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sábado, 2 de abril de 2011

Uma ausência improvável

"Quem faz essa defesa funcionar levanta a mão!"

Que o Celtics ia se lascar com a troca do Perkins, meio que todo mundo sabia. Era até bastante óbvio. Mesmo os mais esperançosos e fãs mais fanáticos sabiam que o time iria passar por maus bocados até se acostumar com a mudança do elenco e até ter todos os jogadores saudáveis. O que ninguém esperava, no entanto, é que a troca fizesse o Celtics se embananar todo na parte ofensiva, não na parte defensiva. Nada na NBA acontece como a gente espera, mesmo quando acertamos que uma equipe vai feder acabamos errando o modo como isso acontece. Ué, o Perkins não era o pilar defensivo da equipe e um zero à esquerda no ataque?

Antes da troca, o Celtics tinha uma campanha absurdamente impecável: eram 41 vitórias e apenas 14 derrotas. Depois da troca, os números são bem menos bacanudos: 11 vitórias e 9 derrotas. Mas é preciso lembrar que a campanha fantástica antes da troca tem pouquíssimo a ver com o Perkins, que jogou apenas 12 partidas pelo Celtics nessa temporada graças a uma séria lesão - e venceu oito delas. Isso quer dizer que sem o Perkins, o Celtics venceu antes da troca 29 jogos e perdeu 10, aproveitamento muito maior do que está tendo agora. Já é o bastante para compreender que a atual fase capenga da equipe de Boston não pode ser explicada simplesmente com a saída do Perkins, o buraco é bem mais embaixo - e passa principalmente pela parte ofensiva.

No famoso post sobre novas estatísticas que o Denis publicou uns tempos atrás (famoso pra mim, que cito ele o tempo inteiro), podemos ver que o impacto do Kendrick Perkins em quadra se concentra em algo muito específico: ele é um dos melhores na NBA em impedir pontos bem próximos ao aro, forçando um péssimo aproveitamento aos adversários e comete poucas faltas enquanto isso. Há também aquilo que os números não mostram: o Perkins sabe quando pegar pesado, não permite cestas fáceis, e não tem receio de descer o braço e mandar alguém para a linha de lances livres quando necessário. Ele é uma parede de tijolos,  tem os sentimentos de um matador de aluguel, é muito obediente taticamente e nunca, nunca, nunca erra uma rotação defensiva. Como o Denis indicou em seu post sobre o novo Thunder, essas qualidades do Perkins que não aparecem nos números são capazes de transformar uma equipe e estão tornando os jogadores ao seu redor, como o Serge Ibaka, muito mais eficientes defensivamente.

Mas o Celtics não depende de um jogador só. É, sem dúvida, uma das melhores defesas coletivas da NBA. Trata-se de um andróide fantástico: a cabeça é do Tom Thibodeau, o gênio que acabou de transformar o Bulls na melhor defesa da liga, e o coração é do Kevin Garnett, que bebe o sangue de criancinhas vietnamitas e palita os dentes com os ossos dos adversários. Com a base dos dois, todo o resto do elenco se aplica, obedece e mantém o esquema funcionando, mesmo quando alguns jogadores frágeis defensivamente estão em quadra (Glen Davis, estou olhando pra você). Essa coletividade na defesa e poder do esquema tático são os responsáveis por manter os números defensivos do Celtics idênticos antes e depois da troca do Perkins. Nos números, nada mudou. O Perkins levou suas qualidades e aquilo que aprendeu com o Garnett para o Thunder, mas no Celtics os outros jogadores podem manter o esquema funcionando sem ele. Mas o ponto é: a que custo?

Sem Jermaine O'Neal e Shaquille O'Neal (que não, não são irmãos), o tamanho do Celtics cai muito. Quando Glen Davis ou Nenad Kristic estão em quadra, o time perde em tamanho e em poder defensivo, porque o forte dos dois é o ataque. Então a defesa se mantém na base do comprometimento e do esforço. Kevin Garnett sempre insistiu que o Celtics não precisa perder um segundo sequer se preocupando com movimentações ofensivas, que eles são bons o bastante para improvisar qualquer merda e que os pontos surgem com facilidade quando a defesa faz sua parte (aliás, esse discurso pode ser considerado o fundador indireto do novo Miami Heat, mas isso é outro história). Então, para o ataque funcionar, o Celtics precisa manter a defesa funcionando de modo impecável mesmo com jogadores menores, mais leves, mais lentos, mais mongolóides, o que for. Kevin Garnett precisa aumentar os esforços no garrafão e na cobertura, Paul Pierce precisa apertar as coisas no perímetro. Se os números defensivos estão idênticos, é porque o esforço está dando certo e a defesa se mantém nos moldes de antes. Mas como resultado, Garnett e Pierce em especial se desgastam muito mais durante os jogos, os adversários atacam mais a cesta, é preciso colapsar a defesa para o garrafão e depois correr pra cobrir o perímetro, e todo mundo se cansa pra burro com esse tipo de coisa. Antes, o Perkins intimidava muita gente como apenas tijolos conseguiriam, agora não tem mais isso. No ataque, por isso, o Celtics anda jogando bem mais devagar - e até os contra-ataques ficam prejudicados pela falta de pulmão e pela mudança na defesa, que é quem inicia o contra-ataque. Em matéria de eficiência a defesa é a mesma, mas em matéria de posicionamento, confiança, esforço, rebotes e contra-ataques, o Celtics é uma equipe bastante diferente.

Todos os números ofensivos da equipe caíram, e alguns outros fatores ajudam nessa queda. O Celtics é um asilo de velhinhos, então é normal que mais esforço na defesa signifique que a bateria da equipe acaba mais rápido, mas também tem o fato do Rajon Rondo estar jogando lesionado (com questões no tornozelo e uma lesão mais preocupante na sola do pé), e da falta de pivôs significar menos rebotes de ataque e defesa adversária mais focada nos arremessadores. Garnett, Pierce, Ray Allen e Rajon Rondo estão estatisticamente bem piores no ataque, e o banco de reservas é ainda pior. Jeff Green veio para a equipe para defender alas de força mais baixos, mas anda sendo pouco usado graças ao problema de altura que assola a equipe e à sua dificuldade atual no ataque. Carlos Arroyo sabe chamar as jogadas, é bom moço, mas quem viu ele jogando no Heat sabe que ele não acerta arremessos nem quando está completamente sozinho em casa, com bolinhas de papel. Delonte West está voltando agora sem ritmo e nunca foi grande pontuador, Troy Murphy está lesionado e fora de forma. Glen Davis, que sempre foi uma força ofensiva vindo do banco, volta e meia tem que estar entre os titulares - e mesmo com os reservas anda sofrendo com a falta de altura da equipe e jogando cada vez mais longe do garrafão, pouco acionado, forçando arremessos idiotas.

Quer saber de uma coisa? A troca do Perkins foi uma cagada, mexeu com a defesa do Celtics, mas não é nada que Garnett não consiga arrumar no grito. O cansaço da equipe, que está morrendo com a língua pra fora, vai melhorar muito quando Jermaine O'Neal ganhar ritmo e o Shaquille O'Neal voltar às quadras já na semana que vem. Mesmo numa fase tão ruim, perdendo até pro Hawks que nem é um time de verdade ontem, a equipe consegue ainda assim ganhar do Spurs um dia antes. Então não é nada tão sério assim. Mas há uma cagada ainda pior, mais destrutiva e que ao meu ver não tem como arrumar a tempo: a troca do Nate Robinson.

O Nate "the Great" foi para o Thunder na troca do Perkins, e ninguém se preocupou em reclamar da ida do anão - era muito mais importante ficar indignado com a troca do pivô. A maioria das pessoas nem percebeu sua ausência. Mas era o Nate quem mantinha o banco do Celtics ofensivamente no jogo, era ele quem fazia o Glen Davis funcionar com os reservas no pick-and-roll, eram suas bolas de três que mantinham a diferença no placar que os titulares conquistavam. Os números mostram claramente que a defesa do Celtics ainda é a mesma, entre as cinco melhores da NBA, mas o ataque é uma porcaria e o ataque dos reservas é uma atrocidade, um atentado à vida, à moral e aos bons costumes. A ida do Kendrick Perkins deixou os velhinhos magoados e cansados, mas isso se arruma. A ida do Nate Robinson deixou o banco uma merda, o ataque mais estático, e não tem ninguém nesse elenco com suas características para brilhar nos playoffs. Jermaine e Shaq vão voltar às quadras, mas não tenho dúvidas de que o impacto que eles terão no ataque será minúsculo - e nem de longe o necessário para que a equipe tenha sucesso nos playoffs. Ninguém imaginaria isso, mas o Celtics sente mais falta é do jogador mais improvável e que nunca recebeu o devido valor quando atuou pela equipe.

Eu acredito no Garnett para manter a defesa funcionando e sei que o orgulho ferido do Celtics é o bastante para vencer jogos na cabeçada e na sangria, e só por isso não dá pra descartar o Celtics de levar um título esse ano. Mas depois de ver esse ataque sofrendo e o Glen Davis fazendo bobagem sem seu amigo anãozinho no controle, não consigo imaginar o Celtics sendo campeão do Leste - todo pulmão tem um limite, e esse elenco sequer conseguiu jogar tempo o bastante junto para poder ter um ataque que não seja apenas jogadas de isolação para gente velha e cansada. Onde estão as bolas de três, gente nova atacando a cesta, os contra-ataques abudando da correria, essenciais numa equipe sem jogadas de meia-quadra programadas? Desculpa, Perkins, ainda te acho um cara batuta, mas o Celtics sente falta mesmo é de seu amiguinho menor e mais desmiolado. Nate Robinson, o Boston precisa de você.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Único e especial



Aqui no Chipre coisas estranhas acontecem o tempo todo. É simplesmente um país diferente onde estou vivendo com pessoas diferentes e tudo o que acontece não é comum, em um domingo você pode estar deitado na cama postando no seu blog de NBA e minutos depois está ajudando uma mexicana a mudar de casa usando a carona de um indiano que ambos conheceram na rua naquele exato momento. Ou pode pegar um táxi em que o motorista tira as mãos do volante no meio da curva para mostrar o quão pequena pode ser a vagina de uma prostituta vietnamita. Mas de todas as histórias que vi e ouvi por aqui, uma criou uma frase marcante. Um amigo meu da Costa Rica disse que estava um dia na rua quando um cipriota qualquer o parou e disse: "Você é uma pessoa muito única e especial". E foi embora. Pois essa é a definição que eu escolhi para definir rapidamente Rajon Rondo. 

