Mostrando postagens com marcador curtas-e-rápidas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador curtas-e-rápidas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Por amor

Vinde a mim as criancinhas

Kevin Love
, o jogador que fez 18 double-doubles em suas última 19 partidas, que venceu o Clippers num arremesso de último segundo, que marca 25 pontos por jogo (quarto melhor da NBA) e que pega 14 rebotes por partida (segundo melhor da NBA), acaba de aceitar uma extensão de contrato de 60 milhões de doletas por 4 anos com o Wolves. Com o Wolves, crianças, aquele time que fica em Minessota, lugar em que nem os ursos querem viver. Aquele time que era motivo de piada e vergonha desde que Garnett saiu de lá. Aquele time de que os jogadores deveriam fugir desesperados assim que seus contratos acabassem. 

A extensão de contrato de Kevin Love é muito mais do que um jogador bom aceitando continuar em sua franquia, ela é também a vitória do General Manager David Kahn e de todos os mercados pequenos da NBA. Hoje em dia, basta um jogador se destacar numa franquia porcaria para começar a aguardar com ansiedade o fim do seu contrato e assinar com, adivinha, Lakers, Knicks, Mavs, Heat. Todo mundo quer jogar nos grandes mercados, nas grandes equipes, ter chance de título. É normal, todos nós vimos como jogadores fantásticos são tratados como cocô caso não ganhem títulos (LeBron, alguém?) ou como são completamente esquecidos quando jogam em pequenos mercados (Bosh em Toronto, Elton Brand no Clippers). Muito se falou, durante as negociações entre donos e jogadores no locaute, de novas regras que favorecessem as equipes pequenas, que incentivassem os jogadores a não ir parar todos em Los Angeles ou  em New York. Mas insistimos aqui: os jogadores querem ir jogar nas cidades mais legais, algo que independe das regras do basquete, e querem também equipes com chances de título, algo que varia muito de tempos em tempos. Já houve uma época em que todo mundo queria ir jogar em Sacramento só porque o Kings da década passada chutava traseiros, e agora todas as estrelas já estão colocando o Clippers como eventual possibilidade de destino. 

Minessota nunca vai convencer ninguém a ir lá curtir o turismo, e também não pode oferecer chances de título a curto prazo. Equipes assim acabam perdendo suas jovens estrelas, draftadas com tanto esforço, para equipes melhor estabelecidas. Mas aí é que entra David Kahn e sua política com o Wolves. Desde que assumiu a brincadeira, instituiu uma comunicação clara tanto com a imprensa quanto com seus jogadores. Explica porque está contratando cada jogador, o que espera deles, deixa que façam cagadas em quadra para aprender, e insiste em ter um time rápido e veloz. Trocou jogadores insatisfeitos ou que mereciam mais espaço em quadra como Al Jefferson e Jonny Flynn para deixar o elenco contente e ficar com fama de que trata bem seus jogadores, nem que seja liberando eles para ir jogar em outros lugares. Ao invés de fazer como o Clippers, que era uma prisão de jovens estrelas que só queriam dar o fora dali assim que pudessem, Kahn apostou em criar um lugar legal para se jogar, chamou o Rick Adelman para ser o técnico e colocar em prática seu esquema ofensivo livre e criativo, e segurou com unhas e dentes o novato Ricky Rubio. O armador choramingou quando foi draftado pelo Wolves, quis ficar na Espanha, dizem que pediu para ser trocado para o Knicks, mas Kahn insistiu em mantê-lo mesmo tendo que esperar anos para que o armador voltasse da Europa, e durante esse tempo manteve contato constante com o pirralho, acompanhou treinos e jogos, cuidou da papelada e tranquilizou o menino com definições claras de qual seria seu papel em quadra, quantos minutos teria e qual seria o estilo de jogo da equipe. Agora temos o fenômeno Ricky Rubio, que o Denis explicou tão bem em um post recente, o Wolves se tornou um time obrigatório de se assistir mesmo que não ganhe bulhufas, e o Kevin Love está feliz por lá: dando espaço aos trocadilhos panacas, Love agora ama sua equipe e vai ficar justamente por isso, por amor. Poderia ir para outra equipe melhor, mas está satisfeito lá, num mercado pequeno e sem chances de título, ao menos por enquanto.

Os mercados pequenos precisam ser bem gerenciados, precisam criar estruturas funcionais e que respeitem seus jogadores. Com o Wolves tem funcionado, e até o Clippers agora é um time respeitado. Kevin Love continuará na sua equipe, enchendo as orelhas de grana, e o Wolves pode voltar aos playoffs em breve com um elenco divertidíssimo de acompanhar, lembrando os tempos em que Garnett (nesse mesmo mercado pequeno) levava o Wolves às finais do Oeste. E olha que ele nem tinha Ricky Rubio. Os mercados grandes possuem vantagens naturais, é claro, mas as outras equipes estão dando um jeito e o Wolves deu, hoje, seu maior passo rumo aos grandes.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A 12 de Bowen é aposentada no Spurs

O San Antonio Spurs anunciou hoje que irá aposentar a camiseta de número 12 de Bruce Bowen. É justo? Não é justo? Por que fizeram isso? Tentaremos analisar tudo.

