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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Tchau, Paul Westphal

DeMarcus Cousins esconde com a mão o que acha do seu treinador

"Que ataque?"

Foi assim que DeMarcus Cousins respondeu a uma pergunta sobre as dificuldades do ataque do Kings após uma derrota contra o Knicks no quarto jogo da temporada. Não foi o único. Tyreke Evans também criticou o sistema ofensivo na mesma partida: "Eu tento ficar tão livre quanto posso e criar. Não tem nada organizado pra mim, ninguém realmente no ataque. Nós perdemos, ninguém sabe o que fazer."

O Kings está mais perdido do que cego em tiroteio faz tempo. O sistema ofensivo não se firmou nas duas temporadas em que o técnico Paul Westphal comandou a equipe, mudando constantemente. Nos últimos tempos, o ataque tenta ter como foco o jogo de garrafão, apostando no talento do jovem DeMarcus Cousins, mas sem deixar de lado o jogo de velocidade que Westphal tentou imprimir e que tanto favorece Tyreke Evans. Não tem funcionado, mas é difícil saber se é inabilidade do Westphal ou se trata-se apenas de um time jovem demais, com dificuldade de implementar o plano tático, cometendo erros constantes e, algo menos lembrado, um time que fede simplesmente por ter jogadores fracos, num nítido trabalho de reconstrução agravado por más decisões dos engravatados e uma novela mexicana constante que é a franquia sair ou não de Sacramento. Ao fim da temporada passada ninguém falava de melhorar o elenco porque o foco estava em levar a equipe para Anaheim, como querem os donos. Mas DeMarcus Cousins soube deixar tudo isso de lado e, com fina ironia, apontar os dedos para onde acredita estar o problema:

"Não sei o que aconteceu. Usamos o ataque que o técnico mandou a gente usar. Apenas fizemos o que o técnico disse. Tem que fazer o que seu técnico diz."

Foi um dedo molhado na orelha de Paul Westphal, o que é bastante estranho porque Westphal sempre foi conhecido por lidar bem com pirralhos. Sua contratação pelo Kings teve em mente o lento e doloroso trabalho de polir as futuras estrelas da franquia, e ninguém tinha pressa para que a equipe começasse a ganhar jogos de uma hora para a outra. Mas a ofensa de DeMarcus Cousins não foi totalmente gratuita. Na verdade, foi sua resposta aos comentários de Westphal no primeiro jogo de pré-temporada do Kings, quando o técnico chamou o Tyreke Evans de preguiçoso, reclamando que seus jogadores estavam em péssima forma física e não estavam se esforçando. Ao reclamar publicamente de seus jogadores, Westphal recebeu na mesma moeda: seus jogadores, especialmente Cousins e Evans, começaram a reclamar dele publicamente também. Tyreke Evans teve o cuidado de ser mais sutil e genérico em suas reclamações, mas o Cousins não sabe o que é sutileza. Desde seus tempos de colegial ganhou fama por ser esquentado, criar problemas para seus técnicos e não ser dedicado nos treinamentos. Dessa vez, Cousins chegou para a pré-temporada em perfeita forma física, dizem que em melhor condição do que qualquer outro jogador de seu time. Então se sentiu com moral para revidar à altura o ataque de seu técnico.

Paul Westphal não deixou a reclamação de Cousins de graça. Disse que problemas internos das equipes não deveriam vir à tona, mas que quando um jogador fala constantemente - e publicamente - contra a direção que a franquia tenta seguir, isso não pode ser ignorado. Terminou sua declaração dizendo que DeMarcus Cousins havia pedido para ser trocado e que estava dispensado do jogo seguinte do Kings.

Cousins apareceu para o jogo em roupas civis, não entrou em quadra, e poucas horas depois seu empresário já avisava que Cousins não tinha pedido uma troca porcaria nenhuma. O que havia acontecido? O pirralho pode ter pedido uma troca num bate-boca com o técnico, ali de cabeça quente, sem ser sério, ou então Westphal é quem decidiu que ele seria trocado por estar reclamando publicamente do treinador. Não saberemos exatamente o que aconteceu, mas Cousins voltou ao time na partida seguinte. Como comentei no resumo da rodada de ontem, o pirralho simplesmente chutou o traseiro de todo o garrafão do Nuggets, dominou o jogo enquanto esteve em quadra, mas saiu com 6 faltas em pouco mais de 20 minutos de jogo. É o resumo perfeito da carreira do Cousins: não tem cabeça, não tem controle, mas é uma força no garrafão que não pode ser ignorada. A demonstração foi o bastante para que Paul Westphal fosse demitido no dia seguinte.

O técnico não teve nenhum sucesso no comando da equipe, mas não se esperava que ele tivesse. Dele, era esperado apenas que cuidasse dos jovens jogadores, que os tornasse novas estrelas. Assim que reclamou dos seus jogadores publicamente, numa clara estratégica motivacional, os jogadores atiraram o técnico na fogueira sem dó nem piedade. Se os seus dois jogadores principais estão malhando o técnico em todos os jogos, algo precisa acontecer: ou os jogadores são repreendidos ou então o técnico dança. É claro que o técnico dançou.

O Paul Westphal não é uma grande perda, e mesmo se fosse não daria para perceber, porque não tinha material para trabalhar e portanto não faria diferença. O que preocupa, no entanto, é a mensagem que o Kings está passando para DeMarcus Cousins: reclamou, ganhou - como nossos leitores no Twitter afirmaram em massa, é o Neymar de Sacramento. Phil Jackson já cansou de reclamar de seus jogadores em público como "estratégia zen-budista de motivação transcendental" ou alguma coisa pomposa do tipo, e o Lakers nunca sonharia em mandá-lo pastar por isso. Westphal aprendeu com dureza o lugar dos técnicos nessa nova economia, em que as franquias borram as calças de medo de perder suas estrelas para cidades mais abastadas. DeMarcus Cousins não pode ser contrariado senão pode decidir ir para New York, onde o cachorro-quente é mais gostoso. O foco passa a ser esse, ao invés de construir franquias vencedoras.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

8 ou 80: Eficiência e tipos de arremesso - Parte 2

Nowitzki deveria ser o único jogador do mundo a poder arremessar dessa posição


Essa é a segunda parte de um especial de estatísticas sobre diferentes tipos de arremesso e quem são os jogadores mais eficientes em cada um deles. Na parte 1 analisamos os arremessos próximos ao aro e os dividimos em enterradas, bandejas, tapinhas e ganchos. E agora na parte 2 vamos falar de arremessos de média distância e chutes de 3 pontos.

Como informado na primeira parte, todos os dados foram computados pelo pessoal do Golden State of Mind, blog gringo sobre o Golden State Warriors. Ele usou dados do HoopData e dos play-by-play das partidas da última temporada para elaborar a lista.

Comecemos com as bolas de 3 pontos. A conta usada pelo pessoal para elaborar a lista é confusa, mas com um bom propósito. Leva-se em conta quatro coisas: (1) o número de arremessos de 3 pontos tentados pelo jogador,  (2) o número de arremessos tentados por jogadores da mesma posição, (3) a comparação de aproveitamento do jogador em relação a outros da mesma posição, e (4) a média do jogador em comparação ao resto da liga em aproveitamento geral de arremessos, o eFG%.

Finalizando a parte chata de entender, o eFG% é o "Effective Field Goal Porcentage", um número que tenta nivelar o nível de aproveitamento de arremessos entre os jogadores que arremessam mais de 3 pontos e os que chutam mais de 2. Explico: Um jogador finaliza um jogo com 4/10 arremessos sendo dois deles de 3 pontos, outro jogador acaba com 5/10 só em dois pontos, ambos fizeram 10 pontos em 10 arremessos e assim acabam com um eFG% de 50%. O importante é tentar entender que é uma lista que se esforçou para igualar as situações diferentes e as posições distintas que cada jogador atua e ver quem, no fim das contas, consegue ser mais eficiente nos arremessos de longe.

A primeira lista é a dos titulares, logo em seguida a dos melhores reservas. E não esqueçam, "PSAMS" é o número que define a lista, é o resultado da conta comentada acima.



Interessante ver que o Mike Bibby contando apenas os seus números no Atlanta Hawks acabou em 1º lugar, mas sabia que se contasse os números no tempo de Heat (não teve jogos o bastante para entrar na lista) ele também seria o líder? Isso faz a gente duvidar um pouco da conta, porque vimos que o Bibby jogou mal, mas na frieza dos números ele teve o melhor aproveitamento de três pontos na carreira na última temporada! 44% no geral, 45% só no tempo de Heat. Pode ter jogado mal em todas as outras áreas, errado os arremessos mais importantes, mas no geral fez o que foi pedido: acertou bolas de longa distância melhor do que ninguém.

O resto da lista surpreende pouco, Ray Allen e Chauncey Billups estão entre os melhores arremessadores da NBA faz tempo, não importa que conta tentem fazer para medir. Outros jogadores são reflexos e ao mesmo tempo responsáveis por equipes que na última temporada fizeram a festa da linha dos 3 pontos, como Spurs (com Richard Jefferson, Matt Bonner e Gary Neal) e Warriors (com Reggie Williams, Vlad Radmanovic e Steph Curry). Surpresa mesmo foi o Charlie Villanueva estar aí! Vai ver que de 3 ele acerta, erra quando tenta arremessos longos de 2 pontos com marcação dupla e ainda 20 segundos de posse de bola, sua marca registrada.

Quer saber quem são os piores de 3 pontos entre os titulares? Aí vai a surpresa:


Não surpreende ver vários caras que acertam menos bolas de 3 pontos do que você acerta papelzinho no lixo do escritório, caras como Gerald Henderson, Eric Bledsoe, Sonny Weems e o Tony Allen nem deveriam tentar esses arremessos. Mas que tal o arremessador menos eficiente ser o Joe Johnson? Por essa eu não esperava mesmo sabendo que ele vinha da pior porcentagem de acerto da sua carreira (27%), o que pegou pra ele foi acertar bem menos que o normal e continuar tentando como nos bons tempos em que acertava quase 40%. Aliás, ele teve um ano no Phoenix Suns em que fez 47% de suas tentativas!

Assim como JJ, outros nomes na lista estão aí porque esbanjam de prestígio em seus times. Os técnicos dão toda a liberdade do mundo para que Kobe Bryant, Dwyane Wade, Baron Davis e Tyreke Evans arremessem quando dá na telha. Não deveria ser assim, é verdade, mas também temos que lembrar que esses são os jogadores responsáveis por carregar o time nas costas nos jogos e momentos mais difíceis, algumas dessas bolas de 3 são no desespero, quando mais ninguém no time consegue chutar.

Os dois que não se encaixam nessa desculpa esfarrapada das estrelas é Travis Outlaw e Trevor Ariza, eles são coadjuvantes. O negócio é que o Ariza defende bem, sabe infiltrar, rouba bolas, puxa contra-ataque, pode ser eficiente mesmo (ou principalmente) sem as bolas de longe. Agora o que o Outlaw vai fazer da vida se decidir arremessar menos? Malabares na rua? De todos da lista de menos eficientes é o que menos pode ajudar em outras áreas. Veremos agora aos piores entre os reservas:


Existem nessa lista alguns bons arremessadores que pecam pelo exagero. É só ver a quantidade de arremessos a cada 100 posses de bola de Rudy Fernandez, CJ Miles e Leandrinho. A cada 10 posses de bola disputadas pelo espanhol ele chuta uma de três pontos! Se o Ray Allen não faz isso deveria ser proibido para outro jogador chegar a esse número.

