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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Por amor

Vinde a mim as criancinhas

Kevin Love
, o jogador que fez 18 double-doubles em suas última 19 partidas, que venceu o Clippers num arremesso de último segundo, que marca 25 pontos por jogo (quarto melhor da NBA) e que pega 14 rebotes por partida (segundo melhor da NBA), acaba de aceitar uma extensão de contrato de 60 milhões de doletas por 4 anos com o Wolves. Com o Wolves, crianças, aquele time que fica em Minessota, lugar em que nem os ursos querem viver. Aquele time que era motivo de piada e vergonha desde que Garnett saiu de lá. Aquele time de que os jogadores deveriam fugir desesperados assim que seus contratos acabassem. 

A extensão de contrato de Kevin Love é muito mais do que um jogador bom aceitando continuar em sua franquia, ela é também a vitória do General Manager David Kahn e de todos os mercados pequenos da NBA. Hoje em dia, basta um jogador se destacar numa franquia porcaria para começar a aguardar com ansiedade o fim do seu contrato e assinar com, adivinha, Lakers, Knicks, Mavs, Heat. Todo mundo quer jogar nos grandes mercados, nas grandes equipes, ter chance de título. É normal, todos nós vimos como jogadores fantásticos são tratados como cocô caso não ganhem títulos (LeBron, alguém?) ou como são completamente esquecidos quando jogam em pequenos mercados (Bosh em Toronto, Elton Brand no Clippers). Muito se falou, durante as negociações entre donos e jogadores no locaute, de novas regras que favorecessem as equipes pequenas, que incentivassem os jogadores a não ir parar todos em Los Angeles ou  em New York. Mas insistimos aqui: os jogadores querem ir jogar nas cidades mais legais, algo que independe das regras do basquete, e querem também equipes com chances de título, algo que varia muito de tempos em tempos. Já houve uma época em que todo mundo queria ir jogar em Sacramento só porque o Kings da década passada chutava traseiros, e agora todas as estrelas já estão colocando o Clippers como eventual possibilidade de destino. 

Minessota nunca vai convencer ninguém a ir lá curtir o turismo, e também não pode oferecer chances de título a curto prazo. Equipes assim acabam perdendo suas jovens estrelas, draftadas com tanto esforço, para equipes melhor estabelecidas. Mas aí é que entra David Kahn e sua política com o Wolves. Desde que assumiu a brincadeira, instituiu uma comunicação clara tanto com a imprensa quanto com seus jogadores. Explica porque está contratando cada jogador, o que espera deles, deixa que façam cagadas em quadra para aprender, e insiste em ter um time rápido e veloz. Trocou jogadores insatisfeitos ou que mereciam mais espaço em quadra como Al Jefferson e Jonny Flynn para deixar o elenco contente e ficar com fama de que trata bem seus jogadores, nem que seja liberando eles para ir jogar em outros lugares. Ao invés de fazer como o Clippers, que era uma prisão de jovens estrelas que só queriam dar o fora dali assim que pudessem, Kahn apostou em criar um lugar legal para se jogar, chamou o Rick Adelman para ser o técnico e colocar em prática seu esquema ofensivo livre e criativo, e segurou com unhas e dentes o novato Ricky Rubio. O armador choramingou quando foi draftado pelo Wolves, quis ficar na Espanha, dizem que pediu para ser trocado para o Knicks, mas Kahn insistiu em mantê-lo mesmo tendo que esperar anos para que o armador voltasse da Europa, e durante esse tempo manteve contato constante com o pirralho, acompanhou treinos e jogos, cuidou da papelada e tranquilizou o menino com definições claras de qual seria seu papel em quadra, quantos minutos teria e qual seria o estilo de jogo da equipe. Agora temos o fenômeno Ricky Rubio, que o Denis explicou tão bem em um post recente, o Wolves se tornou um time obrigatório de se assistir mesmo que não ganhe bulhufas, e o Kevin Love está feliz por lá: dando espaço aos trocadilhos panacas, Love agora ama sua equipe e vai ficar justamente por isso, por amor. Poderia ir para outra equipe melhor, mas está satisfeito lá, num mercado pequeno e sem chances de título, ao menos por enquanto.

Os mercados pequenos precisam ser bem gerenciados, precisam criar estruturas funcionais e que respeitem seus jogadores. Com o Wolves tem funcionado, e até o Clippers agora é um time respeitado. Kevin Love continuará na sua equipe, enchendo as orelhas de grana, e o Wolves pode voltar aos playoffs em breve com um elenco divertidíssimo de acompanhar, lembrando os tempos em que Garnett (nesse mesmo mercado pequeno) levava o Wolves às finais do Oeste. E olha que ele nem tinha Ricky Rubio. Os mercados grandes possuem vantagens naturais, é claro, mas as outras equipes estão dando um jeito e o Wolves deu, hoje, seu maior passo rumo aos grandes.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Para entender o fascínio por Rubio

Rubio enfia o dedo na bola para que ela o obedeça. Funciona.

Podemos criticar quando há expectativas demais sobre um jovem atleta, mas às vezes não há como evitar. Como ignorar o Neymar jogando tudo o que joga com menos de 20 anos? Sabemos que ele é jovem, que não tem cabeça e que ainda pode melhorar muito ou empacar, como já empacaram tantos talentos promissores e precoces. Mas gostamos de futebol, queremos ver o próximo gênio, é difícil controlar a excitação e a empolgação.

No basquete não é diferente. O assunto mais comentado desse começo de temporada no Bola Presa e qualquer outro site de NBA no mundo é o novato Ricky Rubio. O armador espanhol tem nos encantado e não poupamos elogios para as primeiras 10 partidas do espanhol no Minnesota Timberwolves. Mas por que tanta babação de ovo, né? O que ele faz de tão especial além de dar passes lindos, curar o câncer e ajudar velhinhas a atravessar a rua?

O mundo ficou boquiaberto quando o armador espanhol levou a seleção de seu país ao título Europeu Sub-16 em 2006 com os seguintes números na final contra a Rússia: 51 pontos, 24 rebotes, 12 assistências, 7 roubos e uma bola de 3 do meio da quadra que levou o jogo para a prorrogação. Sim, Ricky Rubio fez tudo isso. Liderou o torneio em todos esses quesitos, registrou 3 triple-doubles ao longo da competição e um quadruple-double. Nesse mesmo ano ele já jogava entre os profissionais e no ano seguinte era o líder da ACB Espanhola em roubos de bola. Dois anos depois foi titular da sua Seleção Adulta na final Olímpica contra os EUA. E pior, jogou bem aquela partida. Tem como não criar expectativas enormes?

A comparação com o Neymar que fiz no começo tem também outra razão. Os dois começaram chamando a atenção não só pelo talento, mas pelas jogadas de efeito. O Rubio adolescente adorava um passe diferente, um enfeite que rendeu comparações (exageradas e precoces, como sempre) com o lendário Pete Maravich, cara que foi grande jogador mas ficou mais famoso por dar os passes mais malucos da história da NBA. Porém, assim como cobraram que Neymar aprendesse a chutar, ser objetivo e amadurecer, pediram o mesmo de Rubio. E para sobreviver no basquete europeu isso era essencial. Assim, Rubio, com míseros 18, 19 anos, era um armador cauteloso, cerebral e eficiente. Bem mais chato do que a gente esperava, mas conquistava seu espaço.

Aí de repente ele empacou. Desde que foi draftado em 2009, quando decidiu ficar na Espanha por mais algum tempo, pareceu não evoluir mais. Virou, com razão, coadjuvante no Barcelona e na seleção espanhola. Era difícil explicar sem teorias inventadas como "Deve ser algo na vida pessoal" ou "Ele sentiu a pressão e a expectativa". Sei lá, mas estava mal e burocrático demais nas suas últimas temporadas europeias.

Mas como uma boa palestra motivacional que é a vida, isso parece ter feito bem para o Rubio. Em entrevista ao Adrian Wojnarowski do Yahoo!, Rubio disse que foi uma temporada em que "o jogo me testou e eu precisava disso". E, falando sobre seus vídeos na adolescência, o jovem adulto falou com certa nostalgia: "Eu vejo aquele jogador e ele não parece se incomodar com o que os outros dizem. Não se importa com o que vai acontecer caso cometa um erro. Naqueles jogos de quando eu era jovem pareço não me importar com nada". 

E as coisas pareciam não melhorar com ele indo para a NBA. Ao contrário de Luis Scola, Pau Gasol, Dirk Nowitzki ou, indo mais para trás, Vlade Divac e até jogadores mais consagrados como Arvydas Sabonis, nenhum outro europeu chegou na NBA com tanta expectativa. Nem Andrew Bogut e Andrea Bargnani, que foram escolhas 1 de Draft, tiveram tanta mídia em cima quanto Rubio. O único gringo de atenção comparável antes de sua estreia foi Yao Ming, e sabemos como ele sofreu com a pressão no seu começo de vida nos EUA.

O curioso é que acabou sendo o oposto. Ricky Rubio também sentia muita pressão na Europa, até demais. E segundo ele na mesma entrevista já citada, o tempo que ele passou treinando na Califórnia durante o locaute foi essencial para que ele se transformasse. Lá ele pode treinar sozinho, sem outros assistindo e julgando, poderia errar, arriscar, relaxar e voltar a ser o Rubio adolescente. Também aproveitou o locaute para treinar com outros jogadores da NBA (a matéria cita Kevin Garnett, Paul Pierce, Derek Fisher e Chauncey Billups) e ganhar tranquilidade e confiança para essa nova fase da carreira.

O que vimos até agora nesses primeiros jogos é muito mais o Rubio de 17 anos do que o do ano passado. A apreciação que a NBA dá a quem joga bonito, o incentivo para que se arrisque, é justamente o que ele precisava. Na Europa (e no Brasil, diga-se de passagem) as jogadinhas bonitas recebem aplausos quando dão certo, claro, mas é uma frescura, não um recurso, e os técnicos pegam no pé de quem se arrisca demais. Claro que na NBA as coisas precisam dar resultado e os técnicos cobram vitória, mas uma enterrada ou ponte aérea que não dê certo não é motivo de bronca ou punição. E quando dá certo vira notícia, vídeo mais visto do YouTube e os companheiros de time te amam e te respeitam mais.