Eu já queria postar sobre o Celtics há algum tempo e o foco seria o Rondo, mas o empurrão definitivo veio depois de ler esse texto excelente no RealGM feito por um cara com o estranho nome de Elrod Enchilada. Sua análise do que ele chama "Paradoxo Rondo" tenta entender como um jogador tão espetacular tem um defeito tão primário. E, acredite, o assunto não é o seu arremesso.

A parte espetacular a gente já está enjoado de ver. Na partida de ontem entre Celtics e Magic o Rondo mostrou todo o seu arsenal de jogadas que o fazem um dos melhores jogadores (não só armadores) da NBA. Trocentos passes, visão de jogo impecável, total controle do ritmo de jogo, conhece as jogadas do time de trás pra frente, sabe improvisar e seria o meu voto de armador para o time de defesa da temporada. Ele é o jogador mais importante do time que eu considero o melhor da temporada até agora. Eu sei que o Spurs tem um recorde melhor, mas já falei das minhas preocupações com o time do Gregg Popovich aqui, e o Miami Heat, embora também espetacular, acho que não conseguiria atualmente vencer a defesa de garrafão do Celtics em uma série de 7 jogos. Palpites e opinião pessoal que ainda pode mudar, mas acho que todo mundo concorda que o Celtics está lá em cima, jogando em altíssimo nível e que só não tem um recorde melhor porque eventualmente perde jogos completamente imbecis para Raptors, Pistons e Wizards, coisa de time muito velho (ou experiente, já que estamos elogiando) e entediado com a temporada regular. E nem vamos comentar a derrota para o Cavs na primeira semana porque aquela foi só pra provocar o LeBron.

A primeira das coisas únicas e especiais do Rondo é como e onde evoluiu. No seu primeiro ano na NBA ele era um estranho armador de braços longos demais que tinha menos oportunidades no time do que Delonte West e minutos quase iguais aos do Sebastian Telfair. Acreditava-se que o último seria o "armador do futuro" na franquia. Mas na confusão que foi mandar quase todo o elenco para conseguir Kevin Garnett e Ray Allen, o Rondo acabou sobrando como o único armador. Era jovem, já tinha tido uma temporada para cometer seus erros de iniciante e ainda era um excelente ladrão de bolas, por que não? O Celtics até tentou na época armadores mais experientes e acabou no meio da temporada levando o já quase aposentado Sam Cassell, mas simplesmente não havia dinheiro para conseguir alguém mais experiente e pronto para a função. Boa parte da crítica que todo mundo fez do Celtics naquela primeira temporada do Big 3 foi "será que Rondo e Perkins darão conta do recado nos playoffs?". Eles deram, mas como coadjuvantes, até fazíamos piada na época comentando como o Rondo era o jogador mais cagão e precavido possível, jogando com risco zero e deixando toda a responsabilidade para Paul Pierce, Kevin Garnett e Ray Allen no ataque.

Aí bizarramente dois anos depois eles estavam de volta na final da NBA, mas dessa vez Rondo era o líder do time, o melhor jogador disparado, uma máquina de triple-doubles e a mente mais criativa da equipe. Eu tentei lembrar, mas não consigo me recordar de outra história de um jogador que tenha ganhado tanta responsabilidade em um time em tão pouco tempo! Talvez o Michael Redd no Bucks, mas no caso dele o seu papel cresceu quando Cassell, Ray Allen e Glenn Robinson foram embora, Rondo fez tudo isso cercado de três jogadores fora de série, é estranho até estes caras não serem egocêntricos e deixarem um pirralho comandar o show. É uma história única.

Seus arremessos de média e longa distância costumam ser a parte do jogo mais duramente criticada, faz sentido, já que são péssimos mesmo, mas a verdade é que ele não precisa deles. Na verdade, é até melhor que pensem nele assim! A maioria dos times dão espaço para ele, pensando que é melhor usar o seu marcador mais recuado e fechando o garrafão, idéia que parecia genial no começo, mas que hoje parece um conto do vigário que todo mundo continua caindo; esse espaço é tudo o que o Rondo precisa para costurar a defesa adversária e ter a melhor visão do mundo para ver a movimentação de todo o seu time. Some-se isso à "maior inteligência em quadra que eu já vi" nas palavras de Paul Pierce, Kevin Garnett e Doc Rivers e você tem o líder da liga em assistências. Porém, existe o Paradoxo Rondo e como já avisei não tem nada a ver com os seus arremessos tortos. A questão é que o nosso amigo que está com o saco doendo de tanta puxação tem alguns dos piores números imagináveis quando o assunto são lances livres.

Até agora Rondo acertou 33 lances livres nessa temporada em 37 jogos disputados. Se contarmos toda a história da NBA desde o período paleolítico, pegarmos todos os jogadores com pelo menos 35 minutos por jogo (titulares em geral) apenas um outro jogador teve menos lances livres feitos por minuto, era Dennis Rodman em 93-94.

O meu xará era um jogador que fazia apenas duas coisas em um jogo de basquete, defender e pegar rebotes. Sequer tentava arremessos para receber faltas, era algo impensável e desnecessário. E é com esse tipo de jogador que o Rondo está lado a lado, perto dele, mas abaixo estão outros jogadores que só defendem e de vez em quando dão um arremesso quando estão livre, nunca se envolvendo em situações de falta. Ou seja, o Rondo, um cara inteligente, que sabe ler o jogo, é veloz e tem um dos melhores dribles da NBA, quase nunca sequer tenta cobrar lances livres! Até caras com característica parecidas, como o Jason Kidd, cobram centenas de lances livres a mais que ele. Mas Murphy é meu pastor e o rebanho se perderá, tudo sempre pode piorar:  O Shaquille O'Neal (SHAQUILLE O'NEAL, pelo amor de Alinne Moraes!) tem 55% de aproveitamento em lances livres nessa temporada, o Rondo tem 54%. E eu já poderia acabar o post aqui, não tem maior humilhação que essa, ainda mais para um armador.

Ou seja, ele não ataca a cesta, não cobra lances livres e quando o faz é pior que o Shaq. O técnico Doc Rivers decidiu forçar o Rondo a atacar mais a cesta, "Estamos insistindo nisso, queremos colocar ele na linha de lance livre o máximo possível, sempre atacando a cesta. Meu desafio é ver ele cobrando 10 lances livres por jogo". Sim, ele consegue ser útil mesmo sem esse talento, mas não quer dizer que ele não deva melhorar. Em algumas das derrotas do Celtics nessa temporada, as preguiçosas, o Ray Allen simplesmente está frio, o Paul Pierce está bocejando e o Rondo poderia tomar conta do jogo, atacar a cesta, conseguir uns pontos fáceis e tudo mais. Mas ao invés disso ele continua só passando a bola, sendo um viciado em assistências que nem olha para a cesta, dando bonitos passes que nesses casos não levam o seu time à vitória.

Sempre pensamos que o Rondo estava a um arremesso confiável de ser um jogador completo, mas no fim das contas talvez ele só precise atacar mais a cesta, cobrar mais lances livres e, claro, acertá-los. Ele não precisa fazer isso só para ele ganhar reconhecimento e porque todos os outros armadores do mundo o fazem, mas pelo sucesso do time também. O Celtics é o quarto que menos cobra tiros livres na liga e é algo que faz muita falta em jogos apertados em que qualquer ponto fácil faz diferença. Eles já tem Ray Allen que cobra poucos, Shaq que evita cobrá-los e Garnett que ataca pouco a cesta faz tempo. Pela necessidade do time e pela sua velocidade e facilidade no drible é quase uma obrigação que ele seja mais agressivo e o responsável por ir mais vezes à linha de lance livre.

Se você assistir a um jogo do Heat, por exemplo, vai ver que quando nada está dando certo eles simplesmente colocam o LeBron e o Wade atacando a cesta sem parar. Mesmo que errem a bandeja, eventualmente vão sofrer uma falta ou outra e conseguem uns pontos fáceis. E quantas vezes o Kobe não estava com o arremesso calibrado e mesmo assim manteve o Lakers no jogo só por conseguir cobrar mil lances livres. Até o Paul Pierce, o responsável por essa função no Celtics hoje, cobra só 5 lances livres por jogo, bem menos que os 10 do seu auge físico ou até os 8 de duas temporadas atrás. Ele não tem mais velocidade pra isso, assim como quase ninguém no asilo verde.

Ir bastante para a linha de lances livres é obrigação de jogo, acertar mais é obrigação de treino, mas não consigo acreditar que um jogador do seu nível não seja capaz de alcançar no mínimo uns 75% de aproveitamento. E uma declaração no texto que citei anteriormente me chamou a atenção, "Quanto mais lances livres ele cobra em um jogo, melhor é o seu aproveitamento". Será que é sério? Fui no basketball-reference e descobri que só em 9 jogos na carreira ele cobrou 10 lances livres ou mais, uma amostragem pequena, mas nesses jogos ele teve 68% de aproveitamento, mais do que os 64% que ele tem como melhor marca na carreira logo no seu primeiro ano. Será que ele só precisa se sentir mais à vontade lá pra acertar de maneira decente?  E como alguém de 24 anos toma conta de um time espetacular e com uns 4 jogadores destinados ao Hall da Fama e não consegue bater lances livres? Paradoxo Rondo, único e especial em todos os sentidos.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Não é mais um preview

A beleza da NBA está de volta


Como o Rodrigo Alves disse no seu texto no Rebote, a noite de abertura da NBA foi divertida desde o Twitter até as quadras. No Twitter, geralmente um lugar desagradável onde tem mais gente tentando pagar de inteligente e/ou engraçado para as outras, o clima foi divertido, com comentários inteligentes, piadas, apostas e um monte de gente aprendendo a mexer no League Pass. Faremos uma análise do LP ainda essa semana, mas já avisamos aqui que durante essa semana ele está disponível de graça. É só entrar no site deles, se cadastrar e escolher o jogo que quer ver.

