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terça-feira, 29 de março de 2011

Vencendo sem querer

Leandro e Leonardo


Depois de muito tempo, finalmente o Leste é capaz de nos dar água na boca. Alguns dos melhores times da NBA estão lá, muitas estrelas foram trocadas para equipes do Leste, três equipes da conferência possuem mais de 50 vitórias e é completamente plausível (pra não dizer provável) que uma delas leve o título da NBA esse ano. Os playoffs no Leste serão incríveis, como será que o Celtics se sairá sem Perkins, como o trio do Heat reagirá à pressão, será que o Derrick Rose segura a onda, ainda dá tempo do Magic se acostumar com a mudança do elenco? Mas não podemos esquecer que essa empolgação com o Leste esconde uma verdade terrível: a conferência ainda fede.

Knicks e Indiana, atualmente donos das últimas duas vagas para os playoffs, possuem mais derrotas do que vitórias. O Sixers provavelmente manterá a sexta vaga apenas igualando o número de vitórias e derrotas. O Bobcats, que é um time que simplesmente desistiu da vida e quer se reconstruir (assumidamente nos moldes do Thunder), periga conseguir uma vaga nos playoffs mesmo tendo 10 derrotas a mais do que vitórias, chegou ao ponto deles pensarem em colocar o Stephen Jackson de molho no banco pro resto da temporada porque senão vão se classificar sem querer e ficar em pior situação ainda no draft. Isso significa que a elite do Leste (Bulls, Heat e Celtics) enfrentará um trio de cachorros semi-mortos em lavadas relativamente fáceis. Eu sei que ontem mesmo o Pacers ganhou do Celtics, e que o Sixers venceu o Bulls, e que eu não me arrisco a tentar entender o Sixers porque o time não faz sentido, mas eu duvido que numa série de playoff essas zebras se mantenham. Acho que o único confronto minimamente interessante deverá ser entre Hawks e Magic. Mas mesmo o Hawks, com 10 vitórias a mais do que derrotas,  é um time implodindo diante dos nossos olhos e vai tomar uma surra. Vão dizer: "ah, o Hawks é bom, o elenco é sólido, não venceram mais de 40 jogos a troco de nada". Pois é, foi o que todo mundo me respondeu quando eu avisei que o único jeito do Hawks vencer o Magic nos playoffs passados era o Dwight Howard comer veneno de rato ou tomar banho de banheira ao lado de uma torradeira elétrica. Como esperado, foi uma das maiores surras da história e vamos ter algo mais ou menos parecido outra vez. Então o Leste é legal, pode aparecer uma zebra ou outra por aí, mas a elite está muito acima dos reles mortais que se classificam com mais derrotas do que vitórias. A conferência ficou mais forte, é verdade, mas foi para alguns poucos. No fundo, acabou ficando ainda mais desequilibrada.

Enquanto isso, na conferência Oeste (que é tãaaaaao ano passado, querida!), três equipes podem terminar a temporada com mais vitórias do que derrotas e mesmo assim estarão fora dos playoffs. As três últimas vagas (atualmente de Blazers, Hornets e Grizzlies) serão disputadas por 6 times (com Rockets, Suns e Jazz com chances de classificação). É um absurdo! E prova de que equipes desacreditadas, em reconstrução, mais perdidas do que cego em tiroteio, conseguiram campanhas fenomenais - e históricas, até - enquanto ninguém estava olhando. Com mais ou menos uns 10 jogos sobrando para cada equipe até o fim da temporada, apenas dois jogos separam o sexto colocado Blazers do oitavo colocado Grizzlies, e mais dois jogos separam o Grizzlies do Houston, também separado por dois jogos do Suns. Ou seja, vamos dar uma olhada nas chances de classificação do Houston e do Suns e aproveitar para ver como suas campanhas deram milagrosamente certo num momento em que os dois times já pensavam em desistir e começar de novo.


Houston Rockets

O Houston começou a temporada acreditando que iria contar com Yao Ming, apostando na armação do Aaron Brooks e seu recém-ganho prêmio de Jogador que Mais Evoluiu, e com Shane Battier defendendo o perímetro. Terminou com um pivô de 1,98m chamado Chuck Hayes fazendo triple-double, a armação entregue ao eterno reserva Kyle Lowry (também fazendo triple-double), e a defesa de perímetro nas mãos do segundo-anista e ex-jogador de vôlei Chase Budinger, ou seja, foda-se a defesa de perímetro. O que diabos aconteceu? É tipo ir dormir com a Mari BBB e acordar com a Mari Alexandre: tá tudo bem, ninguém vai reclamar de nada, mas não era exatamente o que estava nos planos.

O começo capenga e a milionésima lesão do Yao Ming levaram a equipe a uma renovação de elenco, apostando em jogadores jovens e bastante flexibilidade salarial. Novamente, o que acaba brilhando é o esquema tático do Rick Adelman com seus passes constantes, armadores que não seguram a bola e cortam constantemente para a cesta, passes para jogadores desmarcados na linha de fundo e ninguém parado assistindo o jogo acontecer. O técnico já colocou em prática esse esquema com uma equipe sem nenhuma estrela antes, já teve muito mais sucesso do que se esperava, mas não conseguiu levar o time aos playoffs sem uma estrela para segurar as pontas. O elenco de agora não deveria ser uma nova tentativa de bater a cabeça contra a parede, já que todo mundo sabe que o Kevin Martin não vai carregar o time nas costas, era pra ser uma reconstrução sem pretensões imediatas, mas é que alguns jogadores acabaram se saindo bem demais no esquema e o que deveria ser uma renovação acabou se tornando uma equipe com chances de pós-temporada. A defesa do Houston, que desmontou completamente sem Yao Ming (e que tem um pivô anão debaixo do aro!), recebeu o apoio de Kyle Lowry e de Courtney Lee pra ficar menos vergonhosa. O Kyle Lowry aprendeu a arremessar de três pontos, qualidade essencial para os armadores do Adelman, e dominou por completo o esquema tático sem forçar as bolas idiotas que o Aaron Brooks forçava todo jogo. O Chuck Hayes, que é um pivô pintor de rodapés, está dominando as jogadas - que o Adelman tanto adora - em que a bola fica nas mãos dos pivôs na cabeça do garrafão. Então a defesa melhorou, Lowry e Hayes garantem que as jogadas fluam como o técnico deseja, as bolas de três estão caindo e é uma coisa linda de ver esse time funcionando ofensivamente. Até que os reservas entrem em quadra e só façam merda, e que a defesa se mostre uma peneira completa e não dê pra se manter no jogo, claro. As poucas jogadas individuais do Houston aparecem com o Kevin Martin (que às vezes força um bocado e enlouquece todo mundo, mas em geral é comportado) e com o Luis Scola, que sempre dá um jeito de pontuar no garrafão - e sempre dá um jeito de que pontuem em cima dele também Mas o banco de reservas, ao contrário, é cheio de jogadas individuais, não consegue segurar o ritmo ofensivo e manter o esquema sonhado pelo técnico. Normal, o banco só tem fraldinha. O ideal seria dar minutos para a pirralhada, ver quem vai continuar na equipe, encerrar o contrato do Yao temporada que vem e reforçar a equipe. Mas as chances de playoff ferraram tudo. O Hasheem Thabeet, que precisa de minutos urgentemente para não morrer de tédio, sequer entra em quadra pra não comprometer as chances de pós-temporada. Ou seja, o time ficou melhor do que deveria e com isso o Thabeet continua servindo só pra pegar lata no alto do armário.

Ninguém apostava nesse Houston sem Yao, sem T-Mac, com um pivô anão e uma estrelinha como o Kevin Martin, e é por isso que ninguém percebe quão genial é o Rick Adelman. A defesa desmontou, quebrou de vez, três anéis vermelhos da morte pra ela, mas o ataque é tão fantástico que colocou esse time desistente na luta por uma vaga e vai vencer mais de 40 jogos na temporada. Quão absurdo é isso? Vale dar o prêmio de técnico do ano para uma equipe que não venceu mais de 50 jogos? Por isso é que vale assistir aos jogos finais do Houston não para ver quão bom é o Kyle Lowry ou o Chuck Hayes, porque diabos, eles simplesmente não são. Vale é para ver a mão do Adelman tornando tudo simples, bonito e orgânico - e um ou outro reserva batendo cabeça, caindo de bunda e a defesa tomando trilhões de pontos. 

O Houston tem ainda 9 partidas: enfrenta Nets fora, Sixers fora, tem uma sequência em casa em que pega Spurs, Hawks, Kings, Hornets, Clippers e Mavs, e fecha a temporada com Wolves fora.


Phoenix Suns

O Suns já era uma equipe reconstruída quando venceu o Spurs nos playoffs com Nash, Jason Richardson e Amar'e Stoudemire. Mas perder o Amar'e foi duro demais para as chances de playoff da equipe, então resolveram jogar tudo fora e finalmente começar de novo. Quer dizer, mais ou menos. Porque tem alguma coisa lá na água de Phoenix que cura qualquer lesão e renova o sangue de qualquer ancião. É lá que o Shaq se recuperou da lesão que o tirou do Heat, que o Jason Richardson se manteve saudável, que o Grant Hill ficou sólido como rocha depois de uma carreira inteira destruída por lesões constantes. Então enquanto o Suns ia pela privada para começar de novo, o Nash estava lá outra vez com suas 11 assistências e 15 pontos por jogo, acertando quase 50% dos seus arremessos, e o Grant Hill estava lá provando que é um dos melhores - se não for o melhor da atualidade - defensores de perímetro da NBA. Nessa altura, os dois deveriam estar cansados fazendo cruzadinha na lareira de casa e tomando Ovomaltine, e não tornando o Suns um time competitivo. No dia final para trocas nessa temporada, o cu piscou e aí os engravatados de Phoenix não conseguiram trocar nenhum dos dois. Trouxeram mais molecada, conseguiram o Vince Carter para liberar 17 milhões de espaço salarial na temporada que vem, mas não conseguiram se desfazer dos dois vovôs que insistem em jogar muito.

Marcin Gortat e Channing Frye estão jogando bem, o Frye também se renovou no Suns e ganhou uns jogos sozinho com suas bolas de três, mas nenhum deles renderia o que está rendendo sem o Nash por lá. Então o time manteve os moleques junto com o armador canadense para que rendam alguma coisa, faz sentido. Mas e aí? Vão manter o Nash por lá pra sempre, mesmo que não tenham chances de título? Ele vai ficar refém de um projeto de reconstrução que nunca acontece simplesmente porque o Nash é bom demais? O contrato do Grant Hill termina nessa temporada, então o Suns tem que decidir isso também: renova com o Grant Hill e seus quase 40 anos? Porque renovar é aceitar que dá pra vencer agora, já, e que os dois veteranos vão receber ajuda. Mas precisa ser ajuda à altura, nos moldes do Amar'e, não dá pra trazer o Aaron Brooks e achar que vai mudar alguma coisa.

O Suns deveria estar se lascando, tropeçando e conseguindo uma baita escolha legal de draft pra reformar a equipe, mas não conseguiu feder porque o Nash e o Grant Hill são simplesmente bons demais. Conseguir uma oitava vaga seria o maior prêmio do planeta para eles, vovôs que não deveriam mais ter que aguentar essa pirralhada tirando meleca do nariz e o Vince Carter dando migué em quadra como se fosse criança mimada. O Carter vai para o banco pelo resto da temporada, de castigo, com Jared Dudley de titular e com a oitava vaga ainda na mira. É difícil, impensável, deveriam ter desistido muito antes, mas é possível e seria muito legal se acontecesse. 