Cada franquia tem seus valores e tenta passar isso quando decide que camisas aposentar. O Celtics, por exemplo, aposenta de qualquer um que tenha sido relevante em seus grandes times. Pode não ser craque, mas se fez história no clube de alguma forma está lá. Por isso eles tem 19 números aposentados para jogadores. Já o Lakers só o faz com quem foi realmente fora de série, ganhou títulos e foi um dos melhores da história. Por isso só tem 7 números aposentados apesar de ter quase o mesmo número de conquistas do Celtics. Em outras palavras, o Celtics valoriza trabalho em equipe e dá importância para todas as peças, o Lakers dá notoriedade a suas estrelas. Um terceiro exemplo diferente é o Miami Heat, que aposentou o 23 do Michael Jordan mesmo ele nunca tendo jogado por lá. Foi uma homenagem ao basquete, outro valor.

O San Antonio Spurs começou a ter mais notoriedade na metade dos anos 90 e ganhou uma identidade de verdade sob a tutela de Greg Popovich. O que eles tentam fazer nos últimos anos e confirmam agora é perpetuar essa maneira do Pop comandar como uma imagem da franquia como um todo. Eles já tinham aposentado os números de George Gervin, James Silas e de Johnny Moore, e de uns anos para cá começaram a fazer o mesmo com os atletas que foram campeões com eles em 1999, 2003, 2005 e 2007. Começaram pelo David Robinson e passaram por Sean Elliot e Avery Johnson.

O que esses caras tem em comum, além do título, é que eram sérios, trabalhavam pesado, não reclamavam e jogavam em equipe. Jogavam Spursball, Popovichball. Elliot e Johnson eram muito bons, claro, mas nada fora de série como Robinson. Ou seja, estão valorizando os caras que marcaram uma geração e conquistaram coisas. Não estão premiando talento puro como faz, por exemplo, o Hall da Fama do Basquete.

Pensando nesse aspecto isso tudo faz sentido. O Bruce Bowen nunca saía do script do Spurs, era pago para defender e acertar bolas de 3 e fazia isso quase à perfeição. Era bom dentro do grupo, um líder, e foi decisivo na conquista de seus 3 títulos com a franquia. Acaba também sendo um recado para a nova geração do Spurs que chega para a era pós-Duncan: Trabalhem como malucos e sejam obedientes ao esquema que nós valorizamos isso.

Ele como jogador é outra história. Nunca fomos fãs do estilo de jogo dele aqui no Bola Presa e a melhor explicação para o motivo está no texto que o Danilo escreveu quando ele se aposentou. De um lado um cara que escapou de uma vida de merda num lar fodido, de outro um cara que era violento e às vezes desleal em nome do resultado. Vale reler. Abaixo algumas de suas jogadas marcantes:

Como quando chutou Chris Paul


Ou quando deu uma voadora em Wally Szczerbiak


Tem também a joelhada no Steve Nash


Sem contar as vezes em que ele já brigou com Carmelo Anthony, Ray Allen, Steve Francis... um amor de pessoa.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Tchau, Paul Westphal

DeMarcus Cousins esconde com a mão o que acha do seu treinador

"Que ataque?"

Foi assim que DeMarcus Cousins respondeu a uma pergunta sobre as dificuldades do ataque do Kings após uma derrota contra o Knicks no quarto jogo da temporada. Não foi o único. Tyreke Evans também criticou o sistema ofensivo na mesma partida: "Eu tento ficar tão livre quanto posso e criar. Não tem nada organizado pra mim, ninguém realmente no ataque. Nós perdemos, ninguém sabe o que fazer."

O Kings está mais perdido do que cego em tiroteio faz tempo. O sistema ofensivo não se firmou nas duas temporadas em que o técnico Paul Westphal comandou a equipe, mudando constantemente. Nos últimos tempos, o ataque tenta ter como foco o jogo de garrafão, apostando no talento do jovem DeMarcus Cousins, mas sem deixar de lado o jogo de velocidade que Westphal tentou imprimir e que tanto favorece Tyreke Evans. Não tem funcionado, mas é difícil saber se é inabilidade do Westphal ou se trata-se apenas de um time jovem demais, com dificuldade de implementar o plano tático, cometendo erros constantes e, algo menos lembrado, um time que fede simplesmente por ter jogadores fracos, num nítido trabalho de reconstrução agravado por más decisões dos engravatados e uma novela mexicana constante que é a franquia sair ou não de Sacramento. Ao fim da temporada passada ninguém falava de melhorar o elenco porque o foco estava em levar a equipe para Anaheim, como querem os donos. Mas DeMarcus Cousins soube deixar tudo isso de lado e, com fina ironia, apontar os dedos para onde acredita estar o problema:

"Não sei o que aconteceu. Usamos o ataque que o técnico mandou a gente usar. Apenas fizemos o que o técnico disse. Tem que fazer o que seu técnico diz."