Um dado curioso na divisão por posições. Entre os pivôs apenas Andrea Bargnani e Spencer Hawes tentam mais de 1 arremesso de 3 pontos a cada 100 posses de bola. O italiano lidera a lista de aproveitamento e o americano é o último. Para ver mais detalhes por posição e as listas completas dos 3 pontos é só clicar nesse link.

Passemos agora para os arremessos de meia distância, um arremesso que não deveria existir no seu time a não ser que você tenha Dirk Nowitzki no elenco. Ok, posso estar forçando a barra, mas veja que números impressionantes: A média de eFG% (expliquei acima!) da NBA é de 49,8%, é portanto a média de arremessos certos em geral (todos, desde bandejas até chutes com uma mão no meio da quadra) da liga como um todo. Mas de todos os 150 jogadores analisados pela pesquisa (atletas com mais de 40 jogos na temporada e mais de 25 minutos por jogo), apenas Dirk tem média superior a esses 50% nos arremessos de meia distância! O arremesso de meia distância é, no fim das contas, o pior tipo de arremesso da NBA.

Esse número assustador criou um impasse na hora de fazer a conta que define o ranking. Os jogadores que arremessam menos que a média de sua posição deveriam, portanto, serem beneficiados por isso? Afinal estão privando o time de um arremesso ruim. A solução encontrada pelo pessoal do Golden State of Mind foi fazer duas contas. Uma penaliza jogadores que tentam arremesso de meia distância, já que tirou a chance de um companheiro de time dar um chute melhor, a outra ignora esse fato e apenas compara o número do atleta com a média geral de acerto de arremessos de meia distância, 39%.

As listas abaixo são resultados de uma média entre os dois resultados. A primeira é com os melhores arremessadores de meia distância da NBA:


O Dirk Nowitzki não é só muito bom, ele está anos-luz à frente do segundo colocado, Al Horford. O alemão começou na NBA como um arremessador de três pontos, mas foi no arremesso de meia distância que ele achou o seu nicho. É praticamente o único especialista de verdade nesse tipo de arremesso e vimos nos últimos playoffs como é difícil defender o cara. O Elton Brand aparece em 3º e acredito que se fizessem essa lista uns 10 anos atrás ele poderia muito bem estar em primeiro, no seu auge ele tinha um arremesso quase germânico dessa distância.

Não surpreende ver na lista alas de força especialistas no pick-and-pop: David West, Kevin Garnett, Luis Scola e Brandon Bass, por exemplo. É uma jogada muito eficiente e que os times desses jogadores costumam usar em momentos decisivos das partidas, o aproveitamento deles mostra a razão. Temos também alguns especialistas em três pontos entre os melhores, como Steve Nash, Steph Curry, Ray Allen e Sasha Vujacic. Cada um tem seu motivo, mas o mais interessante parece ser o Ray Allen, que por causa da sua idade parece querer correr menos e fazer jogadas parecidas com a que sempre faz, usando os bloqueios dos companheiros, mas agora em um espaço reduzido. Corre menos, se desgasta menos e continua com alto aproveitamento.

Abaixo os piores em arremessos de meia distância:


Eu nunca vou ficar surpreso em uma lista que tem o Andray Blatche como o pior, seja ela qual for. O cara conseguiu uns números de destaque no ano passado, mas não passa em nenhuma prova de um número "avançado". Faz pontos porque força demais a barra, mas não sabe usar sua habilidade direito: não tem inteligência, físico e muito menos arremesso de meia distância. Investir nesse cara é o pior negócio que o Wizards pode fazer. Melhor é continuar insistindo no John Wall que, infelizmente, também está entre os piores. Quando a fase é ruim...

Outro que aparece na lista é o DeMarcus Cousins, que no ano passado chamamos a atenção aqui no blog por estar arremessando demais de meia distância depois de se destacar no basquete universitário como jogador puro de garrafão, que conquistava os seus pontos na força, embaixo da cesta. Precisa não ter medo dos pivôs da NBA e buscar seus pontos lá dentro. Mesma coisa vale para jogadores bons de infiltração como Tyreke Evans e Trevor Ariza, eles não são pivôs mas conseguem seus pontos em infiltrações, têm arremessos muito pouco confiáveis de qualquer canto da quadra.

Talvez surpreenda na lista a presença do Russell Westbrook, que conquistou um bom arremesso de meia distância depois do seu tempo de seleção americana. Mas ele tenta tanto esse chute, em situações tão imbecis, que não surpreende que essa estatística o tenha punido. Ao contrário do resto da lista, Westbrook tem bom chute, só precisa forçar menos e arremessar em melhores situações.

Para mais detalhes das listas e o ranking por posições, acesse esse link. Que tal o LeBron James ter o melhor número entre os jogadores da posição 3? Se até em arremesso de meia distância ele consegue ficar na frente de Kevin Durant, Paul Pierce, Luol Deng, Carmelo Anthony e Rudy Gay, como o pessoal ainda vai ter coragem de dizer que ele nem é tão bom assim? Vamos torcer contra, mas admitindo que ele é fora de série. Há alguns anos esse era o defeito dele, hoje ele não só melhorou como está entre os principais da liga.

Na parte final da série, mais curta, analisaremos os melhores nos lances livres e comentaremos a lista que soma todos os tipos de arremessos para saber quem, no geral, foram os pontuadores mais eficientes e completos da NBA na última temporada.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Doce ilusão

Rir mesmo quando você é a piada


O Memphis Grizzlies é um dos meus times favoritos de assistir. Pelo jeito de jogar, pelas enterradas do Rudy Gay, pela evolução do Mike Conley, para chorar de emoção e orgulho com o renovado Zach Randolph e porque é bem comum eles estarem envolvidos em jogos emocionantes decididos no quarto período. E eles não tem padrão, podem chegar no último segundo perdendo por um ponto para o Heat (quando ganharam com uma cesta de último segundo do Gay) e depois perder na mesma situação contra o Kings, como foi nessa semana. Com poucos segundos no relógio o Grizz apostou em OJ Mayo para um arremesso lindo (se bem que ele andou, não?), mas simplesmente não foi o bastante. No segundo que restava Tyreke Evans conseguiu pegar a bola e acertar uma bola de antes do meio da quadra.



Foi épico! Não só pela dificuldade da cesta, mas porque foi em casa e a torcida foi ao delírio. A cereja do bolo foi o Donte Greene correndo e pulando quando a bola ainda estava no ar. O novo apelido dele? Biff Tannen. Que os que já assistiram "De volta para o futuro" saboreiem a genialidade da piada. Reparem também no repórter completamente idiota que chega a entrar em quadra quando o Kings está colocando a bola de volta em jogo para o Evans arremessar, deve ser uma espécie de Régis Rösing californiano narrando um game-winner no momento em que ele está acontecendo.

Provavelmente essa jogada já tem lugar cativo no Top 10 da temporada junto com a enterrada do Blake Griffin no Timofey Mozgov, os outros que briguem pelas outras oito posições. Mas ao contrário da promissora temporada do Clippers (sério!), que aos poucos está engrossando para cima de equipes mais fortes, o Kings parece cada vez pior. Essa vitória heróica sobre o Grizzlies pode ser um ponto positivo isolado no time que é, hoje, o pior da NBA.

O primeiro problema deles é em relação ao elenco. Levando em conta o time do ano passado eles apenas perderam os úteis Andres Nocioni e Spencer Hawes para o Sixers em troca do Samuel Dalembert, que não tem sido a âncora defensiva que se esperava dele. Outra mudança foi a adição do novato DeMarcus Cousins, que por enquanto não tem rendido nem metade do que se esperava dele, um privilégio que não é só dele na classe de novatos desse ano. E não é só que ele está jogando mal, muita gente tem questionado se ele tem cabeça para encarar a NBA. O pivô comete muitas faltas (é o segundo mais faltoso da NBA com 4 por jogo) e perde a cabeça com as marcações, sem contar quando resolve que vai ganhar o jogo no quarto período e comete um erro atrás do outro. Em um jogo contra o Bucks ele fez um monte de merda, foi pro banco, se recusou a cumprimentar o técnico e criou um clima péssimo no vestiário de um time que já está mal pelo excesso de derrotas.

Com essas questões já sendo discutidas não pegou bem o que ele fez com o Reggie Williams em um jogo contra o Warriors, quando usou as mãos para simular uma enforcamento no próprio pescoço depois que o ala adversário errou um lance livre decisivo. "Choke", que significa enforcar, estrangular ou asfixiar é a palavra usada pelos gringos para dizer quando alguém amarelou ou tremeu na hora de decidir.



Ou seja, além de nervosinho, do exagero nos erros, da óbvia falta de paciência e temperamento durante os jogos, ele ainda estava sendo absurdamente escroto. O próprio Sacramento Kings multou o jogador pela sua atitude. Pode-se questionar se era pra tudo isso, mas a soma de tudo faz o Kings não estar tão orgulhoso de seu draft como estava no ano passado.

E é nos jogadores do Draft do ano passado que achamos o segundo problema do Kings: Omri Casspi e principalmente Tyreke Evans não estão jogando no mesmo nível do ano passado. O problema do Casspi é o mesmo de outros jogadores da equipe como Beno Udrih, Jason Thompson e Donte Greene. Em um dia são gênios e no outro parece que não entraram em quadra, não é à toa que o técnico Paul Westphal muda tanto o quinteto titular, não dá pra saber em quem confiar, todos são bons e nenhum é confiável.

Se eles fossem assim e pelo menos o Tyreke segurasse a barra sendo a base do time, tudo bem, eles não seriam bons mas não seriam os piores, mas o Tyreke despencou de qualidade desde o ano passado. Seus números caíram em pontos (de 20 para 17), rebotes, assistências, aproveitamento de arremessos (de 45% para 38%) e é só assistir dez minutos dele jogando pra ver que não é o mesmo cara. Depois de um ano de novato atuando como um veterano ele pela primeira vez parece sem confiança no seu jogo.

No começo a preocupação maior era com a cabeça do jogador. Antes dele entrar na NBA existiam uns questionamentos sobre seu profissionalismo e sua vontade de jogar, mas depois do ano passado fora de série é claro que todo mundo esqueceu. Acontece que, felizmente, não parece ser isso mesmo. O que está parando Tyreke Evans é uma contusão no seu pé, fascite plantar, que pode ser tratada com ou seu intervenção cirúrgica. Ele decidiu não operar e jogar com dor, mas ela foi aumentando e o tratamento não estava respondendo. Foi então que, semana passada, ele confessou que já cogita largar essa temporada para se cuidar. Um número que mostra claramente as dificuldades físicas do Tyreke é o que mostra os arremessos tentados no aro, enterradas e bandejas. Eram 8.4 no ano passado e 5.4 nessa temporada, hoje ele vive longe da cesta.

