Mostrando postagens com marcador LeBron James. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador LeBron James. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Miami Heat, o retorno

Monstro de três cabeças

Antes da temporada passada começar, muito se especulava sobre como seria o Miami Heat de LeBron, Wade e Bosh. A equipe parecia estar investindo todas as fichas no que podemos chamar de "modelo Celtics": juntar três estrelas, colocar todo o foco na defesa, deixar que se virem como bem entenderem no ataque, e tapar os buracos da equipe com pivetes ou jogadores veteranos dispostos a receber salários minúsculos pela chance de ganhar um título. No caso do Celtics, a pivetada deu muito certo (Rondo, Perkins) e os vovôs continuam topando a brincadeira até hoje (Shaquille O'Neal ficou até onde deu, Jermaine O'Neal deve fazer o mesmo).

O modelo parecia perfeito para o Heat imitar, LeBron e Wade só falavam em defesa durante os primeiros treinamentos com o técnico Erik Spoelstra, o time apostou em um pirralho na armação (Mario Chalmers) e um no garrafão que só sabia defender (Joel Anthony), e os veteranos se acotovelaram pela chance de jogar: passaram pelo Heat em seu primeiro ano vovozinhos como Jerry Stackhouse, Ilgauskas, Dampier, Juwan Howard, Mike Bibby, Jamaal Magloire, Mike Miller e Eddie House (esse último, aliás, havia participado também desse modelo no Celtics). Não dava pra culpar o Heat, copiaram um modelo recentemente vencedor e, por não serem um grande mercado na NBA, aproveitaram o fato de que o Wade trouxe seus amiguinhos para finalmente se tornar um lugar interessante para jogadores veteranos. Afinal, como fica bem fácil de perceber, jogadores bons e velhos querem jogar em equipes boas, não nas franquias mais famosas.

O problema é que nenhuma cópia sai exatamente como o original, e já no primeiro mês de temporada dava pra ver os deslizes do projeto. O primeiro, e mais sério, era que a defesa simplesmente não funcionava como deveria. Contra equipes mais fracas, a defesa era sufocante e vencia o jogo sozinha como esperado, mas contra equipes dispostas a rodar a bola, atacar o garrafão, ou com pivôs um pouco mais competentes do que o normal, a defesa não conseguia acertar a rotação, cometia erros bobos, batia cabeça e acabava se frustrando, tentando tanto roubar bolas que acabava deixando jogadores completamente livres quando os roubos não aconteciam. No ataque a coisa também era bastante bagunçada e o time foi alvo de críticas, especialmente com aquele papo de que "não tem na equipe um armador de verdade pra botar ordem na casa". Na prática, o ataque do Heat era tão organizado ou mais do que aquele do Celtics que foi campeão em 2008, justamente porque jogadores tão talentosos sempre dão um jeito de pontuar mesmo que seja na marra - por isso o foco das duas equipes sempre foi na defesa e há um desdém de ambos com relação à parte ofensiva.

Mas o técnico nerd Erik Spoelstra resolveu não deixar o ataque à deriva. Com seus bilhões de números e estatísticas, constatou que o Heat usava sempre as mesmas jogadas no ataque e que eventualmente isso seria um problema. A solução que ele propôs é um tanto videogame: sempre que o Heat tivesse sucesso na defesa, conseguindo um roubo de bola, um toco ou um rebote defensivo, o ataque poderia fazer o que bem entendesse; mas toda vez que o Heat levasse uma cesta era obrigado a seguir uma das jogadas "não-convencionais" que o Spoelstra havia desenhado para variar o ataque. A tática deu certo o bastante, afinal o Heat chegou a uma Final de NBA, mas ela tem vários problemas. Primeiro, ela assume que os problemas defensivos do Heat eram uma questão de comprometimento, não de posicionamento e entendimento da função de cada um em quadra. Depois, ela arrancou completamente pela raíz a espontaneidade do ataque da equipe. O sucesso que o Heat tinha com jogadas de velocidade ou um pick-and-roll simples era imenso, mas nos momentos de aperto cansei de ver a equipe se embananando toda tentando colocar em prática alguma movimentação do Spoelstra na linha de fundo da quadra. LeBron James passou boa parte da série contra o Mavs, na Final, acionando Chris Bosh para arremessos de média distância - em parte porque o garrafão do Mavs intimidava qualquer infiltração, é verdade, mas em parte também porque não tinha permissão para jogar na velocidade como bem entendesse. Os contra-ataques com LeBron e Wade são fulminantes, eles adoram, se divertem, fazem dancinhas, mas são muito raros numa equipe que poderia fazer isso o tempo todo se quisesse. A equipe tentou tomar para si uma identidade que não lhe correspondia. E até que simulou razoavelmente bem esse papel, uma Final de NBA não cai no colo de ninguém, mas em nenhum momento pareceu algo natural, orgânico. Os jogadores foram tirados de sua zona de conforto, do modo em que renderiam mais, e com isso tiveram dificuldades em contribuir em algumas situações.

No ano passado, escrevi sobre a diferença entre essência e aparência na hora de definir a posição de um jogador, e para isso usei uma cena do Chaves que infelizmente foi tirada do ar. Coloco um vídeo similar abaixo para retomar aquela ideia:



Tem jogador que parece de tamarindo e tem jogador que é de tamarindo, como saber a diferença? Definimos uma coisa pelo modo que ela se apresenta a nós, por como nos parece, ou há um modo de descobrir o que ela verdadeiramente é, além das aparências? Essa questão filosófica é importante para nós graças a dois jogadores: LeBron James e Chris Bosh. Ambos parecem alas: LeBron é alto, forte, gosta de infiltrar e é pontuador; Bosh é magro, fisicamente fraco, e sempre se lesionou tendo que jogar de pivô no Raptors. Na essência, naquilo que eles verdadeiramente são, embora o Bosh seja considerado um ala de força exatamente como ele aparenta (mesmo tendo jogado de pivô improvisado no Raptors por toda a carreira), considero LeBron um armador puro (como jogava no colegial, e assim que entrou na NBA) e não um ala como insistem para que ele seja.

LeBron foi o armador principal do Heat na maior parte da temporada, com Mario Chalmers ou Mike Bibby em quadra apenas para marcar o armador adversário na hora de defender, e para arremessarem de três pontos na hora do ataque tendo em vista a falta de arremessadores que o Heat tem (e a inconsistência de LeBron e Wade na função). Armando, LeBron teve alguns problemas para manter o esquema semi-rígido do técnico Spoelstra, muitas vezes tendo que se conter ou se limitar no ataque para cumprir as jogadas estabelecidas. Por outro lado, LeBron simplesmente desapareceu nos momentos em que a armação foi passada para outra pessoa e teve que jogar de ala. Quando LeBron e Wade revezaram a armação, com um fazendo corta-luz para o outro na cabeça do garrafão, foi tudo fantástico, mas com LeBron isolado no perímetro o negócio desandou. Está na hora de admitirmos que LeBron é o armador dessa equipe - talvez até deixando que ele finalmente marque o armador adversário, agora que Shane Battier pode garantir a marcação na ala - e que está tudo bem ele assumir essa função. Como comentamos anteriormente, grande parte dos problemas do Heat na temporada passada foram tentar ser um time que eles não eram.

O caso do Bosh, no entanto, é mais complicado. Depois de uma vida inteira como pivô improvisado (e de uma franquia que se destruiu tentando conseguir pivôs melhores para deixar que sua estrela fosse para a ala, onde queria), finalmente Bosh conseguiu jogar como ala de força no Miami Heat. Em geral o pivô foi Joel Anthony, que todo mundo adora dizer quão ruim é mas que na verdade está no topo da NBA naquelas estatísticas difíceis de contabilizar e que ninguém dá a mínima, como sucesso no corta-luz, proteção nos rebotes (box-out), faltas de ataque sofridas, etc. Bosh conseguiu então realizar seu sonho e jogar longe da cesta, marcar jogadores mais fracos e usar mais seu arremesso - e foi um fracasso. O arremesso do Bosh é ótimo, mas não tão bom quanto seus movimentos embaixo da cesta; sua velocidade na defesa não fica tão evidente contra jogadores mais ágeis e que jogam mais fora do garrafão; sua capacidade de bater para dentro do garrafão no ataque fica diminuída enfrentando alas, mais capazes de acompanhar sua velocidade. Descobrimos que o Bosh só era genial (e sim, ele foi absurdamente genial nos seus tempos de Raptors) porque era rápido, leve, ágil e inteligente contra pivôs grandões e descoordenados.

A parte legal é que o Bosh percebeu tudo isso. Recentemente alegou que ter arremessado abaixo de 50% (teve 49% de aproveitamento na última temporada) e ter conseguido menos de 10 rebotes (foram 8) é algo inaceitável para ele, que ele tentou fugir de ser pivô e que isso sempre volta e pega ele de algum jeito, então que para essa temporada resolveu fazer diferente: adicionou 5 quilos de massa muscular durante a greve e está decidido a ser o pivô da equipe sempre que necessário. Isso é ótimo porque Udonis Haslem volta da contusão que lhe tirou quase toda a temporada passada, e os dois tem tudo para serem muito melhores juntos do que qualquer outra dupla de garrafão do Heat.

No caso do ataque pouco orgânico do Heat e do LeBron contido na armação, Spoelstra também percebeu o problema e oficialmente tirou as amarras. Não haverá mais jogadas chamadas pelo técnico, eles não terão a obrigação de fazer jogadas específicas caso sofram cestas, não terão que evitar as jogadas mais eficientes apenas para "não usá-las demais". Bosh, Wade e LeBron deram entrevistas dizendo que o ataque será livre, que seguirão o ritmo natural do jogo e usarão a experiência e a inteligência que possuem para fazer o que acharem melhor. Claro que com o foco na defesa, agora com mais tempo para que ela bata menos cabeça. É o "modelo Celtics", agora livre e solto, com permissão para correr a quadra e jogar no contra-ataque como todo mundo pensou que eles fariam. E com o Bosh de pivô se precisar, enfim.

E como o "modelo Celtics" não está completo sem veteranos topando a brincadeira, vamos seguir nossa análise das contratações da offseason e dar uma olhada em como os recém-contratados se encaixarão no Heat:

Mario Chalmers
Miami Heat - 12 milhões por 3 anos

Volta para o Heat o armador que não precisa quase nunca armar o jogo, mas cujo arremesso de três é muitas vezes o desafogo da equipe. Com LeBron e Wade sendo tão bons na infiltração, faltou para o time na temporada inteira uma bola consistente de três pontos para abrir espaço no garrafão. Mike Miller chegou à equipe só para isso, passou boa parte da temporada contundido e aí quando finalmente jogou, fedeu. Chalmers não é o melhor arremessador disponível, mas criou fama como o cara cheio de bagos que converte os arremessos de três nas horas mais importantes, e o Heat precisa disso. Quer dizer, é meio bizarro ter LeBron, Wade e Bosh e acabar passando a bola importante para o Chalmers, mas não deveria ser vergonha pra ninguém, o Super Mario Chalmers merece.