O Ricky Rubio estava com vontade de mudar e não foi só para um liga onde a mudança seria mais aceita, mas para o time que buscava isso. Contei esse causo no nosso último Podcast, mas repito aqui. O David Kahn, criticadíssimo General Manager do Wolves, disse que uma das coisas que ele busca é fazer da franquia um lugar onde os jogadores queiram ir. Ele sabe que o time não tem tradição, fama e nem fica em uma cidade onde todos querem viver. Então para compensar eles querem tratar bem os jogadores, ter um ambiente agradável de trabalho e ter um estilo de jogo que os atletas sintam prazer em atuar. Por isso que eles trocaram o Jonny Flynn, que ficaria sem espaço no time e precisava jogar. Por isso contrataram o Rick Adelman como técnico também. O experiente treinador sabe lidar com jovens e sempre dirigiu os times mais velozes, criativos e ofensivos da NBA.

A entrevista completa em que o David Kahn explica isso é justamente para um de seus maiores críticos, o Bill Simmons da ESPN, e vale a pena ser ouvida. Lá ele também comenta sobre o Rubio e de como não se assustava com ele jogando mal na Europa, que uma má fase era normal para um garoto tão jovem. A aposta deu muito certo. O Wolves voltou a aparecer positivamente na mídia, o time joga bonito, com velocidade e não é difícil imaginar Free Agents cogitando ir para lá para poder atuar sob o Rick Adelman, jogar ao lado do Kevin Love e parecer bom por receber passes de Ricky Rubio. Assim como Channing Frye e Jared Dudley devem seus contratos a Steve Nash, e Kenyon Martin e Richard Jefferson sua fama a Jason Kidd, Rubio vai fazer uns companheiros milionários também.

Entender como os três, Adelman, Love e Rubio, se encaixam é essencial para explicar esse sucesso. Rick Adelman incentiva seus times a correr. Logo após o rebote (do Love, claro) já é possível ver Rubio batendo palmas para receber logo a bola e partindo em velocidade para o ataque. Lá ele encontra jogadores que podem se posicionar em qualquer lugar da quadra: Wayne Ellington, Michael Beasley, Derrick Williams e até Anthony Tolliver, todos, são velozes, sabem infiltrar e tem um arremesso de longa distância. Eles podem se espalhar pela quadra e só esperar que a visão de jogo do Rubio faça o resto. Ou melhor, quase todo o resto. Depois de enxergar é preciso que o passe chegue na medida e nisso Rubio é excepcional. Poucos na NBA, só caras do nível de Steve Nash e Rajon Rondo, conseguem dar passes com uma só mão, na corrida, com a mesma precisão de Rubio. E falo isso sem exagero, por observação pura.

A habilidade de passar a bola assim deixa o time mais rápido. Ele só precisa ver para quem quer passar e um segundo depois a bola está lá, um armador mais comum precisa diminuir a velocidade, colocar as duas mãos na bola e se esforçar para fazer o passe chegar na altura certa.

Outros detalhes fazem Rubio chamar tanta atenção, e isso temos que creditar a seus anos de rigidez na Europa. Ele tem paciência. Quer correr, é incentivado a correr, mas para no meio do caminho se não existe boa oportunidade. Sua paciência também tem dado resultado na outra jogada essencial do Rick Adelman, os intermináveis pick-and-rolls. Por entender bem o jogo, sabe reconhecer quando não passar para o Darko Milicic se o garrafão está congestionado, ou passa a bola do outro lado da quadra se a defesa adversária se fechou toda para evitar a jogada. Também sabe usar bem o pick-and-pop com o Kevin Love e o espaço no garrafão que essa jogada abre. E, pasmem, até está fazendo a defesa pagar quando não o defendem na jogada, indo por baixo do bloqueio. Se o deixam livre ele chuta mesmo de 3 pontos e tem 50% de aproveitamento na temporada.

Outra coisa muito Steve Nash (um dos maiores elogios que um armador pode receber) do Rubio é que ele não desiste do drible por qualquer coisa. Isso, junto com a ótima visão de jogo, são essenciais para que os times sempre pensem mil vezes antes de tentar pressionar ou dobrar a marcação sobre ele. E aí acontece o mesmo que com Rajon Rondo: quanto mais espaço dão, mais passes incríveis ele acha.

Os arremessos, que todos achavam que ele não acertaria, já vimos que estão caindo. Outra coisa que achavam que ele não saberia fazer bem é defender, mas até agora ele tem se saído bem. Nada fora de série, não anula ninguém, mas já enfrentou gente de alto nível, mais forte e mais rápida, e ele se garantiu. Curioso que isso se explica porque ele entende o jogo e sabe se posicionar. E pensem bem, compensar deficiências técnicas ou físicas com entendimento de jogo não é o tipo de comentário que fazemos para caras com 35 anos e uma vida de experiência na NBA? O NBA Playbook fez uma análise tática completa dos primeiros jogos do Rubio e postou um vídeo rápido de jogadas em que ele defende o Russell Westbrook e o Brandon Jennings. Não se sai nada mal.

Ricky Rubio não é perfeito, mas merece todos os elogios que recebeu até agora e em breve deve curar o câncer.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O recorde de Kevin Love

Na noite de ontem, Kevin Love bateu o recorde da história da NBA de double-doubles seguidos. Para quem não sabe, um double-double (que só não chamamos de "duplo" pra não confundir com o lanche do McDonald's) é quando um jogador consegue dígitos duplos em dois quesitos do basquete: pontos, rebotes, assistências, tocos ou roubos. O recorde pertencia ao Moses Malone, o melhor em rebotes ofensivos da história da NBA (não confundir com o Karl Malone, o melhor em cotoveladas ofensivas da história da NBA), e foi quebrado quando Kevin Love conseguiu seu 52o jogo consecutivo com um double-double de pontos e rebotes. Com uma média de quase 21 pontos e 16 rebotes por jogo, não é de se espantar que os double-doubles venham a rodo. O que é espantoso é que o Kevin Love sequer precisa sair do chão para conseguir esses números constantes e consegue ser levado a sério mesmo tendo "amor" escrito na camiseta, coisa de filho de pais hippies. Mas é claro que esse recorde vai ter um asterisco tipo o "campeonato Mundial" do Corinthians porque tem gente que acha que nenhuma marca do planeta é relevante se o jogador está num time ruim. "Ah, descobriu a cura para o câncer? Grandes merdas, ele joga no Wolves, lá até eu conseguia". Vai nessa.

Para dar o valor merecido à marca do Señor Amor, resolvemos usar a única ferramenta que resiste ao teste do tempo - o Paint - e imortalizar o momento do recorde do mesmo modo que imortalizamos o recorde do Ray Allen. Mas dessa vez ninguém vai ficar bravinho porque finalmente essa piada não é relacionada ao Jazz, ao Celtics ou ao Kobe. Ah, está ouvindo esse barulho? É o som da tranquilidade.

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Depois de toda a emoção indescritível de um sujeito fazendo aquilo que ele sempre faz num time que todo mundo finge que não existe, vamos abaixar a adrenalina e em breve voltamos com nossa programação normal.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Critérios para o All-Star

Não não, Nenê


Saiu ontem finalmente a escolha dos reservas para o All-Star Game. Como sempre, tem muita gente indignada com as decisões e falando em complô, teoria da conspiração, alienígenas e na culpa do Justin Bieber (que no fundo é só um adolescente com cara de panaca e todas as ninfetas que quiser, igualzinho a todo mundo quando era adolescente, quer dizer, tirando a parte das ninfetas, claro). O problema é que todas as pessoas descontentes com a escolha dos reservas, achando um absurdo que o Duncan foi escolhido ou que o Nenê vai ficar em casa comendo pipoca, não pararam pra pensar que não existem critérios definidos para chamar os reservas. Isso quer dizer que todos os técnicos da NBA, que participam da votação, precisam bolar critérios próprios que não coincidem entre si. Quando alguém diz que o Nenê merecia ir para o All-Star, com certeza está usando critérios bem diferentes da maioria dos técnicos. Vamos então dar uma olhada em alguns dos critérios possíveis para convocar reservas e quais jogadores ficariam ou não de fora se eles fossem empregados.


Critério "É ritmo de festa": escolher os jogadores mais legais, engraçados e divertidos

Se o All-Star Game não vale bulhufas e é uma festa para agradar os torcedores e trazer mais audiência para a NBA, então muita gente acha que apenas os jogadores que se encaixam nesse perfil Sessão da Tarde de festa, azaração e curtição deveriam ser chamados. No fundo, faz sentido. É meio ridículo usar a convocação para o All-Star como se fosse uma espécie de prêmio para os melhores jogadores sendo que esses prêmios já existem na forma de MVP, melhor quinteto da temporada, jogador que mais evoluiu, essas coisas. Então o All-Star seria algo único, que premiasse os jogadores mais divertidos e voltados para a torcida.

Pra mim, isso funciona muito bem para os titulares do All-Star, que são definidos pelos votos públicos na internet. Aí a galerinha vota nos "mais legais" e pronto, a festa está garantida. Para os reservas, que são definidos pelos técnicos, não acho que esse critério funcione porque provavelmente os técnicos são chatos e acham legal o Shane Battier e o Joel Anthony, pra fazer corta-luz.

Para os que usam esse critério, Vince Carter e Shaquille O'Neal deveriam ter cadeira cativa no All-Star Game. Da nova safra, muita gente estava exigindo que o Blake Griffin fosse chamado não pelos seus números, mas por aquilo que ele pode fazer na festança, enterrando na cabeça de todo mundo. Na minha opinião ninguém usa esse critério, só os torcedores mais românticos, mas foi ele que levou Blake Griffin para o All-Star esse ano. A imprensa cobrou, os técnicos ouviram, viram as enterradas no YouTube, e acharam que fazia sentido. Caso raro, mas os fãs da festa agradecem.