O Suns ainda tem 10 partidas: enfrenta o Kings fora, o Thunder e o Clippers em casa, e aí passeia pelo país: pega Spurs, Bulls, Wolves, Hornets e Mavs fora de casa. Depois ainda enfrenta de novo Wolves e Spurs, mas em casa.

O engraçado é que o Suns e o Rockets enfrentam vários adversários iguais: Kings, Hornets, Mavs, Wolves, Spurs e Clippers, com o Suns enfrentando Spurs e Wolves duas vezes cada. Os adversários diferentes são Nets, Sixers e Hawks para o Rockets (um saco de pancada e dois classificados no Leste) e Thunder e Bulls para o Suns (duas equipes de elite).

Para comparar, o Grizzlies enfrenta Warriors, Hornets fora, Wolves, Clippers, Kings, Hornets, Blazers fora e Clippers fora. Ou seja, assim como o Rockets e o Suns, o Grizzlies também vai enfrentar Hornets, Kings, Wolves e Clippers. Tirando o Hornets, que também luta por posição, são apenas equipes fracassadas e quem  não conseguir vencê-las vai ficar muito atrás na briga pelas vagas. Novamente, são os times pequenos decidindo o futuro de seus irmãos maiores.

Rockets e Suns saíram melhor do que a encomenda, venceram meio sem querer, no meio de um projeto de reconstrução que não esperava exatamente ir parar nos playoffs. É capaz que as duas equipes nem consigam a oitava vaga, é verdade, mas Rick Adelman, Steve Nash e Grant Hill mereciam esse presente - muito mais do que o Grizzlies sem Rudy Gay, que poderá tentar novamente mais tarde, ou até o Blazers assolado por lesões e seu projeto de reconstrução pela metade. Essa reta final da temporada costuma ser a parte mais chata, a gente nem fica com grande peso na consciência quando temos que deixar o blog de lado um pouquinho para cuidar das nossas coisas, mas vale a pena acompanhar como essas equipes continuam tendo chances quando ninguém mais acreditava. E se forem para os playoffs, aí sim todo mundo verá o absurdo de suas campanhas - e dessa vez com muita cobertura do Bola Presa, que aquece os motores pra te matar de tanta leitura assim que a temporada regular terminar.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O time da criatividade

"Ball"

Pessoal, antes de tudo foi mal pelos dias sem atualização. Como o Danilo disse no formspring, foi uma série de fatores que nos deixaram uns dias de longe, mas já passou e estamos de volta em ritmo normal. Durante a temporada, com coisas acontecendo de verdade, garantimos que vamos fazer de tudo para manter o ritmo de um post por dia, combinado? E se não cumprirmos, foi mal, não temos palavra.

E já que estamos sem postar faz um tempo e precisamos nos redimir, vou pegar um assunto popular, o Phoenix Suns, que apesar de ter chegado na final do Oeste do ano passado e ter ficado bem perto de bater o Lakers, mudou bastante seu elenco.

Duas contratações do time a gente já tinha comentado quando aconteceram, a do Hakim Warrick e do Channing Frye. Elas podem ser lidas aqui, mas resumo aqui mesmo: o Frye saiu caro para um cara tão limitado, mas o pouco que ele faz é perfeito para o Suns e pensando só em basquete, não em grana, é importante ter ele no time. O Warrick também é limitado, mas sabe atacar a cesta e saiu barato. Vai ser uma das poucas opções do time no garrafão.

Os dois foram só o começo e estamos aqui para falar de tudo o que mudou no Suns até agora, então segura firme que o post é grande.

Como todos sabem, Amar'e Stoudemire foi para o New York Knicks. Como muitos também devem saber, ele foi o principal cestinha do Suns nos últimos anos, a única opção de pontos entre os jogadores de garrafão (tirando momentos esporádicos do Robin Lopez) e o parceiro ideal do Steve Nash no famoso pick-and-roll, a jogada de segurança do time.

Ao lembrar disso tudo não tem como não achar que a perda foi desastrosa. Por mais que ele não seja perfeito, se encaixava perfeitamente no estilo do Suns, tinha ótimo entrosamento com o Nash e é um dos melhores jogadores ofensivos de garrafão da NBA. Perder ele e não receber nenhum jogador em troca faria qualquer time despencar de nível, por melhor que fosse o resto do elenco.

Eu fiquei triste com a saída do Amar'e principalmente porque achei que ele finalmente tinha achado o seu parceiro ideal de garrafão. Durante muito tempo ele foi o pivô do time e não só ele não gostava de ficar limitado a ficar embaixo da cesta, como lá era mais difícil dele usar seu bom arremesso de meia distância e a sua infiltração, uma arma bem poderosa para conseguir pontos fáceis ou lances livres. Para tentar resolver isso chamaram o Shaquille O'Neal, mas os dois não se deram bem juntos, o time ficou lento e Amar'e participava pouco. Na temporada passada tentaram o Channing Frye, mas ele era pivô só no box score, na prática ficava na linha dos três e o Amar'e era o pivô de novo. No meio da temporada então resolveram promover o Robin Lopez para o time titular. Foi quando o Suns deslanchou e quando Stoudemire passou dos 25 pontos por jogo de média. Não seria exagero dizer que o Amar'e estava entre os dois ou três melhores jogadores da liga inteira nos últimos dois ou três meses da temporada quando jogou ao lado de Lopez.

O Robin Lopez sai bastante do garrafão para fazer corta-luz ou só para rodar a bola, abrindo espaço para o Amar'e infiltrar, coisa que o Shaq não fazia. Mas ao contrário do Frye, por exemplo, o Robin depois voltava para o garrafão para pegar rebotes de ataque, assim como ficava no rebote quando o Amar'e saía para arremessar. Os dois também eram velozes o bastante para não empacar o jogo veloz (não tão rápido quanto aquele time de 2005 e 2006, mas ainda baseado na transição) do Suns. Acontecia até do Lopez ser o responsável pelo corta-luz do pick-and-roll do Nash e o passe acabar saindo pro Amar'e! Achei um mix com enterradas do Amar'e na última temporada e é legal ver as que o Robin Lopez está em quadra, sempre abrindo espaço para o STAT. Ah, sem contar que o Robin Lopez livrava a barra do Amar'e ao sempre marcar o cara mais forte do garrafão adversário.

Triste então que bem quando a dupla perfeita de garrafão do Suns foi encontrada, também foi desfeita. E pior, assim como Lopez fazia o Amar'e parecer melhor, o contrário também era verdade. Ter Stoudemire fazendo 25 pontos por jogo disfarçava o quanto o Robin Lopez é limitado no ataque, embora seja até melhor do que parecia quando chegou na NBA. Todos perderam.

Mas como ela já estava consumada e o Suns não estava afim de entregar a rapadura e pensar em uma reestruturação geral, partiram para trocas e contratações. Hakim Warrick e Frye são bons, mas seus contratos indicavam que deveriam ser reservas, eles precisavam de um novo ala de força, de um novo parceiro para Robin Lopez. Mas quem? Chegou-se a cogitar David Lee, mas logo ele fechou com o Warriors. Bosh nem cogitou ir pra lá, Nowitzki, dizem, pensou em se juntar de novo com Steve Nash, mas preferiu ficar no forte time do Mavs. Com os grandes nomes de fora, a solução foi inovar. De novo.

Em 2005 o Phoenix Suns revolucionou a NBA com o seu ataque chamado "7 segundos ou menos". Era um sistema ofensivo em que o time tinha que definir a posse de bola em sete segundos ou menos, antes que a defesa adversária conseguisse se armar direito. Uma das coisas legais desse time era justamente usar o Stoudemire, um jogador relativamente baixo, como pivô, deixando o time mais veloz. No ano seguinte, com Amar'e machucado, o time foi além e usou Boris Diaw, que tinha sido contratado para ajudar o Nash na armação (absurdos de apenas 4 anos atrás!), como pivô! Era um time baixo, sem um cara de físico imponente e mesmo assim o melhor ataque da NBA.

Depois disso eles conseguiram surpreender ao encaixar com relativo sucesso caras que ninguém nunca apostaria que funcionariam em um sistema rápido, como Grant Hill e Shaquille O'Neal. Transformaram jogadores aleatórios em grandes arremessadores, como Jared Dudley e Channing Frye.

O Suns tem feito isso ano a ano. Sempre aparece uma dificuldade nova e eles vão arranjando as peças de reposição e organizando de maneira criativa, mantendo sempre o time rápido e ofensivo. Em alguns anos mais ofensivo e rápido que outros, mas existe uma base, um padrão. E o legal é que isso tem acontecido desde a chegada do Steve Nash e só ele sobrou daquela época! Já saíram todos os jogadores com exceção do canadense, mudaram de técnico umas três vezes e de General Manager duas. Dá até pra considerar que é o time, e não um ou outro lá dentro, que tem essa identidade. Sem as mesmas proporções, porque no exemplo que vou dar essas coisas estão acontecendo há muito mais tempo, mas me lembra um pouco o Barcelona no futebol. Mudam gerações, times inteiros, técnicos, dirigentes, mas existe uma filosofia básica que quem é contratado deve ter condição de seguir.

A base do Phoenix Suns eu definiria como velocidade, esquema de jogo ofensivo e mismatches.
Como disse antes, uns podem ser mais rápidos que outros, o esquema de jogo pode variar de acordo com as peças, mas todos são focados em fazer muitos pontos antes de pensar em defesa e sempre em velocidade. A exceção pode ter sido aquele time de 2007-08 que tentou virar o Spurs e ser certinho e só deu merda. E todos, com exceção desse mesmo time de metade da temporada 07-08, apelava para os mismatches.

Um mismatch é quando o time usa um jogador com alguma característica física ou técnica diferente do padrão para incomodar um adversário acostumado com o habitual. É colocar um armador alto para abusar dos baixinhos, um ala de força ágil para ganhar da maioria pesadona na velocidade, essas coisas. O Suns já usou Tim Thomas e Channing Frye para fazer pivôs pesadões saírem do garrafão para marcar bolas de três, fez armadores principais serem marcados por caras altos como Grant Hill, Shawn Marion ou Jared Dudley, colocou o ala Boris Diaw como um pivô passador, o mesmo Marion como um ala de força que puxava contra-ataque. E se puxar da memória dá pra achar outras bizarrices do tipo que sempre fazem o jogo contra o Suns ser diferente do normal para os adversários.

Nada mais justo, portanto, do que repôr a peça perdida em Amar'e Stoudemire com um improviso, um mismatch. Foi aí que o Suns enviou o brazuca Leandrinho para o Toronto Raptors em troca de Hedo Turkoglu.

Segundo diversos relatos de gente próxima ao Suns, a idéia é ter o Turkoglu para ele jogar na posição número 4, como um ala de força, por mais bisonho que isso possa parecer. Eles querem usar o time com Steve Nash, Jason Richardson, Grant Hill, Turkoglu e Robin Lopez para depois colocar aquele grupo de reservas que apavorou o Lakers nos playoffs da última temporada.

Turkoglu seria útil, nesse esquema, para enlouquecer os alas de força adversários, que acostumados a marcar gente com o estilo de Tim Duncan, Kevin Garnett e Zach Randolph, que são lentos e jogam perto da cesta, teriam que marcar um cara rápido, que sabe controlar a bola, driblar, passar e arremessar de três. É a velha idéia de colocar um time baixo para obrigar o outro a jogar baixo também, com a diferença que eles não estão acostumados a isso.