Shane Battier
Miami Heat - 20 milhões por 4 anos

A melhor contratação que o Heat poderia fazer na história da humanidade conhecida. Shane Battier é o cara que torna um time bom em um time fantástico, é a peça que falta em qualquer equipe que esteja às portas de ganhar um título. Assisti a ele desperdiçar seus talentos no meu Houston Rockets porque, olha que estranho, o Houston realmente achava que dava pra vencer um titulo e por isso seguraram o Battier a todo custo (aliás, ao custo do Rudy Gay, mas isso é outra história). Battier ainda é um dos melhores defensores de perímetro da NBA, é um ótimo defensor no garrafão, o melhor da liga em cavar faltas de ataque, é tão obediente taticamente que fica até chato, e ainda não compromete no ataque - tem um ganchinho confiável e uma bola de três pontos mortal na zona morta. O Heat finalmente terá uma bola da zona morta para acionar depois das infiltrações de Wade e LeBron, e nenhum dos dois terá que se matar parando a estrela adversária. Colocando Wade, LeBron e Battier em quadra (com LeBron jogando de armador, como deve ser), o perímetro fica espetacular; mas dá pra colocar o Battier de ala de força com o Bosh de pivô dependendo do adversário. Defende, joga várias posições e acerta bolas de três pontos, é tudo que o Heat precisava da vida. E o Celtics. E o Mavs. E o Lakers. E o...

James Jones
Miami Heat - 6 milhões por 3 anos

A necessidade que o Heat tem por arremessadores é enorme. LeBron e Wade nem arremessavam uns anos atrás, melhoram a cada temporada, e na última melhoraram o aproveitamento na marra, porque as defesas fecham o garrafão e deixam os dois chutarem. O problema é que com tanto espaço para o arremesso de três, faltam no Heat especialistas. O James Jones é tão especialista, mas tão especialista, que levou meses na temporada passada para fazer seu primeiro ponto dentro do garrafão. Ou seja, faz aquilo que precisa. Seria péssimo para o Heat perdê-lo, não existem muitos arremessadores disponíveis no mercado por um preço bacana, e o James Jones acabou saindo a preço de banana.

Eddy Curry
Miami Heat - 1 ano, 1 milhão

Como sabemos, o fato de que o Eddy Curry perdeu 30 quilos (trinta!) para jogar pelo Heat acabou mudando a estrutura do espaço-tempo e quase fez com que a temporada não acontecesse! O Curry já foi um jogador relevante, é muito sólido atacando embaixo da cesta, muito técnico, e muito, muito, muito gordo. Recebeu um contrato bilionário no Knicks mas nunca conseguiu ficar em forma, teve problemas pessoais bizarros (de assédio sexual a homicídio na família), foi ficando uma bola e então finalmente saiu da órbita da Terra, girando ao redor do planeta como uma lua pequena. Nos seus bons tempos era bom no ataque, ruim na defesa, e um dos piores reboteiros a já jogar basquete. O Heat tem problemas sérios com rebotes defensivos (especialmente com o Bosh jogando longe da cesta como ala de força, e com o Haslem machucado), então o Curry não acrescenta muito. Só é legal de ver um cara tentando retomar a carreira, correndo as tripas para fora, perdendo tanto peso e conseguindo um lugar numa equipe como o Heat. Na falta de gente de garrafão, terá sua chance. O problema é que não garantirá rebotes nem acompanhará a velocidade dos contra-ataques. Se estiver bem fisicamente, no entanto, é sempre uma ajuda nem que seja para fazer faltas no Dwight Howard. Vale também lembrar o quanto já zoamos o Zach Randolph por ser gordo e hoje em dia ele é tão bom reboteiro que parece ter cola nas mãos. Aliás, o Randolph também andou perdendo peso e até pegando umas ponte-aéreas nos treinos do Grizzlies. Se o Curry fizer isso também, aí já era a nossa temporada, o espaço-tempo, vai ter greve mundial dos seres humanos e a Lua vai se chocar contra a Terra.

domingo, 9 de outubro de 2011

8 ou 80: Eficiência e tipos de arremesso - Parte 3

Por algum motivo Kevin Martin cobra muitos lances livres


Chegamos à parte final desse especial sobre diferentes tipos de arremesso na última temporada da NBA. Até agora vimos os mais eficientes, os menos eficientes e os que mais tentam arremessos como bandejas e enterradas (na Parte 1) e arremessos de média e longa distância (na Parte 2). Hoje é dia de lances livres e de um ranking geral. Afinal, quem são os pontuadores mais eficientes da NBA?

Lembro mais uma vez que todo o crédito para essa série de textos é de um blogueiro gringo chamado Evanz, do Golden State of Mind, um blog especializado no Golden State Warriors. O cara teve o saco e a capacidade de analisar toneladas de dados e criar fórmulas complexas (e inteligentes) de analisar as estatísticas. Legal que ele percebeu muitos leitores vindos por links daqui e chegou a nos mandar uma mensagem pelo Twitter agradecendo a divulgação do trabalho dele. Pra quem torce para o Warriors e quiser acompanhar, o twitter dele é o @thecity2

A conta para dar o valor aos melhores e mais valiosos arremessadores de lances livres leva em conta os seguintes critérios: (1) média de lances livres tentados e aproveitamento da posição do jogador a cada 100 posses de bola, (2) arremessos tentados e convertidos pelo jogador a cada 100 posses de bola e (3) quantidade e aproveitamento do jogador em lances livres em situações de falta-e-cesta.

Vamos para a lista. Lembrando que PSAMS é o número resultante da conta que leva em conta os termos que a gente explicou acima.


O Kevin Martin leva essa com muita, mas muita facilidade. O número dele é tão impressionante que vocês verão mais tarde que ele entra na lista de pontuadores mais eficientes da NBA basicamente só pelo que ele conquista nesse quesito. Para se ter uma ideia, K-Mart chuta 12.2 lances livres a cada 100 posses de bola, a média de jogadores da sua posição, a de shooting-guard (2), é de 4.4! E o aproveitamento médio da posição é de 80%, o dele é de 89%. Sem contar que consegue uma jogada de falta-e-cesta 0.85 vezes a cada 100 posses de bola, número não muito distante de caras como o Dwyane Wade com seu ótimo 1.1.

A lista em geral não tem grandes surpresas porque sabemos quem são os jogadores que mais batem lances livres e qual seu aproveitamento, mesmo colocando novos elementos na conta os resultados não mudam tanto assim. Mas surgem umas surpresas escondidas no meio: Danilo Gallinari até uma temporada atrás era criticado por ser só um arremessador de três, hoje ele está aí empatado com o Manu Ginobili justamente porque passou a atacar mais a cesta e sofrer faltas no processo. Claro que o argentino tem mais situações de falta-e-cesta, sua marca registrada, mas o ala italiano do Nuggets consegue hoje em dia ir com regularidade para a linha do lance  livre.

Entre os 20 primeiros apenas quatro jogadores tem aproveitamento menor que 80% nos lances livres: Amar'e Stoudemire, Brook Lopez, Dwyane Wade e LeBron James. Eles compensam com quantidade de tentativas e jogadas em que convertem a cesta e sofrem a falta, mas dá pra imaginar como seriam eficientes se acertassem mais as muitas chances que tem? E em uma lista dominada por jogadores de perímetro é legal ver o Brook Lopez como primeiro pivô na 11ª posição. Esse especial serviu para entender melhor porque o Lopez é esse jogador que ninguém sabe direito o que achar ou esperar, em algumas coisas ele é ótimo, um dos melhores, em outras beira o ridículo.

E para quem comentou que o Nenê está bem na fita nessas listas, ele está em 25º na dos lances livres. Realmente o brasileiro é um pontuador bem eficiente, o que nos faz questionar porque ele é às vezes tão apagado nos jogos. No Nuggets do fim da temporada não era estranho ver ele ser apenas o quinto jogador com mais arremessos no time. Muita coisa disso é carma de pivô, que sempre é esquecido pelos outros jogadores, mas também pela postura às vezes passiva e de role-player assumido que o brasileiro toma.

Abaixo o show de horror, quem são os 10 piores titulares na lista de lances livres?


Surpresa seria o Rajon Rondo não estar no topo da lista. Mas que tal ele estar quase com o dobro de pontos negativos do segundo colocado? Uau! Não é à toa, ele tenta apenas 2.7 lances livres a cada 100 posses de bola e quando vai arremessar esses raros lances acerta só 55% deles. Ele é uma síntese asquerosa de todo o resto do Top 10 que tem jogadores que não atacam a acesta (Battier, Kidd, Bibby, Bogans, Thomas) e jogadores com aproveitamento pífio de lances livres (Martin, Bogut, Biendris, Wallace).

Abaixo o Top 10 com os melhores reservas:


O Corey Maggette só está na NBA há tantos anos porque sabe cavar faltas e tem um bom aproveitamento de lances livres. E eu não exagero quando uso esse "só" na frase. O resto do seu jogo é ultrapassado, comum ou simplesmente ruim, mas ele consegue muitos pontos fáceis no lance livre e complica o outro time em faltas, aí algumas equipes acabam dando contrato pra ele. Com esse PSAMS de 3.21 ele seria o 3º colocado na lista geral dos titulares, atrás apenas dos Kevins, Martin e Durant.

Falando em Durant, o terceiro da lista é seu companheiro de time James Harden. Comentamos muitas vezes aqui no ano passado que um dos motivos do Oklahoma City Thunder ser tão bom no ataque era o número e o aproveitamento de lances livres, as boas colocações de Durant, Harden e Russell Westbrook comprovam a tese. A lista dos reservas é praticamente inteira formada de jogadores que entram com a recomendação de "ataquem a cesta como se não houvesse amanhã", em geral caras que tem esse talento de infiltração mas pecam em outras áreas do jogo.

Para ver os números com mais detalhes e as listas divididas por posição é só conferir esse link do Golden State of Mind.

Depois de tantas contas complexas e números bizarros, finalmente uma conta para o nosso nível de matemática de primário. Para eleger os pontuadores mais eficientes da NBA como um todo apenas se somou o PSAMs (resultado das contas esquisitas) de cada quesito.

Na lista estão presentes as cestas próxima a cesta (INS), chutes de meia distância (MID), três pontos (3PT) e lances livres (FT).


E deu o campeão Nowitzki. Mas ninguém é perfeito mesmo, são pouquíssimos os jogadores dessa lista que não tem pelo menos uma nota negativa em alguma coisa. Na verdade são apenas cinco: Paul Pierce, Al Horford, Stephen Curry, Steve Nash e, surpresa, Brook Lopez.

O Nowitzki conseguiu o seu diferencial na lista ao virar o único mestre supremo do universo em arremessos de meia distância, ao mesmo tempo ainda é levemente eficiente nos 3 pontos e continua cobrando lances livres. LeBron James é o segundo com o seu arsenal completo que já conhecemos, incluindo aí o melhor arremesso de meia distância entre os small forwards. Peca mesmo apenas nas bolas de três pontos. Engraçado é o Kevin Martin em 3º com quase todos os seus pontos vindo dos lances livres, um absurdo, sem dúvida o pontuador mais chato de se assistir na NBA.

A lista consagra alguns nomes que todo mundo já sabia que poderia pontuar de tudo quanto é jeito, como Pierce e Durant, mas tem também caras como Nenê e Stephen Curry no Top 10 e Al Horford logo depois em 11º. São jogadores que jogam bem, são reconhecidos, mas não são as primeiras opções ofensivas de suas equipes.