Ah, e também sei que não acabamos os previews antes do primeiro jogo! Faltaram Nuggets, Thunder e Knicks. Tudo culpa do Danilo, claro, nunca minha. Mas ele já cuidou disso e os links para todos os previews estão agora em um só post, esse aqui.

Eu não lembro de outra noite de abertura tão aguardada como a de ontem. Geralmente a NBA (ou mais especificamente esse cara) escolhe jogos que o pessoal está afim de ver, mas nunca tinha conseguido montar logo de cara um jogo com tamanha expectativa. Nada como a estréia do trio LeBron-Wade-Bosh contra o atual campeão do Leste que tem o seu próprio trio de ferro e mais Shaquille O'Neal, Rajon Rondo e Jermaine O'Neal. É muita gente boa ao mesmo tempo e um público na seca por basquete. Perfeito!

A partida começou com 8 jogadores na quadra que já foram All-Stars, os cinco do Boston e o trio do Miami. Apenas Carlos Arroyo e Joel Anthony destoavam. Pelo menos o porto-riquenho pode dizer que era uma estrela no basquete FIBA. No banco ainda tinham outros ex-all-stars, Jerry Stackhouse (recém-contratado pelo Heat), Jamal Magloire e Jermaine O'Neal. Em 2010 esse é um jogão em outubro, 10 anos atrás seria um jogão em fevereiro, no All-Star Weekend.

O Boston Celtics começou tentando explorar o pivô não-galático do Miami, jogando bastante a bola no estreante Shaq, que nas primeiras bolas errou arremessos ridículos embaixo da cesta, mas logo deu umas enterradas alucinantes, se pendurou no aro, pingou suor como um porco e até acertou lances livres, que foram motivo de vibração incontrolável da torcida.

Embalados por Shaq, por passes perfeitos do Rajon Rondo (17 assistências e nenhuma faixa na cabeça) e bolas de três do Ray Allen, o Celtics abriu quase vinte pontos de diferença já no primeiro tempo. Com uma defesa bem forte eles forçaram o Heat a apenas 9 pontos no primeiro período e 30 no primeiro tempo como um todo, marca pior do que o menor número de pontos marcados no primeiro tempo pelo Heat do ano passado. Sim, aquele time com Michael Beasley, Daequan Cook e Dorrell Wright. 

Muitas coisas explicam esse primeiro jogo, em especial o primeiro tempo, horripilante do Heat. Primeiro a falta total de entrosamento, o trio que controla a bola por 90% do tempo jogou junto só por 3 minutos durante a pré-temporada. Wade, machucado, mal treinou. E não é um time que tinha uma base e treinou pouco nos últimos meses, é um time que começou do zero. Também não é um time tradicional, com jogadores que se completam naturalmente, eles tem características conflitantes (tanto Bosh quanto Wade e LeBron gostam de segurar a bola e não são bons arremessadores, por exemplo) o que não significa que vão fracassar, mas que precisam de treino mais do que um time normal. Se você juntar um trio como Chris Paul, Kevin Durant e Dwight Howard, por exemploa coisa fluiria mais naturalmente.

Outra razão pode ter sido o nervosismo, afinal todos esperam o melhor time da história e eles tem uma reputação a zelar, deve bater um medo de fracassar. Alguns passes que eles deram para o meio da arquibancada e outras infiltrações precipitadas não foram só falta de entrosamento, foram desespero mesmo. Também não ajudou o fato deles terem o primeiro jogo fora de casa contra uma das melhores defesas da NBA nos últimos três anos! Se cometerem todos os mesmos erros de novo contra o Sixers aí sim o buraco é mais embaixo. O Celtics soube perfeitamente explorar as fraquezas que o Heat ainda tem: a falta de um pontuador dentro do garrafão (até LeBron tentou se arriscar lá dentro pra compensar, sem sucesso), a falta de arremessadores de longe (e meia distância) e assim deixou o garrafão congestionado para evitar as infiltrações.

No fim das contas, segundo o site HoopData, o Heat tentou 22 infiltrações, conseguindo finalizar 12 com sucesso, um número respeitável. Mas em todos os outros pontos da quadra eles acertaram 15 arremessos em 52 tentativas! O Celtics estava deixando o Heat arremessar porque estava um desastre. Era como se o outro lado tivesse 5 Rondos.

As coisas começaram a mudar quando o Celtics primeiro relaxou, fugindo do que estava dando certo e mostrando que eles também estão em ritmo de começo de temporada, depois mudou por completo, com o Heat chegando a diminuir a diferença para 3 pontos quando o Heat começou a jogar como, quem diria, o Cavs. Ironias da vida. Com Wade e Bosh no banco e jogando ao lado de Zydrunas Ilgauskas, Eddie House e James Jones o LeBron James fez o que fazia em Cleveland. Pegava a bola, recebia um corta-luz na linha dos três e atacava a cesta, aí era ou cesta, ou falta ou um passe para alguém na linha dos três. Básico, simples, Cavs.

Foi o bastante para colocar o Heat de volta no jogo, mas logo a defesa apertou e ficou aquele joguinho de LeBron tentando vencer sozinho de um lado e o Ray Allen matando o jogo com bolas de três do outro. Por um lado foi péssimo para o técnico Erick Spoelstra ver que vai ter muito trabalho pela frente e que durante esse trabalho vão ouvir piadas, críticas, vaias e gritos de "overrated" como da torcida de Boston, ontem. Por outro lado foi bom ver que depois de um jogo em que o time jogou de maneira mais desorganizada que a 25 de março em semana de Natal, perdeu só por 8 pontos, esteve perto da virada e mostrou alguns bons momentos na defesa.

Como tudo o que vamos falar em todos os posts nas próximas semanas, esses comentários sempre vêm com um "apesar de ser só o começo da temporada" embutido. Não dá pra querer achar que vai ser ruim assim pra sempre, mas também não dá pra ignorar que foi um fiasco.




O segundo jogo da noite foi Blazers e Suns em Portland. O time da casa começou bem, com Brandon Roy e Andre Miller mostrando algum entrosamento e sabendo dividir a responsabilidade da armação, mas o time não embalou porque LaMarcus Aldridge foi incapaz de tirar vantagem da sua estatura contra o Hedo Turkoglu. O Suns, mesmo sem convencer, jogou bem. Só foi estranho ver o Nash arremessando mais do que passando e triste ver o Turkoglu ajudando tão pouco, mas deu certo e no terceiro período eles estavam voando.

Porém, no último quarto um dos maiores candidatos a jogador que mais evoluiu na temporada, Nicolas Batum, fez 11 dos últimos 18 pontos do Blazers, que venceu o período final por 20 pontos de vantagem e levou a vitória pra casa. O Batum já era bom antes, ótimo defensor, bom arremessador e sabe bater pra dentro. Nesse ano como titular absoluto ele tem tudo pra ter grande destaque. Olho nele e peguem o rapaz na sua liga de fantasy.

Antes do jogo de ontem o próprio Nash disse que se estivesse vendo tudo de longe não apostaria no Suns como um time para ir para os playoffs. Bem racional da parte dele, mas o time já superou outras limitações de elenco antes e nem tudo está perdido, só vai ser bem difícil. Um bom começo seria o Nash confiar mais no Robin Lopez que, coitado, tentou brincar de Amar'e Stoudemire ontem e não recebeu um passe do Nash depois dos bloqueios que fazia, só ficava com a mão esperando a bola e nada aparecia.

No último jogo da noite tivemos o já famoso Bola Presa Classic. Meu Lakers contra o Rockets do Danilo. Finalmente a NBA nos ouviu e colocou esse jogo numa data importante. Antes da partida, claro, a entrega dos anéis de campeão para o Lakers. Em uma cerimônia fresca e ensaiada: o anel era dado para um jogador que pegava o microfone e chamava o coleguinha de classe. Para provar que era tudo ensaiado até elogiaram o Sasha Sharapova ao chamá-lo ao centro da quadra. O anel que eles ganharam era todo rico e brega, como sempre. Tem 16 diamantes, para simbolizar os 16 títulos do Lakers, pedaços de couro arrancados da bola usada no jogo 7 da final e a cara de cada jogador nos anéis. Doideira! Olha as fotos aí embaixo. Certo o Ron Artest que vai leiloar o dele.





O jogo de verdade começou com Aaron Brooks e Kevin Martin me dando a certeza absoluta de que vão ser a dupla de armação com mais bolas de três feitas na história da NBA. Aposto um chocolate nisso. E chocolate só não é a melhor coisa do mundo porque existe sexo, então a aposta é séria! O Rockets jogou muito bem durante toda a noite e até merecia a vitória, que só não veio porque o Shannon Brown resolveu achar que é o Anthony Morrow e acertou 4 bolas de três, quase todas no último período . E depois, quando o Houston vencia por um ponto a 18 segundos do fim, o estreante Steve Blake meteu uma bola de três para ganhar o jogo. Quem é Jordan Farmar mesmo? Não lembro. É muito difícil bater o Lakers quando Pau Gasol está bem (98% dos jogos) e as bolas de longe estão caindo.

O Lakers jogou o seu basquete preguiçoso de temporada regular. Muito bem durante uns momentos, relaxado em outros e bem sério quando a água bate na bunda nos minutos finais. Deu certo, mas o time ainda parece fora de ritmo, especialmente Kobe, que está bem lento na defesa. O Rockets pareceu mais entrosado, mais interessado e parece que vai dar trabalho pra valer. O Yao Ming jogou e até que tá bem para alguém todo quebrado, que não joga há um ano e que se move como se estivesse embaixo d'água. Mas o que me deixou mais surpreso foi ver como o Luis Scola pareceu mais à vontade no ataque no fim do jogo, chamando a responsa ao invés de aceitar ser coadjuvante. Ele é bom o bastante pra isso e sempre foi, mas no ano passado era mais comum a gente ver o Aaron Brooks querer bancar o herói.

