (quer dizer, ainda não está) e já estavam crucificando ele, tratando-o como o pior dos criminosos. Mas, apesar de não concordar com os exageros, dá pra entender como eles nasceram: por que um cara vai ter quatro objetos cuja função é tirar a vida de outros seres humanos guardados no seu local de trabalho? As armas já fazem parte da nossa cultura, tem gente que é apaixonada por arma como outras são por carros ou basquete, mas não podemos esquecer que, no fundo, a função da arma é matar. O exagero ainda é exagero, mas é explicável.

A notícia mais recente do caso é que o Arenas estava tentando limpar a barra do Javaris Critentton. A versão foi contada pelo New York Post e parece encaixar com as outras contadas antes. Segundo o Post, o Critentton perdeu uma aposta num jogo de cartas para o pivô JaValle McGee e ficou bravo por uma discussão sobre as regras do jogo, o Bourré (que além de cidade da França, dança e música do Jethro Tull, é um jogo de cartas típico dos EUA).

O Arenas então começou a tirar sarro do seu colega que tinha perdido o jogo, dizendo que se não pagasse a aposta iria ter seu carro explodido (uma boa piada, convenhamos, eu teria dito que iria entregar um peixe na casa dele). Aí, ainda no avião, o Javaris teria dito para o Arenas que iria atirar no joelho dele (isso já foi pegar no ponto fraco!). Dias depois, no vestiário, o Arenas deixou suas armas no armário do Critentton com um bilhete dizendo "escolha uma" e disse que só estava deixando o trabalho do seu colega mais fácil. O armador, porém, respondeu algo como "Não precisa, eu tenho a minha" e mostrou sua arma carregada.

Não se sabe se ele chegou a apontar para o Arenas, se todo mundo riu, se eles se abraçaram, sei lá, não contaram nada depois disso. Mas falaram que o Arenas disse para o seu companheiro de time que iria assumir a responsabilidade pelo fato, encerrar isso e deixar o Critentton, que não tem nome, mídia e nem a mesma grana, longe disso. Acontece que o caso ficou grande demais e a história real acabou saindo. Ou seja, além do problema da posse de arma, de tê-las dentro de um lugar da NBA e ter sido suspenso pelo David Stern, o Arenas terá que lidar com o fato de ter mentido para a polícia, o que nunca é bom negócio nas séries policiais que eu vejo na TV.

Nos EUA o caso tem sido tratado bastante pela sua veia racial. O Stephen A. Smith da ESPN fez um artigo grande, até comentado no Rebote, dizendo que "idiotas como Gilbert Arenas estão envenenando a cultura negra". Mas nesse caso eu concordo com outro americano, o (negro) Austin Burton, que disse: "Se fosse o Brad Miller apontando seu rifle de caça para o Aaron Gray em Chicago ele seria suspenso também". Esse caso de armas em um local de trabalho é sério e não tem nada a ver com cor da pele, acho que chama mais a atenção pelo Arenas ser um jogador conhecido e polêmico do que por ser negro. Mas só estando nos EUA para entender um pouco melhor como eles lidam com a questão racial por lá.

Esse caso acaba sendo o marco de uma temporada que vinha sendo um grande anti-clímax para o Wizards e para o Arenas. Ele finalmente voltou depois de dois anos e meio parado mas o time não consegue vencer de jeito nenhum. O Arenas está até com bons números (22 pontos e 7,5 assistências, máximo da carreira) mas que não estão fazendo diferença na hora de vencer jogos, ao contrário, ele se destacou mais na temporada pelas bolas perdidas e lances livres errados em momentos decisivos dos jogos.

Convenhamos que o Jazz precisou de bem menos pra começar a oferecer seus jogadores em trocas. Esse caso é mais do que simbólico para o Wizards começar uma reestruturação geral em seu time. Caron Butler e Antawn Jamison ainda tem muito valor de troca na liga, Andray Blatche e Brendan Haywood são talentos que podem interessar muita gente e se o contrato do Arenas for realmente encerrado pela NBA, o espaço que isso deixaria na folha salarial do Wizards os colocaria na briga por Free Agents no ano que vem.

Acredito até que o Wizards deve estar torcendo demais para isso acontecer. Com o desempenho do time nesse ano, os 111 milhões investidos no Gilbert Arenas parecem um belo dinheiro jogado no lixo e a família Pollin, que comanda a equipe desde que o patriarca Abe Pollin morreu no começo dessa temporada, está indignada com os fatos e com o comportamento do Arenas perante eles, parece que não ficariam nem um pouco tristes de ver o Arenas longe de Washington. Ironia cruel do destino que foi o velho Abe Pollin que, muitos anos atrás, devido à grande violência na cidade de Washington, resolveu trocar o nome do time de Bullets (balas) para Wizards (magos).

Se por acaso Arenas continuar, vai ser um clima esquisito. O ambiente ficaria pesado e eles não teriam muito o que fazer, como seriam capazes de trocar aquele salário monstruoso? Que equipe iria poder e querer bancar? O ano que era pra ser o da volta de Gilbert Arenas foi o da infame volta do Washington Bullets.