A impressão que dá é que o Nuggets deveria ter usado mais o seu pivô, posição que hoje em dia tem poucos pontuadores eficientes, e Warriors e Hawks deveriam segurar mais o ímpeto de Monta Ellis e Joe Johnson em prol de seus jovens e eficientes jogadores. Mas a coisa não é tão simples assim, não é só tocar a bola para outro jogador. Hawks e Warriors sofrem de más decisões ofensivas e Ellis e JJ são apenas escapes que usam seus talentos individuais para compensar um sistema pouco eficiente; o que os técnicos desses times precisam entender é que eles não podem ter um ataque típico de times sem talento quando tem dentro do elenco caras tão bons quanto Steph Curry e Al Horford. Na pior da pior das hipóteses esses dois devem compartilhar os arremessos ruins. Outro destaque é a presença de Tyson Chandler fechando o Top 20, mostra que para ser um dos mais eficientes não precisa ser um grande cestinha. Mas claro que ele foi beneficiado porque as médias de tentativas e de aproveitamento dos outros pivôs da NBA não são grande coisa hoje em dia.

O legal dessa lista não é o ranking em si, isso é secundário, questionável, o legal mesmo é ver como ela mostra perfeitamente como cada jogador marca os seus pontos. O Chauncey Billups está muito bem em 10º lugar, mas com números bem ruins em pontos próximos à cesta e de meia distância, o armador do Knicks consegue seus pontos em bolas de três pontos e lances livres. Ele é um caso raro de jogador que mesmo sem ser uma grande ameaça nas infiltrações consegue cavar faltas com regularidade, resultado do seu bom jogo de costas pra cesta contra outros armadores e uma das melhores fintas em arremessos.

Outro caso interessante de analisar é o de Kobe Bryant, 13º da lista. A cada ano que passa ele tem menos pontos próximos à cesta (praticamente não fez um ponto em bandejas ou enterradas na série contra o Mavs) e cada vez mais tenta bolas de 3 pontos. Isso se chama frustração. Ele não tem mais o físico para costurar defesas fortes e precisa compensar com arremessos de longe. Kobe ainda é muito bom nos de meia distância e em seus dias mais inspirados pode decidir jogos com as bolas de longe, mas em geral, ao longo de toda a temporada, os seus chutes de longe são resultado de frustração por não conseguir arremessar dos lugares onde ele quer e de onde ele conseguia quando era um pouco mais jovem.

Abaixo a lista com os pontuadores menos eficientes entre todos os titulares da NBA:


Poxa, pessoal, não é só porque vocês são a nata defensiva da NBA que precisam ignorar o fato de que existe ataque no basquete! Mas tudo bem, em alguns casos não é nem culpa dos jogadores. Caras como Thabo Sefolosha, Luc Mbah a Moute e Keith Bogans são conscientemente excluídos do ataque de suas equipes e ficam com poucos pontos no ranking por tentar poucos arremessos ao longo dos jogos. Já Andrew Bogut paga o preço de tentar resolver sozinho e com jogadas individuais um dos ataques mais toscos da NBA, o do Bucks. O pivô australiano é bom, mas não é um gênio para carregar times ruins nas costas. Assim como ele precisou de um técnico especialista em defesa para virar um dos melhores bloqueadores da liga, precisa de alguém que desenhe boas jogadas para ele ser mais eficiente.

É triste ver Jason Kidd nessa lista, mas existe um bom motivo. Um dos princípios dessa lista era comparar o número de arremessos tentados em média por jogadores de cada posição, quem chutasse menos, na maioria dos casos, era punido por isso. Jason Kidd não só nunca foi muito de arremessar, prefere o passe, como também vive hoje uma era de armadores pontuadores. Não basta fazer poucos pontos, o armador do Mavs é comparado a Derrick Rose, Deron Williams, Russell Westbrook, Brandon Jennings, Tony Parker e outros que fazem 20 pontos em um jogo sem precisar suar muito a camisa. A lista tenta medir o quanto cada jogador é bom em fazer pontos, e nisso o Jason Kidd é realmente ruim, mas não quer dizer que ele não saiba compensar com muitas outras coisas.

A lista dos 10 melhores reservas tem Marcin Gortat (devo meu título do Fantasy do Bola Presa a esses números!), Corey Maggette (que tem números negativos em tudo, menos lances livres), Gary Neal, George Hill, Louis Williams, Hakim Warrick, Kyle Korver, Jason Terry, Thaddeus Young (o líder da liga em pontos próximos à cesta) e, para minha surpresa, Reggie Williams, discreto ala do Warriors.

Os piores reservas são liderados por um conhecido de quem acompanhou de perto a temporada do Lakers, Steve Blake. E tem além dele Earl Watson, Al-Farouq Aminu, Corey Brewer, Donte Greene, Vlad Radmanovic, Al Harrington, Rudy Fernandez, Joel Anthony e Brandan Haywood. Alguns nomes a gente desculpa, mas o que Vlad Radmanovic e Al Harrington tem a contribuir com um time de basquete se não sabem pontuar com eficiência?

Para as listas completas e divididas por posição, acesse a página do Golden State of Mind.
Agradeço a paciência de todos que não são tão fãs de números como eu. Os insatisfeitos podem continuar nos ajudando ao recomendar temas para posts nos comentários!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

8 ou 80: Eficiência e tipos de arremesso - Parte 2

Nowitzki deveria ser o único jogador do mundo a poder arremessar dessa posição


Essa é a segunda parte de um especial de estatísticas sobre diferentes tipos de arremesso e quem são os jogadores mais eficientes em cada um deles. Na parte 1 analisamos os arremessos próximos ao aro e os dividimos em enterradas, bandejas, tapinhas e ganchos. E agora na parte 2 vamos falar de arremessos de média distância e chutes de 3 pontos.

Como informado na primeira parte, todos os dados foram computados pelo pessoal do Golden State of Mind, blog gringo sobre o Golden State Warriors. Ele usou dados do HoopData e dos play-by-play das partidas da última temporada para elaborar a lista.

Comecemos com as bolas de 3 pontos. A conta usada pelo pessoal para elaborar a lista é confusa, mas com um bom propósito. Leva-se em conta quatro coisas: (1) o número de arremessos de 3 pontos tentados pelo jogador,  (2) o número de arremessos tentados por jogadores da mesma posição, (3) a comparação de aproveitamento do jogador em relação a outros da mesma posição, e (4) a média do jogador em comparação ao resto da liga em aproveitamento geral de arremessos, o eFG%.

Finalizando a parte chata de entender, o eFG% é o "Effective Field Goal Porcentage", um número que tenta nivelar o nível de aproveitamento de arremessos entre os jogadores que arremessam mais de 3 pontos e os que chutam mais de 2. Explico: Um jogador finaliza um jogo com 4/10 arremessos sendo dois deles de 3 pontos, outro jogador acaba com 5/10 só em dois pontos, ambos fizeram 10 pontos em 10 arremessos e assim acabam com um eFG% de 50%. O importante é tentar entender que é uma lista que se esforçou para igualar as situações diferentes e as posições distintas que cada jogador atua e ver quem, no fim das contas, consegue ser mais eficiente nos arremessos de longe.

A primeira lista é a dos titulares, logo em seguida a dos melhores reservas. E não esqueçam, "PSAMS" é o número que define a lista, é o resultado da conta comentada acima.



Interessante ver que o Mike Bibby contando apenas os seus números no Atlanta Hawks acabou em 1º lugar, mas sabia que se contasse os números no tempo de Heat (não teve jogos o bastante para entrar na lista) ele também seria o líder? Isso faz a gente duvidar um pouco da conta, porque vimos que o Bibby jogou mal, mas na frieza dos números ele teve o melhor aproveitamento de três pontos na carreira na última temporada! 44% no geral, 45% só no tempo de Heat. Pode ter jogado mal em todas as outras áreas, errado os arremessos mais importantes, mas no geral fez o que foi pedido: acertou bolas de longa distância melhor do que ninguém.

O resto da lista surpreende pouco, Ray Allen e Chauncey Billups estão entre os melhores arremessadores da NBA faz tempo, não importa que conta tentem fazer para medir. Outros jogadores são reflexos e ao mesmo tempo responsáveis por equipes que na última temporada fizeram a festa da linha dos 3 pontos, como Spurs (com Richard Jefferson, Matt Bonner e Gary Neal) e Warriors (com Reggie Williams, Vlad Radmanovic e Steph Curry). Surpresa mesmo foi o Charlie Villanueva estar aí! Vai ver que de 3 ele acerta, erra quando tenta arremessos longos de 2 pontos com marcação dupla e ainda 20 segundos de posse de bola, sua marca registrada.

Quer saber quem são os piores de 3 pontos entre os titulares? Aí vai a surpresa:


Não surpreende ver vários caras que acertam menos bolas de 3 pontos do que você acerta papelzinho no lixo do escritório, caras como Gerald Henderson, Eric Bledsoe, Sonny Weems e o Tony Allen nem deveriam tentar esses arremessos. Mas que tal o arremessador menos eficiente ser o Joe Johnson? Por essa eu não esperava mesmo sabendo que ele vinha da pior porcentagem de acerto da sua carreira (27%), o que pegou pra ele foi acertar bem menos que o normal e continuar tentando como nos bons tempos em que acertava quase 40%. Aliás, ele teve um ano no Phoenix Suns em que fez 47% de suas tentativas!

Assim como JJ, outros nomes na lista estão aí porque esbanjam de prestígio em seus times. Os técnicos dão toda a liberdade do mundo para que Kobe Bryant, Dwyane Wade, Baron Davis e Tyreke Evans arremessem quando dá na telha. Não deveria ser assim, é verdade, mas também temos que lembrar que esses são os jogadores responsáveis por carregar o time nas costas nos jogos e momentos mais difíceis, algumas dessas bolas de 3 são no desespero, quando mais ninguém no time consegue chutar.

Os dois que não se encaixam nessa desculpa esfarrapada das estrelas é Travis Outlaw e Trevor Ariza, eles são coadjuvantes. O negócio é que o Ariza defende bem, sabe infiltrar, rouba bolas, puxa contra-ataque, pode ser eficiente mesmo (ou principalmente) sem as bolas de longe. Agora o que o Outlaw vai fazer da vida se decidir arremessar menos? Malabares na rua? De todos da lista de menos eficientes é o que menos pode ajudar em outras áreas. Veremos agora aos piores entre os reservas:


Existem nessa lista alguns bons arremessadores que pecam pelo exagero. É só ver a quantidade de arremessos a cada 100 posses de bola de Rudy Fernandez, CJ Miles e Leandrinho. A cada 10 posses de bola disputadas pelo espanhol ele chuta uma de três pontos! Se o Ray Allen não faz isso deveria ser proibido para outro jogador chegar a esse número.

Um dado curioso na divisão por posições. Entre os pivôs apenas Andrea Bargnani e Spencer Hawes tentam mais de 1 arremesso de 3 pontos a cada 100 posses de bola. O italiano lidera a lista de aproveitamento e o americano é o último. Para ver mais detalhes por posição e as listas completas dos 3 pontos é só clicar nesse link.

Passemos agora para os arremessos de meia distância, um arremesso que não deveria existir no seu time a não ser que você tenha Dirk Nowitzki no elenco. Ok, posso estar forçando a barra, mas veja que números impressionantes: A média de eFG% (expliquei acima!) da NBA é de 49,8%, é portanto a média de arremessos certos em geral (todos, desde bandejas até chutes com uma mão no meio da quadra) da liga como um todo. Mas de todos os 150 jogadores analisados pela pesquisa (atletas com mais de 40 jogos na temporada e mais de 25 minutos por jogo), apenas Dirk tem média superior a esses 50% nos arremessos de meia distância! O arremesso de meia distância é, no fim das contas, o pior tipo de arremesso da NBA.