Foi um bom primeiro dia, mas só o primeiro. Hoje tem mais 13 partidas, com quase todos os outros times fazendo seu primeiro jogo e aí vem a primeira grande dúvida da temporada: O que assistir no League Pass? Tem Miami tentando a sua primeira vitória contra o Sixers, a estréia do lixo do Cavs ou um potencial  jogão entre Bulls e Thunder. E mais tarda a estréia do Warriors sem Don Nelson e o primeiro jogo oficial do Blake Griffin, isso sem contar a estréia do Amar'e como um Knick e um empolgante Nuggets-Jazz. Por enquanto só sei que não vou ver Hawks contra o Grizzlies. Como eu vivi todos esses meses sem NBA todo dia?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Preview 2010-11 / Boston Celtics

Começamos hoje a seção que faz o preview de todos os times para a próxima temporada. Não vamos ter nenhuma ordem de postagem e iremos tentar brincar bem pouco de futurologia. Também podemos interromper os previews a qualquer momento para postar sobre outro assunto que pareça relevante.


...



- Eu não sei arremessar


Objetivo máximo: Título
Não seria estranho: Perder na semi-final do Leste para Heat, Magic ou Bulls
Desastre: Perder na primeira rodada dos playoffs

Forças: Elenco profundo, experiência em playoffs e entrosamento.
Fraqueza: Idade. Não perderiam se a liga fosse decidida no dominó.

Elenco (Veja todos os elencos da temporada aqui)


Boston Celtics
Titulares
Reservas
Resto
PG
Rajon Rondo
Delonte West
Avery Bradley*
SG
Ray Allen
Nate Robinson
Von Wafer
SF
Paul Pierce
Luke Harangody*
Marquis Daniels
PF
Kevin Garnett
Glen Davis
Semih Erden*
C
Shaquille O'Neal
Jermaine O'Neal
Kendrick Perkins

...
Técnico: Doc Rivers

Quem conhece o blog há algum tempo sabe que a gente não é muito fã do Doc Rivers. Até hoje os seus maiores méritos no Boston não foram as coisas que fez, mas as que deixou os outros assumirem para si. Em 2007-08, primeira temporada do trio Pierce-Allen-Garnett, Rivers deixou toda a parte defensiva sob a tutela de Tom Thibodeau (leia um pouco sobre ele nesse post). O resultado foi a melhor defesa daquela temporada e, digo lembrando do Pistons de 2004-2007, a melhor defesa que eu já acompanhei de perto na vida.

Naquele mesmo ano Doc Rivers foi feliz ao não querer inventar muito no ataque. Fez um sistema ofensivo simples que sabia usar bem os contra-ataques (que eram muitos, graças à forte defesa) e jogadas individuais dos talentosos Paul Pierce e Kevin Garnett.

Na temporada passada, com o ataque estagnado, muito por causa da idade e do desempenho irregular dos três veteranos, Rivers foi feliz ao entregar o ataque nas mãos de Rajon Rondo. Em algumas entrevistas ele disse que o armador tinha sinal verde para fazer o que queria com a bola na mão. E assim o ataque verde floresceu de novo. Com a ajuda de Thibodeau, que fez a vida de LeBron miserável naquela série contra o Cavs, chegaram de novo nas finais em 2010.

Nesse ano eles não tem mais Thibodeau, que é técnico do Bulls, para cuidar da defesa, mas tem um time que já aprendeu muito com ele nos últimos anos. E se Doc Rivers tem outro talento além de deixar quem sabe mais que ele trabalhar, é motivar. Com aqueles gritos e discursos inflamados ele faz o seu time render mais nos momentos mais importantes. O Heat pode ter seus talentos na flor da idade, mas vai ser duro enfrentar esse time sedento por vencer o novo trio de ferro.
...

Todo mundo sabia o que o título do ano passado significava para o Lakers como time: o primeiro título consecutivo de um time desde o tri do mesmo Lakers em 2000-01-02, a doce vingança sobre o Celtics que os destruíram em 2008 e o fim das acusações de time “soft”. Por isso, depois do jogo 7 da última final, perguntaram para Kobe Bryant, “Sabemos para o time, mas individualmente o que esse título significa pra você?” e a resposta foi na lata, sem pensar, “agora eu tenho um a mais que o Shaq.

O dono do Celtics, Wyc Grousbeck (leia o perfil que fizemos dele aqui), disse que foi ao ouvir essas frases, no calor da derrota, que decidiu ir atrás do Big Fella. Claro que deve (ou deveria) ter pesado na contratação o fato do Shaq não estar cobrando caro, a contusão até janeiro do Kendrick Perkins e o fato do Celtics ter tido nos rebotes a sua maior fraqueza na última temporada, mas ficamos felizes com essa apimentada a mais na rivalidade.

Além de Shaq, chegaram ao time outro O’Neal, Jermaine, e Delonte West. Como novatos estão no time Avery Bradley, um armador reserva que parece ser bonzinho, Luke Harangody, que fez estrago nas Summer Leagues com suas bolas de 3, e Semih Erden, pivô turco que fez bons jogos no último Mundial.

Se estivéssemos em 2000, 2001 ou até 2003, o atual Celtics poderia ser visto jogando apenas uma vez por ano, numa cidade cheia de festas e um dia após um campeonato de enterradas. Isso porque há alguns anos atrás, Paul Pierce, Ray Allen, Kevin Garnett, Jermaine O’Neal e Shaq batiam cartão em All-Star Games. Hoje em dia nenhum deles está em seu auge, mas não deixa de assustar olhar todos no mesmo time. A grande missão de Doc Rivers com esse elenco é saber como usar um pouco de todo mundo de maneira eficiente. Na teoria daria pra usar Shaq, Jermaine e KG todos por um período não muito grande de tempo, assim ninguém cansa muito e se preserva para os playoffs, mas na prática não costumam ser muitos os times que conseguem jogar bem fazendo muitas substituições. Lembro do Shaq no ano passado em Cleveland jogando muito bem por um período e depois de “ser preservado” no banco voltava já sem ritmo, fora do jogo, e pouco contribuía. Na seleção brasileira já vimos muito disso também, excesso de rotação e ninguém entra no ritmo do jogo.

Não vou ficar aqui sugerindo as formações que eu gostaria de ver no Celtics, principalmente no garrafão, porque ainda nem vimos elas em ação, faremos isso durante a temporada. O Doc Rivers não é o técnico dos sonhos, mas é esperto o bastante para usar o tempo de treinamento antes da temporada para testar Garnett ao lado de Shaq, de Jermaine, os dois O’Neals juntos e a que eu mais espero, Shaq e Glen Davis no mesmo garrafão, o que pode mudar o pólo magnético da Terra.

Independente das escolhas, parece claro que o Celtics tem o garrafão com mais opções na NBA e é de lá que eles devem arrancar suas vitórias mais importantes. Quando Perkins voltar vão ser tantos jogadores de características diferentes que eles tem todas as ferramentas para parar Chris Bosh, Dwight Howard, Gasol-Bynum, Duncan-Splitter, Boozer-Noah e qualquer outro que apareça pela frente. Garnett e Jermaine são fortes mas sem perder a mobilidade, Glen Davis é pesado e rápido, Perkins é uma parede, Shaq uma parede mais velha e Erden parece ser capaz até de marcar alas de força.

Nem tudo é bom no mundo verde, porém. As contusões atrapalharam o time nos últimos anos e nessa temporada eles tem o Jermaine, é quase certo que ele vai se quebrar de alguma forma. Com outros se machucando talvez tenham dificuldade de criar um padrão de jogo até os playoffs. E também tem a questão da queda de qualidade dos seus jogadores. Rajon Rondo é espetacular, mas não dá sinal de que está aprendendo a arremessar e só tem piorado nos lances livres (vide final do ano passado), incomoda ter sempre essa característica do jogo explorada. Ray Allen é capaz de quebrar recordes de 3 pontos em um jogo e passar os outros em branco e, como diz muito bem esse post do Celtics Town, Paul Pierce tem ficado pior nos minutos decisivos das partidas.

Como todo time experiente, o Celtics deve levar a temporada regular em banho-maria, não se incomodando de acabar em primeiro ou quarto lugar. Vamos ver do que eles são realmente capazes apenas nas partidas mais simbólicas, como a da estréia contra o Miami Heat. Até vou perder a novela pra assistir!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Os velhinhos

Glen Davis e Jermaine O'Neal não resistem a um beijinho


Torcedor tem memória curta, todo mundo sabe disso. Fica claro até aqui no Bola Presa, em que mantemos uma sólida média de 6 posts por semana durante toda a temporada e na offseason, que deveria ser o mais perto que conseguimos de "férias", tem gente reclamando quando passamos alguns dias (em pleno fim de semana!) sem postar. No Celtics, a amnésia foi ainda maior. Depois de uma temporada aos trancos e barrancos, perdendo jogos fáceis e despencando pela tabela, ninguém mais acreditava que eles pudessem ser reais candidatos ao título do Leste, muito menos então de toda a NBA. O time foi criticado por ser velho demais, cansado, sofrer com lesões, não ter um técnico decente, não ter adicionado jogadores bons o bastante para o banco, ter se acomodado e comer meleca de nariz. Foi aos poucos vencendo um jogo nos playoffs, dois, três, ganhou o Leste e deu sufoco para o Lakers na grande Final. Aí ninguém lembrava que eles tinham fedido na temporada regular, era claro que eles eram favoritos, como alguém pode duvidar de um time com Garnett, Pierce e Allen?

O Celtics fez tudo direitinho para enganar a memória da torcida. Se tivessem chutado traseiros na temporada regular e acabado no topo do Leste, mas aí fedido nos playoffs e sido eliminados logo de cara, todo mundo só se lembraria que o elenco está velho demais e que nem adianta tentar de novo. Como foi exatamente ao contrário, o que ficou na memória de todo mundo foi um time que sabe crescer na hora certa e vai com certeza dar sufoco no Lakers e no Heat na temporada que vem. Com essa certeza na cabeça, fez todo o sentido do mundo dar novos contratos para Paul Pierce e Ray Allen. O óbvio era manter o time e tentar mais uma vez logo depois de ter chegado até a Final e perdido com honra.