Critério "Um por todos e todos por um": escolher os jogadores que fazem parte dos times que estão no topo da tabela de classificação

É desse modo que a mente da maioria dos americanos funciona: os melhores jogadores são aqueles que fazem seus times vencerem. Isso gera distorções bizarras, como um Pistons que não tinha nenhuma estrela tendo quase o elenco todo chamado para o All-Star porque o time estava no topo da tabela. Esse critério é usado também na escolha do vencedor do prêmio de MVP, e nós insistimos que ele é um absurdo. Funciona assim: o jogador, para receber o prêmio, tem que ser muito bom, ter bons números. Mas ele também precisa estar num time vencedor, de preferência no alto da tabela. Mas se ele está num time no alto da tabela, com certeza é porque o resto do elenco também é espetacular. Mas se o resto do elenco também é espetacular, o jogador então é menos necessário do que se estivesse num time ruim, então corre o risco de não ganhar o prêmio. Ué, então o cara precisa ser bom, jogar num time bom, mas o time não pode ser bom demais, senão ele perde? Afinal, o prêmio é para o melhor jogador ou para o jogador mais importante para sua equipe? É um prêmio individual ou um prêmio coletivo, para o jogador-símbolo de uma equipe com um elenco bom e vencedor?

No All-Star Game, não tem esse lance do prêmio de MVP de que apenas um pode ganhar, então a  mentalidade gringa faz com que vários dos jogadores que estão nos times do topo sejam agraciados com o prêmio. No Leste, todos os reservas estão nos 4 primeiros times da conferência: Celtics, Heat e Hawks (apenas o Bulls ficou de fora). O Celtics, líder da conferência, teve 4 jogadores convocados dentro das 7 vagas, mais da metade. Todos eles merecem? Apenas se você levar o critério do "time vencedor" em conta, premiando o líder da tabela. A ideia é que, se o Celtics é bom o bastante para ser o líder do Leste, deve ter os melhores jogadores e então o maior número possível deles deve ser chamado para a festa.

No Oeste, 5 dos reservas estão nos 4 primeiros times da conferência (Spurs, Lakers, Mavs e Thunder). O Spurs, que é o líder do Oeste, levou dois jogadores como reserva. O Duncan está tendo uma temporada mais fraca, é velho, está longe dos seus melhores dias de All-Star, mas a mentalidade de quem usa esse critério é essa: "como levar um reserva só do time que é o melhor da temporada até agora?" O Duncan não vai pelo nome que tem, mesma coisa com o Garnett, não é isso. Não é questão de fama ou cadeira cativa. Eles vão por jogarem nos dois melhores times da NBA no momento. Eu acho ridículo, All-Star não é um prêmio para os melhores times, um cara jogar num time vencedor não deveria lhe favorecer na escolha dos melhores jogadores, mas essa é a mentalidade que predomina na imprensa e nos técnicos. Duncan e Garnett jogam no All-Star porque seus times chutam traseiros, e Kevin Love, Zach Randolph e LaMarcus Aldridge ficam de fora porque seus times fedem. O Kevin Love é ignorado porque sua habilidade "não gera vitórias", assim como o Monta Ellis, enquanto os próprios técnicos admitem que a vitória depende do conjunto, já que chamam 4 jogadores do Celtics e 2 do Spurs. Paradoxal, inconsistente, mas é o mesmo critério que se usa para o prêmio de MVP e para dizer que "um jogador é melhor porque ganhou mais anéis de campeão". Se você está bravo porque o Duncan foi convocado mas é daqueles que dizem que o Kobe é melhor porque tem mais anéis, está misturando tudo. O critério, em todos os casos, é de que as vitórias são mais importantes do que tudo para definir a qualidade de um jogador - mesmo que as vitórias dependam do resto do elenco.


Critério "Nerd de estatística": escolher os jogadores com as melhores estatísticas na temporada

Com esse critério, os jogadores chamados são aqueles que estão tendo o melhor ano estatisticamente. Seria um prêmio para as melhores performances, não teria nada a ver com seus times vencerem ou não. O resultado também é uma certa distorção, porque acaba priorizando jogadores que jogam sozinhos em times ruins, onde é mais fácil pilhar estatísticas, mas pra mim faz mais sentido. O Kevin Love não vai ganhar prêmios individuais ou coletivos ao fim da temporada, nada mais justo então que ele seja escolhido para jogar o All-Star em homenagem às suas atuações na temporada. Chamar reservas apenas de times bons é uma punição a mais para aqueles que estão em times sem chance de nada, é ser jogado definitivamente no limbo, na privada. O cara só perde, que participe ao menos da festa e coma de graça se está jogando bem o bastante. Quando o LaMarcus Aldridge foi informado que não tinha sido convocado, ele disse que já sabia, que já tinha avisado os companheiros que não seria chamado. Isso porque seu Blazers hoje está apenas na oitava posição do Oeste, de modo que passa invisível pelos técnicos se esse critério aqui não for usado. E ele não foi. Zach Randolph, nosso gordinho favorito, passou anos e anos sendo ignorado no All-Star porque seus times eram uma droga (e todo mundo dizia que o Randolph era o culpado por isso). O único jogador que pode mostrar que esse critério foi usado é o Blake Griffin, que tem médias espetaculares e seu Clippers amarga a terceira pior campanha do Oeste, mas ainda acho que ele foi chamado apenas pela cobrança da imprensa de que ele se encaixa na festança do All-Star, critério que vimos acima.



Critério "A primeira vez a gente nunca esquece": escolher os jogadores que ainda não estiveram no All-Star ou estão tendo a melhor temporada da carreira

Tem gente que acha que perde a graça ficar todo ano indo os mesmos sujeitos para o All-Star Game. A repetição acontece porque os jogadores continuam a ser os favoritos da torcida, ou continuam em times vencedores, ou mantém os mesmos bons números. Mas e se o All-Star levasse sempre sangue novo, os caras que estão se destacando agora e não tiveram oportunidade de ir no ano passado? 

Acho esse critério bem idiota, mas ele sempre acaba sendo usado todo ano. Alguém que poderia ser considerado para o All-Star mas nunca é lembrado ganha comentários como "mas ele quase foi na temporada passada", "ele ainda não teve uma chance", e acaba indo jogar. Em geral são jogadores meio mequetrefes ou que ainda não estão em nível de All-Star, como aconteceu com o David West um tempo atrás. Foi também o que no ano passado finalmente levou o Zach Randolph, que merecia há um tempão mas não ia porque seus times sempre fedem. Nesse ano, apenas dois jogadores foram chamados pela primeira vez para o All-Star, Russell Westbrook e Blake Griffin, e eles não se encaixam nesse critério. Mas aqueles que afirmam que o Josh Smith deveria ter sido chamado se encaixam aqui, e o mesmo se aplica ao Nenê. Ele tem um ano melhor estatisticamente do que Kevin Love, LaMarcus Aldridge ou Zach Randolph? Não. Ele joga num time que está no topo da tabela? Não. Ele é um jogador divertido para a festa e vai cravar na cabeça de todo mundo? Não, aliás é por isso que nunca chamam pivôs se podem chamar alas no lugar. O que está do lado do Nenê é que seu ano está sendo muito bom para os seus próprios padrões e não existem muitos pivôs no Oeste, mas isso não é o bastante. Sei que todo mundo queria ver o Nenê indo para o All-Star, eu entendo, mas ele só iria pela falta de pivôs e, após as votações populares, esse lance de posição não importa mais. Como vimos, os critérios usados são outros (melhores times, melhores estatísticas, show) e o Nenê não se encaixa neles. Resta então para os que insistem que o brasileiro vá (e por que, mesmo?) que a imprensa choramingue muito que o Nenê merecia, que ele teve um bom ano, que ele sempre foi ignorado, para que o David Stern o escolha como substituto do Yao Ming, machucado. Mas não vai acontecer simplesmente porque a choramingação por outros jogadores, melhores, é maior. Provavelmente será escolhido alguém de um time entre os 8 melhores, com boas estatísticas. Como o Randolph já foi All-Star, ele não se encaixa nesse critério, então a choramingação deve ser por Love e Aldridge mesmo. 

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Minnesota Timberwolves

- SIM, EU ADORO JOGAR BASQUETE!!!


Objetivo máximo: Chegar perto dos playoffs, surpreender alguns times grandes
Não seria estranho: Ficar em último no Oeste
Desastre: Draftar o Ricky Rubio mas ele não querer ir jogar lá. Espera... já foi.

Forças: Um elenco muito novo e eficiente na transição
Fraquezas: Falta de identidade, ninguém faz ideia do que está acontecendo, o elenco não faz sentido e quase todo mundo fede

Elenco:

.....
Técnico: Kurt Rambis

Quando assumiu o Wolves, Rambis sabia que era um projeto a longo prazo. Passaria ao menos 4 anos à frente da equipe, cuidando do desenvolvimento dos pirralhos e colocando em prática o complexo sistema de triângulos tão famoso graças ao sucesso do Lakers de Phil Jackson. A ideia era não se importar com vitórias, focar apenas no amadurecimento de cada jogador em particular e fazê-los jogar como um time. Mas Kurt Rambis teve muitas dificuldades em colocar em prática os triângulos. Al Jefferson e Kevin Love não conseguiram executar as movimentações juntos, batiam cabeça, ocupavam os mesmos espaços, e Kurt Rambis foi obrigado a colocar Love no banco, limitando um pouco os seus minutos - justamente o contrário do que foi proposto quando contrataram o técnico, que era dar minutos à pirralhada. Após 60 jogos com o novo técnico, Kevin Love não teve medo de colocar a culpa do péssimo desempenho do Wolves nas costas do treinador, já que a temporada estava acabando e não tinha um único jogador sequer que tivesse conseguido compreender o tal do esquema dos triângulos. Uma coisa é conhecer a fundo a tática, como é o caso de Kurt Rambis, e outra completamente diferente é saber explicar isso de um modo compreensível. Phil Jackson tem anos e anos de experiência e mostrou-se um excelente professor, enquanto Rambis está lidando apenas agora com o fardo de um elenco inteiro de crianças cheirando a talco, com inteligências limitadas, tentando aprender um dos esquemas táticos que mais dependem do entendimento e da reação dos jogadores.

Ainda no final de sua temporada de estreia, o Wolves já abandonava lentamente os triângulos em nome de um jogo mais veloz de contra-ataques. Nas ligas de verão, em que o técnico se viu obrigado a lidar apenas com novatos ou jogadores muito novos, os triângulos foram para as cucuias e o foco foi na velocidade e no contra-ataque. Não faz sentido ignorar os triângulos por completo, já que são a especialidade do Rambis, mas ficou bem claro que não dá pra pegar um elenco de novatos e fazê-los compreender o estilo. A abordagem deve ser mais lenta e Rambis deve colocar a molecadinha para correr mais. Os triângulos exigem criatividade enquanto os novatos assustados precisam de jogadas mais fixas e pré-estabelecidas, então o meio-termo será um jogo corrido, que use a velocidade e o atleticismo do time, com alguns elementos dos triângulos no jogo de garrafão.