Esse número assustador criou um impasse na hora de fazer a conta que define o ranking. Os jogadores que arremessam menos que a média de sua posição deveriam, portanto, serem beneficiados por isso? Afinal estão privando o time de um arremesso ruim. A solução encontrada pelo pessoal do Golden State of Mind foi fazer duas contas. Uma penaliza jogadores que tentam arremesso de meia distância, já que tirou a chance de um companheiro de time dar um chute melhor, a outra ignora esse fato e apenas compara o número do atleta com a média geral de acerto de arremessos de meia distância, 39%.

As listas abaixo são resultados de uma média entre os dois resultados. A primeira é com os melhores arremessadores de meia distância da NBA:


O Dirk Nowitzki não é só muito bom, ele está anos-luz à frente do segundo colocado, Al Horford. O alemão começou na NBA como um arremessador de três pontos, mas foi no arremesso de meia distância que ele achou o seu nicho. É praticamente o único especialista de verdade nesse tipo de arremesso e vimos nos últimos playoffs como é difícil defender o cara. O Elton Brand aparece em 3º e acredito que se fizessem essa lista uns 10 anos atrás ele poderia muito bem estar em primeiro, no seu auge ele tinha um arremesso quase germânico dessa distância.

Não surpreende ver na lista alas de força especialistas no pick-and-pop: David West, Kevin Garnett, Luis Scola e Brandon Bass, por exemplo. É uma jogada muito eficiente e que os times desses jogadores costumam usar em momentos decisivos das partidas, o aproveitamento deles mostra a razão. Temos também alguns especialistas em três pontos entre os melhores, como Steve Nash, Steph Curry, Ray Allen e Sasha Vujacic. Cada um tem seu motivo, mas o mais interessante parece ser o Ray Allen, que por causa da sua idade parece querer correr menos e fazer jogadas parecidas com a que sempre faz, usando os bloqueios dos companheiros, mas agora em um espaço reduzido. Corre menos, se desgasta menos e continua com alto aproveitamento.

Abaixo os piores em arremessos de meia distância:


Eu nunca vou ficar surpreso em uma lista que tem o Andray Blatche como o pior, seja ela qual for. O cara conseguiu uns números de destaque no ano passado, mas não passa em nenhuma prova de um número "avançado". Faz pontos porque força demais a barra, mas não sabe usar sua habilidade direito: não tem inteligência, físico e muito menos arremesso de meia distância. Investir nesse cara é o pior negócio que o Wizards pode fazer. Melhor é continuar insistindo no John Wall que, infelizmente, também está entre os piores. Quando a fase é ruim...

Outro que aparece na lista é o DeMarcus Cousins, que no ano passado chamamos a atenção aqui no blog por estar arremessando demais de meia distância depois de se destacar no basquete universitário como jogador puro de garrafão, que conquistava os seus pontos na força, embaixo da cesta. Precisa não ter medo dos pivôs da NBA e buscar seus pontos lá dentro. Mesma coisa vale para jogadores bons de infiltração como Tyreke Evans e Trevor Ariza, eles não são pivôs mas conseguem seus pontos em infiltrações, têm arremessos muito pouco confiáveis de qualquer canto da quadra.

Talvez surpreenda na lista a presença do Russell Westbrook, que conquistou um bom arremesso de meia distância depois do seu tempo de seleção americana. Mas ele tenta tanto esse chute, em situações tão imbecis, que não surpreende que essa estatística o tenha punido. Ao contrário do resto da lista, Westbrook tem bom chute, só precisa forçar menos e arremessar em melhores situações.

Para mais detalhes das listas e o ranking por posições, acesse esse link. Que tal o LeBron James ter o melhor número entre os jogadores da posição 3? Se até em arremesso de meia distância ele consegue ficar na frente de Kevin Durant, Paul Pierce, Luol Deng, Carmelo Anthony e Rudy Gay, como o pessoal ainda vai ter coragem de dizer que ele nem é tão bom assim? Vamos torcer contra, mas admitindo que ele é fora de série. Há alguns anos esse era o defeito dele, hoje ele não só melhorou como está entre os principais da liga.

Na parte final da série, mais curta, analisaremos os melhores nos lances livres e comentaremos a lista que soma todos os tipos de arremessos para saber quem, no geral, foram os pontuadores mais eficientes e completos da NBA na última temporada.

domingo, 2 de outubro de 2011

8 ou 80: Eficiência e tipos de arremesso - Parte 1

Todas as fotos do Leandrinho em ação são dele fazendo uma bandeja. Existe uma razão para isso.

Para quem é novo no Bola Presa, uma rápida explicação: A seção "8 ou 80" aparece esporadicamente no nosso blog para comentar e analisar estatísticas e números da NBA. Mas tentamos não ficar só nas médias de pontos, rebotes e etc. Gostamos de quem vai mais a fundo, analisa números complicados de encontrar e que tentam mostrar coisas diferentes, difíceis de perceber só acompanhando o jogo casualmente.

Hoje vou pegar várias listas feitas pelo Evanz, blogueiro do Golden State of Mind, um blog gringo focado no Golden State Warriors. Ele pegou dados dos play-by-play dos jogos, estatísticas de posicionamento de arremessos do HoopData e com esses dados fez um levantamento de quem seriam os mais eficientes jogadores em diversos tipos de arremesso: perto da cesta, de meia distância e três pontos. E depois ainda separou os arremessos de perto da cesta em enterradas, bandejas, tapinhas e ganchos.

A medição final que deu a ordem nas listas foi feita de acordo com uma conta que ele criou. Com pequenas variações de uma para a outra, em geral a fórmula leva em conta os arremessos tentados pelo jogador, seu aproveitamento e as médias dos jogadores da mesma posição em toda a NBA nessas mesmas duas coisas.  Essa maneira de analisar equilibra as coisas, afinal alguns jogadores se destacam por bom aproveitamento mas o fazem arremessando muito menos que outros. O Steve Nash, por exemplo, tem um aproveitamento espetacular em bandejas, mas só tenta 2 a cada 40 minutos de jogo, a média dos armadores da liga é de pouco mais de 4. Nash tem aproveitamento melhor porque tenta menos, corre menos riscos e só vai quando tem certeza, o que não quer dizer que ele é um "infiltrador" mais eficiente que alguém como o Derrick Rose.

...
Comecemos pertinho da cesta. Vamos conhecer, dentro dessa análise explicada, quem são os mais eficientes pontuadores próximos do aro.

Lembrando que "POS RANK" indica o lugar do jogador entre os jogadores da sua posição, que aí está indicada nos números de 1 a 5 na coluna "POS". "PSAMS" é o resultado da complexa conta que eu expliquei acima e que define a ordem do ranking.


É impressionante como o Thaddeus Young é muito melhor do que todo o resto da NBA nos arremessos próximos à cesta. O fato do Sixers jogar muito em transição, que resultam em bandejas fáceis, tem peso grande nisso, mas como ele é o único jogador do time entre os 20 primeiros fica claro que não é só isso. Ele também é muito bom jogando de costas para a cesta e geralmente enfrenta jogadores mais baixos do que ele.

Impressiona também ver LeBron James e Dwyane Wade entre os 4 primeiros. Todo mundo sabe que o Miami Heat se baseava demais nas infiltrações dos dois, montavam esquemas só para impedir isso e mesmo assim ambos estão ainda lá entre os melhores. Ainda faltam importantes detalhes para o Heat chegar ao título, mas com dois dos pontuadores mais eficientes próximos à cesta eles já estão muito bem na fita.

Também chama a atenção que entre os 20 primeiros só existem 5 jogadores de garrafão, Dwight Howard, Nenê, Blake Griffin, Marcin Gortat e Carlos Boozer. Na teoria os pivôs e alas de força não deveriam ter aproveitamento melhor perto da cesta? Por outro lado, parabéns aos nanicos Tony Parker e Russell Westbrook, únicos armadores da lista. O francês é um fenômenos por estar no 7º lugar, o aproveitamento dele para alguém do seu tamanho é surreal: Ele tenta 7 arremessos próximos à cesta por jogo contra uma média de 4 dos armadores, e seu aproveitamento é 65% nesses arremessos contra 60% dos seus companheiros de posição. Uma lavada.

Vamos ver agora a parte engraçada: quem são os piores em aproveitamento de arremessos próximos à cesta?  - (lembrando que só se qualificaram para entrar na lista jogadores com mais de 40 jogos na temporada e média superior a 25 minutos por jogo)


Pois é, a coisa tá feia. Os três piores são jogadores de garrafão! Marcus Camby sempre foi negação no ataque, Andrea Bargnani mostra o porque tem fobia de garrafão e o Channing Frye me surpreende porque a estatística prova que em algum momento da última temporada ele tentou um arremesso perto da cesta, alguém lembra disso? O resto da lista mostra outros jogadores que estão na NBA apenas por serem bons arremessadores de longe, como Daniel Gibson e Anthony Morrow, esses só tentam arremessos próximos à cesta em ocasiões especiais e, como visto, sem sucesso.

Mas me surpreende que jogadores como John Salmons, Brook Lopez, Brandon Jennings e Roy Hibbert estejam tão mal posicionados. Tudo bem que os quatro têm em comum o fato de terem tido no ano passado campanhas bem irregulares, mas será que os pontos baixos foram tão baixos assim? E Lopez e Hibbert são vistos como duas das mais promissoras apostas da NBA em termos de jovens pivôs, e mesmo assim estão lá perto do Kwame Brown. Para comparar, o Brook Lopez tentou no ano passado 4.8 arremessos perto do aro, acertando 3 por jogo (62%), o Dwight Howard tentou 7 por jogo, acertando 5.3 (74%). A média de aproveitamento dos pivôs como um todo da NBA é de 66%. Lopez tenta menos que a média e acerta menos que a média, um desastre. Veremos mais tarde como ele e Hibbert tentam compensar isso.

Para ver detalhes da fórmula e a lista por posições, entre nesse post do Golden State of Mind. Lá também, no final, tem a lista sem o ajuste por posições em que cada um joga. Nessa lista Dwight Howard é o líder, mas Thaddeus Young se mantém bem e é o segundo colocado. Nenê é o terceiro para desgosto dos que querem se convencer de que a seleção brasileira não seria muito diferente com ele em quadra.

Talvez um problema, ou pelo menos uma limitação, dessa estatística é que eles levam em consideração apenas a distância da cesta. Esses números que mostrei acima contam jogadas a cerca de 1 metro da cesta. Mas no fim das contas não sabemos o que cada jogador faz por lá. São bandejas, enterradas ou aquela coisa sem nome que o Shawn Marion faz? E sem contar que muitas vezes os pivôs usam ganchos, que são jogadas de pivô, de garrafão, mas um pouco mais longe do aro do que aqueles números computaram. Para isso foi feito outro post só contando o número de bandejas, enterradas, ganchos e tapinhas tentados e o aproveitamento. Os números mostram quantos arremessos de cada tipo os jogadores tentam a cada 100 posses de bola e a porcentagem de acerto.

Vamos começar com as enterradas:


Alguma surpresa em ver o LA Clippers dominando o Top 3? E nem a ordem dos jogadores me impressiona, o aproveitamento do Blake Griffin é naturalmente menor porque ele tem o hábito de tentar as enterradas mais difíceis e improváveis da história. A atenção dada para ele também libera muito espaço para que o DeAndre Jordan tenha mais oportunidades de enterrar. Quem impressiona na lista é o Andre Iguodala, único jogador que não é da posição 4 ou 5 a entrar no Top 20 de quem mais tenta enterradas. Entre jogadores que jogam nas posições 1 ou 2, o primeiro a aparecer é Dwyane Wade, em 25º, com 2.13 tentativas de enterrada a cada 100 posses de bola e 89.4% de aproveitamento.