Foi um dedo molhado na orelha de Paul Westphal, o que é bastante estranho porque Westphal sempre foi conhecido por lidar bem com pirralhos. Sua contratação pelo Kings teve em mente o lento e doloroso trabalho de polir as futuras estrelas da franquia, e ninguém tinha pressa para que a equipe começasse a ganhar jogos de uma hora para a outra. Mas a ofensa de DeMarcus Cousins não foi totalmente gratuita. Na verdade, foi sua resposta aos comentários de Westphal no primeiro jogo de pré-temporada do Kings, quando o técnico chamou o Tyreke Evans de preguiçoso, reclamando que seus jogadores estavam em péssima forma física e não estavam se esforçando. Ao reclamar publicamente de seus jogadores, Westphal recebeu na mesma moeda: seus jogadores, especialmente Cousins e Evans, começaram a reclamar dele publicamente também. Tyreke Evans teve o cuidado de ser mais sutil e genérico em suas reclamações, mas o Cousins não sabe o que é sutileza. Desde seus tempos de colegial ganhou fama por ser esquentado, criar problemas para seus técnicos e não ser dedicado nos treinamentos. Dessa vez, Cousins chegou para a pré-temporada em perfeita forma física, dizem que em melhor condição do que qualquer outro jogador de seu time. Então se sentiu com moral para revidar à altura o ataque de seu técnico.

Paul Westphal não deixou a reclamação de Cousins de graça. Disse que problemas internos das equipes não deveriam vir à tona, mas que quando um jogador fala constantemente - e publicamente - contra a direção que a franquia tenta seguir, isso não pode ser ignorado. Terminou sua declaração dizendo que DeMarcus Cousins havia pedido para ser trocado e que estava dispensado do jogo seguinte do Kings.

Cousins apareceu para o jogo em roupas civis, não entrou em quadra, e poucas horas depois seu empresário já avisava que Cousins não tinha pedido uma troca porcaria nenhuma. O que havia acontecido? O pirralho pode ter pedido uma troca num bate-boca com o técnico, ali de cabeça quente, sem ser sério, ou então Westphal é quem decidiu que ele seria trocado por estar reclamando publicamente do treinador. Não saberemos exatamente o que aconteceu, mas Cousins voltou ao time na partida seguinte. Como comentei no resumo da rodada de ontem, o pirralho simplesmente chutou o traseiro de todo o garrafão do Nuggets, dominou o jogo enquanto esteve em quadra, mas saiu com 6 faltas em pouco mais de 20 minutos de jogo. É o resumo perfeito da carreira do Cousins: não tem cabeça, não tem controle, mas é uma força no garrafão que não pode ser ignorada. A demonstração foi o bastante para que Paul Westphal fosse demitido no dia seguinte.

O técnico não teve nenhum sucesso no comando da equipe, mas não se esperava que ele tivesse. Dele, era esperado apenas que cuidasse dos jovens jogadores, que os tornasse novas estrelas. Assim que reclamou dos seus jogadores publicamente, numa clara estratégica motivacional, os jogadores atiraram o técnico na fogueira sem dó nem piedade. Se os seus dois jogadores principais estão malhando o técnico em todos os jogos, algo precisa acontecer: ou os jogadores são repreendidos ou então o técnico dança. É claro que o técnico dançou.

O Paul Westphal não é uma grande perda, e mesmo se fosse não daria para perceber, porque não tinha material para trabalhar e portanto não faria diferença. O que preocupa, no entanto, é a mensagem que o Kings está passando para DeMarcus Cousins: reclamou, ganhou - como nossos leitores no Twitter afirmaram em massa, é o Neymar de Sacramento. Phil Jackson já cansou de reclamar de seus jogadores em público como "estratégia zen-budista de motivação transcendental" ou alguma coisa pomposa do tipo, e o Lakers nunca sonharia em mandá-lo pastar por isso. Westphal aprendeu com dureza o lugar dos técnicos nessa nova economia, em que as franquias borram as calças de medo de perder suas estrelas para cidades mais abastadas. DeMarcus Cousins não pode ser contrariado senão pode decidir ir para New York, onde o cachorro-quente é mais gostoso. O foco passa a ser esse, ao invés de construir franquias vencedoras.