Outra idéia dita por lá é que com o Turkoglu em quadra, o Nash irá se desgastar menos. Durante alguns momentos do jogo, em especial quando estiverem fazendo ataques de meia quadra ao invés de transição, o Turkoglu será o armador enquanto o Nash irá se posicionar para fazer outra coisa que sabe muito bem: arremessar. Mas que fique claro, ninguém confirmou que isso vai acontecer, a idéia pode ser jogada no lixo depois de um mês se der errado.

Mas se eu tiver que apostar, acho que vai dar muito certo. Provavelmente não tão certo quanto manter o Amar'e Stoudemire e ter um cara que faça pontos no garrafão (isso vai fazer falta, pode ter certeza), não tão certo a ponto de brigar pelo título, mas o suficiente para fazer com que, de novo, a gente sinta aquela vontade de ver jogos do Suns ao invés dos outros times. Vai ser outro Phoenix Suns estranho, improvisado, criativo e inovador.

E uma coisa legal é que o Suns não perdeu quase nada para conseguir essa revolução tática que pode manter o time na elite do Oeste mesmo depois de perder sua estrela. O Leandrinho é bom, não me entendam mal, mas ele simplesmente não era mais necessário por lá. Até por isso a troca foi boa pra ele também! Com o crescimento alucinante do Goran Dragic, ficou desnecessário usar o Leandrinho como reserva do Nash. E com o Jason Richardson acertando tantos arremessos quanto o Barbosa, e o Dudley marcando bem melhor do que ele, sobravam apenas alguns minutos por jogo para o brasileiro. Mesmo quando ele jogava bem, era por poucos minutos. Ele foi um daqueles casos de bom funcionário que perdeu o emprego depois que ninguém sentiu falta dele nas férias.

No Toronto, Leandrinho provavelmente não vai ser titular, de novo não por falta de talento, mas porque o Raptors, sem esperança de ir longe, vai querer dar o máximo de tempo de jogo possível para a prata da casa e esperança do futuro, DeMar DeRozan. Mesmo assim ele terá mais espaço e menos concorrência lá do que em Phoenix. E tempo regular de quadra é só do que ele precisa para voltar a chamar a atenção da NBA. Ao voltar a fazer o que fazia antes, provavelmente vai conseguir um bom contrato quando virar Free Agent. Já estamos cansados de falar que o Leandrinho tem uma renca de defeitos no seu jogo, principalmente a defesa, mas ele pode muito mais do que fez na temporada passada. Um bom mundial pela seleção brasileira e um recomeço no Raptors pode ser o que ele precisava para voltar aos bons tempos. Mas vamos esperar que ele não fique muito bravo em perder, no Suns estava acostumado a ganhar e nesse ano o Raptors tem tudo pra ser saco de pancadas.

A última contratação do Suns para a temporada foi o Josh Childress, dono de um dos penteados mais legais da última década na NBA e que passou as últimas duas temporadas jogando na Grécia. Vi pouco o Childress jogar nos últimos anos se comparado ao que vi de jogadores da NBA, mas pelo que deu pra acompanhar ele só melhorou nos dois anos jogando na Europa. Childress é o exemplo perfeito para a definição "all-around player". Faz um pouco de tudo e faz tudo bem, deve ser um coringa nesse time do Suns. Pode ser o segundo armador titular se o time precisar de mais defesa, pode ser o ala titular se eles preferirem deixar o Grant Hill como organizador do time reserva ou pode mesmo ser reserva, fazendo o papel de segundo responsável pela armação que o Turkoglu fará no time titular. Foi uma ótima contratação, jogadores completos e inteligentes como o Childress são essenciais em equipes que gostam de inovar em esquemas táticos.

A nota triste da offseason do Suns é que eles decidiram não renovar o contrato do Louis Amundson! Ter Nash, Amundson, Robin Lopez e Childress no mesmo time deixaria o Suns como o time com maior força capilar (parente não muito distante da Força Nominal) desde a seleção da Romênia da Copa de 98, quando todo mundo descoloriu o cabelo ao passar da primeira fase.























Minha aposta para o começo de temporada do Suns é a seguinte rotação:

PG: Steve Nash / Goran Dragic
SG: Jason Richardson / Josh Childress
SF: Grant Hill / Jared Dudley
PF: Hedo Turkoglu / Hakim Warrick
C: Robin Lopez / Channing Frye

Mas atenção para possíveis entradas de Warrick ou Frye caso a experiência usando o Turkoglu como point-forward não dê certo e também com a ameaça do Josh Childress sobre Jason Richardson e Grant Hill, nenhum dos dois são intocáveis no time titular.

Não gosto de dar nota para a offseason dos times como muitos sites americanos fazem, não acho justo. O Suns, por exemplo, já recebeu muitas notas baixas por ter perdido o Amar'e, mas eles ofereceram um contrato enorme pra ele, que simplesmente achou que era a hora de sair e tentar vida nova em Nova York, não dá pra culpar o time por uma atitude que foi totalmente do jogador. Então acho que apesar do time ter tudo para ser pior do que o do ano passado, principalmente por não ter força no garrafão, a offseason foi boa. Dentro das limitações salariais e frente à perda de um Free Agent, se viraram muito bem. Perderam apenas uma escolha de 2ª rodada e Leandrinho para ter os multi-uso Turkoglu e Childress, ótimos negócios.

Como primeiro passo foi muito bom e criativo, mas julgaremos de novo daqui uns meses quando as peças começarem a ser treinadas para formar um time.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A batalha no garrafão

Quando Robin Lopez está indo pro banco, seu cabelo
impede toda a torcida de enxergar o jogo


Todo mundo sabe que a série entre Celtics e Magic desceu privada abaixo. O tal "melhor time dos playoffs" deve perder novamente essa noite e ir embora com um 4 a 0 enfiado na orelha nessa pós-temporada que será conhecida pela História como "os playoffs das varridas" (ou como "os playoffs mais 'bleh' de todos os tempos"). Por sorte, a série entre Lakers e Suns ao menos não vai ser outra varrida, o que deve diminuir um pouco a taxa de suicídios nos próximos dias (se bem que o fim de "Lost" deve ajudar a alavancar a taxa, muita gente estava só esperando a série terminar).

Mas antes de falar sobre a série que ainda resiste e nos dá alguma esperança na humanidade, vou praticar um pouco do meu esporte favorito: falar mal do Dwight Howard. Já comentei em um post detalhado sobre como recebemos o Dwight com alegria na NBA pela falta de pivôs que assolava a liga, sobre ele ser carismático, dominante na defesa, forte pra burro, aberração da natureza, mas que seu time joga pior quando se foca nele no ataque. Só que nessa série contra o Celtics, isso tem ficado mais óbvio do que nunca e gera um paradoxo terrível: o Magic só vai vencer o Celtics se tiver um jogo de garrafão, mas o time é tremendamente pior quando o jogo é focado no Dwight embaixo da cesta. Ou seja, funhé!

O engraçado é que o mesmo problema que assola Dwight Howard nessa série assolou também Shaquille O'Neal quando o Cavs enfrentou o Celtics pouco tempo atrás. No caso do Cavs, o Celtics se saiu bem melhor em quadra nas partidas em que Shaq foi deixado livre para receber a bola no garrafão. Isso tirava a bola das mãos de LeBron, limitava o jogo de perímetro do Cavs (que é um dos pontos fortes da equipe), permitia que a defesa amontoasse embaixo do aro, se aproveitava da força bruta de Kendrick Perkins e, principalmente, diminuía o ritmo do jogo. O Shaq ficava de costas para a cesta, batendo bola, tentando achar um espaço, interrompendo a movimentação ofensiva do resto da equipe, e aí sofria uma falta. O jogo fica paralizado, Shaq erra a maioria dos lances livres, o Cavs não deslancha no placar, mas na posse de bola seguinte lá está o Shaq acessível de novo e aí tentam acioná-lo. Mesmo que o pivô acerte algumas cestas, o Celtics sempre saiu no lucro tornando o jogo ofensivo do Cavs lento e estagnado, sem dar ritmo a nenhum dos pontuadores que poderiam fazer a diferença na série. Foi-se o tempo em que, se Shaq recebesse todas as bolas do jogo, pontuaria em todas as ocasiões e ainda tiraria todo o garrafão adversário com excesso de faltas. Agora cada posse de bola dele no ataque é um esforço, uma incógnita, algo que ao invés de ser uma bola de segurança passa a ser uma jogada arriscada.

Em parte, isso é culpa das novas regras da NBA. Faltas de ataque são marcadas com maior frequência, o contato no garrafão é cada vez mais restrito e as jogadas se iniciam mais longe do aro. Mas o maior mérito é da defesa do Celtics e de Perkins, que sabe complicar as coisas no garrafão e se beneficiar desse jogo lento e indeciso do adversário. O Dwight Howard passa pelo mesmo sufoco. Já vimos que o rapaz tem bons movimentos no garrafão, repertório de ganchos e até arremessos usando a tabela, mas nenhum deles é confiável e dá pra ver na cara do Dwight que ele odeia ter que usá-los. O pivô simplesmente não se sente à vontade, seu jogo não é esse. Se dominasse ofensivamente e atacasse Perkins com naturalidade, o Magic já teria destruído o Celtics. Mas, ao contrário, quando recebe a bola um pouco longe do garrafão (coisa que o Perkins e Glen Davis sempre garantem que aconteça), Dwight tem receio de atacar a cesta, seus movimentos ofensivos costumam ser na direção contrária ao aro, fugindo do contato. Às vezes os arremessos caem, mas como no caso do Shaq, vale a aposta para o Celtics: o ritmo de jogo cai, o Magic deixa de jogar em velocidade no contra-ataque, os arremessadores de três deixam de ser acionados, e quando é preciso cometer faltas o Dwight não converte os lances livres. Num mundo ideal para o Celtics, a bola até mesmo ficaria nas mãos do Dwight em todas as posses de bola.

Se vocês já viram um jogador de garrafão dominante ser marcado (Yao Ming, Brook Lopez), já viram a tática "sanduíche" de defesa: um jogador marca o pivô pelas costas, impedindo que se aproxime da cesta, e outro marca o pivô pela frente, tentando evitar passes para esse jogador. Sempre que essa tática é utilizada, o pivô marcado é anulado, mas o resto do time tem mutíssimo espaço para jogar. No caso do Magic, é justamente o contrário: Dwight recebe a marcação mais comum possível porque para o Celtics é melhor que ele receba a bola ao invés de ser anulado. Um pivô que passa bem a bola cria comoção no garrafão e então manda a bola para o perímetro, onde encontra um arremessador livre. Mas o Dwight não passa bem a bola, perde o controle dela muito mais do que completa um passe, então só abre espaço para os arremessos de fora quando domina o jogo no ataque. Contra o Perkins, tentando ganchos longe da cesta, ele nunca conseguirá fazer isso. E os arremessadores do Magic, desesperados com a marcação de perímetro do Celtics, acionam Howard em vão - até ver que só dá merda e pararem de colocar a bola em suas mãos. Por mais bizarro que possa parecer, Cavs teria se saído melhor sem Shaq e Magic se sairia melhor sem Dwight. Um simples jogador de garrafão que ataque a cesta faria mais estrago nessa defesa do Celtics. Tirando aquilo que o Dwight traz na quadra defensiva, Gortat é mais útil para o time.