Uma lista curiosa e cheia de armadores é a dos jogadores que não chegaram nem a tentar uma enterrada em toda temporada passada. Prepara-se que ela é meio extensa: Shane Battier, Andre Miller, Anthony Morrow, Kyle Lowry, Toney Douglas, Beno Udrih, Tony Parker, Richard Hamilton, Sasha Vujacic, Mike Bibby, Daniel Gibson, DJ Augustin, Chris Paul, Steve Nash, James Jones (surpresa!), Derek Fisher, Kirk Hinrich, DeShawn Stevenson, Jameer Nelson, Luke Ridnour, Jason Kidd, Chauncey Billups, Jose Calderon, Steve Blake, Keith Bogans, JJ Barea, JJ Redick, Mario Chalmers, Eric Maynor e Gary Neal.

Lembram dos bons tempos em que o Rip Hamilton dava aquelas enterradinhas marotas com as duas mãos? Já era. E não é à toa que se você digitar "Shane Battier dunk" no YouTube o ala do Rockets está sempre do lado errado da brincadeira. E os torcedores do Lakers vão guardar no coração o longínquo dia em que Sasha Vujacic enterrou e o banco foi ao delírio:



Abaixo a lista com o número de bandejas tentadas a cada 100 posses de bola e a porcentagem de acerto.


De Barbosa a Hilário estes são os 20 que mais tentam bandejas na NBA. O Leandrinho tenta um pouco mais de bandejas que o Tony Parker e tem um aproveitamento pior (62% a 65%), mas a diferença não está tão grande assim e temos que lembrar que o francês é absurdamente fora de série nesse quesito. Ponto para o brasileiro que mesmo já tendo passado do seu auge ainda pode render muito bem em times que saibam usar os seus pontos positivos.

Me surpreendeu ver o Tyreke Evans tão bem colocado em 8º lugar, isso porque no começo da temporada o jogador estava sentindo muito uma contusão no pé e isso levou ele a despencar em números de bandejas tentadas em relação ao seu ano de novato. Estava tentando viver de jumpers de média e longa distância e falhando miseravelmente nisso. Ele terminou melhor a temporada e esse número mostra o motivo, voltou a atacar a cesta como deve fazer para ser eficiente, porém foi um dos poucos desse Top 20 com aproveitamento abaixo dos 60%, dá pra melhorar. Outros bons jogadores com aproveitamento abaixo dos 60% são Carmelo Anthony e Derrick Rose, para os dois o motivo é bem claro: tentam bandejas demais até quando elas não parecem a jogada mais apropriada. A resposta do Rose ao fato do Bulls estar bem marcado e empacado no ataque é abaixar a cabeça e ir para a bandeja. Quando dá certo é lindo, mas não dá pra ser um dos líderes da liga em aproveitamento fazendo isso. Pra falar a verdade, 57% de acerto fazendo essas loucuras é algo louvável.

E lembram que eu chamei a atenção anteriormente ao fato do LeBron James e do Dwyane Wade estarem entre os melhores da NBA em pontos próximos à cesta? Pois o Miami também tem jogadores de destaque em outra área: os jogadores que menos tentam bandejas na liga.

O James Jones é recordista com 0.07 tentativas de bandeja a cada 100 posses de bola. Isso quer dizer que ele precisa de 1.428 posses de bola para finalmente tomar vergonha na cara e tentar uma bandejinha. O segundo colocado na lista é outro arremessador puro, o Kyle Korver, mas até ele tem um número mais digno com 0.53 tentativas a cada 100 posses. No Top 10 dos que menos tentam o Miami também tem o Joel Anthony e o Mike Bibby.

Hora da lista dos tapinhas, os Tip-In.


Lembra que o Marcus Camby era o pior em aproveitamento de arremessos próximos à cesta? Ele é líder em tentativas de tapinhas, mas tem um aproveitamento péssimo nesse tipo de chute. Sem querer pegar no pé, mas o Marcus Camby de hoje em dia é inútil ofensivamente e sua maior contribuição na área, os rebotes ofensivos e tapinhas, não costumam render muita coisa. Ter ele no time é atacar com 4 jogadores. Em aproveitamento quem lidera os tapinhas é o Zydrunas Ilgauskas, com 65%. Atrás dele no Top 5 estão o novato Greg Monroe (62.5%), Amir Johnson (61.2%), Zach Randolph (60%, achei que seria líder) e Ben Wallace (59%).

Por fim a lista de quem mais tenta ganchos, na esquerda, e o ranking de aproveitamento na direita.


O Brook Lopez eu ainda não perdoo, mas o Roy Hibbert ganhou alguns pontos com essa lista. Lá pertinho do aro ele está longe de ser bom como deveria, mas um pouco mais longe é um especialista em ganchos. Tenta bastante, é o 3º da lista, e tem o 6º melhor aproveitamento em ganchos com 54% de acerto. O Brook Lopez tenta dois ganchos a menos que o Hibbert a cada 100 posses de bola e tem 3% a menos de acerto, precisa melhorar, garoto.

O Andrew Bogut é o cara que mais tenta ganchos, mas tem apenas o 21º melhor número em aproveitamento. Isso porque seu arsenal de jogadas não é dos mais extensos, é gancho toda hora em qualquer situação e de qualquer canto do garrafão. Com 7.93 ganchos a cada 100 posses de bola ele está com quase o dobro de tentativas do Brook Lopez, o 5º colocado! O Darko Milicic é outro que tenta bastante e tem aproveitamento parecido, me surpreende sempre o quanto o Wolves envolve o pivô sérvio no ataque, além desse número de destaque em ganchos, é um dos jogadores mais envovlidos em pick-and-rolls, mais até que seu companheiro Kevin Love. O cara é um defensor mediano e só, deveriam deixar ele ser mais secundário no ataque.

O líder em aproveitamento é o Boris Diaw, com 61%, mas ele tenta poucos ganchos, apenas 1.84 a cada 100 posses de bola, aliás ganchos são arremessos pouco tentados na NBA atualmente. E dos 20 que mais tentam esse chute, 9 são gringos, não é muito da cultura americana mesmo.

Um número que assusta é o do Blake Griffin com o 5º melhor aproveitamento em ganchos, 55%! Às vezes a gente acha que o cara só enterra, mas ele tem bom passe, boa visão de jogo quando sofre a marcação dupla, é ótimo nos rebotes de ataque e até gancho ele acerta. Um pouco mais de dedicação defensiva, alguns rebotes a mais e eventualmente uns tocos e esse cara vai dominar a NBA, ele é de outro mundo.

Para ver com mais detalhes as listas postadas e citadas aqui com as tentativas e aproveitamentos em bandejas, enterradas, tapinhas e rebotes, vejam esse post do Golden State of Mind.

Na parte 2 desse post irei mostrar as listas com os arremessos de 3 pontos e os temidos e odiáveis arremessos de meia distância, será que tem alguém melhor que o Dirk Nowitzki nisso?

terça-feira, 19 de julho de 2011

Tudo sobre Mike Brown

Mike Brown com cara de sedutor (VC QUER EU SEI)

Quando o Los Angeles Lakers estava atrás de um técnico me mandaram uma pergunta no nosso formspring querendo saber o que eu achava de uma possível contratação do Mike Brown para a posição. Eu disse que não aprovava, óbvio, afinal torço para o sucesso da franquia! Eis que poucos dias depois estava lá Mike Brown sorridente sendo apresentado para o seu novo trabalho à frente do Lakers. Enquanto todo mundo ficava me zoando e rindo da minha cara fui atrás de mais informações sobre ele, vi suas entrevistas e comecei a tentar ter um pingo de esperança de que a decisão não tivesse sido ruim assim. Vamos ver o que eu descobri.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a velocidade com que o Lakers decidiu seu novo comandante. O time foi eliminado dos playoffs em meados de maio e a próxima temporada, ignorando uma greve demorada, só começaria com o período de treinos no finalzinho de setembro, começo de outubro. Então para quê a pressa? Muitos argumentam com razão que é importante ter um técnico logo para poder direcionar as contratações e escolhas de Draft de acordo com o tipo de jogo que o novo treinador quer implantar, mas isso não fazia muito sentido para o Lakers. Eles não tinham escolhas de destaque no Draft (a primeira era a 41) e o General Manager Mitch Kupchak já tinha deixado claro desde sempre que nenhuma loucura seria feita para desmontar o elenco com trocas.

Acho que essa história das trocas até pesou levemente, já que com a greve todas as trocas deveriam ser feitas até o Draft, agora estão proibidas até que tudo se resolva. Mas pode ter pesado ainda mais o fato de muitos outros times estarem também no mercado atrás de novos líderes. Entre eles times de elenco interessante como Rockets e Warriors, além de times mais confusos como o Wolves e Pistons e alguns outros que não tinham confirmado a permanência dos que terminaram a temporada passada como Jazz e Pacers. Claro que na teoria a maioria dos técnicos daria preferência ao Lakers, uma franquia mais conhecida, que paga salários maiores e tem um elenco pronto para disputar títulos, mas ninguém por aí é louco de ficar recusando outras propostas só pela chance mínima de treinar um time. Quem demora, como está demorando o Pistons (eles enrolaram até para oficializar a demissão do John Kuester!), fica com cada vez menos opções.

Baseado nisso tudo o Lakers fez uma maratona de entrevistas. Conversou com Brian Shaw, antigo assistente de Phil Jackson, Mike Dunleavy, ex-Clippers, Rick Adelman, ex-Rockets, e o atual comentarista Jeff Van Gundy. Depois desses entrevistaram Mike Brown e não demoraram para anunciá-lo como a escolha final. Ele não é o meu favorito entre os cotados, mas entendo a decisão.

O Brian Shaw seria como continuar com o Phil Jackson mas sem a confiança e imponência que o Zen Master passava ao time e aos adversários. O ex-armador tem experiência e conhecimento para o trabalho, mas escolhê-lo seria apostar na manutenção do sistema de triângulos no ataque, uma tática que o próprio Phil Jackson estava usando cada vez menos nos últimos tempos. Kupchak queria mudanças em um time que pareceu muito previsível no ano passado e é compreensível que não tenha tido vontade de dar essa continuidade na escola de Phil Jackson. O que foi triste foi que Shaw tinha história no Lakers, como jogador e assistente, e parece ter sido tratado meio mal pela franquia, que o deixou sem resposta e sem feedback até que se anunciasse a contratação de Brown. Shaw, porém, já está empregado, acabou de ser contratado para ser assistente de Frank Vogel, efetivado como técnico do Indiana Pacers.

O curioso é que quando Shaw assumiu no Pacers, disse que estava ressentido com o fato dos assistentes de Phil Jackson não ganharem tanto espaço e admiração como os assistentes de Gregg Popovich, treinador do San Antonio Spurs. Segundo ele todo mundo faz careta quando ele começa a falar do seu tempo com Phil Jackson e suas experiências com os triângulos, enquanto qualquer assistente de Popovich ganha empregos por aí. É fato que o Phil Jackson ganha méritos sozinho por aquilo que toda uma equipe faz, Kurt Rambis no Wolves foi um dos poucos casos de assistentes de Phil Jackson a conseguir vaga como treinador principal nos últimos anos. De Popovich atualmente temos Monty Williams (Hornets) e o próprio Mike Brown com empregos de treinador na NBA além de uma dúzia de assistentes espalhados por aí, o último sendo Quin Snyder que está a caminho do 76ers para auxiliar Doug Collins (correção: Snyder estava no Sixers mas agora saiu do time para ir justamente para o Lakers, leia mais sobre ele nesse artigo do Lakers.com). Pode ser exagero até, mas queria saber mais dessas caretas que os times fazem por aí quando se comenta dos triângulos. Será que a imagem não é boa ao redor da liga? Estranho isso.