Seria bom se fosse só isso, mas os problemas de Tyreke Evans e do Kings ainda são piores. Segundo Paul Westphal o seu jogador tem passado por uma fase de muitos problemas na vida pessoal, "Tem muita coisa acontecendo na vida dele, é uma época difícil". E o próprio jogador confirmou: "Está me afetando sim, tem muita coisa passando pela minha cabeça e eu ainda preciso achar um jeito de deixar isso de lado".  Ninguém diz exatamente o que é, e acho que nem interessa, mas está afetando o seu jogo. A soma do problema físico com os pessoais fez o Tyreke ser um dos vários jogadores do time a aparecer acima do peso para o começo dos treinamentos. Dizem que Tyreke estava 7kg mais gordo que na temporada anterior e o Donte Greene 12kg. E não de massa muscular, mas de Eddy Curry mesmo. Muito tempo de treinamento foi perdido tentando recondicionar estes e outros membros do time que chegaram fora de forma.

Já deu pra fazer a conta completa né? O elenco não é tudo isso, é irregular, piorou em relação ao ano passado, o novato que deveria impulsionar o time dá mais dor de cabeça que soluções e a estrela está com problemas físicos e particulares. Depois de saber tudo isso dá pra ficar surpreso se eles acabarem a temporada com o menor número de vitórias? A vitória contra o Grizzlies foi empolgante, foi um bom jogo do Tyreke Evans (que está melhorando pouco a pouco), mas é uma ilusão, eles não vão ser nada além disso nessa temporada e precisam pensar no futuro, mais coisas precisam mudar.

Chegaram a comentar que um dos donos do Kings disse que era a hora de recomeçar tudo do zero, cogitando demitir Westphal e Geoff Petrie, o General Manager, ao mesmo tempo. Mas foi logo desmentido e a afirmação real foi de que o time precisa mesmo ser remodelado, mas sem demissões. Eles estão usando seus jogadores talentosos e de lua para conseguir um bom armador para liberar o Tyreke Evans para a posição dois, foram atrás de Aaron Brooks e o negócio não rolou, dizem que Jonny Flynn é o próximo alvo.

Se nenhuma troca der certo fica para a temporada que vem, não sabemos como serão as novas regras salariais, mas de qualquer jeito o Kings, que já é o time que menos gasta com salários na NBA (menos da metade que o Lakers, por exemplo), vai contar com o fim do salário do Dalembert para ter espaço para atrair muita gente que esteja atrás de grana. É trabalhar para melhorar no resto de temporada para mostrar que um bom time pode nascer dessa confusão e assim chamar a atenção de alguns bons jogadores. Espero que dê certo, é triste ver um jovem time que era um dos mais empolgantes da temporada passada estar jogando tão mal.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Sacramento Kings

 Tyreke Evans é bom porque faz vudu

Objetivo máximo: Brigar até o fim por uma vaga de playoff
Não seria estranho: Melhorar em relação ao ano passado mas entrar de férias em abril
Desastre: Não apresentar melhoras em relação ao time do ano passado

Forças: Tyreke Evans, Tyreke Evans e o cara da foto do pôster do meu quarto, o Tyreke Evans
Fraquezas: Muitos dos bons jogadores do elenco ainda estão longe de serem tão espetaculares quanto Tyreke Evans

Elenco:








.....
Técnico: Paul Westphal

O Paul Westphal foi o um dos meus técnicos favoritos na temporada passada. De todos os times que ficaram longe dos playoffs, só dois tinham uma identidade clara, um jeito de jogar típico deles e que seus jogadores sabiam o que estavam fazendo. Era o Warriors porra-louca do Don Nelson (que o "saber o que fazer" era fazer o que bem entender) e o Kings do Westphal. Infelizmente saber o que está fazendo não quer dizer que o time vencia tudo, longe disso, mas foi normal. A base do time eram os novatos Evans e Omri Casspi e o elenco tinha falhas, como um garrafão fraco na defesa e um banco de reservas irregular. Sem contar as contusões, como a do importante Francisco Garcia.

O estilo do Kings imposto pelo Westphal lembra um pouco o do último grande time do Kings, o de Rick Adelman no começo dos anos 2000. Não é a mesma coisa, mas traz muitos dos conceitos daquele time, é uma equipe que consegue ter paciência no ataque ao mesmo tempo que joga em velocidade. Os 24 segundos de posse de bola deles parecem um filme iraniano de tão longos para a defesa, de tantos passes que trocam e movimentações que realizam. Infelizmente às vezes eles perdiam a paciência se a bola não caía e se perdiam na individualidade, acontece com qualquer criança.

Mas queria usar esse espaço dado para o Westphal para falar um pouco da história dele. O Westphal tem uma carreira de sucesso como jogador e técnico e participou de dois dos momentos mais marcantes da história dos playoffs da NBA.

Como jogador, nos anos 70, ele foi draftado pelo Boston Celtics e foi campeão lá em 1974. Mas depois foi trocado para o Phoenix Suns, onde foi um dos maiores cestinhas da NBA por uns anos e levou o time do Arizona para a final da liga para enfrentar o seu ex-time. Eis que o jogo 5 da final de 76 entre Celtics e Suns é considerado por muita gente como o melhor jogo da história da NBA e até tinha uma matéria sobre essa partida ontem mesmo na NBA.com, dizendo que não tem como outro jogo superar a emoção daquele embate.

A série estava empatada em 2 a 2 e o jogo 5 era em Boston. O Boston Garden estava lotado, o Celtics (com John Havlicek, Dave Cowens, Jo Jo White, Paul Silas e cia.) estava inspiradíssimo e a difereça chegou a estar em 20 no primeiro tempo. Mas aí o Suns de Westphal começou a reagir e empatou o jogo no final, levando a partida para a prorrogação. Lá as defesas começaram a pegar fogo, jogadores começaram a sair do jogo com seis faltas e o tempo extra acabou em 6 a 6. Segunda prorrogação.

Na segunda etapa o Celtics chegou a abrir diferença, mas o Suns encostou de novo e virou o jogo numa sequência épica de acontecimentos. Primeiro o Phoenix diminuiu a diferença do Celtics por um ponto com uma cesta de Dick Var Arsdale, na saída de bola Westphal rouba a laranja das mãos de Havlicek, manda para Curtis Perry que, a cinco segundos do fim, deixa o Suns na frente por um. Os verdes pedem tempo, Havlicek recebe a bola, faz a cesta da vitória e todo mundo invade a quadra. O que eles não tinham percebido é que ainda tinha um segundo de jogo no relógio. O Suns teria um fundo-bola e um segundo para fazer alguma coisa. E é aí que Westphal entra com uma jogada arriscadíssima que deu muito certo.

Sem ter mais tempos para pedir, Westphal pede um tempo ao árbitro, que acata o pedido com uma punição de falta técnica. O Celtics acerta o lance livre, aumenta a diferença para dois, mas deixa o adversário com o tempo para armar uma jogada e sair do meio da quadra (essa regra mudou no ano seguinte). Com um passe simples e um arremesso de arco altíssimo (à la Derek Fisher), Gar Heard empatou a partida. Terceira prorrogação.

No último período, times exaustos. O Celtics, liderado pelo seu banco de reservas, em especial Glenn McDonald, um jogador de pouquíssimos minutos por jogo que fez 6 pontos na terceira prorrogação, abriu seis pontos de diferença. Mas Westphal, com cestas dignas de Kobe e Wade (tem no vídeo, vejam) cortou a diferença para dois. Infelizmente não deu tempo para mais nada e o Celtics conseguiu segurar a vitória nos segundos finais. Na partida seguinte os verdes venceram o Suns e faturaram mais um título.

Um fato curioso dessa partida é que nela jogaram oito (OITO!) futuros técnicos da NBA: Pat Riley, Don Nelson, Dave Cowens, Paul Silas, Paul Westphal, Garfield Heard, Dick Van Arsdale e John Wetzel. 



Alguns bons anos depois, em 1993, Westphal estava ainda em Phoenix, mas como técnico. E liderou um time que estava em plena decadência no fim dos anos 80 a virar uma potência do Oeste, vencendo o título de conferência nesse ano e pegando o Chicago Bulls de Michael Jordan na final. E o que aconteceu no jogo 3? Mais uma prorrogação tripla! Michael Jordan começou o jogo pegando fogo, acabou com 44 pontos, mas esfriou a partir do quarto período e o Bulls deixou a vitória escapar, 129-121 para o Suns.  Não impediu que o Bulls vencesse o título do mesmo jeito depois de 6 jogos, mas pelo menos o Westphal teve o gostinho de vencer pelo menos uma prorrogação tripla em finais na sua vida.



....
Eu não acho que o Kings vai brigar por vaga nos playoffs. E acho isso só porque o Oeste tem muitos times fortes, não porque acho que o time não vai evoluir, muito pelo contrário. Vão crescer e eu vou estar lá com balde de pipoca na mão vendo todos os jogos!

No ano passado, a partir da segunda metade da temporada, todo mundo começou a cair de produção na equipe, em especial os dois novatos que carregavam o time nas costas no começo do ano, Tyreke Evans e Omri Casspi. O primeiro continuou jogando bem porque é fora de série, mas sem fazer a mesma diferença que fazia nos primeiros meses, e o israelense simplesmente desapareceu. Não é incomum isso acontecer, muitos novatos sofrem com isso porque é difícil se acostumar com um calendário de 82 jogos quando se está acostumado a jogar às vezes menos da metade disso no basquete universitário ou na gringolândia.

Como também é comum, os dois vão voltar bem maiores e mais fortes do que no ano passado e provavelmente vão dar conta do recado durante todo ano. Outra melhora do time deve ser no garrafão, onde eles sofriam por não ter um pontuador nato e por serem fracos nos rebotes e na defesa (foi mal, Spencer Hawes, no fundo você é um Mehmet Okur piorado). O Jason Thompson é bom, mas é uma espécie de LaMarcus Aldridge e vive dos arremessos de longe e acha que o garrafão é feito de lava. Já para esse ano eles vão ter por toda a temporada o Carl Landry e seu jogo na marra que eu nunca vou entender, o novato DeMarcus Cousins que é gigante e tem feito bons jogos na pré-temporada e Samuel Dalembert, o cara que vai reconstruir o seu país natal, o Haiti, antes de ser capaz de dar uma assistência ou de criar um arremesso, mas que faz o que é pago para fazer, pegar rebotes e dar tocos.

O garrafão com Jason Thompson, Dalembert, Landry, Cousins e um clone do Dalembert, o novato Hassam Whiteside, é bastante promissor e a briga vai ser boa pelas vagas de titular. Thompson e Dalembert começam a temporada nas duas vagas segundo Westphal, mas é só por serem veteranos, nada está garantido para a segunda semana de temporada. Mesma coisa na armação, Beno Udrih começa ao lado de Tyreke Evans, mas o treinador não descarta usar Evans de armador principal e usar Francisco Garcia ou Antoine Wright ao seu lado. Na posição de ala disputa 100% em aberto entre Casspi e Donte Greene.

Dou ênfase nessas disputas porque ao contrário do Wolves, o Kings não está muito interessado em dar minutos para todo mundo jogar e deixar os pirralhos crescerem para jogar bem daqui alguns anos. O Tyreke Evans já jogou em nível de All-Star no ano passado e é um cara que pode levar o time nas costas desde já, se tiver o elenco de apoio certo o Kings volta para os playoffs em pouco tempo. O que interessa para eles então é colocar todos esses bons jogadores para se matar, se superar, brigar no treino e provar que podem ser titulares em um time vencedor num futuro próximo. Se jogarem mal não vão receber mais chances para pegar o jeito, provavelmente vão ficar de lado. Vai ser um ano de muitos testes de fogo para essa pirralhada e vai ser divertido assistir quem é promovido a grande jogador.