O que nos leva à série minimamente interessante das Finais: Lakers e Suns. Depois de tomar duas surras, o Suns conseguiu resolver seus problemas de garrafão. No ataque, a solução foi justamente o que Shaq e Dwight não conseguem fazer: atacar o aro. Não adianta colocar a bola nas mãos do Amar'e Stoudemire já dentro do garrafão, embaixo da cesta, pra ele subir e converter. É burrada. O garrafão do Lakers é grande demais, Amar'e é muito menor, e o Suns fica tentando arremessar de fora. O truque foi deixar Amar'e receber a bola fora do garrafão, ou então em movimento em direção ao garrafão, e atacar a cesta. Ele é bom nisso, em jogar em movimento, sofrer o contato e tentar converter a cesta. Com 5 minutos de jogo e esse plano acontecendo, Amar'e já havia sofrido duas faltas de Bynum (que foi para o banco), uma de Gasol e uma de Odom. Ainda no primeiro quarto, tirou Odom com duas faltas. No resto da partida, continuou limitando os minutos do garrafão do Lakers ao cavar faltas a ponto do Bynum praticamente não ter participado do jogo.

Fora uns dois ou três leitores birutas do Bola Presa reclamando no nosso Twitter, não encontrei uma única alma viva capaz de reclamar da arbitragem no jogo de ontem. Tem que ser muito fanático pelo Lakers ou ter comido muito cocô pra achar que houve algo de bizarro com os juízes. O que aconteceu foi que o Suns entrou em quadra com um plano muito específico de atacar a cesta ao invés de estabelecer um jogo já dentro do garrafão. Até mesmo o Robin Lopez, que era ponto crucial para essa série do Suns na defesa, recebeu passes em movimento para terminar com ganchos na corrida ou com arremessos de meia distância. Em nenhum momento recebeu a bola para jogar de costas pra cesta, e é aí que o Suns resolveu o jogo.

Aliás, o Robin Lopez foi escolhido com a 15a escolha do draft pelo Suns, enquanto seu irmão gêmeo Brook Lopez foi a 10a escolha pelo Nets. Na época comentou-se que, pelas limitações ofensivas do Robin (nome de jogador secundário), ele havia sido escolhido cedo demais. No entanto, o Nets comentou pouco tempo depois que, em caso do Brook Lopez ter sido escolhido antes da décima escolha, a equipe teria draftado seu irmão Robin sem pensar duas vezes. E com razão: ainda na temporada regular deu pra perceber como seu jogo ofensivo pode não ter um arsenal enorme, mas é simples, eficiente e refinado. Eu sei que ensinaram 40 movimentos diferentes para o Dwight nos últimos anos, já vi ele usar vários, mas de que adianta se nenhum deles é natural para o pivô? Se houvesse apenas um único movimento em que ele tivesse segurança, seu jogo seria revolucionado.

Voltando ao Suns e Lakers, a batalha do garrafão foi vencida pelo time de Phoenix também na defesa, no que podemos chamar de "a versão reumatismo da defesa do Thunder". Já comentamos como o Thunder deu uma aula sobre como defender o Lakers mesmo tendo um garrafão baixo, basicamente dobrando em todos os jogadores de garrafão, fechando o caminho para o aro, e marcando o perímetro apenas na correria, deixando a equipe de Los Angeles arremessar. Mas como repetir a fórmula num time velho demais pra ficar correndo para o perímetro ou pra ficar dobrando a marcação? A resposta favorita da terceira idade é a defesa por zona.

O que o Suns fez foi uma defesa 2-3, com dois jogadores marcando o perímetro e três jogadores marcando uma linha no garrafão. Como o Lakers joga em geral com três jogadores no perímetro (Fisher, Kobe e Artest, por exemplo) fica sempre alguém livre para arremessar. A defesa então fica girando, forçando a bola a ter que ser mandada para o lado oposto da quadra para o arremesso livre, enquanto o garrafão vai fazendo a cobertura. Essa defesa interrompe as linhas de passe para o garrafão, faz com que os pivôs sejam pouco acionados, mas é completamente destruída por bons arremessadores e por alguém que ataque o aro vindo do perímetro. O mais engraçado foi ver a defesa do Suns (que se confundiu trocentas vezes com essa marcação por zona na hora de defender a linha de três pontos) uma hora simplesmente parar de rodar para deixar o Artest continuamente livre. Se estamos confusos e somos uma merda nisso, então vamos simplificar e deixar o Artest arremessar da zona morta, tá, pessoal? Nem preciso dizer que funcionou perfeitamente.

Dentro do garrafão não deu sempre certo, o Amar'e é muito ruim defendendo e o Channing Frye é uma aberração da natureza, parece que ele até ajuda quem está atacando, só falta fazer pézinho para alguém enterrar. Mas a zona inibe os passes para dentro e comete pouquíssimas faltas perto do aro (motivo pelo qual o Lakers quase não cobrou lances livres, não uma conspiração bizarra dos juízes da NBA). Em geral, marcar zona 2-3 significa que o teu perímetro tem que correr bastante e acaba cometendo mais faltas, enquanto o garrafão praticamente não tem contato físico. Mas como o perímetro do Suns não sabe defender nada (Nash, Leandrinho, J-Rich), ninguém cometeu falta nenhuma e o Lakers não soube como lidar com isso. O Kobe atacou a zona de forma muito agressiva e inteligente (ele tem um cérebro!), mas quando passou pro lado viu merda acontecendo. A versão "tricô e bingo" da defesa do Thunder foi espetacular, e um time que havia sido engolido no garrafão nos jogos anteriores deu o troco. Ah, finalmente, uma série em que os times aprendem e se modificam ao longo dos jogos ao invés de uma varrida ridícula.

O único problema é que o Lakers vai ter tempo de estudar a partida e desenhar na prancheta como se livrar da zona. Os arremessos de fora precisam cair e Artest tem que voltar a treinar os arremessos, como fez contra o Jazz e acabou decidindo a série. O Fisher teve uma ótima partida ofensiva, especialmente nos arremessos, e tem que repetir a dose. Só que alguém tem que pegar o Nash, não dá pro Fisher ficar fazendo os dois trabalhos. Por enquanto o Fisher tá fazendo um trabalho impecável em cima do canadense, cheio de contatos físicos, tapinhas e muito estudo dos vídeos do Bowen marcando o armador do Suns. Ontem, teve até uma cabeçada do Fisher quando o jogo já estava decidido que acabou quebrando o nariz do armador. A cabeçada foi muito sem querer, mas vale a pena dar uma olhada no vídeo só pela cara do Grant Hill quando olhou o nariz torto do Nash, e depois tem o canadense arrumando o nariz com a mão a sangue frio, parecia aquela cena do "Máquina Mortífera" em que o maluco coloca o ombro de volta pro lugar batendo com ele numa parede.


Aí quando eu digo que num jogo já decidido ninguém tem que ficar cometendo falta, descendo o cacete ou dando cabeçada, que basta derrubar o rei tipo no xadrez, pessoal me acha emo. Seja como for, o Nash é o maior ímã de porrada do mundo. Será que odeiam tanto o coitado assim ou ele só é muito azarado? Mal sarou de um olho roxo no maior estilo "Rocky, o lutador" e agora tem um nariz arrebentado. O Nash precisa de uma carreira mais segura, como boxeador ou caçador de jacarés. Se a gente lembrar que o Leandrinho abriu a cabeça e sangrou pra burro um jogo atrás, e que o Amar'e joga com óculos depois de descolar a retina tomando dedadas no olho em dois jogos consecutivos e depois num treino do Suns, podemos sentir que o Universo pune muito quem não joga na defesa. Quem sabe essa marcação por zona migué que o Suns faz (a zona é boa, a defesa do Suns nunca é) deixa o Universo mais contente e pelo menos permite que essa série chegue a um Jogo 7. Quando, então, Nash terá um derrame cerebral depois de ser atingido por um meteoro.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Vitória sem vingança

Nash imita o Cristo Redentor


Para quem não é fã do Spurs, os últimos 10 anos não foram tempos muito divertidos. Desde 2003, parece que o Spurs não fez outra coisa além de chutar o traseiro do Phoenix Suns. Quanto mais a NBA ficava defensiva, quanto mais os times se transformavam em enormes retrancas, quanto mais os times pareciam todos iguais tentando arranjar peças similares umas às outras, mais o Suns se levantava como uma alternativa viável, um basquete diferente, uma mentalidade quase insana, mas que também era capaz de dar resultado. Com apenas um único problema: não era capaz de dar resultado coisa nenhuma. Porque o Spurs não deixava.

Como acontece com todo projeto político, para provar que seu plano dava resultado, o Suns teve que - funhé! - abandonar seu plano. Primeiro foi a contratação de Shaquille O'Neal, dando ao Suns um jogo de meia quadra e um cara para trombar com Tim Duncan, depois foi a mudança de técnico para tentar se focar na defesa. Não deu certo.

Os erros foram se acumulando, o tempo foi passando, e a gente desistiu de um monte de coisas: a Alinne Moraes não vai ficar pelada, eu não vou ganhar na loteria, e o Suns não vai ganhar do Spurs. Como surpresas, no máximo esperamos um pneu furado pela manhã que nos poupe de chegar no trabalho, ou um incêndio que acabe com o escritório, talvez um Jogo 7 nos playoffs entre o Spurs e o Suns e olhe lá. Mas não conseguimos acreditar na vitória mesmo quando ela era mais provável.

Levou anos para o Spurs finalmente não ter as peças necessárias para colocar em vigor o esquema tático absurdamente rígido do técnico Gregg Popovich. Faltava um defensor no perímetro, um arremessador de três da zona morta, arremessadores experientes que gostem de arremessar com os pés parados, um biruta de posto no garrafão pra fazer faltas duras no lugar do Duncan. Levou anos para o Spurs sem as engrenagens certas ainda contar com lesões de Ginóbili e Tony Parker, tirando da equipe qualquer esperança de ritmo de jogo, algo tão essencial para um time regular como esse. Durante as últimas semanas recuperaram todos os jogadores de contusão, conquistaram algum ritmo, conseguiram descobrir em George Hill alguém para defender e arremessar da zona morta. Mas ainda ficaram claros os buracos no elenco que Popovich não podia tapar sem jogar seu plano de jogo pela privada.

Levou anos para o Spurs ser um time de defesa mais capenga e que, portanto, depende mais do ataque e joga melhor em velocidade. Levou anos para o Suns ser um time com melhores reboteiros, que joga melhor num ataque de meia quadra, defende melhor e corre menos. Com o Spurs correndo mais, querendo usar um time mais rápido e mais baixo (Parker, Ginóbili e George Hill) e o Suns correndo menos, tendo mais opções no jogo individual (Jason Richardson, Grant Hill), não dava nem pra saber qual dos dois times jogava mais na correria do que o outro. E mesmo assim a gente achava que o Suns iria ganhar sem sequer confiar nas nossas próprias palavras. No fundo aquela certeza de que o Spurs ia dar um jeito, como sempre deu. O Ginóbili iria arrumar um modo de ganhar os jogos no final se tacando no chão argentinamente.

Os quatro jogos da série viram Grant Hill sair contundido para voltar minutos depois como se nada tivesse acontecido, e Steve Nash sair sangrando de quadra para voltar minutos depois - com 6 pontos tomados na cabeça e um olho a menos na cara - como se nada tivesse acontecido. Ué, os dois não deveriam ter morrido misteriosamente enquanto alguém aleatório do Spurs (eu chutava o Matt Bonner) marcaria 50 pontos inesperados? O Nash não deveria morrer em quadra vítima do ataque de um navio bucaneiro por estar jogando caolho, fantasiado de pirata?