Ou seja, o Ray Allen é um baita de um cagado! Suas atuações nos playoffs, salvas raríssimas exceções, foram as que mais mostraram como o elenco do Celtics ficou mais velho do que a "Praça é Nossa". Após dominar um jogo, era possível ver como o time inteiro era incapaz de correr ou jogar fisicamente no próximo, exausto, com a língua de fora. Dependeram de jogadores novos mas limitados para segurar as pontas enquanto o Ray Allen ficava boiando no formol. Não dá pra negar que o trio do Celtics é espetacular, mas o corpo humano tem dessas coisas estranhas: a idade chega de repente, de um dia para o outro. O Garnett treinou excessivamente em suas férias, Ray Allen teve seu corpo muito exigido pela falta de um bom arremessador reserva, e o resultado foi que os dois desmoronaram repentinamente depois de um temporada inteira em que pareciam querer uma coisa e o corpo respondia outra, com atraso. Mais ou menos como o Yao Ming e o Ilgauskas devem se sentir dentro daqueles corpos enormes que parecem estar se locomovendo debaixo d'água.

Vibrei muito com o Celtics durante os playoffs inteiros e a sensação na Final contra o Lakers era de tristeza para mim: parecia nitidamente ser a última chance de Pierce, Garnett e Ray Allen ganharem mais um anel de campeões. Como os três, com suas limitações tão brutalmente expostas por times que jogaram de forma física e veloz, poderiam aguentar mais 82 jogos em uma temporada regular para então jogar os playoffs mais uma vez com a pirralhada adversária correndo e distribuindo trombadas de novo? A alegria por ver Artest ganhando um campeonato foi logo eclipsada pela angústia de ver um time que morria ali, ainda em quadra, enterro em pleno ginásio. Se tivessem fôlego de chegar no banheiro já seria muito. O Glen Davis ainda tinha a vantagem de que, gordo, poderia ir rolando.

Muito se falou sobre o Celtics ser desmontado, começar uma reconstrução, trazer reforços de peso, se livrar do contrato do Ray Allen e suas atuações risíveis nos playoffs. Mas todo mundo se esqueceu do ar cansado e do cheiro de asilo da equipe porque misteriosamente eles seguiram vencendo time após time até a Final. O Ray Allen seria um desses jogadores vovôs que de uma temporada para a outra só recebe ofertas pequenas e em geral para ser reserva (tipo o Shaq), mas o sucesso do Celtics na pós-temporada, bem a hora em que importava, escondeu sua decadência. Ray Allen poderia ajudar qualquer equipe da NBA por um salário módico, mas no Celtics lhe ofereceram um contrato de 20 milhões de dólares por duas temporadas. Menos do que ele ganhava antes, mas muito mais do que ele merece ganhar hoje em dia. Deu sorte.

Paul Pierce também topou um contrato novo menor do que ganhava antes. Ao invés de algo em torno de 20 milhões por temporada, ganhará 15 milhões, mas como expliquei antes foi apenas para garantir um contrato longo baseado nas antigas regras salariais, ou seja, garantir o leitinho e os diamantes das crianças. É uma boa pagar menos por um jogador de elite como Pierce, mas por outro lado insisto que em muitas ocasiões seu estilo de jogo é prejudicial ao Celtics - e especialmente ao Rajon Rondo, que se torna cada vez mais a grande estrela da equipe.

O Ray Allen é um jogador inteligente pra burro e que coloca medo nas defesas adversárias mesmo quando está fedendo. Sabe se posicionar para forçar a defesa para fora do garrafão, infiltra com bastante habilidade e é um defensor acima da média. Kevin Garnett sabe organizar o posicionamento defensivo da equipe, motivar os novatos, ameaçar de morte quem fizer cagada, beber o sangue dos bebês recém-nascidos dos adversários, e não compromete negativamente seu time mesmo em seus piores momentos, simplesmente por saber fazer coisas demais em quadra. Paul Pierce pode ser meio fominha, esquece o cérebro na gaveta às vezes, mas ainda é um dos melhores pontuadores da NBA e certamente é o jogador mais forte fisicamente em sua posição, algo que sempre ajuda quando ele não está andando de cadeira de rodas. Então seria um absurdo dizer que o Celtics já era e que renovar seus contratos foi uma cagada. Digamos apenas que pode não ter sido uma atitude muito realista - e certamente foi uma atitude pouquíssimo corajosa. A culpa nem é dos coitados, que envelhecem como todo ser humano e se dedicam vinte vezes mais do que qualquer um para estar em plena forma física, mas a temporada da NBA é ridiculamente longa. De um jeito retardado. Quando carinha quizer reclamar que passamos uns dias sem postar, pensa no tamanho da maldita temporada regular da NBA que acompanhamos de perto todos os dias e de como todo mundo precisa de férias, vamos ler um livro, bater um gaminho, dar uma namorada! O trio do Celtics não tem como estar fisicamente preparado para esse grau de desgaste físico principalmente após uma temporada em que todo mundo aprendeu que basta dar umas cabeçadas para os vovôs desmancharem. Negar que esse time não tem como se manter ileso fisicamente é negar uma realidade gritante. Manter esse time pode ser sensato, mas é covarde assim que admitirmos que eles não tem pernas para serem campeões da NBA.

No garrafão, vai faltar ainda mais perna com a saída de Kendrick Perkins. Apesar de ser feito de tijolos, o pivô contundiu o joelho na série contra o Lakers e só deve voltar às quadras, se tudo der certo, lá pelo meio de fevereiro do ano que vem (se aprendemos algo sobre a memória dos fãs, ele só vai voltar quando ninguém mais lembrar dele). Rasheed Wallace também não estará na temporada que vem porque se aposentou acertadamente. Percebeu não apenas que a idade chegou e seu físico está lhe deixando na mão com dores terríveis nas costas (coisa de velho no bingo, ou do Tracy McGrady), mas também que ele não estava motivado, não tinha saco pra aturar uma temporada inteira com o Garnett queirando cortar seu pescoço. Jogava por seus amigos no Pistons, mas não fez amizades em Boston. Foi realista e percebeu que não dá pra enfrentar o tempo ou o tesão que temos ou não temos pelas coisas. Que descanse em paz.

Pro garrafão do Celtics não virar geleia, o grande reforço foi a contratação de Jermaine O'Neal. Quem chega agora nem imagina que o cara já foi uma das maiores promessas da NBA, chutando traseiros diariamente e ganhando um salário exorbitante porque parecia que podia render ainda muito mais.



Só que uma lesão no joelho nunca mais lhe permitiu jogar com a mesma intensidade, sua evolução foi interrompida e tornou-se um jogador completamente diferente. Ficou velho, lento, jogando cada vez mais longe do garrafão, e tudo isso é muito engraçado porque ele sempre - sempre! - teve cara de bebê de comercial da Pampers, parecia que nunca ia envelhecer. Sua passagem pelo Raptors e pelo Heat foram até que animadoras, porque ele provou que não é o Saci Pererê, tem duas pernas, consegue andar de um lado para o outro e tem capacidade de ser um excelente reserva em algumas equipes por aí. Não vai revolucionar o Celtics mas vai dar uma força enquanto todo mundo espera o Kendrick Perkins. Até que se machuque, claro, porque o Jermaine é como se fosse o Clippers de um homem só, sempre alguma coisa em seu corpo tem que dar errado.

Entendo que a solução mais fácil, após o retorno súbito da esperança dos torcedores do Celtics (que estavam quase se conformando com o fim do time ao término da última temporada), era manter o mesmo elenco. O buraco no garrafão tinha que ser tapado e o Jermaine O'Neal estava lá dando sopa e topou uma graninha singela, de 12 milhões por 2 temporadas. Entendo também que são jogadores motivados, inteligentes, capazes de causar suadouro e botar medinho em qualquer time da NBA. Mas parece que eles estão apenas colecionando vovôs numa tentativa desesperada de me fazer sentir velho! Eu vi o Garnett em seu auge no Wolves, sendo fácil um dos melhores alas de força de todos os tempos; eu vi o Jermaine O'Neal no Pacers dominando jogos e sendo o mais valioso ala de sua geração, eu vi Ray Allen no Sonics levando um time nas costas sendo o melhor arremessador de três da história. E agora, diabos, o Sonics nem existe mais, o Jermaine precisa de bengala, o Garnett parece que vai desmontar às vezes como se fosse feito de Lego.

Torço por todos eles, acho nobre e justo que tentem de novo por uma última vez, e acho hilário que tenham adicionado ao elenco justamente outro jogador na mesma condição, em fim de carreira com um corpo que desiste do basquete antes que o cérebro aceite a derrota. Quero demais que se despeçam em grande estilo, com um anel de campeão. Mas a verdade é que ganharam todos contratos grandes demais, o time perdeu a chance de adicionar novas peças, e a reconstrução que estará nas costas de Rajon Rondo foi adiada e por isso será mais difícil de ser efetuada. Esse time não vencerá o Lakers estando um ano mais velho, com um Perkins voltando de contusão e uma chance gigantesca de que algum jogador fundamental do elenco esteja na enfermaria. Ou dois, ou três. Já mencionei que eles contrataram o Jermaine O'Neal? É possível que uma meia dúzia de jogadores morra de gripe ou osteoporose.