Pelo que Mitch Kupchak comentou no anúncio de Mike Brown podemos tirar duas razões para a não contratação de Rick Adelman. O Manager do Lakers disse que queria um treinador focado em defesa e que pudesse ficar na franquia por um longo período de tempo, Adelman é famoso por seu ataque e já está na idade em que diz que toda temporada pode ser sua última. Seria muito interessante ver ele implementando seu ataque veloz em um time com tantos bons passadores, mas a defesa era uma exigência de Kupchak que o histórico de Adelman não cobria. Já o Jeff Van Gundy é o oposto, é capaz de criar defesas fortíssimas mas tem dificuldade em fazer seus times jogarem um basquete minimamente gostoso de assistir no ataque. Sem contar que dizem por aí que o irmão do técnico do Orlando Magic está bem feliz na sua vaga de comentarista de TV e não planeja voltar para o stress da vida de treinador tão cedo.

Sobrou então Mike Brown. Ele é um especialista defensivo que colocou o Cavs como uma das quatro melhores defesas da NBA em duas das quatro temporadas que dirigiu o time e embora o ataque daquele time fosse bastante questionado, estatisticamente esteve entre os seis melhores da liga nos seus últimos dois anos de trabalho. Mike Brown também é jovem o bastante para passar anos no time ao mesmo tempo que não é inexperiente como Brian Shaw, treinou o Cavs por quatro anos e chegou em uma Final de NBA. Alguns ainda apontam que pesou a seu favor os anos de experiência lidando com o ego de LeBron James, o que seria um bom aperitivo para lidar com Kobe Bryant (que publicamente apoiava Brian Shaw), mas será mesmo que o Mike Brown soube lidar com o LeBron James? Não é porque eles estavam juntos e que o Cavs teve uns bons anos que o Brown teve sucesso no assunto, de qualquer forma parece ter sido um argumento que pesou.

Entendemos então o motivo que levou o Lakers a contratar o técnico: Idade, experiência, foco defensivo e calejo em lidar com egos maiores do que a Ásia, África e 24 territórios a sua escolha. Mas e então, o que sua história indica que ele pode trazer de concreto para o Lakers? E ele pode mesmo conseguir tudo isso?

Ele foi contratado para ter como o foco a defesa, um reflexo de um defeito que o Lakers deixou muito claro quando viu Chris Paul dilacerar Derek Fisher na primeira rodada dos playoffs e principalmente quando JJ Barea, Dirk Nowitzki e Peja Stojakovic fizeram o Lakers parecer um time amador na rodada seguinte. Mas aí temos, antes de mais nada, que lembrar que dois desses jogadores que infernizaram o Lakers são armadores velozes e talentosos, coisa que o Derek Fisher a essa altura da carreira nunca vai conseguir parar seja lá quem o estiver treinando. O outro problema é a defesa de pick-and-roll, usada exaustivamente tanto por Hornets quanto por Mavericks para acabar com o Lakers, e isso é algo que um técnico pode sim ajudar a resolver, é só ver como Erik Spoelstra e Tom Thibodeau duelaram muito bem nesse aspecto na última série entre Heat e Bulls.

Mas pera aí, o Mike Brown sabe fazer isso? O Cavs tinha mesmo números impressionantes na defesa, mas perderam aquela série para o Orlando Magic em 2009 justamente porque falharam miseravelmente na marcação de pick-and-roll. Quando o Hedo Turkoglu controlava a bola e recebia o corta-luz do Dwight Howard toda a defesa do Cavs ficava exposta e o Mike Brown não tinha idéia de como responder. No ano seguinte, em 2010, a mesma coisa. Eles foram eliminados pelo Boston Celtics com uma overdose de pick-and-roll entre Rajon Rondo e Kevin Garnett. O KG primeiro começou triturando o Antawn Jamison, que realmente é um péssimo defensor individualmente, e como resposta o técnico colocou o Shaq em cima do Garnett, sendo então destruído pelos arremessos de longa distância do ala do Celtics. Sem saber mais o que fazer, foram presas fáceis. Não parece que o Mike Brown possa resolver esse problema em LA.

Pode-se argumentar que pelo menos o Cavs tinha uma defesa boa no geral, e que essas falhas eram menores e só foram expostas porque eles enfrentaram bons times nos playoffs. Tudo bem, até é verdade, mas o mesmo vale para o Lakers do ano passado, então o time fica na mesma. A última impressão que ficou foi a de que o time angelino tinha uma defesa fraca, mas eles acabaram a temporada regular passada com a sexta melhor marca de pontos sofridos por 100 posses de bola entre os 30 times da NBA, à frente do campeão Dallas Mavericks (8º) e sua invejada defesa por zona. Segundo Chuck Person, que será assistente do Mike Brown na próxima temporada, a estratégia defensiva do Lakers não vai mudar em relação ao ano passado:

"O esquema defensivo será o mesmo. Iremos tirar a bola do meio da quadra e forçar o uso dos cantos, da zona morta. Então a ajuda poderá vir do outro lado, dobrar e manter a bola fora do garrafão. Isso não mudará em nada em relação ao ano passado. O que irá mudar é que os jogadores serão mais cobrados pela defesa, o Mike (Brown) vai perdoar alguns erros no ataque, mas vai cobrar bastante do outro lado da quadra"


Então o tal especialista defensivo irá simplesmente cobrar mais do que Phil Jackson. Isso quer dizer que dependem de Kobe Bryant, Ron Artest e os outros de abraçar tudo o que o Mike Brown cobra para que se veja alguma diferença. E com o elenco ficando na mesma, até por falta de opção, as limitações individuais continuam as mesmas e o Lakers pode contar com vários armadores costurando sua defesa como sempre.

Se a defesa não vai mudar muito, vamos ver então o ataque. A princípio eu fiquei assustado porque a gente lembra como era aquele time do Cavs que o Brown comandou, certo? O famosos "Fresh Prince of Bel-Air Offense" onde o LeBron James era o Will Smith e os outros quatro jogadores eram o Carlton mas sem a dancinha divertida. Era intrigante ver um time com um ataque tão amarrado, forçado e pouco criativo ter tanto sucesso, mas quando chegavam os playoffs e eles enfrentavam boas defesas por sete jogos em sequência tudo ficava mais claro e eles perdiam. Claro que ofensivamente aquele time do Cavs não tinha muitas opções, mas faltava criatividade também, explorar algumas outras coisas que os jogadores poderiam oferecer. Só ver como nesse último ano até o Anderson Varejão, com mais liberdade ofensiva, conseguiu contribuir bastante até se machucar.

O Lakers até que se daria melhor que o Cavs se jogasse com tantas jogadas individuais, por ter Kobe Bryant, Lamar Odom, Pau Gasol e Andrew Bynum que são quatro jogadores capazes de criar seu próprio arremesso, mas os momentos em que eles eram individualistas eram justamente os piores do time nos últimos anos. Eles apelavam para isso quando tudo dava errado e aí é que a coisa ia para o ralo mesmo, é uma das explicações de porque o Lakers, quando perdia, era de lavada.

Mas eu me animei um pouco quando vi a entrevista que o Mike Brown deu assim que assumiu o time, isso porque ele não disse uma palavra sobre seu tempo de Cavs. Disse que aspectos defensivos você pode levar de um time para o outro mas que de ataque não, que você deve se adaptar ao elenco que tem. E para esse time do Lakers ele iria usar mais o que aprendeu quando foi assistente de Gregg Popovich no Spurs de 2000 até 2003. Aquele time tinha sua força no garrafão com dois jogadores muito altos e muito bons, Tim Duncan e David Robinson, sua idéia é usar boa parte daquele estilo de jogo para explorar Pau Gasol e Andrew Bynum, uma dupla que há anos o resto da NBA tem dificuldade de parar.

Depois que Brown disse isso, o blog NBA Playbook, especialista em tática, fez um apanhado de como funcionava esse ataque do Spurs e destacou alguns pontos que podem ser aproveitados pelo Lakers do próximo ano.

Posicionamento
Naquele Spurs, como no Lakers de agora, os dois pivôs podem atuar nas posições 4 e 5. Então assim como Tim Duncan e David Robinson alternavam quem ficava mais perto da cesta e quem ficava mais longe, Bynum e Gasol farão o mesmo. Claro que Duncan e Gasol tem um arremesso de meia distância mais treinado, o que indica que eles ficarão longe mais vezes, mas nada fixo ou pré-determinado.

O Spurs, quando pegava os rebotes, sempre tentava um jogo de transição, mas não era correria. Era apenas um ataque um pouco mais veloz na tentativa de pegar um de seus jogadores de garrafão lá perto da cesta antes da defesa se posicionar. Mas ao contrário de times conhecidos pela velocidade, o Spurs não queimava passes para executar tudo em velocidade, se não havia a chance de jogada eles paravam e faziam o jogo de meia-quadra. E enquanto um dos pivôs tinha corrido para se colocar embaixo da cesta o outro pivô corria em outro ritmo para chegar, mais tarde, na cabeça do garrafão. Isso não só possibilitava o jogo high-low, entre os dois pivôs como era uma opção de pick-and-roll longe da cesta, jogada básica para iniciar uma movimentação de meia-quadra.

Essa facilidade de adaptação dos dois jogadores possibilita uma transição natural e fácil entre o jogo de velocidade e o de meia quadra, pode dar muito certo com os dois versáteis pivôs do Lakers. O elenco do Lakers, aliás, combina muito bem com esse estilo de jogo que é veloz mas que não é necessariamente de contra-ataque.

Ataque de meia quadra
O ataque do Spurs daquela época se baseava totalmente na habilidade de sempre colocar a bola em pelo menos um de seus dois pivôs em toda posse de bola. Para isso usavam duas estratégias. A primeira era deixar um pivô na cabeça do garrafão (geralmente Duncan) e outro mais perto da cesta, os passes altos entre os dois sobre uma defesa mais baixa eram um caminho fácil para a cesta. A segunda opção era deixar cada um de um lado do garrafão e então rodar bastante a bola até acha o ângulo certo de passe.


A jogada abaixo tem um pouco de tudo o que comentamos: Tim Duncan corre mais rápido e David Robinson espera, o último então espera um pouco na cabeça do garrafão até perceber que o melhor era se posicionar no lado oposto de Duncan no garrafão. Ao receber a bola então ele usa o passe alto para acionar Duncan que se livrou de seu marcador.



Ter duas ameaças no garrafão é essencial para que esses pivôs sofram menos com dobras na marcação e tenham espaço para agir, mas é importante ressaltar que o Spurs do começo da última década tinha ótimos arremessadores, o que é sempre importante para abrir espaço para os jogadores de garrafão, o Lakers não tem esses especialistas em longa distância no atual elenco.

Entrosamento
Gasol e Bynum já tem um grande entrosamento e ambos são bons passadores, os mesmos talentos eram encontrados na dupla do Spurs. Essas habilidades impediam que o marcador do outro pivô dobrasse a marcação no jogador que tivesse a bola. Essa jogada separada pelo NBA Playbook mostra bem como isso funciona.