Tudo deu certo para o Suns e bizarramente errado para o Spurs. Foi um encontro muito diferente daquele que ficamos acostumados, com um Spurs diferente e baleado que se encaixou muito pior em um Suns diferente e reforçado em aspectos mais diversos do que só o campo ofensivo. É até difícil acreditar que, mais do que vencer o Spurs, o Suns varreu a equipe de San Antonio com um estrondoso 4 a 0 na série. Fico feliz de não ter sido com Shaquille O'Neal, às custas do projeto de um Suns ofensivo, se vendendo apenas para se livrar do rival. Mas não há como não ficar com um pingo de tristeza ao ver as consessões que o Suns fez para sair vitorioso dessa série, jogando com um pivô, segurando a bola, pegando rebotes ofensivos. Há muito do Suns de resistência, do Suns rebelde e subversivo que aprendemos a amar, como um Nash vovô jogando muito, Amar'e pontuando mas incapaz de defender, um pivô chamado Channing Frye que só arremessa de três pontos, um banco de reservas que corre como louco (até mais do que o time titular). Mas essa vitória não muda nem compensa as derrotas anteriores - agora é tarde.

Assisti emocionado ao Duncan se aproximar de Nash, após o fim da partida, e pedir desculpas pelo talho que abriu na cabeça do canadense. Duncan estava sorridente, sinal claro do apocalipse. Depois, Duncan foi dar tapinhas no ombro do Amar'e e dizer que agora é a hora do garoto. Parker abraçou o Nash com nobre admiração, depois de ter dito um dia antes que é um grande fã do armador canadense e que aprendeu muito assistindo a ele jogar durante os últimos anos. Até o Ginóbili conseguiu abraçar Grant Hill sem se jogar no chão e pedir uma falta. Esse time do Spurs é grandioso, saiu de quadra com um sorriso no rosto, consciente de que perde apenas porque a máquina não tem mais as mesmas peças. Simplesmente chegou a hora do Suns de ir em frente. É claro que a equipe de Phoenix respira aliviada e se sente parcialmente vingada, mas pegou um adversário combalido e o enfrentou depois de anos adulterando seu elenco. Legal, estou feliz pra burro e torço para o Suns coroar essa vitória com um anel de campeão depois. Mas ficamos longe de ter aquela vingança, aquela vontade de sangue que as séries passadas tiveram. Não apenas estamos fadados a nunca ver um Jogo 7 entre Suns e Spurs, como também só vimos o Suns vencer frente a esse Spurs sem muitas chances, quase desistente, dócil, cheio de abracinhos no final. Bowen e Horry não abraçariam ninguém, a não ser para bater carteiras - mas felizmente o basquete os engoliu faz um tempo.

O San Antonio Spurs é como chocolate amargo, parece horrível perto do docinho gostoso que estamos acostumados desde bebês tomando Ovomaltine. Mas aos poucos vamos acostumando e tomando gosto pela coisa. Com os anos aprendi a apreciar mais e mais o basquete do Spurs, admirar Tim Duncan e bater palmas para o jogo subversivo de Tony Parker e Ginóbili que, muito aos poucos, foram dobrando o esquema tático de Popovich. Mas esse não é o mesmo Spurs que chegou numa semi-final de conferência passando bolas decisivas para o Richard Jefferson errar seus arremessos livres. Dá pra imaginar o Suns não tendo que marcar um dos arremessadores do Spurs? Culpa do Spurs que apostou as fichas no cara errado, mérito do Suns que fez as trocas certas e soube reforçar fraquezas do time sem colecionar grandes defensores.

Nem acredito que vi o Suns passar do Spurs, resolvi até postar rápido antes que a NBA resolva cancelar o resultado por doping ou alguma loucura do tipo, haverá tempo de se falar melhor dessa partida mais pra frente, enquanto esperamos o vencedor de Lakers e Jazz. Mas uma parte de mim percebe claramente que não há uma vingança acontecendo aqui: um Suns diferente venceu um Spurs mais diferente ainda. Em quatro partidas fáceis, quase sem graça. Todo aquele desgosto de ver o Suns experimento de cientista maluco ser eliminado por um Spurs brutal e violento continuará para sempre entalado na garganta. O Nash sangrou por uma cotovelada sem querer de um Duncan que até pediu desculpas constrangido, é uma outra realidade. A vitória dessa noite vem com alegria para o Suns e com aceitação para o Spurs, que sabe de sua necessidade de, agora, reconstruir. Mas não há espaço para alivio na equipe de Phoenix. Os tempos são outros e o Spurs era uma equipe babinha: pela frente, deve vir Lakers. Não vai adiantar nada se livrar de uma zica que durou uma década para ser eliminado de novo. Se não for campeão, esse Suns vai desmontar e se vender de novo, cada vez mais longe do projeto inicial. Quem será que contratarão, na temporada que vem, pensando apenas em parar Kobe e Gasol?

sábado, 8 de maio de 2010

Problemas de memória

- Super Gêmeos, ativar! Forma de um armador canadense que não pula!
- Forma de um armador esloveno que marca 21 pontos no quarto período!

É fácil, na empolgação do momento, esquecer algumas coisas. Na vida real, isso em geral quer dizer alguns filhos indesejados ou uma nudez a mais no YouTube. No mundo do esporte, em geral, significa que torcendo, vibrando, vendo história sendo feita, apenas deixamos de fazer sentido. As coisas numa quadra de basquete mudam rapidamente de um momento para o outro, e em meio à torcida dizemos coisas esquecendo ter afirmado outras diferentes minutos atrás. Para os técnicos e jogadores, o calor do jogo leva a esquecimentos de plano de jogo, ou até mesmo a um jogador ignorado no planejamanto da partida que volta pra lhe morder a bunda. Por isso, vamos tentar refrescar a memória de todo mundo e tentar colocar um pouco de critério e puxão de orelha na amnésia de torcedores e jogadores das partidas de ontem.

1) Lesão ou não-lesão

Vamos combinar que o LeBron ou está lesionado ou não está? E que a lesão ou incomoda ou não incomoda em nada? Não dá pra ele estar morrendo de dor num segundo, incapaz de mover o braço, se recuperar com o fator de cura do Wolverine em poucos minutos, e depois voltar a colocar a culpa na lesão de novo. Ou ele é mutante ou ele não é!

No primeiro jogo contra o Celtics, LeBron começou o jogo praticamente dentro do garrafão, tentando jogar de costas para a cesta, e distribuindo ganchos e arremessos com a mão esquerda, do cotovelo saudável. Então todo mundo começou um discurso sobre como a lesão estava incomodando LeBron e ele estava tendo que usar o outro braço. Mas aí ele começou a atacar a cesta, e a acertar bolas de três pontos, tudo com o braço direito, e o papo foi sobre como a lesão parecia não estar modificando seu jogo. Aí ele começou a se focar na defesa porque o resto do time estava destruindo no ataque, e o papo foi sobre como a lesão estava deixando LeBron mais passivo no ataque, para poupar o braço. Caso de memória mais curta do que eleitor brasileiro. O cotovelo nem deveria ser assunto nesses playoffs, mas o pessoal consegue trazê-lo à tona quer o LeBron jogue bem, quer ele jogue mal.

Como LeBron terminou a partida com 35 pontos, o consenso então foi de que a lesão incomodava (parece deixar o cotovelo dormente às vezes, segundo o próprio LeBron) mas que não chegava a alterar seu jogo. Foi aí que aconteceu o Jogo 2 da série, o Celtics saiu de quadra vencedor, o LeBron teve trocentos problemas ofensivos na partida, e começaram a dizer que a lesão era séria, que jogando baleado o Cavs não ia ter chances, que times deveriam levar o cotovelo do LeBron em consideração na hora de assinar seu próximo contrato. Alguns disseram que o cotovelo do LeBron causou a quebra das finanças na Grécia.

Esse caso de memória curta, além de não permitir que LeBron pague pelos seus erros, tirou do Celtics todos os seus méritos. O Jogo 2 foi vencido pelo time de Boston graças a uma defesa impecável, uma estratégia defensiva incrível em cima de LeBron, e uma série de outros fatores que comentaremos abaixo (porque também são casos diversos de amnésia). Por enquanto, deixemos bem claro: marcando por zona, colocando sempre um jogador no caminho de LeBron enquanto outro força a marcação, forçando o ala do Cavs a arremessar quando ele queria infiltrar, colapsando a defesa para dentro do garrafão e forçando o resto do Cavs a ter a bola nas mãos, LeBron foi momentaneamente vencido. Por nenhum momento sua passividade pareceu fruto da lesão, foi apenas mérito de uma defesa agressiva que cansou de colidir com o LeBron no garrafão, descer a mão e lhe forçar a cobrar lances livres. É super legal quando um time consegue ler o outro e fazer alterações significativas (e vencedoras) durante uma série de playoffs, então por que perder esse gostinho colocando a culpa numa junta?

2) O Garnett sabe jogar no garrafão

Dessa aí eu nem me lembrava. Antigamente, no Wolves, o Garnett tinha umas noites ofensivas absurdas em que atacava a cesta com uma série de movimentos ultra-técnicos, arremessava de dentro do garrafão com giros iniciados de costas para o aro, e cobrava lances livres por forçar a defesa a tentar alcançar seus braços compridos demais nos arremessos ou nas bandejas acrobáticas. Mas aos poucos ele foi se poupando, se afastando do garrafão, e no Celtics pegou aquele vírus terrível que causa fobia de garrafão e que contagiou o Rasheed Wallace tão cedo na carreira (tadinho, era tão jovem!). No primeiro jogo contra o Cavs, o Garnett não fez nada além de arremessar de longe, passivamente no perímetro, e não cobrou um mísero lance livre sequer. Mas no segundo jogo ele resolveu chegar perto do aro e destruiu a estratégia defensiva do Cavs, que tinha esquecido que ele sabia jogar perto da cesta. Tudo porque, quando o Garnett está próximo ao aro, fica quase impossível usar o Jamison em quadra. Ah, bons tempos aqueles em que Garnett e Duncan eram colocados na mesma frase, antes do Garnett beber sangue de crianças num cálice e ter pavor de dar uma enterrada.

3) O Antawn Jamison fede na defesa

É fácil esquecer que um jogador é um merda na defesa quando o time inteiro não faz bulhufas para defender. Por exemplo: me dê o nome do pior defensor do Warriors. Impossível, não é mesmo? O negócio por lá é tão ruim que a sensação é de que ninguém está tentando defender, então não dá pra saber quem é péssimo de verdade. Por isso é que, quando o Suns começou a defender melhor, ficaram tão óbvias as deficiências defensivas do Amar'e, que antes disso disfarçava bem.

No Wizards de defesa ridícula, o Jamison parecia quebrar um galho. Na defesa bem montada e forte pra burro do Cavs, fica muito claro que ele não sabe defender. Aliás, "não sabe defender" seria como dizer que a Carla Perez "não sabe resolver questões de física quântica", quando ela na verdade é uma anta completa. Ou seja, o Jamison é um dos piores defensores de toda a NBA. No perímetro ele é horrível, lento, frouxo. Mas no garrafão é que ele mostra quão funda pode ser a privada. Marcando Garnett próximo ao aro, tomou três cestas seguidas todas do mesmo jeito: passe do Rajon Rondo por cima dele, cesta fácil do Garnett de mão direita, e nenhum único contato físico entre eles. Já vi bem mais contato do que isso em missas católicas por aí. Ridículo o técnico Mike Brown (que é tão bom técnico quanto o Jamison é defensor) não ter colocado mais o Varejão em quadra, mas ele provavelmente também não lembrou que o brasileiro que aluga o cabelo como casa de verão para anões figurou dentre os times de melhores defensores da NBA.