Coloquem o Celtics na lista de favoritos, não percam de jeito nenhum seus confrontos com o Lakers e muito menos com o Heat, em que o trio de velhinhos tentará ensinar alguma coisa para o trio de pirralhos. Mas não exagerem na hora de levar esse time a sério. Quando estiverem perdendo tudo na temporada regular vale lembrar que isso não significa nada, são apenas jogadores cansados, com um dos piores técnicos da NBA, que acabaram de perder o grande estrategista responsável pelo seu fantástico esquema defensivo (Tom Thibodeau foi ser técnico do Bulls) e que estão se poupando. Quando estiveram ganhando tudo na pós-temporada, vale lembrar também que não aguentarão tantos jogos, que o corpo vai desistir cedo ou tarde, que eles já foram espetaculares e agora nos emocionam apenas com um esforço desmedido e monstruoso que tenta nos provar que nada é impossível - enquanto, infelizmente, não conseguem vencer a natureza. A velha geração passou grande parte do tempo apanhando sozinha, solitária, sem chances reais de ganhar um título, e só foram se juntar quando já era tarde demais e o físico não funciona mais. A nova geração aprendeu mais cedo. Talvez não funcione, talvez os velhinhos ainda possam nos surpreender. Mas cada vez mais, o Celtics é uma corrida contra o tempo. E, para mim, esse tempo já terminou.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Chamado para a realidade


Assim como o Richard Jefferson, eu também abriria mão de 15 milhões pra não ter 
que ver a Eva Longoria nos treinos do Spurs sabendo que ela não vai dar pra mim


Já comentamos aqui: ninguém deveria ganhar 100 milhões de dólares. Principalmente se for num período tão curto quanto quatro ou cinco anos. É simplesmente errado, não importa qual seja sua profissão: médico, político, bombeiro, salvador de pandas, jogador de basquete. A quantia é completamente fora da realidade, não há nada que um ser humano possa fazer com 100 que ele não possa fazer com apenas 1. O valor é tão exorbitante que acaba gerando aquelas maluquices de sempre: uma dezenas de mansões com milhares de cômodos, e aí a grana absurda para manter cada um desses cômodos limpos; uma coleção de carros milionários, e a grana para mantê-los funcionando mesmo que eles não sejam feitos para enfrentar o trânsito do dia-a-dia e fiquem mofando na garagem. Como diria a Luciana Gimenes, "te dou um dado?": uma grande parte dos jogadores da NBA vai à falência poucos anos após se aposentar, frente à impossibilidade de manter esses padrões de vida tão elevados (Antoine Walker, estou olhando pra você).

Existe também o óbvio absurdo que é um sujeito ter tantos milhões que dá até pra enfiar uma parte na orelha, e outro não ter nem o que comer ou o dinheiro do busão. É vergonhoso e um tanto sujo. Mas a NBA é um negócio milionário em que cada equipe fatura muitas centenas de milhões de dólares por ano com bilheteria, transmissão dos jogos para todo o planeta, propagandas, venda de uniformes, patrocínio nos ginásios, cachorro-quente, cards, figurinhas, videogames. Para onde deve ir todo esse dinheiro? Os engravatados são responsáveis pelas contratações, pela administração, pelas finanças, mas as pessoas consomem a marca NBA para ver os jogadores, um bando de gigantes suados correndo de um lado para o outro tentando encaixar uma esfera laranja num lugar exageradamente alto. É justo, portanto, que ao invés de um bando de gordinhos de terno enchendo ainda mais seus cofres, o dinheiro vá para as mãos dos jogadores, que fazem a parte mais importante do espetáculo.

Mas os tempos são outros. Segundo David Stern, menos da metade dos times da NBA teve, nos últimos anos, qualquer traço de lucro. Estão afundadas em problemas financeiros, contratos absurdos, enchendo os bolsos do Eddy Curry com 11 milhões de verdinhas por ano e perdendo audiência num mercado mundial em crise. Por que louvar tanto Kobe Bryant e LeBron James, alguns perguntam? Porque a NBA perdeu muito público depois da aposentadoria de Michael Jordan, com esses fãs insuportáveis que curtem uma necrofilia e diminuem os jogadores atuais apenas porque supostamente "não podem alcançar o grande mestre". Louvar os melhores da atualidade não é apenas reconhecê-los e lhes dar o lugar que merecem, é também salvar a NBA de uma nostalgia doentia que pode matá-la. Nossa liga favorita, assim como boa parte do mundo capitalista, está em crise. David Stern alega que a NBA, como um todo, terá um prejuízo de 400 milhões de dólares apenas nessa temporada (embora eu chute que 2/3 disso seja culpa do Clippers e o resto seja o contrato do Curry).

Por isso, o sindicato dos jogadores e os engravatados da NBA se unem sempre que um acordo entre eles acaba, geralmente a cada 5 ou 6 anos, para redigir um novo acordo trabalhista. É ele quem estipula o tamanho e a duração dos contratos possíveis, como os contratos funcionam, a porcentagem da grana que pode ser repassada para os jogadores, a progressão do teto salarial de cada equipe, a grana garantida dos novatos. Quando David Stern e os representantes dos jogadores não chegam a um acordo, além de se xingarem de "bobo" e pararem de se mandar cartões de Natal, surge a possibilidade de uma greve. Foi o que aconteceu na temporada de 1998-1999, que teve apenas 50 jogos (um alívio enorme, poderia ter greve todo ano!), já que um acordo entre as partes não foi alcançado.

O atual acordo trabalhista após a greve terá validade até 30 de junho de 2011, ou seja, deixará de funcionar exatamente quando os times poderão assinar Free Agents na temporada que vem. Para garantir que esses jogadores possam ser contratados, um novo acordo deve ser alcançado até lá - ou então nos aproximaremos novamente de uma greve dos jogadores. Durante o último All-Star Game, que é quanto todo mundo está contente demais para perceber que tem algo importante acontecendo nos bastidores, David Stern fez uma proposta para o acordo trabalhista. Detalhes não foram divulgados, mas sabemos que os jogadores e as equipes ficaram ultrajados, putos da vida, negaram qualquer possibilidade de aceitar a oferta, mandaram o David Stern ir empilhar coquinho na descida, e ficaram de devolver uma contra-proposta (algo que aconteceu apenas agora, dia 2 de julho, e da qual não temos quaisquer informações).

Mas o importante para a gente são os boatos sobre a tal oferta ultrajante do David Stern. Aparentemente o teto salarial da NBA, além de diminuir um bocado (algo que quase aconteceu já para essa temporada), ficaria "duro", ou seja, sem as trocentas bilhões de regras e exceções que o Denis explicou tão bem no Bola Presa e que permitem contratações mesmo aos times endividados. Além disso, os jogadores receberiam uma parte menor da grana gerada na NBA, que atualmente é de 57%, garantindo que as equipes tenham dinheiro para tentar driblar a crise. O período máximo dos contratos também seria menor (variando entre 3 e 4 anos, ao invés de ir até 6) e o valor máximo dos salários seria drasticamente diminuído. Esses contratos, aliás, não seriam mais inteiramente garantidos, dando às equipes mais oportunidades para se livrar de jogadores e desfazer cagadas (Eddy Curry!) sem pagar nenhuma multa.

A NBA se tornaria menos bacanuda para os jogadores e é claro que ninguém vai aceitar ganhar menos dinheiro, em contratos menores e mais curtos com menos garantias, sem espernear um pouco contra isso. Mas a situação aconômica legitima a maior parte dessas mudanças, não dá para carinha ficar ganhando 100 milhões numa NBA que só tem prejuizo, e nem para jogador ficar enchendo os bolsos com milhões enquanto está fora de forma, gordo, rolando escada abaixo, comendo frango assado com a mão enquanto senta na privada, suspenso por portar armas, essas coisas. O acordo trabalhista final não deve ser tão radical quanto o proposto por David Stern, mas ele realmente está tentando salvar as franquias delas mesmas, da burrice de seus engravatados, de seus contratos ridículos e da falta de vínculo com a realidade. Cedo ou tarde algumas dessas medidas terão que ser aceitas, e aí os jogadores assinarão novos contratos na temporada que vem em condições muito mais desfavoráveis do que podem assinar agora.

Aí está a razão de alguns jogadores estarem escolhendo encerrar seus contratos monstruosos nessa temporada. Vale mais a pena assinar um contrato novo agora, mesmo que ganhando bem menos, do que ter que assinar um contrato na temporada que vem, em que eles devem ser menores e com menos garantias. Richard Jefferson ganharia 15 milhões de dólares na próxima temporada, um valor surreal que ele não vale nem a pau, mas assim que entrasse em vigor o novo acordo trabalhista, assinaria um contrato menor, mais curto, com as equipes contratando menos gente graças a um teto salarial menor, e talvez seu contrato nem fosse garantido, com ele podendo ser demitido a qualquer momento (algo que teria facilmente acontecido durante sua passagem desastrosa pelo Spurs).

Ao abrir mão de 15 milhões, Richard Jefferson assina um contrato bem longo segundo as regras antigas, garantido, que vai lhe manter por muitos anos a mais, e ainda se aproveita de um mercado inflacionado em que jogadores medianos devem sair bem caros. Afinal, várias equipes estão com espaço salarial para contratar estrelas que eventualmente assinarão com outras equipes, tendo que assinar uns caras mais-ou-menos para não ficar com as mãos abanando. Além disso, sabendo que várias equipes podem contratar estrelas (desesperadas pelos maiores contratos possíveis antes que as novas regras entrem em vigor), os times estão sendo obrigados a renovar o contrato de seus jogadores por preços abusivos e inflacionados para não perdê-los, como foi o caso do Hawks com o Joe Johnson e do Grizzlies com o Rudy Gay.

Esse é o momento perfeito, portanto, para todo e qualquer jogador abrir mão de seu contrato - por mais milionário que seja - e assinar um novinho em folha o mais comprido possível, para garantir o leitinho das crianças (em mamadeiras de diamante, claro). Desse ponto de vista, não é nada estranho ver Richard Jefferson, Paul Pierce e Dirk Nowitzki abrindo mão de seus contratos. Estranho é que o Kobe Bryant tenha extendido o seu na temporada passada ao invés de encerrá-lo e assinar outro com o Lakers, ainda maior e mais longo. Mas com essa extensão acaba com ele ganhando 30 milhões, talvez o Kobe nem se arrependa.