...
Quando Al Jefferson foi mandado para o Jazz, ficaram claras as intenções do Wolves e escrevi um post a respeito que valhe a pena citar aqui:

"Quando o Wolves resolveu finalmente trocar o Kevin Garnett, parabenizei a franquia. Não tem nada mais horrível para um time da NBA do que ser exageradamente mediano, ter um elenco grotesco, uma baita estrela que consegue segurar as pontas, brigar desesperado por uma classificação para os playoffs e perder sem chances na pós-temporada. O formato da NBA é brutal com os medianos, com os times que não estão brigando por título e nem são ruins o bastante para conseguir bons jogadores no draft. (...)


Se o David Stern tem razão e nenhuma equipe da NBA conseguiu ter lucro nos últimos tempos, não faz sentido manter uma equipe que não vencerá títulos, te dá prejuízo e não tem esperanças de melhora. A melhor saída é feder bastante para conseguir boas escolhas de draft, encerrar todos os contratos longos e imbecis que foram assinados, esperar a pirralhada amadurecer, e então assinar grandes estrelas para formar um elenco decente. (...)

Imaginei que o Wolves, ao trocar o Garnett, conseguiria um núcleo bastante jovem com uma futura estrela em Al Jefferson, e que a reconstrução duraria pouco tempo. Era só esperar a pirralhada pegar o jeito e depois conseguir um ou outro jogador para fechar algumas posições. Mas não funcionou.


Por um lado, promessas como Corey Brewer demoraram demais para se firmarem na NBA. Por outro, Al Jefferson tornou-se uma estrela rápido demais, num elenco incapaz de acompanhá-lo. Como todo time apostando em novatos, algumas escolhas não deram muito certo, alguns jogadores não souberam jogar juntos. Foi então que o engravatado David Kahn apareceu para pisar no freio e fazer todo mundo entender que reconstruções não podem ser feitas às pressas. Basta ver o Pistons: ao demolir acertadamente um time em declínio que não ganharia mais nada, assinou correndo dois jogadores disponíveis na hora para não ficar com um elenco furado e deu no que deu, o time fede, não tem flexibilidade para assinar outros jogadores porque torrou tudo em dois meia-bocas, e está fadado a ficar entre os medianos por muito, muito tempo. Falha épica, já diriam os gringos. É melhor assumir a bosta, no famoso "pisou na merda abre os dedos", e deixar o time fedendo com calma do que correr e assinar qualquer um."

O Wolves virou exemplo de que não dá pra ter pressa. Se o Al Jefferson ficou bom demais, rápido demais, tem que mandar embora mesmo, não adianta ter um jogador fodão em meio a um elenco que ainda precisa de tempo demais para ficar sólido. Se o esquema de triângulos não entra na cabeça dos jogadores, use menos, seja mais maleável, e vá ensinando aos poucos. Se os times da NBA só dão prejuízo e não há perspectiva de ser campeão, pague salários pequenos, para jogadores jovens, e espere bons novatos. A única merda é que o Wolves drafta mal, mas isso é outra história.

Esse clima de "não pode ter pressa" foi perfeito para o Darko Milicic, que finalmente recebeu atenção, carinho, esperança e até desistiu de voltar para a Europa. Será o parceiro de garrafão do Kevin Love, que finalmente pode ser titular, é muito mais indicado para o sistema de triângulos, está destruindo na pré-temporada e já mostrou que valeu a pena se livrar do Al Jefferson. Outro que jogou bem na pré-temporada foi o Michael Beasley, que sofreu muita pressão no Heat porque o time queria vencer nos playoffs sob comando de Dwyane Wade e o pobre pirralho não tinha estrutura nenhuma, metido na erva idiota lá e incapaz de manter a defesa que o técnico Erik Spoelstra exigia. Sem esse tipo de pressão, conseguiu estufar o peito, recuperar a confiança e ser o líder do Wolves mostrando como é um fominha safado que se pudesse nunca passaria a maldita da bola.

O legal da ida do Al Jefferson para o Jazz é que a bola pode passar mais tempo nas mãos do resto da pirralhada, que precisa de experiência para subir de nível e virar outro Pokémon, então jogadores como o Corey Brewer podem evoluir seu jogo ofensivo e tentar conseguir um arremesso consistente. Só esperemos que o Beasley não vire um buraco-negro no ataque e acabe com isso. Se o Wolves quer vencer, o Beasley precisa arremessar muito, mas como vimos o objetivo do time ainda não é a vitória, e sim a criação de um padrão, de identidade, e a evolução dos jogadores. Na ala temos Beasley, Webster, Corey Brewer, o novato Wesley Johnson e até o armador Wayne Ellington, o importante é que alguém daí adquira as qualidades para ser titular absoluto da equipe. Até lá, as vitórias e as derrotas não importam.

Enquanto isso, a armação continua sendo muito limitada e tem sonhos eróticos com o Ricky Rubio. Com o Jonny Flynn contundido e fora da rotação por uns tempos, os únicos armadores puros da equipe são o Luke Ridnour, que é basicamente uma criança de 12 anos com anemia, e o Sebastian Telfair, que é um anão que acha que está numa quadra de rua. Os dois são divertidíssimos de ver em quadra, mas não defendem nem ponto de vista e têm como forte a correria. Me diverti bastante com o Wolves na pré-temporada porque o Ridnour corre e sabe dar os passes certos nos contra-ataques, Beasley é um fominha talentoso, o elenco é cheio de gente explosiva que só sabe correr para frente como o Corey Brewer, e o Kevin Love é um dos melhores passadores da NBA - de qualquer posição, não só de pivô. Se eles não ficarem tentando levar os triângulos muito a sério, podem ao menos ser um time divertido, que vale acompanhar em noites sem sono no League Pass, enquanto todo mundo vai amadurecendo, esperando outros novatos, o Ricky Rubio e um padrão de jogo. Meu único medo é que o Kevin Love fique também bom demais rápido demais, o que abortaria de novo o projeto. O Wolves agora tem uma espécie de luta contra o tempo: conseguir um elenco sólido antes que o Love dê o fora dali ou encha o saco. Veremos quão longe o Wolves está disso com o amadurecimento dos novatos nessa temporada, porque o Love já larga na frente: tem tudo para já ser All-Star agora, imediatamente.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Um campeão no banco

Derrick Rose na fúria do metal

A campanha dos Estados Unidos no Mundial foi tão fácil, mas tão fácil, que quando o jogo final contra a Turquia acabou nós demos um bocejo que nos embalou num sono profundo que durou por dias e do qual acordamos para postar só agora (é claro que o fato de que estamos nos mudando, cada um para um lado, também não ajudou, mas disso falamos depois). Por muito tempo repetimos por aqui, até mais do que piada do Zorra Total: os Estados Unidos não precisam levar os melhores jogadores da NBA, basta que levem os jogadores certos. Compreendendo as diferenças entre o basquete da FIBA e da NBA e utilizando a experiências das campanhas passadas da seleção americana nos torneios internacionais, a comissão técnica sabia perfeitamente quais jogadores levar, dentre os disponíveis, para montar um time campeão. As outras seleções tinham pouquíssima chance, principalmente porque muita gente não dá a mínima para um torneio como o Mundial (que, vai, é sem graça mesmo) e estrelas de vários países preferiram ficar em casa cuidando de assuntos particulares. Os Estados Unidos, por outro lado, levaram estrelas para substituir as estrelas que não toparam jogar, e souberam deixar de lado os nomes mais importantes e levar quem iria render bem no basquete de perímetro da FIBA. O primeiro passo para isso foi deixar Rajon Rondo em casa, porque ele é deus-na-terra mas não sabe arremessar. O segundo passo foi, mesmo levando um pivô só por cagaço de que eles não fossem conseguir jogar sem um, deixar o Tyson Chandler no banco, dar um "ahã, Cláudia, senta aí" pra ele e ignorá-lo até o fim do Mundial. E o terceiro passo, mais audacioso - e no entanto subestimado - foi diminuir os minutos do Derrick Rose.

A grande sacada dessa seleção americana é estar pouco se lixando para os nomes dos jogadores, colocando pra jogar quem mais se encaixava naquilo que era necessário. O Andre Iguodala não acertaria um arremesso se sua vida dependesse disso, mas a seleção queria defesa na ala e o Iguodala foi lá e fez o que precisava ser feito, podando por isso os minutos do Danny Granger. O Kevin Love não é pivô nem nos seus sonhos mais obcenos, mas a seleção precisava de um reboteiro capaz de arremessar de três, e ele fez o que deu nos minutos que lhe foram dados. A comissão técnica não teve medo de distribuir papéis, mudar de ideia, ignorar jogadores, usar demais outros. Descobriram rápido que o Kevin Durant é perfeito para o basquete da FIBA: excelente arremessador que rende ainda mais com a linha de três pontos anã do basquete internacional, alto demais para os jogadores internacionais de sua posição, com culhão para arremessar nas horas importantes e inteligência para rodar a bola contra a zona. E aí, usaram ele o tempo inteiro, tornaram-no senhor de todo o Universo conhecido e não tiveram vergonha disso. Aquela seleção americana campeã olímpica não teve uma jogada sequer de isolação. Vai, minto, teve uma ou outra para o Carmelo às vezes, mas nesse Mundial o Durant foi isolado contra seus marcadores por trechos inteiros de jogos. Se não tem como pará-lo, se contra zonas ele é melhor arremessador que LeBron, se ele é mais alto do que o Kobe e arremessa por cima dos europeus nanicos, então por que não usá-lo o máximo possível? Não estava nos planos originais, mas todas as alterações necessárias foram feitas em uma seleção disposta a fazer tudo certinho para vencer, sem frescura, frirula ou paradigmas. Jogaram como deve-se jogar no basquete FIBA, e alteram todos os planos conforme as partidas foram acontecendo. Ao vencerem o Brasil graças ao esforço do Kevin Durant e aos minutos finais do Chauncey Billups, os Estados Unidos descobriram exatamente o que fazer caso os jogos apertassem. Mas essa simples descoberta garantiu que nenhum outro jogo apertasse. Depois de jogar com a gente, passearam.