4) O Mo Williams é um arremessador biruta

Até a mãe dele sabe disso, mas é fácil de esquecer quando o LeBron passa tanto tempo com a bola nas mãos. No primeiro jogo, quando LeBron sentou no banco, Mo Williams saiu do armário e arremessou como um louco, marcando 10 pontos seguidos e saindo de quadra com 20, numa vitória fácil em que LeBron se deu ao luxo de se focar na defesa. Quando dá certo, parece que foi premeditado, que estava tudo controlado. Mas no segundo jogo, em que o LeBron não conseguia infiltrar e colocou a bola nas mãos dos companheiros, o Mo Williams arremessou sem critério. E quanto mais frustrado ele ficava pelas bolas não estarem caindo, mais ele queria arremessar não importava que tipo de defesa estivesse em cima dele. Só acertou um dos nove arremessos que deu. Plano para ganhar do Cavs? Lembrar que o Mo Williams é maluco, impedir o LeBron de infiltrar e deixar o Mo frustrado com a bola nas mãos. Ele foi contratado para manter o poder ofensivo quando o LeBron vai pro banco, e ficar controlado quando é o LeBron quem arma o jogo no Cavs. Para essa função, tem sido ótimo. Mas quanto mais a bola fica em suas mãos, e quanto mais forte for a defesa, maior a chance do Mo Williams virar o JR Smith e arremessar até a mãe (enquanto eu escrevia isso, o JR Smith arremessou meu mouse no lixo).

5) O LeBron sabe arremessar

Existem três modos de jogar contra LeBron James. O primeiro é marcá-lo no mano a mano e então assistir a ele enterrando na sua cabeça o jogo inteiro. O segundo modo é marcá-lo no mano a mano mas usar a tática "sanduíche", deixando outro jogador no seu caminho, tentando esmagar LeBron quando ele está entrando no garrafão - e, portanto, lhe dando espaço para arremessar de fora. E o terceiro modo é dobrar a marcação nele no primeiro instante em que ele toca na bola, obrigando uma reação muito rápida ou, com mais frequência porque o LeBron é menos fominha do que se imagina, um passe para outro companheiro.

Do mesmo modo que uma hora a lesão incomoda, na outra todo mundo diz que a lesão não muda nada, a capacidade de arremesso do LeBron varia, na opinião das pessoas, mais do que humor de mulher com TPM. Tem horas em que dizem que ele é só físico, que é só deixar arremessar, tem horas em que ele é um baita arremessador e o adversário é burro de lhe dar espaço. No Jogo 2, criticaram sua falta de arremesso e passividade no ataque, para no Jogo 3 louvar sua distância no arremesso. Amnésia indesculpável, porque depois de tantos anos já deveríamos ter aprendido que o LeBron pode arremessar - se ele quiser. Sabendo da postura defensiva do Celtics, que é de marcá-lo no homem-a-homem mas bloquear seu caminho para a cesta, LeBron chegou em quadra decidido a arremessar de longe. A defesa do Celtics pirou, começou a sair do garrafão para perseguí-lo, mas aí abriu caminho para a cesta e ele infiltrou. LeBron venceu o Celtics em pontos sozinho no primeiro quarto, enquanto a equipe de Boston esquecia de usar Garnett contra Jamison, e o resto do time do Cavs, não tendo que passar muito tempo com a bola em mãos e enfrentando uma defesa focada em LeBron, podia pontuar sem maiores dificuldades. Não houve chance para o Celtics em nenhum momento da partida, e o LeBron só colocou os pés em quadra no quarto período por mera formalidade. Nem precisava.

O Celtics mostrou que ainda sabem defender de vez em quando, que a velharada ainda tem energia, que eles sabem manter o LeBron longe da cesta, que dá pra frustrar o ataque dos outros jogadores do Cavs e acabar com o Jamison quando ele tenta defender. Mas é essencial para o time começar forte, abrir uma vantagem grande depois do intervalo e segurar o placar no quarto período. Quando o LeBron está frustrado no final do jogo e o resto do time tenta assumir, pode ter certeza de que vai dar merda. Perdendo o jogo logo de cara, ainda no primeiro quarto, é sinal de que nem por um segundo o Boston vai ter chances na partida. Se eles lembrarem que o LeBron sabe arremessar, e que o Mo Williams é meio biruta, restará uma última alternativa: dobrar a marcação no LeBron sempre, o tempo todo, desde a primeira posse de bola, ainda que ele esteja no meio da quadra, ou na linha de três pontos. Obrigue-o a passar a bola, deixe Mo Williams decidir o jogo e se frustrar quando os arremessos não caem. O Celtics tem chances, mas é preciso lembrar que eles estão enfrentando um adversário diferente, que pode acabar com o jogo no primeiro quarto, não dá pra ir pegando o jeito no tranco e se recuperar no finalzinho.

6) Escolhas velhas de draft

Essa foi a amnésia da outra partida da noite, entre Spurs e Suns. Todo mundo que leu o post do Denis sobre a rivalidade entre as duas equipes e se lembra dos últimos confrontos sabe que o Nash nunca teve reserva. Chegava exausto aos playoffs, era marcado duramente pelo Bruce Bowen e ficava com a língua de fora. Era triste vê-lo descansando uns poucos minutos na lateral, deitado no chão para aliviar a dor nas costas e coberto com toalhas e casacos para mantê-lo aquecido, já que voltaria logo para a quadra. A defesa do Spurs era fortíssima, Nash tinha que suar as pitangas, e eles marcavam como ninguém o pick-and-roll entre Nash e Amar'e, usando jogadores grandes e mercenários para encher o saco e descer a mão no pivô do Suns.

Aos poucos o Suns foi tentando dar um jeito de conseguir resolver esses problemas. O Leandrinho sempre rendeu muito menos quando jogava de armador no lugar do Nash, e aos poucos foi perdendo esse papel. Até que o Suns se apaixonou por Goran Dragic, o esloveno. Treinaram com o rapaz antes do draft e, sabendo que nenhum time tinha interesse por ele (tem aquela história de que armadores estrangeiros costumam ter fama de levar muito tempo para pegar o jeito, até por causa da língua), foram atrás de uma escolha de segunda rodada por ele. Quem topou a brincadeira foi o Spurs, que draftou o Dragic e mandou o armador para o Suns em troca de uma outra escolha de segunda rodada do draft que, acho, nunca nem jogou na NBA.

Vi muito o Dragic jogar nos últimos anos, e pra mim sempre fez sentido o diagnóstico inicial do Suns: ele é um clone do Steve Nash. Branco, mesmo tamanho, rápido, péssimo defensor, arremesso preciso e com enorme arco, uso das duas mãos perto do aro, inteligente. Mas ele sempre teve certo medo de garrafão e uma covardia geral em seu jogo que sempre o levou a passar a bola para o lado. Quando Nash sentava e o Dragic assumia, era como se o time mudasse seu plano de jogo e parasse de correr para, ao invés, isolar jogadores em jogadas individuais. Ainda assim, sempre entendi que o Dragic era um projeto para o futuro, quando o Suns cansasse de perder e se livrasse do Nash para começar o time de novo do zero. Fiz questão de ter o armador esloveno no meu time de fantasy, por exemplo, para assumir a armação do meu time no futuro.

Mas o tempo passa depressa: agora a defesa do Spurs não é mais forte o bastante para parar todas as armas do Suns. O Bowen não está lá para torrar o saco do Nash. E o melhor marcador do Nash nesse time, George Hill, faz com que o time titular do Spurs seja baixo. Por isso, o Suns pode jogar com um time baixo também e dominar nos rebotes, por ter contratado nos últimos anos alas e armadores muito bons em rebote, como Jason Richardson e Jared Dudley. Grant Hill e Jason Richardson jogam melhor no basquete de meia quadra, que sempre foi o fraco do Suns. E agora Nash tem um reserva e pode passar mais do que 10 segundos fora de um jogo.

Nas séries entre Spurs e Suns nos últimos anos, quando parecia que tudo ia dar errado para o time de San Antonio, aparecia algum jogador aleatório tendo uma partida espetacular: Speedy Claxton (que uma vez assumiu o jogo quando o Parker teve dor de barriga), Brent Barry, Stephen Jackson. Agora, sinal de novos tempos, foi justamente o contrário: jogadores aleatórios do Suns mudaram o jogo com partidas espetaculares. O Suns conseguiu empatar no quarto período um jogo dominado pelo Spurs desde o começo, até que o Nash teve que sentar e Dragic e Leandrinho assumiram a armação. O técnico do Suns, Alvin Gentry, só mandava o Dragic ser agressivo em quadra. E ele foi, com 21 pontos no quarto período, bolas certeiras de três, infiltrações e dribles de corpo no garrafão (os famosos "olé!"), e o Nash gargalhando sentado no chão fora de quadra. A princípio o Nash estava se mantendo aquecido, depois foi se alongando com mais moderação, depois desencanou de vez e foi só batendo palmas. Percebeu que não ia precisar voltar pra quadra. O técnico do Suns mal conseguia conter o sorriso ao olhar para o Dragic em quadra. Os dois ficaram de boa, sabendo que o Jogo 3 estava no papo. O Dragic, com a ajuda de uma boa atuação de Leandrinho no final do jogo, ganhou sozinho.

O mais engraçado? Leandrinho e Dragic foram draftados pelo Spurs e mandados para o Suns. Esqueceu deles, Popovich? Não viu o Dragic jogar nessa temporada? Esqueceu que o Leandrinho é mais rápido do que todos os seus jogadores de perímetro? E foi assim que a série foi pro saco. Nenhum time jamais voltou de um 3-0 para ganhar uma série de playoff. Numa série contra o Spurs a gente nunca duvida de nada, mas não vai dar. O universo só estava esperando o Nash ter um reserva. E o Spurs se esqueceu dele. Foi uma atuação maravilhosa, memorável, coisa de quem não percebeu que era playoff contra o Spurs. Já tinha visto boas atuações do esloveno mas nunca esse grau de agressividade, tentando pontuar em todas as bolas. Boa parte do mérito vai para a transição ofensiva do Suns, que colocou constantemente Nash sendo marcado pelo Duncan. O armador canadense fez questão de pontuar (ou ao menos tentar) todas as vezes em que isso aconteceu, e o Dragic apenas seguiu o exemplo, arremessando em cima do Duncan e tentando aumentar o placar em todas as posses de bola. Esfriou um pouquinho depois que errou o primeiro arremesso do quarto, mas a atitude de atacar ficou mais ou menos intacta. Quando o Nash voltou pra quadra só pra participar da festinha, o Dragic ficou mais tranquilo e conseguiu aproveitar o placar.

Repetimos aqui muitas vezes que o Suns sofreu, nos últimos anos, por achar que o time estava completo e se livrar de escolhas de draft para não ter que gastar dinheiro com elas. Algumas tentativas de troca do Suns para mudar a cara do time foram desastrosas, mas as escolhas de draft (Dragic, Leandrinho, Robin Lopez) e as trocas por jogadores ofensivos e bons arremessadores de três (J-Rich, Channing Frye) deram muito certo. Novatos precisam de tempo, não adianta o Suns se livrar de todo mundo achando que tinha que ganhar "naquele momento e nunca mais". Curiosamente, nas mãos de um Nash mais velho, de um Amar'e que depois de trocentos boatos de troca que poderiam ter tirado ele da equipe finalmente se dá com seus companheiros, e de um jogador pivete que finalmente amadurece estão as chances do Suns. Não de apenas vencer o Spurs, mas de ser campeão. Quando ninguém mais lhes dava um centavo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Os tocos de Zach Randolph - 09/10

Denis aprendendo a mexer no photoshop + mau gosto + Zach Randolph


Esse é mais um post tradicional de todo fim de temporada. Deixamos na barra lateral durante todo o ano um contador de tocos que conta (um contador que conta, uau!) o número de tocos do Porpeta Randolph, do super atlético Steve Nash e do mediano Josh Smith.