Há uma chance de que o Richard Jefferson consiga um contrato de mais de 10 milhões com algum time desesperado por qualquer jogador para melhorar o elenco, mas mesmo que ele não consiga estará no lucro. É apenas uma questão de pensar a longo prazo, garantindo agora um dinheiro que entre pelos próximos 5 anos ao invés de 15 milhões agora e um futuro completamente incerto. Não é preciso um contrato muito gordo para que ele some mais de 15 milhões nos próximos 5 anos, enquanto nas novas regras que entrarão em vigor seria bem possível que ele perdesse o emprego e não arrumasse um contrato a não ser pelos valores mínimos. Quando se trata de lidar com o próprio contrato, não existem muitos jogadores burros na NBA - e nem jogadores bonzinhos.

Tem muita gente falando da incrível bondade samaritana de Pierce e Nowitzki, que aceitaram contratos um pouco menores do que podiam, supostamente para permitir que mais jogadores sejam adicionados aos seus elencos. Em parte, os dois realmente precisavam perceber que seus contratos são fora da realidade e que não vão vencer sem um banco de reservas mais profundo. Mas o principal é que os dois estão cientes das mudanças que ocorrerão ao teto salarial, de como será mais difícil adicionar estrelas a partir da temporada que vem, e de como terão mais dificuldades em conseguir contratos longos. É melhor topar um dinheirinho a menos agora e garantir um contrato longo. E se querem continuar competitivos, buscando títulos, faz sentido entender que vai ser mais difícil conseguir jogadores de peso daqui pra frente, já que terão que topar menos grana em tetos salariais mais baixos e os jogadores de mais peso já estarão em contratos longos conseguidos às pressas antes das novas regras entrarem em vigor. Ninguém é burro e ninguém é santinho, os jogadores podem chorar que serão prejudicados no novo acordo trabalhista, mas a verdade é que sabem perfeitamente bem a situação econômica em que suas franquias se encontram. Os que se importam em vencer sabem que terão que ser mais flexíveis e topar menores contratos para manter os times competitivos, e os que querem encher o cofre do banco sabem que precisam aceitar os maiores valores possíveis agora, enquanto há tempo.

Nowitzki e Paul Pierce são espertos e realistas. Encerraram seus contratos não para testar o mercado, receber ofertas e flertar com outras equipes, mas sim para assinar contratos longos, estáveis e mais dentro da realidade para garantir seus times no topo. Richard Jefferson não é maluco, não preferiu perder 15 milhões apenas para não ter que lidar com o porre do Greg Popovich (que é chato mas nem tanto assim), ele apenas quer um contrato mais longo que no final das contas vai ser ainda mais lucrativo.

Outros casos iguais devem acontecer, e vamos comentando cada um deles conforme forem surgindo. Também vão pintar trocentos contratos inflados, com os times aproveitando a última temporada com esse alto teto salarial e os jogadores querendo garantir os maiores contratos possíveis, como foi o caso do contrato de Amir Johnson com o Raptors, por exemplo. Como sempre, o Bola Presa fará a análise completa de cada troca ou contratação, mesmo que a gente demore um pouco para poder ir ao banheiro de vez em quando. Mas o importante é lembrar que esse oba-oba de contratações desenfreadas tem data para acabar e por isso todo mundo está correndo para garantir sua fatia do bolo. Se o David Stern estiver certo e algumas de suas propostas forem aceitas, teremos equipes mais comedidas, contratos menores, menos gente apostando em Eddy Currys ou Jerome James. Ou seja, uma NBA mais legal e mais dentro da realidade. Em que o Knicks estará lascado.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O post do título


"I got Wheaties!"


O jogo 7 entre Lakers e Celtics parecia embaçado, difícil de ver, de tão pesado que era o clima dentro de quadra. Nervosismo e tensão não são coisas físicas, mas pareciam ter criado corpo durante o jogo de ontem. Nunca foi tão óbvio ver as emoções dos jogadores. Foi completamente diferente do último jogo 7 que a NBA tinha presenciado, a disputa entre San Antonio Spurs e Detroit Pistons em 2005. A atmosfera do jogo estava tão diferente que até a torcida do Lakers, geralmente blasé, com mais celebridades e ricos do que torcedores e que só pega no tranco, esteve ativa, barulhenta e vibrante desde o primeiro momento do primeiro quarto até o fim do jogo, quando explodiu com a conquista do 16º título da história da franquia.

Esse jogo embaçado, difícil de assistir, fez ele ser percebido de quatro maneiras diferentes:
1- Um jogo histórico e um dos mais tensos da história para os torcedores do Lakers
2- Um jogo histórico e traumático para os torcedores do Celtics
3- Um jogo roubado para os torcedores idiotas que não sabem perder do Celtics
4- Um jogo feio e com muitos erros para quem só estava lá pra ver um jogo de basquete

Eu, torcedor assumido do Lakers, me encaixo no primeiro grupo, mas entendo quase todos os outros. Derrotas assim são traumáticas e o jogo foi cheio de erros, não foi um espetáculo do basquete. Só não aceito dizer que foi roubado. Apesar de alguns erros (para os dois lados, diga-se de passagem), foi a melhor arbitragem desses 7 jogos da final.

A grande polêmica da arbitragem foi que o Lakers bateu 20 lances livres no último período, mas não é que o Lakers ganhava os arremessos toda vez que tentava infiltrar, mal se conseguia penetrar com duas defesas tão apertadas, mas é que o Celtics fez muitas faltas idiotas e já nos primeiros minutos do último período tinha ultrapassado o limite de faltas no período.

Assim até faltas tolas em rebotes viraram lances livres para o Lakers, simples assim. Posso listar várias faltas imbecis que custaram o jogo ao Celtics: o Kobe pegou um rebote de defesa e na queda o Rondo tentou roubar a bola dele, cometendo uma falta completamente imbecil. Em outro lance o Gasol tinha 1 segundo para fazer um arremesso difícil quando o Garnett pulou para o toco e caiu inteiro em cima do espanhol, falta clara que nem o próprio KG reclamou. Em outro momento a defesa inteira do Boston estava no lado esquerdo do Ray Allen, que marcava o Kobe individualmente, então ele dá o lado aberto para o Kobe, que infiltra e sofre uma falta clara do Paul Pierce para evitar a cesta. Após fazer uma boa marcação pressionada o Boston obriga o Gasol a sair driblando do campo de defesa, então Paul Pierce acha que é uma hora de cavar falta de ataque e se joga na frente do espanhol. Sem sucesso. Ele se moveu quando viu que o Gasol passava por ele e o Lakers ganhou mais dois lances livres.


Só nessa sucessão de lances que eu descrevi (e ainda tiveram outros tão idiotas quanto, muitos em rebotes) o Lakers ganhou 8 lances livres. Se o Celtics não tivesse ultrapassado o limite de faltas, teriam sido somente 2. Considerando os 32% de aproveitamento do Lakers nos arremessos, duvido que as jogadas que tiveram falta teriam acabado em cesta.

Já do outro lado o Lakers não deu pontos de graça para o Celtics, fez o time verde merecer cada cesta. Mas aí valeu uma das melhores performances defensivas da história recente do Lakers. Todos os jogadores marcaram muito bem e mesmo trocando a marcação a cada pick-and-roll, os grandalhões seguraram os armadores do Celtics. Nunca havia visto tanta dedicação defensiva do Lakers num jogo, em especial no último período. Também pesou o fato do Celtics ter tomado algumas decisões bastante questionáveis ofensivamente, nem sempre escolhendo o melhor arremesso. E às vezes custou para eles confiar muito nos arremessos e não tentar as infiltrações, partindo para dentro talvez desse para pelo menos arrancar uns lances livres.

Há alguns dias comentei das estatísticas de rebotes e afirmei que venceria os últimos dois jogos o time que vencesse a batalha dos rebotes, era o que essa série estava indicando. E foi assim, o Lakers ganhou com sobra os rebotes nos últimos dois jogos e levou o caneco. Mas no mesmo post eu tinha postado uma outra estatística interessante sobre a defesa do Celtics: Em 20 ocasiões durante a temporada e pós-temporada o Celtics havia segurado seu oponente a um aproveitamento abaixo dos 40% e em todos (TODOS!) os jogos os verdes ganharam. A exceção foi ontem, quando o Lakers venceu apesar de acertar apenas 32% de seus arremessos.


E o Lakers não compensou o aproveitamento baixo com muitas bolas de 3, acertou apenas ridículas 4 de 20 tentativas. Também não foi nenhum espetáculo na linha de lance livre, acertando só 67% das tentativas. Então como conseguiram o milagre de superar uma desvantagem que chegou a 13 pontos na metade do terceiro período? Além da defesa fora de série, foram 37 cobranças de arremessos livres. Mesmo com aproveitamento baixo, foram 25 pontos só nesse quesito. Em um jogo com placar tão baixo (83-79) faz toda a diferença. O Celtics cobrou apenas 17 lances livres (acertou 15) e teve 40% de aproveitamento dos arremessos.

Pode-se dizer, portanto, que no jogo mais nervoso da temporada o Lakers foi nervoso e precipitado no ataque durante boa parte do jogo, mas melhorando aos poucos e nunca nervoso demais na defesa. Já o Celtics foi nervoso e precipitado dos dois lados da quadra. Apenas no começo do terceiro quarto é que atacou com mais calma e paciência, explorando os bons jogos de Garnett e Rasheed Wallace no ataque. Nunca a batida frase "Ganhou quem errou menos" fez tanto sentido num jogo, e olha que eu queria morrer antes de usar essa frase aqui no Bola Presa.


Agora que falamos do jogo, que tal falar de atuações individuais? Há muito a se falar de muita gente nesse jogo 7. Vamos lá:

Kobe Bryant: Como torcedor do Lakers eu já enjoei de ver o Kobe jogar e sempre tenho mais medo do que confiança nele em jogos muito importantes. Não que ele seja ruim em momentos decisivos, longe disso, está mais perto de ser o melhor, mas é que sua cabeça pira antes desses jogos muito esperados. Ele é mortal quando começa os jogos caminhando, tranquilo e vai ficando com cara de assassino durante o decorrer da partida. Quando ele sabe da importância do jogo, tem o hábito de já começar o primeiro minuto de jogo hiper-ativo, assim se cansa mais rápido e, nervoso, toma más decisões durante a partida.