O time já tem uma identidade, um "franchise player" e bons jogadores em todas as posições batalhando ferozmente por uma vaga no time. Acho que estamos presenciando um Oklahoma City Thunder parte 2 aqui e veremos esse time nos playoffs em breve. Até lá um susto ou outro em grandes times, só pra ninguém esquecer deles.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Os malefícios de torcer

O Durant grita porque, nessa idade, é assim que se pede leitinho


A partida de ontem entre Jazz e Thunder foi uma das mais espetaculares da temporada. Depois de mais de uma semana afastado da NBA (vida boa nas montanhas), dei a sorte de escolher acompanhar justamente uma partida tão memorável. A escolha pelo jogo, no entanto, não foi aleatória: o Jazz tem sido um dos meus times favoritos de assistir nos últimos anos, enquanto o Thunder é meu novo queridinho agora que Houston, Grizzlies e Kings estão eliminados e não podem mais ir aos playoffs.

Com o Jazz empatado em número de vitórias e derrotas com outros três times (todos ocupando da segunda à quinta posição) e o Thunder logo atrás, em sexto, com apenas uma derrota a mais, o confronto decidia diretamente o posicionamento para os playoffs. Para mim, o jogo simplesmente mostrava a mudança dos tempos: aos poucos fui torcendo contra o Deron Williams, um dos meus armadores favoritos na NBA, e vibrei com cada lance do time adversário que, durante muito tempo, chamei apenas de aquele-que-outrora-se-chamava-Sonics. Mais do que feliz, me senti orgulhoso de perceber que os times se modificam e, portanto, meus interesses e gostos também mudam constantemente. Enquanto tanta gente critica esses torcedores que migram seu interesse de um time para o outro dependendo de quem está mais na modinha, concluo que não seguir a modinha é simplesmente uma baita burrice. Já pensou se eu não tivesse acompanhado a partida de ontem só porque o Kevin Durant acabou de virar popzinho?

Foram 45 pontos do garoto-acne, incluindo sete bolas de 3 pontos. Três delas, aliás, foram feitas em sequência durante os minutos finais do quarto período, quando o jogo parecia empatado. A terceira bola, arremessada com a tranquilidade de quem toma chá com o Tim Duncan, partiu de uns bons dois passos atrás da linha de 3 pontos. Foi assim que, de repente, o Thunder perdia apenas por um mísero pontinho. Durant ainda errou por muito pouco uma cesta de três, todo torto, bem marcado e de costas pro aro, no estouro do cronômetro que teria dado a vitória ao Thunder. Com seu erro, o jogo foi para a prorrogação em que o Deron Williams continuou sua noite absurda e acertou o arremesso da vitória com um segundo apenas para o fim.

O Deron Williams marcou 42 pontos, maior marca da carreira. Já faz tempo que insisto que o Deron tem o melhor arremesso de média-distância da NBA (além de um dos melhores crossovers e um dos melhores "step-backs", aquele passinho para trás para ganhar espaço). Ele é simplesmente mortal conseguindo se livrar do marcador apenas o suficiente para um arremesso nas proximidades do garrafão. Sem falar de sua força física que lhe garante umas trombadas tranquilas rumo à cesta e capacidade de viver dando cabeçadas durante os pick-and-rolls. A visão de jogo é apenas um bônus, jogando no esquema tático do técnico Jerry Sloan ele nem precisava - o Deron Williams parece ter nascido para armar o jogo para o Jazz, só seria mais perfeito se tivesse nascido mórmon e achasse que os negros tem essa cor porque não aceitaram Jesus (perceba que minha primeira crítica ao Jazz ou os mórmons só veio aqui, várias linhas depois de iniciado o post, porque aqueles torcedores sem senso de humor que aparecem no blog são sempre vindos do Orkut e, portanto, não conseguem ler mais de três linhas - sua alfabetização se restringe a frases como "só add quem deixar scrap", por isso nunca mais faço uma piada com eles nas primeiras linhas de um post).

O Deron Williams é sensacional, deu a sorte de estar num time que usa todos os seus pontos fortes, e permite que o Jazz seja uma máquina fortíssima quando o elenco está dentro dos desenhos táticos. Cansei de ver meu Houston tomar pau de um Jazz obediente taticamente em que todo mundo se move o tempo inteiro e o ataque limitado acaba mostrando uma quantidade inesperada de armas ofensivas. O Denis e eu sempre batemos na tecla de que o time é lindo de se ver jogar - mas aí, vendo meu amado Deron Williams chutar traseiros e o Jazz jogar com todas as peças no lugar certo, eu não conseguia fazer nada além de, sorrindo com a beleza do jogo, torcer contra. Meus tempos de entusiasta do Jazz terminaram.

Aqui no Brasil, quando torcemos para um time da NBA não se trata de uma escolha cultural. Salvas raríssimas exceções, ninguém aqui nasceu ou foi criado numa cidade com um time da NBA, ninguém tem pais que torcem para o time e colocam bandeira da equipe no quarto do bebê no hospital, ninguém faz parte de uma etnia ou minoria representada por uma equipe, nem tem amigos ou parentes que cresceram juntos ao redor de um ginásio com jogos todas as noites. Nossas escolhas por uma equipe são arbitrárias e representam, no máximo, uma identificação com um modo de jogo. Vemos um time jogar e achamos legal ou chato, vemos um time que só perde e escolhemos porque curtimos sofrer e ser corinthianos, vemos um fraco ganhar do forte e escolhemos porque curtimos uma zebra, vemos um time colecionar títulos e escolhemos porque ganhar é divertido, vemos um jogador espetacular e escolhemos seu time porque será legal acompanhar a carreira de sua estrela. As relações afetivas com os times surgem depois, quando ninguém se lembra mais que a escolha do seu time de coração foi arbitrária e aleatória. O esporte tem dessas, carinha dar sopapo ou meter pipoco em nome de um time que ele - que nem mais se recorda - um dia sentou no sofá e decidiu "é, vou torcer pra esse aqui". Quem é que se sujeita a ficar bravo ou ofender por um troço tão aleatório, tão desassociado de laços culturais?

Mas o torcedor passa anos acompanhando o time vencer (se você torce pro Lakers e Spurs), anos acompanhando o time feder (se você torce pro Jazz) e anos sozinho assistindo novela da Globo (se você torce pro Grizzlies), ele passa a estar ligado ao time, e começa a achar um absurdo o cara que chegou agora e, também aleatoriamente, escolhe um time qualquer para acompanhar. Tudo porque, como o Denis sempre gosta de lembrar, brasileiro não gosta de esporte: brasileiro gosta é de torcer. Então todo mundo tem que escolher time enquanto o torcedor de longa data mete o pau em quem está chegando agora babando - com razão - em cima do LeBron James.

Nos Estados Unidos, o pessoal não tem tanto acesso a partidas da NBA quanto a gente pensa. São poucas transmissões em canais abertos, mas cada região passa todos os jogos de seu time. Então um morador de San Antonio pode ver todos os jogos do Spurs e aos poucos começa a querer se enforcar de tédio, mas não verá quase nunca o Cavs jogar. Pior: times que não recebem cobertura nacional dos grandes canais acabam desaparecendo dos olhos do público, e um torcedor de San Antonio só vê equipes como Kings e Nets quando esses times enfrentam o Spurs. Então, lá na gringolândia, o torcedor não tem muita escolha a não ser seguir seu time.

Aqui não. Sem ter um canal local passando os jogos do nosso time, nosso acesso aos jogos é através da TV paga, que em geral mostra sempre as mesmas equipes (é questão de público e dinheiro), mas nossa alternativa é acompanhar pela internet, em que podemos assistir qualquer jogo de qualquer equipe. Qualquer um. Frente a essas circunstâncias, esse lance de acompanhar apenas um time, ou então de ser contra as modinhas, parece uma estupidez tremenda, um comportamento que errou de cultura e de país. Ao invés de criticar os torcedores modinha do Bucks, todo mundo que acompanha NBA no Brasil deveria correr e acompanhar um par de partidas dos veadinhos para ver do que se trata, como jogam, como é sua defesa, o porquê de estarem ganhando jogos. Ao invés de odiar o LeBron por ser modinha ou o Kobe por ser fominha, todo mundo deveria correr para acompanhar suas maiores atuações. Quando o Kings e o Tyreke Evans explodiram no começo da temporada, o Denis e eu não parávamos de ver jogos da equipe. Quando o Kevin Durant começou a pontuar como um maluco, lá estou eu para tentar entender o que raios faz esse Thunder ser tão bom.

Nessa temporada, assisti quase todas as partidas do Houston. Mas, confesso, foi apenas porque o time era divertido demais de se ver. Abandonei vários jogos da equipe, quando as coisas estavam capengando, para ir acompanhar o Kings em alta - e até para acompanhar, como fiz tanto, o Nets em baixa. O Nets virou para mim uma espécie de modinha do Mundo Bizarro, eu queria acompanhar pra entender o porquê de feder tanto se os jogadores eram tão legais. O resultado foi que o Nets tem o quíntuplo de posts no Bola Presa nessa temporada do que tem o Spurs, porque eu sou um modinha. E vou dizer uma coisa, é uma delícia seguir a moda e ir espiando o que de melhor - e de pior! - está acontecendo ao redor da NBA.

Alguns torcedores do Jazz tão agradáveis quanto a Vanuza cantando o Hino Nacional me tiraram um bocado de apreço pela equipe. Mas minha falta de interesse no Jazz, mesmo enquanto o time chocava a NBA e nos fazia morder a língua, tem mais relação com o interesse crescente por outros times. Amor e obediência incondicionais são um absurdo: tudo é histórico. Se você ama e obedece incondicionalmente ao seu país, deveria perceber que esse amor é tão arbitrário e aleatório quanto torcer para o Palmeiras ou para o Fluminense, e eventualmente teu país pode estar fritando judeus por aí e você vai estar batendo palmas, nesse lance de incondicional. Tudo depende do momento, das circunstâncias. Eu torço pro Houston até que isso seja divertido, no momento em que eles contratarem o Bruce Bowen eu deixo para lá. Esse lance de "eu torço para tal time e não importa o que ele faça, o que interessa é vencer" é coisa de quem não gosta de esporte ou basquete, gosta é de vitória. Mas aí dá pra deixar a NBA de lado e ir disputar par-ou-ímpar. Vitória é o caralho, estamos aqui porque é divertido, porque nos faz bem, porque nos permite uma janela para o mundo, porque nos dá orgulho da humanidade, porque nos dá nojo da humanidade. Se é só vencer, pega teu irmãozinho e vai jogar Street Fighter com o Sagat.

Sendo assim, interesses, amores e paixões pelos times da NBA vem e vão o tempo inteiro. Sorte de quem torce menos e aproveita mais, sorte de quem sabe porque e para quê está gastando horas e horas diárias da sua vida num esporte que consiste de acertar uma esfera laranja numa circunferência exageradamente alta lá nos Estados Unidos, e a gente assiste de longe, batendo palminha atrás do teclado. Então eu vejo menos Jazz e mais Thunder. Acompanho o meu Houston trocando de canal quando começa o Grizzlies. Deixo o Michael Jordan pra lá porque seu tempo já terminou e tem um caralhada de jogadores maravilhosos que apareceram na NBA desde então. Acompanho Kobe, LeBron, Wade e Durant, tudo ao mesmo tempo, sem ter birra por nenhum deles apenas porque estão ficando famosos ou porque um é melhor que o outro. É por isso que a política do Bola Presa é não fazer lista com os quatrocentos melhores alas de todos os tempos, não ficar vivendo no passado e nem criar qualquer inimizade que não seja bem-humorada. Senão o Chris Paul é chamado de estrume só porque um carinha prefere o Deron Williams. Torcer acaba atrapalhando a fruição de um esporte que tem trocentos times, trocentas estrelas, trocentos jogadores incríveis que são completamente nada-a-ver e você só conhecerá vendo os 5 minutos finais de uma partida perdida pelo Pacers.