Pelo terceiro ano seguido o Josh Smith venceu, uma surpresa! Mas ficamos felizes que o nosso contador tem surtido efeito nos jogadores envolvidos. Assim como o Ray Allen meteu 7 bolas de três só porque eu disse no Twitter que o Jamario Moon tava arremessando melhor que ele, Nash e Randolph resolveram se vingar da nossa tiração de sarro e tiveram desempenhos épicos nessa temporada.

Com 12 tocos em toda a temporada, média de 0,2 por jogo, Steve Nash igualou a sua melhor marca na carreira, alcançada na temporada 2005-06. Já Randolph, com 34 tocos, média de 0,4 por partida, teve sua segunda melhor marca na carreira, atrás apenas dos 41 tocos na temporada 2003-04, e superando com muita folga os míseros 16 tocos da temporada passada.

E a pergunta que sempre respondemos nesse post anual é: Quem foram os imbecis que tomaram toco de Steve Nash e Zach Randolph?

Começamos com o Zach Randolph, aqui estão suas 34 vítimas:
Luis Scola (3 vezes)
Chris Bosh (2 vezes)
Stephen Jackson (2 vezes)
Kobe Bryant (2 vezes)
Tyler Hansbrough (2 vezes)
Omri Casspi
Chris Kaman
Charlie Bell
Jodie Meeks
Shaquille O'Neal
Mario Chalmers
TJ Ford
JR Smith
Antawn Jamison
Channing Frye
Wesley Matthews
Jason Richardson
Rodney Stuckey
Jason Maxiell
Trevor Ariza
Al Jefferson
Andrew Bynum
Pau Gasol
Andray Blatche
Tracy McGrady
Juwan Howard
Toney Douglas
Shawn Marion

O que sempre me surpreende nessas listas do Randolph é como ele sempre dá toco em uns caras muito fodas! Ele fez a rapa no meu Lakers conseguindo dar dois tocos no Kobe, um no Gasol e um no Bynum! E contra o Rockets do Danilo deu outra surra, com três tocos no Scola e mais um no Trevor Ariza. Tem alguma dúvida de que ele lê o Bola Presa e se motiva pelo nosso contador?

Outra coisa que me chamou a atenção é que foram 6 tocos só em novatos, será que a pivetada já chega na liga subestimando o Zach só porque ele é obeso? Se ferraram! E legal que os dois tocos no Tyler Hansbrough foram na mesma jogada, o Psycho-T tomou um, pegou a bola, subiu e tomou outro, isso deve ser a coisa mais humilhante de se tomar na NBA. Quer dizer, tirando isso aqui.

Agora o Steve Nash, vamos às suas vítimas
Kenyon Martin (2 vezes)
Monta Ellis
Caron Butler
Louis Williams
Chris Duhon
Mo Williams
Beno Udrih
Mike Conley
JR Smith
Deron Williams
Aaron Brooks

Mano, velho... Kenyon Martin? Duas vezes? Mentira. Cadê os vídeos no YouTube pra provar? E sabe o que é pior, o Kenyon Martin já tinha sido um dos 10 manés que tinham tomado toco do Nash no ano passado! Ou seja, dos 22 tocos que o Nash deu nas últimas duas temporadas, o K-Mart tomou 3 deles, o único outro repetente foi o Mo Williams.

Curioso que além do K-Mart só o Caron Butler não joga como armador ou tem tamanho de armador, ou seja, ele é muito fracassado.

Para ver as vítimas de Z-Bo e Nash na temporada 2008-09, clique aqui.
Para ver quem foram os coitados da temporada 2007-08, clique aqui.
Para conhecer o site mais legal da internet, clique aqui. Do a barrell roll!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

As enterradas invisíveis

O ponto alto da noite foi a Alyssa Milano


Provavelmente fora a Alyssa Milano, o ponto alto dos eventos do All-Star no sábado foi Steve Nash. Depois de comparecer à abertura das Olimpíadas de Inverno, aquele troço estranho que acontece entre seres humanos cujos cérebros foram atrofiados pelo frio, apareceu todo bem humorado para a competição de habilidades. Pareceu realmente interessado em vencer (dando arrancadas e até suando duas gotas de suor quando ficava preocupado com o tempo a ser batido), aloprou a própria idade dizendo que ele está velho e merecia começar já em vantagem, flexionou os músculos quando foi apresentado e fingiu que o troféu pesava uma tonelada ao vencer a disputa. O Shaquille O'Neal e suas palhaçadas não devem voltar ao All-Star, o Dwight deu no saco se achando com aquele papo de "Super-homem", o Arenas teve suas piadas suspensas da NBA, então só sobrou o Nash como jogador capaz de nos fazer rir - e o melhor, ele é o único dessa lista que sabe tirar sarro de si mesmo. Além da fantástica campanha dele para ser selecionado para o All-Star ("vote em mim porque eu sou incrível") e dos vídeos que quase sempre contam com Leandrinho como estrela principal, o Nash não para de fazer propagandas hilariantes. A última é uma brincadeira com a campanha "o homem mais interessante do mundo", de uma marca de cervejas. Trata-se da campanha "o homem mais ridículo do mundo", e o Nash topa qualquer brincadeira:


Além do Nash se divertindo e tirando um sarro, teve o Paul Pierce (que não deveria estar no campeonato de três pontos porque tem gente que merecia mais) reclamando que as pessoas disseram que ele não deveria estar no campeonato de três pontos porque tem gente que merecia mais. Ou seja, foi tipo um dedo na minha cara. Mas ele ganhou a bagaça e aí deixou a modéstia comandar: "Eu acho que sou um dos melhores arremessadores da história da NBA." Como será que o ego de Pierce e Garnett conseguem entrar juntos num mesmo avião e não derrubá-lo com o seu peso? O Garnett costumava jogar no Wolves falando o tempo inteiro com ele mesmo, repetindo que ele era o melhor jogador do planeta. Mas frente aos problemas no vestiário do Celtics, o Pierce vencer o campeonato de três pontos com o Garnett vibrando na lateral da quadra foi um bom sinal de que eles ainda se empolgam e estão na mesma página. Por outro lado, o Garnett não estourou nenhuma veia da cabeça comemorando, então é bem claro que as coisas andam mais frias - tanto no All-Star quando no Boston Celtics.

O momento nostalgia da noite foi aquela competição "bleh" em que três jogadores (uma estrela da NBA, um aposentado, e um que mija sentado) se revezam em um circuito tentando acertar bolas de lugares definidos da quadra. A competição me lembra o velho programa "Passa ou Repassa", em que duas equipes se enfrentavam respondendo perguntas e não importava quem ia melhor, porque a prova final do programa valia 4 bilhões de pontos e sempre quem vencia essa prova ganhava a disputa. Nessa competição da NBA, não adianta fazer tudo rapidinho se demorar demais para acertar o arremesso do meio da quadra, que acaba sendo o que decide de fato. Mas o legal foi ver o Chris Webber participando, com seu arremesso "eu chuto a pessoa da minha frente quando saio do chão", e lembrar dos tempos em que ele gostava de basquete, lá no Kings (em seu tempo de Sixers ele provavelmente não via a hora de parar). Teve também o mais-velhinho Kenny Smith arremessando do meio da quadra só com a munheca, como se ele estivesse do lado da cesta. Pra alguns parece tão fácil...

Chegou então a hora do grande evento da noite, o campeonato de enterradas. Bem, não aconteceu nada. O Gerald Wallace já tinha passado vergonha participando do torneio uma vez, agora passou vergonha de novo com as enterradas mais comuns de todos os tempos. Shannon Brown mostrou que realmente consegue pular alto pra burro mas não sabe o que fazer lá em cima, acaba tirando um cochilo, lendo uma revisitinha da "Turma da Mônica", e aí cai no chão sem nada acontecer. O DeMar DeRozan não tinha arsenal suficiente para entreter ninguém e o Nate Robinson esgotou a cota de criatividade porque já vemos ele fazendo as mesmas coisas há 3 anos e ele erra quarenta vezes cada enterrada antes de conseguir executar quando já está cansado e com a língua pra fora. Ou seja, foi um campeonato tão esquecível, tão sem graça, tão invisível, que a NBA sumiu no YouTube até com as enterradas que prestaram!

A NBA tem uma relação problemática com o YouTube, primeiro proibindo qualquer vídeo sobre a liga no site, e agora permitindo apenas os vídeos "oficiais" na página da NBA no YouTube. Sem dúvida é coisa do Devid Stern, que é burro como uma porta. Tem coisa que promove mais a NBA do que vídeos das melhores jogadas, jogadores e partidas pra todo mundo ver e querer mais? Não é como se alguém fosse ver pelo YouTube e deixar de comprar o produto depois, como no caso de um CD, afinal o produto é a própria NBA e quanto mais assistimos, mais queremos camisetas, tênis, ingressos, e mais queremos assistir - de preferência ao vivo.

Como a quantidade de vídeos sobre NBA colocados no YouTube é grande demais, fica dificil existir um controle adequado e acaba tendo uma tonelada de vídeos pra assistir e colocar no blog todo dia. Mas como o concurso de enterradas é um evento "importante", todos os vídeos colocados no ar foram apagados. Talvez seja melhor assim, a NBA está tentando fazer com que todos nós esqueçamos do pior campeonato de enterradas de todos os tempos. Ou, pelo menos, do pior campeonato de enterradas que a gente já viu por aqui. No entanto, como pelo menos uma das enterradas foi bem legal, a segunda do DeMar DeRozan, o Bola Presa resolveu imortalizar o momento. Como não tem vídeo, resolvemos fazer um infográfico:

Campeonato de enterradas é como sexo: tem de todos os tipos e pra todos os gostos. Tem com fantasias como no ano passado, com agressividade, com leveza, tem vendado, tem com duas bolas, tem um pulando por cima do outro, tem com palhaçada, tem sério, tem plasticamente bonito, tem com dezenas de tentativas até dar certo. O que não pode é broxar, porque aí não tem sexo nenhum. O campeonato desse ano foi uma broxada monumental! Tem gente que criticou o campeonato do ano passado, que teve palhaçada e fantasia, mas é só porque não gostam desse estilo, tem gente que adora e é um modo válido. Só precisa ser alguma coisa, qualquer coisa!

A gente sabe que o LeBron disse que ia participar e depois deu pra trás, mas não precisa da boa vontade do LeBron pra essa merda funcionar. Como toda boa trepa, só precisa de gente com tesão, de gente que queira brincar. Gente disposta a fazer algo (forte, leve, engraçado, criativo, tanto faz), só não pode ser esse "nada" que foi esse ano. Acho que é a hora de mudar o formato, não deixar mais o público decidir o campeão, deixar todo mundo dar umas 4 enterradas sem existir primeiro e segundo round (pra não ter ninguém eliminado porque "guardou o melhor pro final", como parece ter sido o caso do Shannon Brown, que ia pular por cima do Mbenga), prêmio gordo para o vencedor, enterrada obrigatória com ajuda, enterrada obrigatória em cima de alguém, aí vamos tirando essas enterradas banais do caminho para que elas não sejam usadas como se fossem criativas. Poderiam ser umas 10 enterradas pra cada um, que mal faria aumentar as chances de alguma delas valer a pena? Alguém está com pressa, afinal? Fiquem livres para dar ideias, só precisamos palpitar para que no ano que vem o sexo funcione, não seja esse troço tão invisível e vergonhoso que a NBA até desapareceu com os vídeos. É claro que você pode ir na página oficial deles no YouTube pra ver, mas não se dê ao trabalho, não vale a pena. Tem as enterradas amadoras e da D-League no post abaixo, juro que compensa muito mais.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Fantasiando a correria

Se joga, amiga


Nós sempre comentamos dos times que correm muito por aqui, até tentei parar por um tempo para não ser repetitivo mas a verdade é que esses times encantam. Um time que joga rápido e joga bem sempre parece invencível, parece que não dá chances para os seus adversários. E ainda fazem isso usando as coisas que mais botam fogo em uma torcida de basquete: contra-ataque, bola de 3 e enterrada.