O jogo entre os dois gigantes do Spurs, porém, ia além, eles até faziam pick-and-rolls usando os dois pivôs! Colocar os dois jogadores de garrafão tão próximos é muito raro em qualquer esquema, mas aqui está uma prova de como pode dar certo com os jogadores certos. Me lembra, de uma maneira um pouco distante, aqueles corta-luzes duplos que o Mavs fez nos playoffs com Dirk Nowitzki e Tyson Chandler, outra situação onde juntar os pivôs no mesmo lugar pode confundir toda a defesa adversária. Coincidência ou não, Mike Brown foi assistente técnico do campeão Rick Carlisle, então no Pacers, em 2004, logo depois que saiu do Spurs. Abaixo o pick-and-roll gigante:



O NBA Playbook fez outro post analisando o ataque de Mike Brown, dessa vez vendo como ele usava LeBron James no Cleveland Cavaliers e como ele poderia adaptar isso a Kobe Bryant. Importante que ele usou vídeos da temporada 2008-09 que foi, disparada, a melhor do Cavs ofensivamente. Naquele ano eles usaram como assistente e coordenador de ataque o John Kuester, que vai participar da comissão técnica do Lakers na próxima temporada. Kuester ganhou notoriedade após esse ano, quando dinamizou o ataque do Cavs e fez o Mo Williams render mais do que nunca na vida, mas depois foi contratado para ser treinador principal do Detroit Pistons e lá ele falhou completamente, até mais no relacionamento com os atletas do que taticamente. Com um elenco bizarro e sem armadores até dá pra perdoar más campanhas, mas foi ainda pior do que isso. Porém, o que vale para a gente nesse post é o que fez como assistente e especialista em ataque, que é o que irá fazer em Los Angeles.

Uma das jogadas que Kuester e Brown tentaram implementar naquele ano foi usar LeBron James no garrafão, jogando de costas para a cesta. O LeBron tem tamanho para isso, mas nunca foi um grande fã da jogada e prefere jogar de frente para a cesta. Aos poucos tem se rendido mais a essa jogada, mas ainda é pouco. Kobe, ao contrário, adora jogar de costas para a cesta e até era o principal alvo das jogadas de pivô do Lakers naquele período no começo da temporada retrasada quando o Pau Gasol estava machucado. Durante um bom pedaço daquele ano Kobe Bryant foi um dos líderes da NBA em pontos no garrafão, a maioria vindo desse tipo de jogada. Sem dúvida essa será uma jogada explorada pelo novo treinador.

Dentre as maneiras usadas para colocar LeBron embaixo da cesta uma das mais simples é a de tirar um dos pivôs de perto da cesta e colocar LeBron no lugar aberto. Isso daria muito certo com Kobe usando o espaço aberto por Gasol, que seria o próprio passador. Até vimos isso acontecer algumas vezes no ataque do Lakers dos últimos anos e não teria porque mudar. Curioso ver no vídeo abaixo como o LeBron muitas vezes tinha o posicionamento para jogar de costas pra cesta e mesmo assim decide se virar e jogar de frente.



Mas o que eu mais gostava desse Cavs de 2008-09 era como o LeBron James jogava mais sem a bola nas mãos, se movimentando sem ela e assim agindo mais como um pontuador e menos como armador. O NBA Playbook comentou também as jogadas "off the ball" do LeBron e elas serão importantes demais para o Lakers. Kobe gosta de jogar com a bola na mão, mas já não tem mais idade, físico e velocidade para fazer seus 25 pontos por jogo assim. Em um time que tem bons jogadores para controlar a bola e passar, como Lamar Odom, Gasol e Derek Fisher, Kobe pode se dar ao luxo de se movimentar mais e assim conseguir uns pontos mais fáceis.



A jogada acima é muito bem feita, com três jogadores ocupando um lado da quadra e atraindo a defesa do adversário enquanto LeBron ganha espaço do outro. O problema é que quandoo King James recebe a bola ele resolve parar, esperar o marcador e estragar tudo ao invés de só fazer o arremesso. Kobe, bem mais confiante no seu chute de meia distância, não terá problemas com isso.

A última jogada mostrada é a que foi apelida de "Kraken" pelo Cavs Blog, em referência ao polvo gigante e devastador das mitologias nórdica e grega. A jogada é realmente impressionante e arrasadora, muito difícil de ser marcada. Claro que funciona melhor com LeBron James do que com Kobe, pelo aspecto físico de cada jogador, mas o Lakers tem a vantagem de poder executar a jogada com jogadores diferentes. O próprio Kobe pode fazer a função do cara que infiltra e chama a defesa enquanto Lamar Odom pode ser o jogador que sai da cabeça do garrafão e corta em direção à cesta.



Apesar de LeBron James ser usado menos como armador nessa temporada, como essas últimas jogadas mostram, isso não quer dizer que ele era usado pouco, a comparação com os outros anos é que era injusta. Por isso e pela idade de Derek Fisher dá para esperar Kobe sendo utilizado como armador muitas vezes, mas por ter menos visão de jogo que LeBron James devemos ver mais de Steve Blake em quadra e muito de Lamar Odom na posição 1 também.

Já falamos de Chuck Person e John Kuester na comissão técnica do Lakers, mas falta mais um nome importante: Ettore Messina. O italiano é um dos técnicos com maior fama e sucesso no basquete europeu, venceu a Euroliga duas vezes com Virtus Bologna e mais duas com o CSKA Moscou. Lá também foi considerado um dos 10 melhores treinadores da Europa em todos os tempos. Passou os últimos anos no Real Madrid e agora decidiu tentar a sorte na NBA contribuindo com Mike Brown no Los Angeles Lakers.

O blogueiro Os Davis, do BallinEurope, comentou as características de Ettore Messina como técnico para saber como ele poderia ajudar o Lakers. Uma das primeiras coisas que ele deixou claro foi a preferência de Messina em usar jogadores de garrafão nos seus ataques, então o foco na dupla Gasol e Bynum que já havia sido deixado claro por Mike Brown deve realmente ganhar muita atenção. Segundo Davis muitos jogadores de garrafão sem muito destaque melhoraram muito sob o comando de Messina, com isso ele prevê melhoras no jogo de Bynum, Gasol e até de Derrick Caracter. O jogo lento que o italiano usava na Europa (com exceção de algumas temporadas no CSKA) também combinam com o elenco e idade do Lakers.

Sobre a mudança de estilo entre o basquete europeu e americano o próprio Messina já deixou claro que terá dificuldades e irá precisar de tempo. Nas palavras do Italiano, "Eu preciso primeiro ir lá descobrir se posso ser um bom assistente antes de tirar o emprego de alguém como técnico".  Mas quem entende e estuda basquete aprende com o tempo, será muito interessante acompanhar como um treinador europeu pode ajudar e mudar o basquete americano. A chegada dos jogadores estrangeiros já mudou muita coisa, legal que a mudança tenha chegado aos bancos de reservas.

O Mike Brown tem história em times bons e de qualidade defensiva, vimos como tem boas idéias para usar a dupla de garrafão do Lakers, o maior diferencial em relação aos outros times, e até como seu tempo em Cleveland mostra boas maneiras de aproveitar o talento de Kobe Bryant. Mas também não dá pra esquecer que ele já falhou feio nos playoffs nos seus anos de Cavs e que muitas vezes não soube como evitar que seu time fosse previsível no ataque. Ruim ele não é, mas tem muito o que provar para convencer a gente e todo mundo de que é um treinador capaz de tomar boas decisões na pressão dos playoffs para levar o time ao título. E pensando nisso é que o alto e bom investimento do time na comissão técnica pode fazer a diferença na próxima temporada.

......
Curiosidade tola: Mike Brown morou na gringolândia quando jovem. Fez o colegial e se formou em um colégio em Würzburg, na Alemanha. Dentre tantas cidades européias foi se meter justamente naquele onde nasceu e cresceu Dirk Nowitzki!

sábado, 2 de julho de 2011

Bravos com quem?

Queima de estoque

Terminada a Final da NBA, com Dallas Mavericks campeão, demos uma respirada por aqui. Não, o blog não acabou, não entramos em greve, não fomos raptados por alienígenas e nem passamos a fazer parte de uma gangue de anões que assaltam bancos, apesar dos boatos. Mas acompanhamos os últimos jogos da Final já meio aos trancos e barrancos, tentando assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, então o final da temporada da NBA veio como um descanso necessário.

Agora, quase três semanas depois do título da Dallas, é oficial: temos greve na NBA. Jogadores e donos de equipes não entraram em acordo então todas as atividades relacionados à liga estão paralisadas - mais do que isso, estão proibidas, e por tempo indeterminado. Nada de trocas, contratos novos, treino, summer league, amistosos, viagens para a Europa para fazer propaganda da liga ou multas pro Gilbert Arenas no Twitter. Isso quer dizer que a NBA está congelada em carbonite, como o Han Solo no "O Império Contra-Ataca", então teremos bastante tempo para postar por aqui longamente sobre cada um dos escolhidos no draft, as trocas que aconteceram até agora, e principalmente a greve - vamos analisar não apenas as regras, mas também a situação econômica, o capitalismo, a rotação da Terra, essas coisas, e até analisar algumas alternativas para o sistema salarial da NBA.

Podemos tratar dessas coisas com tanta calma, já que sabe-se lá quando a NBA vai voltar de novo, que vou até aproveitar para tratar um pouco da Final da NBA, agora longe do calor do momento. Até porque no calor do momento o que predominou foi só bordoada para todos os lados - contra o Heat, que amarelou; e contra o Mavs, que só ganhou "porque o Heat amarelou". Foi melhor mesmo deixar as cabeças esfriarem no mundo ao invés de sair como um maluco lutando contra toda a internet, bloqueando oito manés no nosso Twitter por segundo, ou questionando cada um dos comentários infelizes nos sites por aí. Teria sido uma baita bobagem. Já escrevemos para o Bola Presa a tempo suficiente para entender que basquete não é tão sério assim e que perder minhas noites de sono discutindo contra odiadores na internet seria a segunda coisa mais inútil do mundo - só perdendo para aqueles botões idiotas que você precisa apertar para entrar em bancos agora; será que eles têm medo de ser assaltados por algum terrível ladrão sem dedos?

Confesso, no entanto, que mesmo sem ter tempo para postar acabei gastando mais tempo do que devia silenciosamente assistindo às reações diversas ao título do Mavs e a derrota do Heat. Blogs, comentários, Twitter, fóruns nacionais e gringos - aquele tradicional regime de masoquismo, em que se lê uma opinião mais estúpida do que a outra em sequência, sem parada, e que eu costumo chamar de "conhece a teu inimigo". Dado o tempo necessário tanto para esfriarem as críticas quanto a minha recepção delas, talvez seja hora de voltar ao assunto. Simplesmente porque elas são muito surpreendentes e, como sempre, dedam um bocado nossa cultura e nossos tempos - algo que acreditamos firmemente aqui no Bola Presa.