Eu querer que o Thunder ganhasse não estragou nem um pouco a partida maravilhosa do Jazz ou a marca histórica do meu queridinho Deron Williams, apenas tornou mais indignante a falta não marcada em cima do Kevin Durant no seu arremesso de três pontos que poderia ter vencido o jogo (vale conferir, junto com os melhores momentos, no vídeo abaixo).


Se o arremesso iria entrar ou não, nem importa, ele sofreu uma falta e teria direito aos lances livres que poderiam empatar ou vencer o jogo. Os juízes não deram, o Durant ficou na quadra reclamando, foi arrancado de lá pela comissão técnica, e eu fiquei um pouco emburrado. Acontece. Acompanhei uma das melhores partidas da temporada, com um final eletrizante e até roubado, simplesmente porque resolvi embarcar na modinha do Kevin Durant. Já tem gente odiando o garoto e nem é porque ele tem a metade da nossa idade e já chuta traseiros um absurdo, é só porque ficam babando ovo nele. Porque, afinal de contas, legal mesmo é babar ovo no Eddy Curry.

Confesso que fico até um pouco aliviado de não ter o meu Houston Rockets para acompanhar nos playoffs. Além de não entupir o Bola Presa com posts do tipo "diabos, o meu time não tem chances mas eu amo o Kevin Martin", poderei assistir trocentas outras equipes em duelos incríveis sem ficar torcendo muito, posso ficar vibrando com os jogos e esperando alguns confrontos específicos. Torço moderadamente até a favor do Spurs, que agora é um time moderadamente divertido e imprevisível, mas peço desculpas aos moradores do Rio pela minha torcida pelo San Antonio estar causando alguns fenômenos pluviais.

Não deixe ninguém tirar a tua diversão em acompanhar algum jogador queridinho do grande público, ou de torcer por um time que está nas manchetes, ou que acabou de ganhar um título. Mas também não se prenda a esse jogador ou a esse time que, como você sabe, foi escolhido meio ao acaso. Permita-se degustar toda a NBA sem que seu fanatismo te torne completamente cego para as outras coisas que cercam o universo do basquete. E, acima de tudo, se você não tem senso de humor, vá torcer para o Jazz para que fiquem todos concentrados em um só lugar e as outras maçãs não se estraguem. A NBA pode ser muito legal, apesar de muita gente - fanática por ela - tentar provar o contrário.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O melhor dos quebra-galhos

Jason Richardson tenta roubar a carteira
do Darren Collison no meio do jogo


Em novembro, exatamente três meses atrás, escrevi um post porque Deron Williams e Chris Paul se contundiram quase ao mesmo tempo - se um pular da ponte, como diriam as mamães do mundo, o outro pula atrás. Dois novatos selecionados em escolhas seguidas de draft, um na vigésima e outro na vigésima primeira (assim como Deron e Chris Paul foram selecionados seguidamente, na terceira e na quarta), assumiram a vaga de titulares e começaram a chutar traseiros. Pelo Jazz, o novato era Eric Maynor, que desde então foi mandado para o Thunder (assim como o Ronnie Brewer acabou de ser mandado para o Grizzlies) apenas para economizar uma grana, e agora lhe cabe ser reserva num time jovem que ainda tem muito a crescer. Mas o outro novato, jogando pelo Hornets, é Darren Collison. Na ausência do Chris Paul provavelmente pelo resto da temporada, se recuperando de uma cirurgia no joelho, Collison está dominando partidas e de repente ficou famoso, com seu nome aparecendo em todas as listas de melhores novatos do ano.

O engraçado é que essa oportunidade só surgiu para o Collison graças à burrice do David West. Numa partida contra o Bulls, a oito segundos do final, o Hornets ganhava por dois pontos e o David West só tinha que cobrar um maldito lateral nas mãos do Chris Paul. Com medo do passe ser interceptado, ele mandou a bola para a putaqueopariu na quadra de defesa, o Paul teve que se atirar parar salvar a bola (que foi parar nas mãos do time do Bulls a tempo deles empatarem a partida, irem para a prorrogação e ganharem o jogo) e o coitado do Chris Paul acabou contundindo o joelho quando se jogou no chão. Ou seja, deu mais errado do que a terceira edição da "Casa dos Artistas" no SBT, e o Darren Collison teve que assumir a armação outra vez. Três meses atrás, quando escrevi o post, era só por tempo limitado, graças a uma torção de tornozelo, mas agora é pra valer.


O Hornets dessa temporada é uma bela de uma porcaria, basicamente porque não existem pontuadores no elenco. Conforme Chris Paul foi ficando mais e mais frustrado no começo da temporada, foi passando a atacar mais a cesta e pontuar por conta própria. Quando o Collison começou a substituí-lo, o grande medo foi perder todo o poder ofensivo, então outros jogadores começaram a se concentrar mais nesse aspecto. O também novato Marcus Thornton passou a ganhar minutos, Peja Stojakovic foi acordado de seu sono na câmara criogênica, e Collison fez um bom trabalho envolvendo todo mundo. O grande lance sobre ele é que, mesmo tendo um arremesso não muito confiável (e de mecânica esquisitinha), sendo magrelo, fracote e mais-ou-menos na defesa, ele sabe perfeitamente bem como liderar um time e tomar as decisões corretas. O ultimo draft foi a melhor leva de armadores de todos os tempos, sem brincadeira, mas acho que o Collison é o mais inteligente em quadra quando se trata de dar os passes certos do modo mais fácil. Além disso, ele pode ser também o armador mais rápido do draft sem deixar com que isso lhe faça jogar na correria. Ele prefere segurar a bola, dar a assistência mais simples, e utiliza sua velocidade apenas quando faz sentido. Ele pode não ser o mais talentoso dessa safra, e eu tendo a achar que ele está pronto demais e não deve melhorar muito o seu jogo (e nem a estrutura física, dizem que ele é naturalmente magrelo), mas é certamente perfeito para jogar no Hornets e isso fica óbvio no seu desempenho.

Alguns estilos realmente fazem a vida dos jogadores. O Jazz do técnico Jerry Sloan é famoso por fazer com que qualquer humano bípede pareça um bom jogador na posição de armador - Brevin Knight, Raul Lopez e até o Raja Bell já chutaram traseiros no sistema de pick-and-rolls da equipe. No Hornets de uns anos para cá, o sistema tático consiste em dar todo o poder do mundo para o armador da equipe, pode até comer a esposa do dono. A bola passa o tempo inteiro nas mãos do Chris Paul, o ritmo do jogo fica em suas mãos, o resto do time só toca na bola quando ele quer, e na defesa cabe ao armador cuidar das linhas de passe na cabeça do garrafão enquanto o resto da defesa afunila o ataque adversário em direção à linha de fundo. É claro que, com tanta responsabilidade e tanto tempo com a bola nas mãos, qualquer armador do Universo (estou falando do espaço sideral, não do time brasuca) vai conseguir bons números. Mas o Darren Collison não é um fruto desse sistema, ele é apenas perfeito para esse sistema. Dê a bola o tempo inteiro para o Aaron Brooks ou o Louis Williams e você terá um pontuador maluco que terá belos números mas perderá todos os jogos. Collison é calmo, não tenta passes impossíveis, cuida bem da bola, sabe o que consegue e o que não consegue fazer em quadra, e é perito em controlar o ritmo da partida. Além disso, é um bom ladrão de bolas - perfeito para um sistema que exige apenas isso de sua defesa.

Nos 20 jogos em que foi titular, Darren tem uma média de 18 pontos, 4 rebotes, 8.4 assistências e 1.5 roubos de bola por jogo. Mas aos poucos, assim como Chris Paul, tem percebido que sua equipe fede muito e tem que pontuar cada vez mais. Nos últimos 10 jogos a média é de quase 22 pontos, assustador para um novato de arremesso mequetrefe. Contra o Houston, jogo que assisti recentemente, Collison engoliu o Houston com azeite e sal simplesmente em penetrações no garrafão, rápido demais para que o Aaron Brooks fosse capaz de marcá-lo. Passa boa parte do tempo dando os passes certos, obrigando o time a se mover, e de repente bate para dentro com uma velocidade surreal. Acabou decidindo o jogo assim no quarto período, o que é o mais importante: ele está fazendo o Hornets vencer de vez em quando em uma temporada que deveria ter sido jogada no lixo com a contusão do Chris Paul. O Hornets está atualmente em nono no Oeste, não muito longe do oitavo colocado Blazers e apenas meia vitória à frente do Grizzlies, que também luta pelos playoffs. Num Oeste tão disputado quanto o desse ano, lutar pela última vaga é uma conquista incrível. Ainda mais porque, insisto, o Hornets fede. De verdade.

Mesmo se não levar o time para os playoffs, no entanto, o Darren Collison se coloca imediatamente pela briga de melhor novato do ano. O problema é que não dá pra vencer o Tyreke Evans, que já é um dos melhores jogadores do planeta e de novato não tem nem a cara, mas a briga é boa com o Stephen Curry, que está jogando demais no Warriors, e com o Brandon Jennings, que cada vez mais tem "novato" escrito na testa. O engraçado é que Collison e Jennings teriam se enfrentado no basquete universitário se o Jennings tivesse jogado na Universidade de Arizona, como quase aconteceu, ao invés de preferir o basquete europeu pra ganhar uma graninha. Quando eles finalmente se pegaram pela primeira vez na NBA, trocaram cestas decisivas no quarto período, Jennings cobrou dois lances livres que colocaram o Bucks três pontos na frente, mas o Collison acertou um arremesso de 3 para forçar a prorrogação. No tempo extra, o Collison bateu a carteira do Jennings e cobrou os lances livres da vitória do Hornets, num jogo fantástico entre dois armadores sem idade para beber cerveja. Na noite de ontem eles se enfrentaram de novo, Collison teve uma atuação incrível, com 22 pontos e 9 assistências, deu um pau no Jennings - que é incapaz de acompanhá-lo na corrida, defendê-lo, e anda tendo problemas terríveis para acertar seus arremessos - e mostrou que vai acabar na frente do armador do Bucks na corrida por novato do ano, mas ainda assim o Hornets perdeu. Enquanto o Bucks tem a ajuda de Andrew Bogut (aliás, o time é dele e pronto), o Darren Collison só vem tendo ajuda do outro novato Marcus Thornton. Desde o dia 10 de janeiro ele só deixou de ter dígitos duplos em pontos por duas vezes, e desde que ganhou minutos na primeira contusão do Chris Paul três meses atrás, tem mostrado que é melhor pontuador do que qualquer um daquele elenco mequetrefe. Além de ter um arremesso muito bom com os pés parados, sabe colocar a bola no chão e bater para dentro do garrafão com agressividade. Ele tem uns problemas de confiança e se intimida muito com defesas mais agressivas, mas quando seu arremesso está caindo é imparável e joga como veterano. Será uma peça fundamental no Hornets tão desesperado por pontuadores, mas o Darren Collison precisa de mais ajuda do que isso. O problema é que, quando essa ajuda chegar, Chris Paul já estará na equipe e Collison será reserva, vai poder aproveitar menos a festa. O importante, no entanto, é não ter pressa. É sensacional ver o Chris Paul dando dicas para o novato em cada parada de bola e treinar com ele deve ser um privilégio. Jogar num esquema que o favorece tanto também, então o Hornets ganhou um belo reserva. É triste saber que ele deu 18 assistências em seu primeiro jogo desde a contusão do Chris Paul, que ele fez um triple-double com 18 pontos, 13 rebotes e 12 assistências, e que mesmo assim não poderá ser titular porque ele e Paul juntos, em quadra, seria um terrível problema defensivo. Mas resta a certeza de que, ao menos, o Hornets terá alguém decente no banco de reservas. Quando foi a última vez que isso aconteceu?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Filtro Bola Presa - um resumo semanal

Não tente explicar, Varejão, só vai ficar pior


Outro dia eu descobri que tinha gente que não sabe o que (e não quem!) era Tessália. Na época isso correspondia a não assistir a Globo, não ter Twitter e não abrir nenhum dos grandes portais da internet brasileira! Considerando que existe gente assim tão mal informada, não custa explicar mais uma vez o que é o Filtro Bola Presa.