O Derrick Rose acabou sendo um bom exemplo disso. Supostamente seria o armador titular ao lado de Billups, e até que teve uma parcela razoável de minutos na armação, mas seu jogo não deu certo no basquete da FIBA e ele aos poucos foi ficando desnecessário. Não estava no plano afundá-lo no banco, mas acabou virando item de decoração. No basquete internacional, armadores não costumam ser atléticos, eles são arremessadores. A bola costuma girar muito, diminuindo o papel dos armadores puros. Então, assim como a defesa do Rajon Rondo na posição era desnecessária, o físico privilegiado do Rose era desimportante. Para quê ter sua explosão física, força bruta e velocidade nos pés contra um carinha como o Huertas, que é pura técnica e zero de físico? No ataque, seu arremesso inconsistente ficou evidenciado pelas defesas por zona como costumava ficar de vez em quando em seus jogos pelo Bulls, mas suas infiltrações são muito mais difíceis no garrafão superpopuloso da FIBA e impedem que a bola gire no perímetro como deveria girar. A experiência e os arremessos de Billups tornaram-no soberano na vaga de titular, mas até o Russell Westbrook ganhou mais espaço do que o Rose simplesmente porque desenvolveu um arremesso consistente de meia distância.

Eu tenho atualmente um pouco de dificuldade de entender o amor incondicional que existe por aí pelo Derrick Rose. Confesso que já vi alguns grandes jogos dele, acho que é um jogador muito inteligente, mas seu jogo é bastante limitado. Não força passes mas tem dificuldade de encontrar seus companheiros quando a defesa não se taca pra cima dele em suas penetrações de garrafão, e o arremesso não é nada confiável. Apesar de saber controlar bem o ritmo do jogo, ditando direitinho quando o time deve correr e quando deve segurar a bola, tem uma dificuldade enorme de criar jogadas ou colocar a bola no lugar certo e na hora certa. Acaba dependendo do seu físico para bater para dentro, e aí encontrar seus parceiros no perímetro. Contra defesas fortes de garrafão, força uma tonelada de arremessos idiotas que nunca caem e não sabe criar para os companheiros. Seu físico é mesmo incrível, suas penetrações são de outro mundo, mas às vezes parece que ele está condenado a fazer sempre a mesma coisa, sempre do mesmo jeito.

No entanto, sei que minha visão dele é bastante injusta. Seu Bulls sofre por não ter nenhum grande pontuador desde que Ben Gordon deu o fora, então acaba ficando nas costas do Rose a obrigação de colocar a bola na cesta, algo que obviamente não é sua especialidade. Além disso, o Bulls não tem um jogador ofensivo de garrafão desde que a Britney Spears ainda era virgem, então não sabemos como o Derrick Rose se sairia colocando a bola para um pivô ao invés de ter sempre que cortar pra dentro e passar para o perímetro. É louvável que ele tenha feito tanto estrago apesar de estar num time tão mequetrefe, com tantos buracos, e teve atuações sensacionais nos playoffs carregando esse Bulls nas costas. Mas basta uma defesa capaz de atrapalhar o garrafão e aí temos um jogador incapaz de criar para si mesmo e para os outros jogadores. Talvez com Carlos Boozer as coisas fiquem bem diferentes, com as defesas adversárias não podendo se focar apenas no coitado do armador, e com uma presença lá dentro liberando espaço para que o Rose possa começar a arremessar de fora consistentemente. Mas o primeiro passo nessa direção foi um fracasso: com companheiros melhores e mais espaço para arremessar, Derrick Rose teve jogos completamente sem-sal no Mundial e se afundou no banco. Todo mundo com bom senso sabia que os Estados Unidos eram os favoritos, todo mundo sabia que o Durant era um dos melhores jogadores do planeta e - dada a oportunidade - iria colocar os jogos no bolso, então a grande surpresa para mim foi a dificuldade do Derrick Rose de se adequar a um jogo diferente. O Mundial era justamente uma oportunidade de diversificar seu jogo, treinar arremessos loucamente, voltar mais preparado para as defesas que tanto lhe fizeram sofrer na temporada passada. O fato de que seu rendimento foi muito baixo é mal sinal, e coloca ainda mais peso nas costas do Carlos Boozer, a tal "peça que faltava" há 10 anos nesse Bulls. Será mais uma chance de Rose melhorar e diversificar seu jogo, afinal o Bulls não deverá conseguir mais nenhum grande jogador num futuro próximo. Depois de perder Bosh e Wade, que flertaram um pouco com o Bulls com a mesma seriedade que aquelas vagabundas de ônibus ficam olhando pra você, o Rose subir de nível é a única esperança da torcida do Bulls.

Por falar em torcida, nos próximos dias publicaremos finalmente o resultado da Pesquisa Bola Presa. O Denis e eu estamos dando os últimos toques em nossa vida, mudando de casa e colocando as coisas no eixo, para então poder voltar ao blog com força total. Então, se você ainda não respondeu à pesquisa, tem mais um dia para preencher rapidinho e nos ajudar a descobrir o perfil de quem nos lê - e, de quebra, quais são os times da NBA mais populares no Brasil. Fiquem de olho, os dados são surpreendentes, e vamos postar bastante sobre eles nos próximos dias.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Primeiras impressões

Peter John Ramos - Troféu Ivanov de muso do Mundial


O campeonato mundial começou no último sábado e já tivemos uma renca de jogos. Obviamente não deu pra ver tudo, mas me esforcei para ver o máximo deles e coloco aqui comentários aleatórios do que chamou a minha atenção. Foi mal, nosso negócio é NBA, para uma cobertura mais séria e decente visite o Rebote, o Bala na Cesta e/ou o Draft Brasil.


Nível técnico - Muitos times estão em reformulação, muitos claramente já estão velhos (e usando roupas azuis e brancas) e outros tantos com desfalques importantes. Parecia ser um Mundial em que nenhuma seleção estaria no seu auge. Talvez isso até seja verdade, mas o começo é animador mesmo assim. Esperava um campeonato de nível técnico bisonho e até os times ruins estão me surpreendendo.

Achava que times como Jordânia (a única seleção da história a ter todos os jogadores com o nome "Jordan" no uniforme) e Líbano fossem tão ruins quanto a Costa do Marfim, que até agora é o único time peladeiro da competição, mas não tem mais bobo no futebol. Até a China sem Yao Ming e a Alemanha sem Nowitzki estão jogando direitinho. Ainda dá tempo de todo mundo jogar mal e fazer a gente mudar de idéia, mas esses dois dias até que serviram para eu me animar um pouco.



Alemanha - O que é esse time? Não é a primeira vez que eles jogam bem sem o Dirk Nowitzki, mas eles estão demais. Perderam só de 4 pontos da Argentina no primeiro jogo e ganharam da Sérvia no melhor jogo do campeonato até agora. Eles não deveriam ser péssimos? Eles não estão aí só por um convite da FIBA que obviamente só queria ver o Nowitzki no seu evento mais importante? O Fluminense deixar o Washington bater pênaltis faz mais sentido.

Uma explicação que faz sentido e que é real é que sem o Nowitzki ele jogam basquete de verdade ao invés de só tocar a bola pro Dirk e esperar pra ver o que acontece. Mas mesmo assim não esperava um resultado tão bom, se eu e meus amiguinhos do colégio jogarmos um basquete coletivo e correto num Mundial a gente ainda perde de 100 a 2 do mesmo jeito.

Podemos desistir de tentar entender e só aproveitar os melhores momentos da emocionante vitória em duas prorrogações sobre a Sérvia, que infelizmente não tem o Darko Milicic, que teria rasgado sua camiseta sem pensar duas vezes depois desse jogo.



Marcelinho Huertas - Estão chovendo perguntas no nosso Formpsring sobre a chance do Huertas jogar na NBA. Respondo todas aqui: chance até existe, mas só se ele quiser ser um terceiro armador que esquenta banco.

Ele tem boa visão de jogo, mostrou seu melhor jogo nas finais espanholas contra o Rubio e tudo aquilo que a gente sabe, mas não é o bastante para a NBA. Ainda mais na posição de armador que é a mais bem servida da liga atualmente. Ele teria espaço, mas seria um terceiro armador em times bons e no máximo um reserva em times com menos opção como o Kings. E o que será que vale mais pra ele, ser um zero à esquerda na NBA ou continuar tendo papel de destaque em times de ponta na Europa? Ele pode perguntar pro Juan Carlos Navarro a resposta.

França - Não ganham de ninguém quando tem Tony Parker, Turiaf e toda a renca do pessoal da NBA (incluindo o milionário Johan Petro). Aí foi só todo mundo desistir ou se machucar (pobre Rodrigue Beaubois, tinha tudo pra ser um dos destaques do torneio), que aí eles ganharam da Espanha! Pelo pouco que vi dos franceses eles parecem um time mais organizado do que nos últimos anos, dependendo menos de jogadas individuais, e a defesa parece menos furada também.

Três coisas chamam a atenção no time francês:
1- Se pudesse, Boris Diaw nunca daria uma arremesso na vida. Nem o Jason Kidd tem tanto prazer em dar assistências ao invés de chutar como o francês.
2- Como disse sabiamente o ShamSports, só existe uma coisa mais escura que o Mickael Pietrus no mundo, o seu irmão Florent. Sem racismo, só é muito impressionante. Aliás, dá pra ser racista e gostar de basquete ao mesmo tempo? Fica o questionamento.
3- Os boatos de que o Florent Pietrus iria para o Bobcats bem que poderiam virar verdade, ele é muito bom.


Espanha - O Ricky Rubio é do clube do Diaw de não-arremessadores, mas seria bom ele chutar de vez em quando. A Espanha tem ótimos jogadores em todas as posições e tem o melhor banco de reservas depois dos EUA, mas poucos estão se apresentando como pontuadores. JC Navarro e Rudy Fernandez são bons, mas depender só dos dois durante o campeonato inteiro é chamar uma zebra.

Porto Rico - Oficialmente o Golden State Warriors do basquete FIBA. Seus jogos sempre são divertidos, imprevisíveis, velozes e cheios de bolas de três. Podem ganhar dos EUA num dia e perder do Líbano no outro com a mesma naturalidade. JJ Barea é o Monta Ellis do Warriors International, tá jogando muito.