Claro que ele não é um dos melhores jogadores da história à toa, também deu pra enjoar de ver ele começar o jogo como um doido e depois conseguir colocar a cabeça no lugar e voltar a ser o jogador frio e matador que nos acostumamos a ver. Mas de qualquer jeito eu sempre fico com um pé atrás nesses jogos que ele quer vencer tanto, mas tanto, que acaba atrapalhando a si mesmo.

Ontem foi um caso desse e nas entrevistas pós-jogo ele mesmo admitiu que queria tanto vencer o jogo que isso acabou indo contra ele. Não foram poucas as vezes em que ele nem tentou executar uma jogada, apenas driblou em excesso até forçar um arremesso sem direção. Até o seu arremesso estava saindo mais reto e forte que o normal, ao contrário do mais arqueado e suave que ele costuma soltar.

Durante o jogo ele conseguiu colocar um pouco da cabeça no lugar, fez um segundo tempo um milhão de vezes melhor que o primeiro e mesmo fazendo uma das piores partidas de playoff que eu já vi ele fazer, foi decisivo. Quando ele viu que mesmo mais calmo os seus arremessos não estavam caindo, tratou de confiar mais em seus companheiros, passou um pouco mais a bola de lado e ficou buscando situações de infiltração para conseguir faltas. Além disso foi espetacular na defesa marcando Rondo, às vezes correndo atrás de Ray Allen e principalmente ganhando todos os rebotes. Foram 15 rebotes, 11 defensivos e 4 de ataque. Quando alguém ia imaginar 15 rebotes e um aproveitamento de só 6-24 arremessos do Kobe em um jogo assim? É como se o deus do basquete olhasse e pensasse "E se o Lakers tivesse o Ben Wallace ao invés do Kobe, será que eles ganhariam?". Ganharam

Tirando todas as tiradas já antológicas do Artest, o Kobe disse a melhor frase das entrevistas de ontem. Um repórter perguntou qual era o significado pessoal daquele título, ignorando a importância dele para o time. Kobe respondeu sem pensar por mais de um segundo: "Agora eu tenho um a mais que o Shaq". Clássico.

Ray Allen: O Ray Ray é Free Agent ao fim dessa temporada e existe uma grande discussão em Boston sobre se vale a pena ou não manter o veterano. E, se for manter, por qual salário? Ele não deve sair barato. Ao fim do primeiro tempo do jogo 2 da final, quando Ray já tinha 7 bolas de 3 convertidas no jogo, o comentarista e ex-técnico Jeff Van Gundy disse "Se eu fosse do Boston Celtics assinava um contrato novo com ele agora no vestiário". Será? No resto da série ele não conseguiu acertar mais a pontaria e ontem não foi exceção: acertou 3 de 14 arremessos. Se serve de prêmio de consolação, fez um bom trabalho defensivo em cima de Kobe Bryant em todos os jogos.

Pau Gasol: Não foi bem nos lances livres, teve aproveitamento baixo dos arremessos e não fez sua melhor partida na série. Mas quem ousa usar "Gasol" e "soft" na mesma frase de novo? Quando Kobe estava mal o ataque o Lakers confiou nele e ele respondeu sendo a principal arma ofensiva do Lakers no quarto período. E com 9 rebotes ofensivos (mais do que o Celtics inteiro) foi quem deu a maioria das segundas chances do Lakers pontuar. Kobe, ao receber o troféu de MVP das finais (merecido pelo conjunto da obra, não pelo jogo 7, claro) fez questão de agradecer ao espanhol por toda a ajuda.

Rasheed Wallace: Poderia ter sido o herói da noite de ontem. Entrou como titular no lugar de Kendrick Perkins e fez todo mundo voltar a se perguntar pela milésima vez: Rasheed, por que você tem fobia de garrafão quando é tão bom lá? Nunca saberemos. Pecou ao cometer muitas faltas bobas no último quarto, mas fez um bom jogo. Depois do jogo o Doc Rivers disse que acha que esse pode ter sido o último jogo da carreira do grande Sheed.

Lamar Odom: Não jogou bem durante quase toda a série, mas se redimiu com bons jogos 6 e 7. No jogo de ontem foi ele quem me deu esperança de que o Lakers poderia virar mesmo com o Kobe jogando mal. Ele ameaçou tocar para o Kobe numa jogada em que ele sempre passa para o Kobe, aí no meio do caminho desistiu, partiu para cima de Garnett e fez uma bandeja bem difícil. Foi a prova de que o Lakers estava afim de ganhar e não afim de esperar o Kobe ganhar pra eles.

Paul Pierce e Rajon Rondo: Mesmos comentários para os dois. Até que foram mais frios que o resto dos jogadores em quadra ontem, mas os dois também entraram na onda das faltas bobas no meio do quarto período quando era hora de tomar cuidado e não mandar o Lakers para a linha de lance livre. Os dois também tinham que ter liderado o ataque do time quando este estagnou em pontos. Foram bem, mas não o bastante.

E finalmente... Ron Artest: Contei essa história um tempo atrás e bastante gente lembrou dela ontem no Twitter. Em 2008, logo após o jogo 6 da final quando o Lakers perdeu para o Celtics, o Ron Artest, ainda jogador do Sacramento Kings, invadiu o vestiário do Lakers, foi até o Kobe e disse "Eu ainda vou te ajudar a ganhar um título". No ano seguinte ele acabou trocado para o Rockets, mas depois, finalmente, foi para o Lakers e cá está ele, campeão ao lado de Kobe e justamente contra o mesmo Celtics.

A atuação do Artest durante a série e durante todos os playoffs (para não dizer a temporada toda) foi bem irregular. Mas nos momentos decisivos ele estava sempre lá fazendo a coisa certa. Quando o Thunder complicou com o Lakers na primeira rodada ele estava lá para anular Kevin Durant, quando o Suns ameaçou na final do Oeste ele apareceu com a cesta decisiva no jogo 5 e trocentas bolas de 3 no jogo 6.

Na final foi a vez de marcar Paul Pierce como eu nunca tinha visto alguém defender. Foi bem durante toda a série, mas nesse jogo 7 foi especial, não desgrudou do ala do Celtics por um segundo e não deixou que ele desse um único arremesso fácil. Os pontos que ele fez foi por mais puro merecimento, porque o Artest estava lá com a mão na cara, roubando bolas, atrapalhando, sendo um pentelho. Posso dizer com certeza e sem nenhum exagero por torcer para o Lakers que foi uma das mais brilhantes atuações individuais na defesa que eu já vi na minha vida.

Só por isso ele já teria sido o melhor jogador em quadra. Mas calhou dele marcar 11 pontos só no segundo período, quando mais ninguém conseguia um pontinho sequer no Lakers. Depois ainda fez mais no terceiro quarto quando o Lakers começou a reação para cortar os 13 pontos de diferença e, para terminar, fez uma bola de 3 surreal (com direito a beijinhos para a torcida depois do acerto) como resposta a uma outra bola de 3 dificílima que o Rasheed Wallace tinha acabado de acerta no minuto final de jogo.

E como se não bastasse ser o melhor em quadra, foi o melhor fora dela também. Logo depois do jogo ele foi entrevistado pela repórter Doris Burke da ESPN e ao invés de responder às perguntas delas, abraçou-a e começou a agradecer pra todo mundo. A mulher, os filhos, a família, aos camaradas da quebrada e, a jóia da coroa, a sua psiquiatra! Que outro jogador da história da NBA seria capaz de agradecer à psiquiatra depois do título que não fosse o Ron Artest? Depois ainda anunciou que sua carreira de rapper continua, agora vai lançar uma música escrita há um ano chamada "Champion".


Mas era só o começo! Depois teve a entrevista coletiva, que começou com ele gritando e vibrando "Eu tenho Wheaties!", fazendo referência à caixa de cereais que estava sobre a bancada da entrevista. O Wheaties é um cereal matinal conhecido por ser "o café da manhã dos campeões" e por estampar sempre grandes atletas nas suas caixas.

Depois ele ameaçou ir embora porque as pessoas que estavam lá não pareciam animadas como ele. Aí chamou a família inteira para acompanhá-lo e apresentou todo mundo um por um, dedando, no caminho, os familiares que estavam felizes por ter acabado de conhecer o Kobe. Então ouviu a primeira pergunta, falou sem parar e disse "esqueci completamente qual era sua pergunta". E prosseguiu falando sobre qualquer coisa que viesse à sua cabeça.

Em um dos trechos mais legais da entrevista ele faz uma declaração de amor ao Jeff Foster! Sim, aquele pivô branquelo que pega muito rebote ofensivo no Pacers. Ele disse que aquele cara faz qualquer coisa pelo time. O Artest chegou no assunto quando disse que tinha sido muito egoísta e infantil no começo da sua carreira e tinha perdido uma grande oportunidade de ser campeão naquele time que tinha Jamaal Tinsley, Stephen Jackson, Jermaine O'Neal, Jeff Foster e o próprio Artest. Contou que se sente mal até hoje quando encontra os ex-companheiros porque acha que ele mesmo estragou a chance dos outros de ganhar um anel de campeão. Por isso não acreditava que teria outra chance e que não poderia desperdiçar a chance quando teve.

Assistam a uma das entrevistas mais fantásticas que você vai ver depois de um título. E, sem dúvida alguma, a mais maluca.


Qual foi a sua cena favorita? A minha foi no final quando ele comenta sua bola de três no final do jogo dizendo "O Kobe me passou a bola! Ele nunca me passa a bola. Uhu! Kobe me passou a bola". E completa com "Eu podia ouvir o Phil Jackson dizendo para eu não chutar. Ele é o Zen Master, ele fala no seu ouvido de longe, eu podia ouvir ele dizendo 'Ron, não chute, não chute'. Mas eu disse, tanto faz, arremessei e acertei".

Sasha Vujacic: Jogou 4 minutos e acertou dois lances livres decisivos. Você está na história, The Machine!

O resultado da promoção das Finais sai amanhã, sábado!