No Filtro, publicado toda segunda-feira, pegamos assuntos, vídeos, notícias, fotos ou qualquer outra coisa relacionada a NBA que foi assunto nos últimos 7 dias (ou, no caso, 14, já que segunda passada não teve Filtro por causa do resumão do All-Star Game) na NBA e acabou não sendo citado aqui no blog. São muitos assuntos, apenas um blog e apenas dois blogueiros, muitas coisas interessantes ficam de fora e essa coluna está aqui para reparar um pouco esse problema.

Vamos ao trabalho:

- Alguma dúvida de que o Shaq deveria estar em todos os All-Star Games até o fim de sua vida, nem que fosse só como convidado?


- Em algum lugar do nosso polvo internético (aqui, twitter, tumblr, Both Teams Played Hard) vi que o Greg Oden tinha pedido desculpas públicas aos torcedores do Blazers depois que vazaram algumas fotos suas pelado na internet. Não me dei ao trabalho de pesquisar para ver o teor das fotos, mas pelo jeito ele não é a Paris Hilton e ao invés de ganhar fama, pediu perdão. Achei bizarro mas deixei quieto, afinal o Greg Oden não joga basquete nunca, o tédio nos faz fazer umas idiotices.

Mas eis que semana passada aparece um outro pedido de desculpas. Dessa vez o George Hill se disse envergonhado por ter fotos suas pelado distribuídas na internet! Qual o problema com esses caras? Já é idiota para uma pessoa comum tirar fotos suas pelado na era da internet, para uma pessoa famosa é pior ainda. E se fez isso por diversão, pra que pedir desculpas depois? É só um pinto. Como bons negros eles deveriam se gabar e me humilhar, um pobre branquelo na média nacional.

- Algumas notícias conseguem ser importantes e inúteis ao mesmo tempo. Um exemplo? O anúncio da USA Basketball dos jogadores candidatos a disputarem o mundial da Turquia nesse ano. É importante porque é o elenco do melhor time do mundo, é inútil porque são 27 malditos nomes!!! Como vão tirar só 12 dessa lista, continuamos praticamente na mesma incógnita de antes do aviso.

O que será mais interessante nessa convocação será acompanhar o mercado dos Free Agents. Provavelmente caras como Amar'e, LeBron, Wade, Bosh, Boozer e David Lee só darão certeza se estarão na Turquia se já tiverem contrato assinado na NBA. No fim das contas até a seleção americana, além de uma outra dezena de times, depende desses benditos Free Agents para saber do seu futuro.

- Falando em Free Agents, achei muito legal a manobra do Toronto para manter o Bosh por lá. Eles tentaram, sem sucesso, porém, uma troca pensando em trazer para o time não um grande jogador, mas um amigão do Chris Bosh, o Josh Powell. Eles ofereceram Marcus Banks e o lixo do Patrick O'Bryant em troca de Powell e Sasha "The Machine" Vujacic.

Powell é brother camarada do Bosh e seria mais um artifício da equipe para criar o ambiente ideal para o ala em Toronto. Mesmo sem a troca ter sido fechada (por mais que o Lakers queira se livrar do Sasha, o Patrick O'Bryant vale o mesmo que um o.b. usado), o Bosh tem ficado mais convencido. Outro dia disse que se acha bom o bastante para atrair outro jogador para o seu time ao invés de precisar sair atrás de um novo.

- Viram o jogo do Nuggets contra o Cavs na última quinta-feira? Provavelmente o melhor jogo da temporada regular até agora. Carmelo Anthony fez uma partidaça e acertou o arremesso da vitória na cara do LeBron.

Aliás, o LeBron foi ridículo nesse jogo, quase patético. Tomou um monte de arremesso na cara, perdeu um jogo em casa e fez esses números: 43 pontos, 13 rebotes, 15 assistências, 2 roubos e 4 tocos. É muito óbvio que ele é só um produto da mídia, um queridinho dos juízes que só faz pontos por causa do seu físico.

Espero que entendam o sarcasmo, mas os odiadores do LeBron podem usar outro número a seu favor: LeBron errou seus últimos 4 arremessos nesse jogo decisivo e o Carmelo acertou 7 dos últimos 8.

- Nós fizemos um post uma vez com os melhores comerciais envolvendo jogadores da NBA. Uma pena que a lista foi feita meses antes do melhor comercial da história, estrelando Lamar Odom. E esse comercial me lembra de dar a dica para todo mundo assistir ao filme "Rebobine por favor" (Be kind rewind).



- O Danilo postou aqui sobre a insatisfação aparente do elenco do Cavs com a troca do amigão parceiraço Ilgauskas pelo rival Jamison. Acho que LeBron e companhia deveriam parar de reclamar e ouvir um pouco o Deron Williams, que parece muito, muito bravo com a decisão da equipe de trocar o Ronnie Brewer para o Memphis por dois panetones e um freio ABS.

Não dá pra culpar ele, o Jazz venceu 17 dos últimos 19 jogos, assumiu a terceira posição do Oeste, tem sido o melhor time de toda a NBA nas últimas semanas (eu achava que eles estavam acabados!) e agora perdeu uma peça importante por questões puramente financeiras. E a coisa fica pior, que motivação terá o Boozer para ficar em um time que troca um titular por nada só para economizar uns trocados?

- Ontem o Stephen Curry, novato do Warriors, deu mais um show em uma vitória de virada sobre o Hawks. Ele dominou o jogo com 32 pontos, roubos de bola e algumas assistências lindas (uma foi num contra-ataque, na corrida, com a mão esquerda. Mais Steve Nash, impossível). Só que em um determinado momento do jogo, o finalzinho pra ser mais exato, ele deu um passe ridículo na mão do Jamal Crawford, um erro infantil que poderia ter custado o jogo.

E é a única diferença entre o Curry (que já passou o Jennings na corrida de melhor novato do ano) e o Tyreke Evans: o novato do Kings não comete erros de novato.

Dêem uma olhada nesse drible do Tyreke sobre o Jared Jeffries na vitória do Kings sobre o Knicks. Tem coisa mais de veterano que isso?


- Aqui não falamos de NBB, Euroliga e basquete universitário porque é um blog sobre NBA. Mas não deu pra ignorar esse lance livre do Brady Morningstar (o nome mais gay da história da Terra) da universidade de Kansas.


- Enquanto o Jay-Z estava no All-Star Weekend, a sua digníssima senhora estava no Rio de Janeiro sendo gostosa. Mas ele conseguiu matar a saudade quando o Benny The Bull, o mascote do Chicago Bulls, dançou "Single Ladies" para ele no meio da quadra. A cara do Jay-Z após a dança diz mais do que eu poderia dizer aqui.


Atualização de fim da tarde
8 ou 80 - O cantinho atrasado das estatísticas

- Antawn Jamison teve A pior estréia de todos os tempos na NBA. Com nenhum acerto em 12 tentativas de arremesso ele superou o antigo recorde de Corie Blount pelo Warriors em 2001 e Kevin McKenna em 1983, os dois erraram todos os arremessos em 10 tentativas.

- A atuação do LeBron que eu citei acima foi algo único na história da NBA. Nunca um mesmo jogador tinha conseguido tantos pontos, rebotes, assistências, roubos e tocos no mesmo jogo. E ignorando os roubos e tocos foi a primeira vez desde 1962 que um jogador conseguiu pelo menos 43 pontos, 15 assistências e 13 rebotes num mesmo jogo, naquele tempo o feito foi do Oscar Robertson.

- Outra curiosidade numérica sobre o Cavs: Com 28,4 pontos eles são os líderes da NBA em pontos no primeiro período. Porém são apenas o 11º em pontos no segundo período, 22º em pontos no terceiro período e 22º no último período. Quem tiver uma explicação plausível pode mandar.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Estando bom para todas as partes

Kevin Martin e Artest agora têm algo em comum além do sorriso bobo:
deixaram de ser estrela para ser coadjuvante em Houston


Nessa temporada, o Houston Rockets não é o time de Yao Ming ou de Tracy McGrady: ele é o time do técnico Rick Adelman. Pela primeira vez em sua carreira, Adelman tem um time inteiro nos seus moldes, capaz de executar com perfeição suas loucuras tática, um elenco profundo, recheado de especialistas e sem uma estrela sequer. A equipe surpreendeu no começo da temporada chutando um punhado de traseiros, escalando rumo ao topo do Oeste e provando que a filosofia de jogo do Adelman poderia levar à vitória um time visto como mais-ou-menos. Mas esses não são os Jogos Escolares de São Bernardo, e sim a conferência Oeste da NBA. O nível é cada vez mais alto, os times mais emparelhados, e uma sequência simples de vitórias ou derrotas é a diferença entre ser líder da conferência e estar fora dos playoffs. Sem um líder em quadra, sem uma estrela capaz de trazer tranquilidade ao time e garantir cestas fáceis e decisivas nos finais dos jogos, o Houston foi de fininho escorregando para fora da zona de classificação. De repente, o Rick Adelman não parecia mais tão genial - e nem tão feliz - assim.

Por essa razão, o técnico do Houston foi entregando cada vez mais liberdade e responsabilidade nas mãos de Aaron Brooks e Carl Landry. O armador Brooks é o único disposto a arremessar sem parar nos finais de partida, e o Landry é simplesmente o líder em pontos no quarto período de toda a NBA. No entanto, abrir essa exceção tática para os dois deixava Rick Adelman cada vez mais frustrado, tudo porque o Brooks não tem muito cérebro e dá arremessos bastante idiotas, enquanto o Landry compromete o time na defesa. Ainda assim, parecia melhor do que deixar Tracy McGrady entrar em quadra com sua falta de ritmo, falta de defesa e postura de estrela. Não importa que T-Mac tivesse treinado como um maluco nas férias com os melhores treinadores do mundo, ao lado de Dwyane Wade. Não importa que T-Mac estivesse se dizendo saudável pela primeira vez em anos. Rick Adelman não queria comprometer sua visão de um time coletivo e perfeito, não queria sujeitar seu elenco de carregadores de piano à dúvida de McGrady jogar ou não jogar todas as noites, graças às suas incessantes contusões. Preferiu tentar salvar a temporada desde o começo retirando o mal pela raíz. Sobrou pro T-Mac, que não tinha nada com isso.