Estados Unidos - Existem dois tipos de pessoas que julgam o time americano e que me irritam muito. Os primeiros são os "haters", aqueles que querem odiar o time de basquete dos EUA porque discordam das políticas internacionais do país. Ou seja, querem achar defeito e ver o império sofrer. Esses ficam jogando na cara de todo mundo que os EUA não vencem o mundial desde 94 e que por isso não são favoritos.

Os outros são os que se encantam tanto com a NBA que acham que só por chegar na NBA um jogador é superior aos outros, esquecendo que o Marquinhos nunca vai ser melhor que o Marcelinho Machado. Esses acham que os EUA sempre vão vencer todo mundo muito fácil.

O que deu pra ver nesses dois primeiros jogos contra os bons times da Eslovênia e da Croácia é que os EUA, surpresa, tem o melhor time do mundo. Vão ser os claros favoritos sempre e qualquer derrota vai ser uma zebra, o que não quer dizer que elas não podem acontecer. Se fossem melhor-de-7 como nos playoffs, apostaria minha mãe que eles seriam campeões, mas como é um jogo só dá pra acontecer muita bizarrice em mata-mata. Meio termo costuma ser chato e entediante, mas nesse caso é o meio termo que tem razão.

Uma coisa legal da seleção americana está sendo a chance que muita gente está tendo de ver jogadores de times que nunca estão na mídia, como o Eric Gordon (Clippers), Kevin Love (Wolves), Danny Granger (Pacers) e Rudy Gay (Grizzlies). Fiquei até bem feliz que no jogo contra a Croácia o Love deu um daqueles "outlet passes" que a gente tanto comenta aqui. Ele pegou um rebote croata e já virou jogando a bola com muita força e precisão na mão do Russell Westbrook (e seu cabelo Neymar) que já estava na outra cesta, passe lindo, fora de série.


Canadá - Como o Rodrigo Alves diz no Rebote, é o time mais imprevisível do torneio e do mundo. Tomou surras históricas (chegou a fazer 38 pontos em um jogo inteiro) e logo depois conseguiu resultados impressionantes nos amistosos. Agora, no Mundial, conseguiu perder do Líbano por 10 pontos e depois dar sufoco na Lituânia. Acho que foi o jeito dos canadenses finalmente não parecerem uns chatos previsíveis e assim responder o texto que o Luis Fernando Veríssimo fez sobre eles. (sim, é um texto do Veríssimo, não um dos milhares de fakes que aparecem nos e-mails internet afora. Esse saiu no Estadão na época daquela briga comercial da Embraer com a Bombardier)

Nova Zelândia - O time de rugby é chamado de All Blacks. O de futebol é o All Whites. Sabe como é o de basquete? Tall Blacks. Pois é.

Alguém viu um jogo deles nesse torneio até agora? Achei essa foto deles fazendo o Haka mas ainda não assisti ao vivo. No YouTube só achei um vídeo de 2008 que está aqui abaixo. O haka é a coisa mais legal do esporte no mundo inteiro e fico muito feliz que a seleção de basquete também faça, na Copa do Mundo o time de futebol não quis fazer.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Aceitando feder

Al Jefferson e sua cara de alegria ao conhecer os torcedores do Jazz


Quando o Wolves resolveu finalmente trocar o Kevin Garnett, parabenizei a franquia. Não tem nada mais horrível para um time da NBA do que ser exageradamente mediano, ter um elenco grotesco, uma baita estrela que consegue segurar as pontas, brigar desesperado por uma classificação para os playoffs e perder sem chances na pós-temporada. O formato da NBA é brutal com os medianos, com os times que não estão brigando por título e nem são ruins o bastante para conseguir bons jogadores no draft. Basta uma ou duas cagadas com contratações desesperadas para sair desse limbo e uma equipe pode ficar trancada por anos a fio nesse grupo intermediário que não fede nem cheira. É preciso muito culhão para desmontar um time desses, no entanto. Uma equipe que vai aos playoffs todo ano, mesmo sem chances de fazer estragos por lá, tem dificuldades em explicar para os torcedores que o time vai feder de vez por uns tempos. Pior ainda é quando a equipe quase vai para os playoffs mas não consegue por uma ou duas posições, e fica aquela impressão de que só falta um jogador para que eles cheguem lá. Mas se chegarem finalmente aos playoffs, vão conseguir ganhar por lá? Essas equipes ficam condenadas à uma esperança que não se transforma em nada até que alguém jogue tudo fora e resolva começar de novo.

Se o David Stern tem razão e nenhuma equipe da NBA conseguiu ter lucro nos últimos tempos, não faz sentido manter uma equipe que não vencerá títulos, te dá prejuízo e não tem esperanças de melhora. A melhor saída é feder bastante para conseguir boas escolhas de draft, encerrar todos os contratos longos e imbecis que foram assinados, esperar a pirralhada amadurecer, e então assinar grandes estrelas para formar um elenco decente. Trocentas equipes da NBA seguiram esse plano especialmente esse ano, com vários times liberando muito espaço salarial para assinar grandes estrelas em elencos formados por novatos e outros jogadores baratinhos, como o Heat ou o Knicks. Algumas outras franquias apostam nos novatos para formar um elenco jovem e forte, até que possam contratar alguma estrela consagrada para levar o time ao campeonato, como é o caso do Bulls e do Nets, por exemplo. Outras apostam inteiramente no draft e em trocas por jogadores inexperientes e montam um time do nada, como o Blazers e o Thunder, fazendo contratações maiores e trocas por jogadores caros apenas para dar uma arrumadinha no elenco bem depois. Imaginei que o Wolves, ao trocar o Garnett, conseguiria um núcleo bastante jovem com uma futura estrela em Al Jefferson, e que a reconstrução duraria pouco tempo. Era só esperar a pirralhada pegar o jeito e depois conseguir um ou outro jogador para fechar algumas posições. Mas não funcionou.

Por um lado, promessas como Corey Brewer demoraram demais para se firmarem na NBA. Por outro, Al Jefferson tornou-se uma estrela rápido demais, num elenco incapaz de acompanhá-lo. Como todo time apostando em novatos, algumas escolhas não deram muito certo, alguns jogadores não souberam jogar juntos. Foi então que o engravatado David Kahn apareceu para pisar no freio e fazer todo mundo entender que reconstruções não podem ser feitas às pressas. Basta ver o Pistons: ao demolir acertadamente um time em declínio que não ganharia mais nada, assinou correndo dois jogadores disponíveis na hora para não ficar com um elenco furado e deu no que deu, o time fede, não tem flexibilidade para assinar outros jogadores porque torrou tudo em dois meia-bocas, e está fadado a ficar entre os medianos por muito, muito tempo. Falha épica, já diriam os gringos. É melhor assumir a bosta, no famoso "pisou na merda abre os dedos", e deixar o time fedendo com calma do que correr e assinar qualquer um.

O projeto de reconstrução do Wolves começou do zero. Primeiro um técnico novo, o Kurt Rambis, para usar o sistema de triângulos do Lakers. Depois, escolhas de draft com o sistema em vista. O problema é que vai levar anos para os pirralhos entenderem o sistema, criarem consistência, amadurecerem ao lado do técnico - que também é meio iniciante. A suposta estrela do time, Ricky Rubio, só deve vir na próxima temporada porque preferiu ficar na Europa do que jogar num time lixo. O processo é lento, o Wolves tem que ir com calma testando todos os jogadores, dando minutos para os novatos apanharem e aprenderem, aguardar o Rubio, consolidar o sistema de jogo. Mas enquanto isso lá está o Al Jefferson, estrela consolidada, querendo vencer agora, querendo um time de verdade. Foi trocado mais rápido do que o SBT cancela seus telejornais.

Pelas escolhas duvidosas no draft, em que pega vários jogadores de uma mesma posição, David Kahn está ganhando fama de ser uma anta, quase um Isiah Thomas que pelo menos sabe contar usando os dedos. A troca do Al Jefferson não ajudou muito sua causa. Mas a lógica está bem clara: ele não tem pressa nenhuma. Se o time vai perder, feder, ser uma droga, tudo enquanto espera a pirralhada ganhar uns pelos no saco, por que ficar pagando o contrato monstruoso do Al Jefferson? Quando o Wolves se tornar um time decente, o Al Jefferson já teria dado o fora por conta própria mesmo. O melhor a se fazer é economizar umas verdinhas até lá.

O plano lembra um pouco o Grizzlies, que ia para os playoffs todos os anos mas nunca ganhou uma partida sequer de pós-temporada. Ao trocar o Pau Gasol por escolhas futuras e feder pra burro, criou um time muito jovem, cheio de novatos, levou uns anos para que começassem a render juntos, e aí contratou um ou outro veterano para ajudar. Sem estourar o teto salarial, economizando uma grana, o Grizzlies tem grandes chances de ir para os playoffs na próxima temporada apesar de todo mundo ter chamado a troca de burrada. Ter mantido o Gasol seria cagada, o salário era grande demais e ele queria vencer imediatamente enquanto o time precisava feder um pouco durante uns anos para se reconstruir. E não dá pra feder muito se você tem o Gasol, claro.

Como sabemos, a troca do Gasol para o Lakers desequilibrou a liga. A troca do Al Jefferson, que vai permitir que o Wolves feda de verdade enquanto espera seus pirralhos virarem estrelas, não deve desequilibrar tanto. Mas com certeza tornou o Jazz um time muito melhor que vai fazer mais estrago do que nunca nos playoffs. Ou seja, podem esperar uma legião de torcedores do Jazz fazendo muito barulho por aqui, torrando nosso saco e eventualmente descobrindo onde eu moro e queimando minha família na fogueira, amém.