Eu já estava preparado para um jorro de ódio concentrado em cima de quem perdesse quando escrevi sobre nossa cultura do ódio, sobre como achamos o ato de torcer algo natural que na verdade é construído, apenas um filtro para delimitar o que olhar, um filtro para encaixar o indivíduo em um grupo ou em uma identidade, e que esse filtro ignora as perguntas profundas e realmente importantes para se contentar com o que é mais superficial - "ele é melhor", "ele é amarelão", "ele é o inimigo". Mas eu não estava nem um pouco preparado para que esse ódio recaísse tanto em cima dos perdedores quanto dos vencedores. A quantidade de horrores ditos ao Mavs - como se desse para ser campeão da NBA por acaso, "ops, escorreguei numa casca de banana e ganhei um título, hi-hi-hi, que divertido!" - me pegou completamente de surpresa e provou que o buraco é mais embaixo. Ninguém está a salvo.

Mesmo em meio à sua viagem interplanetária, o Denis fez questão de ressaltar os méritos do Mavs que levaram a equipe a ganhar um título. Às vezes parece que a vontade de desmerecer o Heat é tão grande que, para dizer que a equipe é uma merda e mesmo assim chegou a uma Final de NBA, é preciso desmerecer todo o resto - todas as outras equipes que perderam, todas as equipes fantásticas eliminadas, e até mesmo o Dallas Mavericks que, diabos, é "apenas" o campeão da budega inteira. É um dos claros exemplos de quando a vontade de rebaixar o adversário ofusca todo o resto e até o vencedor acaba indo pra casa melancólico, como se tivesse ganhado só porque todos os outros times eram uma porcaria. Por sorte, o Mavs foi lá e, com todo o dinheiro nerd do Mark Cuban (que pagou a festa em Dallas ao invés de deixar que a cidade tradicionalmente arque com os custos), fez uma festa monstruosa digna de um time fantástico que conseguiu superar uma NBA inteira - uma NBA forte, competitiva, de alto nível.

Eu entendo perfeitamente a vontade de torcer contra esse Miami Heat, do mesmo modo que se torceu tanto contra o Lakers com Malone, Shaq, Kobe e Payton, e até mesmo contra o Celtics que acabara de reunir Garnett, Pierce e Ray Allen. É a vontade de torcer contra o mais forte, contra o grande favorito, manter a esperança de que o fraco - como a maioria de nós, fracassados - ainda tem chances de superar o forte. Minha única ressalva é com o modo que essa torcida contra é feita, a ponto de acabar sobrando para o Mavs, diminuído como nenhum outro campeão da NBA na história recente. Isso porque se o Heat era tão ruim assim, tão amarelão, ou simplesmente "perdeu para si mesmo", não há mérito que pertença ao Mavs - e aí lhes arrancamos aquilo que é mais precioso em uma vitória esportiva, que é não a conquista a qualquer custo, mas a conquista merecida, conquistada. Talvez por isso haja tanta torcida contra esse Heat, porque sentimos que uma vitória deles não seria conquistada, que o time era "uma trapaça". Mas a derrota deles, ainda que na Final, prova que as coisas não são tão simples assim - não é trapaça justamente porque não adianta só juntar uns carinhas bons por aí.

Quando o Celtics foi campeão da NBA em 2008, Garnett, Allen e Pierce venceram o jogo coletivo do Pistons na Final do Leste. Muita gente torcia contra a apelação do trio. Mas bastou que eles vencessem o Lakers de Kobe na Final para se tornarem "a família que venceu o fominha solitário". A mentalidade de analistas, técnicos e torcedores passou a indicar que o melhor modo para vencer seria juntar três estrelas e forrá-las com jogadores velhinhos disponíveis, aproveitando o fato de que todo mundo topa ganhar pouco para poder jogar com essas estrelas e ter chance de título. Nos dois anos seguintes, o "fominha" Kobe foi campeão da NBA ao lado de Pau Gasol, finalmente reconhecido como estrela depois de tantas críticas de amarelão. Novamente, era óbvio que para ser campeão era preciso ter mais de uma estrela no seu time e cercá-lo de jogadores secundários sólidos. LeBron, Wade e Bosh foram jogar juntos seguindo a nova lógica predominante na NBA, nada absurdo, mas repentinamente se tornaram "as estrelas fominhas" jogando contra o jogo coletivo "benéfico" dos adversários. É mais do que memória curta, é negar completamente qualquer senso histórico.

Mas a relação de ódio com o Miami Heat é - assim como acontece com o ódio por Kobe - diferente. As críticas direcionadas a eles não são de que não jogam bem, de que o plano tático está errado, de que os estilos de jogo não funcionam. As críticas são morais. Kobe e LeBron são egocêntricos, apaixonados por suas imagens, pedantes, desrespeitosos, farsantes, que absurdo dizerem por aí que são como Michael Jordan, merecem perder. As críticas nao são preferências pessoais dos torcedores, questões táticas, estilos de jogo - as pessoas estão verdadeiramente bravas. Elas acusam, ofendem, denigrem, diminuem. Muito, muito bravas. Mas com quem, afinal de contas?

Basicamente, são se suporta a ideia de que esses jogadores sejam tão anunciados e vendidos como algo que parecem não comprovar ser em quadra. É muito falatório, muita imagem, muitas comparações com Jordan, programinha pra mostrar onde o cara vai jogar, filme pra mostrar o cara treinando. É terrível, é uma overdose, é um exagero, e esses jogadores parecem acreditar em tudo que se diz deles - se acham os melhores jogadores do planeta, agem como se fossem os melhores do planeta, e quando perdem a torcida tem aquele gostinho saboroso de ver uma mentira sendo desfeita bem diante dos nossos olhos. "Eu sabia que ele não era tudo isso". E a gente torce pra ele não ser tudo isso mesmo.

Estamos bravos com o marketing. Com a mídia. Com as campanhas publicitárias. Com imagens sendo vendida todos os dias. Estamos bravos, muito bravos, com uma cultura que cria imagens comercializáveis, que cria lendas, heróis, vilões, que trás de volta em versões em alta-definição todos os jogadores que já deram certo no passado. Bravos com essa realidade, na mídia, que tenta ser mais real do que o real.

Ninguém em sã consciência acha que LeBron não treinou o bastante, que ele e Wade se juntaram achando que iam ganhar sem ter que se esforçar. Todo mundo sabe que eles treinaram como malucos ao fim da última temporada, que o jogo dos dois ganha novas facetas a cada dia, que um dia o LeBron não teve mão esquerda, que o Wade não arremessava nenhuma bola de três pontos. Quando alguém diz que é bem feito que tenham perdido por acharem que podiam ganhar sem nenhum esforço ou treino, com certeza não acha de verdade que não houve esforço ou treino - isso seria ridículo, débil-mental. O que essa pessoa está dizendo, na verdade, é que está puto com a festa que o Heat fez ao contratar LeBron, Wade e Bosh, uma festa com fogos, música épica, luzes psicodélicas, e os jogadores prometendo oito mil títulos num discurso escrito horas antes por algum marqueteiro. Shaquille O'Neal prometeu títulos em todos os times em que jogou e só cumpriu no Heat, mas ninguém liga. Com ele não teve fogos, tecno, luzes piscantes e todos os jornais do mundo tagarelando sobre a mesma coisa. A dificuldade que o torcedor comum tem em engolir as besteiradas que os jogadores do Heat falam é como essas bobagens repercutem na mídia - como são criadas para e por ela, e tentam ser maiores do que qualquer realidade que o time tenha chances de apresentar em quadra. Nenhuma partida do Heat pode ser tão fantástica quanto o que aparece no comercial de TV e na campanha de internet. Não dá para comparar.

LeBron já mostrou que é decisivo nos playoffs. Fez um dos jogos mais espetaculares de todos os tempos, aquele em que marcou 29 dos últimos 30 pontos da equipe e levou o Cavs à vitória contra o Pistons fodão num Jogo 5. Mas isso nunca será o bastante se ele foi anunciado como o maior jogador de todos os tempos desde que tinha 16 anos de idade, se sua imagem é vendida todos os dias como sendo o melhor jogador do planeta, e se a mídia insiste em compará-lo com Michael Jordan. É por isso que eu digo, constantemente, que LeBron e Kobe não podem vencer: tudo que fizerem não será suficiente, e tudo que fizerem será criticado por gente que está de saco cheio do culto às suas imagens na era do 3D. É fato, essas imagens cultuadas são difíceis de engolir e só costumam descer pela goela dos próprios LeBron e Kobe - e mesmo assim só às vezes. O ponto é que se te dizem que você é um gênio desde os 16 anos de idade, se te dizem que você não precisa mais ser pobre, que sua mãe solteira não vai precisar mudar de emprego toda semana, e tudo porque você é fantástico e tem o poder não apenas para salvar a si mesmo, mas também sua mãe, seus amigos, sua comunidade, sua cidade, Cleveland inteiro... você acredita. É claro que acredita.

Crescemos com essa vontade enraizada de nos descobrirmos especiais. "Harry Potter" não é sucesso só porque a Emma Watson é a maior gracinha, todo mundo quer ser arrancado de sua família idiota e de sua escola imbecil e descobrir que é na verdade alguém fodão, essencial para a história da humanidade, alguém de que as profecias avisavam. Muitas das nossas lendas estão focadas na ideia do herói anunciado, e a cultura do capitalismo depende muito dessa ideia de que você pode se tornar herói do dia para a noite, basta se esforçar muito e ter um pouco de sorte. Então não adianta vir com falsa modéstia e dizer que qualquer um resistiria à chance de ser "O Escolhido" (como LeBron tatuou nas costas), o cara fodão que vai fazer história e salvar o seu povo. O capitalismo vive de vender essa imagem ("você também pode ser rico, se chegar até aqui"), as marcas vivem de vender o herói utilizando seus produtos (promessas de felicidade, de ser um pouco herói como eles se você usar um tênis novo), a mídia vive de vender esses heróis e o interesse por eles ("assista ao jogo, vai ser o melhor da história!") , e é claro que esses supostos heróis acreditam em si mesmos - se não acreditarem não serão heróis ou, pior, serão criticados por serem "amarelões", como assim o LeBron não quer decidir o jogo final? Não há a possibilidade do cara não comprar a imagem que tentam vender dele, dele não querer ser Michael Jordan. Estamos tão bravos com a imagem que é vendida que se o cara não for tão grande quanto a imagem que eu comprei, ele é uma farsa idiota. Mesmo que ele não tenha nada a ver, diretamente, com a imagem criada.

Há uma quantidade surreal de xingamentos direcionados, especialmente, a Kobe e LeBron em tudo quanto é site por aí, e nos comentários aqui no blog, no nosso Twitter e no nosso formspring. Nenhuma das ofensas ou acusações pessoais faz qualquer sentido porque não fazemos ideia de como essas pessoas são em suas vidas, ou de como seriam sem tamanho assédio, oportunidades, pressões, dinheiro, poder, idolatria, críticas, ofensas. É por isso que essas ofensas não são reais, são apenas uma raiva mal direcionada. A fúria é com a cultura que cria essas imagens enormes que não condizem - nem nunca poderiam condizer - com a realidade.

Nowitzki foi campeão e nunca haviam criado uma imagem dele. Não uma imagem positiva, pelo menos, só tacavam merda no alemão. Então ele vence, ganha um anel, e é o cara mais modesto do mundo, claro. Para os jogadores que, desde que nasceram, imagens foram criadas e talhadas a alturas impossíveis, nenhuma vitória poderá ser taxada de humilde, e nem mesmo de satisfatória. Todo erro, todo deslize será punido como um horror, uma discrepância inaceitável com a imagem que eu comprei e a realidade. Mesmo que LeBron e Wade estejam agindo como qualquer jovem da idade deles agiria na vida real. Mas eles não podem ser reais. Em nossa cultura, nunca ganharão essa chance.