Sua troca era inevitável. Tracy McGrady está no último ano de um contrato que lhe paga 23 milhões de doletas, ou seja, deixa salivando qualquer time interessado em liberar espaço salarial para a temporada que vem com poluções noturnas pelo LeBron James. Mas a troca não poderia ser por alguma outra estrela, por um jogador que comprometesse o trabalho do Adelman. Os engravatos de Houston acreditam no técnico, o elenco de ajudantes de luxo em quadra acredita nele, então o poder está nas mãos do homem. Durante vários dias, os boatos indicavam que T-Mac seria trocado por mais uma série de ajudantes de luxo: se fosse para o Knicks traria Jared Jeffries e Al Harrington, se fosse para o Sixers traria Iguodala e Dalembert. Chega a ser engraçado imaginar uma equipe com Trevor Ariza, Shanne Battier e Andre Iguodala, três dos melhores defensores da NBA, capazes de se encaixar em qualquer equipe e ajudar uma estrela a ser campeã. Mas conseguiriam ganhar alguma coisa ajudando apenas uns aos outros? Seria um excelente experimento sociológico, quase tão bom quanto Big Brother, mas sem sexo debaixo do edredom.

Na última hora, o Sixers vetou a troca. Parece que eles ainda estão convencidos de que o Iguodala pode ser campeão sozinho, sem uma estrela, e preferiram viver em seu mundo de fantasia com o Coelhinho da Páscoa, o Papai Noel, a Alinne Moraes e todas essas coisas que não existem. Restou então mandar o T-Mac para o Knicks, mas aí o Kings apareceu.

O Sacramento virou um dos meus times favoritos nessa temporada. Sempre fui fanático pelo jogo pouco ortodoxo do Kevin Martin (por "pouco ortodoxo", é claro que eu quero dizer "ridiculamente bizarro") e fiquei muito interessado em descobrir o porquê do time vencer com ele fora, contundido. Foi aí que o Tyreke Evans começou a jogar um absurdo, cravou seu nome como o calouro do ano antes mesmo do meio da temporada, conquistou o coraçãozinho do Denis e transformou o Kings numa das equipes mais divertidas de se assistir em toda a NBA. Declarei em outro post meu amor súbito pelo Kings e como abandonei jogos do Houston para acompanhar a equipe do Evans (mas não contem pra ninguém!), e depois assisti atento ao Kevin Martin voltar de contusão e tentar se encaixar com o futuro novato do ano. Eu não fiquei convencido de que a dupla não funciona, ficou bem claro que os dois têm problemas para se encaixar em quadra mas pareciam estar aprendendo aos poucos. Mas a verdade é que os dois jogam melhor quando não estão juntos, tendo o jogo armado pelo Beno Udrih, e é compreensível que com as derrotas acontecendo em massa desde a volta do K-Mart, o Kings não quisesse sentar e ficar assistindo ao apocalipse. Até porque, poucas semanas atrás, eles estavam indo para os playoffs, exatamente como o Houston.

A troca então foi a seguinte: o Kings mandou o Kevin Martin para o Houston e o Sergio Rodriguez para o Knicks. O Knicks mandou o Jared Jeffries, o Larry Hughes e o Jordan Hill para o Houston. E o Houston mandou o Tracy McGrady para o Knicks e Carl Landry e Joey Dorsey para o Kings.

Pro Knicks, a troca é simples. O contrato gigante do Larry Hughes ia acabar mesmo, o essencial era se livrar do Jared Jeffries. Não que ele seja ruim, pelo contrário, o Mike D'Antoni sempre disse que o Jeffries foi o jogador que mais lhe deixou impressionando quando ele chegou em New York. Mas é que o burro do Isiah Thomas deu pro Jeffries um contrato de quase 7 milhões por ano apesar dele ser simplesmente um jogador secundário, versátil porque pode jogar em todas as posições (todas mesmo, de armador a pivô), bom defensor, mas irrelevante no ataque. No Knicks que não defende, que fede inteiro, de que serve um carregador de piano que ganha uma fortuna? Seu contrato duraria ainda mais uma temporada, e se livrando dele o Knicks fica finalmente pelado como queria, pronto para oferecer toda a grana disponível para as estrelas desempregadas na temporada que vem. Restaram apenas 4 jogadores com contratos para a próxima temporada no Knicks: o Danilo Gallinari, o Toney Douglas, o Wilson Chandler e o gordo do Eddy Curry, que o time tentou desesperadamente trocar mas ele está tão gordo que não passou pela porta e não conseguiu sair do ginásio. Como o contrato do T-Mac termina também, o Knicks abriu mão do novato Jordan Hill (que o D'Antoni odiava) e de uma escolha de primeira rodada para se livrar do Jeffries e nadar em dinheiro para a próxima temporada. Dá pra oferecer dois contratos máximos, ou seja, segundo a política do Isiah Thomas dá pra oferecer dois contratos com valores máximos para gênios como o Kwame Brown e o Sasha Vujacic.

Para o Kings, a troca foi um belo jeito de se livrar do contrato gigante do Kevin Martin, dar o time inteiro nas mãos do Tyreke Evans, contratar outro jogador que se encaixe melhor com ele na temporada que vem, e de quebra ainda levar o Carl Landry. Já faz um tempão que o Kings tem problemas para pontuar no garrafão, já que o pivô Spencer Hawes prefere arremessar de três e o James Thompson é genial mas prefere o arremesso de média distância. O Landry é um cara que não defende, não pega rebotes, não assobia, não lava a louça, não conta até dez, mas se você lhe der a bola debaixo da cesta, ele dará um jeito de pontuar. Chega a ser surreal, ele arruma um jeito dando porrada, na força, no jeitinho, com ganchos, na marra, reverses, pagando propina para o juíz, qualquer coisa, mas ele consegue. Será perfeito para vir do banco do Kings assim como fazia no Houston e pontuar no quarto período, momento em que o Kings tem perdido a imensa maioria dos seus jogos. O time é imediatamente melhor agora, dá espaço pra molecada e arruma um antigo problema. É com dor no coração e lágrimas nos olhos que eu vejo o Carl Landry ir embora, mas ele estará numa equipe que precisa dele e que, com sua presença, só tende a melhorar.

Mas para o Houston a troca tem tudo para dar certo também. Dia desses me perguntaram que estrela poderia ir para o Rockets sem lascar com a química e a visão do Adelman, e sugeriram o Joe Johnson por ser um armador completo e pontuador que não é individualista. Eu sempre achei que o jogador perfeito para o Houston seria o Michael Redd, que ele seria o par perfeito para o Yao, que permite tão bem que os seus companheiros arremessem livres de três pontos. Na falta dele, não consigo imaginar um jogador melhor do que o Kevin Martin para cumprir esse papel. Não só é um dos meus jogadores favoritos, ele também é um excelente arremessador de três pontos, quieto, discreto, sem problemas com ego ou com companheiros de equipe, e é especialista em cavar faltas e cobrar lances livres quando o time precisa de pontos fáceis ou não tem nada caindo. Se o K-Mart jogar minutos limitados e sempre estiver em quadra ao lado de Ariza ou Shane Battier (ou até de Jared Jeffries, mais um grande defensor nesse time cada vez mais defensivo e versátil), sua defesa patética não será um problema tão grande, ele será muito útil impedindo que o Aaron Brooks arremesse tanto, tornará o perímetro mais perigoso e cavará mais faltas nos momentos de pânico, quando o Houston não consegue manter o plano do Adelman porque os arremessos não caem e o Brooks se desespera. É exatamente o que o Rick Adelman queria: um jogador secundário, especialista, disposto a cumprir uma simples função em quadra ao invés de ser uma estrela, cargo que o Martin nunca quis assumir em Sacramento. É um ajudante perfeito para um time formado por ajudantes, com a diferença de que ele ganha quase 10 milhões de doletas por ano. No Kings pagavam e esperavam que ele fosse o líder da equipe, assim como no Knicks pagavam para o Jeffries e esperavam que ele evoluísse ano a ano. No Houston, os dois podem encher as orelhas de dinheiro para ser simples coadjuvantes, do mesmo modo que o todo o resto da equipe. Sem essa cobrança, os dois vão logo se sentir em casa, o coitado do Kevin Martin nunca quis ser nada além de coadjuvante e o Kings resolveu lhe pagar um contrato de 55 milhões, completamente inesperado, achando que ele levaria a franquia para algum lugar - justo ele, o cara menos vocal do mundo, o único cara do planeta que não gostaria de ser líder no Big Brother. Além disso, se o Jordan Hill souber pontuar um pouco e não der motivos para o Aldeman odiá-lo tanto quanto o D'Antoni odiava, a troca terá sido perfeita, com mais um carregador de piano para substituir o Landry nem que seja um pouquinho. Até o Larry Hughes tem jogado bem e, se tiver minutos bem limitados, pode quebrar um baita de um galho enquanto o Kyle Lowry está contundido. Aliás, a troca terá sido perfeita para todas as partes. Até para o Knicks, que com tanto nome e fama vai conseguir levar duas estrelas de peso na temporada que vem. Pode não ser o LeBron, mas alguém topa a brincadeira. Afinal, eles não são o Clippers. E o Kings continua sendo um dos times mais divertidos de acompanhar, dessa vez com o líder de pontos no quarto período. Será o bastante para levar a pirralhada para os playoffs?

EDIT: Pois é, ao contrário do que algumas fontes apontaram, o Larry Hughes foi para o Kings e não para o Houston. Então ao invés de ser um reserva quebra-galho pro Lowry, ele vai ser só um contrato de 13 milhões que expira e deixa o Kings com grana pra fazer o que quiser, gastar com estrelas, jogos, bebidas ou mulheres. Se ele entrar em quadra, ainda mais depois que o Francisco Garcia está de volta de contusão, é porque alguém tomou um tiro em quadra.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Os meus reservas

- oi eu sou um allstar....rs

Na última quinta-feira à noite finalmente foram divulgados os reservas para o All-Star Game. E se ontem pitacamos (existe o verbo pitacar, do latim, pitacus?) sobre as escolhas para o jogo dos novatos, hoje é dia de comentar os escolhidos para o principal evento do fim de semana, o jogo das estrelas no domingo à noite.

Os escolhidos oficiais foram:
Leste: Derrick Rose (Bulls), Rajon Rondo (Celtics), Paul Pierce (Celtics), Joe Johnson (Hawks), Gerald Wallace (Bobcats), Chris Bosh (Raptors) e Al Horford (Hawks)

Oeste: Chris Paul (Hornets), Deron Williams (Jazz), Brandon Roy (Blazers), Kevin Durant (Thunder), Dirk Nowitzki (Mavericks), Zach Randolph (Grizzlies) e Pau Gasol (Lakers)

A coisa mais difícil na hora de escolher os reservas é que cada um usa um critério diferente. Tem gente que acha que não se deve escolher jogador de time que está perdendo, outros acham que deve-se votar em quem dá show, outros que deve-se levar em consideração também a história do jogador e não só essa primeira metade da temporada. Se com critérios iguais já teríamos horas e horas de discussões, imagina quando não se concorda nem no que levar em consideração antes dos votos!