Se você assiste e joga basquete há mais tempo pode até não se exaltar tanto com essas coisas, quer dizer, se você não se exalta de jeito nenhum eu sinto informar que você perdeu o amor pelo jogo. Mas o que quero dizer é que depois que você começa a manjar mais do assunto, passa a berrar “OH MEU DEUS!” depois de uma jogada de garrafão do Duncan ou depois de ver o Kobe humilhar alguém com giros e um simples jumper. Uma questão de repertório.

Mas para todo fã comum e uma parte ainda viva do fã hardcore, os times que jogam em velocidade trazem aquilo que lhes faz gostar do jogo. Você não começou a ver basquete porque o Olajuwon sabia fazer ganchos com as duas mãos, mas porque o Jordan corria e voava nos contra-ataques.

Nessa década o Dallas foi o primeiro grande time da correria, mas o que ficará para a história mesmo é o Suns, provavelmente o mais organizado time que já jogou sem defender na história do basquete. O time encantou, rendeu dois MVPs ao Steve Nash e sucumbiu na mão do outro extremo da velocidade e espontaneidade, o Spurs.

Uma coisa curiosa que o Suns simboliza perfeitamente é a relação dos torcedores com a questão show/resultado. Foi quando o Nash começou a distribuir passes em ângulos que a gente não viu em 15 anos de escola que começou o ciclo dos admiradores da correria, que diziam que era o mais puro basquete-arte. Mas foi com o mesmo Suns, depois de transformar esses basqueteiros comuns em torcedores vorazes, que encerrou-se esse ciclo, com a história de que o run'n'gun estava fadado à derrota e que basquete de playoff é defesa.

Então todo mundo volta a perceber que, mesmo com talento de sobra, esses times vencedores como Pistons, Spurs e Celtics uma hora cansam e a gente quer ver magia de novo, a gente quer ver a defesa mas quer ver o ataque como contra-ponto. Difícil descrever como é divertido os defensores do ataque alucinante e os da defesa sólida defendendo seu ponto como se fossem democratas e republicanos: os dois defendendo a mesma coisa por meios diferentes e os dois sem a razão completa.

Então depois de encantar, de decepcionar e de até tentar mudar de partido, cá está o Suns de novo. Desistiu de tentar virar um time mais defensivo e voltou a correr. Depois de duas semanas de temporada o Suns é o melhor time da NBA, o Nash é líder em assistências por jogo, o Frye está aproveitando sua última chance, eles tem o quinto melhor ataque e tudo isso sendo o segundo time com maior ritmo ofensivo da liga, atrás apenas do Warriors. (O ranking é feito baseado no números de posses de bola por 48 minutos)

Agora uma pergunta que eu já sei a resposta: o Suns vai ser campeão?
Para quem não sabe, não, não vai ser campeão. Talvez a maior beleza desse time do Suns é que provavelmente eles sabem disso. Sabem que estão abrindo mão do basquete que ganha e sempre ganhou títulos na NBA para jogar o único basquete que eles sabem, o mais bonito. É abdicar o fim pelo meio. Arte pela arte.

É bem possível que eu esteja fantasiando isso, que fique claro. Na cabeça do Nash e do Amar'e eles estão indo com tudo para o título e irão chorar se perderem nos playoffs de novo, mas prefiro fantasiar como eles fazem a gente fantasiar. Prefiro pensar que o Suns decidiu simplesmente fazer o que sabe sem pensar no resultado final. Jogar bem, jogar na correria e não se adaptar especialmente para vencer o Spurs, para defender melhor ou qualquer coisa que o valha. Jogar por jogar e ver o que acontece. Para mim esse é o Suns e é por isso que depois de alguns anos com certa raiva deles, volto a sentir aquele prazer infantil ao assisti-los.

...
Nota: A Dime chamou o Channing Frye de "o Raef LaFrentz negro". O LaFrentz, curiosamente, estava naquele time do Dallas que eu citei acima. Pensando nisso achei várias semelhanças entre as equipes: O Leandrinho funciona nem como 1 e nem como 2, é um armador 1,5 como era o Van Exel mas sem a canhota e o lance livre três passos mais longe. O Jason Richardson é o segundo armador que não sabe arremessar de meia distância, é enterrada ou bola de 3, como o Finley dos bons tempos e, claro, o Nash é o Nash. A grande diferença fica entre Amar'e e Nowitzki. Que elenco era melhor?

Se você quiser comparar o lixo também, de um lado tem Louis Amundson e do outro Eduardo Najera.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Vale-Tudo

Ontem, falamos sobre a aposentadoria do Bruce Bowen e seu uso de qualquer método em quadra para alcançar seus objetivos. Hoje, vamos dar uma olhada em vídeos que mostram exatamente quais eram esses métodos usados por Bowen. Preparem-se para o espetáculo ou, dependendo de para qual time você torce, preparem-se para o show de horrores. Coloquem as crianças na sala, porque molecada curte uma sangria.

Para começar, vamos dar uma olhada numa tática muito comum no jogo de Bowen, deixando o pé embaixo de um jogador que pulou para o arremesso, fazendo com que torça o tornozelo.



No vídeo acima, Bowen usa sua técnica ninja contra o Steve Francis. Mas o pior de tudo é que nem é o Francis dos tempos de Houston, é o Francis na sua fase no Knicks, ou seja, é tipo chutar cachorro morto! Em outra oportunidade, Bowen repete exatamente a mesma tática contra o Jamal Crawford, também no Knicks (vai ver ele tem algum tipo de ódio especial pela equipe).



Como o Francis tinha passado um tempão fora das quadras com a contusão causada pelo Bowen e o Knicks estava fedendo pra burro, o então técnico Isiah Thomas ficou puto da vida com a tentativa de contundir o Crawford, mesmo ele não tendo se machucado. Mas o Isiah tem razão, o time já era uma droga, o técnico uma porcaria, a coisa tava feia, e o Bowen ainda tenta dar cabo do único cara que sabia potuar na equipe? Será que ele não tem piedade?

Os vídeos que veremos a seguir até têm cara de acidente, mas como o que acontece é justamente o pé do Bowen acabar embaixo de alguém que pulou para o arremesso, gerando uma contusão, somos levados a pensar que foi proposital depois de ver os vídeos anteriores. No primeiro, quem se lasca é o Anthony Parker:



O Parker tem que brincar de saci até sair da quadra, mas como ele joga no Raptors ninguém nem percebeu que ele se contundiu e o Bowen sempre se safa (quem sabe agora no Cavs alguém perceba quando o Anthony Parker for assassinado). Outro vídeo nos mesmos moldes é o do Iverson "pedindo pra sair":



Pra quem ainda acha que foi sem querer e não está vendo um padrão surgindo aqui, vamos passar então para as coisas mais explícitas do que a Monica Mattos dando para um cavalo. Que tal a legendária voadora de videogame na cara do Szczerbiak?



O Bowen foi suspenso por esse nocaute, ganhou uma faixa preta, cinturão dos médio-ligeiros e ficou tudo bem. Se fosse nosso querido Ron Artest, teria sido deportado pra Malásia. Outro vídeo famoso com chute tem como vítima o Amar'e Stoudemire:



Na rua, isso é chamado de "chutinho de cuzão" e em geral acaba em pancadaria. Mas não foi a única agressão em cima do Amar'e, tem também uma cotovelada no peito que quase deu briga. Reparem, no replay, como o Bowen percebe segundos antes que vai receber um corta-luz e prepara o cotovelo para o impacto:



O Amar'e apanhou bastante, mas a verdade é que o Suns inteiro sofreu nas mãos do Bowen. Se o estilo "run and gun" não ganhou um campeonato é apenas porque o Spurs comanda e o Bowen infernizou a vida de todo mundo no Suns, principalmente do Nash. Vamos conferir o canadense tomando bordoada:



A jogada é legal, a finalização do Amar'e é bacanuda, mas reparem em como após o passe o Bowen dá uma pernada no Nash, tirando seu equlíbrio. Só dá pra ver no Youtube mesmo, bater sem ninguém ver é uma arte, meus amigos. Tem também o Nash sofrendo o tradicional pé embaixo na hora do arremesso, marca registrada do Bowen (não seria legal se desse pra usar isso nas simulações de videogame como se fosse uma habilidade especial dele?)



Mas o que não pode, nem em videogame, é joelhada no saco!



Quando uma coisa é proibida até em vale-tudo, no UFC, no octógono, a gente sabe que o Bowen foi longe demais. Parte legal da brincadeira? O Bowen não foi sequer advertido. Mas, pelo menos, não marcaram falta de ataque do Nash, como aconteceu no vídeo a seguir:



Enquanto Chris Paul e Bowen lutam pela bola, a gente até fica pensando "ah, é uma jogada normal, é uma jogada normal, não foi nada demais", até que quando você já desistiu da jogada o Bowen dá um chute na cabeça do Chris Paul. Que, fazer o quê, coitado, tem que levantar e voltar pro jogo. Exatamente como o Sasha Vujacic, que toma a porrada, espana a poeira e volta pra partida:



Essa é uma das minhas pancadas favoritas dessa coleção, consigo imaginar perfeitamente o Bowen tacando o Vujacic contra as cordas de um ringue e depois recepcionando ele na volta com a cotovelada, no melhor estilo Telecatch ou Gigantes do Ringue! Mas o meu vídeo favorito mesmo é o abaixo, do duelo do Bowen contra o Vince Carter.



O vídeo mostra os 43 pontos do Carter no que poderia ter sido a melhor noite de sua carreira. Mas em um de seus arremessos, Bowen usa sua marca registrada, deixando o pé embaixo do Carter no arremesso, e o titio Vince fica furioso. A partir daí, os dois passaram a se empurrar durante toda a partida, até que o Bowen fez de novo. E fez pior, passando uma espécie de rasteira tipo Blanka do Street Fighter quando o Carter dá um jeito de se desvencilhar do pé dele depois de arremessar. Como os juízes não fizeram nada, o Carter foi pra cima do Bowen e foi expulso. Lembro de ver esse jogo ao vivo e ficar com vontade de vomitar. Infelizmente não achei um vídeo que mostrasse os lances do Bowen com mais atenção, mas dá pra ter uma ideia. Também não encontrei o famoso chute do Bruce "Lee" Bowen nas costas do Ray Allen, quando os dois estão caídos, e nem a voadora do Bowen na sua época de Heat que ilustrou o post passado. Quem encontrar os vídeos, por favor me avise que eu edito aqui, com os devidos créditos. Vale mandar vídeos que eu não sei que existem também.

Mas, mesmo sem alguns vídeos essenciais, essa coleção já é o bastante para lembrar quem foi Bruce Bowen: o homem, o mito, o campeão dos médios-ligeiros. Ou algo parecido.