Eu adoro o Carlos Boozer, acho seu arremesso espetacular e ele funciona perfeitamente bem com Deron Williams. Mas como maluco que sou por perder vários dias da minha vida acompanhando os jogos do Wolves, posso afirmar que o Al Jefferson vai ser ainda mais útil para o Jazz. O cara é um monstro embaixo da cesta, justamente onde o Boozer era menos efetivo. Seu arremesso é consistente, vai funcionar perfeitamente bem nas jogadas com o Deron Williams, mas seu trabalho de pernas e pés muito rápidos vai simplesmente dominar o garrafão ofensivo. Ele é um monstro refinadíssimo, do tipo que bebe sangue mas arrota em francês, e vai pontuar horrores com muitos movimentos diferentes no esquema tático rígido e cadenciado do Jazz. Quando o Wolves corria demais, o Al Jefferson ainda rendia bem, mas é de costas para a cesta num jogo lento que ele mostra que pode vencer jogos sozinho. Na defesa também é muito inteligente, tem bom tempo de bola, distribui seus tocos e não compromete muito - algo que já é um avanço frente ao Boozer, que é um dos piores defensores da NBA, disparado.

É cedo demais para chamar o Kahn de burro. Ao menos ele tem os bagos de deixar o time fedendo sem ficar pagando salários absurdos desnecessariamente. Vai se focar na pirralhada, ir com calma, esperar o Rubio e não vai deixar ninguém descontente por lá. Veteranos que querem vencer só devem chegar muito depois, quando o elenco já estiver maduro o bastante. E o Jazz aproveitou essa barbada para conseguir um assalto a mão armada nos moldes do Gasol-para-o-Lakers, capaz de fazer muito estrago se o resto do time jogar bem. Levante a mão quem é o doido que viu o Al Jefferson jogar nas temporadas passadas. Se você não levantou, pode ter certeza de que ele é um dos melhores jogadores de garrafão da NBA, muito mais versátil do que o Boozer, muito mais físico embaixo da cesta, e vai chutar muitos traseiros. Se você levantou a mão, então já sabe o tamanho da encrenca que o Jazz vai causar na liga. Os mórmons foram abençoados, vai ver rezar dá resultado.

No Wolves, o garrafão agora tem Kevin Love e Darko Milicic - por mais bizarro que seja, é um dos garrafões que mais valerá a pena acompanhar na temporada que vem. O Love é um dos jogadores mais inteligentes da NBA, faz cruzadinhas no nível "Putaquemepariu", passa a bola como poucos armadores e é famoso por dar assistências de um lado da quadra para o outro, é espetacular. Arremessa também de todos os cantos, inclusive da linha de três (e até da quadra de defesa).



Além disso, sempre toma a decisão certa, é até chato. Vai ser uma estrela na liga, sem dúvidas, e tendo muito mais minutos em quadra sem Al Jefferson, nos dará mais chances de vê-lo atuando. Seu parceiro de garrafão será o Darko, também conhecido como "um dos maiores fracassos da história do draft". Desde que foi escolhido com a segunda escolha do melhor draft de todos os tempos, passou de um time para o outro sem nunca render grandes coisas. Mas isso depende do que se espera dele, claro. Todo time que contrata o Darko espera um jogador que domine o garrafão e mostre o potencial que justificou sua segunda escolha no draft, mas o que todo time encontra é um jogador de apenas 25 anos, excelente defensor, com problemas para manter a calma dentro de quadra. A maior dificuldade do Darko sempre foi sua cabeça, ele precisava ouvir o pagodinho "deixa acontecer naturalmente", porque desde que entrou na NBA - novo demais para conseguir sequer cortar as próprias unhas - queria mostrar que merecia ter sido escolhido tão cedo no draft no lugar do Carmelo Anthony. Dê a bola para Darko e ele vai tentar fazer milagre, errar uma bola, ficar puto da vida, forçar uma outra bola para compensar, errar de novo porque está nervoso e forçando o jogo, se desesperar porque esperam mais dele, forçar de novo, e assim por diante. Ele fica tão puto consigo mesmo que chegou até a rasgar a própria camiseta:



Também deu aquela clássica entrevista jogando pela sua seleção nacional, em que afirma que vai foder as mães dos três juízes que "lhe roubaram o jogo" (e foder a filha deles se tiverem também). Mesmo tão descontrolado, nas poucas vezes em que ganhou minutos e conseguiu manter a calma em quadra mostrou seu talento defensivo e seu jogo refinado perto da cesta. Se tivesse sido escolhido na segunda rodada, teria jogado a vida toda, nunca teria sido trocado e seria tido com uma baita sorte do time que o pegou. Para ele, assim como para Kwame Brown, a merda é o medo da expectativa dos outros. O David Kahn disse recentemente que convenceu Darko a ficar na NBA ao invés de voltar para a Europa, como pretendia, dando-lhe estabilidade, segurança, um papel limitado em quadra (puramente defensivo) e muita confiança. Deu uma longa entrevista apenas falando sobre o que ele vê no Darko que os outros não percebem. É difícil imaginar que aquele jogador afoito e nervoso pra burro renderá no Wolves com carinho e paciência, mas é nisso que o Kahn aposta e é mais um motivo para acompanharmos esse garrafão. Love e sua genialidade nos passes, Darko e sua cabeça-de-bagre tentando não arrancar sua própria cabeça. Não vai ser tão legal quanto o Al Jefferson destruindo com o Deron Williams, mas é um dos poucos motivos para acompanhar a pirralhada do Wolves na temporada que vem. E se der certo, pelo menos vão parar de xingar tanto o Kahn. Ele, ainda, não merece.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Deu tudo errado

Jonny Flynn é a cara da breguice


Todo mundo fala do Clippers como time amaldiçoado e todos tem inúmeras razões para isso. Também dizem que agora o time B de Los Angeles passou parte de sua maldição para o Blazers, que sofre com uma contusão atrás da outra. Primeiro foi Oden, depois Pryzbilla, depois Outlaw, Webster, Rudy Fernandez, Brandon Roy e a última foi que o Pryzbilla precisa operar o joelho de novo porque se machucou ao tomar um tombo no chuveiro! Um tombo no chuveiro, não tem como fazer piada com isso porque o fato já é mais engraçado e patético que qualquer coisa que eu possa falar, a realidade sempre supera o humorista. Vale pelo menos lembrar um velho post com as contusões mais bizarras da NBA.

Ninguém na liga chega perto de Clippers e Blazers na hora do azar, isso é claro, mas se hoje existe um time que luta pelo terceiro lugar é o Timberwolves. Eles também entram no clube dos times que tem talento, que parecem fazer a coisa certa, mas que depois, por qualquer razão, essas decisões parecem as mais erradas possíveis.

Vamos resgatar o Wolves ao fim da temporada passada. Mais uma temporada ridícula, mas que serviu para consolidar Al Jefferson como um dos melhores pivôs da NBA (ano passado houve quem defendesse que o pivô só não foi para o All-Star Game pelas poucas vitórias do Wolves, mais ou menos o que houve com Brook Lopez nesse ano). Depois de vir como uma mera aposta na troca de Kevin Garnett, um cara que ninguém sabia se conseguiria render como pivô ou só como ala de força, Jefferson provou não só que era bom mas que conseguia ser bom toda noite. O time fedia e perdia, mas sempre com uma boa atuação do pivô. No caminho ele até desenvolveu um dos melhores "fakes" de um pivô na NBA. O fake não é aquele perfil ridículo que você tem no Orkut, é quando o jogador finge que vai arremessar mas não arremessa, um bom exemplo está nesse vídeo, onde ele engana o Yao Ming umas três vezes.

Sem contar que o cara tem um grande coração, vocês já viram quando ele beijou o Tim Thomas na boca depois que o Thomas, seu adversário, acertou uma bola de 3? Al Jefferson, o último romântico.



Além da ascenção e consolidação de Jefferson, a temporada passada serviu para todo mundo perceber que Kevin Love seria um dos poucos americanos brancos a vingar na liga. No começo pareceu uma decisão estranha ter trocado OJ Mayo por ele no dia do draft, mas alguns meses depois e Kevin Love já estava sendo a máquina de rebotes que é até hoje. Ao lado de outro branquelo, o David Lee, é um dos jogadores que você já conta com um double-double antes do cara pisar na quadra.

Essa temporada era para simbolizar uma nova franquia. Eles tinha uma dupla de garrafão bem sólida com Jefferson e Love para construir um time em volta, tinham escolhas boas de draft e ainda trocaram de General Manager, mandando embora Kevin McHale e contratando David Kahn, e um novo técnico, Kurt Rambis. Jogadores bons, jovens, garrafão forte e novo técnico era tudo para apostar no Wolves para ser o que Thunder e Grizzlies estão sendo.

Eu não conhecia o Kahn, mas gostei dele por ele ser o manager mais aberto que já apareceu na NBA. Lembro que não economizou entrevistas quando chegou, no dia do draft, e ainda mandou uma carta aos fãs do time (aquela meia dúzia de viúvas do Garnett) explicando todas as suas ações. E, para nossa surpresa, elas até que faziam sentido.

Uma dessas decisões era a contratação do Kurt Rambis, o cara mais brega da história da NBA. Ele tinha sido assistente técnico do Phil Jackson por anos e era muito cotado para ser o herdeiro do Zen Master no Lakers quando ele se aposentasse, mas preferiu assumir o risco de pegar um time que estava começando do zero. A escolha de Rambis, pelo o que Kahn disse (alguém consegue ler esse nome sem lembrar do Gengis Khan ou do Shao Khan?), foi porque se interessava em implantar o sistema de triângulos que o Rambis ajudava a aplicar no Lakers. Porém, ao mesmo tempo, o novo Manager disse que no dia do draft escolheu dois armadores, Jonny Flynn e Ricky Rubio, porque queria copiar a combinação de Isiah Thomas e Joe Dumars que o Pistons do fim dos anos 80 usava.

Essa indecisão entre estilos de jogo parecia o primeiro sinal de que a temporada do Wolves poderia não dar certo, mas acabou não dando em nada porque outra coisa deu errado. Não dá pra usar os dois armadores juntos se eles nem estão no mesmo país. Ter a sorte de conseguir draftar o jogador mais esperado dos últimos anos veio seguida do azar de o pirralho espanhol decidir passar mais tempo na Espanha. O experimento Flynn-Rubio ficou adiado por pelo menos um ano, talvez dois e talvez para nunca, já que dizem que é possível que o Wolves troque os direitos do Rubio antes que ele vá para os EUA.