Pra mim a coisa é bem simples. Os titulares premiam o gosto (duvidoso) dos torcedores. Cada um vota em quem dá na telha, com os seus critérios, e eles vão lá jogar. Até por isso o Iverson, mesmo não sendo nem o terceiro melhor jogador do seu time, deveria ir jogar sem pedir desculpa pra ninguém. O público quer ver ele jogar, gastou tempo da sua vida indo lá votar pra ele ir, então que ele jogue e pronto.

Já os reservas são votos dos técnicos e aqui me coloco no lugar deles pra escolher os meus. Meus critérios são os seguintes: sendo um evento que acontece uma vez por temporada, deve premiar os melhores da temporada, ignorando a história que cada um tem dentro da NBA. A vaga no jogo das estrelas é um prêmio individual que premia a atuação de um jogador, não do seu time, para isso já existe aquela coisa chamada "playoff", então não acho certo tirar caras como o Brook Lopez ou o Monta Ellis da discussão só porque seus times fedem bem fedido. Considero, porém, o resultado do time, o fato do cara jogar bonito e até a história do jogador critérios justos de desempate, quando você fica preso entre dois jogadores e uma vaga.

Sendo assim e lembrando que deve-se escolher dois armadores, dois alas, um pivô e dois jogadores de qualquer posição, esses são meus votos:

Leste
Armadores: Rajon Rondo e Joe Johnson
Deixa eu aproveitar esse espaço pra babar ovo no Rondo. Ele é o melhor armador do Leste, o cara que está carregando o Celtics nas costas até agora na temporada, tem meu voto para entrar no time de defesa da NBA, é o melhor armador em rebotes desde os tempos áureos do Jason Kidd e vai ser um dos grandes armadores da próxima década. Ele também é bonito, sarado e cheira melhor do que pizza.

Pelo Joe Johnson eu não estou tão apaixonado assim, mas discreto como sempre, tem sido um dos melhores jogadores do Leste. Ele sempre joga mal no All-Star Game mas a vaga é dele, nem precisa pensar duas vezes.

Alas: Gerald Wallace e Chris Bosh
O Gerald Wallace está jogando demais nessa temporada, não fosse aquele número 23 do Cavs que eu esqueci o nome ele poderia até ser titular. Com seu jeito insano de pular com tudo a 100 por hora para um toco quando o seu time já está vencendo por 20, ele é o cara ideal para jogar para o Larry Brown e, assim como o Rondo, tem o meu voto para a seleção de defesa da temporada. Também será legal vê-lo pelas suas enterradas e pelo fator histórico, ele é o único Bobcat remanescente da primeira temporada da equipe e ontem se tornou o primeiro All-Star da história da franquia.

O Chris Bosh deveria estar no time titular ao invés do Garnett, que perdeu grande parte da temporada machucado. Mas tudo bem, fica na reserva mesmo. Ele tem seus defeitos, não acho que ele nunca vai ser tão bom quanto o KG era em seus melhores dias, mas isso não faz dele um jogador ruim, longe disso. Com aquela velocidade toda ele é um dos alas de força mais difíceis de parar no 1-contra-1.

Pivô: David Lee
Aqui é um voto difícil. Brook Lopez e Andrew Bogut são pivôs muito bons e até mereciam votos, mas eu acho que os dois são ainda muito irregulares, o que me faz pensar duas vezes. E aí tem o David Lee, que tem na regularidade seu maior trunfo nos últimos 3 anos, além de sempre melhorar alguns aspectos do seu jogo. O Lee não é um pivô nato mas joga assim no Knicks e joga bem mesmo quando enfrenta caras muito mais fortes do que ele. Entre Lopez, Bogut e Lee, apenas uma certeza absoluta: não votaria no Al Horford.

Os outros 2: Josh Smith e Derrick Rose
O Josh Smith foi uma escolha fácil. Amadureceu seu jogo em relação às temporadas passadas e hoje consegue ser um bom defensor, atlético, mestre em tocos e sem estragar tudo forçando arremessos de longa distância no ataque. Assumiu seu papel na equipe e tem sido bastante regular, escolha fácil. Quero ver como o Al Horford vai ter coragem de olhar pra cara do J-Smoove depois dessa inversão de valores no Hawks, se o time tem dois all-stars eles são Joe Johnson e Josh Smith. Só.

Os técnicos escolheram o Paul Pierce, eu quase escolhi o Andre Iguodala mas acho que a melhor escolha é mesmo o Derrick Rose. Tanto ele quando Iggy já tiveram momentos bons e outros nem tanto na temporada mas o bom momento do Rose impressionou mais. Aos poucos ele tem achado a medida certa entre armar para os outros jogadores da equipe e saber quando ele mesmo deve chamar o jogo para marcar seus pontos.



Oeste
Armadores: Chris Paul e Deron Williams
Precisa realmente explicar a escolha do Chris Paul? Já não basta ele estar mantendo os números e a qualidade das duas últimas temporadas, quando ele foi candidato sério ao prêmio de MVP? Pra completar ele ainda finalmente conseguiu colocar o Hornets na zona de playoff mesmo com o resto do time sendo um lixo e a diretoria tentando trocar todo mundo por escolhas de draft de 2020 para economizar uns trocados. Votar no Chris Paul para o All-Star é tão óbvio quanto votar na Alinne Moraes para as 100+ da VIP.

Dá pra acreditar que o Chris Paul vai para o seu terceiro All-Star e o Deron Williams ainda não tinha ido pra nenhum? Muito esquisito, mas erro corrigido. Deron foi o único ponto positivo do Jazz durante um grande período de tempo em que o Jazz era um time apático e lento, e agora que eles resolveram acordar e estão jogando o melhor basquete do Oeste ao lado do Nuggets ele continua sendo o melhor da equipe. Em uma entrevista divulgada hoje pela revista Dime, o novato Jonny Flynn elegeu o Deron Williams como o armador mais difícil de se marcar na NBA. "Ele é muito alto, é forte, dribla e sabe arremessar de longe". Bem-vindo à NBA, Jonny.

Alas: Kevin Durant e Dirk Nowitzki
Pra falar a verdade esses foram os meus votos no site para os titulares. Se meus votos tivessem feito a diferença eu estaria aqui votando em Duncan e Carmelo como reservas, então tá tudo certo.

O Durant tá jogando tão bem, mas tão bem, que ele foi a escolha de All-Star mais mal colocada na tabela que eu já vi nos últimos anos. Os técnicos levam bem a sério essa história de chamar caras de times vencedores e mesmo assim escolheram o Durant com o seu Oklahoma City Thunder em 11º no Oeste. Claro que deve ter ajudado o fato do Oeste ser tão difícil que o Thunder, apesar da colocação, está com 53% de aproveitamento, mas mesmo assim é uma baita conquista do KD. E bastante merecida. Ele tá jogando muito, fazendo muitos pontos e ainda é um pirralho, o puto nasceu em 88!

O Nowitzki é o Nowitzki. Sempre bom, sempre fazendo muitos pontos, sempre abusando de qualquer marcador, alto ou baixo, que tente marcá-lo, e sempre acertando aqueles arremessos impossíveis. Só precisa tomar cuidado para o arco do seu arremesso não bater no telão do estádio do Dallas Cowboys onde será feito o All-Star Game.

Pivô: Chris Kaman
A NBA sacaneou todos os pivôs do Oeste nessa temporada. Antes de começar a temporada todo mundo queria saber quem ia herdar a vaga deixada por Shaq e Yao, cogitou-se Al Jefferson, Chris Kaman e Andrew Bynum. Aí vão lá e colocam o ala Amar'e Stoudemire na lista de votos como pivô e ele ganha fácil. Aí na hora dos técnicos votarem eles liberam o Pau Gasol, que é ala de força no Lakers, para ser votado como pivô. Ganhou também.

Entre Gasol e Kaman eu acho o espanhol muito mais jogador, mas o fato é que nessa temporada ele não tem jogado nessa posição. O David Lee não é um pivô nato mas pelo menos joga por lá, o Gasol poderia jogar, mas não joga. Pela sacanagem e pelo talento incrível do Kaman, meu voto é nele.

Os outros 2: Zach Randolph e Tyreke Evans
Fiquei numa dúvida cruel entre Pau Gasol e Zach Randolph, é difícil apontar qualquer defeito na temporada dos dois, mas acho que o gordinho merece mais. Se na qualidade ficou difícil de escolher, tinha que apelar para outros motivos. O Gasol já jogou outros jogos das estrelas, já é campeão e vai disputar outro título nesse ano, é um cara consagrado. O Randolph conseguiu finalmente sair, com méritos, da sua fama de gordo preguiçoso, de talento desperdiçado, para ser o principal motivo do Grizzlies estar indo para os playoffs. Quem diria que o Grizzlies poderia estar na frente de Suns, Hornets, Rockets e Thunder?

Randolph é o líder da NBA em rebotes ofensivos e joga com uma vontade e determinação que eu nunca tinha visto antes nele. Outro dia o Grizzlies venceu um jogo apertado porque o Randolph defendeu bem, depois pegou um rebote ofensivo na raça e deu um passe picado lindo para o Rudy Gay. Defesa, vontade e toque de bola em menos de 2 minutos, esse é o novo Zach Randolph com seus Monstars Reverso. Merece muito uma vaga!

Por fim minha última escolha é o novato Tyreke Evans. Não seria nenhum crime ou injustiça tirar ele e no lugar colocar Brandon Roy, Monta Ellis ou Chauncey Billups, mas são poucas vagas pra muito jogador bom e de todos quem tem feito a melhor temporada é o novato. Quer dizer, será que ele é um novato mesmo? O cara sabe perfeitamente quando deve chamar o jogo pra ele, quando deve passar para os companheiros, ele é um líder dentro de quadra e todo mundo o respeita, ele sabe infiltrar, arremessar de meia distância e de longe, nunca se afoba, joga bem na posição 1 com o Kevin Martin do lado (esse tem jogado mal!) ou na posição 2 com o Beno Udrih armando. Acerta arremessos em momentos decisivos dos jogos e o Paul Westphal, técnico do Kings, disse que acha seu pupilo desde já um dos melhores marcadores de perímetro da NBA.

Como é possível um moleque fazer tudo isso nos seus primeiros meses de NBA? Deve ser gato! Tem alguma maracutaia que a gente ainda não percebeu! Ele é o time sub-20 com 30 anos de Gana.

Um exemplo claro de novato é o Jonny Flynn. Talentoso pra caramba mas tem dias que faz 20 e outros que faz 5 pontos. Parece às vezes muito confiante e depois bastante inseguro. Confessou na entrevista que eu citei antes para a Dime que ficou meio nervoso quando viu pela primeira vez seu ídolo Allen Iverson e contou em outra ocasião que quando enfrentava o Lakers tentou dar um passe picado e o Artest roubou a bola só esticando a mão. Flynn saiu rindo da jogada e disse depois para seus companheiros que nunca na vida dele imaginou que alguém seria capaz de alcançar aquela bola, muito menos de agarrar ela e sair com a redonda dominada. Esse é o tipo de aprendizado básico de um novato que o Tyreke Evans parece ter pulado como se fosse aquela baba de primeira fase do Super Mario do SNES.

Esses foram os meus votos, se o Danilo tiver um tempo aparece por aqui colocando as escolhas dele. Pitaquem (o verbo tem que existir!) na caixa de comentários!