Kahn, Love, Jefferson, Rambis e Flynn. Tudo parecia lindo e promissor até começar a cheirar mal. Vamos por partes:

Al Jefferson: Mesmo talentoso e romântico, ele fedeu nessa temporada. Começou muito devagar e por um tempo achamos que era porque ele não fez pré-temporada, afinal estava voltando de contusão e parecia ainda fora de forma. Mas o tempo foi passando, passando e agora, a um mês do fim da temporada, ele só jogou no mesmo nível da temporada passada um punhado de vezes, uma decepção. Só não vai ganhar o prêmio Monstars de jogador que mais involuiu na temporada porque o outro Jefferson, o Richard, conseguiu ser pior. Se ano passado ele era talvez o melhor pivô do Oeste, nessa temporada ficou atrás de, no mínimo, Nenê, Kaman e Bynum.

David Kahn: Errou ao chegar no dia do draft antes de ter escolhido um técnico, depois falhou (tá bom que não foi só culpa dele, mas falhou) ao não conseguir trazer Rubio para a NBA. Depois ainda deu o azar de a sua outra escolha, Jonny Flynn, não estar nem perto de ser o melhor armador do draft. Muitos acreditavam nisso na época da escolha e até por isso não dá pra jogar toda a culpa no Kahn, mas é no mínimo um baita azar que, alguns meses depois, Flynn seja cotado para ter um futuro menos promissor que Steph Curry, Brandon Jennings, Ty Lawson e Darren Collison, todos outros armadores principais escolhidos depois de Flynn. Lawson chegou até a ser escolhido pelo Wolves e trocado por uma escolha futura.

Jonnt Flynn: Como acabei de dizer, está longe de ser o melhor armador do draft, mas nem é pelo ranking entre os novatos que ele decepciona. Mesmo sem comparar com outros e só olhando a sua atuação no Wolves, parece que ele não se achou dentro da equipe. Às vezes segura demais a bola, às vezes quer ser herói no final dos jogos e por muitas vezes lembra o lado ruim do TJ Ford por ter uma velocidade absurda e não saber usar isso para mudar o jogo. Talvez acabe sendo melhor que outros armadores de sua classe, mas é hoje, ao lado de Jrue Holiday, o armador mais cru, despreparado para a NBA, do Draft 2009.

Kevin Love: Até o que está dando certo, dá errado. Love continua jogando bem, sendo um ótimo passador, reboteiro e tudo mais, mas não conseguiu se entrosar direito com Al Jefferson e acabou sendo opção do técnico para o banco de reservas. Com isso Love divide menos tempo com Jefferson e deixa o quinteto que vem do banco um pouco mais forte. Uma solução até inteligente, mas até onde vai o Wolves se Love e Jefferson não sabem jogar juntos? Em entrevista recente Love jogou boa parte da culpa no técnico Kurt Rambis.

Kurt Rambis: Sempre sobra para o técnico. Como havíamos previsto no começo da temporada, aplicar o sistema de triângulos em um time jovem como o Wolves seria um desafio. O Señor Amor jogou a culpa no técnico porque disse que hoje, depois de mais de 60 jogos na temporada, o time ainda não sabe direito o que fazer em quadra. Não sabe como se movimentar, quando vão receber a bola, nada, um bando de gente perdida como vestibulandos em dúvida entre Direito, Artes Plásticas e Engenharia Química.

O Sistema de Triângulos é um conjunto de movimentações básicas dos jogadores, e nessa movimentação costumam existir poucas jogadas desenhadas e fechadas, em geral é um ataque que funciona reagindo às ações da defesa. Então costuma funcionar com jogadores que sabem ler a defesa, que sabem explorar bons matchups, que tem paciência e que não se desesperam esperando o momento e o lugar certo para atacar. Ao contrário disso, o Wolves é um time apressado, que pensa pouco e que tem o terceiro maior ritmo de jogo da NBA, é muita correria para poder dar certo.

Como se não bastasse o ataque ser perdido, a defesa é um lixo. Em pontos sofridos a cada 100 posses de bola o time tem a 3ª pior defesa da NBA. Para se ter uma idéia de como o Rambis não sabe mais o que fazer com esse time, no último jogo contra o Nuggets ele mandou Kevin Love marcar o Carmelo Anthony! Love olhou assustado para o treinador e respondeu "Você tem certeza?". Carmelo Anthony acabou cestinha do jogo e o Nuggets venceu.

Se haviam expectativas altas para tanta gente e tudo deu errado, é ainda mais irônico que o lado positivo dessa temporada tenha sido um jogador por quem não se dava mais nada, Corey Brewer. O ala foi espetacular naquele time da Florida bi-campeão universitário e esperava-se muito dele na NBA. Acabou passando anos sendo um cara apenas mediano e nessa temporada explodiu. Enterrou na cabeça do Derek Fisher, teve muitos jogos acima dos 20 pontos e começou a mostrar um pouco do potencial defensivo que tinha na sua carreira universitária.

Outro destaque positivo dessa temporada, embora bem menor que Brewer, é Darko Milicic. O "Human Victory Cigar" foi contratado como uma aposta final de David Kahn, ele disse que sempre achou que Darko tinha algum talento e queria dar uma última chance para ele, que já disse que deve voltar para a Europa na próxima temporada. Em poucos jogos pelo Wolves o Darko já foi titular, defendeu bem, pegou vários rebotes e tem mostrado ser bem útil. Não sei se ele vai se sentir bem o bastante para querer ficar na NBA, mas não dá pra dizer que foi uma aposta ruim, até porque eles só perderam o Brian Cardinal pra isso. O grande problema do Darko foi mesmo aquele draft onde ele foi a segunda escolha. Se ele fosse o pivô regular que é e tivesse sido escolhido na posição 40 do draft ele seria considerado hoje um ótimo reserva com potencial para ser titular em alguns times. Melhor ser reserva bom do que ser uma piada ambulante, certeza disso.

Com essa temporada do Wolves no lixo fica a pergunta para a próxima temporada. Dará certo da próxima vez? Difícil prever, tudo depende do time entender melhor seu esquema tático, defender melhor e da vinda de Rubio para os EUA. Mas o futuro não é tão negro assim, na pior das hipóteses eles tem todos esses jovens bons jogadores para trocar e começar tudo de novo, dessa vez torcendo para que a medalha de bronze da maldição da NBA já tenha mudado de mãos.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Aiô Silver!

Longe da maldição do Thunder, o Durant ganha tudo


Terminou agora a competição de "Horse" do fim de semana das estrelas. Mas não é aquele "horse" que a Monica Mattos curte (favor só clicar no link se você tiver mais de 18 anos, estômago forte, e sem a sua mãe ou namorada por perto, faz favor), trata-se de uma competição em que um jogador faz uma jogada e desafia o adversário a fazer igual. Vale qualquer coisa bizarra, como arremessar de costas, com a mão esquerda ou sentado no chão. Se um jogador acerta e o desafiado não é capaz de repetir o feito, ganha uma das letras da palavra "horse" e quem completa a palavra está eliminado. O sistema é quase o mesmo da nossa famosa "forca", brincadeira típica de aulas entediantes de física em que aquele que erra ganha uma parte do corpo desenhada e quem tiver o corpo completo perde.

A brincadeira é típica das quadras de rua nos Estados Unidos e já tinha sido experimentada no All-Star da Liga de Desenvolvimento da NBA na temporada passada, a gente até postou sobre isso na época. É incrível como os coitados da chamada D-League servem de cobaia, foram eles que testaram a fracassada bola sintética que a NBA depois recusou, e eles experimentaram o "Horse" antes. "E se a gente colocasse umas minas terrestres na quadra e o jogador que pisasse nelas durante o jogo explodisse pelos ares, não seria legal? Vamos testar na D-League." Profissãozinha vagabunda essa.

Agora promovida para a NBA, a competição foi até que bacaninha, com destaque para o "até". Participaram Kevin Durant, o novato OJ Mayo, e o Joe Johnson, que é All-Star e parece vovô perto dos outros dois. No começo, todo mundo começou errando tudo, mas deu pra colecionar pelo menos uma boa fita de melhores momentos: OJ Mayo acertando uma bola do meio da torcida, Joe Johnson acertando de costas e o Durant de fora da quadra. Mas faltou criatividade e, quando tentaram algumas coisas inovadoras, simplesmente não acertaram. No fim, ganhou o Durant que simplesmente ficou arremessando da linha de três pontos, acertando tudo, e esperando os outros errarem. Virou uma estranha competição de 3 pontos, mas ao ar livre, com vento, um solzinho na cabeça e nenhum glamour. Mas serviu pra mostrar que o Durant não sabe brincar, qualquer oportunidade de vitória (como o jogo dos novatos, por exemplo) ele agarra com unhas e dentes - alguém cansou de perder pelo time-outrora-conhecido-como-Sonics, não é mesmo? Os melhores momentos em breve poderão ser conferidos na área de vídeos do NBA.com, que está cheia de coisas legais como o Shaq e o Kobe falando sobre jogarem juntos novamente, e o Billups e o Shaq (sempre ele) fazendo uma competição de lances livres vendados.

O Durant ganhou, a brincadeira deu certo, mas o único jeito dessa competição ser realmente divertida é chamar o novato do Wolves, Kevin Love. Estou indignado que ele não tenha sido chamado para participar, é uma afronta. Será que os engravatados que escolheram os jogadores não sabem usar o YouTube? Eles precisam dar uma olhada no Kevin Love treinando nos seus tempos de universidade na UCLA:



Tem também as mesmas cenas de um outro ângulo, uma ponte-aérea que ele manda para o Beasley do outro lado da quadra, e um polêmico vídeo em que ele acerta uma série de arremessos bizarros mas que muita gente diz que é montagem (eu concordo, o apresentador desse vídeo tem que ser uma montagem, ninguém seria tão chato assim na vida real). Definitivamente o Kevin Love jamais seria derrotado no "Horse", até porque seus companheiros de basquete universitário dizem que ele acertava essas coisas o tempo inteiro durante os treinos. O Wolves precisa saber disso, quando eles precisarem de uma bola de segurança, é só passar para o Love no garrafão defensivo que ele arremessa e converte do outro lado da quadra.

Só é uma pena que no "Horse" não vale enterradas, senão o Kevin Love poderia quebrar a tabela outra vez como nos seus tempos de colegial e ninguém poderia imitar. Aliás, inimitável mesmo é a reação dele à tabela quebrada: ficou ali parado, olhando, sem se mexer. Se fosse eu, no mínimo teria vibrado!